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diff --git a/23145-h/23145-h.htm b/23145-h/23145-h.htm new file mode 100644 index 0000000..27f1838 --- /dev/null +++ b/23145-h/23145-h.htm @@ -0,0 +1,30018 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + + + + + + <title>A Illustre Casa de Ramires</title> + <meta content="Eça de Queirós" name="AUTHOR" /> + + + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.signature { +font-style: italic; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote { +margin-left: 5%; +font-style: italic;} +.half{margin-left:50%;} +.half1{margin-left:40%;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:25%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Illustre Casa de Ramires, by Eça de Queiroz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Illustre Casa de Ramires + +Author: Eça de Queiroz + +Release Date: October 22, 2007 [EBook #23145] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + + +<div> +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="bbox"> +<h2>Eça de Queiroz</h2> + + +<h1>A Illustre +Casa de Ramires</h1> + + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 122px; height: 140px;" alt="" src="images/fig_1.png" /> +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>PORTO<br /> + + +<br /> + + +LIVRARIA CHARDRON<br /> + + +De Lello & Irmão, editores<br /> + + +1900</h3> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao +cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, +que, para a garantia que lhe offerece a lei n.º 496 de 1 +d'Agosto de +1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a +determinação do art. 13.º da mesma Lei.<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;"><em>Porto</em>―<em>Imprensa +Moderna</em> +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h1>A ILLUSTRE +CASA DE RAMIRES</h1> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>Obras do mesmo auctor:</h3> + + +<br /> + + +<br /> + + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td><b>Revista de Portugal</b>. 4 grossos +volumes</td> + + + <td style="text-align: right;">12$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><b>As Minas de Salomão</b>, 1 +volume</td> + + + <td style="text-align: right;">600</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><b>Os Maias</b>. 2 grossos +volumes</td> + + + <td style="text-align: right;">2$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><b>O Crime do Padre Amaro</b>. Terceira +edição +inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e +na +acção da edição primitiva, +1 grosso +volume</td> + + + <td style="text-align: right;">600</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><b>O Primo Bazilio</b>. Terceira +edição, 1 grosso +volume.</td> + + + <td style="text-align: right;">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><b>A Reliquia</b>, 1 grosso +volume</td> + + + <td style="text-align: right;">1$000</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><b>O Mandarim</b>. Quarta +edição, 1 +volume</td> + + + <td style="text-align: right;">500</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><b>Correspondencia de Fradique Mendes</b>, +1 +volume</td> + + + <td style="text-align: right;">600</td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br /> + + +<h3>No prelo:</h3> + + +<b><br /> + + +</b> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td><b>A Cidade e as Serras.</b></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h1>A ILLUSTRE +CASA DE RAMIRES</h1> + + +<h2> +</h2> + + +<h2>I</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Desde as quatro horas da tarde, no calor e silencio do domingo de +Junho, o Fidalgo da Torre, em chinellos, com uma quinzena de linho +envergada sobre a camisa de chita côr de rosa, trabalhava. +Gonçalo Mendes Ramires (que n'aquella sua velha +aldêa de Santa Ireneia, e na villa +visinha, a aceada e vistosa Villa-Clara, e mesmo na cidade, em +Oliveira, todos conheciam pelo «Fidalgo da Torre») +trabalhava n'uma +Novella Historica, <em>A Torre de D. Ramires</em>, +destinada ao primeiro +numero dos <b><em>Annaes de Litteratura e de Historia</em></b>, +Revista nova, fundada por +José +Lucio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do +Cenaculo Patriotico, em casa das Severinas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[2]</span> A livraria, clara e +larga, escaiolada d'azul, com pesadas estantes de +pau preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas +de carneira, grossos folios de convento e de fôro, respirava +para o pomar por duas janellas, uma de peitoril e poiaes de pedra +almofadados de velludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente +perfumada pela madresilva que se enroscava nas grades. Deante d'essa +varanda, na claridade forte, pousava a mesa―mesa immensa de +pés +torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e +atravancada n'essa tarde pelos rijos volumes da <em>Historia +Genealogica</em>, todo +o <em>Vocabulario</em> de Bluteau, tomos soltos do <em>Panorama</em>, +e ao canto, em +pilha, as obras de Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos +amarellos. E d'ahi, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes +Ramires, pensativo +deante das tiras de papel almaço, roçando pela +testa a rama da +penna de pato, avistava sempre a inspiradora da sua Novella,―a Torre, +a antiquissima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que +em redor crescera, com uma pouca d'hera no cunhal rachado, as fundas +frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoira bem cortadas no +azul +de Junho, robusta sobrevivencia do Paço acastellado, da +fallada Honra de Santa +Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meiados do seculo X.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse <span class="pagenum">[3]</span> severo +genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuino e +antigo fidalgo de Portugal. Raras familias, mesmo coevas, poderiam +traçar a sua ascendencia, por linha varonil e sempre pura, +até aos vagos +Senhores que entre Douro e Minho mantinham castello e terra murada +quando os +barões francos desceram, com pendão e caldeira, +na hoste do +Borguinhão. E os Ramires entroncavam limpidamente a sua +casa, por linha pura e sempre varonil, no filho do Conde Nuno Mendes, +aquelle agigantado Ordonho Mendes, senhor de Treixedo e de Santa +Ireneia, que casou em 967 com Dona Elduara, Condessa de Carrion, filha +de Bermudo o <em>Gottoso</em>, +Rei de +Leão.<br /> + + +<br /> + + +Mais antigo na Hespanha que o Condado Portucalense, rijamente, como +elle, crescera e se afamára o Solar de Santa +Ireneia―resistente como elle ás fortunas e aos tempos. E +depois, em cada lance forte +da Historia de Portugal, sempre um Mendes Ramires avultou +grandiosamente pelo heroismo, pela lealdade, pelos nobres espiritos. Um +dos mais +esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha o <em>Cortador</em>, +collaço de Affonso Henriques (com quem na mesma noite, para +receber a pranchada de cavalleiro, vellára as armas na +Sé de Zamora), +apparece logo na batalha d'Ourique, onde tambem avista Jesus-Christo +sobre finas nuvens d'ouro, pregado n'uma cruz de dez covados. <span class="pagenum">[4]</span> No cerco +de Tavira, Martim Ramires, freire de San-Thiago, arromba a golpes de +acha um postigo da +Couraça, rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as +duas mãos, +e surde na quadrella da torre albarran, com os dous pulsos a esguichar +sangue, bradando alegremente ao Mestre:―«D. Payo Peres, +Tavira +é nossa! Real, Real por Portugal!» O velho Egas +Ramires, fechado na sua +Torre, com a levadiça erguida, as barbacans +erriçadas de +frecheiros, nega acolhida a El-Rei D. Fernando e Leonor Telles que +corriam o Norte em folgares e caçadas―para que a +presença da <em>adultera</em> +não macule a pureza extreme do seu solar! Em Aljubarrota, +Diogo Ramires o <em>Trovador</em> +desbarata um troço de bésteiros, mata o +Adiantado-mór de Galliza, e por elle, não por +outro, cahe derribado o pendão real de Castella, em que ao +fim da lide seu irmão d'armas, D. Antão d'Almada, +se +embrulhou para o levar, dançando e cantando, ao Mestre +d'Aviz. Sob os muros +d'Arzilla combatem magnificamente dois Ramires, o edoso Sueiro e seu +neto +Fernão, e deante do cadaver do velho, trespassado por quatro +virotes, estirado no pateo da Alcaçova ao lado do corpo do +Conde de Marialva―Affonso V +arma juntamente cavalleiros o Principe seu filho e Fernão +Ramires, murmurando entre lagrimas: «Deus vos queira +tão bons como +esses que ahi jazem!...» Mas eis que Portugal se faz aos +mares! E <span class="pagenum">[5]</span> raras +são +então as armadas e os combates de Oriente em que se +não esforce um +Ramires―ficando na lenda tragico-maritima aquelle nobre +capitão do Golpho Persico, +Balthazar Ramires, que, no naufragio da <em>Santa Barbara</em>, +reveste a sua pesada armadura, e no castello de prôa, hirto, +se afunda em silencio +com a náu que se afunda, encostado á sua grande +espada. Em +Alcacer-Kebir, onde dous Ramires sempre ao lado d'El-Rei encontram +morte soberba, o mais novo, Paulo Ramires, pagem do Guião, +nem lezo nem ferido, +mas não querendo mais vida pois que El-Rei não +vivia, colhe um +ginete solto, apanha uma acha d'armas, e gritando:―«Vai-te, +alma, que +já tardas, servir a de teu senhor!»―entra na +chusma mourisca e para +sempre desapparece. Sob os Philippes, os Ramires, amuados, bebem e +caçam nas suas terras. Reapparecendo com os +Braganças, um Ramires, +Vicente, Governador das Armas d'Entre-Douro e Minho por D. +João IV, +mette a Castella, destroça os Hespanhoes do Conde, de +Venavente, e +toma Fuente-Guiñal, a cujo furioso saque preside da varanda +d'um +Convento de Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de +melancia. +Já, porém, como a nação, +degenera a nobre +raça... Alvaro Ramires, valido de D. Pedro II, +brigão façanhudo, atordôa +Lisboa com arruaças, furta a mulher d'um Védor da +Fazenda que mandára matar a +pauladas <span class="pagenum">[6]</span> por +pretos, incendeia em Sevilha depois de perder cem dobrões +uma casa +de tavolagem, e termina por commandar uma urca de piratas na frota de +Murad o <em>Maltrapilho</em>. No reinado do Sr. D. +João +V Nuno Ramires +brilha na Côrte, ferra as suas mulas de prata, e arruina a +casa celebrando sumptuosas festes de Egreja, em que canta no +côro vestido com o habito +de Irmão Terceiro de S. Francisco. Outro Ramires, +Christovam, Presidente da Mesa de Consciencia e Ordem, alcovita os +amores d'el-rei D. José +I com a filha do prior de Sacavem. Pedro Ramires, Provedor e +Feitor-mór das Alfandegas, ganha fama em todo o Reino pela +sua obesidade, a sua chalaça, as suas proezas de +glutão no +Paço da Bemposta com o arcebispo de Thessalonica. Ignacio +Ramires acompanha D. João VI ao +Brazil como Reposteiro-Mór, negoceia em negros, volta com um +bahú carregado de peças d'ouro que lhe rouba um +administrador, antigo frade capuchinho, e morre no seu solar da cornada +de um boi. O avô de +Gonçalo, Damião, doutor liberal dado +ás Musas, desembarca com D. Pedro no Mindello, +compõe as empoladas proclamações do +Partido, funda um +jornal, o <em>Anti-Frade</em>, e depois das Guerras Civis +arrasta uma existencia rheumatica em Santa Ireneia, embrulhado no seu +capotão de briche, traduzindo +para vernaculo, com um lexicon e um pacote de simonte, as obras de +Valerius +<span class="pagenum">[7]</span> Flaccus. O pae de +Gonçalo, ora Regenerador, ora Historico, +vivia em +Lisboa no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco +Hypothecario e pelo lagedo da Arcada, até que um Ministro do +Reino, cuja +concubina, corista de S. Carlos, elle fascinára, o nomeou, +(para o +afastar da Capital) Governador Civil de Oliveira. Gonçalo, +esse, era +bacharel formado com um R no terceiro anno.<br /> + + +<br /> + + +E n'esse anno justamente se estreou nas Lettras Gonçalo +Mendes Ramires. Um seu companheiro de casa, José Lucio +Castanheiro, algarvio +muito magro, muito macilento, de enormes oculos azues, a quem +Simão Craveiro chamava o «Castanheiro +Patriotinheiro», +fundára um Semanario, a <b><em>Patria</em></b>―«com +o alevantado intento +(affirmava sonoramente o +Prospecto) de despertar, não só na mocidade +Academica, mas +em todo o paiz, do cabo Silleiro ao cabo de Santa Maria, o amor +tão arrefecido das +bellezas, das grandezas e das glorias de Portugal!» Devorado +por essa +idéa, «a sua Idéa», sentindo +n'ella uma carreira, quasi uma +missão, Castanheiro incessantemente, com ardor teimoso de +Apostolo, clamava pelos botequins da Sophia, pelos claustros da +Universidade, pelos quartos dos amigos entre a fumaça dos +cigarros,―«a necessidade, +caramba, de reatar a tradição! de desatulhar, +caramba, Portugal da +alluvião do estrangeirismo!»―Como o Semanario +appareceu <span class="pagenum">[8]</span> +regularmente +durante tres Domingos, e publicou realmente estudos recheiados de +griphos e +citações sobre as <em>Capellas da Batalha</em>, +a <em>Tomada +d'Ormuz</em>, a <em>Embaixada de Tristão da +Cunha</em>, começou logo a ser +considerado +uma aurora, ainda pallida mas segura, de Renascimento Nacional. E +alguns bons espiritos da Academia, sobretudo os companheiros de casa do +Castanheiro, os tres que se occupavam das cousas do saber e da +intelligencia (porque dos tres restantes um era homem de cacete e +forças, o outro +guitarrista, e o outro «premiado»), passaram, +aquecidos por aquella +chamma patriotica, a esquadrinhar na Bibliotheca, nos grossos tomos +nunca d'antes visitados de Fernam Lopes, de Ruy de Pina, d'Azurara, +proezas e +lendas―«só portuguezas, só nossas +(como supplicava o Castanheiro), que +refizessem á nação abatida uma +consciencia da sua +heroicidade!» Assim crescia o Cenaculo Patriotico da casa das +Severinas. E foi então que +Gonçalo Mendes Ramires, moço muito affavel, +esvelto e loiro, d'uma +brancura sã de porcelana, com uns finos e risonhos olhos que +facilmente se +enterneciam, sempre elegante e apurado na batina e no verniz dos +sapatos―apresentou ao Castanheiro, n'um domingo depois do +almoço, onze +tiras de papel intituladas <em>D. Guiomar</em>. N'ellas se +contava a velhissima +historia da castellã, que, emquanto longe nas guerras do +Ultra-mar o castellão barbudo <span class="pagenum">[9]</span> +e +cingido de ferro atira a acha-d'armas +ás portas de Jerusalem, recebe ella na sua camara, com os +braços +nús, por noite de Maio e de lua, o pagem de annellados +cabellos... Depois ruge o inverno, o castellão volta, mais +barbudo, com um bordão de +romeiro. Pelo villico do Castello, homem espreitador e de amargos +sorrisos, conhece a +traição, a macula no seu nome tão +puro, honrado em todas as +Hespanhas! E ai do pagem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados. +Já no +patim da Alcaçova o verdugo, de capuz escarlate, espera, +encostado ao +machado, entre dous cepos cobertos de pannos de dó... E no +final +choroso da <em>D. Guiomar</em>, como em todas essas +historias do Romanceiro d'Amor, +tambem brotavam rente ás duas sepulturas, escavadas no +êrmo, duas roseiras brancas a que o vento enlaçava +os aromas e as rosas. De +sorte que (como notou José Lucio Castanheiro, +coçando +pensativamente o queixo) não resaltava n'esta <em>D. +Guiomar</em> nada que fosse +«só +portuguez, só nosso, abrolhando do sólo e da +raça!» Mas +esses amores lamentosos passavam n'um solar de Riba-Côa: os +nomes dos cavalleiros, Remarigues, +Ordonho, Froylas, Gutierres, tinham um delicioso sabor godo: em cada +tira resoavam bravamente os genuinos: «<em>Bofé!... +Mentes +pela gorja!... Pagem, o meu murzello!</em>...»: e +através de toda +esta vernaculidade circulava uma sufficiente turba de +cavallariços com saios +alvadios, beguinos <span class="pagenum">[10]</span> +sumidos +na sombra das cugulas, ovençaes +sopezando +fartas bolsas de couro, uchões espostejando nedios lombos de +cêrdo... A Novella portanto marcava um salutar retrocesso ao +sentimento nacional.<br /> + + +<br /> + + +―E depois (accrescentava o Castanheiro) este velhaco do +Gonçalinho surde com um estylo terso, masculo, de boa +côr archaica... +D'optima côr archaica! Lembra até o <em>Bobo</em>, +o <em>Monge +de Cister</em>!... A +Guiomar, realmente, é uma castellã vaga, da +Bretanha ou da +Aquitania. Mas no villico, mesmo no castellão, já +transparecem +portuguezes, bons portuguezes de fibra e d'alma, d'entre Douro e +Cavado... Sim senhor! Quando o Gonçalinho se enfronhar +dentro do nosso passado, +das nossas chronicas, temos emfim nas Lettras um homem que sente bem o +torrão, sente bem a raça!<br /> + + +<br /> + + +<em>D. Guiomar</em> encheu tres paginas da <b><em>Patria</em></b>. +N'esse Domingo, para celebrar a sua entrada na Litteratura, +Gonçalo Mendes +Ramires pagou aos camaradas do Cenaculo e a outros amigos uma +ceia―onde foi acclamado, logo depois do frango com ervilhas, quando os +moços do +Camolino, esbaforidos, renovavam as garrafas de Collares, como +«o nosso +Walter Scott!» Elle, de resto, annunciára +já +com simplicidade um Romance em dois volumes, fundado nos annaes da sua +Casa, n'um rude feito de sublime orgulho de Tructesindo Mendes Ramires, +o amigo e <span class="pagenum">[11]</span> +Alferes-mór +de D. Sancho I. Por temperamento, por aquelle saber especial de trajes +e alfaias que revelára na <em>D. Guiomar</em>, +até pela +antiguidade da sua linhagem, Gonçalinho parecia +gloriosamente votado a +restaurar em Portugal o Romance Historico. Possuia uma +missão―e +começou logo a passear pela Calçada, pensativo, +com o gorro sobre os olhos, +como quem anda reconstruindo um mundo. No acto d'esse anno levou o R.<br /> + + +<br /> + + +Quando regressou das ferias para o Quarto-Anno já +não refervia na rua da Mathematica o Cenaculo ardente dos +Patriotas. O Castanheiro, formado, vegetava em Villa Real de Santo +Antonio: com elle desapparecera a <b><em>Patria</em></b>: +e os +moços zelosos que na +Bibliotheca +esquadrinhavam as Chronicas de Fernam Lopes e de Azurara, desamparados +por aquelle Apostolo que os levantava, recahiram nos romances de +Georges Ohnet e retomaram á noite o taco nos bilhares da +Sophia. +Gonçalo voltava tambem mudado, de luto pelo pae que morrera +em Agosto, com a barba crescida, sempre affavel e suave, +porém mais grave, averso a ceias e a +noites errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego, onde o servia, de +gravata branca, um velho creado de Santa Ireneia, o Bento:―e os seus +companheiros preferidos foram tres ou quatro rapazes que se preparavam +para a Politica, folheavam attentamente o <em>Diario das Camaras</em>, +conheciam <span class="pagenum">[12]</span> alguns +enredos da Côrte, proclamavam a necessidade +d'uma «Orientação positiva» e +d'um +«largo fomento rural», consideravam como leviandade +reles e jacobina a irreverencia da Academia pelos Dogmas, e, mesmo +passeando ao luar no Choupal ou no Penedo da Saudade, discorriam com +ardor sobre os dous Chefes de Partido―o Braz Victorino, o homem novo +dos Regeneradores, e o velho Barão de S. Fulgencio, +chefe classico dos Historicos. Inclinado para os Regeneradores, por que +a +Regeneração lhe representava tradicionalmente +idéas de conservantismo, +de elegancia culta e de generosidade, Gonçalo frequentou +então +o Centro Regenerador da Couraça, onde aconselhava +á noite, tomando +chá preto, «o fortalecimento da auctoridade da +Corôa», e +«uma forte expansão colonial!» Depois, +logo na Primavera, desmanchou alegremente +esta gravidade politica: e ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em +bacalhoadas festivas, entre o estridor das guitarras. Mas +não alludio mais ao seu grande Romance em dous volumes: e ou +recuára ou +se esquecera da sua missão d'Arte Historica. Realmente +só na +Paschoa do Quinto-Anno retomou a penna―para lançar, na <b><em>Gazeta +do Porto</em></b>, +contra +um seu patricio, o Dr. André Cavalleiro, que o Ministerio do +S. +Fulgencio nomeára Governador civil de Oliveira, duas +correspondencias +muito acerbas, d'um rancor intenso e pessoal, (a ponto de chasquear +«a feroz <span class="pagenum">[13]</span> +bigodeira +negra de S. Ex.<sup>a</sup>»). Assignara +Juvenal, como +outr'ora o pae, quando publicava communicados politicos d'Oliveira +n'essa mesma <b><em>Gazeta do Porto</em></b>, +jornal amigo, onde um +Villar Mendes, seu remoto +parente, redigia a <em>Revista Estrangeira</em>. Mas +lêra +aos amigos no +Centro―«os dous botes decisivos que atirariam o Sr. +Cavalleiro abaixo do seu +Cavallo!» E um d'esses moços serios, sobrinho do +Bispo de Oliveira, +não disfarçou o seu assombro:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo, eu sempre pensei que você e o +Cavalleiro eram intimos! Se bem me lembro quando você chegou +a Coimbra, para os +Preparatorios, viveu na casa do Cavalleiro, na rua de S. +João... Pois +não ha uma amizade tradicional, quasi historica, entre +Ramires e Cavalleiros?... Eu pouco conheço Oliveira, nunca +andei para os vossos sitios; mas +até creio que Corinde, a quinta do Cavalleiro, pega com +Santa Ireneia!<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para +declarar seccamente que Corinde não pegava com Santa +Ireneia: que +entre as duas terras corria muito justificadamente a ribeira do <em>Coice</em>: +e que o Sr. André Cavalleiro, e sobre tudo +Cavallo, era um animal +detestavel que pastava na outra margem!―O sobrinho do Bispo saudou e +exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―Sim senhor, boa piada!<br /> + + +<br /> + + +Um anno depois da Formatura, Gonçalo foi a <span class="pagenum">[14]</span> Lisboa por causa +da hypotheca da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo +fôro annual +de dez réis e meia gallinha, devido ao Abbade de Praga, +andava +empecendo terrivelmente nos Conselhos do Banco Hypothecario;―e tambem +para conhecer mais estreitamente o seu Chefe, o Braz Victorino, mostrar +lealdade e submissão partidaria, colher algum fino conselho +de conducta Politica. Ora uma noite, voltando de jantar em casa da +velha Marqueza de Louredo, a «tia Louredo», que +morava a Santa Clara, +esbarrou no Rocio com José Lucio Castanheiro; +então empregado no +Ministerio da Fazenda, na repartição dos Proprios +Nacionaes. Mais defecado, +mais macilento, com +uns oculos mais largos e mais tenebrosos, o Castanheiro ardia todo, +como em Coimbra, na chamma da sua Idéa―«a +resurreição do sentimento portuguez!» E +agora, alargando a +proporções condignas da Capital o plano +da <b><em>Patria</em></b>, labutava +devoradoramente na +creação +d'uma Revista quinzenal de setenta paginas, com capa azul, os <b><em>Annaes +de Litteratura e +de Historia</em></b>. Era uma noite de Maio, macia e +quente. E, passeando +ambos em torno das fontes seccas do Rocio, Castanheiro, que +sobraçava +um rolo de papel e um gordo folio encadernado em bezerro, depois de +recordar as cavaqueiras geniaes da rua da Misericordia, de maldizer a +falta de intellectualidade de Villa Real de Santo Antonio―voltou <span class="pagenum">[15]</span> soffregamente +á sua Idéa, e supplicou a Gonçalo +Mendes Ramires +que lhe cedesse para os <b><em>Annaes</em></b> +esse Romance que +elle annunciára +em Coimbra, sobre +o seu avoengo Tructesindo Ramires, Alferes-mór de Sancho I.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, rindo, confessou que ainda não +começára essa grande obra!<br /> + + +<br /> + + +―Ah! murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros oculos sobre +elle, duros e desconsolados. Então você +não persistio?... Não permaneceu fiel +á Idéa?...<br /> + + +<br /> + + +Encolheu os hombros, resignadamente, já acostumado, atravez +da sua missão, a estes desfallecimentos do Patriotismo. Nem +consentio que Gonçalo, humilhado perante aquella +Fé que se +mantivera tão pura e servidôra―alludisse, como +desculpa, ao inventario laborioso +da Casa, depois da morte do papá...<br /> + + +<br /> + + +―Bem, bem! Acabou! <em>Proscratinare luzitanum est</em>. +Trabalha agora no verão... Para Portuguezes, menino, o +verão +é o tempo das bellas fortunas e dos rijos feitos. No +verão nasce Nun'Alvares no Bomjardim! +No verão se vence em Aljubarrota! No verão chega +o Gama á +India!... E no verão vae o nosso Gonçalo escrever +uma novellasinha sublime!... De resto +os <b><em>Annaes</em></b> só +apparecem em Dezembro, caracteristicamente no Primeiro de +Dezembro. E você em tres mezes resuscita um mundo. Serio, +Gonçalo Mendes!... <span class="pagenum">[16]</span> +É +um dever, um santo dever, sobretudo para os novos, collaborar nos <b><em>Annaes</em></b>. +Portugal, menino, morre por falta de sentimento nacional! +Nós estamos immundamente morrendo do mal de não +ser Portuguezes!<br /> + + +<br /> + + +Parou―ondeou o braço magro, como a correia d'um latego, +n'um gesto que açoutava o Rocio, a Cidade, toda a +Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o +segredo d'esta borracheira sinistra? É que, dos Portuguezes, +os peores despresavam a Patria―e os melhores ignoravam a Patria. O +remedio?... Revelar Portugal, vulgarisar Portugal. Sim, amiguinho! +Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o +conheçam―ao menos como se conhece o Xarope Peitoral de +James, hein? E que todos o adoptem―ao menos como se adoptou o +sabão do Congo, hein? E +conhecido, adoptado, que todos o amem emfim, nos seus +heróes, nos seus +feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões, e +até nas veras pedrinhas das suas calçadas! Para +esse fim, o maior a +emprehender n'este apagado seculo da nossa Historia, fundava elle os <b><em>Annaes</em></b>. +Para berrar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os telhados, com +a noticia inesperada da sua grandeza! E aos descendentes dos que +outr'ora fizeram o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado +piedoso de o refazer... Como? Reatando a +tradição, caramba!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[17]</span>―Assim, +vocês! Por essa historia de Portugal +fóra, vocês são uma enfiada de Ramires +de toda a belleza. Mesmo o desembargador, o que comeu n'uma ceia de +Natal dois leitões!... É apenas uma +barriga. Mas que barriga! Ha n'ella uma pujança heroica que +prova +raça, a raça mais forte <em>do que +promette a força humana</em>, como +diz +Camões. Dois leitões, caramba! Até +enternece!... E os outros Ramires, o de Silves, +o de Aljubarrota, os de Arzilla, os da India! E os cinco valentes, de +quem você talvez nem saiba, que morreram no Salado! Pois bem, +resuscitar estes varões, e mostrar n'elles a alma +façanhuda, +o querer sublime que nada verga, é uma soberba +lição aos +novos... Tonifica, caramba! Pela consciencia que renova de termos sido +tão grandes sacode +este chocho consentimento nosso em permanecermos pequenos! É +o que eu +chamo reatar a tradição... E depois feito por +você +proprio, Ramires, que <em>chic</em>! Caramba, que <em>chic</em>! +É um fidalgo, o +maior fidalgo de +Portugal, que, para mostrar a heroicidade da Patria, abre simplesmente, +sem sahir do seu solar, os archivos da sua Casa, velha de mais de mil +annos. +É de rachar!... E você não precisa +fazer um grosso +romance... Nem um romance muito desenvolvido está na indole +militante da Revista. +Basta um conto, de vinte ou trinta paginas... Está claro, os +<b><em>Annaes</em></b> +por +ora não podem pagar. Tambem, você não +precisa! <span class="pagenum">[18]</span> E que +diabo! +não se trata de pecunia, mas d'uma grande +renovação social... E depois, +menino, a litteratura leva a tudo em Portugal. Eu sei que o +Gonçalo em Coimbra, +ultimamente, frequentava o Centro Regenerador. Pois, amigo, de folhetim +em folhetim, se chega a S. Bento! A penna agora, como a espada +outr'ora, edifica reinos... Pense você n'isto! E adeus! que +ainda hoje tenho de +copiar, para lettra christã, este estudo do Henriques sobre +Ceylão... Você não conhece o +Henriques?... Não conhece. Ninguem conhece. Pois +quando na Europa, n'essas grandes Academias da Europa, ha uma duvida +sobre a Historia ou a Litteratura cingaleza, gritam para cá, +para o +Henriques!<br /> + + +<br /> + + +Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo―e Gonçalo ainda +o avistou, na porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o +braço +esguio d'Apostolo deante d'um sujeito obeso, de vasto collete branco, +que recuava, com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso +charuto e da doce noite de Maio.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado, +ruminando a +idéa do Patriota. Tudo n'ella o seduzia―e lhe convinha: a +sua collaboração n'uma Revista consideravel, de +setenta paginas, +em companhia de Escriptores doutos, lentes das Escolas, antigos +Ministros, até Conselheiros d'Estado: <span class="pagenum">[19]</span> a antiguidade da sua +raça, mais antiga que o Reino, popularisada por uma historia +d'heroica belleza, em que com tanto fulgor resaltavam a bravura e a +soberba d'alma dos Ramires; e emfim a seriedade academica do seu +espirito, o seu nobre gosto pelas investigações +eruditas, apparecendo no momento em +que tentava a carreira do Parlamento e da Politica!... E o trabalho, a +composição moral dos vetustos Ramires, a +resurreição archeologica do +viver Affonsino, as cem tiras de almaço a atulhar de prosa +forte―não o +assustavam... Não! porque felizmente já possuia a +«sua +obra»―e cortada em bom panno, alinhavada com linha habil. +Seu tio Duarte, irmão de sua +mãe (uma senhora de Guimarães, da casa das +Balsas), nos seus annos de +ociosidade e imaginação, de 1845 a 1850, entre a +sua carta +de Bacharel e o seu Alvará de Delegado, fôra +poeta―e +publicára no <b><em>Bardo</em></b>, +semanario de Guimarães, um Poemeto em verso solto, o <em>Castello +de Santa +Ireneia</em>, que assignára com duas iniciaes D.B. +esse castello era o seu, o +Paço antiquissimo de que restava a negra torre entre os +limoeiros da horta. E o Poemeto cantava, com romantico garbo, um lance +de altivez feudal em que se sublimára Tructesindo Ramires, +Alferes-mór +de Sancho I, durante as contendas de Affonso II e das senhoras +Infantas. Esse volume do <b><em>Bardo</em></b>, +encadernado em marroquim, com o +brazão dos Ramires, +o açor negro <span class="pagenum">[20]</span> +em +campo escarlate, ficára no Archivo da Casa como um +trecho da Chronica heroica dos Ramires. E muitas vezes em pequeno +Goncalo recitára, ensinados pela mamã, os +primeiros +versos do Poema, de tão harmoniosa melancolia:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Na pallidez da tarde, entre a folhagem<br /> + + +Que o outomno amarellece...<br /> +<br /> + + +</div> + + +Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gonçalo +Mendes Ramires decidira em Coimbra, quando os camaradas da <b><em>Patria</em></b> +e das ceias o acclamavam «o nosso Walter Scott», +compôr um Romance moderno, d'um realismo épico, em +dous robustos volumes, formando um estudo +ricamente colorido da Meia-Edade Portugueza... E agora lhe servia, e +com deliciosa facilidade, para essa Novella curta e sobria, de trinta +paginas, que +convinha aos <b><em>Annaes</em></b>.<br /> + + +<br /> + + +No seu quarto do Bragança abrio a varanda. E +debruçado, acabando o charuto, na dormente suavidade da +noite de Maio, ante a magestade silenciosa do rio e da lua, pensava +regaladamente que nem teria a canceira d'esmiuçar as +chronicas e os folios massudos... Com +effeito! toda a reconstruccão Historica a +realisára, e +solidamente, com um saber destro, o tio Duarte. O Paço +acastellado de Santa Ireneia, +com as fundas carcovas, a torre albarran, <span class="pagenum">[21]</span> +a alcaçova, a masmorra, o pharol +e o balsão: o velho Tructesindo, enorme, e os seus flocos de +cabellos e barbas ancestraes derramados sobre a loriga de malha; os +servos mouriscos, de surrões de couro, cavando os regueiros +da horta; os oblatos +resmungando á lareira as <em>Vidas dos Santos</em>; +os +pagens jogando no campo +do tavolado―tudo resurgia, com veridico realce, no Poemeto do tio +Duarte! Ainda recordava mesmo certos lances: o truão +açoutado; o festim e os uchões que arrombavam as +cubas de cerveja; a jornada de +Violante Ramires para o Mosteiro de Lorvão...<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Junto à fonte mourisca, +entre +os ulmeiros,<br /> + + +A cavalgada pára...<br /> +<br /> + + +</div> + + +O enrêdo todo com a sua paixão de grandeza +barbara, os recontros bravios +em que se saciam a punhal os rancores de raça, o heroico +fallar despedido de labios de ferro―lá estavam nos versos +do titi, +sonoros e bem balançados...<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Monge, escuta! O solar de D. Ramires<br /> + + +Por si, e pedra a pedra se aluira,<br /> + + +Se jámais um bastardo lhe +pisasse,<br /> + + +Com sapato aviltado, as lages puras!<br /> +<br /> + + +</div> + + +<span class="pagenum">[22]</span> Na realidade +só lhe restava transpôr as formas +fluidas do Romantismo de1846 para a sua prosa tersa e mascula (como +confessava o Castanheiro), +de optima côr archaica, lembrando o <em>Bobo</em>. +E era um plagio? +Não! A quem, com mais seguro direito do que a elle, Ramires, +pertencia a memoria dos Ramires historicos? A +resurreição do +velho Portugal, tão bella no <em>Castello de Santa +Ireneia</em>, +não era obra +individual do tio Duarte―mas dos Herculanos, dos Rebellos, das +Academias, da +erudição esparsa. E, de resto, quem conhecia hoje +esse Poemeto, e mesmo o <b><em>Bardo</em></b>, +delgado semanario que perpassára, +durante cinco +mezes, ha cincoenta annos, n'uma villa de Provincia?...! Não +hesitou +mais, seduzido. E em quanto se despia, depois de beber aos goles um +copo d'agua com bicarbonato de soda, já martellava a +primeira +linha do conto, á maneira lapidaria da <em>Salammbô</em>:―«Era +nos Paços de Santa Ireneia, por uma noite d'inverno, na sala +alta da Alcaçova...»<br /> + + +<br /> + + +Ao outro dia, procurou José Lucio Castanheiro na +repartição dos Proprios Nacionaes, á +pressa,―por que, depois d'uma conferencia no +Banco Hypothecario, ainda promettera acompanhar as primas Chellas a uma +Exposição de Bordados na livraria Gomes. E +annunciou ao Patriota que, positivamente, lhe assegurava para o +primeiro numero dos <b><em>Annaes</em></b> +a Novella, <span class="pagenum">[23]</span> a que +já decidira o titulo―a <em>Torre de +D. Ramires</em>:<br /> + + +<br /> + + +―Que lhe parece?<br /> + + +<br /> + + +Deslumbrado, José Castanheiro atirou os magrissimos +braços, resguardados pelas mangas d'alpaca, até +á abobada do esguio +corredor em que o recebera:<br /> + + +<br /> + + +―Sublime!... <em>A Torre de D. Ramires</em>!... O grande +feito de Tructesindo Mendes Ramires contado por Gonçalo +Mendes Ramires!... E tudo +na mesma +Torre! Na Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos annos +depois, na mesma Torre, o nosso Gonçalo conta o feito! +Caramba, menino, carambissima! isso é que é +reatar a +tradição!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Duas semanas depois, de volta a Santa Ireneia, Gonçalo +mandou um creado +da quinta, com uma carroça, a Oliveira, a casa de seu +cunhado José Barrôlo, casado com Gracinha Ramires, +para lhe trazer da rica +livraria classica que o Barrôlo herdára do tio +Deão da Sé todos os volumes da <em>Historia +Genealogica</em>―«e (accrescentava +n'uma carta) todos +os cartapacios que por lá encontrares com o titulo de +«Chronicas do Rei Fulano...» Depois, do +pó das suas estantes, +desenterrou as obras de Walter Scott, volumes desirmanados do <em>Panorama</em>, +a +<em>Historia</em> de Herculano, o <em>Bobo</em>, +o <em>Monge de +Cistér</em>. E assim +<span class="pagenum">[24]</span> abastecido, com +uma farta rêsma de tiras d'almaço sobre a banca, +começou a repassar o Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda +a transpôr para a +aspereza d'uma manhã de Dezembro, como mais congenere com a +rudeza feudal +dos seus avós, aquella lusida cavalgada de donas, monges e +homens +d'armas que o tio Duarte estendera, atravez d'uma suave melancolia +outomnal, pelas veigas do Mondêgo...<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Na pallidez da tarde, entre a folhagem<br /> + + +Que o outomno amarellece...<br /> +<br /> + + +</div> + + +Mas, como era então Junho e a lua crescia, +Gonçalo determinou por fim aproveitar as +sensações de calor, luar e +arvoredos, que lhe fornecia a aldeia―para levantar, logo á +entrada da sua Novella, o +negro e immenso Paço de Santa Ireneia, no silencio d'uma +noite d'Agosto, sob +o resplendor da lua cheia.<br /> + + +<br /> + + +E já enchera desembaraçadamente, ajudado pelo +<b><em>Bardo</em></b>, duas tiras, quando uma +desavença com o seu caseiro, o Manoel Relho, que +amanhava a quinta por oitocentos mil reis de renda, veio perturbar, na +fresca e noviça inspiração do seu +trabalho, o +Fidalgo da Torre. Desde o Natal o Relho, que durante annos de +compostura e ordem se emborrachava sempre aos domingos com alegria e +com pachorra, começára +a tomar, tres e quatro vezes por semana, bebedeiras <span class="pagenum">[25]</span> +desabridas, escandalosas, em que espancava a mulher, atroava a quinta +de berros, e saltava para a estrada, esguedelhado, de +varapáu, desafiando a quieta aldeia. Por +fim, uma noite em que Gonçalo, á banca, depois do +chá, laboriosamente escavava os fossos do Paço de +Santa Ireneia―de repente a Rosa +cozinheira rompeu a gritar «Aqui d'El-rei contra o +Relho!» E, atravez +dos seus brados e dos latidos dos cães, uma pedra, depois +outra, bateram na +varanda veneravel da livraria! Enfiado, Gonçalo Mendes +Ramires pensou no +revólver... Mas justamente n'essa tarde o creado, o Bento, +descêra aquella +sua velha e unica arma á cozinha para a desenferrujar e +arear! +Então, atarantado, correu ao quarto, que fechou á +chave, empurrando contra a +porta a commoda com tão desesperada anciedade que frascos de +crystal, um cofre de tartaruga, até um crucifixo, tombaram e +se partiram. +Depois gritos e latidos findaram no pateo―mas Gonçalo +não se +arredou n'essa noite d'aquelle refugio bem defendido, fumando cigarros, +ruminando um furor sentimental contra o Relho, a quem tanto +perdoára, sempre +tão affavelmente tratára, e que apedrejava as +vidraças da Torre! Cêdo, de manhã +convocou o Regedor; a Rosa, ainda tremula, mostrou no +braço as marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo +arrendamento findava em Outubro, foi despedido da quinta com a mulher, +<span class="pagenum">[26]</span> a arca e o catre. +Immediatamente appareceu um lavrador dos Bravaes, o José +Casco, respeitado em toda a freguezia pela sua seriedade e +força +espantosa, propondo ao fidalgo arrendar a Torre. Gonçalo +Mendes Ramires +porém, já desde a morte do pae, decidira elevar a +renda a novecentos e cincoenta mil réis:―e o Casco desceu +as escadas, de cabeça +descahida. Voltou logo ao outro dia, repercorreu miudamente toda a +quinta, esfarellou a terra entre os dedos, esquadrinhou o curral e a +adega, contou as oliveiras e as cêpas: e n'um +esforço, em que lhe arfaram todas +as costellas, offereceu novecentos e dez mil réis! +Gonçalo +não cedia, certo da sua equidade. O José Casco +voltou ainda com a mulher; depois, +n'um domingo, com a mulher e um compadre,―e era um coçar +lento do queixo +rapado, umas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas +demoras sumidas dentro da tulha, que tornavam aquella manhã +de Junho +intoleravelmente longa ao Fidalgo, sentado n'um banco de pedra do +jardim, debaixo d'uma mimosa, com a <b><em>Gazeta do Porto</em></b>. +Quando o Casco, +pallido, lhe veio offerecer novecentos e trinta mil +réis―Gonçalo +Mendes Ramires arremessou o jornal, declarou que ia elle, por sua +conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era um torrão +rico, tratado pelo +saber moderno, com phosphatos, com machinas! O homem de Bravaes, <span class="pagenum">[27]</span> então, +arrancou um fundo suspiro, acceitou os novecentos e cincoenta mil reis. +Á maneira antiga o Fidalgo apertou a mão ao +lavrador―que entrou na cozinha a enxugar um largo copo de vinho, +esponjando na testa, nas cordoveias rijas do pescoço, o suor +anciado que o alagava.<br /> + + +<br /> + + +Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de +Gonçalo estancou―não foi mais que um fio +arrastado e turvo. Quando +n'essa tarde se accomodou á banca, para contar a sala +d'armas do +Paço de Santa Ireneia por uma noite de lua―só +conseguiu converter +servilmente n'uma prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem +relêvo que os modernisasse, désse magestade +senhorial ou bellesa saudosa +áquelles macissos muros onde o luar, deslisando atravez das +rexas, salpicava scentelhas pelas pontas das lanças altas, e +pela cimeira dos +morriões... E desde as quatro horas, no calor e silencio do +domingo de Junho, labutava, empurrando a penna como lento arado em +chão +pedregoso, riscando logo rancorosamente a linha que sentia deselegante +e molle, ora n'um reboliço, a sacudir e reenfiar sob a mesa +os chinellos +de marroquim, ora immovel e abandonado á esterilidade que o +travava, com os olhos esquecidos na Torre, na sua difficillima Torre, +negra entre os limoeiros e o azul, toda envolta no piar e +esvoaçar das +andorinhas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[28]</span> Por fim, +descorçoado, arrojou a penna que tão +desastrosamente emperrára. E fechando na gavêta, +com uma pancada, o volume precioso do +<b><em>Bardo</em></b>:<br /> + + +<br /> + + +―Irra! Estou perfeitamente entupido! É este calor! E depois +aquelle animal do Casco, toda a manhã!...<br /> + + +<br /> + + +Ainda releu, coçando sombriamente a nuca, a derradeira linha +rabiscada e suja:<br /> + + +<br /> + + +―«...Na sala altaneira e larga, onde os largos e pallidos +raios da lua...» Larga, largos!... E os pallidos raios, os +eternos +<em>pallidos raios</em>!... Tambem este maldito castello, +tão +complicado!... +E este D. Tructesindo, que eu não apanho, tão +antigo!... +Emfim, um horror!<br /> + + +<br /> + + +Atirou, n'um repellão, a cadeira de couro; cravou, com +furor, um charuto nos dentes;―e abalou da livraria, batendo +desesperadamente a porta, n'um tedio immenso da sua obra, d'aquelles +confusos e enredados +Paços de Santa Ireneia, e dos seus avós, enormes, +resoantes, +chapeados de ferro, e mais vagos que fumos.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +II</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Bocejando, apertando os cordões das largas pantalonas de +seda que lhe escorregavam da cinta, Gonçalo, que durante +todo o dia +preguiçára, estirado no divan de damasco azul, +com uma vaga dôr nos rins, +atravessou languidamente o quarto para espreitar, no corredor, o antigo +relogio de charão. Cinco horas e meia!... Para desannuviar, +pensou +n'uma caminhada pela fresca estrada dos Bravaes. Depois n'uma visita +(devida +já desde a Paschoa!) ao velho Sanches Lucena, eleito +novamente deputado, nas Eleições Geraes de Abril, +pelo circulo de Villa +Clara. Mas a jornada á <em>Feitosa</em>, +á quinta do Sanches Lucena, +demandava uma hora a +cavallo, desagradavel com aquella teimosa dôr nos rins que o +filára na vespera á noite, depois do +chá, na Assembleia da Villa. E, indeciso, +arrastava os passos no corredor, <span class="pagenum">[30]</span> +para +gritar ao Bento ou á Rosa que lhe +subissem uma limonada, quando, atravez das varandas abertas, resoou um +vozeirão de grosso metal, que gracejando mais se engrossava, +rolava pelo pateo, n'uma cadencia cava de malho malhando:<br /> + + +<br /> + + +―Oh sô Gonçalo! Oh sô +Gonçalão! Oh sô Gonçalissimo +Mendes Ramires!...<br /> + + +<br /> + + +Reconheceu logo o <em>Titó</em>, o Antonio +Villalobos, seu vago +parente, e seu companheiro de Villa Clara, onde aquelle +homenzarrão +excellente, de velha raça Alemtejana, se estabelecera sem +motivo, +só por affeição bucolica á +villa. E havia onze annos que a atulhava com os +seus possantes membros, o lento rebombo do seu vozeirão, e a +sua +ociosidade espalhada pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras das +lojas, pelos balcões das tabernas, pelas sachristias a +caturrar com os +padres, até pelo cemiterio a philosophar com o coveiro. Era +um irmão do +velho morgado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe +estabelecêra +uma mesada de oito moedas para o conservar longe de Cidadelhe―e do seu +sujo serralho de moças do campo, e da obra tenebrosa a que +agora +se atrellára, a <em>Veridica +Inquirição</em>, +uma Inquirição sobre as bastardias, crimes e +titulos illegitimos das familias fidalgas de Portugal. E +Gonçalo, desde estudante, amára sempre aquelle +Hercules bonacheirão, que o seduzia pela prodigiosa +força, a incomparavel <span class="pagenum">[31]</span> +potencia +em beber todo um pipo e em comer todo um anho, e sobretudo pela +independencia, uma suprema independencia, que, apoiada ao +bengalão terrifico e +com as suas oito moedas dentro da algibeira, nada temia e nada desejava +nem da Terra nem do Céo.―Logo debruçado na +varanda, gritou:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Titó, sóbe!... Sóbe emquanto eu +me visto. Tomas um calice de genebra... Vamos depois passear +até aos Bravaes...<br /> + + +<br /> + + +Sentado no rebordo do tanque redondo e sem agua que ornava o pateo, +erguendo para o casarão a sua franca e larga face +requeimada, cheia de barba ruiva, o Titó movia lentamente +como um leque um velho +chapéo de palha:<br /> + + +<br /> + + +―Não posso... Ouve lá! Tu queres hoje +á noite cear no Gago, commigo e com o João +Gouveia? Vae tambem o Videirinha e o +violão. Temos uma tainha assada, uma famosa. E enorme, que +eu comprei esta manhã a +uma mulher da Costa por cinco tostões. Assada pelo Gago!... +Entendido, +hein? O Gago abre pipa nova de vinho, do Abbade de Chandim. Eu +conheço o +vinho. É d'aqui, da ponta fina.<br /> + + +<br /> + + +E Titó, com dous dedos, delicadamente, sacudio a ponta molle +da orelha. Mas Gonçalo, repuxando as pantalonas, hesitava:<br /> + + +<br /> + + +―Homem, eu ando com o estomago arrazado... E desde hontem á +noite uma +dôr nos rins, ou no <span class="pagenum">[32]</span> +figado, +ou no baço, não sei bem, n'uma d'essas +entranhas!... Até hoje, para o jantar, só caldo +de gallinha e gallinha cosida... Emfim! vá! Mas, +á cautela, recommenda +ao Gago que me prepare para mim um franguinho assado... Onde nos +encontramos? Na +Assembléa? O Titó despegára logo do +tanque, pousando na nuca +o chapéo de palha:<br /> + + +<br /> + + +―Hoje não me gasto pela Assembléa. Tenho +senhora. Das dez para as dez e meia, no Chafariz... Vae tambem o +Videirinha com a viola. Viva!... Das dez para as dez e meia! +Entendido... E franguinho assado para S. Ex.<sup>a</sup>, +que se queixa do rim!<br /> + + +<br /> + + +E atravessou o pateo, com lentidão bovina, parando a colher +n'uma roseira, junto ao portão, uma rosa com que florio a +quinzena +de velludilho côr d'azeitona.<br /> + + +<br /> + + +Immediatamente Gonçalo decidira não jantar, certo +dos beneficios d'aquelle jejum até ás dez horas, +depois de um +passeio pelos Bravaes e pelo valle da Riosa. E, antes de entrar no +quarto para se vestir, empurrou a porta envidraçada sobre a +escura escada da +cozinha, gritou pela Rosa cozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento +por quem tambem berrou furiosamente, responderam, no pesado silencio em +que jaziam, como abandonados, esses sombrios fundos de grande lage e de +grande abobada <span class="pagenum">[33]</span> +que +restavam do antigo Palacio, restaurado por Vicente Ramires depois da +sua campanha em Castella, incendiado no tempo de El-Rei D. +José I. Então Gonçalo desceu dous +degráos da gasta escadaria de +pedra e atirou outro dos longos brados com que atroava a Torre―desde +que as campainhas andavam desmanchadas. E descia ainda para invadir a +cozinha quando a Rosa acudio. Sahira para o pateo da horta com a filha +da Crispola! +não sentira o Snr. Doutor!...<br /> + + +<br /> + + +―Pois estou a berrar ha uma hora! E nem você nem Bento!... +É por que não janto. Vou cear a Villa Clara com +os amigos.<br /> + + +<br /> + + +A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr. +Doutor ficava assim em jejum até horas da noite?―Filha d'um +antigo hortelão da Torre, crescida na Torre, já +cozinheira da Torre quando Gonçalo nascêra, sempre +o tratára por +«menino», e mesmo por «seu +riquinho» até que elle partio para Coimbra e +começou a ser, para ella e para o Bento, o «Sr. +Doutor».―E o Sr. Doutor, ao +menos, devia tomar o caldinho de gallinha, que apurára desde +o meio dia, cheirava +que nem feito no céo!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento, +consentio―e já subia, quando reclamou ainda a Rosa para se +informar da Crispola, uma desgraçada <span class="pagenum">[34]</span> viuva +que, com um rancho +faminto de +crianças, adoecera pela Paschoa de febres perniciosas.<br /> + + +<br /> + + +―A Crispola vae melhor, Sr. Doutor. Já se levanta. Diz a +pequena que já se levanta... Mas muito derreadinha...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo desceu logo outro degráo, +debruçado na escada, para mergulhar mais confidencialmente +n'aquellas tristezas:<br /> + + +<br /> + + +―Olhe, oh Rosa, então se a pequena ahi está, +coitada, que leve para casa á mãe a gallinha que +eu tinha para jantar. E +o caldo... Que leve a panella! Eu tomo uma chavena de chá +com biscoitos. E olhe! +Mande tambem dez tostões á Crispola... Mande dois +mil +réis. Escute! Mas não lhe mande a gallinha e o +dinheiro assim seccamente... Diga que estimo as melhoras, e que +lá passarei por casa para saber. E esse animal do +Bento que me suba agua quente!<br /> + + +<br /> + + +No quarto, em mangas de camisa, deante do espelho, um immenso espelho +rolando entre columnas douradas, estudou a lingua que lhe parecia +saburrosa, depois o branco dos olhos, receiando a +amarellidão de bilis solta. E terminou por se contemplar na +sua feição +nova, agora que rapára a barba em Lisboa, conservando o +bigodinho castanho, frisado e leve, e uma môsca um pouco +longa, que lhe alongava mais a face +aquilina e fina, sempre d'uma brancura de nata. O seu desconsolo era o +cabello, <span class="pagenum">[35]</span> bem +ondeado, mas tenue e fraco, e, apezar de todas as aguas e pomadas, +necessitando já risca mais elevada, quasi ao meio da testa +clara.<br /> + + +<br /> + + +―É infernal! Aos trinta annos estou calvo...<br /> + + +<br /> + + +E todavia não se despegava do espelho, n'uma +contemplação agradada, recordando mesmo a +recommendação da tia Louredo, +em Lisboa:―«Oh sobrinho! o menino, assim galante e esperto, +não se enterre +na provincia! Lisboa está sem rapazes. Precisamos +cá +um bom Ramires!»―Não! não se +enterraria na provincia, immovel sob a hera e a poeira melancolica das +cousas immoveis, como a sua Torre!... Mas vida elegante em Lisboa, +entre a sua parentella historica, como a aguentaria com o conto e +oitocentos mil reis de renda que lhe restava, pagas as dividas do +papá? E depois realmente vida em Lisboa só a +desejava com uma posição politica,―cadeira em S. +Bento, influencia intellectual no seu Partido, lentas e seguras +avançadas para o Poder. E essa, +tão docemente sonhada em Coimbra, nas faceis cavaqueiras do +Hotel Mondego,―muito remota a entrevia! Quasi inconquistavel, para +além de um muro alto e +aspero, sem porta e sem fenda!... Deputado―como? Agora, com o horrendo +S. Fulgencio e os Historicos no Ministerio durante tres gordos annos, +não +voltariam Eleições Geraes. E mesmo n'alguma +Eleição Supplementar que possibilidade lograria <span class="pagenum">[36]</span>elle, +que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma elegancia de +tradições, se manifestára +sempre Regenerador, no «Centro» da +Couraça, nas correspondencias para a <b><em>Gazeta +do +Porto</em></b>, +nas verrinas ardentes contra o chefe do Districto, o Cavalleiro +detestavel?... Agora só lhe restava esperar. Esperar, +trabalhando; ganhando em +consistencia social; edificando com sagacidade, sobre a base do seu +immenso nome historico, uma pequenina nomeada politica; tecendo e +estendendo a malha preciosa das amizades partidarias desde Santa +Ireneia até ao +Terreiro do Paço... Sim! eis a theoria explendida:―mas +consistencia, +nomeada, affeições politicas, como se conquistam? +«Advogue, escreva nos jornaes!» fôra o +conselho distrahido e risonho do seu chefe, o Braz +Victorino. Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? Não podia, +com aquelle +seu horror ingenito, quasi physiologico, a autos e papelada forense. +Fundar um jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu companheiro de +Coimbra no Hotel Mondego? Era façanha facil para o neto +adorado da +Snr.<sup>a</sup> D. Joaquina Rangel que armazenava dez mil +pipas de vinho nos +barracões de Gaia. Batalhar n'um jornal de Lisboa? N'essas +semanas de Capital, sempre pelo Banco Hypothecario, sempre com as +«primas», +nem formára relações duraveis e uteis +nos dous grandes Diarios Regeneradores, a +<em>Manhã</em> e a<em> Verdade</em>... +De sorte que, realmente, <span class="pagenum">[37]</span> +n'esse +muro +que o separava da fortuna só descobria um buraquinho, bem +apertado mas +serviçal―os <b><em>Annaes de Litteratura e +d'Historia</em></b>, +com a sua +collaboração de Professores, de Politicos, +até d'um Ministro, até +de um Almirante, o Guerreiro Araujo, esse tocante massador. Appareceria +pois nos <b><em>Annaes</em></b> com a sua <em>Torre</em>, +revelando +imaginação e um +saber rico. Depois, trepando da Invenção para o +terreno mais +respeitavel da Erudição, daria um estudo (que +até lhe lembrára no comboio, ao +voltar de Lisboa!) sobre as «Origens Visigothicas do Direito +Publico em +Portugal...» Oh, nada conhecia, é certo, d'essas +Origens, d'esses Visigodos. Mas, +com a bella historia da <em>Administração +Publica em +Portugal</em> +que lhe emprestára o Castanheiro, comporia corrediamente um +resumo elegante... Depois, saltando da Erudição +ás Sciencias +Sociaes e Pedagogicas―por que não amassaria uma boa +«Reforma do Ensino Juridico em +Portugal» em dous artigos massudos, de Homem d'Estado?... +Assim avançava, bem +chegado aos Regeneradores, construindo e cinzelando o seu pedestal +litterario, +até que os Regeneradores voltassem ao Ministerio, e no muro +se escancarasse a desejada porta triumphal.―E no meio do quarto, em +ceroulas, com as mãos nas ilhargas, Gonçalo +Mendes Ramires +concluio pela necessidade de apressar a sua Novella.<br /> + + +<br /> + + +―Mas, quando acabarei eu essa <em>Torre</em>? assim +emperrado, sem veia, com o figado combalido?...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[38]</span> O Bento, velho de +face rapada e morena, com um lindo cabello branco todo encarapinhado, +muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga, entrára +vagarosamente, segurando a infusa d'agua quente.<br /> + + +<br /> + + +―Oh Bento, ouve lá! Tu não encontraste na mala +que eu trouxe de Lisboa, ou no caixote, um frasco de vidro com um +pó branco? +É um remedio inglez que me deu o Sr. Dr. Mattos... Tem um +rotulo em inglez, com um nome inglez, não sei quê, +<em>fruit salt</em>... +Quer dizer +sal de fructas...<br /> + + +<br /> + + +O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim, +no quarto de lavar, em cima do bahú vermelho, +ficára +um frasco com pó, embrulhado num pergaminho antigo como os +do Archivo.<br /> + + +<br /> + + +―É esse! declarou Gonçalo. Eu precisava em +Lisboa uns documentos por causa d'aquelle malvado fôro de +Praga. E por engano, na +balburdia, levo do Archivo um pergaminho perfeitamente inutil! Vae +buscar o rolo... Mas tem cuidado com o frasco!<br /> + + +<br /> + + +O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botões +d'agatha nos punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama, +para elle vestir, a quinzena, as calças bem vincadas, de +cheviote +leve. E Gonçalo, retomado pela idéa de artigos +para os <b><em>Annaes</em></b>, +folheava, +rente á janella, a <em>Historia da +Administração +Publica em +Portugal</em>, quando Bento <span class="pagenum">[39]</span> +voltou com um rolo +de pergaminho, d'onde pendia, por fitas roidas, um sello de chumbo.<br /> + + +<br /> + + +―Esse mesmo! exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da +janella. É esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se +não quebrar. Desembrulha, deixa em cima da commoda... O Sr. +Dr. Mattos aconselhou que o tomasse com agua tepida, em jejum. Parece +que ferve. E limpa o sangue, desannuvia a cabeça... Pois eu +muito necessitado ando de +desannuviar a cabeça!... Toma tu tambem, Bento. E dize +á Rosa +que tome. Todos tomam agora, até o Papa!<br /> + + +<br /> + + +Com cuidado, o Bento desenrolára o frasco, estendendo sobre +o marmore da commoda o pergaminho duro, onde a lettra do seculo XVI se +encarquilhava amarella e morta. E Gonçalo, abotoando o +colarinho:<br /> + + +<br /> + + +―Ora ahi está o que eu levo preciosamente para deslindar o +fôro de Praga! Um pergaminho do tempo de D. +Sebastião... E +só percebo mesmo a data, mil quatrocentos... Não, +mil quinhentos e setenta e +sete. Nas vesperas da jornada d'Africa... Emfim! serviu para embrulhar +o frasco.<br /> + + +<br /> + + +O Bento, que escolhera no gavetão um collete branco, +relanceou de lado o pergaminho veneravel:<br /> + + +<br /> + + +―Naturalmente foi carta que El-rei D. Sebastião escreveu a +algum avosinho do Sr. Doutor...<br /> + + +<br /> + + +―Naturalmente, murmurava o Fidalgo, deante <span class="pagenum">[40]</span>do +espelho. E para lhe dar alguma cousa boa, alguma cousa gorda... +Antigamente ter rei era ter renda. Agora... Não apertes +tanto essa fivella, homem! Trago +ha dias o estomago inchado... Agora, com effeito, esta +instituição de Rei anda muito safada, Bento!<br /> + + +<br /> + + +―Parece que anda, observou gravemente o Bento. Tambem, o <em>Seculo</em> +affiança que os Reis estão a acabar, e por dias. +Ainda hontem affiançava. E o <em>Seculo</em> +é +jornal bem +informado... No de hoje, não sei se o Sr. Doutor leu, +lá vem a grande festa dos annos do Sr. +Sanches Lucena, e o fogo de vistas, e o brodio que deram na <em>Feitosa</em>...<br /> + + +<br /> + + +Enterrado no divan de damasco, Gonçalo estendera os +pés ao Bento que lhe +laçava as botas brancas:<br /> + + +<br /> + + +―Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo +fará a esse homem, aos sessenta annos, ser deputado, passar +mezes em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquella +linda quinta... E para +quê? Para rosnar de vez em quando +«apoiado!» Antes elle +me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não +possuo grandes terras, e +gosto do Hotel Bragança. E por Sanches Lucena... O Joaquim +amanhã que me tenha a egoa prompta, a esta hora, para eu ir +á <em>Feitosa</em> +visitar esse +animal... E ponho então o fato novo de montar que trouxe de +Lisboa, com +as polainas altas... Ha mais de <span class="pagenum">[41]</span> +dois annos que não vejo a D. Anna +Lucena. É uma linda mulher!<br /> + + +<br /> + + +―Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa elles passaram ahi, na +caleche. Até pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a +Torre, a mostrar á senhora... Mulher muito perfeita! E traz +uma +grande luneta, com um grande cabo, e um grande grilhão, tudo +d'oiro...<br /> + + +<br /> + + +―Bravo!... Encharca bem esse lenço com agoa de Colonia, que +tenho a cabeça tão pesada!... Essa D. Anna era +uma +jornaleira, uma moça do campo, de Corinde?<br /> + + +<br /> + + +Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:<br /> + + +<br /> + + +―Não senhor! A Snr.<sup>a</sup> D. Anna Lucena +é de gente +muito baixa! Filha d'um carniceiro d'Ovar... E o irmão andou +a monte por ter morto o +ferrador d'Ilhavo.<br /> + + +<br /> + + +―Emfim, resumiu Gonçalo, filha de carniceiro, +irmão a monte, bella mulher, luneta d'oiro... Merece fato +novo!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Em Villa-Clara, ás dez horas, sentado n'um dos bancos de +pedra do Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o +amigo +João Gouveia―que era o Administrador do Concelho da Villa. +Ambos se abanavam <span class="pagenum">[42]</span> +com os chapeus, em silencio, gozando a frescura e o sussurro da agua +lenta na sombra. E a «meia» batia no relogio da +Camara, +quando Gonçalo, que se retardára na +Assembléa n'um voltarete +enremissado, appareceu annunciando uma fome terrivel, «a fome +historica dos Ramires», +e apressando a marcha para o Gago―sem mesmo consentir que o +Titó descesse +á tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de +canna da Madeira, velha e «da ponta fina...»<br /> + + +<br /> + + +―Não ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro +um de Vocês, com esta +furiosa fome Ramirica!<br /> + + +<br /> + + +Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou elle cruzando os +braços, interpellando divertidamente o Sr. Aministrador do +Concelho pelo estupendo feito do <em>seu</em> Governo... +Então o <em>seu</em> Governo, +os <em>seus</em> amigos Historicos, o <em>seu</em> +honradissimo S. +Fulgencio―nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o Antonio +Moreno! O Antonio Moreno, +tão justamente chamado em Coimbra Antoninha Morena! +Não, +realmente, era a derradeira degradação a que +podia rolar um paiz! +Depois d'esta, para harmonia perfeita dos serviços, +só outra +nomeação, e urgente―a da Joanna Salgadeira, +Procuradora Geral da Corôa!<br /> + + +<br /> + + +E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito +secco, de bigode mais duro que piassaba, <span class="pagenum">[43]</span>esticado +n'uma sobrecasaca curta, com o chapeu de coco atirado para a orelha, +não discordava. Empregado +imparcial, servindo os Historicos como servira os Regeneradores, sempre +acolhia com imparcial ironia as nomeações de +bachareis novos, +Historicos ou Regeneradores, para os gordos logares Administrativos. +Mas, n'este caso, sinceramente, quasi vomitára, rapazes! +Governador Civil, e +de Monforte, o Antonio Moreno, que elle tantas vezes +encontrára no +quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a +carinha +bonita coberta de pó de arroz!...―E, travando do +braço do +Fidalgo, recordava a noite em que o José Gorjão, +muito bebedo, de cartola e +com um revólver, exigia furiosamente que o padre Justino, +tambem bebedo, o casasse com o Antoninho deante d'um nicho da Senhora +da Boa Morte! Mas o +Titó, que esperava, floreando o bengalão, +declarou áquelles +senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a +conversar de Politica e d'indecencias―então voltava elle ao +Brito, buscar a +aguardentesinha... Immediatamente o Fidalgo da Torre, sempre +brincalhão, +sacudiu o braço do Administrador, e galgou pela +Calçadinha, aos corcovos, com +as mãos fortemente juntas, como colhendo uma redea, contendo +um cavallo que se desboca.<br /> + + +<br /> + + +E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e ingreme que subia da +taberna, a um canto <span class="pagenum">[44]</span>da +comprida mesa allumiada por dois candieiros de petroleo, a ceia foi +muito alegre, muito saboreada. Gonçalo, +que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até aos +Bravaes e pelas emoções do voltarete em que +ganhára +desenove tostões ao Manoel Duarte―começou por +uma pratada d'ovos com +chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu +«frango de doente», clareou +o prato da salada de pepino, findou por um montão de +ladrilhos de marmellada: e +atravez d'este nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pelle se +afogueasse, esvasiou uma caneca vidrada de Alvaralhão, +porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do Titó, +amaldiçoára o vinho novo do Abbade. Á +sobremesa appareceu o Videirinha, «o +Videirinha do violão», tocador afamado de Villa +Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com versos de amor e de +patriotismo já impressos no <b><em>Independente +d'Oliveira</em></b>. Jantára n'essa tarde, com o +violão, +em casa do commendador Barros, que celebrava o anniversario da sua +commenda: e só +acceitou um copo d'Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de +marmellada +«para adocicar a goella». Depois, á meia +noite, +Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um +café «muito forte, um +café terrivel, Gago amigo! um café capaz de abrir +talento no Sr. Commendador +Barros!» Era essa a hora divina do violão e do +«fadinho». E já o Videirinha +<span class="pagenum">[45]</span>recuára +para a sombra da sala, pigarreando, affinando os bordões, +pousado com melancolia á borda d'um banco alto.<br /> + + +<br /> + + +―A <em>Soledad</em>, Videirinha! pediu o bom +Titó, pensativo, +enrolando um grosso cigarro.<br /> + + +<br /> + + +Videirinha gemeu deliciosamente a <em>Soledad</em>:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Quando fôres ao cemiterio<br /> + + +Ai Soledad, Soledad!...<br /> +<br /> + + +</div> + + +Depois, apenas elle findou, acclamado, e emquanto acertava as +cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os +cotovellos na +mesa, os charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de +Lourenço +Marques aos Inglezes, preparada surrateiramente (conforme clamavam, +arripiados de horror, os jornaes da Opposição) +pelo Governo do +S. Fulgencio. E Gonçalo tambem se arripiava! Não +com a +alienação da Colonia―mas com a impudencia do S. +Fulgencio! Que aquelle careca obeso, filho sacrilego d'um frade que +depois se fizera mercieiro em Cabecelhos, trocasse a libras, para se +manter mais dois annos no Poder, um pedaço +de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos +Gamas, os +Athaydes, os Castros, os seus proprios avós―era para elle +uma +abominação que justificava todas as violencias, +mesmo uma revolta, e a casa de +Bragança enterrada <span class="pagenum">[46]</span>no +lodo +do Tejo! Trincando, sem parar, amendoas torradas, +João Gouveia observou:<br /> + + +<br /> + + +―Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os +Regeneradores...<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Regeneradores realisassem +essa grandiosa operação―bem! Esses, +primeiramente, +nunca commetteriam a indecencia de vender a Inglezes terra de +Portuguezes! Negociariam com Francezes, com Italianos, povos latinos, +raças fraternas... +E depois os bons milhões soantes seriam applicados ao +fomento do Paiz, +com saber, com probidade, com experiencia. Mas esse horrendo careca do +S. Fulgencio!...―E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, por +que realmente aquelle cognac do Gago era uma peçonha torpe!<br /> + + +<br /> + + +O Titó encolheu os hombros, resignado:<br /> + + +<br /> + + +―Não me deixaste ir buscar a aguardentesinha, agora +aguenta... E a genebra é ainda mais peçonhenta. +Nem para os +negros d'esse Lourenço Marques que tu queres vender... +Portuguezes indecentes, a vender Portugal! Até o Sr. +Administrador do Concelho devia prohibir +estas conversas...<br /> + + +<br /> + + +Mas o Sr. Administrador do Concelho affirmou que as consentia, e +rasgadamente... Por que tambem elle, como Governo, venderia +Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa +Oriental! E +ás <span class="pagenum">[47]</span>talhadas! +Em leilão! Alli, toda a Africa, posta em praça, +apregoada no Terreiro do Paço! E sabiam os amigos +porquê? Pelo +são principio de forte +administração―(estendia o braço, meio +alçado do banco, como n'um Parlamento)... Pelo +são principio de que todo o proprietario +de terras distantes, que não póde valorisar por +falta de +dinheiro ou gente, as deve vender para concertar o seu telhado, +estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom +torrão que pisa com os +pés... Ora a Portugal restava toda uma riquissima provincia +a amanhar, a regar, a lavrar, a semear―o Alemtejo!<br /> + + +<br /> + + +O Titó lançou o vozeirão, desdenhando +o Alemtéjo como uma pellicula de terra de má +qualidade, que, fóra umas legoas de +campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão +só dava dois, e, apenas +esgaravetada, logo mostrava o granito...<br /> + + +<br /> + + +―O mano João tem lá uma herdade immensa, +immensissima, que rende trezentos mil réis!<br /> + + +<br /> + + +O Administrador, que advogára em Mertola, protestou, +encristado. O Alemtejo! Provincia abandonada, sim! Abandonada +miseravelmente, desde seculos, pela imbecilidade dos governos... Mas +riquissima, fertilissima!<br /> + + +<br /> + + +―Pois então os Arabes... E qual Arabes! Ainda ha dias o +Freitas Galvão me contava...<br /> + + +<br /> + + +Mas Gonçalo Mendes, que cuspira tambem a <span class="pagenum">[48]</span>genebra com uma +carantonha, acudiu, n'um resumo varredor, condemnando todo o Alemtejo +como uma desgraçada illusão!<br /> + + +<br /> + + +Estirado por sobre a mesa, o Administrador gritava:<br /> + + +<br /> + + +―Você já esteve no Alemtejo?<br /> + + +<br /> + + +―Tambem nunca estive na China, e...<br /> + + +<br /> + + +―Então não falle! Só a vinha +espantosa que plantou o João Maria...<br /> + + +<br /> + + +―Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n'outros sitios, +legoas e legoas sem...<br /> + + +<br /> + + +―Um celleiro!<br /> + + +<br /> + + +―Uma charneca!<br /> + + +<br /> + + +E atravez do tumulto o Videirinha, repenicando com solitario ardor, +levado na torrente d'ais do «fado» da Ariosa, +soluçava contra uns olhos negros, donos do seu +coração:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Ai! que dos teus negros olhos<br /> + + +Me vem hoje a +perdição...<br /> +<br /> + + +</div> + + +O petroleo dos candieiros findava: e o Gago, reclamado para trazer +castiçaes, surdio em mangas de camisa, detraz d'uma cortina +de chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a suas +Excellencias que passava da uma horasinha da noite... O Administrador, +que detestava noitadas, <span class="pagenum">[49]</span>nocivas +á sua garganta (de amygdalas +loucamente inflammaveis), puxou o relogio com terror. E rapidamente +reabotoado na sobrecasa, de chapéo côco mais +tombado +á banda, apressou o lento Titó, por que ambos +moravam no alto da Villa―elle defronte do Correio, o outro na viella +das Therezas, n'uma casa onde outr'ora +habitára e apparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.<br /> + + +<br /> + + +O Titó porém não se aviava. Com o +bengalão debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao +fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o embrulhado +negocio d'uma compra de espingarda, soberba espingarda Winchester, +empenhada ao Gago pelo filho do tabellião Guedes +d'Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou á porta +da taberna, +no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o +João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda +sobre o Governador Civil de Oliveira―o André Cavalleiro!<br /> + + +<br /> + + +Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo +clamando que não alludissem deante d'elle, pelas cinco +chagas de Christo, +a esse bandido, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo, +mandão +burlesco que desorganizava o Districto! E João Gouveia muito +teso, muito +secco, com o côco mais cahido na orelha, assegurando a +inteligencia +superior do amigo Cavalleiro, que estabelecera limpeza e <span class="pagenum">[50]</span> ordem, como Hercules, nas +cavallariças d'Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com +o violão resguardado atraz das costas, supplicava aos amigos +que recolhessem +á taberna, para não alvorotar a rua...<br /> + + +<br /> + + +―Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venancio +está desde hontem com a pontada!<br /> + + +<br /> + + +―Pois então, berrou Gonçalo, não +venham com disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia, que +Oliveira nunca teve Governador Civil +como o Cavalleiro!... Não é por meu pae! O +papá já lá vae ha trez annos, +infelizmente. E concordo que não fosse boa auctoridade. Era +frouxo, andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil. +Tivemos o Bernardino. Você serviu com elles. Eram dois +homens!... Mas +este cavallo d'este Cavalleiro! A primeira +condição para a +auctoridade superior d'um Districto é não ser +burlesca. E o Cavalleiro +é d'entremez! Aquella guedelha de trovador, e a horrenda +bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo +empinado, e o +<em>pó-pó-poh</em>! É +d'entremez! E estupido, d'uma estupidez fundamental, que lhe +começa nas patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores, +que animal!... Sem contar que é malandro.<br /> + + +<br /> + + +Teso na sombra do immenso Titó, como uma estaca junto d'uma +torre, o Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com +uma serenidade cortante:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[51]</span>―Você +acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute! +Em todo o districto d'Oliveira, note bem, em todo elle! não +ha ninguem, +absolutamente ninguem, que de longe, muito de longe, se compare ao +Cavalleiro em intelligencia, caracter, maneiras, saber, e finura +politica!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por fim sacudindo o +braço, n'um desabrido, arrogante desprezo:<br /> + + +<br /> + + +―Isso são as opiniões d'um subalterno!<br /> + + +<br /> + + +―E isso são as expressões d'um malcreado! uivou +o outro, crescendo todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.<br /> + + +<br /> + + +Immediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, +avançou o braço do Titó, estendendo +uma sombra na +calçada:<br /> + + +<br /> + + +―Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este? +Vocês estão borrachos?... Pois tu, +Gonçalo...<br /> + + +<br /> + + +Mas já Gonçalo, n'um d'esses seus impulsos +generosos e amoraveis que tão finamente seduziam, se +humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibilisado:<br /> + + +<br /> + + +―Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que +você defende o Cavalleiro por amizade, não por +dependencia... Mas que quer, +homem? Quando me fallam n'esse Cavallo... Não sei, +é por +contagio da besta, orneio, atiro coice!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[52]</span> +O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (porque admirava +carinhosamente o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte +á +sobrecasaca e apenas observou «que o Gonçalinho +era uma flôr, mas +picava...» Depois, aproveitando a +emoção submissa de Gonçalo, +recomeçou a glorificação do +Cavalleiro, mais sobria. Reconhecia certas fraquezas. Sim, com effeito, +aquelle modo impertigado... Mas que coração!―E o +Gonçalinho devia considerar...<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espalmando as mãos:<br /> + + +<br /> + + +―Escute você, oh João Gouveia! Por que +é que você lá em cima, á +ceia, não comeu a salada de pepino? Estava divina, +até +o Videirinha a appeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi? +Por que +você tem horror physiologico, horror visceral ao pepino. A +sua natureza e o pepino são incompativeis. Não ha +raciocinios, +não ha subtilezas, que o persuadam a admittir lá +dentro o pepino. Você +não duvida que elle seja excellente, desde que tanta gente +de bem o adora: mas você +não póde... Pois eu estou para o Cavalleiro como +você para o pepino. +Não posso! Não ha molhos, nem razões, +que m'o disfarcem. Para mim +é ascoroso. Não vae! Vomito!... E agora +ouça...<br /> + + +<br /> + + +Então Titó, que bocejava, interveio, +já farto:<br /> + + +<br /> + + +―Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dóse <span class="pagenum">[53]</span>de Cavalleiro, e +valente! Somos todos muito boas pessoas e só nos resta +debandar. Eu +tive senhora, tive tainha... Estou derreado. E não tarda a +madrugada, que +vergonha!<br /> + + +<br /> + + +O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, ás nove horas da +manhã, com commissão de recenseamento!... Para +esmagar bem o +amúo, cingiu Gonçalo n'um rijo abraço. +E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz +com o Videirinha (que n'estas noites festivas de Villa Clara o +acompanhava sempre pela estrada até ao portão da +Torre), +João Gouveia ainda se voltou, pendurado do braço +do Titó no meio da +Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral «de +não sei que +philosopho»:<br /> + + +<br /> + + +―«Não vale a pena estragar boa ceia por causa de +má politica...» Creio que é +d'Aristoteles!<br /> + + +<br /> + + +E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava +para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre +abafados harpejos:<br /> + + +<br /> + + +―Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não +vale a pena, por que em Politica hoje é branco, +ámanhã +é negro, e depois, zás, tudo é nada!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +O fidalgo encolhera os hombros. A Politica! Como se elle pensasse na +Auctoridade, no Sr. Governador civil d'Oliveira―quando injuriava o Sr. +André Cavalleiro, de Corinde! Não! o que +detestava era o <span class="pagenum">[54]</span>homem―o +falso homem d'olho langoroso! Por que entre elles existia um d'esses +fundos aggravos que outr'ora, no tempo dos Tructesindos, armavam um +contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos +senhoriaes...―E pela estrada, com a lua no alto dos oiteiros de +Valverde, em quanto no +violão do Videirinha tremia o choro lento do fado do +Vimioso, +Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquella +historia que tanto enchera a +sua alma desoccupada. Ramires e Cavalleiros eram familias vizinhas, uma +com a velha torre em Santa Ireneia, mais velha que o Reino―a outra com +quinta bem tratada e rendosa em Corinde. E quando elle, rapaz de +dezoito annos, enfiava enfastiadamente os preparatorios do Lyceu, +André +Cavalleiro, então estudante do Terceiro-Anno, já +o tratava +como um amigo serio. Durante as férias, como a +mãe lhe dera um +cavallo, apparecia todas as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os +arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravaes e Valverde, +lhe confiava, como a um espirito maduro, as suas +ambições politicas, as suas +idéas de vida que desejava grave e toda votada ao Estado. +Gracinha Ramires desabrochava na +flôr dos +seus dezeseis annos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a +«flôr da Torre». +Ainda então vivia a governante ingleza de Gracinha, a boa +Miss Rhodes―que, como todos na Torre, admirava com enthusiasmo +André <span class="pagenum">[55]</span> +Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabelleira romantica, a +doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de +recitar Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que +lhe +amollecia a alma e os principios perante a soberania do Amor, +favorecera demoradas conversas de André com Maria da +Graça sob as +olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o +muro baixo da +Mãe d'Agua. Todos os domingos o Cavalleiro jantava na +Torre:―e o velho procurador Rebello já +preparára, com esforço e +resmungando, um conto de reis para o enxoval da +«menina». O pae de Gonçalo, +Governador Civil de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Politica e +em dividas, amanhecendo +só na Torre aos Domingos, approvava esta +collocação de +Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse, +creava na sua vida, +já difficil, um tropeço e um cuidado. Sem +representar como elle uma familia +de immensa Chronica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis +godos, +André Cavalleiro era um moço bem nascido, filho +de general, neto de desembargador, com brasão legitimo na +sua casa +apalaçada de Corinde, e terras fartas em redor, de boa +semeadura, limpas de hypothecas... Depois, sobrinho de Reis Gomes, um +dos Chefes Historicos, já +filiado no Partido Historico (desde o Segundo Anno da Universidade), a +sua carreira <span class="pagenum">[56]</span> +andava marcada com segurança e brilho na Politica e na +Administração. E emfim Maria da Graça +amava enlevadamente aquelles reluzentes +bigodes, os hombros fortes de Hercules bem educado, o porte ufano que +lhe encouraçava o peitilho e que impressionava. Ella, em +contraste, era pequenina e fragil, com uns olhos timidos e esverdeados +que o sorriso humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de +porcellana fina, e cabellos magnificos, mais lustrosos e negros que a +cauda d'um corcel de guerra, que lhe rolavam até aos +pés, em que se +podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as +alamedas da quinta, miss Rhodes (que o pae, professor de Litteratura +Grega em Manchester, recheára de Mithologia) pensava sempre +em «Marte +cheio de força amando Psyché cheia de +graça.» E mesmo os +criados da Torre se maravilhavam do «lindo par!» +Só a Snr.<sup>a</sup> D. Joaquina +Cavalleiro, a mãe de André, senhora obesa e +rabugenta, detestava aquella terna assiduidade do filho na Torre, sem +motivo pesado, só por «desconfiar da +pinta da menina e desejar nóra mais comesinha...» +Felizmente, quando +André Cavalleiro se matriculava no Quinto Anno, a +desagradavel matrona morreu d'uma anasarca. O pae de Gonçalo +recebeu a chave do +caixão: Gracinha tomou luto: e Gonçalo, +companheiro de casa do Cavalleiro na rua de +S. João, em Coimbra, enrolou um fumo na manga <span class="pagenum">[57]</span>da batina. Logo em Santa +Ireneia se pensou que o explendido André, libertado da +pêca +opposição da mamã, pediria a +«Flôr da Torre» depois do Acto +de Formatura. Mas, findo esse desejado Acto, Cavalleiro abalou para +Lisboa―por que se preparavam Eleições em +Outubro, e elle recebera do tio Reis +Gomes, então Ministro da Justiça, a promessa de +«ser deputado» +por Bragança.<br /> + + +<br /> + + +E todo esse verão o passou na Capital; depois em Cintra, +onde o negro langor dos seus olhos humidos amollecia +corações; +depois n'uma jornada quasi triumphal a Bragança com foguetes +e «vivas +ao sobrinho do Sr. conselheiro Reis Gomes!» Em Outubro +Bragança +«confiou ao dr. André Cavalleiro (como escreveu o <em>Echo +de Traz-os-Montes</em>) +o direito de a representar em Côrtes com os seus brilhantes +conhecimentos +litterarios e a sua formosissima presença de +orador...» Recolheu +então a Corinde; mas nas suas visitas á Torre, +onde o pae de Gonçalo +convalescia d'uma febre gastrica que exacerbára a sua antiga +diabetes, +André já não arrastava sofregamente +Gracinha, como outr'ora, para as silenciosas sombras da quinta, +permanecendo de preferencia na sala azul, a conversar sobre Politica +com Vicente Ramires, que se não movia da poltrona, +embrulhado n'uma manta. E Gracinha, nas suas cartas para Coimbra a +Gonçalo, já se carpia de não correrem +tão doces nem +tão intimas <span class="pagenum">[58]</span>as +visitas do André á Torre, «occupado, +como andava sempre agora, a estudar para +deputado...» +Depois do Natal o Cavalleiro voltou para Lisboa, para a abertura das +Côrtes, muito apetrechado, com o seu creado Matheus, uma +linda egua que comprára em Villa Clara ao Manoel Duarte, e +dous caixotes de +livros. E a boa Miss Rhodes sustentava que Marte, como convinha a um +heróe, só reclamaria Psyché depois +d'um nobre feito, uma estreia nas +Camaras, «n'um discurso lindo, todo +flôres...» +Quando Gonçalo, nas férias de Paschoa, +appareçeu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e +descorada. As +cartas do seu André, que se estreára «e +n'um discurso lindo, todo flôres...», eram cada +semana mais curtas, mais +calmas. E a ultima (que ella lhe mostrou em segredo), datada da Camara, +contava em tres linhas mal rabiscadas «que tivera muito que +trabalhar em +commissões, que o tempo se pozera lindo, que n'essa noite +era o baile dos condes de Villaverde, e que elle continuava com muitas +saudades o seu fiel André...» Gonçalo +Mendes Ramires, logo +n'essa tarde, desabafou com o pae, que definhava na sua poltrona:<br /> + + +<br /> + + +―Eu acho que o André se está portando muito mal +com a Gracinha... O papá não lhe parece?<br /> + + +<br /> + + +Vicente Ramires apenas moveu, n'um gesto de vencida tristeza, a +mão descarnada d'onde a cada momento lhe escorregava o annel +d'armas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[59]</span> +Por fim em Maio a sessão das Camaras terminou―essa +sessão que tanto interessára Gracinha, anciosa +«que elles +accabassem de discutir e tivessem férias.» E quasi +immediatamente ella em +Santa Ireneia, Gonçalo em Coimbra, souberam pelos jornaes +que «o talentoso deputado +André Cavalleiro partira para Italia e França +n'uma longa viagem +de recreio e d'estudo.» E nem uma carta á sua +escolhida, quasi +sua noiva!... Era um ultraje, um bruto ultraje, que outr'ora, no seculo +XII, +lançaria todos os Ramires, com homens de cavallo e peonagem, +sobre o solar dos Cavalleiros, para deixar cada trave denegrida pela +chamma, cada servo pendurado d'uma corda de canave. Agora Vicente +Ramires, apagado e mortal, murmurou simplesmente: «Que +traste!» Elle +em Coimbra, rugindo, jurou esbofetear um dia o infame! A boa Miss +Rhodes, para se consolar, desembrulhou a sua velha harpa, encheu Santa +Ireneia de magoados harpejos. E tudo findou nas lagrimas que Gracinha, +durante semanas, +tão desconsolada da vida que nem se penteava, escondeu sob +as olaias do Mirante.<br /> + + +<br /> + + +E, ainda depois d'esses annos, a esta lembrança das lagrimas +da irmã, um rancor invadiu Gonçalo, +tão redivivo que atirou +para o lado, para sobre as sebes da valla, uma bengallada, como se +fossem ás costas +do Cavalleiro!―Caminhavam então junto á <span class="pagenum">[60]</span>ponte da +Portella, onde os campos se alargam, e da estrada se avista +Villa-Clara, que a lua branqueava toda, desde o convento de Santa +Thereza, rente ao Chafariz, +até ao muro novo do cemiterio, no alto, com os seus finos +cyprestes. Para o fundo do valle, clara tambem no luar, era a egrejinha +de Craquêde, +Santa Maria de Craquêde, resto do antigo Mosteiro em que +ainda jaziam, nos +seus rudes tumulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires +Affonsinos. Sob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os +seixos, sussurrava na sombra. E Videirinha, enlevado n'aquelle silencio +e suavidade saudosa, cantava, n'um gemer surdo de bordões:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Baldadas são tuas queixas,<br /> + + +Escusados são teus ais,<br /> + + +Que é como se eu morto +fôra.<br /> + + +E não me verás +nunca mais!...<br /> +<br /> + + +</div> + + +E Gonçalo retomára as suas +recordações, repassava tristezas que depois +cahiram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera n'uma tarde d'Agosto, +sem soffrimento, estendido na sua poltrona á varanda, com os +olhos cravados na velha Torre, murmurando para o padre +Soeiro:―«Quantos +Ramires verá ella ainda, n'esta casa, e á sua +sombra?...» Todas +essas ferias as consumiu Gonçalo no escuro cartorio, +desajudado <span class="pagenum">[61]</span>(por +que o +procurador, o bom Rebello, tambem Deus o chamára), +revolvendo papeis, +apurando o estado da casa―reduzida aos dois contos e trezentos mil +reis que rendiam os foros de Craquêde, a herdade de Praga, e +as duas +quintas historicas, Treixedo e Santa Ireneia. Quando regressou a +Coimbra deixou Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima, D. Arminda +Nunes Viegas, senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava no +Terreiro da +Louça um immenso casarão cheio de retratos +d'avoengos e de arvores +de costado, onde ella, vestida de velludo preto, pousada n'um +camapé de +damasco, entre aias que fiavam, perpetuamente relia os seus Livros de +Cavallaria, o <em>Amadis</em>, <em>Leandro o Bello</em>, +<em>Tristão +e +Brancaflôr</em>, as <em>Chronicas do Imperador +Clarimundo</em>... Foi ahi que José +Barrôlo +(senhor d'uma das mais ricas casas d'Amarante) encontrou Gracinha +Ramires, e a amou com uma paixão profunda, quasi +religiosa―estranha n'aquelle +moço indolente, gorducho, de bochechas coradas como uma +maçã, e +tão escasso d'espirito que os amigos lhe chamavam +«o José +Bacôco». O bom Barrolo residira sempre em Amarante +com a mãe, não conhecia o +trahido romance da «Flôr da Torre»―que +nunca se espalhára para +além dos cerrados arvoredos da quinta. E, sob o enternecido +e romanesco patrocinio de D. Arminda, noivado e casamento docemente se +apressaram, em tres mezes, <span class="pagenum">[62]</span>depois +d'uma carta de Barrôlo a Gonçalo Mendes Ramires +jurando―«que a affeição pura que +sentia pela prima Graça, pelas suas virtudes e outras +qualidades respeitaveis, era tão grande que nem achava no +Diccionario +termos para a explicar...» Houve uma bôda luxuosa: +e os noivos +(por desejo de Gracinha, para se não affastar da querida +Torre), depois +d'uma jornada filial a Amarante, «armaram o seu +ninho» em +Oliveira, á esquina do largo d'El-Rei e da rua das +Tecedeiras, n'um palacete que o Bacôco +herdára, com largas terras, do seu tio Melchior, +Deão da +Sé. Dois annos correram, mansos e sem historia. E +Gonçalo Mendes Ramires passava +justamente em Oliveira as suas ultimas férias de Paschoa +quando +André Cavalleiro, nomeado Governador Civil do Districto, +tomou posse, estrondosamente, com foguetes, philarmonicas, o Governo +civil e o Paço do Bispo +illuminados, as armas dos Cavalleiros em transparentes no +café da Arcada +e na Recebedoria!... Barrôlo conhecia o Cavalleiro quasi +intimamente, admirava o seu talento, a sua elegancia, o seu brilho +Politico. Mas Gonçalo Mendes Ramires, que dominava +soberanamente o bom +Bacôco, logo o intimou a não visitar o Sr. +Governador Civil, a +não o saudar sequer na rua, e a partilhar, por dever +d'alliança, os rancores que +existiam entre Cavalleiros e Ramires! José Barrôlo +cedeu, +submisso, espantado, sem comprehender. <span class="pagenum">[63]</span>Depois +uma noite, no quarto, enfiando as chinellas, contou a Gracinha +«a exquisitice de Gonçalo»:<br /> + + +<br /> + + +―E sem motivo, sem offensa, só por causa da Politica!... +Ora, vê tu! Um bello rapaz como o Cavalleiro! Podiamos fazer +um ranchinho +tão agradavel!...<br /> + + +<br /> + + +Outro sereno anno passou... E n'essa primavera, em Oliveira, onde se +demorára para a festa dos annos de Barrôlo, eis +que Gonçalo suspeita, fareja, descobre uma incomparavel +infamia! O impertigado homem da bigodeira negra, o Sr. André +Cavalleiro, +recomeçára com soberba impudencia a cortejar +Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em olhadellas fundas, carregadas +de saudade e langor, procurando agora apanhar como amante aquella +grande fidalga, aquella Ramires, que desdenhára como esposa!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no +rolo amargo d'estes pensamentos, que não reparou no +portão da Torre, +nem na portinha verde, á esquina da casa, sobre tres +degráos. E seguia, +rente do muro da horta, quando Videirinha, que estacára com +os dedos mudos nos +bordões do violão, o avisou, rindo:<br /> + + +<br /> + + +―Oh, Sr. Doutor, então larga assim, a estas horas de +corrida para os Bravaes?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[64]</span> +Gonçalo virou, bruscamente despertado, procurando na +algibeira, entre o dinheiro solto, a chavinha do trinco:<br /> + + +<br /> + + +―Nem reparava... Que lindamente você tem tocado, Videirinha! +Com lua, depois de ceia, não ha companheiro mais poetico... +Realmente +você é o derradeiro trovador portuguez!<br /> + + +<br /> + + +Para o ajudante de Pharmacia, filho d'um padeiro d'Oliveira, a +familiaridade d'aquelle tamanho Fidalgo, que lhe apertava a +mão na botica deante do Pires boticario e em Oliveira deante +das Auctoridades, constituia uma gloria, quasi uma +coroação, e +sempre nova, sempre deliciosa. Logo sensibilisado, feriu os +bordões rijamente:<br /> + + +<br /> + + +―Então, para acabar, lá vae a grande trova, Sr. +Doutor!<br /> + + +<br /> + + +Era a sua famosa cantiga, o <em>Fado dos Ramires</em>, +rosario de heroicas Quadras celebrando as Lendas da Casa illustre―que +elle desde mezes apurava e completava, ajudado na terna tarefa pelo +saber do velho Padre Soeiro, capellão e archivista da Torre.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava uma +lamparina mortiça, já sem azeite, junto ao +castiçal de prata. E Videirinha, recuando ao meio da +estrada, com um «dlindlon» +ardente, fitára a Torre, que, por cima dos telhados da vasta +casa, mergulhava as ameias, o negro miradoiro, <span class="pagenum">[65]</span>no +luminoso silencio do ceu de verão. Depois para +ella e para a lua atirou as endeixas glorificadoras, na dolente melodia +d'um fado de Coimbra, rico em <em>ais</em>:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Quem te v'rá sem que +estremeça,<br /> + + +Torre de Santa Ireneia,<br /> + + +Assim tão negra e callada,<br /> + + +Por noites de lua cheia...</div> + + +<div class="poetry1">Ai! Assim callada, +tão negra,<br /> + + +Torre de Santa +Ireneia!<br /> +<br /> + + +</div> + + +Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e +enxugar um calice de genebra salvadora. Mas retomou logo o descante, +ditoso em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos, +pelo prestigio das Lendas, emquanto Gonçalo +desapparecia―com folgazãs desculpas ao Trovador +«por cerrar a portinha do +Castello...»<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Ai! ahi estás, forte e +soberba,<br /> + + +Com uma historia em cada ameia,<br /> + + +Torre mais velha que o reino,<br /> + + +Torre de Santa Ireneia!...<br /> +<br /> + + +</div> + + +E começára a quadra a Muncio Ramires, <em>Dente +de +Lobo</em>, quando em cima uma sala, aberta á frescura +da noite, se allumiou―e o +Fidalgo da Torre, <span class="pagenum">[66]</span> +com o charuto acceso, se debruçou da varanda para receber a +serenada. Mais ardente, quasi soluçante, vibrou o cantar do +Videirinha. Agora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina, +sobre o monte das Oliveiras, á porta da sua tenda, deante +dos +Barões que o acclamavam com as espadas nuas, recusando o +Ducado de Galiléa e o senhorio +das Terras d'Além-Jordão.―Que não +podia, em +verdade, acceitar terra, mesmo Santa, mesmo de Galiléa...<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Quem já tinha em Portugal<br /> + + +Terras de Santa Ireneia!<br /> +<br /> + + +</div> + + +―Boa piada! murmurou Gonçalo.<br /> + + +<br /> + + +Videirinha, enthusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada n'essa +semana―a do sahimento de Aldonça Ramires, Santa +Aldonça, trazida do mosteiro d'Arouca ao solar de Treixedo, +sobre o almadraque em que morrera, aos hombros de quatro Reis!<br /> + + +<br /> + + +―Bravo! gritou o Fidalgo pendurado da varanda. Essa é +famosa, oh Videirinha! Mas ahi ha Reis de mais... Quatro Reis!<br /> + + +<br /> + + +Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante +da Pharmacia lançou outra, já antiga―a d'aquelle +terrivel Lopo Ramires que, +morto, se erguera da sua campa no Mosteiro de Craquêde, +montára um <span class="pagenum">[67]</span>ginete +morto, e toda a noite galopára atravez da Hespanha para se +bater nas +Navas de Tolosa! Pigarreou―e, mais chorosamente, atacou a do +<em>Descabeçado</em>:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Lá passa a negra figura...<br /> +<br /> + + +</div> + + +Mas Gonçalo, que abominava aquella lenda, a silenciosa +figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre +com a +cabeça nas mãos―despegou da varanda, deteve a +Chronica immensa:<br /> + + +<br /> + + +―Toca a deitar, oh Videirinha, hein? Passa das tres horas, +é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam +cá na Torre, no +Domingo. Appareça tambem, com o violão e cantiga +nova: mas menos sinistra... +<em>Bona sera</em>! Que linda noite!<br /> + + +<br /> + + +Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala―a +«sala velha,» toda revestida d'esses denegridos e +tristonhos retratos de Ramires que elle desde pequeno chamava as <em>carantonhas +dos vovós</em>. +E, +atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silencio dos +campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Ai! lá na grande batalha...<br /> + + +El-Rei Dom Sebastião...<br /> + + +O mais moço dos Ramires<br /> + + +Que era pagem do guião...<br /> +<br /> + + +</div> + + +<span class="pagenum">[68]</span> +Despido, soprada a vella, depois de um rapido signal da cruz, o Fidalgo +da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de Sombras, +começou para elle uma noite revôlta e pavorosa. +André +Cavalleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos +de cótas de malha, montados +em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho +máo, arremessavam contra o seu pobre estomago pontoadas de +lança, +que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era, +na Calçadinha de Villa-Clara, o medonho Ramires morto, com a +ossada a ranger dentro da armadura, e El-rei Dom Affonso II, +arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para +a batalha das Navas. Elle resistia, fincado nas lages, gritando pela +Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Affonso tão +rijo murro lhe despedia +aos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria +do Gago até +á Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de +pendões e +d'armas. E immediatamente seu primo d'Hespanha, Gomes Ramires, Mestre +de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os +derradeiros +cabellos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os +prantos da tia Louredo trazida como um andor aos hombros de quatro +Reis!...―Por fim, moido, sem socêgo, já com a +madrugada clareando +nas fendas das janellas +e as <span class="pagenum">[69]</span>andorinhas +piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um derradeiro +repellão aos lençoes, saltou ao +soalho, abrio a vidraça―e respirou deliciosamente o +silencio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta. Mas que +sêde! uma sêde desesperada que lhe +encortiçava os labios! Recordou então o famoso <em>fruit +salt</em> +que lhe +recommendára o Dr. Mattos,―arrebatou o frasco, correu +á sala de jantar, em +camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas n'um copo d'agua +da Bica-Velha, que esvasiou d'um trago, na fervura picante.<br /> + + +<br /> + + +―Ah! que consolo, que rico consolo!...<br /> + + +<br /> + + +Voltou derreadamente á cama: e readormeceu logo, muito +longe, sobre as relvas profundas d'um prado d'Africa, debaixo de +coqueiros susurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que +brotavam atravez de pedregulhos d'oiro. D'essa perfeita beatitude o +arrancou o Bento, ao meio dia, inquieto com «aquelle tardar +do Sr. +Doutor.»<br /> + + +<br /> + + +―É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos, +pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com +chouriço; e o +pepino... Sobretudo o pepino! Uma idéa d'aquelle animal do +Titó... Depois, de madrugada, tomei o tal <em>fruit +salt</em>, e estou +optimo, homem!... Estou optimissimo! Até me sinto capaz de +trabalhar. Leva para a +livraria uma chavena de chá verde, muito forte... Leva +tambem torradas.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[70]</span> +E momentos depois, na livraria, com um roupão de flanella +sobre a camisa de dormir, sorvendo lentos goles de chá, +Gonçalo +relia junto da varanda essa derradeira linha da Novella, tão +rabiscada e molle, em +que «os largos raios da lua se estiravam pela larga sala +d'armas...» +De repente, n'uma rasgada impressão de claridade, entreviu +detalhes +expressivos para aquella noite de Castello e de verão―as +pontas das +lanças dos esculcas faiscando silenciosamente pelos adarves +da muralha, e o coaxar triste das rans nas bordas lodosas dos fossos...<br /> + + +<br /> + + +―Bons traços!<br /> + + +<br /> + + +Achegou de vagar a cadeira, consultou ainda no volume do <b><em>Bardo</em></b> +o Poemeto do tio Duarte. E, desannuviado, sentindo as Imagens e os +Dizeres surgirem como bolhas d'uma agua represa que rebenta, atacou +esse lance do Capitulo I em que o velho Tructesindo Ramires, na sala +d'armas de Santa Ireneia, conversava com seu filho Lourenço +e seu primo +D. Garcia Viegas, o <em>Sabedor</em>, de aprestos de +guerra... +Guerra! Porque? Acaso pelos cerros arraianos corriam, ligeiros entre o +arvoredo, almogavares mouros? Não! Mas +desgraçadamente, +«n'aquella terra já remida e christã, +em breve se crusariam, umas contra outras, nobre lanças +portuguezas!...»<br /> + + +<br /> + + +Louvado Deus! a penna desemperrára! E, attento <span class="pagenum">[71]</span>ás +paginas marcadas n'um tomo da <em>Historia</em> +d'Herculano, esboçou +com +segurança a Epocha da sua Novella―que abria entre as +discordias de Affonso II e de seus +irmãos por causa do testamento d'El-Rei seu pae, D. Sancho +I. N'esse +começo do Capitulo já os Infantes D. Pedro e D. +Fernando, esbulhados, +andavam por França e Leão. Já com +elles +abandonára o Reino o forte primo dos Ramires, +Gonçalo Mendes de Souza, chefe magnifico da casa +dos Souzas. E agora, encerradas nos castellos de Monte-Mór e +de Esgueira, +as senhoras Infantas, D. Thereza e D. Sancha, negavam a D. Affonso o +senhorio real sobre as villas, fortalezas, herdades e mosteiros, que +tão +copiosamente lhes doára El-Rei seu pae. Ora, antes de morrer +no +Alcaçar de Coimbra, o senhor D. Sancho supplicára +a Tructesindo Mendes Ramires, +seu collaço e Alferes-Mór, por elle armado +cavalleiro em +Lorvão, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada +entre todas, a infanta D. Sancha, senhora de Aveyras. Assim o +jurára o leal Rico-Homem junto +do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do Prior do +Hospital +sustentando a candeia, agonisava, vestido de burel como um penitente, o +vencedor de Silves... Mas eis que rompe a féra contenda +entre Affonso II, asperamente cioso da sua auctoridade de Rei―e as +Infantas, orgulhosas, impellidas á resistencia pelos freires +do Templo e pelos +Prelados a quem +<span class="pagenum">[72]</span>D. Sancho +legára tão vastos pedaços do +Reino! Immediatamente Alemquer e os arredores d'outros castellos +são devastados pela hoste +real que recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D. +Thereza +appellam para El-rei de Leão, que entra com seu filho D. +Fernando por +terras de Portugal a soccorrer as «Donas +opprimidas.»―E +n'este lance o tio Duarte, no seu <em>Castello de Santa Ireneia</em>, +interpellava com soberbo garbo o Alferes-Mór de Sancho I:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Que farás tu, mais velho +dos +Ramires?<br /> + + +Se ao pendão leonez juntas o +teu<br /> + + +Trahes o preito que deves ao rei vivo!<br /> + + +Mas se as Infantas deixas indefezas<br /> + + +Trahes a jura que déstes ao +rei morto!...<br /> +<br /> + + +</div> + + +Esta duvida, porém, não angustiára a +alma d'esse Tructesindo rude e leal que o Fidalgo da Torre rijamente +modelava. N'essa noite, apenas recebera pelo irmão do +Alcaide d'Aveyras, disfarçado em +beguino, um afflicto recado da senhora D. Sancha―ordenava a seu filho +Lourenço +que, ao primeiro arreból, com quinze lanças, +cincoenta +homens de pé da sua mercê e quarenta besteiros, +corresse sobre Monte-mór. Elle no +emtanto daria alarido―e em dous dias entraria a campo com os parentes +de solar, um troço mais rijo de cavalleiros acontiados e de <span class="pagenum">[73]</span>frecheiros, +para se juntar a seu primo, o <em>Souzão</em>, +que na +vanguarda dos +leonezes descia d'Alva-do-Douro.<br /> + + +<br /> + + +Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o +Açor negro em campo escarlate, se plantára deante +das barreiras gateadas: e ao +lado, no chão, amarrado á haste por uma tira de +couro, +reluzia o velho emblema senhorial, o sonoro e fundo +caldeirão polido. Por todo o +Castello se apressavam os serviçaes, despendurando as +cervilheiras, +arrastando com fragor pelas lages os pesados saios de malhas de ferro. +Nos pateos os armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza +das grevas e +coxotes com camadas d'estopa. Já o adail, na ucharia, +arrolára as rações de vianda para os +dous quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de Santa +Ireneia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos, +abafados no arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos +cabeços, +ratatam! ratatam! convocavam os cavalleiros de soldo e a peonagem da +mesnada dos Ramires.<br /> + + +<br /> + + +No emtanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado +em beguino, de volta ao castello d'Aveyras com a boa nova de prestes +soccorros, transpunha ligeiramente a levadiça da carcova... +E aqui, para alegrar +tão sombrias vesperas de guerra, o tio Duarte, no seu +Poemeto, engastára +uma sorte galante:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[74]</span> +<div class="poetry">Á moça, que na +fonte enchia a bilha,<br /> + + +O frade rouba um beijo e diz <em>Amen</em>!<br /> +<br /> + + +</div> + + +Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de clerigo a +pompa d'aquella formosa sortida d'armas... E mordia pensativamente a +rama da penna―quando a porta da livraria rangeu.<br /> + + +<br /> + + +―O correio...<br /> + + +<br /> + + +Era o Bento com os Jornaes e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma, +lacrada com o enorme sinete d'armas do Barrôlo―repellindo a +outra em que reconhecera a lettra detestada do seu alfaiate de Lisboa. +E immediatamente, com uma palmada na mesa:<br /> + + +<br /> + + +―Oh diabo! quantos do mez, hoje? quatorze, hein?<br /> + + +<br /> + + +O Bento esperava com a mão no fecho da porta.<br /> + + +<br /> + + +―É que não tardam os annos da mana +Graça! De todo esqueci, esqueço sempre. E sem ter +um presentinho engraçado... Que secca, +hein?<br /> + + +<br /> + + +Mas na véspera o Manoel Duarte, na Assembléa, +á mesa do voltarete, annunciára uma fuga a Lisboa +por tres dias, para tratar do +emprego do sobrinho nas Obras Publicas. Pois corria a Villa-Clara pedir +ao snr. Manoel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito +guarda-solinho de sêda branca com rendas...<br /> + + +<br /> + + +―O snr. Manoel Duarte tem gosto; tem muito <span class="pagenum">[75]</span>gosto! +E então o +Joaquim que não selle a egoa; já não +vou ao +Sanches Lucena. Oh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? Ha +tres mezes!... Emfim, por dous dias mais a bella D. Anna não +envelhece; e o velho Lucena tambem +não morre.<br /> + + +<br /> + + +E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo +folgazão, retomou a penna, arredondou o seu final com +elegante harmonia:<br /> + + +<br /> + + +«A moça, furiosa, gritou: <em>Fu! +Fu! +villão</em>! E o beguino, assobiando, +aligeirou as sandalias pelo corrego, na sombra das altas faias, +emquanto que por todo o fresco valle, até Santa Maria de +Craquêde, os atambores mouriscos, tararam! ratamtam! +convocavam á mesnada dos +Ramires, na doçura da tarde...»<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +III</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre +trabalhou com afferro e proveito. E n'essa manhã, depois de +repicar a +sineta no corredor, duas vezes o Bento empurrára a porta da +livraria, +avisando o snr. Doutor «que o almocinho, assim á +espera, +certamente se estragava.» Mas de sobre a tira +d'almaço Gonçalo rosnava +«já vou!»―sem despegar a penna, que +corria como quilha leve em agua mansa, na pressa amorosa de terminar, +antes do almoço, o seu Capitulo I.<br /> + + +<br /> + + +Ah! e que canceira lhe custára, durante esses dias, esse +copioso Capitulo, tão difficil, com o immenso Castello de +Santa +Ireneia a erguer; e toda uma edade esfumada da Historia de Portugal a +condensar em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, +sem que faltasse uma ração nos <span class="pagenum">[78]</span>alforges, +ou uma garruncha +nos caixotes, sobre o dorso das mulas! Mas felizmente, na vespera, +já movera para +fóra do Castello o troço de Lourenço +Ramires, em soccorro +de Monte-mór, com um vistoso coriscar de capellos e +lanças em torno ao +pendão tendido.<br /> + + +<br /> + + +E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, e o sino de recolher +tangera, e a almenára luzira na Torre albarran, e +Tructesindo Ramires descera á sala terrea da +Alcaçova para +ceiar―quando fóra, deante da carcova, com tres toques +fortes annunciando filho-d'algo, uma bozina apressada soou. E, sem que +o villico tomasse permissão do +Senhor, o alçapão da levadiça rangeu +nas +correntes de ferro, rebombou cavamente nos apoios de pedra. Quem assim +chegava em dura pressa era Mendo Paes, amigo de Affonso II e mordomo da +sua Curia, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D. +Theresa―aquella que, pelo ondeante e alvo pescoço, pelo +pisar mais leve que um vôo, os +Ramires chamavam a <em>Garça Real</em>. O +Senhor de Santa Ireneia correra ao patim para +acolher, n'um abraço, o genro amado―«membrudo +cavalleiro, com +os cabellos ruivos, a alvissima pelle da raça germanica dos +visigodos...» E, de mãos enlaçadas, +ambos penetraram n'essa sala de abobada, +allumiada por tochas que toscos anneis de ferro seguravam, chumbados +aos muros.<br /> + + +<br /> + + +Ao meio pousava a massiça meza de carvalho, <span class="pagenum">[79]</span>rodeada de +escanhos até ao topo, onde se erguia, deante d'um aspero +mantel de linho coberto de pratos de estanho e de picheis luzidios, a +cadeira senhorial com o +Açor grossamente lavrado nas altas espaldas, e d'ellas +suspensa, pelo cinturão tauxeado de prata, a espada de +Tructesindo. Por +traz negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de +pinheiro, com a prateleira guarnecida de conchas, entre bocaes de +sanguesugas, sob dois molhos de palmas trazidas da Palestina por +Gutierres Ramires, o <em>d'Ultramar</em>. Rente a um +esteio da +chaminé, um +falcão, ainda emplumado, dormitava na sua alcondora: e ao +lado, sobre as lages, n'uma camada de juncos, dois alões +enormes dormiam tambem, com o focinho nas +patas, as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto +um pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com +a face sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, á +claridade do candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado... +Assim +Gonçalo adornára a soturna sala Affonsina com +alfaias tiradas do Tio +Duarte, de Walter Scott, de narrativas do <em>Panorama</em>. +Mas que +esforço!... E mesmo, depois de collocar sobre os joelhos do +monge um folio impresso em Moguncia por Ulrick Zell, +desmanchára toda essa linha +tão erudita, ao recordar, com um murro na mesa, que ainda a +Imprensa <span class="pagenum">[80]</span>se +não +inventára em tempos de seu avô Tructesindo, e que +ao monge lettrado apenas +competia «um pergaminho de amarellada escripta...»<br /> + + +<br /> + + +E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até ao +arco da porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a +branca barba espalhada sobre os braços cruzados, escutava +Mendo Paes, +que, na confiança de parente e amigo, jornadeára +sem +homens da sua mercê, cingindo apenas por cima do brial de +lã cinzenta uma espada +curta e um punhal sarraceno. Açodado e coberto de +pó correra +Mendo Paes desde Coimbra para supplicar ao sogro, em nome do Rei e dos +preitos jurados, que se não bandeasse com os de +Leão e com as +senhoras Infantas. E já desenrolára ante o velho +todos os fundamentos invocados +contra ellas pelos doutos Notarios da Curia―as +resoluções do +Concilio de Toledo! a bulla do Apostolo de Roma, Alexandre! o velho +fóro dos +Visigodos!... De resto, que injuria fizera ás senhoras +Infantas seu real +irmão para assim chamarem hostes Leonezas a terras de +Portugal? Nenhuma! Nem regedoria nem renda dos castellos e villas da +doação de D. +Sancho lhes negava o senhor D. Affonso. O Rei de Portugal só +queria que nenhum +palmo de chão portuguez, baldio ou murado, jazesse +fóra de seu senhorio +real. Escasso e avido El-Rei D. Affonso?... Mas não +entregára +elle á senhora D. Sancha <span class="pagenum">[81]</span>oito +mil +morabitinos d'oiro? E a gratidão da irmã +fôra o Leonez passando a raia e logo cahidos os castellos +formosos d'Ulgoso, de Contrasta, d'Urros e de Lanhosello! O mais velho +da casa dos Souzas, +Gonçalo Mendes, não se encontrára ao +lado dos cavalleiros +da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava em recado das +Infantas, como moiro, +talando terra portugueza desde Aguiar até Miranda! E +já pelos +cerros d'Além-Douro apparecera o pendão renegado +das treze arruellas―e por +traz, farejando, a alcateia dos Castros! Carregada ameaça, e +de armas +christãs, opprimindo o Reino―quando ainda Moabitas e +Agarenos corriam +á redea solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de +Santa Ireneia, que tão rijamente ajudára a fazer +o Reino, +não o deveria decerto desfazer arrancando d'elle os +pedaços melhores para monges e para +donas rebeldes!―Assim, com arremessados passos, exclamára +Mendo +Paes, tão acalorado do esforço e da +emoção, que +duas vezes encheu de vinho uma conca de pau e d'um trago a despejou. +Depois, limpando a bocca +ás costas da mão tremula:<br /> + + +<br /> + + +―Ide por certo a Monte-mór, senhor Tructesindo Ramires! Mas +em recado de paz e boa avença, persuadir vossa senhora D. +Sancha e as +senhoras Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu +pae e seu Rei!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[82]</span> +O enorme senhor de Santa Ireneia parára, pousando no genro +os olhos duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como +sarças em manhã de geada:<br /> + + +<br /> + + +―Irei a Monte-mór, Mendo Paes, mas levar o meu sangue e o +dos meus para que justiça logre quem justiça tem.<br /> + + +<br /> + + +Então Mendo Paes, amargurado, ante a heroica teima:<br /> + + +<br /> + + +―Maior dó, maior dó! Será bom sangue +de Ricos-homens vertido por más desfórras... +Senhor Tructesindo Ramires, sabei que em +Canta-Pedra vos espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos +tolher a passagem +com cem lanças!<br /> + + +<br /> + + +Tructesindo ergueu a vasta face―com um riso tão soberbo e +claro que os alões rosnaram torvamente, e, acordando, o +falcão +esticou a aza lenta:<br /> + + +<br /> + + +―Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor +Mordomo-mór da Curia, tão de +feição e certa assim m'a +trazeis para me intimidar?<br /> + + +<br /> + + +―Para vos intimidar?... Nem o Senhor Archanjo S. Miguel vos +intimidaria descendo do céo com toda a sua hoste e a sua +espada de lume! +De sobra o sei, senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E +já que n'esta lide não sereis por mim bem +ajudado, quero, ao menos, +que sejaes bem avisado.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[83]</span> +O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:<br /> + + +<br /> + + +―Bem, bem, a cear, pois! Á ceia, Frei Munio!... E +vós, Mendo Paes, deixai receios.<br /> + + +<br /> + + +―Se deixo! Não vos póde vir damno que me anceie +de cem lanças, de duzentas, que vos surjam a caminho.<br /> + + +<br /> + + +E, emquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da +mesa―Mendo Paes ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o +cinturão da espada:<br /> + + +<br /> + + +―Só um cuidado me pesa. E é que, n'esta jornada, +senhor meu sogro, ides ficar de mal com o Reino e com o Rei.<br /> + + +<br /> + + +―Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com +a honra e commigo!<br /> + + +<br /> + + +Este grito de fidelidade, tão altivo, não resoava +no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada +inspiração, o Fidalgo da Torre, atirando a penna, +esfregou as mãos, exclamou, enlevado:<br /> + + +<br /> + + +―Caramba! Aqui ha talento!<br /> + + +<br /> + + +Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado, á banca do +trabalho desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as +energias magnificas dos seus fortes avós! Numerou as +tiras―fechou na gaveta +á chave o volume do <b><em>Bardo</em></b>. +Depois +á janella, com o +collete +desabotoado, ainda lançou o brado genial <span class="pagenum">[84]</span>n'um grave e rouco tom, +como o +lançaria Tructesindo:―...«de mal com o Reino e +com o Rei, mas de bem +com a honra e commigo!...» E sentia n'elle realmente toda a +alma de um +Ramires, como elles eram no seculo XII, de sublime lealdade, mais +presos á +sua palavra que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para +a manter, bens, contentamento e vida!<br /> + + +<br /> + + +O Bento, que espalhára outro repique desesperado, escancarou +a porta da livraria:<br /> + + +<br /> + + +―É o Pereira... Está lá em baixo no +pateo o Pereira que quer fallar ao Sr. Doutor.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo Mendes franziu a testa, com impaciencia, assim +repuxado d'aquellas alturas onde respirava os nobres espiritos da sua +raça:<br /> + + +<br /> + + +―Que massada!... O Pereira... Que Pereira?<br /> + + +<br /> + + +―O Pereira; o Manoel Pereira, da Riosa; o Pereira Brazileiro.<br /> + + +<br /> + + +Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado <em>Brazileiro</em> +por ter herdado vinte contos de um tio, regatão no +Pará. +Comprára então terras, trazia arrendada a <em>Cortiga</em>, +a fallada propriedade +dos condes de Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de +panno fino, e dispunha de sessenta votos na Freguezia.<br /> + + +<br /> + + +―Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos emquanto +almóço... E põe outro talher.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[85]</span> +A sala de jantar da Torre, que abria por trez portas +envidraçadas para uma funda varanda alpendrada, conservava, +do tempo do avô +Damião, (o traductor de Valerius Flaccus) dous formosos +pannos d'Arraz representando a <em>Expedição +dos +Argonautas</em>. +Louças da India e do Japão, desirmanadas e +preciosas, recheiavam um immenso armario de mogno. E sobre o marmore +dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas +dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor. Mas +Gonçalo, sobretudo de verão, sempre +almoçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem +esteirada, revestida até +meio-muro por finos azulejos do seculo XVIII, e offerecendo a um canto, +para as preguiças do charuto, um profundo canapé +de +palhinha com almofadas de damasco.<br /> + + +<br /> + + +Quando lá entrou, com os jornaes da manhã que +não abrira, o Pereira esperava, encostado a um grosso +guarda-sol de panninho escarlate, considerando pensativamente a quinta +que, d'alli, se abrangia +até aos álamos da ribeira do Coice e aos outeiros +suaves de +Valverde. Era um velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um +carão moreno, de +olhos miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca, +entre +dous enormes collarinhos presos por botões de ouro. Homem de +propriedade, +acostumado á Cidade <span class="pagenum">[86]</span>e +ao trato das Auctoridades, estendeu largamente a +mão ao Fidalgo da Torre, e acceitou, sem +embaraço, a cadeira que +elle lhe empurrára para a mesa―onde dominavam, com os seus +ricos +lavores duas altas enfusas de crystal antigo, uma cheia +d'açucenas e a +outra de vinho verde.<br /> + + +<br /> + + +―Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? +Não o vejo desde Abril!<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, meu Fidalgo, desde o sabbado em que cahiu a +grande trovoada, na vespera da eleição! confirmou +o +Pereira affagando o cabo do guarda-sol que conservára entre +os joelhos.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, n'uma esfaimada pressa do almoço, +repicou a campainha de prata. Depois rindo:<br /> + + +<br /> + + +―E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá +foram para o eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios +vão para o +mar!<br /> + + +<br /> + + +O Pereira tambem riu, com um riso agradado que lhe descobria os +máos dentes. Pois o circulo era uma propriedade do Sr. +Sanches Lucena! Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor, +serviçal... +E então, quando lhe calhava como em Abril o apoio do +Governo, nem Nosso Senhor Jesus Christo que voltasse á terra +e se propuzesse por +Villa-Clara desalojava o patrão da <em>Feitosa</em>!<br /> + + +<br /> + + +O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental +resplandecente, entrava com um <span class="pagenum">[87]</span>prato +d'ovos estrellados, quando o Fidalgo, que desdobrára o +guardanapo, o amarrotou, +arremessou com nojo:<br /> + + +<br /> + + +―Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar. +Não me importa guardanapo rôto, ou com passagens, +ou com remendos... Mas +branquinho, fresquinho cada manhã, a cheirar a alfazema!<br /> + + +<br /> + + +E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:<br /> + + +<br /> + + +―O quê! Você não almoça, +Pereira?...<br /> + + +<br /> + + +Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas n'essa tarde comia as +sopas com o genro nos Bravaes, que era festa pelos annos do netinho.<br /> + + +<br /> + + +―Bravo! Parabens, Pereira amigo! Dê lá um beijo +meu ao netinho... Mas então ao menos um copo de vinho verde.<br /> + + +<br /> + + +―Entre as comidas, meu Fidalgo, nem agua nem vinho.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo farejára, arredára os ovos. E +reclamou o «jantar da familia», sempre muito farto +e saboroso na Torre, e começando por +essas pesadas sopas de pão, presunto e legumes, que elle +desde +creança adorava e chamava as <em>palanganas</em>. +Depois, barrando de +manteiga uma bolacha:<br /> + + +<br /> + + +―Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena não faz +honra ao circulo! Homem excellente, decerto, respeitavel, +obsequiador... Mas mudo, Pereira! Inteiramente mudo!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[88]</span> O lavrador +roçou vagarosamente pelas ventas cabelludas o +lenço vermelho,enrolado em bóla:<br /> + + +<br /> + + +―Sabe as cousas, pensa com acêrto...<br /> + + +<br /> + + +―Sim! mas pensamento e acêrto não lhe sahem de +dentro do craneo! Depois está muito velho, Pereira! Que +edade terá elle? +Sessenta?<br /> + + +<br /> + + +―Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O +avô durou até aos cem annos. E ainda o conheci na +loja...<br /> + + +<br /> + + +―Como, na loja?<br /> + + +<br /> + + +Então o Pereira, enrolando mais o lenço, +estranhou que o Fidalgo não soubesse a historia do Sanches +Lucena. Pois o avô, o Manoel +Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tambem +com uma +moça muito vistosa, muito farfalhuda...<br /> + + +<br /> + + +―Bem! atalhou o Fidalgo. Isso é honroso para o Sanches +Lucena. Gente que engordou, que trepou... E eu concordo, Pereira, o +circulo deve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha +n'elle terra, raizes, interesses, nome... Mas é preciso que +seja tambem +homem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes +questões, +nas crises, se erga, transporte a Camara!... E depois, Pereira amigo, +em Politica quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa! +Ainda em papel, a lapis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem +de <span class="pagenum">[89]</span>berrar em S. +Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros +a chiar.<br /> + + +<br /> + + +O Pereira abanou a cabeça, com tristeza:<br /> + + +<br /> + + +―Ahi talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre +faltou quem gritasse. Ahi talvez o Fidalgo acerte!<br /> + + +<br /> + + +Mas o Fidalgo emmudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro d'uma +caçoila nova, com raminhos de hortelã. E +então o Pereira, acercando mais a cadeira, cruzou no rebordo +da mesa as mãos, que meio +seculo de trabalho na terra tornára negras e duras como +raizes―e +declarou que se atrevera a incommodar o Fidalgo, áquellas +horas do +almocinho, porque n'essa semana começava um córte +de madeiras para +os lados de Sandim, e desejava, antes que surdissem outros arranjos, +conversar com S. Ex.<sup>a</sup> sobre o arrendamento da +Torre...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo reteve a colhér, num pasmo risonho:<br /> + + +<br /> + + +―Você queria arrendar a Torre, Pereira?<br /> + + +<br /> + + +―Queria conversar com V. Ex.<sup>a</sup>. Como o Relho +está +despedido...<br /> + + +<br /> + + +―Mas eu já tratei com o Casco, o José Casco dos +Bravaes! Ficamos meio apalavrados, ha dias... Ha mais de uma semana.<br /> + + +<br /> + + +O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, +grande pena... Elle só no sabbado s'inteirára da +desavença com o Relho. E, se o <span class="pagenum">[90]</span>Fidalgo +não resalvava o segredo, por quanto +ficára o arrendamento?<br /> + + +<br /> + + +―Não resalvo, não, homem! Novecentos e cincoenta +mil réis.<br /> + + +<br /> + + +O Pereira tirou da algibeira do collete a caixa de tartaruga, e sorveu +detidamente uma pitada, com o carão pendido para a esteira. +Pois maior pena, mesmo para o Fidalgo. Emfim! depois de palavra +trocada... Mas era pena, porque elle gostava da propriedade; +já pelo S. +João pensára em abeirar o Fidalgo; e, apezar dos +tempos correrem escassos, +não andaria longe de offerecer um conto e cincoenta, mesmo +um conto cento e cincoenta!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo esqueceu a sopa, n'uma emoção +que lhe afogueou a face fina, ante um tal accrescimo de renda―e a +excellencia de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o +mais fino amanhador de terras de todas as cercanias!<br /> + + +<br /> + + +―Isso é sério, oh Pereira?<br /> + + +<br /> + + +O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com +decisão:<br /> + + +<br /> + + +―Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para +caçoar com V. Ex.<sup>a</sup>! Proposta a valer, +escriptura a fazer... +Mas se o arrendamento está tratado...<br /> + + +<br /> + + +Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na meza para se +erguer, quando Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[91]</span>―Escute, homem!... +Eu, não contei por miudo o caso do +Casco. Você comprehende, sabe como essas cousas passam... O +Casco veiu, conversamos; eu pedi novecentos e cincoenta mil reis e +porco pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo adiante +emendou, que +não... Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o +compadre, e o afilhado, e o cão! Depois só. Andou +ahi pela quinta, a +medir, a cheirar a terra; acho até que a provou. Aquellas +rabulices do Casco!... Por +fim, uma tarde, lá gemeu, lá acceitou os +novecentos e +cincoenta mil reis, sem porco. Cedi do porco. Aperto de mão, +copo de vinho. Ficou de +apparecer para combinar, tratar da escriptura. Não o avistei +mais, ha +quasi duas semanas! Naturalmente já virou, já se +arrependeu... Para resumir, não tenho com o Casco contracto +firme. Foi uma conversa em que apenas estabelecemos, como base, a renda +de novecentos e cincoenta. E eu, que detesto cousas vagas, +já andava pensando em encontrar melhor +homem!<br /> + + +<br /> + + +Mas o Pereira coçava o queixo, desconfiado. Elle, em +negocios, gostava de lisura. Sempre se entendêra bem com o +Casco. Nem por um +condado se atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, +assomado. De modo que desejava as cousas claras, para não +surdir desgosto +rijo. Não se lavrára escriptura, bem! Mas +ficára, ou +não, palavra dada entre o Fidalgo e o Casco?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[92]</span> +Gonçalo Mendes Ramires, que findára +apressadamente a sopa e enchia um copo de vinho verde para se calmar, +fitou o lavrador, quasi severamente:<br /> + + +<br /> + + +―Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco +decisivamente a palavra de Gonçalo Ramires, estava agora +aqui a tratar, ou sequer a conversar comsigo, Pereira, sobre o +arrendamento da Torre?<br /> + + +<br /> + + +O Pereira baixou a cabeça. Tambem era verdade!... Pois, +n'esse caso, elle abria a sua tenção, claramente. +E, como +conhecia a propriedade, e apurára o seu calculo―offerecia +ao Fidalgo um conto cento e +cincoenta mil réis, sem porco. Mas não dava para +a familia +nem leite, nem hortaliça, nem fructa. O Fidalgo, homem +só, pouco +se aproveitava. A Torre, porém, casa antiga, enxameava de +gentes e +d'adherentes. Todos apanhavam, todos abusavam... Emfim, esse era o seu +principio. E de resto, para a meza do Fidalgo e mesmo dos creados, +bastava o pomar e a horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam +trato mais geitoso: mas elle, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por +lá passaria +e tudo luziria... Emquanto ás outras +condições, acceitava as do antigo arrendamento. E +escriptura assignada para a outra semana, no sabbado... Estava feito?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, depois de um momento em que pestanejou <span class="pagenum">[93]</span>nervosa e +tremulamente, estendeu a mão aberta ao Pereira:<br /> + + +<br /> + + +―Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!<br /> + + +<br /> + + +―E nosso Senhor lhe ponha virtude, concluiu o Pereira, firmado no +immenso guarda-sol para se erguer. Então no sabbado, em +Oliveira, para a escriptura... Assigna V. Ex.<sup>a</sup> +ou o Sr. padre Soeiro?<br /> + + +<br /> + + +Mas o fidalgo calculava:<br /> + + +<br /> + + +―Não, homem, não póde ser! No +sabbado, com effeito, estou em Oliveira, mas são os annos da +mana Maria da Graça...<br /> + + +<br /> + + +O Pereira destapou de novo os maus dentes, n'um riso de estima:<br /> + + +<br /> + + +―Ah! e como vae a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Graça? Ha que edades a +não vejo! Desde o anno passado, na procissão de +Passos, em Oliveira... +Muito boa senhora! Muito dada! E o Sr. José +Barrôlo? Pessoa +excellente tambem, a valer, o Sr. José Barrôlo... +E que terra a d'elle, +a <em>Ribeirinha</em>! A melhor propriedade d'estas vinte +leguas em redor. Linda propriedade! A do André Cavalleiro +que lhe está pegada, a +<em>Biscaia</em>, não se lhe +compára―é como cardo ao pé de couve.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre descascava um pecego, sorrindo:<br /> + + +<br /> + + +―Do André Cavalleiro nada presta, Pereira! Nem terra, nem +alma!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[94]</span> +O lavrador pareceu surprehendido. Elle imaginava que o Fidalgo e o +Cavalleiro continuavam chegados e amigos... Não em Politica! +Mas particularmente, como cavalheiros...<br /> + + +<br /> + + +―O que? Eu e o Cavalleiro? Nem como cavalheiro nem como politico. Que +elle nem é cavalheiro nem politico. É apenas +cavallo, e resabiado.<br /> + + +<br /> + + +O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:<br /> + + +<br /> + + +―Então está entendido, no sabbado, na cidade. E, +se não faz transtorno ao Fidalgo, passamos pelo +tabellião Guedes, e fica o feito +arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vae para a casa da senhora sua +mana...<br /> + + +<br /> + + +―Sempre. Appareça você ás trez horas. +Lá conversamos com o padre Soeiro.<br /> + + +<br /> + + +―Tambem ha que edades não encontro o Sr. padre Soeiro!<br /> + + +<br /> + + +―Oh! esse ingrato, agora, raramente apparece na Torre. Sempre em +Oliveira, com a mana Graça, que é a menina dos +seus encantos... Então nem um calice de vinho do Porto, +Pereira?... Bem, até +sabbado. Não esqueça o beijinho para o neto.<br /> + + +<br /> + + +―Cá me vae no coração, meu Fidalgo... +Ora essa! Pois consentia eu que V. Ex.<sup>a</sup> se +levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela cozinha para +debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do +paesinho de V. Ex.<sup>a</sup>, que Deus haja, +conheço bem a <span class="pagenum">[95]</span>Torre!... +E sempre +m'esperancei de trazer n'esta quinta uma lavoura a meu gosto, de +consolar!<br /> + + +<br /> + + +Durante o café, esquecido dos jornaes, Gonçalo +gozou a excellencia d'aquelle negocio. Duzentos mil réis +mais de renda. E a +Torre tratada pelo Pereira, com aquelle amor da terra e saber de lavra +que transformára o chavascal do Monte-Agra n'uma maravilha +de +seára, vinha e horta!... Além d'isso, homem +abastado, capaz de um +adeantamento. E eis ahi mais uma evidencia do valor da Torre, esse +affinco do Pereira em a arrendar, elle tão apertado, +tão seguro... Quasi +se arrependia de lhe não ter arrancado um conto e duzentos. +Emfim, a +manhã fôra fecunda! E, realmente, nenhum accordo +firmado o collava ao Casco. Entre elles apenas +s'esboçára uma conversa, sobre um arrendamento +possivel da Torre, a debater depois miudamente, n'uma base nova de +novecentos e cincoenta mil reis... E que insensatez se elle, por +escrupuloso respeito d'essa conversa esboçada, recusasse o +Pereira, retivesse o Casco, +lavrador de rotina―dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada +anno deperecendo, mais cançada e chupada!...<br /> + + +<br /> + + +―Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a egua sellada das cinco +para as cinco e meia. Sempre vou á <em>Feitosa</em>... +Hoje +é o dia!<br /> + + +<br /> + + +Accendeu um charuto, voltou á livraria. E, immediatamente +<span class="pagenum">[96]</span>releu o final +magnifico: «De mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a +honra e commigo!»―Ah! como alli gritava a alma inteira do +velho +portuguez, no seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira +d'almasso entre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a +Torre, as poeirentas frestas engradadas de ferro, as resistentes +ameias, ainda inteiras, onde agora adejava um bando de pombas... +Quantas manhãs, +ás frescas horas d'alva, o velho Tructesindo se +encostára áquellas +ameias, então novas e brancas! Toda a terra em redor, +semeada ou bravia, decerto pertencia ao poderoso Rico-Homem. E o +Pereira, n'esse tempo colono ou servo, +só abordava o seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas +não lhe +pagava um conto cento e cincoenta mil réis de sonora moeda +do Reino. Tambem, +que diabo, o vôvô Tructesindo não +precisava... +Quando os saccos rareavam nas arcas, e os acostados rosnavam por +tardança de soldo, o leal +Rico-Homem, para se prover, tinha as tulhas e as adégas dos +Concelhos mal +defendidos―ou então, n'uma volta de estrada, o +ovençal voltando +de recolher as rendas reaes, o bufarinheiro genovez com os machos +ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contára o +papá) ainda +negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes +chumbadas aos pilares, e na abobada a argola d'onde <span class="pagenum">[97]</span>pendia +a polé, e no +lagedo os buracos em que se escorava o potro. E, n'essa surda e humida +cova, ovençal, bufarinheiro, clerigos e mesmo burguezes de +fôro uivavam sob o açoite ou no torniquete, +até largarem agonizando +o derradeiro morabitino. Ah! a ramantica Torre, cantada tão +meigamente ao +luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafára!...<br /> + + +<br /> + + +E de repente, com um berro, Gonçalo agarrou de sobre a mesa +um volume de Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, +contra o tronco de uma faia. É que descortinára o +gato da Rosa +cozinheira, trepado, d'unhas fincadas n'um ramo, arqueando a espinha, +para assaltar um ninho de melros.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Quando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de +montar, polainas de couro polido, luvas de camurça branca, +parou a egua ao portão da <em>Feitosa</em>―um +velho todo +esfarrapado, com +longos cabellos cahidos pelos hombros e immensas barbas espalhadas pelo +peito, immediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodellas +de chouriço, bebendo d'uma cabaça, para o avisar +que +o Sr. Sanches Lucena e a Sr.<sup>a</sup> D. Anna andavam +por fóra, de +carruagem. +Gonçalo pediu ao velho que puchasse o ferro da sineta. E +entregando um cartão <span class="pagenum">[98]</span>ao +moço, que entreabrira a rica grade dourada, com um <em>S</em> +e um <em>L</em> +entrelaçados, sob uma corôa de conde:<br /> + + +<br /> + + +―O Sr. Sanches Lucena, bem?<br /> + + +<br /> + + +O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...<br /> + + +<br /> + + +―O que? Esteve doente?<br /> + + +<br /> + + +―Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha tres ou quatro semanas, andou muito +agoniado...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitissimo!<br /> + + +<br /> + + +Chamou o velho que repicára a sineta para o recompensar com +um tostão. E, interessado por aquellas barbaças e +melenas de mendigo de +Melodrama:<br /> + + +<br /> + + +―Vocemecê pede esmola por estes sitios?<br /> + + +<br /> + + +O homem ergueu para elle os olhos sujos, avermelhados da poeira e do +sol, mas risonhos, quasi contentes:<br /> + + +<br /> + + +―Tambem me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus, +lá me fazem muito bem.<br /> + + +<br /> + + +―Então quando lá voltar diga ao Bento... +Você conhece o Bento?<br /> + + +<br /> + + +Se conhecia! E a Snr.<sup>a</sup> Rosa...<br /> + + +<br /> + + +―Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças, +homem! Você assim, com essas calças, +não anda decente.<br /> + + +<br /> + + +O velho riu, n'um riso lento e desdentado, mirando <span class="pagenum">[99]</span>com gosto os sordidos +farrapos que lhe trapejavam nas canellas, mais denegridas e seccas que +galhos de inverno:<br /> + + +<br /> + + +―Rôtinhas, rôtinhas... Mas o Sr. dr. Julio diz que +me ficam assim bem. O Sr. dr. Julio, quando lá passo, sempre +me tira o retrato +na machina. Ainda na semana passada... Até com uns +pedaços de +grilhões dependurados do pulso, e uma espada erguida na +mão... Parece que para +mostrar ao Governo.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, rindo, picou a egua. Pensava agora em alongar por +Valverde: depois recolheria por Villa-Clara, e tentaria o +Gouvêa a +partilhar na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que +elle na vespera, na Assembléa, convidára o Manoel +Duarte +e o Titó. Mas ao atravessar a «Cruz das +Almas», onde a estrada de +Corinde, tão linda, com as suas filas d'alamos, crusa a +ladeira de Valverde, parou―notando ao fundo, para o lado de Corinde, +como o confuso esbarro d'uma carrada de lenha, e uma carriola +d'açougue, e uma mulher de +lenço escarlate bracejando sobre a albarda d'um burro, e +dous lavradores de enxada +ás costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou―a +mulher trotando no seu burrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo; a +carriola solavancando n'um rolo leve de poeira; o carro +avançando +para a «Cruz das Almas» a <span class="pagenum">[100]</span>chiar +tardamente; os cavadores descendo para uma +chã atravez das leiras de feno... Na estrada só +restou, como +desamparado, um homem de jaqueta ao hombro, que se arrastava +penosamente, coxeando. Gonçalo trotou, com curiosidade:<br /> + + +<br /> + + +―Que foi?... Vocemecê que tem?<br /> + + +<br /> + + +O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonçalo uma +face arrepanhada, quasi desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de +suor:<br /> + + +<br /> + + +―Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes, meu Fidalgo! Ora o +que hade ser? Desgraças d'esta vida!<br /> + + +<br /> + + +E, gemendo, contou a sua historia.―Desde mezes padecia d'uma chaga +n'um tornozello, que não seccára, nem com +emplastos, +nem com pó de murtinhos, nem com benzeduras... E agora +andava arriba, na fazenda do Sr. dr. Julio, a concertar um socalco, +para ajudar um compadre tambem doente com maleitas―e, zás, +desaba um pedregulho, que tópa +na ferida, leva a carne, lasca o osso, o deixa n'aquella lastima!... +Até +rasgára a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o +lenço.<br /> + + +<br /> + + +―Mas assim não póde andar, homem! D'onde +é vocemecê?<br /> + + +<br /> + + +―De Corinde, meu Fidalgo. Manoel Sôlha, do logar da Finta. +Até lá, sempre me hei-de arrastar.<br /> + + +<br /> + + +―E então, d'essa gente toda, que ahi estava ha bocado, +ninguem o poude ajudar?... Uma carriola, dous latagões...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[101]</span> +Uma rija guinada, no teimoso esforço de firmar a perna, +arrancou um grito ao Sôlha. Mas sorriu, arquejando... Que +queria o +Fidalgo? Cada um, n'este mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga +do burro +promettêra passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos +seus rapazes apparecesse na estrada com uma eguasita que elle +comprára pela +Paschoa―e que, por desgraça, tambem mancava!...<br /> + + +<br /> + + +Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:<br /> + + +<br /> + + +―Bem! Então, egua por egua, já +vocemecê tem aqui esta...<br /> + + +<br /> + + +O Sôlha embasbacou para Gonçalo:<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavallo, e V. +Ex.<sup>a</sup> a pé?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo ria:<br /> + + +<br /> + + +―Homem, com essas discussões de «eu a +pé» e «você a +cavallo», e «faz favôr» e +«não +senhor», é que perdemos um tempo precioso. Monte, +esteja quieto, e trote para a Finta!<br /> + + +<br /> + + +O outro recuava para a valleta da estrada, sacudindo a +cabeça, esgazeado, como no espanto de um sacrilegio:<br /> + + +<br /> + + +―Isso é que não, meu senhor, isso é +que não! Antes eu acabasse aqui á mingoa, com a +chaga em bolor!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo bateu o pé, com auctoridade:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[102]</span>―Monte, que mando +eu! Vocemecê é um lavrador de +enxada, eu sou um Doutor formado em Coimbra, sou eu que sei, sou eu que +mando!<br /> + + +<br /> + + +E o Sôlha, logo submisso ante aquella força +deslumbrante do Saber superior, agarrou em silencio a crina da egua, +enfiou respeitosamente o estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar +as luvas brancas, lhe amparava o pé entrapado e manchado de +sangue.<br /> + + +<br /> + + +Depois, quando elle repousou no sellim com um <em>ah!</em> +consolado:<br /> + + +<br /> + + +―Então que tal?<br /> + + +<br /> + + +O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na +gratidão e no assombro d'aquella caridade:<br /> + + +<br /> + + +―Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na egua do +Fidalgo! E o Fidalgo, o Sr. Gonçalo Ramires, da Torre, a +pé +pela estrada!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou +pela quinta do Dr. Julio, que agora se arrojára a obras e +plantações de vinha. Depois, como o Manoel +Sôlha conhecia o Pereira Brasileiro (que +pensára em arrendar as terras do Dr. Julio), conversaram +sobre esse esperto homem, sobre as grandezas da <em>Cortiga</em>. +Já sem +embaraço, +direito no sellim, no gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da +Torre, o Sôlha +esquecia a chaga, a dôr que adormentára. E +á +estribeira do Sôlha, attento e sorrindo, o Fidalgo estugava o +passo na poeira branca.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[103]</span> +Assim se avizinhavam da <em>Bica-Santa</em>, um dos sitios +decantados d'aquellas cercanias formosas. Ahi a estrada, cortada na +encosta d'um monte, alarga e fórma um arejado +terraço, d'onde +se abrange todo o valle de Corinde, tão rico em casaes, em +arvoredos, em +seáras, em aguas. No pendor do monte, coberto de carvalhos e +de fragas musgosas, +bróta a fonte nomeada, que já em tempos d'El-Rei +D. João +V curava males d'entranhas―e que uma devota senhora de Corinde, D. +Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar desde o alto até a um +tanque de +marmore, onde agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a +imagem e patrocinio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se +encurvam dous compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das +carvalheiras tolda de sombra e frescura. É um suave retiro +onde se +apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam +em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a +povoada, luminosa e verdejante largueza do valle.<br /> + + +<br /> + + +Antes porém de desembocar na <em>Bica-Santa</em>, +e perto do logar +do Serdal, a estrada de Corinde quebra n'uma volta:―e, ahi, de +repente, a egua pulou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, +desconfiado da pericia do Sôlha, a deitar a mão +á +caimba do freio. Fôra o encontro inesperado d'uma <span class="pagenum">[104]</span>carruagem―uma caleche +forrada d'azul, com a parelha coberta de rêdes brancas contra +a môsca, e na +almofada, têzo, um cocheiro de bigode, farda de golla +escarlate e chapéo de +tópe amarello. E Gonçalo mantinha ainda a egua +pelo freio, como arrieiro +serviçal em trilho perigoso―quando avistou, sentado n'um +dos bancos de pedra, junto da Bica, com um chale-manta por cima dos +joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o trintanario, agachado, +esfregava com um +mólho d'herva a botina que a bella D. Anna lhe estendia, +apanhando o vestido de linho crú, apoiando a outra +mão, sem luva, na cinta +vergada e fina.<br /> + + +<br /> + + +A desconcertada apparição do Fidalgo da Torre, +puxando pela rédea a sua egua onde se escarranchava +regaladamente um cavador em mangas de camisa, alvorotou aquelle +repousado e dormente recanto da <em>Bica</em>. +Sanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os oculos, n'um +arremesso de curiosidade que o levantára, com o +pescoço +esticado, o chale-manta escorregado para a relva. D. Anna recolheu +bruscamente a botina, logo empertigada, na gravidade condigna da +senhora da <em>Feitosa</em>, +retomando como uma insignia o cabo d'ouro da luneta d'ouro, suspensa +por um +cordão +d'ouro. E até o trintanario ria pasmadamente para o +Sôlha.<br /> + + +<br /> + + +Mas já, com o seu desembaraço elegante, +Gonçalo, <span class="pagenum">[105]</span>n'um +relance, saudára D. Anna, apertava com fervor a +mão espantada do Sanches +Lucena, e, alegremente se congratulava por aquelle encontro ditoso! +Pois vinha justamente da <em>Feitosa</em>! E ahi soubera +com +desgosto, por um +moço da quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas +ultimas semanas andára doente... E, então como +estava? como +estava?―Oh! a physionomia era excellente!<br /> + + +<br /> + + +―Pois não é verdade, Sr.<sup>a</sup> +D. Anna? O aspecto +é excellente!<br /> + + +<br /> + + +Com um leve requebro da cabeça, um fofo ondear do +mólho de plumas brancas sobre o chapéo de palha +vermelha, ella volveu n'uma +voz rolada, lenta e gorda, que arripiou Gonçalo:<br /> + + +<br /> + + +―O Sanches agora, graças a Deus, desfructa melhor saude...<br /> + + +<br /> + + +―Um pouco melhor, sim, com effeito, muito agradecido a V. Ex.<sup>a</sup>, +Sr. Gonçalo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado +homem, +repuxando para os joelhos o chale-manta.<br /> + + +<br /> + + +E, com os oculos a luzir, cravados em Gonçalo, na +curiosidade que o abrazava, quasi lhe rosára a face afilada, +mais amarella que +um cirio:<br /> + + +<br /> + + +―Mas, com perdão de V. Ex.<sup>a</sup>! como +é que V. +Ex.<sup>a</sup> anda por aqui, pela estrada de Corinde, +n'este estado, a pé, trazendo +á rédea um lavrador de enxada?...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[106]</span> +Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos formosamente negros, d'uma +funda refulgencia liquida, tambem esperavam, serios e reservados, +Gonçalo contou o desastre do bom homem, que +encontrára no caminho gemendo, arrastando a perna +escalavrada...<br /> + + +<br /> + + +―De sorte que lhe offereci a minha egua... E até, se V. +Ex.<sup>a</sup> me permitte, minha senhora, é +necessario que eu combine com +elle o resto da jornada...<br /> + + +<br /> + + +Rapidamente, voltou ao Sôlha, que, de novo acanhado ante os +senhores da <em>Feitosa</em>, com o chapeu na +mão, encolhido +sobre o sellim, +como attenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas +já Gonçalo lhe ordenava que trotasse para a +Finta―e lhe +mandasse a egua por um dos seus rapazes, alli á Bica-Santa, +onde elle se +demorava com o Snr. Conselheiro. E quando o Sôlha largou, +saudando +desabaladamente, torcido, como impellido a seu pezar pelos acenos +risonhos com que o Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena +recomeçou:<br /> + + +<br /> + + +―Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. +Gonçalo Mendes Ramires a trazer á +rédea, pela estrada de +Corinde, um cavador d'enxada! É a +repetição do Bom +Samaritano... Mas para melhor!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches +Lucena.―Oh! o Bom Samaritano não merecera <span class="pagenum">[107]</span>uma pagina tão +amavel no +Evangelho sómente por offerecer o burro a um Levita doente: +decerto mostrára +virtudes mais bellas...―E sorrindo para D. Anna, que, do outro lado de +Sanches Lucena, espalhava a luneta, com lentidão magestosa, +pelas +arvores e pela Fonte que tão bem conhecia:<br /> + + +<br /> + + +―Ha dous annos, minha senhora, que eu não tenho a honra...<br /> + + +<br /> + + +Mas Sanches Lucena despediu um grito:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Sr. Gonçalo Ramires! V. Ex.<sup>a</sup> +traz sangue na +mão!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camurça branca +resaltavam duas manchas arroxeadas:<br /> + + +<br /> + + +―Não é sangue meu! foi naturalmente quando o +Sôlha montou, e eu lhe segurei o pé escalavrado...<br /> + + +<br /> + + +Arrancou a luva, que arremessou para as hervas bravas, por traz do +banco de pedra. E continuando o sorriso:<br /> + + +<br /> + + +―Com effeito, não tenho a honra de encontrar a V. Ex.<sup>a</sup>, +minha senhora, desde o baile do barão das Marges, em +Oliveira, o famoso +baile de Entrudo... Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda me +recordo que V. Ex.<sup>a</sup> estava vestida +esplendidamente de +Catharina da Russia...<br /> + + +<br /> + + +E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos, +pensava:―«Formosa creatura! mas ordinaria! <span class="pagenum">[108]</span>e que +voz!...» D. Anna tambem se recordava do baile dos Marges:<br /> + + +<br /> + + +―O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu +não fui de Russa, fui de Imperatriz...<br /> + + +<br /> + + +―Sim, d'Imperatriz da Russia, de Grande Catharina... E com um gosto! +com um luxo!<br /> + + +<br /> + + +Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonçalo os oculos +d'ouro, apontou um dedo alongado e livido:<br /> + + +<br /> + + +―Pois tambem eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sr.<sup>a</sup> +D. Graça, trazia um trage de lavradeira de Vianna... Foi uma +luzidissima festa; nem admira; o nosso Marges é sempre +primoroso... E +desde essa noite não tornei a encontrar a mana de V. Ex.<sup>a</sup> +em +intimidade. Apenas de longe, na missa...<br /> + + +<br /> + + +De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa +montada, creadagem e cocheira―porque, ou culpa do ar ou culpa da agua, +não se dava bem na Cidade.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo acalorou mais o seu interesse:<br /> + + +<br /> + + +―Mas então, realmente, V. Ex.<sup>a</sup> o que +tem tido?<br /> + + +<br /> + + +Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os medicos, em Lisboa, +não se entendiam. Uns attribuiam ao estomago―outros +attribuiam ao +coração. Portanto, aqui ou alli, viscera +essencial atacada. E soffria +crises―más crises... Emfim, com a graça de <span class="pagenum">[109]</span>Deus, e regimen, e leite, +e +descanço, ainda esperava arrastar uns annos.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! com certeza! exclamou Gonçalo alegremente. E V. Ex.<sup>a</sup> +não pensa que a estada em Lisboa, e as Camaras, e a +Politica, a terrivel Politica, o fatiguem, o agitem?...<br /> + + +<br /> + + +Não, pelo contrario, Sanches Lucena passava toleravelmente +em Lisboa. Melhor mesmo que na <em>Feitosa</em>! Depois, +gostava +d'aquella +distracção das Camaras. E como conservava amigos +na Capital, uma roda escolhida, uma roda fina...<br /> + + +<br /> + + +―Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex.<sup>a</sup> +decerto conhece. Elle +é parente de V. Ex.<sup>a</sup>... O D. +João da +Pedrosa.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou +polidamente:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, o D. João, decerto...<br /> + + +<br /> + + +E Sanches Lucena, passando pelas suissas brancas a mão +magrissima, quasi transparente, onde reluzia um enorme annel d'armas de +saphira:<br /> + + +<br /> + + +―E não sómente o D. João... Outro dos +nossos amigos é egualmente parente de V. Ex.<sup>a</sup>, +e chegado. Muitas vezes +temos fallado de V. Ex.<sup>a</sup>, e da sua casa. Que +elle pertence tambem á primeira +nobreza... É o Arronches Manrique.<br /> + + +<br /> + + +―Cavalheiro muito dado, muito divertido! accrescentou D. Anna, com uma +convicção que lhe <span class="pagenum">[110]</span>alteou +o peito, a que o corpete +justo marcava a força viçosa e a +perfeição.<br /> + + +<br /> + + +A Gonçalo tambem nunca chegára esse nome +sonóro. Mas não hesitou:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes +em Lisboa, e vou tão pouco a Lisboa!... E V. Ex.<sup>a</sup>, +Sr.<sup>a</sup> D. +Anna...<br /> + + +<br /> + + +Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n'aquella conversa de +parentescos fidalgos:<br /> + + +<br /> + + +―V. Ex.<sup>a</sup>, naturalmente, tem em Lisboa toda a +sua parentella historica. Assim eu creio que V. Ex.<sup>a</sup> +é primo do +Duque de +Lourençal... O Duarte Lourençal! Elle +não usa o titulo, por Miguelismo, +ou antes por habito: mas emfim é o legitimo Duque de +Lourençal. +É quem representa a casa de Lourençal.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, sorrindo attentamente, desabotoára o +fraque, procurava a sua velha charuteira de couro.<br /> + + +<br /> + + +―Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos. Diz elle que somos +primos. E eu acredito. Entendo tão pouco d'arvores de +costado!... De +facto as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, +não só pelo lado d'Adão, mas pelos +Godos... E V. Ex.<sup>a</sup>, +Sr.<sup>a</sup> D. +Anna, prefere a estada em Lisboa?<br /> + + +<br /> + + +Mas, reparando que escolhera um charuto, distrahidamente o +trincára:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! perdão minha senhora... Ia fumar sem saber se V. +Ex.<sup>a</sup>...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[111]</span> +Ella saudou, descendo as longas pestanas:<br /> + + +<br /> + + +―O cavalheiro póde fumar; o Sanches não fuma, +mas eu até aprecio o cheiro.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo agradeceu, enjoado com aquella voz redonda e gorda, +aquelles horrendos «<em>cavalheiro, o cavalheiro</em>!...» +Mas +pensava:―«que linda pelle! que bella creatura!...» +E Sanches Lucena, inexoravel, +estendera o dedo agudo:<br /> + + +<br /> + + +―Pois eu conheço muito, não o Sr. D. Duarte +Lourençal, não tenho essa subida honra por ora, +mas seu irmão, o Sr. D. Philippe. +Cavalheiro estimabilissimo, como V. Ex.<sup>a</sup> decerto +sabe... E +depois, que talento... Que talento, no cornetim!<br /> + + +<br /> + + +―Ah!<br /> + + +<br /> + + +―O quê! V. Ex.<sup>a</sup> não ouviu +seu primo, o Sr. D. +Philippe Lourençal, tocar cornetim?<br /> + + +<br /> + + +E até a bella D. Anna se animou, com um sorriso languido dos +beiços cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o +fresco rebrilho dos dentes pequeninos:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! tóca ricamente! O Sanches gosta muito de musica; eu +tambem... Mas, como V. Ex.<sup>a</sup> comprehende, qui na +aldéa, com a falta de +recursos...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, arremessando o phosphoro, exclamára +logo, n'um sincero interesse:<br /> + + +<br /> + + +―Então, queria que V. Ex.<sup>a</sup> ouvisse +um amigo meu, que +é verdadeiramente sublime no violão, o +Videirinha!...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[112]</span> +Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo, +singelamente:<br /> + + +<br /> + + +―É um rapaz muito meu amigo, de Villa-Clara... O +José Videira, ajudante da Pharmacia...<br /> + + +<br /> + + +Os oculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:<br /> + + +<br /> + + +―Ajudante da Pharmacia e amigo do Sr. Gonçalo Mendes +Ramires!<br /> + + +<br /> + + +Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu. Até o Videirinha +passava as ferias na Torre, com a mãe, antiga costureira da +casa. +Tão bom rapaz, tão simples... E na realidade, no +violão, um +genio!<br /> + + +<br /> + + +―Agora tem elle uma cantiga admiravel que chamou o <em>Fado dos +Ramires</em>. A musica é com effeito um fado de +Coimbra, um fado +conhecido. Mas os versos são d'elle, umas quadras +engraçadas sobre +cousas da minha Casa, lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda ha +dias na Torre, comigo e com o Titó...<br /> + + +<br /> + + +E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro +reparo:<br /> + + +<br /> + + +―O Titó?<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo ria:<br /> + + +<br /> + + +―É uma velha alcunha d'amizade que nós damos ao +Antonio Villalobos.<br /> + + +<br /> + + +Então Sanches Lucena atirou ambos os braços, como +se alguem muito querido apparecesse na estrada:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[113]</span>―O Antonio +Villalobos! Mas esse é um dos nossos fieis e +bons amigos! Cavalheiro estimabilissimo! Quasi todas as semanas nos faz +o favor de apparecer pela <em>Feitosa</em>...<br /> + + +<br /> + + +E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o +Titó alludira, quando no Gago, na Torre, na +Assembléa, se berrava, politicando, o nome do Sanches Lucena!<br /> + + +<br /> + + +―Ah V. Ex.<sup>a</sup> conhece...<br /> + + +<br /> + + +Mas D. Anna, que se erguera bruscamente do banco, e, +debruçada, recolhia a luva e a sombrinha―lembrou ao marido +o estriar lento da tarde, a neblina subindo sempre áquella +hora do valle aquecido:<br /> + + +<br /> + + +―Sabes que nunca te faz bem... E tambem não faz bem +á parelha, assim parada, ha tanto tempo.<br /> + + +<br /> + + +Immediatamente Sanches Lucena, receioso, puxára da algibeira +um espesso lenço de sêda branca para abafar o +pescoço. E, receioso tambem pela parelha, logo se arrancou +pesadamente do banco de pedra, com um aceno cançado ao +trintanario para apanhar o chale, avisar o +cocheiro. Mas +ainda atravessou, vergado e arrimado á bengala, para o +parapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte, +dominando o valle. E confessava a Gonçalo que aquelle era, +nos arredores +da <em>Feitosa</em>, o seu passeio preferido. +Não +só pela +belleza do sitio, <span class="pagenum">[114]</span>já +cantado pelo «nosso mavioso Cunha Torres»;―mas +porque do terraço da Bica, sem esforço, sentado +no banco, avistava n'uma largueza +terras suas:<br /> + + +<br /> + + +―Olhe V. Ex.<sup>a</sup>... Para além d'aquelle +souto, até +á chã e ao comoro onde está a casota +amarella e por traz o pinhal, tudo +é meu... O pinhal ainda é meu... +Acolá, do renque d'álamos +para deante, depois do lameiro, é tambem meu... Alli, do +lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas, mais para lá, +passado o azinhal, pelo monte acima, +é tudo meu!<br /> + + +<br /> + + +O livido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira +preta, cresciam por sobre o valle.―Além os pastos... +Adeante os centeios... +Depois o bravio...―Tudo d'elle! E, por traz da magra figura +alquebrada, de chapéo enterrado na nuca, o abafo de seda +subido +até ás pallidas orelhas quasi despegadas, D. +Anna, esvelta, clara e sã como um +marmore, com um sorriso esquecido nos labios gulosos, o formoso peito +mais cheio, acompanhava a enumeração copiosa, +affincava a +luneta sobre os pastos, e os pinhaes, e os centeios, sentindo +já―tudo d'ella!<br /> + + +<br /> + + +―E agora acolá, detraz do olival, concluiu Sanches Lucena +com respeito, é sitio seu, Sr. Gonçalo Mendes +Ramires...<br /> + + +<br /> + + +―Meu?...<br /> + + +<br /> + + +―De V. Ex.<sup>a</sup>, quero dizer, ligado á +casa de V. Ex.<sup>a</sup>. Pois +não reconhece?... Além, por traz do <span class="pagenum">[115]</span>moinho, passa a estrada de +Santa Maria de Craquêde. São os tumulos dos seus +antepassados... Passeio que eu tambem ás vezes +faço, e com gosto. Ainda ha um +mez visitamos detidamente as ruinas. E acredite que fiquei +impressionado! Aquelle bocado de claustro tão antigo, os +grandes esquifes de pedra, a espada +chumbada á abobada por cima do tumulo do meio... +É de commover! E achei +muito bonito, muito filial, da parte de V. Ex.<sup>a</sup>, +o ter +sempre aquela lampada de bronze accêsa de noite e de dia...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo engrolou um murmurio risonho―porque não +se recordava da espada, nunca recommendára a lampada. Mas +Sanches Lucena, agora, +supplicava um precioso favor ao snr. Gonçalo Mendes Ramires. +E era que S. +Ex.<sup>a</sup> lhe concedesse a honra de o conduzir na +carruagem á Torre... +Alvoroçadamente Gonçalo recusou. Nem podia! +combinára com o homem +da perna dorida esperar alli, na Bica, pela sua egoa.<br /> + + +<br /> + + +―Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a egoa de V. Ex.<sup>a</sup> +á Torre.<br /> + + +<br /> + + +―Não, não, se V. Ex.<sup>a</sup> me +permitte, eu espero... +Depois metto pelo atalho da Crassa, porque tenho ás oito +horas na Torre, +á minha espera para jantar, o Titó.<br /> + + +<br /> + + +D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com +a ameaça renovada da <span class="pagenum">[116]</span>friagem, +do relento... Mas, junto da +caleche, Sanches Lucena ainda emperrou para affirmar a +Gonçalo, com a +descarnada mão sobre o encovado peito, que aquella tarde lhe +ficava celebre...<br /> + + +<br /> + + +―Porque vi uma cousa que poucas vezes se terá visto: o +maior fidalgo de Portugal, a pé pela estrada de Corinde, +levando á +rédea no seu proprio cavallo um cavador de enxada!<br /> + + +<br /> + + +Ajudado por Gonçalo, trepou emfim pesadamente ao estribo. D. +Anna já se enterrára nas almofadas, +alçando entre as +mãos, como uma insignia, o cabo rebrilhante da luneta +d'ouro. O trintanario tambem se entezou, cruzou os braços: e +a caleche apparatosa, com as manchas +brancas das rêdes dos cavallos, mergulhou no silencio e na +penumbra da +estrada, sob a espalhada ramaria das faias.<br /> + + +<br /> + + +«Que massada!» exclamou Gonçalo. E +não se consolava de tarde tão linda assim +desperdiçada... Intoleravel, esse Sanches Lucena, com +o Snr. D. Fulano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de +«róda +fina», e «tudo d'elle» por collina e +valle! A mulher, explendida péça de +carne, como filha de carniceiro,―mas sem migalha de graça +ou alma. E que voz, +Jesus, que voz! Gente pedante e sabuja...―E agora só +desejava +recuperar a sua egoa, galopar para a Torre, e desabafar com o +Titó, familiar +da <em>Feitosa</em>! o seu ásco por toda +aquella +Sancharia.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[117]</span> +A egoa não tardou, a tróte largo, montada pelo +filho do Sôlha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou +á estrada, de chapeu na +mão, encouchado e encarnado, balbuciando que o pae +chegára bem, pedia a Nosso +Senhor lhe pagasse a caridade...<br /> + + +<br /> + + +―Bem, bem! Recados a teu pae. Que estimo as melhoras. Lá +mandarei saber.<br /> + + +<br /> + + +N'um pulo montára―galopava pelo facil atalho da Crassa. +Mas, deante do portão da Torre, encontrou um moço +do Gago, com +um bilhete do Titó, annunciando que não podia +jantar na Torre porque partia +n'essa semana para Oliveira!<br /> + + +<br /> + + +―Que disparate! Para Oliveira tambem eu parto; mas janto hoje! +Até combinavamos, o levava na carruagem... Elle que ficou a +fazer, o Snr. D. Antonio?<br /> + + +<br /> + + +O rapaz coçou pensativamente a cabeça:<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. D. Antonio passou lá por casa para eu trazer o +bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que tem festa, porque entrou +defronte no tio Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...<br /> + + +<br /> + + +Aquellas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma +immensa inveja:<br /> + + +<br /> + + +―E onde é a festa, sabes?<br /> + + +<br /> + + +―Eu não sei, meu Fidalgo... Mas parece que é +cousa rija, porque o Snr. João Gouvêa encommendou +lá ao +patrão dous grandes pratos de bolos de bacalhau.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[118]</span> +Bolos de bacalhau! Gonçalo sentio como a amargura de uma +traição:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! que animaes!<br /> + + +<br /> + + +E de repente ideou uma vingança alegre:<br /> + + +<br /> + + +―Pois se vires hoje o Snr. D. Antonio ou o Snr. João +Gouvêa não te esqueças de lhes dizer +que sinto muito... Que eu tambem +cá tinha á noite na Torre uma festa. E havia +senhoras. Vinha a Snr.<sup>a</sup> +D. Anna Lucena... Não te esqueças, hein?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo galgou as escadas rindo da sua +invenção. Mas, n'essa noite, ás nove +horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manoel Duarte, +entrou na sala grande dos retratos, apenas allumiada pelo +lampeão dourado do corredor, para buscar uma caixa de +charutos. E casualmente, atravez da janella aberta, reparou n'um homem +que, em baixo, rente da sombra dos alamos, rondava, espreitava... Mais +attento, imaginou reconhecer os poderosos hombros, o andar bovino do +Titó. Mas +não, com certesa! o homem trasia jaqueta e +carapuço de lã. +Curioso, abafando os passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto +porém descera +da estrada, logo sumido sob as arvores d'uma quelha que contorna o +Casal do Miranda, e desemboca adiante, na Portella, junto das primeiras +casas de Villa-Clara.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +IV</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +O palacete dos Barrôlos em Oliveira (conhecido desde o +começo do seculo pela Casa dos <em>Cunhaes</em>) +erguia a sua fidalga +fachada de doze varandas no Largo d'El-Rei, entre uma solitaria viella +que conduz ao Quartel e a rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, +ladeirenta, opprimida pelo comprido terraço do jardim, e +pelo muro fronteiro da antiga +cerca das Monicas. E n'essa manhã, justamente quando +Gonçalo, na caleche da Torre puxada pela parelha do Torto, +desembocava no Largo d'El-Rei, subia pela Tecedeiras, dobrando a +esquina dos Cunhaes, n'um cavallo negro de fartas clinas, que feria as +lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o André +Cavalleiro, de collete branco e chapeu de palha. N'um +relance, do fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surprehendeu levantando +os pestanudos olhos <span class="pagenum">[120]</span>negros +para as varandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho, +rugindo surdamente―«que +biltre!» Ao apear no portão (um portão +baixo, como esmagado pelo +immenso escudo de armas dos Sás) tão suffocada +indignação o impellia que não reparou +nas effusões do porteiro, o velho Joaquim da Porta, e +esqueceu dentro da caleche os presentes para Gracinha, a caixa com o +guardasolinho e um cesto de flores da Torre coberto de papel de +sêda. Depois em cima, na +sala d'espera, onde José Barrôlo correra, ao +sentir nas +lages do Largo silencioso o estrepito do calhambeque, desabafou logo, +arrebatadamente, atirando o guarda pó para uma cadeira de +couro:<br /> + + +<br /> + + +―Oh senhores! Que eu não possa vir á cidade sem +encontrar de cara este animal do Cavalleiro! E sempre no Largo, +defronte da casa! É +sorte!... Esse bigodeira não achará outro logar +para onde +vá caracolar com a pileca?<br /> + + +<br /> + + +José Barrôlo, um moço gordo, de cabello +ruivo e crespo, com um buço claro n'uma face mais redonda e +córada que uma bella +maçã, accudiu, ingenuamente:<br /> + + +<br /> + + +―Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavallo lindo! Um cavallo lindo, +que comprou ao Marges!<br /> + + +<br /> + + +―Pois bem! É um burro feio em cima d'um cavallo bonito. Que +fiquem ambos na cavallariça. Ou que vão ambos +pastar +para as Devezas!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[121]</span> +O Barrôlo escancarou a bôca larga e fresca, de +soberbos dentes, n'um lento pasmo. E de repente, com uma patada no +soalho, vergado pela cinta, rompeu n'uma risada que o suffocava, lhe +inchava as veias:<br /> + + +<br /> + + +―Essa é d'arromba! Não, essa é para +contar no Club... Um burro feio em cima d'um cavallo bonito! E ambos a +pastarem!... Tu vens hoje rico, menino! Olha que essa! Ambos a +pastarem, com os focinhos na herva, o Governador civil e o cavallo... +É d'arromba!<br /> + + +<br /> + + +Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E +Gonçalo, adoçado por aquella +ovação que celebrava a sua facecia:<br /> + + +<br /> + + +―Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E +como vae a familia? A Gracinha?... Oh! viva a linda flôr!<br /> + + +<br /> + + +Era ella, com a sua ligeiresa airosa e menineira, os magnificos +cabellos soltos sobre um penteador de rendas, correndo +alvoroçada +para o irmão, que a envolveu n'um abraço e em +dous beijos sonoros. E +immediatamente, recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:<br /> + + +<br /> + + +―Positivamente estás mais gorda, até mais +alta... É sobrinho?... Não? nada, por ora?<br /> + + +<br /> + + +Gracinha córou, com aquelle seu languido sorriso que mais +lhe humedecia e lhe enternecia a doçura dos olhos +esverdeados.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[122]</span>―Se ella +não quer, ella não quer! gritava o +José Barrôlo, gingando, com as mãos +enterradas nos bolsos do jaquetão que lhe +desenhava as ancas roliças. A culpa não +é cá +do patrão... Mas ella não se decide!<br /> + + +<br /> + + +O fidalgo da Torre reprehendeu a irmã:<br /> + + +<br /> + + +―Pois é necessário um menino. Eu por mim +não caso, não tenho geito: e lá se +vão d'esta feita Barrôlos e +Ramires! A extincção dos Barrôlos +é uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal. +Portanto, Snr.<sup>a</sup> D. Graça Ramires, +depressa, em nome da +nação, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu +pretendo que se chame Tructesindo!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo protestou, aterrado:<br /> + + +<br /> + + +―O que? Turtesinho? Não! para tal sorte não o +fabríco eu!<br /> + + +<br /> + + +Mas Gracinha deteve aquelles gracejos picantes, desejosa de saber da +Torre, e do Bento, e da Rosa cosinheira, e da horta, e dos +pavões... Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida +de contadores da India, de pesados cadeirões dourados de +damasco azul, com +tres varandas sobre o Largo d'El-Rei. Barrôlo enrolou um +cigarro, reclamou +a historia do Relho, da grande desordem. Tambem elle +arranjára uma +«pega» com o rendeiro da <em>Ribeirinha</em>, +por causa d'um +córte de pinhal. +Essa do Relho porém fôra tremenda...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[123]</span> +E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo camapé +azul, desabotoando preguiçosamente o jaquetão de +chaviote claro:<br /> + + +<br /> + + +―Não! foi muito simples. Já ha mezes esse Relho +andava bebedo, sem despegar... Uma noite berrou, ameaçou a +Rosa, agarrou n'uma +espingarda. Eu desci, e n'um instante a Torre ficou +desembaraçada de +Relhos e de barulhos.<br /> + + +<br /> + + +―Mas veio o Regedor, com cabos! accudio o Barrôlo.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo saccudiu os hombros, impaciente:<br /> + + +<br /> + + +―Veio o regedor? Veio depois, para legalisar! Já o homem +abalára, corrido. E como resultado arrendei a Torre ao +Pereira, ao Pereira da Riosa...<br /> + + +<br /> + + +Contou esse negocio excellente, tratado na varanda, ao +almoço, entre dous copos de vinho verde. Barrôlo +admirou a renda―gabou o +rendeiro. Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a +quinta de +Treixedo, terra tão generosa, tão mal amanhada!<br /> + + +<br /> + + +Á borda do camapé, coberta pelos bellos cabellos +que lavára n'essa manhã e que cheiravam a +alecrim, Gracinha comtemplava o irmão com +ternura:<br /> + + +<br /> + + +―E do estomago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?<br /> + + +<br /> + + +―Oh! esse animal! exclamou Gonçalo. Ha dias prometteu +jantar na Torre, até a Rosa assou um cabrito no espeto, +magnifico... Depois +falhou: creio<span class="pagenum">[124]</span> +que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Elle vem esta semana a +Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da +intimidade do Titó com o Sanches Lucena?<br /> + + +<br /> + + +Historiou então, com exagero alegre, o encontro da +Bica-Santa, o horror que lhe causára a bella D. Anna, a +descoberta inesperada +d'essa familiaridade do Titó na <em>Feitosa</em>.<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo recordou que uma tarde, antes do S. João, +avistára o Titó, deante do portão da <em>Feitosa</em>, +a passear +pela trela um +cãosinho branco de regaço...<br /> + + +<br /> + + +―Mas o que eu não comprehendo, menino, é esse +teu «horror» pela D. Anna... Caramba! Mulher +soberba! Um quebrado de quadris, uns +olhões, um peitoril...<br /> + + +<br /> + + +―Calle essa bôca impura, devasso! gritou Gonçalo. +Pois aqui ao lado da sua mulher, que é a flôr das +Graças, +ousa louvar semelhante peça de carne!<br /> + + +<br /> + + +Gracinha rindo, sem ciumes, comprehendia «a +admiração do José.» +Realmente, a Anna Lucena, que vistosa, que bella!...<br /> + + +<br /> + + +―Sim, concedeu Gonçalo, bella como uma bella egoa... Mas +aquella voz gorda, papuda... E a luneta, os modos... E «o +cavalheiro +póde fumar, o cavalheiro está +enganado...» Oh! senhores, +pavorosa!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo gingava, deante do sophá, com as +mãos nos bolsos da rabona:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[125]</span>―Uvas verdes, Snr. +D. Gonçalo, uvas verdes!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:<br /> + + +<br /> + + +―Nem que ella se me offerecesse, de joelhos, em camisa, com os +duzentos contos do Sanches n'uma salva d'ouro!<br /> + + +<br /> + + +Sorrindo, vermelha como uma pionia, com um «oh» +escandalisado, Gracinha bateu no hombro de Gonçalo―que +puxou por ella, +galhofeiramente:<br /> + + +<br /> + + +―Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! +Com effeito, só pensar na D. Anna arrasta a gente +ás imagens +brutaes... Dizias então do estomago... Sim, filha, +combalido. E ha dias mais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da +companhia beberrona do Manoel Duarte. Tu tens +cá agua de Vidago?... Então, +Barrôlinho, sê +angelico. Manda trazer já uma garrafinha bem fresca. E olha! +pergunta se subiram um +açafate e uma caixa de papelão que eu deixei na +caleche? Que ponham no meu +quarto. E não desembrulhes, que é surpreza... +Escuta! Que +me levem agua bem quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma +poeirada por esse caminho!<br /> + + +<br /> + + +E quando o Barrôlo abalou, a rebolar e a assobiar, +Gonçalo, esfregando as mãos:<br /> + + +<br /> + + +―Pois vocês ambos estão explendidos! E na +harmonia que convem. Tu positivamente mais fórte, <span class="pagenum">[126]</span>mais cheia. Até +pensei +que fosse sobrinho. E o Barrôlo mais delgado, mais leve...<br /> + + +<br /> + + +―Oh, agora o José passeia, monta a cavallo, já +não adormece tanto depois de jantar...<br /> + + +<br /> + + +―E a outra familia? A tia Arminda, o rancho Mendonça? +Bem?... Padre Sueiro, que é feito d'esse santo?<br /> + + +<br /> + + +―Teve um ataquesito de rheumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre +no Paço do Bispo, na Bibliotheca... Parece que se entretem a +fazer um livro sobre os Bispos.<br /> + + +<br /> + + +―Bem sei, a Historia da Sé d'Oliveira... Pois eu tambem +tenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.<br /> + + +<br /> + + +―Ah!<br /> + + +<br /> + + +―Um Romance pequeno, uma Novella, para os <em>Annaes de +Litteratura e de Historia</em>, uma Revista que fundou um rapaz +meu amigo, o +Castanheiro... +É sobre um facto historico da nossa gente... Sobre um +avô +nosso, muito antigo, Tructesindo.<br /> + + +<br /> + + +―Tem graça, que fez elle?<br /> + + +<br /> + + +―Horrores. Mas é pittoresco... E depois o Paço +de Santa Ireneia, no século XII, em todo o seu explendor! +Emfim uma bella +reconstrucção do velho Portugal e sobre tudo dos +velhos Ramires. Has-de gostar... +Não ha amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma +das nossas antepassadas, uma <span class="pagenum">[127]</span>D. +Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu chic, hein?... E tu +comprehendes, como eu desejo tentar a Politica, preciso primeiramente +apparecer, espalhar o meu nome...<br /> + + +<br /> + + +Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:<br /> + + +<br /> + + +―E agora tens alguma idéa? A tia Arminda lá +continua sempre com a teima que devias entrar na Diplomacia. Ainda ha +dias... «Ai, o +Gonçalinho, assim galante, e com aquelle nome, só +n'uma grande +embaixada!»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo despegára lentamente do vasto +camapé, reabotoando o jaquetão claro:<br /> + + +<br /> + + +―Com effeito ando com uma idéa, ha dias... Talvez me viesse +d'um romance inglez, muito interessante, e que te recommendo, sobre as +antigas Minas de Ophir, <em>King Salomon's Mines</em>... +Ando com +idéas de ir para a Africa.<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo, credo! Para a Africa?<br /> + + +<br /> + + +O escudeiro entrára com duas garrafas de agua de Vidago, +ambas desarrolhadas, n'uma salva. Precipitadamente, para aproveitar o +«piquesinho», Gonçalo encheu um copo +enorme de crystal lavrado. Ah! que delicia d'agua!―E como o +Barrôlo voltava, annunciando que +cumprira as ordens de S. Ex.<sup>a</sup>:<br /> + + +<br /> + + +―Bem! então logo conversamos ao almoço, +Gracinha! Agora lavar, mudar de roupa, que não paro com +estas infames comichões...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[128]</span> +Barrôlo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais +espaçosos e alegres do Palacete, forrado de cretones +côr de canario com uma +varanda para o jardim, e duas janellas de peitoril sobre a rua das +Tecedeiras e os velhos arvoredos do convento das Monicas. +Gonçalo impaciente +despiu logo +o casaco, saccudiu para longe o collete:<br /> + + +<br /> + + +―Pois tu estás explendido, Barrôlo! Deves ter +perdido tres ou quatro kilos. São naturalmente os kilos que +Gracinha ganhou... +Vocês, se assim se equilibram, ficam perfeitos.<br /> + + +<br /> + + +Deante do espelho Barrôlo acariciava a cinta, com um risinho +deleitado:<br /> + + +<br /> + + +―Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas +calças...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo abrira o gavetão da rica commoda de +ferragens douradas, onde conservava sempre roupa (até duas +casacas), para evitar o +transporte de malas entre os Cunhaes e a Torre. E ria, aconselhava o +bom +Barrôlo a «adelgaçar» sem +descanço, +para belleza da futura raça Barrolica―quando em baixo, na +silenciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavallo de luxo feriram as +lages em cadencia lenta.<br /> + + +<br /> + + +Logo desconfiado, Gonçalo correu á janella, ainda +com a camisa que desdobrava. E era <em>elle</em>! Era o +André +Cavalleiro, que descia +ladeando, sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor +<span class="pagenum">[129]</span>a rampa +mal empedrada. Gonçalo virou para o Barrôlo a face +chammejante de furôr:<br /> + + +<br /> + + +―Isto é uma provocação! Se este +descarado d'este Cavalleiro passa outra vez na maldita pileca, por +debaixo das janellas, apanha com um balde d'agua suja!...<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, inquieto, espreitou:<br /> + + +<br /> + + +―Naturalmente vae para casa das Louzadas... Anda agora muito intimo +das Louzadas... Sempre por aqui o vejo... E é para as +Louzadas.<br /> + + +<br /> + + +―Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não ha +outro caminho para casa das Louzadas? Duas vezes em meia hora! Grande +insolente! Tem uma chapada d'agua de sabão, pela grenha e +pela bigodeira, +tão certo como eu ser Ramires, filho de meu pae Ramires!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo beliscava a pelle do pescoço, constrangido +ante aquelles rancores ruidosos que desmanchavam o seu socego. +Já, por +imposição de Gonçalo, rompera +desconsoladamente com o Cavalleiro. E agora +antevia sempre uma bulha, um escandalo que o indisporia com os amigos +do Cavalleiro, lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada, +lhe +tornaria Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da <em>Ribeirinha</em> +ou da <em>Murtosa</em>, solidões detestadas. +Não se conteve, +arriscou o costumado reparo:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[130]</span>―Ó +Gonçalinho, olha que tambem todo esse +espalhafato só por causa da Politica...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo quasi quebrou o jarro, na furia com que o pousou +sobre o marmore do lavatorio:<br /> + + +<br /> + + +―Politica! Ahi vens tu com a Politica! Por Politica não se +atira agua suja aos Governadores Civis. Que elle não +é +Politico, é só malandro! Além d'isso...<br /> + + +<br /> + + +Mas terminou por encolher os hombros, emmudecer, diante do pobre +bacôco de bochechas pasmadas, que, n'aquellas rondas do +Cavalleiro pelos Cunhaes, só notava o «lindo +cavallo» ou +«o caminho mais curto para as Louzadas!...»<br /> + + +<br /> + + +―Bem! resumiu. Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me +encarrego eu.<br /> + + +<br /> + + +―Então, até logo... Mas se elle passar nada +d'asneiras, hein?<br /> + + +<br /> + + +―Só justiça, aos baldes!<br /> + + +<br /> + + +E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrôlo, +que, pelo corredor, suspirando, lamentava o assomado genio do +Gonçalinho, as coleras desproporcionadas em que o +lançava «a +Politica.»<br /> + + +<br /> + + +Em quanto se ensaboava com vehemencia, depois se vestia n'uma pressa +irada, Gonçalo ruminou aquelle intoleravel escandalo. +Fatalmente, apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande +guedelha, caracolando por sob as janellas do palacete, <span class="pagenum">[131]</span>na pileca de grandes +clinas! E o que o desolava era perceber no +coração de Gracinha, pobre +coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz +de ternura pelo Cavalleiro, bem enterrada, ainda vivaz, facil de +reflorir... E nenhum outro sentimento forte que a defendesse, n'aquella +ociosidade d'Oliveira―nem superioridade do marido, nem encanto d'um +filho no seu berço. Só a amparava o orgulho, +certo respeito +religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e +mexeriqueira. A sua salvação seria o abandono da +cidade, o encerrado +retiro n'uma das quintas do Barrôlo, a <em>Ribeirinha</em>, +sobretudo a <em>Murtosa</em>, +com a linda matta, os musgosos muros de convento, a aldêa em +redor para +ella se occupar como castellã benefica. Mas quê! +Nunca o +Barrôlo, consentiria em perder o seu voltarete no Club, e a +cavaqueira da tabacaria +«Elegante», e as chalaças do Major Ribas!<br /> + + +<br /> + + +Afogueado pelo calor, pela emoção, +Gonçalo abriu a varanda. Em baixo, no curto +terraço ladrilhado, orlado de vasos de +louça, precedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os +cabellos por cima do penteador, conversava com outra senhora, muito +alta, muito magra, de chapeu marujo enfeitado de papoulas, que segurava +entre os braços um repolhudo +mólho de rosas. + +<span class="pagenum">[132]</span> +Era a «prima» Maria Mendonça, mulher de +José Mendonça, condiscipulo do Barrôlo +em Amarante, agora capitão do Regimento de +Cavallaria estacionado em Oliveira. Filha d'um certo D. Antonio, senhor +(hoje Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela +preoccupação de parentescos fidalgos, de origens +fidalgas, ligava sempre surrateiramente o vago solar de Severim a todas +as casas nobres de Portugal―sobre tudo, mais gulosamente, á +grande casa de Ramires: e, desde que o +regimento se aquartellára em Oliveira, tratára +logo Gracinha +por «tu» e Gonçalo por +«primo», com a intimidade especial, que convem a +sangues superiores. Todavia mantinha amisades muito seguidas e activas +com brazileiras ricas d'Oliveira―até com a viuva Pinho, +dona da loja de pannos, +que (segundo se murmurava) lhe fornecia os dous filhos ainda pequenos +de +calções e de jalecas. Tambem convivia +intimamente, já na cidade, +já na <em>Feitosa</em>, com D. Anna Lucena. +Gonçalo gostava da sua graça, da +sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava n'uma linda +crepitação de galho, ardendo com alegria. E +quando, ao rumor da janella perra, ella levantou os olhos lusidios e +espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:<br /> + + +<br /> + + +―Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janella...<br /> + + +<br /> + + +―E para mim, primo Gonçalo, que o não via <span class="pagenum">[133]</span>desde +a sua volta de Lisboa!... Pois está mais lindo, assim de +bigode...<br /> + + +<br /> + + +―Dizem que estou lindissimo, absolutamente irresistivel! +Até aconselho á prima Maria que se não +approxime muito de mim, +para se não incendiar.<br /> + + +<br /> + + +Ella deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado +molho de rosas:<br /> + + +<br /> + + +―Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometti +á prima Graça jantar cá esta tarde!... +Oh Gracinha, por quem +és, põe um biombo entre os dois!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já +deliciado com os chistes da prima Maria:<br /> + + +<br /> + + +―Não! enfio eu um <em>abat-jour</em> pela +cabeça para +attenuar o meu brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vae o nobre +rancho?<br /> + + +<br /> + + +―Vivendo, com algum pão e muita graça de Deus... +Então até logo, primo Gonçalo! E seja +misericordioso!<br /> + + +<br /> + + +E ainda elle ria, encantado―já a prima Maria depois de +cochichar e d'estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, +desapparecêra pela porta envidraçada da sala com a +sua elegancia esgalgada. +Gracinha, lentamente, subiu os tres degraus de marmore do jardim. Da +varanda, Gonçalo ainda avistou atravez da ramaria leve, +entre as +sebes de buxo, o penteador branco, os fartos cabellos cabidos, <span class="pagenum">[134]</span>relusindo no sol como uma +cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas, +desappareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.<br /> + + +<br /> + + +Mas Gonçalo não se arredou d'entre as janellas, +limando vagamente as unhas, espreitando pelas cortinas, n'uma +desconfiança, quasi +n'um terror que o Cavalleiro de novo surgisse na pileca―agora que +Gracinha se embrenhára para os lados d'esse commodo Mirante, +construcção do seculo XVIII, imitando um +Templosinho do Amor, que rematava o longo +terraço do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a +calçada +permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do +Palacete e do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da +espionagem―certo que a irmã não se mostraria ao +Cavalleiro na +varandinha do Mirante, assim com os cabellos em desalinho, por cima +d'um penteador.<br /> + + +<br /> + + +E cerrava a porta, quando se encontrou deante dos braços do +Padre Sueiro, que o prenderam pela cinta com affago e respeito.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu ingratissimo Padre Sueiro! exclamava Gonçalo, +batendo ternamente nas gordas costas do Capellão. +Então +que feia acção foi esta? Mais de um mez sem +apparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Sueiro +já não ha Gonçalinho, ha só +Gracinha...<br /> + + +<br /> + + +Enternecido, quasi com uma lagrima a bailar <span class="pagenum">[135]</span>nos +mansos olhos miudos, que mais negrejavam entre a frescura rozea da face +roliça e a +cabecinha branca como algodão―Padre Sueiro sorria, fechando +as +mãos sobre o peito +da batina d'alpaca, d'onde surdia a ponta de um lenço de +quadrados vermelhos. E não lhe escasseára +certamente o +desejo d'ir á Torre. Mas aquelle trabalhinho na Bibliotheca +do Paço do Bispo... +Depois o seu rheumatismosito... Emfim a Sr.<sup>a</sup> D. +Graça sempre esperando +S. Ex.<sup>a</sup>, um dia, outro dia...<br /> + + +<br /> + + +―Bem, bem! acudiu alegremente Gonçalo, comtanto que o +coração não se esquecesse da Torre...<br /> + + +<br /> + + +―Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com commovida gravidade.<br /> + + +<br /> + + +E pelo corredor de paredes azues, adornadas com gravuras coloridas das +batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as +novidades da Torre:<br /> + + +<br /> + + +―Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquelle escandalo do Relho... E +ainda bem, porque conclui um negocio explendido. Imagine! Arrendei ha +dias a quinta ao Pereira Brazileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto +cento e cincoenta mil réis...<br /> + + +<br /> + + +O capellão suspendeu a pitada, que colhera n'uma caixa de +prata dourada, pasmado para o Fidalgo:<br /> + + +<br /> + + +―Ora ahi está como as cousas se inventam! Pois por +cá constou que V. Ex.<sup>a</sup> +tratára com o José +Casco, o José +Casco dos Bravaes. Até no Domingo, ao almoço, a +Sr.<sup>a</sup> D. +Graça...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[136]</span>―Sim, interrompeu +o Fidalgo com uma fugidia côr na face +fina. Effectivamente o Casco veio á Torre, +conversámos. +Primeiramente quiz, depois não quiz. Aquellas cousas do +Casco! Einfim, uma +massada... Não ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma +bella manhã, me +appareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, acceitei, e com +que alvoroço!... Imagine! Um augmento soberbo de renda, o +Pereira como rendeiro... O Padre Sueiro conhece bem o Pereira...<br /> + + +<br /> + + +―Homem entendido, concordou o Capellão coçando +embaraçadamente o queixo. Não ha duvida. E homem +de bem... Depois +não havendo palavra dada ao Cas...<br /> + + +<br /> + + +-―Pois o Pereira para a semana vem á cidade, atalhou +apressadamente Gonçalo. O Padre Sueiro previne o +tabellião +Guedes, e assignamos essa bella escriptura. São as +condições +costumadas. Creio que ha uma reserva a respeito da hortaliça +e do porco... Emfim o Padre Sueiro +deve receber carta do Pereira.<br /> + + +<br /> + + +E immediatamente, descendo a escada, passando o lenço +perfumado pelo bigode, gracejou com o capellão sobre o +famoso <em>Fado +dos +Ramires</em> em que elle collaborava com o Videirinha. Oh! Padre +Sueiro fornecera lendas sublimes! Mas aquella de Santa +Aldonça, realmente, +fôra ataviada com exageração... Quatro +Reis a levarem a Santa aos +hombros!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[137]</span>―São +Reis de mais, Padre Sueiro!<br /> + + +<br /> + + +O bom capellão protestou, logo interessado e serio, no amor +d'aquella obra que glorificava a Casa:<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa! Com perdão de V. Ex.<sup>a</sup>... +Perfeitissimamente +exacto. Lá o conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas <em>Damas +da +Côrte do +Ceu</em>, livro precioso, livro rarissimo, que o Sr. +José Barrôlo +tem na Livraria. Não especifica os Reis, mas diz quatro... +«Aos hombros de quatro +Reis e com acompanhamento de muitos Condes.» Mas o nosso +José +Videira declarou que não podia metter os Condes por causa da +rima.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo ria, dependurando n'um cabide, ao fundo da escada, o chapeu +de palha com que descêra:<br /> + + +<br /> + + +―Por causa da rima, pobres Condes... Mas o fado está lindo. +Eu trago uma copia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra +cousa, Padre Sueiro. O que se conta por ahi do Governador Civil, d'esse +Sr. +André Cavalleiro?...<br /> + + +<br /> + + +O capellão encolheu os hombros, desdobrando cautelosamente o +seu vasto lenço de quadrados vermelhos:<br /> + + +<br /> + + +―Eu, como V. Ex.<sup>a</sup> sabe, não entendo +de Politica. Depois +tambem não frequento os cafés, os sitios onde se +questiona Politica... +Mas parece que gostam.<br /> + + +<br /> + + +No corredor um escudeiro gordo, de opulentas <span class="pagenum">[138]</span>suissas +ruivas, que +Gonçalo não conhecia, badalou a sineta do +almoço. +Gonçalo reparou, avisou o homem que a Snr.<sup>a</sup> +D. Maria da Graça +andava para o fundo do +jardim...<br /> + + +<br /> + + +―Entrou agora, Snr. D. Gonçalo! accudiu o escudeiro. E +até manda perguntar se V. Ex.<sup>a</sup> deseja +para o +almoço vinho verde de +Amarante, de <em>Vidainhos</em>.<br /> + + +<br /> + + +Sim, com certeza, vinho de <em>Vidainhos</em>. Depois +sorrindo:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu não +tenho <em>Dom</em>. Sou simplesmente Gonçalo, +graças a Deus!<br /> + + +<br /> + + +O capellão murmurou que todavia, em documentos da Primeira +Dynastia, appareciam Ramires com <em>Dom</em>. E, como +Gonçalo parara deante +do reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas +escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.<br /> + + +<br /> + + +―Então, Padre Sueiro, por quem é!<br /> + + +<br /> + + +Mas elle, com apegado respeito:<br /> + + +<br /> + + +―Depois de V. Ex.<sup>a</sup>, meu senhor...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o +capellão:<br /> + + +<br /> + + +―Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira Dynastia se +estabeleceu que os Santos nunca andam atraz dos Peccadores!<br /> + + +<br /> + + +―V. Ex.<sup>a</sup> manda, e sempre com que +graça!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[139]</span> +Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas tres horas, +Gonçalo, recolhendo com Padre Sueiro d'uma visita +á Bibliotheca do +Paço do Bispo, sentiu logo da antecamara o +vozeirão do Titó, que +rolava na sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o +reposteiro―e sacudiu o +punho para o immenso homem que enchia um dos cadeirões +dourados, +estirando por sobre as flôres do tapete umas botas novas de +grossas tachas +reluzentes:<br /> + + +<br /> + + +―Oh infame!... Então n'outro dia assim me larga, sem +escrupulo, depois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado n'um +espeto de cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com +bolinhos +de bacalhau e bichinhas de rabear!<br /> + + +<br /> + + +Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:<br /> + + +<br /> + + +―Impossibilissimo. De tarde encontrei o João Gouveia no +Chafariz. E só então nos lembrámos de +que eram os annos da D. +Casimira. Dia sagrado!<br /> + + +<br /> + + +Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas +«pandegas» com violão, impressionavam +sempre Barrôlo, que as appetecia. E com o olho +aguçado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente +pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Japão:<br /> + + +<br /> + + +―Quem é a D. Casimira? Vocês em Villa-Clara +descobrem uns typos... Conta lá!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[140]</span>―Um monstro! +declarou Gonçalo. Uma matronaça +bojuda como uma pipa, com um pêllo nojento no +queixo. Vive ao pé do +Cemiterio, n'um cacifro que tresanda a petroleo, onde este senhor e as +auctoridades vão +jogar o quino, e derriçar com umas serigaitas de cazabeque +vermelho +e de farripas... Nem se póde decentemente contar deante do +Snr. +Padre Sueiro!<br /> + + +<br /> + + +O capellão, que sem rumor se esbatera n'uma sombra discreta, +entre os franjados setins d'uma cortina e um pesado contador da India, +moveu os hombros n'um consentimento risonho, como acostumado a todas as +fealdades do Peccado. E, com pachorra, o Titó emendava o +esboço burlesco do Fidalgo:<br /> + + +<br /> + + +―A D. Casimira é gorda, mas muito aceada. Até me +pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade, uma bacia nova d'assento. A +casa +não cheira a petroleo e fica por traz do convento de Santa +Theresa. As serigaitas +são simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que +gostam de rir e de troçar... E o Snr. Padre Sueiro podia, +sem medo...<br /> + + +<br /> + + +―Bem, bem! atalhou Gonçalo. Gente deliciosa! Deixemos a D. +Casimira, que tem bacia nova para os seus semicupios... Vamos +á outra +infamia do Sr. Antonio Villalobos!<br /> + + +<br /> + + +Mas Barrôlo insistia, curioso:<br /> + + +<br /> + + +―Não, não, conta lá, +Titó... Noite d'annos, patuscada rija, hein?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[141]</span>―Ceia pacata, +contou o Titó com a seriedade que lhe merecia +a festa das suas amigas. A D. Casimira tinha uma bella frangalhada com +ervilhas. O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de +bôlos +de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O +Videirinha tocou, as pequenas cantaram... Não se passou mal.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo esperava―irresistivelmente interessado pela ceia +das Casimiras:<br /> + + +<br /> + + +―Acabou, hein?... Agora a outra infamia, mais grave! Então +o Snr. Antonio Villalobos é intimo do Sanches Lucena, +frequenta +todas as semanas a <em>Feitosa</em>, toma chá e +torradas +com a bella D. +Anna, e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilegios +gloriosos?...<br /> + + +<br /> + + +―Sem contar, gritou o Barrôlo deliciosamente divertido, que +lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos!<br /> + + +<br /> + + +―Sem contar que lhe passeia á trela os cãesinhos +felpudos! echoou cavamente Gonçalo. Responda, meu illustre +amigo!<br /> + + +<br /> + + +O Titó remecheu o vasto corpo dentro do cadeirão, +recolheu as botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, +que uma +vermelhidão aquecêra. E depois de encarar +Gonçalo, +intensamente, com um esforço de sagacidade que mais o +afogueou:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[142]</span>―Tu já +alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu +conhecia o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembleia, +no Gago, na +Torre, elles berravam, em questões de Politica, o nome do +Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que +alludir +o Snr. Titó á sua intimidade illustre! Ao menos +para evitar que elle, ou +os amigos, deante do Snr. Titó que comia as torradas da <em>Feitosa</em>, +tratassem o Sanches Lucena como um trapo!<br /> + + +<br /> + + +O Titó despegou do cadeirão. E afundando as +mãos nos bolsos da quinzena d'alpaca, sacudindo +desinteressadamente os hombros:<br /> + + +<br /> + + +―Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o +conheço ha quatro ou cinco mezes, mas acho que é +serio, que sabe as +cousas... Agora, lá nas Camaras...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam +os meritos do Snr. Sanches Lucena―mas os segredos do Snr. +Titó Villalobos! E o +escudeiro novo, avançando as suissas ruivas por uma fenda do +reposteiro, annunciou que o Snr. Administrador de Villa-Clara procurava +Suas Ex.<sup>as</sup>...<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo largou logo a terrina de tabaco:<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. João Gouveia! Que entre! Bravo! temos cá +toda a rapaziada de Villa-Clara!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[143]</span> +E Titó, da janella onde se refugiara, lançou o +vozeirão, mais troante, abafando a importuna conversa do +Sanches e da <em>Feitosa</em>:<br /> + + +<br /> + + +―Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana infame... Até se +nos desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. +Não se perdeu tempo, que ha agora lá um vinhinho +branco que é +d'aqui da ponta fina!...<br /> + + +<br /> + + +Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrôlo e +Gonçalo a passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.<br /> + + +<br /> + + +―Até aqui o Snr. Padre Sueiro lhe atiçava uma +caneca valente, apesar do Peccado!<br /> + + +<br /> + + +Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco +vermelho na testa, do chapeu e do calor―e abotoado na sobrecasaca +preta, de +calças pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou +silenciosamente pela sala as mãos amigas que o acolhiam. E +desabou sobre o +camapé, implorando ao amigo Barrôlo a caridade +d'uma bebidinha fresca!<br /> + + +<br /> + + +―Estive para entrar no café Monaco. Mas reflecti que n'esta +grandiosa casa dos Barrôlos as bebidas são de mais +confiança.<br /> + + +<br /> + + +―Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?<br /> + + +<br /> + + +―Sangria.<br /> + + +<br /> + + +E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o +indecente calor d'Oliveira:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[144]</span>―Mas ha gente que +gosta! Lá o meu chefe, o Snr. Governador +Civil, escolhe sempre a hora do calor para passear a cavallo. Ainda +hoje... Na repartição até ao meio dia; +depois, +cavallo á porta; e larga até á estrada +de Ramilde, que é uma Africa... Não sei +como lhe não fervem os miolos!<br /> + + +<br /> + + +―Oh! acudiu Gonçalo, é muito simples. Se elle os +não tem!<br /> + + +<br /> + + +O administrador saudou gravemente:<br /> + + +<br /> + + +―Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Snr. +Gonçalo Mendes Ramires! Não comecemos, +não comecemos... Este seu cunhado, +Barrôlo, é bicho indomesticavel! Sempre reponta!<br /> + + +<br /> + + +O bom Barrôlo gaguejou, constrangido, que +Gonçalinho em Politica não dispensava a piada...<br /> + + +<br /> + + +―Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para +Gonçalo. Esse Snr. André Cavalleiro, que +não tem miolos, +ainda esta manhã na Repartição gabou +com immensa sympathia os miolos +do Snr. Gonçalo Mendes Ramires!...<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo, muito serio:<br /> + + +<br /> + + +―Tambem não faltava mais nada! Para esse Governador Civil +ser perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse +um +asno!<br /> + + +<br /> + + +―Perdão! gritou o Administrador, que se erguera, +desabotoando logo a sobrecasaca, para commodidade da contenda.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[145]</span> +Barrôlo acudio, afflicto, carregando nos hombros do +Gouveia―para o socegar e o repôr no camapé:<br /> + + +<br /> + + +―Não, meninos, não! Politica, não! E +então essa massada do Cavalleiro... Vamos ao que importa. +Você janta comnosco, +João Gouveia?<br /> + + +<br /> + + +―Não, obrigado. Já prometti jantar com o +Cavalleiro. Temos lá o Ignacio Vilhena. Vae lêr um +artigo que escreveu para o <em>Boletim +de +Guimarães</em> sobre umas fôrmas de fabricar +ossos de martyres, descobertas +nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Snr.<sup>a</sup> +D. +Graça, bem? Quem eu não avistava havia mezes era +o Snr. Padre +Sueiro. Nunca apparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre +viçoso. Oh, Snr. Padre Sueiro, qual é o seu +segredo para toda essa meninice?<br /> + + +<br /> + + +Do seu canto, o capellão sorriu timidamente. O segredo? +Poupar a Vida―não a consumindo nem com +ambições nem com decepções. +Ora para elle, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito +pequenina. E fóra o seu rheumatismo...<br /> + + +<br /> + + +Depois, córando d'acanhamento, atravez das +sentenças evangelicas que lhe escapavam:<br /> + + +<br /> + + +―Mas mesmo o rheumatismo não é mal perdido. +Deus, que o manda, sabe porque o manda... Soffrer edifica. Por que +enfim o que nós +soffremos nos leva a pensar no que os outros soffrem...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[146]</span>―Pois olhe, volveu +com alegre incredulidade o Administrador, eu, +quando tenho os meus ataques de garganta, não penso na +garganta dos +outros! Penso só na minha que me dá bastante +cuidado. E +agora a vou regalar n'aquella bella sangria...<br /> + + +<br /> + + +O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos +de sangria onde boiavam rodellinhas de limão. E todos se +tentaram, todos beberam, até Padre Sueiro, para mostrar ao +Snr. Antonio +Villalobos que não desdenhava o vinho, dadiva amavel de +Deus―pois como +ensina Tibulo com verdade, apezar de gentilico, <em>vinus facit +dites animos, +mollia corda dat</em>, enrija a alma e adoça o +coração.<br /> + + +<br /> + + +João Gouveia, depois d'um suspiro consolado, pousou na +bandeja o copo que esvasiára d'um trago e interpellou +Gonçalo:<br /> + + +<br /> + + +―Vamos a saber! Então n'outro dia que historia phantastica +foi essa d'uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Anna Lucena?... +Eu +não acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu +o recado. Depois...<br /> + + +<br /> + + +Mas d'entre as cortinas da janella, onde acabava a sangria, +Titó novamente rebombou, interpellando tambem o Fidalgo:<br /> + + +<br /> + + +―Oh sô Gonçalo! E o que me contou ha pouco <span class="pagenum">[147]</span>o +Barrôlo?... Que andavas com idéas de abalar para a +Africa?<br /> + + +<br /> + + +Ao espanto de João Gouveia quasi se misturou terror. Para a +Africa?... O quê? Com um emprego para a Africa?...<br /> + + +<br /> + + +―Não! plantar côcos! plantar cacau! plantar +café! exclamava o Barrôlo, com divertidas palmadas +na côxa.<br /> + + +<br /> + + +Pois Titó approvava a idéa! Tambem elle, se +arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava a Africa, a +traficar com o preto... E tambem se fôsse mais pequeno, mais +secco. Que homens do seu +corpanzil, necessitando muita comezaina e muita vinhaça, +não +aguentam a Africa, rebentam!<br /> + + +<br /> + + +―O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; +não carrega na agua-ardente; está na conta para +Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente que essa +outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar na +Arcada, para bajular Conselheiros.<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo concordou, com alarido. Tambem não +comprehendia a teima de Gonçalo em ser deputado! Que +massada! Eram logo as intrigas, +e as desandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os +eleitores.<br /> + + +<br /> + + +―Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma +gran-cruz a tiracollo, como o Freixomil!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[148]</span> +Gonçalo escutára, n'um silencio risonho e +superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do +Barrôlo:<br /> + + +<br /> + + +―Vocês não comprehendem... Vocês +não conhecem a organisação de +Portugal. Perguntem ahi ao Gouveia... Portugal é uma +fazenda, uma bella fazenda, possuida por uma parceria. Como +vocês sabem ha +parcerias commerciaes e parcerias ruraes. Esta de Lisboa é +uma +<em>parceria politica</em>, que governa a herdade chamada +Portugal... +Nós os +Portuguezes pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis +milhões +que trabalham na fazenda, ou vivem n'ella a olhar, como o +Barrôlo, e que +pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a <em>parceria</em>, +que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por +habito de familia, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na <em>parceria +politica</em>, o cidadão portuguez precisa uma +habilitação―ser deputado. Exactamente como, +quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma +habilitação―ser bacharel. Por isso procuro +começar como deputado para acabar como parceiro e +governar... Não é verdade, +João Gouveia?<br /> + + +<br /> + + +O Administrador voltára á bandeja das sangrias, +de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos goles:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, com effeito, essa é a carreira... Candidato, +<span class="pagenum">[149]</span>Deputado, +Politico, Conselheiro, Ministro, Mandarim. É a carreira... E +melhor +que a d'Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, tambem cresce cacau e ha +mais sombra!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo no emtanto abraçára o hombro +possante do Titó, com quem mergulhou no vão da +janella, n'uma confraternidade d'ideias, +gracejando:<br /> + + +<br /> + + +―Pois eu, sem ser dos taes <em>parceiros</em>, tambem +mando nos bocados de Portugal que mais me interessam por que me +pertencem!... E sempre queria +vêr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou +lá os politicos do Terreiro do Paço, se mettessem +a dispôr nas minhas +terras, na <em>Ribeirinha</em> ou na <em>Murtosa</em>... +Era a tiro!<br /> + + +<br /> + + +Encostado á vidraça, Titó +coçava a barba, impressionado:<br /> + + +<br /> + + +―Pois sim, Barrôlo! Mas você na <em>Ribeirinha</em> +e na +<em>Murtosa</em> tem de pagar as +contribuições que elles mandarem. E +n'esses concelhos tem d'aguentar as auctoridades que elles nomearem. E +goza para +lá d'estradas se elles lh'as fizerem. E vende o carro de +pão e a pipa de +vinho com mais ou menos proveito, segundo as leis que elles votarem... +E assim tudo. O Gonçalo não deixa de acertar. +É o diabo! Quem manda é quem lucra... Olhe! o +maroto do meu senhorio em Villa-Clara, agora para o S. Miguel, augmenta +a renda da casa em que eu moro, um cochicho que <span class="pagenum">[150]</span>ninguem quer, por que +mataram lá o carrasco, que ainda lá +apparece... E o Cavalleiro, esse, como <em>parceiro</em>, +vive de +graça n'este +bello palacio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo atirou um <em>chut</em>, de +mão espalmada, +abafando o vozeirão do Titó, com medo que as +regalias do Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as furias de +Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera, +attento ao João Gouveia, que, enterrado no camapé +depois da sangria, novamente +contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Villa-Clara, o +rapasola do Gago com o recado da grande festa na Torre:<br /> + + +<br /> + + +―E cheguei a desconfiar que realmente você désse +festa, quando bateram as nove, depois as nove e meia, e o +Titó sem chegar para a +ceia da D. Casimira!... Bem, pensei, tambem recebeu recado e abalou +para a Torre! Por fim, apenas elle appareceu, de carapuço e +de jaqueta, +percebi que fôra troça do Snr. D. +Gonçalo...<br /> + + +<br /> + + +Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:<br /> + + +<br /> + + +―De carapuço e jaqueta? O Titó andava n'essa +noite de carapuço e de jaqueta?...<br /> + + +<br /> + + +Mas bruscamente Barrôlo, da funda janella, lançou +para dentro, para a sala, um brado de pavor:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi veem as Louzadas!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[151]</span> +João Gouveia saltou do camapé, como n'um perigo, +reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo, +atarantado, esbarrou +com o Titó e o Barrôlo que recuavam, no terror de +serem apercebidos +atravez dos vidros largos; até Padre Sueiro, prudente, +abandonou o seu +recanto onde corria os oculos pela <em>Gazeta do Porto</em>. +E todos, +d'entre a fenda das cortinas, como soldados na fresta de uma cidadella, +espreitavam o Largo, que o sol das quatro horas dourava por sobre os +telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pêgas, as +duas Louzadas, muito +esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta +e vidrilhos, ambas com guardasoes de xadresinbo desbotado, +avançavam, +estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.<br /> + + +<br /> + + +As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde +longos annos, em Oliveira, eram ellas as esquadrinhadoras de todas as +vidas, as espalhadoras de todas as maledicencias, as tecedeiras de +todas as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nodoa, +pécha, bule rachado, coração dorido, +algibeira arrasada, +janella entreaberta, poeira a um canto, vulto a uma esquina, chapeu +estreado na missa, bolo encommendado nas Mathildes, que os seus quatro +olhinhos furantes d'azeviche sujo não descortinassem―e que +a sua solta +lingoa, entre os dentes ralos, não commentasse com malicia +estridente! +<span class="pagenum">[152]</span>D'ellas surdiam +todas as cartas anonymas que infestavam o Districto: as pessoas devotas +consideravam como penitencias essas visitas em que ellas durante horas +galravam, abanando os braços escanifrados: e sempre por onde +ellas passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e +receio. Mas quem ousaria rechaçar as duas manas Louzadas? +Eram filhas do +decrepito e venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram +poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois +d'uma castidade tão rigida, tão antiga e +tão +resequida, e por ellas tão espaventosamente alardeada―que o +Marcolino do <span class="smallcaps">Independente</span> +as +alcunhára de <em>Duas Mil Virgens</em>.<br /> + + +<br /> + + +―Não veem para cá! trovejou o Titó, +com immenso allivio.<br /> + + +<br /> + + +Com effeito no meio do Largo, rente á grade que circumda o +antigo Relogio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro, +farejando e espiando a Egrejinha de S. Matheus onde o sino +lançára um repique de baptisado.<br /> + + +<br /> + + +―Oh, c'os diabos, que é para cá!<br /> + + +<br /> + + +As Louzadas, decididas, investiam contra o portão dos +Cunhaes! Então foi um panico! As gordas pernas do +Barrôlo, fugindo, abalaram, +quasi derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da India. +Gonçalo bradava que se escondessem no pomar. <span class="pagenum">[153]</span>Desconcertado, o Gouveia +rebuscava com desespero o seu chapeu côco. Só o +Titó, que as abominava e a quem ellas chamavam o <em>Polyphemo</em>, +retirou com +serenidade, abrigando o Padre Sueiro sob o seu braço forte. +E já o bando +espavorido se arremessára sobre o reposteiro―quando +Gracinha appareceu, com um fresco vestido de sedinha côr de +morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que +rolava:<br /> + + +<br /> + + +―Que foi? Que foi?...<br /> + + +<br /> + + +Um clamor abafado envolveu a dôce senhora ameaçada:<br /> + + +<br /> + + +―As Louzadas!<br /> + + +<br /> + + +―Oh!<br /> + + +<br /> + + +Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a +mão que ella lhes abandonou, esmorecida. A sineta do +portão +tilintára, temerosa! E a fila acavallada, onde Padre Sueiro +rebolava a reboque, enfiou para a livraria que o Barrôlo +aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma +inspiração:<br /> + + +<br /> + + +―Esconde as sangrias!<br /> + + +<br /> + + +Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou +ella para uma banqueta do corredor, n'um esforço +desesperado, a pesada salva―com que as Louzadas, se a descortinassem, +edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a Torre de S. Matheus, +uma historia pavorosa de «vinhaça e +bebedeira». Depois, +offegando, relanceou no <span class="pagenum">[154]</span>espelho +o penteado. E direita como n'uma arena, com a temeridade simples e +risonha dos antigos Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo +acompanhou a irmã a casa da tia Arminda Villegas, que na +vespera, ao tomar (como costumava todos os sabbados) o seu banho aos +pés, se escaldára e +recolhera á cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco +cirurgiões +d'Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acacias do Terreiro da +Louça, +pensando na sua Novella abandonada na Torre durante essas semanas, e no +lance famoso do Capitulo II que o tentava e que o assustava―o encontro +de +Lourenço Ramires com Lopo de Bayão, <em>o +Bastardo</em>, +no valle fatal de +Cantapedra. E recolhia aos Cunhaes (porque promettera ao +Barrôlo uma +trotada a cavallo, até ao Pinhal de Estevinha, para +aproveitar a +doçura do domingo ennevoado) quando, na rua das Vellas, +avistou o tabellião +Guedes, que sahia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho +de pasteis. Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua―emquanto o +Guedes, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins +miudinhos gaspeados de verniz, descobria, n'uma cortezia immensa, a +calva, emplumada <span class="pagenum">[155]</span>ao +meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que lhe +valera a alcunha de «Guedes Pôpa»:<br /> + + +<br /> + + +―Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapeu! Como +está? Sempre féro e moço. Ainda +bem!... Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira +da Riosa, por fim, só vem á cidade na quarta +feira...<br /> + + +<br /> + + +Sim! Sim! O Snr. Padre Sueiro passára pelo cartorio, para +avisar―e elle apresentava os parabens a S. Ex.<sup>a</sup> +pelo seu novo +rendeiro...<br /> + + +<br /> + + +―Homem muito competente, o Pereira! Já ha vinte annos que o +conheço... E olhe V. Ex.<sup>a</sup> a +propriedade do Conde de +Monte-Agra! Ainda me lembro d'ella, um chavascal; hoje que primor! +Só a vinha que elle +tem plantado! Homem muito competente... E V. Ex.<sup>a</sup> +com demora?<br /> + + +<br /> + + +―Dois ou tres dias... Não se atura este calor de Oliveira. +Hoje, felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vae a politica? O +amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?<br /> + + +<br /> + + +Subitamente o Tabellião, com o seu embrulho de doces +conchegado ao collete de seda preta, agitou o braço gordo e +curto, n'uma +indignação que lhe esbraseou de sangue o +pescoço, as orelhas +cabelludas, a face rapada, toda a testa até ás +abas do chapeu branco +orlado de fumo negro:<br /> + + +<br /> + + +―E quem o não ha-de ser, Snr. Gonçalo Mendes +Ramires? Quem o não ha-de ser?... Pois este ultimo escandalo!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[156]</span> +Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, serios:<br /> + + +<br /> + + +―Que escandalo?<br /> + + +<br /> + + +O Tabellião recuou. Pois S. Ex.<sup>a</sup> +não sabia da +ultima prepotencia do Governador Civil, do Snr. André +Cavalleiro?<br /> + + +<br /> + + +―O quê, caro amigo?...<br /> + + +<br /> + + +O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e +inchou, para exclamar:<br /> + + +<br /> + + +―A transferencia do Noronha!... A transferencia do +desgraçado Noronha!<br /> + + +<br /> + + +Mas uma senhora, tambem obesa, de buço carregado, toda a +estalar em ricas e rugidoras sêdas de missa, arrastando +severamente pela +mão um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes―porque o +digno homem com o seu ventre, o seu embrulho, a sua +indignação, +atravancava a entrada das Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo +levantou, para ella entrar, o fecho da porta envidraçada. +Depois, n'um alvoroço:<br /> + + +<br /> + + +―O amigo Guedes naturalmente vae para casa. É o meu +caminho. Andamos e conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que +Noronha?<br /> + + +<br /> + + +―O Ricardo Noronha... V. Ex.<sup>a</sup> conhece. O +pagador das Obras-Publicas!<br /> + + +<br /> + + +―Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido +arbitrariamente?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[157]</span> +Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solidão +das lojas cerradas, a colera do Guedes resoou, mais solta:<br /> + + +<br /> + + +―Infamemente, Snr. Gonçalo Mendes Ramires, +infamissimamente! E para Almodovar, para os confins do Alemtejo!... +Para uma terra sem recursos, sem distracções, sem +familias!...<br /> + + +<br /> + + +Parára, com os doces contra o coração, +os olhinhos esbugalhados para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um +empregado trabalhador, honradissimo! E sem Politica, absolutamente sem +Politica. Nem dos Historicos, nem dos Regeneradores. Só da +familia, das tres irmãs que +sustentava, tres flôres... E homem estimadissimo na cidade, +cheio de prendas! +Um talento immenso para a musica!... Ah! o Snr. Gonçalo +Ramires +não sabia? Pois compunha ao piano cousas lindas! Depois +precioso para +reuniões, para annos. Era elle quem organisava sempre em +Oliveira as +representações de curiosos...<br /> + + +<br /> + + +―Porque, como ensaiador, creia V. Ex.<sup>a</sup> que +não ha outro, +mesmo na capital... Não ha outro! E, zás, de +repente, para +Almodovar, para o Inferno, com as irmãs, com os tarecos! +Só o +piano!... Veja V. Ex.<sup>a</sup> só o +transporte do piano!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo resplandecia:<br /> + + +<br /> + + +―É um bello escandalo. Ora que felicidade esta de o ter +encontrado, meu caro Guedes!... E não se sabe o motivo?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[158]</span> +De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o +tabellião encolhia os hombros, com amargura. O motivo! +Publicamente, como sempre n'estas prepotencias, o motivo era a +conveniencia do +Serviço...<br /> + + +<br /> + + +―Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o +verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!<br /> + + +<br /> + + +―Então?<br /> + + +<br /> + + +Guedes relanceou a rua, com prudencia. Uma velha atravessava, coxeando, +segurando uma bilha. E o tabellião segredou cavamente, junto +á face deslumbrada do fidalgo.―É que o Snr. +André +Cavalleiro, esse infame, se encantára com a mais velha das +irmãs Noronhas, a +D. Adelina, formosissima rapariga, alta e morena, uma estatua!... E +repellido (porque a menina, cheia de juizo, uma perola, percebera a +intenção villissima) em quem se vinga, por +despeito, o Snr. Governador Civil? No pagador! Para Almodovar com as +meninas, com os tarecos!... Era o pagador quem pagava!<br /> + + +<br /> + + +―É uma bella maroteira! murmurou Gonçalo, +banhado de gosto e riso.<br /> + + +<br /> + + +―E note V. Ex.<sup>a</sup>! exclamava o Guedes, com a +mão gorda a +tremer por cima do chapeu. Note V. Ex.<sup>a</sup> que o +pobre Noronha, na +sua innocencia, +tão bom homem, gostando sempre d'agradar aos seus chefes, <span class="pagenum">[159]</span>ainda ha semanas +dedicára ao Cavalleiro uma valsa linda!... A <em>Mariposa</em>, +uma +valsa linda!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo não se conteve, esfregou as +mãos n'um triumpho:<br /> + + +<br /> + + +―Mas que preciosa maroteira!... E não se tem fallado? Esse +jornal d'opposição, o <em>Clarim d'Oliveira</em>, +nem uma +denuncia, nem uma allusão?...<br /> + + +<br /> + + +O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado. O Snr. +Gonçalo Ramires conhecia bem essa gente do <em>Clarim</em>... +Estylo―e estylo +brincado, opulento... Mas para assoalhar, assim n'um caso gravissimo +como o do Noronha, a verdade bem nua―pouco nervo, nenhuma valentia. E +depois o Biscainho, o redactor principal, andava a passar +surrateiramente para os Historicos. Ah! O Snr. Gonçalo +Mendes Ramires não se +inteirára? Pois esse torpissimo Biscainho bolinava. De certo +o Cavalleiro lhe acenára com +posta... Além d'isso, como provar a infamia? Cousas intimas, +cousas de familia. +Não se podia apresentar a declaração +da D. Adelina, +menina virtuosissima―e com uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do +Manoel Justino e da <em>Aurora +de Oliveira</em>!... Esse era homem para estampar logo na +primeira +pagina, em letra graúda: «Alerta! que a +Auctoridade superior +do Districto tentou levar a deshonra ao seio da familia +Noronha!...»<br /> + + +<br /> + + +―Esse era um homem! Coitado, lá está no +cemiterio de S. Miguel... E agora, Snr. Gonçalo Ramires, o +despotismo campeia, +desenfreado!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[160]</span> +Bufava, arfava, esfalfado d'aquelle fogoso desabafo. Dobraram calados a +esquina das Brocas para a bella rua, novamente calçada, da +Princeza D. Amelia. E logo na segunda porta, parando, tirando da +algibeira o trinco, o Guedes, que ainda resfolgava, offereceu a S. Ex.<sup>a</sup> +para +descançar.<br /> + + +<br /> + + +―Não, não, obrigado, meu caro amigo. Tive +immenso, immenso prazer, em o encontrar... Essa historia do Noronha +é tremenda!... Mas +nada me espanta do Snr. Governador Civil. Só me espanta que +o não +tenham corrido d'Oliveira, como elle merece, com pancada e assuada... +Emfim, nem toda a gente boa jaz no cemiterio de S. Miguel... +Até +ámanhã, meu Guedes. E obrigado!<br /> + + +<br /> + + +Da rua da Princeza D. Amelia até o Largo de El-Rei, +Gonçalo correu com o deslumbramento de quem descobrisse um +thesouro e o levasse debaixo da capa! E ahi levava com effeito o +«escandalo, o rico +escandalo», que tanto farejára, por que tanto +almejára, para +desmantelar o Snr. Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira que +lhe levantava arcos de buxo! E, por uma mercê de Deus, o +«rico +escandalo» demoliria tambem o homem no +coração de Gracinha, onde, apezar do +antigo ultraje, elle permanecia como um bicho n'um fructo, esfuracando +e estragando... E +não duvidava da efficacia do escandalo! Toda a cidade se +revoltaria contra a Authoridade <span class="pagenum">[161]</span>femieira, +que opprime, desterra um funccionario admiravel―por que a +irmã do pobre senhor se recusou +á baba dos seus beijos. E Gracinha?... Como resistiria +Gracinha áquelle +desengano―o seu antigo André abrazado pela menina Noronha e +por ella +repellido com nôjo e com mófa? Oh! o escandalo era +soberbo! Só +restava que estalasse, bem ruidoso, sobre os telhados d'Oliveira e +sobre o peito de Gracinha como trovão benefico que limpa +ares corrompidos. E d'esse +trovão, rolando por todo o Norte, se encarregava elle com +delicia. Libertava a cidade d'um Governador detestavel, Gracinha d'um +sonho errado. E assim, com uma certeira pennada, trabalhava <em>pro +patria et pro domo</em>!<br /> + + +<br /> + + +Nos Cunhaes correu ao quarto do Barrôlo, que se vestia +trauteando o <em>Fado dos Ramires</em>, e gritou atravez +da porta com +uma decisão flammejante:<br /> + + +<br /> + + +―Não te posso acompanhar á Estevinha. Tenho que +escrever urgentemente. E não subas, não me +perturbes. Necessito socego!<br /> + + +<br /> + + +Nem attendeu aos protestos desolados com que o Barrôlo +accudira ao corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, +depois de despir rapidamente o casaco, de excitar a testa com um +borrifo d'agua de Colonia, abancou á mesa―onde Gracinha +collocava sempre +entre flores, para elle trabalhar, o monumental tinteiro de prata que +pertencera ao tio Melchior. <span class="pagenum">[162]</span>E +sem emperrar, sem rascunhar, n'um d'esses soltos fluxos de Prosa que +brotam da paixão, improvisou uma +Correspondencia rancorosa para a <b><em>Gazeta do Porto</em></b> +contra o Snr. Governador +Civil. Logo o titulo fulminava―<em>Monstruoso attentado</em>! +Sem desvendar o +nome da familia Noronha, contava miudamente, como um acto certo e por +elle testemunhado, «a tentativa villôa e baixa da +primeira Auctoridade +do Districto contra a pudicicia, a paz de +coração, a honra de uma +doce rapariga de dezeseis primaveras!» Depois era a +resistencia +desdenhosa―«que a nobre creança oppuzera ao Don +Juan administrativo, cujos bellos bigodes +são o espanto dos povos!» Por fim +vinha―«a desforra torpe e sem +nome que S. Ex.<sup>a</sup> tomára sobre o +zeloso empresado (que é tambem um +talentoso artista), obtendo d'este nefasto Governo que fosse +transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a familia de +tres delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais arida e +escassa das nossas Provincias, por o não poder empacotar +para a Africa no porão +sordido d'uma fragata!» Lançava ainda alguns +rugidos sobre «a agonia +politica de Portugal». Com pavor triste, recordava os peiores +tempos do Absolutismo, a innocencia soterrada nas masmorras, o prazer +desordenado do Principe sendo a expressão unica da Lei! E +terminava perguntando ao Governo +se cobriria este seu agente―«este grotesco Nero, que <span class="pagenum">[163]</span>como outr'ora o +outro, o grande, em Roma, tentava levar a +seducção ao seio +das familias melhores, e commettia esses abusos de poder, motivados por +lascivias de temperamento, que foram sempre, em todos os seculos e +todas as civilisações, a +execração +do justo!»―E assignava <em>Juvenal</em>.<br /> + + +<br /> + + +Eram quasi seis horas quando desceu á sala, ligeiro e +resplandecente. Gracinha martellava o piano, estudando o <em>Fado +dos Ramires</em>. +E +Barrôlo (que não se arriscára a um +passeio solitario) +folheava, estendido no camapé, uma famosa <em>Historia +dos Crimes da +Inquizição</em> que +começára ainda em solteiro.<br /> + + +<br /> + + +―Estou a trabalhar desde as duas horas! exclamou logo +Gonçalo, escancarando a janella. Fiquei derreado. Mas, +louvado seja Deus, fiz obra de Justiça... D'esta vez o Snr. +André +Cavalleiro vae abaixo do seu cavallo!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo fechou immediatamente o livro, com o cotovello nas +almofadas, inquieto:<br /> + + +<br /> + + +―Houve alguma coisa?<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo, plantado deante d'elle, com um risinho suave, um +risinho feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! quasi nada. Uma bagatella. Apenas uma infamia... Mas para o nosso +Governador Civil infamias são bagatellas.<br /> + + +<br /> + + +Sob os dedos de Gracinha o <em>Fado dos Ramires</em> +esmoreceu, apenas +roçado, n'um murmurio incerto.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[164]</span> +O Barrôlo esperava, esgaseado:<br /> + + +<br /> + + +―Desembucha!<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo desabafou, com estrondo:<br /> + + +<br /> + + +―Pois uma maroteira immensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha, +perseguido, espesinhado, expulso! Com a familia... Para o inferno, para +o Algarve!<br /> + + +<br /> + + +―O Noronha pagador?<br /> + + +<br /> + + +―O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!<br /> + + +<br /> + + +E, regaladamente, desenrolou a historia lamentavel. O Snr. +André Cavalleiro namoradissimo, todo em chammas pela +irmã mais +velha do Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, +estropidos cada manhã por deante da janella, a ladear na +pileca! +Até lhe soltára, ao que parece, uma velha +marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um anjo cheio de dignidade, +impassivel. Nem se revoltava, apenas se ria. Era uma troça +em casa das Noronhas, ao chá, com a +leitura da versalhada ardente em que elle a tratava de +«Nympha, d'estrella da +tarde...» Emfim uma sordidez funambulesca!<br /> + + +<br /> + + +O pobre <em>Fado dos Ramires</em> debandou pelo teclado, +n'um tumulto de gemidos desconcertados e asperos.<br /> + + +<br /> + + +―E eu não ter ouvido nada! murmurava o Barrôlo, +assombrado. Nem no Club, nem na Arcada...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[165]</span>―Pois, meu +amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre +Noronha. Arremessado para o fundo do Alemtejo, para um sitio doentio, +coalhado de pantanos. É a morte... É uma +condemnação á morte!<br /> + + +<br /> + + +A esta apparicão da Morte, surdindo dos pantanos, +Barrôlo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:<br /> + + +<br /> + + +―Mas quem diabo te contou tudo isso?<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdem, com piedade:<br /> + + +<br /> + + +―Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastião morreu +em Alcacer-Kebir?... São os factos. É a Historia. +Toda Oliveira sabe. Por acaso ainda esta manhã o Guedes e eu +conversamos sobre o +caso. Mas eu já sabia!... E tenho tido pena. Que diabo! +Não ha crime em se +estar apaixonado como o pobre André. Louco, perdido! +Até a chorar na Repartição, deante do +Secretario Geral. E a +rapariga ás gargalhadas!... Agora onde ha crime, e horrendo, +é na +perseguição ao irmão, ao pagador, +empregado excellente, d'um talento raro... E o dever de todo o homem de +bem, que prese a dignidade da Administração e a +dignidade dos costumes, é denunciar a infamia... Eu, pela +minha parte, cumpri esse +bom dever. E com certo brilho, louvado Deus!<br /> + + +<br /> + + +―Que fizeste?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[166]</span>―Enterrei na +ilharga do Snr. Governador Civil a minha bôa +penna de Toledo, até á rama!<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo, impressionado, beliscava a pelle do +pescoço. O piano emmudecera: mas Gracinha não se +movia do môcho, +com os dedos entorpecidos nas teclas, como esquecida deante da larga +folha onde se enfileiravam, na lettra apurada do Videirinha, as quadras +triumphaes dos Ramires. E subitamente Gonçalo sentiu +n'aquella immobilidade +suffocada o despeito que a trespassava. Sensibilisado, para a libertar, +lhe poupar algum soluço escapando irresistivelmente, correu +ao piano, +bateu com carinho nos pobres hombros vergados que estremeceram:<br /> + + +<br /> + + +―Tu não dás conta d'esse lindo fado, rapariga! +Deixa, que eu te cantarolo uma quadra, á bôa moda +do Videirinha... +Mas primeiramente sê um anjo... Grita ahi no corredor que me +tragam um copo d'agua bem fresca do Poço Velho.<br /> + + +<br /> + + +Ensaiou as teclas, entoou versos, ao accaso, n'um esforço +esganiçado:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Ora na grande batalha,<br /> +Quatro Ramires valentes...<br /> +</div> + + +Gracinha desapparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. +Então o bom Barrôlo, que deante da sua terrina da +India enrolava um +cigarro <span class="pagenum">[167]</span>com +pensativo cuidado, correu, desafogou, debruçado sobre +Gonçalo, da certeza que lentamente o invadira:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, menino, sempre te digo... Essa irmã do Noronha +é um mulherão soberbo! Mas o que eu +não acredito é que ella se +fizesse arisca. Com o Cavalleiro, bonito rapaz, Governador civil?... +Não acredito. +O Cavalleiro saboreou!<br /> + + +<br /> + + +E com as bochechas lusidias d'admiração:<br /> + + +<br /> + + +―Aquelle velhaco! Para cavallos e para mulheres não ha +outro, em Oliveira!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +V</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +A <b><em>Gazeta do Porto</em></b>, com a +Correspondencia vingadora, +devia desabar sobre Oliveira na quarta-feira de manhã, dia +dos annos da +prima Maria Mendonça. Mas Gonçalo, ainda que +não +temesse (resalvado pelo seu pseudonymo de <em>Juvenal</em>) +uma briga grosseira com o +Cavalleiro nas ruas da Cidade, nem mesmo com algum dos seus partidarios +servis e +façanhudos como o Marcolino do <b><em>Independente―</em></b>recolheu +discretamente a Santa Ireneia na terça-feira, a cavallo, +acompanhado pelo +Barrôlo até á Vendinha, onde ambos +provaram o vinho branco celebrado pelo +Titó. Depois, para recordar os logares memoraveis em que na +sua Novella se encontravam, com desastrado choque d'armas, +Lourenço Ramires +e o Bastardo de Bayão―tomou o caminho que, atravessando os +pomares da espalhada aldêa de Canta-Pedra, entronca na +estrada dos +Bravaes.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[170]</span> +N'um trote folgado passára á Fabrica de Vidros, +depois o Cruzeiro sempre coberto pelas pombas que esvoaçam +do pombal da Fabrica. E +entrava no logar de Nacejas―quando, á janella d'uma casinha +muito +limpa, rodeada de parreiras, appareceu uma linda rapariga, morena e +fina, com +jaqué de panno azul e lenço de cambraieta bordada +sobre fartos +bandós ondeados. Gonçalo, sopeando a egua, +saudou, sorriu suavemente:<br /> + + +<br /> + + +―Perdão, minha menina... Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?<br /> + + +<br /> + + +―Vae, sim senhor. Em baixo, á ponte, mette para a direita, +para os alamos. E é sempre a seguir...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo suspirou, gracejando:<br /> + + +<br /> + + +―Antes desejava ficar!<br /> + + +<br /> + + +A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para +gosar a fina face morena, entre os dous craveiros da janellinha, na +casa +tão bem caiada.<br /> + + +<br /> + + +N'esse momento, ao lado, d'uma quelha enramada, desembocava um +caçador do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a +espingarda atravessada nas costas, seguido por dois perdigueiros. Era +um latagão +airoso, que todo elle, no bater dos sapatões brancos, no +menear da cinta +enfaixada em seda, no levantar da face clara de suissas louras, +transbordava de presumpção e pimponice. <span class="pagenum">[171]</span>N'um relance surprehendeu +o sorriso, a attenção galante do Fidalgo. E +estacou, pregando sobre elle, com lenta arrogancia, os bellos olhos +pestanudos. Depois passou desdenhosamente, sem se arredar da egua na +ladeira estreita, quasi raspando pela perna do Fidalgo o cano da +caçadeira. Mas adiante ainda atirou uma +tossidela secca e de chasco―com um bater mais petulante dos +tacões.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo picou a egoa, colhido logo por aquelle +desgraçado temor, aquelle desmaiado arrepio da carne, que +sempre, ante qualquer risco, qualquer ameaça, o +forçava irresistivelmente a encolher, a +recuar, a abalar. Em baixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, +deteve o trote, espreitou para traz, para a branca casa florida. O +mocetão +parára, encostado á espingarda, sob a janella +onde a rapariga morena +se debruçava entre os dous vasos de cravos. E assim +encostado, +depois de rir para a moça, acenou ao Fidalgo, n'um desafio +largo, com +a cabeça alta, a borla do barrete toda espetada como uma +crista flammante.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo Mendes Ramires metteu a galope pelo copado caminho +d'alamos que acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se +demorou a estudar (como tencionava para proveito da sua Novella) o +valle, a ribeira espraiada, as ruinas do Mosteiro de +Recadães sobre a +collina, e no cabeço fronteiro o <span class="pagenum">[172]</span>moinho +que assenta sobre as denegridas +pedras da antiga e tão fallada Honra d'Avellans. De resto o +ceu, +cinzento e abafado desde manhã, entenebrecia para os lados +de Craquede +e de Villa-Clara. Um bafo môrno remexeu a folhagem sedenta. E +já gotas pesadas se esmagavam na poeira―quando elle, sempre +galopando, entrou na estrada dos Bravaes.<br /> + + +<br /> + + +Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota andava por +saber «se essa <em>Torre de D. Ramires</em> se +erguia +emfim para honra das +letras, como a outra, a genuina, se erguera outr'ora, em seculos mais +ditosos, para orgulho das armas...» E accrescentava n'um <em>Post-Scriptum</em>―«Planeio +immensos +cartazes, pregados a cada +esquina de cada cidade de Portugal, annunciando em letras de covado a +apparição salvadora dos <b><em>Annaes</em></b>! +E, como tenciono prometter +n'elles aos povos a sua preciosa Novellasinha, desejo que o amigo +Gonçalo me +informe se ella tem, á moda de 1830, um saboroso sub-titulo, +como <em>Episodios +do seculo XII</em>, ou <em>Chronica do Reinado de Affonso +II</em>, +ou <em>Scenas da Meia-Idade Portugueza</em>... Eu voto +pelo sub-titulo. Como o sub-solo n'um +edificio, o sub-titulo n'um livro alteia e dá solidez. +Á +obra, pois, meu Ramires, com essa sua imaginação +feracissima!...»<br /> + + +<br /> + + +Esta invenção de immensos cartazes, com o seu +nome e o titulo da sua Novella em letras de côres <span class="pagenum">[173]</span>estridentes, enchendo cada +esquina +de Portugal, deleitou o Fidalgo. E logo n'essa noite, ao rumor da chuva +densa que estalava na folhagem dos limoeiros, retomou o seu +manuscripto, parado nas primeiras linhas, amplas e sonoras, do Cap. +II...<br /> + + +<br /> + + +Atravez d'ellas, e na frescura da madrugada, Lourenço Mendes +Ramires, com o troço de cavalleiros e peonagem da sua +mercê, corria sobre Monte-Mór em soccorro das +senhoras Infantas. Mas, ao +penetrar no valle de Canta-Pedra, eis que o esforçado filho +de Tructesindo +avista a mesnada do Bastardo de Bayão, esperando desde alva +(como +annunciára Mendo Paes) para tolher a passagem.―E +então, n'esta sombria +Novella de sangue e homizios, brotava inesperadamente, como uma rosa na +fenda d'um bastião, um lance de amor, que o tio Duarte +cantára no <b><em>Bardo</em></b> +com dolente elegancia.<br /> + + +<br /> + + +Lopo de Bayão, cuja belleza loura de fidalgo godo era +tão celebrada por toda a terra d'Entre Minho-e-Douro que lhe +chamavam o <em>Claro-Sol</em>, +amára arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de +Tructesindo Ramires. Em dia de S. João, no solar de Lanhoso, +onde se celebravam +lides de toiros e jogos de tavolagem, conhecera elle a donzella +explendida, que o tio Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado +encanto:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Que liquido fulgor dos negros olhos!<br /> + + +Que fartas tranças de +lustroso ebano!<br /> +<br /> + + +</div> + + +<span class="pagenum">[174]</span> +E ella, certamente, rendera tambem o coração +áquelle moço resplandecente e côr +d'ouro, que, n'essa tarde de festa, arremessando o +rojão contra os toiros, ganhára duas fachas +bordadas pela nobre Dona de +Lanhoso―e á noite, no sarau, se requebrára com +tão repicado +garbo na dança dos Marchatins... Mas Lopo era bastardo, +d'essa raça de +Bayão, inimiga dos Ramires por velhissimas brigas de terras +e precedencias desde o conde D. Henrique―ainda assanhadas depois, +durante as contendas de D. Tareja e de Affonso Henriques, quando na +curia dos Barões, em +Guimarães, Mendo de Bayão, bandeado com o Conde +de Trava, e Ramires o +<em>Cortador</em>, collaço do moço +Infante, se arrojaram ás faces os guantes +ferrados. E, fiel ao odio secular, Tructesindo Ramires +recusára com áspera +arrogancia a mão de Violante ao mais velho dos de +Bayão, um dos valentes de +Silves, que pelo Natal, na Alcaçova de S.<sup>ta</sup> +Ireneia, lh'a pedira para +Lopo, seu sobrinho, o <em>Claro-Sol</em>, offerecendo +avenças quasi submissas +d'alliança e doce paz. Este ultraje revoltára o +solar de +Bayão―que se honrava em Lopo, apezar de bastardo, pelo +lustre da sua bravura e graça +galante. E então Lopo ferido doridamente no seu +coração, mais furiosamente no seu orgulho, para +fartar o esfaimado desejo, para infamar o claro nome dos Ramires―tentou +raptar D. Violante. Era na primavera, com todas as veigas do <span class="pagenum">[175]</span>Mondego +já verdes. A donosa senhora, entre alguns +escudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de +Lorvão, onde sua tia D. Branca era abbadeça... +Languidamente, no <b><em>Bardo</em></b>, +descantára o tio Duarte o romantico lance:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Junto á fonte mourisca, +entre +os ulmeiros,<br /> + + +A cavalgadura pára...<br /> +<br /> + + +</div> + + +E junto aos ulmeiros da fonte surgira o <em>Claro-Sol</em>―que, +com os seus, espreitava d'um cabeço! Mas, logo no +começo da +curta briga, um primo de D. Violante, o agigantado Senhor dos +Paços d'Avellim, o +desarmou, o manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua +adaga. E com vida perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou +entre os poucos solarengos que o acompanhavam n'esta affouta +arremettida. Desde +então mais fero ardera o rancor entre os de Bayão +e os Ramires. E +eis agora, n'esse começo da Guerra das Infantas, os dois +inimigos rosto +a rosto no valle estreito de Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta +lanças e mais de cem besteiros da Hoste Real. +Lourenço Mendes Ramires com +quinze cavalleiros e noventa homens de pé do seu +pendão.<br /> + + +<br /> + + +Agosto findava: e o demorado estio amarellecera toda a relva, as +pastagens famosas do valle, até a folhagem de amieiros e +freixos pela beira do riacho <span class="pagenum">[176]</span>das +Donas que s'arrastava entre as pedras lustrosas, em fios escassos, com +dormido murmurio. Sobre um outeiro, dos lados de Ramilde, avultava, +entre possantes ruinas erriçadas de +sarças, a denegrida <em>Torre Redonda</em>, +resto da velha Honra de +Avellans, incendiada durante as cruas rixas dos de Salzedas e dos de +Landim, e agora habitada pela alma gemente de Guiomar de Landim, a <em>Mal-casada</em>. +No +cabeço fronteiro e mais alto, dominando o valle, o mosteiro +de +Recadães estendia as suas cantarias novas, com o forte +torreão, +asseteado como o d'uma fortaleza―d'onde os monges se +debruçavam, +espreitando, inquietos com aquelle coriscar d'armas que desde alva +enchia o valle. E o mesmo temor acossára as aldeias +chegadas―porque, sobre a crista +das collinas, se apressavam para o santo e murado refugio do convento +gentes com trouxas, carros toldados, magras filas de gados.<br /> + + +<br /> + + +Ao avistar tão rijo troço de cavalleiros e +peões, espalhado até á beira do riacho +por entre a sombra dos freixos, Lourenço Ramires +soffreou, susteve a leva, junto d'um montão de pedras onde +apodrecia, +encravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que +largára redeas +soltas, estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada―logo +voltou, sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:<br /> + + +<br /> + + +―São homens de Bayão e da Hoste Real!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[177]</span> +Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado +Ramires não duvidou avançar, travar peleja. +Sósinho que assomasse ao valle, com uma +quebradiça lança de monte, +arremetteria contra todo o arraial do Bastardo...―No emtanto +já o adail de +Bayão se adeantára, curveteando no rosilho magro, +com a espada atravessada por cima do morrião que pennas de +garça emplumavam. E +pregoava, atroava o valle com o rouco pregão:<br /> + + +<br /> + + +―Deter, deter! que não ha passagem! E o nobre senhor de +Bayão, em recado d'El-Rey e por mercê de Sua +Senhoria, vos guarda vidas +salvas se volverdes costas sem rumor e tardança!<br /> + + +<br /> + + +Lourenço Ramires gritou:<br /> + + +<br /> + + +―A elle, besteiros!<br /> + + +<br /> + + +Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos cavalleiros de +Santa-Ireneia tropeou para dentro do valle, de lanças +ristadas. E o filho +de Tructesindo, erguido nos estribões de ferro, debaixo do +panno solto do seu pendão que apressadamente o alferes +saccára +da funda, descerrou a vizeira do casco para que lhe mirassem bem a face +destemida, e +lançou ao Bastardo injurias de furioso orgulho:<br /> + + +<br /> + + +―Chama outros tantos dos villões que te seguem que, por +sobre elles e por sobre ti, chegarei esta noite a Monte-Mór!<br /> + + +<br /> + + +E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rêde de <span class="pagenum">[178]</span>malha cobria, +toda acairelada d'ouro, atirava a mão calçada de +ferro, clamava:<br /> + + +<br /> + + +―Para traz, d'onde vieste, voltarás, bulrão +traidor, se eu por mercê mandar a teu pae o teu corpo n'umas +andas!<br /> + + +<br /> + + +Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no +Poemeto do Tio Duarte. E depois de os reforçar, +Gonçalo Mendes Ramires, (sentindo a alma enfunada pelo +heroismo da sua raça como por +um vento que sopra de funda compina) arrojou um contra o outro os dous +bandos valorosos. Grande briga, grande grita...<br /> + + +<br /> + + +―Ala! Ala!<br /> + + +<br /> + + +―Rompe! Rompe!<br /> + + +<br /> + + +―Cerra por Bayão!<br /> + + +<br /> + + +―Casca pelos Ramires!<br /> + + +<br /> + + +Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os +garruchões, as rudes balas de barro despedidas das fundas. +Almogavres de Santa-Ireneia, almogavres da Hoste Real, em turmas +ligeiras, carregam, topam, com baralhado arremesso d'ascumas que se +partem, de dardos que se cravam: e +ambas logo refogem, refluem―em quanto, no chão revolto, +algum mal-ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cambaleando +buscam, sob o abrigo do arvoredo, a fresquidão do riacho. Ao +meio, no +embate mais +nobre da peleja, por cima dos corceis que se empinam, arfando <span class="pagenum">[179]</span>ao peso das coberturas de +malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas +chapas dos broqueis:―e já, dos altos +arções de couro vermelho, desaba algum hirto e +chapeado senhor, com um baque de ferragens sobre a terra molle. +Cavalleiros e +infanções, porém, como n'um torneio, +apenas terçam lanças para se derribarem, +abolados os arnezes, com clamores de excitada ufania: e sobre a +villanagem contraria, em quem cevam o furor da matança, se +abatem os seus +espadões, se despenham as suas achas, esmigalhando os cascos +de ferro como bilhas de +grêda.<br /> + + +<br /> + + +Por entre a pionagem de Bayão e da Hoste Real +Lourenço Ramires avança mais levemente que +ceifeiro apressado entre herva tenra. A cada arranque do seu rijo +murzello, alagado d'espuma, que sacode furiosamente a testeira +rostrada―sempre, entre pragas ou gritos por <em>Jesus!</em> +um peito verga trespassado, braços se retorcem em agonia. +Todo o seu +afan era chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão +arremessado e +affrontador em combate, não se arredára n'essa +manhã +da lomba do outeiro onde uma fila de lanças o guardava, como +uma estacada: e com brados, +não com golpes, aquentava a lide! No ardor desesperado de +romper a viva cerca +Lourenço gastava as forças, berrando roucamente +pelo Bastardo com os +duros ultrajes de <em>churdo!</em> e <em>marrano!</em> +Já d'entre <span class="pagenum">[180]</span>a +trama +falseada do camalho lhe borbulhavam do hombro, pela loriga, fios lentos +de sangue. Um lanço de virotão, que lhe partira +as +charneiras da greva esquerda, fendera a perna d'onde mais sangue +brotava, ensopando o forro d'estopa. Depois, varado por uma frecha na +anca, o seu grande ginete abateu, rolou, estalando no escoucear as +cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos loros com um salto, +Lourenço Ramires encontrou em roda uma +sebe erriçada de espadas e chuços, que o +cerraram―em quanto do outeiro, +debruçado na sella, o Bastardo bramava:<br /> + + +<br /> + + +―Tende! tende! para que o colhaes ás mãos!<br /> + + +<br /> + + +Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de +ferro, o valente moço arremette, a golpes arquejados, contra +as pontas luzentes que recuam, se furtam... E, triumphantes, redobram +os gritos de Lopo de Bayão:<br /> + + +<br /> + + +―Vivo, vivo! tomadel-o vivo!<br /> + + +<br /> + + +―Não, se me restar alma, villão! rugia +Lourenço.<br /> + + +<br /> + + +E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no +braço―que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, +presa ainda ao punho pelo grilhão, mas sem mais servir que +uma roca. +N'um relance ficou agarrado por peões que lhe filavam a +gorja, emquanto +outros com varadas <span class="pagenum">[181]</span>de +ascuma +lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim direito como um +madeiro;―e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo, +sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os cabellos presos n'uma +pasta de poeira e de sangue.<br /> + + +<br /> + + +Eis pois captivo Lourenço Ramires! E, deante das andas +feitas de ramos e franças de faias em que o estenderam, +depois de o borrifarem +á pressa com a agua fresca do riacho,―o Bastardo, limpando +ás costas +da mão o suor que lhe escorria pela face formosa, pelas +barbas douradas, murmurava, commovido:<br /> + + +<br /> + + +―Ah! Lourenço, Lourenço, grande dôr, +que bem poderamos ser irmãos e amigos!<br /> + + +<br /> + + +Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott por noticias do <em>Panorama</em>, +compozera Gonçalo a +mal-venturada lide de +Canta-Pedra. E com este desabafo de Lopo, onde perpassava a magua do +amor vedado, fechou o Cap. II, sobre que labutára tres +dias―tão +embrenhadamente que em torno o Mundo como que se calára e se +fundira em penumbra.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Uma girandola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravaes, +onde no Domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias. +Depois <span class="pagenum">[182]</span>da chuva +d'aquelles tres dias, uma frescura descia do ceu amaciado e lavado +sobre os campos mais verdes. E como ainda restava meia hora farta antes +de jantar, o Fidalgo agarrou o chapeu, e mesmo na sua velha quinzena de +trabalho, com uma bengalinha de canna, desceu +á estrada, tomou pelo caminho que s'estreita entre o muro da +Torre e as terras de centeio onde assentavam no seculo XII as barbacans +da Honra de Santa Ireneia.<br /> + + +<br /> + + +Pela silenciosa vereda, ainda humida, Gonçalo pensava nos +seus avós formidaveis. Como elles resurgiam, na sua Novella, +solidos e resoantes! E realmente uma comprehensão +tão segura +d'aquellas almas Affonsinas mostrava que a sua alma conservava o mesmo +quilate e sahira do mesmo rico bloco d'ouro. Porque um +coração molle, ou +degenerado, não saberia narrar +corações tão fortes, d'eras +tão fortes:―e nunca o bom Manoel Duarte ou o +Barrôlo excellente entenderiam, bastante para lhes +reconstruir os altos espiritos, Martim de Freitas ou Affonso de +Albuquerque... N'esta fina verdade desejaria elle que os Criticos +insistissem ao estudar depois a <em>Torre de D. Ramires</em>―pois +que o Castanheiro lhe assegurára artigos consideraveis nas +<b><em>Novidades</em></b> e na <b><em>Manhã</em></b>. +Sim! eis o +que convinha marcar com +relevo (e elle o +lembraria ao Castanheiro!)―que os Ricos Homens de Santa-Ireneia +reviviam <span class="pagenum">[183]</span>no seu +neto, senão pela continuação heroica +das mesmas façanhas, pela mesma alevantada +comprehensão do heroismo... Que diabo! sob o +reinado do horrendo S. Fulgencio elle não podia desmantelar +o solar de +Bayão, desmantelado ha seiscentos annos por seu +avô Lionel +Ramires―nem retomar aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho +Moreno era o languido Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o +prestimo historico d'esse arrojo que outr'ora impellia os seus a +arrasar Solares rivaes, a escalar Villas mouriscas: resuscitava pelo +Saber e pela Arte, arrojava para a vida ambiente, esses +varões temerosos, com os seus +corações, os seus trajes, as suas immensas +cutiladas, as suas bravatas sublimes: dentro do espirito e das +expressões do seu Seculo era pois um bom +Ramires―um Ramires de nobres energias, não +façanhudas, mas +intellectuaes, como competia n'uma Edade d'intellectual +descanço. E os jornaes, +que tanto motejam a decadencia dos Fidalgos de Portugal, deveriam em +justiça affirmar (e elle o lembraria ao +Castanheiro!):―«Eis ahi um, +e o maior, que, com as fórmas e os modos do seu tempo, +continua e honra +a sua raça!»<br /> + + +<br /> + + +Através d'estes pensamentos, que mais lhe enrijavam as +passadas sobre chão tão calcado pelos seus―o +Fidalgo da Torre +chegára á esquina do muro <span class="pagenum">[184]</span>da quinta, +onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da +matta. Do portão nobre, que outr'ora se +erguera n'esse recanto com lavores e brazão d'armas, restam +apenas os dois +humbraes de granito, amarellados de musgo, cerrados contra o gado por +uma cancella de taboas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos annos. E +n'esse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, +carregado de matto, um carro de bois, que uma linda boeirinha guiava.<br /> + + +<br /> + + +―Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes!<br /> + + +<br /> + + +―Boas tardes, flôrzinha!<br /> + + +<br /> + + +O carro lento passou. E logo atraz surdio um homem, esgrouviado e +escuro, trazendo ao hombro o cajado, d'onde pendia um mólho +de cordas.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravaes. E +seguia, como desattento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando +com a bengalinha as silvas floridas do vallado. O outro +porém +estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silencio do +arvoredo e da +tarde, o nome do Fidalgo. Então, com um pulo do +coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, +forçando um sorriso affavel:<br /> + + +<br /> + + +―Olá! É vossê, José! +Então que temos?<br /> + + +<br /> + + +O Casco engasgára, com as costellas a arfar sob a encardida +camisa de +trabalho. Por fim, <span class="pagenum">[185]</span>desenfiando +das cordas o marmelleiro que cravou no +chão pela choupa:<br /> + + +<br /> + + +―Temos que eu fallei sempre claro com o Fidalgo, e não era +para que +depois me faltasse á palavra!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma +dignidade lenta e +custosa―como se levantasse uma massa de ferro:<br /> + + +<br /> + + +―Que está vossê a dizer, Casco? Faltar +á palavra! em que lhe faltei eu +á palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa +é nova! Então +houve por acaso escriptura assignada entre nós? +Você não voltou, não +appareceu...<br /> + + +<br /> + + +O Casco emmudecera, assombrado. Depois, com uma colera em que lhe +tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as seccas +mãos cabelludas, +fincadas ao cabo do varapau:<br /> + + +<br /> + + +―Se houvesse papel assignado o Fidalgo não podia recuar!... +Mas era +como se houvesse, para gente de bem!... Até V. S.<sup>a</sup> +disse, +quando eu +acceitei: «viva! está tratado!...» O +fidalgo deu a sua palavra!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, enfiado, apparentou a paciencia d'um senhor +benevolo:<br /> + + +<br /> + + +―Escute, José Casco. Aqui não é +logar, na estrada. Se quer conversar +commigo appareça na Torre. Eu lá estou sempre, +como vossê sabe, de +manhã... Vá ámanhã, +não me encommóda.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[186]</span> +E endireitava para o pinhal, com as pernas molles, um suor arripiado na +espinha―quando o Casco, n'um rodeio, n'um salto leve, atrevidamente se +lhe plantou diante, atravessando o cajado:<br /> + + +<br /> + + +―O Fidalgo ha-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A +mim não se me fazem d'essas desfeitas... O Fidalgo deu a sua +palavra!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo relanceou esgaseadamente em redor, na ancia d'um +soccorro. Só o +cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara +sob um resto +de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas +dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos +já +se adensava sombra e nevoa. Então, estarrecido, +Gonçalo tentou um +refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra +os homens do campo. E +como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços +resequidos e +tremulos:<br /> + + +<br /> + + +―Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam +assim, a +gritar. Póde haver desgosto, apparecer o regedor. Depois +é o tribunal, é +a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! +Se descobriu +motivo para se queixar, vá á Torre, conversamos. +Pacatamente tudo se +esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a +enxovia...<br /> + + +<br /> + + +Então de repente o Casco cresceu todo, no solitario <span class="pagenum">[187]</span>caminho, +negro e +alto como um pinheiro, n'um furor que lhe esbugalhava os olhos +esbraseados, quasi sangrentos:<br /> + + +<br /> + + +―Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a +justiça!... Pois ainda por cima +de me fazer a maroteira me ameaça com a cadeia!... +Então, com os diabos! +primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...<br /> + + +<br /> + + +Erguera o cajado...―Mas, n'um lampejo de razão e respeito, +ainda +gritou, com a cabeça a tremer para traz, atravez dos dentes +cerrados:<br /> + + +<br /> + + +―Fuja, fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo Mendes Ramires correu á cancella entalada +nos velhos humbraes de +granito, pulou por sobre as taboas mal pregadas, enfiou pela latada que +orla o muro, n'uma carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim da vinha, +junto aos milheiraes, uma figueira brava, densa em folha, +alastrára +dentro d'um espigueiro de granito destelhado e desusado. N'esse +esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando. O +crepusculo descera sobre os campos―e com elle uma serenidade em que +adormeciam frondes e relvas. Affoutado pelo silencio, pelo socego, +Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a +correr, n'um correr +manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão molle das +<span class="pagenum">[188]</span>chuvadas, +até +ao muro da Mãe d'Agua. De novo estacou, esfalfado. E +julgando entrever, +longe, á orla do arvoredo, uma mancha clara, algum +jornaleiro em mangas +de camisa, atirou um berro ancioso:―«Oh! Ricardo! Oh! +Manoel! Eh lá! +alguem! Vai ahi alguem?...»―A mancha indecisa fundira na +indecisa +folhagem. Uma rã pinchou n'um regueiro. Estremecendo, +Gonçalo retomou a +carreira até ao canto do pomar―onde encontrou fechada uma +porta, velha +porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou +contra ella os hombros que o terror enrijára como trancas. +Duas taboas +cederam, elle furou atravez, esgaçando a quinzena n'um +prégo.―E +respirou emfim no agazalho do pomar murado, deante das varandas da casa +abertas á frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, +negra e de +mil annos, mais negra e como mais carregada d'annos contra a macia +claridade da lua-nova que subia.<br /> + + +<br /> + + +Com o chapeu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, +costeou o +feijoal. E agora subitamente sentia uma colera amarga pelo desamparo em +que se encontrára, n'uma quinta tão povoada, +exameando de gentes e +dependentes! Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando elle +gritára, tão +afflicto, da borda da Mãe d'Agua! De cinco creados nenhum +acudira,―e +elle perdido, alli, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois +homens corressem com paus <span class="pagenum">[189]</span>ou +enxadas―e ainda colhiam o Casco na +estrada, o malhavam como uma espiga.<br /> + + +<br /> + + +Ao pé do gallinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, +atravessou o +pateo para a porta alumiada da cosinha. Dois moços da horta, +a filha da +Crispola, a Rosa, tagarellavam, regaladamente sentados n'um banco de +pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume +estrallejava―e a +panella do caldo, fervendo, rescendia. Toda a colera do Fidalgo rompeu:<br /> + + +<br /> + + +―Então, que sarau é este? Vocês +não me ouviram chamar?... Pois +encontrei lá em baixo, ao pé do pinheiral, um +bebedo, que me não +conheceu, veiu para mim <em>com uma foice</em>!... +Felizmente levava a bengala. +E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que +desaforo! Outra vez que succeda, todos para a rua... E quem resmungar, +a +cacete!<br /> + + +<br /> + + +A sua face chammejava, alta e valente. A pequena da Crispola logo se +escapulira, encolhida, para o recanto da cosinha, para traz da maceira. +Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um +grande vento. +E emquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em +lamentações sobre +«desgraças que assim +s'armam!»―Gonçalo, deleitado pela +submissão dos +dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos +varapaus encostados á +parede, amansava:<br /> + + +<br /> + + +―Realmente! sois todos surdos, n'esta pobre casa!... <span class="pagenum">[190]</span>Além +d'isso a +porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurrão. +Ficou em +pedaços.<br /> + + +<br /> + + +Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com +um queixo de cavallo, +pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco +cuidada, +coçou a cabeça, n'uma desculpa:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, com perdão do fidalgo!... Mas já depois +da saída do Relho se lhe +pôz uma travessa e fechadura nova... E valente!<br /> + + +<br /> + + +―Qual fechadura! gritou, o Fidalgo soberbamente. Despedacei a +fechadura, despedacei a travessa... Tudo em estilhas!<br /> + + +<br /> + + +O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, +para agradar:<br /> + + +<br /> + + +―Santo nome de Deus!... Então, é que o fidalgo +lhe atirou com força!<br /> + + +<br /> + + +E o companheiro, convencido, espetando o queixo enorme:<br /> + + +<br /> + + +―Mas que força! a matar! Que a porta era rija... E +fechadura nova, já +depois do Relho!<br /> + + +<br /> + + +A certeza da sua força, louvada por aquelles fortes, +reconfortou +inteiramente o fidalgo da Torre, já brando, quasi paternal:<br /> + + +<br /> + + +―Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesmo nova, +não me falta +força. O que eu não podia, por decencia, era +arrastar ahi por essas +estradas um bebedo com uma foice até casa do Regedor... Foi +para isso +que chamei, que gritei. Para que vossês o agarrassem, o +levassem ao +Regedor!... <span class="pagenum">[191]</span>Bem, +acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a +ceia, mais +uma caneca de vinho... A vêr se para outra vez se affoutam, +se +apparecem...<br /> + + +<br /> + + +Era agora como um antigo senhor, um Ramires d'outros seculos, justo e +avisado, que reprehende uma fraqueza dos seus solarengos―e logo +perdôa +por conta e amor das façanhas proximas. Depois com a bengala +ao hombro, +como uma lança, subio pela lobrega escada da cozinha. E em +cima no +quarto, apenas o Bento entrára para o vestir, +recomeçou a sua epopeia, +mais carregada, mais terrifica―assombrando o sensivel homem, estacado +rente da commoda, sem mesmo pousar a enfusa d'agoa quente, as botas +envernisadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam... O +Casco! O José +Casco dos Bravaes, bebedo, rompendo para elle, sem o conhecer, com uma +foice enorme, a berrar―«Morra, que é +marrão!...» E elle na estrada, +deante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a +foiçada resvala +sobre um tronco de pinheiro... Então arremette +desabaladamente, +brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manoel como se ambos +o +escoltassem―e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a +cambalear, a grunhir...<br /> + + +<br /> + + +―Hein, que te parece? Se não é a minha audacia, +<span class="pagenum">[192]</span>o homem +positivamente +me ferra um <em>tiro de espingarda</em>!<br /> + + +<br /> + + +O Bento, que quasi se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, +pestanejou, confuso, mais attonito:<br /> + + +<br /> + + +―Mas o Snr. Dr. disse que era uma foice!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo bateu o pé, impaciente:<br /> + + +<br /> + + +―Correu para mim com uma foice. Mas vinha atraz do carro... E no carro +trazia uma espingarda. O Casco é caçador, anda +sempre d'espingarda... +Emfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E tambem +porque +felizmente, n'estes casos, não me falta decisão!<br /> + + +<br /> + + +E apressou o Bento―porque com o abalo, o esforço, +positivamente lhe +tremiam as pernas de cançasso e de fome... Além +da sêde!<br /> + + +<br /> + + +―Sobretudo sêde! Esse vinho que venha bem fresco... Do Verde +e do +Alvaralhão, para misturar.<br /> + + +<br /> + + +O Bento, com um tremulo suspiro da emoção +atravessada, enchera a bacia, +estendia as toalhas. Depois, gravemente:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, Snr. Dr., temos esse andaço nos sitios! Foi o mesmo +que succedeu +ao Snr. Sanches Lucena, na <em>Feitosa</em>...<br /> + + +<br /> + + +―Como, ao Snr. Sanches Lucena?<br /> + + +<br /> + + +O Bento desenrolou então uma tremenda historia trazida +á Torre, durante +a estada do Snr. Doutor em <span class="pagenum">[193]</span>Oliveira, +pelo cunhado da Crispola, o Ruy +carpinteiro, que trabalhava nas obras da <em>Feitosa</em>. +O Snr. Sanches +Lucena descêra uma tarde, ao lusco fusco, á porta +do Mirante, quando +passam na estrada dous jornaleiros, bebedos ou facinoras, que implicam +com o excellente senhor. E chufas, risinhos, momices... O Snr. Sanches, +com paciencia, aconselhou os homens que seguissem, não se +desmandassem. +De repente um d'elles, um rapazola, sacode a jaqueta do hombro, ergue o +cajado! Felizmente o companheiro, que se affirmára, ainda +gritou:―«Ai! +rapaz, que elle é o nosso deputado!» O rapazola +abalou, espavorido. O +outro até se atirou de joelhos deante do Snr. Sanches +Lucena... Mas o +pobre senhor, com o abalo, recolheu á cama!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo acompanhára a historia, seccando +vagarosamente as mãos á toalha, +impressionado:<br /> + + +<br /> + + +―Quando foi isso?<br /> + + +<br /> + + +―Pois disse ao Snr. Dr.... Quando o Snr. Dr. estava em Oliveira. Um dia +antes ou um dia depois dos annos da Snr.<sup>a</sup> D. +Graça.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensativamente as unhas. Depois +com um risinho incerto e leve:<br /> + + +<br /> + + +―Emfim, sempre serviu d'alguma coisa ao Sanches Lucena ser deputado por +Villa-Clara...<br /> + + +<br /> + + +E já vestido, abastecendo a charuteira (porque <span class="pagenum">[194]</span>resolvera +passar a noite +na Villa, a desabafar com o Gouveia)―de novo se voltou para Bento, que +arrumava a roupa:<br /> + + +<br /> + + +―Então o bebedo, quando o outro lhe gritou «Ai, +que é o nosso +deputado,» cahiu em si, fugiu, hein?... Ora vê tu! +Ainda vale ser +deputado! Ainda inspira respeito, homem! Pelo menos inspira mais +respeito que descender dos reis de Leão!... Paciencia, toca +a jantar.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Durante o jantar, misturando copiosamente o Verde e o +Alvaralhão, +Gonçalo não cessou de ruminar a ousadia do Casco. +Pela vez primeira, na +historia de Santa Ireneia, um lavrador d'aquellas aldêas, +crescidas á +sombra da Casa illustre, por tantos seculos senhora em monte e valle, +ultrajava um Ramires! E brutamente, alçando o cajado, deante +dos muros +da quinta historica!... Contava seu pae que, em vida do +bisavô Ignacio, +ainda desde Ramilde até Corinde os homens dobravam o joelho +nos caminhos +quando passava o Senhor da Torre. E agora levantavam a foice!... E +porque? Por que elle não se desfalcára +submissamente das suas rendas em +proveito d'um façanhudo!―Em tempos do avô +Tructesindo, villão de tal +attentado assaria, como porco <span class="pagenum">[195]</span>montez, +n'uma ruidosa fogueira, deante das +barbacans da Honra. Ainda em dias do bisavô Ignacio +apodreceria n'uma +masmorra. E o Casco não podia escapar sem castigo. A +impunidade só lhe +incharia a audacia: e assomado, rancoroso, n'outro encontro, sem mais +fallas, desfechava a caçadeira. Oh! não lhe +desejava um mal duravel, +coitado, com dois filhos pequeninos―um que mamava. Mas que o +arrastassem á Administração, algemado, +entre dois cabos de policia―e +que na triste saleta, d'onde se avistam as grades da cadeia, apanhasse +uma reprehensão tremenda do Gouveia, do Gouveia muito secco, +muito +esticado na sobrecasaca negra... Assim se devia resguardar, por meios +tortuosos―pois que não era deputado, e que, com o seu +talento, o seu +nome, essa espantosa linhagem d'avós que +edificára o Reino, carecia o +prestigio d'um Sanches Lucena, o precioso prestigio que suspende no ar +os varapáus atrevidos!<br /> + + +<br /> + + +Apenas findou o café, mandou pelo Bento avisar os dous +moços da horta, o +Ricardo e o outro de queixo de cavallo, que o esperassem no pateo, +armados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma «Sala +d'armas»―cacifro +tenebroso, junto ao Archivo, onde se amontoavam peças +aboladas +d'armaduras, um lorigão de malha, um broquel mourisco, +alabardas, +espadões, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta +poeirenta +ferralhagem negra tres espingardas limpas <span class="pagenum">[196]</span>com +que os moços +da quinta, na +romaria de S. Gonçalo, atiravam descargas em louvor do Santo.<br /> + + +<br /> + + +Depois, elle, encafuou o revólver na algibeira, desenterrou +do armario +do corredor um velho bengalão de cabo de chumbo +entrançado, agarrou um +apito. E assim precavido, aquecido pelo Verde e pelo +Alvaralhão, com os +dous creados de caçadeira ao hombro, importantes e tesos, +partiu para +Villa-Clara, procurar o Snr. Administrador do Concelho. A noite +envolvia +os campos em socego e frescura. A lua nova, que alimpára o +tempo, roçava +a crista dos outeiros de Valverde como a roda lustrosa d'um carro de +ouro. No silencio os rijos sapatões pregueados dos dous +jornaleiros +resoavam em cadencia. E Gonçalo adiante, de charuto +flammante, gosava +aquella marcha, em que de novo um Ramires trilhava os caminhos de Santa +Ireneia com homens da sua mercê e solarengos armados.<br /> + + +<br /> + + +Ao começo da villa, porém, recolheu discretamente +a escolta na taverna +da Serena: e elle cortou para o Mercado da Herva, para a Tabacaria do +Simões, onde o Gouveia, áquella hora, antes da +partida da Assembléa, +costumava pousar, comprar uma caixa de phosphoros, considerar +pensativamente na vidraça as cautelas da Loteria. Mas n'essa +noite o +Snr. Administrador faltára ao Simões costumado. +Largou então para a +Assembléa: e logo em baixo, <span class="pagenum">[197]</span>no +bilhar, um sujeito calvo, que +contemplava +as carambolas solitarias do marcador, espapado na bancada, de collete +desabotoado, mascando um palito―informou o Fidalgo da +doença do amigo +Gouveia:<br /> + + +<br /> + + +―Cousa leve, inflammação de garganta... V. Ex.<sup>a</sup> +de certo o encontra em +casa. Não arreda do quarto desde Domingo.<br /> + + +<br /> + + +Outro cavalheiro porém, que remexia o seu café +á esquina d'uma mesa +atulhada de garrafas de licôr, affiançou que o +Snr. Administrador já +espairecera n'essa tarde. Ainda pelas cinco horas elle o +encontrára na +Amoreira, com o pescoço atabafado n'uma manta de +lã.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, impaciente, abalou para a Calçadinha. E +atravessava o Largo do +Chafariz quando descortinou o desejado Gouveia, á porta +muito alumiada +da loja de pannos do Ramos, conversando com um homemzarrão +de forte +barba retinta e de guarda-pó alvadio.<br /> + + +<br /> + + +E foi o Gouveia, que, de dedo espetado, investiu para +Gonçalo:<br /> + + +<br /> + + +―Então, já sabe?<br /> + + +<br /> + + +―O quê?<br /> + + +<br /> + + +―Pois não sabe, homem?... O Sanches Lucena!<br /> + + +<br /> + + +―O quê?<br /> + + +<br /> + + +―Morreu!<br /> + + +<br /> + + +O fidalgo embasbacou para o Administrador, depois <span class="pagenum">[198]</span>para o outro +cavalheiro, que repuxava na mão enorme, com um +esforço inchado, uma luva +preta apertada e curta.<br /> + + +<br /> + + +―Santo Deus!... Quando?<br /> + + +<br /> + + +―Esta madrugada. De repente. «Angina pectoris,» +não sei quê no +coração... De repente, na cama.<br /> + + +<br /> + + +E ambos se consideraram, em silencio, no espanto renovado d'aquella +morte que impressionava Villa-Clara. Por fim Gonçalo:<br /> + + +<br /> + + +―E eu ainda ha bocado, na Torre, a fallar d'elle! E, coitado, como +sempre, com pouca admiração...<br /> + + +<br /> + + +―E eu! exclamou o Gouveia. Eu, que ainda hontem lhe escrevi!... E uma +carta comprida, por causa d'um empenho do Manoel Duarte... Foi o +cadaver +que recebeu a carta.<br /> + + +<br /> + + +―Boa piada! rosnou o sujeito obeso, que se debatia ferrenhamente contra +a luva. O cadaver recebeu a carta... Boa piada!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo torcia o bigode, pensativo:<br /> + + +<br /> + + +―Ora, ora... E que edade tinha elle?<br /> + + +<br /> + + +O Gouveia sempre o imaginára um completo velho, de setenta +invernos. +Pois não! apenas sessenta, em Dezembro. Mas consumido, +arrasado. Casára +tarde, com fêmea forte...<br /> + + +<br /> + + +―E ahi temos a bella D. Anna, viuva aos vinte <span class="pagenum">[199]</span>e +oito annos, sem filhos, +naturalmente herdeira, com o seu mealheiro de duzentos contos... Talvez +mais!<br /> + + +<br /> + + +―Boa maquia! roncou de novo o oupado homem que enfiára a +luva, e agora +gemia, com as veias tumidas, para lhe apertar o colchete.<br /> + + +<br /> + + +Aquelle cavalheiro constrangia o Fidalgo―ancioso por desafogar com o +Gouveia sobre «a vacatura politica,» assim +inesperadamente aberta, no +circulo de Villa-Clara, pela brusca desapparição +do Chefe tradicional. E +não se conteve, puchou o Administrador pelo botão +da sobrecasaca para a +sombra favoravel da parede:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Gouveia! então agora, hein?... Temos +eleição supplementar... Quem +virá pelo circulo?<br /> + + +<br /> + + +E o Administrador, muito simplesmente, sem se resguardar do +homemzarrão +de guarda-pó, que, emfim enluvado, accendera o charuto, se +acercava com +familiaridade―deduziu os factos:<br /> + + +<br /> + + +―Agora, meu amigo, com o tio do Cavalleiro ministro da +Justiça e o José +Ernesto ministro do Reino, vae deputado pelo circulo quem o +André +Cavalleiro mandar. É claro... O Sanches Lucena manteve +sempre o seu +logar em S. Bento por uma indicação natural do +partido. Era aqui o +primeiro homem, o grande homem dos Historicos... Bem! Hoje, para +decidir +o Governo, como falta a indicação natural <span class="pagenum">[200]</span>do +partido, que resta? O +desejo pessoal do Cavalleiro. Você sabe como o Cavalleiro +é +regionalista. Pelo circulo pois, logicamente, sahe quem se apresente ao +Cavalleiro como um bom continuador do Lucena, pela influencia e pela +estabilidade territorial... N'outro circulo ainda se podia encaixar +á +pressa um deputado fabricado em Lisboa, nas Secretarias. Aqui +não! O +deputado tem de ser local e Cavalleirista. E o proprio Cavalleiro, +acredite você, está a esta hora +embaraçado.<br /> + + +<br /> + + +O gordalhufo murmurou com importancia, atravez do immenso charuto que +mamava:<br /> + + +<br /> + + +―Amanhã já estou com elle, já sei...<br /> + + +<br /> + + +Mas o Administrador emmudecera, coçava o queixo, cravando em +Gonçalo os +olhos espertos, que rebrilhavam, como se uma ditosa idéa, +quasi uma +inspiração, o illuminasse. E de repente, para o +outro, que cofiava a +barba retinta:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, meu caro senhor, até além +d'ámanha. Ficamos entendidos. Eu +remetto o cestinho dos queijos directamente ao Snr. Conselheiro.<br /> + + +<br /> + + +Tomou o braço de Gonçalo, que apertou com +impaciencia. E sem attender +mais ao homemzarrão, que saudava rasgadamente, arrastou o +Fidalgo para a +Calçadinha silenciosa:<br /> + + +<br /> + + +―Oh, Gonçalo, ouça lá... +Vossê agora tinha <span class="pagenum">[201]</span>uma +occasião soberba! +Você, +se quizesse, dentro de poucos dias, estava deputado por Villa-Clara!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre estacára―como se uma estrella de repente +se +despenhasse na rua mal allumiada.<br /> + + +<br /> + + +―Ora escute! exclamou o Administrador, largando o braço de +Gonçalo, +para desenrolar mais livremente a sua idéa. Você +não tem compromissos +serios com os Regeneradores. Você deixou Coimbra ha um anno, +tenta agora +a vida publica, nunca fez acto definitivo de partidario. Lá +uma ou outra +correspondencia para os jornaes, historias!...<br /> + + +<br /> + + +―Mas...<br /> + + +<br /> + + +―Escute, homem! Você quer entrar na Politica? Quer. +Então, pelos +Historicos ou pelos Regeneradores, pouco importa. Ambos são +constitucionaes, ambos são christãos... A +questão é entrar, é furar. Ora +você, agora, inesperadamente, encontra uma porta aberta. O +que o póde +embaraçar? As suas inimisades particulares com o Cavalleiro? +Tolices!<br /> + + +<br /> + + +Atirou um gesto, largo e secco, como se varresse essas puerilidades:<br /> + + +<br /> + + +―Tolices! Entre vocês não ha morte d'homem. Nem +vocês, no fundo, são +inimigos. O Cavalleiro é rapaz de talento, rapaz de gosto... +Não vejo +outro, aqui no districto, com quem você tenha mais +conformidade de +espirito, de educação, de maneiras, de +tradições... N'uma terra pequena, +mais dia menos <span class="pagenum">[202]</span>dia, +fatalmente, se impunha a +reconciliação. Então seja +agora, quando a reconciliação o leva +ás Camaras!... E repito. Pelo +circulo de Villa-Clara sahe deputado quem o Cavalleiro mandar!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre respirou, com esforço, na +emoção que o suffocava. E +depois d'um silencio em que tirára o chapéo, +abanára com elle, +pensativamente, a face descahida:<br /> + + +<br /> + + +―Mas o Cavalleiro, como você disse, é todo local +todo regional... Não +quererá impôr senão um homem como o +Lucena, com fortuna, com +influencia...<br /> + + +<br /> + + +O outro parou, alargou os braços:<br /> + + +<br /> + + +―E então, você?... Que diabo! Você tem +aqui propriedade. Tem a Torre, +tem Treixedo. Sua irmã hoje é rica, mais rica que +o Lucena. E depois o +nome, a familia... Vocês, os Ramires, estão +estabelecidos, com solar em +Santa Ireneia, ha mais de duzentos annos.<br /> + + +<br /> + + +O fidalgo da Torre ergueu com viveza a cabeça:<br /> + + +<br /> + + +―Duzentos?... Ha mil, ha quasi mil!<br /> + + +<br /> + + +―Ora ahi tem! Ha mil annos. Uma casa anterior á monarchia. +Pelo menos +coeva! Você é portanto mais fidalgo que o Rei! E +então, isso não é uma +situação muito superior á do Lucena? +Sem contar a intelligencia... Oh! +diabo!<br /> + + +<br /> + + +―Que foi?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[203]</span> ―A garganta... Uma picadita na garganta. Ainda não estou +consolidado.<br /> + + +<br /> + + +E decidiu logo recolher, gargarejar, porque o Dr. Macedo prohibira as +noitadas festivas. Mas Gonçalo acompanhava até +á porta o amigo Gouveia. +E, conchegando o abafo de lã, o Administrador resumiu a sua +idéa:<br /> + + +<br /> + + +―Pelo circulo de Villa-Clara, Gonçalinho, sahe quem o +Cavalleiro +mandar. Ora o Cavalleiro, creia você, tem immenso empenho de +o eleger, +de o lançar na Politica. Se você portanto estender +a mão ao Cavaleiro, o +circulo é seu. O Cavalleiro tem o maior, o maiorissimo +empenho, +Gonçalinho!<br /> + + +<br /> + + +―Isso é que eu não sei, João +Gouveia...<br /> + + +<br /> + + +―Sei eu!<br /> + + +<br /> + + +E em confidencia, na solidão da Calçadinha, +João Gouveia revelou ao +Fidalgo que o Cavalleiro anciava pela occasião de reatar a +velha +fraternidade com o seu velho Gonçalo! Ainda na semana +passada o +Cavalleiro lhe affirmára (palavras +textuaes):―«Entre os rapazes d'esta +geração nenhum com mais seguro e mais largo +futuro na Politica que o +Gonçalo. Tem tudo! grande nome, grande talento, a +seducção, a +eloquencia... Tem tudo! E eu, que conservo pelo Gonçalo todo +o carinho +antigo, gostava ardentemente, ardentissimamente, de o levar +ás Camaras.»<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[204]</span> ―Palavras textuaes, meu amigo!... Ainda ha seis ou sete dias, em +Oliveira, depois do jantar, a tomarmos ambos café no quintal.<br /> + + +<br /> + + +A face de Gonçalo ardia na sombra, devorando as +revelações do +Administrador. Depois, com lentidão, como descobrindo +candidamente todos +os recantos da sua alma:<br /> + + +<br /> + + +―Eu, na realidade, tambem conservo a antiga sympathia pelo Cavalleiro. +E certas questões intimas adeus!... Envelheceram, caducaram, +tão +obsoletas hoje como os aggravos dos Horacios e dos Curiacios... Como +você lembrou ha pouco, com razão, nunca se ergueu +entre nós morte de +homem. Que diabo! Eu fui educado com o Cavalleiro, eramos como +irmãos... +E acredite você, Gouveia! Sempre que o vejo, sinto um +appetite doido, +mas doido, de correr para elle, de lhe gritar: «Oh! +André! nuvens +passadas não voltam, atira para cá esses +ossos!» Creia você, não o +faço +por timidez... É timidez... Oh! não, +lá por mim, estou prompto á +reconciliação, todo o +coração m'a pede! Mas elle?... Porque, emfim, +Gouveia, eu, nas minhas Correspondencias para a <em>Gazeta do +Porto</em>, tenho +sido feroz com o Cavalleiro!<br /> + + +<br /> + + +João Gouveia parou, de bengala ao hombro, considerando o +fidalgo com um +sorriso divertido:<br /> + + +<br /> + + +―Nas Correspondencias? Que lhe tem você dito nas +Correspondencias? Que +o Snr. Governador <span class="pagenum">[205]</span>Civil +é um despota, e um D. Juan?... Meu +caro amigo, +todo o homem gosta que, por opposição politica, +lhe chamem despota e D. +Juan. Você imagina que elle se affligiu? Ficou simplesmente +babádo!<br /> + + +<br /> + + +O fidalgo murmurou, inquieto:<br /> + + +<br /> + + +―Sim! Mas as allusões á bigodeira, á +guedelha...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Gonçalinho! Bellos cabellos annellados, bellos bigodes +torcidos, +não são defeitos de que um macho se envergonhe... +Pelo contrario! Todas +as mulheres admiram. Você pensa que ridicularisou o +Cavalleiro? Não! +annunciou simplesmente ás madamas e meninas, que +lêem a <em>Gazeta do +Porto</em>, a existencia d'um mocetão esplendido que +é Governador Civil +d'Oliveira.<br /> + + +<br /> + + +E parando de novo (por que defronte, na esquina, luziam as duas +janellas +abertas da sua casa), o Administrador estendeu o dedo firme para um +conselho supremo:<br /> + + +<br /> + + +―Gonçalo Mendes Ramires, você +ámanhã manda buscar a parelha do Torto, +salta para a sua caleche, corre á cidade, entra pelo Governo +Civil de +braços abertos, e grita sem outro +prologo:―«André, o que lá vae, +lá +vae, venham essas costellas! E como o circulo está vago, +venha tambem +esse circulo!»―E você, dentro de cinco ou seis +semanas, é o Snr. +Deputado <span class="pagenum">[206]</span>por +Villa-Clara, com todos os sinos a repicar... Quer tomar +chá?<br /> + + +<br /> + + +―Não, obrigado.<br /> + + +<br /> + + +―Bem, então viva! Tipoia ámanhã e +Governo Civil. Está claro, é +necessario arranjar um pretexto...<br /> + + +<br /> + + +O fidalgo acudiu, com alvoroço:<br /> + + +<br /> + + +―Eu tenho um pretexto! Não!... Quero dizer, tenho +necessidade real, +absoluta, de fallar com o Cavalleiro ou com o Secretario Geral. +É uma +questão de caseiro... Até por causa d'essa +infeliz trapalhada o +procurava eu hoje a você, Gouveia!<br /> + + +<br /> + + +E aldravou a aventura do Casco, com traços mais pesados que +a +ennegreciam. Durante semanas, afferradamente, esse fatal Casco o +torturára para lhe arrendar a Torre. Mas elle +tratára com o Pereira, o +Pereira Brazileiro, por uma renda explendidamente superior á +que o Casco +offerecia a gemer. Desde então o Casco rugia, +ameaçava, por todas as +tabernas da Freguezia. E, n'essa tarde, surde d'uma azinhaga, rompe +para +elle, de varapau erguido! Mercê de Deus, lá se +defendera, lá sacudira o +bruto, com a bengala. Mas agora, sobre o seu socego, sobre a sua vida, +pairava a affronta d'aquelle cajado. E, se o assalto se renovasse, elle +varava o Casco com uma bala, como um bicho montez... Urgia pois que o +amigo Gouveia chamasse o homem, o reprehendesse <span class="pagenum">[207]</span>rijamente, o entaipasse +mesmo por algumas horas na cadeia...<br /> + + +<br /> + + +O Administrador, que escutára palpando a garganta, atalhou +logo, com a +mão espalmada:<br /> + + +<br /> + + +―Governo Civil, caro amigo, Governo Civil! Esses casos de +prisão +preventiva pertencem ao Governo Civil. Reprehensão +não basta, com tal +féra!... Só cadeia, um dia de cadeia, a meia +ração... O Governo Civil +que me mande um officio ou telegramma. Você realmente corre +perigo. Nem +um instante a perder!... Amanhã tipoia e Governo Civil. +Mesmo por amor +da Ordem Publica!<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo, compenetrado, com os hombros vergados, cedeu ante +esta +soberana razão da Ordem Publica:<br /> + + +<br /> + + +―Bem, João Gouveia, bem!... Com effeito é uma +questão de Ordem Publica. +Vou ámanhã ao Governo Civil.<br /> + + +<br /> + + +―Perfeitamente, concluiu o Administrador puxando o cordão +da campainha. +Dê recados meus ao Cavalleiro. E só lhe digo que +havemos de arranjar uma +votação tremenda, e foguetorio, e vivas, e ceia +magna no Gago... Você +não quer tomar chá, não? +Então, boas noites... E olhe! D'aqui a dous +annos, quando você fôr ministro, Gonçalo +Mendes Ramires, recorde esta +nossa conversa, á noite, na Calçadinha de +Villa-Clara!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[208]</span> +Gonçalo seguiu pensativamente por defronte do Correio; +torneou a branca +escadaria da Egreja de S. Bento; metteu, alheado e sem reparar, pela +estrada plantada de acacias que conduz ao Cemiterio. E, n'aquelle alto +da Villa, d'onde, ao desembocar da Calçadinha, se abrange a +largueza +rica dos campos desde Valverde a Craquêde―sentiu que tambem +na sua +vida, apertada e solitaria como a Calçadinha, se +alargára um arejado +espaço cheio d'interessante bulicio e de abundancia. Era o +muro, em que +sempre se imaginára irreparavelmente cerrado, que de repente +rachava. +Eis a fenda facilitadora! Para além reluziam todas as bellas +realidades +que desde Coimbra appetecera! Mas...―Mas no atravessar da fenda fragosa +de certo se rasgaria a sua dignidade ou se rasgaria o seu orgulho. Que +fazer?...<br /> + + +<br /> + + +Sim! seguramente! Estendendo os braços ao animal do +Cavalleiro +conquistava a sua Eleição. O circulo, infeudado +aos Historicos, elegeria +submissamente o Deputado que o chefe Historico ordenasse com indolente +aceno. Mas essa reconciliação importava a entrada +triumphal do +Cavalleiro na quieta casa do Barrôlo... Elle vendia pois o +socego da +irmã por uma cadeira em S. Bento! Não! +não podia por amor de +Gracinha!―E Gonçalo suspirou, com ruidoso suspiro, no +luminoso silencio +da estrada.<br /> + + +<br /> + + +Agora porém, durante tres, quatro annos, os Regeneradores +<span class="pagenum">[209]</span>não +trepavam +ao Governo. E elle, alli, atravez d'esses annos, no buraco rural, +jogando voltaretes somnolentos na Assembléa da Villa, +fumando cigarros +calaceiros nas varandas dos Cunhaes, sem carreira, parado e mudo na +vida, a ganhar musgo, como a sua caduca, inutil Torre! Caramba! era +faltar cobardemente a deveres muito santos para comsigo e para com o +seu +nome!... Em breve os seus camaradas de Coimbra penetrariam nos altos +Empregos, nas ricas Companhias; muitos nas Camaras por vacaturas +abençoadas como a do Sanches; um ou outro mesmo, mais audaz +ou servil, +no Ministerio. Só elle, com talentos superiores, um tal +brilho +historico, jazeria esquecido e resmungando como um côxo n'uma +estrada +quando passa a romaria. E por quê? Pelo receio pueril de +pôr a bigodeira +atrevida do Cavalleiro muito perto dos fracos labios de Gracinha... E +por fim esse receio constituia uma injuria, uma nojenta injuria, +á +seriedade da irmã. Porque Portugal não se honrava +com mulher mais +rigidamente seria, de mais grave e puro pensar! Aquelle corpinho +ligeiro, que o vento levava, continha uma alma heroica. O +Cavalleiro?... +Podia sua exc.<sup>a</sup> sacudir a guedelha com +graça fatal, jorrar +dos olhos +pestanudos a languidez ás ondas―que Gracinha permaneceria +tão +inaccessivel e solida na sua virtude como se fosse insexual e de +marmore. <span class="pagenum">[210]</span>Oh, +realmente, por Gracinha, elle abriria ao Cavalleiro todas +as portas dos Cunhaes―mesmo a porta do quarto d'ella, e bem larga, com +uma solidão bem preparada!... E depois não se +cuidava de uma donzella, +nem d'uma viuva. Na casa do Largo d'El-Rei governava, mercê +de Deus, +marido brioso, marido rijo. A esse, só a esse, competia +escolher as +intimidades do seu lar―e n'elle manter quietação +e recato. Não! esse +receio de uma imaginavel fragilidade de Gracinha, da sua honrada, +altiva +Gracinha―esse receio, perverso e louco, certamente o devia varrer, com +o coração desafogado e sorrindo.―E, na clara +solidão da estrada, +Gonçalo Mendes Ramires atirou um gesto decidido e terminante +que varria.<br /> + + +<br /> + + +Restava porém a sua propria +humilhação. Desde annos, ruidosamente, +conversando e escrevendo, em Coimbra, em Villa-Clara, em Oliveira, na +<b><em>Gazeta do Porto</em></b>―elle demolira o +Cavalleiro! E +subiria agora, de +espinhaço vergado, as escadarias do Governo Civil, +murmurando o +seu―<em>peccavi, mea culpa, mea maxima culpa</em>?... Que +escandalo na +cidade!―«O Fidalgo da Torre lá precisou e +lá veio...» Era o +transbordante triumpho do Cavalleiro. O unico homem que no Districto se +conservava erguido, pelejando, trovejando as verdades―desarmava, +emmudecia, e encolhidamente se enfileirava no sequito louvaminheiro de +Sua Exc.<sup>a</sup>! Bem duro!... Mas, <span class="pagenum">[211]</span>que diabo, havia +superiormente o interesse +do paiz!―E, tão admiravel lhe appareceu esta +razão, que a bradou com +ardôr na mudez da estrada:―«Ha o +paiz!...»<br /> + + +<br /> + + +Sim, o paiz! Quantas reformas a proclamar, a realisar! Em Coimbra, no +quinto anno, já se occupára da +Instrucção Publica―d'uma +remodelação do +Ensino, todo industrial, todo colonial, sem latim, sem ociosas +bellas-lettras, creando um povo formigueiro de Productores e +d'Exploradores... E os camaradas, nos sonhos ondeantes de Futuro, +quando +repartiam os Ministerios, concordavam sempre:―«O +Gonçalo para a +Instrucção Publica!» Por essas ideas +poderosas, pelo saber accumulado, +todo elle se devia á Nação―como +outr'ora, pela força, os grandes +Ramires armados. E pela Nação cumpria que o seu +orgulho de homem cedesse +ante a sua tarefa de cidadão...<br /> + + +<br /> + + +Depois, quem sabe? Entre o Cavalleiro e elle afogadamente se enroscava +todo um passado de camaradagem, apenas entorpecido―que talvez revivesse +n'esse encontro, os enlaçasse logo n'um abraço +penetrante, onde os +antigos aggravos se sumiriam como um pó sacudido... Mas para +que +imaginar, remoer? Uma necessidade se sobrepunha, inilludivel―a de +comparecer logo de manhã em Oliveira, no Governo Civil, +requerendo a +suppressão do Casco. D'essa pressa dependia o seu socego de +vida <span class="pagenum">[212]</span>e +d'intelligencia. Nunca elle lograria trabalhar na Novella, trilhar +folgadamente a estrada de Villa-Clara, sabendo que em torno o outro, +pelas quélhas e sombras, rondava com a espingarda. E para +não regressar +aos costumes bravios dos seus avós, circulando atravez do +Concelho entre +as carabinas dos creados, necessitava o Casco domado, immobilisado. Era +pois inadiavel correr ao Governo Civil, para bem da Ordem. E depois, +quando elle se encontrasse no gabinete do Cavalleiro, deante da mesa do +Cavalleiro―a Providencia decidiria...―«A Providencia +decidirá!»<br /> + + +<br /> + + +E ancorado n'esta resolução, o Fidalgo da Torre +parou, olhou. Levado +pela quente rajada de pensamentos, chegára á +grade do cemiterio da Villa +que o luar branqueava como um lençol estendido. Ao fundo da +alameda que +o divide, clara na claridade triste, o escarnado Christo chagado e +livido, sobre a sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e livido no +silencio e na solidão, com uma tristissima lampada aos +pés esmorecendo. +Em torno eram cyprestes, sombras de cyprestes, brancuras de lapides, as +cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta pesando sobre os +mortos: e no alto a lua amarella e parada. Então o Fidalgo +sentiu um +arripiado mêdo do Christo, das lousas, dos defuntos, da lua, +da solidão. +E despedio n'uma carreira até avistar as casas <span class="pagenum">[213]</span>da +Calçadinha, por onde +descambou como uma pedra solta. Quando se deteve no Largo do Chafariz, +um môcho piava na torre da Camara, melancolisando o repouso +de +Villa-Clara apagada e adormecida. Mais impressionado, +Gonçalo correu á +taberna da Serena, recolheu os creados que esperavam jogando a bisca +lambida. E com elles atravessou de novo a Villa até +á cocheira do +Torto―para recommendar que lhe mandassem á Torre, +ás nove horas da +manhã, a parelha russa.<br /> + + +<br /> + + +Atravez do postigo, que se abrira com cautella no portão +chapeado, a +mulher do Torto gemeu, indecisa:<br /> + + +<br /> + + +―Ai, meu Deus, não sei se poderá... Elle +ás nove tem um serviço... Pois +não faria mais conta ao Fidalgo ahi pela volta das onze?<br /> + + +<br /> + + +―Ás nove! berrou Gonçalo.<br /> + + +<br /> + + +Desejava apear cêdo ao portão do Governo Civil +para evitar a curiosidade +d'aquelles cavalheiros de Oliveira―que, depois do meio dia, se juntavam +na Praça, vadiando por debaixo da Arcada.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Mas ás nove e meia Gonçalo, que até ao +luzir da madrugada se agitára +pelo quarto n'um tumulto d'esperanças e receios―ainda se +barbeava, em +camisa, deante do vasto espelho de coluninas douradas. Depois +<span class="pagenum">[214]</span>aproveitou +a caleche para deixar na <em>Feitosa</em> os seus bilhetes +de pezames +á bella +viuva, á D. Anna. Ao meio dia, esfaimado, almoçou +na Vendinha emquanto a +parelha resfolgava. E batia a meia depois das duas quando emfim se +apeou +em Oliveira deante do portão do antigo convento de S. +Domingos, ao fundo +da Praça, onde seu pae, quando Chefe do Districto, +installára +faustosamente as repartições do Governo Civil.<br /> + + +<br /> + + +Áquella hora, já na frescura e sombra da Arcada +que orla um lado da +Praça (outr'ora <em>Praça da Prataria</em>, +hoje +<em>Praça da Liberdade</em>) os +cavalheiros d'Oliveira mais desoccupados, os +«rapazes», preguiçavam, em +cadeiras de verga, á porta da Tabacaria Elegante e da loja +do Leão. +Gonçalo, cautelosamente, baixára as cortinas +verdes da caleche. Mas no +pateo do Governo Civil, ainda guarnecido de bancos monumentaes do tempo +dos frades, esbarrou com o primo José Mendonça, +que descia a escadaria, +fardado. Foi um assombro para o alegre capitão, +moço esvelto, de bigode +curto, picado levemente de bexigas.<br /> + + +<br /> + + +―Tu por aqui, Gonçalinho! E de chapeu alto! Caramba, deve +ser coisa +gorda!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre confessou, corajosamente. Chegava n'esse instante de +Santa Ireneia para fallar ao André Cavalleiro...<br /> + + +<br /> + + +―Está elle cá, esse illustre senhor?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[215]</span> +O outro recuou, quasi aterrado:<br /> + + +<br /> + + +―Ao Cavalleiro?! É ao Cavalleiro que vens fallar?!... +Santissima +Virgem! Então desabou Troia!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo gracejou, corando. Não! não se +passára desgraça epica como a de +Troia... De resto podia revelar ao amigo Mendonça o caso que +o arrastava +á presença augusta de Sua Exc.<sup>a</sup> +o Snr. +Governador Civil. Era um homem +dos Bravaes, um Casco, que, furioso por não conseguir o +arrendamento da +Torre, o ameaçára, rondava agora a estrada de +Villa-Clara de noite, á +espreita, com uma espingarda. E elle, não ousando +«fazer alta e boa +justiça» pelas mãos dos seus creados, +como os Ramires feudaes―reclamava +modestamente da Auctoridade Superior uma ordem para que o Gouveia +mantivesse dentro da legalidade e dos Mandamentos de Deus o +façanhudo +dos Bravaes...<br /> + + +<br /> + + +―Só isto, uma pequenina questão de paz +publica... E então o grande +homem está lá em cima? Bem, até logo, +Zézinho... A prima, de saude? Eu +naturalmente janto nos Cunhaes. Apparece!<br /> + + +<br /> + + +Mas o capitão não despegava do degrau de pedra, +abrindo pachorrentamente +a cigarreira de couro:<br /> + + +<br /> + + +―E que me dizes tu á novidade? O pobre Sanches Lucena?...<br /> + + +<br /> + + +Sim, Gonçalo soubera na Assembleia. Um ataque, +hein?―Mendonça accendeu, +chupou o cigarro:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[216]</span> ―De repente, com um aneurisma, a ler o <em>Noticias</em>!... +Pois ainda ha +tres dias a Maricas e eu jantamos na <em>Feitosa</em>. +Até eu +toquei a duas +mãos, com a D. Anna, o quarteto do Rigoleto. E elle bem, +conversando, +tomando a sua aguardentesinha de canna...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo esboçou um gesto de piedade e tristeza:<br /> + + +<br /> + + +―Coitado... Tambem ha semanas o encontrei na Bica-Santa. Bom homem, bem +educado... E ahi temos agora a bella D. Anna vaga.<br /> + + +<br /> + + +―E o circulo!<br /> + + +<br /> + + +―Oh, o circulo! murmurou o Fidalgo da Torre com risonho desdem. A mim +antes me convinha a viuva. É Venus com duzentos contos! +Infelizmente tem +uma voz medonha...<br /> + + +<br /> + + +O primo Mendonça accudiu, com interesse, uma +convicção dedicada:<br /> + + +<br /> + + +―Não! não! na intimidade, perde aquelle tom +empapado... Não imaginas! +até um timbre natural, agradavel... E depois, menino, que +corpo! que +pelle!<br /> + + +<br /> + + +―Deve ficar explendida agora com o luto! concluiu Gonçalo. +Bem, +adeusinho! Apparece nos Cunhaes... Eu corro ao Cavalleiro para que Sua +Exc.<sup>a</sup> me salve com o seu braço forte!<br /> + + +<br /> + + +Sacudiu a mão do Mendonça, galgou a escadaria de +pedra.<br /> + + +<br /> + + +Mas o capitão, que mettera para a travessa de S. Domingos, +desconfiou +d'aquella historia d'ameaças, <span class="pagenum">[217]</span>d'espingardas... +«Qual! Aqui anda +Politica!» E quando, passada uma hora lenta, repenetrou na +Praça e +avistou a caleche da Torre ainda encalhada á porta do +Governo +Civil―correu á Arcada, desabafou logo com os dois +Villa-Velhas, ambos +pensativamente encostados aos dois humbraes da Tabacaria Elegante:<br /> + + +<br /> + + +―Vocês sabem quem está no Governo Civil?... O +Gonçalo Ramires!... Com o +Cavalleiro!<br /> + + +<br /> + + +Todos em roda se mexeram, como acordando, nas gastas cadeiras de +verga―onde os estendera somnolentamente o silencio e a ociosidade da +arrastada tarde de verão. E o Mendonça, excitado, +contou que desde as +duas horas e meia Gonçalo Mendes Ramires, «em +carne e osso», se +conservava fechado com o Cavalleiro, no Governo Civil, n'uma +conferencia +magna! O espanto e a curiosidade foram tão ardentes que +todos se +ergueram, se arremessaram para fóra dos Arcos, a espiar a +bojuda varanda +do convento, sobre o portão―que era a do gabinete de Sua +Excellencia.<br /> + + +<br /> + + +Precisamente, n'esse momento, José Barrôlo, a +cavallo, de calça branca, +de rosa branca na quinzena d'alpaca, dobrava a esquina da rua das +Vendas. E o interesse todo d'aquelles cavalheiros se precipitou para +elle, na esperança d'uma revelação:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Barrôlo!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[218]</span> ―Oh Barrolinho, chega cá!<br /> + + +<br /> + + +―Depressa, homem, que é caso rijo!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, ladeando, abeirou da Arcada: e os amigos +immediatamente lhe +atiraram a nova formidavel, apertados em volta da egoa. O +Gonçalo e o +Cavalleiro cochichando secretamente toda a manhã! A caleche +da Torre á +espera, com a parelha adormecida! E já começavam +a repicar os sinos da +Sé!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, n'um pulo, desmontou. E emquanto um garoto lhe +passeava a +egoa―estacou entre os amigos, com o chicote detraz das costas, pasmando +tambem para a varanda de pedra do Governo Civil.<br /> + + +<br /> + + +―Pois eu não sei nada! O Gonçalo a mim +não me disse nada! affirmava +elle, assombrado. Tambem já ha dias não vem +á cidade... Mas não me disse +nada! E da ultima vez que cá esteve, nos annos da +Graça, ainda +destemperou contra o Cavalleiro!<br /> + + +<br /> + + +A todos o caso parecia «d'estrondo!» E subitamente +um silencio esmagou a +Arcada, trespassada d'emoção. Na varanda, entre +as vidraças abertas +vagarosamente, apparecera o Cavalleiro com o Fidalgo da Torre, +conversando, risonhos, de charutos accesos. Os largos olhos do +Cavalleiro pousaram logo, com malicia, sobre os +«rapazes» apinhados em +pasmo á borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de +visão. S. Ex.<sup>a</sup> +remergulhára no gabinete―o Fidalgo tambem, depois de se +debruçar da +varanda, espreitar <span class="pagenum">[219]</span>a +caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:<br /> + + +<br /> + + +―Viva! Reconciliação!<br /> + + +<br /> + + +―Acabou a guerra das Rosas!<br /> + + +<br /> + + +―E as correspondencias da <em>Gazeta do Porto</em>?...<br /> + + +<br /> + + +―É que houve peripecia tremenda!<br /> + + +<br /> + + +―Temos o Gonçalinho administrador d'Oliveira!<br /> + + +<br /> + + +―Upa, Ex.<sup>mo</sup> Snr., upa!<br /> + + +<br /> + + +Mas de novo emmudeceram. O Cavalleiro e o Fidalgo reappareciam, n'uma +enfronhada conversa, que os deteve um momento esquecidos, na evidencia +da varanda escancarada. Depois o Cavalleiro, com uma familiaridade +carinhosa, bateu nas costas do Gonçalo―como se publicasse a +sua +reconciliação diante da Praça +maravilhada. E outra vez se sumiram, +n'esse passear conversado e intimo, que os trazia da sombra do gabinete +para a claridade da janella, roçando as mangas, misturando o +fumo leve +dos charutos. Em baixo o bando crescia, mais excitado. +Passára o Mello +Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado: e, chamados com +ancia, cada +um correra, devorára esgazeadamente a novidade, +embasbacára para o velho +balcão de pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do +relogio do +Governo Civil já se acercavam das quatro horas. Os dous +Villa-Velhas, +outros «rapazes», estafados, retrocederam +ás cadeiras de verga da +Tabacaria. O Dr. Delegado, <span class="pagenum">[220]</span>que +jantava ás quatro e soffria +do estomago, +despegou desconsoladamente dos Arcos, supplicando ao Pestana seu +visinho +«que apparecesse ao café, para contar o +resto...» Mello Alboim, esse, +enfiára para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do +Largo: e da +janella, disfarçado por traz da mulher e da cunhada, ambas +de chambres +brancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Ex.<sup>a</sup> +com um binoculo. +Por fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas. +Então o Barão +das Marges, na sua impaciencia borbulhante, decidiu subir ao Governo +Civil, «para farejar!...»<br /> + + +<br /> + + +Mas n'esse momento André Cavalleiro assomava de novo +á varanda―sózinho, +com as mãos enterradas no jaquetão de flanella +azul. E quasi +immediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil, +atravessou a Praça, com os stores verdes meio corridos, +descobrindo +apenas, áquelles cavalheiros avidos, as calças +claras do Fidalgo.<br /> + + +<br /> + + +―Vae para os Cunhaes!<br /> + + +<br /> + + +Lá o apanhava pois o Barrôlo! E todos apressaram o +bom Barrôlo a que +montasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances +d'aquella paz historica! O Barão das Marges até +lhe segurou o estribo. +Barrôlo, alvoroçadamente, trotou para o Largo +d'El-Rei.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[221]</span> +Mas Gonçalo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhaes, seguia +para a +Vendinha, onde decidira jantar, dando um descanço +á parelha esfalfada. E +logo depois das ultimas casas da cidade subiu as stores, respirou +deliciosamente, com o chapeo sobre os joelhos, a luminosa frescura da +tarde―mais fresca e de uma claridade mais consoladora que todas as +tardes da sua vida... Voltava d'Oliveira vencedor! Furára +emfim atravez +da fenda, atravez do muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se +esgaçassem nas asperezas estreitas da fenda!... +Abençoado Gouveia, +esperto Gouveia! E abençoada a esperta conversa, na vespera, +pela +calçadinha de Villa-Clara!...<br /> + + +<br /> + + +Sim, de certo, fôra custoso aquelle mudo momento em que se +sentára +seccamente, hirtamente, á borda da poltrona, junto da pesada +meza +administrativa de S. Ex.<sup>a</sup>. Mas mantivera muita +dignidade e muita +simplicidade...―«Sou forçado (dissera) a +dirigir-me ao Governador +Civil, á Auctoridade, por um motivo de ordem +publica...» E a primeira +avença partira logo do Cavalleiro, que torcia a bigodeira, +pallido:―« +Sinto profundamente que não seja ao homem, ao velho amigo, +que Gonçalo +Mendes Ramires se dirija...» Elle ainda se +conservára retrahido, +resistente, murmurando com uma frieza triste:―«As culpas +não são +decerto minhas...» E então o Cavalleiro, depois de +um silencio em que <span class="pagenum">[222]</span> +lhe tremera o beiço:―«Ao cabo de tantos annos, +Gonçalo, seria mais +caridoso não alludir a culpas, lembrar somente a antiga +amizade, que, +pelo menos em mim, se conservou a mesma, leal e +séria.» A esta +sensibilisada invocação, elle volvera, com +doçura, com indulgencia:―«Se +o meu antigo amigo André recorda a nossa antiga amizade, eu +não posso +negar que em mim tambem ella nunca inteiramente se apagou...» +Ambos +balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre os desaccordos da +vida. +E quasi insensivelmente se trataram por <em>tu</em>! Elle +contou ao Cavalleiro +a torpe ousadia do Casco. E o Cavalleiro, indignado como amigo, mais +como Auctoridade, telegraphára logo ao Gouveia um mandado +forte para +inutilisar o valentão dos Bravaes... Depois conversaram da +morte do +Sanches Lucena, que impressionava o Districto. Ambos louvaram a belleza +da viuva, os seus duzentos contos. O Cavalleiro recordou a +manhã, na +<em>Feitosa</em>, em que entrando pela porta pequena do +jardim, a +surprehendera, dentro d'um caramanchão de rosas, a apertar a +liga. Uma +perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a casar com a D. Anna, apezar +dos duzentos contos e da divina perna...―Já entre elles se +restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era «tu +Gonçalo, tu +André, oh menino, oh filho!»<br /> + + +<br /> + + +E fôra André, naturalmente, que alludira +á desapparição <span class="pagenum">[223]</span>do Deputado do +Governo, á surpreza do circulo vago... Elle +então, com indifferença, +estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda da mesa, +murmurára:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, com effeito... Vocês agora devem estar +embaraçados, assim de +repente...<br /> + + +<br /> + + +Mais nada! apenas estas indolentes palavras, murmuradas +através do rufo. +E o Cavalleiro, logo, sem preparação, +apressadamente, empenhadamente, +lhe offerecera o Circulo!―Pousára os olhos n'elle com +lentidão, como +para o penetrar, o escutar... Depois, insinuante e grave:<br /> + + +<br /> + + +―Se tu quizesses, Gonçalo, não estavamos +embaraçados...<br /> + + +<br /> + + +Elle ainda exclamára, com surpreza e riso:<br /> + + +<br /> + + +―Como, se eu quizesse?<br /> + + +<br /> + + +E o André, sempre com os olhos n'elle cravados, os largos +olhos +lustrosos, tão persuasivos:<br /> + + +<br /> + + +―Se tu quizesses servir o Paiz, ser deputado por Villa-Clara, +já não +estavamos embaraçados, Gonçalo!<br /> + + +<br /> + + +<em>Se tu quisesses</em>... E perante esta insistencia que +rogava, +tão sincera +e commovida, em nome do Paiz, elle consentira, vergára os +hombros:<br /> + + +<br /> + + +―Se te posso ser util, e ao Paiz, estou ás vossas ordens.<br /> + + +<br /> + + +E eis a fenda transposta, a aspera fenda, sem rasgão <span class="pagenum">[224]</span>no seu +orgulho ou +na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando pelo +gabinete, desde a estante carregada de papeis até +á varanda―que André +abrira, por causa d'um cheiro persistente de petroleo entornado na +vespera. André tencionava partir n'essa noite para +Lisboa―para +conferenciar com o Governo, depois d'aquella inesperada +desapparição do +Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gonçalo como o +unico +Deputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial―pelo nome, +pelo talento, pela influencia, pela lealdade. E eis a +eleição +consummada! De resto (declarára o Cavalleiro, rindo) aquelle +Circulo de +Villa-Clara constituia uma propriedade sua―tão sua como +Corinde. +Livremente, poderia eleger o servente da +Repartição que era gago e +bebado. Prestava pois um serviço esplendido ao Governo, +á Nação, +apresentando um môço de tão alta origem +e de tão fina intelligencia... +Depois accrescentára:<br /> + + +<br /> + + +―Não tens a pensar mais na eleição. +Vaes para a Torre. Não contas a +ninguem, a não ser ao Gouveia. Esperas lá, muito +quietinho, telegramma +meu de Lisboa. E, recebido elle, estás Deputado por +Villa-Clara, +annuncias a teu cunhado, aos amigos... Depois, no domingo, vens +almoçar +comigo a Corinde, ás onze.<br /> + + +<br /> + + +Então ambos se apertaram n'um abraço que fundiu +<span class="pagenum">[225]</span>de novo, e para +sempre, +as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde o +acompanhára, André, repenetrando timidamente no +Passado, murmurou com um +riso pensativo:―«Que tens tu feito ultimamente, n'essa +querida Torre?» +E, ao saber da Novella para os <b><em>Annaes</em></b>, +suspirou com +saudade dos tempos +de Imaginação e d'Arte em Coimbra, quando elle +amorosamente lapidava o +primeiro canto d'um poema heroico, o <em>Fronteiro de Ceuta</em>. +Emfim outro +abraço―e alli voltava deputado por Villa-Clara.<br /> + + +<br /> + + +Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da +caleche, era elle que os representava em Côrtes, elle, +Gonçalo Mendes +Ramires... E superiormente os representaria, mercê de Deus! +Porque já as +idéas o invadiam, viçosas e ferteis. Na Vendinha, +emquanto esperava que +lhe frigissem um chouriço com ovos e duas postas de savel, +meditou, para +a Resposta ao Discurso da Corôa, um esboço sombrio +e áspero da nossa +Administração na Africa. E lançaria +então um brado á Nação, que +a +despertasse, lhe arrastasse as energias para essa Africa portentosa, +onde cumpria, como gloria suprema e suprema riqueza, edificar de costa +a +costa um Portugal maior!... A noite cerrára, ainda outras +idéas o +revolviam, vastas e vagas―quando o <span class="pagenum">[226]</span>trote +esfalfado da parelha estacou +no portão da Torre.<br /> + + +<br /> + + +Ao outro dia (terça feira) ás dez horas, o Bento +entrou no quarto do +Fidalgo com um telegramma, que chegara á Villa de madrugada. +Gonçalo +pensou com um deslumbrado pulo do +coração:―«É do +Governo!»―Era do +Pinheiro, gritando pela Novella. Gonçalo amarrotou o +telegramma. A +Novella! Como poderia labutar na Novella, agora, todo na impaciencia e +no esforço da sua Eleição?... Nem +almoçou socegadamente―retendo, +atravez dos pratos que arredava, um desejo desesperado de +«contar ao +Bento.» E, sorvido o café n'um sorvo impaciente, +atirou para +Villa-Clara, a desafogar com o Gouveia. O pobre administrador jazia de +novo no camapé de palhinha, com papas na garganta. E toda a +tarde, na +estreita sala forrada de papel verde-gaio, Gonçalo exaltou +os talentos +do André, «homem de governo e de idéas, +Gouveia!»―celebrou o Ministerio +Historico, «o unico capaz de salvar esta choldra, +Gouveia!»-―desenrolou +vistosos Projectos de Lei que meditava sobre a Africa, «a +nossa +esperança magnifica, Gouveia!»―Emquanto o +Gouveia, estirado, só rompia +a mudez e a immobilidade, para murmurar chôchamente, +apalpando o calor +das papas:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[227]</span> ―E a quem deve vossê tudo isso, Gonçalinho?... +Cá ao meco!»<br /> + + +<br /> + + +Na quarta-feira, ao accordar, tarde, o seu pensamento saltou logo +soffregamente para o André Cavalleiro, que a essa hora, em +Lisboa, +almoçava no Hotel Central (sempre, desde rapaz, +André se conservára fiel +ao Hotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente +atravez do silencio da casa e da quinta, seguiu o Cavalleiro nos seus +giros de Chefe de Districto, pela Baixa, pela Arcada, pelos +Ministerios... Naturalmente jantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da +Justiça. Outro convidado certamente seria o José +Ernesto, Ministro do +Reino, condiscipulo do Cavalleiro, seu confidente politico... N'essa +noite, pois, tudo se decidia!<br /> + + +<br /> + + +―Ámanhã, pelas dez horas, tenho cá +telegramma do André.<br /> + + +<br /> + + +Nenhuma noticia chegou á Torre:―e o Fidalgo passou a lenta +quinta feira +á janella, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria o +moço do +telegrapho, um rapaz gordo que elle conhecia pelo bonné +d'oleado e pela +perna manca. Á noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou +um moço a +Villa-Clara. Talvez o telegramma arrastasse, esquecido, pela mesa +d'aquella «besta do Nunes do Telegrapho!» +Não havia telegramma para o +Fidalgo. Então ficou certo de surgirem em Lisboa +difficuldades! E toda a <span class="pagenum">[228]</span> +noite, sem socego, n'uma indignação que rolava e +crescia, imaginou o +Cavalleiro cedendo mollemente a outras exigencias do +Ministro―acceitando com servilismo para Villa-Clara a candidatura +d'algum imbecil da Arcada, d'algum chulo escrevinhador do Partido!<br /> + + +<br /> + + +Pela manhã injuriou o Bento por lhe trazer tão +tarde os jornaes e o chá:<br /> + + +<br /> + + +―E não ha telegramma, nem carta?<br /> + + +<br /> + + +―Não ha nada.<br /> + + +<br /> + + +Bem, fôra trahido! Pois nunca, nunca, aquelle infame +Cavalleiro +transporia a porta dos Cunhaes! De resto, que lhe importava a burlesca +Eleição? Mercê de Deus que lhe sobravam +outros meios de provar +soberbamente o seu valor―e bem superiores a uma ensebada cadeira em S. +Bento! Que miseria, na verdade, curvar o seu espirito e o seu nome ao +rasteiro serviço do S. Fulgencio, o obeso e horrendo careca! +E resolveu +logo regressar aos cimos puros da Arte, occupar altivamente todo o dia +no nobre e elegante trabalho da sua Novella.<br /> + + +<br /> + + +Depois de almoço ainda abancou, com esforço, +remexeu nervosamente as +tiras de papel. E de repente agarrou o chapéo, abalou para +Villa-Clara, +para o telegrapho. O Nunes não recebera nada para sua +exc.<sup>a</sup>!―Correu, +coberto de suor e pó, á +Administração do Concelho. O snr. Aministrador +partira <span class="pagenum">[229]</span>para +Oliveira!... Positivamente vencera outra +combinação―eis a +sua confiança burlada! E recolheu á Torre, +decidido a tomar um desforço +tremendo do Cavalleiro por tanta injuria amontoada sobre o seu nome, +sobre a sua dignidade! Toda a abafada e enevoada Sexta-feira a consumio +amargamente meditando esta vingança, que queria bem publica +e bem +sangrenta. A mais saborosa, mais simples, seria rasgar a bigodeira do +infame com chicotadas, na escadaria da Sé, um domingo, +á sahida da +missa! Ao escurecer, depois do jantar que mal debicára, +n'aquelle +despeito e humilhação que o pungiam, envergou o +casaco para voltar a +Villa-Clara. Não entraria no Telegrapho―já com +vergonha do Nunes. Mas +gastaria a noite na Assembléa, jogando o bilhar, tomando um +alegre chá, +lendo risonhamente os Jornaes Regeneradores, para que todos recordassem +a sua indifferença―se por acaso, mais tarde, conhecessem a +trama em que +resvalára.<br /> + + +<br /> + + +Desceu ao páteo, onde as arvores adensavam a sombra do +crepusculo +carregado de fuscas nuvens. E abria o portão, quando +esbarrou com um +rapaz que s'esbaforia sobre a perna manca e +gritava:―«É um telegramma!» +Com que voracidade lh'o arrancou das mãos! Correu +á cozinha, ralhou +desabridamente á Rosa pela falta da luz tardia! E, com um +phosphoro a +arder nos dedos, devorou, n'um lampejo, <span class="pagenum">[230]</span>as +linhas +bemditas:―«<em>Ministro +acceita, tudo arranjado</em>...» O resto era o +Cavalleiro +lembrando que no +domingo o esperava em Corinde, ás onze, para +almoçarem e conversarem...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo Mendes Ramires deu cinco tostões ao +moço do telegrapho―galgou +as escadas. Na livraria, á claridade mais segura do +candieiro, releu o +telegramma delicioso. <em>Ministro acceita, tudo arranjado!</em>... +Na sua +transbordante gratidão pelo Cavalleiro, ideou logo um jantar +soberbo, +offerecido nos Cunhaes pelo Barrôlo, cimentando para sempre a +reconciliação das duas Casas. E recommendaria a +Gracinha que, para mais +honrar a doce festa, se decotasse, pozesse o seu collar magnifico de +brilhantes, a derradeira joia historica dos Ramires.<br /> + + +<br /> + + +―Aquelle André! que flôr, que rapaz!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +O relogio de charão, no corredor, rouquejou as nove horas. E +só então +Gonçalo percebeu a densa chuva que alagava a quinta, e a que +elle, +embebido na sua gloria, passeando pela livraria n'um luminoso rolo de +imaginações, não sentira o rumor sobre +a pedra da varanda, nem sobre a +folhagem dos limoeiros.<br /> + + +<br /> + + +Para se calmar, occupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na +Novella. E realmente agora convinha <span class="pagenum">[231]</span>que +terminasse essa <em>Torre +de D. +Ramires</em> antes do afan da Eleição―para +que em +Janeiro, ao abrir das +Côrtes, surgisse na Politica com o seu velho nome aureolado +pela +Erudição e pela Arte. Envergou o +roupão de flanella. E á banca, com o +costumado bule de chá inspirador, repassou lentamente o +começo do +Capitulo II―que o não contentava.<br /> + + +<br /> + + +Era no castello de Santa Ireneia, n'aquelle dia de Agosto em que +Lourenço Ramires cahira no valle de Canta-Pedra, mal ferido +e captivo do +Bastardo de Bayão. Pelo Almocadem dos peões, que, +com o braço varado por +uma chuçada, voltára em desesperada carreira ao +Castello, já Tructezindo +Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide.―E n'este lance o tio +Duarte, no seu poemeto do <span class="smallcaps">Bardo</span>, +com um lyrismo molle, mostrava o +enorme +Rico-Homem gemendo derramadamente atravez da sala-d'armas, na saudade +d'esse filho, flôr dos Cavalleiros de Riba-Cavado, derrubado, +amarrado +n'umas andas, á mercê da gente de +Bayão...<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Lagrimas irrepresas lhe rebentam,<br /> + + +Arfa o arnez c'o soluçar +ardente!...</div> + + +<br /> + + +Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, tambem elle, nas linhas +primeiras do Capitulo, esboçára o velho abatido +sobre um escanho, com +lagrimas <span class="pagenum">[232]</span>relusentes +sobre as barbas brancas, as duras mãos +descahidas +como as de languida Dona―em quanto que nas lages, batendo a cauda, os +seus dois lebreus o contemplam n'uma sympathia anciada e quasi humana. +Mas, agora, este choroso desalento não lhe parecia coherente +com a alma +tão indomavelmente violenta do avô Tructezindo. O +tio Duarte, da casa +das Balsas, não era um Ramires, não sentia +hereditariamente a fortaleza +da raça:―e, romantico plangente de 1848, +inundára logo de prantos +romanticos a face ferrea de um lidador do seculo XII, d'um companheiro +de Sancho I! Elle porém devia restabelecer os espiritos do +Senhor de +Santa Ireneia dentro da realidade epica. E, riscando logo esse +descorado +e falso começo de Capitulo, retomou o lance mais +vigorosamente, enchendo +todo o castello de Santa-Ireneia d'uma irada e rija alarma. Na sua +lealdade sublime e simples Tructezindo não cuida do +filho―adia a +desforra do amargo ultraje. E o seu esforço todo se commette +a apressar +os aprestos da mesnada, para correr elle sobre Montemor, e levar +ás +Senhoras Infantas os soccorros de que as privára a embuscada +de +Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico-Homem com o Adail, na +sala-d'armas, regia a ordem da arrancada―eis que os esculcas, abrigados +do calor d'Agosto nos miradouros, enxergam ao longe, para +além do +arvoredo da Ribeira, coriscos d'armas, uma cavalgada <span class="pagenum">[233]</span>subindo para +Santa-Ireneia. O Villico, o gordo e azafamado Ordonho, galga arquejando +aos eirados da torre albarrã―e reconhece o +pendão de Lopo de Bayão, o +seu toque de trompas á mourisca, arrastado e triste no +silencio dos +campos. Então arqueia as cabelludas mãos na +bôca, atira o alarido:<br /> + + +<br /> + + +―Armas, armas! que é gente de Bayão!... +Besteiros, ás quadrellas! +Homens em chusma ás lavadiças da carcova!<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo, coçando a testa com a rama da penna, +rebuscava ainda outros +veridicos brados, de bravo som Affonsino―quando a porta da livraria +abriu cautellosamente, atravez d'aquelle perro rangido que o +desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Dr. não poderia descer cá baixo +á cozinha?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem +comprehender:<br /> + + +<br /> + + +―Á cozinha?...<br /> + + +<br /> + + +―É que está lá a mulher do Casco a +levantar uma celeuma. Parece que lhe +prenderam o homem esta tarde... Appareceu ahi por baixo de agoa, com os +pequenos, até um de mama. Quer por força fallar +com o Snr. Dr. E não se +calla, lavada em lagrimas, de joelhos com os filhos, que é +mesmo uma +Ignez de Castro!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo murmurou―«que massada!» E que +<span class="pagenum">[234]</span>contrariedade! A +mulher, n'uma +agonia, entre gritos, arrastando os filhos supplicantes até +ao portão da +Torre! E elle, nas vesperas da sua Eleição, +apparecendo a todas as +freguezias enternecidas como um fidalgo deshumano!...―Atirou a penna +furiosamente:<br /> + + +<br /> + + +―Que massada! Dize á creatura que me deixe, que se +não afflija... O +Snr. Aministrador ámanhã manda soltar o Casco. Eu +mesmo vou a +Villa-Clara, antes d'almoço, para pedir. Que se +não afflija, que não +aterre os pequenos... Corre, dize, homem!<br /> + + +<br /> + + +Mas o Bento não despegava da porta:<br /> + + +<br /> + + +―Pois a Rosa e eu já lhe dissemos... Mas a mulherzinha +não acredita, +quer pedir ao Snr. Dr.! Veio por baixo d'agoa. Até um dos +pequenitos +está bem doentinho, ainda não fez +senão tremer...<br /> + + +<br /> + + +Então Gonçalo, sensibilisado, atirou á +meza um murro que tresmalhou as +tiras da Novella:<br /> + + +<br /> + + +―Ora se uma cousa d'estas se atura! Um homem que me quiz matar! E +agora, por cima, é sobre mim que desabam as lagrimas, e as +scenas, e a +creança doente! Não se pode viver n'esta terra! +Um dia vendo casa e +quinta, emigro para Moçambique, para o Transvaal, para onde +não haja +massadas... Bem, dize á mulher que já +desço.<br /> + + +<br /> + + +O Bento approvou, com effusão:<br /> + + +<br /> + + +―Pois se o Snr. Dr. lhe não custa... E como <span class="pagenum">[235]</span>é +para dar uma boa nova... +Sempre consola a pobre mulherzinha!...<br /> + + +<br /> + + +―Lá vou, homem, lá vou! Não me masses +tambem... Impossivel trabalhar +n'esta casa! Outra noite perdida!<br /> + + +<br /> + + +Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas―com a ideia de +metter na algibeira do roupão duas notas de dez +tostões que consolariam +os pequenos. Mas, deante da gaveta, recuou, vexado. Que brutalidade, +compensar com dinheiro creancinhas―a quem elle arrancára o +pae, +algemado, para o trancar n'uma enxovia! Agarrou simplesmente n'uma +boceta de alperces seccos―dos famosos alperces do Convento de +Santa-Brigida de Oliveira, que na vespera lhe mandára +Gracinha. E, +cerrando lentamente o quarto, já se arrependia da sua +severidade, tão +estouvada, que assim desmanchava a quietação de +um casal. Depois no +corredor, ante a chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas +lages do pateo, ainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da +pobre mulher, tresloucada pela negra estrada, puxando os filhinhos +encharcados, moídos, contra a tormenta solta. E ao penetrar +no corredor +da cozinha―tremia como um culpado.<br /> + + +<br /> + + +Atravez da porta envidraçada sentiu logo a Rosa e o Bento +consolando a +mulher, com palradora confiança, quasi risonhos. Mas os +«ais» d'ella, os +ruidosos <span class="pagenum">[236]</span>lamentos +pelo «seu rico homem», resoavam, +mais agudos, como a +rebater e a abafar toda a consolação. E apenas +Gonçalo empurrou +timidamente a porta―quasi acuou no espanto e medo d'aquella +afflicção +estridente que se arremessava para elle e para a sua misericordia! De +rojos nas lages, torcendo as magras mãos sobre a +cabeça, toda de negro, +parecendo mais negra e dolorosa contra a vermelhidão do +lençol estendido +que seccava ao lume forte da lareira―a creatura estalára +n'um tumulto +de supplicas e gritos:<br /> + + +<br /> + + +―Ai, meu rico Senhor, tenha compaixão! Ai, que me prenderam +o meu +homem, que m'o vão mandar para a Africa degredado! Jesus, +meus filhinhos +da minha alma que ficam sem pae! Ai, pelas suas almas, meu senhor, e +por +toda a sua felicidade!... Eu sei que elle teve culpa! Aquillo foi +perdição que lhe deu! Mas tenha piedade d'estas +creancinhas! Ai, o meu +pobre homem que está a ferros! Ai, meu rico Senhor, por quem +é!<br /> + + +<br /> + + +Com as palpebras humedecidas, agarrando desesperadamente, a boceta +d'alperces, Gonçalo balbuciava, atravez da +emoção que o estrangulára:<br /> + + +<br /> + + +―Oh mulher, socegue, já o vão soltar! Socegue! +Já dei ordem! Já o vão +soltar!<br /> + + +<br /> + + +E d'um lado a Rosa, debruçada sobre a escura creatura que +gemia, +recomeçava docemente:―«Pois <span class="pagenum">[237]</span>foi o que lhe +dissemos, tia Maria! Logo +pela manhã, o vão soltar!»―E do outro +o Bento, batendo na coxa, com +impaciencia:―«Oh mulher, acabe com esse escarceu! Pois se o +Snr. Dr. +prometteu! Logo pela manhã o vão +soltar!»<br /> + + +<br /> + + +Mas ella não se calmava, com o lenço da +cabeça desmanchado, uma trança +desprendida, soluçando e clamando atravez dos +soluços:<br /> + + +<br /> + + +―Ai que eu morro, se o não vejo solto! Ai +perdão, meu rico Senhor da +minha alma!...<br /> + + +<br /> + + +Então Gonçalo, que aquelle infindavel e obtuso +queixume torturava, como +um ferro cravado e recravado, bateu o chinello nas lages, berrou:<br /> + + +<br /> + + +―Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de pé, de +pé!... E olhe bem, olhe +direita!<br /> + + +<br /> + + +Hirtamente erguida, atirando as mãos para as costas como a +escapar +d'algemas que tambem a ameaçassem―ella arregalou para o +Fidalgo os +olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que +lhe enchiam a face rechupada e morena.<br /> + + +<br /> + + +―Bem, perfeitamente! exclamava Gonçalo. E agora diga! Acha +que tenho +bojo de lhe mentir, quando vocemecê está n'essa +afflicção? Pois então +socegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra, +ámanhã cedo, o seu +homem está solto!<br /> + + +<br /> + + +E a Rosa e o Bento, ambos triumphando:<br /> + + +<br /> + + +―Pois que lhe dizia a gente, creatura de Deus? <span class="pagenum">[238]</span>Se +o Snr. Dr. tinha +promettido... Ámanhã lá tem o homem!<br /> + + +<br /> + + +Lentamente ella limpava as lagrimas, já silenciosas, +á ponta do avental +negro. Mas, ainda desconfiada, com os tenebrosos olhos mais +arregalados, +devorando Gonçalo. E o Fidalgo mandava com certeza a ordem, +cedinho, de +madrugada?...―Foi o Bento que a convenceu, com violencia:<br /> + + +<br /> + + +―Oh mulher, vossê até parece atrevida! Ora essa! +Pois duvida da palavra +do Snr. Dr.?<br /> + + +<br /> + + +Ella soltou o avental, baixou a cabeça, suspirou +simplesmente:<br /> + + +<br /> + + +―Ai, então muito obrigada, seja pela felicidade de todos...<br /> + + +<br /> + + +E agora a curiosidade de Gonçalo procurava os pequenos que +ella +acarretára desde os Bravaes atravez da chuva cerrada. A +pequenina de +mama dormia com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a +aconchegára entre mantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete +annos, +encolhido n'uma cadeira deante do lume, rente ao lençol que +seccava, +seccando tambem, com a carinha afogueada de febre, tossia +despedaçadamente, n'um cabecear de somno e +cançasso, a arquejar, a gemer +contra a tosse que o esfalfava. Gonçalo pousou a boceta de +alperces na +arca, palpou a mão com que elle, sem cessar, raspava pela +<span class="pagenum">[239]</span>abertura da +camisa encardida o peito ainda mais encardido.<br /> + + +<br /> + + +―Mas esta creanca tem febre!... E vossê, com uma noite +d'estas, traz o +pequeno assim desde os Bravaes, mulher?<br /> + + +<br /> + + +Da cadeirinha baixa, onde se sentára prostrada, ella +murmurou, sem +erguer a magra face, torcendo a ponta do avental:<br /> + + +<br /> + + +―Ai! era para que elles tambem pedissem, que estavam sem pae, +coitadinhos!<br /> + + +<br /> + + +―Vocemecê é doida, mulher! E pretende talvez +voltar para os Bravaes, +debaixo d'agoa, com as creanças?<br /> + + +<br /> + + +Ella suspirou:<br /> + + +<br /> + + +―Ai! volto, volto... Não posso deixar sózinha a +mãe do meu homem, que +tem oitenta annos e está entrevada.<br /> + + +<br /> + + +Então o Fidalgo cruzou descorçoadamente os +braços―no embaraço d'aquella +aventura, em que, por culpa da sua ferocidade, se arriscavam duas +creanças. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a de mama, +não soffreria +com a caminhada, bem achegadinha ao collo da mãe, debaixo de +uma manta +grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre...<br /> + + +<br /> + + +―Esse fica cá! exclamou logo Gonçalo, decidido. +Como se chama elle? +Manoel... Bem! O Manoel fica cá. E vá +descançada, que a Sr.<sup>a</sup> Rosa toma +cuidado. <span class="pagenum">[240]</span>Precisa +uma boa gemada, depois um bom suadoiro. Um d'estes +dias +lá lhe apparece nos Bravaes, curado e mais gordo... +Vá socegada!<br /> + + +<br /> + + +De novo a mulher suspirou, no cançasso immenso que a +invadira, a +amollecia. E sem resistir, no seu longo e abatido habito de +submissão:<br /> + + +<br /> + + +―Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, está muito bem...<br /> + + +<br /> + + +O Bento, entreabrindo a porta do pateo, annunciava uma +«aberta», o +negrume a levantar. Gonçalo immediatamente apressou a volta +aos Bravaes:<br /> + + +<br /> + + +―E não tenha medo, mulher. Vae um moço da quinta +com uma lanterna, e um +guarda chuva para abrigar a pequena... Escute! Vocemecê +até podia levar +uma capa de borracha!... Oh Bento, corre, desce a minha capa de +borracha. A nova, a que comprei em Lisboa...<br /> + + +<br /> + + +E quando o Bento trouxe o «impermeavel» de longa +romeira, o lançou por +sobre os hombros da mulher, que o estofo rico intimidava, com o seu +ruge-ruge de seda―foi na cozinha uma divertida risada. O pranto +passára, como a chuva. Agora era uma visita amoravel, +findando n'um +arranjo alegre d'agasalhos. A Rosa apertava as mãos, banhada +de gosto:<br /> + + +<br /> + + +―Assim é que vocemecê fica uma bonita Madama, +<span class="pagenum">[241]</span>hein!... Se fosse +de dia, +olhe que se juntava gente!<br /> + + +<br /> + + +A mulher sorria emfim, descoradamente, sem interesse:<br /> + + +<br /> + + +―Ai! nem sei que pareço... Que avantesma!<br /> + + +<br /> + + +Atravez do pateo, onde as acacias gottejavam docemente, +Gonçalo +acompanhou o rancho até á porta do pomar, +gritando ainda―«Agasalhem bem +a pequena!»―quando já a lanterna do +moço se fundia na humida espessura +da noite acalmada. Depois, na cozinha, batendo contra as lages as solas +dos chinellos molhados, apalpou novamente o Manoelsinho, que adormecera +n'um somno rouquejado, torcido sobre as costas da cadeira.<br /> + + +<br /> + + +―Tem pouca febre... Mas precisa um suadoiro forte. E, antes de o +cobrirem bem, um leite quente, quasi a ferver, com cognac... O que elle +precisava tambem era esfregado a côco... Que porcaria de +gente! Emfim +fica para mais tarde, quando se curar... E agora, oh Rosa, mande acima +alguma cousa para eu cear, cousa solida, que não jantei, e o +sarau foi +tremendo!<br /> + + +<br /> + + +Na livraria, depois de mudar os chinellos, descançar, +Gonçalo escreveu +ao Gouveia uma carta reclamando com commovida urgencia a liberdade do +Casco. E accrescentava:―«É o primeiro pedido que +lhe faz o deputado por +Villa-Clara (comprimente!), <span class="pagenum">[242]</span>porque +acabo de receber telegramma do nosso +André, annunciando que «<em>tudo feito, +ministro +concorda, etc.</em>» De sorte +que precisamos communicar! Queira pois vossa mercê vir jantar +ámanhã a +esta sua Torre, á sombra do Titó e com +acompanhamento de Videirinha. +Estes dous benemeritos são indispensaveis para que haja +appetite e +harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me evitar +a remessa de circulares eloquentes...»<br /> + + +<br /> + + +Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscripto da Novella. E, +trincando a rama da penna, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval, +para aquelle lance em que o Villico e as roldas enxergavam a cavalgada +do Bastardo, pela encosta da Ribeira, com refulgidos d'armas, sob o +rijo +sol d'Agosto...<br /> + + +<br /> + + +Mas a sua imaginação, desde a carta escripta ao +Gouveia pelo «Deputado +de Villa-Clara» escapava desassocegadamente da velha Honra de +Santa +Ireneia―esvoaçava teimosamente para os lados de Lisboa, da +Lisboa do S. +Fulgencio. E o eirado da torre albarran, onde o gordo Ordonho gritava +esbaforido―incessantemente se desfazia como nevoa molle, para sobre +elle surgir, appetitoso e mais interessante, um quarto do Hotel +Bragança +com varanda sobre o Tejo... Foi um allivio quando o Bento o apressou +para a ceia. E á mesa espalhou livremente a +imaginação <span class="pagenum">[243]</span>por +Lisboa, pelos +corredores de S. Carlos, por sob as arvores da Avenida, atravez dos +antiquados palacios dos seus parentes em S. Vicente e na +Graça, atravez +das salas mais modernas de cultos e alegres amigos―parando +ás vezes +deante de visões que considerava com um riso deleitado e +mudo. Alugaria +aos mezes, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as +sessões de +S. Bento sempre luvas côr de perola, uma flor no peito. Por +commodidade +levava o Bento, bem apurado, com casaca nova...<br /> + + +<br /> + + +O Bento entrou com a garrafa do cognac n'uma salva. Dera a carta ao +Joaquim da Horta com a recommendação de correr +logo ás seis horas a casa +do Snr. Administrador, de se demorar na Villa por deante da Cadeia +até +soltarem o Casco.<br /> + + +<br /> + + +―E já deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de +mim, que tenho +o somno leve, se elle berrar... Mas já dorme regaladamente.<br /> + + +<br /> + + +―Está socegado, hein? acudiu Goncalo, sorvendo á +pressa o calice de +cognac. Vamos vêr esse cavalheiro!<br /> + + +<br /> + + +E tomou um castiçal, subiu ao quarto verde com o Bento, +sorrindo, +abafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da poria, +n'um desbotado camapé de damasco verde, a Rosa +dobrára carinhosamente a +roupa trapalhona do pequeno, o collete esgaçado, as +calças enormes, só +com um <span class="pagenum">[244]</span>botão. +Dentro o leito de pau preto, vasto leito de +ceremonia, +atravancava a parede forrada d'um velho papel avelludado de ramagens +verdes. Ao lado dos dous postes torneados, á cabeceira, +pendiam dous +paineis, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando um +folio, +um formoso Cavalleiro de Malta, de barba ruiva, appoiado á +espada, com +um laçarote de rendas sobre a couraça polida. E +nos altos colchões o +Manoelzinho resonava, sem tosse, quieto, abafado pela grossura dos +cobertores, humedecido por um suor fresco e sereno.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a +dobra do +lençol. Desconfiado das janellas decrepitas, experimentou +que não +entrasse traiçoeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento +buscar uma +lamparina, que arranjou sobre o lavatorio, com a luz esbatida por traz +d'uma vazilha. Ainda attentamente relanceou os olhos lentos pelo +quarto, +para se assegurar do socego, do silencio, da penumbra, do conforto. E +sahiu, sempre na ponta dos pés, sorrindo, deixando o filho +do Casco +velado pelos dous nobres Ramires―o Bispo com o seu Tratado, o +Cavalleiro de Malta com a sua pura espada.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[245]</span> +Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passára +a calma, +depois do almoço, na frescura do arvoredo, entre susurros de +agoas +correntes, a folhear um volume do <em>Panorama</em>―Gonçalo +encontrou sobre a +mesa da livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o +surprehendeu, enorme, em papel almaço, fechada por uma +obreia. E dentro +a assignatura, desenhada a tinta azul, era um +coração chammejante.<br /> + + +<br /> + + +N'um relance devorou as linhas, pautadas a lapis, d'uma lettra gorda, +arredondada com esmero:―«Caro e Ex.<sup>mo</sup> +Snr. +Gonçalo Ramires. O +galante Governador civil do Districto, o nosso atiradiço +André +Cavalleiro, passeiava agora coastantemente por deante dos Cunhaes, +olhando com ternura para as janellas e para o honrado brazão +dos +Barrôlos. Como não era natural que andasse a +estudar a architetura do +Palacete (que nada tem de notavel), concluiu a gente seria que o digno +Chefe do Districto esperava que V. Ex.<sup>a</sup> +apparecesse a alguma das +janellas do Largo, ou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou +sobretudo <em>no mirante do Jardim</em>, para reatar com +V. Ex.<sup>a</sup> a antiga e +quebrada amizade. Por isso muito acertadamente procedeu V. Ex.<sup>a</sup> +em +correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a +reconciliação, e abrir +os braços generosos <span class="pagenum">[246]</span>ao +velho amigo, evitando assim que a +primeira +Auctoridade do Districto continuasse a esbanjar um tempo precioso +n'aquelles passeios, de olhos pregados no Palacete dos fidalguissimos +Barrôlos. Enviamos portanto a V. Ex.<sup>a</sup> +os nossos sinceros +parabens por +esse acertado passo que deve calmar as impaciencias do fogoso +Cavalleiro +e redondar em beneficio dos serviços publicos!»<br /> + + +<br /> + + +Revirando o papel nas mãos, Gonçalo pensou:<br /> + + +<br /> + + +―É das Louzadas!<br /> + + +<br /> + + +Ainda estudou a lettra, as expressões, descortinando que +<em>redundar</em> fora +escripto com um O, <em>architectura</em> sem C. E rasgou +furiosamente a grossa +folha, rosnando no silencio da livraria:<br /> + + +<br /> + + +―Aquellas bebadas!<br /> + + +<br /> + + +Sim, era d'ellas, das odiosas Louzadas! E essa origem mais o +aterrava―porque maledicencia, lançada por tão +ardentes espalhadoras de +maledicencias, já certamente penetrára em todas +as casas d'Oliveira, +mesmo na Cadeia, mesmo no'Hospital! E agora a cidade divertida, +lambendo +o escandalo, relacionava perfidamente os rodeios do André +pelos Cunhaes +com essa sua visita ao Governo Civil que assombrára a +Arcada. Na ideia +pois d'Oliveira, e sob a inspiração das +Louzadas―fôra elle, elle, +Gonçalo Mendes Ramires, que arrancára o +Cavalleiro á sua Repartição, o +conduzira serviçalmente ao Largo d'El-Rei, lhe +<span class="pagenum">[247]</span>escancarára +as portas do +Palacete até ahi rondadas e miradas sem proveito, e com +sereno descaro +alcovitára os amores da irmã! Se taes +desavergonhadas não mereciam que +lhes arregaçassem as sujas saias no meio da +Praça, em manhã de Missa, e +lhes fustigassem as nadegas melladas, furiosamente, até que +o sangue +ensopasse as lages!...<br /> + + +<br /> + + +E, para maior damno, as apparencias todas se combinavam contra elle, +traidoramente! Essa insistencia de André, cocando Gracinha, +estrondeando +a calçada em torno do Palacete, crescera, impressionava, +justamente +agora, n'este Agosto, nas vesperas d'essa sua +apparição á janella do +Governo Civil, que Oliveira commentava como um misterio historico. Que +inopportunamente morrera o animal do Sanches de Lucena! Mezes antes, +nem +mesmo a malicia das Louzadas ligaria a sua +reconciliação com André a um +cêrco amoroso que não +começára, ou não andava tão +murmurado. Tres ou +quatro mezes depois, André, sem esperança ante o +Palacete inaccessivel, +certamente findaria os seus giros pelo Largo, de rosa ao peito! Mas +não! +infelizmente quando esse André, com maior estrepito, ronda a +porta +almejada―é que elle acode, e abraça o rondador, +e lhe facilita a porta! +E assim a maledicencia das Louzadas encontrava uma base, a que todos na +cidade podiam palpar a substancia, e a solidez, e sobre ella se erigia +como Verdade Publica! Infames Louzadas!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[248]</span> +Mas agora? O que? manter rigidamente as suas +relações com o Cavalleiro +dentro da Politica, evitando escorregadias intimidades que o tornassem +logo nos Cunhaes, como outr'ora na Torre, o conviva desejado? Como +poderia? Desde que elle se reconciliava com André, logo e +tão +naturalmente como a sombra segue a inclinação do +ramo, se reconciliava +tambem o Barrôlo, seu cunhado e sua sombra... Mas como +impôr ao Barrôlo +que a sua renovada familiaridade com o Cavalleiro se realisasse +unicamente dentro da Politica como dentro d'um Lazareto?―«Eu +sou outra +vez o velho amigo do André, tu, Barrôlo, +tambem―mas nunca o convides +para a tua mesa, nem lhe abras a tua +porta!»―Imposição desconcertada, +de dura impertinencia―e que, na pequena Oliveira, logo os faceis +encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrôlo, quebrariam +como um +barbante poido... E depois que grotesca attitude a sua, hirto deante do +portão do Palacete, como um Archanjo S. Miguel, de bengala +de fogo na +mão, para sustar a intrusão de Satanaz, Chefe do +Districto! Mas tambem +que toda a cidade largasse a cochichar pelos cantos o nome de Gracinha +embrulhado ao nome de André, com o nome d'elle, +Gonçalo, emmaranhado +atravez como o fio favoravel que os atára―era horrivel.<br /> + + +<br /> + + +E na impaciencia d'esta difficuldade, de malhas <span class="pagenum">[249]</span>tão asperas, +que tanto o +feriam, terminou por esmurrar a meza, revoltado:<br /> + + +<br /> + + +―Irra, que massada! São tudo massadas, n'estas terras +pequenas e +coscovilheiras...<br /> + + +<br /> + + +Em Lisboa quem se importaria que o Snr. Governador civil passeasse n'um +certo Largo―e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Snr. +Governador Civil?... Pois acabou! Romperia soberbamente para diante, +como se habitasse Lisboa, desafogado de mexericos e de malignos +olhinhos +a cocar. Era Gonçalo Mendes Ramires, da casa de Ramires! Mil +annos de +nome e de solar! Dominava bem acima de Oliveira, de todas as suas +Louzadas. E não só pelo nome, louvado Deus, mas +pelo espirito... O André +era seu amigo, entrava em casa de sua irmã―e Oliveira que +estoirasse!<br /> + + +<br /> + + +E nem consentiu que a suja carta das Louzadas desmanchasse a quieta +manhã de trabalho para que se preparára desde o +almoço, relendo trechos +do Poemeto do Tio Duarte, folheando artigos do <em>Panorama</em> +sobre as +guerras de muralhas no seculo XII. Com um esforço +d'attenção erudita +abancou, mergulhou a penna no tinteiro de latão que servira +a trez +gerações de Ramires. E emquanto repassava as +tiras trabalhadas, nunca o +Castello de Santa Ireneia lhe parecera tão heroico, de +tão soberana +estatura, sobre tamanha collina d'Historia, sobranceando o Reino, <span class="pagenum">[250]</span>que +em +torno d'elle se alargava, se cobria de villas e messes, pelo +esforço dos +seus castellões!<br /> + + +<br /> + + +Temerosa, com effeito, se erguia a antiga Honra de Santa Ireneia, +n'essa +Affonsina manhã d'Agosto e rijo sol, em que o +pendão do Bastardo +surgira, entre fulgidos d'armas, para além dos arvoredos da +Ribeira! Já +por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas as +béstas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu, +fervendo nas +cubas, para despejar sobre os homens de Bayão que tentassem +a escalada. +O Adail corria pelas quadrellas, relembrando as traças de +defeza, +revistando os feixes de virotões, os pedregulhos +d'arremesso. E no +immenso terreiro, por entre os alpendres colmados, surdiam velhos +solarengos, servos do forno, servos da abegoaria, que se benziam com +terror, puchavam pelo saião d'algum apressado homem de +rolda, para +saberem da hoste que avançava. No emtanto a cavalgada +passára a Ribeira +sobre a rude ponte de pau―já, por entre os alamos, +serenamente se +acercava do Cruzeiro de granito, outr'ora erguido nos confins da Honra +por Gonçalo Ramires, o <em>Cortador</em>. E, no +socego da +manhã abrazada, mais +fundamente resoaram as buzinas do Bastardo, e o seu toque lento e +triste +á mourisca...<br /> + + +<br /> + + +Mas quando Gonçalo, enlevado no trabalho, tentava +reproduzir, com termos +bem sonoros, <span class="pagenum">[251]</span>avidamente +rebuscados no <em>Diccionario de +Synonimos</em>, o toar +arrastado das buzinas de Bayão―sentiu realmente, do lado da +Torre, um +gemer de sons graves que crescia atravez dos limoeiros. Deteve a +penna―e eis que o <em>Fado dos Ramires</em> s'eleva +offertadamente da horta, +em serenada, para a varanda florida de madresilva:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Ora, quem te vê solitaria,<br /> + + +Torre de Santa Ireneia...</div> + + +<br /> + + +O Videirinha!―Correu alvoroçadamente á janella. +Um chapeu côco tremulou +entre os ramos, um brado estrugio, acclamador:<br /> + + +<br /> + + +―Viva o deputado por Villa-Clara! Viva o illustre deputado +Gonçalo +Ramires!<br /> + + +<br /> + + +No violão rompera triumphalmente o Hymno da Carta. +Videirinha, alçado na +biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava―«Viva a +illustre casa +de Ramires!» E por baixo do chapeu côco, sacudido +com delirio, João +Gouveia, sem poupar a garganta, urrava―«Viva o illustre +deputado por +Villa-Clara! Viva!»<br /> + + +<br /> + + +Magestosamente, Gonçalo, alagado de riso, estendeu da +varanda o braço +eloquente:<br /> + + +<br /> + + +―Obrigado, meus queridos concidadãos! Obrigado!... A honra +que me +fazeis, vindo assim, n'esse <span class="pagenum">[252]</span>formoso +grupo, o chefe glorioso da +Administração, o inspirado Pharmaceutico, o...<br /> + + +<br /> + + +Mas reparou... E o Titó?<br /> + + +<br /> + + +―O Titó não veio?... Oh João Gouveia, +você não avisou o Titó?<br /> + + +<br /> + + +Repondo sobre a orelha o chapeu côco, o Administrador, que +arvorára uma +gravata de setim escarlate, declarou o Titó «um +animal»:<br /> + + +<br /> + + +―Estava combinado virmos todos trez. Até elle devia trazer +uma duzia de +foguetes, para estalar aqui com o Hymno... A reunião era ao +pé da +Ponte... Mas o animal não appareceu. Em todo o caso ficou +avisado, +avisadissimo... E se não vier, é traidor.<br /> + + +<br /> + + +―Bem, subam vocês! gritou Gonçalo. Eu n'um +instante me visto. E, para +aguçar o appetite, proponho um vermouth, depois uma volta +pela quinta +até ao pinhal!...<br /> + + +<br /> + + +Immediatamente Videirinha, têso, empinando o +violão, metteu pela rua +larga da horta, recoberta de parreira; e atraz João Gouveia +atirava os +passos em cadencia nobre, alçando o guarda-sol como um +pendão. Quando +Gonçalo entrou no quarto, berrando pelo Bento e por agoa +quente―o <em>Fado +dos Ramires</em> soava, em trinados heroicos, atravez do feijoal, +por sob a +janella aberta onde seccava o lençol do banho. E eram as +quadras +preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande avô Ruy +Ramires, +sulcando os mares <span class="pagenum">[253]</span>de +Mascate n'uma urca, encontra trez fortes naus +inglezas, e, do alto do seu castello de prôa, vestido de +gran-vermelha, +com a mão no cinto d'anta tauxeado d'ouro e pedras, +soberbamente as +intima a que se rendam...<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Todo alegre, e a mão no +cinto.<br /> + + +Junto da Signa Real,<br /> + + +Gritando ás +naus―«Amainae<br /> + + +Por El-Rei de Portugal!...»</div> + + +<br /> + + +Gonçalo abotoava á pressa os suspensorios, +retomára o canto +glorificador―<em>Todo alegre, a mão no cinto</em>... +<em>Junto da +Signa +Real</em>...―E, atravez do esforço +esganiçado, +pensava que com tal linha +d'avós, bem podia desprezar Oliveira e as suas Louzadas +horrendas. Mas o +trovão lento de Titó retumbou no corredor:<br /> + + +<br /> + + +―Então esse deputado de Villa-Clara?... Já +está a vestir a farda?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo correu á porta do quarto, radiante:<br /> + + +<br /> + + +―Entra, Titó! Os deputados já não +usam farda, homem! Mas se a tivesse, +c'os diabos, ia hoje farda, e espadim e chapeu armado, para honrar +hospedes tão illustres!<br /> + + +<br /> + + +O outro avançára vagarosamente, com as +mãos nas algibeiras da rabona de +velludo côr d'azeitona, o <span class="pagenum">[254]</span>vasto +chapeu braguez atirado para a +nuca, +desafogando a honesta face barbuda, vermelha de saude e sol:<br /> + + +<br /> + + +―Eu, por farda, queria dizer libré... Libré de +lacaio.<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa!?<br /> + + +<br /> + + +E o outro mais retumbante:<br /> + + +<br /> + + +―Pois o que vaes tu ser, homem, senão um sujeito +ás ordens do S. +Fulgencio, <em>do horrendo careca</em>? Não lhe +serves o +chá, quando elle te +mandar; mas, quando elle te mandar votar, votas! Alli, direitinho, +ás +ordens! «Oh Ramires, vote lá!» E +Ramires, zás, vota... É de escudeiro, +homem, é de escudeiro de libré...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo sacudiu os hombros, impaciente:<br /> + + +<br /> + + +―Tu és uma creatura das selvas, lacustre, quasi +prehistorica... Não +entendes nada das realidades sociaes!... Na sociedade não ha +principios +absolutos!...<br /> + + +<br /> + + +Mas o Titó, imperturbavel:<br /> + + +<br /> + + +―E esse Cavalleiro? Tambem já é rapaz de +talento? Tambem já governa bem +o Districto?<br /> + + +<br /> + + +Então Gonçalo protestou, picado, com uma roseta +forte na face. E quando +negára elle ao André talento ou geito de +governar? Nunca! Só rira, +gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa... E de resto, o +serviço +do Paiz exigia que por vezes se alliassem homens que nem partilhavam os +mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[255]</span> ―E emfim o Snr. Antonio Villalobos vem hoje um moralista muito +terrivel, um Catão com quem se não pode +jantar!... Ora foi sempre o +costume dos Philosophos muito rispidos fugir da sala do banquete onde +triumpha o devasso, e protestar comendo na cosinha!<br /> + + +<br /> + + +Titó, serenamente, virou as costas magestosas.<br /> + + +<br /> + + +―Onde vaes, ó Titó?<br /> + + +<br /> + + +―Para a cosinha!<br /> + + +<br /> + + +E, como Gonçalo ria, Titó, junto da porta, +girando como uma torre que +gira, encarou o seu amigo:<br /> + + +<br /> + + +―Sério, sério, Gonçalo! +Eleição, reconciliação, +submissão, e tu em +Lisboa ás cortezias ao S. Fulgencio, e em Oliveira de +braço dado com o +André, tudo isso me parece que destoa... Mas emfim se a Rosa +hoje se +apurou, não alludamos mais a cousas tristes!<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo bracejava, de novo protestava―quando o +violão resoou no +corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o <em>Fado</em> +recomeçou, +mais meigo, mais glorificador:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">―Velha casa de Ramires,<br /> + + +Honra e flor de Portugal!</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +VI</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +A casa do Cavalleiro em Corinde era uma +edificação dos fins do seculo +XVIII, sem elegancia e sem arte, pintada d'amarello, lisa e vasta, com +quatorze janellas de frente, quasi ao meio d'uma quinta chã, +toda de +terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada +nobreza, ao pateo da frente, ornado por dois tanques de marmore. Os +jardins conservavam a abundancia esplendida de rosas que os +tornára +famosos―e lhes merecera em tempos do avô de +André, o Desembargador +Martinho, uma visita da Snr.<sup>a</sup> D. Maria II. E +dentro todas as salas +reluziam d'asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma +parenta pobre do Cavalleiro, a Snr.<sup>a</sup> D. Jesuina +Rollim.<br /> + + +<br /> + + +Quando Gonçalo, que viera da Torre na egoa, atravessou a +ante-sala, +ainda reconheceu um dos paineis da parede, fumarento combate de +galiões, +que <span class="pagenum">[258]</span>elle uma +tarde rasgára jogando o espadão com +André. Sob esse painel, +á borda do canapé de palhinha, esperava +melancolicamente um amanuense do +Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos. E d'uma porta +remota, ao fundo do corredor, André, avisado pelo creado, o +fiel +Matheus, gritou alegremente:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Sahi +da tina... Ainda estou +em ceroulas!<br /> + + +<br /> + + +E em ceroulas o abraçou, n'um generoso abraço de +parabens. Depois, em +quanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das +malas―gravatas, peugas de sêda, garrafas de +perfumes―conversaram do +calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada...<br /> + + +<br /> + + +―Um horror! exclamava o Cavalleiro aquecendo um ferro de frisar +á +lampada d'alcool. Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas de +caliça, +de poeirada. O Central enfestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Tunis, +Lisboa!... Mas emfim, lá combatemos bravamente o bom combate!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo sorria, do canto do divan onde se +accommodára, entre uma pilha +de camisas de côr e outra de ceroulas com monogramma +flammante:<br /> + + +<br /> + + +―E então, Andrésinho, tudo arranjado, hein?<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro, deante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas +grossas do bigode. E só depois <span class="pagenum">[259]</span>de +o ensopar em brilhantina, +d'acamar as +ondas da cabelleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a +Gonçalo, já inquieto, que a +eleição ficára solida...<br /> + + +<br /> + + +―Mas imagina tu! Quando appareci em Lisboa, no Ministerio do Reino, +encontrei o circulo promettido ao Pitta, ao Theotonio Pitta, o grande +homem da <em>Verdade</em>...<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:<br /> + + +<br /> + + +―E então?...<br /> + + +<br /> + + +E então elle mostrára muito asperamente ao +José Ernesto a inconveniencia +de dispôr do Circulo como d'um charuto, sem o consultar, a +elle, +Governador Civil―e dono do circulo... E como o José Ernesto +se +arrebitava, alludia á conveniencia superior do Governo, elle +logo, +estendendo o dedo firme:―«Pois Zésinho, +flôr, ou trago o Ramires por +Villa-Clara, ou me demitto, e arde Troia!...» Espantos, +escarceus, +berreiros―mas o José Ernesto cedêra, e tudo +findou jantando ambos em +Algés com o tio Reis Gomes, onde á noite, ao +«bluff», as senhoras lhe +arrancaram quatorze mil reis.<br /> + + +<br /> + + +―Em resumo, Gonçalinho, precisamos conservar os olhos +attentos. O José +Ernesto é rapaz leal, meu velho amigo. E depois conhece o +meu genio... +Mas ha os compromissos, as pressões... E agora a novidade +<span class="pagenum">[260]</span>pittoresca. +Sabes quem se propõe contra ti, pelos Regeneradores?... +Adivinha... O +Julinho!<br /> + + +<br /> + + +―Que Julinho?... O Julio das photographias?<br /> + + +<br /> + + +―O Julio das photographias.<br /> + + +<br /> + + +―Diabo!<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro encolheu os hombros, com piedade:<br /> + + +<br /> + + +―Arranja dez votos á porta da quinta, tira o retrato a +todos os +taverneiros do circulo em mangas de camisa, e continua a ser o +Julinho... Não! só Lisboa me inquieta, a canalha +politica de Lisboa!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo torcia o bigode, desconsolado:<br /> + + +<br /> + + +―Imaginei tudo mais solido, mais inabalavel... Assim com todas essas +intrigas, ainda surde trapalhada... Ainda lá não +vou!<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro, ao espelho, esticava o fraque―que +experimentára abotoado, +depois repuxadamente aberto sobre o collete de fustão +côr de azeitona +onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida +por uma saphira. Por fim, encharcando o lenço com essencia +de fêno:<br /> + + +<br /> + + +―Nós estamos bem alliados, bem consagrados, não +é verdade? Então, meu +caro Gonçalo, socega, e almocemos regaladamente!... Creio +que este +fraque do nosso Amieiro assenta com certa graça, hein?<br /> + + +<br /> + + +―Magnifico! affirmou Gonçalo.<br /> + + +<br /> + + +―Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu <span class="pagenum">[261]</span>reveres os +velhos poisos +e te florires com uma rosa de Corinde.<br /> + + +<br /> + + +E logo no corredor, ornado de jarrões da India, de arcas de +charão, +enlaçando o braço de Gonçalo, do seu +recuperado Gonçalo:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de +Corinde, como ha cinco annos... E nada mudou, nem um creado, nem uma +cortina! Agora, um d'estes dias, preciso visitar a Torre.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo accudiu ingenuamente:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! a Torre está muito mudada... Muito mudada!<br /> + + +<br /> + + +E um embaraçado silencio pesou―como se entre elles surgisse +a imagem +entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das +esperanças, +quando André e Gracinha procuravam as ultimas violetas +d'Abril, sob o +sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos humidos muros da +Mãe d'Agoa. +Ainda em silencio desceram a escada de caracol―por onde ambos outr'ora +se despenhavam cavalgando o corrimão. E em baixo, n'uma sala +abobadada, +rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavalleiros nas espaldas, +André quedou deante da porta envidraçada do +jardim, ondeou um gesto +desconsolado e languido:<br /> + + +<br /> + + +―Eu tambem, agora, pouco appareço em Corinde. E, +comprehendes bem que +não me reteem em Oliveira os cuidados da +Administração... Mas este +<span class="pagenum">[262]</span>casarão +arrefeceu, alargou, desde a morte da +mamã. Ando aqui como +perdido. E acredita, quando cá me demoro, são uns +passeios tristonhos +por esses jardins, pela Rua Grande... Ainda te lembras da Rua +Grande?... +Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gonçalo!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo murmurou, por concordancia, sympathia renovada:<br /> + + +<br /> + + +―Eu tambem m'aborreço na Torre...<br /> + + +<br /> + + +―Mas tens outro genio!... E eu realmente sou um elegiaco.<br /> + + +<br /> + + +Correu, com um esforço, o fecho perro da porta +envidraçada. E limpando +os dedos ao lenço perfumado:<br /> + + +<br /> + + +―Eu creio que Corinde, agora, só me encantava com grandes +cerros +escalvados, grandes rochedos agrestes... Ás vezes, +cá dentro d'alma, +necessito o ermo de S. Bruno...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo sorria d'aquelle appetite ascetico, murmurado com +preciosidade, +atravez da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina. E +no terraço, junto á balaustrada de pedra enramada +d'hera, galhofou, +louvando o areado alinho, o relusente viço do jardim:<br /> + + +<br /> + + +―Com effeito, para um discipulo de S. Bruno, que escandalo, todo este +asseio! Mas para um peccador como eu, que delicia!... O jardim da Torre +anda um chavascal.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[263]</span> ―A prima Jesuina gosta de flôres. Tu não conheces +a prima Jesuina? Uma +velha parenta da mamã, que governa agora a casa. Coitada! e +com um +escrupulo, com um amor... Se não fosse a santa creatura, os +porcos +fossavam nos canteiros... Meu filho, onde não ha saia, +não ha ordem!<br /> + + +<br /> + + +Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de louça +azul que +trasbordavam de geranios, de secias, de canas da India. +Gonçalo recordou +a vespera de S. João em que rolára por aquelles +degraus, n'um trambulhão +tremendo, com os braços carregados de foguetes. E +lentamente, atravez do +jardim, evocavam memorias da camaradagem antiga. Lá se +conservava o +trapezio, dos tempos em que ambos cultivavam a religião +heroica da +força, da gymnastica, do banho frio... N'aquelle banco, sob +a magnolia, +lera uma tarde André o primeiro canto do seu Poema, o +<em>Fronteiro +d'Arzilla</em>. E o alvo? O alvo onde se exerciam á +pistola, +para os futuros +duellos, inevitaveis na campanha que ambos meditavam contra o velho +Syndicato Constitucional?...―Oh! toda essa parte do muro, que pegava +com o lavadoiro, fôra derrubada depois da morte da +mamã, para alargar a +estufa...<br /> + + +<br /> + + +―De resto o alvo era inutil! accrescentou o Cavalleiro. Eu logo por +esse tempo entrei tambem no <span class="pagenum">[264]</span>Syndicato... +E agora entras tu, pela porta +que eu te abro!<br /> + + +<br /> + + +Então Gonçalo, que colhêra e esmagava +entre os dedos, para lhe sorver o +perfume, folhas de lucia-lima―acudiu com uma franqueza, que aquelle +desenterrar de recordações tornava mais +penetrante e sentida:<br /> + + +<br /> + + +―E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu +afianças a +eleição, com segurança? Não +surgirá difficuldade, Andrésinho?... Esse +Pitta é um habil!<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do collete:<br /> + + +<br /> + + +―Da habilidade dos Pittas se ri a força dos Cavalleiros...<br /> + + +<br /> + + +Por trez degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de +arvoredo e sombra, onde desabrochava desde Maio, com explendor, o +tão +celebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que +deleitára uma Rainha. Aquelle facil desdem pelo Pitta +confirmava a +segurança da Eleição. +Gonçalo, caminhando respeitosamente como n'um +Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavalleiro:<br /> + + +<br /> + + +―Uma belleza, André, uma maravilha! Tens aqui rosas +sublimes... +Aquellas repolhudas, além, que luxo! E estas amarellas? +deliciosas!... +Olha este encanto! <span class="pagenum">[265]</span>o +ruborsinho a surdir, a raiar, do fundo das petalas +brancas... Oh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro cruzára os braços, com gracejadora +melancolia:<br /> + + +<br /> + + +―Pois vê tu! Tal é a minha solidão +social e sentimental que, com todas +estas rosas abertas, não tenho a quem mandar um ramo!... +Estou reduzido +a florir as Louzadas!<br /> + + +<br /> + + +Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do +Fidalgo:<br /> + + +<br /> + + +―As Louzadas! Oh que desavergonhadas!<br /> + + +<br /> + + +André atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, n'um inquieto +reparo de +curiosidade:<br /> + + +<br /> + + +―Por quê?... Desavergonhadas, por quê?<br /> + + +<br /> + + +―Por quê? Por que o são! Pela sua natureza, e +pela vontade de Deus!... +São desavergonhadas como estas rosas são +vermelhas.<br /> + + +<br /> + + +E o Cavalleiro, tranquillisado:<br /> + + +<br /> + + +―Ah, genericamente... Com effeito têm immensa +peçonha. Por isso eu as +cubro de rosas. E em Oliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com +ellas um chá respeitoso!<br /> + + +<br /> + + +―Pois não as amansas, rosnou o Fidalgo.<br /> + + +<br /> + + +Mas o Matheus apparecêra nos degraus de tijolo com o +guardanapo na mão, +a calva rebrilhando ao sol. Era o almoço. O Cavalleiro +colheu para +Gonçalo <span class="pagenum">[266]</span>uma +«rosa triumphal»―e para si +um «botão innocente...» E, +enflorados, subiam para o terraço entre o brilho e o perfume +de outras +roseiras―quando o Cavalleiro parou com uma ideia:<br /> + + +<br /> + + +―A que horas vaes tu para Oliveira, Gonçalinho?<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?... Não tencionava +apparecer em +Oliveira, toda essa semana...<br /> + + +<br /> + + +―Por quê? É urgente que vá a Oliveira?<br /> + + +<br /> + + +―Pois certamente, filho! Ámanhã mesmo precisamos +conversar com o +Barrôlo, combinarmos, por causa dos votos da Murtosa!... Meu +querido +Gonçalo, não podemos adormecer. Não +é pelo Julio, é pelo Pitta!<br /> + + +<br /> + + +―Bem! bem! acudio logo Gonçalo, assustado. Parto para +Oliveira.<br /> + + +<br /> + + +―Por que então, continuava André, vamos ambos +logo, a cavallo. É um +bonito passeio pelos Freixos, sempre com sombra... Tens talvez de +mandar +á Torre, por causa de roupa...<br /> + + +<br /> + + +Não! Gonçalo, para evitar a importunidade de +malas, conservava nos +Cunhaes um bragal inteiro, desde a chinella até á +casaca. E entrava em +Oliveira como o Philosopho Bias em Athenas―com uma simples bengala e +paciencia infinita...<br /> + + +<br /> + + +―Delicioso! declarou André. Fazemos então logo a +nossa entrada official +em Oliveira. É o começo da campanha.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[267]</span> +O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos +das Louzadas, de toda a cidade, perante uma entrada tão +apparatosamente +fraternal. E, quando o Cavalleiro recommendou ao Matheus que mandasse +apromptar o <em>Rossilho</em> e a egoa do Fidalgo para as +quatro horas e meia, +Gonçalo exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes +partissem ás +sete, pela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira +desapercebidamente, esbatido no crepusculo). Mas André +protestou:<br /> + + +<br /> + + +―Não, é uma secca, chegamos á noite. +Precisamos entrar com solemnidade, +á hora da musica no Terreiro... Ás cinco, hein?<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo, vergando os hombros sob a Fatalidade:<br /> + + +<br /> + + +―Pois sim, ás cinco.<br /> + + +<br /> + + +Na sala de jantar, esteirada, com denegridos paineis de +flôres e fructas +sobre um papel vermelho imitando damasco, André occupou a +veneranda +cadeira de braços do avô Martinho. O brilho das +pratas, a frescura das +rosas n'uma floreira de Saxe, revelavam os desvelos da prima +Jesuina―que, com dôr d'entranhas n'essa manhã, +não se vestira, almoçava +no quarto... Gonçalo louvou aquella elegante ordem, +tão rara n'uma casa +de solteirão, lamentando a falta de uma prima Jesuina na +Torre... E +André sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo, <span class="pagenum">[268]</span>com a +esperança +que Gonçalo contasse aos Barrôlos o confortavel +luxo de Corinde. Depois, +picando com o garfo uma azeitona:<br /> + + +<br /> + + +―Pois é verdade, meu querido Gonçalo, +lá estive n'essa grande Capital, +depois um dia em Cintra...<br /> + + +<br /> + + +O Matheus entre-abriu a porta para recordar a S. Ex.<sup>a</sup> +o amanuense do +Governo Civil, que esperava.<br /> + + +<br /> + + +―Pois que espere! gritou S. Ex.<sup>a</sup>.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse, +com fome...<br /> + + +<br /> + + +―Pois que almoce! gritou S. Ex.<sup>a</sup>.<br /> + + +<br /> + + +Aquelle secco desprezo de André pelo pobre empregado, +esquecido no banco +d'entrada, com a sua pasta sobre os joelhos―constrangia o Fidalgo. E +espetando tambem uma azeitona:<br /> + + +<br /> + + +―Dizias então, Cintra...<br /> + + +<br /> + + +―Semsabor, resumiu André. Poeirada horrenda, +femeaço mediocre... E já +me esquecia. Sabes quem lá encontrei, na estrada de +Collares? O +Castanheiro, o nosso Castanheiro, o dos <em>Annaes</em>, +de chapéo +alto. Ergueu +logo os braços ao céo, desolado:―«E +então esse Gonçalo Mendes Ramires +não me manda o romance?» Parece que o primeiro +numero da Revista sae em +Dezembro, e elle precisa o original em começos d'Outubro... +Lá me +supplicou que te saccudisse, que te recordasse a gloria dos Ramires. E +tu <span class="pagenum">[269]</span>devias acabar +a Novella... Até convem que, antes +d'entrares na +Camara, appareça um trabalho teu, um trabalho serio, +d'erudição forte, +bem portuguez...<br /> + + +<br /> + + +―Pois convem! concordou vivamente Gonçalo. E á +Novella só falta o +Capitulo quarto. Mas esse justamente demanda mais +preparação, mais +pesquizas... Para o acabar precisava o espirito bem socegado, a certeza +d'esta infernal eleição... Não +é o animal do Julio que me inquieta. Mas +a canalha intrigante de Lisboa... Que te parece?<br /> + + +<br /> + + +Cavalleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:<br /> + + +<br /> + + +―Que me parece, Gonçalinho? Que estás como uma +creança pequena, +afflicta, com medo que te não chegue o prato de arroz doce. +Socega, +menino, apanhas o teu arroz doce!... Mas com effeito, encontrei o +José +Ernesto muito teimoso. Já existiam compromissos antigos com +o Pitta. <em>A +Verdade</em> tem sido furiosamente ministerial... E esse Pitta, +agora quando +souber que lhe tapei Villa-Clara, arde em furor contra mim. O que me +é +soberanamente indifferente; colerasinhas ou piadinhas do Pitta +não me +tiram o appetite... Mas o José Ernesto admira o Pitta, +necessita do +Pitta, está empenhado em pagar ao Pitta com um circulo... +Ainda no +ultimo dia me disse na Secretaria, até lhe achei +graça:―«Eu vejo que os +<span class="pagenum">[270]</span>deputados por +Villa-Clara morrem; ora se, por esse bom costume, o teu +Ramires morrer em breve, então entra o Pitta.»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo recuou a cadeira:<br /> + + +<br /> + + +―Se eu morrer!... Que animal!<br /> + + +<br /> + + +―Oh, se morreres para o Circulo! atalhou o Cavalleiro rindo. Por +exemplo, se nos zangassemos, se ámanhã entre +nós surgisse uma +dissidencia... Emfim o impossivel!<br /> + + +<br /> + + +O Matheus entrava com a terrina de caldo de gallinha, que rescendia.<br /> + + +<br /> + + +―A elle! exclamou André. E não se falle mais de +Circulos, nem de +Pittas, nem de Julios, nem da negregada Politica!... Conta antes o +enredo da tua Novella... Historica, hein?... Meia-idade? D. +João V?... +Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma epocha deliciosa, +Portugal sob os Philippes...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Os tres quartos, depois das seis, batiam no relogio sempre adeantado da +Egreja de S. Christovão, em Oliveira, quando +André Cavalleiro e Gonçalo, +descendo da rua Velha, penetraram no Terreiro da Louça +(agora <em>Largo do +Conselheiro Costa Barroso</em>).<br /> + + +<br /> + + +Todos os Domingos, tocando n'um coreto que o Conselheiro, quando +Presidente da Camara, mandára construir sobre o velho +Pelourinho +demolido, <span class="pagenum">[271]</span>a +charanga do Regimento ou a philarmonica <em>Lealdade</em> +tornavam +aquelle Largo o centro mais sociavel da quieta e caseira cidade. N'essa +tarde, porém, como começára no +Convento de Santa Brigida o bazar +patrocinado pelo Bispo, as senhoras rareavam nos bancos de pedra e nas +cadeiras do Asylo espalhadas por sob as acacias. As Louzadas faltavam +no +seu pouso reservado, superiormente escolhido para espiarem todo o +Terreiro, as casas que o cerram do lado de S. Christovão e +do lado das +Trinas, a rua Velha e a rua das Vellas, a barraca da limonada, e +até +outro retiro pudicamente disfarçado por uma +canniçada de heras. E o +unico rancho conhecido, D. Maria Mendonça, a Baroneza das +Marges, as +duas Alboins, conversavam com as costas para o Terreiro, junto da grade +de ferro que o limita sobre a antiga muralha―d'onde se dominam campos, +a cêrca do Seminario Novo, todo o pinhal da Estevinha e as +voltas +lustrosas da ribeira de Crêde.<br /> + + +<br /> + + +Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagarosamente a alêa +do Largo +denominada o «Picadeiro», gosando a <em>Marcha +do +Propheta</em>, o espanto +reviveu (apezar de todos conhecerem a +reconciliação famosa do Governo +Civil) quando os dous amigos appareceram, ambos de chapéos +de palha, +ambos de polainas altas, ao passo solemne das duas egoas―a de +<span class="pagenum">[272]</span>Gonçalo +airosa e baia de cauda curta á ingleza, a do Cavalleiro +pesada e preta, +de pescoço arqueado, a cauda farta rojando as lages. Mello +Alboim, o +Barão das Marges, o Dr. Delegado, pararam n'uma fila +pasmada, a que se +juntou um dos Villa-Velhas, depois o morgado Pestana, depois o gordo +major Ribas com a farda desabotoada, rebolando e galhofando sobre +«aquella amigação...» O +tabellião Guedes, o Guedes <em>pôpa</em>, +derrubou a +cadeira no alvoroço com que se ergueu, indignado mas +respeitoso, +descobrindo a calva n'uma cortesia immensa em que o chapeu branco lhe +tremia. E o velho Cerqueira, o advogado, que sahia do retiro +encanniçado +d'hera e se abotoava, embasbacou, com os oculos na ponta do nariz +alçado, os dedos esquecidos nos botões das +calças.<br /> + + +<br /> + + +No emtanto os dous amigos, gravemente, seguiam pela correnteza de casas +que o palacete de D. Arminda Villegas domina, com o pesado +brazão dos +Villegas na cimalha, as suas dez nobres varandas de ferro opulentadas +por cortinas de damasco amarello. Na varanda d'esquina, o +Barrôlo e José +Mendonça fumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao +sentir as patas +lentas das egoas, ao avistar tão inesperadamente o +cunhado―o bom +Barrôlo quasi se despenhou da varanda:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[273]</span> ―Oh Gonçalo! Oh Gonçalo!... Vaes lá +para casa?<br /> + + +<br /> + + +E nem esperou uma certeza, berrou de novo, bracejando:<br /> + + +<br /> + + +―Nós já vamos! Jantámos cá +esta tarde... A Gracinha está lá em cima, +com a tia Arminda. Vamos já tambem! É um momento!<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro acenou risonhamente ao capitão +Mendonça. Já Barrôlo +mergulhára com enthusiasmo para dentro dos damascos +amarellos. E os dois +amigos, deixando pelo Terreiro aquelle sulco de espanto, penetraram na +rua das Vellas onde um Policia se perfilou com a mão no +bonet―o que foi +agradavel ao Fidalgo da Torre.<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro acompanhou Gonçalo ao Largo d'El-Rei. Deante do +Palacete um +homem de boina vermelha remoía no seu realejo o +côro nupcial da <em>Lucia</em>, +espiando as janellas desertas. O Joaquim da Porta correu do pateo a +segurar a egoa do Fidalgo. Com um mudo sorriso o tocador estendera a +boina. E depois de lhe atirar um punhado de cobre―Gonçalo +hesitou, +murmurou emfim, com embaraço e corando:<br /> + + +<br /> + + +―Não queres entrar e descançar, +André?...<br /> + + +<br /> + + +―Não, obrigado... Então +ámanhã ás duas, no Governo Civil, com +o +Barrôlo, para combinarmos sobre os votos da Murtosa... Adeus, +minha +flôr! Démos um bello passeio e espantamos os povos!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[274]</span> +E S. Ex.<sup>a</sup>, envolvendo o Palacete n'um demorado +olhar, desceu pela rua +das Tecedeiras.<br /> + + +<br /> + + +No seu quarto (sempre preparado, com a cama feita) Gonçalo +acabava de se +lavar, de se escovar, quando Barrôlo se precipitou pelo +corredor, +esbofado, soffrego―e atraz d'elle Gracinha, offegante tambem, +desapertando nervosamente as fitas escarlates do chapeu. Desde a tarde +em que Barrôlo «presenceára com os olhos +bem acordados!» a palestra de +Gonçalo e de André na varanda do Governo +Civil―fervera n'elle e em +Gracinha uma impaciencia desesperada por penetrar os motivos, a +encoberta historia d'aquella reconciliação +surprehendente. Depois a fuga +de Gonçalo na caleche para a Torre, sem parar nos Cunhaes; a +repentina +jornada do Cavalleiro a Lisboa; o silencio que sobre aquelle caso se +abatera mais pesado que uma tampa de ferro―quasi os aterrou. Gracinha +á +noite, no Oratorio, murmurava atravez das resas +distrahidas:―«Oh, minha +rica Nossa Senhora, que será?»―Barrôlo +não ousára correr á Torre; mas +até sonhava com a varanda do Governo Civil, que lhe +apparecia enorme, +crescendo, atravancando Oliveira, roçando já as +janellas dos Cunhaes +d'onde elle a repellia com o cabo d'uma vassoura... E eis agora +Gonçalo +e André que entram na cidade a cavallo, muito serenamente, +<span class="pagenum">[275]</span>ambos de +chapeus de palha, como companheiros constantes recolhendo d'um passeio!<br /> + + +<br /> + + +Logo á porta do quarto, Barrôlo atirou os +braços, rompeu aos brados:<br /> + + +<br /> + + +―Então que tem sido tudo isto?... Não se falla +n'outra coisa!... Tu com +o André!<br /> + + +<br /> + + +Gracinha, arfando, tão vermelha como as fitas do chapeu, +só balbuciava:<br /> + + +<br /> + + +―E nem vens, nem escreves... Nós com tanto cuidado...<br /> + + +<br /> + + +E mesmo rente da porta aberta, sem se sentarem, o Fidalgo aclarou o +«Mysterio», com a toalha ainda nas mãos:<br /> + + +<br /> + + +―Uma cousa muito inesperada, mas muito natural. O Sanches Lucena +morreu, como vocês sabem. Ficou vago o circulo de +Villa-Clara. É um +circulo por onde só póde sahir um homem da terra, +com propriedade, com +influencia. O governo immediatamente me mandou perguntar, pelo +telegrapho, se eu me desejava propôr... Ora eu, no fundo, +estou de bem +com os Historicos, sou amigo do José Ernesto... Estimava +entrar na +Camara... Acceitei.<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo esmagou a coxa com uma palmada triumphal:<br /> + + +<br /> + + +―Então era certo, caramba!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo continuava, enxugando interminavelmente as mãos:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[276]</span> ―Acceitei, está claro, com condições; +e muito fortes. Mas acceitei... +N'este caso, como vocês sabem, convem que o candidato se +entenda com o +Governador Civil. Eu, ao principio, não queria renovar +relações. Instado +porém, muito instado de Lisboa, e por +considerações superiores de +Politica, consenti n'esse sacrificio. Nas difficuldades em que se +encontra o paiz todos devem fazer sacrificios. Eu fiz esse... O +André, +de resto, foi muito amavel, muito affectuoso. De sorte que estamos +outra +vez amigos. Amigos politicos: mas muito bem, muito lealmente... Almocei +hoje com elle em Corinde, viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde +linda!... Emfim renasceu a antiga harmonia. E a +eleição está segura.<br /> + + +<br /> + + +―Venham de lá esses ossos! berrou o Barrôlo, +transportado.<br /> + + +<br /> + + +Gracinha terminára por se sentar á borda do +leito, com o chapeu no +regaço, enlevada para o irmão, n'um silencioso +enternecimento em que os +seus doces olhos se humedeciam e riam. O Fidalgo, que se desprendera do +abraço do Barrôlo, dobrava a toalha com um vagar +distrahido:<br /> + + +<br /> + + +―A eleição está segura, mas +precisamos trabalhar. Tu, Barrôlo, tens de +conversar tambem com o Cavalleiro. Já combinei. +Ámanhã no Governo Civil, +<span class="pagenum">[277]</span>ás duas +horas. É necessario que vocês +se entendam por causa dos votos da +Murtosa...<br /> + + +<br /> + + +―Prompto, menino! o que vocês quizerem! Votos, dinheiro...<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo, borrifando vagamente o jaquetão com +agua de Colonia que +pingava no soalho:<br /> + + +<br /> + + +―Desde o momento em que eu me reconciliei com o André, tudo +acabou. Tu, +Barrôlo, immediatamente te reconcilias tambem...<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo quasi pulou, no seu deslumbramento:<br /> + + +<br /> + + +―Pois está claro! E ainda bem, que eu gosto immensamente do +Cavalleiro! +Até sempre teimava com Gracinha... «Oh senhores, +esta tolice, por causa +da Politica!...»<br /> + + +<br /> + + +―Bem! concluiu o Fidalgo. A Politica nos separou, a Politica nos +reune... É o que se chama a inconstancia dos Tempos e dos +Imperios.<br /> + + +<br /> + + +E agarrou Gracinha pelos hombros, com um beijo brincalhão, +estalado em +cada face:<br /> + + +<br /> + + +―A tia Arminda? Boa, da escaldadella? Já voltou +ás façanhas de <em>Leandro +o Bello</em>?<br /> + + +<br /> + + +Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se não +desfizera, a +envolvia toda em claridade e doçura:<br /> + + +<br /> + + +―A tia Arminda está melhor, já anda. Perguntou +por ti... Mas, oh +Gonçalo, tu de certo queres jantar!<br /> + + +<br /> + + +―Não, almocei tremendamente em Corinde... <span class="pagenum">[278]</span>Vocês, +como jantaram á hora +antiga da tia Arminda, ceiam, hein? Então logo ceio... Agora +apenas uma +chavena de chá, muito forte!<br /> + + +<br /> + + +Gracinha correu, no alvoroço de servir o heroe querido. E +pela escada, +descendo com Barrôlo que o contemplava, o Fidalgo da Torre +lamentou os +seus sacrificios:<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, menino, é uma massada... Mas que +diabo! todos devemos +concorrer para tirar o paiz do atoleiro!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, maravilhado, murmurava:<br /> + + +<br /> + + +―E sem dizeres nada... Assim á capucha! Assim á +capucha!...<br /> + + +<br /> + + +―E agora outra cousa, Barrôlo. Ámanhã, +no Governo Civil, deves convidar +o André a jantar...<br /> + + +<br /> + + +―Com certeza! gritou o Barrôlo. Jantar d'estrondo?<br /> + + +<br /> + + +-―Não, homem! Jantar muito quieto, muito intimo. Unicamente +o André e o +João Gouveia. Telegraphas ao João Gouveia. Tambem +pódes convidar os +Mendonças... Mas jantar muito discreto, só para +conversarmos, para +firmar a reconciliação d'um modo mais sociavel, +mais elegante.<br /> + + +<br /> + + +Ao outro dia, no Governo Civil, Barrôlo e o Cavalleiro +apertaram as mãos +com tanta singelleza, como se ambos, ainda na vespera, andassem jogando +o bilhar e caturrando no club da rua das Pêgas. <span class="pagenum">[279]</span>De resto +conversaram +summariamente sobre a Eleição. Apenas o +Cavalleiro alludira com +indolencia aos votos de Murtosa―o bom Barrôlo quasi se +engasgou, na +ancia de os offerecer:<br /> + + +<br /> + + +―E o que vocês quizerem... Votos, dinheiro, o que +vocês quizerem!... +Vocês digam! Eu vou para a Murtosa, e é comezaina, +e pipa de vinho +aberta, e a freguezia inteira a votar no meio de foguetorio...<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro, rindo, amansou aquelle fervor faustoso:<br /> + + +<br /> + + +―Não, meu caro Barrôlo, não! +Nós preparamos uma eleição muito +sobria, +muito socegada. Villa Clara elege Gonçalo Mendes Ramires +deputado, +naturalmente, como o seu melhor homem. Não ha combate, o +Julinho é uma +sombra. Portanto...<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo persistia, radiante, gingando:<br /> + + +<br /> + + +―Perdão, André, perdão! Lá +isso vinhaça, e vivorio, e foguetorio, e +festança magna...<br /> + + +<br /> + + +Mas Gonçalo, embaraçado, ancioso por suster a +garrulice do Barrôlo, as +palmadas carinhosas com que elle se atufava na intimidade do +Cavalleiro, +apontou para a mesa de S. Ex.<sup>a</sup>:<br /> + + +<br /> + + +―Tu tens que fazer, André. Vejo ahi uma papelada +pavorosa... Não +roubemos mais tempo ao chefe illustre do Districto! Ao trabalho!<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Trabalhar, meu irmão, que o +trabalho<br /> + + +É André, +é virtude, é valor!...</div> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[280]</span> +Agarrára o chapeu, acenando ao cunhado. Então +Barrôlo, com as bochechas +a estalar de gosto, balbuciou o convite que firmaria a +reconciliação +d'um modo sociavel e elegante:<br /> + + +<br /> + + +―Cavalleiro, para conversarmos melhor, se você nos quizer +dar o gosto +de vir jantar... Quinta feira, ás seis e meia... +Nós, quando cá está o +Gonçalo, jantámos sempre mais tarde.<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro, que corára, agradeceu com discreta ceremonia:<br /> + + +<br /> + + +―É para mim um immenso prazer, uma immensa honra...<br /> + + +<br /> + + +E á porta da antesala onde os acompanhára, +segurando o pesado reposteiro +de baeta escarlate com as Armas Reaes bordadas―supplicou ao +Barrôlo que +pozesse os seus respeitos aos pés da snr.<sup>a</sup> +D. +Graça...<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, descendo a larga escadaria de pedra, limpava a +testa, o +pescoço, humedecidos pela emoção. E no +páteo desabafou:<br /> + + +<br /> + + +―Muito sympathico este André! Rapaz franco, de quem sempre +gostei... +Realmente estava morto que acabassem estas historias... E mesmo +lá para +os Cunhaes, para a companhia, para o cavaco, que bella +acquisição!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[281]</span> +Quinta feira de manhã depois do almoço, no +terraço do jardim onde +tomavam café, Gonçalo recommendou ao +Barrôlo que «para accentuar mais +completamente a intimidade simples do jantar não pozesse +casaca...»<br /> + + +<br /> + + +―E tu, Gracinha, vestido afogado. Mas vestidinho claro, alegre...<br /> + + +<br /> + + +Gracinha sorriu, indecisamente, continuando a folhear um <em>Almanach +de +Lembranças</em> estendida n'uma cadeira de verga, com +um gatinho +branco no +regaço.<br /> + + +<br /> + + +Depois do alvoroço e pasmo de Domingo, ella apparentava +agora um +desinteresse silencioso pela reconciliação que +ainda abalava Oliveira, +pela Eleição, pelo jantar. Mas n'esses dias +não socegára―tão impaciente +e sensivel que o bom Barrôlo incessantemente lhe aconselhava +o grande +remedio da Mamã contra os nervos, +«flôres d'alecrim, cosidas em vinho +branco.»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo percebia claramente a +perturbação em que a lançava aquella +entrada triumphal de André, do antigo André, na +sua casa de casada, nos +Cunhaes. E para se tranquillisar evocava (como na estrada do cemiterio +em Villa-Clara) a seriedade de Gracinha, o seu rigido e puro pensar, a +altivez da sua almasinha heroica. N'essa manhã mesmo, <span class="pagenum">[282]</span>todo +no fresco e +soffrego cuidado da sua Eleição, só +receava que Gracinha, por embaraço +ou cautella, acolhesse seccamente o Cavalleiro, o esfriasse no seu +renovado fervor pela casa de Ramires, no seu patrocinato Politico. E +insistiu, gracejando:<br /> + + +<br /> + + +―Ouviste, Gracinha? Um vestido branco. Um vestidinho alegre, que sorria +aos hospedes...<br /> + + +<br /> + + +Ella murmurou, mergulhada no seu <em>Almanach</em>:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, realmente, com este calor...<br /> + + +<br /> + + +Mas Barrôlo bateu uma palmada na côxa. Que pena! +que pena não ter em +Oliveira, «para o brinde de +reconciliação», um famoso vinho do +Porto, da +garrafeira da Mamã, preciosissimo, velhissimo, do tempo de +D. João II...<br /> + + +<br /> + + +―D. João II? rosnou Gonçalo. Está +estragado!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo hesitou:<br /> + + +<br /> + + +―D. João II ou D. João VI... Um d'esses Reis. +Emfim um vinho unico, do +seculo passado! Só restam á mamã oito +ou dez garrafas... E hoje, era dia +para uma, hein?<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo deu um sorvo lento ao café:<br /> + + +<br /> + + +―O André, antigamente, tambem gostava muito d'ovos +queimados...<br /> + + +<br /> + + +Bruscamente Gracinha fechou o <em>Almanach</em>―e, com +uma fuga e um silencio +que emmudeceram Gonçalo, sacudiu do collo o gato dorminhoco, +atravessou +<span class="pagenum">[283]</span>o +terraço, desappareceu entre os teixos altos do jardim.<br /> + + +<br /> + + +Mas á tarde, quando o Fidalgo occupou o seu logar na mesa +oval, junto da +prima Maria Mendonça―logo notou, entre duas compoteiras, +uma travessa +d'ovos queimados. Apesar de jantar tão intimo serviam, com a +louça da +China, os famosos talheres dourados da baixella do tio Melchior. E duas +jarras de Saxe transbordavam de cravos brancos e amarellos, +côres +heraldicas dos Ramires.<br /> + + +<br /> + + +D. Maria, que não encontrára o querido primo +desde os annos de Gracinha, +murmurou com um sorriso, uma grave cortezia, n'aquelle cerimonioso +silencio em que se desdobravam os guardanapos:<br /> + + +<br /> + + +―Ainda lhe não dei os parabens, primo Gonçalo...<br /> + + +<br /> + + +Elle acudiu, mechendo nervosamente nos copos:<br /> + + +<br /> + + +―Chut! prima, chut! Hoje aqui, já está decidido, +não se allude sequer a +Politica... Está muito calor para Politica.<br /> + + +<br /> + + +Ella suspirou de leve, como desfallecida: Ai, o calor... Que horrivel +calor! Desde que entrára nos Cunhaes com aquelle vestido +preto que «era +o seu pallio rico»―ainda não cessára +de invejar a frescura do vestido +branco de Gracinha...<br /> + + +<br /> + + +―Que bem que lhe fica! Está hoje linda!<br /> + + +<br /> + + +Era um vestido liso de crepon branco, que <span class="pagenum">[284]</span>aclarava, +remoçava +a sua graça +quasi virginal. E nunca realmente tanto prendera, assim clara e fina, +com os verdes olhos refulgindo como esmeraldas lavadas, uma +ondulação +mais lustrosa nos pesados cabellos, um macio rubor transparente, todo +um +fresco brilho de flôr regada, de flôr revivida, +apesar do acanhamento +que lhe immobilisava os dedos ao erguer a colhér de prata +dourada. E ao +lado, superiormente robusto e largo, com o peitilho arqueado como uma +couraça e cravejado de duas saphiras, uma rosa branca +desabrochada na +lapella, André Cavalleiro, que recusára a sopa +(oh, no verão nunca comia +sopa!) dominava a mesa, levemente commovido tambem, passando sobre o +reluzente bigode um lenço tão perfumado que +afogava o perfume dos +cravos. Mas foi elle que encadeou a animação com +risonhos queixumes +sobre o calor―o escandaloso calor d'Oliveira... Ah! que Purgatorio +abrasado―depois dos seus dois dias de Paraiso, na frescura deliciosa de +Cintra!<br /> + + +<br /> + + +D. Maria Mendonça adoçou os espertos olhos para o +Snr. Governador +Civil.―E então Cintra? Animada? Muitos ranchos á +tarde, em Setiaes? +Encontrára a Condessa de Chellas―a prima Chellas?...<br /> + + +<br /> + + +Sim, na Pena, na sua visita á Rainha, Cavalleiro +conversára durante um +momento com a Snr.<sup>a</sup> Condessa de Chellas...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[285]</span> ―Ah! e a Rainha?...<br /> + + +<br /> + + +―Oh, sempre encantadora...<br /> + + +<br /> + + +A Snr.<sup>a</sup> Condessa de Chellas, essa, um pouco +magra. Mas tão +amavel, tão +intelligente, tão verdadeiramente <em>grande +dame</em>―não é verdade? E, como +se inclinára para Gracinha, com uma doçura +infinita no simples mover da +cabeça―ella, perturbada, mais vermelha, balbuciou que +não conhecia a +Condessa de Chellas...―D. Maria Mendonça accusou logo a +inercia dos +primos Barrôlos, sempre encafurnados nos Cunhaes, sem nunca +se +aventurarem a Lisboa no inverno, para conviver, para conhecer os +parentes...<br /> + + +<br /> + + +―E a culpa é do primo José, que detesta Lisboa...<br /> + + +<br /> + + +Oh não! Barrôlo não detestava Lisboa! +Se podesse acarretar para Lisboa +as suas commodidades, o seu quarto, a sua cocheira, a boa agua do +pomar, +a rica varanda sobre o jardim―até se regalava!<br /> + + +<br /> + + +―Mas entalado n'aquelles quartinhos do Bragança... E depois +a má +comida, o barulho... A Gracinha em Lisboa nunca dorme... E a massada +das +manhãs?... Não ha nada que fazer em Lisboa, de +manhã!<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro sorria para o Barrôlo, como enlevado <span class="pagenum">[286]</span>na sua +graça e razão. +Depois confessou que elle, apesar de habitar tambem (mercê do +Estado!) +um palacete confortavel, e gozar tambem uma agua excellente, a +finissima +agua do Poço de S. Domingos, lamentava que os deveres de +Politica, a +disciplina de Partido o amarrassem a Oliveira. E toda a sua +esperança +era a queda do Ministerio, para se libertar, passar tres mezes divinos +em Italia...<br /> + + +<br /> + + +Do outro lado de Gracinha, João Gouveia (sempre acanhado e +mudo deante +de senhoras) exclamou, n'um impulso d'amisade, de +convicção:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, Andrésinho, vae perdendo a esperança! O +S. Fulgencio não arreia! +Ainda cá te apanhamos uns tres ou quatro annos!<br /> + + +<br /> + + +E insistiu, debruçado sobre Gracinha, n'um +esforço d'amabilidade que o +esbraseava:<br /> + + +<br /> + + +―O S. Fulgencio não arreia. Ainda cá temos o +nosso André mais tres ou +quatro annos.<br /> + + +<br /> + + +André protestava, com um requebro, as espessas pestanas +quasi cerradas:<br /> + + +<br /> + + +―Oh meu João! não me queiras mal, não +me queiras mal!...<br /> + + +<br /> + + +E teimava. Ah, com certeza! ainda que desertasse o seu partido (e que +importa em hoste poderosa uma lança ferrugenta?) esses mezes +d'Italia no +inverno já os sonhára, já os +preparava...―E a <span class="pagenum">[287]</span>Snr.<sup>a</sup> +D. Graça +não +permittia que elle a servisse d'um pouco de vinho branco?<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo estendeu o braço, com effusão:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Cavalleiro! eu tenho empenho em que você prove esse +vinho com +cuidado... É da minha propriedade do Corvello... +Faço muito gosto +n'elle. Mas prove com attenção!<br /> + + +<br /> + + +S. Ex.<sup>a</sup> provou com +devoção, como se commungasse. +E com uma cortezia +compenetrada para Barrôlo que reluzia de gosto:<br /> + + +<br /> + + +―Uma delicia! uma verdadeira delicia!<br /> + + +<br /> + + +―Hein? Não é verdade? Eu, para mim, prefiro este +vinho do Corvello a +todos os vinhos francezes, os mais finos... Até alli o nosso +amigo Padre +Sueiro, que é um Santo, o aprecia!<br /> + + +<br /> + + +Silencioso, esbatido por traz d'uma das altas jarras de cravos, Padre +Sueiro corou, sorriu:<br /> + + +<br /> + + +―Com muita agua, infelizmente, Snr. José +Barrôlo... O gosto pede, mas o +rheumatismo não consente.<br /> + + +<br /> + + +Pois José Mendonça, que não temia +rheumatismos, atacava sempre +bravamente aquelle bemdito Corvello...<br /> + + +<br /> + + +―Que lhe parece a você, João Gouveia?<br /> + + +<br /> + + +Oh! João Gouveia já o conhecia, louvado Deus! E +certamente nunca +encontrára em Portugal, como <span class="pagenum">[288]</span>vinho +branco, nenhum comparavel +pela +frescura, pelo aroma, pela seiva...<br /> + + +<br /> + + +―E cá lhe vou atiçando com fervor, +Barrôlo amigo! Esta bella garrafa de +crystal vae de vencida!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo exultava. O seu desgosto era que Gonçalo +nunca honrasse «aquelle +nectar.»―Não! Gonçalo não +tolerava vinhos brancos...<br /> + + +<br /> + + +―E então hoje estou com uma d'estas sêdes que +só me satisfaz vinho +verde, assim um pouco espumante, e com gelo... Que este de Vidainhos +tambem é do Barrôlo. Oh, eu não +desprezo os vinhos da familia... Este +Vidainhos sinceramente o considero sublime.<br /> + + +<br /> + + +Então Cavalleiro desejou provar esse sublime vinho verde da +quinta de +Vidainhos, em Amarante. O escudeiro, a um aceno enthusiasmado do +Barrôlo, apresentou a Sua Ex.<sup>a</sup> um copo +esguio, especial para +aquelle +vinho que espumava. Mas o Cavalleiro, acariciando o fresco copo sem o +erguer, repisou a idéa de ferias, de viagens, como +accentuando o seu +cançasso e fastio d'Oliveira.―E sabia a Snr.<sup>a</sup> +D. +Graça para onde elle +seguiria, depois da Italia, n'esse Inverno, se por caridade de Deus o +Ministerio cahisse?... Para a Asia Menor.<br /> + + +<br /> + + +―E era uma viagem para que eu, com certesa, tentava o nosso +Gonçalo... +Tão facil, agora, com os <span class="pagenum">[289]</span>caminhos +de ferro!... De Veneza a +Constantinopla um mero passeio. Depois, de Constantinopla a Smyrna, um +dia, dous dias, n'um vapor excellente. E d'ahi n'uma bôa +caravana, por +Tripoli, pela antiga Sidonia, penetravamos em Galiléa... +Galiléa! Hein +Gonçalo? Que belleza!<br /> + + +<br /> + + +Padre Sueiro, suspendendo o garfo, lembrou timidamente―que em +Galiléa o +Snr. Gonçalo Ramires pisaria terra que outr'ora, por pouco, +pertencera á +sua Casa:<br /> + + +<br /> + + +―Um dos antepassados de V. Ex.<sup>a</sup>, Gutierres +Ramires, companheiro de +Tancredo na primeira Cruzada, recuzou o ducado de Galiléa e +de +Além-Jordão...<br /> + + +<br /> + + +―Fez pessimamente! gritou Gonçalo, rindo. Oh, esse +avô Gutierres andou +pessimamente! Por que não existia agora, n'este mundo, +disparate mais +divertido do que eu Duque de Galiléa! O Snr. +Gonçalo Mendes Ramires, +Duque de Galiléa e d'Além-Jordão!... +Era simplesmente de rebentar!<br /> + + +<br /> + + +Cavalleiro protestou, com sympathia:<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa! Por que?<br /> + + +<br /> + + +―Não acredite! acudiu, com os olhos coruscantes, D. Maria +Mendonça. O +primo Gonçalo, com todas estas graças, no fundo, +é muitissimo +aristocrata... Mas terrivelmente aristocrata!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo da Torre pousou o copo de Vidainhos, depois d'um trago +saboreado e fundo:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[290]</span> ―Aristocrata... Está claro que sou aristocrata. Sentiria +com effeito +certo desgosto em ter nascido, como uma herva, d'outras hervas vagas. +Gósto de saber que nasci de meu pae Vicente, que nasceu de +seu pae +Damião, que nasceu de seu pae Ignacio, e assim sempre +até não sei que +Rei Suevo...<br /> + + +<br /> + + +―Recesvinto! informou respeitosamente Padre Sueiro.<br /> + + +<br /> + + +―Pois até esse Recesvinto. O peor é que o sangue +de todos esses paes +não differe realmente do sangue dos paes do Joaquim da +Porta. E que +depois do Recesvinto, para traz, até Adão, +não tenho mais paes!<br /> + + +<br /> + + +E, emquanto todos riam, D. Maria Mendonça, +debruçada para elle, por traz +do leque largamente aberto, murmurou:<br /> + + +<br /> + + +―O Primo está com esses deprezos... Pois eu sei d'uma +senhora que tem a +maior admiração pela casa de Ramires e pelo seu +representante.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo enchia de novo o copo, com amor, attento +á espuma:<br /> + + +<br /> + + +―Bravo! Mas «convém distinguir», como +diz o Manoel Duarte. Por quem tem +ella a verdadeira admiração, por mim ou pelo +Suevo, pelo Recesvinto?<br /> + + +<br /> + + +―Por ambos.<br /> + + +<br /> + + +―Diabo!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[291]</span> +Depois, pousando a garrafa, mais sério:<br /> + + +<br /> + + +―Quem é?<br /> + + +<br /> + + +Oh! ella não podia confessar. Não era ainda +bastante velha para andar +com recadinhos de sentimento. Mas Gonçalo dispensava o +nome―só desejava +as qualidades... Nova? Bonita?<br /> + + +<br /> + + +―Bonita? exclamou D. Maria. É uma das mulheres mais +formosas de +Portugal!<br /> + + +<br /> + + +Espantado, Gonçalo lançou o nome:<br /> + + +<br /> + + +―A D. Anna Lucena!<br /> + + +<br /> + + +―Por quê?<br /> + + +<br /> + + +―Por que mulher assim tão formosa, e vivendo n'estes +sitios, e tão +conhecida da prima que lhe faz confidencias, só a D. Anna.<br /> + + +<br /> + + +D. Maria, ageitando as duas rosas que lhe alegravam o corpete de +sêda +preta, sorria:<br /> + + +<br /> + + +―Talvez seja, talvez seja...<br /> + + +<br /> + + +―Pois estou immensamente lisongeado. Mas ainda distingo, como o Manoel +Duarte. Se, da parte d'ella, essa sympathia toda é para o +bom fim, não! +Não, santo Deus, não!... Mas se é para +o mau fim, então, prima, +cumprirei honradamente o meu dever dentro das minhas +forças...<br /> + + +<br /> + + +D. Maria escondeu a face no leque, escandalisada. Depois, espreitando, +com os agudos olhos a faiscar:<br /> + + +<br /> + + +―Oh primo, mas o bom fim é que convinha, <span class="pagenum">[292]</span>por que a cousa +é a mesma e +são duzentos contos a mais!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo gritou d'admiração:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! esta prima Maria! Não ha em toda a Europa ninguem mais +esperto!<br /> + + +<br /> + + +Todos curiosamente anciaram por saber a nova graça da Snr.<sup>a</sup> +D. Maria. +Mas Gonçalo deteve as curiosidades:<br /> + + +<br /> + + +―Não se póde contar. É casamento.<br /> + + +<br /> + + +Então José Mendonça recordou a +novidade picante que desde a vespera +remexia Oliveira:<br /> + + +<br /> + + +―Por casamento!... Que me dizem ao casamento da D. Rosa Alcoforado?<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, depois o Gouveia, até Gracinha, todos o +proclamaram «um +horror.» Aquella perfeita rapariga, de pelle tão +côr de rosa, de cabello +tão côr d'ouro, amarrada ao Teixeira de Carredes, +um patriarcha +carregado de netos... Que desastre!<br /> + + +<br /> + + +Pois ao Cavalleiro o casamento não parecia assim +«desastrado.» O +Teixeira de Carredes, além de muito fino, de muito +intelligente, era um +velho verdejante, quasi sem rugas―até bonito com aquelle +contraste do +bigode escuro e da grenha riçada e branca. E na Snr.<sup>a</sup> +D. +Rosa, com +todas as rosas da sua pelle e todo o ouro dos seus cabellos, dominava +«um não sei quê» de +amollentado e de sorvado... Depois <span class="pagenum">[293]</span>pouco +esperta. E +pouco cuidadosa―sempre mal penteada, sempre mal pregada...<br /> + + +<br /> + + +―Emfim, V. Ex.<sup>as</sup> perdoem... Mas quem faz um +casamento muito +desenxabido é o pobre Teixeira de Carredes.<br /> + + +<br /> + + +D. Maria Mendonça considerava o Governador Civil com um +espanto amavel:<br /> + + +<br /> + + +―Pois se o Snr. Cavalleiro não admira a Rosinha Alcoforado, +não sei +então que rapariga admire dentro do seu Districto...<br /> + + +<br /> + + +Elle, logo, com galante rasgo:<br /> + + +<br /> + + +―Mas, além de V. Ex.<sup>as</sup>, +não admiro ninguem! +Realmente eu governo, em +Portugal, o Districto mais daprovido de belleza...<br /> + + +<br /> + + +Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pequena Reriz, da Riosa? E a +Mellosinho Alboim, com aquelles olhos?... Mas o Cavalleiro +não +consentia, a todas demolia com um sarcasmo leve, ou pela pelle sem +frescura, ou pelo pisar desairoso, ou pelo provincianismo de gosto e +modos, sempre pela carencia das bellezas e graças que +ornavam +Gracinha―lançando assim disfarçadamente, aos +pés de Gracinha, um rôlo +de senhoras vencidas e amarfanhadas. Ella percebera a subtil +adulação, +os seus olhos allumiaram com um fulgor mais enternecido o rubor que a +afogueava. Desejou repartir incenso <span class="pagenum">[294]</span>tão +accumulado―lembrou +timidamente +outra belleza de que se orgulhava o Districto:<br /> + + +<br /> + + +―A filha do Visconde de Rio-Manso, a Rosinha Rio-Manso... É +linda!<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro triumphou com facilidade:<br /> + + +<br /> + + +―Mas tem doze annos, minha senhora! Nem é rosinha, +é botãosinho de +rosa!...<br /> + + +<br /> + + +Quasi humildemente, Gracinha recordou a Luiza Moreira, filha d'um +lojista, muito admirada aos domingos na missa da Sé e no +Terreiro da +Louça:<br /> + + +<br /> + + +―É uma bella rapariga... Sobretudo a figura...<br /> + + +<br /> + + +Cavalleiro triumphou ainda, com requebrada segurança:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, mas os dentes tortos, Snr.<sup>a</sup> D. +Graça! Os dentes +acavallados! V. +Ex.<sup>a</sup> nunca reparou... Oh! uma bôca +muito desagradavel! E, +além dos +dentes, o irmão, o Evaristo, com aquella cara mais chata que +a alma, e a +caspa, e a porcaria, e o jacobinismo... Não ha mulher bonita +com irmão +tão feio!<br /> + + +<br /> + + +Mendonça estendera o braço, com outra curiosidade +que occupava Oliveira:<br /> + + +<br /> + + +―E por Evaristo!... Elle sempre funda o novo jornal republicano, o +<em>Rebate</em>?<br /> + + +<br /> + + +O Snr. Governador Civil encolheu os hombros com uma ignorancia superior +e risonha. Mas João Gouveia, vermelho e luzidio depois da +sua garrafa de +Corvello e da sua garrafa de Douro, affiançou <span class="pagenum">[295]</span>que o <em>Rebate</em> +apparecia +em Novembro. Até elle conhecia o patriota que esportulava a +«massa.» E a +campanha do <em>Rebate</em> começava com cinco +artigos esmagadores +sobre a +Tomada da Bastilha.<br /> + + +<br /> + + +O espanto de Gonçalo era como o Republicanismo +alastrára em +Portugal―até na velhota, na devota Oliveira...<br /> + + +<br /> + + +―Quando eu andava em preparatorios existiam simplesmente dois +republicanos em Oliveira, o velho Salema, lente de Rhetorica, e eu. +Agora ha partido, ha comité, ha dous jornaes... E ha mesmo o +Barão das +Marges com a <em>Voz Publica</em> na mão, +debaixo da Arcada...<br /> + + +<br /> + + +Mendonça não receava a Republica, gracejava:<br /> + + +<br /> + + +―Ainda vem longe, muito longe... Ainda nos dá tempo de +comermos estes +bellos ovos queimados.<br /> + + +<br /> + + +―Deliciosos, murmurou o Cavalleiro.<br /> + + +<br /> + + +―Sim, concordou Gonçalo, ainda temos tempo para os ovos... +Mas que +rebente uma revolução em Hespanha, ou que morra o +Reisinho na sua +menoridade, que naturalmente morre...<br /> + + +<br /> + + +―Credo! Coitadinho! Pobre mãe! murmurou Gracinha +sensibilisada.<br /> + + +<br /> + + +Immediatamente o Cavalleiro a tranquillisou. Porquê, morrer o +Reisinho +d'Hespanha? Os republicanos espalhavam boatos sombrios sobre os males +da +excellente creança. Mas elle conhecia a +realidade―assegurava <span class="pagenum">[296]</span>á +Snr.<sup>a</sup> +D. Graça que, felizmente para a Hespanha, ainda reinaria um +Affonso XIII +e mesmo um Affonso XIV. Em quanto aos nossos republicanos, esses... Meu +Deus! mera questão de guarda municipal! Portugal, nas suas +massas +profundas, permanecia monarchico, de raiz. Apenas ao de cima, na +burguezia e nas escolas, fluctuava uma escuma ligeira, e bastante suja, +que se limpava facilmente com um sabre...<br /> + + +<br /> + + +―V. Ex.<sup>a</sup>, Snr.<sup>a</sup> D. +Graça, que é uma dona de +casa perfeita, conhece +esta operação que se faz á panella do +caldo... Escumar a panella. É com +uma colher. Aqui é com um sabre. Pois assim, com toda a +simplicidade, se +clarifica Portugal. E foi isto que ainda ultimamente eu declarei a +El-rei.<br /> + + +<br /> + + +Alteára a cabeça―o seu peitilho resplandecia, +mais largo, como couraça +bastante rija para defender toda a Monarchia. E, no compenetrado +silencio que se alargou, duas rolhas de Champagne estalaram, por traz +do +biombo, na copa.<br /> + + +<br /> + + +Apenas o escudeiro, apressado, enchêra as taças―o +Fidalgo da Torre com +uma gravidade que o sorriso adoçava:<br /> + + +<br /> + + +―André, á tua saude. Não é +ao Governador Civil, é ao amigo!<br /> + + +<br /> + + +Todos os copos se ergueram n'um susuro acariciador. João +Gouveia agitou +o seu, com especial <span class="pagenum">[297]</span>effusão, +gritando:―«Andrésinho, meu velho!» S. +Ex.<sup>a</sup> apenas tocou de leve no calice de Gracinha. +Padre Sueiro murmurou +as «graças.» E Barrôlo, +atirando o guardanapo:<br /> + + +<br /> + + +―Café aqui ou na sala?... Na sala estamos mais frescos.<br /> + + +<br /> + + +Na sala grande, a sala dos velludos vermelhos, o lustre rebrilhava +solitariamente; pelas tres janellas abertas penetrava a serenidade da +noite quente, o recolhido silencio d'Oliveira; e em baixo, no Largo, +alguns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de lã branca +pela cabeça, +pasmavam para aquella claridade de festa que jorrava dos Cunhaes. O +Cavalleiro e Gonçalo accenderam os charutos na varanda, +respirando a +frescura escassa. E o Cavalleiro, com beatitude:<br /> + + +<br /> + + +―Pois sempre te digo, Gonçalinho, que se janta sublimemente +em casa de +teu cunhado!...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo desejou que, no domingo, elle jantasse na Torre. +Ainda restavam +umas garrafas de Madeira do tempo do avô Damião―a +que se daria, com +soccorro do Gouveia e do Titó, um assalto heroico.<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro prometteu, já deliciado―tomando da pesada +bandeja de +prata, que derreava o escudeiro, a sua chavena de café, sem +assucar.<br /> + + +<br /> + + +―E tu, com effeito, Gonçalo, agora não deves +arredar da Torre. O teu +papel é todo de presença na localidade. O Fidalgo +da Torre está no meio +das <span class="pagenum">[298]</span>suas terras, +por onde vae ser eleito para as Côrtes. +É o teu +papel...<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo com um riso enlevado, surdiu entre os dous amigos +que enlaçou +ternamente pela cinta:<br /> + + +<br /> + + +―E nós cá ficamos, ambos a trabalhar, o +Cavalleiro e eu!...<br /> + + +<br /> + + +Mas D. Maria, do canapé onde se enterrára, +reclamou o primo Gonçalo +«para negocios.» Junto d'uma console, +João Gouveia e Padre Sueiro, +remexendo o seu café, concordavam na necessidade d'um +Governo forte. E +Gracinha, com o primo Mendonça, revolvia as musicas sobre a +tampa do +piano, procurando o <em>Fado dos Ramires</em>. +Mendonça tocava com +corredio +brilho, composera valsas, um hymno ao Coronel Trancoso, o heroe de +Machumba―e mesmo o primeiro acto d'uma opera, <em>A Pegureira</em>. +E como +não +descortinavam o <em>Fado</em> com as quadras do +Videirinha―foi justamente uma +das suas valsas, a <em>Perola</em>, d'uma cadencia amorosa +e +cançada lembrando +a valsa do Fausto, que elle atacou, sem largar o charuto.<br /> + + +<br /> + + +Então André Cavalleiro, que +repenetrára vagarosamente na sala, repuxou o +collete, afagou o bigode, e avançando para Gracinha, com um +modo meio +grave, meio folgazão:<br /> + + +<br /> + + +―Se V. Ex.<sup>a</sup> me quer dar a grande honra?...<br /> + + +<br /> + + +Offerecia, abria os braços. E Gracinha, toda escarlate, +<span class="pagenum">[299]</span>cedeu, levada +logo nos largos passos deslisados que o Cavalleiro lançou +sobre o +tapete. Barrôlo e João Gouveia correram a afastar +as poltronas, +clareando um espaço, onde a valsa se desenrolou com o suave +sulco branco +do vestido de Gracinha. Pequenina e leve, toda ella se perdia, como se +fundia, na força mascula do Cavalleiro, que a arrebatava em +giros +lentos, com a face pendida, respirando os seus cabellos magnificos.<br /> + + +<br /> + + +Da borda do canapé, com os finos olhos a fusilar, D. Maria +Mendonça +pasmava:<br /> + + +<br /> + + +―Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Snr. Governador Civil!...<br /> + + +<br /> + + +Ao lado Gonçalo torcia nervosamente o bigode, na surpreza +d'aquella +familiaridade, assim renovada pelo Cavalleiro com tão serena +confiança, +por Gracinha com tanto abandono... Elles torneavam, +enlaçados. Dos +labios do Cavalleiro escorregava um sorriso, um murmurio. Gracinha +arfava, os seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava +nas calças do Cavalleiro. E Barrôlo, em extasi, +quando elles o roçavam, +atirava palmas carinhosas, bradava:<br /> + + +<br /> + + +―Bravo! Bravo! Lindamente!... Bravissimo!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +VII</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo recolhia para o almoço depois d'um +passeio no pomar percorrendo +a <em>Gazeta do Porto</em>, quando avistou no banco de +pedra, rente +á porta da +cosinha, onde a Rosa mudava o painço na gaiola do seu +canario, o Casco, +o José Casco dos Bravaes, que esperava, pensativo e abatido, +com o +chapeu sobre os joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou no +jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do homem, que surdia da sombra +da latada, avançava na claridade faiscante do pateo, +hesitando, como +assustada... E, animado pela visinhança da Rosa, parou, +forçando um +sorriso―em quanto o Casco enrolava nas mãos tremulas a aba +dura do +chapeu, balbuciava:<br /> + + +<br /> + + +―Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma palavra...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[302]</span> ―Ah! é vossê, Casco! Homem, não o +conheci... E então?<br /> + + +<br /> + + +Dobrou o jornal, tranquillisado―gozando mesmo a submissão +d'aquelle +valente que tanto o apavorára, erguido e negro como um +pinheiro, na +solidão do pinheiral. E o Casco, engasgado, repuchava, +esticava o +pescoço de dentro dos grossos collarinhos +bordados―até que atirou toda +a alma n'uma supplica soluçada, retendo as lagrimas que +marejavam:<br /> + + +<br /> + + +―Ai, meu Fidalgo, perdôe por quem é! +Perdôe, que eu nem lhe sei pedir +perdão!...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo atalhou o homem, com generosidade e +doçura. Elle bem o avisára! +Nada se emenda, a gritar, com o pau alçado...<br /> + + +<br /> + + +―E olhe, Casco! Quando vossê me sahiu ao pinhal eu levava um +revólver +na algibeira... Trago sempre um revólver. Desde que uma +noite em +Coimbra, no Choupal, dous bebados me assaltaram, ando sempre +á cautella +com o revólver... Pense você agora que +desgraça se tiro o revólver, se +desfecho!... Que desgraça, hein?... Felizmente, n'um +relance, pensei que +me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que fugi, para +não +desfechar o revólver... Emfim tudo passou. E eu +não sou homem de +rancores, já esqueci. Comtanto que vossê, agora +socegado e no seu juizo, +esqueça tambem.<br /> + + +<br /> + + +O Casco amassava as abas do chapeu, com a cabeça <span class="pagenum">[303]</span>derrubada. +E sem a +erguer, sem ousar, rouco dos soluços que o entalavam:<br /> + + +<br /> + + +―Pois agora é que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora +é que me ralo por +aquella doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e pelo +pequeno!...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo sorriu, encolheu os hombros:<br /> + + +<br /> + + +―Que tolice, Casco!... Pois a sua mulher apparece ahi n'uma noite +d'agua... E o pequenito doente, coitadito, com febre... Como vae elle, +o +Manelsinho?<br /> + + +<br /> + + +O Casco murmurou do fundo da sua humildade:<br /> + + +<br /> + + +―Louvado seja Deus, meu senhor, muito sãosinho, muito +rijinho.<br /> + + +<br /> + + +―Ainda bem... Ponha o chapeu. Ponha o chapeu, homem! E adeus!... +Vossê +não tem que agradecer, Casco... E olhe! Traga cá +um dia o pequeno. Eu +gostei do pequeno. É espertinho.<br /> + + +<br /> + + +Mas o Casco não se arredava, pregado ás lages. +Por fim, n'um soluço que +rebentou:<br /> + + +<br /> + + +―É que eu não sei como hei-de dizer, meu +Fidalgo... Lá o dia de cadeia, +acabou! Tenho genio, fiz a asneira, com o corpo a paguei. E pouco +paguei, graças ao Fidalgo... Mas depois quando sahi, quando +soube que a +mulher viera de noite á Torre, e que o Fidalgo +até a embrulhára n'uma +capa, e que não deixára sahir o pequeno...<br /> + + +<br /> + + +Estacou, afogado pela emoção. E como +Gonçalo, <span class="pagenum">[304]</span>tambem +commovido, lhe +batia risonhamente no hombro, «para acabar, não se +fallar mais n'essas +bagatellas...»―o Casco rompeu, n'uma grande voz dolorosa e +quebrada:<br /> + + +<br /> + + +―Mas é que o Fidalgo não sabe o que é +para mim aquelle pequeno!... +Desde que Deus m'o mandou tem sido uma paixão cá +por dentro que até +parece mentira!... Olhe que na noite que passei na cadeia da villa +não +dormi... E Deus me perdôe, não pensei na mulher, +nem na pobre da velha, +nem na pouquita terra que amanho, tudo ao desamparo. Toda a noite se +foi +a gemer:―«ai o meu querido filhinho! ai o meu querido +filhinho!...» +Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz que o Fidalgo +ficára +com elle na Torre, e o deitára na melhor cama, e +mandára recado ao +medico... E depois quando soube pelo snr. Bento que o Fidalgo de noite +subia a vêr se elle estava bem coberto, e lhe entalava a +roupa, +coitadinho...<br /> + + +<br /> + + +E arrebatadamente, n'um choro solto, gritando:―«Ai meu +Fidalgo! meu +Fidalgo!...»―o Casco agarrou as mãos de +Gonçalo, que beijava, +rebeijava, alagava de grossas lagrimas.<br /> + + +<br /> + + +―Então, Casco! Que tolice!... Deixe homem!<br /> + + +<br /> + + +Pallido, Gonçalo saccudia aquella gratidão +furiosa―até que ambos se +encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e tremulas, o lavrador +dos +Bravaes <span class="pagenum">[305]</span>soluçando, +n'uma confusão. E foi elle por +fim que, recalcando um +derradeiro soluço, se recobrou, desafogou da idéa +que o trouxera, que de +certo fundamente o trabalhára, e que agora lhe enrijava a +face e o gesto +n'uma determinação que nunca vergaria:<br /> + + +<br /> + + +―Meu Fidalgo, eu não sei fallar, não sei +dizer... Mas se d'hoje em +deante, seja para que fôr, o Fidalgo necessitar da vida d'um +homem, tem +aqui a minha!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo estendeu a mão ao lavrador, muito +simplesmente―como um Ramires +d'outr'ora recebendo a preitezia d'um vassallo:<br /> + + +<br /> + + +―Obrigado, José Casco.<br /> + + +<br /> + + +―Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o +abençôe!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, perturbado, galgou pela escadinha da +varanda―emquanto o Casco +atravessava o páteo vagarosamente, com a cabeça +bem erguida, como homem +que devêra e que pagára.<br /> + + +<br /> + + +E em cima, na livraria, Gonçalo pensava com +espanto:―«Ahi está como +n'este mundo sentimental se ganham dedicações +gratuitamente!...» Por que +emfim! quem não impediria que uma criancinha com febre +affrontasse de +noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval? Quem a +não deitaria, +não lhe adoçaria um grog, não lhe +entalaria os cobertores para a +conservar bem abafada? E por esse grog e por essa cama―corre o pae, +tremendo e chorando, <span class="pagenum">[306]</span>a +offerecer a sua vida! Ah! como era facil ser +Rei―e ser Rei popular!<br /> + + +<br /> + + +E esta certeza mais o animava a obedecer ás +recommendacões do +Cavalleiro―a começar immediatamente as suas visitas aos +Influentes +eleitoraes, essas aduladoras visitas que assegurariam á +Eleição uma +unanimidade arrogante. Logo ao fim do almoço, mesmo sobre a +toalha, +arredando os pratos, copiou a lista d'esses Magnates―por um rascunho +annotado que lhe fornecera o João Gouveia. Era o Dr. +Alexandrino; o +velho Gramilde, de Ramilde; o Padre José Vicente, da Finta; +outros +menores:―e o Gouveia marcára com uma cruz, como o mais +poderoso e mais +difficil, o Visconde de Rio-Manso, que dispunha da immensa freguezia de +Canta-Pedra. Gonçalo conhecia esses senhores, homens de +propriedade e de +dinheiro (com todos outr'ora o papá andára +endividado)―mas nunca +encontrára o Visconde de Rio-Manso, um velho brazileiro, +dono da quinta +da <em>Varandinha</em>, onde vivia solitariamente com uma +neta de onze annos, +essa linda Rosinha que chamavam «o botão de +Rosa», a herdeira mais rica +de toda a Provincia. E logo n'essa tarde, em Villa-Clara, reclamou ao +João Gouveia uma carta d'apresentação +para o Rio-Manso:<br /> + + +<br /> + + +O Administrador hesitou:<br /> + + +<br /> + + +―Vossê não precisa carta... Que diabo! +Vossê <span class="pagenum">[307]</span>é +o Fidalgo da Torre! +Chega, entra, conversa... Além d'isso na +Eleição passada o Rio-Manso +ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco sêccos. +O +Rio-Manso é um casmurro... Mas com effeito, +Gonçalinho, convem começar +essa caça á popularidade!<br /> + + +<br /> + + +N'essa noite, na Assembleia, o Fidalgo, encetando a +«caça á +popularidade», acceitou um convite do Commendador +Romão Barros (do +massador, do burlesco Barros) para o brodio faustoso com que elle +celebrava, na sua quinta da <em>Roqueira</em>, a festa de +S. Romão. +E essa +semana inteira, depois outra, as gastou assim por Villa-Clara, amimando +eleitores―a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do +Ramos, de encommendar um sacco de café na mercearia do +Tello, de +offerecer o braço no largo do Chafariz á nojenta +mulher do bebedissimo +Marques Rosendo, e de frequentar, de chapeu para a nuca, o bilhar da +rua +das Pretas. João Gouveia não approvava estes +excessos―aconselhando +antes «boas visitas, com todo o <em>chic</em>, +aos influentes +sérios.» Mas +Gonçalo bocejava, adiava, na insuperavel preguiça +de affrontar a +maledicencia rabujenta do velho Gramilde ou a solemnidade forense do +Dr. +Alexandrino.<br /> + + +<br /> + + +Agosto findava:―e por vezes, na livraria, Gonçalo, +coçando +desconsoladamente a cabeça, considerava as brancas tiras +d'almaço, o +Capitulo III da <span class="pagenum">[308]</span><em>Torre +de D. Ramires</em> encalhado... +Mas quê! +não podia, +com aquelle calor, com o afan da Eleição, +remergulhar nas eras +Affonsinas!<br /> + + +<br /> + + +Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas +freguezias, não se descuidando das +recommendações do +Cavalleiro―enchendo sempre o bolso de rebuçados d'avenca +para atirar ás +creanças. Mas, n'uma carta ao querido André, +já confessára que «a sua +popularidade não crescia, não +enfunava...»―«Não! positivamente, velho +amigo, não tenho o dom! Sei apenas palestrar familiarmente +com os +homens, comprimentar pelo seu nome as velhas ás soleiras das +portas, +gracejar com a pequenada, e se encontro uma boeirinha de saiasita rota +dar cinco tostões á boeirinha para uma saiasita +nova... Ora todas estas +cousas tão naturaes sempre as fiz naturalmente, desde rapaz, +sem que me +conquistassem influencia sensivel... Necessito portanto que essa +querida +Authoridade m'empurre com o seu braço possante e +destro...»<br /> + + +<br /> + + +Todavia já uma tarde, encontrando junto da Torre o velho +Cosme de +Nacejas, e depois, n'um domingo, crusando ás <em>Ave-Marias</em> +na +Bica-Santa +o Adrião Pinto do logar da Levada, ambos lavradores +considerados e +remexedores d'eleições―lhes pedira os votos, +desprendidamente e rindo. +E quasi se assombrára da promptidão, do fervor, +com que ambos se +<span class="pagenum">[309]</span>offereceram.―«Para +o Fidalgo? Pois isso está +entendido! Ainda que se +votasse contra o Governo, que é pae!»―E em +Villa-Clara, com o Gouveia, +Gonçalo deduzia d'estas offertas tão acaloradas +«a intelligencia +politica da gente do campo»:<br /> + + +<br /> + + +―Está claro que não é pelos meus +lindos olhos! Mas sabem que eu sou +homem para fallar, para luctar pelos interesses da terra... O Sanches +Lucena não passava d'um Conselheiro muito rico e muito mudo! +Esta gente +quer deputado que grite, que lide, que imponha... Votam por mim por que +sou uma intelligencia.<br /> + + +<br /> + + +E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:<br /> + + +<br /> + + +―Homem! quem sabe? Vossê nunca experimentou, +Gonçalo Mendes Ramires. +Talvez seja realmente pelos seus lindos olhos!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +N'um d'esses passeios, n'uma abrazada sexta-feira, com o sol ainda +alto, +Gonçalo atravessava o logarejo da Velleda, no caminho de +Canta-Pedra. Ao +fim dos casebres que se apertam á orla da estrada alveja, +muito caiada, +n'um terreiro defronte da Egreja, a taverna famosa "do Pintainho", onde +os caramanchões do quintal e a nomeada do coelho guizado +attrahem vasto +povo nos dias da feira da <span class="pagenum">[310]</span>Velleda. +N'essa manhã o +Titó, depois d'uma +madrugada ás perdizes, em Valverde, apparecera na Torre para +almoçar, +urrando, d'esfomeado. Era sexta-feira―a Rosa preparára uma +pescada com +tomates, depois um bacalhau assado, formidaveis. E Gonçalo, +toda a tarde +torturado com sêde, mais resequido pela poeira da estrada, +parou +avidamente deante do portão da venda, gritou pelo Pintainho.<br /> + + +<br /> + + +―Oh meu Fidalgo!...<br /> + + +<br /> + + +―Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca, +que morro...<br /> + + +<br /> + + +O Pintainho, velhote roliço de cabello amarello, +não tardou com o copo +appetitoso e fundo onde boiava, na espumasinha do assucar, uma rodella +de limão. E Gonçalo saboreava a sangria com +ineffavel delicia―quando da +janella terrea da venda partiu um assobio lento, fino e trinado, como +os +dos arrieiros que animam as bestas a beber nos riachos. +Gonçalo deteve o +copo, varado. Á janella assomára um +latagão airoso, de face clara e +suissas louras, que, com os punhos sobre o peitoril e a +cabeça +levantada, n'um descarado modo de pimponice e desafio, o fitava +atrevidamente. E n'um lampejo o Fidalgo reconheceu aquelle +caçador que +já uma tarde, no logar de Nacejas, ao pé da +Fabrica de vidros, o mirára +com arrogancia, lhe raspára a espingarda pela perna, e ainda +depois, +parado sob a varanda d'uma rapariga <span class="pagenum">[311]</span>de +jaqué azul, lhe +acenára +chasqueando emquanto elle descia a ladeira... Era esse! Como se +não +percebesse o ultraje―Gonçalo bebeu apressadamente a +sangria, atirou uma +placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina egoa. Mas +então da +janella rolou uma risadinha, cacarejada e troçante, que o +colheu pelas +costas como o estalo d'uma vergasta. Gonçalo soltou a +galope. E adiante, +sopeando a egoa no refugio d'uma azinhaga, pensava, ainda +tremulo:―«Quem será o desavergonhado?... E que +lhe fiz eu, Santo Deus? +que lhe fiz eu?...» Ao mesmo tempo todo o seu ser se +desesperava contra +aquelle desgraçado <em>mêdo</em>, +encolhimento da carne, +arrepio da pelle, que +sempre, ante um perigo, uma ameaça, um vulto surdindo d'uma +sombra, o +estonteava, o impellia furiosamente a abalar, a escapar! Por que +á sua +alma, Deus louvado, não faltava arrojo! Mas era o corpo, o +traiçoeiro +corpo, que n'um arrepio, n'um espanto, fugia, se safava, arrastando a +alma―emquanto dentro a alma bravejava!<br /> + + +<br /> + + +Entrou na Torre, mortificado, invejando a afouteza dos seus +moços da +quinta, remoendo um rancor soturno contra aquelle bruto de suissas +louras, que certamente denunciaria ao Cavalleiro e enterraria n'uma +enxovia!―Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos, +apparecendo <span class="pagenum">[312]</span>com +uma carta «que trouxera um moço da +<em>Feitosa</em>...»<br /> + + +<br /> + + +―Da <em>Feitosa</em>?<br /> + + +<br /> + + +―Sim senhor, da quinta do snr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que +vinha de mandado das senhoras...<br /> + + +<br /> + + +―Das senhoras!... Que senhoras?<br /> + + +<br /> + + +Sem tarja de luto, a carta não era da bella D. Anna... Mas +era de D. +Maria Mendonça, que assignava―«prima muito amiga, +Maria Severim.» N'um +relance a leu, colhido logo por esta surpreza nova, distrahido da venda +do Pintainho e da affronta:―«Meu querido Primo. Estou ha +tres dias aqui +com a minha amiga Annica, e como passou o mez inteiro do nojo e ella +já +póde sahir (e até precisa porque tem andado +fraca) eu aproveito a +occasião para percorrer estes arredores que dizem +tão bonitos, e pouco +conheço. Tencionamos no Domingo visitar Santa Maria de +Craquêde, onde +estão os tumulos dos antigos tios Ramires. Que +impressão me vae +fazer!... Mas, ao que parece, além dos tumulos do claustro, +ha outros, +ainda mais antigos, que foram arrombados no tempo dos Francezes, e que +ficam n'um subterraneo, onde se não póde entrar +sem licença e sem que +tragam a chave. Peço pois, querido Primo, que dê +as suas ordens para que +no Domingo possamos descer ao subterraneo, que <span class="pagenum">[313]</span>todos +affiançam muito +interessante, por que ainda lá restam ossos e armas. Se na +Torre +houvesse uma senhora, eu mesma iria, para lhe fazer este pedido... Mas +não se póde visitar um solteirão +tão perigoso. Case depressa!... +D'Oliveira boas noticias. Creia-me sempre, etc.»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo encarou o Bento―que esperava, interessado com +aquelle assombro +do Snr. Doutor:<br /> + + +<br /> + + +―Tu sabes se em Santa Maria de Craquêde ha outros tumulos, +n'um +subterraneo?<br /> + + +<br /> + + +O assombro então saltou para o Bento:<br /> + + +<br /> + + +―N'um subterraneo?... Tumulos?<br /> + + +<br /> + + +―Sim, homem! Além dos que estão no claustro +parece que ha outros, mais +antigos, debaixo da terra... Eu nunca vi, não me lembro. +Tambem ha que +annos não entro em Santa Maria de Craquêde! Desde +pequeno!... Tu não +sabes?<br /> + + +<br /> + + +O Bento encolheu os hombros.<br /> + + +<br /> + + +―E a Rosa não saberá?<br /> + + +<br /> + + +O Bento abanou a cabeça, duvidando.<br /> + + +<br /> + + +―Tambem vossês nunca sabem nada! Bem! Amanhã +cêdo corre a Santa Maria +de Craquêde e pergunta na Egreja, ao sachristão, +se existe esse +subterraneo. Se existir que o mostre no Domingo a umas senhoras, +á +snr.<sup>a</sup> D. Anna Lucena, e á snr.<sup>a</sup> +D. Maria +Mendonça, minha prima +Maria... E que tenha tudo varrido, tudo decente!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[314]</span> +Mas, repassando a carta, reparou n'um <em>Post-Scriptum</em> +em lettra mais +miudinha, ao canto da folha:―«No Domingo, não se +esqueça, a visita será +<em>entre as cinco e cinco e meia da tarde</em>!»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo pensou:―«Será uma +entrevista?» E na livraria, atirando para uma +cadeira o chapeu e o chicote, assentou que era uma entrevista, bem +clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterraneo―e Maria +Mendonça, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como +natural +motivo de lhe escrever, de lhe annunciar que no Domingo, ás +cinco e +meia, a bella D. Anna e os seus duzentos contos o esperavam em Santa +Maria de Craquêde. Mas então a prima Maria +não gracejára, em Oliveira? +Gostava d'elle, realmente, essa D. Anna?... E uma +emoção, uma +curiosidade voluptuosa atravessaram Gonçalo á +idéa de que tão formosa +mulher o desejava.―Ah! mas certamente o desejava para marido, por que +se o appetecesse para amante não se soccorria dos +serviços da D. Maria +Mendonça―nem a prima Maria, apesar de tão sabuja +com as amigas ricas, +os prestaria assim descaradamente como uma alcoviteira de Comedia! E +caramba! casar com a D. Anna―não!<br /> + + +<br /> + + +E subitamente anciou por conhecer a vida da D. Anna! Aturára +ella tantos +annos, em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na <em>Feitosa</em>, +na solidão <span class="pagenum">[315]</span>dos +grandes muros da <em>Feitosa</em>―por +que nunca +sobre ella +esvoaçára um rumor, em terriolas tão +gulosas de rumores malignos. Mas em +Lisboa?... Esses «amigos estimabilissimos» de que +se ufanava o pobre +Sanches, o D. João não sei quê, o +pomposo Arronches Manrique, o Philippe +Lourençal com o seu cornetim?... Algum de certo a +attacára―talvez o D. +João, por dever tradicional do nome. E ella?... Quem o +informaria sobre +a historia sentimental da D. Anna?<br /> + + +<br /> + + +Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irmã do +Gouveia, +casada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de Magicas e empregado +na Misericordia) costumava mandar ao mano Administrador relatorios +intimos sobre todas as pessoas conhecidas d'Oliveira, de Villa-Clara, +que se demoravam em Lisboa―e que interessavam o mano ou por Politica, +ou por mexeriquice. E de certo, pela irmã Cerqueira, o +querido Gouveia +conhecia miudamente os annaes da D. Anna, durante os seus invernos de +Lisboa, nas delicias da sua «roda fina».<br /> + + +<br /> + + +N'essa noite, porém, o Administrador não +apparecera na Assembleia. E +Gonçalo, desconsolado, recolhia á Torre―quando +no Largo do Chafariz o +encontrou com o Videirinha, ambos sentados n'um banco, sob as olaias +escuras.<br /> + + +<br /> + + +―Chegou lindamente! exclamou o Gouveia. Estavamos <span class="pagenum">[316]</span>mesmo a marchar para +minha casa, tomar chá. Quer vossê, tambem?... +Vossê costuma gostar das +minhas torradinhas.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo acceitou―apezar de cançado. E logo pela +Calçadinha, enlaçando +o braço do Administrador, contou que recebera uma carta de +Lisboa, d'um +amigo, com uma nova estupenda... O que?―O casamento da D. Anna Lucena.<br /> + + +<br /> + + +O Gouveia parou, assombrado, atirando o côco para a nuca:<br /> + + +<br /> + + +―Com quem?!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo que inventára a carta―inventou o noivo:<br /> + + +<br /> + + +―Com um vago parente meu, ao que parece, um D. João Pedroso +ou da +Pedrosa. Muitas vezes o Sanches Lucena me fallou n'elle... Conviviam +muito em Lisboa...<br /> + + +<br /> + + +Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:<br /> + + +<br /> + + +―Não póde ser!... Que disparate! A D. Anna +não ajustava casamento sete +semanas depois de lhe morrer o marido... Olhe que o Lucena morreu no +meado de Julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar +á sepultura!<br /> + + +<br /> + + +―Sim, com effeito! murmurou Gonçalo.<br /> + + +<br /> + + +E sorria, sob uma doce baforada de vaidade―pensando que, sete semanas +depois de viuva, ella, <span class="pagenum">[317]</span>sem +resistir, calcando decencia e luto, lhe +offerecia a elle uma entrevista nas ruinas de Craquêde.<br /> + + +<br /> + + +A mentira de resto, apesar de disparatada, +aproveitára―porque, depois +de subirem á saleta verde do Administrador, o espanto +recomeçou. +Videirinha esfregava as mãos, divertido:<br /> + + +<br /> + + +―Oh snr. Dr., olhe que tinha graça!... Se a snr.<sup>a</sup> +D. Anna, +depois +d'apanhar os duzentos contos do velhote, logo passadas semanas, +zás, se +engancha com um rapazote novo...<br /> + + +<br /> + + +Não, não!... Gonçalo agora, reparando, +tambem considerava despropositada +a noticia do casamento, assim com o pobre Sanches ainda +môrno...<br /> + + +<br /> + + +―Naturalmente entre ella e esse D. João havia namorico, +olhadella... +Por isso imaginaram. Com effeito, alguem me contou, ha tempos, que o +tal +D. João se atirava valentemente, como cumpre a um D. +João, e que ella...<br /> + + +<br /> + + +―Mentira! atalhou o Administrador, debruçado sobre a +chaminé do +candieiro para accender o cigarro. Mentira! Sei perfeitamente, e por +excellente canal... Em fim, sei por minha irmã! Nunca, em +Lisboa, a D. +Anna deu azo a que se rosnasse. Muito séria, muitissimo +séria. Está +claro, não faltou por lá maganão que +lhe arrastasse a aza languida... +Talvez esse D. João, ou outro amigo do marido, segundo a boa +lei +natural. Mas ella, nada! Nem ôlho de lado! <span class="pagenum">[318]</span>Esposa romana, meu +amigo, e +dos bons tempos romanos!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, enterrado no camapé, torcia lentamente o +bigode, regalado, +recolhendo as revelações. E o Gouveia, no meio da +sala, com um gesto +convencido e superior:<br /> + + +<br /> + + +―Nem admira! Estas mulheres muito formosas são insensiveis. +Bellos +marmores, mas frios marmores... Não, Gonçalinho, +lá para o sentimento, e +para a alma, e mesmo para o resto, venham as mulheres pequeninas, +magrinhas, escurinhas! Essas sim!... Mas os grandes +mulherões brancos, +do genero Venus, só para vista, só para museo.<br /> + + +<br /> + + +Videirinha arriscou uma duvida:<br /> + + +<br /> + + +―Uma senhora tão bonita como a snr.<sup>a</sup> +D. Anna, e com +aquelle sangue, +assim casada com um velhote...<br /> + + +<br /> + + +―Ha mulheres que gostam de velhotes por que ellas mesmas teem +sentimentos velhotes!―declarou o Gouveia, de dedo erguido, com immensa +auctoridade e immensa philosophia.<br /> + + +<br /> + + +Mas a curiosidade de Gonçalo não se contentava. E +na <em>Feitosa</em>? Nunca se +rosnára d'alguma aventura escondida? Parece que com o Dr. +Julio...<br /> + + +<br /> + + +De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia, repelliu a +«mentira»:<br /> + + +<br /> + + +―Nem na <em>Feitosa</em>, nem em Oliveira, nem em +<span class="pagenum">[319]</span>Lisboa... De +resto, +é o que +lhe digo, Gonçalo Mendes. Mulher de marmore!<br /> + + +<br /> + + +Depois, saudando, em submissa admiração:<br /> + + +<br /> + + +―Mas, como marmore... Vossês, meninos, não +imaginam a belleza d'aquella +mulher decotada!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo pasmou:<br /> + + +<br /> + + +―E onde a viu vossê decotada?<br /> + + +<br /> + + +―Onde a vi decotada? Em Lisboa, n'um baile do Paço... +Até foi +justamente o Lucena que me arranjou o convite para o Paço. +Lá me +espanejei, de calção... Uma semsaboria. E mesmo +uma vergonha, toda +aquella turba acavallada por cima dos buffetes, aos berros, a agarrar +furiosamente pedaços de perú...<br /> + + +<br /> + + +―Mas então, a D. Anna?<br /> + + +<br /> + + +―Pois a D. Anna uma belleza! Vossês não +imaginam!... Santo nome de +Deus! que hombros! que braços! que peito! E a brancura, a +perfeição... +De endoidecer! Ao principio, como havia muita gente, e ella estava para +um canto, acanhadota, não fez +sensação. Mas depois lá a descobriram. +E +eram correrias, magotes embasbacados... E «quem +será?» E «que encanto!» +Todo o mundo perdidinho, até o Rei!<br /> + + +<br /> + + +E um momento os tres homens emmudeceram na impressão do +formoso corpo +evocado, que entre elles surgia, quasi despido, inundando com o +explendor da sua brancura a modesta sala mal alumiada. <span class="pagenum">[320]</span>Por fim +Videirinha acercou a cadeira, em confidencia, para fornecer tambem a +sua +informação:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, por mim, o que posso affirmar é que a snr.<sup>a</sup> +D. Anna +é uma +mulher muito aceada, muito lavada...<br /> + + +<br /> + + +E como os outros s'espantavam, rindo, de uma certeza tão +intima―Videirinha contou que todas as semanas apparecia um +moço da +<em>Feitosa</em>, na botica do Pires, a comprar tres e +quatro garrafas de agua +de Colonia portugueza, da receita do Pires.<br /> + + +<br /> + + +―Até o Pires dizia sempre, a esfregar as mãos, +que na Feitosa regavam +as terras com agua de Colonia. Depois é que soubemos pela +creada... A +snr.<sup>a</sup> D. Anna toma todos os dias um grande +banho, que não +é só para +lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina. Até +lê o jornal +dentro da tina. E em cada banho, zás, meia garrafa d'agua de +Colonia... +Já é luxo!<br /> + + +<br /> + + +Então Gonçalo sentiu como um aborrecimento de +todas aquellas revelações +do Administrador, do ajudante da Pharmacia, sobre os decotes e as +lavagens da linda mulher que o esperava entre os tumulos dos Ramires +seculares. Saccudiu o jornal com que se abanava, exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―Bem! E passando a cantiga mais séria... Oh <span class="pagenum">[321]</span>Gouveia, +vossê que tem +sabido do Dr. Julio? O homem trabalha na eleição?<br /> + + +<br /> + + +A creada entrára com a bandeja do chá. E em torno +da mesa, trincando as +torradas famosas, conversaram sobre a Eleição, +sobre os informes dos +Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso―e sobre o Dr. Julio, que +Videirinha encontrára nos Bravaes pedinchando votos pelas +portas, +acompanhado por um môço com a machina +photographica ás costas.<br /> + + +<br /> + + +Depois do chá Gonçalo, cançado e +já provido «de +revelações», accendeu o +charuto para recolher á Torre.<br /> + + +<br /> + + +―Vossê não acompanha, Videirinha?<br /> + + +<br /> + + +―Hoje, Snr. Dr., não posso. Parto de madrugada para +Oliveira, na +diligencia.<br /> + + +<br /> + + +―Que diabo vae vossê fazer a Oliveira?<br /> + + +<br /> + + +―Por causa d'uns sapatos de praia e d'um fato de banho lá +da minha +patrôa, da D. Josepha Pires... Tenho de os trocar nos +Emilios, levar as +medidas.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo ergueu os braços, desolado:<br /> + + +<br /> + + +―Ora vejam este paiz! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar +para Oliveira com os sapatos de banho da patrôa Pires!... Oh +Gouveia! +quando eu fôr deputado precisamos arranjar um bom logar para +o +Videirinha, no Governo Civil. Um logar facil e com vagares, para elle +não esquecer o violão!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[322]</span> +Videirinha córou de gôsto e de +esperança―correndo a despendurar do +cabide o chapéo do Fidalgo.<br /> + + +<br /> + + +Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gonçalo +esvoaçaram logo, com +irresistida tentação, para D. Anna―para os seus +decotes, para os +languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que +diabo!... Essa D. Anna assim tão honesta, tão +perfumada, tão +explendidamente bella, só apresentava, mesmo como esposa, um +feio +<em>senão</em>―o papá carniceiro. E +a voz tambem―a voz +que tanto o arripiára +na Bica-Santa... Mas o Mendonça assegurava que aquelle +timbre rolante e +gordo, na intimidade, se abatia, liso e quasi doce... Depois, mezes de +convivencia habituam ás vozes mais desagradaveis―e elle +mesmo, agora, +nem percebia quanto o Manoel Duarte era fanhoso! Não! mancha +teimosa, +realmente, só o pae carniceiro. Mas n'esta Humanidade +nascida toda d'um +só homem, quem, entre os seus milhares d'avós +até Adão, não tem algum +avô carniceiro? Elle, bom fidalgo, d'uma casa de Reis d'onde +Dynastias +irradiavam, certamente, escarafunchando o Passado, toparia com o +Ramires +carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira +geração, n'um +talho ainda afreguezado, ou que apenas s'esfumasse, atravez d'espessos +seculos, entre os trigesimos avós―lá estava, com +a faca, e o cepo, e as +postas de carne, e as nodoas de sangue no braço suado!...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[323]</span> +E este pensamento não o abandonou até +á Torre―nem ainda depois, á +janella do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos ralos. +Já +mesmo se deitára, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda +sentia que os +seus passos impacientes se embrenhavam para traz, para o escuro passado +da sua Casa, por entre a emmaranhada Historia, procurando o +carniceiro... Era já para além dos confins do +Imperio Visigodo, onde +reinava com um globo d'ouro na mão o seu barbudo +avô Recesvinto. +Esfalfado, arquejando, transpozera as cidades cultas, povoadas de +homens +cultos―penetrára nas florestas que o mastodonte ainda +sulcava. Entre a +humida espessura já crusára vagos Ramires, que +carregavam, grunhindo, +rezes mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas, +arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava. +Depois por tristes ermos, sob tristes silencios, chegára a +uma lagôa +ennevoada. E á beira da agoa limosa, entre os canaviaes, um +homem +monstruoso, pelludo como uma féra, agachado no lodo, partia +a rijos +golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um +Ramires. +No ceu cinzento voava o Açor negro. E logo, d'entre a +neblina da lagôa, +elle acenava para Santa Maria de Craquêde, para a formosa e +perfumada D. +Anna, bradando por cima dos Imperios e dos Tempos:―«Achei o +meu avô +carniceiro!»<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[324]</span> +No Domingo, Gonçalo acordou com uma «esperta +ideia!» Não correria a +Santa Maria de Craquêde com uma pontualidade sofrega, +ás cinco horas (as +cinco horas marcadas no <em>Post-Scriptum</em> da prima +Maria)―mostrando o seu +alvoroço em encontrar a tão bella e +tão rica D. Anna Lucena! Mas ás seis +horas, quando findasse a romaria das senhoras aos tumulos, appareceria +elle indolentemente, como se, recolhendo d'um passeio pelas frescas +cercanias, se recordasse, parasse nas ruinas para conversar com a prima +Maria.<br /> + + +<br /> + + +Logo ás quatro horas porém se começou +a vestir com tantos esmeros, que o +Bento, cançado das gravatas que o Snr. Dr. experimentava e +arremessava +amarfanhadas para o divan, não se conteve:<br /> + + +<br /> + + +―Ponha a de sedinha branca, Snr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica +melhor! E refresca mais, com este calor.<br /> + + +<br /> + + +Na escolha d'um ramo para o casaco ainda requintou, juntando as +côres +heraldicas dos Ramires, um cravo amarello com um cravo branco. Ao +portão, apenas montára na egoa, temeu que as +senhoras (não o encontrando +no Claustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da +Portella. Depois adiante, ao desembocar na antiga estrada real, <span class="pagenum">[325]</span>soltou +n'um galope impaciente que o branqueou de poeira.<br /> + + +<br /> + + +Só retomou um passo indifferente, ao acercar da linha do +Caminho de +Ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam deante da +cancella, que se fechára para a lenta passagem d'um trem +carregado de +pipas. Um d'esses homens, d'alforge aos hombros, era o Mendigo―o +vistoso Mendigo que passeava por aquellas aldeias a rendosa magestade +das suas barbaças de Deus fluvial. Erguendo gravemente o +chapéo de +vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia de Nosso Senhor.<br /> + + +<br /> + + +―Então hoje a ganhar a rica vida por Craquêde?...<br /> + + +<br /> + + +―Cá me arrasto ás vezes para a passagem do +comboio d'Oliveira, meu +Fidalgo. Os passageiros gostam de me vêr de pé no +talude, correm sempre +ás janellas...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, rindo, recordou que o encontro d'aquelle +ancião precedia sempre +um encontro seu com a bella D. Anna.―«Quem sabe? pensou. +É talvez o +Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e +longas +guedelhas, e o alforge ás costas contendo as sortes +humanas...»―E com +effeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas resteas de sol +docemente douravam―avistou a caleche da <span class="pagenum">[326]</span><em>Feitosa</em>, +parada sob uma +carvalha, com o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A +estrada real de Oliveira costeia ahi o antigo adro do mosteiro de +Craquêde, queimado pelo fogo do céo, n'aquella +irada tempestade que +chamam <em>de S. Sebastião</em>, e que aterrou +Portugal em 1616. +Uma herva +agora alfombra o chão, crescida e verde, entre os poderosos +troncos dos +castanheiros velhissimos. A Egrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo +da ramaria: e, ligada a ella por um muro esbrechado que densa hera +veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro―sobe, enche ainda +magnificamente o céo lustroso, a fachada da Egreja do +vetusto Mosteiro, +suavemente amarellecida e brunida pelos tempos, com o seu immenso +portal +sem portas, a rosacea desmantelada, e esvasiados os nichos +d'enterramento onde outr'ora se estiraçavam as imagens dos +fundadores, +Froylas Ramires e sua mulher Estevaninha, condessa d'Orgaz, por alcunha +a <em>Queixa-perra</em>. Duas casas terreas povoam o lado +fronteiro do +adro―uma limpa, com as hombreiras das janellas pintadas d'azul +estridente, a outra deserta, quasi sem telhado, afogada na verdura d'um +quinteiro bravo onde gira-soes resplandecem. Um pensativo silencio +envolvia o arvoredo, as altivas ruinas. E nem o quebrava, antes +serenamente o emballava, o susurro d'uma fonte, que a estiagem +adelgaçára <span class="pagenum">[327]</span>em +fio lento, e mal enchia o seu +tanque de pedra, toldado +pela pallida e rala folhagem d'um chorão muito alto.<br /> + + +<br /> + + +O trintanario da <em>Feitosa</em>, ao enxergar o Fidalgo, +saltou risonhamente +da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a egoa. E +Gonçalo, +que desde pequeno não penetrava nas ruinas de +Craquêde, seguia por um +carreirinho cortado na relva, attentamente, encantado com aquella +romantica solidão de lenda e verso, quando, sob o arco do +portal, +appareceram as duas senhoras voltando do velho Claustro. D. Maria +Mendonça, com a sua sacudida vivacidade, agitou logo o +guarda-sol de +xadrezinho, semelhante ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente +nos hombros, lhe vincavam mais a elegancia esgalgada. E ao lado, na +claridade, D. Anna era uma silenciosa e esvelta fórma negra, +de lã negra +e d'escumilha negra, onde apenas transparecia, suavisada sob o +véo +negro, a brancura explendida da sua face sensual e séria.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo correra, erguendo o chapéo de palha, +balbuciando o seu «prazer +por aquelle encontro...» Mas já D. Maria o +reprehendia, sem lhe +consentir a fabula do «encontro»:<br /> + + +<br /> + + +―O primo não é nada amavel, nada amavel...<br /> + + +<br /> + + +―Oh prima!...<br /> + + +<br /> + + +―Pois sabia que vinhamos, pela minha carta! <span class="pagenum">[328]</span>E +nem está +á hora aprazada, +para fazer as honras, como devia...<br /> + + +<br /> + + +Elle, rindo, com o seu desembaraço airoso, negou esse dever! +Aquella +casa não era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia +«fazer as +honras»―acolher tão doces romeiras com algum +milagre amavel...<br /> + + +<br /> + + +―E então, gostaram? V. Ex.<sup>a</sup>, Snr.<sup>a</sup> +D. Anna, gostou das +ruinas?... +Muito interessantes, não é verdade?<br /> + + +<br /> + + +Através do véo, com uma lentidão que a +espessa renda negra tornava mais +grave, ella murmurou:<br /> + + +<br /> + + +―Eu já conhecia... Vim cá uma tarde, com o pobre +Sanches que Deus haja.<br /> + + +<br /> + + +―Ah...<br /> + + +<br /> + + +Áquella evocação do pobre morto, +Gonçalo sumira todo o sorriso, com +polida tristeza. Mas D. Maria Mendonça acudio, atirando um +dos seus +magros gestos, como para arredar a sombra importuna:<br /> + + +<br /> + + +―Ai! não imagina o que gostei, primo! É +d'appetite todo o claustro... +Logo aquella espada enferrujada, chumbada por cima do tumulo... +Não ha +nada que impressione como estas cousas antigas... Oh primo, e pensar +que +estão alli antepassados nossos!<br /> + + +<br /> + + +O sorriso de Gonçalo de novo lampejou, alegre e acolhedor, +como sempre +que D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de +Ramires. <span class="pagenum">[329]</span>E +gracejou, affavelmente. Oh, antepassados... Simples punhados +de cinsa vã!―Pois não era verdade, Snr.<sup>a</sup> +D. +Anna?... Realmente! quem +conceberia que a prima Maria, tão viva, tão +sociavel, tão engraçada, +descendesse d'uma poeira tristonha guardada dentro d'uma pia de pedra? +Não! não se podia ligar tanto <em>ser</em> +a tanto +<em>não-ser</em>...―E como D. Anna +sorria, n'uma vaga concordancia, encostando as duas mãos +fortes e muito +apertadas na pellica negra ao alto cabo d'aljofar da sombrinha, elle +atalhou com interesse:<br /> + + +<br /> + + +―V. Ex.<sup>a</sup> está talvez +cançada, Snr.<sup>a</sup> D. Anna?<br /> + + +<br /> + + +―Não, não estou cançada... Ainda +vamos mesmo entrar na capella, um +bocadinho... Eu nunca me canço.<br /> + + +<br /> + + +E pareceu a Gonçalo que a voz da formosa creatura +não rolava do papo, +tão grossa e gorda―mas que se afinára, +adoçada e velada pelo luto +d'escomilha e lã, como esses grossos e rolantes rumores que +a noite e o +arvoredo adelgaçam. Mas D. Maria confessou o seu immenso +cançasso! Nada +a esfalfava como visitar curiosidades... E além d'isso a +emoção, a ideia +de heroes tão antigos!<br /> + + +<br /> + + +―Se nos sentassemos n'aquelle banco, hein? É muito cedo para +recolhermos, não é verdade, Annica? E +está tão agradavel n'este socego, +n'esta frescura...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[330]</span> +Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em +torno a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros +malmequeres e botões d'ouro que o sol d'Agosto +poupára. Um aromasinho +fino, d'algum jasmineiro emmaranhado na hera, errava, adocicava a +serena +tarde. E na rama d'um alamo, defronte do portão da Capella, +duas vezes +um melro cantára. Gonçalo sacudiu todo o banco +cuidadosamente, com o +lenço. E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou tambem +a frescura, +o recolhimento d'aquelle cantinho de Craquêde... E elle que +nunca se +aproveitára de refugio tão santo, e quasi seu, +nem mesmo para um almoço +bucolico! Pois agora certamente voltaria fumar um charuto, revolver +ideias de paz sob a paz das carvalheiras, na visinhança dos +vovós +mortos... Depois, com uma curiosidade:<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, prima! E o subterraneo?<br /> + + +<br /> + + +Oh! não existia subterraneo!... Sim, existia―mas entulhado, +sem +sepulturas, sem antiguidades. E o sachristão logo lhes +affiançára que +«não valia a pena sujarem as saias...»<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, oh Annica, déste alguma cousa ao +sachristão?<br /> + + +<br /> + + +―Oh filha, dei cinco tostões... Não sei se foi +bastante.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo assegurou que se pagára sumptuosamente <span class="pagenum">[331]</span>ao +sachristão. E, se +prevesse tamanha generosidade da Snr.<sup>a</sup> D. Anna, +agarrava elle um +mólho +de chaves, até enfiava uma opa preta, para mostrar―e para +embolsar...<br /> + + +<br /> + + +―Pois é o que devia ter feito! exclamou D. Maria, com um +corisco nos +espertos olhos. E decerto se lhe davam os cinco tostões! +Porque sempre +sería mais instructivo que o homemsinho, que mascava, +não sabia nada!... +Semelhante morcão! E eu com tanta curiosidade por aquelle +tumulo aberto, +com a tampa rachada... O môno só soube resmungar +que «eram historias +muito antigas lá do Fidalgo da Torre...»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo ria:<br /> + + +<br /> + + +―Pois essa historia por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo <em>Fado +dos Ramires</em>, o fado do Videirinha...<br /> + + +<br /> + + +D. Maria Mendonça levantou as compridas mãos aos +céos, revoltada com +aquella indifferença pelas tradições +heroicas da Casa. Conhecer sómente +os seus Annaes desde que elles andavam repicados n'um fado!... O primo +Gonçalo não se envergonhava?<br /> + + +<br /> + + +―Mas por quê, prima, porquê? O fado do Videirinha +está fundado em +documentos authenticos que o Padre Sueiro estudou. Todo o recheio +historico foi fornecido pelo Padre Sueiro. O Videirinha só +poz as rimas. +Além d'isso antigamente, prima, a <span class="pagenum">[332]</span>Historia +era perpetuada em +verso e +cantada ao som da lyra... Em fim quer saber esse caso do tumulo aberto, +segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre conto! Mas só +para a Snr.<sup>a</sup> +D. Anna, que não soffre d'esses escrupulos...<br /> + + +<br /> + + +―Não! acudiu D. Maria. Se o Videirinha tem essa auctoridade +historica +então conte tambem para mim, que sou da Casa!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, por gracejo, tossio, passou o lenço +pelos beiços:<br /> + + +<br /> + + +―Pois eis o caso! N'esse tumulo habitava, naturalmente morto, um dos +meus avós... Não me lembro o nome, Gutierres ou +Lopo. Creio que +Gutierres... Emfim, lá jazia quando foi da batalha das Navas +de +Tolosa... A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco reis +mouros, etc... Como o tal Gutierres soube da batalha não +contam os +versos do Videirinha. Mas, apenas lá dentro lhe cheirou a +carnificina, +arromba o tumulo, sahe por este pateo como um desesperado, desenterra o +seu cavallo que fôra enterrado no adro onde agora crescem +estes +carvalhos, monta n'elle todo armado, e, Cavalleiro morto sobre cavallo +morto, larga a galope através da Hespanha, chega +ás Navas, arranca a +espada, e destroça os mouros... Que lhe parece, Snr.<sup>a</sup> +D. +Anna?<br /> + + +<br /> + + +Dedicára a historia a D. Anna, procurando nos <span class="pagenum">[333]</span>seus bellos +olhos a +attenção e o interesse. E ella, que a furto, +através do decôro +melancolico a que se esforçava, +adoçára o sorriso, attrahida e levada, +murmurou apenas:―«Tem graça!»―D. +Maria, porém, quasi esvoaçou sobre o +banco de pedra, n'um extasis:―«Lindo! Lindo! Que poesia!... +Oh! uma +lenda de todo o appetite!»―E, para que Gonçalo +desenrolasse ainda a +graça do seu dizer, outras maravilhas da sua Chronica:<br /> + + +<br /> + + +―Conte, primo, conte... E voltou para Craquêde esse tio +Ramires?<br /> + + +<br /> + + +―Quem, prima, o Gutierres?... Ou fosse elle tolo! Apenas se apanhou +livre da massada da sepultura não appareceu mais em Santa +Maria de +Craquêde. O tumulo vasio, como está, e elle por +Hespanha n'uma pandega +heroica!... Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo, +d'aquella postura eterna, tão apertada, tão +esticada!...<br /> + + +<br /> + + +Subitamente emmudeceu, lembrando o Sanches Lucena, tambem esticado no +seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo d'Oliveira...―D. Anna +baixára a face, mais sumida no véo, esfuracando a +herva com a ponta da +sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente +que +de novo os roçára, rompeu n'outra curiosidade, +que ainda se encadeava na +nobreza dos Ramires:<br /> + + +<br /> + + +―É verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar. <span class="pagenum">[334]</span>O primo +ainda tem +muitos parentes em França... Talvez tambem não +saiba?<br /> + + +<br /> + + +Sim! Gonçalo, casualmente, conhecia essa historia dos seus +parentes de +França―apezar de que o Videirinha os não +cantára no Fado!<br /> + + +<br /> + + +―Então conte! Mas que seja historia alegre!<br /> + + +<br /> + + +Oh, não era prodigiosamente divertida! Um avô +Ramires, Garcia Ramires, +acompanhára nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o +filho +d'El-Rei D. João I... A Prima Maria sabia―o Infante D. +Pedro, o que +correu as Sete Partidas do mundo... Pois o Infante D. Pedro e os seus +fidalgos, de volta da Palestina, pousaram um anno inteiro na Flandres, +com o Duque de Borgonha. Até se celebraram então +festas maravilhosas, +com um banquete que durou sete dias, e que anda nos compendios da +Historia de França. Onde ha danças ha amores. A +avô Ramires sobejava +imaginação e arrojo... Fôra elle que +deante de Jerusalem, no Valle de +Josaphat, lembrára que se erguesse um <em>signal</em> +para que o +Infante e os +seus companheiros de romagem se reconhecessem no grande Dia de Juizo. +Depois, naturalmente, bello mocetão, de barba negra e +cerrada á +Portugueza... Emfim casára com uma irmã do Duque +de Clèves, uma tremenda +Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e Brabante. Mais tarde, +através +d'essas ligações, uma avó Ramires, +já viuva, casou tambem em França <span class="pagenum">[335]</span>com +o conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Gran-Mestres de +França, +possuiam o mais formidavel castello da Europa, e...<br /> + + +<br /> + + +D. Maria bateu as palmas, rindo:<br /> + + +<br /> + + +―Bravo! lindamente! Sim, senhor!... Então o primo que se +gaba de não +saber nada de fidalguias... Olhe como conhece pelo miudo a historia +d'esses grandes casamentos! Hein, Annica?... É uma Chronica +viva!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo vergou os hombros, confessou que se +occupára de toda essa +heraldica historia por um motivo bem rasteiro―por miseria!...<br /> + + +<br /> + + +―Por miseria?<br /> + + +<br /> + + +―Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de cobres...<br /> + + +<br /> + + +―Conte! conte! Olhe, a Annica está anciosa...<br /> + + +<br /> + + +―Quer saber, Snr.<sup>a</sup> D. Anna?... Pois foi em +Coimbra, no meu segundo +anno de Coimbra. Os companheiros e eu chegamos a não juntar +entre todos +um vintem. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de +carrascão +e as tres azeitonas do dever... Um d'elles então, rapaz +muito engraçado, +de Melgaço, surdiu com a idéa estupenda de que eu +escrevesse aos meus +parentes de França, a esses Clèves, a esses +Tancarvilles, senhores de +certo immensamente ricos, e sollicitasse, com desembaraço, +um +emprestimosinho de trezentos francos.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[336]</span> +D. Anna não conteve um riso, sinceramente divertido:<br /> + + +<br /> + + +―Ai! tem muita graça!<br /> + + +<br /> + + +―Mas não teve resultado, minha senhora... Já +não existem Clèves, nem +Tancarvilles! Todas essas grandes familias feudaes findaram, se +fundiram +n'outras casas, até na Casa de França. E o meu +padre Sueiro, apezar de +todo o seu saber genealogico, nunca conseguiu descobrir quem as +representava com bastante affinidade para me emprestar, a mim parente +pobre de Portugal, esses trezentos francos.<br /> + + +<br /> + + +Aquella penuria de Gonçalo, de tamanho fidalgo, quasi +enternecera D. +Anna:<br /> + + +<br /> + + +―Ora estarem assim sem vintem! Quem soubesse... Mas tem +graça! Essas +historias de Coimbra teem sempre muita graça. O D. +João de Pedrosa, em +Lisboa, tambem contava muitas...<br /> + + +<br /> + + +D. Maria Mendonça, porém, através +d'essa facecia d'estudantes, +descortinára outra prova inesperada da grandeza dos Ramires. +E +immediatamente a estendeu deante de D. Anna com habilidade:<br /> + + +<br /> + + +―Ora vejam!... Todas essas grandes casas de França, +tão ricas, tão +poderosas, acabaram, desappareceram. E cá no nosso +Portugalsinho ainda +dura a casa de Ramires!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo acudiu:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[337]</span> ―Acaba agora, prima!... Não olhe para mim assim espantada. +Acaba +agora... Pois se eu não caso!<br /> + + +<br /> + + +Então D. Maria recuou o magro peito―como se esse casamento +do primo +dependesse de doces influencias, que convinha se trocassem bem +chegadamente, sem Marias Mendonças de permeio no estreito +banco com +grandes mangas bufantes tolhendo as correntes de effluvio. E sorria, +quasi languidamente:<br /> + + +<br /> + + +―Ora não casa... Mas por quê, primo, por +quê?<br /> + + +<br /> + + +―Por que não tenho geito, prima. O casamento é +uma arte muito delicada +que necessita vocação, genio especial. As Fadas +não me concederam esse +genio. E se me dedicasse a semelhante obra, ai de mim! com certeza a +estragava.<br /> + + +<br /> + + +D. Anna, como se outra idéa a occupasse, puxára +lentamente do cinto o +relogio preso por uma fita de cabello. E D. Maria insistia, recusava os +motivos do Fidalgo:<br /> + + +<br /> + + +―São tolices. O primo que gosta tanto de +creanças...<br /> + + +<br /> + + +―Gosto, gosto muito de creancas, até de creancinhas de +mama. As +creanças são os unicos seres divinos que a nossa +pobre humanidade +conhece. Os outros anjos, os d'azas, nunca apparecem. Os santos, depois +de santos, ficam na Bemaventurança a <span class="pagenum">[338]</span>preguiçar, +ninguem mais os enxerga. +E, para concebermos uma ideia das cousas do céo, +só temos realmente as +creancinhas... Sim, com effeito, prima, gosto muito de +creanças. Mas +tambem gosto de flôres, e não sou jardineiro, nem +tenho geito para a +jardinagem.<br /> + + +<br /> + + +E D. Maria com uma faisca no olhar promettedor:<br /> + + +<br /> + + +―Socegue, que ainda vem a aprender!<br /> + + +<br /> + + +Depois, para D. Anna que se esquecera na +contemplação do relogio:<br /> + + +<br /> + + +―Achas que vão sendo horas? Então, se queres, +entramos na Capella... Oh +primo, veja se está aberta.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo correu, empurrou a porta da Capella. Depois +acompanhou as duas +senhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares +recobertos +de uma cal aspera e crua―que recamava tambem as paredes lisas, apenas +guarnecidas, na sua rigida nudez, por lithographias de Santos dentro de +caixilhos de pinho. Deante do altar as senhoras ajoelharam―a prima +Maria enterrando a face nas mãos juntas como n'um vaso de +Piedade. +Gonçalo dobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.<br /> + + +<br /> + + +Depois voltou para o adro, accendeu um cigarro. E, pisando lentamente a +relva, considerava quanto a viuvez melhorára D. Anna. Sob o +negrume do +luto, como n'uma penumbra que esfuma a grosseira deselegancia <span class="pagenum">[339]</span>das +cousas, todos os seus defeitos se fundiam―os defeitos que tanto o +horripilavam na tarde da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito +empinado, a ostentação de burgueza ricassa +pinguemente repimpada na +vida. Até já nem dizia―«o +cavalheiro!» E alli, no adro melancolico de +Craquêde, certamente parecia interessante e desejavel.<br /> + + +<br /> + + +As senhoras desciam os dois degraus da Capella. Um melro +esvoaçou na +ramagem dos alamos. E Gonçalo encontrou o lampejo dos olhos +serios de D. +Anna que o procuravam.<br /> + + +<br /> + + +―Peço perdão de não lhes ter +offerecido agua benta á sahida, mas a +concha está secca...<br /> + + +<br /> + + +―Jesus, primo, que Egreja tão feia!<br /> + + +<br /> + + +D. Anna arriscou, com timidez:<br /> + + +<br /> + + +―Depois das ruinas e dos tumulos, até parece pouco +religiosa.<br /> + + +<br /> + + +A observação impressionou Gonçalo, +como muito fina. E junto d'ella, +demorando os passos com agrado, sentia, esparzido pelos seus +movimentos, +pelo roçar do vestido, um aroma tambem fino, que +não era o da horrenda +agua de Colonia da botica do Pires. Em silencio, sob a ramagem das +carvalhas, caminharam para a caleche, onde o cocheiro se +aprumára, bem +estilado, tirando o chapeu. Gonçalo notou que elle +rapára o bigode. E a +parelha reluzia, atrelada com esmero.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[340]</span>―E +então, prima Maria, ainda se demora pelos nossos sitios?<br /> + + +<br /> + + +―Sim, primo, mais uns quinze dias... A Annica é +tão amavel, quiz que eu +trouxesse os pequenos. O que elles se têm divertido na +quinta, não +imagina!<br /> + + +<br /> + + +D. Anna murmurou, sempre séria:<br /> + + +<br /> + + +―São muito engraçados, fazem muita companhia... +Eu tambem gosto muito +de creanças.<br /> + + +<br /> + + +―Ai, a Annica adora creanças! accudiu D. Maria com fervor. +O que ella +atura os pequenos! Até joga com elles o mafarrico.<br /> + + +<br /> + + +Perto da caleche, Gonçalo pensou que outra volta pelo adro, +mais lenta, +com a D. Anna e o seu fino aroma, seria doce, n'aquelle socego da tarde +que findava, tingida de tão lindas côres de rosa +sobre os pinheiraes +escurecidos. Mas já o trintanario se acercava segurando a +sua egoa. E D. +Maria, depois de admirar e acariciar a egoa, chamou o primo +discretamente―para saber a distancia da <em>Feitosa</em> +a Treixedo, a outra +quinta historica dos Ramires.<br /> + + +<br /> + + +―A Treixedo, prima?... Cinco legoas fartas, com maus caminhos.<br /> + + +<br /> + + +E immediatamente se arrependeu, antevendo um passeio, um novo encontro:<br /> + + +<br /> + + +―Mas na estrada ultimamente andaram obras. E é muito bonito +sitio, n'um +alto, com um resto <span class="pagenum">[341]</span>de +muralhas... Treixedo era um castello enorme... Na +quinta ha uma lagôa entre arvoredo antigo... Oh! sitio +delicioso para um +pic-nic!<br /> + + +<br /> + + +D. Maria hesitou:<br /> + + +<br /> + + +―É um pouco longe, veremos, talvez.<br /> + + +<br /> + + +E como D. Anna esperava em silencio―Gonçalo abriu a +portinhola, tomou +ao trintanario as rédeas da egoa. D. Maria +Mendonça, no seu +contentamento por tão proveitosa tarde, sacudiu ardentemente +a mão do +primo jurando «que ia apaixonada por +Craquêde!» D. Anna mal roçou os +dedos de Gonçalo, acanhada e córando.<br /> + + +<br /> + + +Sózinho, com a rédea da egoa enfiada no +braço, Gonçalo sorria. Na +verdade, n'essa tarde, D. Anna não lhe +desagradára. Outros modos, outra +singeleza grave, outra doçura na sua possante belleza de +Venus rural... +E aquella observação sobre a Capella, +«pouco religiosa» depois das +ruinas seculares do claustro, era uma observação +fina. Quem sabe? Talvez +sob carne tão sensual se escondesse uma natureza delicada. +Talvez a +influencia d'outro homem, que não o estupidissimo Sanches, +desenvolvesse +na filha explendida do carniceiro qualidades de muito encanto... Oh, +evidentemente, a observação sobre os tumulos e a +sua religiosidade +emanando da Lenda e da Historia―era fina.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[342]</span> +E então tambem o tomou a curiosidade de visitar esse +claustro onde não +entrára desde pequeno―quando ainda a Torre conservava as +suas +carruagens montadas e a romantica Miss Rhodes escolhia sempre o passeio +de Craquêde para as tardes pensativas d'outomno. Puxou a +egoa, transpoz +o portal, atravessou o espaço descoberto que fôra +a nave―atulhado de +caliça, de cacos, de pedras despegadas da abobada e afogadas +nas hervas +bravas. E pela brecha d'um muro a que ainda se amparava um +pedaço +d'altar―penetrou na silenciosa crasta Affonsina. Só d'ella +restam duas +arcadas em angulo, atarracadas sobre rudes pilares, lageadas de +poderosas lages poidas que n'essa manhã o +sachristão cuidadosamente +varrera. E contra o muro, onde rijas nervuras desenham outros arcos, +avultam os sete immensos tumulos dos antiquissimos Ramires, denegridos, +lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito, alguns pesadamente +encravados no lagedo, outros pousando sobre bolas que os seculos +lascaram. Gonçalo seguia um carreiro de tijolo, rente aos +arcos, +recordando quando elle outr'ora e Gracinha pulavam ruidosamente por +sobre essas campas, em quanto no pateo do claustro, entre as pilastras +tombadas e a verdura das ruinas, a boa Miss Rhodes agachada procurava +florinhas silvestres. Na abobada, sobre o <span class="pagenum">[343]</span>mais +vasto tumulo, +lá +negrejava chumbada a espada, a famosa espada, com a sua corrente de +ferro pendendo do punho, a folha roida pela ferrugem das longas idades. +Sobre outro lá ardia a lampada, a estranha lampada mourisca, +que não se +apagára desde a tarde remota em que algum monge, com uma +tocha de +sahimento, silenciosamente a accendera... Quando se accendera ella, a +eterna lampada? Que Ramires jazeriam n'esses cofres de granito, a que o +tempo raspára as inscripções e as +datas, para que n'ellas toda a +Historia se sumisse, e mais escuramente se volvessem em leve +pó sem nome +aquelles homens de orgulho e de força?... Depois na ponta do +claustro +era o tumulo aberto, e ao lado, derrubada em dous pedaços, a +tampa que o +esqueleto de Lopo Ramires arrombára para correr +ás Navas de Tolosa e +bater os cinco Reis mouros. Gonçalo espreitou para dentro, +curiosamente. +A um canto da funda arca alvejava um montão d'ossos, limpos +e bem +arrumados! Esquecera o velho Lopo, na sua pressa heroica, esses poucos +ossos, já despegados do seu esqueleto?... O crepusculo +cerrára, e com +elle uma melancolica sombra que se adensava sob as abobadas da crasta, +cobria de tristeza morta aquella jazida de mortos. Então +Gonçalo sentiu +a desolada solidão que o envolvia, o separava da vida, alli +desgarrado, +e sem soccorro <span class="pagenum">[344]</span>entre +a poeira e a alma errante dos seus avós +temerosos! +E de repente estremeceu, no arripiado mêdo de que outra tampa +estalasse +com fragor e atravez da fenda surdissem lividos dedos sem carne! +Repuxou +desesperadamente a egoa pelo muro desmantelado, nas ruinas da nave +pulou +para o selim, e varou n'um trote o portal, galgou o adro com +ancia―só +socegou ao avistar, ao fim do pinhal, a cancella do Caminho de Ferro +aberta, e uma velha que a passava tangendo o seu burro carregado +d'herva.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +VIII</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Ao fim da semana Gonçalo, que desde a visita a Santa Maria +de Craquêde +arrastava o remorso incommodo da sua preguiça, do +tão longo abandono da +Novella―recebeu de manhã, ao sahir do banho, uma carta do +Castanheiro. +Era curta:―e declarava ao amigo Gonçalo que, se em meado de +Outubro não +chegassem a Lisboa tres Capitulos do original, elle, com pezar seu e da +Arte, publicaria no primeiro numero dos <span class="smallcaps">Annaes</span>, +em vez da <em>Torre +de D. +Ramires</em>, um drama do Nuno Carreira n'um acto, intitulado <em>Em +Casa do +Temerario</em>... «Apezar de drama e de phantasia +(accrescentava) +convem á +indole erudita dos <span class="smallcaps">Annaes</span> +por que este <em>Temerario</em> +é Carlos +o Temerario, +e a acção toda, fortemente tecida, se passa no +Castello de Peronne, onde +se encontram nada menos que Luiz XI de França, e o nosso +pobre <span class="pagenum">[346]</span>Affonso +V, e Pero da Covilhan que o acompanhava, e outros figurões +de rija +estatura historica. Imagine!... Está claro, o <em>chic</em> +supremo +seria +<em>Tructezindo Mendes Ramires</em> contado pelo nosso +Gonçalo +Mendes Ramires! +Mas, pelo que vejo, esse <em>chic</em> supremo +está impedido por +uma indolencia +suprema. <em>Sunt Lacrymae Revistarum</em>!»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo atirou a carta, gritou pelo Bento:<br /> + + +<br /> + + +―Leva para a livraria chá verde, forte, com torradas. Hoje +só almoço +tarde, ás duas... Talvez nem almoce!<br /> + + +<br /> + + +E, enfiando o roupão de trabalho, decidiu amarrar +á banca, como um +captivo ao remo, até que rematasse esse difficil Capitulo +III, onde +resaltava o barbaro e sublime rasgo do avô Tructezindo. +Não, que diabo! +não lhe convinha perder a apparição da +Novella em tão proveitoso +momento, nas vesperas da sua chegada a Lisboa, quando para a influencia +Politica e para o prestigio social necessitava d'esse brilho que, +segundo o velho Vigny, «uma penna de aço +accrescenta a um elmo dourado +de Fidalgo...» Felizmente, n'essa luminosa manhã +em que as agoas da +horta fartamente cantavam, elle sentia tambem a veia borbulhando, +contente em se soltar e correr. Depois da visita á crasta de +Craquêde a +sua imaginação concebia menos ennevoadamente os +seus avós Affonsinos:―e +como que os palpava emfim no seu viver e pensar <span class="pagenum">[347]</span>desde que +contemplára os +grandes tumulos onde se desfaziam as suas grandes ossadas.<br /> + + +<br /> + + +Na Livraria retomou com appetite, depois de lhes sacudir a poeira, as +tiras da Novella sobre que emperrára, n'aquelle atarantado +lance de +susto e alarme―quando o Villico, o velho Ordonho, reconhecia o +pendão +do Bastardo surgindo á borda da Ribeira do Coice entre o +coriscar de +lanças empinadas, passando a antiga ponte de madeira, e, um +momento +sumido na verdura dos alamos, de novo avançando, alto e +tendido, até ao +rude Cruzeiro de pedra de Gonçalo Ramires o <em>Cortador</em>... +O +gordo +Ordonho então, atirando o brado de―«Prestes, +prestes! que é gente de +Bayão!»―descambava pelo escalão da +muralha como um fardo que rola.<br /> + + +<br /> + + +No emtanto Tructezindo Ramires, no empenho d'aprestar a sua mesnada e +abalar sobre Montemór, regera já com o Adail a +ordem da arrancada, +mandando que as buzinas soassem mal o sol batesse na margella do +Poço +grande. E agora, na sala alta da Alcaçova, conversava com o +seu primo de +Riba-Cavado e costumado camarada d'armas, D. Garcia Viegas―ambos +sentados nos poiaes de pedra d'uma funda janella, onde uma bilha d'agoa +com o seu pucaro refrescava entre vasos de manjaricão. D. +Garcia Viegas +era um velho esgalgado e agil, d'escuro carão <span class="pagenum">[348]</span>rapado, com +uns miudos +olhos coruscantes―que merecêra a alcunha de <em>Sabedor</em> +pela +viveza e +succulencia do seu dizer, as suas infinitas manhas de guerra, e a +prenda +de fallar latim mais doutamente que um Clerigo da Curia. Convocado por +Tructezindo, como os outros parentes de solar, para engrossar a mesnada +dos Ramires em serviço das infantas, corrêra logo +a Santa Ireneia +fielmente com o seu pequeno poder de dez +lanças―começando por saquear +no caminho a herdade de Palha-Cã, dos de Severosa, que +andavam com +pendão alto na Hoste Real contra as Donas opprimidas. +Tão rijamente se +apressára que, desde a madrugada, apenas comêra +sobre a sella, em +Palha-Cã, duas rodelas dos chouriços roubados. E +com a sêde da afogueada +correria, ainda na emoção de tão +amarga nova, a derrota de Lourenço +Ramires seu afilhado, novamente enchia d'agoa o pucaro de barro―quando +pela porta da sala de armas, que tres cabeças de javali +dominavam, +rompeu o velho Ordonho esbaforido:<br /> + + +<br /> + + +―Snr. Tructezindo! Snr. Tructezindo Ramires! o Bastardo de +Bayão passou +a Ribeira, vem sobre nós com grande troço de +lanças!<br /> + + +<br /> + + +O velho Rico-Homem saltou do poial. E arremessando a mão +cabelluda, +cerrada com sanha, como se já pela gorja empolgasse o +Bastardo:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[349]</span> ―Pelo Sangue de Christo! em boa hora vem que nos poupa caminho! Hein, +Garcia Viegas? A cavallo e sobre elle...?<br /> + + +<br /> + + +Mas, rente aos tropegos calcanhares de Ordonho, correra um Coudel de +Besteiros, que gritou dos humbraes, saccudindo o capello de couro:<br /> + + +<br /> + + +―Senhor! Senhor! A gente de Bayão parou ao Cruzeiro! E um +cavalleiro +moço, com um ramo verde, está deante das +barbacans, como trazendo +mensagem...<br /> + + +<br /> + + +Tructesindo bateu o sapato de ferro sobre as lages, indignado com tal +embaixada mandada por tal villão...―Mas Garcia Viegas, que +d'um sorvo +enxugára o pucaro, recordou serenamente e lealmente os +preceitos:<br /> + + +<br /> + + +―Tende, tende, primo e amigo! Que, por uso e lei d'aquem e +d'além +serras, sempre mensageiro com ramo se deve escutar...<br /> + + +<br /> + + +―Seja pois! bradou Tructesindo. Ide vós fóra +ás barreiras com duas +lanças, Ordonho, e sabei do recado!<br /> + + +<br /> + + +O Villico rebolou pela denegrida escada de caracol até ao +patim da +Alcaçova. Dous accostados, de lança ao hombro, +recolhendo d'alguma +rolda, conversavam com o armeiro, que sarapintára de +amarello e +escarlate cabos d'ascumas novas e as enfileirava contra o muro para +seccarem.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[350]</span> ―Por ordem do Senhor! gritou Ordonho. Lança direita, e +commigo ás +barbacans, a receber mensagem!...<br /> + + +<br /> + + +Ladeado pelos dous homens que se aprumaram, atravessou as barreiras; e +pelo postigo da barbacan, que uma quadrilha de besteiros guardava, +sahiu +ao terreiro da Honra, largueza de terra calcada, sem relva ou arvore, +onde se erguiam ainda as traves carcomidas d'uma antiga forca, e se +amontoavam agora, para os concertos da Alcaçova, ripas de +madeira, e +grossas cantarias lavradas. Depois, sem arredar do humbral, empinando o +ventre entre os dous accostados, bradou ao moço Cavalleiro, +que esperava +sob o rijo sol, sacudindo os moscardos com o seu ramo d'amoreira:<br /> + + +<br /> + + +―Dizei de que gente sois! e a que vindes! e que credencia trazeis!...<br /> + + +<br /> + + +E como arqueára logo a mão inquieta sobre a +orelha―o Cavalleiro, +serenamente, entalando o ramo entre o coxote e o +arção, arqueou tambem +os dous guantes relusentes d'escamas na abertura do casco, bradou:<br /> + + +<br /> + + +―Cavalleiro do solar de Bayão!... Credencia não +trago que não trago +embaixada... Mas o Snr. D. Lopo ficou além ao Cruzeiro, e +deseja que o +nobre senhor da Honra, o Snr. Tructezindo Ramires, o escute do eirado +da +barbacan...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[351]</span> +O Villico saudou―recolheu pela poterna abobadada da torre albarran, +murmurando para os dous accostados:<br /> + + +<br /> + + +―O Bastardo vem a tratar o resgate do Snr. Lourenço +Ramires...<br /> + + +<br /> + + +Ambos rosnaram:<br /> + + +<br /> + + +―Feio feito.<br /> + + +<br /> + + +Mas, quando Ordonho offegante se apressava para a Alcaçova, +encontrou no +pateo Tructezindo Ramires―que, na irada impaciencia d'aquellas delongas +do Bastardo, descera, todo armado. Sobre o comprido brial de +lã +verde-negra, que recobria a vestidura de malha, as suas barbas +rebrilhavam, mais brancas, atadas n'um grosso nó como a +cauda d'um +corcel. Do cinturão tauxeado de prata pendia a um lado o +punhal recurvo, +a bozina de marfim―ao outro uma espada gôda, de folha larga, +com alto +punho dourado onde scintillava uma pedra rara trazida outr'ora da +Palestina por Gutierres Ramires, o <em>d'Ultramar</em>. Um +sergente conduzia +sobre uma almofada de couro os seus guantes, o seu capello redondo, de +vizeira gradada, como usára El-Rei D. Sancho: outro +carregava o immenso +broquel, da fórma d'um coração, +revestido de couro escarlate, com o Açôr +negro rudemente pintado, esgalhando as garras furiosas. E o Alferes, +Affonso Gomes, seguia com o guião enrolado na funda de lona.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[352]</span> +Com o velho Rico-Homem descêra D. Garcia Viegas, e os outros +parentes do +Solar―o decrepito Ramiro Ramires, um veterano da tomada de Santarem, +torcido pelos rheumatismos como a raiz de um roble, e arrimando os +passos tremulos, não a um bastão, mas a um +chusso; o formoso Leonel, o +mais moço dos Samoras de Cendufe, o que matára os +dois ursos nos brejos +de Cachamúz e que tão bem trovava; Mendo de +Briteiros, o das barbas +vermelhas, grande queimador de bruxas, lêdo arranjador de +folgares e +danças; e o agigantado Senhor dos Paços de +Avellim, todo coberto, como +um peixe fabuloso, de escamas que reluziam. Como o sol se acercava da +margella do Poço grande, marcando a hora da arrancada sobre +Monte-mór―já, dos fundos alpendres que escondiam +os campos do tavolado, +os cavallariços puxavam os ginetes de guerra, com as suas +altas sellas +pregueadas de prata, as ancas e os peitos resguardados por coberturas +de +couro franjado que rojavam nas lagens. Por todo o Castello se +espalhára +que o Bastardo, depois da lide fatal aos Ramires, correra de +Canta-Pedra, ameaçava a Honra:―e debruçados dos +passadiços que ligavam +a muralha aos contrafortes da Alcaçova, ou mettidos por +entre os +engenhos d'arremesso que atulhavam as corredoiras, os moços +da ucharia, +os servos das hortas, os villões acolhidos para dentro das +barbacans, +espreitavam o <span class="pagenum">[353]</span>Senhor +de Santa Ireneia e aquelles Cavalleiros fortes, +com +anciedade, tremendo do assalto dos de Bayão e d'essas +horrendas bolas de +ferro, cheias de fogo, que agora as mesnadas Christãs +arrojavam tão +destramente como as hordas Sarracenas.―No emtanto com a sua gorra +esmagada contra o peito, Ordonho, arfando, apresentava a Tructesindo o +recado do Bastardo:<br /> + + +<br /> + + +―É cavalleiro moço, não traz +credencia... O Snr. Bastardo espera ao +Cruzeiro... E pede que o attendaes da quadrella das barbacans...<br /> + + +<br /> + + +―Que se acerque pois! gritou o velho. E com quantos queira dos +villões +que o seguem!<br /> + + +<br /> + + +Mas Garcia Viegas, o <em>Sabedor</em>, sempre avisado, com +a sua esperta +mansidão:<br /> + + +<br /> + + +―Tende, primo e amigo, tende! Não subaes vós +á tranqueira antes que eu +me assegure se Bayão nos vem com arteirice ou falsura.<br /> + + +<br /> + + +E entregando a sua pesada lança de faia a um donzel, enfiou +pela escada +soturna da Torre albarran. Em cima no eirado, sussurrando um <em>chuta! +chuta!</em> á fila de besteiros que guarnecia as +ameias, attenta +e com a +bésta encurvada―penetrou no miradouro, espiou pela +setteira. O arauto +de Bayão galopára para o Cruzeiro, que uma selva +movediça de lanças +rodeava coriscando. E curto recado lançou―porque logo, no +seu fouveiro +acobertado por uma rêde <span class="pagenum">[354]</span>de +malha acairellada d'ouro, Lopo de +Bayão +despegou do denso troço de cavalleiros, com a viseira +erguida, sem lança +ou ascuma de monte, e ociosas sobre o arção da +sella mourisca as mãos +onde se enrodilhavam as bridas de couro escarlate. Depois, a um toque +arrastado de buzina, avançou para as barbacans da Honra, +vagarosamente, +como se acompanhasse um sahimento. Não movera o seu +pendão amarello e +negro. Apenas seis infanções o escoltavam, tambem +sem lança ou broquel, +com sobrevestes de panno rôxo sobre os saios de malha. Atraz +quatro +alentados besteiros carregavam aos hombros umas andas, toscamente +armadas com troncos de arvores, onde um homem jazia estirado, como +morto, coberto, contra o calor e os moscardos, por leves folhagens de +acacia. E um monge seguia n'uma mula branca, segurando misturadamente +com as rédeas um crucifixo de ferro, sobre que pendia a orla +do seu +capuz e uma ponta de barba negra.<br /> + + +<br /> + + +Da setteira, mesmo sem descortinar por entre a camada de ramagens a +face +do homem estendido nas andas, o <em>Sabedor</em> adivinhou +Lourenço +Ramires, o +doce afilhado que tanto amára, que tão bem +ensinára a terçar lanças e a +treinar falcões. E cerrando os punhos, gritando +surdamente―«Bem +prestos! bésteiros, bem prestos!»―desceu a escura +escadaria, tão +arremessado pela colera e pela magoa que <span class="pagenum">[355]</span>o +seu elmo cavamente bateu +contra o arco da porta, onde o esperava Tructesindo com os Cavalleiros +parentes.<br /> + + +<br /> + + +―Senhor primo! bradou. Vosso filho Lourenço está +deante das barreiras +da Honra deitado sobre umas andas!<br /> + + +<br /> + + +Com um rosnar d'espanto, um atropelo dos sapatos de ferro sobre as +lages +sonoras, todos seguiram pela poterna da albarran o Rico +Homem―até ao +escadão de madeira que se empurrava contra a quadrella das +barbacans. E, +quando o enorme velho surdio no eirado, um silencio pesou, +tão ancioso, +que se sentia para além do vergel o chiar triste e lento da +nora e o +latir dos mastins.<br /> + + +<br /> + + +No terreiro, em frente á cancella gateada, o Bastardo +esperava, immovel +sobre o seu ginete, com a formosa face bem levantada, a face de +<em>Claro-sol</em>, onde as barbas anelladas, cahindo nas +solhas do arnez, +rebrilhavam como ouro novo. Vergando o capello d'ouropel, saudou +Tructesindo com gravidade e preito. Depois alçou a +mão, que descalçára +do guante. E n'um considerado e sereno fallar:<br /> + + +<br /> + + +―Senhor Tructesindo Ramires, n'estas andas vos trago vosso filho +Lourenço, que em lide leal, no valle de Canta-Pedra, colhi +prisioneiro e +me pertence pelo foro dos Ricos-Homens d'Hespanha. E de Canta-Pedra +caminhei com elle para vos pedir que <span class="pagenum">[356]</span>entre +nós findem estes +homizios e +estas feias brigas que malbaratam sangue de bons +Christãos... Senhor +Tructesindo Ramires, como vós venho de Reis. De D. Affonso +de Portugal +recebi a pranchada de Cavalleiro. Toda a nobre raça de +Bayão se honra em +mim... Consenti em me dar a mão de vossa filha D. Violante, +que eu quero +e que me quer, e mandae erguer a levadiça para que +Lourenço ferido entre +no seu solar e eu vos beije a mão de pae.<br /> + + +<br /> + + +Das andas, que estremeceram sobre os hombros dos besteiros, um +desesperado brado partio:<br /> + + +<br /> + + +―Não, meu pae!<br /> + + +<br /> + + +E hirto na borda do eirado, sem descrusar os braços, o velho +Tructesindo +retomou o brado―que por todo o terreiro da Honra rolou, mais arrogante +e mais cavo:<br /> + + +<br /> + + +―Meu filho, antes de mim, te respondeu, villão!<br /> + + +<br /> + + +Como se uma pontoada de lança lhe topasse o peito, o +Bastardo vacillou +na alta sella: e, colhido pelo repuxão das +rédeas, o seu fouveiro recuou +alteando a testeira dourada. Mas, a um novo arremesso, repulou contra a +cancella. E Lopo de Bayão erguido sobre os estribos, gritava +com ancia, +com furor:<br /> + + +<br /> + + +―Snr. Tructesindo Ramires, não me tenteis!...<br /> + + +<br /> + + +―Arreda, villão e filho de villôa, +arreda!―clamou soberbamente o +velho, sem desprender os braços de sobre o levantado peito, +na sua rija +immobilidade <span class="pagenum">[357]</span>e +teima, como se todo o corpo e alma fossem de rijo ferro.<br /> + + +<br /> + + +Então o Bastardo, arrojando o guante contra o muro da +barbacan, rugio, +chammejante e rouco:<br /> + + +<br /> + + +―Pois pelo sangue de Christo e pela alma de todos os meus te juro, que +se me não dás n'este instante essa mulher que eu +quero e que me quer, +sem filho ficas, que por minhas mãos, deante de ti e nem que +todo o Céo +accuda, lhe acabo o resto da vida!<br /> + + +<br /> + + +Já na mão lhe lampejava um punhal. Mas n'um +impeto de sublime orgulho, +um impeto sobrehumano, em que cresceu como outra escura torre entre as +torres da Honra, Tructesindo arrancára a espada:<br /> + + +<br /> + + +―Com esta, covarde! com esta! Para que seja puro, não vil +como o teu, o +ferro que atravessar o coração de meu filho!<br /> + + +<br /> + + +Furiosamente, com as duas possantes mãos, arremessou a +espada, que +rodopiou silvando e faiscando, se cravou no duro chão, onde +tremia, +ainda faiscava, como se uma colera heroica tambem a animasse. E no +mesmo +relance, com um urro, um salto do ginete, o Bastardo, +debruçado do +arção, enterrára o punhal na garganta +de Lourenço―em golpe tão cravado +que o esguicho do sangue lhe salpicou a clara face, as barbas d'ouro.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[358]</span> +Depois foi uma bruta abalada. Os quatro besteiros sacudiram para o +chão +as andas, o corpo morto enrodilhado nos ramos―e atiraram pelo terreiro, +como lebres em clareira, atraz do monge que se agachava agarrado +ás +crinas da mula. N'uma curta desfilada o Bastardo, os seis cavalleiros, +gritando o alarme, mergulharam no arraial que estacára ao +Cruzeiro. Um +tumulto remoinhou em torno ao devoto pilar. E em rodilhado tropel a +mesnada desenfreou para a Ribeira, varou a velha ponte, logo ennublada +em pó e sumida para além do arvoredo, n'um +fugidio coriscar de +capellinas e de lanças apinhadas.<br /> + + +<br /> + + +Uma alta grita, no emtanto, atroára as muralhas de Santa +Ireneia! +Virotes, flechas, balas de fundas assobiavam, despedidas no mesmo +furioso repente, sobre o bando de Bayão:―mas apenas um dos +besteiros +que carregára as andas tombou, estrebuchando, com uma flecha +na ilharga. +Pela cancella das barreiras já Cavalleiros e donzeis d'armas +se +empurravam desesperadamente para recolher o corpo de +Lourenço Ramires. E +Garcia Viegas, os outros parentes, galgaram ao eirado da barbacan, +d'onde Tructesindo se não arredára, rigido e +mudo, fitando as andas e +seu filho estatelado com ellas sobre o terreiro da sua Honra. Quando, +ao +rumor, elle pesadamente se voltou―todos emmudeceram ante a serenidade +da sua face, <span class="pagenum">[359]</span>mais +branca que as brancas barbas, d'uma morta brancura de +lapide, com os olhos resequidos e côr de braza, a latejar, a +refulgir, +como os dous buracos d'um forno. Com a mesma sinistra serenidade, tocou +no hombro do velho Ramiro, que tremia arrimado ao seu chusso. E n'uma +vagarosa e vasta voz:<br /> + + +<br /> + + +―Amigo! cuida tu do corpo de meu filho, que a alma ainda hoje, por +Deus! lh'a vou eu socegar!...<br /> + + +<br /> + + +Afastou aquelles senhores emmudecidos d'assombro e +d'emoção―e baixou +pela gasta escada de madeira, que rangia sob o peso do enorme +Rico-Homem +carregado de ira e dôr.<br /> + + +<br /> + + +N'esse momento, entre besteiros e serviçaes que se +atropellavam―o corpo +de Lourenço Ramires transpunha o portello das barbacans, +segurado pelo +formoso Leonel e por Mendo de Briteiros, ambos affogueados de lagrimas +e +rouquejando ameaças furiosas contra a raça de +Bayão. Atraz o tropego +Ordonho gemia, abraçado á espada de Tructesindo, +que apanhára no chão do +Terreiro e que beijava como para a consolar. Á borda do +fosso uma +aveleira espalhava a sombra leve n'um bronco taboão pregado +sobre +toros―d'onde, aos domingos, com o adanel dos besteiros, +Lourenço +dirigia os jogos de bésta e frecha, distribuindo fartamente +as +recompensas de bolos de mel e de vinho em picheis. Sobre essas taboas o +estiraram―recuando todos depois, em quanto <span class="pagenum">[360]</span>aterradamente +se benziam. Um +cavalleiro de Briteiros, temendo por aquella alma desamparada e sem +confissão, correra á capella da +Alcaçova procurar Frei Muncio. Outros, +rodeando toda a muralha até ao Baluarte-Velho, gritavam, com +desesperados acenos, para o torreão escalavrado, onde, como +um môcho, +habitava o Physico. Mas o certeiro punhal do Bastardo +acabára o denodado +Lourenço, flor e regra de cavalleiros por toda a terra de +Riba-Cavado... +E que lastimoso e desfeito―com suja terra na face, a garganta empastada +de sangue negro, as malhas do saio rotas sobre os hombros e embebidas +nas carnes retalhadas, e nua, sem grêva, toda inchada e +rôxa, a perna +ferida em Canta-Pedra, onde mais sangue e lama se empastavam!<br /> + + +<br /> + + +Tructesindo descia, lento e rigido. E as seccas brazas dos seus olhos +mais se incendiam, em quanto, atravez do dorido silencio, se acercava +do +corpo de seu filho. Deante do banco ajoelhou, agarrou a arrefecida +mão +que pendia; e, junto á face manchada de sangue e terra, +segredou, de +alma para alma, n'um abafado murmurio, que não era de +despedida mas +d'alguma suprema promessa, e que findou n'um beijo demorado sobre a +testa, onde uma restea de sol rebrilhou, dardejada d'entre as folhas da +aveleira. Depois erguido n'um arrebate, atirando o braço +como para +n'elle recolher toda a força da sua raça, gritou:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[361]</span> ―E agora, senhores, a cavallo, e vingança brava!<br /> + + +<br /> + + +Já pelos páteos, em torno da Alcaçova, +corria um precipitado fragor +d'armas. Aos asperos commandos dos almocadens as filas de besteiros, +d'archeiros, de fundibularios, rolavam dos adarves dos muros para +cerrar +as quadrilhas. Rapidamente, os cavallariços da carga +amarravam sobre o +dorso das mulas os caixotes do almazem, os alforges da trebalha. Pelas +portas baixas da cosinha, peões e sergentes, antes de +largar, bebiam á +pressa uma conca de cerveja. E no campo das barreiras os cavalleiros, +chapeados de ferro, carregadamente se içavam, com a ajuda +dos donzeis, +para as altas sellas dos ginetes―logo ladeados pelos seus +infanções e +acostados, que aprumavam a lança sobre o coxote assobiando +aos lebreus.<br /> + + +<br /> + + +Emfim o Alferes, Affonso Gomes, saccou da funda e desfraldou o +pendão +n'um embalanço largo em que as azas do Açor +negrejaram, abertas, como +soltando o vôo enfurecido. O grito agudo do Adail +resoára por toda a +cerca―<em>ala! ala!</em> De cima de um marco de pedra, +junto ao postigo do +barbacan, Frei Muncio estendia as magras mãos ainda +tremulas, abençoava +a hoste. Então Tructesindo, sobre o seu murzello, recebeu do +velho +Ordonho a espada, de que tão terrivelmente se +apartára. E estendendo a +reluzente folha para as torres da sua Honra como para um altar, bradou:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[362]</span> ―Muros de Santa Ireneia, não vos torne eu a vêr, +se em tres dias, de +sol a sol, ainda restar sangue maldito nas veias do traidor de +Bayão!<br /> + + +<br /> + + +E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tropeou em torno ao +pendão +solto,―em quanto, na torre d'Almenara, sob o parado explendor da +sésta +d'Agosto, o sino grande começava a tanger a finados.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Quando Gonçalo á tarde, enterrado na poltrona +á varanda, releu este +Capitulo de sangue e furor sobre que se esfalfára durante a +semana, +pensou «que o lance impressionaria.»<br /> + + +<br /> + + +Sentiu então o appetite de recolher sem demora os louvores +merecidos―e +de mostrar a Gracinha e ao Padre Sueiro os tres Capitulos completos +antes de remetter o manuscripto para os <b><em>Annaes</em></b>. +E +mesmo lhe +convinha―porque a erudição archeologica do Padre +Sueiro forneceria +talvez algum traço novo, bem Affonsino, que mais avivasse +aquella +resurreição da Honra de Santa-Ireneia e dos seus +senhores formidaveis. +Immediatamente resolveu partir de manhã para Oliveira com o +seu +trabalho―que, depois de esmiuçado pelo Padre Sueiro, +confiaria ao +procurador de D. Arminda Viegas para elle o copiar n'aquella sua +formosa +lettra, tão celebrada em todo o <span class="pagenum">[363]</span>Districto, +e apenas egualada +(nas +maiusculas) pela do Escrivão da Camara Ecclesiastica.<br /> + + +<br /> + + +Sacudia já da poeira uma antiga pasta de marroquim para +transportar a +Obra amada―quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de +vime que uma toalha de rendas cobria.<br /> + + +<br /> + + +―Um presente.<br /> + + +<br /> + + +―Um presente... De quem?<br /> + + +<br /> + + +―Da <em>Feitosa</em>, das senhoras.<br /> + + +<br /> + + +―Bravo!<br /> + + +<br /> + + +―E com uma carta, que vem pregada na toalha.<br /> + + +<br /> + + +Com que curiosidade Gonçalo despedaçou o +sobrescripto! Mas, apezar de +lacrado com um pomposo sello d'Armas, apenas continha linhas a lapis +n'um bilhete de visita da prima Maria +Mendonça:―«Hontem ao jantar +contei quanto o primo Gonçalo gosta de pêcegos +sobretudo aboborados em +vinho, e a Annica toma por isso a liberdade de lhe mandar esse cestinho +de pêcegos da <em>Feitosa</em>, que como sabe +são +fallados em todo o +Portugal... Mil saudades.»―Gonçalo imaginou logo +no fundo da cesta, +debaixo dos pêcegos, docemente escondida, uma cartinha da D. +Anna!<br /> + + +<br /> + + +―Bem! São pêcegos... Deixa ahi sobre uma +cadeira...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[364]</span> ―Era melhor que os levasse já para a copa, Snr. Dr., para +os arrumar na +prateleira...<br /> + + +<br /> + + +―Deixa sobre a cadeira!<br /> + + +<br /> + + +Apenas o Bento cerrára a porta, estendeu no chão +a toalha, entornou +cuidadosamente por cima os pêcegos formosos que perfumavam a +livraria. +No fundo da cesta encontrou apenas folhas de parra. Levemente +desconsolado, cheirou um pêcego. Depois considerou que os +pêcegos, +arranjados por ella, com parra que ella apanhára na latada, +sob toalha +que ella escolhera no armario, formavam na sua mudez cheirosa um +recadinho sentimental. Ainda agachado na esteira, comeu o +pêcego:―e +recollocou os outros na cesta para os levar a Gracinha.<br /> + + +<br /> + + +Mas, ao outro dia, ás duas horas, já com a +parelha do Torto engatada á +caleche, já com as luvas calçadas para a jornada +d'Oliveira, recebeu uma +inesperada visita―a visita do Snr. Visconde de Rio-Manso. +Descalçando +as luvas o Fidalgo pensava:―«O Rio-Manso! Que me +quererá esse +casmurro?»―Na sala, pousado á beira do +canapé de velludo verde e +esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de Villa Clara e +deante do portão da Torre vencera o seu teimoso acanhamento +para +apresentar os seus respeitos ao Snr. Gonçalo Ramires. E +não só para esse +gostoso dever―mas tambem (como <span class="pagenum">[365]</span>soubera +que S. Ex.<sup>a</sup> +se propunha +Deputado pelo Circulo) para lhe offerecer na freguezia de Canta-Pedra o +seu prestimo e os seus votos...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, risonho e pasmado, saudava, torcia +embaraçadamente o bigode. E +o Visconde de Rio-Manso não estranhava aquelle pasmo por que +de certo o +Snr. Gonçalo Ramires o conhecêra sempre como +ferrenho Regenerador... Mas +então! Elle pertencia á +geração, agora bem rareada, que antepunha aos +deveres da Politica os deveres da gratidão:―e +além da sympathia que lhe +merecia o Snr. Gonçalo Ramires (pelo que constava em todo o +Districto do +seu talento, da sua affabilidade, da sua caridade) tambem conservava +para com S. Ex.<sup>a</sup> uma divida de +gratidão, ainda aberta, +não por +indifferença, mas por timidez...<br /> + + +<br /> + + +―V. Ex.<sup>a</sup> não adivinha, Snr. +Gonçalo Mendes +Ramires?... Não se lembra?<br /> + + +<br /> + + +―Não, realmente, Snr. Visconde, não me...<br /> + + +<br /> + + +Pois uma tarde o Snr. Gonçalo Mendes Ramires passava a +cavallo pela +quinta da <em>Varandinha</em>, quando a sua neta, +brincando no +terraço (aquelle +terraço gradeado d'onde se curva uma magnolia), deixou +escapar uma péla +para a estrada. O Snr. Gonçalo Mendes Ramires, rindo, apeou +immediatamente, apanhou a péla, e, para a restituir +á menina debruçada +<span class="pagenum">[366]</span>da grade, abeirou +a egoa do muro depois de montar―e com que ligeiresa e +garbo!...<br /> + + +<br /> + + +―V. Ex.<sup>a</sup> não se lembrava?<br /> + + +<br /> + + +―Sim, sim, agora...<br /> + + +<br /> + + +Pois no ladrilho do terraço, rente da grade, pousava um +jarro cheio de +cravos. O Snr. Gonçalo Mendes, depois de gracejar com a +menina (que, +louvado Deus, não era acanhada!) pediu um cravo, que ella +escolheu―e +que lhe deu, toda séria, como uma senhora. E elle, que +observára da +janella do seu quarto, pensava:―«Ora ahi está! +Este Fidalgo da Torre, +um tão grande Fidalgo, que amavel!»―Oh S. Ex.<sup>a</sup> +não tinha que rir e +corar... A gentileza fôra grande―e a elle, avô, +parecêra immensa! Mas +não ficára sómente na péla +apanhada...<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Gonçalo Mendes Ramires não se recorda?...<br /> + + +<br /> + + +―Sim, Snr. Visconde, com effeito, agora...<br /> + + +<br /> + + +Pois, logo no outro dia, o Snr. Gonçalo Mendes Ramires +mandára da Torre +um precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e n'uma linha este +gracejo:―«Em agradecimento d'um cravo, rosas á +Snr.<sup>a</sup> D. Rosa.»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo quasi pulou na cadeira, divertido:<br /> + + +<br /> + + +―Sim, sim, Snr. Visconde, perfeitamente!.. Agora me recordo!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[367]</span> +Pois desde essa tarde elle sempre almejára por uma +opportunidade de +mostrar ao Snr. Gonçalo Mendes Ramires o seu reconhecimento, +a sua +sympathia. Mas que! era timido, vivia muito retirado... N'essa +manhã +porém, em Villa Clara, soubera pelo Gouveia que S. Ex.<sup>a</sup> +se +apresentava +deputado pelo Circulo. Apezar de ser eleição +tão segura, já pela +influencia do Snr. Ramires, já pela influencia do Governo, +logo +pensára―«Bem, ahi está a +occasião!» E, agora offerecia a S. Ex.<sup>a</sup>, +na +freguezia de Canta-Pedra, o seu prestimo e os seus votos.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo murmurou, enternecido:<br /> + + +<br /> + + +―Realmente, Snr. Visconde, nada me podia sensibilisar mais do que uma +offerta tão espontanea, tão...<br /> + + +<br /> + + +―Sou eu que me sensibiliso por V. Ex.<sup>a</sup> +acceitar. E agora +não fallemos +mais n'esse meu pobre prestimo e n'esses meus pobres votos... Pois V. +Ex.<sup>a</sup> tem aqui uma veneravel vivenda.<br /> + + +<br /> + + +E como o Visconde alludia ao desejo, já n'elle antigo, de +admirar de +perto a famosa torre, mais velha que Portugal―ambos desceram ao pomar. +O Visconde, com o guarda-sol ao hombro, pasmou em silencio para a +torre; +reconheceu (apezar de liberal) o prestigio que resulta d'uma +tão alta +linhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois, +sabendo que o Pereira da Riosa arrendára a <span class="pagenum">[368]</span>quinta, invejou +ao Snr. +Ramires tão cuidadoso e honrado rendeiro...―Deante do +portão, o +<em>char-à-bancs</em> do Visconde esperava, +atrelado de duas mulas +lustrosas e +nedias. Gonçalo admirou as mulas. E, abrindo a portinhola, +supplicou ao +Snr. Visconde que beijasse por elle a mãosinha da Snr.<sup>a</sup> +D. +Rosa. +Commovido, o Visconde confessou uma ousadia, uma +esperança―e era que S. +Ex.<sup>a</sup> um dia, á sua escolha, parasse +em Canta-Pedra, +jantasse na quinta, +para conhecer mais intimamente a menina da péla e do cravo...<br /> + + +<br /> + + +―Mas com immensa honra!... E desde já me proponho a ensinar +á Snr.<sup>a</sup> D. +Rosa, se ella o não sabe, o jogo da péla +á antiga portugueza.<br /> + + +<br /> + + +O Snr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a mão +sobre o +coração.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, trepando as escadas, murmurava:―«Oh +senhores, que sympathico +homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora vejam como +ás +vezes, por uma pequenina attenção, se ganha um +amigo! Com certeza, para +a semana vou a Canta-Pedra jantar!... Homem encantador!»<br /> + + +<br /> + + +E foi n'um ditoso estado d'alma que accommodou na caleche a pasta de +marroquim com o manuscripto, o cesto sentimental dos pêcegos +da D. +Anna―e accendeu um charuto, e saltou á almofada, e tomou as +redeas para +lançar, n'um trote alegre até Oliveira, a parelha +branca do Russo.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[369]</span> +No largo d'El-Rey, antes d'apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta +noticias dos senhores. Os senhores todos muito bem, graças a +Deus... O +Snr. José Barrôlo partira de manhã a +cavallo para a quinta do Snr. Barão +das Marges, só recolhia á noite...<br /> + + +<br /> + + +―E o Snr. Padre Sueiro?<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Padre Sueiro, creio que está para casa da Snr.<sup>a</sup> +D. +Arminda...<br /> + + +<br /> + + +―E a Snr.<sup>a</sup> D. Graça?<br /> + + +<br /> + + +―A Snr.<sup>a</sup> D. Graça desceu ha um +bocadinho grande para o +Mirante, de +chapeu... Naturalmente ia á Egreja das Monicas.<br /> + + +<br /> + + +―Bem. Leva esse cesto de pêcegos e dize ao Joaquim da Copa +que o ponha +na mesa, assim mesmo no cesto, com as folhas... E que me subam ao +quarto +agoa quente.<br /> + + +<br /> + + +O relogio de parede, na sala de espera, gemia +preguiçosamente as cinco +horas. O palacete repousava n'um claro silencio. E depois da poeira e +dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonçalo a +frescura do seu +quarto com as quatro janellas abertas sobre o jardim regado e sobre a +cerca das Monicas. Cuidadosamente, guardou logo n'uma gaveta da commoda +a pasta preciosa de marroquim. Uma creada de olhos repolhudos +entrára +com o jarrão d'agua quente:―e o Fidalgo, como sempre, +<span class="pagenum">[370]</span>chasqueou a +moça +sobre os lindos sargentos de Cavallaria, cujo quartel tentador dominava +o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando todo o +dia com paixão. Depois ainda se demorou, mudando o fato +empoeirado, +assobiando vagamente, encostado á varanda sobre a callada +rua das +Tecedeiras. O sino das Monicas lançou um lindo repique... E +Gonçalo, +enfastiado da sua solidão, decidiu descer pelo +terraço do jardim, e +surprehender Gracinha nas suas devoções, na +Egrejinha.<br /> + + +<br /> + + +Em baixo, no corredor, crusou o Joaquim da Copa:<br /> + + +<br /> + + +―Então o Snr. Barrôlo hoje não janta?<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Barrôlo foi jantar com o Snr. Barão das +Marges, na quinta... +São os annos da menina. Naturalmente só recolhe +á noite.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes, +compondo para o +casaco um ramo de flôres ligeiras. Depois rodeou a estufa, +sorrindo da +porta com que o Barrôlo a enriquecera, uma porta +envidraçada, arqueada +em ferradura, com um monogramma de côres rutilantes: e metteu +pela rua +que conduzia ao repuxo, coberta de silencio e penumbra pela rama +enlaçada dos seus altos loureiros. Adiante, circumdado de +bancos de +pedra, d'arvores de aroma e flôr, cantava dormentemente o +fino repuxo +n'um tanque redondo, de borda larga, onde <span class="pagenum">[371]</span>s'espaçavam +grossos vasos de +louça branca com o brazão ramalhudo dos +Sás. Certamente na véspera ou de +manhã se lavára o tanque, por que na agoa muito +transparente, sobre as +lages muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos +rosados, os peixes que Gonçalo assustou mergulhando e +agitando a +bengala. E d'aquella borda do tanque já elle avistava ao +fundo de outra +rua, debruada de dhalias abertas, o Mirante―uma +construcção do seculo +XVIII, simulando um Templosinho grego, côr de rosa desbotada, +com um +gordo Cupido sobre a cupula, e janellinhas de rocalha entre o meio +relevo das columnas canelladas por onde trepavam jasmineiros.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo arrancou, como costumava, folhas d'um ramo de +lucia-lima, para +esmagar e perfumar as mãos: e continuou para o Mirante, +vagarosamente, +por entre as dhalias apinhadas. Na allea, novamente ensaibrada, os +sapatos finos de verniz que calçára pousavam sem +rumor no saibro molle. +E assim, n'um silencio de sombra indolente, se acercou do Mirante―e +d'uma das janellinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a +persiana de taboinhas verdes. Rente d'essa janella era a escada de +pedra, que, do elevado e comprido terraço sobre que se +estendia o +jardim, communicava com a encovada rua das Tecedeiras, quasi em frente +á +Capella <span class="pagenum">[372]</span>das +Monicas. E Gonçalo, sem pressa, descia―quando, +atravez da +persiana rala, sentiu dentro do Mirante um susurro, um cochichar +perturbado. Sorrindo, pensou que alguma das creadas da casa se +refugiára +n'esse Templosinho de Amor com um dos sargentos terriveis de +Cavallaria... Mas, não! impossivel! Pois se, momentos antes, +Gracinha +roçára aquella janella e pisára +aquella escada, no seu caminho para as +Monicas! E então outra idéa o varou como uma +espada―e tão dolorosa que +recuou com terror da beira do Mirante d'onde ella perversamente o +assaltára. Já porém uma desesperada +curiosidade a agarrára, o +empurrava―e collou a face á persiana com a cautella d'um +espião. O +Mirante recahira em silencio―Gonçalo temia que o trahissem +as pancadas +do seu coração... Santo Deus! De novo o murmurio +recomeçára, mais +apressado, mais turbado. Alguem supplicava, +balbuciava:―«Não, não, que +loucura!»―Alguem urgia, impaciente e +ardente:―«Sim, meu amor! sim, meu +amor!» E a ambos os reconheceu―tão claramente +como se a persiana se +erguesse e por ella entrasse toda a vasta claridade do jardim. Era +Gracinha! Era o Cavalleiro!<br /> + + +<br /> + + +Colhido por uma immensa vergonha, no atarantado pavor de que o +surprehendessem junto do Mirante e da torpeza escondida―enfiou pela rua +das <span class="pagenum">[373]</span>dhalias, +encolhido, com os sapatos leves no saibro molle, costeou o +repuxo por sob a ramaria dos arbustos, remergulhou na +escuridão dos +loureiros, deslisou surrateiramente por traz da estufa―penetrou no +socego do Palacete. Mas o murmurio do Mirante ainda o envolvia, mais +desfallecido, mais rendido―«Não, não, +que loucura!... Sim, sim, meu +amor!...»<br /> + + +<br /> + + +Abalou atravez das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou +abafadamente pela escadaria de pedra, varou o portão n'uma +carreira, +espreitando, com medo do Joaquim da Porta. No Largo parou, deante da +grade do relogio do sol. Mas o susuro do Mirante errava por todo o +Largo +como um vento enroscado, raspando as lages, batendo as barbas dos +Santos +sobre o portal da Egreja de S. Matheus, redemoinhando nos telhados +musgosos da Cordoaria...―«Não, não, +que loucura! Sim, sim! meu amor!» +Então Gonçalo sentiu a anciedade desesperada +d'escapar para longe, para +immensamente longe do Largo, do Palacete, da cidade, de toda aquella +vergonha que o trespassava. Mas uma carruagem?... Pensou na alquilaria +do Maciel, a mais retirada, para além das ultimas casas, na +estrada do +Seminario. E cosido com os muros baixos d'essas ruas pobres, correu, +mandou engatar uma caleche fechada.<br /> + + +<br /> + + +Emquanto esperava á porta, n'um banco, passou pela estrada +uma lenta +carroça com moveis, panellas <span class="pagenum">[374]</span>de +cosinha, um grande +colxão onde se +alastrava uma nodoa. Bruscamente Gonçalo recordou o divan +que guarnecia +o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho, com mollas +lassas que rangiam. E de repente o murmurio recomeçou, +cresceu, rolando +com fragor de trovão por sobre os casebres visinhos, por +sobre a cerca +do Seminario, por sobre Oliveira espantada:―«Não, +não, que loucura! +Sim, sim, meu amor!»<br /> + + +<br /> + + +Com um salto, Gonçalo gritou para dentro, para a +cavallariça escura:<br /> + + +<br /> + + +―Então, que inferno! não acaba, essa carroagem?<br /> + + +<br /> + + +―Já a largar, meu Fidalgo.<br /> + + +<br /> + + +No relogio da Piedade sete horas batiam―quando elle se atirou para a +caleche, e fechou as <em>stores</em> pêrras, e +se enterrou no fundo, +bem +sumido, esmagado, com a sensação que o Mundo +tremera, e as mais fortes +almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando +dentro um montão ignorado de lixo e de saias sujas.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +IX</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Á porta da cosinha, saccudindo um sobrescripto já +amarrotado, Gonçalo +ralhava com a Rosa cosinheira:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Rosa! pois tanto lhe recommendei que não escrevesse +á mana +Graça?... Que teimosa! Então não +arranjavamos a pequena, sem essas +lamurias para Oliveira? Graças a Deus, a Torre é +larga bastante para +mais uma creancinha!<br /> + + +<br /> + + +É que morrera a Crispola―a desgraçada viuva, +visinha da Torre, que com +um rancho miudo de dous pequenos, tres raparigas, definhava no catre +desde a Paschoa. E agora Gonçalo, que mantivera o casebre em +fartura, +andava accommodando as pobres creanças―já por +cuidado d'elle muito +aceadamente vestidas de luto. A rapariga mais velha (tambem Crispola), +sempre encafuada na cosinha da Torre, passava <span class="pagenum">[376]</span>regularmente +a +«ajudanta +da Rosa», com soldada. Um dos rapazes, de doze annos, +espigado e +esperto, tambem Gonçalo o empregava na Torre como andarilho, +para os +recados, com fardeta de botões amarellos. O outro, molle e +ranhoso, mas +com o geito e o amor de carpinteirar, já Gonçalo, +sob o patrocinio da +tia Louredo, o collocára em Lisboa, na Officina de S. +José. D'uma das +outras raparigas se encarregava a mãe de Manoel Duarte, +amoravel senhora +que habitava uma quinta formosa junto a Treixedo, e adorava +Gonçalo de +quem se considerava «<em>vassalla</em>». +Mas para a mais +novinha e a mais +fraquinha não se arranjava amparo solido. A Rosa +lembrára então―«que +certamente a Snr.<sup>a</sup> D. Maria da Graça +recolheria a +creaturinha...» +Gonçalo rosnára com seccura:―«Oh! por +uma côdea mais de pão não se +necessita encommodar a <em>cidade d'Oliveira</em>!» +Rosa, +porém, enlevada na +obra, desejando para pequerrucha tão franzina e loira o +agasalho d'uma +senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada lettra do Bento, uma +verbosa carta com o pedido, e toda a historia lamentosa da Crispola, e +louvores devotos á caridade do Snr. Doutor. E era a resposta +de +Gracinha, demorada mas enternecida, com a +recommendação «de lhe mandarem +logo a pobre creança»―que impacientava o Fidalgo.<br /> + + +<br /> + + +Por que, desde a tarde abominavel do Mirante, <span class="pagenum">[377]</span>estranhamente +se +apoderára +d'elle uma repugnancia quasi pudica em communicar com os Cunhaes! Era +como se esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes +côr de +rosa empestassem o jardim, o palacete, o Largo d'El-Rei, toda a cidade +d'Oliveira, e elle agora, por aceio moral, recuasse ante essa +região +empestada onde o seu coração e o seu orgulho +suffocavam... Logo depois +da sua fuga recebera do bom Barrôlo uma carta +espantada:―«Que têlha foi +essa? Porque não esperaste? Eu, quando voltei á +noite da quinta do +Marges, até fiquei com cuidado. E não imaginas +como a Gracinha anda +nervosa! Soubemos da partida, por acaso, por um cocheiro do Maciel. +Já +hoje comemos os pêcegos, mas não +comprehendemos!...»―Gonçalo respondeu +seccamente n'um bilhete:―«Negocios». Depois +recordou que deixára na +gaveta do seu quarto o manuscripto da Novella: e mandou um +moço da +quinta, de madrugada, com um recado quasi secreto ao Padre Sueiro, +«para +que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada, sem contar aos +senhores...» Entre a Torre e os Cunhaes só +desejava separação e +silencio.<br /> + + +<br /> + + +E nos encerrados dias que passou na Torre (sem se arriscar a +Villa-Clara, no terror de que a vergonha do seu nome já +andasse rosnada +pelo estanco do Simões ou pelo armazem do Ramos) +não cessou de vibrar +n'uma colera espalhada que a todos <span class="pagenum">[378]</span>varava... +Colera contra a +irmã que, +calcando pudor, altivez de raça, receio dos escarneos +d'Oliveira, tão +facil e estouvadamente como se calcam as flôres desbotadas +d'um tapete, +correra ao Mirante, ao macho da bigodeira, apenas elle lhe +acenára com o +lenço almiscarado! Colera contra o Barrôlo, o +bochechudo bacôco, que +empregava os seus bacôcos dias celebrando o Cavalleiro, +arrastando o +Cavalleiro para o Largo d'El-Rei, escolhendo na adega os vinhos mais +finos para que o Cavalleiro aquecesse o sangue, ageitando as almofadas +de todos os camapés para que o Cavalleiro saboreasse +estiradamente o seu +charuto e a graça presente de Gracinha! Emfim colera contra +si, que, +pela baixa cubiça de uma cadeira em S. Bento, abatera a +unica muralha +segura entre a irmã e o homem da marrafa lusente―que era a +sua +inimizade, aquella escarpada inimizade, sempre, desde Coimbra, +tão +rijamente reforçada e recaiada!... Ah! todos tres +horrendamente +culpados!<br /> + + +<br /> + + +Depois uma tarde, enfastiado da solidão, ousou um passeio +por +Villa-Clara. E reconheceu que na Assembleia, no estanco do +Simões, na +loja do Ramos, os amores de Gracinha eram certamente tão +ignorados como +se passassem nas profundidades da Tartaria. Immediatamente a sua alma +doce, agora socegada, se abandonou á doçura de +tecer desculpas subtis +para todos os culpados d'aquella queda <span class="pagenum">[379]</span>triste... +Gracinha, coitada, sem +filhos, com tão mollengo e ensosso marido, alheia a todos os +interesses +da intelligencia, indolente mesmo para uma costura ou +bordado―cedêra, +que mulher não cederia? á credula e primitiva +paixão que lhe brotára na +alma, n'ella se enraizára, lhe déra as suas +unicas alegrias do mundo e +(influencia ainda mais poderosa!) lhe arrancára as suas +unicas lagrimas! +O Barrôlo, coitado, era o Bacôco―e como o +«pilriteiro» da cantiga, +incapaz de mais nobres fructos, só produzia os +«pilritos» da sua +Bacoquice. E elle, coitado d'elle, pobre, ignorado, irresistivelmente +se +rendera á fatal Lei d'Accrescentamento, que o +levára, como a todos leva +na ancia de fama e fortuna, a furar precipitadamente pela porta casual +que se abre, sem reparar na estrumeira que atravanca os humbraes... Ah +realmente todos bem pouco culpados deante de Deus que nos creou +tão +variaveis, tão frageis, tão dependentes de +forças por nós ainda menos +governadas do que o Vento ou do que o Sol!<br /> + + +<br /> + + +Não, irremissivelmente culpado,―só o outro, o +malandro da grenha +ondeada! Esse, em toda a sua conducta com Gracinha, desde estudante, +mostrára sempre um egoismo atrevido, só punivel +como puniam os antigos +Ramires, com a morte depois dos tormentos, e a carcassa posta aos +corvos. Em quanto lhe agradou, na ociosidade dos longos estios, um +namoro <span class="pagenum">[380]</span>bocolico +sob os arvoredos da Torre―namorára. Quando +considerou +que uma mulher e filhos lhe atravancariam a vida ligeira―trahira. Logo +que a antiga bem amada pertenceu a outro +homem―recomeçára o cerco +languido para colher, sem os encargos da paternidade, as +emoções do +sentimento. E apenas esse marido lhe entreabre a sua +porta―não se +demora, fende brutamente sobre a preza! Ah como o avô +Tructesindo +trataria villão de tal villania! Certamente o assava n'uma +rugidora +fogueira deante das barbacans―ou, nas masmoras da Alcaçova, +lhe entupia +as guellas falsas com bom chumbo derretido...<br /> + + +<br /> + + +Pois elle, neto de Tructesindo, nem sequer podia, quando encontrasse o +Cavalleiro nas ruas d'Oliveira, carregar o chapeu sobre a testa e +passar! A menor diminuição n'essa intimidade +tão desastradamente +reatada―seria como a revelação da torpeza ainda +abafada nas paredes do +Mirante! Toda Oliveira cochicharia, riria.―«Olha o Fidalgo +da Torre! +Mette o Cavalleiro nos Cunhaes com a irmã, e logo, passadas +semanas, +rompe de novo com o Cavalleiro! Houve escandalo, e +gordo!»―Que delicia +para as Lousadas! Não, ao contrario! agora devia ostentar +pelo +Cavalleiro uma fraternidade tão larga e tão +ruidosa―que, pela sua +largueza e o seu ruido, inteiramente tapasse e abafasse o sujo enredo +que por <span class="pagenum">[381]</span>traz +latejava. Fingimento torturante―e imposto pela honra do +nome! O sujo enredo bem guardado entre os mais densos arvoredos do +jardim, na mais cerrada penumbra do Mirante!―e por fóra, ao +sol, nas +praças d'Oliveira elle sempre com o braço +carinhosamente enlaçado no +braço do Cavalleiro!<br /> + + +<br /> + + +Os dias rolavam―e no espirito de Gonçalo não se +estabelecia serenidade. +E sobretudo o amargurava sentir que era forçado a essa +intimidade +vistosa com o Cavalleiro―tanto pelo cuidado do seu nome, como pela +conveniencia da sua Eleição. Toda a sua altivez +por vezes se +revoltava:―«Que me importa a Eleição! +Que valor tem uma encardida +cadeira em S. Bento?...» Mas logo a secca Realidade o +emmudecia. A +Eleição era a unica fenda por onde elle lograria +escapar do seu buraco +rural; e, se rompesse com o Cavalleiro, esse villão, vezeiro +a +villanias, immediatamente, com o appoio da horda intrigante de Lisboa, +improvisaria outro Candidato por Villa-Clara... +Desgraçadamente elle era +um d'esses seres vergados que <em>dependem</em>. E a +triste dependencia d'onde +provinha? Da pobreza―d'essa escassa renda de duas quintas, +abastança +para um simples, mas pobreza para elle, com a sua +educação, os seus +gostos, os seus deveres de fidalguia, o seu espirito de sociabilidade.<br /> + + +<br /> + + +E estes pensamentos lenta e capciosamente o <span class="pagenum">[382]</span>empurraram +a outro +pensamento―á D. Anna Lucena, aos seus duzentos contos... +Até que uma +manhã encarou corajosamente uma possibilidade +perturbadora:―casar com a +D. Anna!―Por que não? Ella claramente lhe +mostrára inclinação, quasi +consentimento... Por que não casaria com a D. Anna?<br /> + + +<br /> + + +Sim! o pae carniceiro, o irmão assassino... Mas tambem elle, +entre +tantos avós até aos Suevos ferozes, descortinaria +algum avô carniceiro; +e a occupação dos Ramires, atravez dos seculos +heroicos, consistira +realmente em assassinar. De resto o carniceiro e o assassino, ambos +mortos, sombras remotas, pertenciam a uma Lenda que se apagava. D. +Anna, +pelo casamento, subira da Populaça para a Burguesia. Elle +não a +encontrava no talho do pae, nem no velhacouto do irmão―mas +na quinta da +<em>Feitosa</em>, já Rica-Dona, com procurador, +com +capellão, com lacaios, como +uma antiga Ramires. Ah! sinceramente, toda a +hesitação era pueril―desde +que esses duzentos contos, de dinheiro muito limpo, de bom dinheiro +rural, os trazia com o seu corpo, mulher tão formosa e +séria. Com esse +puro ouro, e o seu nome, e o seu talento, não necessitaria +para dominar +na Politica a refalsada mão do Cavalleiro... E depois que +vida nobre e +completa! A sua velha Torre restituida ao esplendor sobrio d'outras +eras; uma lavoura de luxo no historico torrão de Treixedo; +as <span class="pagenum">[383]</span>viagens +fecundas ás terras que educam!... E a mulher que fornecia +estes regalos +não lhes amargava o goso, como em tantos casamentos ricos, +com a sua +fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pelle relentada... +Não! Depois +do brilho social do dia não o esperava na alcova um +mostrengo―mas +Venus.<br /> + + +<br /> + + +E assim, lentamente trabalhado por estas +tentações, mandou uma tarde um +bilhete á prima Maria, á <em>Feitosa</em>, +pedindo―«para se encontrarem, sós, +n'algum passeio dos arredores, por que desejava ter com ella uma +<em>conversasinha</em> séria e +intima...» Mas tres +immensos dias se +arrastaram―e não appareceu a almejada carta da <em>Feitosa</em>. +Gonçalo +concluiu que a prima Maria, tão esperta, farejando a +natureza da +<em>conversasinha</em> e sem uma certeza para o alegrar, +retardava, se +recusava. Atravessou então uma desolada semana, remoendo a +melancolia +d'uma vida que sentia ôca e toda feita d'incertezas. O +orgulho, um pudor +complicado, não lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto +d'onde +implacavelmente avistaria, por sobre o arvoredo, a cupula do Mirante +com +o seu gordo Cupido:―e quasi o arrepiava a idéa de beijar a +irmã na face +que o outro babujára! Sobre a Eleição +descera um silencio de abobada―e +outra repugnancia, mais acerba, lhe vedava escrever ao Cavalleiro. +João +Gouveia gozava as suas férias na Costa, de sapatos brancos, +apanhando +conchinhas <span class="pagenum">[384]</span>na +praia. E Villa-Clara não se tolerava n'esse +meado ardente +de Septembro―com o Titó no Alemtejo onde o +levára uma doença do velho +Morgado de Cidadelhe, o Manoel Duarte na quinta da mãe +dirigindo as +vindimas, e a Assembleia deserta e adormecida sob o innumeravel susurro +das moscas...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Para se occupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto d'Arte, +retomou a sua Novella. Mas sem fervor, sem veia agil. Agora era a +sanhuda arrancada de Tructesindo e dos seus cavalleiros, correndo sobre +o Bastardo de Bayão. Lance difficultoso―reclamando fragor, +um +rebrilhante colorido Medieval. E elle tão molle e +tão apagado!... +Felizmente, no seu Poemeto, o Tio Duarte recheára esse +violento trecho +de bem apinceladas paisagens, d'interessantes rasgos de guerra.<br /> + + +<br /> + + +Logo na Ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a +decrepita ponte, cujos rotos barrotes e taboões carcomidos +entulhavam no +fundo a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acautelladamente a +desmantelára para deter a cavalgada vingadora. +Então a pesada hoste de +Santa Ireneia avançou pela esguia ourela, ladeando os +renques de choupos +em demanda do vau do Espigal... Mas que tardança! Quando as +derradeiras +<span class="pagenum">[385]</span>mulas de carga +choutaram na terra d'além-ribeira +já a tarde se adoçava, +e nas poças d'agua, entre as poldras, o brilho esmorecia, +umas ainda +d'ouro pallido, outras apenas rosadas. Immediatamente Dom Garcia +Viegas, +o <em>Sabedor</em>, aconselhou que a mesnada se +dividisse:―a peonagem e a +carga avançando para Montemor, esgueirada e callada, para +esquivar +recontros; os senhores de lança e os besteiros de cavallo +arrancando em +dura carreira para colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do +<em>Sabedor</em>: e a cavalgada, aligeirada das filas +tardas +de archeiros e +fundibularios, largou, soltas as rédeas, atravez de terras +ermas, depois +por entre barrocaes, até aos <em>Tres-Caminhos</em>, +desolada chan +onde se +ergue solitariamente aquelle carvalho velhissimo que outr'ora, antes +d'exorcisado por S. Froalengo, abrigava no sabbado mais negro de +Janeiro, ao clarão d'archotes enxofrados, a Grande Ronda de +todas as +bruchas de Portugal. Junto do carvalho Tructesindo sopeou a arrancada: +e, alçado nos estribos, farejava as tres sendas que se +trifurcam e se +encovam entre asperos, lobregos cerros de bravio e de tojo. +Passára ahi +o Bastardo malvado?... Ah! por certo passára e toda a sua +maldade―porque no respaldo d'uma fraga, junto a tres cabras magras +retouçando o matto, jazia, com os braços abertos, +um pobre pastorinho +morto, varado por uma frecha! Para que o <span class="pagenum">[386]</span>triste +cabreiro não +soprasse +novas da gente de Bayão―uma bruta setta lhe +atravessára o peito +escarnado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual das sendas se +embrenhára o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento +suão que rolava +d'entre-montes, não appareciam pegadas revoltas de tropel +fugindo. E, em +tal solidão, nem choça ou palhoça +d'onde villão ou velha alapada +espreitassem a levada do bando... Então, ao mando do Alferes +Affonso +Gomes, tres almogavres despediram pelos tres caminhos á +descoberta―em +quanto os Cavalleiros, sem desmontar, desafivelavam os +morriões para +limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou abeiravam os +ginetes +d'um sumido fio d'agua que á orla da chan se arrastava entre +ralo +caniçal. Tructesindo não se arredou de sob a +ramada do carvalho de S. +Froalengo, immovel sobre o murzello immovel, todo cerrado no ferro da +sua negra armadura, as mãos juntas sobre a sella e o elmo +pesadamente +inclinado como em magua e oração. E ao lado, com +as colleiras errissadas +de prégos, as sangrentas linguas penduradas, arquejavam, +estirados, os +seus dous mastins.<br /> + + +<br /> + + +Já no emtanto a espera se alongava, inquieta, +enfadonha―quando o +almogavre que mettera pela senda de Nascente reappareceu n'um rolo de +poeira, atirando logo o alarde de longe, com a ascuma <span class="pagenum">[387]</span>alta. A hora +escassa de carreira avistára num cabeço uma hoste +acampada, em arraial +seguro, rodeado d'estaca e valla!...<br /> + + +<br /> + + +―Que pendão?<br /> + + +<br /> + + +―As treze arruellas.<br /> + + +<br /> + + +―Deus louvado! gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando. +É D. +Pedro de Castro, <em>o Castellão</em>, que +entrou com os Leonezes e +vem pelas +senhoras Infantas!<br /> + + +<br /> + + +Por esse caminho pois não se atrevera o Bastardo!... Mas +já pela senda +de Poente recolhia outro almogavre contando que entre-cerros, n'um +pinhal, topára um bando de bufarinheiros genovezes, +retardados desde +alva, por que um d'elles esmorecera com mal de febres. E +então?...―Então, pela borda do pinheiral apenas +passára em todo o dia +(no jurar dos genovezes) uma companhia de truões voltando da +feira de +Grajelos. Só restava pois o trilho do meio, pedregoso e +esbarrancado +como o leito enxuto d'uma torrente. E por elle, a um brado de +Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas já o crepusculo +tristissimo +descia―e sempre o caminho se estirava, agreste, soturno, infindavel, +entre os cerros de urze e rocha, sem uma cabana, um muro, uma sebe, +rasto de rez ou homem. Ao longe, mais ao longe, emfim, enchergaram a +campina arida, coberta de solidão e penumbra, dilatada <span class="pagenum">[388]</span>na +sua mudez até +a um ceu remoto, onde já se apagava uma derradeira tira de +poente côr de +cobre e côr de sangue. Então Tructesindo deteve a +abalada, rente +d'espinheiros que se torciam nas lufadas mais rijas do suão:<br /> + + +<br /> + + +―Por Deus, senhores, que corremos em pressa vã e sem +esperança!... Que +pensaes, Garcia Viegas?<br /> + + +<br /> + + +Todo o bando se apinhára: e uma fumarada subia dos ginetes +arquejantes +sob as coberturas de malha. O <em>Sabedor</em> estendeu o +braço:<br /> + + +<br /> + + +―Senhores! O Bastardo, antes de nós, galgou d'escapada essa +campina +além, e metteu a Valle-Murtinho para pernoitar na Honra de +Agredel, que +é bem afortalezada e parenta de Bayão...<br /> + + +<br /> + + +―E nós, pois, D. Garcia?<br /> + + +<br /> + + +―Nós, senhores e amigos, só nos resta tambem +pernoitar. Voltemos aos +<em>Tres-Caminhos</em>. E de lá, em boa +avença, ao +arraial do Snr. D. Pedro de +Castro, a pedir agasalho... A par de tamanho senhor encontraremos mais +fartamente que nos nossos alforges o que todos, christãos e +brutos, +vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos tres golpes +rijos...<br /> + + +<br /> + + +Todos bradaram com alvoroço:―«Bem +traçado! bem traçado!...»―E de novo, +pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pezadamente para os +<em>Tres-Caminhos</em>―onde já dous corvos se +encarniçavam sobre o corpo do +pastorinho morto.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[389]</span> +Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabeço alto, +alvejaram as +tendas do arraial, ao clarão das fogueiras que por todo elle +fumegavam. +O Adail de Santa Ireneia arrancou da bosina tres sons lentos +annunciando +Filho-d'Algo. Logo de dentro da estacada outras businas soaram, claras +e +acolhedoras. Então o Adail galopou até ao +vallado, a annunciar ás +atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos d'almenara, a +mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parára no corrego +escuro, que o +pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento. Dous +cavalleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do +outeiro―bradando que o Snr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor +de Santa Ireneia e muito se prazia para todo seu regalo e +serviço! +Silenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel +de Çamora e Mendo de Briteiros e outros parentes de solar, +todos sem +lança ou broquel, descalçados os guantes, +galgaram o cabeço até á +estacada, cujas cancellas se escancararam, mostrando na claridade +incerta dos fogareus sombrios magotes de peões―onde, por +entre os +bassinetes de ferro, surdiam toucas amarellas de mancebas e gorros +enguisalhados de jograes. Apenas o velho assomou aos barrotes dous +infanções, sacudindo a espada, bradaram:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[390]</span> ―Honra! honra! aos Ricos-Homens de Portugal!<br /> + + +<br /> + + +As trompas misturavam o clangor rispido aos rufos lassos dos tambores. +E +por entre a turba, que calladamente recuára em alas lentas, +avançou, +precedido por quatro cavalleiros que erguiam archotes accesos, o velho +D. Pedro de Castro, <em>o Castellão</em>, o +homem das longas +guerras e dos +vastos senhorios. Um corselete d'anta com lavores de prata cinjia o seu +peito já curvado, como consumido por tamanhas fadigas de +pelejar e +tamanhas cubiças de reinar. Sem elmo, sem armas, appoiava a +mão +cabelluda de rijas veias a um bastão de marfim. E os olhos +encovados +faiscavam, com affavel curiosidade, na requeimada magreza da face, de +nariz mais recurvo que o bico d'um falcão, repuxada a um +lado por um +fundo gilvaz que se sumia na barba crespa, aguda e quasi branca.<br /> + + +<br /> + + +Deante do senhor de Santa Ireneia alargou vagarosamente os +braços. E com +um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz de +rapina:<br /> + + +<br /> + + +―Viva Deus! Grande é a noite que vos traz, primo e amigo! +Que não a +esperava eu de tanta honra, nem sequer de tanto gosto!...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[391]</span>Ao rematar este +duro Capitulo, depois de tres manhãs de +trabalho, +Gonçalo arrojou a penna com um suspiro de +cansaço. Ah! já lhe entrava a +fartura d'essa interminavel Novella, desenrolada como um novello +solto―sem que elle lhe podesse encurtar os fios, tão +cerradamente os +emmaranhára no seu denso Poema o Tio Duarte que elle seguia +gemendo! E +depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses +Tructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses <em>Sabedores</em>, +eram +realmente varões Affonsinos, de solida substancia +historica?... Talvez +apenas oucos titeres, mal engonçados em erradas armaduras, +povoando +inveridicos arraiaes e castellos, sem um gesto ou dizer que datassem +das +velhas edades!<br /> + + +<br /> + + +E ao outro dia não reuniu em todo o seu ser coragem para +retomar aquella +sofrega correria dos de Santa Ireneia sobre o bando +escapadiço de Bayão. +De resto já remettera tres Capitulos da +Novella―já calmára as ancias do +Castanheiro. Mas a ociosidade mais lhe pesou n'essa semana, arrastada +pelos canapés ou por entre os buxos do jardim, fumando e +tristemente +sentindo que a Vida lhe fugia em fumo. Para o enervar accrescia um +aborrecimento de dinheiro―uma lettra de seiscentos mil +réis, do +derradeiro anno de Coimbra, sempre reformada, sempre <span class="pagenum">[392]</span>avolumada, e que +agora o emprestador, um certo Leite, d'Oliveira, reclamava com dureza. +O +seu alfaiate de Lisboa tambem o importunava com uma conta pavorosa, +atulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solidão da +Torre. +Todos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A +Eleição encalhada como uma barca no lodo. A +irmã de certo com o <em>outro</em> +no Mirante. Até a prima Maria desattendendo ingratamente o +seu timido +pedido d'uma «conversasinha.» E elle no seu quente +casarão, sem energia, +immobilisado n'uma inercia crescente, como se cordas o travassem, cada +dia mais apertadas―e d'homem se volvesse em fardo.<br /> + + +<br /> + + +Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o +Bento, acabava de se vestir para montar a cavallo, espairecer n'um +galope pelos caminhos de Valverde―quando o pequeno da Crispola +(já +estabelecido na Torre como pagem, de fardeta de botões +amarellos) bateu +esbaforidamente á porta.―Era uma senhora que +parára ao portão, dentro +d'uma carruagem, pedia ao Fidalgo para descer...<br /> + + +<br /> + + +―Não disse o nome?<br /> + + +<br /> + + +―Não, senhor. É uma senhora magra, puxada a dous +cavallos, com redes...<br /> + + +<br /> + + +A prima Maria! Com que alvoroço correu, agarrando no cabide +do corredor +um velho chapeu de <span class="pagenum">[393]</span>palha! +E em baixo foi como se contemplasse a Deusa +da +Fortuna na sua roda ligeira.<br /> + + +<br /> + + +―Oh prima Maria, que surpreza!... Que felicidade!<br /> + + +<br /> + + +Debruçada da portinhola da carruagem (a caleche azul da +<em>Feitosa</em>), D. +Maria Mendonça, com um chapeu novo enramalhetado de lilazes, +desculpou +atrapalhadamente e rindo o seu silencio. Recebera a carta do primo +muito +atrasada... Sempre o fatal carteiro, tropego e bebedo... Depois uns +dias +muito atarefados em Oliveira com a Annica, que preparava para o inverno +a casa da rua das Vellas.<br /> + + +<br /> + + +―E finalmente, como devia uma visita em Villa-Clara á pobre +Venancia +Rios, que tem estado doente, achei mais simples e mais completo parar +na +Torre... E então?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo sorria, embaraçado:<br /> + + +<br /> + + +―Então, nada de grave, mas... É que desejava +conversar comsigo... Por +que não entra?<br /> + + +<br /> + + +Abrira a portinhola. Ella preferia passear na estrada. E ambos +s'encaminharam para o velho banco de pedra que os alamos abrigavam em +frente ao portão da Torre. Gonçalo sacudiu com o +lenço a ponta do banco.<br /> + + +<br /> + + +―Pois, prima Maria, eu desejava conversar... Mas é +difficil, tão +difficil!... Talvez o melhor seja atacar a questão +brutalmente.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[394]</span> ―Ataque.<br /> + + +<br /> + + +―Então lá vae!... A prima acha que eu perco o +meu tempo se me dedicar á +sua amiga D. Anna?<br /> + + +<br /> + + +Pousada de leve á borda do banco, enrolando attentamente a +seda preta do +guardasolinho, Maria Mendonça tardou, murmurou:<br /> + + +<br /> + + +―Não, acho que o primo não perde o seu tempo...<br /> + + +<br /> + + +―Ah! acha?<br /> + + +<br /> + + +Ella considerava Gonçalo, gozando a sua +perturbação e anciedade.<br /> + + +<br /> + + +―Jesus, prima!... Diga alguma cousa mais!<br /> + + +<br /> + + +―Mas que quer que lhe diga mais? Já lhe declarei em +Oliveira. Ainda sou +muito nova para andar com recadinhos de sentimento. Mas acho que a +Annica é bonita, é rica, é viuva...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo arrancou do banco, erguendo os braços, em +desolação. E, como D. +Maria tambem se erguera, ambos seguiram pela tira de relva que orla os +alamos. Elle quasi gemia, desconsolado:<br /> + + +<br /> + + +―Ora bonita, viuva, rica... Para conhecer esses grandes segredos +não a +incommodava eu, prima!... Que diabo! seja boa rapariga, seja franca! A +prima sabe, de certo já ambas conversaram... Seja franca. +Ella tem por +mim alguma sympathia?<br /> + + +<br /> + + +D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guardasolinho o +trilho +amarellado da relva:<br /> + + +<br /> + + +―Pois está claro que tem...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[395]</span> ―Bravo! Então, se d'aqui a um tempo, passados estes +primeiros mezes de +luto, eu me declarasse, me...<br /> + + +<br /> + + +Ella dardejou a Gonçalo os espertos olhos:<br /> + + +<br /> + + +―Santo Deus, como o primo por ahi vae, a galope... Então +é uma paixão?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo tirou o seu velho chapeu de palha, passou lentamente +os dedos +pelos cabellos. E n'um immenso e triste desabafo:<br /> + + +<br /> + + +―Olhe, prima! É sobretudo a necessidade de me accommodar na +vida! Pois +não lhe parece?<br /> + + +<br /> + + +―Tanto me parece que lhe indiquei o bom poizo... E agora adeus, passa +das cinco horas. Não me quero demorar por causa dos creados.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo protestou, supplicou:<br /> + + +<br /> + + +―Mais um bocadinho!... É tão cedo! Só +outra cousa, com franqueza. Ella +é boa rapariga?<br /> + + +<br /> + + +D. Maria voltára, ao cabo do renque d'alamos, recolhendo +á caleche:<br /> + + +<br /> + + +―Uma pontinha de genio, para animar a existencia. Mas muito boa +rapariga... E uma dona de casa admiravel! O primo não +imagina como anda +a <em>Feitosa</em>. A ordem, o acceio, a regularidade, a +disciplina... Ella +olha por tudo, até pela adega, até pela cocheira!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:<br /> + + +<br /> + + +―Pois se d'aqui a um anno se realisar o grande <span class="pagenum">[396]</span>acontecimento +hei de +gritar por toda a parte que foi a prima Maria que salvou a casa de +Ramires!<br /> + + +<br /> + + +―Por isso eu trabalho, para servir o brazão e o nome! +exclamou ella, +saltando ligeiramente para a caleche, como se fugisse, arremessada +aquella clara confissão.<br /> + + +<br /> + + +O trintanario trepára á almofada. E em quanto os +cavallos folgados +largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:<br /> + + +<br /> + + +―Sabe quem encontrei em Villa Clara? O Titó!<br /> + + +<br /> + + +―O Titó?...<br /> + + +<br /> + + +―Chegou do Alemtejo, vem jantar comsigo. Eu não o trouxe na +carruagem +por decencia, para o não comprometter...<br /> + + +<br /> + + +E a caleche rolou―entre os risos e os doces acenos com que ambos se +afagavam, n'aquella nova concordancia mais calorosa d'uma +conspiração +sentimental.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo largou logo alegremente para Villa-Clara, ao +encontro do Titó. E +já o alvoroçava a idéa de colher do +Titó, intimo da <em>Feitosa</em>, +informações sobre a D. Anna, o seu genio, os seus +modos. A prima Maria, +por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para proveito dos +Mendonças!), +idealisava a noiva. Mas o Titó, o homem mais veridico do +Reino, amando a +Verdade com a antiga devoção de Epaminondas, +apresentaria D. Anna sem um +enfeite nem um desenfeite. <span class="pagenum">[397]</span>E +o Titó... Ah! sob o seu +vozeirão troante, a +sua indolencia bovina, o Titó possuia um espirito muito +attento, muito +penetrante.<br /> + + +<br /> + + +Logo á Portella os dous amigos s'encontraram. E, apesar de +separação tão +curta, o abraço foi estrondoso.<br /> + + +<br /> + + +―Oh sô Gonçalão!...<br /> + + +<br /> + + +―Oh Titósinho querido! tens feito cá uma falta +enorme!... E teu irmão?<br /> + + +<br /> + + +O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapacio e muito fêmea +para velho +de sessenta annos. E elle lá o +avisára:―«Mano João, mano +João! olhe que +assim sempre agarrado aos papeis velhos e ás cachopas novas, +o mano +rebenta!»<br /> + + +<br /> + + +―E por cá? Essa eleição?<br /> + + +<br /> + + +―A eleição agora para outubro, nos +começos d'outubro... De resto, +semsaboria universal. Gouveia na Costa, Manoel Duarte na vindima... Eu +seccadote, murchote, sem veia, até sem appetite.<br /> + + +<br /> + + +―Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.<br /> + + +<br /> + + +―Bem sei, já me disse a prima Maria, que parou um bocado na +Torre... +Ella está na <em>Feitosa</em> com a D. Anna.<br /> + + +<br /> + + +Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na +<em>Feitosa</em>, com a tentação de +desabafar, logo alli +na estrada, sobre o +inesperado <span class="pagenum">[398]</span>romance +que desabrochára. Mas não +ousou! Era um angustiado +acanhamento, como a vergonha de cubiçar assim todos os +restos do pobre +Lucena―o Circulo e a viuva.<br /> + + +<br /> + + +Então, conversando do Alemtejo e do mano João +(que contára muitas +antigualhas massadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram da +Portella á Torre, com tenção de +estirar o passeio até aos Bravaes. Mas, +na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa dos dous convivas +inesperados, +senhores de tão poderoso garfo. Entraram pela porta do pomar +onde um fio +lento d'agoa s'atardava nos regueiros. Aos brados galhofeiros do +Fidalgo +a Rosa accudio, limpando as mãos ao avental. O que! dous +convidados! +Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus nosso +Senhor o +jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprára a uma mulher da +Costa um +cesto de sardinhas, graudas e gordas que regalavam!... O +Titó reclamou +logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os dois amigos +atravessavam o pateo―quando Gonçalo reparou no Bento, +escarranchado no +banco da latada, deante d'uma tigella, e areando com enthusiasmo um +castão de prata lavrada, que emergia de dentro d'uma toalha +enrolada +como d'uma bainha.<br /> + + +<br /> + + +―Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?<br /> + + +<br /> + + +O Bento lentamente saccou da toalha torcida <span class="pagenum">[399]</span>um +chicote, escuro e +comprido, com tres arestas afiadas como as d'um florete.<br /> + + +<br /> + + +―Nem o Snr. Dr. sabia! Estava no sotão. Agora de tarde +andava lá a +escarafunchar por causa d'uma ninhada de gatos, e detraz d'um bahu dou +com umas esporas de prateleira e com este arrôcho...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo estudou o macisso castão de prata, +sacudio a fina vara que +zinia:<br /> + + +<br /> + + +―Explendido chicote... Oh Titó, hein?... Afiado como um +cutello. E +antigo, muito antigo, com as minhas armas... De que diabo é +feito? +baleia?<br /> + + +<br /> + + +―De cavallo-marinho... Uma arma terrivel. Mata um homem... O mano +João +tem um, mas com castão de metal... Mata um homem!<br /> + + +<br /> + + +―Bem, rematou Gonçalo. Limpa e põe no meu +quarto, Bento! Passa a ser o +meu chicote de guerra!<br /> + + +<br /> + + +Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de +quinzena de +cutim deitada aos hombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira +tomava emfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mostrando +ao Titó o +lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a +tornar a Torre uma fallada maravilha de ceára, vinha e +horta! O Pereira +coçava a barba rala:<br /> + + +<br /> + + +―E tambem a enterrar bom dinheiro! Emfim um gosto sempre valeu mais que +um vintem! E o Fidalgo, como patrão, merece terra em que os +olhos se +esqueçam de regalados!...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[400]</span> ―Oh, Snr. Pereira! rebombou o Titó. Então +não se esqueça de cuidar dos +melões. É uma vergonha! Nunca na Torre se comeu +um bom melão!<br /> + + +<br /> + + +―Pois para o anno, assim Deus nos conserve, já V. Ex.<sup>a</sup> +comerá na Torre +um bom melão!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador―e +apressou para a estrada, +decidido a desenrolar toda a confidencia ao Titó, na +solidão favoravel +do arvoredo dos Bravaes. Mas, apenas recomeçaram a +caminhada, o mesmo +enleio o travou―quasi temendo agora as +informações do Titó, homem +tão +sevéro, de Moral tão escarpada. E todo o demorado +giro pelos Bravaes o +findaram sem que Gonçalo desafogasse. O crepusculo descera, +molle e +quente, quando recolheram―conversando sobre a pesca do savel no +Guadiana.<br /> + + +<br /> + + +Defronte do portão da Torre Videirinha esperava, dedilhando +o violão na +penumbra dos alamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma +aragem, +jantaram na varanda, com dous candieiros accesos. Logo ao desdobrar o +guardanapo o Titó, vermelho e espraiado sobre a cadeira, +declarou «que +graças ao Senhor da Saude, a sede era boa!» Elle e +Gonçalo praticaram as +usadas façanhas de garfo e de copo. Quando o Bento servio o +café uma +immensa e lustrosa lua nova surgia, ao fundo da quinta escura, por traz +dos outeiros de Valverde. Gonçalo, enterrado n'uma cadeira +de vime, +accendeu <span class="pagenum">[401]</span>o +charuto com beatitude. Todos os tedios e incertezas d'essas +semanas se despegavam da sua alma como cinza apagada, brevemente +varrida. E foi sentindo menos a doçura da noite, que um +sabor melhor á +vida desanuviada, que exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, senhores, agora, está uma delicia!...<br /> + + +<br /> + + +Videirinha, depois d'um curto cigarro, retomára o +violão. Atravez da +quinta, pedaços de muros caiados, algum trilho de rua mais +descoberto, a +agua do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros; e +a +quietação do arvoredo, da claridade, da noite, +penetravam n'alma com +adormecedora caricia. Titó e Gonçalo saboreavam o +famoso cognac de +Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente enlevados no +Videirinha―que recuára para o fundo da varanda, se +envolvera em sombra. +Nunca o bom cantador ferira as cordas com +inspiração mais enternecida. +Até os campos, o ceu inclinado, a lua cheia sobre as +collinas, escutavam +os queixumes do <em>fado</em> da Ariosa. E no escuro, sob +a varanda, o pigarro +da Rosa, os passos abafados dos creados, algum sumido riso de rapariga, +o bater das orelhas d'um perdigueiro―eram como a presença +d'um povo +suavemente attrahido pelo descante formoso.<br /> + + +<br /> + + +Assim a noite se alongou, a lua subio com solitario <span class="pagenum">[402]</span>fulgor. +Titó, pesado +do brodio, adormecêra. E como sempre, para findar, Videirinha +atacou +ardentemente o <em>Fado dos Ramires</em>:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Quem te verá sem que +estremeça,<br /> + + +Torre de Santa Ireneia,<br /> + + +Assim tão negra e callada<br /> + + +Por noites de lua cheia...</div> + + +<br /> + + +E lançou então uma quadra nova, que +trabalhára n'essa semana com amor +sobre uma erudita nota do bom Padre Sueiro. Era a gloria magnifica de +Paio Ramires, Mestre do Templo―a quem o Papa Innocencio, e a Rainha +Branca de Castella, e todos os Principes da Christandade supplicam que +se arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Luiz Rei de +França, +captivo nas terras de Egypto...<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Que só em Paio Ramires<br /> + + +Põe agora o mundo a +esperança...<br /> + + +Que junte os seus Cavalleiros<br /> + + +E que salve o Rei de França!</div> + + +<br /> + + +E por este avô e tal façanha até +Gonçalo se interessou―acompanhando o +canto, n'um tremulo esganiçado, de braço erguido:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Ai, que junte os seus cavalleiros<br /> + + +E que salve o Rei de +França!...</div> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[403]</span> +Ao rolar mais forte do côro Titó descerrou as +palpebras, arrancou do +canapé o corpansil immenso―e declarou que marchava para +Villa Clara:<br /> + + +<br /> + + +―Estou derreado! Sempre em jornada e sem dormir, desde hontem +ás quatro +da manhã que larguei de Cidadelhe... Caramba, dava agora, +como aquelle +rei grego, um crusado por um burro!<br /> + + +<br /> + + +Então Gonçalo, animado pelo cognac, tambem se +ergueu com uma resolução +quasi alegre:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Titó, antes de sahires anda cá dentro que +quero fallar comtigo a +respeito d'um caso!<br /> + + +<br /> + + +Agarrára um dos candieiros, penetrou na sala de jantar onde +errava o +cheiro de magnolias morrendo n'um vaso. E ahi, sem +preparação, com os +olhos bem decididos, bem cravados no Titó―que o seguira +arrastadamente, +ainda se espreguiçava:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Titó, ouve lá e sê franco. Tu ias +muito á <em>Feitosa</em>... Que te +parece aquella D. Anna?<br /> + + +<br /> + + +Titó, que despertára como ao rebentar d'um +morteiro, considerou Gonçalo +com assombro:<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa! Mas a que proposito?...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo atalhou, na pressa de colher rapidamente uma certeza:<br /> + + +<br /> + + +―Olha! Eu para ti não tenho segredos. N'estas ultimas +semanas houveram +ahi umas conversas, uns encontros... Emfim, para resumir, se d'aqui a +<span class="pagenum">[404]</span>tempos eu pensasse +em casar com a D. Anna, creio que ella, por seu +lado, +não recusava. Tu ias á <em>Feitosa</em>. +Tu sabes... Que +tal rapariga é ella?<br /> + + +<br /> + + +Titó crusára os braços violentamente:<br /> + + +<br /> + + +―Pois tu vaes casar com a D. Anna?<br /> + + +<br /> + + +―Homem, não vou casar. Não sigo esta noite para +a Egreja. Por ora quero +só informações... E de quem as posso +ter, mais francas e mais seguras, +do que de ti, que és meu amigo e que a conheces?<br /> + + +<br /> + + +Titó não descrusára os +braços―levantando para o Fidalgo da Torre a face +honesta e sevéra:<br /> + + +<br /> + + +―Pois tu pensas em casar com a D. Anna, tu, Gonçalo Mendes +Ramires?...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo atirou um gesto de impaciencia e fartura:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! se me vens com a fidalguia e com o Paio Ramires...<br /> + + +<br /> + + +O Titó quasi berrou, na sua indignação:<br /> + + +<br /> + + +―Qual fidalguia! É que um homem de bem, como tu, +não pensa em casar com +uma creatura como ella!... Fidalguia?... Sim! Mas fidalguia d'alma e de +coração!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo emmudeceu, trespassado. Depois, com uma serenidade a +que se +forçára, argumentou, deduzio:<br /> + + +<br /> + + +―Bem! tu então sabes outras cousas... Eu por <span class="pagenum">[405]</span>mim sei que +ella é bonita +e rica: sei tambem que é séria, por que nunca +sobre ella se rosnou nem +aqui nem em Lisboa: são qualidades para se casar com uma +mulher... Tu +agora affianças que se não pode casar com ella. +Portanto sabes outras +cousas... Dize.<br /> + + +<br /> + + +Foi então o Titó que emmudeceu, immovel deante do +Fidalgo como se o laço +d'uma corda o colhesse e o travasse. Por fim, soprando, com um +esforço +enorme:<br /> + + +<br /> + + +―Tu não me chamaste para eu depôr como +testemunha... Em principio, sem +explicações, perguntas se podes casar com essa +mulher. E eu, sem +explicações, em principio, declaro que +não... Que diabo queres mais?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo exclamou, revoltado:<br /> + + +<br /> + + +―Que quero? Pelo amor de Deus, Titó!... Suppõe +tu que estou doidamente +apaixonado pela D. Anna, ou que tenho um interesse immenso em casar com +ella... Que não estou, nem tenho: mas suppõe! +N'esse caso não se desvia +um amigo d'um acto em que elle está tão +fundamente empenhado, sem lhe +apresentar uma razão, uma prova...<br /> + + +<br /> + + +Assim apertado Titó baixou a cabeça, que +coçou com desespero. Depois +acobardadamente, para escapar, adiou a contenda:<br /> + + +<br /> + + +―Olha, Gonçalo, eu estou muito estafado. Tu não +<span class="pagenum">[406]</span>vaes a esta hora +para a +Egreja: e ella menos, que o outro marido ainda não arrefeceu +na cova. +Então ámanhã conversamos.<br /> + + +<br /> + + +Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta da varanda, berrando +pelo +Videirinha:<br /> + + +<br /> + + +―São que horas, Videira! Toca a abalar, que não +dormi desde Cidadelhe.<br /> + + +<br /> + + +Videirinha, que preparava com esmero um grog frio, esvasiou +atabalhoadamente o copo, recolheu o violão precioso. E +Gonçalo não os +deteve, esfregando silenciosamente as mãos, amuado com +aquella recusa do +Titó tão desamiga e teimosa. Como sombras +atravessaram uma sala onde +dormia, esquecida desde os Ramires do seculo XVIII, uma espineta de +charão. No patamar da escada que conduzia á +portinha verde, Gonçalo, +para os allumiar, erguera um castiçal. Titó +accendeu um cigarro á vela. +A sua mão cabelluda tremia.<br /> + + +<br /> + + +―Então, entendido... Appareço +ámanhã, Gonçalo.<br /> + + +<br /> + + +―Quando quizeres, Titó.<br /> + + +<br /> + + +E no secco assentimento do Fidalgo transparecia tanto despeito―que +Titó +hesitou nos estreitos degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.<br /> + + +<br /> + + +Videirinha, já na estrada, considerava o ceu, a luminosa +serenidade:<br /> + + +<br /> + + +―Que linda noite, snr. Doutor!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[407]</span> ―Linda, Videirinha... E obrigado. Vossê hoje tocou +divinamente!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo entrára na sala dos retratos, +pousára apenas o castiçal―quando, +por baixo da varanda aberta, o vozeirão do Titó +retumbou:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo, desce cá abaixo.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo rolou pelos degraus com soffreguidão. Para +além dos alamos, no +luar da estrada, Videirinha afinava o violão. E apenas a +face do Fidalgo +surdio na claridade da porta o Titó, que esperava com o +chapéo para a +nuca, desabafou:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo, tu ficaste amuado... É tolice! E +entre nós não quero +sombras. Então lá vae! Tu não podes +casar com essa mulher por que ella +teve um amante. Não sei se antes ou depois d'esse teve +outro. Não ha +creatura mais manhosa, nem mais disfarçada. Não +me venhas agora com +perguntas. Mas fica certo que ella teve um amante. Sou eu que t'o +affirmo: e tu sabes que eu nunca minto!<br /> + + +<br /> + + +Bruscamente metteu á estrada, com os possantes hombros +vergados. Gonçalo +não se movera de sobre os degraus de pedra, deante dos mudos +alamos, +como elle immoveis. Uma palavra passára, irreparavel, no +macio silencio +da noite e da lua―e eis o alto sonho que elle construira sobre a D. +Anna e a sua belleza e os seus duzentos contos despenhado no lodo! +Lentamente subio, repenetrou <span class="pagenum">[408]</span>na +sala. Por cima da chamma alta da vela, +n'um painel fusco, uma face acordára, uma secca, amarellada +face, de +altivos bigodes negros, que se inclinava, attenta como reparando. E +longe, Videirinha espalhava pelos campos adormecidos os ingenuos versos +celebrando a gloria tamanha da Casa illustre:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Que só em Paio Ramires<br /> + + +Põe agora o mundo +esperança...<br /> + + +Que junte os seus cavalleiros<br /> + + +E que salve o Rei de +França!...</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +X</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto, +remoeu a amarga certeza +de que sempre, atravez de toda a sua vida (quasi desde o collegio de S. +Fiel!), não cessára de padecer +humilhações. E todas lhe resultavam de +intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como +o vôo para +qualquer ave―só para elle constantemente rematados por +dôr, vergonha ou +perda! Á entrada da vida escolhe com enthusiasmo um +confidente, um +irmão, que traz para a quieta intimidade da Torre―e logo +esse homem se +apodéra ligeiramente do coração de +Gracinha e ultrajosamente a abandona! +Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida +Politica―e +logo o Acaso o fórça a que se renda e se acolha +á influencia d'esse +mesmo homem, agora Auctoridade poderosa, por elle durante todos esses +annos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao +amigo, +agora restabelecido na sua convivencia, <span class="pagenum">[410]</span>a +porta dos Cunhaes, confiado +na +seriedade, no rigido orgulho da irmã―e logo a +irmã s'abandona ao antigo +enganador, sem lucta, na primeira tarde em que se encontra com elle na +sombra favoravel d'um caramanchão! Agora pensa em casar com +uma mulher +que lhe offerecia com uma grande belleza uma grande fortuna―e +immediatamente um companheiro de Villa-Clara passa e +segreda:―«A mulher +que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia +d'amantes!» De certo +essa mulher não a amava com um amor nobre e forte! Mas +decidira +accommodar nos formosos braços d'ella, muito +confortavelmente, a sua +sorte insegura―e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a +humilhação costumada. Realmente o Destino malhava +sobre elle com rancor +desmedido!<br /> + + +<br /> + + +―E por quê? murmurava Gonçalo, despindo +melancolicamente o casaco. Em +vida tão curta, tanta decepção... +Porquê? Pobre de mim!<br /> + + +<br /> + + +Cahio no vasto leito como n'uma sepultura―enterrou a face no +travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por +aquella sua sorte tão contrariada, tão sem +soccorro. E recordava o +presumpçoso verso do Videirinha, ainda n'essa noite +proclamado ao +violão:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Velha casa de Ramires<br /> + + +Honra e flor de Portugal!</div> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[411]</span> +Como a flor murchára! Que mesquinha honra! E que contraste o +do +derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa +Ireneia, com esses +grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha―todos elles, +se Historia +e Lenda não mentiam, de vidas tão triumphaes e +sonoras! Não! nem sequer +d'elles herdára a qualidade por todos herdada atravez dos +tempos―a +valentia facil. Seu pae ainda fora o bom Ramires destemido―que na +fallada desordem da romaria da Riosa avançava com um +guardasol contra +tres clavinas engatilhadas. Mas elle... Alli, no segredo do quarto +apagado, bem o podia livremente gemer―elle nascera com a <em>falha</em>, +a +falha de peor desdouro, essa irremediavel fraqueza da carne que, +irremediavelmente, deante de um perigo, uma ameaça, uma +sombra, o +forçava a recuar, a fugir... A fugir d'um Casco. A fugir +d'um malandro +de suissas louras que, n'uma estrada e depois n'uma venda o insulta sem +motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa +carne, tão espantadiça!<br /> + + +<br /> + + +E a Alma... N'essa calada treva do quarto bem o podia reconhecer +tambem, +gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o +abandonava a qualquer influencia, logo por ella levado como folha secca +por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os +espertos +olhos <span class="pagenum">[412]</span>e lhe +aconselha por traz do leque que se interesse pela D. +Anna―logo elle, fumegando d'esperança, ergue sobre o +dinheiro e a +belleza de D. Anna uma presumpçosa torre de ventura e luxo. +E a Eleição? +essa desgraçada Eleição? Quem o +empurrára para a Eleição, e para a +reconciliação indecente com o Cavalleiro, e para +os desgostos d'ahi +manados? O Gouveia, só com leves argucias, murmuradas por +cima do +cache-nez desde a loja do Ramos até á esquina do +Correio! Mas que! mesmo +dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe +impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e +gravatas!―Homem de tal +natureza, por mais bem dotado na Intelligencia, é massa +inerte a que o +Mundo constantemente imprime fórmas varias e contrarias. O +João Gouveia +fizera d'elle um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer d'elle +um beberrão immundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao +pescoço, em +vez d'uma gravata de seda, uma colleira de couro! Que miseria! E +todavia +o Homem só vale pela Vontade―só no exercicio da +Vontade reside o goso +da Vida. Por que se a Vontade bem exercida encontra em torno +submissão―então é a delicia do +dominio sereno: se encontra em torno +resistencia―então é a delicia maior da lucta +interessante. Só não sahe +goso forte e viril da inercia que se deixa arrastar mudamente, n'um +silencio e macieza <span class="pagenum">[413]</span>de +cera... Mas elle, elle, descendendo de tantos +varões famosos pelo Querer―não conservaria, +escondida algures no seu +Ser, dormente e quente como uma braza sob cinza, uma parcella d'essa +energia hereditaria?... Talvez! nunca porém n'esse +pêco e encafuado +viver de Santa Ireneia a fagulha despertaria, resaltaria em chamma +intensa e util. Não! pobre d'elle! Mesmo nos movimentos da +Alma onde +todo o homem realisa a liberdade pura―elle soffreria sempre a +oppressão +da Sorte inimiga!<br /> + + +<br /> + + +Com outro suspiro mais se enterrou, s'escondeu sob a roupa. +Não +adormecia, a noite findava―já o relogio de +charão, no corredor, batera +cavamente as quatro horas. E então, atravez das palpebras +cerradas, no +confuso cançasso de tantas tristezas revolvidas, +Gonçalo percebeu, +atravez da treva do quarto, destacando pallidamente da treva, faces +lentas que passavam...<br /> + + +<br /> + + +Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestraes, com +cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flammejando como no fragor de +uma batalha, outras sorrindo magestosamente como na pompa d'uma +gala―todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E +Gonçalo, +espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia n'essas +faces as +veridicas feições de velhos Ramires, ou +já assim comtempladas em +denegridos retratos, ou por elle assim <span class="pagenum">[414]</span>concebidas, +como concebera as de +Tructesindo, em concordancia com a rijeza e explendor dos seus feitos.<br /> + + +<br /> + + +Vagarosas, mais vivas, ellas cresciam d'entre a sombra que latejava +espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam tambem, +robustissimos +corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arnezes +d'aço lampejante, embuçados em fuscos mantos de +revoltas prégas, +cingidos por faustosos gibões de brocado onde scintillavam +as pedrarias +de collares e cintos;―e armados todos, com as armas todas da Historia, +desde e clava gôda de raiz de roble errissada de puas, +até ao espadim de +sarau enlaçarotado de seda e ouro.<br /> + + +<br /> + + +Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo +não duvidava da +realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os +seus +formidaveis avós historicos, que, das suas tumbas dispersas +corriam, se +juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove vezes secular―e formavam +em torno do seu leito, do leito em que elle nascera, como a Assembleia +magestosa da sua raça resurgida. E até mesmo +reconhecia alguns dos mais +esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto +do tio Duarte +e o Videirinha gemendo fielmente o seu «fado», lhe +andavam sempre na +imaginação...<br /> + + +<br /> + + +Aquelle além, com o brial branco a que a cruz <span class="pagenum">[415]</span>vermelha +enchia o +peitoral, era certamente Gutierres Ramires o <em>d'Ultramar</em>, +como quando +corria da sua tenda para a escalada de Jerusalem. No outro, +tão velho e +formoso, que estendia o braço, elle adivinhava Egas Ramires, +negando +acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e á adultera +Leonor! +Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão +real de +Castella, quem, senão Diogo Ramires, <em>o Trovador</em>, +ainda na +alegria da +radiosa manhã d'Aljubarrota? Deante da incerta claridade do +espelho +tremiam as fôfas plumas escarlates do morrião de +Paio Ramires, que +s'armava para salvar S. Luiz Rei de França. Levemente +balançado, como +pelas ondas humildes d'um mar vencido, Ruy Ramires sorria ás +naus +inglezas que ante a prôa da sua Capitanea submissamente +amainavam por +Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pagem do +Guião +d'El-Rey nos campos fataes de Alcacer, sem elmo, rota a +couraça, +inclinava para elle a sua face de donzel, com a doçura grave +d'um avó +enternecido...<br /> + + +<br /> + + +Então, por aquella ternura attenta do mais poetico dos +Ramires, Gonçalo +sentio que a sua Ascendencia toda o amava―e da escuridão +das tumbas +dispersas accudira para o velar e soccorrer na sua fraqueza. Com um +longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos +seus avós resurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que +<span class="pagenum">[416]</span>sobre a sua +vida, sem descanço, amontoava tristeza, vergonha e perda! E +eis que +subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado +brado:―«Neto, +doce neto, toma a minha lança nunca partida!...» E +logo o punho d'uma +clara espada lhe roçou o peito, com outra grave voz que o +animava:―«Neto, doce neto, toma espada pura que lidou em +Ourique!...» E +depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, offertada com +altiva certeza:―«Que não derribará +essa acha, que derribou as portas +d'Arzilla?...»<br /> + + +<br /> + + +Como sombras levadas n'um vento transcendente todos os avós +formidaveis +perpassavam―e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e +provadas armas, todas, atravez de toda a Historia, ennobrecidas nas +arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castellos e +Villas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno +do leito, um heroico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente +gritavam:―«Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte +inimiga!...» +Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras +ondeantes, +volveu:―«Oh Avós, de que me servem as vossas +armas―se me falta a vossa +alma?...»<br /> + + +<br /> + + +Acordou, muito cedo, com a enredada lembrança d'um pesadello +em que +fallára a mortos:―e, sem a preguiça, que sempre +o amollecia nos +colchões, enfiou um roupão, escancarou as +vidraças. Que formosa <span class="pagenum">[417]</span>manhã! +uma manhã dos fins de Septembro, macia, lustrosa e fina; nem +uma nuvem +lhe desmanchava o vasto, o immaculado azul; e o sol já +pousava nos +arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outomnal. +Mas, apesar +de lhe respirar allentamente o brilho e a pureza, Gonçalo +permaneceu +toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no +seu espirito +opprimido, como nevoas em valle muito fundo. E foi ainda com um +suspiro, +arrastando tristonhamente as chinellas, que puxou o cordão +da campainha. +O Bento não tardou com a infusa da agoa quente para a barba. +E +acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquelle +silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Snr. +Doutor passára mal a noite...<br /> + + +<br /> + + +―Pessimamente!<br /> + + +<br /> + + +Bento declarou logo, com vivacidade e +reprovação―que certamente fizera +mal ao Snr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado, +muito excitante... Bom para o Snr. D. Antonio, homemzarrão +pesado. Mas o +Snr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar n'aquelle cognac. Ou +então, meio calice escasso.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo ergueu a cabeça, na surpreza de encontrar +logo ao começo do seu +dia e tão flagrante, aquelle dominio que todos sobre elle se +arrogavam―e de que tanto se lastimava, atravez de toda a amarga noite!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[418]</span> +Eis ahi o Bento mandando―marcando a sua ração de +cognac! E justamente o +Bento insistia:<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Doutor bebeu mais de tres calices. Assim não +convém... Eu +tambem tive culpa em não tirar a garrafa...<br /> + + +<br /> + + +Então, perante despotismo tão declarado, o +Fidalgo da Torre teve uma +brusca revolta:<br /> + + +<br /> + + +―Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que +preciso e que quero!<br /> + + +<br /> + + +Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a agua na infusa:<br /> + + +<br /> + + +―Esta agua está morna! exclamou logo. Já me +tenho fartado de dizer! +Para a barba, preciso sempre agua a ferver.<br /> + + +<br /> + + +O Bento, gravemente, mergulhou tambem o dedo na agua:<br /> + + +<br /> + + +―Pois esta agua está quasi a ferver... Nem para a barba se +necessita +agua mais quente.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo encarou o Bento com furor. O que! mais +objecções, mais leis!<br /> + + +<br /> + + +―Pois vá immediatamente buscar outra agua! Quando eu +peço agua quente, +pretendo que venha em cachão. Irra! tanta +sentença!... Eu não quero +moral, quero obediencia!<br /> + + +<br /> + + +O Bento considerou Gonçalo atravez d'um espanto que lhe +inchára a face. +Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando <span class="pagenum">[419]</span>a +infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua +violencia. Coitado, não era +culpa do Bento se a vida lhe andava a elle tão estragada e +sacudida! +Depois, em casa tão antiga, não destoava a +tradição dos antigos aios. E +o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas +ascendencia, e livre fallar bem lhe cabiam―bem os merecia por +tão +longa, tão provada dedicação...<br /> + + +<br /> + + +O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E +Gonçalo logo docemente, para o adoçar:<br /> + + +<br /> + + +―Dia muito bonito, hein, Bento?<br /> + + +<br /> + + +O velho rosnou, ainda amuado:<br /> + + +<br /> + + +―Muito bonito.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciencia de +reatar com o +Bento, de lhe restabelecer a supremacia amoravel. E por fim mais doce, +quasi humilde:<br /> + + +<br /> + + +―Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavallo antes +d'almoço. Que te parece? Talvez me faça bem aos +nervos... Com effeito, +aquelle cognac não me convém... Então, +Bento, faze o favor, grita ahi ao +Joaquim que me tenha a egoa prompta immediatamente. Com certeza me +acalma, uma galopada... E no banho agora a agua bem esperta, bem +quente. +Tambem me acalma a agua quente. Por isso necessito sempre agua bem +quente, a ferver. <span class="pagenum">[420]</span>Mas +tu, com essas tuas velhas idéas... +Pois todos os +medicos o declaram. Para a saude agua quente, bem quente, a sessenta +graus!<br /> + + +<br /> + + +E depois do rapido banho, em quanto se vestia, abriu mais familiarmente +ao velho aio a intimidade das suas tristezas:<br /> + + +<br /> + + +―Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, +não era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito +carregada, +homem! Depois estou farto d'esta eterna Villa-Clara, da eterna +Oliveira. +Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, +distracção +grande.<br /> + + +<br /> + + +O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Snr. +Doutor +brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda +distracção, nas Côrtes.<br /> + + +<br /> + + +―Eu sei lá se vou ás Côrtes, homem! +Não sei nada, tudo falha... Qual +Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem immensa, +á Hungria, á Russia, +a terras onde haja aventuras.<br /> + + +<br /> + + +O Bento sorriu superiormente d'aquella +imaginação. E apresentando ao +Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:<br /> + + +<br /> + + +―Com effeito, na Russia parece que não faltam aventuras. +Anda tudo a +chicote, diz o <em>Seculo</em>... Mas aventuras, Snr. +Doutor, até a +gente as +encontra na estrada... Olhe! o paesinho de V. Ex.<sup>a</sup>, +que Deus haja, foi +lá em baixo deante do portão que <span class="pagenum">[421]</span>teve a bulha com +o Dr. Avelino da +Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no +braço...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo calçava as luvas d'anta, mirando o +espelho:<br /> + + +<br /> + + +―Pobre papá, coitado, tambem teve pouca sorte... E por +chicote, ó +Bento, dá cá aquelle chicote de cavallo marinho +que tu hontem areaste. +Parece que é uma boa arma.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Ao sahir o portão, o Fidalgo da Torre metteu a egoa, sem +destino, n'um +passo indolente, pela estrada costumada dos Bravaes. Mas no Casal Novo, +onde dous pequenos jogavam á bola debaixo das carvalheiras, +pensou em +visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe concertaria os nervos a +companhia de tão sereno e generoso velho. E, se elle o +convidasse a +almoçar, gastaria os seus cuidados visitando essa fallada +quinta da +<em>Varandinha</em> e cortejando «o +botão de +Rosa».<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo recordava apenas confusamente que o +terraço da <em>Varandinha</em> +dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o logar da +Cerda e a espalhada aldêa de Canta-Pedra, E tomou o caminho +velho que +desce das carvalheiras do Casal Novo, <span class="pagenum">[422]</span>e +penetra no valle, entre o +cabeço +d'Avellan e as ruinas do Mosteiro de Ribadaes, no solo historico onde +Lopo de Bayão derrotára a mesnada de +Lourenço Ramires... Ora enterrada +entre vallados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia +sem belleza, e cansativa: mas as madresilvas nas sebes, por entre as +amoras maduras, rescendiam: o fresco silencio recebia mais frescura e +graça dos fremitos d'aza que o roçavam; e tanto +era o radiante azul nos +ceus serenos que um pouco do seu rebrilho e serenidade s'instillava +n'alma. Gonçalo, mais desannuviado, não se +apressava: na Egreja dos +Bravaes, quando elle passára ao Casal Novo, batiam apenas as +nove horas: +e depois de costear um lameiro d'herva magra parou a accender +pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o +riacho das Donas. Quasi secca pela estiagem, a agoa escura mal corria, +sob as folhas largas dos nenufares, por entre os juncaes que a +atulhavam. Adiante, á orla d'um hervaçal, no +abrigo d'uma moita +d'alamos, relusiam as pedras d'um lavadouro. Na outra margem, dentro +d'um velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam +profundamente, com dous molhos d'alfazema esquecidos nos +regaços. +Gonçalo sorriu do idyllio―depois teve uma surpreza +descobrindo, no +cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Brazão-d'Armas, +<span class="pagenum">[423]</span>um Açor +enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquellas terras outr'ora +pertencessem á Casa:―ou algum dos seus avós +beneficos construira a +ponte, sobre torrente então mais funda, para +segurança dos homens e dos +gados. Quem sabe se o avô Tructesindo, em memoria piedosa de +Lourenço +Ramires, vencido e captivo nas margens d'aquella Ribeira!<br /> + + +<br /> + + +O caminho, para além da ponte, alteava entre campos +ceifados. As mêdas +lourejavam, pesadas e cheias, por aquelle anno de fartura. Ao longe, +dos +telhados baixos d'um logarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos +no +radiante ceu. E lentamente, como aquelles fumos distantes, Gonçalo +sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam +tambem no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o +vôo d'entre +o restolho. Gonçalo galopou sobre ellas, gritando, sacudindo +o seu forte +chicote de cavallo-marinho, que zenia como uma fina lamina.<br /> + + +<br /> + + +Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois +cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira;―e ao +fundo o sol faiscava sobre a cal fresca d'uma parede. Era uma casa +terrea, com porta baixa entre duas janellas envidraçadas, +remendos novos +no telhado e um quinteiro que uma escura e immensa figueira +assombreava. +<span class="pagenum">[424]</span>N'uma esquina +pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma +sebe, onde adiante uma velha cancella abria para a sombra d'uma ramada. +Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma +pilha +de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a +Gonçalo a +de Ramilde. Para além, até a um distante +pinheiral, desciam chãs e +lameiros.<br /> + + +<br /> + + +Sentado n'um banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao +muro, um rapaz grosso, de barrete de lã verde, acariciava +pensativamente +o focinho d'um perdigueiro. Gonçalo parou:<br /> + + +<br /> + + +―Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o bom caminho para +a quinta do +Snr. Visconde de Rio-Manso, a <em>Varandinha</em>?<br /> + + +<br /> + + +O rapasote ergueu a face morena, de buço leve, remechendo +vagamente no +carapuço.<br /> + + +<br /> + + +―Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada até +á pedreira, depois +á esquerda a seguir, sempre rente da varzea...<br /> + + +<br /> + + +Mas n'esse instante assomava á porta um latagão +de suissas louras em +mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonçalo, com +um +sobresalto, reconheceu logo o caçador que o +injuriára na estrada de +Nacejas, o assobiára na venda do Pintainho. O homem +relanceou +superiormente o Fidalgo. Depois, <span class="pagenum">[425]</span>com +a mão encostada +á humbreira, +chasqueou o rapasote:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Manoel, que estás tu ahi a ensinar o caminho, homem! +Este caminho +por aqui não é para asnos!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo sentiu a pallidez que o cobriu―e todo o sangue no +coração, n'um +tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultrage, do mesmo +homem, sem provocação! Apertou os joelhos no +sellim para galopar. E a +tremer, n'um esforço que o engasgava:<br /> + + +<br /> + + +―Vossê é muito atrevido! É +já pela terceira vez! Eu não sou homem para +levantar desordens n'uma estrada... Mas fique certo que o +conheço, e que +não escapa sem lição.<br /> + + +<br /> + + +Immediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou á +estrada, +affrontando a egoa, com as suissas erguidas, um riso de immenso desafio:<br /> + + +<br /> + + +―Então cá estou! Venha agora a +lição... E para diante é que +Vossê já +não passa, seu Ramires de merd...<br /> + + +<br /> + + +Uma nevoa turvou os olhos esgaseados do Fidalgo. E de repente, n'um +inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e +força, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, +atirou a fina +egoa n'um galão terrivel! E nem comprehendeu! O cajado +sarilhára! A egoa +empinava, <span class="pagenum">[426]</span>n'uma +cabeçada furiosa! E Gonçalo +entreviu a mão do homem, +escura, immensa, que empolgava a camba do freio.<br /> + + +<br /> + + +Então, erguido nos estribos, por sobre a immensa +mão, despediu uma +vergastada do chicote silvante de cavallo-marinho, colhendo o +latagão na +face, de lado, n'um golpe tão vivo da aresta aguda que a +orelha pendeu, +despegada, n'um borbutar de sangue. Com um berro o homem recuou, +cambaleando. Gonçalo galgou sobre elle, n'outro arremesso, +com outra +fulgurante chicotada, que o apanhou pela bôca, lhe rasgou a +bôca, +decerto lhe espedaçou dentes, o atirou, urrando, para o +chão. As patas +da egoa machucavam as grossas coxas estendidas,―e, +debruçado, Gonçalo +ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pescoço, +até que o corpo +jazeu molle e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a +camisa.<br /> + + +<br /> + + +Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um salto no selim, +avistou o +rapasote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas +já +hesitando aterrado.<br /> + + +<br /> + + +―Ah, cão!<br /> + + +<br /> + + +Lançou a egoa, com o chicote alto:―o rapaz, espavorido, +corria +lentamente através do terreiro, para saltar o vallado, +escapar para as +varzeas ceifadas!<br /> + + +<br /> + + +―Ah cão, ah cão! berrava Gonçalo. +Estonteado, <span class="pagenum">[427]</span>o +rapaz tropeçára n'uma +viga solta. Mas já se endireitava, largava, quando o Fidalgo +o alcançou +com uma cutilada do chicote no pescoço, logo alagado de +sangue. +Estendendo as mãos incertas, ainda cambaleou, abateu, +estalou contra a +aresta d'um pilar, a cabeça mais sangue jorrou. +Então Gonçalo, a +arquejar, deteve a egoa. Ambos os homens jaziam immoveis! Santo Deus! +Mortos? D'ambos corria o sangue sobre a terra secca. O Fidalgo da Torre +sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do +quinteiro.<br /> + + +<br /> + + +―Ai que mataram o meu rapaz!<br /> + + +<br /> + + +Era um velho que corria da cancella, n'uma carreira agachada, rente com +a sebe, para a porta da casa. Tão certeiramente o Fidalgo +arremessou a +egoa, para o deter―que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava +coberto de suor e d'espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e +Gonçalo alçado nos estribos, com a face +chammejante, o chicote a +descer―o velho, n'um terror, desabou sobre os joelhos, gritou +anciadamente:<br /> + + +<br /> + + +―Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma de +seu pae Ramires.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo ainda o manteve assim um momento, supplicante, a +tremer, sob o +justiceiro faiscar dos seus olhos:―e gosava soberbamente aquellas +callosas mãos que se erguiam para a sua misericordia, +<span class="pagenum">[428]</span>invocavam o nome +de Ramires, de novo temido, repossuido do seu prestigio heroico. +Depois, +recuando a egoa:<br /> + + +<br /> + + +―Esse malandro do rapazola desfechou a caçadeira!... +Vossê tambem não +tem boa cara! Que ia vossê correndo para casa? Buscar outra +espingarda?<br /> + + +<br /> + + +O velho alargou desesperadamente os braços, offerecia o +peito, em +testemunho da sua verdade:<br /> + + +<br /> + + +―Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um cajado!... Assim +Deus me +ajude e me salve o rapaz!<br /> + + +<br /> + + +Mas Gonçalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada +de Ramilde, +bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra +caçadeira, +desfechar traiçoeiramente. E então com a presteza +d'espirito que a lucta +afiára concebeu contra qualquer emboscada, um ardil seguro. +E até n'um +relance sorrio recordando «traças de +guerra», de D. Garcia Viegas, o +<em>Sabedor</em>.<br /> + + +<br /> + + +―Marche lá deante de mim, sempre a direito, pela estrada!<br /> + + +<br /> + + +O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas +mãos nas +coxas, n'uma ancia que o engasgava:<br /> + + +<br /> + + +―Oh meu Fidalgo, oh meu fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem +acordo?...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[429]</span> ―O rapaz está só atordoado, já se +mecheu... E o outro malandro +tambem... Marche vossê!<br /> + + +<br /> + + +E ao irresistivel mando de Gonçalo, o velho, depois de +sacudir +demoradamente as joalheiras, começou a avançar +pela estrada, vergado +deante da egoa, como um captivo, com os longos braços a +bambolear, +rosnando, n'um rouco assombro:―Ai como ellas se armam! Ai Santo nome de +Deus, que desgraça! A espaços estacava, +esgaseando para Gonçalo um olhar +torvo onde negrejava medo e odio... Mas logo o commando forte o +empurrava: «Marche!...» E marchava. Adiante, onde +se erguia um cruseiro +em memoria do Abbade Paguim, assassinado, Gonçalo reconheceu +um largo +atalho para a estrada dos Bravaes que chamavam o <em>Caminho da +Moleira</em>. E +para ahi enfiou o velho, que no pavor d'aquella asinhaga solitaria, +pensando que Gonçalo o afastava de caminhos trilhados para o +matar +commodamente, rompeu a gemer. «Ai que isto é o fim +da minha vida! Ai +Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!» E +não cessou de gemer, +emmaranhando os passos tropegos, até que desembocaram na +estrada alta +entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Então +de repente, +com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as +mãos ao +barrete:<br /> + + +<br /> + + +―Oh meu senhor, o Fidalgo não me leva preso?...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[430]</span> ―Marche! Corra! Que agora a egoa trota!<br /> + + +<br /> + + +A egoa trotou―o velho correu, desengonçado, arquejando como +um folle de +forja. Uma milha galgada, Gonçalo parou, farto do captivo, +da lenta +marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse +uma arma, e virasse para o alcançar, se desforrar―entraria +elle, n'um +galope solto, o portão da Torre! Então bradou, +com o sobr'olho duro:<br /> + + +<br /> + + +―Alto! Agora pode voltar para traz... Mas, antes: Como se chama aquelle +seu logar?<br /> + + +<br /> + + +―A Grainha, meu fidalgo.<br /> + + +<br /> + + +―E vossê como se chama, e o rapaz?<br /> + + +<br /> + + +O velho com a boca aberta, esperou, hesitou:<br /> + + +<br /> + + +―Eu sou João, o meu rapaz Manoel... Manoel Domingues, meu +Fidalgo.<br /> + + +<br /> + + +―Vossê naturalmente mente. E o outro malandro, de suissas +louras?<br /> + + +<br /> + + +D'um folego, o velho gritou:<br /> + + +<br /> + + +―Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de +Nacejas, que chamam o +<em>Caça-abraços</em>, e que tanto me +desencaminhou o +rapaz...<br /> + + +<br /> + + +―Bem! Pois diga lá a esses dous marotos que me atacaram a +pau e a tiro, +que não ficam quites sómente com a sova, e que +agora têm de se entender +com a Justiça... Ella lá irá! Largue!<br /> + + +<br /> + + +Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o velho <span class="pagenum">[431]</span>que +abalára, forçando +as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela +conhecida estrada, galopou para a Torre.<br /> + + +<br /> + + +E ia levado, galopando n'uma alegria tão fumegante, que o +lançava em +sonho e devaneio. Era como a sensação sublime de +galopar pelas alturas, +n'um corcel de lenda, crescido magnificamente, roçando as +nuvens +lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam n'elle um +verdadeiro Ramires, dos antigos na Historia, dos que derrubavam torres, +dos que mudavam a configuração dos Reinos,―e +erguiam esse maravilhado +murmurio que é o sulco dos fortes passando! Com +razão! com razão! Que +ainda de manhã, ao sahir da Torre, não ousaria +marchar para um rapazola +decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na +solidão +d'aquella casa terrea, quando o bruto das suissas louras lhe atira a +suja injuria―eis um <em>não sei quê</em> +que se +desprende dentro do seu ser, e +transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido e lhe enrija cada +nervo de força destra, e lhe espalha na pelle o desprezo e a +dôr, e lhe +repassa fundamente a alma de fortaleza indomavel... E agora alli +voltava, como um varão novo, soberbamente virilisado, +liberto emfim da +sombra que tão dolorosamente assombreára a sua +vida, a sombra molle e +torpe do seu mêdo! Por que sentia que, agora se todos os +<span class="pagenum">[432]</span>valentões +de +Nacejas o affrontassem n'um rijo erguer de cajados―esse +<em>não sei quê</em>, +lá dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o +arremessaria, com cada +veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga! +Emfim era <em>um homem</em>! Quando em Villa Clara o +Manuel Duarte, o +Titó com +o peito alto, contassem façanhas, já elle +não enrolaria encolhidamente o +cigarro―encolhido, mudo não sómente pela +ausencia desconsoladora das +valentias, mas sobretudo pela humilhante +recordação das fraquezas. E +galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para +investidas mais bellas. Para além dos Bravaes, mais galopou, +ao avistar +a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, +agora +<em>mais sua</em>, e que uma affinidade nova fundada em +gloria e +força, o +tornava mais senhor da sua Torre!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o +portão grande, sempre +cerrado, offerecia uma entrada triumphal com os dous pesados batentes +escancarados. Elle atirou a egoa para o meio do pateo, bradando:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Joaquim! Oh Manoel! Eh lá! um de vossês!<br /> + + +<br /> + + +O Joaquim surdiu da cavallariça, de mangas +arregaçadas, com uma esponja +na mão.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[433]</span> ―Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada +de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma +grande desordem! +Creio que dei cabo de dous homens... Ficaram n'uma poça de +sangue! Não +digas que vaes da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que succedeu, +se estão mortos... Depressa, depressa!<br /> + + +<br /> + + +O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavallariça escura. E +de cima +d'uma das varandas do corredor, partiram +exclamações assombradas:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!<br /> + + +<br /> + + +Era o Barrôlo. Sem desmontar, sem surpresa ante a +apparição do Barrôlo, +Gonçalo atirou logo para a varanda a historia da bulha, +tumultuosamente. +Um malandro que o insultára... Depois outro, que desfechou a +caçadeira... E ambos derribados sob as patas da egoa, n'uma +poça de +sangue...<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo despegou da varanda―e n'outro relance, investia +pelo pateo, +com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? +mas então?... E +Gonçalo, desmontando, tremulo agora do cançasso e +da emoção, esmiuçou +mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o +injuriou! A esse +rasgára a bôca, decepára a orelha... +Depois o outro, um rapasola, +desfecha uma carabina... Elle corre, tão vivamente o colhe +com uma +cutilada que o estira, para cima d'uma pedra, como morto...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[434]</span> ―Uma cutilada?<br /> + + +<br /> + + +―Com este chicote, Barrôlo! Arma terrivel!... Bem dizia o +Titó!... +Estou perdido se não levo este chicote.<br /> + + +<br /> + + +Esgaseado, Barrôlo remirava o chicote. Sim, com effeito ainda +manchado +de sangue.―Então Gonçalo attentou no chicote, no +sangue... Sangue de +gente! sangue fresco, que elle arrancára!... E por entre o +seu orgulho, +uma piedade passou que o empallideceu:<br /> + + +<br /> + + +―Que desgraça, vejam que desgraça!<br /> + + +<br /> + + +Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nodoas de sangue, +que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E +immediatamente anciou por se despir, se lavar,―galgou a escada, com o +Barrôlo que enxugava o suor, balbuciava:―«Ora uma +d'essas! E de +repente! Assim na estrada!...» Mas no corredor, subindo n'uma +carreira +da cosinha, appareceu Gracinha, pallida, com a Rosa atraz, que +enterrava +os dedos entre o lenço e o cabello n'um pavor mudo.<br /> + + +<br /> + + +―Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!<br /> + + +<br /> + + +Então, encontrando Gracinha junto d'elle, na Torre, n'esse +momento +magnifico do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido, +Gonçalo +esqueceu o André, o Mirante, as sombrias +humilhações, e no abraço em que +a colheu, nos fortes beijos que atirou <span class="pagenum">[435]</span>á +face querida, todo +o seu amuo +se fundio em ternura. Com ella ainda chegada ao +coração, suspirou de +leve, como uma creança cançada. Depois apertando +as duas pobres mãos +tremulas, com um lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se lhe +humedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:<br /> + + +<br /> + + +―Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrivel, eu que sou +tão pacato! +imagina tu...<br /> + + +<br /> + + +E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para +a Rosa, +estarrecida, a historia do encontro, e o sujo ultrage, o tiro que +falhára e os malandros lacerados a chicote, e o velho +marchando como um +captivo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, n'um +desmaio, Gracinha murmurou:<br /> + + +<br /> + + +―Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo, mais vermelho que uma pionia, berrou logo que taes +malandros +mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo +tremendo d'Africa! O Gouveia! era necessario mandar a Villa-Clara, +avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o +soalho―e foi +o Bento, que se ergueu deante de Gonçalo, bracejando n'uma +ancia:<br /> + + +<br /> + + +―Então, Snr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[436]</span> +E á porta do escriptorio, onde todos pararam, novamente +attentos, a +historia recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia, +n'um lento +riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos humidos a reluzir, +como se tambem triumphasse. Por fim, triumphou, com estrondo:<br /> + + +<br /> + + +―Foi o chicote, Snr. Doutor! O que serviu ao Snr. Doutor, foi o chicote +que eu lhe dei!<br /> + + +<br /> + + +Era verdade. E Gonçalo, commovido, abraçou o +velho aio, que n'uma +excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha, +para o Barrôlo:<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Doutor deu cabo d'elles!... Aquelle chicote mata um homem!... +Os malvados estão mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote +que eu dei +ao Snr. Doutor!<br /> + + +<br /> + + +Mas Gonçalo reclamava agua quente para se lavar da poeira, +do suor, do +sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas +escadas da cosinha―«que fôra o chicote! o chicote, +que elle déra ao +Snr. Doutor!» Gonçalo entrára no +quarto, acompanhado pelo Barrôlo. E +pousou o chapeu sobre o marmore da commoda, com um immenso <em>ah</em> +consolado! Era o consolo immenso de se encontrar, depois de +tão violenta +manhã, entre as doces cousas costumadas, pisando o seu velho +tapete +azul, roçando o leito de pau preto em que nascera, +respirando pelas +vidraças abertas, onde as ramagens familiares <span class="pagenum">[437]</span>das faias +s'empurravam na +aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de columnas +douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e +tão melhorado, +que nos hombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um +arquear +mais crespo.<br /> + + +<br /> + + +E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrôlo, que +subitamente +despertou n'uma curiosidade immensa:<br /> + + +<br /> + + +―Mas, oh Barrôlo, como é que vos encontro esta +manhã na Torre?<br /> + + +<br /> + + +Resolução da vespera, ao chá. +Gonçalo não apparecia, não escrevia... +Gracinha a matutar, inquieta. Elle tambem espantado d'aquelle +sumiço +depois do cesto dos pêcegos. De modo que ao chá, +pensando tambem que a +parelha necessitava uma trotada, lembrára a +Gracinha:―«Vamos nós amanhã +á Torre? no phaeton?»<br /> + + +<br /> + + +―Além disso precisava fallar comtigo, Gonçalo... +Tenho andado +aborrecido.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:<br /> + + +<br /> + + +―Como aborrecido?... Aborrecido por que?...<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, com as mãos nos bolsos da rabona de +flanella, que lhe cingia as +ancas gordas, considerou as flôres do tapete, +melancolicamente:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[438]</span> ―É uma grande secca! A gente não póde +confiar em ninguem... Nem ter +familiaridades!...<br /> + + +<br /> + + +N'um lampejo Gonçalo imaginou o Cavalleiro e Gracinha +mostrando +estouvadamente nos Cunhaes, como outr'ora entre os arvoredos da Torre, +o +sentimento que os dominava. E presentiu um desabafo, alguma queixa +triste do pobre Barrôlo, amargurado por suspeitas, talvez por +intimidades que espreitára. Mas a +emoção suprema da sua batalha, sumira +para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na vespera, o +opprimiam: +todas as difficuldades da vida lhe appareciam agora, de repente, +n'aquelle frescor da sua coragem nova, tão faceis d'abater +como os +desafios dos valentões; e não se assustou com as +confidencias do +cunhado, bem seguro d'impôr áquella alma submissa +de bacôco a confiança +e a quietação. Até sorriu, com +indolencia:<br /> + + +<br /> + + +―Então, Barrolinho? Succedeu alguma peripecia?<br /> + + +<br /> + + +―Recebi uma carta.<br /> + + +<br /> + + +―Ah!<br /> + + +<br /> + + +Gravemente Barrôlo desabotoou o jaquetão, puxou do +bolso interior uma +larga carteira, de couro verde e lustroso, com monogramma d'ouro. E foi +a carteira que elle mostrou a Gonçalo, com +satisfação.<br /> + + +<br /> + + +―Bonita, hein? Presente do André, coitado... <span class="pagenum">[439]</span>Creio que +até a mandou vir +de Paris. O monogramma tem muito chic.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo esperava, espantado. Emfim o bom Barrôlo +tirou da carteira uma +carta―já amarrotada, depois alisada. Era, n'um papel +pautado, uma +lettra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com +segurança:<br /> + + +<br /> + + +―É das Louzadas.<br /> + + +<br /> + + +E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovello enterrado na +almofada: «Ex.<sup>mo</sup> Snr. José +Barrôlo.―V. Ex.<sup>a</sup> apesar de todos os +seus +amigos o alcunharem de <em>Zé bacôco</em>, +mostrou agora +muita espertesa, +chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil +André Cavalleiro, nosso Governador Civil. Com effeito a +esposa de V. +Ex.<sup>a</sup>, a linda Gracinha, que n'estes ultimos +tempos andava +tão murcha e +até desbotada (o que a todos nos inquietava) immediatamente +reflorio, e +ganhou côres, desde que possue a valiosa companhia da +primeira +auctoridade do districto. Portou-se pois V. Ex.<sup>a</sup> +como marido zeloso, e +desejoso da felicidade e boa saude de sua interessante esposa. Nem +parece rasgo d'aquelle que toda a Oliveira considera como o seu mais +illustre pateta! Os nossos sinceros parabens!»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo guardou muito socegadamente na algibeira <span class="pagenum">[440]</span>aquella +carta que, dias +antes, o lançaria em infinita amargura e furia:<br /> + + +<br /> + + +―É das Louzadas... E tu déste importancia a +semelhante babuseira?<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo repontou, com as bochechas abrazadas:<br /> + + +<br /> + + +―Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anonymos... E depois +essa insolencia a respeito dos amigos me chamarem <span class="smallcaps">Bacôco</span>... +Grande +infamia, hein? Tu acreditas?... Eu não acredito! mas +lança sizania entre +mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacôco! +Porquê? Por que eu sou +simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não! se os +rapazes no +Club me chamam bacôco pelas costas, caramba, mostram +ingratidão! Mas eu +não acredito! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as +mãos cruzadas +sobre as gordas nadegas. Depois, estacando deante do divan, d'onde +Gonçalo o considerava, com piedade:<br /> + + +<br /> + + +―Em quanto ao resto da carta é tão estupido, +tão atrapalhado que ao +principio nem comprehendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha +e o Cavalleiro teem namoro... É o que me parece que querem +dizer! Ora vê +tu que disparate! Até a intimidade do Cavalleiro +é mentira. O pobre +rapaz, desde que lá jantou, só appareceu tres ou +quatro vezes, á <span class="pagenum">[441]</span>noite, +para a manilha, com o Mendonça... E agora abalou para Lisboa.<br /> + + +<br /> + + +Então o Fidalgo pulou, de surpresa.<br /> + + +<br /> + + +―O quê! o Cavalleiro foi para Lisboa?<br /> + + +<br /> + + +―Pois partiu ha tres dias!<br /> + + +<br /> + + +―Com demora?<br /> + + +<br /> + + +―Com demora, com grande demora... Só volta no meado +d'outubro para a +Eleição.<br /> + + +<br /> + + +―Ah!<br /> + + +<br /> + + +Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'agua quente, duas toalhas +de rendas, ainda n'uma excitação que o azafamava. +Deante do espelho, +lentamente Barrôlo reabotoava o jaquetão:<br /> + + +<br /> + + +―Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço +á cavallariça, visitar a parelha. +Não imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada +explendida. E +nem um pello suado! Tu guardas a carta?<br /> + + +<br /> + + +―Guardo, para estudar a lettra.<br /> + + +<br /> + + +Apenas Barrôlo cerrára a porta―o Fidalgo +recomeçou com o Bento a +deliciosa historia da briga, revivendo as surprezas e os rasgos, +simulando os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para representar +as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente, +em ceroulas:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Bento, traze o meu chapeu... Estou desconfiado que a bala +roçou +pelo chapeu.<br /> + + +<br /> + + +Ambos remiraram, esquadrinharam o chapeu. O <span class="pagenum">[442]</span>Bento, +no seu encarecimento +da façanha, achava a copa amolgada―até +chamuscada.<br /> + + +<br /> + + +―A bala passou de raspão, Snr. Doutor!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo negou, com a modestia grave d'um forte:<br /> + + +<br /> + + +―Não! Nem de raspão!... Quando o malandro +desfechou já o braço lhe +tremia... Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente +não corri +grande perigo!<br /> + + +<br /> + + +Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a +carta. Sim, +certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicencia, soprada com +tão +sordida maldade sobre as pobres bochechas do Barrôlo, +não causava +damno―antes servia, quasi beneficamente, como a braza d'um ferro, para +sarar um damno. O pobre Barrôlo apenas se +impressionára com a revelação +da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em +galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra +insinuação +terrivel, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavalleiro, essa +mal +a comprehendera, escassamente a attendera n'um desdem distrahido e +candido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom +Barrôlo como +flecha errada―acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no +seu impressional pudor, mostrando á pobre tonta como o seu +nome e mesmo +o seu coração, já arrastavam +enxovalhadamente, <span class="pagenum">[443]</span>pela +rasteira mexeriquice +das Lousadas!... Certesa tão humilhadora não +apagaria um sentimento―que +se não apagava com humilhações mais +intimas, tanto mais dolorosas. Mas +estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:―e agora que +André +se afastára para Lisboa, operaria n'ella, surdamente, +solitariamente, +sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influencia +socegadora e +salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso +temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas +femeas +para desencadear nos Cunhaes escandalo e dôr―talvez +restabelecesse, na +ameaçada casa, quietação e +gravidade.―Gonçalo esfregou as mãos +pensando―que em tão ditosa manhã talvez +até esse mal redundasse em bem!<br /> + + +<br /> + + +―Oh Bento, onde está a Snr.<sup>a</sup> D. +Graça?<br /> + + +<br /> + + +―A menina subiu agora ha pouco para o seu quarto, Snr. Doutor.<br /> + + +<br /> + + +Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda +se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador +illustre que pertencera á Rainha D. Maria Francisca de +Saboya, e o +sophá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha +bordára, n'um +arrastado labor d'annos, o Açor negro dos Ramires. E sempre +que voltava +á Torre Gracinha gostava de reviver no seu quarto, as horas +de solteira, +remexendo as gavetas, <span class="pagenum">[444]</span>folheando +velhos romances inglezes na +estantesinha +envidraçada, ou simplesmente da varanda contemplando a +querida quinta +estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta, +tão misturada á +sua vida que cada arvore lhe susurrava, cada recanto de verdura era +como +um recanto do seu pensamento.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo subiu―bateu á porta cerrada com o antigo +aviso:―«Licença para +o mano!» Ella correu da varanda, onde regava nos seus antigos +vasos +vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E +desabafando logo do pensamento que a enchia:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos +á Torre, justamente hoje, +que te succedeu cousa tamanha!<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me +admirei nada de te vêr... +Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor... +Quem +estranhei foi o Barrôlo! E no primeiro momento depois de +desmontar, +pensava assim, vagamente: «mas que diabo faz aqui o +Barrôlo? como diabo +se acha aqui o Barrôlo?...» Curioso, hein? Foi +talvez que, depois da +desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me +julguei no tempo +em que desejavamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na +Torre, sob +o nosso pendão, o <em>nosso terço</em> +atirando +bombardas aos hespanhoes...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[445]</span> +Ella ria, lembrada dessas imaginações heroicas. E +com o vestido entalado +entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus vasos―em +quanto +Gonçalo, encostado á varanda, considerando a +Torre, retomado pela ideia +d'uma concordancia mais intima, que desde essa manhã se +estabelecera +entre elle e aquelle heroico resto da Honra de Santa Ireneia, como se a +sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse emfim +firmemente á força +secular da sua raça.<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo! tu deves estar muito cançado! +Depois d'essa verdadeira +batalha...<br /> + + +<br /> + + +―Não, cançado não... Mas com fome. +Com fome, e com uma sêde explendida!<br /> + + +<br /> + + +Ella pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:<br /> + + +<br /> + + +―Pois o almoço não tarda!... Já andei +a trabalhar na cosinha, com a +Rosa, n'uma pescada á hespanhola... É uma receita +nova do Barão das +Marges.<br /> + + +<br /> + + +―Então insonsa, como elle.<br /> + + +<br /> + + +―Não! até picante: foi o Snr. Vigario Geral que +lh'a ensinou.<br /> + + +<br /> + + +E como, deante do toucador da Rainha Maria Francisca, ella arranjava +á +pressa os ganchos do cabello, para aproveitar a solidão +favoravel, +apressou com um esforço, a confidencia que o commovia:<br /> + + +<br /> + + +―E em Oliveira? Lá por Oliveira!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[446]</span> ―Em Oliveira, nada... Muito calor!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, +fino +entrelaçamento de açucenas e louros, murmurou:<br /> + + +<br /> + + +―Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em +plena actividade...<br /> + + +<br /> + + +Gracinha negou candidamente:<br /> + + +<br /> + + +―As Lousadas? Não! Nem teem apparecido.<br /> + + +<br /> + + +―Mas teem tecido!<br /> + + +<br /> + + +E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem comprehender, +Gonçalo arrancou vivamente da algibeira a carta que +guardára, que agora +lhe pesava, como uma chapa de ferro:<br /> + + +<br /> + + +―Olha, Gracinha! Mais vale desabafarmos! Ahi tens o que ellas ha dias +escreveram a teu marido...<br /> + + +<br /> + + +N'um relance, Gracinha devorou as linhas terriveis. E com ondas de +sangue nas faces, apertando as mãos n'uma +afflicção, um desespero, em +que o papel amarfanhou:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gonçalo! pois...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo accudio:<br /> + + +<br /> + + +―Não! o Barrôlo não se importou! +Até se rio! E eu tambem, quando elle +me entregou esse papelucho... E a prova que ambos o consideramos uma +mexeriquice insensata, é que eu t'o mostro tão +francamente.<br /> + + +<br /> + + +Ella esmagava a carta nas mãos juntas e tremulas, <span class="pagenum">[447]</span>pallida +agora e +emmudecida pelo espanto, retendo grandes lagrimas que rebrilhavam. E +Gonçalo commovido, com gravidade, com ternura:<br /> + + +<br /> + + +―Mas tu, Gracinha, sabes o que são terras pequenas. Sobre +tudo +Oliveira! Precisas muito cuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim +vem +a culpa. Reatei relações que nunca se deviam +reatar... Bem me tenho +arrependido! E acredita! por causa d'essa +situação tão falsa e tão +perigosa, que eu creei, levianamente, por ambição +tola, passei aqui na +Torre dias amargurados... Até nem m'atrevia voltar a +Oliveira. Hoje, não +sei porquê, depois d'esta aventura, parece que tudo se +esbateu, +s'afundou para uma grande sombra... Emfim já não +me arde tão em braza no +coração... Por isso desabafo assim, serenamente.<br /> + + +<br /> + + +Ella desatou n'um solto, doloroso choro em que a sua fraca alma se +desfazia. Com redobrada ternura Gonçalo abraçou +os pobres hombros +vergados que os soluços espedaçavam. E foi com +ella toda refugiada no +seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:<br /> + + +<br /> + + +―Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos, +que continue morto. Pelo menos que por fóra, em cada gesto +teu, pareça +bem morto! Sou eu que t'o peço, pelo nosso nome!...<br /> + + +<br /> + + +D'entre os braços do irmão, ella gemeu com +infinita humildade:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[448]</span> ―Mas elle até foi embora!... Nem quiz estar mais em +Oliveira!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de +novo se escondera contra o +seu peito, contra elle se apertava, como procurando a fresca +misericordiosa que dentro sentia brotar:<br /> + + +<br /> + + +―Bem sei. E isso me mostra que tens sido forte... Mas precisas muita +reserva, muita vigilancia, Gracinha!... E agora socega. Não +fallemos +mais, nunca mais, n'este incidente... Por que foi apenas um <em>incidente</em>. +E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por illusão. +Passou, está +esquecido! Socega, descança. E quando desceres traze os +olhos bem +seccos.<br /> + + +<br /> + + +Lentamente a desprendera dos braços, onde ella se arraigava +como ao +abrigo mais certo e á consolação mais +desejada. E sahia, engasgado pela +emoção, recalcando tambem as lagrimas... Um +gemido timido, supplicante, +ainda o reteve.<br /> + + +<br /> + + +―Gonçalo! mas tu pensas...<br /> + + +<br /> + + +Elle voltou, de novo a abraçou, a beijou na testa lentamente:<br /> + + +<br /> + + +―Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vaes mostrar +muita dignidade, muita firmeza.<br /> + + +<br /> + + +Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente +allumiada por uma <span class="pagenum">[449]</span>claraboia +baça, limpava as palpebras, +quando esbarrou +com o Barrôlo, que procurava Gracinha, para apressar o +almoço.<br /> + + +<br /> + + +―A Gracinha já desce! atabalhoou o Fidalgo. Está +a lavar as mãos! Já +desce!... Mas antes do almoço vamos á +cavallariça. Devemos uma visita á +egoa, a essa querida egoa que me salvou!<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, caramba! concordou logo Barrôlo +revirando nos degraus, com +enthusiasmo. Precisamos visitar a egoa... Grande, briosa, hein! Mas +aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada +d'aquellas, desde Oliveira, e nem um pello molhado! Grandes egoas! +Tambem, o que eu as ólho, o que as trato!<br /> + + +<br /> + + +Na cavallariça, ambos affagaram a egoa. Barrôlo +lembrou que se +mimoseasse com uma ração larga de cenoura. +Depois―para que Gracinha, +com vagar se calmasse,―o Fidalgo arrastou o Barrôlo ao pomar +e á +horta...<br /> + + +<br /> + + +―Tu não vens á Torre ha perto de seis mezes, +Barrolinho! Precisas vêr, +admirar progressos. Anda agora por aqui a mão forte do +Pereira da +Riosa...<br /> + + +<br /> + + +―Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, +Gonçalinho!<br /> + + +<br /> + + +―Tambem eu!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[450]</span> +Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida +e em festa―e Gracinha, á beira do divan, percorria +pensativamente a +velha <em>Gazeta do Porto</em>. Apesar de muito banhados, +os seus bellos olhos +conservavam um ardor: e para o justificar, e o seu modo abatido, logo +se +lastimou, córando, d'uma enxaqueca. Eram as +emoções, o perigo de +Gonçalo...<br /> + + +<br /> + + +―Tambem eu tenho dôr de cabeça! declarou o +Barrôlo, rondando a mesa. +Mas a minha vem da fome... Oh filhos, é que estou desde as +sete da manhã +com uma chavena de café e um ovo quente!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta +envidraçada, +esbaforido, escancarando a bocca n'um riso immenso, foi o Joaquim, o +moço da cavallariça que voltava da Grainha.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo atirou os braços, soffrego:<br /> + + +<br /> + + +―Então?! então?!<br /> + + +<br /> + + +―Pois lá estive, meu Fidalgo! exclamou o Joaquim com o +peito a estalar +d'importancia. E vae por lá um povoleu, todos já +sabem! Uma rapariga dos +Bravaes espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu, +badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora na casa, e o filho, +abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se cahio, sem +sentidos, foi com o susto. O Ernesto de <span class="pagenum">[451]</span>Nacejas, +esse sim, santo nome +de +Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa +d'um compadre alli ao +pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem +bocca!... +Pois por todos aquelles sitios era o ai-jesus das moças!... +E logo lá o +carregam para o Hospital de Villa Clara, que na casa do Compadre +não +pode sarar. Um povoleu, e todos dão a rasão ao +Fidalgo. O tal Domingues +era malandro. E o Ernesto, esse ninguem o podia enxergar! Mas todos lhe +tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não +passára damno mais forte, +que belleza perdida do D. Juan de Nacejas!<br /> + + +<br /> + + +―E então o povo por lá, a fallar, a olhar para o +sitio?<br /> + + +<br /> + + +―Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no +chão, e as pedras +por onde se atirou a egoa do Fidalgo... E agora até contam +que foi uma +espera, e que desfecharam tres tiros ao Fidalgo, e que depois adiante +no +pinhal ainda saltaram tres homens mascarados que o Fidalgo +escangalhou...<br /> + + +<br /> + + +―Eis a lenda que se forma! declarou Gonçalo.<br /> + + +<br /> + + +O Bento apparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo affagou +risonhamente o hombro do Joaquim. E em baixo a Rosa que abrisse, para o +almoço da familia, duas garrafas de vinho do <span class="pagenum">[452]</span>Porto, velho. +Depois com a +mão nas costas da cadeira murmurou gravemente:―Pensemos um +momento em +Deus, que me tirou hoje d'um grande perigo!<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha, +atravez d'um leve suspiro, +pensou uma leve oração. E desdobravam os +guardanapos; Gonçalo acclamava +a travessa de pescada á hespanhola―quando o pequeno da +Crispola +empurrou ainda a porta envidraçada «com um +telegramma, que viera da +Villa!» Uma inquietação deteve os +garfos. A manhã correra com tantas +agitações e espantos! Mas já um +sorriso de gosto, de triumpho, se +espalhára na fina face de Gonçalo:<br /> + + +<br /> + + +―Não é nada... É do Castanheiro, por +causa dos capitulos do Romance que +eu lhe mandei... Coitado! Bom rapaz!<br /> + + +<br /> + + +E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegramma, que os +seus +olhos affagavam:―«Capitulos romance recebidos. Leitura feita +amigos. +Enthusiasmo! Verdadeira obra prima! Abraço!...»<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, com a bocca cheia, bateu as palmas. E +Gonçalo, sem reparar na +travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de +vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não +se +dissipava:<br /> + + +<br /> + + +―Emfim, boa manhã... Grande manhã!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[453]</span> +Gonçalo, apesar das insistencias de Gracinha e do +Barrôlo, não os +acompanhou para Oliveira―no desejo de acabar, durante essa semana, o +derradeiro Capitulo da Novella, e depois cerrar o preguiçoso +giro de +visitas aos influentes Eleitoraes do Circulo. Assim rematava a Obra +d'Arte e a obra de Politica,―e cumpria, Deus louvado, a tarefa d'esse +verão fecundo!<br /> + + +<br /> + + +Logo n'essa noite retomou o manuscripto da Novella―e na margem larga +lançou a data, uma nota:―«<em>Hoje, na +freguesia da +Grainha, tive uma +briga terrivel com dous homens que me assaltaram a pau e tiro, e que +castiguei severamente...</em>» Depois, com facilidade +atacou o +lance de +tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do +Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clarão dos +archotes, no +arraial de D. Pedro de Castro.<br /> + + +<br /> + + +Com grave amisade acolhia o velho homem de guerra aquelle seu primo de +Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Ireneia, +quando +os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de +Sandornin. +Depois, na vasta tenda, reluzente d'armas, tapizada de pelles de +leão e +d'urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dôr represa, a +morte de +seu filho Lourenço, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado +á punhalada +pelo Bastardo de <span class="pagenum">[454]</span>Bayão, +deante das muralhas de Santa +Ireneia, com o sol +no ceu alto a olhar a traição! Indignado, o velho +Castro esmurraçou a +mesa, onde um rosario d'ouro se misturava a grossas peças de +xadrez; +jurou pela vida de Christo, que, em sessenta annos d'armas e surpresas +nunca soubera de feito mais vil! E agarrando a mão do senhor +de Santa +Ireneia, ardentemente lhe offereceu, para a empreza da santa +vingança, a +sua hoste inteira―tresentas e trinta lanças, vasta e rija +peonagem.<br /> + + +<br /> + + +―Por Santa Maria! Formosa arrancada! bradou Mendo de Briteiros com as +vermelhas barbas a flammejar de gosto.<br /> + + +<br /> + + +Mas D. Garcia Viegas, o <em>Sabedor</em>, entendia que +para colherem o Bastardo +vivo, como convinha a uma vingança vagarosa e bem gosada, +mais utilmente +serviria uma calada e curta fila de cavalleiros, com alguns homens de +pé...<br /> + + +<br /> + + +―Porquê, D. Garcia?<br /> + + +<br /> + + +―Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da +pionada e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher +á +força da Hoste Real. N'essa noite, com o seu esfalfado bando +de lanças, +pernoitára certamente no solar de Landim. E com o luzir da +alva, para +encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de +Miradães, +que trepa e foge atravez das lombas do Caramulo. <span class="pagenum">[455]</span>Ora elle, Garcia +Viegas, conhecia para deante do <em>Poço da Esquecida</em>, +certo +passo, onde +poucos cavalleiros, e alguns bésteiros, bem postados por +entre o bravio, +apanhariam Lopo de Bayão como lobo em fojo...<br /> + + +<br /> + + +Tructesindo, incerto e pensativo, mettia os dedos lentos pelos fios da +barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pozessse batalha ao +Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas +lanças já +aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras +de +Bayão. Então Garcia Viegas rogou aos seus primos +d'Hespanha e de +Portugal que sahissem ao terreiro, deante da tenda, com fartura de +tochas para bem se allumiarem. E ahi, no meio dos cavalleiros curiosos, +á claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, +riscou +sobre a terra, com a ponta d'uma adaga, o roteiro da <em>sua +caçada</em> para +lhe comprovar a belleza... D'além castello Landim, largaria +com a alva o +Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam elles, com vinte +cavalleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores d'ambas as +mesnadas gosassem a lide. Além, se postariam, alapados no +mattagal, +besteiros e peões de frecha. Por traz, d'este lado, para +entaipar o +Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com tão gostosa +ajuda elle +honrasse o Senhor de Santa Ireneia. Adiante, acolá, para +colher pela +gorja <span class="pagenum">[456]</span>o +villão, o Snr. D. Tructesindo que era o pae e Deus +mandava fosse +o vingador. E alli, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um +porco―e como o sangue era vil, a um tiro de bésta +encontrariam agua +farta para lavar as mãos, a agoa do <em>pégo +das +Bichas</em>!...<br /> + + +<br /> + + +―Famosa traça! murmurou Tructesindo convencido.<br /> + + +<br /> + + +E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavalleiros +d'Hespanha:<br /> + + +<br /> + + +―Vida de Christo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por +Coudel aqui o +snr. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram +o Rei +Menino, na grande carreira, para Santo Estevam de Gurivaz!... Entendido +pois, primo e amigo! E a cavallo, para a monteria, mal reponte a lua!<br /> + + +<br /> + + +E recolheram as tendas―que já nas fogueiras lourejavam os +cabritos da +ceia, e os uchões acarretavam, d'entre os carros da sarga, +os pesados +odres de vinho de Tordesillas.<br /> + + +<br /> + + +Com a ceia no arraial (grave e sem ruido, por que um luto velava o +coração dos hospedes) Gonçalo +terminou, n'essa noute, o seu capitulo IV, +lançando á margem outra nota:―«Meia +noite... Dia cheio. Batalhei, +trabalhei.―». Depois no seu quarto, em quanto se despia, +traçou todo o +alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria +<span class="pagenum">[457]</span>captivo, +á mercê vingadora dos de Santa Ireneia... +Mas de manhã, antes +d'almoço, ao abancar com gosto para o trabalho―recebeu dous +telegrammas, que o desviaram deliciosamente da correria contra o +Bastardo de Bayão.<br /> + + +<br /> + + +Eram dois telegrammas d'Oliveira, um do Barão das Marges, +outro do +capitão Mendonça―ambos com parabens ao Fidalgo +«por assim escapar de +tão terrivel espera, destroçando os +valentões de Nacejas.» O Barão das +Marges accrescentava:―«<em>Bravissimo! É +d'heroe!</em>»<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, enternecido, mostrou os telegrammas ao Bento. A +nova da sua +façanha, pois, já se espalhára, +impressionára Oliveira,<br /> + + +<br /> + + +―Foi o Snr. José Barrôlo que contou! acudiu o +Bento. E o Snr. Dr. verá! +o Snr. Dr. verá... Até no Porto se vão +assombrar!<br /> + + +<br /> + + +Ao bater meio dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o immenso +Titó, +acompanhado pelo João Gouveia que chegára na +vespera á tarde da Costa, +soubera da aventura na Assembleia, corria á Torre, como +amigo para o +abraço, antes de comparecer, como Auctoridade, para o auto. +Então +Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia, pediu +generosamente, «que se não +procedesse contra os bandidos...» O Administrador recusou, +decidido e +secco, proclamando o principio da Ordem, e necessidade d'um escarmento +<span class="pagenum">[458]</span>rijo, para que +Portugal não recuasse aos tempos barbaros do +João Brandão +de Midões. Elle e Titó almoçaram na +torre:―e Titó, á sobremesa, lembrou +galhofeiramente a conveniencia d'um brinde, e bramou elle o brinde, +comparando Gonçalo ao elefante, «sempre bom, que +tanto aguenta, e de +repente, zás, esmaga o mundo!»<br /> + + +<br /> + + +Depois João Gouveia accendendo um grande charuto reclamou a +representação veridica da desordem, com os pulos, +os gritos, para elle +se compenetrar como auctoridade. Então atravez da varanda, +reviveu a +historia heroica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou +por esgaçar) os golpes que arremessára imitando +os tombos meio +desmaiados do valentão de Nacejas, quando já o +sangue o alagava. O +Administrador e o Titó visitaram na cavallariça a +egoa historica; e no +pateo, Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro +seccando ao +sol, lavadas do sangue que as salpicára.<br /> + + +<br /> + + +Deante do portão João Gouveia bateu gravemente no +hombro do Fidalgo:<br /> + + +<br /> + + +―Gonçalo, vossê deve apparecer esta noite na +Assembleia...<br /> + + +<br /> + + +Appareceu―e foi acolhido como o vencedor d'uma batalha illustre. No +bilhar, por proposta do velho Ribas, flammejou um grande punche-―e o +Commendador Barros, afogueado, teimava que no domingo <span class="pagenum">[459]</span>se celebrasse em +S. Francisco um Te-Deum de graças, de que elle costearia as +despezas, +com orgulho, caramba! Á sahida, acompanhado pelo +Titó, pelo Gouveia, +pelo Manoel Duarte, por outros socios, encontraram o Videirinha―que +não +pertencia á Assembleia, mas rondava, esperando o Fidalgo +para lhe lançar +duas trovas do <em>Fado</em>, improvisadas n'essa tarde, +em que o exaltava +acima dos outros Ramires, da Historia e da Lenda!<br /> + + +<br /> + + +O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu, com amor. E o +cantar do +Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Os Ramires d'outras eras<br /> + + +Venciam com grandes lanças,<br /> + + +Este vence com um chicote,<br /> + + +Vêde que estranhas +mudanças!<br /> + + +<br /> + + +É que os Ramires famosos,<br /> + + +Da passada +geração,<br /> + + +Tinham a força nas armas<br /> + + +E este a tem no +coração!</div> + + +<br /> + + +A tão requebrado conceito―os amigos romperam em vivas a +Gonçalo, á Casa +de Ramires. E o Fidalgo recolhendo á Torre, commovido, +pensava:<br /> + + +<br /> + + +―É curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!...<br /> + + +<br /> + + +Mas que emoção quando, de manhã cedo, +o Bento o acordou com um +telegramma de Lisboa! <span class="pagenum">[460]</span>Era +do Cavalleiro―que «soubera pelos +jornaes +attentado, lhe mandava enthusiastico abraço pela felicidade +e pela +valentia!» Gonçalo berrou, sentado na cama:<br /> + + +<br /> + + +―Caramba! então os jornaes em Lisboa já fallam, +Bento! o caso anda +celebrado!<br /> + + +<br /> + + +Certamente celebrado!―por que durante o delicioso dia, o +moço do +Telegrapho, esbaforido sobre a perna manca, não cessou +d'empurrar o +portão da Torre, com outros telegrammas, todos de Lisboa, da +Condessa de +Chellas; de Duarte Lourençal; dos Marquezes de +Cója <em>felicitando</em>; da +tia Louredo com «parabens ao destemido sobrinho»; +da marqueza +d'Esposende «esperando que o caro primo tivesse agradecido a +Deus!»... E +o ultimo do Castanheiro, com +exclamações:―<em>Magnifico! Digno de +Tructesindo!</em>―Gonçalo, pela livraria, erguia os +braços, estonteado:<br /> + + +<br /> + + +―Santo nome de Deus! mas que terão dito os jornaes?<br /> + + +<br /> + + +E, por entre os Telegrammas, accudiam os cavalheiros dos arredores, os +influentes,―o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao +Cabralismo; o velho Pacheco Valladares de Sá, que +não se espantára do +seu nobre primo, por que sangue de Ramires, como sangue de +Sás, sempre +ferve; o padre Vicente da Finta, que com os seus parabens, offereceu um +cestinho de cachos do seu famoso moscatel <span class="pagenum">[461]</span>tinto; +e por fim o Visconde +de +Rio-Manso, que agarrado a Gonçalo, soluçou, no +enternecimento quasi +ufano de que a briga assim rompesse, na estrada, quando «o +querido +amigo, o amigo da sua Rosa» se encaminhava para a +<em>Varandinha</em>. Gonçalo, +afogueado, banhado de riso, abraçava, recontava +pacientemente a façanha, +acompanhava até ao portão aquelles cavalheiros, +que ao montar as egoas, +ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura e rigida, na +doce claridade da tarde de Setembro, como saudando, depois do heroe, o +secular fundamento do seu heroismo.<br /> + + +<br /> + + +E o Fidalgo, galgando as escadas para a livraria, de novo murmurava, +estonteado:<br /> + + +<br /> + + +―Que terão dito os jornaes de Lisboa?<br /> + + +<br /> + + +Nem dormiu, na anciedade de os devorar. Quando o Bento, em +alvoroço, +rompeu pelo quarto com o correio―Gonçalo saltou, arrojou o +lençol, como +se abafasse. E logo no <em>Seculo</em>, soffregamente +percorrido, encontrou o +telegramma d'Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a +immensa coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O +Bento quasi arrebatou o <em>Seculo</em> das +mãos tremulas do +Fidalgo, para +correr á cosinha, bramar á Rosa a noticia +gloriosa!<br /> + + +<br /> + + +De tarde, Gonçalo correu a Villa-Clara, á +Assembleia, para devorar os +outros jornaes de Lisboa, <span class="pagenum">[462]</span>os +do Porto. Todos contavam, todos +celebravam! +A <em>Gazeta do Porto</em>, attribuindo o attentado a +Politica, ultrajava +furiosamente o Governo. O <em>Liberal Portuense</em>, +porém, +relacionava «com +certas vinganças dos republicanos d'Oliveira, o pavoroso +attentado que +quasi causára a morte d'um dos maiores fidalgos de Portugal +e d'Hespanha +e d'um dos mais pujantes talentos da nova +geração!» Os jornaes de +Lisboa, glorificavam sobre tudo «a coragem explendida do Snr. +Gonçalo +Ramires.» E o mais ardente era a <em>Manhã</em>, +n'um +verboso artigo (de certo +escripto pelo Castanheiro), recordando as heroicas +tradições da Casa +illustre, esboçando as bellezas do Castello de Santa Ireneia +e +terminando por affirmar que «agora, se esperava com redobrada +anciedade +a apparição da novella de Gonçalo +Ramires, fundada sobre um feito de seu +avô Tructesindo no seculo XII, e promettida para o primeiro +numero dos +<b><em>Annaes de Litteratura e de Historia</em></b>, +a nova Revista +do nosso querido +amigo Lucio Castanheiro, esse benemerito restaurador da Consciencia +heroica de Portugal!»―As mãos de +Gonçalo, ao desdobrar os jornaes, +tremiam. E o João Gouveia, tambem soffrego, devorando tambem +os artigos, +por sobre o hombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:<br /> + + +<br /> + + +―Vossê, Gonçalinho, vae ter uma +votação tremenda!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[463]</span> +Depois n'essa noute, recolhendo á Torre, Gonçalo +encontrou uma carta que +o perturbou. Era de Maria de Mendonça, n'um papel perfumado, +com o mesmo +perfume que tão docemente espalhava D. Anna, pelo adro de +Santa Maria de +Craquêde:―«Só esta manhã +soubemos o grande perigo que passou, e ficamos +<em>ambas</em> muito commovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e +não +só eu) muito +vaidosa da magnifica coragem do primo. É d'um verdadeiro +Ramires! Eu não +vou ahi abraçal-o (com risco de me comprometter e <em>fazer +invejas</em>) por +que um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente +não +é cousa de cuidado... Mas aqui todos, até os +pequenos, anciamos por vêr +o heroe, e não creio que houvesse nada d'extraordinario, nem +<em>d'um lado</em> +nem <em>d'outro</em>, em que o primo por aqui apparecesse +além +d'amanhã (quinta +feira) pelas tres horas. Davamos um passeio na quinta, e até +se +merendava, á boa e velha moda dos nossos avós. +Está dito? Muitos +comprimentos, <em>muitos</em>, da Annica, e o primo +creia-me, +etc.»―Gonçalo +sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca +a +prima Maria lhe empurrára, tão claramente, a D. +Anna para os braços... E +como D. Anna se deixava empurrar, prompta, e d'olhos cerrados... Ah, se +fosse somente para a alcova! Mas ai! era tambem para a Egreja. E de +novo +sentia aquelle vozeirão do <span class="pagenum">[464]</span>Titó, +nos degraus da +portinha verde com a lua +cheia por cima dos olmos negros: «Essa creatura teve um +amante, e tu +sabes que eu nunca minto?»<br /> + + +<br /> + + +Então tomou lentamente a penna, respondeu a D. Maria +Mendonça:―«Querida +prima―Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus +enthusiasmos. Não exaggeremos! Eu não fiz mais +que correr a chicote uns +valentões que me assaltaram a tiro. É +façanha facil para quem tenha, +como eu, um chicote excellente. Emquanto á visita +á <em>Feitosa</em>, que me +seria tão agradavel, não a posso realisar com +fundo pezar meu, nem na +quinta-feira, nem mesmo por todo este mez... Ando occupadissimo com o +meu livro, a minha Eleição, a minha +mudança para Lisboa. A era dos +cuidados sérios soou severamente para mim,―cerrando a doce +era dos +passeios e dos sonhos. Peço que apresente á +Snr.<sup>a</sup> D. Anna os meus +profundos respeitos. E com muitas amisades para si, e bons desejos pelo +restabelecimento d'esse querido Neco, espero me creia sempre seu +dedicado e grato primo, etc.»<br /> + + +<br /> + + +Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete d'armas sobre o +lacre verde, pensava:<br /> + + +<br /> + + +―Assim aquelle maroto do Titó me rouba dusentos contos!...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[465]</span>Durante toda essa +macia semana dos fins de Setembro, Gonçalo +trabalhou +no Capitulo final da sua Novella.<br /> + + +<br /> + + +Era emfim a madrugada vingadora em que os Cavalleiros de Santa Ireneia, +reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada +dos Castros, +surprehendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o +<em>Sabedor</em>, o bando de Bayão, na sua +açodada +corrida sobre Coimbra... +Briga curta e falsa, sem destro e brioso terçar d'armas, +mais semelhante +a montaria contra um lobo do que a arremettida contra um Filho-de-Algo. +E assim a desejára Tructesindo, com ruidosa +approvação de D. Pedro de +Castro, por que não se cuidava de combater um inimigo, mas +de colher um +matador.<br /> + + +<br /> + + +Antes do luzir d'alva, o Bastardo abalára do castello de +Landim, em dura +pressa e com tão descuidada segurança, que nem +almogavar nem coudel lhe +atalayavam os trilhos. As cotovias cantavam quando elle, em aspero +trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e +urze, que chamam a <em>Racha do Moiro</em>, desde que +Mafoma a fendeu para que +escapassem as adagas christans de El-Rei Fernando, o <em>Magno</em>, +o Alcaide +moiro de Coimbra e a monja que elle arrebatára á +garupa. E apenas pela +esguia greta enfiára a derradeira lança da +fila―eis <span class="pagenum">[466]</span>que da +outra +embocadura do valle surde o cerrado troço dos cavalleiros de +Santa +Ireneia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel, +sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em +caçada. Da selva arredada que os encobria, rompem por traz +as lanças dos +Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas d'uma +levadiça. Do recosto dos cerros róla, como +reprêsa solta, uma rude e +escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrivel! Ainda arranca +furiosamente a espada, que redomoinhando o corôa de coriscos. +Ainda com +um fero grito arremette contra Tructesindo... Mas bruscamente, d'entre +um escuro magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de +canave, que o laça pela gargalheira, o arranca n'um brusco +sacão da sela +mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se +entala e se parte rente ao punho dourado. E emquanto os cavalleiros de +Bayão aguentam assombradamente o denso cerco de +lanças, que os +envolvera―um rôlo de peões, em dura grita, como +mastins sobre um cerdo, +arrastam o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel +e +adaga, lhe despedaçam o brial de lã +rôxa, lhe quebram os fechos do elmo, +para lhe cuspirem na face, nas barbas côr de ouro, +tão bellas e de tanto +orgulho!<br /> + + +<br /> + + +Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado, <span class="pagenum">[467]</span>para sobre o +dorso d'uma +possante mula de carga, o estende entre dous esguios caixotes de +virotões, como rez apanhada ao recolher da montaria. E +servos da +carriagem ficam guardando o Cavalleiro soberbo, o <em>Claro-Sol</em> +que +allumiava a casa de Bayão, agora entaipado entre dois +caixotes de pau, +com cordas nos pés, e cordas nas mãos, e n'ellas +espetado um triste ramo +de cardo―emblema da sua traição.<br /> + + +<br /> + + +No emtanto os seus quinze Cavalleiros juncavam o chão, +esmagados sob o +furioso cerco de lanças que os investira―uns hirtos, como +adormecidos, +dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes +retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigaes. Os +escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chuço para a +boca d'uma +barroca, sem resgate ou mercê, como alcateia immunda de +roubadores de +gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leonezes. +Todo o valle cheirava a sangue como um pateo de magarefes. Para +reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de cavalleiros +desafivelava os gorjaes, as viseiras, arrancando furtivamente as +medalhas de prata, os bentos, saquinhos de reliquias, que todos traziam +como bem-tementes. N'uma face, de fina barba negra, que uma espuma +sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Sueiro <span class="pagenum">[468]</span>de +Lugilde com quem, pela fogueira de S. João, +folgára tão docemente e +bailára no castello de Unhello,―e vergado sobre a alta +sella rezou, +pela pobre alma sem confissão, uma devota Ave-Maria. Fuscas, +tristonhas +nuvens, abafavam a manhã d'Agosto. E afastados á +entrada do valle, sob a +ramagem d'um velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia +Viegas, o <em>Sabedor</em>, decidiam que morte lenta, e +bem dorida e viltosa, +se daria ao Bastardo, villão de tão negra vilta.<br /> + + +<br /> + + +Contando assim a sombria emboscada com o gemente esforço de +quem empurra +um arado por terra pedreira―gastára Gonçalo essa +doce semana de +Setembro. E no sabbado, cedo, na livraria, com os cabellos ainda +molhados do banho de chuva, esfregava as mãos deante da +banca―porque +certamente com duas horas de attento trabalho, findaria antes +d'almoço a +sua Novella, a sua Obra! E todavia esse final, quasi o repellia, com o +seu sujo horror. O tio Duarte no seu Poemeto apenas o +esboçára, com +esquiva indecisão, como nobre Lyrico que ante uma +visão de bruta +ferocidade solta um lamento, resguarda a Lyra, e desvia para sendas +mais +doces. E, ao tomar a penna, Gonçalo tambem, realmente +lamentava que seu +avô Tructesindo não matasse outr'ora o Bastardo, +no fragor da briga, com +uma d'essas <span class="pagenum">[469]</span> +cutiladas maravilhosas, e tão doces de celebrar, +que racham +o cavalleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na +Historia.<br /> + + +<br /> + + +Mas não! Sob a folhagem do azinheiro, os tres cavalleiros +combinavam com +lentidão uma vingança terrifica. Tructesindo +desejára logo recolher a +Santa Ireneia, alçar uma forca deante das barbacans, no +chão em que seu +filho rolára morto, e n'ella enforcar, depois de bem +açoitado, como +villão, o villão que o matára. O velho +D. Pedro de Castro, porém, +aconselhava despacho mais curto, e tambem gostoso. Para que rodear por +Santa-Ireneia, desbaratar esse dia d'Agosto na arrancada que os levava +a +Montemór, a soccorro das Infantas de Portugal? Que se +estendesse o +Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D. +Tructesindo, como porco +pelo Natal, e que um cavallariço lhe chamuscasse as barbas, +e depois +outro, com facalhão de ucharia, o sangrasse no +pescoço, +pachorrentamente.<br /> + + +<br /> + + +―Que vos parece, Snr. D. Garcia?<br /> + + +<br /> + + +O <em>Sabedor</em> desafivelára o casco de +ferro, limpava nas rugas +o suor e a +poeira da lide:<br /> + + +<br /> + + +―Senhores e amigos! Temos melhor, e perto tambem, sem delongas de +cavalgada, logo adiante destes cerros, no <em>Pego das Bichas</em>... +E nem +torcemos caminho, que de lá, por Tordezello e Santa Maria da +Varge, +endireitamos a Montemór, tão direitos <span class="pagenum">[470]</span>como +vôa o corvo... Confiae em +mim, Tructesindo! Confiae em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal +morte e tão vil, que d'outra egual se não possa +contar desde que +Portugal foi condado.<br /> + + +<br /> + + +―Mais vil que forca, para cavalleiro, meu velho Garcia?<br /> + + +<br /> + + +―Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!<br /> + + +<br /> + + +―Seja! Mandae dar ás bozinas.<br /> + + +<br /> + + +Ao commando d'Affonso Gomes, o Alferes, as bozinas soaram. Um +troço de +besteiros e de estafeiros Leoneses rodearam a mula que carregava o +Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E acaudilhada por D. +Garcia, a curta hoste metteu para o <em>Pego das Bichas</em>, +em desbando, com +os senhores de lança espalhados, como em marcha de +folgança e paz, (?) e +todos n'uma rija fallada recordando, entre gabos e risos, as proezas da +lide.<br /> + + +<br /> + + +A duas leguas de Tordezello e do seu castello formoso, se escondia +entre +os cerros o <em>Pego das Bichas</em>. Era um lugar de +eterno silencio e de +eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcára o tio +Duarte a desolada +asperidão:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Nem trillo d'ave em +balançado +ramo!<br /> + + +Nem fresca flôr junto de +fresco arroio!<br /> + + +Só rocha, mattagal, ribas +soturnas, <br /> + + +E em meio o <em>Pego</em>, +tenebroso e morto!...</div> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[471]</span> +E quando os primeiros cavalleiros, galgada a lomba d'um cerro, o +avistaram, na melancholia da manhã nevoenta, emmudeceram da +larga +fallada, repucharam os freios, assustados ante tão aspero +ermo, tão +propicio a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Deante do +escalavrado +barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, +aberta com charcos lamacentos, quasi chupados pela estiagem, luzindo +pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, +a +meio tiro de bésta, negrejava o <em>Pego</em>, +lagoa estreita, +lisa, sem uma +ruga n'agua, duramente negra, com manchas mais negras, como lamina +d'estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno +subiam os cerros, eriçados de matto bravio e alto, sulcados +por trilhos +de saibro vermelho como por fios de sangue que escoresse, e rasgados no +alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. Tão +pesado era o +silencio, tão pesada a soledade, que o velho D. Pedro de +Castro, homem +de tanta jornada, se espantou:<br /> + + +<br /> + + +―Feia paragem! E voto a Christo, a Santa Maria, que nunca antes de +nós, +n'ella entrou homem remido pelo baptismo.<br /> + + +<br /> + + +―Pois, Snr. D. Pedro de Castro! accudiu o <em>Sabedor</em>, +já por +aqui se +moveu muita lança, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. +Sueiro, e de +vosso <span class="pagenum">[472]</span>rei D. +Fernando, se erguia n'aquella beira d'agua, uma +castellania +famosa! Vêde além!―E mostrava na ponta do pego, +fronteira ao barranco, +dous rijos pilares de pedra, que emergiam da agua negra, e que chuva e +vento polira como marmores finos. Um passadiço de traves, +sobre estacas +limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. +E +a meio d'esse rude esteio pendia uma argola de ferro.<br /> + + +<br /> + + +No emtanto já o tropel da peonagem se espalhára +pela ribanceira. D. +Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos +bésteiros de Santa Ireneia. E, ao lado do ginete de +Tructesindo, risonho +e gozando a surpreza, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens +descessem o Bastardo da mula, o estirassem no chão, o +despissem, todo +nú, como sua mãe barregã o +soltára á negra vida...<br /> + + +<br /> + + +Tructesindo encarou o <em>Sabedor</em>, franzindo as +sobrancelhas hirsutas:<br /> + + +<br /> + + +―Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o +villão, e sujar +essa agua innocente!...<br /> + + +<br /> + + +E alguns Cavalleiros, em redor, murmuraram tambem contra morte +tão +quieta e sem malicia. Mas os miudos olhos de D. Garcia giravam, +lampejavam de triumpho e gosto:<br /> + + +<br /> + + +―Socegae, socegae! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me +consente algumas traças. <span class="pagenum">[473]</span>Não! +Nem enforcado, nem +degolado, nem +afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e de vagar, pelas +grandes sanguesugas que enchem toda essa agua negra!<br /> + + +<br /> + + +D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:<br /> + + +<br /> + + +―Vida de Christo! Que ter n'uma hoste o Snr. D. Garcia, é +ter +juntamente, para marchas e conselho, enrolados n'um só, +Annibal e +Aristoteles!<br /> + + +<br /> + + +Um rumor d'admiração correu pela hoste:<br /> + + +<br /> + + +―Boa traça, boa traça!<br /> + + +<br /> + + +E Tructesindo, radiante, bradava:<br /> + + +<br /> + + +―Andar, andar, bésteiros! E vós, senhores, +recuae para a lomba do +cerro, como para palanque, que vae ser grande a vista! Já +seis bésteiros +descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com +mólhos +de cordas. E, como magarefes para esfolar uma rez, toda a rude turma se +abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a +cervilheira, o saio, as grevas, os sapatões de ferro, depois +a grossa +roupa de linho encardido. Agarrado pelos compridos cabellos, filado +pelos pés, onde se cravavam agudas unhas no furor de o +manter, com os +braços esmagados sob outros grossos braços +retêsos, o possante Bastardo +ainda se estorcia, urrando, cuspindo contra as faces confusas da +matulagem um cuspo avermelhado, que espumava!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[474]</span> +Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, +branquejava, atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso +urrar esmorecia, arquejado e rouquenho. E um após outro se +erguiam os +bésteiros, esfalfados, bufando, limpando o suor do +esforço.<br /> + + +<br /> + + +No emtanto os Cavalleiros d'Hespanha, de Santa Ireneia, desmontavam +cravando o couto das lanças entre o tojo e as pedras. Todos +os recostos +dos outeiros se cubriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde +de +justa. Sobre uma rocha mais lisa, que dous magros espinheiros toldavam +de folha rala, um pagem estendera pelles d'ovelha para o Snr. D. Pedro +de Castro, para o senhor de Santa Ireneia. Mas só o velho +<em>Castellão</em> se +accommodou, para uma repousada delonga, desafivelando o seu corselete +de +ferro tauxeado d'ouro.<br /> + + +<br /> + + +Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho +da sua alta espada, os olhos fundos ávidamente cravados na +tenebrosa +lagôa que, com morte tão fera e tão +suja, vingaria seu filho... E pela +borda do <em>Pego</em>, peões, e alguns +cavalleiros d'Hespanha, +remexiam com +virotões, com os coutos das ascumas, a agua lodosa, na +curiosidade das +negras bichas escondidas, que o povoavam.<br /> + + +<br /> + + +Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de +peões +amontoada em torno <span class="pagenum">[475]</span>ao +Bastardo se arredou:―e o forte corpo appareceu, +nú e branco, sobre a terra negra, com um denso pello ruivo +nos peitos, a +sua virilidade afogada n'outra matta de pello ruivo, e todo ligado por +cordas de canave que o inteiriçavam. N'aquella rigidez de +fardo, nem as +costellas arfavam―apenas os olhos refulgiam, ensanguentados, +horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns +cavalleiros +correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Bayão. +O senhor dos +Paços d'Argelim mofou, com estrondo:<br /> + + +<br /> + + +―Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!...<br /> + + +<br /> + + +Leonel de Çamora raspou o sapato de ferro pelo hombro do +malfadado:<br /> + + +<br /> + + +―Vêde este <em>Claro-Sol</em>, tão +claro, que se apaga +agora, em agua tão +negra!<br /> + + +<br /> + + +O Bastardo cerrava duramente as palpebras,―d'onde duas grossas lagrimas +escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo pregão resoou +pela +ribanceira:<br /> + + +<br /> + + +―Justiça! Justiça!<br /> + + +<br /> + + +Era o Adail de Santa Ireneia, que marchava, sacudia uma +lança, atroava +os cerros:<br /> + + +<br /> + + +―Justiça! justiça que manda fazer o Senhor de +Treixedo e de Santa +Ireneia, n'um perro matador!... <span class="pagenum">[476]</span>Justiça +n'um perro, filho de +perra, que +matou vilmente, e assim morra vilmente por ella!...<br /> + + +<br /> + + +Trez vezes pregoou por deante da hoste apinhada nos cerros. Depois +quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro,―como a +julgadores no seu Estrado de julgamento.<br /> + + +<br /> + + +―Aviae, aviae! bradava o Senhor de Santa Ireneia.<br /> + + +<br /> + + +Immediatamente, a um commando do <em>Sabedor</em>, seis +bésteiros, +com as +pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo +como +se ergue um morto enrolado no seu lençol, e com elle +entraram na agua, +até ao mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos +de cordas, +correram pelo limoso passadiço de traves. Com um alarido +d'<em>aguenta! +endireita! alça!</em> n'um desesperado +esforço o +robusto corpo branco foi +mergulhado n'agua até ás virilhas, arrimado ao +mais alto pilar, depois +n'elle atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o +suspendia, sem escorregar, tão seguro e collado como um +rôlo de vela que +se amarra ao mastro. Rapidamente os bésteiros fugiram +d'agoa, +desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das +bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadiço, n'uma +fila que se +empurrava. No Pego ficava Lopo de Bayão bem arranjado <span class="pagenum">[477]</span>para a +vistosa +morte lenta, com a agoa que já o afogava até +ás pernas, com cordas que o +enroscavam até ao pescoço como a um escravo no +poste; e uma espessa +mecha dos cabellos louros laçada na argola de ferro, +repuxando a face +clara, para que todos n'ella gozassem largamente a humilhada agonia do +<em>Claro-Sol</em>.<br /> + + +<br /> + + +Então o attento da hoste, esperando espalhada pelos recostos +dos cerros, +mais entristeceu o enevoado silencio do ermo. A agoa jazia sem um +arrepio, com as suas manchas, negras como uma lamina d'estanho +enferrujado. Entre as cristas das rochas, archeiros postados pelo +<em>Sabedor</em>, atalaiavam, para além, os +descampados. Um alto +vôo de gralha +atrevessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flamulas das +lanças +cravadas no tojo denso.<br /> + + +<br /> + + +Para despertar, aviar a lentidão das bichas, alguns +peões atiravam +pedras á agoa lodosa. Já alguns cavalleiros +hespanhoes rosnavam +impacientes com a delonga, n'aquella cova abafada. Outros, descendo +agachados a borda da lagôa, para mostrar que falladas bichas +nunca +acudiriam, mergulhavam lentamente, n'agoa negra, as mãos +descalçadas, +que depois sacudiam, rindo, e mofando o <em>Sabedor</em>... +Mas de repente um +estremeção sacudiu o corpo do Bastardo; os seus +rijos musculos, no +furioso esforço de se desprenderem, inchavam entre as +cordas, como +cobras que se <span class="pagenum">[478]</span>arqueiam; +dos beiços arreganhados romperam, em +rugidos, em +grunhidos, ultrages e ameaças contra Tructesindo covarde, e +contra toda +a raça de Ramires, que elle emprasava, dentro do anno, para +as labaredas +do Inferno! Indignado, um Cavalleiro de Santa Ireneia agarrou uma +bésta +de garrunche, a que retesou a corda.<br /> + + +<br /> + + +Mas D. Garcia deteve o arremesso:<br /> + + +<br /> + + +―Por Deus, amigo! Não roubeis ás sanguesugas nem +uma pinga d'aquelle +sangue fresco!... Vêde como veem! vêde como veem!<br /> + + +<br /> + + +Na agoa espessa, em torno ás coxas mergulhadas do Bastardo, +um fremito +corria, grossas bolhas empolavam,―e d'ellas, mollemente, uma bicha +surdio, depois outra e outra, lusidias e negras, que ondulavam, se +collavam á branca pelle do ventre, d'onde pendiam, chupando, +logo +engrossadas, mais lustrosas com o lento sangue que já +escorria. O +Bastardo emmudecera―e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, +até rudes peões desviaram a face cuspindo para as +urzes. Outros, porém, +chasqueavam, assuavam as bichas, gritando―<em>a elle, donzellas! +a elle!</em> +E o gentil Çamora de Cendufe, clamava rindo contra +tão ensossa morte! +Por Deus! Uma apostura de bichas, como a enfermo d'almorreimas. Nem era +sentença de Rico-Homem―mas receita d'herbanista moiro!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[479]</span> ―Pois que mais quereis, meu Leonel? acudio alegremente o <em>Sabedor</em>, +resplandecendo. Morte é esta para se contar em livros! E +não tereis este +inverno serão á lareira, por todos os solares de +Minho a Douro, em que +não volte a historia d'este Pego, e d'este feito! Olhae +nosso primo +Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenceou de certo em +tão longo +lidar d'armas!... E como goza! tão attento! tão +maravilhado!<br /> + + +<br /> + + +Na encosta do outeiro, junto do seu balsão, que o Alferes +cravára entre +duas pedras, e como elle tão quêdo, o velho +Ramires não despregava os +olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, n'um fulgor sombrio. +Nunca elle esperára vingança tão +magnifica! O homem que atára seu filho +com cordas, o arrastára n'umas andas, o retalhára +a punhal deante das +barbacans da sua Honra―agora, vilmente nú, amarrado tambem +como cerdo, +pendurado d'um pilar, emergido n'uma agoa suja, e chupado por +sanguesugas, deante de duas mesnadas, das melhores d'Hespanha, que +miravam, que mofavam! Aquelle sangue, o sangue da raça +detestada, não o +bebia a terra revolta n'uma tarde de batalha, escorrendo de ferida +honrada, atravez de rija armadura―mas, gota a gota, escuramente e +mollemente se sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas +do lodo e no lodo recahiam fartas, para sobre o lodo bolsar <span class="pagenum">[480]</span>o orgulhoso +sangue que as enfartára. N'um charco, onde elle o +mergulhára, viscosas +bichas bebiam socegadamente o cavalleiro de Bayão! Onde +houvera homizio +de solares fundado em desforra mais dôce?<br /> + + +<br /> + + +E a fera alma do velho acompanhava, com inexoravel goso, as sanguesugas +subindo, espalhadamente alastrando por aquelle corpo bem amarrado, como +seguro rebanho pela encosta da collina onde pasta. O ventre +já +desapparecia sob uma camada viscosa e negra, que latejava, relusia na +humidade morna do sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela ancia, +d'onde sangue se esfiava, n'uma franja lenta. O denso pello ruivo do +peito, como a espessura d'uma selva, detivera muitas, que ondulavam, +com +um rasto de lodo. Um montão ennovelado sangrava um +braço. As mais +fartas, já inchadas, mais relusentes, despegavam, tombavam +mollemente: +mas logo outras, famintas, se aferravam. Das chagas abandonadas o +sangue +escorria delgado, represo nas cordas, d'onde pingava como uma chuva +rala. Na escura agoa boiavam gordas postemas de sangue +esperdiçado. E +assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado ainda rugia, atravez +ultrages immundos, ameaças de mortes, de incendios, contra a +raça dos +Ramires! Depois, com um arquejar em que as cordas quasi estalavam, a +bocca horrendamente escancarada e avida, rompia aos roucos urros, +implorando <span class="pagenum">[481]</span><em>agoa, +agoa!</em> No seu furor as unhas, que +uma volta de amarras +lhe collára contra as fortes côxas, esfarrapavam a +carne, cravavam-se na +fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.<br /> + + +<br /> + + +E o furioso tumulto esmorecia n'um longo gemer +cançado―até que parecia +adormecido nos grossos nós das cordas, as barbas relusindo +sob o suor +que as alagára como sob um grosso orvalho, e entre ellas a +espantada +lividez d'um sorriso delirado.<br /> + + +<br /> + + +No emtanto já na hoste derramada pelos cerros, como por um +palanque, se +embotára a curiosidade bravia d'aquelle supplicio novo. E se +acercava a +hora da ração de meridiana. O Adail de Santa +Ireneia, depois o Almocadem +Hespanhol, mandaram soar os anafins. Então todo o +áspero ermo se animou +com uma faina d'arraial. O almazem das duas mesnadas parára +por detraz +dos morros, n'uma curta almargem d'herva, onde um regato claro se +arrastava nos seixos, por entre as raizes de amieiros +chorões. N'uma +pressa esfaimada, saltando sobre as pedras, os peões corriam +para a fila +dos machos de carga, recebiam dos uchões e estafeiros a +fatia de carne, +a grossa metade d'um pão escuro: e, espalhados pela sombra +do arvoredo, +comiam com silenciosa lentidão, bebendo da agoa do regato +pelas concas +de pau. Depois preguiçavam, estirados na relva,―ou trepavam +em bando +pela outra encosta dos morros, <span class="pagenum">[482]</span>através +do matto, na +esperança +d'atravessar com um virote alguma caça erradia. Na +ribanceira, deante da +lagôa, os cavalleiros, sentados sobre grossas mantas, comiam +tambem, em +roda dos alforges abertos, cortando com os punhaes nacos de gordura nas +grossas viandas de porco, empinando, em longos tragos, as bojudas +cabaças de vinho.<br /> + + +<br /> + + +Convidado por D. Pedro de Castro, o velho <em>Sabedor</em> +descançava, +partilhando d'uma larga escudella de barro, cheia de <em>bolo +papal</em>, d'um +bolo de mel e flôr de farinha, onde ambos enterravam +lentamente os +dedos, que depois limpavam ao forro dos morriões. +Só o velho Tructesindo +não comia, não repousava, hirto e mudo deante do +seu pendão, entre os +seus dous mastins, n'aquelle fero dever de acompanhar, sem que lhe +escapasse um arrepio, um gemido, um fio de sangue, a agonia do +Bastardo. +Debalde o <em>Castellão</em>, estendendo para +elle um pichel de +prata, gabava o +seu vinho de Tordesillas, fresco como nenhum d'Aquilat ou de Provins, +para a sede de tão rija arrancada. O velho Rico-Homem nem +attendera:―e +D. Pedro de Castro, depois de atirar dous pães aos +alões fieis, +recomeçou discorrendo com Garcia Viegas sobre aquelle +teimoso amor do +Bastardo por Violante Ramires que arrastára a tantos +homizios e furores.<br /> + + +<br /> + + +―Ditosos nós, Snr. D. Garcia! Nós a quem <span class="pagenum">[483]</span>a edade +e o quebranto e a +fartura já arredam d'essas +tentações... Que a mulher, como m'ensinava +certo Physico quando eu andava com os moiros, é vento que +consola e +cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vêde como os +meus por ellas +penaram! Só meu pae, com aquella desvairança de +zelos, em que matou a +cutello minha dôce madre Estevaninha. E ella tão +santa, e filha do +Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ardencia! Até a +morrer, como este, +sugado por bichas, deante d'uma hoste que merenda e mofa. E por Deus, +quanto tarda em morrer, Snr. D. Garcia!<br /> + + +<br /> + + +―Morrendo está, Snr. D. Pedro de Castro. E já +com o demo ao lado para o +levar!<br /> + + +<br /> + + +O Bastardo morria. Entre os nós das cordas ensanguentadas +todo elle era +uma ascorosa aventesma escarlate e negra com as viscosas pastas de +bichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de +cada +ferida escorriam, mais copiosos que os regos d'humidade por um muro +denegrido.<br /> + + +<br /> + + +O desesperado arquejar cessára, e a ancia contra as cordas, +e todo o +furor. Molle e inerte como um fardo, apenas a espaços +esbogalhava +horrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado +pavor. Depois a face abatia, livida e flaccida, com o beiço +pendurado, +escancarando a bocca em cova negra, d'onde se escoava uma baba +ensanguentada. <span class="pagenum">[484]</span>E +das palpebras novamente cerradas, entumecidas, um muco +gotejava, tambem como de lagrimas engrossadas com sangue.<br /> + + +<br /> + + +A peonagem, no emtanto, voltando da ração, +reatulhava a ribanceira, +pasmava, com rudes chufas para o corpo pavoroso que as bichas ainda +sugavam. Já os pagens recolhiam manteis e alforges. D. Pedro +de Castro +descera do cabeço com o <em>Sabedor</em> +até +á borda da agoa lodosa, onde quasi +mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca, o +agonisante de tão rara agonia! E alguns senhores, estafados +com a +delonga, afivelando os gibanetes, +murmuravam:―«Está morto! Está +acabado!»<br /> + + +<br /> + + +Então Garcia Viegas gritou ao Coudel dos +Bésteiros:<br /> + + +<br /> + + +―Ermigues, ide vêr se ainda resta alento n'aquella postema.<br /> + + +<br /> + + +O Coudel correu pelo passadiço de traves, e arrepiado de +nojo palpou a +livida carne, acercou da bocca, toda aberta, a lamina clara da adaga +que +desembainhára.<br /> + + +<br /> + + +―Morto! morto!―gritou.<br /> + + +<br /> + + +Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava, +engilhado, chupado, esvasiado. O sangue já não +manava, havia coalhado em +postas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, relusindo. E +outras ainda subiam, tardias. Duas, <span class="pagenum">[485]</span>enormes, +remexiam na orelha. Outra +tapava um olho. O <em>Claro-Sol</em> não era +mais que uma immundice +que se +decompunha. Só a madeixa dos cabellos louros, repuxada, +presa na argola, +relusia com um lampejo de chamma, como rastro deixado pela ardente alma +que fugira.<br /> + + +<br /> + + +Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel +avançou para o +Senhor de Santa Ireneia, bradou:<br /> + + +<br /> + + +―Justiça está feita, que mandastes fazer no +perro matador que morreu!<br /> + + +<br /> + + +Então o velho Rico-Homem atirando o braço, o +cabelludo punho, com +possante ameaça, bradou, n'um rouco brado que rolou por +penhascos e +cerros:<br /> + + +<br /> + + +―Morto está! E assim morra de morte infame quem +traidoramente me +affronte a mim e aos da minha raça!<br /> + + +<br /> + + +Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, atravez do matto, e +com um largo aceno ao Alferes do Pendão:<br /> + + +<br /> + + +―Affonso Gomes, mandae dar as bozinas. E a cavallo, se vos praz, Snr. +D. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!...<br /> + + +<br /> + + +O <em>Castellão</em> ondeou risonhamente o +guante:<br /> + + +<br /> + + +―Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de +vós. A +cavallo pois se vos praz! Que nos promette aqui o Snr. D. Garcia +vêrmos +ainda, com sol muito alto, os muros de Monte-mór.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[486]</span> +Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzeis d'armas +puxavam para a +ribanceira os ginetes folgados que a vasta agua escura assustava. E, +com +os dous balsões tendidos, o Açor negro, as Treze +Arruellas, a fila da +cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, d'onde as pedras +soltas +rolavam. No alto, alguns cavalleiros ainda se torciam nas sellas para +silenciosamente remirarem o homem de Bayão, que +lá ficava, amarrado ao +pilar, na solidão do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos +bésteiros e +fundibularios de Santa Ireneia desfilou, uma rija grita rompeu, com +chufas, sujas injurias ao «perro matador». A meio +da escarpa, um +bésteiro, virando, retezou furiosamente a bésta. +A comprida garruncha +apenas varou a agua. Outra logo zinio, e uma bala de funda, e uma setta +barbada,―que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novello +de bichas. O Coudel berrou: «cerra! anda!» A +récua das azemolas de carga +avançava, sob o estralar dos lategos: os moços da +carriagem apanhavam +grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos carreteiros +marcharam, nos seus curtos saios de couro crú, +balançando um chuço +curto:―e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas, que chapou +na face do Bastardo sobre as finas barbas d'ouro.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +XI</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Quando Gonçalo, estafado e já todo o ardor +bruxuleando, retocou este +derradeiro traço da affronta―a sineta no corredor repicava +para o +almoço. Emfim! Deus louvado! eis finda essa eterna <em>Torre +de +Ramires</em>! +Quatro mezes, quatro penosos mezes desde Junho, trabalhára +na sombria +resurreição dos seus avós barbaros. +Com uma grossa e carregada lettra, +traçou no fundo da tira <b><em>Finis</em></b>. +E datou, +com a hora, que +era do +meio-dia e quatorze minutos.<br /> + + +<br /> + + +Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutára, +não sentia o +contentamento esperado. Até esse supplicio do Bastardo lhe +deixára uma +aversão por aquelle remoto mundo Affonsino, tão +bestial, tão deshumano! +Se ao menos o consolasse a certeza de que reconstituira, com luminosa +verdade, o ser moral d'esses avós bravios... Mas que! bem +receava <span class="pagenum">[488]</span>que +sob desconcertadas armaduras, de pouca exactidão +archeologica, apenas +s'esfumassem incertas almas de nenhuma realidade historica!... +Até +duvidava que sanguesugas recobrissem, trepando d'um charco, o corpo +d'um +homem, e o sugassem das côxas ás barbas, em quanto +uma hoste mastiga a +ração!... Emfim, o Castanheiro louvára +os primeiros Capitulos. A +Multidão ama, nas Novellas, os grandes furores, o sangue +pingando: e em +breve os <b><em>Annaes</em></b> espalhariam, +por todo o Portugal, a +fama d'aquella +Casa illustre, que armára mesnadas, arrasára +castellos, saqueára +comarcas por orgulho de pendão, e affrontára +arrogantemente os Reis na +curia e nos campos de lide. O seu verão, pois, +fôra fecundo. E para o +coroar, eis agora a Eleição, que o libertava das +melancolias do seu +buraco rural...<br /> + + +<br /> + + +Para não retardar as visitas ainda devidas aos Influentes, e +tambem para +espairecer, logo depois d'almoco montou a cavallo―apezar do calor, que +desde a vespera, e n'aquelle meado d'outubro, esmagava a aldeia com o +refulgente peso d'uma canicula d'Agosto. Na volta da estrada, dos +Bravaes um homem gordo, de calça branca enxovalhada, que +s'apressava, +bufando, sob o seu guarda-sol de panninho vermelho, deteve o Fidalgo +com +uma cortezia immensa. Era o Godinho, amanuense da +Administração. Levava +um officio urgente ao Regedor dos <span class="pagenum">[489]</span>Bravaes, +e agora corria á +Torre de +mandado do Snr. Administrador...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo recuou a egoa para a sombra d'uma carvalha:<br /> + + +<br /> + + +―Então que temos, amigo Godinho?<br /> + + +<br /> + + +O Snr. Administrador annunciava a S. Ex.<sup>a</sup> que o +maroto do Ernesto, o +valentão de Nacejas, em tratamento no Hospital d'Oliveira, +melhorára +consideravelmente. Já lhe repegára a orelha, a +bocca soldava... E, como +se procedeu á querella, o patife passava da enfermaria para +a cadeia...<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo protestou logo, com uma palmada no selim:<br /> + + +<br /> + + +―Não senhor! Faça o obsequio de dizer ao Snr. +João Gouveia que não +quero que se prenda o homem! Foi atrevido, apanhou uma dóse +tremenda, +estamos quites.<br /> + + +<br /> + + +―Mas Snr. Gonçalo Mendes...<br /> + + +<br /> + + +―Pelo amor de Deus, amigo Godinho! Não quero, e +não quero... Explique +bem ao Snr. João Gouveia... Detesto vinganças. +Não estão nos meus +habitos, nem nos habitos da minha familia. Nunca houve um Ramires que +se +vingasse... Quero dizer, sim, houve, mas... Emfim explique bem ao Snr. +João Gouveia. De resto eu logo o encontro, na Assembleia... +Bem basta ao +homem ficar desfeiado. Não <span class="pagenum">[490]</span>consinto +que o apoquentem +mais!... Detesto +ferocidades.<br /> + + +<br /> + + +―Mas...<br /> + + +<br /> + + +―Esta é a minha decisão, Godinho.<br /> + + +<br /> + + +―Lá darei o recado de V. Ex.<sup>a</sup><br /> + + +<br /> + + +―Obrigado. E adeus!... Que calor, hein!<br /> + + +<br /> + + +―De rachar, Snr. Gonçalo Mendes, de rachar!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo seguiu, revoltado pela ideia de que o pobre +valentão de Nacejas, +ainda moído, com a orelha mal soldada, baixasse á +sordida enxovia de +Villa-Clara, para dormir sobre uma taboa. Pensou mesmo em galopar para +Villa-Clara, reter o zelo legal do João Gouveia. Mas perto, +adeante do +lavadoiro, era a casa d'um Influente, o João Firmino, +carpinteiro e seu +compadre. E para lá trotou, apeando ao portal do quinteiro. +O compadre +Firmino largára cedo para a Arribada, onde trabalhava nas +obras do lagar +do Snr. Esteves. E foi a comadre Firmina que correu da cosinha, obesa e +lusidia, com dous pequenos dependurados das saias e mais sujos que +esfregões. O Fidalgo beijou ternamente as duas faces +ramelosas:<br /> + + +<br /> + + +―E que rico cheiro a pão fresco, oh comadre! Foi a fornada, +hein? Pois +então grande abraço ao Firmino. E que se +não esqueça! A Eleição vem +para +o outro Domingo. Lá conto com o voto d'elle. E olhe que +não é pelo voto, +é pela amisade.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[491]</span> +A comadre arreganhava os dentes magnificos n'um regalado e gordo +riso:―«Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino +já jurára, até ao +Snr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o sitio a votar, e quem +não +fosse a amor ia a pau.» O Fidalgo apertou a mão da +comadre―que do +degrau do quinteiro, com os dous pequenos enrodilhados nas saias, e o +gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da egoa como o sulco d'um +Rei benefico.<br /> + + +<br /> + + +E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche, +encontrou o mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. +«O que! +para o Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o +Governo!»―Na tasca +do Manoel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, já +ruidoso, com as +jaquetas atiradas para cima dos bancos: o Fidalgo bebeu com elles, +galhofando, gosando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais +velho, um avejão escuro, sem dentes, e a face mais engilhada +que uma +ameixa secca, esmurrou com euthusiasmo o +balcão:―«Isto, rapazes, é +fidalgo que, quando um pobre de Christo escalavra a perna, lhe empresta +a egoa, e vae elle ao lado mais d'uma legua a pé, como foi +com o Sôlha! +Rapazes! isto é Fidalgo para a gente ter gosto!» +As <em>saudes</em> atroaram a +venda. E quando Gonçalo montou, todos o cercavam como +vassallos +ardentes, que a um aceno correriam a votar,―ou a matar!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[492]</span> +Em casa do Thomaz Pedra, a avó Anna Pedra, uma velha +entrevada, muito +velha e tremula, rompeu a choramigar por o seu Thomaz andar para o +Olival quando o Fidalgo o visitava. «Que aquillo era como +visita de +santo!»<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa, tia Pedra! Peccador, grande peccador!<br /> + + +<br /> + + +Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas brancas descendo do +lenço, +pela face toda chupada de gelhas e pelluda, a tia Anna bateu no joelho +agudo:<br /> + + +<br /> + + +―Não senhor! não senhor! que quem mostrou +aquella caridade pelo filho +do Casco, merece estar em altar!<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas, apertava +mãos asperas e +rugosas como raizes, accendia o cigarro á braza das +lareiras, +conversando, com intimidade, das molestias e dos derriços. +Depois, no +calor e pó da estrada, pensava:―«É +curioso! parece haver amisade, +n'esta gente!»<br /> + + +<br /> + + +Ás quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro, recolher +á Torre pela +estrada mais fresca da <em>Bica Santa</em>. E +passára o logarejo do +Cerdal, +quando na volta aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros, quasi +esbarrou com o Dr. Julio, tambem a cavallo, tambem no seu giro, de +quinzena d'alpaca, alagado em suor, debaixo d'um guarda-sol de +sêda +verde. Ambos detiveram as egoas, se saudaram amavelmente.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[493]</span> ―Muito gosto em o vêr, Snr. Dr. Julio...<br /> + + +<br /> + + +―Egualmente, com muita honra, Snr. Gonçalo Ramires...<br /> + + +<br /> + + +―Então tambem na tarefa?...<br /> + + +<br /> + + +O Dr. Julio encolheu os hombros:<br /> + + +<br /> + + +―Que quer V. Ex.<sup>a</sup>? Se me metteram n'esta! E +sabe V. Ex.<sup>a</sup> como isto +acaba?... Acaba em eu mesmo, no outro Domingo, votar em V. Ex.<sup>a</sup>.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo riu. Ambos se debruçaram, para se apertarem as +mãos com +alegria, com estima.<br /> + + +<br /> + + +―Que calor este, Snr. Dr. Julio!<br /> + + +<br /> + + +―Horroroso, Snr. Gonçalo Ramires... E que massada!<br /> + + +<br /> + + +Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visitas aos +Eleitores―«os +grandes e os miudos.» E dois dias antes da +Eleição, n'uma sexta-feira á +tarde, com um tempo já macio e fresco, partiu para +Oliveira―onde +chegára, na vespera, o André Cavalleiro, depois +da sua tão longa, tão +fallada demora em Lisboa.<br /> + + +<br /> + + +Nos Cunhaes, apenas saltára da caleche, logo se enfureceu ao +saber, pelo +bom João da Porta―«que as Snr.<sup>as</sup> +Louzadas +estavam em cima, de +visita, com a Snr.<sup>a</sup> D. +Graça...»<br /> + + +<br /> + + +―Ha muito?<br /> + + +<br /> + + +―Já lá estão pegadas ha meia hora +boa, meu senhor.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo enfiou surrateiramente para o seu quarto, +<span class="pagenum">[494]</span>pensando:―«Que +desavergonhadas! Chegou o André, veem logo cocar!» +E já se lavára, +mudára o fato cinzento,―quando o Barrôlo +appareceu, esbaforido, +desusadamente radiante, de sobrecasaca, de chapeu alto, com as +bochechas +accesas, alvoroçadamente radiantes:<br /> + + +<br /> + + +―Eh, seu Barrôlo, que janota!<br /> + + +<br /> + + +―Parece bruxedo! gritou o Barrôlo, depois d'um +abraço, que repetiu, com +desacostumado fervor. Estava agora mesmo para te mandar um telegramma, +que viesses...<br /> + + +<br /> + + +―Para quê?<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo gaguejou, com um riso reprimido que o illuminava, o +inchava:<br /> + + +<br /> + + +―Para quê? P'ra nada... Quero dizer, para a +Eleição! Pois a Eleição +é +além d'ámanhã, menino! O Cavalleiro +chegou hontem. Agora volto eu do +Governo Civil. Estive no Paço com o Snr. Bispo, depois +passei pelo +Governo Civil... Optimo, o André! Aparou o bigode, parece +mais moço. E +traz novidades... Traz grandes novidades!<br /> + + +<br /> + + +E o Barrôlo esfregava as mãos, n'um tão +faiscante alvoroço, com tanto +riso escapando dos olhos e da face relusente, que o Fidalgo o encarou +curioso, impressionado:<br /> + + +<br /> + + +―Ouve lá, Barrolinho! Tu tens alguma cousa boa para me +annunciar?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[495]</span> +Barrôlo recuou, negou com estrondo, como quem bruscamente +fecha uma +porta. Elle? Não! Não sabia nada! Só a +Eleição! Na Murtosa votação +tremenda...<br /> + + +<br /> + + +―Ah! pensei, murmurou Gonçalo. E a Gracinha?<br /> + + +<br /> + + +―A Gracinha tambem não!<br /> + + +<br /> + + +―Tambem não quê, homem? Como está? +Simplesmente como está?<br /> + + +<br /> + + +―Ah! está com as Louzadas. Ha mais de meia hora, aquellas +bebedas!... +Naturalmente por causa do Bazar do Asylo Novo... Esta massada dos +Bazares... E ouve lá, Gonçalinho! Tu ficas +até Domingo?<br /> + + +<br /> + + +―Não, volto ámanhã para a Torre.<br /> + + +<br /> + + +―Oh!...<br /> + + +<br /> + + +―Pois dia d'Eleicão, homem! devo estar em casa, no meu +centro, no meio +das minhas freguezias...<br /> + + +<br /> + + +―É pena, murmurou o Barrôlo. Logo se sabia +juntamente com a Eleição... +Eu dava um jantar tremendo...<br /> + + +<br /> + + +―Logo se sabia, o quê?<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo emmudeceu, com outro riso nas bochechas, que eram +duas brazas +gloriosas. Depois novamente gaguejou, gingando:<br /> + + +<br /> + + +―Logo se sabia... Nada! O resultado, o apuramento. E grande brodio, +grande foguetorio. Eu, na Murtosa, abro pipa de vinho.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[496]</span> +Então Gonçalo risonhamente prendeu o +Barrôlo pelos hombros:<br /> + + +<br /> + + +―Dize lá, Barrolinho. Dize lá. Tu tens uma cousa +boa para contar ao teu +cunhado.<br /> + + +<br /> + + +O outro escapou, protestando com alarido: Que teima, que tolice. Elle +não sabia nada. O André não lhe +contára nada!<br /> + + +<br /> + + +―Bem, concluiu o Fidalgo, certo de um amavel mysterio, que pairava. +Então descemos. E se essas carraças das Louzadas +ainda estiverem lá +pegadas, manda dizer pelo escudeiro á sala, bem alto, +á Gracinha, que +cheguei, que lhe desejo fallar immediatamente no meu quarto: com esses +monstros não ha considerações.<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo balbuciou, hesitando:<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Bispo gosta d'ellas... Muito amavel commigo, ainda ha pouco, o +Snr. Bispo.<br /> + + +<br /> + + +Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Gracinha cantarolando. +Já se +libertára das Louzadas. Era uma antiga +canção patriotica da Vendeia, que +outr'ora na Torre, ella e Gonçalo entoavam com +emoção, quando os +inflammava o amor fidalgo e romantico dos Bourbons e dos Stuarts:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Monsieur de Charette a dit +à +ceux d'Ancenes</div> + + +<div class="poetry1">"Mes Amis!...</div> + + +<div class="poetry">Monsieur de Charette a dit...</div> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[497]</span> +Gonçalo franziu vagarosamente o reposteiro da sala, +rematando a +estrophe, com o braço erguido como uma bandeira:<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry1">"Mes amis!</div> + + +<div class="poetry">Le Roy va rammener les Fleurs de Lys!"</div> + + +<br /> + + +Gracinha saltou do mocho, n'uma surpresa.<br /> + + +<br /> + + +―Não te esperavamos! imaginei que passavas a +Eleição na Torre... E por +lá?<br /> + + +<br /> + + +―Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus... Mas eu com trabalho +immenso. Acabei o meu romance; depois visitas aos Eleitores.<br /> + + +<br /> + + +Barrôlo, que não socegava pela sala, rompeu para +elles, com o mesmo riso +suffocado:<br /> + + +<br /> + + +―Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este homem, desde que chegou, +n'uma curiosidade, a ferver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma +grande nova para lhe contar... Eu não sei nada, a +não ser a Eleição! +Pois não é verdade, Gracinha?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, muito serio, prendeu o queixo da irmã:<br /> + + +<br /> + + +―Sabes tu, dize lá.<br /> + + +<br /> + + +Ella sorriu, córada... Não, não sabia +nada, só a Eleição.<br /> + + +<br /> + + +―Dize lá!<br /> + + +<br /> + + +―Não sei... São tolices do José.<br /> + + +<br /> + + +Mas então, ante aquelle sorriso fraco, rendido, que +confessava―o +Barrôlo não se conteve, desafogou <span class="pagenum">[498]</span>como um morteiro +estoira.―Pois bem! +sim! com effeito!―Grande novidade! Mas o André, que a +trouxera de +Lisboa, fresquinha a saltar, queria elle, só elle, causar a +surpresa a +Gonçalo...<br /> + + +<br /> + + +―De modo que eu não posso! Jurei ao André. A +Gracinha sabe, que eu já +lhe contei hontem... Mas tambem não póde, tambem +jurou. Só o André. Elle +vem logo tomar chá, e rebenta a bomba... Que é +uma bomba! e graúda!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, roído de curiosidade, murmurou +simplesmente, encolhendo os +hombros:<br /> + + +<br /> + + +―Bem, já sei, é uma herança! Tens +quinze tostões d'alviçaras, Barrôlo.<br /> + + +<br /> + + +Mas durante o jantar e depois na sala tomando café, emquanto +Gracinha +recomeçára as velhas +canções patrioticas, agora as jacobitas, em +louvor +dos Stuarts―Gonçalo anciou pela +apparição do Cavalleiro. Nem receava +que a esse encontro se misturasse amargura, despeito suffocado. Todo o +seu furor contra o Cavalleiro, acceso na dolorosa tarde do Mirante, +revolvido na Torre durante torturados dias, logo se +dissipára lentamente +depois da sua tocante conversa com a irmã, na +manhã historica da briga +da Grainha. Gracinha então, com grandes lagrimas de pureza e +de verdade, +jurára reserva, retrahimento. Gonçalo, +abandonando Oliveira, mostrava +tambem uma resistencia louvavel contra o sentimento ou <span class="pagenum">[499]</span>a vaidade que o +transviára. Demais elle não podia romper +novamente com o Cavalleiro, +andando ainda nos mexericos e espantos d'Oliveira aquella +reconciliação +ruidosa que chamára o Cavalleiro á intimidade dos +Cunhaes. E por fim de +que valiam furores ou magoas? Nenhum rugir ou gemer seu annullariam o +mal que se consummára no Mirante―se porventura se +consummára. E assim +toda a cólera contra o André se +dissipára n'aquella sua leve e doce +alma, onde os sentimentos, sobretudo os mais escuros, os mais +carregados, sempre facilmente se desfaziam como nuvens em ceu de +estio...<br /> + + +<br /> + + +Mas quando, perto das nove horas, o Cavalleiro penetrou na sala, +vagaroso e magnifico, com o bigode encurtado mas mais retorcido, uma +gravata vermelha entufando estridentemente no largo peito que entufava, +Gonçalo sentiu uma renovada aversão por toda +aquella petulancia recheada +de falsidade―e apenas poude bater mollemente, desenxabidamente, nas +costas do velho amigo, que o apertava n'um abraço +d'apparatosa ternura. +E em quanto André, torcendo as luvas claras, languidamente +enterrado na +poltrona que o Barrôlo lhe achegou com carinho, contava de +Lisboa e de +Cascaes, tão alegre, e partidas de <em>bridge</em> +e da Parada e +d'El-Rei―Gonçalo revivia a tarde do Mirante, o seu pobre +coração a +bater contra a persiana mal fechada, a bruta supplica <span class="pagenum">[500]</span>murmurada atravez +d'aquelles bigodes atrevidos, e emmudecera, como empedernido, +esmigalhando nervosamente entre os dentes o charuto apagado. Mas +Gracinha conservava uma serenidade attenta, sem nenhum dos seus +chammejantes rubores, dos seus desgraçados enleios de modo e +gesto, +apenas levemente secca, d'uma seccura preparada e posta. Depois +André +alludira muito desprendidamente ao seu regresso a Lisboa, depois da +Eleição, «porque o tio Reis Gomes, o +José Ernesto, esses crueis amigos, +lhe andavam atirando para os hombros todo o trabalho da Nova Reforma +Administrativa.»<br /> + + +<br /> + + +Entre elle e Gracinha, separados por um curto tapete, parecia cavada +uma +funda legua de fosso, onde rolára, se afundára +todo aquelle romance do +verão, sem que na face d'ambos restasse um afogueado +vestigio do seu +ardor. E Gonçalo, insensivelmente contente pela apparencia, +terminou por +abandonar a cadeira onde se impedernira, accendeu o charuto na vela do +piano, perguntou pelos amigos de Lisboa. Todos (segundo o Cavalleiro) +anciavam pela chegada de Gonçalo.<br /> + + +<br /> + + +―Lá encontrei tambem o Castanheiro... Enthusiasmado com o +teu Romance. +Parece que nem no Herculano, nem no Rebello existe nada tão +forte, como +reconstrucção historica. O Castanheiro prefere +mesmo o teu realismo +epico ao do Flaubert, na <em>Salammbô</em>. +<span class="pagenum">[501]</span>Emfim, +enthusiasmado! E +nós, está +claro, ardendo por que appareça a sublime obra.<br /> + + +<br /> + + +O Fidalgo córou profundamente, murmurando―«Que +tolice!» Depois roçou +pela poltrona em que se enterrava o André, afagou suavemente +o largo +hombro do André:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, tens feito cá muita falta, meu velho! Ha dias passei +em Corinde, +tive saudades...<br /> + + +<br /> + + +Então o Barrôlo, que não socegava, +vermelho, a estoirar rebolando pela +sala, espiando ora o Cavalleiro, ora o Gonçalo, com um riso +mudo e +avido, não se conteve mais, gritou:<br /> + + +<br /> + + +―Bem, basta de prologos... Vamos lá agora á +grande surpresa, André! Eu +tenho estado toda a tarde a rebentar... Mas emfim, jurei e calei! Agora +não posso... Vamos lá. E tu, +Gonçalinho, vae preparando os quinze +tostões.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, com a curiosidade de novo refervendo, apenas +sorria, +desprendidamente:<br /> + + +<br /> + + +―Com effeito! Parece que tens uma bella novidade.<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro alargou lentamente os braços, sempre enterrado +na vasta +poltrona, sem pressa:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! é a cousa mais simples, mais natural... A Snr.<sup>a</sup> +D. +Graça já sabe, +não é verdade?... Não ha motivo para +surpresa... Tão legitima, tão +natural!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo exclamou, já impaciente:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[502]</span> ―Mas emfim, venha lá, dize.<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro insistia, indolente. Todo o espanto era que só +agora se +pensasse em a realisar, cousa tão devida, tão +adequada. Pois não lhe +parecia á Snr.<sup>a</sup> D. Graça?<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo, n'uma braza, berrou:<br /> + + +<br /> + + +―Mas quê? que diabo?<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro, que se despegára vagarosamente da poltrona, +puxou os +punhos, e deante de Gonçalo, no silencio attento, alteando o +peito, +grave, quasi official, começou:<br /> + + +<br /> + + +―Meu tio Reis Gomes, e o José Ernesto, tiveram uma ideia +muito natural, +que communicaram a El-Rei, e que El-Rei approvou... Que approvou mesmo +ao ponto de a appetecer, de se assenhorear d'ella, de desejar que fosse +só sua. E hoje é só d'El-Rei. El-Rei +pois pensou, como nós pensamos, que +um dos primeiros fidalgos de Portugal, decerto mesmo o primeiro, devia +ter um titulo que consagrasse bem a antiguidade illustre da Casa, e +consagrasse tambem o merito superior de quem hoje a representa... Por +isso, meu querido Gonçalo, já te posso annunciar, +e quasi em nome +d'El-Rei, que vaes ser Marquez de Treixedo.<br /> + + +<br /> + + +―Bravo! bravo! bramou o Barrôlo, com palmas delirantes. +Saltem para cá +os quinze tostões, Snr. Marquez de Treixedo!<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[503]</span> +Uma onda de sangue cobria a fina face de Gonçalo. N'um +relance sentiu +que o Titulo era um dom do Cavalleiro, não ao chefe da casa +de Ramires, +mas ao irmão complacente de Gracinha Ramires... E sobre tudo +sentia a +incoherencia de que, ao chefe d'uma Casa dez vezes secular, +mãe de +Dynastias, edificadora do Reino, com mais de trinta dos seus +varões +mortos sob a armadura, se atirasse agora um ouco titulo, atravez do +<em>Diario do Governo</em>, como a um tendeiro enriquecido +que subsidiou +eleições. Todavia saudou o Cavalleiro, que +esperava a effusão, os +abraços.―Oh! Marquez de Treixedo! certamente muito +elegante, muito +amavel... Depois, esfregando as mãos, com um sorriso de +graça e +d'espanto... Mas, meu caro André, com que auctoridade me faz +El-Rei +Marquez de Treixedo?<br /> + + +<br /> + + +O Cavalleiro levantou vivamente a cabeça n'uma offendida +surpresa:<br /> + + +<br /> + + +―Com que auctoridade? Simplesmente com a auctoridade que tem sobre +nós +todos, como Rei de Portugal que ainda é, Deus louvado!<br /> + + +<br /> + + +E Gonçalo, muito simplesmente, sem fumaça ou +pompa, com o mesmo sorriso +de suave gracejo:<br /> + + +<br /> + + +―Perdão, Andrésinho. Ainda não havia +Reis de Portugal, nem sequer +Portugal, e já meus avós Ramires tinham solar em +Treixedo! Eu approvo os +grandes dons entre os grandes fidalgos; mas cumpre <span class="pagenum">[504]</span>aos mais antigos +começarem. El-Rei tem uma quinta ao pé de Beja, +creio eu, o <em>Roncão</em>. +Pois dize tu a El-Rei, que eu tenho immenso gosto em o fazer, a elle, +Marquez do Roncão.<br /> + + +<br /> + + +O Barrôlo embasbacára, sem comprehender, com as +bochechas descahidas e +murchas. Da beira do canapé, Gracinha, toda +córada, faiscava de gosto, +por aquelle lindo orgulho que tão bem condizia com o seu, +mais lhe +fundia a alma com a alma do irmão amado. E André +Cavalleiro, furioso, +mas vergando os hombros com ironica submissão, apenas +murmurou:―«Bem, +perfeitamente!... Cada um se entende a seu modo...»<br /> + + +<br /> + + +O escudeiro entrava com a bandeja do chá.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +E no Domingo foi a Eleição.<br /> + + +<br /> + + +Ainda com uma desconfiança, uma reserva supersticiosa, o +Fidalgo desejou +atravessar esse dia muito solitariamente, quasi escondido, e no +sabbado, +em quanto todos os amigos de Villa-Clara, mesmo os d'Oliveira, o +consideravam estabelecido nos Cunhaes, e em +communicação azafamada com o +Governo Civil, montou a cavallo ao escurecer, e trotou surrateiramente +para Santa Ireneia.<br /> + + +<br /> + + +Mas o Barrôlo (ainda abalado com «aquelle +despauterio do Gonçalo, que +era uma offensa para o <span class="pagenum">[505]</span>Cavalleiro! +até para +El-Rei!») ficára com a +missão de telegraphar para a Torre as noticias successivas +das +assembleias, á maneira que ellas acudissem ao Governo Civil. +E, com +ruidoso zelo, logo depois da missa, estabeleceu entre os Cunhaes e o +velho Convento de S. Domingos um serviço de creados +formigando sem +repouso. Gracinha, na sala de jantar, ajudada por Padre Sueiro, copiava +com amor, n'uma lettra muito redonda, os telegrammas mandados pelo +Cavalleiro, que ajuntava a lapis alguma nota amavel―«<em>Tudo +optimamente!</em>»―<em>Victoria cresce.</em>―<em>Parabens +a V. Ex.<sup>as</sup>.</em><br /> + + +<br /> + + +Pela estrada de Villa-Clara á Torre, incessantemente, o +moço do +Telegrapho se esbaforia sobre a perna manca. O Bento rompia pela +livraria, berrando: «outro telegramma, Snr. +Doutor». Gonçalo, nervoso, +com um immenso bule de chá sobre a banca, a bandeja +já alastrada de +cigarros meio fumados, lia o telegramma ao Bento. O Bento, com <em>vivas</em> +pelo corredor, corria a bramar o telegramma á Rosa.<br /> + + +<br /> + + +E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em +jantar―já +conhecia o seu triumpho explendido. E o que o impressionava, relendo os +telegrammas, era o enthusiasmo carinhoso d'aquelles influentes, povos +que elle mal rogava, e que convertiam o acto da +Eleição quasi n'um acto +d'Amor. Toda a freguezia dos Bravaes marchára para a Egreja, +<span class="pagenum">[506]</span>cerrada +como uma hoste, com o José Casco na frente erguendo uma +enorme bandeira, +entre dous tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso +entrára no +adro da Egreja de Ramilde na sua victoria, com a neta toda vestida de +branco, seguido por uma vistosa fila de <em>char-à-bancs</em>, +onde +se +apinhavam eleitores sob toldos de verdura. Na Finta todos os casaes se +esvasiavam, as mulheres carregadas d'ouro, os rapazes de flôr +na orelha, +correndo á Eleição do Fidalgo entre o +repenicar das violas, como á +romaria d'um Santo. E deante da taberna do Pintainho, em face +á Egreja, +a gente da Velleda, da Riosa, do Cercal, erguera um arco de buxo, com +distico vermelho, sobre panninho:―«Viva o nosso Ramires, +flôr dos +homens!»<br /> + + +<br /> + + +Depois, em quanto jantava, um moço da quinta voltou de +Villa-Clara, +alvoroçado, contando o delirio, as philarmonicas pelas ruas, +a +Assembleia toda embandeirada, e na casa da Camara, sobre a porta, um +transparente com o retrato de Gonçalo, que uma +multidão acclamava.<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo apressou o café. Por timidez, receoso dos +vivorios, não ousava +correr a Villa-Clara―a espreitar. Mas accendeu o charuto, passou +á +varanda, para respirar a doce noite de festa, que andava tão +cheia de +clarões e rumores em seu louvor. E ao abrir a porta +envidraçada quasi +recuou, com outro <span class="pagenum">[507]</span>espanto. +A Torre illuminára! Das suas +fundas frestas, +atravez das negras rexas de ferro, sahia um clarão; e muito +alta, sobre +as velhas ameias, refulgia uma serena corôa de lumes! Era uma +surpresa, +preparada, com delicioso mysterio, pelo Bento, pela Rosa, pelos +moços da +quinta,―que agora, todos, no escuro, por baixo da varanda, contemplavam +a sua obra, allumiando o ceu sereno. Gonçalo percebeu os +passos +abafados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da borda da varanda:<br /> + + +<br /> + + +―Oh, Bento! Oh, Rosa!... Está ahi alguem?<br /> + + +<br /> + + +Um risinho esfusiou. A jaqueta branca do Bento surdio da sombra.<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Doutor queria alguma cousa?<br /> + + +<br /> + + +―Não, homem! Queria agradecer... Foram vocês, +hein? Está linda a +illuminacão! Mas linda. Obrigado, Bento. Obrigado, Rosa! +Obrigado, +rapazes! De longe deve fazer um effeito soberbo.<br /> + + +<br /> + + +Mas o Bento ainda se não contentava com aquellas lamparinas +frouxas. A +Torre, para sobresahir, necessitava chammas fortes de gaz. O Snr. +Doutor +nem imaginava a altura, depois em cima, a immensidão do +eirado.<br /> + + +<br /> + + +Então, de repente, Gonçalo sentiu um desejo de +subir a esse immenso +eirado da Torre. Não entrára na Torre desde +estudante―e sempre ella lhe +desagradára por dentro, tão escura, de +tão duro granito, <span class="pagenum">[508]</span>com +a sua +nudez, silencio e frialdade de jazigo, e logo no pavimento terreo os +negros alçapões chapeados de ferro que levavam +ás masmorras. Mas agora +as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquella derradeira ossada, +Honra +de Ordonho Mendes. E de entre as suas ameias, mais alto que da varanda, +lhe parecia interessante respirar aquella rumorosa sympathia esparsa, +que em torno, pelas freguezias rolava, subindo para elle, atravez da +noite, como um incenso. Enfiou um paletot, desceu á cosinha. +O Bento, o +Joaquim da horta, divertidos, agarraram grandes lanternas. E com elles +atravessou o pomar, penetrou pela atarracada poterna, de funda +hombreira, começou a trepar a esguia escadaria de pedra, que +tanta sola +de ferro polira e poira.<br /> + + +<br /> + + +Já desde seculos se perdera a memoria do logar que occupava +aquella +torre nas complicadas fortificações da Honra e +Senhorio de Santa +Ireneia. Não era de certo (segundo padre Sueiro) a nobre +torre albarran, +nem a de Alcaçova, onde se guardava o thesouro, o cartorio, +os sacos tão +preciosos das especiarias do Oriente―e talvez, obscura e sem nome, +apenas defendesse algum angulo de muralha, para os lados em que o +Castello enfrontava com as terras semeadas e os olmedos da Ribeira. +Mas, +sobrevivente ás outras mais altivas, comprehendida nas +construcções do +Paço formoso que se erguera <span class="pagenum">[509]</span>d'entre +o sombrio Castello +Affonsino, e que +dominava Santa Ireneia durante a dynastia d'Aviz, ligada ainda por +claras arcarias d'um terraço ao Palacio de gosto italiano, +em que +Vicente Ramires converteu o Paço manuelino depois da sua +campanha de +Castella: isolada no pomar, mas sobranceando o casarão que +lentamente se +edificára depois do incendio do Palacio em tempo d'El-Rei D. +José, e a +derradeira certamente onde retiniram armas e circularam os homens do +Terço dos Ramires―ella ligava as edades e como que +mantinha, nas suas +pedras eternas, a unidade da longa linhagem. Por isso o povo lhe +chamára +vagamente a «Torre de D. Ramires». E +Gonçalo, ainda sob a impressão dos +avós e dos tempos que resuscitára na sua Novella, +admirou com um +respeito novo a sua vastidão, a sua força, os +seus empinados escalões, +os seus muros tão espessos, que as frestas esguias na +espessura se +alongavam como corredores, escassamente allumiadas pelas tigelinhas +d'azeite, com que o Bento as despertára. Em cada um dos trez +sobrados +parou, penetrando curiosamente, quasi com uma intimidade, nas salas +núas +e sonoras, de vasto lagedo, de tenebrosa abobada, com os assentos de +pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o d'um poço e +ainda pelas +paredes riscadas de sulcos de fumos, os anneis dos tocheiros. Depois em +cima, no immenso eirado que a fieira de lamparinas, <span class="pagenum">[510]</span>cingindo as ameias, +enchia de claridade, Gonçalo, erguendo a gola do paletot na +aragem mais +fina, teve a dilatada sensação de dominar toda a +Provincia, e de possuir +sobre ella uma supremacia paternal, só pela soberana altura +e velhice da +sua torre, mais que a Provincia e que o Reino. Lentamente caminhou em +roda das ameias, até ao miradouro, a que um candieiro de +petroleo, sobre +uma cadeira de palhinha posta em frente á fresta, estragava +o entono +feudal. No céo macio, mas levemente enevoado, raras +estrellas luziam, +sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos, a espessura +dos arvoredos se fundiam em escuridão. Mas na sombra e +silencio, por +vezes além, para o lado dos Bravaes, lampejavam foguetes +remotos. Um +clarão amarellado e fumarento, caminhando mais longe, +entestando para a +Finta, era de certo um rancho com archotes festivos. Na alta Egreja da +Velleda tremeluzia uma illuminação vaga, rala. +Outras luzes, incertas +através do arvoredo, riscavam o velho arco do Mosteiro, em +Santa Maria +de Craquêde. Da terra escura subia, por vezes, um errante som +de +tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguezias +celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e +o +preito no eirado da sua torre, envolto em silencio e sombra.<br /> + + +<br /> + + +O Bento descera, com o Joaquim, para reforçar <span class="pagenum">[511]</span>as lamparinas +nas frestas +dos muros, onde ellas esmoreciam na espessura. E Gonçalo +sósinho, +acabando o charuto, recomeçou a rolda, lento, em torno +ás ameias, +perdido n'um pensamento que já o agitára +estranhamente, atravez +d'aquelle sobresaltado Domingo... Era pois popular! Por todas essas +aldeias, estendidas á sombra longa da Torre, o Fidalgo da +Torre era pois +popular! E esta certeza não o penetrava d'alegria, nem de +orgulho,―antes o enchia agora, n'aquella serenidade da noite, de +confusão, d'arrependimento! Ah! se adivinhasse―se elle +adivinhasse!... +Como caminharia, com a cabeça bem levantada, com os +braços bem +estendidos, sósinho, em confiança risonha para +todas essas sympathias +que o esperavam, tão certas, tão dadas. Mas +não! Sempre se julgára +cercado da indifferença d'aquellas aldeias, onde elle, +apesar do +antiquissimo nome, era o costumado moço, que volta de +Coimbra e vive +silenciosamente da sua renda, passeando na sua egoa. A essas +indifferenças tão naturaes nunca elle +imaginára arrancar o punhado de +votos, o punhado de papelinhos que necessitava para entrar na Politica, +onde elle conquistaria pela destreza o que os velhos Ramires recebiam +por herança―fortuna e poder. Por isso se +agarrára tão avidamente á +mão +do Cavalleiro, á mão do Snr. Governador +Civil―para que S. Ex.<sup>a</sup>, o bom +<span class="pagenum">[512]</span>amigo, o +mostrasse, o impozesse como o homem necessario, o querido do +Governo, o melhor entre os bons, a quem as freguezias deviam offerecer +n'um Domingo o punhado de votos.<br /> + + +<br /> + + +E na impaciencia d'esse favor abafára a memoria de amargos +aggravos; +deante d'Oliveira pasmada abraçára o homem +detestado desde annos, que +andava chasqueando e demolindo, por praças e jornaes: +facilitára a +resurreição de sentimentos que para sempre deviam +jazer enterrados; e +envolvera o ser que mais amava, a sua pobre e fraca +irmãsinha, em +confusão e miseria moral... Torpezas e damnos―e para +quê? Para +surripiar um punhado de votos que dez freguezias lhe trariam correndo, +gratuitamente, effusivamente, entre <em>vivas</em> e +foguetes, se elle acenasse +e lh'os pedissse...<br /> + + +<br /> + + +Ah! eis ahi... Fôra a desconfiança, essa encolhida +desconfiança de si +mesmo,―que desde o collegio, atravez da vida, lhe estragára +a vida. Era +a mesma desgraçada desconfiança, que ainda +semanas antes, deante de uma +sombra, um pau erguido, uma risada n'uma taberna, o forçava +a abalar, a +fugir, arripiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por fim, um dia, +n'uma volta d'estrada, avança, ergue o chicote―e descobre a +sua força! +E agora, penetra por entre o povo, agarrado timidamente á +mão poderosa, +<span class="pagenum">[513]</span>por se imaginar +impopular―e descobre a sua popularidade immensa. Que +vida enganada, e tanto a sujára―por não saber!<br /> + + +<br /> + + +O Bento não apparecia, ainda azafamado em illuminar +condignamente as +rexas da Torre. Gonçalo atirou a ponta do charuto, e com as +mãos nas +algibeiras do paletot, parou junto do miradouro, olhou vagamente para +as +estrellas. A nevoa adelgaçára quasi +sumida,―lumes mais vivos palpitavam +no ceu mais profundo. De lumes e ceus descia essa +sensação de +infinidade, d'eternidade, que penetra, como uma surpresa, nas almas +desacostumadas da sua contemplação. Na alma de +Gonçalo passou, muito +fugidiamente, o espanto d'essas eternas immensidades sob que se agita, +tão vaidosa da sua agitação, a +rasteira, a sombria poeira humana. Longe, +algum derradeiro foguete ainda lampejava, logo apagado na +escuridão +serena. As luzinhas sobre a capella de Velleda, sobre o arco de Santa +Maria de Craquêde, esmoreciam, já ralas. Todo o +remoto rumor de +musicatas se perdera, na mudez mais funda dos campos adormecidos. O dia +de triumpho findava, breve como os luminares e os foguetes.―E +Gonçalo, +parado, rente do miradouro, considerava agora o valor d'esse triumpho +por que tanto almejára, porque tanto sabujára. +Deputado! Deputado por +Villa-Clara, como o Sanches Lucena. E ante esse resultado, +tão miudo, +<span class="pagenum">[514]</span>tão +trivial,―todo o seu esforço tão +desesperado, tão sem escrupulos, +lhe parecia ainda menos immoral que risivel. Deputado! Para +quê? Para +almoçar no Bragança, galgar de tipoia a ladeira +de S. Bento, e dentro do +sujo convento escrevinhar na carteira do Estado alguma carta ao seu +alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos homens e das ideias, e +distrahidamente acompanhar, em silencio ou balando, o rebanho do S. +Fulgencio, por ter desertado o rebanho identico do Braz Victorino. Sim, +talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e +á senhora +do chefe, e promessas e risos atravez de +Redacções, e algum Discurso +esbrazeadamente berrado―lograsse ser Ministro. E então? +Seria ainda a +tipoia pela calçada de S. Bento, com o correio atraz na +pileca branca, e +a farda mal-feita, nas tardes d'assignatura, e os recurvados sorrisos +d'amanuenses pelos escuros corredores da Secretaria, e a lama +escorrendo +sobre elle de cada gazeta d'opposição... Ah! que +pêca, desinteressante +vida, em comparação d'outras cheias e soberbas +vidas, que tão +magnificamente palpitavam sob o tremeluzir d'essas mesmas estrellas! Em +quanto elle se encolhia no seu paletot, deputado por Villa-Clara, e no +triumpho d'essa miseria―Pensadores completavam a +explicação do +Universo; Artistas realisavam obras de belleza eterna; Reformadores +aperfeiçoavam a harmonia social; <span class="pagenum">[515]</span>Santos +melhoravam +santamente as almas; +Physiologistas diminuiam o velho soffrer humano; Inventores alargavam a +riqueza das raças; Aventureiros magnificos arrancavam mundos +de sua +esterilidade e mudez... Ah! esses eram os verdadeiramente homens, os +que +viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas +mãos +incançadas fórmas sempre mais bellas ou mais +justas da humanidade. Quem +fôra como elles, que são os sobre-humanos! E tal +acção tão suprema +requeria o Genio, o dom que, como a antiga chamma, desce de Deus sobre +um eleito? Não! Apenas o claro entendimento das realidades +humanas―e +depois o forte querer.<br /> + + +<br /> + + +E o Fidalgo da Torre, immovel no eirado da Torre, entre o ceu todo +estrellado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de +Vida superior―até que enlevado, e como se a energia da +longa raça, que +pela Torre passára, refluisse ao seu +coração, imaginou a sua propria +encaminhada emfim para uma acção vasta e fecunda, +em que soberbamente +gozasse o goso de verdadeiro viver, e em torno de si creasse vida, e +accrescentasse um lustre novo ao velho lustre de seu nome, e riquezas +puras o dourassem e a sua terra inteira o bem-louvasse por que elle +inteiro e n'um esforço pleno bem servira a sua terra...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[516]</span> +O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:<br /> + + +<br /> + + +―O Snr. Doutor ainda se demora?<br /> + + +<br /> + + +―Não. A festa acabou, Bento.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Nos começos de Dezembro, com o primeiro numero dos <b><em>Annaes</em></b>, +appareceu a +<em>Torre de D. Ramires</em>. E todos os jornaes, mesmo os +da +opposição, +louvaram «esse estudo magistral (como affirmou a <em>Tarde</em>) +que, revelando +um erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e +colorida, a obra de Herculano e de Rebello, a +reconstituição moral e +social do velho Portugal heroico.» Depois das festas de +Natal, que elle +passou alegremente nos Cunhaes, ajudando Gracinha a cosinhar bolos de +bacalhau por uma receita sublime do padre José Vicente, da +Finta, os +amigos d'Oliveira, os rapazes do Club e da Arcada offereceram ao +Deputado por Villa-Clara, na sala da Camara, adornada de buxos e +bandeiras, um banquete, a que assistia o Cavalleiro, de gran-cruz, e em +que o Barão das Marges (que presidia) saudou «o +prestigioso moço que, +talvez em breve, nas cadeiras do Poder levantasse do marasmo este +brioso +paiz, com a pujança, a valentia, que são proprias +da sua raça +nobilissima!»<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[517]</span> +No meado de Janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gonçalo +partiu para +Lisboa; e atravez do inverno, em Lisboa, andou sempre nos +<em>Carnet-Mondain</em> e <em>High-Life</em> +dos jornaes, nas noticias de jantares, do +<em>raouts</em>, de tiros aos pombos, de Caçadas +d'El-Rei, +tão notado nos +movimentos mais simples da sua elegancia, que os Barrôlos +assignaram o +<em>Diario Illustrado</em> para saber quando elle passeava +na Avenida. Em +Villa-Clara, na Assembleia, o José Gouveia já +encolhia os hombros, +rosnando:―«Desandou em janota!»―Mas nos fins +d'Abril uma noticia de +repente alvoroçou Villa-Clara, espantou na quieta Oliveira +os rapazes do +Club e da Arcada, perturbou tão inesperadamente Gracinha, +então em +Amarante com o Barrôlo, que n'essa noite ambos abalaram para +Lisboa―e +na Torre atirou a Rosa para um banco de pedra da cosinha, lavada em +lagrimas, sem comprehender, gemendo:<br /> + + +<br /> + + +―Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o não torno +mais a vêr!<br /> + + +<br /> + + +Gonçalo Mendes Ramires, silenciosamente, quasi +mysteriosamente, +arranjára a concessão d'um vasto praso de +Macheque, na Zambezia, +hypothecára a sua quinta historica de Treixedo, e embarcava +em começos +de Junho no paquete <em>Portugal</em>, com o Bento, para a +Africa.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2> +XII</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +Quatro annos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como +vôos +d'ave.<br /> + + +<br /> + + +N'uma doce tarde dos fins de Septembro, Gracinha, que +chegára na vespera +de Oliveira acompanhada pelo bom Padre Sueiro, descansava na varanda da +sala de jantar, estendida sobre o canapé de palhinha, ainda +com um +grande avental branco, tapando o vestido até ao +pescoço, um velho +avental do Bento. Todo o dia, d'avental, atravez do casarão, +ajudada +pela Rosa e pela filha da Crispola, s'esfalfára, arrumando e +limpando, +com tanto gosto e fervor no trabalho, que ella mesma sacudira o +pó a +todos os livros da livraria, o seu socegado pó de quatro +annos. O +Barrôlo tambem se occupára, dando +sentenças nas obras da cavallariça, +que a valente egoa da briga da Grainha em breve partilharia com uma +<span class="pagenum">[520]</span>egoa +ingleza, de meio sangue, comprada em Londres. Tambem Padre Sueiro +remexera, pelo Archivo, zelosamente, com um espanejador. E +até o Pereira +da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madrugada dois +moços na final +limpeza da horta, agora muito cuidada, já com meloal, +já com morangal, e +duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e recobertas de latada que +a +parra densa já recobria.<br /> + + +<br /> + + +Com efeito a Torre, entre a alvoroçada alegria de todos, +enfeitava a sua +velhice―por que no Domingo, depois dos seus quatro annos d'Africa, +Gonçalo regressava á Torre.<br /> + + +<br /> + + +E Gracinha, estendida no canapé com o seu velho avental +branco, sorrindo +pensativamente para a quinta silenciosa, para o ceu todo +córado sobre +Valverde, recordava esses quatro annos, desde a manhã em que +abraçára +Gonçalo, suffocada e a tremer, no beliche do <em>Portugal</em>... +Quatro annos! +Assim passados, e nada mudára no mundo, no seu curto mundo +d'entre os +Cunhaes e a Torre, e a vida rolára, e tão sem +historia como rola um rio +lento n'uma solidão:―Gonçalo na Africa, na vaga +Africa, mandando raras +cartas, mas alegres, e com um enthusiasmo de fundador de Imperio; ella +nos Cunhaes, e o seu Barrôlo, n'um tão quieto e +costumado viver, que +eram quasi d'agitação os jantares em que reuniam +os Mendonças, os +Marges, o coronel do 7, outros amigos, e <span class="pagenum">[521]</span>á +noite na sala se +abriam duas +mezas de panno verde para o voltarete e para o boston.<br /> + + +<br /> + + +E n'este manso correr de vida se desfizera mansamente, quasi +insensivelmente, a sombria tormenta do seu +coração. Nem ella agora +comprehendia como um sentimento, que atravez das suas anciedades ella +justificava, quasi secretamente santificava por o saber <em>unico</em>, +e o +desejar <em>eterno</em>, assim se sumira, insensivelmente, +sem +dilacerações, +deixára apenas um leve arrependimento, alguma esfumada +saudade, tambem +estranheza e confusão, restos de tanto que ardera, formando +uma cinza +fina... A successão das cousas rolára, como o +vento ás lufadas n'um +campo, e ella rolára, levada com a inercia d'uma folha secca.<br /> + + +<br /> + + +Logo depois do derradeiro Natal passado com Gonçalo, +André, que ainda os +acompanhára á Missa do Gallo e +consoára nos Cunhaes, voltou para Lisboa, +para essa «Reforma», de que se lastimava... No +silencio que entre ambos +então se alargou, corria já uma frialdade +d'abandono... E quando André +recolheu a Oliveira, ao seu Governo Civil, partia ella para Amarante, +onde a santa mãe do Barrôlo adoecera, com uma +vagarosa doença d'anemia e +velhice, que em Maio a levou para o Senhor.<br /> + + +<br /> + + +Em Junho fôra o commovido embarque de Gonçalo para +a Africa,―e no +tombadilho do paquete, entre o barulho e as bagagens, um encontro com +André, <span class="pagenum">[522]</span>que +chegara d'Oliveira, dias antes, e contou muito +alegremente do +casamento da Mariquinhas Marges. Todo esse verão, como o +Barrôlo +decidira fazer obras consideraveis no velho palacete do Largo d'El-Rei, +o passaram na quinta da <em>Murtosa</em>, que ella +escolhera por causa da linda +matta, dos altos muros de convento. A essa solidão attribuiu +logo o +Barrôlo a sua melancolia, a sua magreza, aquelle cansado +scismar a que +se abandonava, pelos bancos musgosos da matta, com um romance esquecido +no regaço. Para que ella se distrahisse, se fortificasse com +banhos do +mar, alugou em Setembro, na Costa, o vistoso chalet do commendador +Barros. Ella não tomou banhos, nem apparecia na praia, +á fresca hora das +barracas, entre as senhoras sentadas em cadeirinhas baixas:―e +só á +tarde passeava pelo comprido areal rente á vaga, acompanhada +por dous +enormes galgos que lhe dera Manoel Duarte. Uma manhã, ao +almoço, ao +abrir as <em>Novidades</em>, Barrôlo pulou, com +um berro, um +espanto. Era a +queda inesperada do Ministerio do S. Fulgencio! André +Cavalleiro +apresentava logo a sua demissão pelo telegrapho. E ainda +pelas +<em>Novidades</em> souberam na Costa que S. Ex.<sup>a</sup> +partira +para uma +«longa e +pittoresca viagem», a viagem a Constantinopla, á +Asia Menor, que elle +annunciára ao jantar nos Cunhaes. Ella abrira um Atlas: com +o dedo lento +caminhou desde Oliveira <span class="pagenum">[523]</span>até +á Syria, por sobre +fronteiras e montes: já +André lhe parecia desvanecido, n'esses horisontes mais +luminosos; fechou +o Atlas, pensando simplesmente «como a gente muda!»<br /> + + +<br /> + + +Em Novembro voltaram a Oliveira, n'um sabbado de chuva, e ella na +carruagem sentia toda a melancolia e a frialdade do ceu penetrar no seu +coração. Mas no Domingo acordou com um lindo sol +nas vidraças. Para a +missa das onze na Sé, ella estreou um chapéo +novo; depois, no caminho +para casa da tia Arminda, levantou os olhos para o casarão +do Governo +Civil: agora habitava lá outro Governador Civil, o Snr. +Santos +Maldonado, um moço louro que tocava piano.<br /> + + +<br /> + + +Na outra primavera o Barrôlo, agora escravisado pela +paixão d'obras, +imaginou demolir o Mirante para construir outra estufa, mais vasta, com +um repuxo entre palmeiras, que formaria «um jardim d'inverno +catita.»<br /> + + +<br /> + + +Os trabalhadores começaram por esvasiar o Mirante da velha +mobilia que o +guarnecia desde o tempo do tio Melchior: o immenso divan jazeu dois +dias +no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barrôlo, +impaciente, +com aquelle desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas +arrecadações do sotão, mandou que o +queimassem com outras cadeiras +partidas, n'uma fogueira de festa, na noute <span class="pagenum">[524]</span>dos +annos de Gracinha. E +ella andou em torno da fogueira. O estofo poído flammejou, +depois o +mogno pesado mais lentamente, com um leve fumo, até que uma +braza ficou +latejando, e a braza escureceu em cinza.<br /> + + +<br /> + + +Logo n'essa semana as Lousadas, mais agudas, mais escuras, invadiram +uma +tarde os Cunhaes―e apenas espetadas no sophá, logo lhe +contaram, com um +riso feroz nos olhinhos furantes, do grande escandalo, o Cavalleiro! em +Lisboa! sem rebuço! com a mulher do Conde de S. +Romão! um fazendeiro de +Cabo Verde!<br /> + + +<br /> + + +N'essa noite, ella escreveu a Gonçalo uma carta muito longa +que +começava:―«Por cá estamos todos bem, e +n'este rame-ram costumado...» E +com effeito a vida recomeçára, no seu rame-ram, +simples, contínua, e sem +historia, como corre um rio claro n'uma solidão.<br /> + + +<br /> + + +Á porta envidraçada da varanda o filho da +Crispola espreitou―o filho da +Crispola, que ficára sempre na Torre, como +«andarilho», mas crescera +muito para fóra da sua antiga jaqueta de botões +amarellos, usava agora +jaquetões velhos do Snr. Doutor, e já repuxava o +buço:<br /> + + +<br /> + + +―É que está lá em baixo o Snr. +Antonio Villalobos, com o Snr. Gouveia e +outro senhor, o Videirinha, e perguntam se podem fallar á +senhora...<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[525]</span> ―O Snr. Villalobos! Sim! que subam, que entrem para aqui, para a +varanda!<br /> + + +<br /> + + +Ao atravessar a sala, onde dous esteireiros d'Oliveira pregavam uma +esteira nova, o vozeirão do Titó já +ribombava, notando os «preparativos +da festa...» E quando entrou na varanda a sua face mais +barbuda, mais +requeimada, rebrilhava com a alegria d'encontrar emfim a Torre +despertando d'aquella modorra, em que tudo dentro parecia tristemente +apagado, até o lume das caçarolas:<br /> + + +<br /> + + +―Peço desculpa da invasão, prima +Graça. Mas passamos, de volta d'um +passeio dos Bravaes, soubemos que a prima viera com o +Barrôlo...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! gosto immenso, primo Antonio. Eu é que peço +desculpa d'esta +figura, assim despenteada, de grande avental... Mas todo o dia em +arranjos, a preparar a casa... E o Snr. Gouveia, como tem passado? +Não o +vejo desde a Paschoa.<br /> + + +<br /> + + +O administrador, que não mudára n'esses quatro +annos, escuro, secco, +como feito de madeira, sempre esticado na sobrecasaca preta, apenas com +o bigode mais amarellado do cigarro, agradeceu á Snr.<sup>a</sup> +D. +Graça... E +passára menos mal, desde a Paschoa. A não ser a +desavergonhada da +garganta...<br /> + + +<br /> + + +―E então o nosso grande homem? quando chega? quando chega?<br /> + + +<br /> + + +―No Domingo. Estamos todos em alvoroço... <span class="pagenum">[526]</span>Então +não se senta, Snr. +Videira? Olhe, puxe aquella cadeira de vime. A varanda por ora +não está +arranjada.<br /> + + +<br /> + + +Videirinha, logo depois da Eleição, recebera de +Gonçalo o logar +promettido, facil e com vagares, para não esquecer o +violão. Era +amanuense na Administração do Concelho de +Villa-Clara. Mas convivia +ainda na intimidade do seu chefe, que o utilisava para todos os +serviços, mesmo de enfermeiro, e o mandava sempre com uma +auctoridade +secca, mesmo ceando ambos no Gago.<br /> + + +<br /> + + +Timidamente arrastou a cadeira de vime, que collocou, com respeito, +atraz da cadeira do seu Chefe. E depois de tirar as luvas pretas, que +agora sempre trazia para realçar a sua +posição, lembrou que o comboio +chegava ao apeadeiro de Craquêde ás dez e +quarenta, não trazendo atrazo. +Mas talvez o Snr. Doutor apeasse em Corinde, por causa das bagagens...<br /> + + +<br /> + + +―Duvido, murmurou Gracinha. Em todo o caso o José +está com tenção de +partir de madrugada, para o encontrar na +bifurcação, em Lamello.<br /> + + +<br /> + + +―Nós não! acudiu o Titó, que se +sentára familiarmente no rebordo da +varanda. Cá o nosso rancho vae simplesmente a +Craquêde. Já é terra da +familia, e sitio mais socegado para o vivorio... Mas então +esse homem +não se demorou em Lisboa, prima Graça?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[527]</span> ―Desde Domingo, primo Antonio. Chegou no Domingo, de Paris, pelo +Sud-Express. E teve uma chegada brilhante... Oh! muito brilhante! +Hontem +recebi eu uma carta da Maria Mendonça, uma grande carta em +que conta...<br /> + + +<br /> + + +―O que? A prima Maria Mendonça está em Lisboa?<br /> + + +<br /> + + +―Sim, desde os fins d'Agosto, n'uma visita a D. Anna Lucena...<br /> + + +<br /> + + +Vivamente, João Gouveia puxou a cadeira, n'uma curiosidade +que de certo +o remoera:<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, Snr.<sup>a</sup> D. +Graça!―Então +parece que a D. Anna Lucena comprou +uma casa em Lisboa. anda em arranjos de mobilia?... V. Ex.<sup>a</sup> +ouviu, +Snr.<sup>a</sup> D. Graça?<br /> + + +<br /> + + +Não, Gracinha não sabia. Mas era natural, agora +que tanto se demorava em +Lisboa, pouco se aproveitava da <em>Feitosa</em>, +tão linda +quinta...<br /> + + +<br /> + + +―Então casa! exclamou o Gouveia, com immensa +convicção. Se anda em +arranjos de mobilia, então casa. É natural, quer +posição. Depois, já lá +vão quatro annos de viuvez, e...<br /> + + +<br /> + + +Gracinha sorriu. Mas o Titó, que coçava +lentamente a barba, voltou á +carta da prima Maria Mendonça, contando a chegada.<br /> + + +<br /> + + +―Sim! acudiu Gracinha, conta, esteve na Estação, +no Rocio. Parece que o +Gonçalo optimo, mais <span class="pagenum">[528]</span>forte... +Olhe, primo Antonio, leia a +carta. Leia +alto! Não tem segredos. É toda sobre o +Gonçalo...<br /> + + +<br /> + + +Tirára do bolso um pesado enveloppe, com sinete d'armas no +lacre. Mas a +prima Maria escrevia sempre depressa, n'uma lettra atabalhoada, com as +linhas crusadas. Talvez o primo Antonio não +comprehendesse...―E com +effeito, deante das quatro folhas de papel erriçadas de +negras linhas, +parecendo uma sebe espinhosa, o Titó recuou, aterrado. Mas o +João +Gouveia immediatamente se offereceu, com a sua pericia em decifrar +officios de regedores... Não havendo segredos.<br /> + + +<br /> + + +―Não, não ha segredos, afiançou +Gracinha, rindo. É unicamente sobre o +Gonçalo, como n'um jornal.<br /> + + +<br /> + + +O administrador folheou a immensa carta, passou os dedos sobre o +bigode, +com certa solemnidade:<br /> + + +<br /> + + +«Minha querida Graça... A costureira do Silva diz +que o vestido...»<br /> + + +<br /> + + +―Não! acudiu Gracinha. É na outra pagina, no +alto. Volte a pagina.<br /> + + +<br /> + + +Mas o Administrador gracejou, ruidosamente. Oh! está claro, +carta de +senhora, logo os trapos... E a Snr.<sup>a</sup> D. +Graça a assegurar +que era toda +sobre Gonçalo. Pois já veriam se pelo meio se +não fallava ainda em +vestidos... Ah! estas senhoras, com os <span class="pagenum">[529]</span>trapos!...―Depois +recomeçou, na +outra pagina, com lentidão e gravidade:<br /> + + +<br /> + + +«...Deves agora estar anciosa por saber da grande chegada do +primo +Gonçalo. Foi realmente brilhante, e parecia uma +recepção de pessoa real. +Eramos mais de trinta amigos. Está claro, appareceu toda a +roda da nossa +parentella; e se rebentasse de repente n'essa manhã uma +revolução, os +Republicanos apanhavam alli junta, na estação do +Rocio, toda a flôr da +nobresa de Portugal, da velha, da boa. De senhoras, era a prima +Chellas, +a tia Louredo, as duas Esposendes (com o tio Esposende, que apesar do +rheumatismo e da vindima, veiu expressamente da quinta de Torres), e +eu. +Homens, todos. E como estava o Conde de Arega, que é +secretario d'El-Rei +e o primo Olhalvo, que é o seu Mordomo-Mór, e o +Ministro da Marinha e o +Ministro das Obras Publicas, ambos condiscipulos e intimos de +Gonçalo, +as pessoas na estação deviam imaginar que chegava +El-Rei. O Sud-Express +trouxe quarenta minutos de demora. De modo que parecia um +salão, com +toda aquella gente da sociedade, muito alegre, e o primo Arega, sempre +tão amavel e engraçado, e fazendo já +convites para um jantar (que depois +deu) ao primo Gonçalo. Lá fui a esse jantar com o +meu vestido verde, +novo, que ficou bem...»<br /> + + +<br /> + + +Gouveia gritou triumphando:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[530]</span> ―Hein? que disse eu?! cá está vestido. Vestido +verde!<br /> + + +<br /> + + +―Lê para deante, homem! bramou o Titó.<br /> + + +<br /> + + +E o Administrador, realmente interessado, recomeçou, com +entono:<br /> + + +<br /> + + +«...com o meu vestido verde novo, excepto a saia, um pouco +pesadota. +Creio que fui eu a primeira que avistou o primo Gonçalo, na +plataforma +do Sud-Express. Não imaginas como vem... optimo! +Até mais bonito, e +sobretudo mais homem. A Africa nem de leve lhe tostou a pelle. Sempre a +mesma brancura. E d'uma elegancia, d'um apuro! Prova de como se adeanta +a civilisação d'Africa! dizia o primo Arega, este +é estylo novo de +tangas em Macheque!... Como imaginas, muito abraço, muita +beijoca. A tia +Louredo choramigou. Ah, já esquecia! Estava tambem o +Visconde de +Rio-Manso, com a filha, a Rosinha. Muito linda ella, com um vestido do +Redfern, fez sensação. Todos me perguntavam quem +era, e o conde d'Arega, +está claro, logo com appetite de ser apresentado. O +Rio-Manso tambem +choramigou ao abraçar o primo Gonçalo. E ali +viemos todos, em nobre +sequito, pela estação fóra, entre o +pasmo dos povos. Mas immediatamente +uma scena. De repente, no meio de toda aquella nata de +brazões, o primo +Gonçalo rompe e cahe nos braços do homemzinho de +bonet agaloado que +<span class="pagenum">[531]</span>recebia +á porta os bilhetes. Sempre o mesmo +Gonçalo! Parece que o +conheceu ao chegar a Lourenço Marques, onde o homem tratava +de se +estabelecer como photographo. Mas já esquecia o melhor―o +Bento! Não +imaginas o Bento... Magnifico! Deixou crescer um bocado de suissa. +É um +modelo, vestido em Londres, de grande casaco de viagem de panno claro, +até aos pés, luvas amarelladas, gravidade +immensa. Gostou de me vêr na +estação―perguntou logo, com o olho humido, pela +Snr.<sup>a</sup> D. Graça, e pela +Rosa. Á noite, o José e eu jantamos em familia, +com o primo Gonçalo, no +Bragança, para conversar da Torre e dos Cunhaes. Elle contou +muitas +cousas interessantes d'Africa. Traz notas para um livro, e parece que o +praso prospera. N'estes poucos annos plantou dois mil coqueiros. Tem +tambem muito cacau, muita borracha. Gallinhas são aos +milhares. É +verdade que uma gallinha gorda em Macheque vale um pataco. Que inveja! +Aqui em Lisboa custa seis tostões, só com +ossos―por que tendo tambem +alguma carne no peito, salta para cá dez tostões, +e agradece! No praso +já se construiu uma grande casa, proximo do rio, com vinte +janellas e +pintada de azul. E o primo Gonçalo declara que já +não vende o praso nem +por oitenta contos. Para felicidade completa até achou um +excellente +administrador. Eu todavia duvido que elle volte para a Africa. Tenho +agora cá a minha linda ideia sobre o futuro do primo +Gonçalo. Talvez te +rias. E não adivinhas... com effeito, eu mesma só +n'essa noite em que +jantamos no Bragança, recebi de repente a +inspiração. O Rio-Manso está +tambem no Bragança. Quando desciamos para o jantar, para um +gabinete, +encontramos no corredor o velho com a pequena. O homem tornou logo a +abraçar Gonçalo, com uma <em>ternura de pae</em>. +E a +Rosinha tão vermelha se +fez, que até Gonçalo, apesar de excitado e +distrahido, notou e córou de +leve. Parece que já ha entre elles um conhecimento antigo, +por causa +d'um cesto de rosas, e que, desde annos, o Destino os anda +surrateiramente chegando. Ella é realmente uma belleza. E +tão +sympathica, tão bem educada!... Differença +d'edade, apenas onze annos; e +o dote tremendo. Fallam em quinhentos contos. Ha apenas a +questão de +sangue e o d'ella, coitadinha... Emfim, como se diz em +heraldica,―«<em>o +Rei faz a pastora Rainha</em>.» E os Ramires, +não +só vem dos Reis, mas os +Reis vem dos Ramires.―E agora passando a assumpto menos +interessante...»<br /> + + +<br /> + + +Discretamente João Gouveia dobrou a carta, que entregou a +Gracinha, +louvando a Snr.<sup>a</sup> D. Maria Mendonça +como um +«reporter» precioso. Depois, +com um cumprimento:<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[533]</span> ―E, minha senhora, se as previsões d'ella se realisam...<br /> + + +<br /> + + +Mas não! Gracinha não acreditava! Ora! +imaginações da Maria Mendonça.<br /> + + +<br /> + + +―O primo Antonio bem a conhece, sabe como ella é +casamenteira...<br /> + + +<br /> + + +―Pois se até a mim me quiz casar, ribombou o +Titó saltando do rebordo +da varanda. Imagine a prima... Até a mim! Com a viuva Pinho, +da loja de +pannos.<br /> + + +<br /> + + +―Credo!<br /> + + +<br /> + + +Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um sentimento verdadeiro da +vida positiva:<br /> + + +<br /> + + +―Olhe, Snr.<sup>a</sup> D. Graça, acredite V. +Ex.<sup>a</sup>, sempre era +melhor arranjo +para o Gonçalo que a Africa... Eu não acredito +n'esses prazos... Nem na +Africa. Tenho horror á Africa. Só serve para nos +dar desgostos. Boa para +vender, minha senhora! A Africa é como essas quintarolas, +meio a monte, +que a gente herda d'uma tia velha, n'uma terra muito bruta, muito +distante, onde não se conhece ninguem, onde não +se encontra sequer um +estanco; só habitada por cabreiros, e com sezões +todo o anno. Boa para +vender.<br /> + + +<br /> + + +Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:<br /> + + +<br /> + + +―O quê! vender o que tanto custou a ganhar, <span class="pagenum">[534]</span>com tantos +trabalhos no +mar, tanta perda de vida e fazenda?!<br /> + + +<br /> + + +O Administrador protestou logo, com calor, já enristado para +a +controversia:<br /> + + +<br /> + + +―Quaes trabalhos, minha senhora? Era desembarcar alli na areia, plantar +umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos... Essas +glorias +d'Africa são balelas. Está claro, V. Ex.<sup>a</sup> +falla +como fidalga, neta de +fidalgos. Mas eu como economista. E digo mais...<br /> + + +<br /> + + +O seu dedo agudo ameaçava argumentos agudos.<br /> + + +<br /> + + +Titó acudiu, salvou Gracinha:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Gouveia, nós estamos a tirar o tempo á prima +Graça, que anda nos +seus arranjos. Essas questões d'Africa são para +depois, com o Gonçalo, á +sobremeza... E então, minha querida prima, até +Domingo, em Craquêde. Lá +comparece o rancho todo. E quem atira os foguetes sou eu!<br /> + + +<br /> + + +Mas Gouveia, cofiando o côco com a manga, ainda esperava +converter a +Snr.<sup>a</sup> D. Graça ás ideias +sãs, sobre +Politica Colonial.<br /> + + +<br /> + + +―Era vender, minha senhora, era vender! Ella sorria, já +consentia―tomando a mão do Videirinha, que hesitava, com os +dedos +espetados:<br /> + + +<br /> + + +―E então, Snr. Videira, tem agora algumas quadras novas +para o <em>Fado</em>?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[535]</span> +Córando, Videirinha balbuciou que +«arranjára uma coisita, tambem n'um +fado, para a volta do Snr. Doutor.» Gracinha prometteu +decorar, para +cantar ao piano.<br /> + + +<br /> + + +―Muito agradecido a V. Ex.<sup>a</sup>... Creado de V. Ex.<sup>a</sup>...<br /> + + +<br /> + + +―Então até Domingo, primo Antonio... +Está uma tarde linda.<br /> + + +<br /> + + +―Até Domingo, em Craquêde, prima.<br /> + + +<br /> + + +Mas á porta envidraçada, João Gouveia +parou mais teso, bateu na testa:<br /> + + +<br /> + + +―Já me esquecia, desculpe V. Ex.<sup>a</sup>! +Recebi uma carta do +André +Cavalleiro, da Figueira da Foz. Manda muitas saudades ao +Barrôlo. E quer +saber se o Barrôlo lhe poderia ceder d'aquelle vinho verde de +Vidainhos. +É tambem para um africanista, para o conde de S. +Romão... Parece que a +Snr.<sup>a</sup> condessa se péla por vinho +verde!<br /> + + +<br /> + + +E os tres amigos, em fila, atravessaram a sala de jantar, onde o +vozeirão do Titó ainda ribombou, louvando a +esteira nova de côres. No +corredor, Videirinha espreitou para a Livraria, notou o molho de penas +de pato espetado no velho tinteiro de latão, que esperava, +rebrilhando +solitariamente sobre a mesa nua sem papeis nem livros. Depois a Rosa +appareceu á porta do quarto de Gonçalo, ajoujada +de roupa, com um riso +em cada ruga da sua face <span class="pagenum">[536]</span>redonda +e côr de tijolo, que o farto +lenço de +cambraia, muito branco, circumdava como um nimbo. O Titó +affagou +carinhosamente o hombro da boa cosinheira:<br /> + + +<br /> + + +―Então, tia Rosa, agora recomeçam essas grandes +petisqueiras, hein?<br /> + + +<br /> + + +―Louvado seja Deus, Snr. D. Antonio! Que imaginei que não +tornava a vêr +o meu rico senhor. Tambem já tinha decidido... Se me +enterrassem o corpo +aqui em Santa Ireneia, antes de eu vêr o menino, a alma com +certesa ia á +Africa para lhe fazer uma visita.<br /> + + +<br /> + + +Os seus miudos olhos piscaram, lagrimejando de gosto―e seguiu pelo +corredor, tesa e decidida, com a sua trouxa que rescendia a +maçã +camoeza. O Gouveia murmurára com uma +careta:―«Safa!» E os tres amigos +desceram ao pateo onde, por curiosidade do Titó, visitaram +as obras da +cavallariça.<br /> + + +<br /> + + +―Veja você! exclamou elle para o Gouveia, que accendia o +charuto. Você +a negar!... Mobilias, obras, egoa ingleza... Tudo já +dinheiro d'Africa.<br /> + + +<br /> + + +O Administrador encolheu os hombros:<br /> + + +<br /> + + +―Veremos depois como elle traz o figado...<br /> + + +<br /> + + +Deante do portão o Titó ainda parou a colher, na +roseira costumada, uma +rosinha para florir o jaquetão de velludilho. E juntamente +entrava o +Padre Sueiro, recolhendo d'uma volta pelos Bravaes, com <span class="pagenum">[537]</span>o seu grande +guarda-sol de panninho e o seu breviario. Todos acolheram com carinho o +santo e douto velho, tão raro agora na Torre.<br /> + + +<br /> + + +―E então no Domingo, cá temos o nosso homem, +Padre Sueiro!<br /> + + +<br /> + + +O capellão achatou sobre o peito a mão gorda, com +reverencia, com +gratidão...<br /> + + +<br /> + + +―Deus ainda me quiz conceder, na minha velhice, mais esse grande +favor... Pois mal o esperava. Terras tão asperas, e elle +tão delicado...<br /> + + +<br /> + + +E para conversar de Gonçalo, da espera em +Craquêde, acompanhou aquelles +senhores até á ponte da Portella. João +Gouveia manquejava, aperreado por +umas infames botas novas que n'essa manhã +estreára. E descançaram um +momento no bello banco de pedra que o pae de Gonçalo +mandára collocar, +quando Governador Civil d'Oliveira. Era esse o doce sitio d'onde se +avista Villa-Clara, tão aceada, sempre tão +branca, áquella hora toda +rosada, d'esde o vasto convento de Santa Theresa até ao muro +novo do +cemiterio no alto, com os seus finos cyprestes.<br /> + + +<br /> + + +Para além dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o +sol descia, +vermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens vermelhas, +accendendo ainda, em ouro coruscante, as janellas da Villa.<br /> + + +<br /> + + +Ao fundo do valle, uma claridade nimbava as <span class="pagenum">[538]</span>altas +ruinas de Santa Maria +de Craquêde, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio +cheio corria +sem um rumor, já dormente na sombra dos choupos finos, onde +ainda +passaros cantavam. E na volta da estrada, por cima dos alamos que +escondiam o casarão, a velha Torre, mais velha que a Villa e +que as +ruinas do Mosteiro, e que todos os casaes espalhados, erguia o seu +esguio miradoiro, envolto no vôo escuro dos morcegos, +espreitando +silenciosamente a planicie e o sol sobre o mar, como em cada tarde +d'esses mil annos, desde o Conde Ordonho Mendes.<br /> + + +<br /> + + +Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vaccas +lentas. +Do lado da Villa, o padre José Vicente da Finta trotou na +sua egoa +branca, saudou o Snr. Administrador, o amigo Sueiro, +abençoando tambem a +chegada do Fidalgo para quem já preparára uma +bella cesta da sua uva +moscatel. Trez caçadores, com uma matilha de coelheiras, +atravessaram a +estrada, descendo pelo portello á quelha que contorna o +casal do +Miranda.<br /> + + +<br /> + + +Um silencio ainda claro, de immenso repouso, tão doce como +se descesse +do ceu, cobria a largueza povoada dos campos, onde não se +movia uma +folha, na macia transparencia do ar de Setembro. Os fumos das lareiras +accesas já se escapavam, lentos e leves, d'entre a telha +rala. Na loja +do João ferreiro, adeante da Portella, o clarão +da forja avivou, mais +<span class="pagenum">[539]</span>vermelho. Um <em>bum-bum</em> +de tambor bateu festivamente +para o lado dos +Bravaes, cresceu apressado, marchando:―n'algum cabeço, +depois +lentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no valle +mais fundo.<br /> + + +<br /> + + +João Gouveia, que se recostára no canto do largo +assento de pedra, com o +seu côco sobre os joelhos, acenou para o lado dos Bravaes:<br /> + + +<br /> + + +―Estou a lembrar aquella passagem do romance do Gonçalo, +quando os +Ramires se preparam para soccorrer as Infantas, andam a reunir a +mesnada. É assim, a estas horas da tarde, com tambores: e +por sitios... +«Na frescura do valle...» Não! +«Pelo valle de Craquêde...» Tambem +não! +Esperem vocês, que eu tenho boa memoria... Ah! «E +por todo o fresco +valle até Santa Maria de Craquêde, os atambores +mouriscos abafados no +arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos cerros ralatam! ralatam! +convocavam á mesnada dos Ramires, na doçura da +tarde...» E lindo!<br /> + + +<br /> + + +Por sobre as costas do Titó que, debruçado, +riscava pensativamente com o +bengalão a poeira da estrada, Videirinha adeantou para o seu +chefe a +face estendida, com um sorriso de finura:<br /> + + +<br /> + + +―Oh Snr. Administrador, olhe que talvez seja ainda mais bonito, quando +os Ramires largam a perseguir o Bastardo! Cá para mim, tem +mais poesia. +<span class="pagenum">[540]</span>Quando o velho faz +aquella jura com a espada e depois lá na +Torre, muito +devagar, começa a tocar a finados... É d'appetite!<br /> + + +<br /> + + +Á borda do assento, encolhido contra o Titó, para +que o Snr. +Administrador se alastrasse confortavelmente, Padre Sueiro, com as +mãos +no cabo do seu guarda-sol, concordou:<br /> + + +<br /> + + +―Com certesa! são lances interessantes... Com certesa! +N'aquella +novella ha imaginação rica, muito rica: e ha +saber, ha verdade.<br /> + + +<br /> + + +O Titó, que depois de <em>Simão de Nantua</em>, +em +pequeno, não abrira mais as +folhas d'um livro, e não lêra a <em>Torre +de D. +Ramires</em>, murmurou, com um +risco mais largo na poeira:<br /> + + +<br /> + + +―Extraordinario, aquelle Gonçalo!<br /> + + +<br /> + + +O Videirinha não findára o seu enlevado sorriso:<br /> + + +<br /> + + +―Tem muito talento... Ah! o Snr. Doutor tem muito talento.<br /> + + +<br /> + + +―Tem muita raça! exclamou o Titó, levantando a +cabeça. E é o que o +salva dos defeitos... Eu sou um amigo de Gonçalo, e dos +firmes. Mas não +o escondo, nem a elle... Sobretudo a elle. Muito leviano, muito +incoherente... Mas tem a raça que o salva.<br /> + + +<br /> + + +―E a bondade, Snr. Antonio Villalobos! atalhou docemente Padre Sueiro. +A bondade, sobretudo como a do Snr. Gonçalo, tambem salva... +Olhe, ás +vezes <span class="pagenum">[541]</span>ha um homem +muito serio, muito puro, muito austero, um +Catão que +nunca cumpriu senão o dever e a lei... E todavia ninguem +gosta d'elle, +nem o procura. Por que? Por que nunca deu, nunca perdoou, nunca +acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano, descuidado, que tem +defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever, que offendeu +mesmo +a lei... Mas quê? É amoravel, generoso, dedicado, +serviçal, sempre com +uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o +amam, e não sei mesmo, Deus me perdôe, se Deus +tambem o não prefere...<br /> + + +<br /> + + +A curta mão que acenára para o ceu, recahiu sobre +o cabo d'osso do +guarda-sol. Depois, e córado com a temeridade de pensamento +tão +espiritual acudiu cautelosamente:<br /> + + +<br /> + + +―Que esta não é propriamente doutrina da +Egreja!... Mas anda nas almas; +anda já em muitas almas.<br /> + + +<br /> + + +Então João Gouveia abandonou o recosto do banco +de pedra e teso na +estrada, com o côco á banda, reabotoando a +sobrecasaca, como sempre que +estabelecia um resumo:<br /> + + +<br /> + + +―Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. +E sabem +vocês, sabe o Snr. Padre Sueiro quem elle me lembra?<br /> + + +<br /> + + +―Quem?<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[542]</span> ―Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquelle todo +de Gonçalo, +a franqueza, a doçura, a bondade, a immensa bondade, que +notou o Snr. +Padre Sueiro... Os fogachos e enthusiasmos, que acabam logo em fumo, e +juntamente muita persistencia, muito aferro quando se fila á +sua +ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos +negocios, e sentimentos de muita honra, uns escrupulos, quasi pueris, +não é verdade?... A +imaginação que o leva sempre a exaggerar +até á +mentira, e ao mesmo tempo um espirito pratico, sempre attento +á +realidade util. A viveza, a facilidade em comprehender, em apanhar... A +esperança constante n'algum milagre, no velho milagre +d'Ourique, que +sanará todas as difficuldades... A vaidade, o gosto de se +arrebicar, de +luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na +rua o braço a um +mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, +tão sociavel. +A desconfiança terrivel de si mesmo, que o acobarda, o +encolhe, até que +um dia se decide, e apparece um heroe, que tudo arrasa... +Até aquella +antiguidade de raça, aqui pegada á sua velha +Torre, ha mil annos... Até +agora aquelle arranque para a Africa... Assim todo completo, com o bem, +com o mal, sabem vocês quem elle me lembra?<br /> + + +<br /> + + +―Quem?...<br /> + + +<br /> + + +―Portugal.<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[543]</span> +Os tres amigos retomaram o caminho de Villa-Clara. No ceu branco uma +estrellinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquêde. E Padre +Sueiro, +com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu á +Torre vagarosamente, no +silencio e doçura da tarde, resando as suas +Avè-Marias, e pedindo a paz +de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e +casaes +adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia +de graça +amoravel, que sempre bemdita fosse entre as terras.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>FIM</h3> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +A revisão das provas d'este livro, desde paginas 417 +até á conclusão, +não foi feita pelo Auctor. Entretanto seguiu-se á +risca o original. +</div> + + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's A Illustre Casa de Ramires, by Eça de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES *** + +***** This file should be named 23145-h.htm or 23145-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/3/1/4/23145/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/23145-h/images/fig_1.png b/23145-h/images/fig_1.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4112ff9 --- /dev/null +++ b/23145-h/images/fig_1.png |
