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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:04:51 -0700 |
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diff --git a/23400-8.txt b/23400-8.txt new file mode 100644 index 0000000..dbf6e95 --- /dev/null +++ b/23400-8.txt @@ -0,0 +1,6920 @@ +Project Gutenberg's A Lenda da Meia-Noite, by Manuel Joaquim Pinheiro Chagas + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Lenda da Meia-Noite + +Author: Manuel Joaquim Pinheiro Chagas + +Release Date: November 7, 2007 [EBook #23400] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A LENDA DA MEIA-NOITE *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Nov. 2007) + + + + + + +COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA + + +M. PINHEIRO CHAGAS + +A LENDA DA MEIA-NOITE + + +2.^a edição + + +LISBOA +Parceria A. M. PEREIRA--Livraria editora +_Rua Augusta, 50, 52 e 54_ +1906 + + + + + +LISBOA +Officinas typographica e de encadernação +MOVIDAS A VAPOR +_Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.^o_ +1906 + + + + +A LENDA DA MEIA-NOITE + + +N'um dos sitios mais pittorescos da Beira-Baixa, n'essa montanha vestida +de verdura, onde se recosta Alpedrinha, e que domina o verdejante valle +do Fundão, ergue-se uma casa ampla e antiga, de cuja varanda, extensa +varanda de madeira, em cujos beiraes vem as andorinhas fazer os seus +ninhos, se descortina a extensa paisagem, onde alvejam Val de Prazeres e +outras villas e aldeias que matizam, com as suas casas brancas, o verde +do arvoredo, e que tem como panno de fundo a imponente massa da serra da +Estrella, coroada com as suas neves eternas. + +A casa não tem formosuras architectonicas, nem aspecto de palacio; é +apenas um edificio vasto, cercado de dependencias rusticas, tendo +defronte do portão as cavallariças, casas de habitação dos criados, +etc., que, desenrolando se em semi circulo, fecham um terreiro que dá ao +edificio campestre uma especie de pateo de entrada. A parte mais +caracteristica da residencia é a extensa varanda de madeira, tão usada +na provincia, onde nas tardes de estio se respira a viração da serra, +onde nas manhãs de inverno se toma alegremente a restea do sol. + +Fica isolada a habitação que a largos traços descrevemos. Pegada com a +fachada principal está o muro, onde se abre o portão da quinta. Esta é +assombreada pelo magnifico arvoredo, que viça, com incrivel vigor, +n'esse torrão privilegiado conhecido na provincia pelo nome de cova da +Beira. Para um lado a pouca distancia fica Alpedrinha, a pittoresca +villa com as suas casas penduradas entre verduras da encosta da +montanha, para outro lado a estrada desce até ao Fundão. Por toda a +parte verdura, arvores, aguas, o ar purissimo das serras, os rumores +mysteriosos das solidões. É encantadora a situação d'aquelle formoso +eremiterio. + +No outono e no inverno a paisagem toma uns tons mais carregados e +lugubres. A montanha assume um certo ar de grandeza. Nos soutos espessos +dos castanheiros passa o furacão silvando com furia; a trovoada vae-se +repercutindo de echo em echo pelas concavidades dos valles, e os +relampagos illuminam, com a sua luz sinistra, o arvoredo que se estorce +nos braços doidos do vendaval. Nos amplos salões d'esses edificios +isolados ouvem-se rumores sinistros, e sons mysteriosos, e o vento, +fazendo ranger os pilares da varanda, entôa a musica triste das lendas +populares. + +É exactamente no outono que nós conduzimos o leitor á casa da Fragosa, +como por lá se chama ao sitio em que ella fica. Os viscondes da Fragosa, +que alli moram, tinham convidado alguns amigos seus para irem caçar nas +suas terras, de fórma que estavam reunidas bastantes pessoas no grande +salão da residencia, junto da brazeira, no momento em que convidamos o +leitor para entrar tambem e aproveitar o calor benefico do lume. + +É já noite; a tarde estivera sobre-maneira ventosa e fria, de fórma que +os convidados, reunidos na varanda, para assistirem a um d'esses +esplendidos occasos do sol, que são tão frequentes no outono, tiveram +que retirar e fechar-se em casa, deixando o vento gemer lá fóra, +estorcendo os ramos do arvoredo. Accendeu-se a brazeira, e, +esquecendo-se o frio e o vento, entrou-se n'uma palestra tão animada, +como se se estivesse n'uma sala de Lisboa, a dois passos do Theatro +Italiano, e sentindo-se, a rodarem nas ruas, as carruagens da cidade. + +O salão era vasto e simples, mobilado á antiga. Nas paredes alguns +velhos quadros sombrios; pesadas cadeiras, de pés torneados, forradas de +coiro lavrado, dispostas em circulo, em torno de uma mesa de pau santo, +ornava apenas um canto da sala immensa. N'esse canto, onde se agrupavam +a familia e os convidados, havia uma profusa illuminação. O resto da +sala ficava perdido na sombra. De vez em quando surgiam d'esse fundo +escuro os criados que vinham fazer algum serviço. O toque da campainha +não parecia que os chamava, parecia que os evocava. Saíam de subito da +penumbra, como se surgissem do chão. O aspecto da casa era, portanto, o +mais legendario que podia imaginar-se. + +A conversação prolongára-se ainda depois do chá! Um medico, que residia +em Alpedrinha, para onde viera, não exercer a clinica, mas tratar da sua +propria saude, arruinada, em proveito da saude dos outros, homem de +espirito fino e amavel, fôra quem sustentára principalmente a palestra, +ajudado por um sr. Lucio Valença, escriptor de certa aura, e caçador +intrepido, e por uma filha dos viscondes, gentil menina, sympathica, +alegre e desembaraçada, que, apesar de ter vivido sempre em +Castello-Branco, e de ter ido apenas uma ou duas vezes a Lisboa, não +tinha nenhum dos acanhamentos tradicionaes das provincianas de romance. + +A pouco e pouco, porém, esmorecera a conversação: pausas cada vez mais +amiudadas cortavam a palestra, e o medico já tirára o relogio para vêr +se não íam sendo horas de retirada. Mas o visconde da Fragosa estava +agarrado, com o commendador Madureira, e alguns visinhos de campo, a um +impertinente _boston_, e em vista d'isso ninguem ousava ser o primeiro a +tocar a recolher. + +N'estes silencios ouvia-se distinctamente o rugir do vento na serra, e +os seus gemidos e silvos nos corredores da casa. + +--Meu Deus! que tristeza de noite! disse de subito uma joven senhora, de +notavel formosura, extraordinariamente pallida, mas com umas opulentas +tranças negras, e uns olhos negros tambem, grandes, rasgados, que lhe +illuminavam com estranho fulgor o rosto de alabastro. O vento geme com +uns sons tão lugubres, que nos parece ouvir as queixas dos phantasmas. É +uma noite de lenda allemã! + +--Para isso, acudiu o doutor Macedo, falta a chuva, a trovoada, a neve e +muitos outros accessorios germanicos. O vento só não basta. + +--V. ex.^a gosta de lendas, sr.^a D. Isaura? perguntou inclinando-se +para ella um elegante moço do Fundão, em quem pareciam ter produzido uma +impressão profunda os olhos negros e a romantica pallidez da filha do +commendador Madureira. + +--Se gosto de lendas! respondeu a pallida menina. Ah! de certo, +adoro-as, mas gosto de as lêr em Lisboa, no meu gabinete e á luz do sol. + +--Sem _mise-en-scene_ não prestam, observou com toda a gravidade o +doutor Macedo. + +--A que chama _mise-en-scene_, doutor? perguntou Isaura. + +--O Lucio que lh'o explique, minha senhora; não quero invadir os seus +dominios. + +--Oh! meu Deus, acudiu o escriptor, não é difficil de adivinhar. O +doutor entende que as lendas devem ser lidas e apreciadas á noite, no +meio do silencio geral, quando se está sósinho, n'um velho castello de +Anna Radcliffe, cheio de alçapões e de subterraneos, quando o vento geme +lugubremente nos corredores, e faz oscillar a luz da vela que illumina a +nossa solitaria vigilia. Creio que o doutor, acudiu Lucio voltando-se +rindo para elle, dispensa que a vela esteja n'um craneo, em vez de estar +n'um castiçal, e que haja um cemiterio por baixo da janella. + +--Dispenso... dispenso... acudiu o doutor com a mesma imperturbavel +gravidade, quero dizer... não julgo indispensaveis esses accessorios, +mas não posso negar que augmentavam de um modo notabilissimo o effeito +phantastico da narrativa legendaria. + +--Meu Deus! exclamou a pallida Isaura. Fazem-me morrer de susto com +essas historias pavorosas. Hoje com toda a certeza não durmo. Que idéa! +É necessario que não tenham a minima dóse de sensibilidade para assim +estarem zombeteando a respeito de coisas, que me produziriam uma +impressão tamanha, que os meus nervos de certo não resistiriam. Estou já +toda tremula! + +--Mas, minha senhora, exclamou o doutor Macedo, as lendas são como os +ananazes. Ha os nascidos ao ar livre, na sua terra propria, e ha-os +desabrochados artificialmente com o calor da estufa. N'um velho solar +provinciano, ao som lugubre do vento nos corredores, n'uma noite de +inverno sulcada de relampagos, nasce a lenda tão naturalmente como o +ananaz no Brazil. N'uma sala de Lisboa, forrada de espelhos, ornada de +macios sophás, entre os rumores meridianos da rua, a luz clara e alegre +do sol, a lenda não póde ter mais sabor do que um ananaz de estufa. + +--Jesus, meu Deus, exclamou D. Isaura, percebo isso perfeitamente, e bem +sei que o phantastico só póde produzir toda a impressão de que é +susceptivel no scenario que o doutor descreve: mas é que levado a esse +ponto, o phantastico produziria no meu espirito um funesto effeito. +Matava-me ou enlouquecia-me! Ah! tornou ella, eu adoro o ideal, mas o +ideal póde tambem partir as cordas da minha alma. + +--Tomo o partido de Isaura, disse não sem alguma ironia a filha dos +viscondes de Fragosa, linda menina de cabellos castanhos claros e olhos +azues, de um azul tão vivo que produziam ás vezes a sensação de olhos +negros, como se fossem aquelles reflexos azulados da aza negra do corvo; +tomo o partido de Isaura. Os senhores estão fallando ahi como creaturas +vulgares incapazes de sentirem profundamente as grandes commoções. Para +as almas privilegiadas os grandes prazeres da imaginação muitas vezes +são tambem o martyrio. São as Ophelias, as Marias de Noronha, as +creaturas ideaes cujos corpos são apenas, como o da irmã do bispo Myriel +nos _Misérables_, de Victor Hugo, pretextos para conservarem no mundo +almas de anjos. + +--E cuidas que não ha na terra esses entes, cujas expressões mais +sublimes foram encontradas por tres grandes poetas que acabas de citar, +Garrett, Shakespeare e Victor Hugo? acudiu vivamente o enthusiasta de +Isaura, que sentira o leve epigramma, que o seu idolo não comprehendêra. + +--Não cuido tal, Henrique. A prova de que os ha é que Isaura é um +d'esses entes. + +--Por quem és, Leonor... acudiu Isaura com uns certos ares de modestia, +que ainda mais desesperaram o seu apaixonado. + +--É assim, tornou Leonor. Tu, Isaura, sentes que se partiriam as cordas +da tua alma, se quizesses lêr á noite n'um quarto de uma velha casa +provinciana uma historia de phantasmas. Morrias se te achasses sósinha á +noite n'uma sala de lugubre aspecto. Porque? Porque tens a imaginação +exaltada, a sensibilidade nervosa das Ophelias e das Marias de Noronha! + +--E não admirava, acudiu Henrique Osorio que assim se chamava o moço do +Fundão, não admirava, sr.^a D. Isaura, que v. ex.^a tivesse medo de +estar sósinha n'um castello de Anna Radcliffe. Nem todas podem ter a +imaginação calma, o prosaico bom senso, a fria intrepidez de Leonor. A +marqueza da Lusacia, de que falla Victor Hugo n'um dos seus poemas, +preferia perder a soberania do seu marquezado a ir passar a noite +sósinha, como o ordenava o costume tradicional, no castello de seus +avós... + +--Logo encontrou quem a acompanhasse, interrompeu Leonor ironicamente. + +--E não seria só ella. + +--Isaura, ouviste? acudiu Leonor rindo com tal ou qual amargura, se +quizeres passar alguma noite n'um castello legendario, como a marqueza +da Lusacia, já tens trovador que te acompanhe, ao bater da meia-noite, e +que te cante: + + Si tu veux, faisons un rêve, + Montons sur deux palefrois, + Tu m'emmènes, je t'enlève. + L'oiseau chante dans les bois. + +Isaura sorriu-se sem comprehender bem a lucta que em torno d'ella se +travava; Henrique Osorio calou-se. Leonor, um pouco arrependida de ter +mostrado um tal ou qual azedume, voltou-se para sua mãe que resonava +recostada na sua poltrona, e, chamando-a, disse-lhe algumas palavras em +voz baixa, convidando-a a que lembrasse a seu pae que eram horas de pôr +um termo ao _boston_. O doutor levára a mão aos labios para cumprimir um +bocejo, e Lucio Valença, sorrindo-se, contemplava a esplendida formosura +de Isaura, e êsses olhos que Deus fizera tão formosos, e que não +reflectiam comtudo senão as preoccupações pueris da mulher da moda, e da +lisbonense frivola. + +No meio d'este silencio ouviu-se o vento bramir com mais força, para +depois gemer com mais tristeza, parecendo que se estabelecia um dialogo +entre os espiritos atmosphericos, e que aos rugidos ameaçadores de um +demonio respondiam as queixas plangentes de um ente fraco e debil. + +De subito ouviu-se ao longe, ao longe, vibrar uma badalada no sino de S. +Martinho de Alpedrinha. + +O vento soprava d'aquelle lado, e trazia nas suas azas as lugubres +vibrações do bronze. + +Ouviu-se em profundo silencio uma, duas, tres... doze badaladas. + +--Meia-noite! disse naturalmente o doutor, quebrando o silencio em que +todos estavam, porque todos tinham estado contando as horas. + +Mas a voz do doutor tambem tomára involuntariamente como que uma +sinistra entoação. + +D. Isaura soltou um grito. + +--Jesus! disse ella. + +--Que tem, minha senhora? perguntou Henrique sollicito e afflicto. + +--Meu Deus! exclamou Isaura, é que me aterraram com as suas loucas +historias, é que me puzeram n'um estado incrivel de sobre-excitação +nervosa. Meia-noite! vê? Meia-noite é a hora dos phantasmas, é a hora +das apparições! E esta sala é tão lugubre, e este silencio é tão +agoireiro! + +--Minha senhora, exclamou o doutor Macedo alegremente, v. ex.^a suppõe +por acaso que nós sejamos phantasmas, e que estejamos quasi a +dissipar-nos em fumo como quaesquer entes mal-creados do mundo +sobrenatural? V. ex.^a está no meio d'um batalhão de gente viva capaz de +affrontar dois subterraneos de Anna Radcliffe, tres conventos de Lewis, +reforçados ainda pelos mil e um phantasmas de Alexandre Dumas. + +--Oh! tornou Isaura toda tremula, mas é que a meia-noite soou de um modo +tão lugubre... E nós a esta hora ainda a pé... + +--V. ex.^a deita-se mais cedo em Lisboa? perguntou o doutor. + +--Não, mas... + +--Mas é que a meia-noite só aterra os que lhe dão ímportancia. É uma +hora covarde e manhosa, que, se vê a alegria do baile, as salas +illuminadas, as danças caprichosas e revoluteadoras, entra pacatamente +como outra hora qualquer, até com mais risos e mais alegrias, accendendo +mais o fogo das walsas, cumprimentando para todos os lados amavelmente. +Se vê o estudioso debruçado sobre os livros, indifferente e sereno, +entra timidamente, nos bicos dos pés, e abafa até as suas proprias +vibrações; se encontra n'um serão de familia a conversação alegre, o +bule de chá em cima da mesa, as cartas do _boston_ para um lado, um +livro para outro, bate á porta discretamente, e annuncia que é tempo de +se recolher cada qual para o seu leito. Ora agora, se encontra gente que +espera com susto, que está prompta a desmaiar apenas ouvir a primeira +badalada que a annuncia, então eil-a que toma uns ares pavorosos, +engrossa a voz, faz entrada solemne, espalha em torno de si o terror e o +assombro. Fóra com semelhante fanfarrão! É necessario darmos-lhe uma +lição mestra! Peço a palavra para um requerimento. + +--Hein? disse lá da mesa do jogo o visconde da Fragosa, que aspirava á +deputação. + +--Está concedida, visconde? disse o doutor, rindo. + +--Mas que diz você? tornou o visconde muito espantado dos risos com que +os interlocutores do Macedo acolhiam a sua idéa. + +--Bem! Passo adiante. Requeiro que para todos os effeitos seja abolida a +meia-noite. + +--Approvado por unanimidade e mais um que é o visconde, tornou, rindo, +Lucio Valença. Agora queira o sr. deputado apresentar uma proposta +indicando o modo pratico de se levar a effeito essa medida importante. + +--Proponho, tornou o doutor com gravidade comica, que de ámanhã em +diante affrontemos a meia-noite rosto a rosto, e lhe torçamos o pescoço. + +--Mas o meio? o meio? o meio pratico? bradaram Lucio e Leonor. + +--O meio é o seguinte: O mau tempo ameaça prolongar-se, e nós ou não +podemos caçar, ou não podemos prolongar a caça por todo o dia, sob pena +de estoirarmos ahi de frio por essa serra. Portanto á noite estamos +frescos e descançados, e podemos protrahir o serão. Proponho que +organisemos um _Decameron_ para zombarmos da meia-noite, como os +narradores de Bocaccio zombaram da peste de Florença. Cada um de nós, +que se sentir para isso com forças, se compromette a compôr uma historia +phantastica, uma lenda, um conto maravilhoso que será lido aqui ao bater +da meia-noite. D'essa fórma affrontamos face a face a terrivel inimiga +do repouso da sr.^a D. Isaura, e, se ella ainda ousar fazer uso dos seus +sortilegios, comnosco se ha de haver! + +--Apoiado! apoiado! bradaram todos menos D. Isaura, que soltou um grito, +exclamando: + +--Isso é horrivel! + +--Não, minha senhora, é uma receita, é um remedio heroico, é um banho +russo. Vou-lhe combater os seus nervos. + +--Mate-me, doutor! + +--Qual historia, minha senhora! Mato a meia-noite! Verá como depressa a +moda acceita a minha idéa. D'aqui a pouco tempo não se falla em Lisboa +n'outra coisa, e a _lenda da meia-noite_ será o anti-espasmodico mais +empregado. + +A idéa de que effectivamente em Lisboa d'ahi a pouco tempo se não +fallaria n'outra coisa foi o que decidiu D. Isaura. Ao mesmo tempo +terminára a partida do voltarete, e um dos jogadores, homem já de +cabellos grisalhos, vivo, espirituoso, illustrado, que no tempo do +romantismo commettera alguns peccados litterarios, exclamou alegremente: + +--Acceitam-me para companheiro! Eu ainda sirvo para uma montaria aos +lobos, vamos a vêr se tambem presto para uma montaria á meia-noite. + +--É acceito com mil vontades, sr. Roberto Soares. Eu já o conheço como +robusto campeão, e assento-lhe praça com enthusiasmo. Agora cabe-me +designar o serviço. Henrique Osorio, você é quem rompe o fogo. + +Henrique inclinou-se em silencio relanceando um ardente olhar á pallida +Isaura. + +--Meia-noite e meia-hora! disse o doutor tirando o relogio. Saudemos, +meus senhores, a ultima meia-noite que passa, e vamo-nos deitar. Todos +se riram, e um borborinho alegre encheu d'ahi a pouco os corredores da +habitação. Ainda por algum tempo se sentiu o rumor de portas que se +abriam e fechavam, de passos que se perdiam ao longe, de vozes que se +despediam. Depois caiu tudo em silencio, e só se pôde ouvir o vento que +continuou toda a noite a gemer lugubremente as suas monotonas queixas. + + * * * * * + +A previsão do doutor realisou-se. O tempo continuou mau, e aggravou-se +ainda com a chuva que principiava a cair em torrentes. A noite seguinte +passou-se alegremente. Quando, porém, um relogio de parede, que fôra +posto na sala, indicou onze e meia, Isaura fez-se ainda mais pallida do +que era, e houve no auditorio uns taes ou quaes signaes de commoção. + +--A postos, meus senhores! exclamou o doutor alegremente. Firmeza, +companheiros! Do alto d'aquelle relogio trinta minutos vos contemplam. + +Houve de novo _entrain_, risos e enthusiasmo. N'isto o sino de S. +Martinho deu a primeira badalada da meia-noite. Soava ainda mais +lugubremente do que na vespera. Solta no meio dos loucos rumores do +vendaval, a vibração do bronze parecia uma nota perdida de agonia e de +desespero. + +--Henrique! disse o doutor. Vamos! Estás um pouco pallido? É a commoção +do auctor e não a da meia-noite, juro-o aos deuses immortaes. Vá! +inflexão lugubre, voz cavernosa, gesto sombrio! + +Henrique desenrolou um manuscripto, e, no meio da attenção geral, leu o +seguinte: + + * * * * * + + + + +JULIETA + +CONTO PHANTASTICO + + +I + + +Eram onze horas da noite, e estava-se tomando chá em casa do meu amigo +Frederico B * * *, em Bemfica. Havia uma roda d'intimos; a conversa +estava animada e o meu amigo, a quem a alegria e o _entrain_ dos +convidados deixavam mais liberdade no cumprimento dos seus deveres de +dono da casa, aproveitava-se d'isso para contemplar extasiado sua linda +mulher, com quem casára havia pouco tempo, e que do seu lado lhe sorria +tambem com a meiguice e ternura da mulher que ama devéras. + +A conversa animára-se tanto, que se ia transformando em algazarra. + +Discutia-se acaloradamente a questão da existencia das almas do outro +mundo, com grande desprazer d'um jornalista que por força queria +conduzir ao bom caminho aquelles discutidores extraviados, propondo que +se tratasse da bondade do ministerio, deixando de parte essas tolices, +que não serviam para nada. Mas ninguem lhe prestava attenção, o que fez +com que elle desesperado fosse lêr pela centesima vez um artigo seu +publicado n'um jornal que estava em cima de uma das mezas da sala. Essa +producção do seu engenho, que o jornalista relia com tanto enthusiasmo +merecia indubitavelmente tão paterna sollicitude, porque elle e o +revisor da imprensa tinham sido os seus unicos leitores. Mas o auctor +tantas vezes o tinha lido, e tal admiração professava pelo seu proprio +talento, que podéra dizer, sem receio de ser taxado de mentiroso--«_que +o seu artigo tinha feito tal impressão, que lhe constava ter havido uma +pessoa que o relia a miudo, e sempre com enthusiasmo crescente, honra de +que se podiam gabar poucos artigos politicos da imprensa portugueza_.» + +--Concluamos, bradava entretanto um medico materialista por dever de +profissão, onde collocam os senhores esse agente mysterioso a que dão o +nome de espirito, teimando em appellidar assim pomposamente o mechanismo +material, que a morte paralysa? Quando esse relojoeiro sombrio, que se +chama tempo, quebra com mão despiedosa as rodas complicadas do nosso +systema vital, onde se refugia esse ente inutil, esse ser impalpavel a +que os senhores espiritualistas querem dar as redeas do governo d'este +barro quebradiço, que constitue o homem? E durante a vida quaes são os +laços invisiveis, que prendem o escravo ao senhor, o corpo material e +fragil á alma etherea e immortal? Tremendo absurdo, utopia talvez +respeitavel, sublime tolice pela qual se tem sacrificado innumeras +gerações! Ah! mas sobretudo, é doido devéras quem imagina que essa +invenção impossivel, resultado das aspirações da humanidade para a +existencia eterna, possa vir aos cemiterios animar os restos putrefactos +dos reis da creação; quem tal suppõe, não sentiu nunca debaixo do +escalpello anatomico o cadaver inerte e despresivel, nem póde avaliar +com a vista infallivel da sciencia o nada immenso das vaidades humanas! + +--Fóra com o materialista, bradou um rapaz enthusiasta; sabes tu, meu +caro doutor, que a primeira vaidade humana cujo nada immenso tu devias +avaliar, é a vaidade da sciencia? Que sabes tu, presumpçoso Hippocrates, +que tens de recuar vencido perante o primeiro obstaculosinho, que a +natureza caprichosa queira oppôr á vista infallivel, como tu dizes, do +saber dos homens? E és tu que andas perdido no meio da confusão dos +systemas medicos a procurar no labyrintho scientifico o fio conductor +que te está sempre a escapar das mãos, és tu que pretendes entrar com +passo firme no insondavel labyrintho da eternidade?... Espera, continuou +elle vendo entrar um mancebo muito pallido, que foi apertar a mão de +Frederico, e comprimentar a dona da casa, queres-te convencer? Pois ahi +tens tu um homem vivo, que teve relações directas com um phantasma. + +--Roberto, assenta-te ahi, e conta-nos immediatamente a historia do teu +espectro, se v. ex.^{as} não se oppõem a isso ainda assim, continuou +elle, voltando-se para as senhoras presentes, que tinham escutado a +discussão metaphysica, com ligeiros signaes de aborrecimento. + +Propôr a senhoras uma historia de phantasmas é despertar-lhes a +attenção, é fazer-lhes passar nas veias o estremecimento do enthusiasmo. +Não sei porque, esses entes frageis, pallidos ou rosados, de olhos +negros ou azues, alegres ou melancolicos, esses entes femininos +encantadores e timidos adoram tudo o que os faz tremer, e recreiam-se +sobre tudo com essas historias terriveis, em que o leitor estupefacto +encontra um punhal ao voltar de cada pagina, um ladrão á esquina de cada +periodo, um phantasma pelo menos em cada capitulo. + +Por isso a parte feminina da assembléa acolheu a proposta com +enthusiasmo: e a mim e aos outros homens, que estavam presentes, não +desagradou a idéa de ouvir uma historia terrivel, em _petit comité_, no +pino da meia noite, tendo de voltar depois para casa por aquelles +caminhos desertos dos arredores de Lisboa; a mim sobretudo, que tinha de +passar pelas casas arruinadas de Campolide, sorria a idéa de ir com a +imaginação povoada de phantasmas, que poderia distribuir á vontade pelos +recantos d'essa paisagem tão magestosa, quando a lua envolve os paredões +solitarios na branca mortalha da sua luz, em quanto ao longe se desenha +sobranceiro entre os campos verdejantes o perfil grandioso do aqueducto +sombrio. + +Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez rogado, comprimentou +silenciosamente a assembléa, e começou pouco mais ou menos n'estes +termos: + + +II + + +«Cantava-se em Lisboa pela segunda ou terceira vez o _Baile de +mascaras_. Era uma noite de delirio no theatro de S. Carlos. Franschini, +o cantor sublime, fazia tremer de enthusiasmo a platéa inteira, e a voz +portentosa de madame Lotti despenhava sobre o publico palpitante +torrentes de melodia e de sentimento. O personagem de Amelia, +interpretado como então o foi, deixava de ser um typo creado pela +imaginação do poeta para se transformar, animado pelo Prometheo do +genio, n'um ente real, cujos sentimentos traduzidos em suspiros de +harmonia, iam arrancar os soluços dos peitos dos espectadores. + +Era o poema da paixão, com todas as suas peripecias, mas da paixão +verdadeira, da paixão que geme e rasga os seios da alma, da paixão que +verte lagrimas, de cujas feridas brota o sangue, e não d'essa paixão +ficticia, cuja expressão convencional anima só a mascara, que a artista +desafivella apenas desce o panno. + +Eu, perdido n'um canto da platéa, escutava, como escuto sempre quando +vou ao theatro lyrico. N'isso devo confessar-lhes que tenho idéas um +pouco originaes. O panno, que sóbe lentamente no principio da opera, +descerra para os outros espectadores meia duzia de taboas rodeadas por +bastidores de lona, onde uns poucos de artistas vão cantar umas poucas +de arias para divertimento do publico. Para mim é como que uma janella +encantada que se abre por onde eu me arrojo para os espaços azues do +ideal. Os outros analysam com toda a paciencia a instrumentação e o +canto, investigam se foram executadas as leis do contraponto, e depois +de satisfeitos applaudem compassadamente para não rasgarem as luvas, +voltam-se bocejando, e comprimentam a senhora condessa de * * *, ou a +senhora baroneza de * * *, cuja chronica escandalosa vão contar +immediatamente ao seu visinho da esquerda. + +Mas eu não. A minha alma, que illumina o fogo do enthusiasmo, não póde +ficar na terra, quando sente passar no espaço o sopro da harmonia, da +casta filha do céo. Desapparece o theatro, desapparecem os espectadores, +desapparece a ficção. Arrastada no manto de fogo do ideal, a minha alma +sente, enleva-se, palpita, geme, pranteia, soluça com Macbeth o grito do +remorso, suspira com Desdémona a canção da saudade, gorgeia com Helena o +hymno da desposada, escuta com Rosina a meiga serenata, sólta com +Lucrecia o rugido da envenenadora, e volta depois á terra, deixando-me +ficar pallido, extasiado, porque entrevi em sonhos a deslumbrante +claridade de um mundo desconhecido. + +Tinha começado o segundo acto, e eu seguia cheia de um vago terror a +scena lugubre do principio. As notas da aria de Amelia soavam-me aos +ouvidos como dobres de finados, e quando a Lotti soltou aquelle grito de +pavor, que vibrava sonoro e plangente pelo theatro, fazendo estremecer +os espectadores, eu levantei-me pallido, convulso, e senti correr-me +pela raiz dos cabellos o halito de fogo de uma mysteriosa commoção. + +O meu visinho olhou para mim espantado; sentei-me, deixei cahir a cabeça +entre as mãos, e scismei. + +--Ó ideal, dizia eu, quando poderei finalmente sorver a longos tragos o +teu nectar precioso na cinzelada taça da phantasia? + +«Ó virgem dos meus sonhos, ó anjo das azas de ouro, quando poderá a +minha alma, abraçando-se comtigo nas regiões celestes, aspirar a plenos +pulmões a balsamica aragem da poesia?... O que és tu, ente mysterioso, +que assim bafejas o espirito dos grandes poetas, e lhes vaes murmurar, +em noites de inspiração, os segredos sublimes que o vulgo profano +admira, mas não comprehende? + +«Oh! quaes serão as visões d'estes homens portentosos, e nas suas noites +de febre, de delirio e de insomnia, em que mysticos amores te enlaças tu +com elles, ó ideal sublime, ó ideal inspirador? E emtanto nós, os +desherdados, bebemos com um riso alvar a agua insipida e lodosa dos +prazeres do mundo, e caminhamos n'esta planicie monotona da vida, +olhando com terror para o Sinai chammejante, onde campeiam, cercados da +divina aureola, os harmoniosos prophetas, os validos da inspiração! + +«Não posso; falta-me o ar no recinto estreito da vida social; a prosa +d'este mundo opprime-me o coração. A minha alma está sequiosa de amor, e +este apparece-me sempre escoltado pelas conveniencias, trazendo sobre o +rosto formoso a mascara ridicula dos interesses materiaes, ou a mascara +odiosa do capricho sensual. Amor! amor! mas um amor como o teu, ó casta +e pura Amelia, como o teu, ó Julieta, ó noiva gentil de Romeu e da +sepultura, quero um d'esses amores sublimes, e, se elle não se encontra +na terra, surge dos tumulos, ó pallida virgem por quem eu anhelo, e +mostra-me ao menos n'um relampago as mysteriosas alegrias da +eternidade!» + +N'isto levantei a cabeça, e os meus olhos involuntariamente fixaram-se +n'um camarote, que ficava pouco distante do logar que eu occupava na +platéa. Uma senhora de belleza maravilhosa estava sósinha n'esse +camarote, e encarava-me com uma attenção extraordinaria. Não sei porque +gelou-se-me o sangue nas veias, e fiquei extatico a contemplar aquella +esplendida formosura. + +Raras vezes tenho encontrado um rosto assim! A correcção das linhas, a +pureza dos contornos, a magestade do perfil deixavam na sombra os mais +perfeitos modelos da antiga estatuaria. Praxíteles quebraria desesperado +as estatuas e o cinzel, se lhe fosse dado contemplar as inflexões +suaves, a perfeição das fórmas d'aquella viva esculptura. + +Se algum defeito se lhe poderia notar, era a rigidez marmorea da +physionomia. Via-se que nem tristezas nem alegrias seriam capazes de +alterar a regularidade do semblante, que só parecia ter vida nos olhos, +que eram lindos a mais não ser, e d'onde emanavam raios magneticos e +deslumbrantes, que enlouqueciam quem se atrevesse a encaral-os. Aquelle +rosto assemelhava-se a uma urna de marmore, em cima da qual se tivesse +collocado uma lampada de luz fascinadora. Era um fragmento de gêlo +dourado levemente pelos reflexos de um vulcão, mas essa physionomia +tinha um não sei que de mysterioso e sombrio, que me impressionou +profundamente. + +Olhei para o relogio. Os ponteiros marcavam no mostrador meia-noite em +ponto. + +No theatro os conjurados cantavam o côro das gargalhadas, e repetiam +rindo o estribilho: + + Ah! chè baccano-sul caso strano + Andrà dimani per la città! + + +III + + +Sem poder explicar a mim mesmo a fascinação irresistivel, que me +impellia tão imperiosamente á contemplação d'aquelle formoso semblante, +nunca mais desviei a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com +uma meiguice de enlouquecer. + +Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia para fazer +realçar a alvura da sua tez. Trajava elegantissimamente, mas com uma +singeleza, que me encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom gosto +na simplicidade. + +Só ella occupava o camarote! Sósinha! Quem poderia ser? Tão nova, tão +formosa, e só! Oh! meu Deus! seria ella uma d'essas mulheres sem pudor, +que arrastam por toda a parte o manto de seda da ignominia, que foram +apanhar da lama, onde deixaram em troca o candido véo da innocencia? +Impossivel! O seu porte modesto, a simplicidade do seu trajo eram um +protesto vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas Messalinas +venaes. + +Mas só! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava, estivesse +escondida na sombra do camarote; talvez tivesse saído. Tudo podia ser, +mas a suspeita é que não podia manchar nem por momentos a luz serena +d'aquelle rosto angelical. + +E eu olhava-a deslumbrado; e uma transformação estranha se operava em +mim. Parecia-me que as luzes do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco +até se reduzirem á claridade sinistra das lampadas sepulchraes, o palco +e a platéa confundiam-se n'um vasto cemiterio, onde o vento da noite +fazia ondular a copa dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os +raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga das sepulturas. + +E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me com o seu olhar tão +triste: + +--Queres o meu amor, ó pobre escravo d'um corpo material, ó doido, que +aspiras ao infinito sem pensares que tens os pés embaraçados na immunda +vasa d'esse oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! não queiras +conhecer os segredos dos tumulos, porque tu, meu louro poeta, voltavas +ao mundo de cabellos brancos, se tocasses um só minuto com os labios na +taça inebriante dos amores da eternidade! + +--Oh! que me importa a vida, respondia eu na allucinação febril, se em +troca d'esses dias de prosa me posso arrojar um instante só aos espaços +infinítos das sublimes commoções! A minha alma é como a aguia, que se +arroja ás regiões das nuvens, affrontando a tempestade, e cae depois na +terra fulminada pelo raio, que altiva foi provocar. Que me importa a mim +a morte, a condemnação eterna, se podér sorver nos teus labios +voluptuosidades desconhecidas, e lêr nos teus olhos o poema sublime do +amor, que eu phantasio? + +A visão desapparecia; mas no palco a voz seductora d'Oscar, o elegante +pagem, vinha murmurar-me aos ouvidos: + + Pieno d'amor + Mi balza il cor; + Ma pur discreto + Serba il segreto. + +E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em letras de fogo a +mesma confissão inebriante: + + Pieno d'amor + Mi balza il cor. + + +IV + + +Tinha acabado a opera. Levantei-me e saí. + +Fiz um esforço sobre mim, não querendo olhar para o camarote fatal. A +pessoa que o occupára durante a noite produzira em mim uma impressão tal +que cheguei a ter medo... medo da influencia pasmosa que ella ía tomando +sobre o meu pobre coração. + +Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro vulto, que passou +por diante de mim, foi o vulto elegante e nobre da gentil desconhecida. +Ia só! + +Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar, me lançou um d'esses +olhares que endoidecem o homem de rasão mais fria, que lançam no inferno +o mais virtuoso santo do paraizo. + +Não tive forças para luctar contra a fascinação irresistivel d'esse +olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia magnetica do olhar de José +Balsamo sobre a pobre Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a +pobre italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle jugo oppressor, +debalde oppunha toda a força da sua vontade e do seu odio á tenacidade +diabolica do terrivel magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da +sua devoção, com todo o vigor da sua alma virginal áquelle poder +incomprehensivel, mas horrendamente verdadeiro; tinha de recuar diante +d'esse olhar, como diante d'uma espada chammejante, até caír oppressa e +desesperada aos pés de José Balsamo. Então esse corpo quebrado pela +resistencia, reclinava-se nos braços da voluptuosidade, e a voz que ia +terrivel a bradar: «Odeio-te», terminava supplicante a balbuciar: +«Adoro-te». + +Ao vêl-a, disse eu commigo mesmo: «Não quero, não quero ceder a esse +imperio inexplicavel.» E minutos depois, surprehendia-me a seguil-a +apressadamente pelas ruas de Lisboa. + +Ha occasiões em que nos vêmos obrigados a acreditar em forças +sobrenaturaes que nos attrahem e nos repellem, é quando a nossa vontade +se aniquila, e quando as leis da nossa organisação são violentamente +revogadas por um despotismo estranho. + +Submetto esta reflexão á consideração dos illustres materialistas que me +escutam! + + +V + + +A desculpa que eu dei a mim mesmo, quando apesar de todos os meus +protestos me surprehendi a seguir a senhora de negro, foi a desculpa da +curiosidade. + +Com effeito, dizia eu commigo, tirando philosophicamente baforadas de +fumo do charuto que acabára de accender no momento em que passou por +diante de mim a formosa desconhecida; o que ha mais natural? Encontro +uma linda mulher em S. Carlos, linda como poucas, e original a mais não +poder ser. Vejo-a no camarote sósinha, e torno a vêl-a, saíndo a pé, e +ainda só. Não tenho nada que fazer, e por conseguinte sigo-a. É +naturalismo. + +E a voz da consciencia murmurava-me ao ouvido: + +--É o brilho da chamma tentadora, ó doida borboleta, é o olhar +fascinador da serpente, ó ave descuidosa. + +--Ora adeus, respondia a voz da minha apparente philosophia, prejuizo, +superstição, fanatismo, como dizia o tenente Boutraix de um dos romances +de Carlos Nodier. Vou offerecer-lhe o meu braço. + +A senhora que eu seguia caminhava lentamente a quinze passos adiante de +mim, quando muito. Passava ella então defronte da egreja dos Martyres. +Puz o chapéu ao lado com modos conquistadores, colloquei o charuto ao +canto da bocca, e accelerei o passo. + +Apesar d'isso, e apesar da minha bella não alterar por fórma alguma o +seu andamento, não diminuia, pelo menos sensivelmente, a distancia que +nos separava. O vulto elegante da senhora de negro, ao passar por diante +dos candieiros de gaz, revelava-se em toda a sua riqueza de fórmas, em +toda a magestade do seu porte airoso. Havia uma suprema distincção no +seu modo de andar, mas apesar d'isso havia um não sei quê de mysterioso +n'aquelle mover de estatua, lento e inteiriçado, que fazia uma impressão +pouco agradavel. + +Chegámos assim á rua Nova do Carmo; ella voltou para baixo; eu segui-a. + +A distancia conservava-se a mesma. Mas, como ia diminuindo o numero das +pessoas que caminhavam para aquelles sitios, saindo, como nós, de S. +Carlos, eu tomei uma resolução definitiva, e comecei a dar grandes +passadas para apanhar finalmente aquella mulher que me fugia +incessantemente como esse caçador das lendas do norte, que foge sempre, +sem perder um palmo de terreno, mas sem poder tambem desapparecer, á sua +matilha infernal. + +Nem assim pude diminuir a distancia que me separava d'esse vulto +extraordinario. + +E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos +seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias. + +Chegámos ao Rocio. Eu começava a estar suado. Despi, sem affrouxar o +passo, o paletot que me incommodava, e pul-o aos hombros. + +Depois dei a andar com dobrada rapidez. + +A senhora de negro caminhou pelo Rocio na direcção do Passeio. + +Chegámos ao largo de Camões. + +Nem uma pollegada diminuira a distancia que mediava entre nós. + +E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos +seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias. + +Eu apertava as mãos na cabeça, porque sentia uma torrente de fogo a +inundar-me o cerebro, e a rasão a abandonar-me. + +A noite era sombria, e no estado em que estava pareceu-me sinistro +devéras o aspecto d'essa massa do Passeio Publico, envolto n'um manto de +trevas. + +A quinze passos adiante de mim caminhava sempre elegante e distincto o +vulto negro da minha gentil desconhecida. + +Perdi a cabeça e deitei a correr, litteralmente a correr, atraz d'ella. +A bulha da corrida produzia um som lugubre, e fazia-me estremecer de vez +em quando. O suor escorria-me em fio pela cara abaixo. + +Saimos da rua Oriental do Passeio, entrámos na calçada do Salitre, +chegámos á esquina da travessa do Moreira, e eu não conquistára um palmo +de terreno. + +E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos +seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias. + +Quando ali chegámos, a desconhecida entrou resolutamente na travessa, e +eu parei. Sentia o coração palpitar-me com violencia, e... tive medo, +confesso o. + +Era tão extraordinario o que me estava succedendo, que este sentimento, +devem confessal-o, era um pouco desculpavel. + +Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente n'essa rua +tão deserta. + +Quando a minha desconhecida chegou ao pé de uma casa isolada no meio da +travessa, parou, voltou-se para mim, e bradou com uma voz +melodiosissima: + +--Ámanhã á meia-noite, debaixo d'esta janella. + +Eu estaquei attonito de surpreza. + + +VI + + +Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito, quando voltando +para casa me fui sentar á mesa de trabalho, e comecei a reflectir fria e +pausadamente na aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e +fastidiosa do combate da rasão com as minhas tendencias para o +sobrenatural. + +Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra coisa que não fosse a +seducção inexplicavel, que me attraía para esse ente incomprehensivel, +fui no dia seguinte á meia-noite ao _rendez-vous_ aprazado. + +Soava não sei em que relogio a ultima badalada da meia-noite, quando se +abriu a janella, e appareceu ante os meus olhos deslumbrados o formoso +rosto da gentil desconhecida. + +Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me ao céo da bocca, +e não pude dizer uma palavra que se entendesse. + +--Porque me seguiu hontem? perguntou ella com uma voz melodiosa e +triste, como o gemer da brisa nos cyprestes. + +--Porque a amo. + +--Sabe quem eu sou? + +--Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo que nos afaga em sonho o +nome com que o distinguem nas phalanges celestiaes? + +--E ama-me? + +--Mais do que a vida! + +--Só?! + +Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim? Não sei; sei que lhe +respondi com o olhar inflammado: + +--Mais do que Deus! + +--Não estranha o mysterio em que me envolvo? + +--Não sei. Este amor é uma paixão fatal. Virgem ou devassa, candida ou +profanada, anjo ou demonio, amo-a cegamente, sem me importar com o +passado nem com o futuro, desejando só ter o presente meu, só meu. Este +amor é para mim um vinho que embriaga, e se no fundo da taça encontrar +veneno, que importa? morrerei abençoando as horas da embriaguez. Isto é +uma loucura, bem sei, mas se podesse conhecer a atonia moral em que o +meu espirito tem existido! Se soubesse como eu anhelo por estas +commoções extraordinarias, que devoram n'um minuto a existencia de um +homem! Já vê quão pouco exigente eu sou; não me negue um raio d'essa +aureola d'amor que lhe circunda a fronte. Essa luz tenuissima +transformal-a-hei em chamma esplendida, que ha de illuminar as trevas do +meu viver prosaico. + +--Acceito o seu amor, se essas palavras não o exagaram. Não queira +penetrar no mysterio que me envolve. Quando fôr necessario, eu mesma o +rasgarei, e confie em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor. +Entretanto creia e espere. Adeus. + +--Já? + +--Não me posso demorar nem um minuto. + +--Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este amor immenso não +encontrou echo no seu coração? + +--Amo-o. + +--Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante, immenso? + +--Immenso... como a eternidade. + +E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada vez mais espantado +da estranheza dos seus modos. + + +VII + + +Assim continuou todas as noites aquelle amor excentrico. Todas as noites +eu tomava a firme resolução de não tornar lá, e sempre as badaladas da +meia-noite me surprehendiam na travessa do Moreira, por baixo da janella +fatal. + +No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam meus paes do meu +casamento com uma menina rica, que não desgostava de mim, e por quem eu, +não sentindo amor, não sentia tambem antipathia. + +Era ella uma menina capaz de inspirar uma affeição fraternal, mas nunca +uma paixão a um espirito arrebatado como este meu. + +Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar. A pobre menina não +tinha culpa d'isso. Demais a mais era o que se podia chamar um acerto: +dote soffrivel, excellentes qualidades de mulher e de dona de casa. + +Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente. Não sendo +muito guloso, não era eu o mais proprio para poder apreciar dignamente +esta prenda, que a distinguia. + +Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de S. Carlos. Um dia +passei occasionalmente por lá, e vi-a com os olhos vermelhos de chorar. +Comprimentei-a, ella correspondeu me tristemente, e retirou-se da +janella. + +--Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar nos marmelos. +Talvez ali esteja um coração! accrescentei eu no monologo mental. Não +creio, continuei, o coração desarranja as cassarolas, e incommoda-a no +varrer da casa. + +Foram estas idéas falsas que me perderam, meus senhores; idéas d'um +espirito extravagante que procurou sempre em regiões inaccessiveis a +felicidade, que nunca pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu +lado sem eu dar por isso. + +O meu espirito talvez fosse como o Rouvière de uma comedia de Feuillet, +que, depois de ter percorrido o mundo em todos os sentidos, fica +espantado de encontrar a felicidade sentada ao canto da lareira de uma +familia burgueza n'uma aldeola do seu paiz natal. + + +VIII + + +Chamava-se Julieta a heroina do meu romance de amor. Até o nome era de +fazer enlouquecer um enthusiasta como eu. + +Essa aureola de poesia e de encanto com que Shakespeare circumdou a +fronte da pallida italiana, parecia atravez das edades vir doirar com um +reflexo luminoso a fronte gentil da Julieta, que eu adorava. + +Foi a unica informação a seu respeito que d'ella obtive. Tudo o mais +ficava para mim envolvido n'um mysterio que eu não tentava penetrar. + +Uma noite a nossa conversação foi tomando a pouco e pouco um caracter +mais ardente e languido. Palavras de amor entrecortadas, suspiros +involuntarios vindo interromper o dialogo, longos silencios durante os +quaes eu sentia o palpitar apressado do meu coração, em quanto via a +imagem seductora de Julieta desenhar-se na janella illuminada +caprichosamente pelo fulgor da lua, tudo isto despertava em mim uma +voluptuosidade deliciosa, mas que me magoava. + +Uma vez, em quanto ella ficava perdida n'essa vaga contemplação da lua e +da noite perfumada, eu involuntariamente approximei-me da parede da +casa, e ajudando-me com as grades da janella do pavimento das lojas, +pude trepar até ao parapeito da janella, e de repente, sem que ella +parecesse reparar na ousadia do meu procedimento, imprimi-lhe nos labios +um beijo de fogo. + +Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua. + +Olhou para mim com olhar meigo e recuou. + +Entrei no quarto e cahi-lhe aos pés, balbuciando: + +--Julieta, amo-te! + +E cobri-lhe as mãos de beijos devoradores. + +Ella olhava para mim com uma expressão indefinivel. Não podia dizer se +era ternura, se ardor, se frieza, o que esse olhar continha; sei sómente +que quanto mais ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer. + +--Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me o braço á roda do +pescoço, e arrastando-me com meiguice para uma porta entre-aberta, vem! +sobre o lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o rouxinol as +suas trovas de amores! é tudo mysterio n'esta hora encantadora! Vem! + +Abriu-se a porta e nós entramos n'um jardim esplendido. + + +IX + + +Era na hora mysteriosa em que das urnas das flôres se expandem na +atmosphera thesouros de aroma e de languidez, e em que o homem absorto +julga escutar vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia +das espheras. + +Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as perolas do seu canto, +e em que a natureza escuta embevecida o hymno mavioso do seu interprete +sublime. + +Porque n'essa hora dormem as paixões terrenas, e o mundo parece +envolver-se por momentos no manto da sua virgindade, afim que Deus possa +reconhecer a sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme +pretencioso que se chama o homem. + +E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza, revê-se silencioso no +espelho da Creação. + +Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto luminoso sobre as +alamedas desertas do esplendido jardim! Como os seus raios se baloiçam +mollemente no berço fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos no +crystal das fontes! + +E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo, parecem espreitar +complacentes os mysterios da voluptuosidade que se vão abrigar nos +caramanchões floridos! E emtanto as acacias que lhes assombreiam os +vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das flôres vermelhas as +pregas ondeantes da sua roupagem marmorea! + +E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre os alegretes, e a voz +do rouxinol da balseira despertava no meu coração um rouxinol +desconhecido que me fallava de amor e de ternura. + +Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que sentia ao tocar-lhe +nos labios as azas brancas do anjo da pureza que davam áquella fronte +limpida um resplendor celestial. + +Por um sentimento involuntario troquei o meu annel pelo annel de +Julieta. + +Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos contemplava com +indulgencia! + + +X + + +Mas quando ergui os olhos, erriçaram-se-me os cabellos de terror, e +correu-me pelas veias um calafrio. Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue +refluiu ao coração. + +Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o rouxinol suave, +sumiram-se as estatuas, fugiram as acacias. + +Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de um cemiterio, de um +lado e de outro avultam as pedras brancas das sepulturas. + +O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios, e o pallido clarão +da lua vem beijar melancolico as cruzes tumulares. + +O grito sinistro do mocho só de vez em quando perturba a paz dos mortos; +por entre a relva dos sepulchros fulgura a lugubre phosphorescencia dos +cemiterios. + +É tudo silencio em roda, mas ao longe começa a sentir-se um vago rumor, +que parece o longiquo ruido de um exercito marchando. + +E uma aragem de terror parece esvoaçar por entre os tumulos, dando vida +ás loisas e voz ao cyprestal. + +Lugubres clarões abraçam as cruzes das campas, e as figuras de pedra que +guardam, sentinellas inanimadas, o somno dos finados, agitam-se +convulsamente ao sopro de fogo d'aquella procella desconhecida. + +A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres vezes echoou na +immensidade aquelle som terrivel. + +E eu senti os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a +testa. + +Então um côro de vozes cavas e profundas entoou lugubremente o _Dies +irae_, o hymno da colera de Deus. + +E logo uma longa procissão de phantasmas brancos começou a desfilar por +diante de mim n'um silencio aterrador. + +Depois deram-se as mãos e formaram em torno de mim uma dança de +espectros. + +E eu sentia os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a +testa. + +Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo e avançou para mim. + +E eu quiz recuar, mas os pés estavam pregados no terreno, e uma força +invencivel me domava. + +O passo do phantasma não produzia ruido algum, mas eu sentia-o vibrar no +fundo do coração. + +Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe a fronte a +grinalda virginal das rosas brancas. + +Reconheci as pallidas feições de Julieta, da minha noiva de ha pouco. + +--Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella sorrindo; vem, meu +pallido amante, vem inebriar-te com as mysticas voluptuosidades das +sepulturas. + +O mocho cantará o nosso epithalamio, e no cruzeiro do cemiterio serão as +danças dos finados o nosso baile nupcial. + +Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de dentro da loisa +entreaberta a alva mortalha do nosso leito de noivado! + +E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um sepulchro, e senti +que a mão de Julieta me arrastava invencivelmente. + +Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dos finados, o mocho +soltava o seu grito funebre, e a lua entornava sobre as campas a sua luz +tão pallida. + +E eu senti os cabellos erriçarem-se-me de terror, e um suor gelado me +inundava a testa. + +Não pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue por diante dos olhos e +cahi desmaiado! + + +XI + + +Roberto parou um momento como se se sentisse opprimir pela recordação +terrivel d'essa noite. + +--Pouco mais lhes posso dizer, meus senhores, sei apenas que no dia +seguinte acordei no meu leito, e que estive sériamente doente. Apenas me +restabeleci corri á travessa do Moreira. + +Da casa de Julieta nem signaes! Tudo desapparecera. + +Julguei que fôra victima de uma allucinação, mas ainda hoje se me +representam tanto ao vivo as scenas, a que assisti, que não posso +admittir a possibilidade d'essa hypothese. + +D'ahi por diante nunca mais tive felicidade! Em pouco tempo gosei e +padeci muito. As fibras da minha alma sujeitas a uma fortissima tensão +quebraram-se, e hoje vivo n'uma incrivel atonia. + +A senhora, com quem minha familia me queria vêr casado, desposou um +homem menos imaginoso do que eu, que a estremece, e a quem ella estima. +Tem dois filhos, que são a alegria da casa e o enlevo dos paes. + +A minha imaginação desregrada deixou-me isolado no mundo. + +Roberto calou-se. Todos nós ficamos silenciosos, impressionados por essa +lugubre historia. Mas Frederico abraçando sua mulher, e dando-lhe um +beijo na testa, disse para Roberto: + +--As aspirações da alma têm um limite, que não podem ultrapassar. No céo +da felicidade ha espheras inaccessiveis onde a natureza humana desmaia, +prostrada pela vertigem. Na familia, meu amigo, resume-se a suprema +ventura. É prosaica unicamente para os que a não comprehendem. N'esses +amores ideaes chega o homem a pontos, em que para me servir das phrases +do sceptico Musset: + + Où le vertige prend, où l'air devient le feu, + Et l'homme doit mourir où commence le Dieu. + + * * * * * + +Quando Henrique Osorio acabou de lêr o seu improvisado romance, +applaudiram-n'o fervorosamente os seus indulgentes ouvintes. Só Isaura +bocejava de um modo notavel. + +Henrique mordeu os labios um pouco raivoso, e, inclinando-se para ella, +disse-lhe ironicamente: + +--A nossa idéa foi soberba, minha senhora; se não cura dos terrores, que +sentem as pessoas nervosas, ao menos concilia-lhes o somno que affugenta +os phantasmas. + +--Ah! não, sr. Henrique Osorio, respondeu Isaura; a sua idéa acho-a cada +vez peior. Vejam se é admissivel fallar-se aqui em cemiterios á uma hora +da noite. Eu, se estou assim mais tranquilla é porque a Leonor me +prometteu que dormia no meu quarto. + +--É contra os regulamentos, bradou o doutor Macedo. A sr.^a D. Isaura +está illudindo a receita. + +--Meu Deus, doutor! exclamou Leonor alegremente. Os regulamentos +cumprem-se assim de um modo feroz. Não vê que eu vou passar a noite com +uma mulher pallida? Depois de ouvir o romance de Henrique, deve +confessar que é necessario ser-se heroina! + +--É verdade, exclamou Isaura, o sr. Osorio tratou bem as pallidas! No +seu entender mulher pallida só póde ser mulher desenterrada. Muito +agradecida. + +--Mas, minha senhora... balbuciou Henrique. + +--Aquillo são reminiscencias de Lisboa, Isaura, exclamou Leonor, rindo. +Quiz-se vingar de alguma pallida que o magoou. + +--És maldosa, Leonor, murmurou Henrique ao ouvido da sua amiga de +infancia. + +--É para te ensinar a fazer declarações mais habeis, disse-lhe Leonor +tambem ao ouvido. Isaura levantára-se para ir ter com seu pae. + +--Então o meu romance é uma declaração? tornou Henrique. + +--O teu romance é uma loucura. Estás engraçado com as tuas idealisações +constantes. Queres mulheres sobre-naturaes, entes phantasticos, damas +brancas de Avenel! Se achas que é lisongeiro para uma mulher perder a +sua realidade para agradar ao homem que diz amal-a, morrer primeiro para +ser depois desposada por elle em fórma espectral, como no _Noivado do +Sepulchro_, de Soares de Passos... + +E a maliciosa rapariga recitou, zombeteando: + + E ao som dos pios do cantor funerio, + E á luz da lua de sinistro alvor, + Junto ao cruzeiro sepulchral mysterio + Foi celebrado de infeliz amor! + +--Então, menina! exclamou Isaura, lá de longe. Olha que eu não vou +sósinha para o quarto. + +--Ahi vou, querida, ahi vou! + +E Leonor, deitando a Henrique um olhar malicioso, foi ter com a sua +amiga. + +--Então, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo emquanto pegava no +castiçal para se dirigir para o seu quarto, porque, n'essa noite de +temporal, nem os visinhos tinham podido recolher a suas casas; então, +sr. Roberto Soares, a sua composição caminha? Olhe que é ámanhã a sua +vez. + +--Que lhe hei de eu fazer? Cá me vou apressando, tanto quanto posso. +Metti-me em boa, não ha duvida. Já não estou para estas folias. O viver +da provincia enferruja. Ámanhã os rapazes vão rir-se de mim. + +--Veremos isso! redarguiu Henrique Osorio, sorrindo amigavelmente. Eu +preparo uma pateada. + +Roberto Soares affastou-se, rindo, e o doutor Macedo, accendendo um +charuto, disse para Henrique Osorio: + +--Sabe o que lhe digo, Henrique? Você é uma creança. Anda todo enlevado +na pallidez e nos terrores nervosos de Isaura, que é uma tola com +bonitos olhos, e não repara que ha por estas serranias uma rapariga, uma +perola, que se fina por você. + +--Por mim?! Quem me faz essa honra? exclamou Henrique, fazendo se +córado. + +--Quem tem olhos para vêr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oiça; e +quem tem somno para dormir, durma; respondeu gravemente o doutor Macedo. +Boas noites. + +E partiu, deixando ficar Henrique pasmado. Este demorou-se por alguns +instantes a ouvir o temporal que rugia com violencia, e a contemplar com +tristeza o sitio onde estivera sentada Isaura. Depois, soltando um +suspiro, saíu da sala. + + * * * * * + +Devo dizer que no dia seguinte as impressões foram muito menos profundas +que na vespera. A noite estava mais socegada; caçára-se pela manhã. +Estivera bonito o dia, cortado apenas por alguns chuveiros. Comtudo, +quando deu a meia-noite, correu um frémito por todos os ouvintes. +Estabeleceu-se um profundo silencio, mas a figura amavel de Roberto +Soares não era para inspirar terrores legendarios, e foi no meio de uma +attenção tranquilla, até um pouco risonha, que o jornalista aposentado +começou a sua leitura. + + + + +A VISÃO DO PRECIPICIO + + +I + + +O meu romance annuncia-se de um modo terrivel. Começa por uma +tempestade. Estou obrigado moralmente a apresentar alçapões, +subterraneos, e donzellas perseguidas. Se não invento por ahi uns quatro +assassinios, estou perdido no conceito de certos leitores! + +Tenham paciencia os amadores das _Nodoas de sangue_ e dos _Amantes +infelizes ou as victimas de uma paixão_, mas d'esta vez hão de +contentar-se com um romance bem morigerado, cujos heroes, todos elles +pessoas honestas, não hão de incommodar, em quanto durar o enredo, nem +as partes de policia, nem os regedores de parochia, nem os jovens +advogados, nem as columnas dos jornaes destinadas pelos noticiaristas +aos acontecimentos tragicos do paiz. + +Feita esta declaração, vou introduzir os meus leitores... n'um lagar de +azeite, por uma noite tempestuosa de dezembro, quando o vendaval açoita +rijamente os pinheiraes frementes, e os relampagos illuminam com pallido +fulgor as campinas inundadas pelas chuvas copiosas de uma noite de +invernia. + +Recresce o temporal. As levadas de agua, engrossadas com as chuvas, +resvalam pelos penedos, despenham se, espadanam, fazem scintillar á luz +do raio doidejantes borbotões de espuma, e arrastam na carreira +vertiginosa as arvores desarreigadas pela força irresistivel do furacão! +N'estas noites, o aspecto ridente dos campos, que a primavera orna com +todas as galas da vegetação, transforma-se completamente. Parece-nos +impossivel que o regato, que havia pouco se espreguiçava voluptuosamente +sobre as campinas esmaltadas, seja agora a torrente impetuosa que +arranca, n'um accesso de furor, as arvores que se miravam descuidosas na +sua limpida corrente. + +A mim agrada-me o quadro medonho das furias da invernia! Contemplo com +delicias a physionomia terrivelmente phantastica das planicies e dos +bosques, onde paira, batendo as azas chammejantes, o sinistro archanjo +da tempestade! + +São estes os episodios grandiosos do poema da natureza! São estas as +paginas sublimes do livro da creação! + +Era uma quinta solitaria nos arredores de Santarem; a casa dos morgados +campeiava orgulhosa e insulada no meio dos campos cultivados, e lá mais +ao longe alvejavam as modestas casinhas do logarejo que se debruçava +curiosamente sobre as aguas do riacho, mirando n'esse espelho +crystallino o seu humilde aspecto, e contemplando depois, á socapa as +pompas quasi feudaes do solar dos descendentes d'algum valentão das +Indias. + +Como os gloriosos representantes d'essa familia aristocratica, deixando +a quinta só, estão comendo em Lisboa os seus rendimentos, escusamos de +lhes bater á porta, e, se vos parece, vamos immediatamente ao lagar de +azeite, que não fica muito longe. + +A entrada é franca, e a vista da fornalha, sobre a qual está collocada a +caldeira, e onde arde um mólho de lenha, produzindo um bom fogo, claro e +crepitante, tenta devéras o pobre homem, que, todo ensopado, contempla o +lume da fogueira, tão consolador e attrahente em noites de frio e chuva. + +Entrámos em boa occasião; o lagar está em plena actividade. Os clarões +indecisos da lareira illuminam um quadro pittoresco e original. Aqui o +_engenho de agua_ gira produzindo um som monotono, que, no meio dos +rugidos da tempestade, similha o resmungar de velha feiticeira por entre +os córos dos archanjos rebeldes em noite de congresso infernal, e, +girando sem cessar, tritura conscienciosamente a azeitona submettida á +sua implacavel pressão. Além as _varas_, subindo e descendo com toda a +regularidade, obrigam a azeitona, já triturada e estendida nas _ceiras_, +a distillar o seu oleo precioso. Mas não se resumem n'estes os trabalhos +do lagar. Quem reconhecerá o azeite n'esse liquido negro que vae +acolher-se silenciosamente na enorme vasilha de barro, a que nos lagares +se dá o nome de _tarefa_? Trata-se de o purificar; vamos ás abluções. O +liquido negro é assaltado repentinamente por um diluvio de agua a +ferver, proveniente da caldeira, que opéra a decomposição com toda a +rapidez. Pelo _inferno_, communicação subterranea que conduz a um vallo +distante, escoa-se a agua negra, que vae terminar ao longe a sua +existencia ignorada, e o azeite, livre finalmente da macula original, +apparece em toda a sua limpidez, em todo o seu brilho, em todo o seu +esplendor. + +No centro da casa terrea, o sr. Manuel dos Reis, mestre-lagareiro, chefe +das operações, e supremo dictador n'esta solemne occasião, vigia +attentamente as multiplicadas operações do lagar, em quanto o sr. João +Moedor (assim chamado por causa das importantes funcções que ali +exercia), contempla satisfeito o andamento do _engenho de agua_, +confiado aos seus cuidados. + +Os adjunctos d'estes dois chefes, sentados á roda da fogueira, alguns +camponezes de fóra, que tinham vindo para o «cavaco», e que a tempestade +tinha accommettido, os quaes em pé encostados ao cajado ficavam no +segundo plano, e dois rapazes de Lisboa a quem a cortezia aldeã tinha +concedido o logar de honra, eram as restantes figuras d'este quadro. + +Os dois lisbonenses merecem uma descripção especial. + +Chamava-se o primeiro José Augusto de Albuquerque. Alto e elegante, +pallido, d'esta pallidez ardente, que é quasi sempre symptoma de uma +imaginação exaltada, revelava no fulgor desusado dos olhos, +scintillantes como dois diamantes negros, o ardor d'aquella organisação +sympathica, que devia ser ou a de um grande poeta, ou a de um grande +doido, se estas duas idéas não são synonymas, segundo a opinião de muita +gente. As olheiras fortemente accentuadas, e que pareciam crestadas pela +ardente irradiação das pupillas, acabavam de dar a esta physionomia um +cunho original, romantico emfim, _tranchons le mont_, porque devo +confessar que o meu heroe tem todas as apparencias de um typo de +romance, apesar de ser tão verdadeiro como... o orçamento portuguez. + +O companheiro de José Augusto formava com elle um perfeito contraste. Se +as centelhas de intelligencia, que se escapavam dos olhos negros de José +Augusto, revelavam uma organisação em que o espirito predominava, em que +_l'âme_ dominava _la bête_, para me servir da classificação de Xavier de +Maistre, a luz fria e sem expressão, que brilhava nos olhos azues do seu +companheiro, dava a conhecer a beatifica indifferença do adorador da +materia. N'um a estatua delicada e quasi feminil denunciava a fina +constituição de uma natureza naturalmente aristocratica; no outro a +obesidade das fórmas dava idéa do Sancho Pança de Cervantes, ainda que a +alta estatura mostrasse que esta nova edição do governador da Barataria +era feita n'outro formato. N'aquelle os movimentos altivos da cabeça, o +modo enthusiastico com que atirava para traz as ondas lustrosas da sua +negra cabelleira, indicavam bem as aspirações elevadas de um coração a +trasbordar de poesia e de generosidade; n'este os gestos pacatos, e as +suissas loiras que flanqueavam serenamente uma cara de lua cheia, +mostravam o genio bonacheirão do homem que não pensa senão no modo de +conservar sempre, em bom estado, a sua economia animal, satisfazendo as +reclamações incessantes de um estomago insaciavel. + +O primeiro era, como disse, José Augusto de Albuquerque, rapaz com +alguns vintens, que viajava para se divertir. O segundo era o sr. John +Williams, inglez ingenuo e bem morigerado, que aguentava uma boa dóse de +garrafas de vinho sem vacillar, que bebia exactamente o que ganhava n'um +escriptorio de negociante, e que, apaixonado por viagens, como todo o +bom inglez deve ser, tinha pedido licença de um mez para acompanhar o +seu amigo José Augusto n'uma excursão á Extremadura. + +No momento em que entrámos, reinava um profundo silencio. Lá fóra os +rios, que a chuva fazia ferver em cachão, resaltavam sobre os rochedos +com um estampido formidavel; as rajadas da ventania, batendo com furor +de encontro á porta, faziam-n'a ranger, e abriam-n'a de vez em quando, +arrojando torrentes de chuva para dentro do lagar. A voz da procella ora +se assimilhava aos rugidos blasphemos do anjo das trevas, ora, plangente +e soturna, imitava os gemidos das almas penadas, que vagueiam na terra +pedindo aos vivos orações. O trovão, ribombando no espaço, dominava, de +vez em quando, com a sua voz magestosa, o pavoroso ruido da tempestade. + +Havia harmonias sublimes n'aquella desharmonia apparente; era selvatica +mas grandiosa a immensa orchestra do temporal. + +--Santa Barbara nos acuda, murmurou devotamente o sr. Manuel dos Reis, +tirando o seu barrete azul, já bastante azeitado, no momento em que um +trovão formidavel fazia benzer todos os circumstantes--S. Jeronymo te +afaste, ruim trovoada, de todo o povoado onde haja almas christãs. + +--Amen, resmungou em côro a companha aldeã. + +--E temos a chuva pegada, que não ha que esperar senão uma noite de +agua. O vento puxa por ella que é um regalo, tornou o mestre-lagareiro, +quando o terror produzido pelo trovão se dissipou um pouco mais. Ah! meu +fidalgo, v. s.^a querer metter-se a caminho por uma noite d'estas é +mesmo tentar a Deus! + +--Deixal-o, tornou o interpellado, que era o nosso amigo José Augusto de +Albuquerque, sabe você, sr. Manuel dos Reis, que eu gósto de noites +assim? Que diabo! quando atravesso a galope a clareira de um bosque +inundado pela chuva, e que vejo, á luz do relampago, as arvores nuas de +folhas estenderem-me os braços descarnados, e formarem em torno de mim, +guiadas pelo furacão, danças phantasticas e extravagantes, imagino vêr +as danças da meia-noite, travadas pelos espectros nos cruzeiros dos +cemiterios, e, lembrando-me dos contos lindissimos que a minha ama me +contava quando eu era pequeno, chego a acreditar na sua realidade, e +acho prazer n'aquillo. Então que quer? + +--Arreda!--bradou o João Moedor, coçando a cabeça e fazendo ao mesmo +tempo um gesto de susto, sempre v. ex.^a diz coisas que fazem arripiar +os cabellos á gente. Gostar v. s.^a de vêr dançar as aventesmas as suas +danças malditas, como o meu compadre viu com os seus proprios olhos na +noite de S. Bartholomeu, em que anda o diabo solto, como vocemecê ha de +saber. Safa! Era capaz de seguir o phantasma do Açude até ao seu +esconderijo infernal. + +--O phantasma do Açude! O que é isso, o que é isso, ó sr. +João?--perguntou José Augusto com a maior curiosidade. + +--Historias da vida, meu fidalgo, retrocou o sr. Manuel dos Reis, é este +diabo do João Moedor que não sabe fazer outra coisa senão contar contos +da carochinha. Bom estavas tu, meu rapaz, para mestre-lagareiro! Andas +com a cabeça a rasão de juros a pensar lá n'essas _maniversias_, +deixavas ir o azeite pelo _inferno_ abaixo, e nunca eras capaz de pôr o +_espicho_ a tempo e a horas. Sempre estás um massador! + +--E é verdade, sôr Manuel dos Reis. Este João Moedor não faz senão moer +a paciencia á gente, tornou um camponez que estava ao pé da porta, +encostado com toda a denguice ao seu varapau. + +Todos se riram do _calembourg_ aldeão, e o sr. João Moedor esteve algum +tempo sem poder fallar no meio dos motejos e das risadas da turba +campesina. Finalmente: + +--Leva rumor!--bradou elle. Com que então, sô Zé do Moinho, acha você +que eu môo a paciencia á gente, hein! Você não acredita n'estas coisas, +apesar de eu ter visto muita vez sua tia andar por cima da folha, e +correr por cima das latadas para ir ter com seu compadre _Berzabum_! E +ainda não estou muito certo se não é você, sô cara de não sei que diga, +que anda a horas mortas a cumprir o seu fado, feito burro, por esse +mundo de Christo, como fazia seu avô que foi lobis-homem, segundo diz a +gente antiga cá da terra. + +A victoria ficou d'esta vez ao novo campeador. Os motejos dirigiram-se +todos para o sr. Zé do Moinho, que quiz replicar enfurecido, mas que se +viu obrigado a metter a viola no sacco, e a ficar de cabeça baixa a um +canto. O triumphador havia pouco era agora humilhado. _Sic transit +gloria mundi_! + +--Conte lá a historia, ó sr. João, que aqui tem você um ouvinte que não +é capaz de duvidar da veracidade das suas palavras--tornou José Augusto +com a curiosidade a revelar-se-lhe nas feições. + +--Tem v. s.^a muita rasão, meu fidalgo, retrocou o João Moedor com modos +de triumpho, e com perdão de vocemecê, sôr Manuel dos Reis, sempre lhe +direi que a historia do phantasma do Açude não é conto da carochinha. Em +noites assim de temporal, quando o rio engrossado pela cheia, ceifa os +pinheiros mais taludos como eu ceifaria uma espiga de trigo no tempo da +monda, não é cá o rapaz que se atreve a passar ao pé do Açude, sem se +benzer quatro vezes, e sem fechar os olhos para não vêr a melancolica D. +Branca. E não é só a mim que isso acontece; o mais pimpão do sitio +tremia, como varas verdes, se se visse obrigado a passar a estas horas +por aquelle sitio amaldiçoado, a não ser o _Come-bichos_, que vendeu a +alma ao diabo. Deus me perdôe se minto; mas o maldito tem mesmo cara de +condemnado. E conheço eu alguns que se fazem muito valentes quando estão +bem acompanhados, e que não eram capazes de passar sósinhos por ao pé do +Açude, nem que lhes dessem todos os thesouros encantados do imperador da +Moirama. + +Esta ultima allusão ia evidentemente com sobre-escripto para o Zé do +Moinho; a resposta d'este (se por acaso elle tencionava responder), foi +abafada pelas acclamações dos restantes, que applaudiram o orador, +bradando em côro: + +--Tem rasão! É uma heresia duvidar d'estas coisas! O João fallou bem. +Tem uma linguinha de oiro, este moedor! + +O distincto orador comprimentou modestamente os seus amigos politicos +pela ovação que fizeram ao seu estiradissimo discurso, e que impacientou +apenas o Zé do Moinho, que era da opposição, José Augusto de +Albuquerque, que estava desejoso de conhecer a lenda, e o leitor, que +talvez nem esteja para a ouvir. + +--Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, todos lhe +prestamos attenção, e acreditamos em tudo quanto você disser, como os +mahometanos na missão do seu propheta. + +Ninguem comprehendeu a comparação: por conseguinte todos ficaram fazendo +uma elevadissima idéa da erudição de José Augusto. João Moedor piscou os +olhos, e bradou com enthusiasmo: + +--Fallou que nem um livro. Pois então já que tanto aperta, lá vae a +historia. + +Todos se chegaram uns para os outros, e João Moedor começou no meio de +um silencio solemne a sua narração. + +Chegado a este ponto, Roberto Soares interrompeu-se, e, levantando os +oculos, disse para os seus ouvintes: + +--Não me responsabiliso pela verdade do modo de dizer. José Augusto, que +tinha o desagradavel sestro de fazer estylo, quando me contou a +historia, transfigurou completamente a expressão do narrador da aldeia. +Comtudo asseverava-me elle que o estylo do camponez tinha uma certa +elevação. + +--Siga, siga, acudiu o doutor Macedo. José Augusto é o seu Jedediah +Cleishbotham, já vêmos. Era moda no seu tempo, como as epigraphes. + +Roberto Soares riu-se e continuou da seguinte maneira: + +Ha de haver um par de annos, muito antes do terremoto, e talvez antes +que tivessem nascido os paes dos nossos bisavós, governavam os moiros a +maior parte da nossa terra abençoada. Segundo eu ouvi contar ao nosso +padre prior, que Deus haja, dava-se e recebia-se muita lançada antes que +a bandeira de Christo fluctuasse triumphante nas ameias das fortalezas. +Cada palmo de terra conquistado aos cães dos sarracenos era regado por +muito sangue, e muitos cadaveres dos nossos antepassados adubaram a +terra, antes que os seus descendentes podessem fazer em paz a semeadura +e a colheita. Era mau tempo aquelle. Mas Deus e Santiago eram por nós, e +os esquadrões cerrados dos cavalleiros de Christo levaram sempre de +vencida as hostes aguerridas dos perros amaldiçoados. + +Como dizia o padre prior, os pergaminhos d'esses fidalgos, que por ahi +andam tão orgulhosos da sua inutilidade, foram sellados com o sangue de +seus antepassados nos campos de batalha, em que se comprou bem cara a +independencia portugueza. Deshonrado seria para todo o sempre o fidalgo +portuguez que não envergasse as armas ao sair da infancia, e não +luctasse incessante a favor dos opprimidos até cair no campo da batalha +amortalhado na sua armadura de ferro. Repousem em paz nas campas os +ossos d'esses valentes. + +--O João Moedor sempre tem uma cachimonia de truz, resmungou á parte o +Manuel dos Reis; onde elle vae buscar tudo isto! + +--O que elle é, é um papagaio, murmurou o Zé do Moinho, não faz mais do +que repetir tim tim por tim tim o que ouviu ao nosso antigo padre prior. + +--N'esse tempo, continuou o João Moedor sem reparar na interrupção, +viviam aqui n'este sitio dois fidalgos velhos, que, depois de terem +ganho muitas cicatrizes, e creado muitos cabellos brancos no seu luctar +incessante contra o poder da Moirama, tinham vindo descançar na paz dos +seus castellos das lides gloriosas em que haviam dispendido a sua +existencia inteira. Não porque lhes faltassem valor e bons desejos; mas +a edade tudo gasta, e os corpos alquebrados dos bons cavalleiros já +vergavam ao peso da armadura, e a voz implacavel da velhice advertiu-os +que cedessem o logar a novos e mais vigorosos campeões. Penduraram na +sala de armas dos seus castellos as valentes espadas, e, sentados ao +canto da lareira, esqueciam o peso dos annos com as gratas recordações +das suas façanhas d'outr'ora. + +Ao mais velho dos dois; Inigo Paes, concedêra o céo um filho; Raymundo +se chamava elle. Era a delicia do bom velho rever no esbelto mancebo a +risonha imagem da sua mocidade. Vendo-o crescer em annos, em vigor e em +destreza, consolava-se o valente cavalleiro, esperando que Raymundo não +deshonraria, nas fileiras portuguezas, o nome venerando que elle proprio +tinha conquistado. Esperava com anciedade que seu filho completasse os +dezoito annos para lhe cingir a espada, afivellar-lhe o arnez, e +dizer-lhe, apontando lhe o campo da batalha: «Vae, é esse o caminho da +gloria» + +E tinha rasão em se gloriar de ter um filho assim. Ninguem meneava com +mais garbo e destreza um cavallo fogoso, ninguem manejava com mais vigor +o pesado montante, ninguem mostrava mais ardor guerreiro, quando o pae, +sentado no salão do castello, contava aos rapazes, anciosos de +aventuras, os feitos de armas dos velhos campeadores. E se Raymundo dava +esperanças de ser um rude lidador, nem por isso deixava de ser o mais +gentil mancebo d'estas cercanias. Alto e elegante, se os seus olhos +negros quizessem fallar de amor, não havia dama que se não rendesse, nem +coração feminino que escutasse insensivel os seus protestos enamorados. +Mais de uma altiva castellã apparecia na varanda do seu solar para vêr o +elegante Raymundo correr a cavallo por essas campinas. Mas que +importavam ao filho de Inigo Paes todas as castellãs do mundo se tinha o +coração já preso, e se Branca, a ingenua Branca, lhe conquistára o +affecto, e accendera nos seus olhos a chamma ardente do primeiro amor? + +Branca era filha do companheiro de armas de Inigo Paes; grande +desconsolação tivera elle, vendo-se viuvo em edade avançada, sem ter um +filho a quem podesse transmittir a sua herança de gloria. Muitas vezes, +ao vêr a filha a doidejar na varzea, como gentil borboleta esvoaçando +por entre flôres, se lhe enrugava a fronte, e duas lagrimas de tristeza +deslisavam pelas faces crestadas do velho soldado. Mas a sombra ligeira, +que lhe annuviava o gesto, dissipava-se promptamente com as caricias +affaveis da gentil donzella. Quem poderia resistir á influencia +d'aquelle anjo de candura, loiro e rosado, como as imagens seductoras +dos cherubins que cercam a Virgem Nossa Senhora na pintura do altar-mór +da freguezia! + +Branca e Raymundo conheciam-se e amavam-se desde creanças. Juntos tinham +crescido, juntos tinham doidejado n'estas campinas, e, sem que nunca a +palavra _amor_ fosse pronunciada, tinham apesar d'isso consagrado um ao +outro um affecto que a edade fôra desenvolvendo. E era um par galante a +mais não poder ser. Quando Branca, fatigada de correr atraz de uma +borboleta, vinha, com as faces vermelhas como duas rosas, os olhos a +brilharem de alegria infantil e as loiras tranças fluctuando em ondas +doiradas sobre os seus hombros de neve, refugiar-se nos braços de +Raymundo, e encostar o rosto encantador nas faces levemente morenas do +gentil fidalguinho, todos os que os viam paravam extasiados, e faziam +votos pela felicidade d'aquelles anjos de innocencia e de candura. + +Chegou finalmente o dia em que Raymundo completava dezoito annos, e em +que, para não desmentir as gloriosas tradições da sua raça, devia cingir +a espada, e ir aos campos de batalha pagar á patria e á santa religião +dos nossos paes o tributo de sangue, que devia ser pago por todos os que +se prezavam de christãos fieis, e portuguezes leaes. + +No dia fixado para a partida de Raymundo, encontraram-se os dois +namorados no sitio do Açude. É um sitio medonho, como v. s.^a ha de +saber; um pinhal sombrio, que vae terminar á beira de um precipicio, no +fundo do qual o rio faz mugir, espadanando nos rochedos as suas aguas +turvas e espumantes. Mas n'esse dia o sol estava brilhante, e dava a +esse quadro medonho o mais ridente aspecto. Os pinheiros, illuminados +pelos raios de um sol de agosto, pareciam frechas doiradas que mão +occulta arrojava ao céo limpido e azul de um bonito dia de verão. Cada +gotinha de agua parecia um espelho que reflectia a imagem brilhante do +sol de Portugal, e o rio scintillante e espumoso parecia arrastar na +corrente palhetas de oiro e prata. Gorgeiavam os passaros na floresta, e +tudo dizia contentamento, quando os corações de Branca e Raymundo +sómente sentiam tristeza e desesperação. + +Branca vinha triste, triste como a rôla namorada que vê fugir para +longes terras o escolhido do seu coração, e pallida como a açucena +batida pelo vendaval. Mas que bem que lhe ficava aquella pallidez, e +como a alvura da face realçava a côr negra das roupas que vestira em +signal de luto e de saudade! O brilho dos olhos, empanado pelo pranto +que tinha derramado, parecia ainda mais suave e meigo, e os loiros +cabellos, caindo-lhe ao desdem sobre o pescoço deslumbrante de brancura, +faziam-n'a assimilhar á imagem da Virgem que está pendurada na sala do +presbyterio, e que o senhor padre prior dizia ser copiada de um quadro +pintado por um italiano chamado Raphael. + +Chegou, e ajoelhou aos pés de um crucifixo, que então existia n'aquelle +sitio; porque n'esses tempos de fé viva, a imagem do Crucificado +apparecia em toda a parte para acolher em seu seio misericordioso as +orações dos fieis. O sol tinha surgido havia pouco do Oriente, e a +oração da candida virgem, pura como a rosa que abre o seio ao primeiro +alvor da madrugada, foi, perfume singelo, de fé e de innocencia, +conduzida pela brisa aos pés do throno do Senhor. + +Quando se levantou viu Raymundo em pé diante d'ella, de cabeça +descoberta, pallido e mal podendo conter as lagrimas que lhe bailavam +nos olhos. + +--Raymundo, disse ella desatando a chorar, e escondendo a cabeça no +peito do mancebo, não me deixes! + +--Não posso, Branca, tornou elle, apertando-a ao peito com anciedade; o +que pensariam de mim o rei, os ricos homens e os villões, se preso nos +teus braços me esquecesse do que devo a mim, ao rei e a Deus? Era um +nome deshonrado o nome de teu esposo, Branca, e não m'o podias acceitar. +A espada de meu pae, que outr'ora brilhou ao sol das batalhas com +deslumbrante fulgor, não póde jazer inerte a um canto do meu solar, em +quanto as achas de armas dos meus compatriotas escrevem nas paginas de +pedra, das fortalezas moiriscas, a historia sanguinolenta da +ressurreição dos godos. Bem vês, Branca, é um penoso dever; mas devo +cumpril-o. + +--E o nosso amor, Raymundo!--balbuciou a donzella, afogada em lagrimas. + +--Oh! cala-te, Branca, não vês que me despedaças o coração? Queres que +eu perca o animo, queres que o puro azul dos teus olhos me faça esquecer +que existe outro céo, outra ventura que não seja o teu amor, outro dever +que não seja o adorar-te? Não, Branca, não ordenes a minha deshonra; a +tua imagem seductora será a estrella que me ha de guiar no caminho da +gloria. Quaes serão as façanhas para mim impossiveis, pensando que o teu +sorriso será a recompensa do meu valor, e que será a tua mãosinha branca +e mimosa que me ha de limpar na fronte o suor dos combates e das luctas +sanguinolentas? + +--Mas quem sabe, Raymundo, tornou Branca, erguendo para elle os olhos +radiantes, ainda humedecidos das lagrimas que derramára; quem sabe se +n'esses paizes longiquos não encontrarás alguma formosa dama cujos +encantos te farão depressa olvidar a imagem da triste Branca, que dizes +ter gravada no coração? Oh! meu Deus, que horrivel idéa! Se tu me +esquecesses... + +--Que fazias, Branca? + +--Morria!--tornou ella com resolução. + +Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao pé do crucifixo. Alli, erguendo +os olhos para o rosto divino do Christo crucificado, bradou com voz +solemne e altiva: + +--Juro diante de Deus que morreu pregado na cruz para remir os homens do +peccado original, juro guardar-te sempre fé inteira e immutavel, como te +juraria se um sacerdote nos abençoasse ao pé do altar. És minha esposa +diante de Christo. Cáia sobre mim a vingança do céo se atraiçoar o meu +juramento. + +--Oh! obrigada, Raymundo, obrigada, clamou a donzella, lançando-se com +immenso ardor nos braços do mancebo e derramando copiosas lagrimas; +tambem eu juro amar-te sempre, meu Raymundo, amar-te com inalteravel +constancia, não viver senão com a tua imagem, não pensar senão em ti, +meu unico amor. E agora parte, accrescentou ella, erguendo-se com +inesperada resolução, vae conquistar um nome glorioso; a benção de Deus +vae comtigo, porque os nossos anjos da guarda, abraçados e de joelhos ao +pé do throno do Senhor, rogarão a Deus que proteja os esposos, cuja +união foi abençoada pelo Crucificado, saudada pelos canticos da +alvorada, perfumada pelos thuribulos das flôres, illuminada pelos raios +do sol nascente! + +Raymundo apertou-a ao peito com enthusiasmo; deu-lhe na fronte, com +timidez, um beijo, e montando n'um cavallo que o esperava a pouca +distancia, seguro por um pagem, partiu, dizendo com ardor: + +--Adeus, minha gentil esposa! + +--Adeus, meu adorado esposo! + +Estas palavras pronunciára-as ella, caindo ajoelhada aos pés da cruz. O +perfume das flôres, o canto dos passarinhos, o rumorejar das folhas, a +luz pura e serena do sol, tudo parecia abençoar o seu amor. Unicamente +no momento da despedida, uma nuvem ligeira passou por diante do astro do +dia e offuscou-lhe um pouco o brilho. + +Ai! Branca, timida Branca, nos momentos de felicidade uma ligeira nuvem +é indicio temeroso de tempestade! + + +II + + +«Passaram-se mezes e mezes--continuou o João; veiu o outono desfolhar as +arvores, e estender sobre a terra o seu manto de tristezas; depois o +inverno gelado agrupou as familias ao canto da lareira; voltou a +primavera sacudindo sobre os campos o seu regaço cheio de flôres e +verduras, voltaram as longas tardes do estio, e o sol ardente de agosto +veiu de novo doirar os pinheiros que ensombravam a cruz do precipicio; e +nem a triste Branca recebia noticias do seu noivo, nem Inigo Paes a +podia consolar com outras novas, que não fossem as que, logo pouco +depois da partida de Raymundo, tinham sido trazidas por um fidalgo que +voltava das terras do Algarve. + +Contava elle que vira n'uma renhida escaramuça o filho de Inigo Paes +estreiar-se no arduo mister do lidador d'aquellas eras. A estreia fôra +digna do nome honrado de seu pae. Contava o fidalgo que o tinha visto +arrojar-se aos moiros com valor sobrehumano, e abrir com a acha de armas +um largo e sanguinolento sulco nas fileiras mahometanas. Quando, no fim +da escaramuça, Raymundo Paes passou de viseira levantada junto dos +prisioneiros, estes, vendo o rosto delicado, o buço que lhe assombreava +levemente o labio superior, e a belleza quasi feminil do mancebo, não +queriam acreditar que fosse o mesmo que praticára prodigios de valor, e +ante o qual as cimitarras moiriscas voavam em lascas, decepadas pelo +montante que parecia manejado pelo braço de robusto montanhez. + +Estas noticias encheram de orgulho o coração paternal do velho +guerreiro. A Branca não succedia o mesmo. As façanhas que enthusiasmavam +Inigo Paes, faziam receiar á gentil donzella que Raymundo, arrastado +pelo seu ardor juvenil, fosse encontrar a morte no gume afiado de um +alfange mahometano. + +Assim correram os mezes, e as rosas do rosto de Branca desbotavam, +desbotavam até se trocarem nos lyrios que a desesperança ia fazendo +brotar nas faces da donzella. + +E Raymundo? Valente cavalleiro, não ha proezas que absolvam um perjuro, +nem as indulgencias, concedidas pelo santo padre aos defensores da fé, +são sufficientes para arredar de cima da cabeça do sacrilego o raio +fulminado pela mão do Omnipotente. + +Raymundo Paes, Raymundo Paes, que demonio fatal te arrojou aos pés da +cruz, e te dictou o terrivel juramento, que havias de esquecer tão cedo? +Ai! cavalleiro, ainda o vento do outono não desfolhou a verde grinalda +que enramava a cruz do precipicio, e já o vento da inconstancia fez +murchar o candido affecto que floria em teu peito, e que juráras +conservar tão puro e tão sem mancha, como era pura e immaculada a imagem +d'aquella que t'o inspirou. + +Ai! Branca, timida rôla, que, escondida na espessura, a sós com as tuas +tristezas, pranteias a ausencia do ingrato que te esqueceu, mal sabes tu +que, em quanto fitas o olhar melancholico na lua pallida como o anjo da +saudade, e pareces perguntar-lhe mudamente se o teu olhar se cruza no +espaço com o olhar saudoso do teu gentil campeão, elle, o perfido, o +perjuro, o sacrilego, esquece nos braços de outra o teu amor de virgem, +o teu modesto encanto, as tuas graças infantís. + +Durante os primeiros tempos, as meigas recordações do seu amor de +creança arderam dentro d'elle tão vivas e tão serenas, como arde viva e +serena a lampada do altar no recinto sagrado da egreja christã; se uma +tentação má lhe surgia no animo, e lhe mostrava á luz de um relampago +infernal mundos desconhecidos de prazer vertiginoso, era logo repellida +pelo saudoso mancebo, que conservava o coração perfumado de innocencia, +como sanctuario florido, onde o christão abriga devotamente a imagem da +Mãe do Salvador............................................................ +........................................................................... +........................................................................... + +Era por uma noite sombria, calada e mysteriosa, noite propria como +nenhuma outra para emboscadas e ardis de guerra. N'essa noite, n'um +alcaçar moirisco, situado em terras do Algarve, dormiam socegados os +perros descridos, confiados na vigilancia das atalaias, e certos que os +rudes batalhadores de Christo, vencidos do cansaço, concederiam +involuntariamente treguas aos filhos de Mafoma. Os almogavares, voltando +das suas excursões, não tinham trazido novas de movimento algum no +exercito christão. Dormiam as almenaras no cimo das montanhas, e a +atalaia, vigiando no alto da torre, não estremecêra vendo uma pluma de +fogo accender-se de repente, e, ondulando nos ares, dar signal da +apparição dos nazarenos. Quão enganados estavam, e essa serpente de +ferro, que se enrosca ás muralhas da fortaleza, vae acordal-os +inesperadamente do seu somno voluptuoso! + +De repente o grito de S. Thiago é ávante! echôa nas barbacans do +alcaçar, e as sentinellas, caindo apunhaladas sem terem tempo de soltar +um grito, pagam com a vida a sua indolencia descuidosa. + +Que scena de confusão no meio das trevas! Os gemidos dos moribundos, os +gritos das mulheres, as blasphemias dos guerreiros surprehendidos +cruzam-se com os gritos de victoria dos cavalleiros portuguezes. Apenas +de quando em quando um ou outro arabe mais destemido arranca da +cimitarra, e faz brotar centelhas instantaneas, cruzando-a com o pesado +montante christão. Não tem quartel os vencidos; os vencedores sequiosos +de sangue transformam n'aquelle momento o valor do guerreiro na +ferocidade do assassino. Eras de barbaridade! Já vão longe, felizmente. + +Raymundo vae entre elles. Embriagado pela carnificina, descarregava ás +mãos ambas a acha de armas sobre os que pretendiam fugir á sorte de seus +irmãos. De repente um vulto feminino roja-se-lhe aos pés, suspende-lhe o +braço já levantado para descarregar o golpe, e com uma voz melodiosa +como o sussurrar da brisa nos ramos do salgueiro, murmura em portuguez: +Perdão! + +A lua, que até ahi se conservára escondida entre nuvens, desembaraçou-se +afinal do seu manto sombrio, e veiu acariciar com os raios da luz serena +as faces tostadas da arabe gentil. + +Nunca Raymundo vira um rosto tão diabolicamente tentador! Eram uns +labios onde se viam arfar promessas voluptuosas de beijos delirantes. +Eram uns olhos negros, onde brilhavam as chammas do desejo, as labaredas +infernaes da tentação! Eram as tranças negras fluctuando sobre o collo +nú, que a brisa beijava com delirio, roubando-lhes perfumes inebriantes, +que vinham enlouquecer o ingenuo amador da casta Branca. E elle sentiu a +febre do desejo a vir escaldar-lhe o sangue, sentiu uma ignota anciedade +vir opprimir-lhe o peito. Era o terrivel despertar dos sentidos n'um +rapaz de dezoito annos. Eram as tentações da voluptuosidade, eram as +commoções do prazer sensual, era um demonio desconhecido que lhe vinha +murmurar ao ouvido os vagos encantos de mysteriosos amores. + +Raymundo sentiu o perigo, e quiz afastar-se d'elle. Repelliu-a, e, +invocando a imagem de Branca, quiz fugir da tentação fatal; mas a moira, +enroscando-se a elle, como a serpente se enrosca ao corpo do homem +fascinado pelo poder invencivel do seu olhar, murmurou: + +--Não me deixes, nazareno. Os teus olhos são negros como noite sem +estrellas; mas são transparentes como o espelho das aguas. Porque havias +tu de ser cruel como a hyena do deserto, se és bello e magestoso como o +leão das selvas? Olha, sou tão nova! Ainda a amendoeira não floriu vinte +vezes, desde que minha mãe me apertou pela primeira vez ao seio +palpitante. Salva-me, salva-me e serei a tua escrava. Servir-te-hei de +joelhos como a meu senhor e amo, cingir-te-hei a armadura, adivinharei +os teus caprichos, e adorar-te-hei como adoro o propheta de Medina. +Ouves? Filho dos christãos, salva-me, salva-me! + +--Deixa-me, tentação do demonio, bradava Raymundo com voz balbuciante; +deixa-me, anjo das trevas; deixa-me, enviada de Satanaz. + +--Não, tornou a amaldiçoada, approximando os labios vermelhos como a +flôr de romanzeira dos labios de Raymundo. Sou bella, e amo-te! Sou tua, +e tu és todo meu, porque te vejo torcer desesperado nos braços de fogo +do prazer. Amas-me, e eu... sou tua. + +--Amo-te, amo-te, bradou Raymundo, caindo oppresso aos pés da musulmana. + +Ai! Branca, timida Branca, chora o teu amor profanado! N'esse momento +fatal o anjo da guarda do teu amante velou com as mãos o rosto +celestial, que as lagrimas inundavam, e foi, suspenso n'um raio da lua, +prostrar-se aos pés do throno do Omnipotente! + +Entrado na senda da perdição, não havia poder humano que salvasse +Raymundo da condemnação eterna. Tinha vendido a sua alma por um beijo de +fogo, e trocára o paraizo pelo inferno da voluptuosidade. Profanado o +terrivel juramento, o que havia de sagrado para Raymundo? O que +importava a honra de cavalleiro a quem prostituira a santa crença de +seus paes? Apagára-se a candida estrella que o guiava nas trevas da +existencia, e a luz, que o fascinava, scintillava nos olhos negros de +Zoraida, a gentil amaldiçoada. Se tinha reflexos infernaes, tinha tambem +o esplendor prestigioso da tentação sensual. + +Desde essa noite ninguem mais soube d'elle. Diziam que renegára, e que, +enlaçado nos braços da musulmana, fechára os olhos á luz do +christianismo, e se arrojára ao abysmo infernal, onde ha o fogo eterno e +o eterno ranger de dentes. + +Foram estas as noticias que Branca recebêra, no dia em que fazia um anno +que Raymundo a deixára. Não disse palavra ao receber a nova fatal. Saiu +e caminhou pallida, hirta e vagarosa como estatua adormecida n'um +tumulo, que, obedecendo a feitiço desconhecido, se erguesse do seu leito +de pedra, e se dirigisse muda para o sitio aonde a chamava a attracção +mysteriosa. + +Os aldeãos, que a encontravam, paravam para a saudar. Mas ella nem os +ouvia, nem parecia vêl-os. Costumados á amabilidade da fidalguinha, +ficavam os coitados boquiabertos, ao vêrem a desusada distracção. Mas, +se lhe reparavam nas feições demudadas, vendo a pallidez de marmore, os +labios brancos e entre-abertos, os olhos fixos e esgazeados, benziam-se +devotamente, e murmuravam que era mau olhado que tinham dado á menina do +castello. + +Assim caminhou até chegar ao sitio do Açude. Ajoelhou junto da cruz, e +um aldeão, que a seguia de longe, viu-a rezar muito tempo, e abraçar os +pés do Crucificado. Depois, chegou á beira do precipicio, e sem +hesitação, sem fraqueza, despenhou-se no abysmo. O corpo gentil +ennovelou-se nos ares, e foi despedaçar-se nas pedras da cascata, +espirrando ondas de sangue que tingiram de purpura o manto de espuma que +envolvia as rochas. As aguas do rio abriram-se para tragar o cadaver, e +depois continuaram indolentes a correr, e a murmurar o seu eterno +cantico, como se não se tivesse escripto alli o epilogo de um drama +desventurado. + +O aldeão, que vira de longe a scena fatal, sem poder obstar ao seu +inesperado desenlace, fugiu dando um grito de horror, e foi contar ao +castello o que presenceára. Quem perdeu alguma vez, de modo tão +terrivel, um ente estremecido, avalie a dôr do triste pae de Branca. Eu +não a sei narrar. Sente-a o coração, mas os labios recusam-se a +exprimil-a. Veiu depois gente do castello, e tiraram do fundo do +precipicio o cadaver horrivelmente desfigurado da gentil donzella. +Enterraram os restos d'aquella pobre martyr aos pés do Crucificado, que +ouvira a sua ultima prece, e a quem pedira talvez perdão do crime que ia +commetter. Plantaram ao pé da cruz roseiras e madresilvas, cujo perfume +suavissimo ia levar ao longe a ultima recordação da que tivera na terra +a corôa da innocencia, e tinha agora nos céos a palma do martyrio.» + +--Pobre rapariguinha, interrompeu o mestre lagareiro com mostras de +penalisado, dar cabo de si por causa d'aquelle patife! + +--Então que quer vossemecê, _sô_ Manoel dos Reis, coisas que acontecem, +tornou o narrador, ninguem póde fugir á boa ou má sina, que Deus lhe +deu. Era aquella a sorte de Branca, havia de cumpril-a. + +--Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, com +enthusiasmo! Que fez Raymundo? O que aconteceu a Zoraida? Quero saber +quem é por fim de contas o phantasma do Açude. + +«Raymundo, meu fidalgo, não via senão Zoraida n'este mundo. Um capricho +d'ella valia mais do que um mandado de Deus. + +Christão tripudiou com a infame sobre a cruz despedaçada do Redemptor; +cavalleiro, quebrou a espada de seu pae para que esse espelho de honra +não lhe reflectisse constantemente toda a hediondez do seu crime, +fidalgo e portuguez, salpicou de lama o brazão de seus maiores, e +abandonou a defeza da patria, quando ella reclamava o auxilio de todos +os seus filhos. Aqui está o que se póde chamar um amor de perdição! + +Uma noite chovia agua se Deus a dava, o vento fazia tremer as casas, e +curvava até ao chão os pinheiros agigantados! A trovoada estalava com +medonho estampido, os relampagos cingiam a terra com o seu cinto de +chammas, e os raios vinham de vez em quando, lascando as rochas, +transformar as arvores em archotes colossaes. O temporal era como nunca +se tinha visto n'esta terra, nem nunca mais se tornou a vêr, porque +todos dizem que a procella d'aquella noite era obra de Satanaz. No Açude +principalmente era medonho o aspecto da tormenta. O rio furioso arrojava +borbotões de espuma, que se cruzavam com os raios, que vinham lamber as +rochas com as suas linguas de fogo. Deus me perdôe, mas o temporal de +hoje tem algumas parecenças com a tempestade d'essa noite infernal. +Quer-me parecer que tambem hoje anda fazendo das suas o inimigo do +genero humano.» + +Um calafrio de horror correu pela assembléa. Todos se chegaram mais para +o pé do lume, e olharam uns para os outros benzendo-se silenciosamente +ao passo que lá fóra gemia o vento com voz soturna na porta carunchosa +do lagar. + +«N'essa mesma noite Raymundo e Zoraida atravessavam a cavallo o +pinheiral que termina no Açude. A reprovada de Deus folgava com noites +tempestuosas, e nunca se sentia tão bem como quando os raios lhe +illuminavam a estrada, e o trovão respondia magestoso á sua voz +blasphema. + +--Olha a cruz do nazareno, bradou Zoraida quando chegaram á cruz do +precipicio; não vês, Raymundo, como a chuva açoita irreverente o rosto +do martyr do Calvario! Porque não transforma elle os raios, que fulminam +a cruz abandonada, em cimitarras de fogo que façam rolar a seus pés a +cabeça da condemnada, da filha de Mahomet? + +E ella ria,--ria com umas gargalhadas estridentes, que vibravam +sinistras dominando os ruidos da tempestade, e que, repercutidas pelos +echos do abysmo, tinham um não sei quê de infernal. Raymundo estremeceu. + +--Não zombes d'esta cruz, respondeu elle com modo sombrio; quando eu era +innocente--e suspirou--vinha aqui ajoelhar muita vez. Não zombes d'esta +cruz, peço-t'o. + +Zoraida fitou por muito tempo n'elle o seu olhar aveludado, fascinante, +diabolico e tentador. Era incomprehensivel a magia d'esse olhar, e mais +incomprehensivel ainda o dominio que exercia no moço cavalleiro. +Dir-se-ia que dois sentimentos oppostos combatiam no coração de +Raymundo: de um lado a repugnancia, a rebellião da vontade, do coração, +do espirito contra aquelle demonio oppressor; do outro lado uma +attracção irresistivel, fatal, que o arrastava a seu pesar, e o +prostrava aos pés da musulmana. + +Venceu o anjo mau. Raymundo curvou-se sobre o pescoço do cavallo, ebrio +de amor ou de desejos fitou um olhar frenetico nos olhos de Zoraida, e +quando ella, com um sorriso de escarneo, se approximou da cruz, e cuspiu +no rosto do Crucificado!... elle, vencido pelo demonio, imitou-a, rindo +com um riso convulso e doloroso, que fazia horror.» + +--Jesus!--bradaram os circumstantes. + +O vento abriu a porta do lagar, e á luz de um relampago viu-se o campo +devastado pelo vendaval e inundado pela chuva; um trovão medonho fez +benzer todos, e emmudecer o narrador. Chegaram-se mais ao lume, e +olharam uns para os outros. Estavam todos pallidos e tremulos. + +--Aconteceu exactamente o mesmo que aconteceu agora, continuou o João +Moedor com a voz a tremer-lhe um pouco; a luz de um relampago deixou vêr +uma loisa aos pés da cruz, e o nome de Branca inscripto sobre a pedra. +Um trovão formidavel ribombou sobre a cabeça dos dois amaldiçoados, e a +campa estalou como se fosse de vidro. O phantasma de Branca, involto em +candidas roupas, e com a fronte cingida de rosas virginaes, ergueu-se da +sepultura, fazendo recuar Raymundo horrorisado. Este quiz desviar a +vista, e o phantasma seguiu o movimento dos seus olhos; quiz tapar o +rosto com as mãos, e as mãos fizeram-se-lhe transparentes, deixando vêr +ainda a imagem da donzella serena como uma santa, triste como uma +martyr, impassivel como o destino. Quiz enterrar os acicates nos ilhaes +do cavallo, e o cavallo esvaiu-se como fumo, adelgaçando-se, e +escapando-lhe por entre os joelhos, como um pedaço de neve que o sol +derrete nas montanhas. Raymundo deu um grito de horror, e estacou +petrificado. + +Então voltou os olhos para Zoraida, e ficou aterrado da transformação da +sua amante. O rosto, cuja belleza o fascinára, fizera-se negro, mais +negro do que o carvão. Scintillavam os olhos como duas brazas, e nos +labios volteava-lhe um sorriso de ironia. O braço assetinado que beijára +tanto, estendia-se para elle terrivel e ameaçador. Raymundo, por um +esforço supremo de vontade, recuou dois passos, mas o braço estendeu-se, +estendeu-se, tornou-se desmesurado e apertou-lhe o pescoço, queimando +como se fôra uma tenaz ardente. + +--Não me foges, bradou ella com voz rouca, vendes-te-me a tua alma, +renegado. Segue-me, segue-me. Pertences-me. Vem, que o inferno celebra +hoje o nosso noivado. Os raios são os fachos do hymeneu, e Lucifer o +sacerdote. Vem, é este o leito nupcial. + +E, arrastando-o com uma força irresistivel, precipitou-se com elle no +abysmo. Um clarão avermelhado illuminou as aguas da torrente, que +exhalaram um cheiro nauseabundo de enxofre. + +Mas o phantasma de Branca ficára ajoelhado aos pés da cruz, implorando o +perdão do condemnado. No rosto de Christo, suavemente illuminado, +resplandecia um vago arraiar precursor da aurora da misericordia. + +Apenas Zoraida desappareceu, desfez se o encanto. Serenou a tempestade, +e a brisa perfumada da noite veiu timida brincar nas rosas do tumulo de +Branca. + +Mas ainda hoje, em dias de vendaval, se vêem duas sombras terriveis +correndo para o precipicio, uma horrorisada, tremula, arrastada, a outra +com uma alegria feroz no semblante. Aos pés da cruz vem então ajoelhar +uma sombra com o rosto inundado de lagrimas celestiaes. + +É que Raymundo ainda está cumprindo as penas do purgatorio, e Branca, o +anjo do Senhor, sem deixar de implorar a misericordia divina para +aquelle que tanto a fez soffrer, mas a quem tanto amou! + + * * * * * + +--Era inevitavel, disse, rindo, Lucio Valença depois de feitos os +cumprimentos do estylo, eu estava já prevendo que iamos descambar em +plena edade média. O nosso amigo Roberto Soares não póde dispensar-se de +consagrar um vivo affecto ás couraças da sua adolescencia, e ás achas +d'armas da sua creação. Fez-nos voltar para 1830 o nosso bom amigo. + +--E não era epocha tão má como isso a tal de 1830, disse Roberto Soares. +Abusava-se do veneno e do punhal e dos solares e das chacaras e dos +cavalleiros que voltavam da cruzada, mas, como dizia Musset, um dos +romanticos do tempo: + + Hugo portait déjà, dans l'âme + Notre-Dame, + Et commençait à s'occuper + D'y grimper. + +--Não ha duvida, não ha duvida, acudiu o doutor Macedo, e Lucio é de +certo o primeiro a prestar homenagem a essa epocha da potente +efflorescencia litteraria; mas, por Deus, tornou elle interrompendo-se +com espanto, está já vencida a meia-noite; a sr.^a D. Isaura adormeceu! + +Era verdade; Isaura, que não tinha de predilecções litterarias senão o +_quantum satis_ para ser senhora da moda, enfastiada já d'estas +repetições de historias phantasticas, resistira um momento ao somno que +a perseguia, mas, quando se entrára na historia dos amores de Raymundo e +Zoraida, fôra a pouco e pouco encostando a cabeça para traz, e +adormecera profundamente. + +--Podéra, pensou de si para si o nosso Henrique Osorio, teimando em vêr +em Isaura uma menina toda idealisadora, e capaz de apreciar os mais +elevados prazeres do espirito, podéra! Eu mesmo me vi em ancias para +resistir ao somno. Quem atura hoje um d'estes soláos cançados e gastos +que deliciaram a velha geração, com os seus cavalleiros de armas negras, +e os seus diabos disfarçados em mulheres formosas, e os seus fidalgos +que venderam a alma a Satanaz como na _Dama Pé de Cabra_, de Alexandre +Herculano, ou na _Torre de Caim_, de Rebello da Silva? Isso foi bom no +seu tempo, hoje está longe do maravilhoso moderno, e Isaura, com a fina +intuição do seu juvenil espirito, não pôde commover-se com esses velhos +_trucs_ de magica, resuscitados ingenuamente pelo Roberto Soares para +nos entreter á meia-noite. + +Emquanto Henrique Osorio fazia de si para si esse monologo, Leonor +acordava a sua amiga, que, abrindo sobresaltada os olhos, foi acolhida +por um riso jovial de todos os seus companheiros de noitada. + +--Venceu-se ou não se venceu? dizia o doutor Macedo. Veja v. ex.^a se +hoje lhe produziu a mais leve impressão a meia-noite, e se lhe deram +muito cuidado os phantasmas. + +--Ah! meu Deus, eu peço-lhes mil desculpas, disse Isaura um pouco +envergonhada. É que estou fatigada das noites passadas em claro, porque +o peior não é aqui, o peior é depois quando vou para o meu quarto. +Custa-me a conciliar o somno, e vem ás vezes pesadelos terriveis +perturbar o meu dormir inquieto. + +--Minha senhora, exclamou, rindo, o doutor Macedo, nem tudo são rosas no +tratamento de uma enfermidade. Pois v. ex.^a não sabe que são muitas +vezes amargos os remedios salutares? Então julgava que, para ter uma +cura radical, bastava-lhe ouvir aqui lêr contos, n'uma sala confortavel, +cheia de luz, a dois passos do seu papá, e apertando a mão da sua amiga? +Nada! nós aqui doiramos-lhe a pilula. Se depois lhe sente no seu quarto +o amargor, paciencia! Mithridates é de crêr que tambem não achasse aos +venenos o gosto da ambrosia. Afinal bebia-os como quem bebe agua. V. +ex.^a hontem dormiu mal, hoje ha de dormir melhor, d'aqui a dois dias +chega a tornar-se-lhe necessaria uma historia de phantasmas para +adormecer profundamente. + +--Ah! doutor, eu ao menos peço treguas. O sr. Henrique Osorio, hontem, +com a sua alameda transformada em cemiterio, e com essa mulher pallida +desenterrada, atacou-me os nervos de tal fórma que fiquei devéras +enferma. Cheguei a suppôr que eu mesma era uma defunta. + +O proprio Henrique Osorio é que ficou devéras atordoado! Decidídamente +Isaura não lhe perdoava a creação do typo de Julieta que elle julgava +que tanto devia lisongeal-a. Persistia em acreditar que elle não tivera +outro intento senão o de lhe chamar desenterrada. + +--Minha senhora, disse elle, eu sinto realmente profundissimos remorsos +por ter assim concorrido involuntariamente para a magoar. Creia v. ex.^a +que a minha intenção era boa, continuou elle em voz mais baixa; se depuz +a seus pés um ramalhete de goivos em vez de um ramalhete de rosas, foi +porque as flôres funereas eram as unicas que a nossa regra me permittia +que colhesse. + +Isaura era _coquette_, e, sentindo n'esta phrase um aroma de galanteio, +vibrou a Henrique um olhar fascinador. N'este momento, porém, o doutor +Macedo levantou-se, e, depois de ter pedido licença para ir accender um +charuto, cantarolou, puxando uma baforada de fumo, com musica +desconhecida, esta quadra de Thomaz Ribeiro: + + Trazes agoirento goivo + prezo em negros passadores! + Disse-te acaso o teu noivo + que tinhas novos amores? + +--O dr. Macedo, murmurou Isaura, voltando-se para Henrique Osorio com +uma expressão no olhar muito diversa da que primeiro lh'o illuminára, o +dr. Macedo está-me explicando involuntariamente o sentido da sua offerta +do ramalhete de goivos. É um epigramma, sr. Osorio? + +--Minha senhora, respondeu Henrique desesperado, estou por tal fórma +infeliz com v. ex.^a! V. ex.^a interpreta de um modo tão singular todas +as minhas palavras, e todas as minhas acções, que desisto de as explicar +de um modo satisfatorio. + +Estava verdadeiramente mortificado. Levantou-se comprimentando +seccamente a sua interlocutora. Dirigiu-se a uma janella e abriu-a para +respirar mais á vontade. As reclamações dos circumstantes obrigaram-n'o +a fechal-a de novo. Isto ainda mais o desesperou. Estavam-se fazendo as +despedidas. Leonor, ao passar junto d'elle, disse-lhe com um riso +malicioso, e em voz baixa: + +--É para que tu saibas o que valem os galanteios funebres. + +--Olha, sabes que mais, Leonorsinha? tornou Henrique bruscamente, +occupa-te das tuas bonecas. + +A pobre senhora sentiu a dôr profunda do golpe. Recuou um passo, levou a +mão ao coração, e marejaram-lhe nos olhos duas lagrimas. + +--Perdão, menina, acudiu Henrique, caindo em si. + +--Estás perdoado, respondeu Leonor com voz fraca, mas... mas como tu a +amas! + +Saiu. Se se demora mais um instante, rebentavam-lhe os soluços mesmo +diante de Henrique. + +O doutor Macedo, ao passar por diante de Osorio, parou, e disse +declamatoriamente: + + _Si je vous le disais pourtant que je vous aime, + Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?_ + +--Está fallando por enigmas poeticos, doutor, exclamou Henrique +impaciente. Quer fazer concorrencia ao _Diario Illustrado_, ou ao +_Jornal da Noite_? + +--Não, disse o doutor, quero apenas dizer, com palavras de Alfredo de +Musset, que passam muitas vezes duas pessoas ao lado uma da outra, sem +saberem os sentimentos que vivem nas suas duas almas, e que, se ousassem +exprimil-os, voariam a encontrar-se. + +--A solução no proximo numero, não é verdade, doutor? tornou Henrique, +impaciente. + +--Talvez, redarguiu o doutor. + +E saiu, ao passo que Henrique Osorio encolhia os hombros com desdem. + + * * * * * + +Na seguinte noite, antes de chegar a hora fatidica, o doutor Macedo +pediu a palavra. + +--Minhas senhoras e meus senhores, disse elle, desenrolando um +manuscripto, se não espero o bater da meia-noite, é porque o romance que +vou lêr precisa de um prologo, e á meia-noite em ponto o que deve entrar +em scena é o elemento phantastico. Seja dito sem envolver nem a mais +leve censura aos illustres preopinantes que se afastaram d'esta regra. +Não é meu este romance, o seu auctor deseja conservar o incognito... + +--São prohibidas as substituições, bradou Lucio, rindo, serviço +obrigatorio! + +--Mau! Não me interrompam! O auctor é um dos nossos collegas, não direi +mesmo se está presente. Faz o seu serviço, mas provisoriamente quer +conservar a mascara. Ora diz Gennaro na _Lucrecia Borgia_, pouco mais ou +menos, o seguinte: A mascara de uma senhora é tão sagrada como a face de +um homem. É assim ou não é, Soares? É assim, romantico? + +--Será, mas o que d'ahi deduzo é que o auctor é uma das nossas amaveis +companheiras de serão. + +--As conjecturas são permittidas, mas vae dar a meia-noite, e eu, +conformando-me com os preceitos do regimento, passo a lêr a _Egreja +profanada_. + +No meio do mais profundo silencio, em que se sentia a avida curiosidade +dos ouvintes excitada pelo mysterio em que se envolvia o conto, o +doutor, que lia admiravelmente, começou assim: + + + + +A EGREJA PROFANADA + + +I + + +Corre socegada a noite, mas não brilha a lua no céo a espargir +tristezas, escondendo um devaneio, um sonho de poeta em cada uma das +pregas da sua candida tunica; scintillam apenas as estrellas no véo +escuro do firmamento. + +Formosas são as noites estrelladas, mas não teem a suave melancolia das +noites de luar; enleva-se-nos o espirito ao contemplar essas myriades +d'orbes luminosos; porém os raios da lua teem uma linguagem mysteriosa +que nos falla ao coração. + +Quando no véo nocturno brilham sem rivaes as estrellas, como que +percebemos a magestosa melodia das espheras; mas, quando a lua illumina +a terra com a sua doce luz, ouvimos então no espaço vagos canticos de +saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador que se perde ao +longe nas ondas, toada de pegureiro, que vem desfallecida expirar no +nosso ouvido, intimas melodias, que nos dizem: «amor e tristeza.» + +Porque as estrellas são desdenhosas rainhas d'outros céos, sóes de +outros mundos, que nos enviam, como que por descuido, um signal de sua +grandeza, um tenue raio da sua immensa luz, em quanto a lua é a +extremosa amante, que prendeu á nossa a sua existencia, a companheira +que nos segue incessantemente n'essa viagem sem fim, que emprehendemos +pelo espaço. + +As estrellas tornam mais profunda a solidão, e mais espessas as trevas. +Os bosques, os valles, as montanhas conservam-se envoltos n'um véo +sombrio, por mais que os raios dos sóes da noite se esforcem por +penetrar na escuridade; as ondas baloiçam com indifferença os seus +reflexos, e não fazem caso das palhetas doiradas que avivam aqui e ali a +candidez da sua fimbria espumosa. + +Mas, quando surge a lua, a natureza anima-se. Desperta a viração nos +antros perfumados das florestas, que exhalam vivissimos aromas. As fadas +vem pentear as suas loiras tranças no espelho das fontes, cuja +crystallina superficie palpita de prazer. Jorram torrentes de prata pela +falda dos montes, scintillam diamantes na folhagem das arvores. Erguem +se as ondas em vago enleio de voluptuosidade, como seio de virgem que +arfa pela vez primeira. Rescende o meigo perfume no thuribulo da +violeta. Rescende a saudade no thuribulo do coração. + +As estrellas são os anjos de Deus, que entoam lá ao longe, nas +profundidades do Empyreo, o hymno ás glorias do Eterno; a lua é o +archanjo consolador que presta um ouvido compadecido aos lamentos da +humanidade. + +As estrellas são os candelabros de oiro, que ardem constantemente diante +do throno do Altissimo; a lua é a urna argentea onde se transformam as +lagrimas dos que soffrem em perolas, que os anjos entornam no regaço do +Omnipotente. + +As estrellas são o enlevo do philosopho, a lua é enlevo de poetas. + +Porque as estrellas revelam o poder de Jehovah, a lua a caridade do +Redemptor. + +Mas vae a noite socegada, e a luz dos fachos da abobada celeste +scintilla frouxamente na face adormecida do mar. As vagas erguem-se +vagarosamente, enroscam-se a pouco e pouco, caminham em longa fileira +para as praias, e alastram no areial o seu manto escuro. + +Negra, bem negra está a superficie do Oceano; os raios das estrellas, +naufragos luminosos, debatem-se com as ondas, que mal conseguem doirar. +Do seio d'essas trevas sae um gemido cavernoso. É a voz eterna do +liquido leão, é o rugir tranquillo mas terrivel do monarcha da +immensidade. + +Não param as vibrações nas espumosas cordas da harpa dos abysmos; ora +plangente, ora formidavel, o cantico incessante resôa no espaço. + +E que diversidade de vozes não ha n'esse concerto immenso! o magestoso +ruido das ondas ao assoberbarem-se lá no mar alto, o grito que resulta +do embate de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de raiva que +soltam quando espadanam nos rochedos da praia, o suspiro amoroso que +desprendem ao beijarem o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de +agua ao despedirem-se a custo das conchas das ribas, o lamento que +exhalam ao açoital-as o vento, tudo isto se resume n'um hymno sublime, +intraduzivel, como os poetas os sonham, mas não escrevem. + +Ó mar! A opulenta imaginação da antiguidade grega povoou de sereias as +tuas ondas, poisou no cimo d'estas o velho Glaucus, com as suas barbas +limosas, com a sua voz aterradora, poisou no teu leito de espuma ora a +rosea concha Acidalia em cujo seio se abrigava a candida Aphrodite, ora +a seductora Lamia, ora as horriveis Gréas, e nem assim conseguiu +traduzir o indizivel encanto com que nos attraes, e o vago terror que +nos incutes, a suavidade da tua voz, e a selvagem energia dos teus +hymnos! Ó mar immenso, que lyra infeitiçada te deu o Senhor, de que +mysteriosa seducção impregnou as tuas solidões? + +Assim perdido nas trevas como é magestoso o Oceano! Nem uma véla se +distingue na immensidade solitaria! Ainda n'aquelle isolamento, não +descontinúa o fadario das ondas! Vão, vem, atropellam-se, espraiam-se, +beijam se, desmaiam, agitam-se, revolvem-se, cantam, suspiram, e, lá ao +longe talvez, algum scismador, encostado ao peitoril da sua janella, ao +ouvir aquelle ruido ineffavel, pensa na eternidade, e em Deus! + +Comtudo bem junto da praia, a pouca distancia de uma casa cuja fachada +branca mira silenciosa a eterna agitação do Oceano, que envia ás vezes, +de enamorado, uma das suas ondas a beijar-lhe os pés, baloiça-se +indolentemente uma barca, onde dorme um pescador, cujo somno é +acalentado por esse murmurio suave. + +As ondas embalam tão docemente o bote, como carinhosa mãe póde embalar o +berço do recem-nascido. + +A uma das janellas que se rasgam na fachada branca da casa da praia, +encosta-se um vulto de mulher. Em baixo está um outro vulto varonil e +elegante. Ouve-se, por entre o concerto das vagas, o mysterioso segredar +de duas vozes. + +Leandro e Hero, Rosina e Almaviva, Julieta e Romeu! + +O bramir do mar abafa o manso ruido das vozes. Mas o rugido do Oceano, e +o flebil sussurrar dos namorados chegam, em murmurio egual, ao throno do +Omnipotente: porque são duas notas do hymno immenso do Universo, que se +resume n'uma palavra «Amor.» + + +II + + +Tudo n'este mundo acaba, inclusivamente as doces palestras enamoradas. +Mais infeliz do que a desditosa heroina de Shakespeare, a donzella da +casa da praia não pôde esperar que o grito matinal da cotovia saudasse o +alvorecer. Ainda a noite não chegára ao meio do seu giro, e já era +forçosa a separação. + +Trocaram-se suaves promessas, mil vezes se affastou o nosso Romeu da +fachada branca, mil vezes voltou a ella, como se as ondas, que lhe +vinham quasi banhar os pés, o arrastassem comsigo nas incessantes +ondulações do fluxo e do refluxo. + +Afinal a palavra «Adeus» escoou-se, como um timido murmurio, pelos +labios dos dois namorados; o elegante moço affastou-se rapidamente, e, +dando um pulo bem calculado, foi cair em pé dentro do barco, que as +ondas baloiçavam. + +Ao choque inesperado acordou em sobresalto o barqueiro. Ergueu-se á +pressa, e, depois de reconhecer seu amo, fitou os olhos com certa +inquietação no céo estrellado, chronometro infallivel dos homens do mar. + +--Ah! senhor, disse elle com a voz entrecortada, que tanto se demorou! É +forçoso apressarmo-nos, e não sei ainda se chegaremos a tempo á praia. + +--Que medo tens tu, homem? perguntou o que embarcára, sentando-se +commodamente na pôpa do bote. Está o mar de leite, e nem a mais ligeira +brisa lhe agita as ondas, nem uma nuvem ameaçadora assoma no horisonte! +As tempestades repousam, amigo! + +--Não temo a procella, tornou o barqueiro, abanando a cabeça; eu e o +vendaval somos conhecidos velhos, e não me assusta a tormenta em noite +escura, nem receio ser engulido pelas ondas! Assim como assim um homem +ha de morrer uma vez, e vale mais adormecer livremente envolto n'esta +mortalha de espuma, do que ser cozido n'um lençol branco, e mettido em +uma cova, onde o nosso pobre corpo nem uma vez só se poderá regalar com +o cheiro da marezia! Mas ainda que a temesse, não é n'uma noite d'estas +que um velho marujo receia a tempestade. V. s.^a tem rasão: o mar está +de leite, e o barco ha de deslisar tão commodamente por sobre as suas +aguas como uma carruagem por cima da poeira da estrada real. + +--Então o que te assusta, meu velho? + +--Está quasi a dar meia-noite, senhor. + +--Percebo! Receias que o fuso da tua companheira não corra tão +ligeiramente nas suas mãos enrugadas, de farta que esteja de te esperar. +Socega, homem! Irei eu mesmo acalmar as rabugices da Catharina, e +prometter-lhe uma estriga de linho para os serões do inverno. Verás que +a velhita ha de ficar tão contente, que nem pensará em ralhar comtigo +por causa da desusada demorada. + +--Não esteja com cuidado na Catharina, senhor, que ella bem sabe que me +não demoro por culpa minha. Oh! se sabe. Antes de ser velha desdentada +já foi moça e louçã, e ha de se lembrar de como nós esqueciamos as +horas, que passavam, ella sentada á porta da choupana a concertar as +rêdes de seu pae, eu assentado no areial a fallar-lhe fallas de namoro, +que lhe punham o rosto mais vermelho do que uma rosa de maio. Ainda não +é isso, meu amo. + +--Então o que é, finalmente? perguntou o seu interlocutor, já um tanto +enfadado. + +--É que não resulta bem algum ás almas de dois christãos de estarem +assim no mar por estes sitios ao bater da meia-noite. + +--Porque? + +O barqueiro olhou com inquietação em torno de si, e depois murmurou em +voz baixa que mal se ouvia: + +--É por causa da _egreja profanada_! + +O esbelto moço olhou espantado para elle. + +Durante a conversação, o pescador desamarrára o barco, e, lançando mão +dos remos, déra-lhe um impulso vigoroso. Jà estavam longe da praia, as +ondas vinham bater no costado do bote com um murmurio queixoso, que +acompanhava o som compassado do bater dos remos na agua. + +O pescador tornou a fitar o céo com inquietação, e, sem responder a uma +nova pergunta do seu passageiro, curvando-se para diante, metteu os +remos nas ondas, e, entezando depois os musculos vigorosos, fez, +erguendo-os de novo, espadanar uma cascata de espuma de cada lado do +ligeiro bote. + +Este, como um corsel generoso, que ao sentir enterrarem se-lhe nos +ilhaes as esporas do cavalleiro, se empina primeiro, depois, sacudindo +as crinas, desata em vertiginoso galope, e, saltando de um pulo uma +onda, que vinha orgulhosa para elle, deslisou por sobre as aguas com +incrivel rapidez. + +Ainda o passageiro não tivera tempo de repetir a pergunta, quando vibrou +o espaço com as lentas pancadas da meia-noite, que soava lá muito ao +longe, no sino de uma egreja situada á beira mar. + +Produzia um effeito sinistro aquelle som distante. Cada uma das +vibrações vinha, em intervallos eguaes, expirar no ouvido dos dois +navegantes, e casar-se melancolicamente ao rugir contínuo das vagas. + +O barqueiro deixou cair os remos, e bradou: «Jesus, meu Deus!» O mesmo +seu amo não se pôde eximir a um inexplicavel receio. + +Ambos silenciosos, o barqueiro com os cabellos em pé, o nosso enamorado +com vaga curiosidade, e um tal ou qual terror, contaram as lentas +pancadas do bronze sagrado. + +Parece que aquellas vibrações não eram produzidas pelo simples sino de +uma egreja, mas que fôra o anjo das vinganças do Senhor quem fizera +vibrar o bronze, e quem lhe dera aquella voz sobrenatural e pavorosa. + +Contaram uma... duas... tres... doze. A ultima vibração assemelhava-se a +um gemido terno, ao uivo lamentoso do genio da meia-noite, que, abrindo +as suas negras azas, annunciasse aos phantasmas o começo do seu imperio. + +O barqueiro, que se levantára, caíu de novo no meio do barco e escondeu +o rosto entre as mãos; seu amo soltou uma exclamação de espanto. + +Um clarão avermelhado tingira subitamente as ondas, como se um incendio +começasse a lavrar no fundo do Oceano. As vagas soltaram um gemido +plangente, como creanças açoitadas. + +E um concerto horrivel, formado por muitas vozes, erguera-se do fundo +dos mares; e essas vozes cantavam os psalmos da penitencia. + +Mas as palavras, cheias de uncção, e impregnadas de tristeza das +sublimes poesias do rei propheta, tomavam uma accentuação ironica, como +se passassem pelos labios requeimados dos anjos malditos. + +No meio d'essas vozes roucas fez-se ouvir de repente uma voz suave e +argentina de mulher, doce como o gemer da brisa nas solidões do Oceano, +feiticeira como a voz das seductoras sereias. + +Mas aquella mesma doçura tinha um não sei quê de medonho, e n'essas +melodias celestiaes reverberava-se o fogo do inferno. + +No meio das notas mais ternas, vibrava subitamente uma outra aspera e +dissonante, que produzia o effeito que produziria no meio das harmonias +da harpa o som do estalar de uma corda. + +E essa voz tinha ao mesmo tempo uma profunda tristeza, uma plangente +intonação, uma pungente ironia e um não sei quê d'attraente e seductor +que fazia pensar na fatalidade. + +Os olhos do moço passageiro encheram-se involuntariamente de lagrimas, e +com os braços estendidos, perdido n'um vago extasi, parecia querer voar +nas azas da melodia para o antro sub-marinho, onde se aninhava a +infeitiçada sereia. + +E a voz cantava: + + Co'a vossa santa colera, + raio que fere e brilha, + ao impio que se humilha + não fulmineis, Senhor! + + N'este meu seio embebe-se + a vossa frecha ardente, + e a mão omnipotente + me opprime em seu furor. + + Da vossa ira o halito + seccou-me membro a membro, + e ai! se então me lembro + do meu longo peccar, + de como olvidei, réprobo, + santos dictames vossos, + oh! sinto até meus ossos + um frémito agitar! + + O fardo immenso e horrido + da minha iniquidade, + á voz da Divindade, + a fronte me curvou. + Da minha carne as ulceras + corrompe-as a lembrança + da impia atroz folgança, + que a Deus me arrebatou. + +Era triste, profundamente triste a voz, que assim cantava nos abysmos do +Oceano as primeiras palavras do primeiro psalmo da penitencia. Ia +enfraquecendo pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo +verso, mas então a voz vibrava de novo com aspereza, e era quasi uma +gargalhada infernal, de desafio ao Eterno, o grito ironico com que +voltava a cantar os seguintes versos: + + Co'a vossa santa colera, + raio que fere e brilha, + ao impio que se humilha + não fulmineis, Senhor! + +N'este momento rasgaram-se as ondas, como se um novo Moysés lhes tocasse +com a varinha magica. Entremostraram-se aos olhos do espantado moço as +profundidades do mar. Foi isso rapido como um relampago, mas deu-lhe +tempo sufficiente para vêr o interior de uma egreja gothica +esplendidamente illuminada com uma immensa profusão de cirios. Uma longa +fileira de guerreiros da edade média cercava os altares, mas no meio da +nave campeiava, coisa estranha! a meza de uma orgia, e as taças de oiro, +cheias de vinho espumoso, ostentavam-se em cima da toalha. Uma mulher +formosa como os anjos, mas tendo na fronte pallida não sei que +inexprimivel sêllo da maldição divina, ergueu-se, como se fosse +sustentada por azas invisiveis, até á superficie dos mares. Cerrou-se de +novo o abysmo, e as ondas purpureadas pelo reflexo dos cirios estenderam +por cima d'essa mysteriosa egreja o seu liquido docel. + +E o vulto feminino, com as vestes alvejantes ondeando por cima das +vagas, e roçando a fimbria na orla da espuma, que o clarão vermelho +fazia espuma de sangue, com a corôa da orgia ainda na fronte, +encaminhou-se lentamente para o sitio onde o barco parára, porque o +pescador ainda não ousára nem sequer levantar-se. + +O phantasma deslisava por cima das ondas, como se invisivel mão o +impellisse; já estava proximo do bote, e os seus olhos negros, onde +scintillava uma chamma infernal, exerciam uma incrivel fascinação no +nosso heroe. Afinal parou, e os seus braços estenderam-se vagarosamente +para elle, a fronte pallida tombou-lhe para o hombro, como lyrio pendido +pelo tufão. Ignota languidez suavisou-lhe o fogo do olhar. As tranças +negras desprenderam-se-lhe e fluctuaram-lhe nas espaduas. Os labios +descerraram-se, e a sua voz doce e melodiosa suspirou, como um triste +queixume os versos: + + N'este meu seio embebe-se + a vossa frecha ardente, + e a mão omnipotente + me opprime em seu furor. + +Cego, louco, fascinado, o juvenil passageiro do bote nem forças teve +para resistir á seducção. Inclinou meio corpo para fóra do barco, +estendeu as mãos, e ia precipitar-se nas ondas. + +--Jesus! bradou o barqueiro. + +O phantasma soltou um bramido de desesperação, as ondas rasgaram-se de +novo, e quando o moço abriu os olhos, que fechára de deslumbrado pela +chamma que faiscára nas pupillas negras da gentil desconhecida, já o +vulto feminino desapparecêra. + +Mas as ondas continuavam a conservar a sua côr escarlate, e o canto dos +psalmos vibrava ainda na immensidade. + + +III + + +O terror tirára as forças ao barqueiro, o terror lh'as deu de novo. +Lançou mão dos remos, e o bote afastou-se rapidamente d'aquelle terrivel +sitio. + +--Sabes a historia do que estamos vendo? perguntou o companheiro do +pescador, com voz ainda agitada. + +--Oh! se sei, senhor, é uma historia terrivel. Mas não é n'este sitio +nem a esta hora que eu a hei de contar. + +--Conta, tornou o interrogador imperiosamente, já estamos longe do ponto +fatal, e a voz dos réprobos vae-se perdendo no horisonte. + +O barqueiro hesitou um instante, depois principiou em voz tão baixa que +mal se percebia, e sem deixar de impellir vigorosamente o bote, a +seguinte narração: + +«Havia aqui d'antes, ha um bom par de annos, e junto d'aquelle castello, +cujas ruinas ainda póde divisar penduradas como ninho de aguias em cima +das fragas, uma egreja que fôra mandada construir por um devoto fidalgo +d'aquelle solar, fidalgo que morreu em cheiro de santidade. A igreja era +tida em conta de milagrosa, e alli concorriam immensos fieis attrahidos +pela fama do templo, e pelas virtudes do capellão, homem de vida +austera, affectuoso para com os humildes e nada servil com os grandes, a +quem dizia as verdades por mais amargas que fossem, quando entendia que +assim o exigiam os deveres do seu ministerio. + +«Vivia então no castello um fidalgo devasso, filho do fundador da +egreja, o qual, se lhe herdára as riquezas, não lhe herdára as virtudes, +porque os thesouros da terra na terra ficam, mas os thesouros do céo +esses voltam com o seu possuidor para o seio do Omnipotente. + +«Tinha esse fidalgo uma irmã. Linda era ella. Gentil a mais não poder +ser. Dizem que o rosto é o espelho da alma, e se assim fosse, ninguem +possuia mais formosa indole nem mais candido espirito do que a irmã de +Guilherme, a filha do virtuoso Pelayo. Mas não era assim. A natureza +esmerára-se tanto em lhe aprimorar a belleza physica, que se esquecêra +de certo de cuidar com egual desvelo na formosura moral. É assim que +dizem que Satanaz tem uma belleza seductora, e que seria um guapo +archanjo, se o pé caprino não revelasse a quem se deixa fascinar pela +etherea gentileza do anjo maldito, que está a contas com o pae da +mentira. Infelizmente Ignez não tinha esse signal que a distinguisse dos +anjos de que parecia irmã, e, se algum cauteloso enamorado, para +tranquillidade de consciencia, lançasse uma vista de olhos para o +pésinho encantador da formosa filha de Pelayo, não fazia mais do que +completar a fascinação, e, em vez da agua benta, com que tencionava +aspergil-o, era natural que o cobrisse de beijos, tão airoso era elle e +tão pequenino, tão pequenino que parecia que a natureza, ao esquecer-se +de lhe formar a alma, se esquecêra tambem de lhe formar o pé. + +«Quando ella passeava a cavallo por essas ferteis varzeas, montada +elegantemente n'um lindo cavallo preto, todos se ficavam enlevados a +contemplal-a, e não havia donzella nem rico homem que não sacrificasse +de boa vontade a vida para fazer brotar um raio d'amor na pupilla negra +da gentil Ignez. Mas ninguem o conseguia, e o marmore d'aquelle rosto +adorado nunca se purpureára com o rubor da paixão. Engano-me. Paixão +sentia ella, vehemente, incestuosa, horrenda, e que lhe devia incendiar +o rosto não no vivo escarlate do pejo de donzella enamorada, mas sim no +rubor da vergonha e do remorso. A réproba amava seu irmão! + +«E não imagine que ella occultasse essa paixão criminosa. Pelo contrario +gloriava-se d'ella impudentemente. E o espectaculo, que davam aquelles +dois impios, era um escandalo contínuo para os bons christãos dos +arredores. + +«Não se faz idéa das orgias freneticas e loucas, a que no castello se +entregavam aquelles dois abandonados de Deus. Quem passasse á meia-noite +pelo caminho que serpeia na montanha, e onde estava situado o solar +defrontando com a egreja, havia de parar cheio de religioso terror ao +vêr de um lado o immenso clarão das luzes incendiando as vidraças da +sala da orgia, ouvindo os cantares ebrios, os risos descompassados, as +blasphemias, as musicas voluptuosas, e dando com a vista do outro lado +na casa do Senhor, muda, deserta, sepultada em trevas, como um terrivel +archanjo que contemplasse com olhar sevéro os folgares dos malditos, e +que esperasse silencioso que soasse a hora da punição. + +«O mar batia de continuo nos rochedos, e aquelle ruido incessante, se o +ouvissem nas salas, havia de lhes soar lugubremente como a voz +justamente irritada do Deus vingador. + +«A egreja e o mar! Diante do templo erigido pela piedade dos homens, +diante do templo immenso em que mais se revela a imagem da Providencia, +como poderia haver quem esquecesse por tal fórma os preceitos da lei +divina? + +«Pois havia! e á noite, quando na mysteriosa soledade da nave, se +erguiam os mortos do seu leito de pedra para se ajoelharem diante do +altar, quando o vasto Oceano desprendia dos seus labios de espuma o +hymno religioso com que celebra a omnipotencia de Deus, accendiam-se as +luzes no salão do castello, sentavam-se á meza da orgia Guilherme e +Ignez e alguns cortezãos das suas devassidões, porque os seus eguaes +todos se haviam desviado d'aquella Gomorrha amaldiçoada, sobre a qual +cedo ou tarde cairia o fogo do céo; e a irmã do castellão, no fim do +banquete, cingia a fronte com uma grinalda de rosas, empunhava a harpa, +e cantava canções bacchicas com essa voz melodiosa, pura e vibrante, que +os anjos lhe invejavam, para descantar os seus hymnos de louvor ao +Eterno. + +«Um dia o velho capellão, que fôra o primeiro padre que dissera missa na +egreja cujo fundador fôra o pae dos dois devassos, dirigiu-se ao +castello, tencionando chamar para o redil da egreja aquellas duas +ovelhas desgarradas por atalhos de maldição. + +«Nada conseguiu senão excitar o odio de Ignez, que ouviu furiosa as +reprehensões do padre, e que foi immediatamente queixar-se a Guilherme +da insolencia do sacerdote, e pedir-lhe, como premio de amor, a cabeça +do digno homem, como outr'ora Herodias pedia a Antipas a cabeça de S. +João Baptista. + +«Não ousou conceder-lh'a Guilherme. Conservava ainda, no meio dos seus +vicios, um respeito supersticioso por seu pae, e não ousava tocar na +pessoa inviolavel d'aquelle a quem Pelayo confiára o templo que fundára. + +«Não insistiu Ignez; mas projectos de vingança atroz calaram +immediatamente n'aquelle espirito pervertido. + +«Uma noite, noite de Natal, a chuva caía em torrentes, açoitando +egualmente as vidraças do castello, illuminadas com o clarão do festim, +e os vidros de côr da egreja atravez dos quaes coava a religiosa luz dos +tocheiros accesos para se celebrar a tocante solemnidade da missa da +meia-noite. + +«O mar rugia de encontro aos rochedos, e soltava ora gemidos pavorosos, +ora lamentosos queixumes. + +«O vendaval corria infrene por sobre as ondas. + +«De mais folias ainda do que de costume era testemunha o salão do +castello. Os gritos dos ebrios ouviam-se cá fóra distinctamente, e +faziam com que todos os que se dirigiam á missa se persignassem com +horror. + +«Sentada n'uma cadeira de espaldar, junto de seu irmão, Ignez, com os +cabellos em desordem, soltos pelas espaduas núas, com a lascivia no +olhar e na attitude, desferia a harpa de oiro e descantava as mais +alegres canções. + +«O vento e o mar soltavam cá fóra os seus tristes e lugubres lamentos. + +«De repente soou meia-noite na torre da egreja. Os repiques da sineta +annunciaram immediatamente que ia principiar a missa. + +«Cessaram os risos e os cantares no castello de Guilherme. Só Ignez com +o seu diabolico sorriso a pairar-lhe nos roseos labíos, exclamou: + +«--De que vos temeis, nobres cavalleiros? Tão desgeitosa estou já no +dedilhar da harpa, que lhe prefiram o agudo cantar da sineta? Tão +enfraquecida está a minha voz, que cessem de a escutar para ouvirem o +bronze de um campanario? + +«N'este mesmo instante um raio fuzilou no espaço, inundando a sala com a +sua luz phosphoríca, e o vendaval, redobrando de força, fez em estilhas +uma das vidraças. + +«Todos sentiram um convulso tremor percorrer-lhes as veias, e o proprio +Guilherme limpou o suor frio que lhe escorria na testa. Ignez continuou: + +«--Receiaes a tormenta? Quereis um conselho? Deixemos esta sala que o +vento vae tornar inhabitavel, e que a chuva vae inundar, e vamos +procurar um abrigo na egreja. Alli, sim, que é sala commoda. +Utilisemol-a. Um ultimo copo de vinho, meus senhores, e façamos a +transferencia. + +«Todos obedeceram ás ordens da formosa Ignez. Beberam um copo de vinho, +e ergueram-se bradando resolutamente: «Para a egreja.» + +«O ministro de Deus subira n'esse instante ao altar revestido dos seus +sagrados paramentos. Tornavam-n'o respeitavel o seu caracter augusto de +immaculado sacrificador, e ainda mais o seu diadema de cabellos brancos, +e a invisivel aureola de virtudes que lhe circumdavam a fronte. + +«A multidão ajoelhada sentia como que o espirito de Deus baixar ao +templo, evocado pelo santo sacerdote. O orgão começava a gemer os seus +doces cantares. A tempestade parecia respeitar aquelle sacro asylo, +suspirando plangente nas frestas ogivaes, e não rugindo pavorosa, como +quando sacudia as suas negras azas em torno do castello. + +«Tudo era socego e serenidade n'aquella divina estancia. + +«Subito irrompeu pelo portal da egreja a turba dos ebrios, em +descompostos cantares. Ficou gelada de terror a devota multidão. +Perturbado quando erguia a Deus o immaculado espirito, o sacerdote +voltou-se e deu com os olhos na bella Ignez, que vinha na frente +encostando-se com insolente descaro ao braço de seu irmão. + +«Inflammado em santa colera, o velho ministro do Senhor desceu os +degraus do altar, e, dirigindo-se aos recem-chegados, bradou com voz +sonora, em que vibrava o echo das iras de Deus: + +«--Parae, não profaneis o templo, e não obrigueis a fulminar-vos o raio +de excommunhão, que vos está impendente. + +«Era venerando o vulto apostolico do santo varão. O povo caíu de +joelhos, e a tempestade suspendeu os seus bramidos, como que respeitosa +e tremula. + +«Ouviam os elementos desvairados a voz do ministro do Omnipotente. Só +ficavam cerrados os ouvidos dos impios. + +«Era porque chegára a hora fatal, e a taça das iniquidades trasbordára +emfim. + +«Ignez sorriu-se meigamente para seu irmão. Que doce, que angelico +sorriso! Quem diria que esse sorriso, que rescendia amores, era apenas +um incitamento ao assassino? + +«Pois foi. Guilherme allucinado arrancou do punhal, e feriu o velho +sacerdote. + +«O sangue espadanou da ferida, e salpicou, tingindo de escarlate o +candido vestido de Ignez. + +«A multidão fugira horrorisada, os criados, impios como seus amos, +haviam trazido n'esse instante a meza da orgia. + +«Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade, suspensa por um +momento, soltou-se com novo furor. Rugiu o vento nas frestas da egreja, +fuzilaram os raios, bramiu, quebrando-se nos rochedos, o Oceano +enfurecido, e os tumulos de pedra da egreja estalaram como se fossem de +vidro. + +«E do tumulo de mais primoroso lavor, surgiu, envolto na mortalha, o +espectro de Pelayo, o fundador da egreja. Ondeiavam-lhe ainda as barbas +nevadas sobre o funebre escapulario, e das orbitas cavadas, coisa +horrivel! brotavam lagrimas ardentes. + +«Ergueu-se, ergueu-se; já não tocava com os pés no chão marmoreo da +egreja. O vento engolphando-se pelo portal do templo, agitava-lhe as +pregas da mortalha. Com as mãos unidas, em attitude de oração, o velho +finado, subindo lentamente nos ares, parecia um d'esses prophetas que o +Senhor Deus arrebatava para as alturas do Empyrio. + +«Quando chegou ao tecto, o tecto abriu-se como por encanto e o venerando +finado continuou a sua magestosa ascensão na atmosphera que se +esclarecia em torno d'elle, como se aquelle cadaver irradiasse luz. + +«Os impios haviam ficado immoveis e attonitos de terror. Mas, apenas o +velho Pelayo se sumiu ao longe na região das nuvens, resoou em toda a +egreja um terrivel estampido. O orgão vibrou, sem que mão humana o +tocasse, e o tremendo _Dies irae_ jorrou em torrentes de severa melodia +pela nave do templo. Vacillaram os columnelos, nos frisos e laçarias +gemeu o vento em canticos sinistros, e, como se o vendaval a tivesse +arrancado pela base, aquella mole immensa levantou-se do chão, oscillou +nos ares como impellida por invisivel fundibulario, e arrojou-se ao +Oceano, levando no seu seio os profanadores, que soltaram um ultimo +rugido de desespero. + +«Abriu-se o mar para tragar a preza enorme que se lhe offerecia, depois +a liquida superficie uniu-se de novo, e essa mortalha immensa, cujas +pregas são as ondas, desenrolou-se para encobrir esse cadaver de pedra. + +«Desde então todas as noites, ao bater da meia-noite, accendem-se os +cyrios na egreja sepultada, e, no fundo do mar, os réprobos entoam os +psalmos da penitencia. + +«A voz de Ignez sobreleva a todas, e exerce ainda, do fundo do Oceano, a +sua irresistivel seducção. + +«Ás vezes ergue-se o phantasma da formosa até ao cimo das ondas, e +arrasta para os abysmos os incautos que cedem ao magico poder dos seus +feitiços. + +«Proteja-nos o Senhor contra estas tentações. Eis-nos chegados á praia. +........................................................................... +........................................................................... +........................................................................... +........................................................................... + +O barqueiro amarrou o bote, e saltou em terra. O moço passageiro ficou +largo tempo a contemplar o Oceano. + +As ondas conservavam ainda ao longe o seu reflexo escarlate, e a voz dos +precitos, enfraquecida pela distancia, vinha expirar na praia em +melancolica toada. + +Aos primeiros clarões da aurora tudo se dissipou; apagou-se a pouco e +pouco a luz vermelha, ao passo que se ia aclarando mais o horisonte, e +que as ondas se iam branqueando com o tenue fulgor do alvorecer. + +O canto dos malditos foi tambem esmorecendo a pouco e pouco, até que a +ultima nota vibrou solitaria no espaço; e esse silencio singular que +precede o romper do dia foi apenas quebrado pelo hymno eterno do +marulhar das ondas.[1] + + * * * * * + +Houve um momento de silencio, quando o doutor Macedo acabou a leitura do +romance. N'aquelle grupo havia de certo n'esse instante um coração que +esse silencio fazia bater com desusada violencia. Afinal Lucio Valença +quebrou o encanto, dizendo: + +--Decididamente, caro doutor, o nosso desconhecido collega deu um golpe +de mestre, escolhendo o para leitor de uma lenda. A sua voz deu-me +arripios, as suas inflexões resuscitaram a meia-noite. Co'a breca! houve +um momento, em que me não atrevi a olhar para a janella, com medo de vêr +encostado aos vidros o espectro fascinador de Ignez. + +--Ah! de certo, disse ou antes balbuciou Leonor, nem assim se póde +avaliar o merito da lenda. O doutor é como um d'estes actores, que +transformam sempre em magnificos papeis as mais insignificantes +banalidades. + +O doutor sorriu-se para ella maliciosamente, mas ao mesmo tempo um +concerto de elogios protestava contra a phrase dubia de Leonor. O mais +ardente no applauso era Henrique Osorio. + +--Bem! chegou o momento solemne! disse Macedo, o publico chama pelo +auctor, e eu, como no theatro francez e hespanhol, depois dos tres +cumprimentos do estylo, vou arrojar o nome do poeta á platéa +enthusiasmada. Se me dispensam dos cumprimentos, substituo-os por uns +certos effeitos oratorios. + +--Vá! vá! diga, doutor! bradaram todos em côro. + +--Um! exclamou o doutor Macedo, batendo as palmas; o auctor é uma +senhora linda, elegante e espirituosa. + +--Isso é abusar, doutor! bradaram os circumstantes indignados. + +--Dois! tornou Macedo. Acha-se presente a referida senhora. + +--Estrangulamol-o? propoz Lucio Valença. + +--Um voto de censura na acta! bradou o visconde da Fragosa, sempre +parlamentar. + +--Dependuramol-o da janella até elle dizer o nome! exclamou Henrique +Osorio. + +--Já o tinha dito, se vocês me não interrompessem, exclamou placidamente +o doutor Macedo emquanto a viscondessa da Fragosa, Leonor e Isaura riam +a bom rir da alegre scena. + +--Então falla, _ventre-saint-gris_! bradou Roberto Soares. + +--_Ventre-saint-gris_ não é da edade média, sr. Roberto Soares, disse o +doutor Macedo que já erguera as mãos para bater as palmas pela terceira +vez, e que tirou tranquillamente um charuto da algibeira. + +--Uma corda! bradou Henrique Osorio. + +--E um algoz de boa vontade! exclamou Lucio Valença. + +--Á ordem! acudiu logo o visconde da Fragosa. + +Então, o doutor Macedo, com o charuto ainda não acceso nos dentes, bateu +as palmas, e disse: + +--Tres! + +Estabeleceu-se um profundo silencio. + +--A lenda que tive a honra de submetter á apreciação de vv. ex.^{as}, +concluiu o doutor, foi escripta pela ex.^{ma} sr.^a D. Leonor de Mattos +e Vasconcellos, filha do nosso excellente amigo, visconde da Fragosa. + +--Tu, Leonor! exclamou Henrique Osorio estupefacto. + +--Tu, filha! disse a viscondessa com os olhos rasos de agua. + +--Eu logo vi que tinha sido ella, exclamava o pae todo ufano. + +Confusa no meio de todos os comprimentos, com que em todas as familias +se festejam as mais insignificantes estreias litterarias do filho mimoso +da casa, Leonor nem ousava erguer os olhos para Henrique. Este +contemplava-a pasmado, depois mirava a furto Isaura, um pouco fria, um +pouco descontente com a ovação da sua _amiga_, e evidentemente de si +para si lamentava que não fosse a pallida menina a sonhadora das +phantasias da _Egreja profanada_. + +Mas tambem, quando tornava a mirar Leonor, e a via modesta, perturbada, +evidentemente envergonhada de ser o alvo de todas as attenções, agora +mil vezes mais affavel com Isaura do que até ahi, como que pedindo-lhe +perdão do seu involuntario triumpho, Henrique não podia deixar de dizer +de si para si que havia um abysmo entre a pretenciosa frivolidade de +Isaura e a desaffectada simplicidade de Leonor, que bem se via que não +dava ao seu conto maior valor do que elle merecia, e que, escrevendo-o, +parecia ter querido mostrar apenas que não era estranha ás altas +preoccupações do espirito, e que a sua phantasia tambem tinha azas para +se arrojar ao mundo do ideal. + +E, emquanto a conversação volteiava alegremente em torno do conto de +Leonor, emquanto uns narravam os calafrios que tinham sentido, e outros +felicitavam o leitor e a auctora, Osorio, encostando a fronte na mão, +ficou profundamente pensativo. + +Instantes depois, dispersava-se a companhia, e Leonor, passando junto de +Henrique para se retirar para o seu quarto, sentia poisar na sua mão, +para a demorar, a mão tremente do seu companheiro de infancia. + +Ella estremeceu toda, como se se tivesse posto em contacto com uma +garrafa de Leyde. + +--Sabes, disse-lhe elle, que achei encantador o teu conto? + +--Sabes que te não acredito? respondeu ella, rindo, e já senhora de si. + +--Oh! eu não faço a critica litteraria do romance. É provavel que tenha +innumeros defeitos. Digo-te apenas que me impressionou. Quando o +escreveste? + +--Hoje! + +--Hoje? acudiu elle cravando em Leonor um olhar profundo. + +--Sim, tornou ella com o coração a bater-lhe violentamente, córada até á +raíz dos cabellos, mas resoluta, quiz-te mostrar que já passou para mim +o tempo das bonecas, e que o que me preoccupa o coração e o espirito não +são já as puerilidades dos nossos brinquedos de outr'ora, mas os +affectos e as paixões da mulher. + +Henrique apertou-lhe docemente a mão. + +--Foi por minha causa, pois, que espertaste a phantasia, para escreveres +essa lenda? Tive eu a ventura suprema de preoccupar devéras o teu +espirito intelligente? de fazer pulsar com mais força o teu ingenuo e +nobre coração? + +--Henrique! murmurou ella. + +--És um anjo, Leonor! disse elle em voz baixa. + +O doutor Macedo encaminhava-se para onde estavam os dois. Leonor +despediu se, e toda palpitante de commoção e... dil-o-hemos... +tambem!... de alegria, dirigiu-se para o seu quarto. +O doutor Macedo sorriu-se para Henrique, e murmurou maliciosamente: + + Si je vous le disais pourtant que je vous aime, + Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez? + +--O que! era esta, doutor? exclamou Henrique. + +--Pois quem, meu creançola? É necessario ter a myopia amorosa dos vinte +annos para o não perceber ha immenso tempo. + +--Que quer você, Macedo! tornou Henrique, Leonor foi minha companheira +de infancia. Havia entre nós, em creanças, uma certa desproporção de +edades. Entre dois pequenitos uma differença de cinco annos abre um +abysmo! Na mocidade é um curtissimo intervallo. Costumei-me a vêr sempre +em Leonor uma creança. A mulher feita revelou-se me agora, ao ouvir lêr +o conto que ella escrevêra. Então contemplei-a, e li nos seus formosos +olhos a bondade da sua alma, e a virgindade do seu affecto. Só agora +percebi o tremor da sua voz nas palavras que me dirigia! E eu passava +junto d'ella quasi sem a conhecer! + +--Meu amigo, tornou Macedo, isso é uma historia vulgar. Tem a gente ao +pé da porta um lago tranquillo, risonho, córado pelo esplendor do sol, +nunca se lembra de mergulhar n'essas aguas limpidas para colher a perola +que lá brilha no fundo, vae procural-a então ao mar das tempestades, +mergulha, e encontra ostras. Boa noite, meu amigo. + +E dirigiu-se para o seu quarto. Henrique imitou-o, mas n'essa noite não +dormiu. A imagem que fluctuava diante dos seus olhos semi-cerrados, não +era, não, a pallida imagem de Isaura. + + * * * * * + +Devemos dizer que na noite immediata, esqueceu completamente a hora +fatidica, e que tendo Lucio Valença pedido a palavra ás dez horas e meia +da noite, allegando que era longo o seu romance, que, sendo phantastico, +por isso que o personagem principal era um ente inanimado, tinha comtudo +uma pequena parte propriamente legendaria, e que portanto podia começar +a ser lido antes da meia noite; acolhe-se com applauso esta idéa, e +Lucio Valença começou logo depois do chá a leitura do seu volumoso +manuscripto. O doutor fizera uma careta ao avaliar o numero de paginas +que ia ter que ouvir; Henrique Osorio e Leonor, enlevados nas doçuras de +um amor nascente, não tendo olhos senão um para o outro, amaldiçoavam a +leitura que os ia privar de algumas horas de doce conversação; Isaura, +despeitada, furiosa por ter visto fugir-lhe um dos seus vassallos, e +mais furiosa ainda por lhe falharem todos os manejos que empregava para +reconquistar o inconstante, que tratára com tão soberbo desdem quando o +tivera nos seus ferros, dirigira de pura colera as suas baterias para +Lucio Valença, e preparára-se portanto para ouvir o conto com a mais +profunda attenção. + +O visconde da Fragosa, o conselheiro Madureira e um honrado e silencioso +proprietario de Val de Prazeres, que vinha completar a partida do +visconde, não abandonaram sem um suspiro o _boston_. Resignaram-se, +porém, e Lucio Valença, presentindo vagamente a hostilidade do +auditorio, começou com voz não muito firme a leitura do manuscripto, que +se intitulava _Memorias de uma bolsa verde_. + + + + +MEMORIAS D'UMA BOLSA VERDE + + +I + + +Um dia fôra eu assistir, por curiosidade, a um leilão que se fizera em +casa de uma rica viuva que fallecêra. Os parentes, apressados em se +desfazerem de todos esses moveis, que para elles não tinham valor algum, +abriram o leilão apenas se fechou a campa que ia encerrar a pobre +finada. O que importavam aos herdeiros esses pobres livros, por exemplo, +sobre os quaes se debruçàra tantas vezes a fronte encanecida da viuva, +esses mysteriosos confidentes dos seus pezares e das suas saudades, +cujas paginas teriam sido regadas com tantas lagrimas, e que tantas +vezes teriam repousado sobre os seus joelhos tremulos, quando ella, +interrompendo a leitura nocturna, fitasse os olhos humedecidos no sitio +onde seu marido se costumava sentar, a lampada a cuja doce luz tinham +tantas vezes travado uma d'essas deliciosas conversações intimas, +tornadas mais suaves ainda pelo conchego do lar, e pelo prazer de sentir +a chuva bater nas vidraças, e o vento gemer de caixilhos das janellas? +Que significação tinham essas coisas para os corvos ávidos, que esperam +anciosamente que o corpo se transforme em cadaver, para descerem em +bandos a saciar a fome impaciente? E quem sabe se, reunidos em volta do +leito mortuario, não miravam com os olhos affectadamente compungidos, +onde brilhavam algumas lagrimas de convenção, os trastes do quarto, e os +proprios lençoes que agitava o estertor da moribunda? Quem sabe se elles +não estariam já calculando o valor approximado d'esses objectos? Ai! +todo o anjo, que baixa a este mundo, tem um demonio que lhe espia os +passos, que o segue cautelosamente sorrindo com um sorrir diabolico, que +esconde na sombra projectada pelas azas brancas do habitante do céo as +negras azas do habitante do inferno, e que, apenas aquelle acaba de +cumprir a sua missão divina, começa a cumprir a sua missão infame, e a +desfazer por todos os modos o effeito salutar produzido pela candida +apparição. + +Após o anjo do amor vem o demonio do ciume, após o anjo da caridade o +demonio da ingratidão, após o anjo da morte o demonio da cubiça. + +Morre uma creatura boa, pura, santa; vem um anjo de Deus cerrar-lhe os +olhos, e levar para os céos, no regaço da sua tunica transparente, o +espirito immaculado que se desprendeu do invólucro terreno. No rosto do +cadaver, sereno e tranquillo, fica como que um reflexo do clarão que +derramaram sobre elle as azas luminosas do Senhor. Nada mais proprio +para inspirar respeito do que essa morte socegada, tão socegada como a +de um passarinho que esconde sob a aza a gentil cabecinha. Uma suave +compuncção se apodera do animo de todos os circumstantes. Ninguem ousa +perturbar o magestoso silencio da camara funeraria; todos temem profanar +a augusta santidade d'aquella scena. Mas o demonio da cubiça lá estava +espreitando á porta com o seu olhar de tigre. Assim que o anjo bateu as +azas, entrou pé ante pé, debruçou-se sobre todas as frontes pendidas, +bafejou-as com o halito repugnante, e logo todos se ergueram +apressadamente, e trataram de fazer desapparecer o cadaver, de annunciar +o leilão, de preparar tudo para se reduzir a dinheiro, e para se fazerem +as partilhas. «É preciso tratar da vida», dizem elles. Regateiam-se as +despezas do enterro, e, para se resarcirem d'ellas, não conservam um +unico objecto, por mais desprezivel que seja o seu valor. Ahi tem pouco +mais ou menos a scena horrenda que precede um acto tão natural como é um +leilão. + +Por isso eu sempre resinto uma impressão desagradavel, quando me vou +confundir com a multidão de compradores que penetram, com tão pouco +respeito, n'esses quartos outr'ora tão socegados, agora tão ruidosos. + +No dia em que assisti ao leilão em que fallo, occorreram-me estas idéas +que acabo de expender. + +Já se tinha vendido a maior parte da mobilia. Os sophás, as mezas, as +cadeiras, os livros, tudo se dispersára já. O pregoeiro continuava a +fazer apparecer os differentes lotes, e, com o ouvido á escuta, repetia +machinalmente os lanços dos circumstantes com uma rapidez, e com uma +segurança taes, voltando a cabeça ora para um lado, ora para outro, que +pareceria ser antes machina do que homem, se não fossem as chalaças com +que entremeiava o seu pregão monotonamente saltitante (se assim me posso +exprimir). Eu estava encostado a uma porta, e contemplava com certa +tristeza aquelle grupo, em que figuravam os rostos indifferentes dos +compradores, as physionomias ávidas dos herdeiros, e a cara +maliciosamente alvar do pregoeiro, pago para alegrar a assembléa com os +ditos joviaes que tinha fabricado, e que provavelmente já lhe teriam +servido para dezenas e dezenas de leilões d'aquella especie. + +Finalmente appareceu um objecto, cuja _exhibição_ (perdôem o anglicismo) +foi acompanhada com um commentario burlesco do pregoeiro, e acolhida por +uma gargalhada da assembléa. + +Era uma bolsa de seda verde com borlas de oiro. Mas que bolsa, senhores! +Era necessaria toda a cortezia do pregoeiro para conservar esse nome a +um objecto que já não tinha fórma! Era uma bolsa de cabellos brancos! +Rota, esburacada, sem côr definida e em cujas borlas o oiro brilhava... +pela sua ausencia! O pregoeiro passeiou-a triumphantemente por diante de +todos, e todos se riam, e todos zombavam, e todos faziam uma observação +que redobrava as gargalhadas. + +Finalmente o pregoeiro passou por diante de mim, e mostrou-m'a. Foi +então que eu a pude vêr bem. + +Se a podessem vêr como eu a vi, haviam de se compadecer d'ella. No meio +da alegria geral, que a rodeiava, ella só parecia chorar, e conservar +uma triste recordação d'aquella de quem todos se esqueciam! Se a +podessem vêr como eu a vi, baloiçando-se tristemente na mão grosseira +d'aquelle homem que a estortegava, apertando os seus frageis +membrosinhos de seda! E a pobre bolsa parecia olhar com uma tristeza +profunda para todos aquelles rostos crueis, em que a zombaria se +pintava, e de cada um dos rasgões que tinha aberto no seu corpinho, +d'antes tão gentil, a mão destruidora do tempo, parecia sair um gemido. + +Que profunda impressão me causou o seu aspecto! + +Talvez os meus leitores chegando a este ponto, se riam de mim. Pois não +tem rasão! Eu acredito que os objectos inanimados, que nos rodeiam, +recebem de nós como que um reflexo de sensibilidade. Quando morre uma +pessoa n'uma casa, não vêem como tudo toma um aspecto luctuoso? A sala, +em que tantas vezes estivemos sós em quanto essa pessoa vivia, tinha por +acaso o silencio lugubre que lhe notamos apenas ella deixa de existir? +Os livros, cuja leitura desperta em nós o enthusiasmo, serão +simplesmente mudos reproductores dos pensamentos do escriptor, e não +conservarão como que o vestigio do talento, que por intermedio d'elles +se manifestou? E qual será o motivo d'essa inexplicavel affeição que nós +consagramos a certos moveis queridos? do pesar que sentimos ao vêrmo-nos +obrigados a abandonal-os? + +Quando alta noite acordam, e, sem poderem conciliar o somno, ficam +deitados de olhos abertos a contemplar as trevas, e a escutar o +silencio, não sentem de repente um indizivel murmurio, e umas +inexplicaveis luzes encherem o quarto e rasgarem a escuridão? Como +explicam isso? Eu creio firmemente que esse ruido, que se não ouve +quando não estamos n'essas circumstancias, é o que produzem as +mysteriosas conversações dos espiritos invisiveis que existem escondidos +em cada um d'esses moveis, e que alta noite se reunem, para segredarem +uns com os outros, e que esse tenue fulgor é resultado do scintillar das +pequeninas azas d'esses sylphos subtis. + +Quer me acreditem, quer não, o que eu lhes posso assegurar é que a tal +pobre e velha bolsa verde, quando viu a minha physionomia séria no meio +de tantos rostos zombeteiros, lançou-me um olhar supplicante a pedir-me +que a livrasse d'aquella triste posição. + +E o caso é que a comprei, com grande espanto de todos os circumstantes, +que principiaram por olhar para mim com uns olhos muito abertos, e que +concluiram por sorrirem uns para os outros, dando a entender que me +julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa, e recebeu o dinheiro, +tendo cuidado de interpôr, como se fosse por acaso, uma cadeira entre +nós ambos, com receio que me d'ésse alguma furia. + +Escuso de dizer que ninguem me disputou o lanço. Nem mesmo esses +agentes, que tem, em giria de leilão, o nome expressivo de _picadores_, +ou, por abuso de metaphora, de _toireiros_, ousaram erguer a voz para +m'a fazerem pagar mais caro. + +A surpreza emprestára-lhes um bocadinho de consciencia. + +Pois o que é certo é que eu comprei a bolsa, e saí com ella muito ancho, +sem me importar com as largas alas que me abriam as pessoas presentes, +imitando a prudencia do que m'a vendêra. + +E, como eu passo a mostrar-lhes, não tive motivo de me arrepender. + + +II + + +Era uma noite de maio. Eu estava sentado á meza do trabalho. Um caderno +de papel, ainda virgem de letras, estendia-se diante de mim aterrador na +sua alvura, que me advertia mudamente da obrigação que eu tinha +contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvião d'esses +monstrosinhos negros, que se chamam letras, que, amontoando-se umas em +cima das outras, formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro +das quaes se agita o candido enxame das idéas. O tinteiro, boquiaberto, +não cessava de me mostrar o oceanosinho sombrio que tumultuava dentro de +seus vitreos muros. A penna, debruçando se sobre esse mar tenebroso, +contemplava-o com indifferença, preparando-se para o sulcar +atrevidamente, quando eu julgasse opportuno começar a navegação. + +Uma janella aberta oppunha aos meus designios um obstaculo insuperavel. + +Uma janella aberta?--diz o leitor; porque a não fechava? + +O leitor de certo se não recorda de eu lhe ter dito que estavamos em +maio. + +Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre as urnas das +flôres, colhe todos os aromas que encontra, e vae espalhal-os +prodigamente no regaço das brisas, que doidejam depois na atmosphera, +alegres como as creanças folgazãs que correm na campina com as suas +arregaçadas de flôres! Fechar uma janella! E porque não fecha o leitor +os ouvidos quando está escutando uma melodia de Bellini, e os olhos +quando está vendo um quadro de Raphael? + +Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado na minha cadeira, +aspirava os perfumes do ambiente, sem me importar com as provocações do +papel, com as agitações da tinta, e com as suggestões da penna. Devo até +dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava em desprezar +tudo isso. + +_Fi donc!_ Um escriptor! + +Eu queria vêl-os no meu logar! Uma larangeira a enviar-me perfumes +perfidos, e, quando me via prestes a estender a mão para a penna, a +baloiçar-se sem piedade, e a remetter-me directamente nas azas da +viração uma taça inebriante, cheia a trasbordar dos seus effluvios! E um +rouxinol, um travesso rouxinol, muito escondido n'uma alcovasinha de +folhas, que o demonico da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito +para acabar de me tentar, a desentranhar-se em melodias que era um +enlêvo escutal as! Sem fallar n'umas roseiras, que a pretexto de serem +_dilletanti_, e de serem impellidas pela aragem, prepassavam por diante +da minha janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik plumoso! +Não mettendo em linha de conta a lua, que se ria no céo a bandeiras +despregadas, escancarando com os frouxos de riso umas nuvens teimosas, +que por força queriam esconder-lhe as perolas que ella com as +gargalhadas mostrava á natureza, e que tinha a innocente vaidade de +contemplar espelhadas nas fontes! Vão lá, com tudo isto, debruçar-se +sobre um caderno de papel e escrever! + +Escrever; mas escrever o quê? Um romance de amores?! Um poema?! Romances +e poemas tinha eu na imaginação, sublimes, portentososos, admiraveis, +como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu. + +Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe a estrophe, e vão +fluctuar na atmosphera de envolta com os perfumes da rosa, com os +canticos do rouxinol, e com os raios da lua! + +E, apesar d'isso, não deixam que outros, que se possam entornar sobre o +papel, nos occupem ao mesmo tempo a imaginação. + +Assim estava eu, torturando o espirito para obter uma idéa, e +encontrando n'elle mundos de poesia, não digo bem, um chaos de poesia, +cujo _fiat lux_ eu nunca poderia descobrir. + +De vez em quando revestia-me de animo, e tentava levantar-me para ir +fechar a janella! Mas a larangeira baloiçava-se e deixava cair uma chuva +de perfumes, o rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos da +roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da janella, e deixavam +ficar as suas rosas de cem folhas, purpureas e embalsamadas, a mirarem +curiosamente o meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros o +seu manto de luz, arrastava-o no firmamento, e eu caía desanimado na +cadeira. + +De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira como um murmurio, que +me fallava n'uma linguagem desconhecida, mas que eu, por uma intuição +inexplicavel, comprehendi immediatamente. + +Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde em cima da meza. + +Era ella quem me fallava. + +--Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma grande afflicção, e +é justo que tenhas a recompensa. Queres escrever? A tua imaginação +preguiçosa, enervada pelos effluvios d'esta noite de primavera, +recusa-se a dictar-te o que deves lançar no papel? Eu substituirei a tua +imaginação. Pega na penna, e escreve o seguinte no alto d'essa pagina +branca: «_Memorias d'uma bolsa verde_.» + +Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi vão vêr os meus leitores o +que a pobre bolsa velha me dictou. Desculpem os erros do auctor. Não ha +nada que se pareça menos com um litterato do que uma bolsa. A rasão é +muito simples. A bolsa tem muitas vezes dinheiro, e um escriptor... +Vamos ao assumpto. + + +III + + +«Gira, gira, agulha ligeira, impellida por mão tão delicada. Cinge a +fragil seda em suave abraço, enlaça os tenues fios uns aos outros, e +prepara esse corpinho gentil, a quem ha de o amor dar vida. + +«O amor, sim. Não vês a loira cabecinha do anjo de meigo sorriso, +debruçando-se por cima do hombro da tua formosa dona, a contemplar +curiosamente os teus rapidos movimentos? + +«Gira, gira, os instantes são preciosos, e póde subitamente chegar quem +transtorne a surpreza tão cuidadosamente preparada! Gira, gira sem +cessar, agulha, agulha subtil. + +«Que suave serenidade transparece no limpido olhar d'aquella cuja mão +febril te dirige! Quando um sorriso anima a graciosa physionomia, +contempla-se com enlêvo o céo azul que lhe ri nos olhos, e as perolas, +que os labios entre-mostram! A quem fôr perspicaz tambem esse sorriso +mostra a alma, que é mais celestial do que o olhar, mais candida do que +as perolas da boquinha. + +«Mas a esse limpido firmamento doira-o agora o sol de um affecto suave, +cujo brilho não é offuscado por nenhuma nuvem. Os seus raios aquecem-lhe +o coração, e alegram-lhe ao mesmo tempo todos os horisontes da vida. + +«Porque vem misturar-se, comtudo, uma inquietação febril com o +sentimento de felicidade que lhe anima as feições? Oh! não receieis +nada! Essa mesma inquietação é um prazer. Teme não ter completo o +presente que desejava offerecer a seu marido, que fazia annos n'esse +dia. + +«E por isso a agulha girava, girava com impetuosidade, e os fios de seda +agrupavam-se com uma ligeireza inconcebivel! + +«Está a concluir-se a tarefa. A agulha approxima-se do sitio marcado. Um +mate, um mate risonho lá surge no horisonte. Apressa-te, agulha, faze +prodigios de celeridade. Emfim! + +«Dera-se o mate. As doiradas borlas pregaram-se instantaneamente. Eil-o, +o gentil producto de oito dias de trabalho! A formosa senhora +contempla-o com ternura. O amor sacode o regaço cheio de perolas, e em +cada ponto faz pullular mil pensamentos apaixonados. + +«O ente, que nascera, era nem mais nem menos do que esta humilde bolsa +verde que lhe está dictando essas linhas, senhor mandrião. + + +IV + + +Quando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa. + +--Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia que um escriptor +consagra ao narrador officioso que lhe conta uma historia, v. ex.^a tem +fallado até agora n'uma linguagem que me tem penetrado de admiração, +porque me parece biblica, e o emprego d'esse estylo é muito para +apreciar n'uma bolsa que não foi contemporanea de Isaias. Mas se v. +ex.^a antes de nascer falla n'esse tom, receio muito que, se continuar +na ascensão, quando chegar á velhice, já os leitores, ainda que se +mettam no balão de Nadar, não serão capazes de a seguir com a vista +n'essas espheras inaccessiveis. Pedia, portanto, a v. ex.^a o favor de +baixar o vôo á terra, algumas vezes, afim de que os nossos leitores +percebam alguma coisa do que se fôr passando, sacrificando por +conseguinte o diploma de socia da academia... do amphiguri, que, segundo +me parece, está em caminho d'obter. Desculpe-me esta ligeira observação. + +A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos, e respondeu: + +--Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que nem cheguei a dar-te +uma ligeira amostra do estylo pomposo que eu deveria empregar, e que te +poupei o prologo obrigado que precede lá entre vós outros, os homens, a +magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes grandes, com a mesma +convicção com que os antigos romanos faziam a apotheose dos Tiberios e +dos Caligulas. Já vês que a rajada vae começar, e que se me excitas +mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios, indios e hebreus. Mas +voltemos ao que importa. Em logar de te queixares, devias-me agradecer o +eu não ter dito uma palavra só ácerca do estado da Europa na epocha do +meu nascimento, nem de ter fallado nos grandes homens que se agitavam no +mundo, em quanto a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios que +me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com estes preambulos dez +paginas, pelo menos. Não o fiz, e tu accusas-me! Para te castigar não +devia dizer nem mais uma palavra. + +--Oh! por amor de Deus, continue v. ex.^a como quizer; estou prompto a +admirar tudo quanto eu não entender, nem v. ex.^a tambem. Estou +esperando. + + +V + + +«Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista não encontrou nada que a +ferisse, nada que lhe repugnasse no quarto onde eu viera á luz. No movel +mais insignificante se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos da +casa. Eu repousava mollemente no collo da minha dona, e os meus membros +recem-nascidos sentiram logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de +sol entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde, e fazia +resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas repousavam ao meu +lado, contemplando curiosamente a obra prima que tinham acabado de +produzir. A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente e, +beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei de cór: + +--«Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o coração d'aquelle a quem tanto +amo. Conserva a impressão dos meus beijos, e, quando elle te approximar +do rosto, oh! anima-te, por um milagre de amor, e sê tu a mensageira +d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe que em segredo +trabalhava em te fazer _coquette_, elegante, para seres digna d'elle. +Olha, lê bem no fundo do meu coração, para poderes narrar ao meu esposo +os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae, e Deus queira que +elle te ache a seu gosto, e te faça um bom acolhimento. + +«N'este momento um rapaz, cujo labio superior era levemente assombreado +por um bigodinho nascente, entrou, e, dirigindo-se á minha dona, +beijou-a com ternura. + +--«Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!--disse-lhe elle. Foi +presente ou compra? + +--«Agrada-te?--tornou ella, contemplando-o meigamente. + +--«Acho-a lindissima. + +--«É tua. + +--«Minha? + +--«Tua, sim. Não te lembras que dia é hoje? Completas vinte e dois +annos. Trabalho ha oito dias a furto para te dar este presente. +Sorria-me sósinha, quando pensava na surpreza que te ia causar, quando +te désse a bolsa, e, saltando-te ao pescoço, te dissesse +alegremente:--Ahi tens um presente da tua querida mulher, é para vêres +que pensa sempre em ti.--E então agora não mereço um beijo em paga? + +«E a galante senhora, unindo a acção á palavra, tinha-se pendurado no +pescoço de seu marido, e contemplava-o com olhos humidos de ternura. + +«Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido baixinho, e +beijando-lhe os cabellos: + +--«Amo te, meu anjo da guarda! Amo-te e sou feliz, feliz com o teu amor. + +--«E isso é dito com sinceridade?--perguntou ella, sorrindo, travêssa. + +--«Não sou eu quem falla, é o coração. + +--«Sim? Sobre esse coração é que eu quero que esta bolsa ande sempre! +Advirto-te que tenho dentro d'ella um genio familiar que me obedece, que +ha de lêr atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os segredos +que tu julgares mais reconditos. Acceitas? + +--«Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil espião, cuja côr me anima +já, porque é a côr da esperança. Hei de lhe dar o observatorio mais +commodo que o meu casaco lhe podér proporcionar; telescopios não devem +ser necessarios a quem possue a vista subtil dos espiritos. Mas por +cavilloso o declaro, se elle descobrir no meu coração outra estrella que +não seja a tua imagem. + +--«Não gósto da comparação; as estrellas são sempre offuscadas umas +pelas outras. + +--«Mesmo quando essa estrella se chama _Venus_? + +--«Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres que eu continue no +mesmo tom? Dir-te-hei n'esse caso que a Venus, mais do que a qualquer +outra, succede o que acabei de dizer. Á tarde vem a lua offuscal-a, pela +manhã o sol. + +--«Não, minha querida, não succederá assim comtigo. Sempre viva, sempre +pura a tua imagem resplandecerá no meu peito. É isto o que a tua bolsa +te ha de dizer constantemente. + +--«Querido Eduardo! + +--«Querida Camilla! + +--«Amo-te! + +--«Adoro-te! + +«E foi assim que eu passei das mãos da loira Camilla para as mãos do +moreno Eduardo. + + +VI + + +«Não tive rasão de queixa. O meu dono trazia-me nas palminhas. Quando +saía occupava sempre um logar de honra na algibeira do casaco, e alli ia +eu, sentindo pulsar o coração de Eduardo, regalando-me, porque estavamos +no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada, em quanto muitas +das minhas irmãs estariam talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas +dos seus possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim, quando +Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer alguma compra, me +collocava em cima do balcão; como todos olhavam cubiçosamente para as +minhas fórmas arredondadas, e que bello effeito que eu produzia com as +libras que fulgiam atravez dos intersticios da seda. + +«Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que fez a bolsa de um +empregado publico, a quem o acaso collocára junto de mim. Era uma +bolsinha de lã, tão magra, tão magra, tão escorrida que mettia dó. Uns +pobres meios tostões escondiam-se envergonhados no fundo, e alvejavam +tristemente, aborrecidos da sua solidão. A pobre bolsa olhou para mim +com uma certa inveja, e não me dirigiu palavra. O dono da loja +cumprimentou-me respeitosamente, e desviou com desdem a minha visinha. +Ella não ousou protestar, e pôz-se de parte, esperando que eu me +dignasse voltar ao meu alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me +toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas mesmas +humilhações! + +«E o caso é que eu suppunha que todos esses cumprimentos eram devidos á +minha gentileza, á formosura da minha côr! E Eduardo julgava egualmente +que era a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das +humilhações, do servilismo que o rodeavam! Eduardo attribuia a si o que +a mim era devido. Eu attribuia a mim o que era devido ás libras que eu +abrigava, e as libras tambem attribuiram a si o que se devia +simplesmente á somma de gózos que ellas proporcionam. Todo o homem se +adora a si mesmo nos objectos perante os quaes se curva. O «eu» é o +idolo constante da humanidade. O egoismo é o seu unico motor.» + +E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo suspiro. + +«Á noite, continuou ella, repousava dentro da gaveta de uma linda +secretária de pau rosa, e alli ficava até pela manhã tagarellando com +umas cartas de amores, minhas visinhas, que me contavam os mil +deliciosos segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta doce +pratica voavam para mim as lentas horas da noite. + +«Comtudo, eu começava a presentir o meu futuro destino. Eduardo era o +que vulgarmente se chama uma cabeça de vento. Frequentes vezes, e com as +melhores intenções d'este mundo, se esquecia de mim, e me deixava ficar +á noite em cima da meza, em vez de me conduzir á minha deliciosa alcova +da secretária. + +«Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras, deixou-me em cima do +balcão. Não posso explicar a impressão dolorosa que senti quando o vi +desviar-se distrahidamente, e quando reparei, olhando em torno de mim, +nos ávidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente com a vista, e já +me ia a despedir d'elle para sempre, quando Eduardo, chegando á porta, +mostrou recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente, +correu ao balcão. Deu logo com a vista em mim, que estava toda tremula +de alegria, e, beijando-me fervorosamente, escondeu-me no seio. + +«Infelizmente nem sempre lhe succederia isso. + + +VII + + +«Uma vez (sempre me hei de lembrar d'este dia nefasto) Eduardo, estando +a fazer umas contas, tirou me da algibeira e pôz-me em cima da +secretária. Depois, a pouco e pouco, foi amontoando os papeis em cima de +mim, de fórma que eu já parecia um pobre Encéladosinho de seda, debaixo +de um Etna de papelada. + +«Quando acabou o que tinha que fazer, Eduardo levantou-se, e, como +estivesse tocando a sineta para o jantar, foi para a meza e não se +lembrou mais da pobre bolsa. + +«Por infelicidade, na vespera, tinham os donos da casa recebido a visita +de uma joven viuva, muito galante, muito _coquette_, e que parecia +desejar jungir ao seu carro de triumpho o marido de Camilla, sobre quem +não se cansava de experimentar o effeito dos seus olhares cheios de fogo +e de estrategia. Eduardo, como podem imaginar, nem reparára em +semelhante coisa; porém sua esposa, com a perspicacia de mulher, +adivinhára tudo, e sentira o ciume, não digo bem, o despeito apoderar-se +d'ella. Não sei a que proposito, Eduardo me fôra buscar, e a joven viuva +mostrou desejo de me vêr. Eduardo entregou-me cortezmente nas mãos da +baroneza (a viuva era baroneza) e os dedos involuntariamente encontraram +os dedos da gentil _coquette_. Um raio de indignação fusilou nos olhos +de Camilla, a baroneza sorriu-se, Eduardo ficou impassivel, e eu previ +uma proxima tempestade. + +«Por isso, e apesar da mão da baroneza ser tão delicada e macia como a +da minha creadora, apesar dos elogios que ella me prodigalisou, eu não +fiquei satisfeita senão quando me vi livre da sua analyse. + +«Mas d'esta vez foi a mão de Camilla quem me recebeu. Rapidos como o +relampago, os dedos elegantes, que me tinham lançado ao mundo, +adivinharam, antes d'ella a executar, a tenção que a baroneza formára de +me entregar ao meu dono, e apressaram-se em preceder a mão solicita de +Eduardo. + +«Devo confessar que, desde essa visita fatal, o bom humor de Camilla +alterára-se sensivelmente, alteração cujas consequencias Eduardo soffria +com grande pasmo seu. Não podia comprehender o azedume que sentia em +todas as palavras de Camilla, e, muitas vezes, espreitando pelo buraco +da fechadura da minha gaveta, o vi de pernas cruzadas, e em attitude +meditativa, perguntando a si mesmo quaes seriam os díabos azues que +atormentavam sua esposa, e a elle por conseguinte. + +«Depois de jantar, os dois esposos vieram tomar café para o sitio onde +eu estava; a conversa que se travára entre elles affrouxava a cada +instante, porque os esforços que Eduardo fazia para a sustentar eram +completamente infructiferos, por causa da sequidão das respostas de +Camilla. + +«Acabaram de tomar o café, e Camilla foi encostar-se á janella. + +--«Está uma tarde tão bonita!--disse Eduardo, não queres aproveitar este +lindo dia de inverno para ires vêr os campos, que estão experimentando +já os mantos verdejantes com que hão de comparecer na festa annual da +primavera? + +--Está estragando comigo a sua poesia, respondeu Camilla seccamente, +guarde-a para as pessoas que quizer deslumbrar. Isso era bom quando me +fazia a côrte. + +--«E não sou eu sempre o mesmo, Camilla; deixaste tu um instante só de +ser a noiva gentil que eu adorei, que adoro, e que sempre hei de adorar? +Não sou eu sempre o namorado solicito dos primeiros tempos? Isso, a que +se deu, por convenção, o triste nome de prosa do casamento, teve nunca +entrada nos nossos corações? + +--Ah! Ah! que differença! O que me dizia então: «Oh! nunca me hei de +separar de ti! Hei de estar sempre ao teu lado! Que valor tem o mundo +inteiro junto do teu olhar?» E agora sae quando lhe parece, anda por +fóra o tempo que quer, demora-se a conversar com os amigos; porque sua +mulher, essa não serve senão para estar n'um canto da casa, á espera que +o _senhor_ lhe faça a esmola da sua presença. Não é porque eu me importe +com isso! Eu, sim! É-me completamente indifferente! Nunca estou melhor +do que quando está longe de mim! Olhe, d'isso póde estar certo! Se +fallei, foi porque me enraiveceu a sua hypocrisia. + +--«Quanto és injusta, Camilla! Pois eu não desdenho tudo, tudo n'este +mundo para estar junto de ti; não prefiro a todos os vãos divertimentos, +a todos os prazeres a nossa deliciosa intimidade? E, quando os meus +negocios me chamam fóra de casa, não me affasto de ti tão penalisado, e +não aproveito a primeira occasião de me desembaraçar d'elles para correr +alegre, satisfeito, risonho, a abraçar-te, a beijar-te, a testemunhar-te +o immenso e inalteravel affecto que te consagro? + +--«Negocios! que grandes negocios que tem! Quaes são elles? Talvez ir +visitar a baroneza! + +«Eduardo levantou-se, olhou fixamente para sua mulher, e disse: + +--«A baroneza! A baroneza, porquê? + +--«Foi a primeira pessoa que me lembrou, tornou Camilla, fazendo-se +ligeiramente córada. + +--«Nada! Isso è um tanto inverosimil. + +--«Inverosimil, porquê?--tornou Camilla, irritando-se e fazendo-se +vermelha de despeito. Talvez imagine que eu tenho ciumes do senhor. Que +vaidade tão louca! que presumpção! Que fatuidade! Ora esta! como logo +suppôz que eu era ciumenta! + +--«Mas, filha... + +--«Ciumenta e de quem? Ah! Ah! Ah! é de um ridiculo incrivel! Não querem +vêr o formoso Richelieu, que anda semeando paixões por toda a parte! E +julga talvez que eu me importo com semelhante coisa! Namore á sua +vontade! Faça o que quizer! Esteja certo que nunca me ha de dar cuidado! +convença-se... entendeu? Convença-se bem de que nunca tive ciumes do +senhor, porque eu nunca o amei. Foi uma predilecção passageira! Foi um +capricho de que me arrependo! + +--«Parece-me comtudo, tornou Eduardo ferido no seu amor proprio, que a +união eterna de duas pessoas não é coisa tão ligeira que se possa +decidir levianamente, e, se não sentias por mim o amor immenso que eu te +consagrava, mais valia que me despedaçasses o coração, do que me +dirigisses agora essas palavras amargas. + +--«Então chegou o momento! Sempre fica sabendo que se enganou; quando +suppôz que eu tinha ciumes da baroneza. + +--«Mas foi coisa em que não fallei, filha, bradou Eduardo um pouco +impacientado. + +--«Bem o deu a entender! Não o disse, mas pensou-o. E então escolheu bem +a pessoa que me poderia tornar zelosa! A baroneza, uma tola presumida, +uma _coquette_ insupportavel, que não tem nem belleza, nem espirito, nem +graça, nem elegancia, mas que possue em compensação uma vaidade immensa. + +--«Pobre baroneza! + +--«Defenda-a, ande! então porque a não defende? É o que lhe falta +unicamente! Ouse tomar, deante de sua esposa, o partido de uma mulher +como é a baroneza. + +--«Ih! Jesus! Camilla! Eu não tomo a defeza de pessoa alguma. Mas tu +fallas da pobre senhora, como se lhe tivesses um odio mortal. + +--«E tenho, bradou Camilla, erguendo-se com os dentes cerrados e os +olhos fusilantes, tenho odio a essas mulheres de maneiras affectadas, de +olhares languidos, de vistas fascinadoras, deslumbrantes na apparencia, +grosseiras na realidade, a quem os homens seguem tolamente, como as +borboletas seguem a luz, ainda que essa luz emane de uma candeia +afumada. Quando ella hontem quiz vêr a bolsa que eu fizera, tive +tentações de a rasgar, para lhe poupar uma profanação. E a proposito, +onde a tens tu? + +«Eduardo, ao ouvir esta pergunta, que parecia dever servir de transição +para uma conversação mais serena, começou-me a procurar alegremente por +todas as algibeiras. O acaso fôra-me collocar muito mirrada na +extremidade da secretária. No remexer dos papeis eu tinha quasi caido ao +chão; felizmente ou infelizmente, um resalto da secretária tinha-me +retido, e eu alli ficára suspensa por uma das borlas, estando esta de +mais a mais completamente occulta por um fragmento microscopico de +papel. Da posição em que eu estava, podia vêr e ouvir tudo, sem que +ninguem me podésse divisar. + +«Quando Eduardo começou a revolver as algibeiras não pude deixar de me +rir. Era tão comico o espanto d'elle, quando, depois de ter +esquadrinhado minuciosamente todos os cantos do seu fato, não encontrava +coisa alguma, que eu, ignorando ainda quaes seriam as consequencias +d'aquella scena, ria-me a fartar. + +«Camilla contemplava-o com um sorriso ironico, e batendo o compasso com +o pé no sobrado da sala. + +--«Talvez lhe esquecesse lá por fóra!--disse ella, accentuando muito as +palavras. + +--«É impossivel; lembro-me perfeitamente de a ter n'esta algibeira. Já +depois de estar em casa eu a vi, e até lhe peguei. + +--«Talvez a tivesse confiado a alguem!--tornou Camilla com o mesmo +sorriso estereotypado nos labios. + +--«A quem?--perguntou Eduardo com a maior ingenuidade. + +--«Eu sei! A alguem que a visse, que gostasse d'ella, e que a desejasse +conservar por algum tempo. + +--«Ora essa! Não pódes suppôr que eu fizesse tal! + +--«E porque não? Os homens julgam que tudo lhes é permittido. + +«Mas Eduardo não a ouvia. Tinha-se recordado das contas que fizera, e +tinha corrido a revolver os papeis que estavam em cima da secretária. +Eu, que via a má figura que o negocio ia tomando, não desgostei de que +elle tomasse aquella resolução. + +«Comtudo, debalde Eduardo deitou ao meio do chão toda a papelada com uma +impaciencia febril, debalde tentou, depois de os ter reunidos, +separal-os um a um. Eu não apparecia; preza na minha esquininha, sem +poder revelar por fórma alguma onde estava, assisti, espectadora muda +mas não indifferente, áquella caçada férvida, em que tanto interesse +tinham em se encontrar a caça como o caçador, mas que apesar d'isso +ficava sem resultado. Vi os papeis, impellidos pela mão de Eduardo, +revolutearem nos ares em torno de mim, senti a sua mão impaciente pousar +em cima das minhas borlas, sem saber que estava a meia pollegada de +distancia da extremidade dos seus dedos o objecto que tanto procurava. E +elle bafejava-me com o halito e não tinha um presentimento que o +advertisse, desviava com a mão tremula os papeis que me encobriam, e de +nenhum d'elles saia uma voz mysteriosa que lhe dissesse: «Para +conseguires esse thesouro, que tu pagarias agora com dez annos da tua +vida, basta-te abaixar a cabeça, e estender a mão.» + +«Finalmente Eduardo, pallido, com a fronte inundada de suor, deixou-se +cair prostrado em cima de uma cadeira, e dirigindo-se a sua mulher, +disse com voz sumida: + +--«Creio que a perdi. + +«Camilla não se pôde conter. As lagrimas, tanto tempo retidas, +rebentaram finalmente, e inundaram-lhe as faces. + +--«Era isso que eu esperava havia muito tempo, bradou ella com voz +entrecortada. Eis a resposta com que não só pagam a minha dedicação, mas +tambem com que pretendem illudir a minha boa fé. Anda! trabalha com +amor, com alegria, despende n'essa pobre bolsinha thesouros de affecto, +sorri só ao pensares que essa obra das tuas mãos vae ser a constante +companheira d'aquelle em que tu só pensas, por quem tu só vives, cuja +apparição te enche de prazer, cuja ausencia te faz ficar immensamente +triste. Ai! quanto te illudes, pobre louca, esse teu mimo ha de ser +desprezado, porque tu tens esse titulo malfadado de esposa, e o amor +conjugal é uma coisa altamente ridicula. Acceitam com desdem o teu +presente, e vão depressa offerecel-o á primeira namoradeira que prender, +nas suas rêdes vulgares, a ave fugida do ninho da familia, ninho cuja +prisão lhe é insupportavel. Devia ser esta a minha sorte. Ninguem se +exime a ella. + +--«Ih! Jesus! Ih! Jesus!--dizia o pobre Eduardo com as mãos na cabeça; +mas, filha... eu sou um estouvado... a bolsa ha de estar por ahi... Da +nefanda traição de que me accusas é que sou completamente incapaz. + +--«Traição!--tornava Camilla procurando, sem o conseguir, conter o +pranto; póde-me trahir á sua vontade que me é completamente +indifferente. Engana-se se julga que eu dê o menor apreço á sua +fidelidade. + +--«Mas n'esse caso porquê? + +--«Cale-se! Diga-me: zombaram bastante de mim? Riram-se das minhas +creancices? Quantas caricias lhe valeu esse sacrificio tão pouco +custoso? + +--«Isto é demais! Juro-te... + +--«Cale-se. Quanto mais jura mais mente. Tambem me jurou amor eterno, +e... + +«E a pobre senhora desatou a soluçar, e caiu sentada n'uma cadeira. +Eduardo, com as lagrimas nos olhos, ajoelhou aos pés d'ella, e exclamou +com voz commovida: + +--«Camilla, não chores que me despedaças o coração. Sou um grande +criminoso, mas não mereço castigo tão cruel. Bem sabes que o amor que te +consagro é immenso, é exclusivo, e que, desde que te conheço, nunca mais +ergui os olhos para outra mulher. Camilla... + +«Mas esta levantou-se enxugando as lagrimas, e disse-lhe com modo +friamente desdenhoso: + +--«Aproveite a inspiração para algum arrufo que tiver com a baroneza. + +«E saiu da sala, deixando ficar o pobre Eduardo com um joelho no chão, +as mãos erguidas, a bocca aberta, espantado, aterrado, paralysado, +petrificado, estupefacto! + +«Finalmente levantou-se, dirigiu-se de novo á secretária, e procurou +entre os papeis. Com o revolver caíram alguns, e eu caí d'envolta com +elles; o acaso fez-me ainda ficar tão mirrada entre duas folhas, que, +quando Eduardo veiu procurar ao chão, escapei com grande desespero meu +ás suas pesquizas. Um tal accesso de desespero se apoderou do meu dono, +que, pegando n'um grande mólho de papeis, no meio dos quaes ia eu, sem +elle o saber, amachucou-o, e depois enraivecido, atirou-o pela janella +fóra. O vento desfez o mólho, e n'este instante ouvi dois gritos, um de +Eduardo, outro de Camilla, que estava n'uma outra janella por traz dos +vidros. + +«O vento forte que soprava, tinha-me separado dos papeis, meus +involuntarios carcereiros, eu caía magestosamente isolada, á vista dos +dois conjuges, sobre as pedras da rua. + + +VIII + + +«Nunca vim a saber o que se passára na casa, d'onde fôra tão bruscamente +e tão involuntariamente expulsa! Apenas eu caíra no chão, um gaiato de +pé descalço, que passava por acaso, abaixou-se, apanhou-me, e largou a +correr, apertando-me nas mãos, com uma tal velocidade, que, por mais +ligeiro que fosse Eduardo em me vir apanhar, logo percebi que não havia +esperança alguma de que o conseguisse. + +«A corrida era desenfreada. Apertada na mão callosa do garoto, eu, +habituada ao fino contacto das mãos aristocraticas, que até ahi me +tinham manuseado, sentia dôres atrozes, e uma profunda humilhação. Eu, a +favorita dos opulentos, tratada assim tão irreverenciosamente por um +rapaz pertencente á escoria da sociedade! Ao meu passado de gavetas de +secretárias, de sophás, de divans, de tapetes, ia succeder um futuro de +palheiro, de calças esfarrapadas, de degraus humidos de escadarias. As +feridas abertas na minha pelle, tão cuidadosamente curadas e +cicatrisadas pela minha senhora, iam agora ser abandonadas, e talvez +alargadas pelos dedos travêssos do rapaz da rua. Tudo isto ia eu +pensando, em quanto o meu roubador corria a bom correr, primeiramente +pelas ruas da cidade, e depois já pelo campo. + +«Ninguem se tinha importado com elle. Um rapaz descalço á desfilada, não +é um caso tão grave, e tão raro, que os encarregados da policia +descessem da sua dignidade, para inquirirem o que motivára a carreira +despedida em que elle ia. + +«Chegou ao pé de uma fonte, e, pensando provavelmente que já estava fóra +do alcance dos seus perseguidores, entendeu que podia descançar. Por +conseguinte estirou-se em cima da relva, e tirando da algibeira um lenço +muito esfarrapado, começou a limpar o suor que lhe escorria pelas faces. + +«Estavamos já nos primeiros dias da primavera, e os campos revestiam-se +de um manto verdejante, que os malmequeres e as boninas esmaltavam. A +agua da fonte corria com um doce murmurio, e myriades de insectos com as +azinhas doiradas pelo sol, esvoaçavam zumbindo pelo prado. O sôpro, +mysteriosamente vivificador da primavera, percorria a creação. + +«O meu novo possuidor deitara-se, como já disse, em cima da relva, e +collocára-me ao seu lado. Para mim tudo quanto me rodeava era +completamente novo. Eu nunca tinha saído da cidade, e o aspecto dos +campos enchia-me de prazer. Parecia-me que respirava um outro ambiente, +que via um céo mais largo, mais azul! Um enchame de novas sensações se +agitava dentro de mim. + +«Assim estava eu boqui-aberta, olhando para tudo com uma alegre +curiosidade. As feveras da herva que se agitavam em torno, mettiam as +suas cabecinhas tambem curiosas pelos intersticios da seda, afim de +observarem que monstro desconhecido eu era. As boninas _coquettes_ como +todas as flôres, mostravam-me com desvanecimento a sua formosura, para +verem se d'ellas me enamorava. Era a tentação que todas as formosas +sentem, de fascinar os estrangeiros. Os dois proverbios: «Ninguem é +propheta na sua terra» «Santos de casa não fazem milagres», são, n'este +caso, da mais escrupulosa exactidão. As abelhas, que vem de fóra, +extrahem mais depressa a essencia das flôres, do que as que pertencem á +colmeia do jardim. + +«Eu sentia correr um indizivel murmurio pelo prado. O vento, acamando a +relva e as florinhas, perguntava-lhes, no seu dialecto incomprehensivel, +que vós não entendeis, mas que para todas nós é clarissimo, quem era a +recem-chegada. E os bichinhos pequeninos que arfavam debaixo de mim, +respondiam que era o Hymalaia, e os insectos zumbidores respondiam que +era uma grande flôr verde com estames de oiro. + +«O que é certo é que eu consubstanciava-me de todo com a relva que me +cercava. Egualmente verde, não transtornava em nada a unidade do tapete, +e as minhas borlas de oiro matizavam-n'o agradavelmente. + +«Assim estava n'aquelle _dolce farniente_, e confesso que, apesar de me +lembrar de vez em quando dos donos que me eram tão affeiçoados, e de +quem me tinha separado, as saudades que sentia eram attenuadas pelo +prazer completamente novo que me embriagava. + +«Mas aquelle ocio não podia durar sempre. O Tytiro, que me apanhára, não +estava muito disposto a repousar _sub tegmine fagi_, mais do que +convinha á sua indole vagabunda, e depois de ter saboreado, por espaço +de dez minutos, quando muito, as delicias da posição horisontal +succedendo á rapidez da corrida, levantou-se, dirigiu-se á fonte, encheu +de agua a palma da mão, disposta para esse fim, levou-a á bocca, bebeu, +repetiu duas ou tres vezes esta operação, e depois, dirigindo-se a mim, +levantou me do chão, e foi-me levando socegadamente pelos campos fóra. + +«É tempo agora de descrever o meu novo dono. Era um rapazito dos seus +quatorze annos, de rosto alegre e queimado, com uns olhos negros muito +vivos e rasgados, uma bocca grande, que parecia estar sempre preparada +para as gargalhadas. Todo o seu fato consistia n'umas calças rotas, +n'uma camisa muito suja, e n'uma jaqueta tão arremendada, que era um +verdadeiro mosaico, porque creio que tinha todas as côres do espectro +solar, e todas as combinações que com ellas se podem fazer. Um bonet, +que estava rodeado por uma densa armadura de sebo, occupava o alto da +cabeça; porque julgo não haver exemplo de ter sido collocado na posição +habitual, e a testa do garoto, se lhe dissessem que este possuia um +bonet, estou que ficaria summamente espantada. + +«E lá ia elle por ahi fóra, baloiçando o corpo a compasso de uma +cantiga, devida ao seu genio musical, distrahindo-se no caminho a +apanhar borboletas, a atirar pedras aos cães, fugindo depois a bom fugir +quando estes o perseguiam ladrando, trepando acima das arvores da +estrada a espreitar se já haveria ninhos entre os seus ramos, cobertos +de novas folhas, e saltando os muros dos pomares, para se ir empoleirar +nas larangeiras, trincando as laranjas verdes ou maduras, que se lhe +deparavam. + +«Devo confessar que a minha situação durante estas excursões, motivadas +pelos entretenimentos do meu dono, não eram das mais invejaveis, e que +bastantes vezes amarguei o gosto que sentira, respirando o ar dos +campos. Com effeito o gaiato attendia mais aos seus prazeres do que ás +minhas commodidades, e nem posso descrever os sustos que curtí, quando +os cães corriam atraz de nós, e que eu via os seus dentes agudos, que +seriam capazes de me despedaçar n'um segundo; a triste impressão que eu +sentia, vendo as borboletas tão gentis, tão galantinhas, nas garras do +seu caçador cruel; as dôres que me faziam os esgalhos das arvores, +rasgando me sem piedade, em quanto elle subia descuidoso, indifferente, +affastando a ramaría, para vêr se, n'alguma verdejante alcôva, não teria +ido a carinhosa mãe dos passarinhos depôr o berço gentil, que as auras +embalariam. + +«Sobre tudo o que me atormentava era o costume que elle tinha de saltar +os muros dos pomares para se ir sentar nas larangeiras, a fartar-se +d'esses pomos que a antiguidade chamou aureos por serem vermelhos, e que +o seu Camões asseverou terem + + _A côr que tinha Daphne nos cabellos_; + +o que é pouco lisongeiro para a belleza d'essa nympha, que vinha a ser +hyper-ruiva, se acreditarmos as asserções do cantor dos _Lusiadas_. + +N'este ponto tornei eu a interromper a bolsa tão prodiga em reflexões. + +--O espanto, em que me colloca a sua erudição, impede-me de reprehender +energicamente o tom com que falla n'essa gloria nacional. Mas diga-me, +quem a fez tão instruida? + +--Não antecipemos os acontecimentos, como diria o visconde d'Arlincourt, +respondeu-me a bolsa. + +--O quê? Pois tambem leu ou ouviu os romances do visconde d'Arlincourt? + +--Então! meu amigo, tornou-me a narradora, suspirando, nem tudo são +rosas na instrucção. + +--Bem, continue. + +«Como já disse, esse costume do meu dono incommodava-me sobremaneira; +porque a escalada tinha para mim todos os seus inconvenientes, e muitos +mais, sem ter nenhuma das suas vantagens. Em primeiro logar a subida +pelo muro era summamente incommoda; porque o bom do meu amigo, tendo +todas as algibeiras rotas, e, por conseguinte, não me podendo confiar a +nenhum d'esses toneis das Danaides, de que as suas calças e a sua +jaqueta estavam tão amplamente providas, levava-me na mão, apertava-me +sem cerimonia de encontro ao muro, e esmagava-me, torturando ao mesmo +tempo uma pobre meia corôa que eu tinha dentro de mim, e que eu sentia, +de afflicta, resmungar no meu seio. + +«Depois, quando, á força de trabalhos e de arranhões, chegavamos ao cimo +do muro, novos desastres nos esperavam. Garrafas partidas formavam uma +especie de negra palissada, dispostas d'aquella maneira para enterrar os +seus dentes agudissimos nos aventureiros que intentassem a conquista. +Mas o meu dono, que era, segundo parece, já pratico n'aquelles assedios, +tinha tomado as suas precauções, e foi então que eu vi que não era só a +questão das algibeiras que o inhibia de me resguardar, mas sim tambem +uma questão de defeza propria. Eu, malfadada, servia-lhe de escudo! Eu +era, para assim dizer, o _césto_, á sombra do qual o garoto jogava o +murro com as paredes. N'uma das mãos ia eu, na outra o lenço de assoar +muito embrulhado. A mão que eu protegia, era ainda assim a que estava +resguardada melhor; porque o tal lenço, para fallarmos verdade, parecia +a moldura de um quadro ausente; um immenso rasgão formado por uma +multidão de rasgõesinhos que se tinham annexado, occupava o +centro-rodeado em toda a extensão por uma pobre tira. Creio que a +historia d'essa transformação se póde explicar geographicamente. Imagine +que o lenço ao principio se assimilhava com aquelle territorio da +America do Norte, onde existe o lago Ontario, cercado de muitos outros. +Supponha que um grande cataclysmo rasgava os terrenos que separam esses +lagos, e que as aguas trasbordando, e unindo-se, formavam um verdadeiro +mar no genero do mar Caspio. Ahi tem o que succedeu com os rasgões do +lenço do garoto. + +--V. ex.^a permitte-me, interrompi eu, que a proponha para socia do +Instituto Geographico de Paris? + +--Muito obrigada! Não estou agora decente para entrar n'uma academia. + +--Pelo contrario, minha senhora, tornei eu, as bolsas vasias devem ser +da mesma fôrma que as cabeças, as que mais depressa sejam admittidas +n'essas sociedades sábias. Póde continuar. + +«Não findavam aqui os meus soffrimentos. Experimentava alguns rasgões, +mas consolava-me com o pensamento de que o meu sacrificio era util ás +mãos do meu dono, por quem eu professava uma secreta e inexplicavel +sympathia. É verdade que o demonico do rapaz parecia não se affligir +muito com as arranhadellas que recebia. A mão esquerda, confiada á +protecção nominal do lenço de assoar, chegava toda em sangue, e isso, em +vez de lhe diminuir a alegria, parecia augmentar-lh'a e dar melhor sabor +ás laranjas com que se fartava. + +«Ahi se empoleirava elle, por conseguinte, sentando-se no ponto de união +de dois ramos, toucado de folhas, baloiçando os pés no ar, e enviando as +mãos em toda a direcção, a fazerem uma atrevida _razzia_ aos taes pomos +de oiro do antigo jardim das Hesperides. E quer as laranjas estivessem +ainda verdes, e por conseguinte amarellas (n'esse caso tem rasão Camões +e a antiguidade), quer estivessem já em pleno sazonar, e por conseguinte +trajassem a purpura que merecem, como rainhas que são de todas as +fructas, o meu bom gaiato apanhava-as sempre com uma imparcialidade +digna de especial menção, e, ministro justiceiro dos negocios do seu +estomago, escolhia para funccionarios todos os fructos, sem distincção +de côres. + +«Era um bello espectaculo o d'esse rapazito rôto, esfarrapado, mais +feliz no seu throno de cortiça do que os reis no seu throno de oiro, +comendo as laranjas do proximo com mais satisfação, de certo, do que a +que sente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos de que é +victima a infeliz Polonia. + +«Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria as más consequencias +dos prazeres do meu senhor. Para poder comer á sua vontade, o meu amigo +largava-me e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava á mão. O vento +baloiçava o ramo; ás vezes um gatinho, que andava passeiando por cima +dos muros, vendo-me ondular na extremidade, saltava e principiava a +brincar comigo. A isto reunia-se o susto de me vêr n'uma altura para mim +desmesurada. Era necessario que os latidos de um cão de guarda viessem +inquietar o meu dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha +incommoda posição, afim de operar a sua retirada. + +Já vê, por conseguinte, que a minha existencia aventurosa, se tinha as +suas vantagens, tinha tambem os seus inconvenientes. + + +IX + + +«O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento, que eu não +estava vasia, mas ainda se não dera ao trabalho de verificar a quanto +montava a sua nova riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de +laranjas, cançado de trepar ás arvores, entendeu que era já tempo de +attender aos negocios do thesouro. Sentou-se por conseguinte n'uma pedra +da estrada, abriu-me com toda a gravidade, e tirou de dentro +triumphalmente a moeda de cinco tostões. + +--«Olá! um _caiado_!--bradou elle com alegria, e para demonstrar melhor +o seu regosijo entoou a aria da _Saloia_, e atirou comigo ao ar a uma +distancia immensa, com grande desespero meu, porque vim assustadissima, +aos trambolhões pelo espaço, cair na mão aberta do garoto. + +«Este não ficou em contemplação diante do seu thesouro; metteu o outra +vez no sitio em que estava, levantou-se, e continuou o seu caminho, +cantando com uma voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para +me receber, attitudes de tambor-mór. + +«A estrada, que se ia approximando da cidade, ia sendo tambem mais +frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se, e as casas começavam a +apparecer. Nem por isso o gaiato deixou de cantar a _Saloia_ a plenos +pulmões, com grande escandalo das velhas sentadas nos degraus das +portas, que acompanhavam cada estrophe da aria popular com um +desafinadissimo côro de imprecações. + +--«Valdevinos!--Bregeiro!--Gaiato sem emenda!--D'onde vens tu, +maroto?--Ah! boa sova!--Fosse eu tua mãe que te havia de moer o corpo +com pancadas!--Só se perdiam as que caissem no chão!--D'onde vens tu, +desavergonhado, vens de roubar laranjas?--Tu vaes direitinho para o +inferno!--_Berzabum_ te valha, démo pequeno!--O descarado vem a cantar +para quebrar a cabeça ás almas christãs!--Quem te puzesse uma farda ás +costas! + +«E outras amabilidades de egual jaez, a que elle só respondia, grave e +serenamente, com esta invariavel apostrophe: + +--«Eh! bruxas! + +«Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito gordo, com umas +barbas de phariseu, uns olhos esgazeados e orlados de vermelho, uma +d'estas physionomias baixamente orgulhosas, onde se lê ao mesmo tempo o +servilismo para com os poderosos, o desabrimento para com os humildes. +Desbarretava-se até ao chão quando passava alguma carruagem, onde ia +pessoa conhecida d'elle, e correspondia ligeiramente á saudação dos +pobres trabalhadores, que levantavam o chapéo, com aquelle ar gravemente +cortez dos homens do campo, para lhe dizerem: + +--«Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil. + +«Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a idéa de lhe fazer alguma, foi +acto simultaneo. Com um sorriso malicioso nos labios enrolou-me na mão +muito bem enrolada, de sorte que só ficasse de fóra o sitio onde estavam +os cinco tostões, e approximando-se, pé ante pé, do empavezado +passeiante, ergueu a mão, vibrou-me com toda a força, e fez-me desabar, +indo a meia corôa de esquina, na copa do chapéo do gorducho. + +«A _gebada_ foi magistral; o chapéo enterrou-se até aos olhos; e em +quanto o dono d'elle, espumante de raiva, procurava desembaraçar a cara +d'aquelle inesperado invólucro, o rapaz pôz-se fóra do seu alcance, e, +já lá muito ao longe, ouviu as exclamações furiosas da sua victima, que +ameaçava prendel-o, matal-o, enforcal-o, esquartejal-o. + +«O homem ficára desesperado. Pois não tinha rasão; o seu chapéo, como +sempre, tinha-se curvado ao dinheiro. + + +X + + +«Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso, houve por bem rir-se +ás gargalhadas do que praticára. Com effeito merecia a pena. Eu, apesar +de ter padecido, não desgostei da correcção. + +«Depois de se rir á vontade, entendeu o auctor da _gebada_ que não +poderia ser completa a sua satisfação se não visse a cara do paciente +depois do castigo. Reflectiu como poderia conseguir vêl-o sem ser visto, +e como afim de reflectir melhor, quando olhava para o céo a procurar +inspiração, deu com a vista n'uma arvore que se erguia mesmo ao seu +lado. Vêl-a, e trepar a ella, foi uma e a mesma coisa. O mirante era +optimo, bem arejado, completamente resguardado da curiosidade dos +profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio um delicioso +panorama para se entreter emquanto não passasse aquelle a quem esperava. +Attendendo, pois, ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa +da dita arvore, estabelecemo nos n'ella sem cerimonia, eu n'uma caminha +de folhas, elle encostado a uma especie de janella verdejante, d'onde +via optimamente tudo quanto se passava na rua. + +«Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia curiosa e +maliciosa á espreita por entre os ramos, parecia um macaquinho agil, que +espera occasião propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante. + +«Por baixo de nós um pobre velho, pallido, magro, macilento, mostrando +no rosto a timidez envergonhada d'aquelles que um soffrer verdadeiro +obriga a pedir esmola, estendia o chapéo a quem passava. Lagrimas +silenciosas lhe deslisavam nas faces encovadas: o sêllo da desventura +estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos brancos, que o vento +agitava, cingiam aquelle infortunio de uma aureola de magestade. Era +augusta aquella miseria! + +«Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair uma pobre moeda de cobre +n'aquelle chapéo supplicante, que se lhes estendia. Uns seguiam +desdenhosos o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto á muda +rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais humanos, faziam +distrahidamente um gesto negativo, levando ao mesmo tempo a mão ao +chapéo. Outros, mais caritativos ainda, murmuravam «Tenha paciencia» ou +«Não levo troco», e todos diziam, lá de si para si, a phrase conhecida: +«Este maroto provavelmente tem mais dinheiro do que eu. Desavergonhado! +Abusarem assim da caridade publica! Os que mendigam não são os que +precisam; nas aguas-furtadas é que se aninha a verdadeira pobreza.» + +«Ah! miseraveis! que fingís pensar que é um officio divertido o expôr-se +um velho, alquebrado de forças, ao sol, ao vento, á chuva, ás +humilhações, ao desprezo, para fazer uma pobre colheita de dez ou doze +moedas de cinco réis, e ás vezes de nenhuma! E a chuva a inundar os +membros mal resguardados do pobre pae de familias! E o sol a abrazal-o! +E a imagem dos seus filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe +na imaginação, e a redobrar-lhe as amarguras! + +«Porque vós não sabeis, ou antes fingís não saber, vós que julgaes que +esse homem vem pedir esmola para se ir embebedar na taverna proxima, não +sabeis que ha n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia de +espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle a quem despedis com +as mãos vasias! Não sabeis, vós que accusaes de falta de resignação, de +falta de animo, o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos, não +sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valor para se embrulhar na +pobre capinha, sair furtivamente do misero alojamento, e ir collocar-se, +espectro da miseria, ás portas da opulencia, do que lhe seria preciso +para se despenhar da janella da sua agua-furtada e despedaçar a cabeça +nas lages da rua! + +«Continuemos. + +«Todos passavam, como já disse, e ninguem dava sequer ao pobre velho a +esmola de um olhar de compaixão. O meu gaiato mirava-o de vez em quando. + +«Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho estendeu-lhe o +chapéo, murmurando mansinho: + +--«Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos morrem de fome. + +«O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente imaginará, de muito mau +humor. Trazia a _gebada_, para assim dizer, atravessada na garganta. As +sobrancelhas franzidas, o olhar fusilante, a cara fula de raiva, +denunciavam o rancor que o consumia. O chapéo, ainda um pouco amolgado, +tambem mostrava resentir uma nobre indignação. + +«A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma valvula de segurança, +por onde póde sair uma porção de colera, que, mais tempo contida, o +faria rebentar. Evitou-se d'esta fórma uma grave perda para a +humanidade. + +«O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava bruscamente o +chapéo do pobre velho: + +--«Sucia de mandriões! Estão estes marotos á esquina de todas as ruas, +para nos roubarem o dinheiro que nos custa a ganhar com o suor do nosso +rosto! Vossê não tem vergonha de pedir esmola? Vá trabalhar, ou metta-se +no hospital se está doente, ou vá para o asylo! Está o governo a pagar +um bom par de contos de réis alli em Santo Antonio dos Capuchos, e +pessoas ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo é quem cae em +tal, não ha de ser nunca o meu dinheiro que elles hão de apanhar; mas +está alli aquelle estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife +que não tem eira nem beira, para que? Para andarem estes velhacos a +incommodar-nos. Fosse eu da camara municipal! Rêde para os cães, rêde +para os mendigos. Vá para o demonio! Não lhe dou nem cinco réis! +Canalha! + +«E o digno homem continuou magestosamente o seu caminho. + +«Uma lagrima caíu das palpebras abrazadas do velho! Fez um gesto de +resignação, e deixou pender a cabeça sobre o peito. + +«E a noite estendia já sobre a terra o seu manto negro. A noite com o +seu duplo cortejo de alegrias, de festas, de prazeres, de suspiros +enamorados, e de tristezas, de crimes, de horrores, de soluços da +miseria! A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que se +deixa illuminar pelo lustre dos salões, e pela candeia das +aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda a parte pelo fulgor das +estrellas, que é o olhar de Deus. + +«E o velho scismava tristemente. Não tivera resultado o sacrificio! Nem +um pedaço de pão podia levar aos filhos esfaimados! Tristeza! A brisa +soprava asperamente, e elle não a sentia! As lanternas das carruagens +que passavam pareciam olhar para elle ironicamente, mas as estrellas, +essas miravam-no tristemente. + +«E o velho scismava! A pobre agua-furtada, onde vivia, +representava-se-lhe na imaginação! Via a filha doente, ella que á força +de trabalho sustentava os irmãos, os pobres innocentes, que pediam de +comer! E elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para lhes +dizer: «Morrei, não tenho que vos dar!» + +«Então pareceu-me vêr na fronte do garoto surgir uma estranha aurora! +Immovel na arvore, contemplava o pobre velho, e a sua physionomia +maliciosa tornava-se pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho +fazer mil projectos para o emprego dos cinco tostões, comprar bolos, ir +ao theatro, alugar um burro, mil extravancias que elle acariciava com o +amor de creança! N'aquelle momento não trocaria os cinco tostões por um +imperio! + +«Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu a mão para mim, +tirou-me do ramo, e deixou-me cair no chapéo do mendigo. + +«E depois de ter gozado por um instante da estupefacção do pobre homem, +deixou-se escorregar da arvore, e escapou-se sorrateiramente. + +«O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia vêr alvejarem +vagamente, na escuridão nocturna, as azas luminosas do anjo da caridade. + + +XI + + +«Quando me achei no chapéo, e depois na mão do pobre velho, a primeira +sensação foi a da alegria, a do desvanecimento. Parecia-me que eu tambem +participára da boa acção do rapaz, e que me competia uma parte dos +agradecimentos que lhe eram devidos. O que estava longe de esperar, é +que seria eu quem os receberia a todos. + +«Com effeito o pobre velho, depois de olhar muito tempo em torno de si, +depois de mirar bem a arvore, cujos ramos se estendiam sobre a sua +cabeça, concluiu por attribuir ingenuamente a um milagre da Providencia +o beneficio que recebêra; e, depois de ter reflectido bastante tempo, +convenceu-se devéras de que a bolsa lhe caira do céo, e tão arreigada +conservou esta convicção, que ninguem seria capaz de lh'a arrancar. +Veneravel candidez de crenças! Não se importou com e pensamento de que +não valia a pena fazer um milagro para dar cinco tostões, e que, ainda +que o céo estivesse inclinado a economias, não era natural que a +Providencia tomasse a precaução de collocar a sua esmola dentro de uma +bolsa de seda verde. + +«A tudo isso responderia elle que a menos que a bolsa não se formasse no +ar, e caisse por si mesma, ou que existissem actualmente arvores com +esse fructo, esse dinheiro não podia vir senão do céo. E vinha com +effeito. + +«Por conseguinte o bom do velho, passando do immenso desalento á immensa +alegria, ajoelhou, beijou-me fervorosamente, depois levantou-se, e +correu com uma lizeireza de rapaz a fazer as compras necessarias á sua +pobre familia. + +«Foi então que eu me pude convencer de que não eram a mim que se +dirigiam, no tempo da minha prosperidade, os comprimentos que tanto me +enchiam de orgulho, mas sim e unicamente á opulencia que eu +representava. Foi essa uma desillusão fatal, e que me causou uma +tristeza pungente! Ah! meu amigo, bastará esse dia para eu conhecer o +egoismo dos homens. Desde o instante em que eu saíra da casa em que +nascêra, no curto espaço de duas ou tres horas, que de agargas lições, +que de tristes ensinamentos! + +«Nas casas em que entrava com o meu pobre possuidor, ninguem olhava para +mim, assim como ninguem olhava para elle. N'uma loja de capellista onde +o velhinho foi comprar agulhas, o instrumento de trabalho de sua filha, +a fragil armasinha com que ella combatia intrepidamente o demonio da +miseria, estavam umas senhoras arrastando sedas, e resplendendo em +joias. Estavam comprando não sei o quê, mas fosse qual fosse a compra, +ellas demoravam-se immenso, porque desejavam escolher á vontade, e +obrigavam a dona da loja, que satisfazia as suas exigencias com toda a +complacencia, a revolver todas as caixas, a mexer em todas as gavetas, a +abrir todos os armarios. + +«O bom do meu velhinho, impaciente como estava, para levar de comer á +sua pobre familia, depois de esperar um pedaço, não pôde deixar de +dizer, collocando-me timidamente em cima do balcão: + +--«Se a sr.^a Ignacia me podesse aviar n'um instantinho... + +«A capellista, interiormente enfurecida pelas maçadas que lhe estavam +dando as suas opulentas freguezas, voltou-se, e empurrando-me +bruscamente, tão bruscamente que caí no meio do chão, bradou com uma voz +desesperada: + +--«Espere, não tenha pressa, guarde o seu dinheiro. Não vê que estou a +servir estas senhoras? + +«O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem murmurar sequer. O que +havia elle de fazer? A capellista fiava lhe os utensilios necessarios a +sua filha, em occasiões de apuro, e até ás vezes, porque no fundo a tia +Ignacia tinha um bom coração, lhe emprestava os seus vintens. + +«Eu é que não admitti circumstancia attenuante possivel para o ultrage +que recebêra. N'essa manhã mesma eu fôra tratada tão amavelmente n'uma +loja de capellista com estanco, onde Eduardo entrára a comprar charutos, +que não percebia qual fosse o motivo da subita differença. + +«Já vê que as lições ainda não tinham aproveitado. + +«N'esse ponto foi que eu principiei a avaliar as amarguras da minha nova +posição. Felizmente, a scena que se lhe seguiu veiu adoçal-as um pouco. + + +XII + + +«Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus de uma escada +tortuosa e escura, que conduzia á agua-furtada onde habitava. Quando +chegou ao ultimo patamar parou para respirar. O coração batia-lhe com +alegria. Pensára tanto em subir aquella escada lentamente, como um homem +que leva sobre os seus hombros o peso enorme do infortunio; pensára +tanto no soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse com o +desespero na alma ao mesmo sitio onde parára ebrio de alegria; pensára +tanto no triste espectaculo que se lhe havia de deparar, no desgosto +profundo que havia de sentir; pensára tanto em tudo isso, que chegára +quasi a costumar-se a essa idéa, e que a felicidade encontra-o armado +para a desgraça e desprevenido para a ventura. + +«Finalmente entrou. + +«Que espectaculo tão novo para mim foi esse que eu divisei! Das trevas, +que envolviam a casa, saiam gemidos abafados, soluços horrendos, +murmurio dilacerante, reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados do +inferno accumulados na tenebrosa _géhenne_ que Dante visitou. O meu +dono, depois de abrir a porta, ficou um instante parado, e +involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe as faces, parando nos +labios, que sorriam com um sorriso de consolação. + +«Quando o meu olhar se costumou ás trevas, pude então vêr no fundo do +quarto, e deitadas em cima de uma pobre enxerga, duas creanças de nove +para dez annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi nús, +tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam, e choravam de fome! +Mais ao fundo, n'um pobre catre, que era ainda assim o unico traste da +casa, jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos annos, +a quem o soffrimento arrancava gemidos. Uma pobre coberta esfarrapada +mal a resguardava. E comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre +violentissima; o delirio apoderára-se d'ella. Murmurava phrases +incoherentes, gemia, soluçava. E as trevas, a escuridão atroz a +suffocal-a! E lá ao fundo, na sombra, a fulgirem sinistramente as garras +do demonio livido da fome! + +«Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto. No primeiro andar +havia baile. A dois passos do risonho turbilhão das walsas o horrido +vendaval do infortunio! + +«Ó destino! + +«O velho, silencioso, accendeu uma véla. Depois pôz na chaminé a lenha +que trouxera, e accendeu o lume. Espalhou-se no quarto um doce calor. + +«Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos! + +«Depois, sempre silencioso, pegou n'um braçado de couves, migou-as, +tirou um pão, fel-o em sopas, deitou tudo dentro de um pobre tachinho de +barro, e pôl-o ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle. + +«O velho voltou-se. A sua cabeça, coroada de cãs, inclinou-se meigamente +para as loiras cabecinhas que o rodeavam. + +«E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em pé, abraçando-lhe os +joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de novo dos olhos, a voz +embargou-se-lhe na garganta, e só pôde dizer: + +--«Meus filhos! + +--«Pão!--foi a resposta das creanças. + +--«Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante. Haveis de ceiar, +haveis de ceiar, meus pobres pequeninos, e haveis de dormir depois o +somno de innocentes, que a fome repelle ha tanto tempo de cima das +vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar de vossa irmã, +da minha querida filha, que tanto soffre por nossa causa. + +«E o velho approximou-se da pobre doente, que olhava para elle com uns +olhos desvairados, coou-lhe por entre os dentes um calmante, que +comprára n'uma botica, porque o pobre do homem gastára até aos ultimos +cinco réis, e comtudo quantas coisas de primeira necessidade tinham +ficado ainda por comprar! + +«O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu a prostração, e +a costureira adormeceu com um somno pacifico e reparador. + +«Então o resto da familia agrupou-se em torno da enxerga, meza +improvisada, para onde foi trazido em triumpho o tacho das couves. Os +pequenos lançaram-se sofregamente á comida, e em poucos minutos +desappareceram as couves e as sopas, sem omissão de um talo, sem +esquecer uma migalha. + +«O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido na contemplação +de seus filhos satisfeitos, nem pensára na sua propria fome. De vez em +quando levantava ao céo os olhos arrazados de agua, e murmurava palavras +incomprehensiveis. É essa a oração que a Deus mais agrada; porque é a +effusão sincera, e livre de preceitos, de um coração que trasborda de +reconhecimento. + +«Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou as creanças para +junto de si, e fazendo-as ajoelhar, e unindo-lhes as tenras mãosinhas, +disse-lhes com voz grave: + +--«Meus filhos, agora que por uma esmola divina saciaram a fome, é justo +que se não esqueçam d'Aquelle que se amerceou de vós. Vinde, e repeti +comigo: + +--«Pae do céo, Vós que, apesar da vossa omnipotencia, vos não esqueceis +dos vossos filhinhos, que déstes pão a quem tinha fome, e consolações a +quem estava afflicto! Vós que, por um milagre da vossa infinita bondade, +nos salvastes da morte, e a nosso pae do desespero! Vós que sois todo +misericordia, tende compaixão de nossa pobre irmã! E vós, nossa mãe +querida, que sois agora uma santa no céo, rogae tambem a Deus que dê +saúde a quem é o nosso amparo! Nós vos damos graças, Deus todo-poderoso, +e promettemos sempre ser dignos da vossa affeição, e conservarmo-nos no +caminho da virtude, para que a alma da nossa mãesinha se não afflija de +nos vêr peccadores.» + +«E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina aquellas singelas +palavras, pronunciadas pelo velho, commovido, que estendia as mãos +tremulas sobre essas cabeças innocentes, e erguia para o céo os olhos +humedecidos. + +«Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as deitar. Elle apagou +a luz e o lume; sentou-se á borda da enxerga, e, encostando a cabeça nas +mãos, meditou. + +«Porém o dia fôra agitadissimo; a natureza foi mais forte do que elle, e +d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando a pouco e pouco as palpebras, +adormeceu. + +«As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror fugira. Á porta, um +anjo do Senhor, com um dedo nos labios, velava meigamente sobre o somno +da innocencia. + + +XIII + + +«Cinco tostões não duram eternamente, e a prova d'isso é que já tinham +desapparecido. A miseria, que fugira um instante espavorida, voltava de +novo a bater á porta. Que remedio senão abrir-lh'a! + +«Não era feliz no mendigar o meu pobre dono. Raras vezes obtinha o +dinheiro sufficiente para comprar o necessario. Sua pobre filha +melhorára sim, por um prodigio da natureza completamente desajudada da +sciencia; mas a sua convalescença, desprotegida d'aquelle conforto, +d'aquelles cuidados tão indispensaveis para o restabelecimento da saude, +prolongava-se, apesar de todos os esforços que a animosa rapariga fazia +para resumir, e que, como é facil de suppôr, só contribuiam para a +accrescentar. Queria pegar em trabalho, mas estava tão fraca, tão fraca, +que, apenas dava dois ou tres pontos, caía desmaiada sobre a costura, e +assim passava os dias em continuados desfallecimentos. + +«Seu pae tambem estava completamente impossibilitado de trabalhar. Eu +chamei-o velho, porque com effeito os desgostos e as privações essa +apparencia lhe haviam dado; mas não o era effectivamente. Ainda não +contava cincoenta annos, e já não tinha na cabeça um só cabello preto. + +«Despedido da fabrica de oleados em que trabalhava, porque a sua nimia +fraqueza o tornava completamente improprio para os rudes trabalhos +manuaes da fabrica, vira-se só com tres filhos, sem recursos, sem poder +obter, n'um outro emprego mais suave, o pão para si e para elles. + +«A sua completa ignorancia tornava-o improprio para qualquer trabalho +que não fosse manual. + +«Ó ignorancia, negra irmã da livida miseria! + +«Como eu ia dizendo, eram poucos ou nenhuns os proventos que o pobre +homem tirava da mendicidade. As comidas iam sendo cada vez mais frugaes, +e a pobre rapariga, debilitada, enfraquecida, ia-se tornando cada vez +mais incapaz de trabalhar. + +«Admira-se de certo de eu continuar a existir n'uma casa onde reinava +tão profunda miseria! Espanta-se de que me não tivessem vendido no dia +immediato áquelle em que tinham gasto os cinco tostões. Eu lhe explico +esse facto na apparencia incomprehensivel, eu lhe dou a chave d'esse +enigma. + +«O meu dono considerava-me, para assim dizer, como uma enviada de Deus, +e não estava muito longe de imaginar que existisse no meu seio um anjo +occulto. Tocar-me era quasi uma irreverencia, vender-me seria de certo +uma profanação. + +«Candidamente supersticioso, o bom velho tinha lá de si para si que eu, +como mensageira que fôra de uma esmola providencial, não podia deixar de +fazer a felicidade d'aquelles que me possuiam. Vender-me ser-lhe-hia tão +difficil, como aos romanos cederem, em troca dos mais enormes thesouros, +o palladio que fazia a republica invencivel. Eu era a égide da casa, +emfim. + +«Mas um dia o pobre pae de familias voltou mais triste e amargurado do +que nunca. O dia correra-lhe como aquelle em que eu o tinha visto pela +primeira vez, com a differença que nenhum garoto compassivo, enviado +pela Providencia, se fôra esconder na ramaria de uma arvore protectora. +O velho entrava, pois, em casa, sombrio, triste, como entraria uns +poucos de dias antes, se não fosse eu apparecer-lhe inopinadamente. + +«Entrou, sem dizer palavra. Dirigiu-se logo a um armario que havia na +parede, onde eu habitava, e, tirando-me para fóra, disse-me, depois de +me ter contemplado lugubremente alguns instantes: + +--«Vae, pobre bolsinha, que me trouxeste momentos de allivio, e cuja côr +suave me aconselha a esperança. A esperança?! não a posso ter já! Ai! a +minha sina fatal é mais forte do que a tua benefica influencia! Ramo +verde que uma pomba do céo trouxe no bico a esta pobre arca, que vae sem +rumo nas aguas de um diluvio de infortunios, enganaste-me +involuntariamente! Não parou a tempestade! Nem ha de parar talvez! Vae, +não procures luctar mais contra a minha má estrella! Vae, e que a tua +mesma partida nos seja ainda bemfazeja! Os anjos de Deus, ou quando +descem ao mundo, ou quando voltam ao paraizo, sempre enviam adiante, ou +deixam após si, um rasto luminoso! + +«E beijando-me com fervor, metteu-me no seio, e saiu. + +«Foi triste a sua peregrinação á procura de um comprador que se +resolvesse a dar por mim um preço razoavel. Todos, vendo-o assim pobre, +mostrando no rosto livido a fome que o impellia a vender-me, offereciam, +depois de me terem mirado com desdem, um preço tão baixo, que, fosse +qual fosse a extrema necessidade que o meu dono tivesse de dinheiro, +entendeu que me não devia deixar ir assim. + +«Comtudo, percorriamos lojas e lojas, e nenhum dos donos d'ellas se +resolveu a comprar-me. Pois eu não valia tão pouco como isso, e estou +convencida que muitas das pessoas, a quem o velho mendigo me +apresentava, desejariam ficar comigo. Rebaixavam-me muito, mas, segundo +depois vim a saber, isso é trica de negociante para especular com a +miseria. Sabem que ainda que a sua primeira proposta repilla o vendedor, +este, por fim de contas, sempre volta ou a acceital-a ou a diminuir +muito o preço que estabelecera. + +«Chamam elles a isso esperteza no negocio. E quem não quer não venha cá, +accrescentam, terminando com a phrase pittoresca: «Eu não lhe puz a faca +aos peitos.» É regra estabelecida que o vendedor peça um preço +exorbitante, e o comprador offereça um preço diminutissimo. Que venha á +discussão, mesmo por acaso, o valor real do objecto, isso é raro. Um +negocio de compra e venda é um jogo de azar em que dois jogadores +trapaceiam. Vêr qual dos dois ha de roubar o outro, _that is the +question_. Nunca um só vendedor se lembrou de calcular: «Este objecto +custou-me tanto, devo tirar o juro razoavel de tanto, logo vendo-o por +tanto, e nem um real de mais, nem um real de menos»; e o comprador de +pensar: «Posso gastar tanto, se o objecto valer mais, não compro.» Isso +nunca: sem uma discussão preliminar, é sensabor o negocio. Se a invenção +da moeda simplificou as relações mercantis, quanto as não simplificaria +a invenção d'esta moeda dos corações nobres, que se chama «boa fé!». + +«A antiguidade, que fez Mercurio o deus dos ladrões e dos negociantes, +acertava devéras se accrescentasse--e dos consumidores. + +«Desculpe estas reflexões um pouco prolixas; mas eu sou o Nestor das +bolsas, e desde o celebre ancião homerico, cujas palavras eram doces +como favos de mel, e que talvez por isso eram prodigalisadas por tal +fórma pelo rei de Pylos, que não sei como os gregos não tomaram uma +indigestão de melaço: desde esse vulto epico, todos os Nestores gostam +de pregar grandes massadas. Eu não me podia esquivar á regra geral. + +«Agora vou continuar. + +«O meu dono luctou muito tempo contra a avidez dos compradores, e +fez-lhes falhar os calculos. Saía das lojas com o desespero na alma, o +rubor da indignação na fronte, e não voltava. + +«Assim se passaram duas horas. + +«O preço, que lhe offereciam, ia sempre diminuindo: porquê? Porque de +cada vez a physionomia do mendigo se tornava mais livida. A anciedade +pintava-se-lhe nas feições. Cada ruga de mais, que se lhe cavava na +fronte angustiada, traduzia-se immediatamente em cinco réis de menos no +preço que lhe offereciam. + +«Finalmente, exhausto, prostrado, desfallecido, entrou n'uma ultima +loja, e, quando entrou, deixou-se cair em cima de uma cadeira. As pernas +recusavam-se a sustental-o mais tempo. + +«Na loja estavam o mercador, e um freguez escolhendo não sei o quê. Sei +apenas que era um rapaz de uma physionomia sympathica. + +«Ambos olharam espantados para o pobre velho, mas o espanto do primeiro +era um espanto encolerisado, o do segundo um espanto compadecido. + +«O dono da loja receiava para as suas cadeiras o contagio da miseria. +Que um cão se estirasse em cima d'ellas, passe; mas um mendigo! + +«O meu dono estendeu-me com mão tremula para o logista, e disse com voz +que mal se ouviu: + +--«Eu desejava vender esta bolsa. Quanto me dá o senhor por ella? + +--«Que diz vossê?--tornou o dono da loja com modos irritados. Falle de +maneira que se entenda! Julga que tenho ouvidos de tisico? Graças a Deus +sempre gozei de boa saude. + +--«Desculpe-me, senhor, respondeu o meu dono fazendo um esforço sobre si +mesmo para fallar com voz mais intelligivel, é porque estou muito fraco. +Desejava saber quanto o senhor me dá por esta bolsa. + +--«Ah! até que emfim! Não seria mau que vossê se levantasse, porque este +senhor talvez se queira sentar. + +--«Deixe estar o pobre homem,--interrompeu o freguez com vehemencia, não +vê que mal se póde ter em pé. Coitado! + +--«Pois sim, sim!--resmungou o logista, se toda a gente que não póde +andar se me viesse pespegar nas cadeiras, estava eu arranjado. Mas vamos +lá a vêr a bolsa. Ah! está toda esfarrapada! que trapo! isto não vale +cinco réis. Quanto quer vossê por isto! + +--«V. s.^a dirá quanto quer dar por ella! + +--«Eu! olhe, já lhe digo que não lhe dou mais de quatro vintens. Nem um +real. Serve-lhe? + +--«Quatro vintens por uma bolsa de seda, senhor!--tornou o meu dono com +uma profunda accentuação de amargura na voz. + +--«Sim! que ella está muito bonita. E quem me assevera que vossê não +roubou isto? Nada, parece-me que nem os quatro vintens lhe dou. + +--«Roubar! eu?--bradou o meu bom velho, erguendo-se indignado da +cadeira. + +--«Sim! sim! Eu já conheço essas capas de santidade. O senhor não póde +imaginar, continuou elle, voltando-se para o freguez, quanto esses +malandros são finos! Olhe, um dia d'estes... + +--«Este homem não tem cara de ladrão, interrompeu bruscamente o +desconhecido. + +--«Muito obrigado, senhor, muito obrigado!--exclamou o meu dono. +Sirvam-me de consolação as suas palavras! Faz-me bem ouvil-as! Partem de +um coração nobre. + +--«Emfim, tornou o logista um pouco despeitado, se me quer dar a bolsa +ahi tem os quatro vintens. + +--«Que remedio, senhor! A necessidade é má conselheira! ahi tem a bolsa! +Sempre meus filhos não morrerão hoje de fome! + +--«Não, interrompeu ainda o generoso rapaz, agarrando no braço do +mendigo, não consentirei que se pratique um roubo assím na minha +presença. Sou eu quem lhe compra a bolsa. Ahi tem dez tostões, é tudo +quanto tenho comigo. Creio que a bolsa não valerá muito mais. + +«E, pondo na mão do mendigo duas meias corôas, saiu levando-me comsigo, +deixando o logista estupefacto, e sendo acompanhado pelas bençãos do +velho. + + +XIV + + +«Quando cheguei ao alojamento do meu novo dono, percebi que a minha +posição não melhorára consideravelmente. A mobilia da casa não era muito +mais numerosa, do que a da miseravel agua-furtada, d'onde eu saíra +n'esse mesmo dia. Uma estante de pinho, vergando ao peso dos livros, e +uma meza cuja superficie desapparecia debaixo de uma triplice camada de +papeis, ahi tem quaes eram os moveis principaes d'aquella casa. + +«O resto da mobilia, se o meu amigo quizer absolutamente uma descripção +á Balzac, compunha-se de um leito de ferro, e de duas cadeiras de pinho, +uma das quaes se distinguia pela ausencia de um pé, o que lhe dava as +prerogativas de tripode, e a outra primava na singular docilidade com +que se domava a todo o corpo que se lhe pozesse em cima; porque se +prostrava immediatamente no chão em signal de obediencia. Confesso que, +quando o meu generoso possuidor atirou comigo para a tal cadeira +nimiamente flexivel, receei que apesar da minha leveza, obrigasse o +pobre movel a dar provas da sua habilidade gymnastica. + +«O meu proprietario, assim que entrou, despiu o casaco e atirou com elle +irreflectidamente para cima da cadeira cortez, onde eu, por minha +desgraça, estava tambem collocada. Receber o casaco, fazer um _plié_ com +toda a habilidade de um mestre de dança, e ir parar ao chão +arrastando-me na quéda, foi uma e a mesma coisa para a cadeira. O meu +dono nem reparou em tal, e, dirigindo-se logo para a outra, sentou-se á +meza, pegou n'uma penna, molhou-a no tinteiro, e começou a escrever com +uma rapidez incrivel. + +«Eu entretanto não estava lá muito á vontade. Litteralmente esmagada +debaixo do casaco, tinha, para cumulo de desventuras, mesmo encostado a +mim um grosso caderno de papel, que saía de uma das algibeiras, e que me +pregava no chão, comprimindo-me atrozmente. Eu ficára embirrando com +papeis, desde o momento em que, por causa d'elles, fôra expulsa +irrevogavelmente da casa dos meus primeiros donos, e ai! sem esperança +de para lá voltar. + +«Mas, ainda que eu não tivesse essa justificadissima prevenção contra a +papelada, bastava a attitude aggressiva, que este caderno tomára para +comigo, para eu ficar odiando mortalmente a sua raça. Debalde eu +gritava, ralhava, resmungava, fazia esforços inauditos para me +desembaraçar do peso que me opprimia, tudo era inutil. O caderno era +inflexivel, e o casaco ainda mais. Não tive remedio senão resignar-me. + +«Vendo-me socegada, o caderno de papel começou a entabolar umas taes ou +quaes relações comigo. Percebendo que, por fim de contas, a melhor +resolução, que eu podia tomar, era corresponder á amabilidade com que me +tratavam, troquei algumas palavras com elle, primeiro n'um tom bastante +sêcco, e a pouco e pouco mais agradavelmente. Emfim, d'ahi a cinco +minutos estavamos os melhores amigos d'este mundo. + +«Foi então que elle me disse que o seu dono era litterato, como quem +diz, não tinha officio nem beneficio. Andava sempre abundantemente +provido de idéas e de dividas. As idéas eram sublimes, as dividas eram +pasmosas. Nem por umas nem por outras havia quem désse dez réis. Tinha +por costume confiar ao papel os seus pensamentos; mas por mais empenhos +que o papel almasso mettesse com o papel de imprensa, nunca tinha +conseguido que este se encarregasse de repartir com elle as honras da +confidencia. Não porque o litterato não tivesse talento; pelo contrario, +asseverava o papel que tinha muito; mas infelizmente, como ainda não se +descobrira o meio de se começar a escrever pela segunda obra, e os +editores queriam unicamente imprimir os seus escriptos se elle já fosse +conhecido, o homem estava sériamente ameaçado de nunca os vêr em lettra +redonda. + +«Em compensação, um editor Mecenas, um protector das lettras com loja de +livros n'uma escada, offerecera-lhe o honroso logar de traductor dos +romances de Paulo de Kock, e de outros notaveis escriptores francezes, +com o pingue ordenado de tres mil réis por mez. Este homem era tido +pelos seus collegas como um perdulario. + +«Outro editor, ainda mais estroina ou mais inexperiente, concebêra a +atrevida idéa de tentar fortuna imprimindo as obras do pobre diabo. +Pedira-as para as vêr, pedido que ia dando com o escriptor em doido... +de alegria, e mostrou-as a um entendedor seu amigo. Este folheou os +differentes cadernos por espaço de cinco minutos, e devolveu-os ao +livreiro, asseverando que o rapaz tinha uma lettra tão boa, que não +podia chegar a ser um grande escriptor, o que fez com que o bom do +emprezario de litteratura devolvesse os cadernos a quem os escrevêra, +offerecendo-lhe ao mesmo tempo um logar de caixeiro. + +«O litterato atirára com os cadernos á cara do editor, depois com os +livros que achou á mão, e já baloiçava a cadeira gymnastica para lhe +fazer tomar o caminho que haviam tomado os livros e os papeis, quando o +bom do editor descia os ultimos degraus da escada, e sacudia o pó das +suas sandalias á porta de casa tão pouco hospitaleira. + +O que o caderno meu visinho me affirmou (e devo dizer de passagem, que +fôra elle um dos projectís de que o seu dono se servira, um dos navios +encarregados de operarem um reconhecimento nas costas editoraes), o que +elle me affirmou foi que, se o nosso homem não sacudisse tão depressa o +pó das suas sandalias, o escriptor vinha-lhe a sacudir mas era o pó da +sobrecasaca. + +«Aqui está em resumo o que me narrou o meu officioso visinho. + +«Não tentarei descrever a vida que eu passei durante dois ou tres mezes +em casa d'esse seu collega. Póde imaginar qual era; repouso completo, +enercia absoluta. Collocada na estante, alli passei todo o tempo, sempre +socegada, sempre vasia, conversando muito com os lívros meus visinhos, +que me ensinaram tudo quanto eu sei, e me fizeram adquirir a erudição +que tanto o admirou, e vendo o meu dono passeiar no quarto, sempre +agitado, e sempre procurando alguma coisa, ou uma rima, ou um lenço de +assoar, ou um editor. + +«Rimas encontrava elle quasi sempre, lenços de assoar algumas vezes, +editores nunca! + +«A traça fôra o editor unico d'aquelles papeis. + +«Um dia foi elle tambem procurado por uns sujeitos, que lhe apresentaram +um papel sellado, e que lhe disseram serem elles os encarregados pelo +sr. Bartholomeu Nunes, de proceder a uma penhora por causa de não sei +quantos mil réis que elle devia ao dito senhor. + +«O meu dono não fez a minima objecção, pegou no chapeu e saiu, dizendo: + +--«Escolham o que quizerem. + +«Coisa que elles não o obrigaram a repetir. Percorreram minuciosamente +todos os cantos e recantos. Nada lhes escapou. Tudo inventariaram, tudo +levaram. Eu, já se vê, não escapei ao desastre; lá fui envolvida com os +livros, e sabe quem eu vi tambem no frete? + +«A celebrada cadeira das mesuras. Até isso lhes servira! + + +XV + + +«O meu dono (quinto, segundo vê; eu se não fosse tão modesta dizia-lhe +que pozesse no titulo, em vez de _Memorias de uma bolsa verde_, a +_Odysseêa de uma bolsa verde_), o meu novo dono era um usurario amador. +Magro, com umas pernas que se cançavam antes de chegar aos pés, a tez +biliosa, o nariz adunco e cavalgado por uns oculos, era perfeitamente o +typo que Shakspeare (que foi meu visinho) attribue á sexta edade do +homem, na celebre comedia intitulada: _As you like it_, titulo que o +leitor póde traduzir _como quizer_. Observando rigorosamente as regras +da economia, não comprando senão o que lhe era restrictamente +necessario, e assim mesmo inventando para seu uso proprio um +_necessario_ especial, as riquezas que obtinha, moeda de cobre a moeda +de cobre, serviam-lhe unicamente para as ter enterradas n'uma burra +collocada no seu quarto. + +«N'esse ponto tinha elle uma certa _coquetterie_. As libras doiradas, em +que transformava os patacos dos desgraçados, encerrava-as dentro de uma +infinidade de bolsas elegantes e ricas até, que estavam dispostas +symetricamente por fileiras, no fundo do seu _coffre fort_. Todas as +noites, antes de se ir deitar, abria-o, descerrava as bolsas, e fazia +cair sobre o solo uma chuva de oiro. Alli, Danae de si mesmo, +estirava-se elle, enchendo as mãos de punhados de libras, e fazendo-as +cair no monte a pouco e pouco, enterrando os dedos n'aquella eira +monetaria, revolvendo-a, fazendo-a rolar, apanhando-a espiga a espiga, +juntando-a, contando-a de novo, enchendo as bolsas, e tornando-as a +collocar dentro da burra. Tudo isto elle fazia com uma delicia, com uma +soffreguidão taes, que não trocaria de certo este prazer pelo melhor +divertimento do mundo. + +«Quando eu cheguei á porta já elle estava á nossa espera. Ajudou a +descarregar o frete, procurou os livros, determinou que os vendessem +immediatamente, e deu um grito de surpreza quando eu appareci. + +«Era uma bolsa que o acaso lhe dera para juntar á sua collecção. Bem sei +que eu estava um tanto rota, um pouco esfarrapada, e que os rasgões me +adornavam, apesar de eu ser ainda bem nova. Mas as cicatrizes, n'um +rosto imberbe, dão a esse rosto a magestade da velhice, e eu, +considerada debaixo d'esse ponto de vista, estava magestosa a mais não +ser. De mais a mais, nos emprestimos que o usurario fizera ao litterato, +os juros tinham absorvido o capital, havia já tanto tempo, que se podia +dizer que toda a mobilia do meu ex-possuidor vinha a sair de graça ao +honesto agiota. E n'esse caso que importava que eu estivesse rasgada? «A +bolsa dada não se olha á seda.» + +«Por conseguinte o bom do velhote magrito, assim que me viu, fez-me mil +caricias, e, depois de ficar só, foi a uma gavetinha, não sem olhar +primeiro para todos os lados afim de se assegurar se alguem o +espreitava, tirou de dentro um cartucho de libras, despejou-o dentro de +mim, prestando um ouvido encantado ao som metallico do dinheiro, e, +levando-me com toda a cautela bem apertada na mão, dirigiu-se pé ante pé +para o seu quarto, abriu a burra que estava ao pé da cama, e depois de +contemplar por um instante as bolsas, amontoadas umas em cima das +outras, deixou-me caír com um suspiro de satisfação, e fechou o cofre. + +«Eu ao principio fiquei completamente atordoada. Esta passagem repentina +da luz para as trevas, do ar livre para um carcere estreito, produziu em +mim uma impressão terrivel. Comtudo a pouco e pouco fui-me costumando e +resignando. Comecei a distinguir alguns objectos n'aquella escuridão. Os +perfis vagos de umas coisas informes, que eu percebia estarem junto de +mim, foram gradualmente fixando os seus contornos, e no fim de um quarto +de hora comprehendi que estava rodeada de uma chusma de minhas irmãs. + +«Agora percebo eu que fui pouco habil na narração. Pois não o devia ser; +porque na estante do litterato conversára muitas vezes com uma collecção +da _Presse_ e do _Constitutionnel_; e os folhetins romances d'estes +jornaes tinham-me ensinado todos os estratagemas, com que se tem +suspensa a curiosidade do leitor, incitando, aguilhoando-o com a espora +do mysterio, de fórma que elle percorra a narração, como um cavallo +desenfreado percorre a planicie, sem se importar com as bellezas dos +accessorios, e desejando só chegar ao fim, que é para o cavallo o +precipicio em que se despenha, para o leitor a peripecia ultima, que se +póde compôr, á vontade do romancista, ou de trinta punhaladas, ou de +vinte casamentos. + +«Apesar d'essas lições, vê se que eu ainda estou muito inexperiente, e +que se os meus companheiros de estante chegarem a conversar alguma vez +com esse papel, que o meu amigo transformou em confidente das minhas +tribulações, hão de envergonhar-se da má discipula que tiveram. + +«Com effeito, para que fui eu dizer totalmente ao leitor que o usurario +se debruçára a contemplar as bolsas? Privei-me assim de umas poucas de +phrases interrogativas, que produziriam uma optima impressão! + +«O que seriam esses objectos informes immoveis no fundo da caixa? Que +mysterio se occultaria n'aquellas tenebrosas profundezas?» Etc., etc. +Ora vejam o que eu perdi. + +«Emfim o mal está feito, e não tenho remedio senão continuar a narração, +prescindindo d'esses auxiliares de que me lembrei tão tarde. + +«Um murmurio confuso se elevou assim que eu cheguei. Na existencia +monotona dos prezos é sempre um acontecimento importante a chegada de um +estranho. A curiosidade irritada por uma longa abstinencia, procura +saciar-se com frenesi assim que se lhe offerece occasião para isso. Era +destino meu concorrer para matar a fome, umas vezes de pão, quando eram +humanos os que soffriam, outras vezes de curiosidade quando eram bolsas. + +«Por isso, apenas trocámos os primeiros comprimentos, logo caíu sobre +mim a chuva de perguntas. Quem era eu? d'onde vinha? como fôra alli +parar? De todos os cantos do bahú saía uma interrogação; todas as bolsas +olhavam para mim, as mais distantes punham-se nos bicos dos pés, para me +verem melhor, depois cochichavam entre si; as novas faziam observações +zombeteiras ácerca das minhas feições, e, comparando-as com as suas, +concluiam que eu nunca lhes poderia disputar o pomo da belleza; as que +estavam intactas achavam-me horrenda por causa dos meus rasgões; as que +estavam mais rasgadas do que eu, achavam que me ficava pessimamente o +estar pouco dilacerada; as velhas só olhavam para mim com complacencia, +lembravam-se do seu tempo, suspiravam, e chamavam-me «filha.» + +«Depois de satisfazer, o melhor que pude, a curiosidade geral, chegou a +minha vez. Não foi necessario que eu rogasse muito, para ser informada +da vida das minhas companheiras, não foi preciso até que eu dissesse uma +só palavra a esse respeito. Se de alguma coisa me pude queixar, foi da +pressa que ellas tinham de me contar a sua historia, o que fazia com que +fallassem todas ao mesmo tempo, havendo na caixa uma balburdia +incomprehensivel. Dir-se-ia que era alli a base da torre de Babel! + +«Ai! meu amigo, que horrendas coisas eu vim a saber! Que de crimes +estavam alli escondidos, d'estes que escapam á justiça dos homens, mas +sobre os quaes estão abertos os olhos vigilantes da Providencia! Cada +moeda de oiro accumulada n'aquelle cofre, representava uma enorme somma +de soffrimentos. Aqui uma viuva, reduzida á miseria! mais adiante uma +donzella, pura como os anjos, lançada no abysmo da devassidão! Acolá um +orphão defraudado da herança paterna. Sommas consideraveis representavam +vidas e vidas de torturas incriveis, soffridas pelos vossos pobres +irmãos, cujo rosto o acaso do clima revestiu com um manto luctuoso! Que +horrores jaziam alli escondidos! Que de trevas entravam na composição do +fulgor d'aquelle oiro! + +«Era já noite. Sentimos uma chave ranger na fechadura; tudo entrou no +silencio. + +«Abriu-se o cofre, e appareceu-nos o rosto livido, e a extensa figura do +usurario. Estava de barrete de dormir e de roupão. Trazia um castiçal. + +«Collocou-o em cima da meza da cabeceira, sentou-se no chão, +despejou-nos uma a uma, e começou a revolver a massa brilhante do oiro. + +--«Saltem, saltem, minhas meninas, dizia elle em voz baixa e roufenha, +saltem que bem me custam a ganhar. Não as crimino por isso; pelo +contrario. Que prazer ha ahi que se compare com o que eu experimento +n'este instante? Como tudo isto deslumbra! Tenho aqui o sufficiente para +comprar Portugal todo, incluindo as consciencias dos seus habitantes. +Para quê! Puf! Que me importa a mim com essa canalha, que me chama +usurario, e que me vem lamber os pés. Prazer, ineffavel prazer é este +que vós me daes. Saltem, saltem, minhas meninas! + +«E sorria-se com um sorriso de hyena, o miseravel! + +«Finalmente cançou-se, tornou-nos a encher com toda a paciencia, fechou +o cofre, e foi-se deitar. + +«Caíu tudo em silencio de novo. + +«Deu meia noite! + +«As pancadas do relogio resoaram lenta e lugubremente na solidão do +quarto. + +«E eu senti um frio terror percorrer-me o corpo; porque um vago e +convulso estremecimento agitára no meu seio as libras silenciosas. + +«E o cofre abriu-se como se mão invisivel o tocasse, e um vulto +melancolico e severo, com azas negras nos hombros, appareceu em pé junto +de nós. + +«Era o anjo do remorso! Que magestade n'aquella fronte sombria, que +pungente contracção no seu labio severo! + +«E elle estendeu a mão com um gesto imperioso, e eu, gelada de susto, +senti as peças de oiro moverem-se por si mesmas, e adquirirem como que +umas azas pequeninas. + +«Um vago e sinistro suor lhes percorreu a fronte, e esse suor era um +suor de lagrimas! + +«E todas se ergueram; o enxame de sinistras abelhas saíu em bando da +tenebrosa colmeia, e a bulha das suas azas metallicas produzia não sei +que lugubre som! + +«E, ao mando do anjo do remorso, foram todas pairar sobre o leito do +avaro. + +«Então vi um terrivel espectaculo; de cada uma d'essas peças de oiro +começaram a escorrer lagrimas e sangue, que iam caír gôta a gôta na +livida fronte do usurario. + +«E elle agitava-se na cama, erguia as mãos supplicantes, procurava +limpar a fronte, debalde! porque a horrenda chuva cahia incessante, +incessante, e alastrava em nodoa immensa, que parecia o funebre sêllo da +reprovação de Deus. + +«E das peças de oiro saía um concerto dilacerante! concerto composto de +gritos, de soluços, de blasphemias, e de imprecações! + +«Depois, a um signal do anjo, as moedas desappareceram e +transformaram-se em espectros, que vieram doidejar em torno do leito do +meu dono. + +«E a punição ainda era mais cruel! + +«Uma tomára as fórmas de uma mulher, joven, bella, um anjo emfim, mas um +anjo caído! + +«E approximou-se do usurario, e disse-lhe com voz rouca: + +--«Era virgem, estava só! Protegia-me a dupla auréola da innocencia e da +orphandade! Tu vieste, especulador infame, arrojaste-me a um abysmo, e +manchaste de lodo a minha candida tunica. + +«E outra mudava-se n'um pobre velho, de cabellos brancos, que arrastava +uma grilheta preza no pé: + +--«Eu era o symbolo da honra; mas tinha filhos! Reduziste-me á miseria, +e eu roubei! + +«E todos os espectros bradavam com voz pavorosa: + +--«Sê maldito! + +«Era horrivel, horrivel aquella scena! + +«E durou até que os primeiros e tenues clarões da madrugada entrassem +timidamente pela janella do quarto. + +«Com o primeiro raio da aurora, vi apparecer no quarto um anjo de +brancas azas, com a face luminosa banhada em pranto. + +«Veiu e ajoelhou aos pés do seu terrivel irmão. + +--«Ainda não está satisfeita a tua vingança?--bradou elle com uma voz +melodiosa, de que é apenas um frouxo echo o plangente suspiro da harpa +éolia. + +«Era o anjo da guarda do usurario, que o tinha abandonado, chamado pelo +Senhor, mas que attrahido pelo invencivel amor, que nos consagram estes +celestes protectores, vinha na hora do supplicio invocar, para o seu +protegido, a misericordia! + +«E o anjo do remorso, vencido pelas preces do seu candido companheiro, +fez um signal, e o tumultuoso enxame entrou no cofre, que se tornou a +fechar. + +«Um vago bater de azas denunciou-me que os dois anjos tinham voltado ao +céo levados pelo primeiro raio do sol da manhã. + + +XVI + + +«Isto repetia-se todas as noites. O costume já me tornára indifferente. + +«Passaram-se talvez seis annos, durante os quaes eu nunca saí da minha +prisão, e em que, pelo contrario, entraram muitas novas companheiras que +vinham augmentar o volumoso peculio, e, ao bater da meia-noite, tornar +tambem mais numeroso o funebre cortejo dos phantasmas. + +«No fim de seis annos morreu o meu usurario! Morreu de repente! Não +tivera tempo de fazer testamento, e, segundo me disseram, iamos passar +para as mãos de uma herdeira, parenta muito afastada do finado. + +«Com effeito, poucos dias depois da morte de Bartholomeu Nunes, vieram +uns quatro gallegos para levar a burra a pau e corda. + +«Tivemos a consolação de os derrear! + +«Quando chegámos á casa para onde iamos, os gallegos escorriam em suor, +e praguejavam como uns damnados. + +«Uma voz argentina fez-se ouvir junto de nós. Esta voz não me era +desconhecida; mas onde a ouvira eu? Impossivel lembrar-me! + +«Finalmente rangeu a chave na fechadura, e abriu-se o cofre. Que rosto +imagina que me appareceu? O de Camilla! o da minha creadora! + +«Descrever-lhe a alegria que senti é-me completamente impossivel. + +«Ella primeiro não me conheceu. Espantada de tanta opulencia, não fazia +senão repetir: + +--«Como aquelle homem era rico! + +«Depois tirou para fóra algumas bolsas. Entre ellas ia eu. + +«Camilla mirou-me attentamente, e murmurou: + +--«Que estranha similhança... É impossivel!... Seria extraordinario! + +«Era-lhe facil sair d'aquella incerteza. A sua delicada mãosinha bordára +no meu corpo as iniciaes d'ella e de seu marido; por conseguinte, podia +procurar esse signal. Foi o que fez. + +«As duas letras--_C E_--cá estavam enlaçadas amorosamente. + +«Camilla deu um grito de alegria. Beijou-me freneticamente, exclamando: + +--«Ó minha gentil bolsinha! Torno a encontrar-te. Como estás +desfigurada! Que te tem acontecido? Ainda conservas as nossas iniciaes +n'um estreito abraço! Symbolo de um amor que passou, que doce amargura +eu sinto em te vêr! + +«Que se passára n'aquella casa? Que acontecimento motivára as tristes +palavras de Camilla? + + +XVII + + +«Juro-lhe que n'esse momento tive pena de não ser um ente possuidor da +faculdade do movimento, de vida, emfim, para poder corresponder aos +ternos beijos com que a minha boa dona me saudava. Infelizmente, tinha +de me contentar com os receber e não podia retribuil-os. Via-me obrigada +a ficar immovel, gelada, na apparencia indifferente. + +«Para lhe poupar o trabalho, que eu tive, de saber a pouco e pouco o que +se passára, eu lh'o digo em poucas palavras. + +«Camilla, como sabe, tinha genio ciumento. Eduardo era impaciente e +teimoso. + +«Tinham-se repetido muitas vezes scenas similhantes áquella que me +obrigára a sair pela janella, como um amante surprehendido. Uma vez, +porém, a discussão fôra mais agitada, do que era habitual. Eduardo +irritára-se, Camilla teimára, e o rompimento seguira-se. Fôra uma +especie de divorcio _intra muros_, com consentimento de ambos. Não havia +nem sombra de escandalo. Muito amaveis um para com o outro na sociedade, +em casa viam-se apenas ás horas da comida, fallavam-se muito +cortezmente, e depois cada um partia para o seu lado. + +«Esta intoleravel situação durava, ia para seis mezes. E não julgue que +o amor dos dois esposos tinha afrouxado; pelo contrario, amavam-se cada +vez mais; porém o seu genio orgulhoso impedia a cada um d'elles dar o +primeiro passo para a reconciliação. Soffriam, e soffriam em silencio. + +«Ahi tem a explicação das phrases de Camilla. + +«Estava-me ella ainda beijando, quando bateram á porta devagarinho. + +--«Dá licença?--disse a voz de Eduardo. + +«Camilla enxugou os olhos rapidamente, collocou-me em cima da meza, e +respondeu com voz ainda um pouco tremula: + +--«Entre! + +«Eduardo entrou. O tempo não alterára a belleza varonil do mancebo; só +um bonito bigode negro substituira o ligeiro buço do adolescente. + +«Eduardo devia ter vinte e nove annos. + +--«Desculpe-me incommodal-a, disse elle, sorrindo; mas nomeou-me +procurador n'este negocio da herança, e, por conseguinte, vejo-me +obrigado a estar sempre a importunal-a para lhe dar as minhas contas. O +ministro da fazenda deve ter entrada franca junto d'el-rei. + +--«Póde vir sempre sem receio de me importunar. + +--«Ah! diga isso á vontade. Eu nunca tomo as coisas ao pé da letra. Erro +grosseiro, que tanta gente commette, e d'onde resultam tantos +desenganos. É para mim axiomatico o seguinte principio: Todo o homem na +conversação deve ser um agiota feroz; não receber as palavras sem um +desconto de cincoenta por cento. Eu podia n'este ponto fazer um +_calembourg_ sobre as palavras e as letras... de cambio; mas sou +misericordioso. Ah! a proposito de agiota; estava dando balanço aos +fundos do seu parente? Já vejo que não podia chegar em melhor occasião. + +--«Não! enganas-te; estava contemplando as bolsas em que elle mettia o +dinheiro. Tem algumas que não são feias. + +--«Ia jurar que conhecia esta, atalhou Eduardo, erguendo-me com +vivacidade; parece-se tanto com uma... + +«Interrompeu-se, passou a mão pela testa, e depois continuou: + +--«Com uma que desappareceu, como tudo o que ella symbolisava. + +--«Recordações?! tornou Camilla, sorrindo ironicamente. + +--«Não, vento de inverno que sacudiu um instante as cinzas frias de um +amor que morreu! Se uma centelha fulgurou por acaso, desculpe-me. + +--«Desculpal-o?! + +--«Sim, desculpar-me! Nem todos teem força sufficiente para arrancar +pela raiz, do jardim do coração, as ridentes flôres da mocidade. Sobre o +tumulo, em que sepultámos o passado, brotam involuntariamente rosas. +Passa uma aragem ligeira, e lá nos vem um perfume acariciar de novo. Mas +deixe, que hei de decepar a roseira, ainda que da hastea cortada corra o +sangue em borbotões. + +--«Quem foi o culpado d'isso? + +--«Quem? Nem eu sei. Sei apenas que esse algoz desconhecido retalhou-me +bem fundo o coração. Bem fundo! Como vê, a cicatrização não foi +perfeita, e a ferida ainda sangra de vez em quando! Que +loucura!--continuou elle mudando de tom, e sentando-se n'uma cadeira com +modos affectadamente joviaes, se não foi melhor assim! Para fallarmos +verdade, Camilla, já nos iamos tornando ridiculos com o nosso eterno +arrulhar! Que absurdo! Dois pombinhos namorados, atravessando o mundo, +atados um ao outro com o laço côr de rosa do santissimo matrimonio! O +mundo ria-se e tinha rasão; porque o mundo tem sempre rasão. Agora é que +estamos bem. Somos uns esposos comedidos; encontramo-nos tres vezes por +dia; eu sou o seu procurador, v. ex.^a a minha intendente. Eu sou o +encarregado dos negocios estrangeiros, v. ex.^a dos do reino. Vejam se +ha n'este mundo viver melhor! A paz do Senhor habita comnosco! +Ah!--continuou Eduardo animando-se successivamente, morram as suaves +recordações! Arraze-se o jardim, para fazer brotar a ora das +conveniencias! Morra tudo quanto nos possa recordar as doces horas do +alvorecer do nosso amor, esses arrufos, chuvas de primavera, os beijos +da reconciliação, iris delicioso! Olhe, dê-me licença que afaste da +nossa vista tudo quanto possa despertar pensamentos perigosos, +prejudiciaes ao nosso repouso. Morra este ultimo objecto, que ainda se +atreveu a fallar-me em coisas para sempre esquecidas. + +«E, dizendo isto, levantou-se n'um incrivel estado de agitação, e +agarrando em mim com vehemencia, ia a atirar-me pela segunda vez pela +janella fóra. Eu estava já desesperada pela incrivel tendencia que +Eduardo mostrava para me fazer saltar pela janella, e pensando na minha +triste sorte, que ia atirar comigo ao mar das aventuras, quando julgava +entrar no porto de salvação. + +«Um grito de Camilla foi quem me livrou de travar de novo conhecimento +com o espaço. + +--«Eduardo, Eduardo, bradou ella com as lagrimas nos olhos, vê bem essa +bolsa! + +«Eduardo contemplou-me, viu as iniciaes, reconheceu-me, e, voltando-se +para Camilla, leu-lhe nos olhos uma tal expressão de amor, que, sem se +poder conter, caiu-lhe aos pés, banhado em lagrimas deliciosas, em +quanto ella, n'um extase ineffavel, lhe beijava os cabellos. + +«Que momento aquelle! + + +XVIII + + +«Termina aqui a minha narração. Nas bolsas como nas nações, são felizes +as que não tem historia. + +«Dir-lhe-hei unicamente que fui conservada em casa de Camilla e de +Eduardo, como uma reliquia preciosa, que se conservava tal qual eu tinha +reapparecido, para trazer a concordia áquelles dois estouvados. + +«Quando Eduardo morreu, fui eu a confidente e a consoladora de Camilla. +Como esta nunca tinha tido filhos, era comigo que fallava em seu marido, +e muitas vezes me regou com as lagrimas que derramava. A pobre senhora +conservava sempre viva e ardente no coração a imagem do seu esposo. + +«Morreu a opulentissima viuva. Os herdeiros, tambem já bastante ricos, +quizeram liquidar aquelles immensos haveres. Venderam tudo, eu fui com a +mobilia da casa, e alli, graças ao meu amigo, salvei-me de cair nas +garras de algum segundo Bartholomeu Nunes, que me tivesse seis annos +fechada em cofre. + +«Ao menos com o senhor tenho podido tagarellar. + +«Aqui ponho ponto.» + + +XIX + + +Assim fallou a bolsa, e eu, secretario fiel, fui escrevendo textualmente +o que ella me dictou. + +Tiro de cima dos meus hombros toda e qualquer responsabilidade. + +A aurora começava a apontar no horisonte. Ao passo que a deusa dos +roseos dedos abria as portas do Oriente, a bolsa a pouco e pouco ia +perdendo a animação ficticia, que um poder sobrenatural lhe emprestára, +e ia-se deixando cair em cima da meza. + +Eu, ingrato, não me importei com isso. Em quanto ella ia voltando ao seu +estado normal, contemplava satisfeito o papel inundado de garatujas, +cuja perpetração principal não fôra commettida por mim, e escrevia no +fundo da ultima pagina, as seguintes palavras sacramentaes: + +_Finis, laus Deo_. + + * * * * * + +Quando Lucio Valença acabou a sua longa leitura, o visconde da Fragosa +resonava maravilhosamente, e o conselheiro Madureira formava com elle um +duetto mais ou menos parlamentar. Henrique e Leonor applaudiam +calorosamente; Roberto Soares fazia as suas reservas; Isaura lançava +olhares assassinos ao auctor, que na febre da vaidade litteraria nem +reparava n'essas amaveis provocações. O doutor Macedo indignou-se. + +--O Lucio, bradou elle, saíu fóra do meu programma. Inpingiu-nos um +romance humoristico debaixo da bandeira de conto da meia-noite. Lavro um +protesto, e peço que se lance na acta. + +--Apoiado! exclamou o visconde da Fragosa, acordando. + +--Mas, doutor... acudiu Valença, rindo. + +--Qual mas nem meio mas! Então isto é conto phantastico? Você nunca leu +Hoffman? Você nunca leu Carlos Dickens? Leu, sim senhor, mas tinha o +romance fechado na sua gaveta, apanhou auditorio benevolo, e impingiu-o. +Quer editor! Não é outra coisa, minhas senhoras, quer editor! Então onde +ha aqui espectro? onde ha visão? onde ha os terrores legendarios da +meia-noite? + +--Peço a palavra, interrompeu Lucio, rindo. + +--Sobre a ordem ou sobre a materia? perguntou gravemente o visconde da +Fragosa. + +--Sobre o espirito, redarguiu Lucio. + +--Não é parlamentar, tornou o visconde. + +--Deixe-o fallar, visconde, deixe-o fallar que eu já o esmago. + +--Veremos, tornou Lucio. Qual era o nosso fim, doutor? Matar a +meia-noite... Matou-se. Tres noites a fio se contaram coisas medonhas, +coisas de arripiar os cabellos, vieram aqui á praça defunctas que vão a +S. Carlos, phantasmas da meia edade, egrejas submarinas que se illuminam +mysteriosamente á meia-noite. Algum de nós trepidou? Não; pelo +contrario. A meia-noite hoje passou, e ninguem deu por tal. Queriam que +eu abusasse da victoria? A meia-noite morreu. _Parce sepultis?_ + +--Sophismas! sophismas vãos! + +--Appéllo para o _claro auditorio meu_. + +--Ó vaidoso! bradou o doutor Macedo, isso é de Bocage, sabes tu, +profano? ousas comparar-te ao gigante? + +--Eu por mim gostei, exclamou Leonor. + +--Eu tambem! tornou Henrique, trocando uma vista d'olhos com a gentil +filha dos viscondes da Fragosa, ainda que me parece que os arrufos de +Eduardo e de Camilla duraram mais do que seria de rasão. + +--Tu cheiras-me a noivo, Henrique! disse o doutor. Exhalas um vago +perfume de flôr de larangeira. + +--Eu, exclamou logo Isaura, requebrando-se toda, declaro que ainda aqui +não ouvi coisa de que mais gostasse. + +--Oh! minha senhora, tornou Lucio, desfazendo-se em agradecimentos. + +--Percam-n'o com as lisonjas, percam, acudiu o doutor Macedo. E agora +deixem-me pronunciar a dissolução da sociedade _Inimiga da meia-noite_. +Está a terminar o tempo da _villeggiatura_. Depois de ámanha é a ultima +caçada. Está dissolvida a associação. + +--Doutor, antes d'isso tenho que lhe apresentar um requerimento, disse a +doce voz de Leonor. + +--Mandar para a meza, emendou o visconde da Fragosa. + +--Que requerimento é? perguntou Macedo. + +--A Juliasita e o Alvaro tem sabido que se contam aqui, depois d'elles +se deitarem, historias pavorosas, e as criadas vêem-se gregas com elles +para os despirem quando chega a hora de os deitarem, porque não é senão +dizerem que querem ficar a pé para ouvirem as historias. Prometti-lhes +que uma noite d'estas assistiriam á entrevista. Como decididamente já +ninguem pensa na meia-noite, como hoje se abriu o exemplo de não se +esperar a hora fatidica, não podiamos ámanhã, ao anoitecer, abrir a +sessão para os pequenitos assistirem? + +--Ora... para quê, Leonor? acudiu a viscondessa, os teus irmãos caem de +somno ás primeiras palavras. + +--De certo, se se lhes não escolher coisa de que elles gostem. A +_Julieta_ de certo a não perceberiam, acudiu Leonor, sorrindo +maliciosamente para Henrique. + +--Não eram só elles, resmungou Henrique Osorio. + +Isaura não ouviu; estava toda embebida n'uma larga conversação com Lucio +Valença. + +--Ah! eu me encarrego d'elles; pago ámanhã a minha quota, aproveito o +precedente de Lucio. + +--O quê? o quê? acudiu Lucio, que ouvira pronunciar o seu nome. + +--Falla se por aqui no teu precedente, ou no teu predecessor, que é a +mesma coisa. Julgavas que o não tinhas? + +Leonor desatou a rir, Henrique fez-se ligeiramente córado, Isaura não +comprehendeu. + +--Invocando, pois, o precedente de Lucio, continuou o doutor, +apresentarei ámanhã, em obsequio ao Alvaro e a Julia, uma _lenda da +meia-noite_, que não será lenda e que não será á meia-noite, o que dará +a Roberto Soares assumpto para um estudo intitulado: _De como degeneram +as lendas_. + +Dispersou-se a companhia, porque era já tarde, mas Henrique e Leonor +tinham aberto uma janella e conversavam animadamente. + +Ao passar junto d'elles, Isaura, a quem Lucio dava o braço, não pôde +eximir-se a dizer-lhe: + +--Veja se se transforma em espectro essa nova Julieta. + +--Minha senhora, acudiu Henrique, transformam-se em espectros ou em +nada, que é a mesma coisa, as loucas visões que sonha a phantasia +enferma. Esses sonhos, quando se desperta, deixam apenas uma impressão +pesada e morbida. E quando se acorda é que se percebe que as Julietas +nunca foram amadas com o coração, foram sempre um pretexto para as +divagações de uma imaginação desnorteada. + +--E encontrou a bussola, Henrique? acudiu Lucio, motejador. + +--Encontrei, sim, meu amigo. + +--Procurou-a por muito tempo? + +--Estava ao meu lado. Somos tão loucos que nunca pensamos em reparar se +nas pedras do nosso jardim habitualmente não se encontrará alguma que +tenha as qualidades maravilhosas do magnete, e deixamo nos attrahir +tolamente por umas pedras que brilham, que julgamos diamantes e que são +apenas... + +--O quê? + +--Pedaços de vidro que brilham ao sol; o fulgor era do sol e não +d'elles. + +Os dois companheiros de serão trocavam já olhares inflammados, e nas +suas vozes havia um tom ameaçador. Isaura assistia olympicamente +desdenhosa a esse torneio de espirito. Leonor, inquieta e magoada, +sentia os olhos marejarem-se-lhe de lagrimas. + +--Se não se vão deitar, apago eu mesmo as luzes, exclamou o doutor +Macedo intervindo de subito e separando bruscamente os quatro +personagens da scena. Olhem que massadores! + +E, emquanto o grupo se dispersava, trocando despedidas um pouco frias, o +doutor Macedo fechava a janella murmurando: + +--_Cherchez la femme_. + + * * * * * + +Na noite seguinte assistiam dois novos ouvintes á leitura. Eram Alvaro e +Julia, os dois filhos mais novos dos viscondes da Fragosa. As creanças +estavam radiantes de alegria; emquanto Alvaro, loira creança de seis +annos, cravava os grandes olhos azues, com infantil curiosidade, no +doutor Macedo, Julia, uma menina de nove annos, toda elegante, e que era +o retrato de sua irmã mais velha, ouvia, rindo ás gargalhadas, as +historietas de Henrique Osorio que a tinha no collo, e que, +prodigalisando-lhe as caricias, esperava assim reconquistar as boas +graças de Leonor, que ficára um pouco ferida pela scena da vespera, em +que lhe parecêra vêr um resentimento que mostrava que Isaura não fóra de +todo esquecida. + +--Meus meninos, disse o doutor Macedo desenrolando o seu manuscripto, é +só cá para nós este conto. A mana, o Henrique e os outros que riam ou +durmam, se quizerem. Nós cá é que nos vamos entreter. Este conto é só +para nós, e intitula-se... + +Lucio Valencia, que estava collocado defronte de uma janella aberta, +interrompeu com um espirro o discurso de Macedo. + +--_Dominus tecum_, concluiu o doutor. + +--Obrigado, disse Lucio. + +--Não é obrigado, é o titulo do conto. Mas vejam o que é ser-se +litterato. Espirramos, diz-nos alguem _Dominus tecum_; é o que basta, +saiu um conto! + +Todos desataram a rir, e o doutor, com a sua voz admiravel, com a rara +sciencia de recitação que possuia, começou a lêr, no meio de profunda +attenção das duas creanças, o seu _Dominus tecum_. + + + + +DOMINUS TECUM... + +(CONTO PARA CREANÇAS) + + +I + + +Agora que a noite começa a desenrolar o seu manto azul, onde essas fadas +luminosas, que se chamam estrellas, dançam em torno da sua branca +rainha, que percorre o firmamento no seu argenteo carro, umas solitarias +e pensativas, como a scismadora Venus, outras formando immensa e jovial +choréa como as brancas estrellinhas da via lactea; agora que principia a +ouvir-se ao longe o grave som das Trindades, perfume de harmonia que +parece exhalar-se das urnas gigantes dos campanarios, vinde, meus +meninos, vinde agrupar-vos em torno de mim, e ouvir as historias +maravilhosas que eu tenho para vos contar. + +Arredae da fronte os loiros anneis dos vossos cabellos, doirados fios +que enreda, teimosa, a brisa folgazã, como que para vos desafiar para +novos brinquedos, e fitae-me bem com esses olhos azues, transparentes +como o lago limpido, puros como o céo ridente, que vos quero povoar os +sonhos de imagens luminosas d'esse mundo loução de fadas e duendes! + +Ó sonhos infantis! Quem poderá jámais saber quanto esvoaçar de azas +brancas, quanto rescender de ignotos perfumes, quanto desabrochar de +lindas flôres, quanto lampejar de suavissimos clarões nos revela aquelle +innocente sorriso que volteia nos labios da creança adormecida! + +Que deliciosos colloquios não haverá entre essa almazinha gentil, que +aspira ao céo, e os anjos, que se debruçam meigamente do azulado +Empyreo, que a tomam nos braços, que a embalam e lhe sorriem! + +E eis o motivo porque sempre despertaes chorando: é porque os anjos vos +poisam no berço, vos beijam na fronte; porque vêdes as suas azas +candidas transporem n'um vôo o espaço, e cerrarem-se com fragor as +doiradas portas do Empyreo. + +E só vos aplaca o choro o meigo sorrir das mães; porque, se ha anjos na +terra, onde se abrigariam elles se não fosse no brando seio maternal? + +Onde encontrariam imagem mais perfeita do seu Paraizo? + +Mas entre o céo e a terra ha outro mundo de encantos, onde esvoaçam as +fadas travessas, os maliciosos duendes, que são tambem amigos das +creancinhas e as vão poisar, ás vezes, no purpureo regaço das rosas, ou +nas rendas prateadas do immenso véo do luar. + +De dia dormem escondidas no calice das flôres, ou no seio dos lagos, ou +nas folhas das arvores; mas, quando soam Trindades, eil-as a esvoaçar no +ambiente, e é o bater das suas azas, o chilrear das suas vozes, que +produzem esses ineffaveis murmurios que vos encantam e que vos fazem até +cair, sem saberdes por quê, n'uma doce melancolia. + +São ellas quem ensinam aos rouxinoes esses maviosos gorgeios, esses +deliciosos trinados, que toda a natureza escuta embevecida n'um vago +extase. + +São ellas quem accendem nos pyrilampos, esse phantastico fulgor que +vagueia nos prados, e matiza de oiro o fundo verdejante da relva. + +São ellas quem desentranham do seio das flôres as nuvens de perfumes, +que espalham depois, rindo, na atmosphera. + +É o seu bafo a brisa voluptuosa e leve, que faz correr um vago +estremecimento pelas corollas gentis das rosas e dos lirios. + +Por isso a noite é mais formosa do que o dia; porque o dia pertence aos +homens, e durante a noite imperam os espiritos subtis. + +A natureza vê passar com indifferença, e até com odio, o homem que se +diz seu rei, e cuja realeza é uma verdadeira tyrannia. + +Porque o homem decepa as arvores frondosas; colhe as flôres que viçavam +alegres, e que vão finar-se em ramalhetes; acorda os echos doridos com o +estrondear das suas espingardas; e a toda a parte, onde estabelece o seu +dominio, leva comsigo a destruição e a morte. + +Nunca viram, meus meninos, arder uma floresta? É horrivel! As arvores +contorcem-se na agonia, erguem ao céo os ramos esbrazeados, soltam +gritos de desesperação. Não é a vegetação inerte que se reduz ao nada, é +a vida que fenece em convulsões. + +E quem incendiou a floresta? Quem brandiu o facho assolador entre a +folhagem lustrosa? Foi o rei da natureza! Foi o monarcha da creação! + +As fadas e os duendes não destroem assim esses mysteriosos sanctuarios, +onde se abrigam tantos amores, tantas vidas, tão incessante trabalho de +renovação! Tem, pelo contrario, com elles mil desvelos; são ellas quem +descerram a pouco e pouco os verdes botões das rosas do matto; são ellas +que penetram nos troncos, e fazem girar a vivificante seiva em todos os +pontos da arvore caduca; são quem a ajudam depois a desabrolhar em +pimpolhos, em flôres e em fructos. + +Por isso, quando á noite dançam e folgam nos ares, toda a natureza se +compraz em lhes adornar os festejos; as brisas volteiam com as suas +urnas cheias de aromas; os rouxinoes descantam as suas arias; a +orchestra immensa dos pinhaes, das carvalheiras e dos salgueiraes +entrega aos arcos invisiveis do vento as frementes cordas das suas +franças, ou deixam que mão ignota doideje vagamente nas teclas das suas +frondes! E tudo canta, ri e folga, porque são as fadas que dançam, as +fadas aéreas, os travêssos duendes. + +E o homem entretanto, encerrado nas suas mesquinhas moradas, respira uma +atmosphera corrompida, sente o suor a borbulhar-lhe na fronte depois de +dar um giro na sala abafadiça, e cerra cuidadosamente as janellas, para +que lhes não chegue nem um murmurio, nem um effluvio, nem um raio de +luz. + +E a natureza aproveita a ausencia do rei da creação, e canta, e folga, e +ri, porque são as fadas que dançam, as fadas risonhas, os duendes +maliciosos. + + +II + + +Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como podem suppôr, não tem +o mesmo genio, a mesma indole nos differentes sitios. N'uns pontos +persegue-as o infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura. + +Na nossa terra abençoada, em que temos o céo de veludo, aguas de +crystal, sol de oiro vivo; onde nos ares limpidos parecem brotar por +encanto musicas suavissimas; onde viçam flôres com profusão; onde as +brumas são véo ligeiro que touca as cumiadas dos montes, e não gélido +manto que envolve as planicies, folgam as fadas de viver. É este o paiz +dos seus sonhos, este e a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram +por tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que eram as fadas +dos pagãos. + +Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca lhes faltam, +abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias, aquentando-se nos +ninhos das avesitas, viajando n'um raio da lua, não tendo mais em que +cuidar senão em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em +banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por anno, na bemdita +noite de S. João, tem de ser oraculos das donzellinhas, que lhes vem +perguntar qual o porvir dos seus amores. + +Donosa occupação! Sair do asylo da folhagem e entrar na alma ingenua da +donzella, é apenas mudar de ninho, e não sei qual será mais suave, mais +macio, mais delicioso e mais immaculado. + +Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar! Pois o que são os +amores? E se escutavam deliciosos -----File: +195.png---\rita_marreiros\ArturPires\ichigochi\Manela\luisa\----gorgeios, +finas trovas, podiam nunca ser tão mimosos esses cantares como o poema +seductor, cujas estrophes resoam n'um coração de vinte annos? + +Mas ai! nem sempre é assim. Nos frios paizes do norte, na nevoenta +Inglaterra, na verde mas tristonha Irlanda, não encontram as fadas e os +duendes as doçuras d'estes ares, os esplendores d'estes céos, a +suavidade d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se as aguas, +morrem de frio os passarinhos implumes nos pobres ninhos devastados pela +procella, a neve mata as flôres, embacia-se o clarão da lua, desmaia a +luz e affrouxa o almo calor do sol, não ha perfumes nem galas, e ai de +quem intentasse dançar nos ares quando o graniso cae! + +Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gentís fadas! Elles, que +adoram a liberdade, vêem-se obrigados a refugiar-se nos quentes curraes, +na cinza do lar, e até na chaminé! Ah! como os seus irmãos dos paizes do +sul teriam dó d'elles se os vissem com as azas brancas maculadas de +fuligem, a não ser que estejam expostos ao frio e á neve á porta de casa +pouco hospedeira, onde não lhes abram sequer uma fisga por onde possam +metter os corpinhos enregelados. + +Mas os homens são crueis e egoistas, e não concedem um favor sem mirarem +a galardão; estão promptos a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a +condição que estes os hão de servir. E aqui temos os nossos duendes e as +nossas fadas, fieis á sua palavra, a ordenhar as vaccas, a guardar as +ovelhas, a tratal-as nas doenças, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger +os donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados não fariam. + +Mas, meus meninos, os homens, não contentes com isso, traçam muitas +vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles, descumprir a sua palavra, e +isso tudo exacerba-os, e fal-os tambem, ás vezes, maus e vingativos. + +Ah! meus meninos, a miseria é a mãe terrivel do mal, tanto nos homens +como nos duendes. A miseria, e a escravidão, e a ausencia da luz! Ah! +quando virdes um criminoso, não o anathematiseis, mas vêde primeiro em +que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras idéas que teve, qual o +estado da sua intelligencia. E vereis sempre a miseria, o embrutecimento +e as trevas. + +Por isso, quando fôrdes homens, dedicae-vos á grande obra da regeneração +dos vossos similhantes, ao seu esclarecimento e á sua educação moral. + +E assim tereis cumprido a vossa missão na terra, assim tereis cumprido o +grande preceito da nossa religião «a caridade», preceito que encerra em +si todos os outros, raio de luz que, em se espraiando pelo mundo, basta +para dissipar as sombras mais cerradas. + +Mas voltemos aos nossos duendes, de que já nos iamos afastando tanto. + + +III + + +Oiçam pois, meus meninos, esta historia, em que vereis como os duendes +se transformam com a miseria e com o mau exemplo dos homens. + +Aqui tem eterna juventude, lá chegam a envelhecer e tem uma velhice +repugnante; aqui não pensam senão nas suas fadas, lá ousam querer raptar +as filhas dos homens. + +Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado Patricio, que pedira um +favor a um duende, offerecendo-se a recompensal-o; mas, apenas se viu +servido, fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, não pensou mais +em similhante galardão. + +O duende, que já era velho e rabugento, e moido de trabalho, enfadou-se +com esta falta de palavra, e condemnou o camponez a servil-o sete annos +e um dia. + +Sentença dada por duende irritado inscreve-se no livro do destino, e lá +não é possivel arrancarem-se as folhas, como se fez em Portugal, nem +queimar a casa onde o livro está, como se fez em França. + +O pobre Patricio, que não quizera dar uma pequena recompensa, viu-se +obrigado a servir seu amo sete annos, sem ao menos ter a esperança que +teve Jacob, que se viu mettido em eguaes danças, como os meus amiguinhos +sabem, mas a quem fôra promettida em premio a formosa Rachel. + +E, ainda assim, Jacob não tinha senão que pastorear os rebanhos de +Labão, o que, por fim de contas, não é uma occupação desagradavel. + +Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias. Além dos +trabalhos habituaes, fazia tambem de escudeiro de seu amo, e tinha de o +acompanhar nas suas excursões nocturnas, excursões que eram sempre +feitas a cavallo. + +Mas a cavallo em quê? Imaginam que iam montados em guapos corceis, como +esses em que os seus papás montam, ou em pacatos burrinhos, como esses +em que os meus meninos vão tambem dar os seus passeios? + +Pois não; as coudelarias do nosso duende tinham outra casta de +cavalgaduras; eram immensas porque abrangiam toda a natureza, e porque, +a fallarmos verdade, os cavallos não occupavam muito espaço. Chegavam, +por exemplo, ao meio de um campo, viam duas feveras de palha, o duende +pegava n'uma, dava outra a Patricio, e dizia-lhe: «Monta». + +Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me, realmente, que o +mais perito mestre de equitação se havia de vêr seriamente embaraçado. + +Patricio arrancava os cabellos, amaldiçoava a sua avareza, que o levára +áquelle misero estado; mas como arrancando os cabellos ficava calvo, e +não transformava a palhinha nem em burro nem em corcel, não tinha +remedio senão montar, e lá ia elle por esses ares fóra atraz de seu amo, +que cavalgava tão ufano como se montasse no celebre Bucefalo de +Alexandre, em que os meus meninos talvez já ouvissem fallar. + +De que elle tinha medo principalmente era que os seus visinhos o vissem +n'aquella figura, mas d'isso não havia perigo; o duende, sendo invisivel +para olhos profanos, tornava-o invisivel tambem a elle. + +Outras vezes não eram feveras de palha, mas juncos e cannas os corceis +escolhidos; o bom do Patricio quiz vêr se conseguia que seu amo +acceitasse dois paus de vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras +mais commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende respondeu-lhe +com tanta dignidade que isso era bom para as bruxas, que o pobre +irlandez não ousou insistir, e tratou de vêr se aprendia as regras da +picaria aeria, e de escolher a posição mais commoda que podesse na tal +fevera de palha que o transportava pelos ares. + +Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou Patricio e disse-lhe com +modo benevolo: + +--Meu amigo, determinei casar. Estou a fazer mil annos, e parece-me que +é tempo de tomar estado e familia. Escolhi para minha noiva a formosa +Jenny, e vamos esta noite buscal-a. + +Patricio bem desejaria responder que os olhos azues, as tranças loiras, +a rosea bocca e as faces nevadas da formosa Jenny não deviam ser para um +velhote como elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado, +devia escolher uma centenaria, e não uma rapariga na flôr dos seus vinte +annos, e que, além d'isso, rasão de todas a mais forte, Jenny casára +n'esse mesmo dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda em +casa do noivo. Mas Patricio bem sabía que o duende não gostava de +reflexões, e portanto, sem tugir nem mugir, montou a cavallo n'uma folha +de couve, que era o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares fóra. + + +IV + + +Tudo era festa e riso em casa de Jenny. Brindes sem conta soavam a cada +instante, as violas desprendiam os seus alegres epithalamios, e a meza, +servida á farta, ostentava-se com a alvissima toalha no meio da casa. + +A noiva era realmente galante a mais não poder ser. Nos olhos tão azues +e tão meigos parecia que se refugiára a côr do céo, expellida do +firmamento pelas nuvens, e com a côr do céo a doçura dos anjos. + +Os cabellos tinham o colorido das espigas de trigo; na bocca pequenina +esvoaçava um sorriso de amor, como borboleta em rosa. As faces eram tão +brancas, tão brancas, que desmaiaria junto d'ellas a neve das montanhas +de Erin; mas n'esse momento incendia-as o prazer e tingiam-se de +reflexos roseos, como a nivea toalha dos pincaros, quando o sol a +illumina ao descair no occaso. + +O noivo era um rapaz esbelto e varonilmente formoso. O olhar ardente com +que, para assim dizermos, enlaçava Jenny, mostrava o immenso amor que +lhe tinha; a meiguice dos raios de luz, que emanavam dos olhos da gentil +irlandeza, revelava que a voz d'esse amor encontrára um echo no coração +da formosa que o duende cubiçava para noiva. + +Os convivas agrupavam-se em torno da meza, e no logar de honra, campeava +o gordo padre prior, que fazia frente a um magnifico prato de cabeça de +porco, flanqueada de feijões, que lhe levava os olhos, como a formosa +physionomia de Jenny enlevava o enamorado esposo. + +O duende e o seu criado entraram sem ninguem dar por elles, e foram +sentar-se commodamente n'uma das traves do tecto. Os cavallos haviam +ficado no telhado fóra do alcance das outras cavalgaduras, que seriam +muito capazes de as devorar, sem respeitarem por fórma alguma a +confraternidade que as pobres folhas de couve allegariam. + +Empoleirado alli assim, Patricio estava talvez um tanto incommodado, +principalmente porque lhe chegava o cheiro dos bons manjares que ufanos +campeavam em cima da meza, e o seu estomago segredava-lhe que seria +muito melhor fartal-o a elle do que fartar os olhos com as saborosas +iguarias. + +Mas o bom irlandez bem sabia que o seu duende nunca lhe consentiria +mostrar-se, e, portanto, consolava-se pensando que talvez a ceia das +bodas do seu amo fosse ainda melhor do que essa que o estava namorando. + +Depois relanceou os olhos para a noiva, e em seguida para o seu +companheiro da trave, e pensou que era realmente uma barbaridade ligar +assim tão donosa primavera a tão encarquilhado inverno. + +N'isto a noiva espirrou. + +Um espirro não é coisa que envergonhe ninguem, mas o espirro de Jenny +fez tanta bulha, que a pobre menina corou muito, sentindo que todas as +vistas se haviam voltado para ella. + +Excepto, ainda assim, as do padre prior; o anafado sacerdote empunhava o +garfo e a faca, e com os olhos cravados na cabeça de porco, a nada mais +dava attenção. + +Era natural, meus meninos, que dissessem á formosa Jenny o consagrado +_Dominus tecum_; ninguem, effectivamente, queria faltar a esse dever; +mas a cortezia ordenava que se deixasse o padre prior tomar a +iniciativa, e, por conseguinte, todos esperaram. + +O padre prior tomava n'esse instante a iniciativa, mas era de se deitar +á cabeça de porco; cravou o garfo destramente, vibrou com certeza rara a +faca a um bom tassalho, e transportou-o do prato geral para o seu prato +particular. + +Terminada essa difficil operação, o padre prior poisou as armas +triumphantes ao lado do prato, travou gravemente da colhér, e, em tres +ou quatro viagens, fez mudar de gasalhado, e erigiu, em enorme acervo, +uma respeitavel quantidade de feijões. + +Ninguem ousou advertil-o do seu esquecimento, e, depois d'esse pequeno +incidente, a festa continuou com o mesmo estrondo e enthusiasmo. + +A bulha dos queixos do padre prior superava o tumultuoso acompanhamento. + +Mas o duende é que dava pulos de contente na trave, e dizia a Patricio: + +--Se ella dá mais dois espirros e ninguem lhe diz _Dominus tecum_, é +minha; foi isso o que Satanaz me prometteu. + +O pobre Patricio enfiou; decididamente, o nosso irlandez tinha boa alma: +se não fosse a tal avareza... + +Emfim, ninguem póde ser perfeito. + +D'ahi a instantes Jenny espirrou de novo, mas a pobre menina ficára tão +envergonhada da primeira vez, que o segundo espirro comprimiu-o por tal +fórma, que ninguem o ouviu, nem mesmo o seu noivo, que se via obrigado +n'esse instante a escutar uma enorme dissertação de seu sogro sobre o +cultivo da batata. + +O padre prior comia. + +Por conseguinte, ainda d'essa vez passou o espirro sem o competente +_Dominus tecum_. + +O duende pulava, dava cabriolas, fazia bulha tal, em fim, que por mais +de uma vez um ou outro conviva olhou para o tecto, mas, não vendo coisa +alguma, julgou que seriam ratos e continuou a divertir-se. + +Patricio scismava; era realmente uma dôr d'alma vêr tão gentil menina +cair em poder d'aquelle espirito malicioso; pensava que talvez a podesse +salvar, mas lembrava-se das iras de seu amo, que podiam cair sobre elle, +e abanava a cabeça deixando-se ficar mudo e quêdo. + +Finalmente, soou o terceiro espirro da menina, ainda mais comprimido que +os dois primeiros. + +Mas ao mesmo tempo retumbou no tecto um formidavel _Dominus tecum_, que +fez tintinar os vidros e tremer os convidados. + +E logo um corpo humano veiu, aos rebolões pelo espaço, baquear em cima +da meza, entornando o prato do padre prior, que soltou um grito de +desespero, e apanhou na batina o naco de cabeça de porco, antes que um +mastim faminto, que andava rondando os pés das cadeiras, désse com tão +boa fatia. + +Era Patricio que, vencendo as suas indecisões, reunira todas as suas +forças e coragem, e salvára d'essa fórma a formosa Jenny. + +Ao mesmo tempo ouviu-se uma voz que dizia: + +--Despeço-te do meu serviço, mas ahi tens o ordenado. + +Não era mau, effectivamente; o irlandez esteve tres mezes em lençoes de +vinho, e ficou toda a vida com uma dôr nas costellas. + +Mas os dois noivos, a quem elle contára o que estivera para lhes +succeder, foram-lhe eternamente gratos, ajudaram-n'o muito na sua vida, +e, quando envelheceu, levaram-n'o para casa, onde teve sempre uma boa +cadeira, onde se sentava a apanhar a sua restea de sol, e onde +entretinha os filhos de seus hospedes, contando-lhe as suas viagens +aérias, e a historia dos tres espiritos. + + +V + + +Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno esplendor da lua +branqueia-vos as rosadas faces; desperta a natureza quando adormece o +homem; as flôres entreabrem os seus thuribulos; a fonte desdobra o +transparente crystal das suas aguas, e as naiades chorosas entoam os +seus lamentos. + +Já o somno começa a fazer-vos pender a fronte; brincastes, correstes +durante o dia á luz do sol, chega a hora do repouso, depois, quando +fôrdes crescidos, gostareis de ficar, como eu fico, a contemplar o +estrellado docel do firmamento, e a perguntar ás vozes mysteriosas da +natureza qual é o segredo que faz palpitar tantos mundos na abobada +estrellada; gostareis de vêr os campos onde o luar se espraia, as +infindas maravilhas da creação! mas oh! nunca vereis panoramas como os +que vos sorriem agora nos meigos sonhos da infancia. + +Ide, pois; esperam-vos os anjos escondidos detraz das cortinas alvas do +vosso leitosinho, e, se algum espirito aéreo se vos entre-mostrar +tambem, não tenhaes medo, porque os habitantes d'estes ares luminosos +são fadas meigas e risonhas, e não duendes malignos. + + * * * * * + +No dia seguinte áquelle em que o doutor Macedo contára, com grande +gaudio das creanças, a lenda do _Dominus tecum_, uma carruagem parava á +porta do visconde da Fragosa, e apeiava-se d'ella uma senhora edosa de +nobre aspecto e veneranda physionomia, que pedia para fallar ao visconde +e á viscondessa da Fragosa. + +Era a mãe de Henrique Osorio, que vinha pedir para seu filho a mão de +Leonor. + +Fez algum reboliço em casa dos viscondes este subito pedido feito para +pessoa que sempre vivera em intimas relações com Leonor, e que nunca até +ahi mostrára desejos de a requestar. + +Fallando-se n'isso no grupo dos hospedes, o doutor Macedo disse: + +--É para que saibam que, quando se semeia sempre se colhe alguma coisa, +ainda que não seja aquillo que se previu. Das nossas lendas da +meia-noite saíu este casamento, o que prova mais uma vez que o casamento +e a mortalha no céo se talha. + +--Tanto mais que para Henrique Osorio o casamento e a mortalha devem +estar intimamente ligados... O homem que ama espectros... O auctor de +Julieta! + +N'este momento vieram dizer ao conselheiro Madureira que a sua carruagem +o esperava. Despediram-se elle e a filha dos viscondes da Fragosa, +Isaura deu um beijo frio em Leonor, e cumprimentou seccamente Henrique +Osorio. + +--Espero tornal-o a vêr no Espinho, disse ella com requintes de +amabilidade a Lucio Valença. + +--Ah! de certo, minha senhora, respondeu o escriptor. + +Quando partiram, Henrique approximou-se de Lucio e disse-lhe: + +--Hontem iamo-nos irritando por frivolidades sem nome. Sabe comtudo, +Lucio, que sou seu amigo, e que não tenho no que vou dizer-lhe o minimo +pensamento reservado. Não se deixe prender nos laços d'aquella formosa +mulher, que é uma _coquette_ sem intelligencia e sem alma. + +--Meu amigo, tornou Lucio, rindo, eu estou-a vendo hoje pelo prisma que +você me legou. Hei de dizer mal d'elle talvez d'aqui a algum tempo. +Agora não ha remedio; tenho-o encaixado nos olhos. + +Henrique encolheu os hombros. + +--Pois meus amigos, disse o doutor Macedo, que vira Leonor entrar a +dirigir-se para o seu noivo, tem a _lenda da meia-noite_ uma conclusão +inesperada; mas isso foi bom para que tivesse alguma. + +--Effectivamente, disse Lucio Valença, o nosso fim, confessamol-o, não +se conseguiu. As pessoas nervosas, quando estiverem sósinhas á +meia-noite n'um quarto de lugubre aspecto, hão de continuar a tremer de +espectros. Affrontal-os em boa companhia não torna aguerrido ninguem. + +--Eu não posso dizer coisa alguma; na _lenda da meia-noite_ encontrei +eu, disse Henrique, a ventura da minha vida. + +--E ainda que outra coisa não se alcançasse, logrou-se passarem-se +algumas noites agradavelmente. + +--Assim seja! concluiu o doutor Macedo. + +Possam dizer o mesmo os leitores d'este despretencioso livro. + +FIM + + + + +Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA + + +VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS +DAS +LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS + + +Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc. + + +Volumes publicados + + +1--Tristezas á beira-mar, por Pinheiro Chagas. + +2--Contos ao luar, por Julio Cesar Machado. + +3--Carmen, trad. de M. Level. + +4--A Feira de Paris, por Iriel. + +5--O direito dos filhos, por George Ohnet. + +6--John Bull e a sua ilha, trad. de P. Chagas. + +7--Esgotado. + +8--A lenda da meia noite, por M. Pinheiro Chagas. + +9--A joia do vice-rei, por P. Chagas. + +10--Vinte annos de vida litteraria, por A. Pimentel. + +11--Honra d'artista, trad. de P. Chagas. + +12--Esgotado. + +13 e 14--A aventura d'um polaco, trad. de Maria A. Vaz de Carvalho. + +15--Os contos do Tio Joaquim, por R. Paganino. + +16--Esgotado. + +17--Noites de Cintra, por Alberto Pimentel. + +18 e 19--Esgotado. + +20 e 21--A irmã da caridade, por Emilio Castellar, trad. de L. Q. +Chaves. + +22--Migalhas de historia portugueza, por P. Chagas. + +23--Esgotado. + +24--Contos, por Affonso Botelho. + +25--Esgotado. + +26--Esgotado. + +27--O naufragio de Vicente Sodré, por Pinheiro Chagas. + +28--Vida airada, por Alfredo Mesquita. + +29--O bacharel Ramires, por Candido de Figueiredo. + +30 e 31--Esgotado. + +32--As netas do Padre Eterno, por A. Pimentel. + +33--Contos, por Pedro Ivo. + +34--O correio de Lyão, por Pierre Zaccone. + +35--Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel. + +36--Historias de frades, por Lino d'Assumpção. + +37--Obras primas, por Chateaubriand. + +38--O exilado, por Mauricia C. de Figueiredo. + +39--Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas. + +40 e 41--A vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado. + +42 e 43--Espelho de portuguêses, por Alberto Pimentel. + +44--A fada d'Auteuil, trad. de Pinheiro Chagas. + +45--A volta do Chiado, por E. de Barros Lobo. + +46--Séca e Méca, por Lino d'Assumpção. + +47--Ninho de guincho, por Alberto Pimentel. + +48--Vasco, por A. Lobo d'Avila. + +49--Leituras ao serão, por A. X. Rodrigues Cordeiro. + +50--Luz coada por ferros, por D. Anna A. Placido. + +51--Esgotado. + +52--Relampagos, por Armando Ribeiro. + +53--Historias rusticas, por Virgilio Varzea. + +54--Figuras humanas, por Alberto Pimentel. + +55--Dolorosa, por Francisco Acebal, trad. de Caïel. + +56--Memorias de um fura-vidas, por A. de Mesquita. + +57--Dramas da côrte, por Alberto de Castro. + +58--Os mosqueteiros d'Africa, por Mendes Leal. + +59--A divorciada, por José Augusto Vieira. + +60--Phototypias do Minho, por J. Augusto Vieira. + +61--Insulares, por Moniz de Bettencourt. + +62 e 63--Historia da civilisação na Europa, trad. do Marquez de Sousa +Holstein. + +64--Triplice alliança, de Raul de Azevedo. + +65--Retalhos de verdade, por Caïel. + +66--A pasta d'um jornalista, pelo Visconde de S. Boaventura. + +67--Os argonautas, por Virgilio Varzea. + +68--Fitas de animatographo, por Alberto Pimentel. + +69 e 70--Poesias do Abbade de Jazente, annotadas por Julio de Castilho. + +71--Aspectos e sensações, de Raul d'Azevedo. + +72--Contos e narrativas, por P. W. de Brito Aranha. + +73--Quadros e letras, historias e romancetes, por Sanches de Frias. + +74--Individualidades, por Henrique das Neves. + +75--Alfacinhas, por Alfredo de Mesquita. + +76--Patria amada, pelo Visconde de S. Boaventura. + +77--Historias e romancêtes, por Sanches de Frias. + +78--Esbocetos individuaes, por Henrique das Neves. + +79--Recordações da mocidade, por Adolpho Loureiro. + +80--Sorrisos, novellas e chronicas, por A. Campos. + +81--Lucta de sentimentos, por Maria O'Neill. + +82--Do Rocio ao Chiado, por P. de Vasconcellos. + +83--A dança do destino, por Luthgarda de Caires. + +84--Um drama de ciume, por Maria O'Neill. + +85 e 86--Resumo da origem de todos os cultos, por C. F. Dupuís. + +87--Vencido, romance por F. A. M. de Faria e Maia. + +88--Elogio da loucura, critica de costumes, por Erasmo. + + + + +OUTRAS OBRAS + + +*Azevedo (Domingos de)* + + +Diccionario (Grande) contemporaneo francez-portuguez e v. v. 2.^a +edição, muito correcta e extremamente augmentada. + +Grammatica da lingua franceza. + +Grammatica Nacional, para aprender portuguez sem mestre. + +Lições praticas de conversação franceza. + +Ollendorff aperfeiçoado para aprender francez sem mestre, (2 vol.). + + +*Carvalho (D. Maria Amalia Vaz de)* + + +Ao correr do tempo. + +Arte de viver na sociedade. + +Aventura de um polaco, (2 volumes). + +Cerebros e corações. + +Chronicas de Valentina. + +Coisas d'agora. + +Contos e phantasias. + +Em Portugal e no estrangeiro. + +Figuras de hoje e de hontem. + +Heroismo do clero. + +Impressões de historia. + +No meu cantinho. + +Nossas filhas. + +Pelo mundo fóra. + +Raphael, trad. de Lamartine, (ed. de luxo). + + +*Pinto (Silva)* + +(Collecção d'algibeira) + + +A queimar cartuchos. + +A torto e a direito. + +Ao correr do pello. + +Entre nós. + +Frente a frente. + +Moral de João Braz. + +Mundo (O) furta-côres. + +Na Procella. + +Na travessia. + +N'este valle de lagrimas. + +No colyseu. + +No mar morto. + +Para o fim. + +Philosophia de João Braz. + +Por este mundo. + +Riso amarello. + +Rompendo o fogo. + +Velha historia. + + +*Queiroz (Dr. Teixeira de)* + + +Amores... amores... + +Arvoredos. + +Cantadeira (A). + +Caridade (A) em Lisboa (2 vols.). + +Cartas d'amor. + +D. Agostinho. + +Morte de D. Agostinho. + +Noivos (Os) (2 vol.). + +Nossa (A) gente. + +Sallustio Nogueira (2 vol.). + +Amor Divino. + +Famoso Galrão. + +Ao sol e á chuva. + +Grande (A) Chimera. + + + + +Notas: + +[1] Não é da auctora a idéa inicial d'esta lenda. Encontrou-a de certo +n'um magnifico livro do conde de Résie, intitulado «_Historia e tratado +das sciencias occultas_.» + +O livro em que fallo é um optimo archivo de todas as tradições européas. +Ha alli thesouros de poesia! Traduzo litteralmente o periodo, que me +suggeriu a idéa d'este conto. É o seguinte: + +«Nas costas do Baltico estava outr'ora situada uma egreja, que alguns +impios profanaram um dia, e que com elles se sepultou no mar. Quando +está socegada a noite, ouvem-se ainda esses desgraçados cantar soluçando +os psalmos da penitencia; e vêem-se brilhar atravez das ondas +tranquillas os cyrios que accendem no altar, junto do qual estão +condemnados a chorar até ao fim do mundo.» + +E nada mais. + +Como vêem, estava tudo por fazer. Mas a idéa era extremamente poetica e +prestava-se a um grande desenvolvimento. Pena foi que a não deparassem +escriptores como o auctor das _Lendas e Narrativas_, ou como esse poeta +da prosa portugueza, que soube dar tão esplendido colorido á _Lenda do +castello de Santa-Olaia_. Emfim o conto ahi está, bom ou mau; e com esta +nota fica em repouso a minha consciencia litteraria. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +---------+--------------------+--------------------+ + | | Original | Correcção | + +---------+--------------------+--------------------+ + |#pág. 8| principalmenie | principalmente | + |#pág. 25| espirto | espirito | + |#pág. 35| exagaram | exageram | + |#pág. 47| vermolhos | vermelhos | + |#pág. 61| escodendo | escondendo | + |#pág. 62| dos lagrimas | das lagrimas | + |#pág. 96| uma visto de olhos | uma vista de olhos | + |#pág. 105| janalla | janella | + |#pág. 114| parececia | pareceria | + |#pág. 129| mudo | mundo | + |#pág. 131| irritando-sé | irritando-se | + |#pág. 136| desdonhoso | desdenhoso | + |#pág. 140| quandos | quando | + |#pág. 141| dascuidoso | descuidoso | + |#pág. 153| e pensamento | o pensamento | + |#pág. 154| collocanme-me | collocando-me | + |#pág. 167| prevencão | prevenção | + |#pág. 169| diffrentes | differentes | + |#pág. 181| bellezaa | belleza | + |#pág. 184| mobiiia | mobilia | + |#pág. 187| associacão | associação | + |#pág. 188| á rir | a rir | + |#pág. 190| intulula-se | intitula-se | + |#pág. 191| attencão | attenção | + |#pág. 197| Iaglaterra | Inglaterra | + |#pág. 203| continou | continuou | + +---------+--------------------+--------------------+ + + +A indicação da primeira secção da lenda "_Memorias d'uma bolsa verde_" +foi adicionada, uma vez que existia referência a uma segunda secção. + +Todos os _n_ e _u_ trocados, encontrados no texto, foram rectificados. + +Os hífens "supostamente" em falta não foram adicionados. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Lenda da Meia-Noite, by +Manuel Joaquim Pinheiro Chagas + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A LENDA DA MEIA-NOITE *** + +***** This file should be named 23400-8.txt or 23400-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/3/4/0/23400/ + +Produced by Ricardo F. 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