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+The Project Gutenberg EBook of O Mysterio da Estrada de Cintra, by
+José Maria Eça de Queiroz and Ramalho Ortigão
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Mysterio da Estrada de Cintra
+ Cartas ao Diário de Noticias, terceira edição
+
+Author: José Maria Eça de Queiroz
+ Ramalho Ortigão
+
+Release Date: February 12, 2007 [EBook #20574]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (This file was produced from
+images generously made available by National Library of
+Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+O Mysterio da Estrada de Cintra
+
+
+COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
+
+
+EÇA DE QUEIROZ E RAMALHO ORTIGÃO
+
+
+
+
+O Mysterio da Estrada de Cintra
+
+
+Cartas ao _Diario de Noticias_
+
+
+Terceira Edição emendada e precedida d'um Prefacio
+
+
+LISBOA
+
+Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor
+50--RUA AUGUSTA--54
+
+MDCCCXCIV
+
+
+LISBOA
+TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA
+11--Apostolos--1.^o
+
+
+
+
++PREFACIO DA 2^a EDIÇÃO+
+
+
+CARTA AO EDITOR D'O _Mysterio da Estrada de Cintra_
+
+
+Ha quatorze annos, n'uma noite de verão no Passeio Publico, em frente de
+duas chavenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em
+torno de nós cabeceava de somno ao som de um soluçante _pot-pourri_ dos
+_Dois Foscaris_, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo
+a berros, n'um romance tremendo, businado á baixa das alturas do _Diario
+de Noticias_.
+
+Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, sem
+estylo, recolhidos á simples «torre de crystal da Imaginação», desfechámos
+a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com
+com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia.
+
+Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pela
+curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do _Diario de Noticias_
+o _Mysterio da Estrada de Cintra_, o comprou ainda n'uma edição em livro;
+e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos o
+que pensamos da obra escripta n'esses velhos tempos, que recordamos com
+saudade...
+
+Havia já então terminado o feliz reinado do senhor D. João VI. Fallecera o
+sympathico Garção, Tolentino o jocundo, e o sempre chorado Quita. Além do
+Passeio Publico, já n'essa epoca evacuado como o resto do paiz pelas
+tropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar ás imaginações o sr.
+Octave Feuillet. O nome de Flaubert não era familiar aos folhetinistas.
+Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e das
+bibliothecas economicas. O sr. Jules Claretie publicava um livro
+intitulado... (ninguem hoje se lembra do titulo) do qual diziam
+commovidamente os criticos:--_Eis ahi uma obra que ha de ficar!_... Nós,
+emfim, eramos novos.
+
+O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?...
+Pensamos simplesmente--louvores a Deus!--que elle é execravel; e nenhum de
+nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu peor
+inimigo, um livro egual. Porque n'elle ha um pouco de tudo quanto um
+romancista lhe não deveria pôr e quasi tudo quanto um critico lhe deveria
+tirar.
+
+Poupemol-o--para o não aggravar fazendo-o em tres volumes--á enumeração de
+todas as suas deformidades! Corramos um veu discreto sobre os seus
+mascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos, sobre
+os seus louros capitães inglezes, sobre as suas condessas fataes, sobre os
+seus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que se
+arvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda,
+sobre os seus sinistros copos d'opio, sobre os seus cadaveres elegantes,
+sobre as suas _toilettes_ romanticas, sobre os seus cavallos esporeados
+por cavalleiros de capas alvadias desapparecendo envoltos no pó das
+phantasticas aventuras pella Porcalhota fóra!...
+
+Todas estas cousas, aliás sympathicas, commoventes por vezes, sempre
+sinceras, desgostam todavia velhos escriptores, que ha muito desviaram os
+seus olhos das perspectivas enevoadas da sentimentalidade, para estudarem
+pacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua.
+
+Como permittimos pois que se republique um livro que sendo todo
+d'imaginação, scismando e não observado, desmente toda a campanha que
+temos feito pella arte de analyse e de certeza objectiva?
+
+Consentimol-o porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer
+envergonhar-se do ser trabalho.
+
+Conta-se que Murat, sendo rei de Napoles, mandara pendurar na sala do
+throno o seu antigo chicote de postilhão, e muitas vezes, apontando para o
+sceptro mostrava depois o açoite, gostando de repetir: _Comecei por ali_.
+Esta gloriosa historia confirma o nosso parecer, sem com isto querermos
+dizer que ella se applique ás nossa pessoas. Como throno temos ainda a
+mesma velha cadeira em que escreviamos ha quinze annos; não temos docel
+que nos cubra; e as nossas cabeças, que embranquecem, não se cingem por
+emquanto de corôa alguma, nem de louros, nem de Napoles.
+
+Para nossa modesta satisfação basta-nos não ter cessado de trabalhar um só
+dia desde aquelle em que datámos este livro até o instante em que elle nos
+reapparece inesperadamente na sua terceira edição, com um petulante
+arzinho de triumpho que, á fé de Deus, não lhe vae mal!
+
+Então, como agora, escreviamos honestamente, isto é, o melhor que
+podiamos: d'esse amor da perfeição, que é a honradez dos artistas, veio
+talvez a sympathia do publico ao livro da nossa mocidade.
+
+Ha mais duas razões, para auctorizar esta reedição.
+
+A primeira é que a publicação d'este livro, fóra de todos os moldes até o
+seu tempo consagrados, pode conter, para uma geração que precisa de a
+receber, uma util lição de independencia.
+
+A mocidade que nos succedeu, em vez de ser inventiva, audaz,
+revolucionaria, destruidosa d'idolos, parece-nos servil, imitadora,
+copista curvada de mais deante dos mestres. Os novos escriptores não
+avançam um pé que não pousem na pégada que deixaram outros. Esta
+pusilanimidade torna todas as obras tropegas, dá-lhes uma expressão
+estafada; e a nós, que partimos, a geração que chega faz-nos o effeito de
+sahir velha do berço e de entrar na arte de muletas.
+
+Os documentos das nossas primeiras loucuras de coração queimámol-os ha
+muito, os das nossas extravagancias de espirito desejamos que fiquem. Aos
+vinte annos é preciso que alguem seja estroina, nem sempre talvez para que
+o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite, Para ser
+ponderado, correcto e immovel ha tempo de sobra na velhice.
+
+Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistencia ás
+correntes da tradição, é indispensavel para a revivescencia da invenção e
+do poder criativo, e para a originalidade artistica. Ai das litteraturas
+em que não ha mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o
+sobressalto de uma aventura, não haverá n'ellas que lembrar. Além de que,
+para os que na edade madura foram arrancados pelo dever ás facilidades da
+improvisação e encontram n'esta região dura das coisas exactas,
+entristecedora e mesquinha, onde, em logar do esplendor dos heroismos e da
+belleza das paixões, só ha a pequenez dos caracteres e a miseria dos
+sentimenos, seria dôce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs
+de sol, ao voltar da primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a
+doirada abelha da phantasia.
+
+A ultima razão que nos leva a não repudiar este livro, é que elle é ainda
+o testemunho da intima confraternidade de dois antigos homens de lettras,
+resistindo a vinte annos de provação nos contactos de uma sociedade que
+por todos os lados se dissolve. E, se isto não é um triumpho para o nosso
+espírito, é para o nosso coração uma suave alegria.
+
+ Lisboa, 14 de dezembro de 1881
+
+ De V.
+
+ Antigos amigos
+
+ Eça de Queiroz
+
+ Ramalho Ortigão
+
+
++O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA+
+
+
+
+
++EXPOSIÇÃO DO DOUTOR*** +
+
+
+I
+
+
+Sr. redactor do _Diario de Noticias_
+
+Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente
+extraordinario em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo
+modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substancia, pelo
+menos, do que vou expôr.
+
+Os successos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mysterio,
+envolve-os uma tal apparencia de crime que a publicidade do que se passou
+por mim torna-se importantissima como chave unica para a desencerração de
+um drama que supponho terrivel com quanto não conheça d'elle senão um só
+acto e ignore inteiramente quaes foram as scenas precedentes e quaes
+tenham de ser as ultimas.
+
+Ha tres dias que eu vinha dos suburbios de Cintra em companhia de F..., um
+amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo.
+
+Montavamos dois cavallos que F... tem na sua quinta e que deviam ser
+reconduzidos a Cintra por um criado que viera na vespera para Lisboa.
+
+Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A mellancolia do logar
+e da hora tinha-se-nos communicado, e vinhamos silenciosos, abstrahidos na
+paizagem, caminhando a passo.
+
+A cerca de talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacem,
+n'um ponto a que não sei o nome, porque tenho transitado pouco n'aquella
+estrada, sitio deserto como todo o caminho através da charneca, estava
+parada uma carruagem.
+
+Era um _coupé_ pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha
+côr de castanha.
+
+O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos
+cavallos.
+
+Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte
+da estrada por onde tinhamos de passar, e pareciam occupados em examinar
+attentamente o jogo da carruagem.
+
+Um quarto individuo, egualmente de costas para nós, estava perto do
+vallado do outro lado do caminho, procurando alguma cousa, talvez uma
+pedra para calçar o trem.
+
+É o resultado das sobrodas que tem a estrada, observou o meu amigo.
+Provavelmente o eixo partido ou alguma roda desembuxada.
+
+Passavamos a este tempo pelo meio dos tres vultos a que me referi, e F...
+tinha tido apenas tempo de concluir a phrase que proferira, quando o
+cavallo que eu montava deu repentinamente meia volta rapida, violenta, e
+caiu de chapa.
+
+O homem que estava junto do vallado, ao qual eu não dava attenção porque
+ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo
+repentinamente e com a maxima força as redeas que ficavam para o lado
+d'elle e impellindo ao mesmo tempo com um pontapé o flanco do animal para
+o lado oposto.
+
+O cavallo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, escorregou das
+pernas e tombou ao dar a volta rapida e precipitada a que o tinham
+constrangido.
+
+O desconhecido fez levantar o cavallo segurando-lhe as redeas, e,
+ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna
+que ficára debaixo do cavallo.
+
+Este individuo tinha na voz a entoação especial dos homens bem educados. A
+mão que me offereceu era delicada. O rosto tinha-o coberto com uma mascara
+de setim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapeu.
+Era um homem agil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez
+cair o cavallo.
+
+Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma
+palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara lucta entre o meu
+companheiro e os outros dois individuos que fingiam examinar o trem e que
+tinham a cara coberta como aquelle de que já fallei.
+
+Puro Ponson du Terrail! dirá o sr. redactor. Evidentemente. Parece que a
+vida, mesmo no caminho de Cintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais
+romanesca do que pede a verosimilhança artistica. Mas eu não faço arte,
+narro factos unicamente.
+
+F..., vendo o seu cavallo subitamente seguro pellas cambas do freio, tinha
+obrigado a largal-o um dos desconhecidos, em cuja cabeça descarregára uma
+pancada com o cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo
+depois arrancar-lhe da mão.
+
+Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha no entanto tirado da
+algibeira a chave de uma porta da casa de Cintra, e esporeava o cavallo
+estirando-se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça d'aquelle que o
+tinha seguro.
+
+O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do
+cavallo empinado, apontou com a outra um rewolver á cabeça do meu amigo e
+disse-lhe com serenidade:
+
+--Menos furia! menos furia!
+
+O que levára com o chicote na cabeça e ficára por um momento encostado á
+portinhola do trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo
+era de baleia e tinha por castão uma simples guarnição feita com uma
+trança de clina, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça
+o chapeu que lhe caira.
+
+A este tempo o que me derribara o cavallo e me ajudara a levantar tinha-me
+deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, d'aquellas
+a que chamam em França _coups de poing_ e que varam uma porta a trinta
+passos de distancia. Depois do que, me offereceu delicadamente o braço,
+dizendo-me com afabilidade:
+
+--Parece-me mais commodo acceitar um logar que lhe offereço na carruagem
+do que montar outra vez no cavallo ou ter de arrastar a pé d'aqui á
+pharmacia da Porcalhota a sua perna magoada.
+
+Não sou dos que se amedrontam mais promptamente com a ameaça feita com
+armas. Sei que ha um abysmo entre prometter um tiro e desfechal-o. Eu
+movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavallo
+possante; somos ambos robustos; poderiamos talvez resistir por dez
+minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais
+provavel, em estrada tão frequentada como a de Cintra n'esta quadra, do
+que apparecerem passageiros que nos prestassem auxílio.
+
+Todavia confesso que me sentia attrahido para o imprevisto de uma tão
+extranha aventura.
+
+Nenhum caso anterior, nenhuma circumstancia da nossa vida nos permittia
+suspeitar que alguem podesse ter interesse em exercer comnosco pressão ou
+violencia alguma.
+
+Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me parecia tambem que
+as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um
+homicidio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e
+tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me
+pessoas de bom mundo. Agora que de espírito socegado penso no acontecido,
+vejo que a minha conjectura se baseava em varias circumstancias dispersas,
+nas quaes, ainda que de relance, eu attentara, mesmo sem proposito de
+analyse. Lembro-me, por exemplo, que era de setim alvadio o forro do
+chapeu do que levara a pancada na cabeça. O que apontára o rewolver a F...
+trazia calçada uma luva côr de chumbo apertada com dois botões. O que me
+ajudára a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas; as calças, de
+casimira côr de avelã, eram muito justas e de presilhas. Tinha esporas.
+
+Não obstante a disposição em que me achava de ceder da lucta e de entrar
+no trem, perguntei em allemão ao meu amigo se elle era de opinião que
+resistissemos ou que nos rendessemos.
+
+--Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso!
+disse gravemente um dos desconhecidos. Por quem são, acompanhem-nos! Um
+dia saberão por que motivo lhes sahimos ao caminho mascarados. Damos-lhes
+a nossa palavra que ámanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavallos
+ficarão em Cintra d'aqui a duas horas.
+
+Depois de uma breve reluctancia, que eu contribuí para desvanecer, o meu
+companheiro apeou-se e entrou no _coupé_. Eu segui-o.
+
+Cederam-nos os melhores logares. O homem que se achava em frente da
+parelha segurou os nossos cavallos; o que fizera cair o poldro subiu para
+a almofada e pegou nas guias; ou outros dois entraram comnosco e
+sentaram-se nos logares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os
+stores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que
+cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem.
+
+No momento de partirmos, o que ia guiar bateu na vidraça e pediu um
+charuto. Passaram-lhe para fóra uma charuteira de palha de Java. Pella
+fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a mascara
+que tinha no rosto, e partimos a galope.
+
+Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de
+Lisboa, um omnibus, talvez uma sege. Se me não illudi, a pessoa ou pessoas
+que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavallos, um dos
+quaes é russo e o outro castanho, e poderão talvez dar noticia da
+carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro. O coupé
+era, como já disse, verde e preto. Os stores, de mogno polido, tinham no
+alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz.
+
+Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de
+expedir ainda hoje esta carta pela posta interna.
+
+Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo porque lhe
+occulto o meu nome e o nome do meu amigo.
+
+
+II
+
+
+Julho, 24 de 1870--Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada
+integralmente por v. no logar destinado ao folhetim do seu periodico. Em
+vista da collocação dada ao meu escripto procurarei nas cartas que houver
+de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do
+jornal.
+
+Por esquecimento não datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso
+qual o dia em que fomos surprehendidos na estrada de Cintra. Foi quarta
+feira, 20 do corrente mez de julho.
+
+Passo de prompto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando
+minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o dialogo que
+travámos, tanto quanto me seja possivel com as mesmas palavras que n'elle
+se empregaram.
+
+A carruagem partiu na direcção de Cintra. Presumo porém que deu na estrada
+algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não presentiram pela
+intercadencia da velocidade no passo dos cavallos. Levaram-me a suppol-o,
+em primeiro logar as differenças de declive no nivel do terreno, com
+quanto estivessemos rodando sempre em uma estrada macadamisada e lisa; em
+segundo logar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro
+do _coupé_ coada pela cortina de seda verde, o que me indicava que o trem
+passava por encontradas exposições com rellação ao sol que se escondia no
+horisonte.
+
+Havia evidentemente o designio de nos desorientar no rumo definitivo que
+tomassemos.
+
+É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria
+absolutamente impossivel decidir se ia de Lisboa para Cintra ou se vinha
+de Cintra para Lisboa.
+
+Na carruagem havia uma claridade bassa e tenue, que todavia nos permittia
+distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relogio. Eram sete e um
+quarto.
+
+O desconhecido que ia defronte de mim examinou tambem as horas. O relogio
+que elle não introduziu bem na algibeira do collete e que um momento
+depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente,
+era um relogio singular que se não confunde facilmente e que não deixará
+de ser reconhecido, depois da noticia que dou d'elle, pellas pessoas que
+alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado opposto ao mostrador era de
+esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo
+de armas de ouro encobrado e polido.
+
+Havia poucos momentos que caminhavamos quando o individuo sentado defronte
+de F..., o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o
+acompanhassemos, nos disse:
+
+--Eu julgo inutil asseverar-lhes que devem tranquilisar-se inteiramente em
+quanto á segurança das suas pessoas...
+
+--Está visto que sim, respondeu o meu amigo; nós estamos perfeitamente
+socegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de
+acreditar que nos não têem coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão creança
+que se apavore com o aspecto das suas mascaras negras ou das suas armas de
+fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não
+querem fazer-nos mal: nós devemos pela nossa parte annunciar-lhes que
+desde o momento em que a sua companhia principiasse a tornar-se-nos
+desagradavel, nada nos seria mais facil do que arrancar-lhes as mascaras,
+arrombar os stores, convidal-os perante o primeiro trem que passasse por
+nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxal-os em seguida aos
+cuidados policiaes do regedor da primeira parochia que atravessassemos.
+Parece-me portanto justo que principiemos por prestar o devido culto aos
+sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos.
+D'outro modo ficariamos todos grotescos: os senhores terriveis e nós
+assustados.
+
+Com quanto estas cousas fossem ditas por F... com um ar de bondade
+risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao
+ouvil-o. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovello n'um
+joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois,
+reclinando-se para traz e como se mudasse de resolução:
+
+--No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez eu fizesse e
+dissesse o mesmo no seu logar.
+
+E, tendo meditado um momento, continuou:
+
+--Que diriam porém os senhores se eu lhes provasse que esta mascara em que
+querem ver apenas um symptoma burlesco é em vez d'isso a confirmação da
+seriedade do caso que nos trouxe aqui?... Queiram imaginar por um momento
+um d'esses romances como ha muitos: Uma senhora casada, por exemplo, cujo
+marido viaja ha um anno. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa,
+está gravida. Que deliberação ha de tomar?
+
+Houve um silencio.
+
+Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude
+d'aquelle problema e respondi:
+
+--Enviar ao marido uma escriptura de separação em regra. Depois, se é
+rica, ir com o amante para a America ou para a Suissa; se é porbre,
+comprar uma machina de costura e trabalhar para fóra n'uma agua furtada. É
+o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se
+morre depressa n'essas condições, n'um _cottage_ á beira do lago Genebra
+ou n'um quarto de oito tostões ao mez na rua dos Vinagres. Morre-se
+egualmente, de tisica ou de tedio, no esfalfamento do trabalho ou no enjôo
+do idyllio.
+
+--E o filho?
+
+--O filho, desde que está fóra da familia e fóra da lei, é um desgraçado
+cujo infortunio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube
+definir a responsabilidade do pae clandestino. Se os paes fazem como a
+legislação, e mandam buscar gente á estrada de Cintra para perguntar o que
+se ha de fazer, o melhor para o filho é deital-o á roda.
+
+--O doutor discorre muito bem como philosopho distincto. Como puro medico,
+esquece-lhe talvez que na conjunctura de que se trata, antes de deitar o
+filho á roda ha uma pequena formalidade a cumprir, que é deital-o ao
+mundo.
+
+--Isso é com os especialistas. Creio que não é n'essa qualidade que estou
+aqui.
+
+--Engana-se. É precisamente como medico, é n'essa qualidade que aqui está
+e é por esse titulo que viemos busca-lo de surpresa á estrada de Cintra e
+o levamos a occultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa d'elle.
+
+--Mas eu não faço clinica.
+
+--É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso:
+não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos
+seguir n'esta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma these
+de cirurgia que despertou a attenção e mereceu o elogio da faculdade.
+Queira fazer de conta que vae assistir a um parto.
+
+O meu amigo F... poz-se a rir e observou:
+
+--Mas eu que não tenho curso medico nem these alguma de que me accuse na
+minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer?
+
+--Quer saber o motivo porque se encontra aqui?... Eu lh'o digo.
+
+N'este momento porém a carruagem parou repentinamente e os nossos
+companheiros sobresaltados ergueram-se.
+
+
+III
+
+
+Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir
+successivamente as duas lanternas e raspar um phosphoro na roda. Senti
+depois estalir a mola que comprime a portinha que se fecha depois de
+accender as velas, e rangerem nos anneis dos cachimbos os pés das
+lanternas como se as estivessem endireitando.
+
+Não comprehendí logo a razão porque nos tivessemos detido para similhante
+fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho.
+
+Isto porém explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos
+servia de cocheiro não quereria parar em logar onde houvesse gente. Se
+tivessemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a
+accender-se e que nós veriamos atravez da cortina ou das fendas dos
+stores, poderiam dar-nos alguma idéa do sitio em que nos achassemos. Por
+esta fórma esse meio de investigação desapparecia. Ao passarmos entre
+predios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre
+as paredes e a reflexão d'essa claridade para dentro do trem
+impossibilitava-nos de distinguir se atravessavamos uma aldeia ou uma rua
+illuminada.
+
+Logo que a carruagem começou a rodar depois de accezas as lanternas,
+aquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F... a razão
+porque elle nos acompanhava, prosseguiu:
+
+--O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no
+unicamente n'este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de
+infancia, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um
+constantemente prompto a prestar aos outros os derradeiros sacrificios que
+póde impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um medico.
+Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que não passasse a
+outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor
+de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente
+esta noite ou ámanhã pela manhã; não devendo saber ninguem quem é sua mãe,
+não devendo sequer por algum indicio vir a suspeitar um dia quem ella
+seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem falla, e
+qual é a casa em que vae entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto
+uma mascara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permittir que
+continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos
+antes de os apearmos defronte do predio a que vão subir. Agora
+comprehende, continuou elle dirigindo-se a F..., a razão por que nos
+acompanha. Era-nos impossivel evitar que o senhor viesse hoje de Cintra
+com o seu amigo, era-nos impossivel adiar esta visita, e era-nos
+impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O
+senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.
+
+--A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisongeira para a minha
+discrição.
+
+--A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não
+pertence.
+
+F... achava-se inteiramente d'accordo com esta maneira de ver, e disse-o
+elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados.
+
+As palavras de F... accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me
+que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava
+discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e
+surprehendia desagradavelmente esse córte imprevisto. Elle, que tinha a
+replica prompta e a palavra facil, não achou que retorquir á confiança com
+que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um
+silencio que devia pezar ás suas tendencias expansivas e discursadoras.
+
+É verdade que pouco depois d'este dialogo o trem deixou a estrada de
+macadam em que até ahi rodara e entrou n'um caminho vicinal ou n'um
+atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que
+seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrepito dos
+stores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar.
+
+Tornámos por fim a entrar n'uma estrada lisa. A carruagem parou ainda uma
+segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:
+
+--Lá vou!
+
+Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia:
+
+--Vão com raparigas para Lisboa.
+
+O trem prosseguiu.
+
+Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto
+plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola?
+Entender-se-hia com os meus companheiros a phrase que eu ouvira?
+
+Não posso dizel-o com certeza.
+
+A carruagem entrou logo depois n'um pavimento lageado e d'ahi a dois ou
+tres minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:
+
+--Chegámos.
+
+O mascardo que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que
+acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma
+commoção:
+
+--Tenham paciencia! perdôem-m'o... Assim é preciso!
+
+F... approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente
+vendado pelo que estava em frente de mim.
+
+Apeámo-nos em seguida e entrámos n'um corredor conduzidos pela mão dos
+nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo
+por que nos encontrámos e démos passagem a alguem que sahia. Quem quer que
+era disse:
+
+--Levo o trem?
+
+A voz do que nos guiara respondeu:
+
+--Leva.
+
+Demorámo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada á
+chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:
+
+--Vamos!
+
+Démos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos á direita e
+entrámos na escada. Era de madeira, ingreme e velha, coberta com um tapete
+estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na
+superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente
+angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia
+de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar
+humido e impregnado das exhalações interiores dos predios deshabitados.
+Subimos oito ou dez degraus, tomámos á esquerda n'um patamar, subimos
+ainda outros degraus e parámos n'um primeiro andar.
+
+Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de
+lugubre n'este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.
+
+Ouvi então a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppressão, uma
+especie de sobresalto pueril.
+
+Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que
+foi outra vez fechada á chave depois de havermos entrado.
+
+--Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros.
+
+Descobri os olhos. Era noite.
+
+Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n'uma
+serpentina de bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que
+estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.
+
+Não pude conter a commoção que senti, e soltei um grito de horror.
+
+O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem.
+
+
+IV
+
+
+Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negocio em que me
+acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em
+que estou para comprehender a secreta verdade d'esta aventura, os habitos
+da minha vida repousada subitamente exaltados,--tudo isto me dá um estado
+de irritação morbida que me aniquilla.
+
+Logo que vi o cadaver perguntei violentamente:
+
+--Que quer isto dizer, meus senhores?
+
+Um dos mascarados, o mais alto, respondeu:
+
+--Não ha tempo para explicações. Perdôem ter sido enganados! Pelo amor de
+Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Está morto? Está adormecido com
+algum narcotico?
+
+Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente
+interrogativa que eu, dominado pelo imprevisto d'aquella situação,
+approximei-me do cadaver, e examinei-o.
+
+Estava deitado n'uma _chaise-longue_, com a cabeça pousada n'uma almofada,
+as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descançando no
+peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha
+golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha signaes
+de congestão, nem vestigios de estrangulação. A expressão da physionomia
+não denotava soffrimento, contracção ou dôr. Os olhos cerrados
+frouxamente, eram como n'um somno leve. Estava frio e livido.
+
+Não quero aqui fazer a historia do que encontrei no cadaver. Seria
+embaraçar esta narração concisa com explicações scientificas. Mesmo sem
+exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a
+analyse ou a autopsia, pareceu-me que aquelle homem estava sob a
+influencia já mortal de um narcotico, que não era tempo de dominar.
+
+--Que bebeu elle? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente medica.
+
+Não pensava então em crime nem na mysteriosa aventura que ali me prendia;
+queria só ter uma historia progressiva dos factos que tinham determinado a
+narcotisação.
+
+Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da _chaise-longue_
+sobre uma cadeira de estofo.
+
+--Não sei, disse elle, talvez aquillo.
+
+O que havia no copo era evidentemente opio.
+
+--Este homem está morto, disse eu.
+
+--Morto! repetiu um d'elles, tremendo.
+
+Ergui as palpebras do cadaver, os olhos tinham uma dilatação fixa,
+horrivel.
+
+Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente:
+
+--Ignoro o motivo porque vim aqui; como medico d'um doente sou inutil;
+como testemunha posso ser perigoso.
+
+Um dos mascarados veiu para mim e com a voz insinuante, e grave:
+
+--Escute, crê em sua consciencia que esse homem esteja morto?
+
+--De certo.
+
+--E qual pensa que fosse a causa da morte?
+
+--O opio; mas creio que devem sabel-o melhor do que eu os que andam
+mascarados surprehendendo gente pela estrada de Cintra.
+
+Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que
+cortasse os embaraços da minha situação.
+
+--Perdão, disse um, e ha que tempo suppõe que esse homem esteja morto?
+
+Não respondi, puz o chapeu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F...
+junto da janella batia o pé impaciente. Houve um silencio.
+
+Aquelle quarto pesado de estofos, o cadaver estendido com reflexos lividos
+na face, os vultos mascarados, o socego lugubre do logar, as luzes claras,
+tudo dava áquelle momento um aspecto profundamente sinistro.
+
+--Meus senhores, disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o
+que tinha guiado a carruagem--comprehendem perfeitamente, que se nós
+tivessemos morto este homem sabiamos bem que um medico era inutil, e uma
+testemunha importuna! Desconfiavamos, é claro, que estava sob a acção de
+um narcotico, mas queriamos adquirir a certeza da morte. Por isso os
+trouxemos. A respeito do crime estamos tão ignorantes como os senhores. Se
+não entregamos este caso á policia, se cercámos de mysterio e de violencia
+a sua visita a esta casa, se lhes vendámos os olhos, é porque receavamos
+que as indagações que se podessem fazer, conduzissem a descobrir, como
+criminoso ou como cumplice, alguem que nós temos em nossa honra salvar; se
+lhes damos estas explicações...
+
+--Essas explicações são absurdas! gritou F. Aqui ha um crime; este homem
+está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitaria, nós
+achamo-nos aqui violentados, e todas estas circumstancias teem um mysterio
+tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais
+leve acto, nem pela mais involuntaria assistencia, ser parte n'este
+negocio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquella porta.
+
+Com a violencia dos seus gestos, um dos mascarados riu.
+
+--Ah! os senhores escarnecem! gritou F...
+
+E arremessando-se violentamente contra a janella, ia fazer saltar os
+fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre elle,
+curvaram-n'o, arrastaram-n'o até uma poltrona, e deixaram-n'o cair,
+offegante, tremulo de desespero.
+
+Eu tinha ficado sentado e impassivel.
+
+--Meus senhores, observei, notem que emquanto o meu amigo protesta pela
+colera, eu protesto pelo tedio.
+
+E accendi um charuto.
+
+--Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente.
+Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a mascara,
+tiro-a eu! É necessario que nos vejam! Não quero, nem escondido por um
+pedaço de cartão, passar por assassino!... Senhores! dou-lhes a minha
+palavra que ignoro quem matou este homem!
+
+E fez um gesto furioso. N'este movimento, a mascara desapertou-se,
+descahindo. Elle voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto.
+Foi um movimento instinctivo, irreflectido, de desesperação. Os outros
+cercaram-n'o, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassivel.
+Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera
+defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com
+suspeita. Houve um longo silencio. Os mascarados, a um canto, fallavam
+baixo. Eu no emtanto examinava a sala.
+
+Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete molle, espesso, bom
+para correr com os pés nús. O estofo dos moveis era de seda vermelha com
+uma barra verde, unica e transversal, como têem na antiga heraldica os
+brasões dos bastardos. As cortinas das janellas pendiam em pregas amplas e
+suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tepido e penetrante, onde se
+sentia a verbena e o perfume de _marechala_.
+
+O homem que estava morto era moço, de perfil sympathico e fino, de bigode
+louro. Tinha o casaco e collete despidos, e o largo peitilho da camisa
+reluzia com botões de perolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma
+côr clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda
+em grandes quadrados brancos e cinzentos.
+
+Pella physionomia, pela construcção, pelo corte e côr do cabello, aquelle
+homem parecia inglez.
+
+Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente
+corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo
+luxo, d'um aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os
+logares onde ordinariamente se está, se falla e se vive, aquelle quarto
+não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira,
+umas luvas cahidas, alguma d'estas mil pequenas coisas confusas, que
+demonstram a vida e os seus incidentes triviaes.
+
+F..., tinha-se approximado de mim.
+
+--Conheceste aquelle a quem caiu a mascara? perguntei.
+
+--Não. Conheceste?
+
+--Tambem não. Ha um que ainda não fallou, que está sempre olhando para ti.
+Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.
+
+Um dos mascarados approximou-se, perguntando:
+
+--Quanto tempo póde ficar o corpo assim n'esta _chaise-longue_?
+
+Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colerico, mas
+conteve-se. N'este momento o mascarado mais alto, que tinha saido,
+entrara, dizendo para os outros:
+
+--Prompto!...
+
+Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pendula e os passos de F..., que
+passeiava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode.
+
+--Meus senhores, continuou voltando-se para nós o mascarado--damos-lhe a
+nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este successo.
+Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão
+retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões,
+tudo o que quizerem. Imaginem que estão aqui pela violencia, pela
+corrupção, pela astucia, ou pela força da lei... como entenderem! O facto
+é que ficam até amanhã. O seu quarto--disse-me--é n'aquella alcova, e o
+seu--apontou para F.--lá dentro. Eu fico comsigo, doutor, n'este sofá. Um
+dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Ámanhã
+despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte á policia ou escrever para
+os jornaes.
+
+Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquillidade. Não
+respondemos.
+
+Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta
+de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova.
+Eu passeava. N'uma das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto
+d'uma poltrona, uma coisa branca similhante a um lenço. Passei defronte da
+poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz
+para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caido. Era
+effectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande
+delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter
+bordadas uma firma e uma corôa.
+
+N'este momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se
+a F...
+
+--Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessario vendar-lhe
+os olhos.
+
+F. tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu elle mesmo os
+olhos, e sairam.
+
+Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz sympathica e attrahente.
+
+Perguntou-me se queria jantar. Comquanto lhe respondesse negativamente,
+elle abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias.
+Bebi apenas um copo d'agua. Elle comeu.
+
+Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quasi em amizade. Eu sou
+naturalmente expansivo, o silencio pesava-me. Elle era instruido, tinha
+viajado e tinha lido.
+
+De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar
+leve e cauteloso, e logo alguem tocar na porta do quarto onde estavamos. O
+mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso.
+Erguemo-nos sobresaltados. O cadaver achava-se coberto. O mascarado apagou
+as luzes.
+
+Eu estava aterrado. O silencio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das
+chaves que a pessoa que estava fóra ás escuras procurava introduzir na
+fechadura.
+
+Nós, immoveis, não respiravamos.
+
+Finalmente a porta abriu-se, alguem entrou, fechou-a, accendeu um
+phosphoro, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, immovel,
+com os braços estendidos.
+
+Ámanhã, mais socegado e claro de recordações, direi o que se seguiu.
+
+ * * * * *
+
+P.S.--Uma circumstancia que póde esclarecer sobre a rua e o sitio da casa:
+De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando
+o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra:
+
+ Escrevi uma carta a Cupido
+ A mandar-lhe perguntar
+ Se um coração offendido...
+
+Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando,
+lerem esta carta, prestarão um notavel esclarecimento dizendo em que rua
+passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquellas rymas
+populares.
+
+
+V
+
+
+Hoje, mais socegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade,
+reconstruindo-o do modo mais nitido, nos dialogos e nos olhares, o que se
+seguiu á entrada imprevista d'aquella pessoa no quarto onde estava o
+morto.
+
+O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a
+testa, demos-lhe a respirar vinagre de _toilette_. Voltou a si, e, ainda
+tremulo e pallido, o seu primeiro movimento instinctivo foi correr para a
+janella!
+
+O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e
+arremessou-o com violencia para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto.
+Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:
+
+--Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo- lhe o
+coração!
+
+--Vá, vá, disse eu, breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui?
+
+Elle não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia
+machinalmente:
+
+--Está perdido tudo! Está tudo perdido!
+
+--Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço, que veiu
+fazer aqui? Que é isto? como soube?...
+
+A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o setim negro da
+mascara.
+
+--Que veiu fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos hombros e sacudindo-o
+como um vime.
+
+--Escute... disse o homem convulsivamente. Vinha saber... disseram-me...
+Não sei. Parece que já cá estava a policia... queria... saber a verdade,
+indagar quem o tinha assassinado... vinha tomar informações...
+
+--Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços.
+
+Eu estava surprehendido; aquelle homem conhecia o crime, sabia que havia
+ali um cadaver! Só elle o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente
+ignorados aquelles successos lugubres. Por consequencia quem sabia onde
+estava o cadaver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao
+logar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surprehendido, estava
+positivamente envolvido no crime...
+
+--Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado.
+
+O homem calou-se.
+
+--Quem lhe fallou n'isto?
+
+Calou-se.
+
+--Que vinha fazer, de noite, ás escondidas, a esta casa?
+
+Calou-se.
+
+--Mas como sabia d'este absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento
+nós?...
+
+E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptivel do
+expediente que ia tomar, accrescentou:
+
+-- ... nós e o senhor comissário.
+
+O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os
+bolsos. Encontrou um pequeno martello e um masso de pregos.
+
+--Para que era isto?
+
+--Trazia naturalmente isso, queria concertar não sei quê, em casa... um
+caixote...
+
+O mascarado tomou a luz, approximou-se do morto, e por um movimento
+rapido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a
+livida face do cadaver.
+
+--Conhece este homem?
+
+O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar,
+demorado e attento.
+
+Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistencia implacavel nos
+olhos d'elle, dominei-o, dísse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:
+
+--Porque o matou?
+
+--Eu? gritou elle. Está doido!
+
+Era uma resposta clara, franca, natural, innocente.
+
+--Mas porque veiu aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como
+tinha a chave? Para que era este martello? Quem é o senhor? Ou dá
+explicações claras, ou d'aqui a uma hora está no segredo, e d'aqui a um
+mez nas galés. Chame os outros, disse elle para mim.
+
+--Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o
+desconhecido.
+
+Esperámos; mas retraindo a voz, e com uma intonação demorada, como quem
+dicta:
+
+--A verdade, prosseguiu, é esta: encontrei hoje de tarde um homem
+desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é
+destemido, vá a tal rua, n.º tantos...
+
+Eu tive um movimento avido, curioso, interrogador. Ia emfim saber onde
+estava!
+
+Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôz-lhe a mão aberta sobre a
+bocca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:
+
+--Se diz onde estamos, mato-o.
+
+O homem fitou-nos: comprehendeu evidentemente que eu tambem estava ali,
+sem saber onde, por um mysterio, que os motivos da nossa presença eram
+tambem suspeitos, e que por consequencia não eramos empregados da policia.
+Esteve um momento calado e accrescentou:
+
+--Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem
+aqui?
+
+--Está preso, gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o
+assassino.
+
+--Esperem, esperem, gritou elle, não comprehendo! Quem são os senhores?
+Suppuz que eram da policia... São talvez... disfarçam para me
+surprehender! Eu não conheço aquelle homem, nunca o vi. Deixem-me sair...
+Que desgraça!
+
+--Este miseravel ha de fallar, elle tem o segredo! bradava o mascarado.
+
+Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astucia.
+Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me
+que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu.
+O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o
+homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Elle pedia-me _que o
+salvasse_, chamava-me seu _amigo_. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado
+pela imaginação. Era facil surprehender a verdade dos seus actos. Com um
+modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras e
+simples, mas cheias de traição e de analyse. Elle, com uma boa fé
+inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.
+
+--Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto.
+
+--Qual?
+
+--É que não tivesse deixado signaes o arsenico...
+
+--Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil.
+
+Ergui-me de salto. Aquelle homem, se não era o assassino, conhecia
+profundamente todos os segredos do crime.
+
+--Sabe tudo, disse eu ao mascarado.
+
+--Foi elle, confirmou o mascarado convencido.
+
+Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:
+
+--A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a mão,
+dêmos parte á policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem
+decerto que vêr n'este negócio.
+
+--De certo que não. Este homem é o assassino.
+
+E voltando-se para elle com um olhar terrivel, que flammejava debaixo da
+mascara:
+
+--E porque o matou?
+
+--Matei-o... respondeu o homem.
+
+--Matou-o, disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou, para
+lhe roubar 2:300 libras em _bank-notes_, que aquelle homem tinha no bolso,
+dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas lettras de
+prata, que eram as iniciais do seu nome.
+
+--Eu!... para o roubar! Que infamia! Mente! Eu não conheço esse homem,
+nunca o vi, não o matei!
+
+--Que malditas contradicções! gritou o mascarado exaltado.
+
+A.M.C. objectou lentamente:
+
+--O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o unico
+amigo que elle conhecia em Lisboa?
+
+--Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço.
+Falle,diga.
+
+--Por motivos que devo occultar, continuou o homem, sabia que este
+sujeito, que é extrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou ha
+poucas semanas, vinha a esta casa...
+
+--É verdade, atalhou o mascarado.
+
+--Que se encontrava aqui com alguem...
+
+--É verdade, disse o mascarado.
+
+Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das idéas perturbada, via
+apparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicavel.
+
+--Além d'isso, continuou o homem desconhecido, ha de saber tambem que um
+grande segredo occupava a vida d'este infeliz...
+
+--É verdade, é verdade, dizia o mascarado absorto.
+
+--Pois bem, hontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa,
+pediu-me que viesse ver se o encontrava...
+
+Nós esperavamos, petrificados, o fim daquellas confissões.
+
+--Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel.
+
+E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada.
+
+--Leia, disse elle ao mascarado.
+
+Este approximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com
+os braços pendentes, os olhos cerrados.
+
+Ergui o papel, li:
+
+_I declare that I have killed myself with opium._
+
+(Declaro que me matei com opio).
+
+Fiquei petrificado.
+
+O mascarado dizia com a voz absorta como n'um sonho:
+
+--Não é possivel. Mas é a lettra dele, é! Ah! que mysterio, que mysterio!
+
+Vinha a amanhecer.
+
+Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até
+ámanhã.
+
+
+VI
+
+
+Peço-lhe agora toda a sua attenção para o que tenho de contar-lhe.
+
+A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruidos da povoação que desperta. A rua
+não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada.
+Tambem não era uma rua larga, porque o echo das carroças era profundo,
+cheio e proximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens.
+
+O mascarado tinha ficado n'uma prostração extrema, sentado, immovel, com a
+cabeça apoiada nas mãos.
+
+O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os
+olhos cerrados, como adormecido.
+
+Eu abri as portas da janella: era dia. Os transparentes e as persianas
+estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros.
+Entrava uma luz lugubre, esverdeada.
+
+--Meu amigo, disse eu ao mascarado, é dia. Coragem! é necessario fazer o
+exame do quarto, movel por movel.
+
+Elle ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma
+cama, e á cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um panno de
+velludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um _edredon_ de
+setim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fôfo, como se não
+usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vasio e uma jarra com
+flores murchas. Havia um lavatorio, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas
+dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova
+estava uma bengala grossa com estoque.
+
+Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade
+significativa. O exame d'ella dava na verdade a persuasão de que se estava
+n'uma casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um logar
+de entrevistas, e não um interior regular.
+
+A casaca e o collete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos
+via-se no chão, ao pé da _chaise-longue_; o chapeu achava-se sobre o
+tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caido ao pé da
+cama.
+
+Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou
+carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do collete estava o
+relogio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha
+d'ouro, com dinheiro miudo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde
+averiguar em que tivesse sido trazido de fóra o opio; não appareceu
+frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou
+em pó; e foi a primeira difficuldade que no meu espírito se apresentou
+contra o suicidio.
+
+Perguntei se não havia na casa outros quartos que communicassem com
+aquelle aposento e que devessemos visitar.
+
+--Há, disse o mascarado, mas este predio tem duas entradas e duas escadas.
+Ora aquella porta, que communica com os demais quartos, encontrámol-a
+fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu
+d'esta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto.
+
+Como tinha então trazido o opio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o
+frasco, ou qualquer envolucro que contivesse o narcotico devia apparecer.
+Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto
+da agua opiada, alli estava. Um indicio mais grave parecia destruir a
+hypothese do suicidio: não se encontrou a gravata do morto. Não era
+natural que elle a tivesse tirado, que a tivesse destruido ou lançado
+fóra. Não era tambem racional que tendo vindo áquelle quarto,
+esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse
+gravata. Alguem pois tinha estado n'aquella casa, ou pouco antes da morte
+ou ao tempo d'ella. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a
+gravata do morto.
+
+Ora a presença de alguem n'aquelle quarto, coincidindo com a estada do
+supposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicidio e dava
+presumpções ao crime.
+
+Aproximámo-nos da janella, examinámos detidamente o papel em que estava
+escripta a declaração do suicida.
+
+--A lettra é d'ele, parece-me indubitavel que é--disse o mascarado--mas na
+verdade, não sei porque, não lhe acho a feição usual da sua escripta!
+
+Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas.
+Notei logo no alto da pagina a impressão muito apagada, muito indistincta,
+d'uma firma e de uma corôa, que devia ter estado gravada na outra meia
+folha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circumstancia ao
+mascarado: elle ficou surprehendido e confuso. No quarto não havia papel,
+nem tinteiro, nem pennas. A declaração pois tinha sido escripta e
+preparada fóra.
+
+--Eu conheço o papel de que elle usava em casa, disse o mascarado; não é
+d'este; não tinha firma, não tinha corôa. Não podia usar d'outro.
+
+A impressão da marca não era bastante distincta para que se percebesse
+qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração
+não tinha sido escripta nem em casa d'elle, onde não havia d'aquelle
+papel, nem n'aquelle quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem
+um livro, um _buvard_, um lapis.
+
+Teria sido escripta fóra, na rua, ao acaso? Em casa d'alguem? Não, porque
+elle não tinha em Lisboa, nem relações intimas, nem conhecimento de
+pessoas cujo papel fosse marcado com corôa.
+
+Teria sido feita n'uma loja de papel? Não, porque o papel que se vende
+vulgarmente nas lojas não tem corôas.
+
+Seria a declaração escripta n'alguma meia folha branca tirada de uma velha
+carta recebida? Não parecia tambem natural, porque o papel estava dobrado
+ao meio e não tinha os vincos que dá o _enveloppe_.
+
+Demais a folha tinha um aroma de pós de _marechala_, o mesmo que se
+sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos.
+
+Além d'isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz,
+distingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o
+papel no momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua
+brancura lisa e assetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este
+dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente
+vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente
+efficaz e seguro.
+
+--Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de
+escrever, abreviando-a, a palavra _that_, d'este modo: dois TT separados
+por um traço. Esta abreviatura era só d'elle, original, desconhecida.
+N'esta declaração, aliás pouco ingleza, a palavra _that_ acha-se escripta
+por inteiro.
+
+Voltando-se então para M. C.:
+
+--Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta
+declaração foi falsificada.
+
+--Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com
+surpreza.
+
+--Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indicios
+d'isso. Mas o grande, o forte, o positivo indicio é este: onde estão 2:300
+libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso?
+
+M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho.
+
+--Não apparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este
+homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.
+
+--Senhor, observou gravemente A.M.C., falla-me em 2:300 libras: dou-lhe a
+minha palavra de honra que não sei a que se quer referir.
+
+Eu então disse lentamente pondo os olhos com uma perscrutação demorada
+sobre as feições do mancebo:
+
+--Esta declaração é falsa, evidentemente, não percebo o que quer dizer
+este novo negocio das 2:300 libras, de que só agora se falla; o que vejo é
+que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o
+matou, o que sei é que evidentemente o cumplice é uma mulher.
+
+--Não póde ser, doutor!, gritou o mascarado. É uma supposição absurda.
+
+--Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente
+perfumado, carregado de estofos, illuminado por uma claridade baça coada
+por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado
+com uma corda de seda; ali aos pés d'aquella volteriana aquelle tapete
+feito de uma pelle de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o
+vestigio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta
+evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?...
+
+--Ou a qualquer outro fim.
+
+--E este papel? este papel de marca pequenissima, do que as mulheres
+compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?
+
+--Muitos homens o usam!
+
+--Mas não o cobrem como este foi coberto, com um _sachet_ em que havia o
+mesmo aroma que se respira no ambiente d'esta casa. Este papel pertence a
+uma mulher, que examinou a falsificação que elle encerra, que assistiu a
+ella, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os
+dedos humidos, deixando no papel um vestigio tão claro...
+
+O mascarado calava-se.
+
+--E um ramo de flôres murchas, que está ali dentro? um ramo que examinei e
+que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita
+está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco,
+como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um
+buraquinho... É o vestigio flagrante que deixou no veludo um gancho de
+segurar o cabello!
+
+--Esse ramo podiam ter-lh'o dado, podia tel-o trazido elle mesmo de fóra.
+
+--E este lenço que encontrei hontem debaixo de uma cadeira?
+
+E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou n'elle avidamente,
+examinou-o e guardou-o.
+
+M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquillado pela dura logica das
+minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois
+com voz humilde, quasi supplicante:
+
+--Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indicios não provam. Este lenço,
+de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto
+trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço?
+
+--E não se lembra tambem que não lhe encontrámos gravata?
+
+O mascarado calou-se succumbido.
+
+--No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro
+vivamente esta morte, e fallo n'isto unicamente pelo pezar e pelo horror
+que ella me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que
+caisse ás mãos de uma mulher ou ás mãos de um homem, importa-me pouco. O
+que devo dizer-lhe é que o cadáver não póde ficar por muito mais tempo
+insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é
+sair.
+
+--Tem razão, vae sair já, cortou o mascarado.
+
+E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:
+
+--Um momento! Eu volto já!
+
+E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa,
+fechando-a á chave pelo outro lado.
+
+Fiquei só, passeando agitadamente.
+
+A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de
+pensamentos inteiramente novos e diversos d'aqueles que me haviam occupado
+durante a noite. Ha pensamentos que não vivem senão no silencio e na
+sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que só surgem
+ao clarão do sol.
+
+Eu sentia no cerebro uma multidão de idéas extremunhadas, que á luz
+repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas
+amedrontadas pelo estridor de um tiro.
+
+Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no
+travesseiro.
+
+Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commoção, sobre a
+alvura do travesseiro, preso n'um botão de madreperola, um longo cabello
+louro, um cabello de mulher.
+
+Não me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente.
+
+--Era então certo! ahi estás pois! encontro-te finalmente!... Pobre
+cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi,
+patente, descuidado, preguiçoso, languido! Pódes ter maldade, pódes ter
+malvadez, mas não tens malicia, não tens astucia. Tenho-te nas mãos,
+fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não córas; dás-te,
+consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no emtanto,
+tenue, exigua, quasi microscopica, és uma parte da mulher que eu
+adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ella auctora do crime? é
+inteiramente innocente? é apenas cumplice? Não sei, nem tu m'o poderás
+dizer?
+
+De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de
+espírito inexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro,
+reconhecel-o em tudo: na sua côr, na sua _nuance_ especial, no seu
+aspecto! Lembrou-me, appareceu-me então a mulher a quem aquelle cabello
+pertencia! Mas quando o nome d'ella me veio insensivelmente aos
+labios,disse commigo:
+
+--Ora! por um cabello! que loucura!
+
+E não pude deixar de rir.
+
+Esta carta vae já demasiadamente longa. Continuarei ámanhã.
+
+
+VII
+
+
+Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado á cabeceira da
+cama um cabello louro.
+
+Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso,
+languidamente enrolado, quasi casto, era o indicio d'um assassinato, d'uma
+cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando,
+immovel, aquelle cabello perdido.
+
+A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena,
+_mignonne_, porque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente
+puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por
+uma ligação tenue, delicadamente organisada.
+
+O caracter d'essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante,
+porque o cabello não tinha ao contacto aquella aspereza cortante que
+offerecem os cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento,
+altivo e egoista.
+
+Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, já
+pelo imperceptivel perfume d'elle, já porque não tinha vestigios de ter
+sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados
+phantasiosos.
+
+Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello
+denotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do
+norte, completamente extranho ás meridionaes, que abandonam os seus
+cabelos á abundante espessura natural.
+
+Isto eram apenas conjecturas, deducções da phantasia, que nem constituem
+uma verdade scientifica, nem uma prova judicial.
+
+Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d'um cabello, e que me
+apparecia doce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter
+sido o protagonista cheio de astucia d'aquella occulta tragedia? Mas
+conhecemos nós porventura a secreta logica das paixões?
+
+Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como
+cumplice. Aquelle homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no
+momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado, sem
+violencia evidentemente, por ardil ou engano, n'um copo d'agua. A ausencia
+do lenço, o desapparecimento da gravata, a collocação do fato, aquelle
+cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de
+uma cabeça, tudo indicava a presença d'alguem n'aquella casa durante a
+noite da catastrophe. Por consequencia: impossibilidade de suicidio,
+verosimilhança de crime.
+
+O lenço achado, o cabello, a disposição da casa, (evidentemente destinada
+a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha,
+devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido...
+tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a
+parte d'ella n'aquella aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.?
+Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? Não sei. M. C. não
+podia ser extranho a essa mulher. Não era de certo um cumplice tomado
+exclusivamente para o crime. Para dar opio n'um copo de agua não é
+necessario chamar um assassino assalariado. Tinham por consequencia um
+interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E accudia-me á
+memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras que de repente me
+tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas
+fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as idéas que se formavam e que
+se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n'um ceu varrido pelo vento?
+
+Há de certo na minha hypothese ambiguidades, contradicções e fraquezas, ha
+nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas
+significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores
+inexpressivos se me gravaram na memoria, mas eu estava n'um estado morbido
+de perturbação, inteiramente desorganisado por aquella aventura, que
+inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na
+minha vida.
+
+O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que
+socegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar,
+estabelecer deducções mais certas, e melhor approximar-se pela inducção e
+pela logica da verdade occulta.
+
+Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o
+chapeu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.
+
+--Vamos, disse elle.
+
+Tomei calado o meu chapéu.
+
+--Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar dê-me a sua palavra de
+honra que ao subir agora á carruagem não terá um gesto, um grito, um
+movimento que me denuncie.
+
+Dei a minha palavra.
+
+--Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu
+caracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em
+qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso
+affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez
+entregue este caso á policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez
+carrasco. Esta casa é um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva
+d'aqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu n'este crime: não o
+supponha, não podia ser. No emtanto, se alguma vez lá fóra fallar, a
+respeito d'este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a
+minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia,
+naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah!
+esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas
+lunetas de cambraia.
+
+E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.
+
+Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os stores fechados.
+Não pude vêr quem guiava os cavallos porque só dentro do coupé achei a
+vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte
+da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida, o cabello castanho,
+levemente annelado.
+
+A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela
+differença de velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas
+de macadam e de calçada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na
+vespera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga.
+
+--Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? É
+que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se póde remediar isto. Mas não
+se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi encontra facilmente
+conducção para Lisboa.
+
+E offereceu-me charutos.
+
+Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem
+parou.
+
+--Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor.
+
+E abriu por dentro a portinhola.
+
+--Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou.
+Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no
+prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da
+scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!
+
+Apertámo-nos a mão, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu os stores e
+estendendo-me para fóra um pequeno cartão:
+
+--Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato.
+
+Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente,
+olhei. O retrato estava tambem mascarado!
+
+--É um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou
+elle, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a
+rodar a trote.
+
+Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma
+capa traçada sobre o rosto.
+
+Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle
+trem levava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle
+homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo.
+
+O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sophá, que lhe servia de
+sarcophago!
+
+Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancolica. Ao
+longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto
+áquelle por onde elle desapparecia.
+
+--Onde fica o Cacem?
+
+--De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua.
+
+A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra.
+
+Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, á quinta de F., saber
+se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a
+a uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores
+e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda
+a brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o
+vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa
+alvadia.
+
+Tomei informações a respeito da carruagem que passara na vespera comnosco.
+Havia contradicções sobre a côr dos cavallos.
+
+Voltou de Cintra o homem que eu ali mandára, dizendo que na quinta de F.
+tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera
+que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara
+comsigo em uma caleche para Lisboa. D'ahi a momentos chegou a minha
+carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido
+este bilhete a lapis: _Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem
+me procurar, que fui para Madrid._
+
+Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava
+evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do
+mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa,
+notei que era seguido.
+
+Entregar á policia este negocio, tão vago e tão incompleto como elle é,
+seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que, em resultado das
+primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa officiou ao
+administrador de Cintra convidando-o a metter o esforço da sua policia no
+descobrimento d'este crime. Foram inuteis estas providencias. Assim devia
+ser. O successo que constitue o assumpto d'estas cartas está por sua
+natureza fóra da alçada das pesquizas policiaes. Nunca me dirigi ás
+authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo para isso
+as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando ser
+victima de uma emboscada.
+
+São obvias, depois d'isto, as rasões por que lhe occulto o meu nome:
+assignar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como
+quero.
+
+Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do
+sol nascente atravez das minhas jelozias. Oiço os pregões dos vendedores
+matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens, o murmurio
+alegre da povoação que se levanta depois de um somno despreoccupado e
+feliz... Invejo aquelles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras
+passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu--pobre de mim!--estou encarcerado
+por um mysterio, guardado por um segredo!
+
+
+P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escripta ha dias,
+só hoje me veiu á mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu
+ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora
+pude haver essa interessante missiva. Ahi tem, senhor redactor, copiada
+por mim, a primeira parte d'essa carta, da qual depois de ámanhã lhe
+enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante
+esclarecimento n'este obscuro successo; é um vestigio luminoso e profundo.
+F... é um escriptor publico, e descobrir pelo estylo um homem é muito mais
+facil do que reconstruir sobre um cabello a figura de uma mulher. É
+gravissima a situação do meu amigo. Eu, afflicto, cuidadoso, hesitante,
+perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão,
+rendo-me á decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do
+autographo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa
+carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me
+a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem... se poderem.
+Adeus!
+
+
+
+
++INTERVENÇÃO DE Z.+
+
+
+Nota do Diario de Noticias.--No original da carta publicada hontem havia
+algumas palavras a lapis, nas quaes só fizemos reparo depois de impresso o
+jornal. Essas palavras continham esta observação: _A photographia do
+mascarado foi feita em casa de Henrique Nunes, rua das Chagas, Lisboa.
+Talvez ahi possa haver noticia do sujeito photographado._
+
+Antes de darmos á estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos
+foi hontem enviada pelo medico, é dever nosso tornar conhecida uma outra
+importantissima que recebemos pela posta interna, assignada com a inicial
+_Z._, e que temos em nosso poder ha já tres dias. Esta carta, que tão
+estreitamente vem prender-se na historia dos successos que constituem o
+assumpto d'esta narrativa, é a seguinte:
+
+Senhor redactor do _Diario de Noticias_.--Lisboa, 30 de julho de
+1870.--Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quasi
+toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor
+anonymo conta o caso que essa redacção intitulou _O mysterio da Estrada de
+Cintra_. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade
+despreoccupada que se liga a um _canard_ fabricado com engenho, a um
+romance á similhança dos _Thugs_ e de alguns outros do mesmo genero com
+que a veia imaginosa dos phantasistas francezes e americanos vem de quando
+em quando acordar a attenção da Europa para um successo estupendo. A
+narração do seu periodico tinha sobre as demais que tenho lido o merito
+original de se passarem os successos ao tempo que se vão lendo, de serem
+anonymas as personagens e de estar tão secretamente encoberta a mola
+principal do enredo, que nenhum leitor poderia contestar com provas a
+veracidade do caso portentosamente romanesco, que o auctor da narrativa se
+lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira,
+simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o
+ideal mais perfeito, o typo mais acabado do _roman feuilleton_, quando
+inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciaes de um nome
+de homem--A. M. C.--accrescentando-se que a pessoa designada por estas
+lettras é estudante de medicina e natural de Vizeu. Eu tenho um amigo
+querido com aquellas iniciaes no seu nome. É justamente estudante de
+medicina e natural de Vizeu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia por
+tanto o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamissima. Isto não
+é licito a romancista nenhum.
+
+A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tedio. Saindo de
+casa pouco depois da leitura do seu periodico, procurei o meu amigo para
+lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me á sua disposição no
+caso que precisasse de mim para pedir quanto antes á redacção do _Diario
+de Noticias_ a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não
+poderiam de certo recusar a semelhante aggravo.
+
+Em casa do meu amigo acabo porém de saber, cheio de confusão e de
+surpresa, que elle desappareceu e que é ignorado o seu destino!
+
+Este desapparecimento e a coincidencia achada na carta do doutor levam-me
+desgraçadamente a acreditar que por extranhas fatalidades o meu infeliz
+amigo se acha involuntariamente envolvido n'este tenebroso negocio. A data
+do desapparecimento d'elle condiz perfeitamente com a que encontro na
+carta do seu correspondente. É claro que ha pois em volta da pessoa de A.
+M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição.
+
+Serei tristemente obrigado a ter por veridica, no todo ou em parte, a
+noticia que leio na sua folha?
+
+Julgo do meu dever assegurar o seguinte:
+
+Não sei o que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa
+desconhecida, tendo uma chave d'ella, martello e pregos. Não sei porque se
+declarou auctor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a intima verdade
+d'estas contradicções.
+
+Mas o que sei, aquillo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas
+amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do
+assassinato elle esteve, até quasi de madrugada, em minha casa,
+conversando, rindo, bebendo cerveja.
+
+Saiu talvez ás tres horas da noite.
+
+Declaro tambem, e isto póde ser egualmente apoiado por seguras
+testemunhas: que ás nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto
+d'elle. Ainda dormia, acordou sobresaltado á minha voz, e tornou a
+adormecer em quanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine.
+
+As donas da casa que o hospedam disseram-me que elle entrara pela
+madrugada.
+
+--Ali pela volta das tres e meia, conjecturavam ellas.
+
+Ora da minha casa, d'onde saiu ás tres, até casa d'elle, onde entrou ás
+tres e meia, o caminho que é longo, occupa justamente este espaço de
+tempo.
+
+Por consequencia, respondam: quando commetteu elle o crime? O emprego do
+seu tempo está todo justificado: das nove da noite até á madrugada em
+minha casa, n'uma conversa jovial e intima; da madrugada até ás nove, n'um
+somno pacifico em sua propria casa.
+
+Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não ha testemunhas. É
+crivel que em meia hora podesse ir alguem a essa casa, preparar opio,
+fazel-o beber a um homem, falsificar uma declaração e vir socegadamente
+dormir? Tem isto logica?
+
+Demais o crime foi commettido n'uma casa, o opio foi deitado n'um copo
+d'agua, dado traiçoeiramente. O cadaver estava meio despido. Tudo isto
+indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham
+conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha
+talvez calor, poz-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura
+anedoctas, e n'um momento de sede, o opio foi dado n'um copo d'agua. E
+tudo isto se faz em meia hora! em _meia hora!_ Devendo, meus senhores,
+descontar-se d'esta meia hora o tempo que vae de minha casa á casa do
+crime, e d'ahi a casa de A. M. C.! Póde isto ser?
+
+Agora outro argumento: Eu conheço A. M. C.: o seu caracter é digno,
+impeccavel; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e
+isolada; não existe n'ella nem mysterio, nem aventura, nem pathetico:
+estava para casar, sem romance, trivialmente.
+
+Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo
+que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia
+extrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado ha pouco tempo em Portugal!
+
+Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossivel. Se o
+homem foi encontrado estendido n'um sophá, morto com opio!
+
+Poderia M. C. ter sido assalariado para commetter este crime? Que loucura!
+Um homem da sua intelligencia, do seu caracter, da sua elevação de
+espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente
+retribuido como uma funcção publica, não existe nos costumes.
+
+Póde-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até ao momento
+decisivo distrahido, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo
+cerveja? E que depois vá socegadamente dormir, e que um amigo que o visite
+na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chavena de
+chá e um livro de historia?
+
+E dê-se isto com um homem de caracter timido, de habitos modestos, homem
+de estudo, sem energia de acção, e de uma notavel franqueza de impressões!
+
+Se me perguntarem, porém, porque apparece M. C. de noite n'aquella casa
+com um martello, com pregos, e se declara assassino,--isso não o sei
+explicar.
+
+Suspeito que haja uma grande influencia que peza sobre elle, alguem que
+com promessas extraordinarias, com seducções indisiveis, o obriga a
+apresentar-se como auctor do crime. M. C. evidentemente sacrifica-se. Por
+quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorancia de que estas dedicações
+são sempre desapreciadas perante o trabalho da policia, quer expiar o
+crime de outro; perde-se para salvar alguem.
+
+Com que interesse? por que seducções? Não sei explicar. Elle, tão
+indifferente ao dinheiro! tão rigido de costumes e de sensações!
+
+Pois bem! M. C. póde sacrificar-se; póde-o fazer. Nós, seus amigos, é que
+não podemos consentil-o. O seu corpo, que lhe pertence exclusivamente,
+póde dal-o á infecção d'um carcere, ou ao peso d'uma grilheta. Mas o seu
+caracter, a sua honra, a sua reputação, a sua alma, essa pertence tambem
+aos seus amigos, e a parte que nos pertence havemos de defendel-a
+corajosamente.
+
+Não! M. C. não foi o assassino. Dil-o a evidencia, a fatal logica dos
+factos, a terrivel mathematica do tempo, o conhecimento do seu caracter, e
+a coherencia dos temperamentos, que é uma verdade nas sciencias
+physiologicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, _mente_.
+Digo-lh'o claramente, em frente, diante dos seus proprios olhos fitos
+sobre os meus:--Se te declaras o auctor d'esse crime, _mentes_!
+
+Elle tem de certo o senso moral transviado. Se me deixassem fallar-lhe!...
+Esclareçam-lhe, pelo amor de Deus, aquella rasão cheia de escuras nuvens
+da paixão e da dôr! Isto é afflictivo! Honra, amor, familia, esperança,
+tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, o desgraçado, que não é só n'este
+mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da provincia, sua
+mãe, suas irmãs, sabem já que elle está aqui apontado como assassino! Que
+se lembre da terrivel deshonra, do seu futuro perdido, das horas
+solitarias da prisão, da atroz vergonha de um interrogatorio publico, e do
+echo profundo que faz na alma humana o ruido sinistro dos ferros da
+grilheta.
+
+Não ponho no fim d'esta carta o meu nome, porque presinto vagamente n'este
+grupo de successos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a
+passagem mysteriosa e fatal de um crime que vae poderosamente na direcção
+do seu fito, esmagando e despedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu
+não quero que a publicidade do meu nome leve os cumplices no attentado de
+que se trata, ou porventura a policia, a aniquillar ou a embaraçar de
+qualquer modo a intervenção expontanea que eu proprio vou ter no
+descobrimento dos reus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os
+pôr em pratica de toda a minha liberdade.
+
+Creia-me, senhor redactor, etc--_Z._
+
+
+
+
++DE F... AO MEDICO+
+
+
+I
+
+
+Julho 21 à 1 hora da noite.
+
+--Meu querido amigo.
+
+--Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se
+continuas, como eu, permanecendo aqui em carcere privado. Em qualquer dos
+casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão
+encerrando para aquelle de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa
+das horas mais extraordinarias da nossa vida.
+
+Escrevo mais para coordenar e fixar na memoria estes momentos do que para
+empregar n'outro destino puramente hypothetico esta carta. Será uma pagina
+das minhas confidencias que entregarei á discrição ou ao acaso da posta,
+reservando-me o direito de lhe pedir que m'as restitua a seu tempo.
+
+Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos hontem á noite,
+pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadaver. O
+mascarado que se encarregára de me conduzir ao quarto onde me acho deu-me
+o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua
+e o numero de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da
+casa em que ella mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui
+dizer serenamente:
+
+--Não o comprehendo.
+
+Este individuo era o mesmo que na carruagem se conservára sempre calado, o
+mesmo que na sala me observava com attenção e desconfiança.
+
+Aquella estatura, aquella falla, aquella voz, posto que apenas perceptivel
+ao meu ouvido, não eram novas para mim.
+
+Elle respondeu fallando-me ainda mais baixo:
+
+--Não poderá sair d'aqui antes de dois ou tres dias. Veja se precisa de
+escrever uma carta ou de mandar um recado.
+
+Passou-me pela mente uma idéa a respeito d'aquelle homem... Se fosse...
+
+Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se
+não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio;
+bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o
+dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura
+do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.
+
+--Escreverei duas linhas, disse eu; quererá dar-me um lapis?
+
+Tinhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo
+em que elle saia promettendo trazer-me o necessario para escrever. O
+individuo que voltou com papel e pennas não era o mesmo que acabara de
+sair. Assim tinha eu perdido a occasião de confirmar uma suspeita ou de
+desvanecer uma duvida.
+
+Em todo o caso escrevi duas linhas ao meu creado serenando-o com relação
+ao meu desapparecimento.
+
+--Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete.
+
+--Nada mais.
+
+Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de
+escrever directamente á pessoa a quem o mascarado se referira.
+
+Fecharam a porta e fiquei só.
+
+Achei-me n'um quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janella. A um
+lado havia um lavatorio; sobrepostas a um canto tres malas de viagem, de
+coiro de Varsovia com pregos d'aço, estrelladas com senhas de caminhos de
+ferro, d'hoteis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em
+grandes lettras pretas sobre uma tira de papel este distico:
+_Grand-Hotel-Paris_; uma das senhas era dos paquetes inglezes da carreira
+da India. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples
+guarnição d'este aposento um sophá forrado de marroquim verde, collocado
+no meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha
+ceia á luz fulgurante de um grande candeeiro com largo _abat-jour_.
+
+Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquelle recolhimento, aquelle
+socego, aquella solidão, depois da grande sobreexcitação em que me tinha
+achado!
+
+Estirei-me no sophá, puz-me a olhar machinalmente para o circulo da luz
+trepidante projectada pelo candeeiro e contornada no tecto pela abertura
+do _abat-jour_, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos spasmos do
+coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me
+convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação occupada n'um
+trabalho inconsciente, similhante ao dos sonhos, ia tirando no emtanto do
+caso que eu presenceára as ramificações mais illogicas e mais
+phantasticas. Os successos por que passámos desde a estrada de Cintra até
+á minha entrada n'este quarto appareciam-me redemoinhando convulsamente no
+ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impellidos
+pelos pontapés de diabinhos sarcasticos, que se riam para mim e me
+deitavam de fóra as linguasinhas em braza.
+
+Fui caindo mollemente n'um despego languido, fecharam-se-me os olhos,
+adormeci.
+
+Ao acordar, depois de um somno breve mas socegado e reparador, encarei na
+ceia que reluzia aos meus olhos.
+
+Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma
+terrinasinha de _foie gras_, uma perdiz, uma fatia de queijo e tres
+garrafas de vinho de Bourgogne, lacradas de verde; junto d'estas, quatro
+garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o
+sacarolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um feixe de charutos côr
+de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas
+de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se collocado o
+instrumento destinado a abril-a. O copo era de cristal finissimo, o garfo
+de prata dourada, a faca de cabo de madreperola, os pratos de porcellana
+brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei
+rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sophá, senti a fome
+encavallar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia,
+cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estomago
+vasio os acicates da gula.
+
+Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto,
+cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão
+descarnada e tremula com um gesto prohibitivo e solemne. Atarantado,
+perplexo, escutei então dentro de mim um breve dialogo similhante áquelles
+que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a _besta_, na sua
+viagem á volta do quarto.
+
+Havia uma voz pausada e grave que dizia:
+
+--Attenta no que fazes, temerario! abre teus olhos, inconsiderado mortal!
+Essa perdiz, cujo peito insidioso e perfido está lourejando a teus olhos,
+foi apimentada com arsenico. Aquelle Chambertin, que te espera como uma
+onda da lagoa Stigia, embuscada por detraz d'aquelle lettreiro
+envernizado, apparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade
+tenebroso e fatal como o distico do festim de Balthazar, aquelle vinho,
+que te offerece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com
+acido prussico. As truffas, lubricas, venaes, devassas, envoltas n'esses
+figados de pato, estão empapadas nos temperos lethaes da cosinha dos
+Borgias!
+
+A outra voz, insinuante e meiga, dizia n'uma vaga melodia de sereia:
+
+--Come, se tens fome, estupido! Estás com medo do papão, maluco?... Põe os
+olhos n'esse lacre: não será um penhor seguro da pureza do liquido que
+elle tapa a marca d'esse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada,
+chumbada e garantida com os mais especiaes lavores a lata d'essas
+sardinhas pescadas nas costas de França e cosinhadas ha seis mezes em
+Marselha? Não vês religiosamente grudada e sellada com as etiquetas
+insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de _foie
+gras_? Suppões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te
+arrancar essa vida inutil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da
+sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso.
+Deleita-te conversando depois comtigo e repousando-te no seio tepido da
+melancolia, d'essa deliciosa fada que só apparece evocada pelos namorados
+e pelos solitarios, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã
+_gatée_, a irmã feliz!
+
+Eu no entanto havia cortado a caixa de sardinhas, desgrudado a tampa da
+terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que
+misturára n'um copo.
+
+Puz-me por fim a comer com apetite, com valor, com delicia, com uma
+especie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta
+de mim os espiritos beneficos do carcere que bafejaram as prisões de
+Silvio Pellico.
+
+É singular isto: achava-me bem!
+
+Depois da ceia accendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo
+comigo:
+
+--Visitemos o paiz!
+
+Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra
+porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei
+a cama encostada á parede em que se achava esta porta e abri-a.
+
+Era uma armario na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia
+altura por um prateleiro espaçoso e solido.
+
+Occorreu-me que ao fundo do armario haveria talvez um tabique delgado
+atravez do qual me seria possivel escutar o que se passasse na casa
+contigua.
+
+Penetrei no armario, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado
+havia um ruido volumoso e macisso. Parecia que se estava arrastando um
+movel pesado e grande.
+
+O fundo do armario era effectivamente formado por um tapamento franzino.
+Era possivel que tivesse havido primitivamente uma porta no logar em que
+se fizera o armario. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via
+deante de mim um pedaço de ripa atravessada diagonalmente e descarnada da
+cal.
+
+Peguei no saccarolhas, e no logar indicado fui esburacando devagarinho e
+progressivamente o cimento do muro, até operar um orificio imperceptivel,
+pelo qual me era dado vêr a luz e ouvir distinctamente o que se dizia do
+outro lado.
+
+Eis-aqui o que ás onze horas e meia da noite se estava passando no quarto
+contiguo áquelle que me serve de prisão:
+
+
+II
+
+
+Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do logar em
+que elle estava para ao pé da parede que divide a casa em que me acho
+d'aquella em que se passava a scena que descrevo, e exactamente para junto
+do logar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de
+orelha.
+
+Um d'esses homens dizia assim:
+
+--Será o que muito bem quizer, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos
+trambulhões com os moveis á hora da meia noite.
+
+--Ha de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para
+me ajudar, quero saber se não é melhor isto que estar lá em baixo
+estendido ao pé da mangedoura, á espera que chegue o trem para ir tratar
+dos cavallos, a enfastiar-se sem ganhar vintem.
+
+Aquelle que dizia estas palavras, comquanto se expressasse claramente,
+tinha todos os defeitos de pronuncia que distinguem os extrangeiro que
+falla portuguez. Pela aspiração especial de certas vogaes e pela
+contracção habil com que pronunciava os aa, era por certo allemão.
+
+O que primeiramente fallára, proseguiu:
+
+--É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E
+olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a
+estas horas, ainda que os pese a oiro!
+
+--Para mudar uma cama!
+
+--Não é pela cama, é por ser a casa que é!
+
+--Ora adeus! que tem a casa?!...
+
+--Não tem nada! É uma graça! Ella é de tal casta que o senhorio teve-a
+quatro annos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já
+de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A ultima gente que cá
+morou esteve só duas noites, e foi-se d'aqui tolhida com as coisas que lhe
+appareceram e com as trapalhadas que ouvia... Cruzes demonio! cruzes
+diabo!
+
+--Petas! historias da vida!
+
+--O senhor! não me diga que são petas! Pois eu não vi a familia!?... não
+estive com elles!? Fugiram de noite, fugiram á segunda noite que dormiram
+cá, estarrecidos de medo.
+
+--Então que viram elles?
+
+--Elles não viram nada.
+
+--Então ahi tem!
+
+--Não viram, mas ouviram.
+
+--Haviam de ouvir boas coisas!
+
+--Ouviram, sim senhor, ouviram. E não foi só a elles que succedeu isso,
+foi a todos quantos cá moraram. E era gente de bem, que não mentia, que
+não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram
+com ella perdida!
+
+--Então que ouviam elles?
+
+--O senhor bem o sabe!... O que elles ouviam? Ouviam pancadas nas portas,
+quando ninguem batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem
+os carvões exactamente como se estivessem abanando á fogueira, quando
+estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um
+passaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes;
+ouviam-o arquejar e bufar approximando-se cada vez mais dos que estavam
+deitados, pairando tão rente das camas que se lhe sentia o estremecer das
+pennas, o calor de lume que elle deitava do bico e ao mesmo tempo o frio
+de neve que fazia a mover as azas!
+
+--Ora adeus! tinham ouvido fallar n'isso e pareceu-lhes que sentiam o tal
+passaro, de que já fallavam os inquilinos anteriores, os quaes tambem
+tinham ouvido fallar n'elle, não havendo ao fim de contas ninguem que
+verdadeiramente o tivesse ouvido.
+
+--Então o senhor não sabe porque foi que elles fugiram, os ultimos que
+estiveram cá, faz agora quatro annos?
+
+--Ouvi fallar n'isso, mas por alto, não me deram pormenores.
+
+--Eis ahi está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram
+gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis annos. Para o
+que désse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem
+elles não contavam nada por causa do medo, estava n'uma caminha a um lado.
+Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam
+cansadissimos á noite, lá pegavam no somno apesar do barulho das faúlas do
+fogareiro e das argoladas nas portas. Vae senão quando, á segunda noite
+que passavam cá, accordam aos gritos da creança. Tinha-se apagado a luz.
+Accenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por
+dentro. Os fechos das janellas achavam-se corridos. No quarto não havia
+mais ninguem. Mas a roupa da cama da creança estava cahida a dois ou tres
+passos de distancia do berço em que ella dormia, e a pequenita, nua,
+tranzida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes,
+disse, quando lhe chegou a falla que teve perdida por um bocado, que
+sentira umas cousas como os pés de uma gallinha muito grande que se lhe
+pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas
+suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que mettiam medo e que ella
+não entendia, emquanto um peito coberto de pennas se lhe roçava pelo seio
+nu. A mãe então vestiu-lhe á pressa uns fatinhos, embrulhou-a n'um chale,
+estreitou-a nos braços, poz-se a dar-lhe beijos e acalental-a com o bafo,
+e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e
+destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, mettendo-se por todos os
+cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com
+uma faca de ponta que levava em punho. Não appareceu ninguem! Ninguem
+podia ter saido! Ninguem podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a
+chave do predio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro
+lhe compraria esta casa para elle mesmo a deitar abaixo com um picão e a
+machado, para lançar o fogo a quanto podesse arder, e calcar depois aos
+pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão.
+
+--Pois senhor, eu nenhuma d'essas cousas tenho ouvido, e é esta a segunda
+noite que durmo aqui.
+
+--Gabo-lhe o gosto! E não tem medo?
+
+--Nenhum.
+
+--Por isso por ahi dizem do senhor o que dizem!
+
+--Então que dizem por ahi de mim?
+
+--Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um allemão da Moirama e que
+tem partes com o demonio.
+
+--Mais um bocadinho para traz, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro,
+mudando de tom.
+
+--Isto assim?
+
+--Ainda mais... um quasi nada... até ficar a cabeceira unida á hombreira
+da porta... Basta!
+
+--Não quer mais nada?
+
+--Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve d'ali uma d'aquellas velas para
+que o avejão lhe não appareça na escada ao apanhal-o ás escuras.
+
+--Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta...
+
+--A fallar-lhe a verdade gosto!
+
+--Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá,
+veja se passa ahi para a casa que fica ao lado!
+
+--Bem me queria a mim parecer que a casa do lado tambem tem...
+
+--Se tem! Essa então é o diabo, é o proprio diabo que lá mora!
+
+O homem que viera ajudar á mudança da cama accendeu a luz e desceu a
+escada. O allemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para
+se deitar.
+
+O dialogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e
+despertado em mim o mais curioso interesse.
+
+Sem procurar directamente indagar cousa alguma, começava a entrar pelo
+modo mais extranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados
+pela superstição ou pela ignorancia, explicariam de certo o desfecho a que
+viemos assistir e a presença do cadaver na sala em que o fomos encontrar.
+
+Agora nós, meu interessante e precioso visinho.
+
+
+III
+
+
+A cama do allemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de
+observação. O meu visinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou ás
+escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se
+ageitava para dormir.
+
+--Ah! tua amas o murmurio dos espiritos invisiveis?... exclamei eu,
+dirigindo-me mentalmente ao philosopho que me ficava do outro lado do
+muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moleculas da vida animal que
+vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro mysterioso que as
+condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu
+espírito esses elos informes e incoerciveis, que ligam o mundo das cousas
+conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas
+as tuas faculdades de _medium_...
+
+E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas
+seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos.
+
+Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem
+procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira.
+
+Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera
+percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario.
+
+Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro.
+Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei
+silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de
+alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como
+primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu
+outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual
+lhe ficava a cama.
+
+No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte
+do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.
+
+O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede,
+expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror,
+com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo.
+O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da
+cama abaixo.
+
+Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza:
+
+--Quem está ahi?
+
+Respondi-lhe:
+
+--Sou eu.
+
+--Quem és tu?
+
+--E tu quem és?
+
+--Frederico Friedlann, cidadão prussiano.
+
+--Ah! disse eu.
+
+--Viajo por conta da primeira fabrica de productos chimicos de Buda Pesth,
+os quaes sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriaes da
+Europa.
+
+--Bem! observei.
+
+Elle continuou impassivelmente:
+
+--Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa tres predios de que
+elle tinha noticia, os quaes se achavam abandonados depois de algum tempo
+de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi
+morar successivamente nas casas que elle me indicou e é esta a primeira
+que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo.
+Poderei saber agora a quem me dirijo?
+
+--Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das
+minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e occupando-me
+de quando em quando com a politica ou com a litteratura, quando não tenho
+outra cousa menos insipida e menos inutil em que agitar a minha ociosidade
+e o meu tedio. Não sou espiritista.
+
+--Pois faz mal! O espiritismo é um systema e póde bem succeder que venha
+ainda a ser uma religião.
+
+--Puff! exclamei eu rindo.
+
+--O quê! continuou elle. O materialismo, guiado de um lado pelas
+conquistas das sciencias physicas e naturaes e de outro lado pelo
+relaxamento dos costumes contemporaneos, e pela depressão successiva e
+assustadora da moral, vae comendo no campo da philosophia o espaço não já
+muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão
+successivamente sustituir as crenças e as doutrinas mortas por que se
+regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades,
+não poderá nunca prescindir do maravilhoso, d'esse attractivo supremo da
+sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e
+aperfeiçoado pela sciencia futura, a theoria de uma tal ou qual
+sobrevivencia que o lisongeie, e a base de correlações ainda não estudadas
+dos seres que existem com aquelles que os precederam e com os que se lhes
+hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os philosophos
+contemporaneos que não querem acceitar em absoluto o dogma esteril e
+desconsolador da materia omnipotente, os unicos que hão de collaborar na
+philosophia do futuro.
+
+--Ora ha de me dar licença que lhe pergunte uma cousa...
+
+--Tem-me ás suas ordens.
+
+--Sem com isto querer fazer aggravo ao seu juizo!
+
+--Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a
+natureza d'ella.
+
+--Acredita em alguma das cousas em que esteve ahi fallando o homem que
+veiu ajudal-o a mudar a cama?
+
+Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava fallando com
+um doido, com um visionario, com um monomaniaco, ou simplesmente com um
+homem de espírito extravagante, com um excentrico.
+
+--Eu não creio nem tambem descreio de cousa alguma que ouço, responde-me
+elle. É meu systema admittir tudo quanto esteja para se provar e duvidar
+de tudo aquillo que me apresentem como cousa positiva. É o unico meio
+prudente de nunca nos affastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa
+de ha pouco, tem uma parte da historia d'esta casa. Neguei quanto me disse
+o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do predio a
+desvanecer com as minhas informações o anathema que pesa sobre a sua
+propriedade. A verdade é que tenho ouvido distinctamente ha duas noites
+consecutivas um rumor insistente e prolongado similhante aos estalidos que
+produz ao ateiar-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca
+um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se
+move, sem que ninguem lhe toque, do centro da mesa em que o colloquei para
+uma das extremidades d'ella. O pó agglomerado em volta da base do busto, e
+que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vae deixando
+successivamente sobre a superficie da mesa o vestigio d'esse movimento
+vagaroso, lento, quasi imperceptivel, mas progressivo e constante. N'esta
+porta ao pé da qual colloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por
+duas, ora por tres vezes, uma argolada perfeitamente clara e distincta.
+Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder
+fazel-o do modo mais rapido), fica sempre inexplicavel para mim a razão
+porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta!
+
+Todas estas cousas eram asseveradas pelo prussiano com a emphase da
+sinceridade e da convicção mais profunda!
+
+--E d'esta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que
+lhe consta?
+
+--Eu lhe digo...
+
+--Sinceramente!
+
+--Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu
+conta que ouvia no silencio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar
+de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns visinhos têem visto entrar
+vultos mysteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural d'este
+mundo.
+
+--Qual é então o seu juizo, vejamos?
+
+--É evidentemente...
+
+--Diga! diga!
+
+--Presumo eu, pelo menos...
+
+--Vamos! sem rodeios, francamente!
+
+--De duas uma: ou uma loja maçonica, ou uma casa de jogo.
+
+
+IV
+
+
+As palavras do allemão acabavam de lançar no meu espírito a luz subita de
+uma revelação que me obrigava a meditar.
+
+O que se passava por mim, o mysterio que me cercava, o cadaver que vira, a
+presumpção--ainda que vaga--da concorrencia de um ou mais amigos meus
+envolvidos n'este acontecimento, tudo isto era tão extraordinario e tão
+grave que eu não ousava referil-o ao homem desconhecido que o acaso me
+deparava por visinho.
+
+Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente
+saber qual era a rua e a casa em que estava; não me occorria porém um
+pretexto plausivel para levar o allemão a dizer-m'o, sem que eu o
+interrogasse de um modo ambiguo, que poderia levantar sobre a situação em
+que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas
+compromettidas n'este negocio. Contentei-me pois em allegar o incommodo a
+que me obrigava a posição em que estava, e dei as bôas noites ao meu
+visinho. Elle despediu-se batendo no muro tres pancadas espaçadas por
+pausas eguaes ás d'aquellas com que eu primeiro lhe despertára a attenção.
+Lembrou-me que poderia ser mação aquelle homem, e que nas circumstancias
+em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de
+juramentos reciprocos e de compromissos communs. Dei-lhe então uma letra,
+elle respondeu-me com outra e assim construimos successivamente a palavra
+da senha.
+
+--_Salut, mon frêre!_ exclamou elle.
+
+--Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro
+ao sinal que me déra.
+
+Fechei em seguida o armario, cheguei a cama para o logar d'onde a tinha
+removido, e deitei-me vestido.
+
+Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.
+
+N'esta casa, debaixo d'estes mesmos tectos, está morto um homem, moço,
+elegante e bello, que entrára aqui, cheio talvez de esperanças,
+d'alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o
+sempre, envenenado por mão mysteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe
+de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da familia que
+o acarinhou em pequeno, longe dos logares saudosos que o viram nascer, da
+mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pae angustiado que em nome da
+humanidade lhe lançasse a derradeira benção.
+
+Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito
+para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu
+corpo inerte, impassivel, mudo como a interrogação de um enigma posto
+anonymamente no meio de uma pagina branca? quem sabe os pensamentos que a
+morte immobilisou no teu cerebro? quem sabe os affectos que ella enregelou
+no teu coração, onde ha pouco tempo ainda golphava abundantemente a
+fecunda seiva d'essa mocidade esterilisada e extincta agora para sempre?
+
+Pobre moço! tão digno de lastima como és, merecedor talvez de profundas
+saudades, ahi estás adormecido no teu somno eterno, vestido de baile,
+coberto com uma manta de viagem, estirado n'um sophá, insensivel para
+sempre ás alegrias e ás amarguras d'esta vida miseravel; e não haverá por
+ventura uma só lagrima que commemore, na historia breve da tua passagem na
+terra, este praso tão pungentemente melancolico em que os mortos estão
+esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade póde
+dispensar áquelles que mais présa e que mais ama: a doação da cova em que
+reside o esquecimento!
+
+Os olhos d'aquelles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados
+talvez pelo somno tranquillo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem
+querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam
+sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz
+cantarolando a ultima valsa que o baile te deixou no ouvido, vêr-te
+finalmente apparecer, descuidado, risonho e feliz.
+
+Coitados!... Os passos d'aquelle que ainda hoje talvez se despediu da vós
+contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir
+o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais á voz
+que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o
+fitavam; os seus labios não voltarão outra vez a approximar-se dos labios
+que se collavam nos d'elle!
+
+Eu não choro a tua memoria, porque não te conheço, porque nunca nos
+encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dôr que
+adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes
+insepulto, em quanto alguem te espera vivo no mundo.
+
+Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei
+da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite
+escrevendo-te estas longas paginas, que de certo estimaremos ler um dia,
+em disposição de espírito bem differente d'aquella em que ambos nos
+achamos hoje.
+
+Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o
+silencio que me envolvia, cortado apenas pelo fremito da minha penna no
+papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados fallando baixo no
+aposento que atravessei antes de entrar n'aquelle em que estou. Tinha
+terminado o paragrapho anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e
+tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Approximei-me da porta e
+collei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo
+natural que os nossos aprisionadores estejam ás escuras, é provavel que
+haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquelle em que
+eu me acho e o quarto proximo em que elles fallam. Não podia perceber o
+que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me
+chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar
+esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distinctamente estas
+palavras:
+
+--Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia elle?
+
+--Sei que as trazia, dizia outra voz.
+
+--É atroz então!
+
+Estas palavras, unicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes
+calcular!
+
+É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho
+consagrado a entrevistas d'amor, como eu primeiro suppuz. Das hypotheses
+do prussiano é absolutamente necessario acceitar uma: isto ou é uma casa
+de jogo ou uma loja maçonica. Assim o provam convincentemente os ruidos
+que se ouviam na morada contigua. N'um retiro de paixões ternas não se
+escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas
+mezas. A referencia dos vultos mysteriosos feita pela visinhança permitte
+a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo
+aspecto do _boudoir_ em que estivemos não consentem duvidar-se que esta
+casa é uma caverna de jogo e de orgia.
+
+As palavras que ha pouco ouvi suggerem-me sobre estas supposições a mais
+tenebrosa suspeita.
+
+O desgraçado que jaz ahi dentro podia ter sido victima de um homicidio,
+premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que elle trazia comsigo.
+
+Occorre uma contradicção: na suggerida hypothese para que foram buscar um
+medico? Explicam-n'o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham
+propinado opio á sua victima com o intuito de a roubarem, encontram
+illudido este projecto com o desapparecimento das notas que lhe suppunham
+na algibeira. N'esta conjectura sobrevem-lhes um recurso extremo: procurar
+um medico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem
+por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua innocencia,
+affastar de si a presumpção do crime, e crear as difficuldades de um
+mysterio! É possivel que eu não attinja exactamente a verdade do que se
+passou. O indubitavel porém é que o desapparecimento já constatado da
+somma que o assassinado trazia comsigo não póde adunar-se dentro d'esta
+casa com a probidade e com a honra.
+
+Depois d'isto é quasi escusado dizer-te qual é a determinação que vou
+tomar. O meu visinho prussiano é um homem um tanto phantastico, mas
+parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscriptal-a e
+pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para
+o quarto d'elle. Se conseguir arrombar completamente, sem que me
+presintam, o tapamento que serve de fundo ao armario, passarei eu em vez
+de expedir a carta. No caso contrario, apenas se abrir aquella porta,
+precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e
+abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciencia
+delibera passar por cima de meia duzia de miseraveis.
+
+Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos
+ámanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas
+depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, _posta
+restante, Lisboa_. Elle te procurará no logar que indicares e te dirá onde
+estou.--Adeus.--_F_
+
+ * * * * *
+
+Nota.--Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de
+papel escriptas pela mesma lettra das cartas do medico, anteriormente
+publicadas n'esta folha:
+
+F... não appareceu. No mesmo dia, dois dias e tres dias depois de haver
+recebido a extensa carta que elle me dirigiu e de que enviei logo a
+primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos
+os meios ter noticias d'elle. Foram inuteis todos os esforços que
+empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao
+correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual
+lhe aprasava uma entrevista.
+
+Estou vivamente inquieto, sobresaltado, cuidadoso.
+
+F... é um homem arrebatado, irascivel, pundonoroso até o delirio. Receio
+do seu caracter e da violencia das suas determinações uma explosão que
+teria podido talvez ser-lhe fatal.
+
+Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo
+completamente da opinião d'elle emquanto á qualidade moral das pessoas com
+quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadaver.
+
+O mascarado alto, com quem tive occasião de fallar por mais tempo, não
+póde ser uma assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo comnosco, não
+pôde attentar nos individuos que o rodeavam. Ouviu apenas uma phrase, que
+para mim proprio é ainda inexplicavel e terrivel, e baseou n'ella a sua
+indignação e o seu odio.
+
+Eu tratei apenas com um d'esses homens--o mais alto--mas com este fallei
+incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe
+os movimentos da physionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos,
+scintillantes. Ouvia-lhe a voz metallica, pura, clara, vibrante,
+obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo
+dos sentimentos.
+
+Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos
+incidentes que acompanharam o inquerito de A. M. C., escutei-lhe sempre
+com interesse, com sympathia, algumas vezes com admiração, a palavra
+sincera, facil, despresumida, espontanea, original, pittoresca sem
+litteratismo, eloquente sem propositos oratorios,--limpido espelho de uma
+alma energica, integra, perspicaz e sensivel. Tinha arrebatamentos
+enthusiasticos, indignações convictas, concentrações melancolicas, que se
+via provirem d'esse fundo de lagrimas, que todas as naturezas
+priveligiadamente boas e honestas têem no intimo da sua essencia.
+Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é facil enganar-se
+por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquella em
+que nos achámos, um homem com a minha experiencia do mundo e a minha
+pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principaes
+considerações que do principio logo me impediram de tornar publico o nome
+do meu amigo violentamente retido em carcere privado. F... é um homem
+conhecido, é quasi um homem celebre; em Lisboa ninguem ha que não conheça
+o seu nome entre os escriptores mais applaudidos, ninguem que não distinga
+a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente
+uniformes dos passeios, das salas e dos theatros.
+
+Se eu communicasse á policia o desapparecimento do meu amigo, é quasi
+seguro que ella encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto
+a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus
+companheiros que eu todavia considero innocentes?
+
+A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desapparecimento
+das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.
+
+Na carta de F... encontra-se o seguinte periodo:
+
+ * * * * *
+
+«Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou
+se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o
+relogio: bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para
+reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio
+teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.»
+
+Ora o relogio a que n'estas linhas se allude, se bem lembrado está, é
+exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse
+periodico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na
+carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fóra da algibeira do collete,
+suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... ao quarto em que
+elle se acha preso, é effectivamente um amigo d'elle, intimo e particular.
+
+Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha
+vida com uma sombra eterna, denunciar á policia uma particularidade, um
+nome, uma circumstancia positiva, que a ponha no encalço d'este crime e no
+descobrimento das pessoas, innocentes ou culpadas, que circulam fatalmente
+em torno d'elle?
+
+As mesmas noticias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente
+comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anonymo, me
+vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a
+severidade incorruptivel, despreocupada e fria dos homens de bem, uma
+traição aos imprescriptiveis deveres da amisade, um aggravo á
+inviolabilidade do sigillo, uma offensa a esse culto intimo que se baseia
+na delicadeza, no melindre, no primor,--culto que para as almas honradas
+constitue uma parte dos principios supremos da primeira das religiões--a
+religião do caracter?
+
+Mas podia tambem calar-me? ficar mudo, impassivel, inerte, neutro, diante
+d'este successo obscuro mas tremendo? Podia acaso acceitar na
+impassibilidade e no silencio a responsabilidade terrivel de um homicidio
+tenebroso, do qual sou eu a unica testemunha com iniciativa, com
+liberdade, com faculdade de acção?...
+
+Decidam-no as pessoas que por um momento quizerem imaginar-se nas
+circumstancias excepcionaes e unicas em que eu estou.
+
+Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstaculos em que
+me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um
+unico momento que perder, uma só cousa me occorreu, possivel, clara,
+solvente: publicar anonymamente o que me succedera, entregar por este modo
+á sociedade a historia da minha situação e esperar dos outros, do publico,
+a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.
+
+Nem uma palavra de conselho, de analyse, de critica!
+
+Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não
+posso ficar eternamente immovel, como um condemnado, com o pesado fuzil de
+um segredo soldado a um pé.
+
+Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei
+partido para fóra do paiz. As ambulancias do exercito francez precisam de
+cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu paiz dispensa-me, e eu,
+como todo o homem na presença dos infortunios irremediaveis, sinto a doce
+necessidade de ser util. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu
+nome.
+
+Despedindo-me--seguramente para sempre--dos seus leitores, cuja attenção
+tenho largamente prendido com a narrativa d'este caso lugubre, seja-me
+permittido acrescentar uma derradeira palavra:
+
+A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso n'esta
+pagina, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo
+quanto em contrario quiz allegar o amigo d'elle que sob a letra Z. veiu
+defendel-o n'este mesmo logar, A. M. C., quaesquer que sejam as causas que
+o levaram a intervir nas circumstancias que rodeiam o crime, conhece-o
+interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.
+
+Se estas linhas chegarem aos olhos d'esse moço, uma coisa lhe peço em nome
+da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das
+pessoas envolvidas em tão extranho successo. Procure no correio uma carta
+que lhe dirijo n'esta mesma data. N'essa carta verá quem eu sou, onde
+poderá enviar as suas cartas ou vêr-me e fallar-me pessoalmente. Se a sua
+idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da
+sua carreira, a tranquillidade da sua familia, a incompetencia da sua
+auctoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este
+acontecimento até á ultima das suas consequencias, arrancando a um tal
+mysterio a secreta verdade que elle envolve, dirija-se a mim,
+collaboraremos juntos n'essa obra, que tenho por meritoria e honrada. Eu
+acceitarei clara e abertamente para todas as consequencias e para todos os
+effeitos a responsabilidade que d'ahi provenha, e terei meio de salvar o
+seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre
+ou o macule.
+
+Emquanto a ti, meu querido e meu honrado F..., não creio que sejas victima
+de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu unico perigo está, a meu vêr,
+no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrupulos, no teu valor,
+finalmente, e no teu brio.
+
+Que te matassem cobardemente no carcere clandestino que ha pouco tempo
+ainda tu illuminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não póde ser. Que
+a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desaggravo
+de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus mysteriosos
+commensaes, isso acho logico, e é possivel.
+
+Punge-me não sei que vago e triste presentimento... Meu pobre F...! Se
+estará destinado que não nos tornemos a vêr! Se o dia fatal em que
+regressámos ambos de Cintra, descuidados, contentes, suspirando com as
+nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortunios, terá acaso de ser o
+ultimo d'essa doce convivencia que por tanto tempo nos juntou!...
+
+E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam
+envolvidos no turbilhão implacavel e terrivel da crua solidariedade
+humana!
+
+Que remedio?!
+
+Se a vida é isto, aceitemol-a corajosamente como ella é, e ávante!
+aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se
+ser feliz!
+
+
+
+
++Segunda carta de Z+
+
+
+Senhor redactor.--Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em
+que o doutor..., com uma insistencia malevola, torna a inculcar, como
+cumplice no attentado de que elle se fez o historiador voluntario, o meu
+pobre amigo A. M. C.
+
+Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia com o
+auxílio unico da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da
+curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia
+que ha mais d'uma semana, vem todos os dias successivamente, no folhetim
+do seu jornal, apresentar deante d'um publico attonito um quadro
+mysterioso e lugubre.
+
+Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatorios, visitas aos
+logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais n'uma nevoa
+que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda--não sei se n'um retiro
+voluntario, se n'uma sequestração forçada.
+
+Na impossibilidade de descobrir, physicamente, por essas ruas, a verdade,
+resolvi ir buscal-a ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as
+palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados.
+
+O _Mysterio da estrada de Cintra_ é uma invenção: não uma invenção
+litteraria, como ao principio suppuz, mas uma invenção criminosa, com um
+fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos d'esta
+invenção:
+
+Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cumplices d'este crime é o
+doutor ***. Elle está envolvido no anonymo: não tenho por isso duvida em
+apresentar esta accusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as
+suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me
+atreveria a escrever esta grave affirmativa.
+
+Sim, o doutor *** é o cumplice d'um crime: o meu pobre amigo M. C. é um
+desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se
+possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime,
+que existe, apparece-nos envolvido nas roupas litterarias d'um mysterio de
+theatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.
+
+É possivel que n'uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são
+visinhos, amigos de _tu_, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem
+notado na sociedade, vivendo n'ella, frequentando as suas salas e os seus
+theatros, não conhecesse nenhum d'estes quatro mascarados, que pelas suas
+indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás,
+escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos theatros?
+
+Uma mascara de velludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu
+cabello, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas
+mãos, a sua _toillete_, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O
+doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão
+distinctos, governam tão bem as suas parelhas, fallam tão bem as suas
+linguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem
+relacionado, um velho dilletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os
+percebeu, n'esta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de
+lama do Chiado! E F... tem um amigo intimo entre os mascarados, diante de
+si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos
+olhos, pelo corpo, pelo silencio até! Comedia!
+
+E o menos conhecido, o menos celebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no
+carnaval de Turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de
+Mephistopheles, de Ci-devant, ou de Melão, e não ha ninguem que no salão
+de S. Carlos, não diga ao passar por elle: _lá vae fulano!_ E é de noite,
+ás luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distrahidos, e não estamos
+n'uma estrada, de dia, surprehendidos e violentados! Tanto nos conhecemos
+todos! Comedia! Comedia!
+
+E aquelles mascarados, são tão innocentes, tão ingenuos, que vão procurar,
+n'um momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua
+posição, pela sua intelligente penetração, mais facilmente os poderia
+reconhecer.
+
+Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquelle
+homem? Se lhes era indifferente, para que se mascararam?
+
+E depois, para que era um medico? Era para verificar a morte? Para acudir?
+Para salvar? N'esse caso então que homens são esses, que em logar d'ir á
+botica mais proxima, a casa do primeiro medico rapidamente, logo,
+logo,--vão em socego mascarar-se nos seus quartos, para irem ao
+crepusculo, para uma charneca, a duas legoas de distancia, representar os
+velhos episodios de floresta dos dramas de Soulié?
+
+Suppunham por ventura que elle estava morto? Para que era então um medico,
+uma testemunha? E se não receavam as testemunhas para que punham nos seus
+rostos uma mascara, e nos olhos dos surprehendidos um lenço de cambraia?
+Comedia! Comedia sempre!
+
+Veja-se o doutor *** diante do cadaver: não ha ali uma palavra que seja
+scientifica: desde a serenidade das feições até á dilatação das pupillas,
+tudo é falso n'aquella descripção symptomatica.
+
+E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F... que na rua d'uma cidade,
+dentro d'uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelles
+mascaras? Como é que, sendo generosos e altivos supportam certas
+violencias humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, acceitam pela
+sua attitude condescendente uma parte da cumplicidade?
+
+E A. M. C.! Como o representam ali, pueril, nervoso, timido, imbecil e
+coacto! Elle d'uma tão grande força de temperamento! d'uma tão energica
+coragem! d'um tão altivo sangue frio! Como se póde acreditar n'aquella
+astucia infantil, com que o doutor *** o envolve?
+
+--O que admira é que não deixasse vestigios o arsenico!
+
+--Mas foi o opio! responde M. C., segundo conta o doutor ***.
+
+Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade
+lôrpa?
+
+E emfim, que mulher é aquella, que ahi se entrevê? Porque a quer o
+mascarado salvar? Que roubo é aquelle de 2:300 libras? Sejamos logicos:
+dado o typo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que elle, vendo que
+o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por
+uma mulher que mata para roubar?
+
+Se elle suspeita que o crime commetido por essa mulher teve por mobil a
+paixão, como explica o roubo?
+
+Demais, se desconfiava que ella estivesse envolvida n'aquelle facto, se
+estava tão ligado com ella que a queria salvar, por que a não procurou
+logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as
+estradas, e vir fazer _tableau_ em volta d'um cadaver?
+
+Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada!
+aquellas carruagens como galopam mysteriosamente pelas ruas de Lisboa!
+aquelles mascarados, fumando n'um caminho, ao crepusculo, aquellas
+estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e
+onde galopam, ao escurecer, cavalleiros com capas alvadias! Parece um
+romance do tempo do ministerio Villele. Não fallo nas cartas de F... que
+não explicam nada, nada revelam, nada significam--a não ser a necessidade
+que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ôca, nas columnas
+d'um jornal honesto.
+
+Deducção: o doutor *** foi cumplice d'um crime; sabe que ha alguem que
+possue esse segredo, presente que tudo se vae espalhar, receia a policia,
+houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as
+pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar,
+enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vae
+ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!
+
+O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o.
+
+Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas
+inverosimeis invenções.--Z.
+
+
+
+
+NARRATIVA DO +MASCARADO ALTO+
+
+
+I
+
+
+Senhor redactor.--A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n'essa
+aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***,
+guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de
+setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido
+com interesse a successiva apparição d'estes segredos singulares; eu era
+nas cartas do doutor *** designado pelo--_mascarado mais alto._--Sou eu.
+Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal
+trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações
+improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim,
+eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece
+a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções
+hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real,
+implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde
+dominar um caracter altivo: era necessario fallar n'uma mulher, e arrastar
+pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e
+de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas
+considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a
+minha mesa, este bilhete simples e nobre:--«Vi as accusações contra si e
+os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade,
+imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu
+já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se
+não fizer isto, denuncio-me á policia.»
+
+Apesar porém d'estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar
+do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com
+aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em
+Lisboa, e determinado esse desenlace passado n'uma alcova solitaria, n'uma
+casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores
+murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d'essa noite. Eu
+não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia
+das dores mais profundas d'um coração que estimo.
+
+Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa,
+aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de _whist_, onde
+ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a
+casa do conde de W. A condessa era minha prima.
+
+Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a
+_graça_. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando
+estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d'uma infinita doçura de
+ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se
+estendesse, como a corda n'um instrumento, de encontro á claridade,
+reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra
+tirada ao coração do sol.
+
+Os seus olhos eram d'um azul profundo como o da agua do Mediterraneo.
+Havia n'elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e
+havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho
+sonho de se affogar n'aquelles olhos.
+
+Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a
+cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella
+ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias.
+
+De resto, simples e espirituosa.
+
+Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza
+infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d'um extranho orgulho.
+Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor
+indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella
+doce creatura. Disse-lh'o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos
+gravemente a mão; jogámos n'essa noite o _écarté_; e ella terminou por
+fazer n'uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos;
+nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava
+contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas
+tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e
+definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus
+estados de espírito nervosos, ou melancolicos.
+
+--Estou hoje com os meus _blue decils_, dizia ella.
+
+Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o
+marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era
+estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha
+amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o
+seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram
+excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d'elle admirado:
+
+--Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem _ar_, não tem
+grammatica, não tem _toilette_, e todavia não é desagradavel.
+
+Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas
+repugnancias, com a presença d'esta pessoa trivial e monotona. Elle no
+emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores,
+mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu _dog-cart_.
+
+O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais
+sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente
+do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas
+gravatas.
+
+Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos
+aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do
+Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido
+secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India
+havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em
+Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto
+heroico dos palacios, e a animação petulante das _maltezas_ de grandes
+olhos arabes...
+
+--Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher.
+
+--Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a
+Malta. Venha tambem, primo.
+
+--Está claro que vem! gritou o conde.
+
+E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu
+parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n'um
+navio, e que me deixava seu herdeiro.
+
+Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade,
+queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de
+caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados--mil planos incoherentes que nos
+faziam rir...
+
+Partimos n'um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete
+da India.
+
+Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por
+traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos
+d'aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma
+malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava
+na tolda, sentada n'uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida,
+os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude
+e no rosto.
+
+--Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta;--estou com uma
+sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos...
+
+E mais baixo:
+
+-- ... e de vago amor ... Sabe explicar-me isto?
+
+Estavamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa
+ondulação da agua arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnetico
+calor d'Africa. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe n'um segredo:
+
+--Sabe que está linda!
+
+--Oh! primo! interrompeu ella rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está
+doido! O que é fallar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo,
+creia que o que senti, inexplicavel como é, não foi por si, graças a Deus,
+foi por alguem que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi
+ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Ahi está! Como o luar é traiçoeiro,
+meu Deus! E eu que estou velha!
+
+Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distancia na bruma nocturna: o
+capitão approximou-se:
+
+--Conhecem aquella luz?
+
+--Nunca viajei n'este mar, capitão--respondi.
+
+--São portuguezes, não?... Aquella luz é o pharol de Ceuta.
+
+Era uma luz melancolica, e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta.
+D'ahi a momentos descemos á camara. Eu estava surprehendido, nunca tinha
+ouvido á condessa palavras que caracterisassem tanto o estado do seu
+coração. Achava-se n'aquelle periodo em que um amor pode apoderar-se para
+sempre d'uma existencia.
+
+Que succederia se lhe apparecesse um homem bello, nobre, forte, que lhe
+dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como ha pouco, as coisas
+infinitas da paixão?
+
+Na manhã seguinte avistámos o môrro de Gibraltar. Desembarcámos. N'uma
+praça, á entrada, um regimento inglez, de uniformes vermelhos, manobrava
+ao som da canção do general Boum.
+
+--Detesto os inglezes, disse a condessa.
+
+--O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os inglezes! Detestas os
+inglezes?
+
+E voltando-se para mim, com uma attitude profundamente pasmada e abatida:
+
+--Detesta os inglezes, menino!
+
+
+II
+
+
+Sr. Redactor.--Em Gibraltar fomos para _Club House-Hotel_. Os quartos
+abriam sobre a muralha do mar; viamos defronte, afogada n'uma luz
+admiravel, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas
+brumas esbatidas, a terra de Africa.
+
+Fomos passeiar logo n'um d'aquelles carros de Gibraltar que são dois
+bancos parallelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes,
+puchados por um cavallo inglez robusto, rapido, e tendo já adquirido nas
+convivencias hispanholas um espirito teimoso.
+
+O bello passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia vertente por cima
+da cidade, contorna a montanha, e é orlada de _cottages_, de jardins, de
+pomares, cheios já das extranhas e poderosas vegetações do Oriente, aloes,
+nopaes, cactus e palmeiras; e vê-se sempre, atravez da folhagem, lá no
+fundo, a azul immobilidade luminosa do Mediterraneo.
+
+A condessa estava encantada: aquella luz ampla e magnifica, a agua pesada
+pelo sol, o silencio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e róxas
+das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava áquella pobre
+alma contraida uma expressão inesperada. Ria, queria correr, tinha
+_verve_, e uma luz bailava-lhe nos olhos.
+
+Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores inglezes
+artilharam-no talvez um pouco de mais. Não ha fontes, mas ha estatuas de
+generaes; as pyramides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e
+a estupida impassibilidade dos canhões assenta sob arbustos de magnolias.
+Mas que serenidade! Que silencio abstracto e divino! Que ar immortal!
+Parece que as cousas, os seres vegetaes, a terra, a luz, tudo está parado,
+absorto n'uma contemplação, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em
+baixo está o Mediterraneo, liso como um setim, delicado, coberto de luz.
+Mais longe vaporisadas, docemente esbatidas nas nevoas azues, as duras
+fórmas do monte Atlas. Nada se move: apenas ás vezes uma pomba passa,
+voando com uma serenidade ineffavel. Um momento veiu-nos de baixo, onde
+passava um regimento de Highlanders, o som das _cornemuses_ que tocavam as
+arias melancolicas das montanhas da Escocia. E os sons chegavam-nos doces,
+ethereos, como se fossem habitantes sonoros do ar.
+
+A condessa tinha ficado sentada, e immovel, calada, penetrada d'aquella
+admiravel serenidade das cousas, da beleza da luz, do somno da agua, dos
+vivos aromas.
+
+--Não é verdade, disse, que dá vontade de morrer aqui, brandamente, só...
+
+--Só? perguntei eu.
+
+Ella sorriu, com os olhos perdidos na bella decoração do horisonte
+luminoso.
+
+--Só... disse ella, não!
+
+--Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! observei eu. Começa-se scismando
+assim vagamente, vem um pequeno sonho bem innocente, acampa no nosso
+coração, começa, a caval-o, e depois, querida prima, e depois...
+
+--E depois vae-se jantar, disse o conde que tinha chegado ao pé de nós,
+radiante por ter apertado a mão de um coronel inglez, e colhido um cacto
+vermelho.
+
+Descemos ao hotel. Á noite passeavamos no Martillo. Era a hora de
+recolher; uma fanfarra ingleza tocava uma melopéa melancolica. Ouviu-se no
+mar um tiro de peça.
+
+--Chegou o paquete da India, disse o nosso guia. E no alto do morro um
+canhão respondeu com um echo cheio e poderoso.
+
+--Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? perguntei.
+
+--Os militares quasi sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com
+licença do governador.
+
+Quando pelas 10 horas entrámos, depois de termos passeiado ao luar nas
+esplanadas, sentimos na sala de _Club-House_, ruido, vozes alegres,
+estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de homens. A condessa subiu
+para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Officiaes inglezes que
+vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham
+desembarcado, e ceavam.
+
+Nós tinhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive occasião de
+approximar d'um dos officiaes inglezes que estava proximo de mim o frasco
+de mostarda. O frasco caiu, sujou-me, elle sorriu com polidez, eu ri
+alegremente, conversámos, e ao fim da noite passeiavamos ambos pelo braço,
+na esplanada que ficava defonte das janellas do hotel e que está sobre o
+mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualisava a decoração
+admiravel das montanhas, a vasta agua immovel.
+
+Eu tinha sympathisado com aquelle official, já pelo seu perfil altivo e
+delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade
+triste que havia na sua attitude. Era moço, capitão de artilheria, e
+batera-se na India. Era loiro e branco; mas o sol do Indostão tinha
+amadurecido aquella carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos,
+e dado aos cabellos uma côr fulva e ardente.
+
+Passeiavamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, abriu-se
+uma janella, e uma mulher com um penteador branco, apoiou-se levemente na
+varanda, e ficou olhando o horisonte luminoso, a melancolia da agua. Era a
+condessa.
+
+O luar envolvia-a, empallidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava
+á sua forma toda a espiritualisação de uma figura de antiga legenda: o seu
+penteador caia largamente ao redor d'ella, em grandes pregas quebradas.
+
+--Que linda! disse o official parando, com um olhar admirado, e profundo.
+Quem será?
+
+--Somos um pouco primos, disse eu rindo. É casada. É a condessa de W.
+Parte para Malta ámanhã no paquete. A bordo levar-lhe-hei o meu amigo para
+a entreter contando-lhe historias da India. Adora o romanesco aquella
+pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o ha. Caçou o tigre,
+capitão?
+
+--Um pouco. Falla o inglez sua prima?
+
+--Como uma portugueza, mal; mas ouve com os olhos, e adivinha sempre.
+
+Separámo-nos.
+
+--Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima--disse eu entrando na
+sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando;--um romance onde se caçam
+tigres com rajahs, onde ha bayaderas, florestas de palmeiras, guerras
+inglezas, e elephantes...
+
+--Ah! como se chama?
+
+--Chama-se Captain Rytmel, official de artilheria, 28 annos, em viagem
+para Malta, bigode loiro, um pouco da India nos olhos, muito da Inglaterra
+na excentricidade, um perfeito _gentleman_.
+
+--Um bebedor de cerveja! disse ella, desfolhando a flôr de cactus.
+
+--Um bebedor de cerveja! gritou o conde erguendo a cabeça com uma
+indignação comica. Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas
+isso se não queres fazer-me cabellos brancos! Estimo os inglezes e
+respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço d'aquella perfeição!...
+murmurava elle, fazendo ranger a penna.
+
+Ao outro dia subiamos para bordo do paquete da India, o _Ceylão_. Eram 7
+horas da manhã. O morro de Gibraltar mal acordada tinha ainda o seu
+barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já viajantes e officiaes sobre
+a tolda. O chão estava humido, havia uma confusão violenta de bagagens, de
+cestos de fructa, de gaiolas de aves; a escada de serviço via-se cheia de
+vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se á _cabine_, para dormir um
+pouco. Ás 9 horas quasi todos os passageiros que tinham entrado de
+Gibraltar e os que vinham de Southampton estavam em cima; o vapor
+fumegava, os escaleres affastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol
+dava uma côr rosada ás casa brancas de Algesiras e de S. Roque, e ouvia-se
+em terra o rufar dos tambores.
+
+A condessa, sentada n'uma cadeira indiana, olhava para as pequenas
+povoações hispanholas que assentam na bahia.
+
+O official inglez, Captain Rytmel, conversava a distancia com o conde, que
+adorava já a sua figura captivante e altiva, as suas aventuras da India, e
+a excentrica fórma do seu chapeu, que elle trazia com uma graça distincta
+e audaz. O capitão tinha na mão um album e um lapis.
+
+--Captain, disse-lhe eu tomando-lhe o braço, vou leval-o a minha prima, a
+senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ella é implacavel e faz
+caricaturas.
+
+A condessa estendeu ao inglez uma pequena mão, magra, nervosa, macia, com
+umas unhas polidas como o marfim de Dieppe.
+
+--Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil historias da India
+para me contar. Já lhe digo que lhe não perdôo nem um tigre, nem uma
+paisagem. Quero tudo! adoro a India, a dos Indios, já se vê, não a dos
+senhores inglezes. Já esteve em Malta? é bonita?
+
+--Malta, condessa, é um pouco de Italia e um pouco de Oriente. Surprehende
+por isso. Tem um encanto extranho, singular. De resto é um rochedo.
+
+--Demora-se em Malta? perguntou a condessa.
+
+--Uma semana.
+
+A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no
+official, tossiu brandamente, e com um movimento rapido:
+
+--Ah! vae deixar-me ver o seu album.
+
+--Mas, condessa, está branco, quasi branco; tem apenas desenhos lineares,
+apontamentos topographicos.
+
+--Não creio; deve ter paisagens da India, ha de haver ahi um tigre, pelo
+menos, a não ser que haja uma bayadera!
+
+E com um gesto de graça victoriosa, tomou o album da mão do official.
+
+O capitão fez-se todo vermelho. Ella folheou o livro e de repente deu um
+pequeno grito, córou, e ficou com o album aberto, os olhos humidos,
+risonhos, os labios entreabertos. Olhei: na pagina estava desenhada uma
+mulher com um penteador branco, debruçada a uma janella, tendo defronte um
+horisonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Elle
+tinha-a visto assim na vespera, ao luar, á janella do _Club-House_.
+
+O conde tinha-se approximado.
+
+--Como! como! És tu, Luiza! Mas que talento! É um homem adoravel, capitão.
+Que desenho! Que verdade!
+
+--Oh! não! não! disse o capitão. Hontem estava no meu quarto, em
+_Club-House_; instinctivamente tinha o album aberto, e o lapis, sem eu
+querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lapis
+que deve ser castigado.
+
+--O quê! gritou o conde, é um lapis encantado. Capitão, está decidido que
+vae jantar commigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro!
+Ha de ser o nosso _cicerone_ em Malta. Mas que talento! Que verdade!
+
+E fallando em portuguez para a condessa:
+
+--E um bebedor de cerveja, hein?
+
+N'esse momento uma sineta tocou: era o almoço.
+
+
+III
+
+
+Talvez extranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu
+conto estes factos, conservando-lhes a paizagem, o dialogo, o gesto, toda
+a vida palpavel do momento. Não se admire. Nem tenho uma memoria
+excepcional, nem faço uma invenção phantasista. Tenho por costume todas as
+noites, quando fico só, apontar n'um livro branco os factos, as idéas, as
+imaginações, os dialogos, tudo aquillo que no dia o meu cerebro cria ou a
+minha vida encontra. São essas notas que eu copio aqui.
+
+Á mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso logar era ao
+pé do capitão. O commandante do _Ceilão_ era um homem magro, esguio, com
+uma pelle muito vermelha, d'onde sahiam com a hostil aspereza com que as
+urzes saem da terra, duas duras suissas brancas.
+
+Ao seu lado sentavam-se duas excentricas personalidades de bordo: o
+_Purser_, que é o commissario que vela pela installação dos viajantes e
+pelos regulamentos de serviço, e mr. Colney, empregado do correio de
+Londres. O _Purser_ era tão gordo que fazia lembrar um grupo de homens
+robustos mettidos e apertados n'uma farda de marinha mercante. Mr. Colney
+era alto e secco, com um immenso nariz agudo e enristado, em cuja ponta
+repousava pedagogicamente o aro de ouro dos seus oculos burocraticos. O
+_Purser_ tinha uma fraqueza que o dominava--era o desejo de fallar bem
+brazileiro. Tinha viajado no Brazil, admirava o Maranhão, o Pará, os
+grandes recursos do imperio. A todo o momento se approximava de mim para
+me perguntar certas subtilezas de pronuncia brazileira. Mister Colney,
+esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas comicas. Os outros
+passageiros eram officiaes, que iam tomar serviço na India, algumas
+_misses_ alegres e loiras, um _clergiman_ com doze filhos, e duas velhas
+philantropicas, pertencentes á Sociedade educadora dos pequenos
+patagonios.
+
+Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que
+se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fria, encarou-o,
+ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou:
+
+--_Viva Dios!_ É Captain Rytmel! Eh! querido! mil abraços! Está gordo,
+hombre, está mais gordo!
+
+Envolvia-o nos braços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos
+negros. Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpreza, em que se
+fez pallido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente
+bella, que estava sentada ao pé d'aquelle homem guloso e expansivo, o qual
+era um hispanhol, negociante de sedas, e se chamava D. Nicazio Puebla.
+
+A senhora, que se chamava Carmen, era cubana, e segunda mulher de D.
+Nicazio; era alta, de fórmas magnificas, com uma carnação que fazia
+lembrar um marmore pallido, uns olhos pretos que pareciam setim negro
+coberto de agua, e cabellos annelados, abundantes, d'esses a que
+Beaudelaire chamava _tenebrosos_. Vestia de seda preta e com mantilha.
+
+--Estavam em Gibraltar? perguntou Captain Rytmel.
+
+--Em Cadix, meu caro, disse D. Nicazio. Viemos hontem. Vamos a Malta.
+Volta para a India? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcuttá! Lembra-se
+hein?
+
+--Captain Rytmel--disse sorrindo friamente Carmen--esquece depressa, e
+bem!
+
+No emtanto nós olhámos curiosamente para Carmen Puebla. O conde achava-a
+_sublime_. Eu admirado tambem, disse á condessa:
+
+--Que formosa creatura!
+
+--Sim! Tem ares d'uma estatua malcreada, respondeu ella seccamente.
+
+Olhei para a condessa, ri:
+
+--Oh prima! É uma mulher adoravel, que devia ser em miniatura para se
+poder trazer nos berloques do relogio; uma mulher que de certo vou roubar,
+aqui no alto mar, n'um escaler; uma mulher cujos movimentos parecem musica
+condensada! Oh prima! confesse que é perfeita... Menino! accrescentei para
+o conde, passa-me depressa a soda, preciso calmantes...
+
+No emtanto Captain Rytmel, sentado junto de Carmen, fallava da India, de
+velhos amigos de Calcuttá, de recordações de viagens. A condessa não
+comia, parecia nervosa.
+
+--Vou para cima, disse ella de repente, mandem-me chá.
+
+Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde:
+
+--Está incommodada a condessa?
+
+--Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de companhia, falle-lhe
+da India. Eu, não posso deixar este _carril_...
+
+Eu tinha interesse em ficar á mesa defronte da luminosa Carmen,
+concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado logo o seu
+excentrico chapeu indio, orlado de veus brancos.
+
+Ao vel-o seguir a condessa, a hispanhola empallideceu. Momentos depois
+ergueu-se tambem, tomou uma larga capa de seda á maneira arabe de um
+_bournous_, enrolou-a em roda do corpo, e subiu para a tolda, apoiada
+n'uma alta bengala de castão de marfim.
+
+O almoço tinha acabado. Fallava-se da India, do theatro de Malta, de lord
+Derby, dos Fenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao commandante, e
+fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar.
+
+A condessa estava sentada n'um banco á pôpa; ao pé d'ella o capitão
+Rytmel, n'um _pliant_ de vime.
+
+Carmen passeava rapidamente ao comprido da tolda; ás vezes, firmando-se
+nas cordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e
+ficava olhando para o mar, emquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam
+de vento, e lhe davam uma apparencia ondeada e balançada, que a
+assimilhava áquellas divindades que os esculptores antigos enroscavam no
+flanco dos galeões!
+
+
+IV
+
+
+D. Nicazio Puebla, que o _Purser_ me apresentara já, viera fumar para o pé
+de mim.
+
+--Esteve na India, Caballero? perguntei-lhe eu.
+
+--Dois annos, em Calcuttá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel.
+Conviviamos muito. Jantavamos sempre juntos. Fui á caça do tigre com elle.
+Cacei o tigre. Deve ir a Calcuttá! Que palacios! Que fabricas!
+
+--O capitão é um valente official.
+
+--É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a
+vida.
+
+--N'alguma caçada.
+
+--Eu lhe conto.
+
+Tinhamo-nos approximado da pôpa, fallando. N'este momento vi eu a
+hispanhola encaminhar-se para o logar em que a condessa fallava com
+Rytmel, e com uma resolução atrevida, a voz altiva, dizer-lhe:
+
+--Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra?
+
+A condessa fez-se muito pallida. O capitão teve um movimento colerico, mas
+ergueu-se e seguiu a hispanhola.
+
+Eu approximei-me da condessa.
+
+--Quem é esta mulher? Que quer?... disse-me ella toda tremula.
+
+Eu soceguei-a e dirigi-me a D. Nicazio.
+
+--Viu aquelle movimento de sua mulher?
+
+--Vi.
+
+--É inconveniente: e o cavalheiro responde de certo pelas phantasias ou
+pelos habitos d'aquella senhora...
+
+--Eu! gritou o hispanhol, eu não respondo por coisa alguma. O senhor que
+quer? É um monstro essa mulher! Livre-me d'ella, se póde! Olhe: quel-a o
+senhor? Guarde-a. Está sempre a fazer d'estas scenas! E não lhe posso
+fazer uma observação! É uma furia, usa punhal!
+
+--Esta mulher, fui eu dizer á condessa, é uma creatura sem consideração e
+parece que sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a
+presinta. Se houver outra inconveniencia eu dirijo-me ao commandante, como
+se ella fosse um grumete insolente. É pena... é terrivelmente linda!
+
+A hispanhola no entanto, junto da amurada, fallava violentamente ao
+capitão Rytmel que a escutava frio, impassivel, com os olhos no chão.
+
+O conde subiu n'este momento. Outras senhoras vieram, os grupos
+formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo _do
+boi_...
+
+Eu approximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importancia:
+
+--Então esta sua senhora dá-lhe desgostos?
+
+--É sempre aquillo com o capitão. Foi desde a tal caçada ao tigre... Quer
+que lhe conte?...
+
+--Diga lá.
+
+Sentei-me na tenda onde se fuma, accendi um charuto, cruzei as pernas,
+recostei a cabeça e, emballado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos.
+
+--Um dia em Calcuttá, começou o hispanhol, dia de grande calor...
+
+Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta historia a saiba do proprio
+capitão. Ahi tem a tradução fiel de uma das mais vivas paginas de um dos
+seus albuns de impressões de viagem.
+
+ * * * * *
+
+...«Sabes, escrevia elle a um amigo, que o sonho de todo o negociante que
+chega á India é caçar o tigre.
+
+D. Nicazio Puebla quiz caçar o tigre. Sua mulher Carmen decidiu
+acompanhal-o. Essa, sim, que tinha a coragem, a violencia, a necessidade
+de perigos de um velho explorador Hundodo! Eu estimava aquella familia.
+Combinámos uma caçada com alguns officiaes meus amigos, então em Calcuttá.
+A duas leguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre.
+Tinha mesmo saltado, havia duas noites, uma palliçada de bambus, na
+propriedade d'um doutor inglez, antigo colono, e tinha devorado a filha de
+um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente listrado.
+
+Partimos de madrugada, a cavallo. Um elephante, com um palanquim, levava
+Carmen. Um boi conduzia agua em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns
+officiaes de artilheria, cipaios, tres malaios e um velho caçador
+experimentado, antigo brahmane, degenerado e devasso, que vivia em
+Calcuttá das esmolas dos nababos e dos officiaes inglezes. Era destemido,
+meio louco, cantava extranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e
+dormia sempre em cima de uma palmeira.
+
+Nós levavamos espingardas excelentes, punhaes recurvados, espadas de dois
+gumes, curtas, á maneira dos gladios romanos, e o terrivel tridente de
+ferro que é a melhor arma para a lucta com o tigre. Ia uma matilha de
+cães, forte e dextra, da confiança dos malaios.
+
+Ás 11 horas do dia penetravamos em plena floresta. O tigre devia ser
+encontrado n'uma clareira conhecida. Iamos calados, vergando ao peso
+implacavel do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, n'um
+ar suffocado, cheio d'aromas acres. Toda aquella natureza estava
+entorpecida pela calma: os passaros, silenciosos, tinham um vôo pesado; as
+suas pennas coloridas, vermelhas, negras, roxas, doiradas, resplandeciam,
+sobre o verde negro da folhagem. O ceu mostrava uma côr de cobre ardente;
+os cavallos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi
+que levava a agua mugia lamentavelmente; só o elephante caminhava na sua
+pompa impassivel, em quanto os malaios para esquecer a fadiga, diziam, com
+a voz monotona e lenta, cantigas de Bombaim.
+
+Estavamos ainda distantes do tigre: nem os cavallos tinham rinchado, nem o
+elephante soltara o seu grito melancolico e doce. Todavia achavamo-nos
+proximo da clareira.
+
+Eu cheguei ao palanquim de Carmen e bati nas cortinas. Carmen
+entreabriu-as: estava pallida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os
+olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Anciava pela lucta, pelos tiros,
+pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de cognac e
+agua...
+
+Eu desde que a conhecia tinha muitas vezes olhado Carmen com insistencia,
+e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me
+respondendo ao meu.
+
+Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que n'um terrasso em
+Calcuttá, olhavamos as poderosas constellações da India, o ceu pulverisado
+de luz, ella tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A
+sua belleza perturbava-me como um vinho muito forte. E alli, n'aquella
+floresta, sob um céo affogueado, entre os aromas das magnolias, Carmen
+apparecia-me com uma belleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não
+foge.
+
+--Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcuttá!
+
+--Está rindo, capitão...
+
+--Na caçada do tigre póde-se pensar n'isto: o tigre é astuto; tem o
+instincto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado.
+
+--Ninguem hoje seria mais lamentado que o capitão.
+
+--Só hoje?
+
+--Sempre, e bem sabe por quê.
+
+De repente o meu cavallo estacou.
+
+--O tigre! o tigre! gritaram os malaios.
+
+Os cavallos da frente recuaram; os cipaios entraram nas fileiras da
+caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturaes, e o
+elephante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa
+solemne e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens.
+
+Estavamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro
+lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia.
+Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pallido e inquieto.
+
+--D. Nicazio! dê o primeiro tiro, o signal d'alarma!
+
+D. Nicazio picou rapidamente o cavallo para mim, murmurou com uma voz
+suffocada:
+
+--Quero subir para o elephante. Carmen não deve estar só; póde haver
+perigo...
+
+Fallei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde
+se sobe ao dorso dos elephantes. O Carnak dormia encruzado no vasto
+pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremeçou-se para dentro
+do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho
+faiscante e medroso.
+
+Mas estão foi Carmen que não quiz ficar dentro do palanquim, pediu,
+gritou, queria montar a cavallo, sentir o cheiro á fera.
+
+--Tirem-me d'aqui, tirem-me d'aqui! Não fiz esta jornada toda para ficar
+dentro d'uma gaiola...
+
+Não havia sella em que mulher montasse, nem cavallo bastante fiel; não se
+podia consentir que Carmen descesse. Mas eu tive uma idéa extranha,
+perigosa, tentadora, imprevista: era pôl-a á garupa do meu cavallo.
+Disse-lh'o.
+
+Ella teve um gesto de alegria, quasi se deixou escorregar, agarrando-se ás
+cordas do palanquim, pelo ventre do elephante; correu, pôz o pé no meu
+estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentou-se á garupa. Os
+officiaes exclamavam que era uma imprudencia. Ella queria, instava e
+apertava-me contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras
+do tigre a arrancariam d'alli...
+
+Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava
+Carmen á garupa, tinha-me collocado atraz do grupo, cerrado, com os pés
+firmes nos estribos, attento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos.
+
+Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folhagem.
+
+Carmen apertava-me exaltada.
+
+--Vá! Vá! pediu-me ella baixo. O tigre, o tigre! Dê o signal.
+
+Ergui um rewolver e disparei. O echo foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se
+um rugido surdo, lugubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava
+perto, entre os primeiros tamarindos. A matilha rompeu a ladrar...
+
+--Que ninguem se alargue! disse o velho brahmane, que tinha trepado a uma
+palmeira, e de lá olhava, farejava, ordenava!
+
+Todos conservavam a espada ou tridente inclinado em riste, esperando o
+salto do tigre. Eu déra uma _cuchilla_ a Carmen, tinha na mão da redea um
+forte rewolver e na outra um punhal curvo...
+
+De repente os arbustos estremeceram, as altas hervas curvaram-se,
+sentiu-se um bafo quente, um cheiro de sangue, e o tigre veiu cair, com um
+rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado, e immovel.
+
+Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ossea, os olhos
+fulvos, ferozes, n'um movimento perpetuo e convulsivo; e a lingua vermelha
+como sangue coalhado, pendia-lhe fóra da bocca.
+
+Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhaes com a cauda. Depois com
+um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arremessando-se, tinham-no
+prendido no ar, pelas orelhas, pela pelle espessa do pescoço, pelas
+pernas, vestindo-o de mordeduras, rasgando-o, rugindo, cobrindo-o todo.
+Alguns ficaram logo despedaçados.
+
+E no instante em que a fera tendo cuspido todos os cães, ficou só,
+magnifico, e de cabeça alta o brahmane fez um signal. Duas balas partiram.
+O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido.
+Immediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o
+tridente e os punhaes enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas
+laminas agudas. Prendera porém um malaio entre as garras, e rasgava-lhe o
+peito. Á uma todos enterravam as facas no corpo do animal, e elle,
+succumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se
+ainda ferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio.
+
+--Nada de bala! nada de bala! gritava o brahmane.
+
+Eu estava fascinado. Carmen convulsivamente apertada a mim, com os olhos
+chammejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos d'excitação. O
+tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista,
+seguia-lhe a mais pequena contracção dos musculos. Vi-o arquear-se de
+repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Carmen.
+Com uma determinação subita, disparei um tiro do meu rewolver no ouvido do
+cavallo que montavamos. O animal caiu sobre os joelhos, nós rolámos no
+chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair
+a distancia, revolvendo-se na terra. Ergui-me, arrojei-me a elle,
+cravando-lhe o punhal entre as patas dianteiras com um movimento rapido,
+que lhe foi ao coração. O tigre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca
+malaia em fórma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Carmen.
+
+--Hurrah! gritaram todos, e o echo d'este grito estendeu-se pela floresta.
+
+Carmen tinha-se approximado do tigre morto, acariciava-lhe a pelle
+aveludada, tocava-lhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria.
+
+--Hurrah! hurrah! continuavam gritando os caçadores.
+
+Carmen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com
+enthusiasmo, dizendo alto:
+
+--Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!...
+
+E mais baixo, murmurou-me ao ouvido:
+
+--Amo-te.
+
+A tarde cahia. Sentiamos os braços fracos, e grande sede. Começámos a
+dirigir-nos para Calcuttá. Descançámos n'uma plantação de indigo. E ao
+começar da noite, com archotes accesos e cantando, partimos alegremente
+para a cidade, pela floresta, n'um caminho conhecido e seguro. As luzes
+davam á ramagem attitudes phantasticas; passaros acordando esvoaçavam; e
+sentia-se o fugir dos chacaes. Era como a volta d'uma caçada barbara, das
+velhas legendas da India. Carmen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu
+montava, ao lado d'ella, o cavallo do malaio morto. Ella inclinou-se para
+mim e com a voz abafada:
+
+--Juro-te, disse-me, que te amo, como só no nosso paiz se ama. Juro-te que
+em todas as circumstancias, sempre darei a minha vida pela tua, quererei
+os teus perigos, serei a tua creatura, e só te peço uma cousa.
+
+--O quê?
+
+--É que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fazer, te lembres
+um pouco de mim.
+
+O momento, o sitio, os perfumes acres, as phantasticas sombras da
+floresta, a luz dos archotes, a belleza maravilhosa e fatal de Carmen, os
+tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavallos, os gritos dos
+chacaes, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esquecendo o senso e a
+logica, disse-lhe:
+
+--Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires
+que te esqueço, quero que me mates!
+
+Ella segurou a mão que lhe estendi, e com uma caricia humilde, com um
+gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e
+beijou-me os dedos.
+
+A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrellas scintillantes...»
+
+
+V
+
+
+Ao terceiro dia de viagem do _Ceylão_, um dia antes de avistarmos Malta,
+um official inglez, ao almoço, lembrou que n'aquelle dia fazia 28 annos o
+principe de Galles. Quasi todos os officiaes que estavam a bordo conheciam
+o principe, estimavam o seu caracter, o seu temperamento eminentemente
+_byroneano_. Resolveram, com accedencia do commandante, celebrar a data e
+valsar á noite, na tolda, á luz d'um _punch_ collossal.
+
+O jantar foi já ruidoso; o Champagne resplandeceu como opala liquida nas
+taças facetadas; a pesada _pale ale_ espumou; o Xerez ferveu na _soda
+water_. Carmen, pela sua belleza e pela extranha _verve_ da sua agitação,
+foi a alegria d'aquelle pesado e longo banquete de annos reaes.
+
+Houve _toasts_, á rainha e aos principes inglezes, ao lord-almirante, á
+companhia _P. and O._; e um inglez rico fez um _speech_ aos estrangeiros:
+_The count and countess of W_.
+
+--Peço um _toast_, disse Carmen, de repente.
+
+Os copos tiniram, estalaram as rolhas.
+
+--Á caçada do tigre! aos palanquins de cortinas brancas! aos caçadores que
+salvam as damas que têem á garupa!
+
+A maior parte não comprehendeu, alguns riram, mas como o _toast_ era
+excentrico, foi escoltado d'applausos.
+
+--_Oh! shocking!_ disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo
+amplo ventre do _Purser_ uma fascinação concentrada.
+
+--_Not at all, Madam!_ disse eu, é apenas o sangue meridional. Aquella
+viveza, aquelles olhos luzentes, é o sangue meridional: se ella agora
+quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue
+meridional...
+
+A ingleza escutava, como quem se instrue.
+
+-- ... Se ella tomasse de repente a roda do leme e arremessasse o paquete
+contra um rochedo, era o sangue meridional; se ella ousasse arrancar com
+mãos impias os seus oculos, milady...
+
+--Ouh! gritou ella.
+
+-- ... era ainda o sangue meridional!
+
+--_Oh! very shocking the_ sangue meridional.
+
+Os officiaes inglezes, esses, estavam enthusiasmados com Carmen.
+
+No emtanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do conde juntára-se
+um grupo de bebedores convictos e serios. Serviu-se o cognac e os alcools.
+Carmen ficára entre os homens, bebendo licôr, rindo e fumando cigarrettes.
+
+A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel.
+
+D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adornado de mostarda,
+de salada, de vinagre, de sal, de rabanos e d'um leve pó apimentado de
+Ceylão.
+
+Não sei como, fallou-se de mulheres, e de caracteres femininos.
+
+--Eu, disse logo Carmen, comprehendo a gravidade devota das _misses_: como
+senhoras inglezas é sua educação; nasceram para serem hirtas, loiras,
+frias e leitoras da _Revista d'Edimburgo_. Estão na verdade do seu
+caracter: um pouco menos vivas seriam de _biscuit_, um pouco mais seriam
+_shockings_. Mas o que eu detesto, são as canduras allemãs, os modos
+virginaes de creaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu paiz,
+pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma hispanhola, uma
+italiana, uma portugueza, caindo no _missismo_, e dando-se ares vaporosos,
+hypocritas e beatos, serve sempre para esconder um amante, quando não
+serve para esconder dois.
+
+Aquellas palavras eram evidentemente uma allusão sanguinolenta ás maneiras
+reservadas da condessa, que, sendo loira, discreta, suave, contrastava
+poderosamente com aquella trigueira e ruidosa hispanhola.
+
+--Perdão, _señora_, disse-lhe eu em hispanhol: hoje as verdadeiras
+maneiras não são o _salero_, são a _gravidade_. O _salero_ póde ser bom no
+theatro, na _zarzuella_, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem á
+Hispanha, mas é de todo o ponto inconveniente n'uma sala.
+
+Ella empallideceu levemente, e fitou-me:
+
+--_Caballero_, perguntou, _es usted pedante de rhetorica?_
+
+Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo _toast_.
+
+Mr. Cokney, que escutava a hispanhola, tinha attendido ás nossas palavras,
+tinha achado um som pittoresco e extranho n'aquelle dizer--_pedante de
+rhetorica_, e exclamava para os outros inglezes, rindo:
+
+--_Oh yes, Pedantt de Rhetoric, it is very phantastic!_
+
+Entretanto, a noite caia. Eu senti-me pesado, recolhi á _cabine_, adormeci
+ligeiramente. Pelas nove horas subi á tolda. Fiquei surprehendido.
+
+Não havia luar, nem estrellas, nem vento. Ao fim da tolda ardia o _punch_.
+Era enorme, a sua chamma larga, azulada, phantastica, subia, palpitava,
+fazia sobre o navio toda a sorte de reflexos e de sombras. Dos logares
+escuros saiam risadas de _flirtations_. Havia uma flauta, e uma rebeca. E
+já um ou outro par valsava em roda da _clara-boia_ da tolda.
+
+A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pela luz do
+_punch_, fazia lembrar um galeão de legenda, o paquete de Satan.
+
+Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando nos circulos da
+valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas n'uma claridade
+phosphorica, os vestidos brancos tomavam tons espectraes, os cabellos
+louros luziam com um encanto morto, havia em tudo aquillo como uns longes
+de dança macabra...
+
+Carmen estava possuida da mesma agitação da chamma do _punch_, travava do
+braço a um, valsava com outro, escarnecia, tinha replicas, batia o leque.
+D. Nicazio, esse resonava perto da amurada. De vez em quando
+entornavam-lhe _punch_ pela bocca: elle abria uma frestado olho:
+
+--_Thank you_, caballeros! e adormecia.
+
+--Onde está captain Rytmel? disse de repente Carmen. Tragam-n'o... Quero
+valsar com elle.
+
+Rytmel conversava com a condessa socegadamente, longe da luz.
+
+--Rytmel! Rytmel! chamaram varias vozes.
+
+Vimol-o approximar-se contrariado, mas rindo.
+
+--Uma valsa, gritou-lhe a hispanhola.
+
+A flauta começou: ella tomou os hombros do capitão, e despediram em
+grandes circulos; os vestidos de Carmen enchiam-se d'ar, os seus cabellos
+desmanchavam-se; a luz do _punch_ tremia; ao compasso rapido, os giros
+vertiginosos, enlaçados, pareciam vôos, lembravam a valsa do diabo cantada
+por Byron. Ella vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante, os
+olhos cerrados, os beiços entreabertos e humidos.
+
+--Bravo! Bravo! gritavam os inglezes em roda.
+
+A luz do _punch_ erguia-se, balançava-se, valsava tambem. Carmen e Rytmel
+passavam como sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos
+idealisadores da chamma azul. O som frenetico da flauta perseguia-os;
+parecia que elles iam voar, desapparecer entre as cordagens, dissipar-se
+na noite. Os inglezes gritavam, erguendo os chapeus:
+
+--Hip! hip! hip!
+
+Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação: estava
+observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante.
+Apenas a valsa findou, ella tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer
+n'uma voz grave e reprehensiva:
+
+--Não dance mais.
+
+Fiquei surprehendido. Que havia? Um segredo? Pois a condessa, tão altiva,
+tão casta, tão timida!...
+
+Approximei-me d'ella.
+
+--Prima, é tarde. Não quer descer?...
+
+Ella olhou-me serenamente, sorrindo.
+
+--Não. Porquê?
+
+E affastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se
+fumava, e agora deserta e quasi escura.
+
+Eu machinalmente fui-os seguindo, cheguei-me imperceptivelmente pelo lado
+opposto, e quasi sem querer ouvi.
+
+O capitão dizia-lhe:
+
+--Mas porque duvida? Eu desprezo aquella mulher. A nossa amisade nada
+perde, e nada soffre. Ella foi para mim um capricho, e historia de um
+momento. Agora nem uma recordação é...
+
+Continuaram fallando baixo, e melancolicamente. Eu fui encostar-me um
+momento á amurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar...
+
+Quando me approximei de novo dos grupos ruidosos, ouvi casualmente Carmen
+que dizia:
+
+--Onde se some aquelle capitão Rytmel? Desappareceu outra vez com a
+condessa, não viram? Vamos procural-os.
+
+Comprehendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, á tenda
+_fumoir_, entrei, sentei-me n'um banco, conversando alto, ao acaso. A
+tenda estava apenas allumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me
+apparecer assim tão bruscamente, fizera-se pallida de colera.
+
+Mas n'este momento chegavam alguns officiaes, gritando:
+
+--Rytmel! Rytmel!
+
+Eu adiantei-me, dizendo:
+
+--Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais...
+
+Os officiaes affastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de
+uma situação penosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me,
+profundamente.
+
+--Desça, condessa, desça, segredei-lhe eu.
+
+Ella disse com um sorriso melancolico a Rytmel:
+
+--Está frio, adeus!
+
+Rytmel e eu voltámos para o grupo dos officiaes.
+
+Eu queria-me vingar-me de Carmen; lembrou-me o tornal-a o centro de ruido,
+e d'orgia.
+
+--Señorita! disse-lhe eu, cante-nos uma _seguidilla_ ou uma _habanera_!
+Faz um bello effeito no alto mar. Estão aqui _gentlemen_ que nunca ouviram
+a musica dos nossos paizes.
+
+--Sim, sim, gritaram todos. _Uma seguidilla_!
+
+Ella queria recusar-se, descer ao beliche.
+
+--Não, não, cante, mylady, cante!
+
+Os pedidos eram instantes, e ruidosos. Ella cedeu, ergueu a voz, no meio
+do silencio, acompanhada pelo monotono ruido do vapôr e pelo vento
+crescente, e cantou com uma voz forte e languida:
+
+ Á la puerta de mi casa
+ Hay una piedra mui larga...
+
+Os inglezes estavam extaticos. No fim os applausos estalaram como
+foguetes, encheram-se os copos, um gritou:
+
+--Pela _señorita Carmen!_ hip! hip! Hurrah!
+
+Os applausos echoaram no mar.
+
+Ella estava extremamente embaraçada, comprehendia que só, no meio
+d'aquellas acclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada.
+
+--Ora vejam! disse eu então, com uma bonhomia mephistophelica, é pena que
+as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na
+pandiga.
+
+Carmen deitou-me um vivo olhar de odio: eu estava vingado.
+
+Um dos inglezes, no entanto, Mr. Reder, continuava, erguendo o copo, cheio
+de _punch_:
+
+--A Carmen Puebla! Hip! hip! hip!
+
+--Hurrah! responderam os outros enthusiasmados.
+
+E o echo triste do mar, repetiu:
+
+--Hurra!
+
+Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram se as luzes. Quasi todos
+desceram rapidamente. Havia um forte vento de noroeste. O balanço do navio
+crescia. Navegavamos então á vista da terra d'Africa. Quando a tolda ficou
+deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a
+grande pancada do mar.
+
+De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melancolica do
+marinheiro de vigia, dizia, pausadamente:
+
+--_All is well_.
+
+Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava n'aquella confusa
+penumbra que não é o somno, nem a vigilia, mas um vago sonho vivo que se
+sente e que se domina: via a condessa passar n'uma nuvem com Rytmel,
+alegre, bebendo cerveja; via Carmen vestida de monge, dançando sobre a
+corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater do
+helice.
+
+De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou
+um grande grito.
+
+
+VI
+
+
+Dei um salto, corri á porta do beliche:
+
+--_Stewart! Stewart!_
+
+_Stewart_,(Criado dos quartos.) apareceu esguedelhado, quasi nú.
+
+--Que é? Estamos perdidos? Batemos n'um rochedo?
+
+--Não sei. Não ha de ser nada, o navio é seguro.
+
+Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz n'um perigo.
+
+--Estamos perdidos, pensei eu, vestindo-me com uma precipitação
+angustiada.
+
+A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda
+pesada entrar, alagar a _cabine_.
+
+Corri á tolda. Giravam lanternas. Quasi todos tinham subido: os vestidos
+brancos, os penteadores das mulheres, davam aos grupos um vago mais
+lugubre. A officialidade estava impassivel.
+
+--Que foi? que foi? perguntei a alguem.
+
+--Não se sabe, quebrou-se a machina. Mas temos sobre nós um terrivel
+vendaval...
+
+--Estamos perdidos!
+
+--O navio é seguro, respondeu o outro.
+
+Ao lado diziam:
+
+--O capitão devia deitar as lanchas ao mar.
+
+O ceu estava limpo: luziam estrellas. O vento assobiava mais forte. O
+navio tinha aquella oscillação lugubre de bombordo a estibordo, que têem
+os grandes peixes mortos quando boiam ao cimo d'agua. Olhei os astros, o
+ceu impassivel, a agua negra,--e senti um immenso despreso pela vida.
+
+Em roda de mim a cada instante ouvia-se versões contradictorias. Uns
+diziam que ficariamos _á capa_, esperando firmemente o mau tempo; outros
+que o navio estava perdido... Um official disse ao passar:
+
+--Oh, senhores! isto não vale nada: concerta-se; já me aconteceu duas
+vezes d'Aden a Bombaim.
+
+Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e regular, como se
+caminhassemos n'um largo rio, á clara luz do sol. O commandante, emfim,
+appareceu:
+
+--Meus senhores, disse elle, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo
+grave na machina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas
+com o vento que vem sobre nós, é caso para um atrazo de quatro ou cinco
+dias.
+
+No emtanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma.
+Ouvia-se no horisonte um ruido surdo, como o marchar de mil batalhões.
+
+A maior parte dos inglezes, pesados de somno e de vinho, tinham voltado
+para as _cabines_, indifferentes ao perigo. Algumas _ladies_, tranzidas,
+mas graves, ficaram no convez.
+
+Em baixo, os engenheiros e os machinistas trabalhavam poderosamente, e sem
+cessar.
+
+Captain Rytmel approximou-se de mim.
+
+--É um perigo, e é um perigo sem lucta. Este imbecil d'este commandante
+navegou de mais para sul. Estamos perto da costa d'Africa. Se o vendaval
+nos apanha agora atira-nos para lá... Todavia o nosso engenheiro de bordo,
+Pernester, é um homem de genio. Onde está a condessa?
+
+Descemos á sala commum. A condessa lá estava, encostada á mesa, serena e
+pallida.
+
+--Suba, prima, suba, disse eu. Ao menos em cima vê-se o ceu, a agua e o
+perigo!
+
+Viemos encostar-nos á amurada, agarrados ás cordagens. As estrellas davam
+uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma,
+reluziam sob aquella luz vaga. O vento era terrivel.
+
+--Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos luctava-se,
+havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a Africa como uma
+baleia morta!...
+
+Ella quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era
+necessario encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu difficilmente me
+equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lugubre. A
+sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos.
+Tinham-se accendido mais pharoes no alto dos mastros. O ruido do vento de
+temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condemnadas.
+
+Desci á camara para beber cognac, porque o frio era agudo. Carmen, sentada
+no sophá, no alto da sala, estava ali immovel, com os olhos vagos, as mãos
+crusadas.
+
+--Morremos, hein? perguntou ella.
+
+--Tem medo? disse eu.
+
+--Um pouco, de morrer affogada. D'uma bala ou d'uma facada, não me
+custava. Mas aqui, estupidamente, n'este antipathico elemento, é cruel! Ao
+menos não morro só! Lá se vae a sua linda prima!...
+
+--Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo.
+
+--Eu! de modo algum. Acho-a piegas, detesto aquelles ares sentimentaes,
+deshonra a Peninsula. Ahi está.
+
+--Não é isso: é porque suppõe que Captain Rytmel se interessa de mais por
+ella.
+
+--E que me importa a mim esse cavalheiro?
+
+E deu uma curta risada.
+
+No emtanto o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi
+á tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo
+deprehendi, debaixo da _tenda_. Eu, de pé, atravez da lona podia escutar,
+apesar do ruido do vento.
+
+Uma curiosidade indomavel, a necessidade de comprehender a situação do
+espirito da condessa, a certeza de que estavamos na afflição d'um
+perigo,--e as acções humanas n'esses momentos não se podem sujeitar ao
+criterio da vida trivial,--tudo me levou a ir escutar, apesar das
+repugnancias do meu caracter. Acerquei-me, fiz ouvido d'espião:
+
+--E custa-lhe morrer?
+
+--Muito e nada, respondia a condessa. Muito porque morre commigo o
+primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amisade; nada, porque,
+francamente, sou eu feliz?
+
+--Se a minha amisade é para si um interesse profundo...
+
+A condessa calou-se.
+
+--Oh! comprehendo-a bem, disse Rytmel. Sabe por que não é feliz, apesar da
+minha amisade? É porque não é a minha amisade o que o seu coração precisa.
+Oh! deixe-me fallar! É o amor profundo, inalteravel, omnipotente, que
+esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as idéas do seu
+espirito; que viva do prazer e viva do sacrificio; que seja a ultima rasão
+da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que ha de
+mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que ha de mais elevado prenda a
+sua alma...
+
+--Cale-se, cale-se, dizia a condessa. É uma loucura fallar assim... Vamos
+passear, vamos ver o mar.
+
+O vento agora era terrivel. O mar estava como agua de sabão a perder de
+vista. O navio oscilava perdidamente, e sem rumo. No emtanto, na machina
+trabalhava-se sempre.
+
+Rytmel continuava fallando á condessa.
+
+--Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida.
+
+--Não; devo dizer-lh'o: esta palavra «amisade» é falsa. D'aqui a duas
+horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma
+justiça. Digo-lh'o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta
+confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d'estas palavras, o mar é um
+bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a...
+
+--Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos
+levaria? ou ao despreso ou á tortura...
+
+Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia
+lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam
+como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os
+martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez.
+
+De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua
+voz era alta e vibrante:
+
+--Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?
+
+--Penso, condessa.
+
+--Pois bem, quero dizer-lh'o então: amo-o!
+
+E depois de um momento:
+
+--Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a
+certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o.
+
+N'este momento um ruido extranho tomou o navio.
+
+Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga.
+Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha
+retomado a sua vitalidade... Então senti o helice... o helice! O navio
+movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei
+para a abertura que desce á machina.
+
+--Que é? perguntei a um official que subia.
+
+--Um milagre de Pernester!
+
+Todos tinham corrido. Era uma anciedade.
+
+O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior
+da machina sobe ao pavimento do navio.
+
+Estava radiante.
+
+--Imaginem que Pernester...
+
+--Sim, sim, interrompi, mas então?
+
+--Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta.
+
+--Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos.
+
+O grande homem subiu a escada da machina, offegante, impassivel, vermelho,
+grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse
+n'um tom suave:
+
+--_Now, I should enjoy a nice glass of beer..._
+
+
+VII
+
+
+No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrellas. A
+agua da bahia estava immovel e negra. Via-se defronte _La Valette_,
+elevada como uma collina, altiva como um castello, pespontada de luzes. Em
+redor do paquete as gondolas corriam silenciosamente tendo á popa, esguia
+e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silencio, uma suavidade
+ineffavel. Os gondoleiros remavam calados. Aquillo era doce e regular.
+Sentia-se o mysterio italiano e a policia ingleza.
+
+Desembarcámos: fomos para Clarence Hotel, na Strada-Reale, defronte da
+celebre igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos officiaes
+inglezes. D. Nicazio e Carmen vieram para Clarence-Hotel, tambem. Os tres
+primeiros dias em Malta foram occupados em percorrer os monumentos: o
+palacio dos grã-mestres, os palacios chamados _Estalagens_, e que eram
+pertencentes ás differentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas
+brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os
+arredores de Malta, Citta-Vechia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calypso,
+que tem tantos encantos em Homero e que é um rochedo humido, cheio de
+cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns officiaes iam
+jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O
+ruido, a petulancia da mesa, era Carmen. Deixara-se logo seguir sempre por
+um rapaz francez, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny,
+_viajante por tedio_, dizia elle.
+
+Carmen não se approximava de Rytmel. Havia entre elles como uma separação
+combinada e discreta. Rytmel, pelo contrario, não se affastava de nós em
+todas as excursões ao campo, ás fortificações, á bahia; todas as noites
+nos acompanhava ao theatro. O conde tinha ficado logo captivado das
+grandes tranças louras d'uma rapariga que nós viamos sempre na 1.^a ordem
+do theatro, com a tez ingleza e os olhos malteses, d'uma frescura de
+_miss_ e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize,
+dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de
+Rytmel.
+
+Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do official não estavam tanto
+sob o dominio da minha vista. Eu, ás vezes, não via a condessa um dia,
+dois dias, absorto na companhia de alguns officiaes inglezes, em passeios
+no mar, no campo, em ceias e no jogo. Comprehendia porém que aquella
+paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me tambem
+perdidamente namorado.
+
+Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocinios interiores, que me
+determinaram a ser indifferente áquella situação. Comprehenderá claramente
+os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me
+n'uma discripção completa e delicada.
+
+Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tinhamo-nos relacionado com lord
+Grenley, que estava ali passando o inverno e curando os seus _blue
+devils_. Tinha vindo de Inglaterra n'um lindo _yacht_, chamado _The
+Romantic_, que nós viamos todos os dias na bahia bordejar, fazendo reluzir
+ao sol os seus cobres polidos e o seu esvelto costado branco. Lord Grenley
+ligára-se muito com o conde. Era tambem o Intimo de Rytmel.
+
+Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro,
+onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da
+condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de _ladies_, não a
+encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção
+dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de
+Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de
+allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre
+Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as
+opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se
+apenas pelo gosto de o vêr contrariado...
+
+Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a
+Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny.
+
+--Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido.
+
+--Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que _transformação
+fecunda_ fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da
+imaginação, do sol, n'uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu
+estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores
+inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do
+_Morning Post_. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a
+grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no
+divino Ganges paquetes a tres _schellings_ por cabeça; fazem beber ás
+_bayaderas_, _pale ale_, e ensinam-lhes o jogo do _criket_; abrem
+_squares_ a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores,
+desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n'os
+por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de _porter_, que
+quando não vão ser forçados em _Botany-Bay_, vão ser governadores da
+India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de
+rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja!
+
+Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse:
+
+--Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu
+logar, a sua hora e as suas armas.
+
+E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e
+transmitti-lhe as palavras do meu amigo.
+
+Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços
+na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o
+achava um adoravel _gentleman_, que pedia das suas palavras as mais
+humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas
+quaesquer...
+
+--Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as
+armas...
+
+--Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho
+que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter
+e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.
+
+Nomearam-se padrinhos n'essa noite. Combinou-se que o duello não fosse em
+Malta: Rytmel era official, e os duellos nas praças d'armas têem as mais
+severas penalidades. Era difficil, porém, estando n'uma ilha ingleza, não
+se baterem em territorio inglez. Resolveu-se então que o duello fosse no
+alto mar, a um tiro de canhão da costa ingleza. Lord Grenley emprestou o
+seu _yacht_ e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre.
+As cousas foram rapidas. Puzemo-nos á capa a 5 milhas de Malta, arriámos o
+pavilhão inglez, a marinhagem subiu ás vergas, e como havia egualdade de
+nivel, um dos adversarios foi collocado á pôpa e outro á prôa. O sol
+davanos de estibordo. Éram 7 horas, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no
+ar. O duello era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lord Grenley
+deu o signal, os dois adversarios fizeram fogo. Perny deixou cahir a
+pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a
+clavicula partida. Foi deitado n'uma _cabine_ preparada. Levantou-se o
+pavilhão inglez e navegámos para Malta. Vinha cahindo a tarde.
+
+Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Carmen estava só.
+
+--Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido.
+
+--Isso cura-se, eu mesma o curarei... agora o que é sério, é o que se está
+tramando aqui dentro d'este hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio
+apenas... Diga ao conde que vigie a condessa!
+
+Eu encolhi os hombros, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde,
+Rytmel, e Lord Grenley. O ferimento de Perny fôra declarado sem perigo, o
+capitão estava tranquillo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma
+visita á ilha de Gozzo, a oito kilometros de Malta. Grenley tinha proposto
+a excursão, e offerecia o seu _yacht_. O conde esquivava-se, dizendo que o
+mar o incommodava, no estado nervoso em que estava.
+
+--Menino, é aquella maldita Rize! veio-me elle dizer em voz baixa,
+tenho-lhe para amanhã promettido um passeio a Bengama.
+
+--Mas, então?
+
+--Acompanha tu a condessa. Vae Grenley e Rytmel. Faze-me isto. Bem vês!
+Mademoiselle Rize é exigente, mas pobresinha d'ella, tem o sangue maltez!
+
+Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veiu a mim
+no corredor e tomou-me pela mão.
+
+--Escute, disse-me uma voz subtil como um sopro.
+
+Era Carmen.
+
+--Se é um homem de honra, cautella amanhã com o passeio a Gozzo.
+
+E desappareceu.
+
+
+VIII
+
+
+No outro dia ás seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia
+estado durante a noite sob o dominio d'uma extrema agitação nervosa, mas
+não queria renunciar ao passeio de Gozzo. Encontrei Lord Grenley com
+Rytmel, tomando chá.
+
+Pareceu-me pela fadiga das suas physionomias, que se não tinham deitado:
+lord Grenley decerto que não, porque estava de casaca, como na vespera, e
+tinha ainda na _boutonniêre_ um jasmim do Cabo, murcho e amarellado.
+
+--Bonita madrugada! disse Rytmel.
+
+Tinham aberto a janella, o ar fresco entrava; nas arvores do jardim
+cantavam os passaros.
+
+--Adoravel! disse eu. A condessa esteve toda a noite doente, mas não se
+transtorna o passeio... Outra cousa: tem um rewolver, Rytmel?
+
+--Para quê?
+
+--Disseram-me que era muito curioso atirar aos passaros que se escondem
+nas cavernas, em Gozzo. Ha um echo excentrico. Precisamos de uma arma.
+
+Rytmel deu-me um pequeno rewolver marchetado.
+
+--Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da albuns e de canetas para tirar
+desenhos... Ah! Sabe que este Grenley não vae?
+
+--Porque? como assim, mylord?
+
+--Um jantar official com o governador disse Lord Grenley, é horrivel.
+Tenho uma pena immensa...
+
+Ás sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou-nos até o caes
+Marsa-Muscheto.
+
+Notei ao entrar no _yacht_ que a equipagem estava augmentada e havia um
+piloto arabe.
+
+Largámos com um vento fresco, ás oito horas da manhã; as gaivotas voavam
+em roda das velas, as casas brancas de _La Valette_ tinham uma côr rosada,
+ouviam-se as musicas militares, o ceu estava d'uma pureza encantadora.
+
+A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria avida, para o vasto
+mar azul, livre, infinito, coberto de luz.
+
+--O que são as mulheres! pensava eu. Esta, tão altiva e tão discreta, está
+encantada por se vêr só, com rapazes, n'um _yacht_, no alto mar. É para
+ella quasi uma aventura!
+
+Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante.
+Representar eu alli o marido, a familia, o dever, diante de duas creaturas
+moças, bellas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro annos, ardente e
+apaixonado, o encarregado de fazer a policia d'aquelle romance sympathico!
+_Á la grace de Dieu!_ O mar é largo, o ceu profundo, a honra existe, daqui
+a duas horas estamos em Gozzo, passeamos, rimos, jantamos, e ao anoitecer,
+quando Deus espalhar o seu rebanho de estrellas, voltaremos na viração e
+na phosphorescencia, calados, ouvindo o piloto arabe cantar as doces
+melopeas da Syria, ao ruido languido da maresia...
+
+Rytmel tinha descido a dar as ordens para o almoço. A condessa ficara de
+pé, á prôa, com um vestido curto de xadrez, botinas altas, envolta n'uma
+manta escoceza, de largas pregas. Nunca eu a vira tão linda.
+
+Costeavamos Malta com vento oeste.
+
+Approximamo-nos da ilha de Cumino. Rytmel veio-nos dizer que deveriamos
+almoçar, e que ao fim de meia hora desembarcavamos em Gozzo, na _Calle
+Maggiara_; iriamos vêr as curiosidades da ilha, tornariamos a embarcar
+para tornear Gozzo, e vêr as terriveis cavernas, onde o mar se abysma e se
+perde, e ao anoitecer tocariamos o caes de La Valette.
+
+O almoço foi muito alegre. Havia Champagne, um Rheno adoravel, um guizado
+arabe e um piano na camara. Captain Rytmel, cujo aspecto me parecia ter
+uma preoccupação inexplicavel, fez ao piano depois do almoço interminaveis
+improvisações. Caminhavamos sempre. Casualmente, tirei o relogio, e tive
+um sobresalto! Havia duas horas e meia que tinhamos descido! Ora quando o
+almoço começára, faltava-nos meia hora para desembarcar em Maggiara!
+Porque seguiamos então? Subi rapidamente á tolda. O piloto arabe estava ao
+leme. Não se via quasi a terra: iamos no mar alto, navegando com uma
+extraordinaria velocidade sob o vento.
+
+--Onde está Gozzo? gritei ao arabe em inglez, depois em francez, depois em
+italiano.
+
+O arabe nem sequer se dignou olhar-me. N'este momento Rytmel e a condessa
+subiam.
+
+--Onde está Gozzo? perguntei eu a Rytmel.
+
+--Ha talvez uma bruma, respondeu elle vagamente e voltando o rosto.
+
+O horisonte porém estava limpo, puro, sem mysterio, a perder de vista. Ao
+longe via-se uma sombra indefinida que denunciava a terra: e nós
+affastavamo-nos d'ella!
+
+Corri á bussola. Navegavamos para Oeste.
+
+--Navegamos para Oeste, Captain Rytmel! affastámo-nos de Malta! Que é
+isto? Para onde vamos?
+
+Rytmel olhou longamente a condessa, depois a mim e disse:
+
+--Vamos para Alexandria.
+
+Num relance comprehendi tudo. Rytmel fugia com a Condessa!...
+
+Eu fitei Rytmel, e disse-lhe tremendo todo:
+
+--Isso é uma infamia!
+
+Elle empallideceu terrivelmente; mas a condessa, interpondo-se, com uma
+voz vibrante:
+
+--Não! sou eu! Sou eu que vou para Alexandria.
+
+--N'esse caso sou eu o infame, prima.
+
+Houve um silencio. Os olhos da condessa estavam humidos. Correu para mim,
+tomou-me uma das mãos, murmurou entre soluços:
+
+--Que quer? Ninguem tem culpa. Amo este homem, fujo com elle.
+
+Rytmel tomara-me a outra mão.
+
+--Agora, dizia, é impossivel voltar. É um passo dado, irreparavel...
+
+Eu estava succumbido: aquella situação imprevista, deixava-me sem
+raciocinio, sem voz, sem vontade.
+
+Eu, amigo do conde!... Eu, cumplice d'aquella fuga! Além d'isso, alli, no
+meio d'aquelles dois amantes encantadores, que me supplicavam apertando-me
+as mãos, eu sentia-me ridiculo--e isto augmentava o meu desespero. A
+condessa, no entanto, continuava:
+
+--Primo, disse ella, que importa? Estou deshonrada, bem sei. Mas que
+queria? que eu ficasse ao lado de meu marido, amando este, n'uma mentira
+perpetua, vivendo alegremente instalada na infamia? Essa situação nunca! É
+suja! Ao menos isto é franco. Rompo com o mundo, sou uma aventureira, fico
+sendo uma mulher perdida, mas conservo-me para um só e sendo pura para
+elle.
+
+--Captain Rytmel, disse eu, então mande deitar uma lancha ao mar.
+
+--Que quer fazer? gritou a condessa.
+
+--Eu? ganhar a terra. Acha que tambem não é uma infamia installar-me
+n'este navio?
+
+--Está louco, disse Rytmel, ha só um escaler a bordo. O vento cresce, o
+mar incha. O escaler não se aguentará dez minutos.
+
+--Melhor! Um escaler ao mar! gritei eu.
+
+--Ninguem se mecha! bradou Rytmel.
+
+E voltando-se para a condessa:
+
+--Mas diga-lhe que é a morte! Que cumplicidade tem elle? Foi forçado, foi
+levado. Não responde por nada.
+
+--Um escaler ao mar! gritava eu.
+
+Mas, de repente, Rytmel tomando um machado correu ao bordo d'onde pendia o
+escaler, cortou as correias de suspensão; o barco cahiu na agua com um
+ruido surdo, ficou jogando sobre as ondas meio voltado, sobrenadando como
+um corpo morto.
+
+Eu bati o pé, desesperado.
+
+--Ah que infamia! capitão Rytmel! Que infamia!
+
+E por uma inspiração absurda, querendo desabafar, fazendo alguma cousa de
+violento, gritei para alguns marinheiros que estavam á prôa:
+
+--Ha algum inglez ahi que preze a sua bandeira?
+
+Todos se voltaram admirados, mas sem comprehender.
+
+--Pois bem! gritei eu, declaro que esta bandeira cobre uma torpeza, tem a
+cumplicidade da deshonra, e que é sobre toda a face ingleza que eu cuspo,
+cuspindo no pavilhão inglez.
+
+E correndo á popa cuspi, ou fiz o gesto de cuspir sobre a larga bandeira
+ingleza. Um dos marujos então de certo comprehendeu porque teve um
+movimento de ameaça.
+
+--Ninguem se mova! gritou Rytmel. Eu sou o offendido. Meu amigo, disse
+elle com a voz suffocada, tem razão: desde que abandonei Malta, deixei de
+ser official inglez. Sou um aventureiro. Esta bandeira, com effeito, não
+tem que fazer aqui!
+
+Adeantou-se, arreou o pavilhão de tope da popa.
+
+E n'uma exaltação tão insensata como a minha, arremessou o pavilhão ao
+mar; as ondas envolveram-n'o, e por um estranho acaso, no encontro das
+aguas, a bandeira desdobrou-se, e ficou estendida sem movimento, serena,
+immovel, á superficie do mar, até que se afundou.
+
+Rytmel, então, por um impulso romanesco e apaixonado, tomou um lenço das
+mãos da condessa, amarrou-o á corda da bandeira, e içando-o rapidamente,
+gritou:
+
+--De ora em diante o nosso pavilhão é este!
+
+Eu achava-me no meio de todas aquellas scenas violentas, como entre as
+incoherencias d'um sonho.
+
+N'um movimento que fiz, senti no bolso o rewolver: não sei que desvairadas
+ideias de honra me hallucinaram, tirei-o, engatilhei-o, brandi-o, gritei:
+
+--Boa viagem!
+
+--Jesus! bradou a condessa.
+
+
+IX
+
+
+Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o rewolver.
+
+Eu murmurei simplesmente:
+
+--Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos.
+
+A condessa então adiantou-se, livida como a cal e disse (nunca me esqueceu
+o som da sua voz):
+
+--Rytmel, voltemos para Malta.
+
+--Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus!
+
+Eu interpuz-me, disse as cousas mais loucas:
+
+--Rytmel, dê-me esse rewolver, sejamos homens. Que as nossas acções tenham
+a altura dos nossos caracteres. Nada mais simples. Nem a paixão póde
+retroceder, nem a honra condescender. A solução é a morte. Eu mato-me,
+fugi vós para bem longe...
+
+Mas a condessa, que era a unica que parecia ter ainda uma luz de razão
+dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sentia a dôr oculta:
+
+--Rytmel, voltemos para Malta.
+
+Elle olhou-a um momento: a consciencia da nossa odiosa situação pareceu
+então invadil-o, subjugal-o; vergou os hombros, obedeceu, foi dizer
+algumas palavras ao capitão do _yacht_.
+
+D'ahi a um instante corriamos sobre Malta.
+
+Houve um grande silencio, como o cançasso d'aquella lucta da paixão.
+Rytmel passeava rapidamente pelo convez, e sob a serenidade do seu rosto,
+sentia-se a tormenta que lhe ia dentro.
+
+--Aqui está! disse elle de repente, parando e cruzando os braços, com um
+extranho fogo nos olhos. Acabou tudo! Voltamos para Malta. Que mais
+querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre!
+Iamos a Alexandria; estavamos salvos, sós, novos, felizes! E agora?
+Felicidade, amor, paixão, esperança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre
+ingenuo! Fallam-te na honra! Que honra a que me vae matar todos os dias, a
+que me arranca do meu paraiso, a que me torna o ultimo desditoso! Honra!
+Que me resta a mim? Uma bala na India. Morrer para ali, só, como um cão.
+
+A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar.
+
+E Rytmel vindo para mim, tomando-me o braço, com um gesto desesperado:
+
+--Vês tu! Vês isto? Eu soffria tudo por ella; a deshonra, a infamia, o
+desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o
+escarneo, tudo por ella. Diz-se a um homem--amo-te, vae-se fugir com elle,
+está-se n'um navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraiso,
+quando já se não vê terra, vem um escrupulo, uma mágoa, uma saudade do
+marido talvez, uma lembrança d'um baile, ou d'uma flôr que ficava bem--e
+adeus para sempre! e quer-se voltar; e tu, miseravel, soffre, chora,
+arrepella-te, e morre para ahi como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz,
+nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a
+terra!...
+
+--William! William! gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as
+mãos. Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua,
+só tua... tua deante de Deus, tua deante dos homens...
+
+N'este momento ouviu-se a voz distante de um sino!
+
+Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte.
+
+A suavidade da hora era extrema; o ar estava ineffavelmente limpido.
+Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de la Valette. O sol
+descia. Os seus ultimos raios obliquos faziam scintilar os _miradouros_.
+Distinguiam-se no caes os vendedores de flores. Duas gondolas corriam para
+nós. Houve um grande ruido nas velas, assobios de manobras, o navio parou,
+e a ancora caiu na agua! Tinhamos chegado. Os sinos de Malta continuavam
+repicando.
+
+
+X
+
+
+Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu
+passeio a Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa,
+n'um triste estado de exaltação e de paixão.
+
+Carmen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapidamente,
+perguntou-me:
+
+--Voltaram? como foi?
+
+--Sabia então alguma cousa? interroguei admirado.
+
+--Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante toda a noite Rytmel
+andou fazendo preparativos. Era uma combinação de ha trez dias. Lord
+Grenley sabia. E agora?
+
+--Agora, disse eu, tudo terminou. A condessa naturalmente parte no
+primeiro paquete.
+
+--Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fatalidade, bem o sei,
+mas que quer? Amo aquelle homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação,
+salvou-me a vida. É sobretudo uma paixão estupida que me roe, que me mata.
+E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar.
+Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar o orvalho para o terraço. Para
+que vivo eu? Vivia d'esta paixão. Cresceu desde que o vi agora. E diga-me
+quem o não ha de adorar? Ás vezes lembra-me matal-o!...
+
+Conversámos algum tempo. A pobre creatura tinha nos olhos um fulgor
+febril, na face uma pallidez de marmore. Eu procurei calmal-a. Começava a
+sympathizar com ella...
+
+A condessa não sahiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ella
+tivera em Gozzo um susto terrivel, porque tinhamos estado em perigo, na
+visita ás cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive
+quasi sempre, depois, com Rytmel. Lentamente a esperança renascia no seu
+espirito. Accommodava-se, ainda que com certas repugnancias, a uma
+situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da
+paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana
+é cheia de conciliações!) ao fim de cinco dias a condessa appareceu no
+theatro, fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus hombros reluziam
+as dragonas de ouro de Captain Rytmel!
+
+Entrámos então n'uma vida serena, sem romance e sem lucta. Os corações
+tinham calmado, e fallavam baixo. O conde passeava no campo com
+mademoiselle Rize; lord Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de
+opio; eu jogava as armas com os officiaes inglezes; D. Nicazio negociava;
+Rytmel tinha um ar feliz e mysterioso; a condessa recebia, guiava os seus
+poneys, e todas as noites, no theatro, fazia reluzir ao gaz o louro
+esplendor dos seus cabellos e a pallidez preciosa das suas perolas. Santa
+paz!
+
+O tempo estava adoravel. Malta resplandecia, a bahia reluzia ao sol, os
+jardins floresciam, os olhos das maltezas suspiravam. Era o tempo das
+flôres da laranjeira. Só Carmen emmagrecia e vivia retirada.
+
+Mr. Perny entrava em convalescença: passava o tempo deitado n'um _sophá_,
+de dia compondo uma opera comica, á noite jogando com alguns officiaes, e
+salpicando a gravidade britannica de _calembourgs_ bonapartistas.
+
+Uma occasião, ao sair de casa d'elle, onde tinha perdido algumas duzias de
+libras, recolhia eu a Clarence-Hotel levemente irritado, e sentindo um
+prazer excentrico em cantar o _fado_ pela ruas de Malta, a mil legoas do
+Bairro Alto. O pavilhão que nós habitavamos em Clarence-Hotel dava sobre
+um jardim todo escuro d'arvores e de moitas de flôres.
+
+Ordinariamente o conde e eu entravamos pelo jardim. Tinhamos uma pequena
+chave que abria a portinha verde no muro, todo coberto de musgo e de copas
+d'arbustos orientaes. N'essa noite, ao abrir a porta, cantando em voz
+alta, senti sumir-se rapidamente na espessura das folhagens um vulto. O ar
+estava sereno, accendi um phosphoro, e áquella luz trémula, entrei na
+sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-se
+seguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente,
+retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e proferiu o meu
+nome. Era Carmen.
+
+--Que faz aqui? disse eu.
+
+--Mato-me. Não lhe disse que sempre que suava de noite, me erguia e vinha
+apanhar o orvalho?
+
+Mas ella estava completamente vestida de seda preta, e tinha sobre os
+hombros uma larga capa escura, de fórma arabe, com grande capuz!
+
+--Ah! minha cara, disse eu, mata-se mas é d'amores. A esta hora, com essa
+_toillette_, n'este jardim, com este aroma de laranjeiras!... Que historia
+me vem contar d'orvalhos e de suor?
+
+--Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui n'esta sombra
+encontrar alguem?...
+
+--E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a côrte. Que lhe dê uma
+serenada, que suba por uma escada de corda, que a seduza n'este jardim...
+
+Emquanto eu fallava, davam horas na Igreja de S. João, e Carmen mostrava
+uma agitação impaciente. A todo o momento olhava para a porta do jardim,
+torcendo freneticamente uma luva descalçada.
+
+Eu comprehendi que ella esperava _alguem_. Alguem, isto é, _el querido, el
+precioso, el saleroso, el niño_ de toda a legitima andaluza. Affastei-me
+discretamente, como um confidente, e no momento que pisava a rua areada
+que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura
+plangente.
+
+--É elle, pensei eu. É o _niño_. Pobre Carmen! Bebe vinagre, apanha os
+orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não póde ser superior a
+vir receber debaixo das laranjeiras algum cabelleireiro francez com voz de
+tenor, ou algum tenor maltez com bigodes de cabelleireiro.
+
+Subi ao meu quarto, mas não tinha somno; a noite era suave e languida,
+mordia-me uma aspera curiosidade, e com a astucia d'um ladrão napolitano,
+desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi
+Carmen. Estava só! Extrema surpreza!
+
+--E _el querido?_ perguntei-lhe eu rindo.
+
+Ella voltou-se em sobresalto e perguntou-me com a voz agitada:
+
+--Qual _querido_?
+
+--O que entrou agora?
+
+--Não entrou ninguem.
+
+--Eu vi.
+
+--Conheceu?
+
+--Não, onde está?
+
+--Abriu as asas, voou! disse ella rindo-se e affastando-se em direcção aos
+seus quartos.
+
+--Diabo! pensei eu. É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os,
+parte-os aos bocadinhos e enterra-os na areia!
+
+No emtanto, tinha a curiosidade excitada. _Alguem_ tinha entrado
+mysteriosamente, com uma chave falsa de certo, porque só o conde e eu
+tinhamos a chave d'aquella porta do jardim. Mas onde estava esse _alguem_?
+ Teria entrado, e saído logo? N'esse caso não era uma entrevista d'amor!
+Mas se não era um segredo de coração, para que era o mysterio, a hora
+escura, o silencio, a chave falsa?
+
+_Alguem_ teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbusto por
+arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto.
+
+Deitei-me preoccupado com aquella aventura. No outro dia, ao almoço, um
+criado em voz alta declarou que se tinha achado no jardim um pequeno
+punhal e que o hospede a quem elle pertencesse o reclamasse em baixo, no
+_office_. Era um punhal, de fórma curva como se usa no Hindustão. Tinha
+sido encontrado n'uma moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido,
+mas voluntariamente arremessado. Ninguem reclamou o punhal.
+
+Tudo isto me causava uma singular curiosidade.
+
+--Diabo! dizia eu commigo, estamos em terra italiana, apesar da policia
+ingleza, e é provavel que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda
+por ahi haja alguma _agua tufana_. Sejamos prudentes.
+
+Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado á minha secretaria, escrevia
+para Portugal, quando senti no corredor passos rapidos, e a porta abriu-se
+violentamente.
+
+Abafei um grito de terror. De pé, á entrada do quarto, livida, com os
+cabellos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a
+condessa.
+
+--Que foi? bradei.
+
+Ella tinha caido n'um sophá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os
+dentes trémulos.
+
+Eu borrifava-a d'agua, tomava-lhe as mãos, fallava-lhe baixo, e
+perguntava-lhe, aterrado, dando-lhe os nomes mais doces para a serenar:
+
+--Que foi, minha querida, que foi?
+
+Via-lhe os vestidos cheios de sangue.
+
+--Feriram-n'a?
+
+Ella fez um gesto negativo.
+
+--Então? então? disse eu.
+
+A pobre senhora queria fallar, erguia-se, suffocava, anciava, parecia
+n'uma agonia.
+
+De repente atirou-se aos meus braços e desatou a chorar.
+
+--Fale, diga, insistia eu.
+
+--Mataram-n'o, disse ella.
+
+--Mataram quem?
+
+--Rytmel.
+
+--Como? Onde?
+
+--No jardim... Vá!
+
+
+XI
+
+
+Corri ao jardim. Os meus passos instinctivamente, apressaram-me para o
+lado da pequena porta verde aberta no muro.
+
+Estava aberta. Ao lado, junto de uma moita de baunilhas, estendido no
+chão, levemente apoiado no cotovello, vi Rytmel.
+
+--Então? gritei-lhe, abaixando-me anciosamente para elle.
+
+--Só ferido...
+
+--Como? onde?
+
+Não respondeu, os olhos cerraram-se e desfalleceu sobre a relva.
+
+Corri ao tanque, trouxe um lenço ensopado em agua, molhei-lhe as faces e
+as mãos: a ferida era na parte superior do peito, do lado direito, por
+baixo da clavicula. Vi que não era mortal.
+
+Eu estava n'uma extrema hesitação. Para onde levar aquelle homem?
+
+O mais racional era conduzil-o a um quarto do hotel; mas isso era dar ao
+facto uma publicidade ruidosa, fazel-o cair sob o dominio da policia,
+arrastar até á acção dos tribunaes inglezes o nome da condessa. Porque eu
+tinha comprehendido tudo. Sabia agora, bem, quem na vespera entrára
+rapidamente pela porta verde com uma chave falsa. Sabia bem a quem
+pertencia o punhal indio achado nas moitas de buxo. Comprehendia a
+commoção de Carmen, quando eu a surprehendera ali, no jardim, embuçada
+n'um _burnous_, esperando. E comprehendia desgraçadamente a que quarto se
+dirigiam os passos de Rytmel dentro do jardim de _Clarence-Hotel_.
+
+Era, pois, necessario encobrir aquella aventura. E Rytmel, apesar dos
+obscurecimentos do desmaio e da dôr, tinha-o pensado tambem, porque me
+disse com uma voz expirante:
+
+--Escondam-me em qualquer parte!
+
+Sahi logo á rua. Passava um daquelles carros ligeiros, d'um só cavallo,
+que percorrem, com extrema velocidade, e com immensa doçura, as ruas
+inclinadas de _La Valette_. O _vatturino_ era italiano. Fallei-lhe
+vagamente n'um duello, dei-lhe um punhado de _shellings_, ameacei-o com os
+_policemen_, e pul-o absolutamente ao serviço do meu segredo.
+
+Collocámos Rytmel no carro; com mantas fizemos-lhe uma especie de ninho,
+commodo e molle, e o cavallo trotou rapidamente, pela rua de S. Marcos,
+para casa de Rytmel. Ahi grande rumor entre os officiaes inglezes. Eu
+contei uma incoherente historia d'assalto ao florete, em que a minha arma
+subitamente se tinha desembolado. A historia era inacceitavel; mas era
+facil comprehender que havia por traz d'ella um segredo delicado, e isto
+era o bastante para a altiva reserva de _gentlemen_.
+
+Rytmel, aos primeiros curativos, serenou e adormeceu.
+
+Tudo tinha sido feito em silencio, desapercebidamente. Fui tranquilizar a
+condessa. Eram tres horas da noite. Havia temporal, e eu sentia quebrar o
+mar nas rochas da bahia. Tudo dormia em Clarence-Hotel.
+
+--Agora nós! disse eu. E dirigi-me ao quarto de Carmen.
+
+Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa,
+desmaiada. Ao principio não distingui ninguem e ouvi apenas soluçar. Emfim
+sobre um sophá, deitada, enroscada, sepultada, vi Carmen, com a cabeça
+escondida, o penteado solto, coberta de sangue e abraçada a um crucifixo.
+Ao pé, sobre uma mesa, havia uma garrafa de _cognac_ e um pequeno frasco
+azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Carmen levantou-se
+um pouco no sophá. N'aquelle momento a sua belleza era prodigiosa.
+
+Tinha os cabellos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador,
+aberto sobre o peito, deixava vêr a belleza maravilhosa do seio.
+
+Confesso que não foi a idéa da vingança e do castigo que me tomou o
+espirito diante d'aquella mulher tão terrivelmente possuida da paixão.
+Lembraram-me as figuras tragicas da arte, lady Macbeth e Clithemnestre, e
+tanta belleza, tanto esplendor, fizeram-me subir ao cerebro um vapor de
+amores pagãos.
+
+Ella tinha-se erguido e, com uma voz secca:
+
+--Que quer?
+
+Eu fiquei calado.
+
+--Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está ahi a policia, não?
+Estou prompta. É pôr um chale.
+
+--Ninguem o sabe, disse-lhe eu baixo, e, sem saber por quê, commovido.
+
+--Que me importa? Não o occulto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! pois quê?
+nós outras damos a nossa vida, a nossa alma, entregamos todo o nosso ser,
+pomos n'isto toda a nossa existencia, a nossa honra, a nossa salvação na
+outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabellos mais loiros ou a
+cinta mais fina, adeus tu, para sempre! olá creatura! despreso-te, tu
+foste para mim o momento, o capricho, a _futilidade_. Ah! sim? Então que
+morra. Que quer mais? Vá buscar os _policemen_.
+
+Eu disse-lhe então, em voz baixa:
+
+--Fui encontral-o banhado em sangue.
+
+Ella olhou-me desvairadamente um momento, e de repente, arremessando-se
+sobre o sophá, abraçou-se ao crucifixo e com grandes lagrimas, com um
+delirio de soluços:
+
+--Ah, meu Deus, perdoae-me! Perdoae-me, Jesus! Perdoae-me! Fui eu que o
+matei! Estou doida de certo. Pobre Rytmel! Rytmel da minha alma! Não o
+torno a vêr, não lhe torno a fallar! Acabou-se para sempre!... Jesus, o
+que eu sinto na cabeça!... Em Calcuttá adorou-me, aquelle homem. Ajoelhava
+aos meus pés, eu queria morrer por elle. Diga-me,escute: enterraram-n'o?
+Está muito ferido? Eu não o feri no rosto? não, isso não! Vá depressa. Vá
+buscar a _policia_!... Mas porque me não prendem? Ah meu pobre Rytmel! eu
+morro, eu morro, eu morro! D'aqui a pouco começam a tocar os sinos!..
+
+Ergueu-se com gestos de louca, foi ao espelho, compoz o cabello com ar
+desvairado, e de repente voltou a abraçar, apaixonadamente, o crucifixo
+negro.
+
+--Escute, disse-lhe eu. Rytmel não morreu.
+
+--Não morreu? gritou ella.
+
+De repente, arrojou-se aos meus braços que a ampararam, tomou-me a cabeça
+entre as mãos, e fitando-me com uma grande angustia:
+
+--Dize-me: não morreu? Está salvo?
+
+--Está, disse eu.
+
+--Juras?
+
+--Juro.
+
+--Quero vêl-o, quero vêl-o já! gritou ella. O meu chale, o meu chale!
+Procure-me ahi o meu chale. Aposto que não lhe fizeram bem o curativo...
+Positivamente não lh'o fizeram! Se não lhe acudo! Que diz elle? Chora?
+Pobresinho! Adormeceu? Onde é a ferida? Maldita seja eu! maldita seja eu!
+
+Com uma exaltação delirante procurava abrir as gavetas, derrubava os
+moveis, arremessava as roupas, fallando, gesticulando, e ás vezes
+cantando.
+
+--Meu Deus, faz-se tarde! Que ando eu a procurar? Que horas são? Elle
+falou no meu nome?
+
+Veio tomar-me o braço:
+
+--Vamos.
+
+--Onde?
+
+--Vêl-o. Quero vêl-o. Quero! não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão,
+amal-o, servil-o, ser a sua criada, a sua enfermeira...
+
+Parou, e desprendendo-se do meu braço:
+
+--E a outra? Não a quero vêr lá! Ella está lá? Não quero que ella o trate.
+Mato-a, se a vejo. A outra, não, não, não! Não a deixe chegar ao pé
+d'elle. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto.
+
+Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande suspiro, e caiu no
+chão immovel.
+
+Levantei-a, deitei-a no sophá, borrifei-a d'agua; e ella com uma voz
+expirante:
+
+--Eu morro! eu morro... chame um padre. Não lhe tinha dito...
+Envenenei-me.
+
+--Envenenou-se? gritei aterrado.
+
+--N'aquelle frasco, alli!
+
+
+XII
+
+
+O medico, apressadamente chammado, declarou que não havia perigo. Carmen
+tinha tomado o veneno n'um preparado fraco, e n'uma porção diminuta. Podia
+porém receiar-se que a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação
+dos seus espiritos, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do
+dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se
+fazia sentir pelos _ais_ soluçados que se lhe desprendiam do peito.
+
+Fui então vêr a condessa. Não se tinha deitado. Ficára embrulhada n'um
+chale, sentada aos pés da cama, n'uma attitude absorta de dôr e de inercia
+que me encheu de piedade. Era dia. Mas as janellas conservavam-se
+fechadas, e as luzes ardiam melancolicamente. As jarras estavam cheias de
+flôres.
+
+Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul,
+para duas pessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flôres murchavam.
+
+--Então? disse ella quando me viu.
+
+--Então! elle está curado, e bom n'um mez. A condessa deve partir dentro
+de quinze dias.
+
+--Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instante que seja! Não
+me póde impedir isto: não m'o impeça, não?
+
+--De modo algum, prima. Eu mesmo lh'o facilito.
+
+--E ella?
+
+--Ella, minha prima? Entrei no quarto d'ella para a arrastar ao primeiro
+_policeman_ que passasse. Sahi jurando que em toda a parte aquella mulher
+me havia de achar a seu lado para a defender e, se ella o quizesse, para a
+amar.
+
+--Tem talvez rasão. É uma verdadeira mulher.
+
+--É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou
+n'este mundo n'um aspecto divino foi n'aquella mulher. É a deusa da
+paixão. De resto tem a grande qualidade:--a logica.
+
+Eu, na realidade, tomara por Carmen uma grande admiração! Eu, que na sua
+saude e na sua belleza nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora
+nas suas horas de dôr e doença, o seu fiel _cavalliere serviente_. Vi-a
+convalescer sob os meus cuidados: D. Nicazio tinha ido para Sicilia.
+Sustentei os primeiros passos que ella deu no seu quarto, extremamente
+magra, com o olhar quebrado, uma transparencia morbida na physionomia, e a
+imaginação doente.
+
+Começou logo a entregar-se a longas orações, a leituras piedosas. O seu
+intento era entrar n'um convento em Hespanha, e ali, matar o seu corpo na
+penitencia e na dôr. Passava agora os dias nas egrejas. Estava mudada nos
+seus habitos e nas suas maneiras. A sua belleza mesmo tomava uma expressão
+ascetica. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Ás vezes olhava-me,
+e dizia de repente, lembrando o convento:
+
+--É triste! Aos vinte e oito annos!
+
+Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças,
+idéas de uma redempção pela oração, pelo jejum, pelo silencio e pela
+contemplação. N'aquelle espirito visitado por todas as paixões, e sempre
+n'uma vibração exaltada, entrava por seu turno o sombrio catholicismo
+hispanhol, e vendo o logar deserto das outras idéas do mundo, acampava lá
+serenamente.
+
+Um dia pediu-me para ir vêr Rytmel antes de partir para Hispanha.
+
+--É como irmã da caridade que o quero vêr!
+
+Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal alumiado pela
+desmaiada luz de velas de stearina. A pallidez de Rytmel era dolorosa
+sobre a brancura do seu travesseiro. Carmen entrou, arremessou-se de
+joelhos ao pé da cama d'elle, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando
+longo tempo. Rytmel chorava tambem.
+
+Eu tinha-me encostado á parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda
+e insondavel como a noite. Um visinho, cuja janella abria para o estreito
+pateo, para onde dava tambem uma janella de Rytmel, tocava n'esse momento
+na sua rebeca, com uma melancholia plangente, a walsa do _Baile de
+mascaras_, que, sendo doce e tenebrosa, desperta não sei que idéas de
+festa e de morte, de amor e de claustro.
+
+Rytmel queria levantar Carmen, fallar-lhe. Mas ella estava prostrada, com
+o rosto escondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia:
+
+--Perdôe-me, perdôe-me!
+
+Rytmel por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, tomou-a nos braços,
+disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um
+encanto infinito beijou-a nos olhos.
+
+A pobre creatura córou, eu senti renascerem-se as lagrimas. Querido e
+pobre Rytmel! como elle teve n'aquelle momento a ternura ideal, e o divino
+encanto do perdão!
+
+Ella com uma simplicidade, em que já se sentia a immensa força interior
+que lhe dava a fé, fallou a Rytmel de Deus, do convento em que queria
+entrar, da ordem que preferia, com palavras naturaes e tocantes, que nos
+enchiam de magoa. Por fim beijou a mão do seu amante.
+
+--Adeus, disse ella. Para sempre! Resarei por si.
+
+E ia sahir, de vagar, succumbida, quando de repente, á porta do quarto,
+parou, voltou-se, olhou-o longamente; os olhos encheram-se-lhe de uma luz
+sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empallideceu, e
+com os braços abertos, os labios cheios de beijos, n'um impeto da sua
+antiga natureza, correu para se atirar aos braços d'elle com o phrenesi
+das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, cahiu de joelhos,
+e n'um grande silencio e n'um grande recolhimento beijou-lhe castamente os
+dedos! Depois tomou-me o braço, e sahimos.
+
+Ao outro dia chamou as criadas e repartiu por ellas todos os seus
+vestidos, rendas e _toilettes_. Deu as suas joias a um padre inglez para
+as distribuir pelos pobres. Frascos, bijouterias, essencias, tudo
+destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia resando na egreja de S. João e
+preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam.
+
+Á noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta
+do quarto e entregou-me o seu testamento, para eu o deixar depositado em
+Malta, de sorte que D. Nicazio o recebesse á sua volta da Sicilia.
+Deixava-lhe tudo.
+
+Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabeça e o seu
+immenso cabello caíu, quasi até ao chão, em grossos anneis, esplendido,
+forte, immenso, e d'uma poesia sensual.
+
+Tomou uma thesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquellas
+tranças admiraveis, que teriam sido uma gloria publica no tempo da Grecia.
+
+Eu estava absorto pela belleza, magoado com o desastre. Parecia-me já
+aquillo o começo do claustro.
+
+Carmen apanhou o cabello caído, embrulhou-o n'um lenço, e, entregando-m'o,
+disse:
+
+--Guarde essa lembrança. É a verdadeira Carmen, a outra que eu lhe deixo
+ahi. Agora peço-lhe uma derradeira cousa. Prepare tudo e leve-me a Cadiz.
+Ámanhã... é possivel?
+
+--Ámanhã não; mas dentro d'uma semana, juro-lh'o, teremos visto do mar as
+montanhas de Valencia.
+
+Ella no entanto passava rapidamente as mãos pelos cabellos, dando-lhes uma
+feição masculina. Era encantadora assim. A sua belleza tomava uma
+expressão ingenua de um extraordinario mimo. Ella sorria ao espelho, eu
+olhava-a, e via, entre as duas luzes, a sua imagem, como n'um leve vapor
+azulado e luminoso. Ella, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e
+compunha o geito do cabello. Eu por traz d'ella sorria. Ella, no enlevo do
+espelho, na surpreza de se achar linda com o cabello cortado, sorria
+tambem. Parecia-me ver-lhe as faces tomarem a côr da vida e o seio a
+ondulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma cousa doce, chamal-a ao
+mundo... De repente arremessou o pente, e curvando a cabeça, foi
+silenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu
+leito, e sobre a qual agonisava um Christo com a cabeça pendente, a testa
+gottejante, os braços distendidos, o peito constellado de chagas!
+
+
+XIII
+
+
+D'ahi a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da India a
+Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rize ficava, e o Chiado
+esperava-o! De mais, o estar só com a condessa embaraçava-o: as
+melancholias d'ella, as suas lagrimas inexplicaveis, a sua pallidez
+apaixonada, toda a incoherencia do seu caracter, que aquelle excelente
+libertino explicava pelo _nervoso_ e pelo histerismo, davam-lhe uma certa
+fadiga enfastiada, e, como elle dizia, embirrava com romantismos. A
+condessa, essa, partia resignada: Rytmel depois da sua convalescença iria
+para a Italia, para aquecer as forças ao sol de Napoles, e mais tarde em
+Paris, e depois em Lisboa, teriam alguns mezes livres, para, como diziam
+os antigos poetas, os tecerem d'ouro, seda e beijos.
+
+Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cumprir um dever
+melancholico: acompanhar a Cadiz aquella infeliz Carmen, ainda ha pouco de
+uma belleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitencias.
+
+Lord Grenley, que ia para Cadiz dentro de quatro dias, tinha-nos
+offerecido, a Carmen e a mim, o seu _yacht_. Aceitei com alegria. Era um
+transporte commodo e livre, e lord Grenley uma companhia symphatica,
+porque me assustava a idéa de ver durante uma longa viagem no mar, a
+debilidade de Carmen estiolar-se ao meu lado. Emfim uma tarde partimos.
+
+Era ao escurecer, o ceu estava nublado, quasi chuvoso. Carmen ia
+profundamente doente. Magra, transparente, livida, sem poder suster-se,
+sem dormir, alimentando-se quasi só de chá, a sua vida parecia estar a
+todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus
+livros de orações. Aquella exaltação a que faltava a terra procurava
+febrilmente todos os caminhos do ceu.
+
+Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas brumas da noite.
+Nunca mais tornaria a ver aquella branca cidade. Não fôra ali feliz. Mas
+amamos todos aquelles logares em que por qualquer sentimento ou por
+qualquer idéa a nossa natureza palpitou fortemente. E ali tinham ficado
+lagrimas minhas.
+
+Logo no primeiro dia de viagem, Carmen esteve expirante. Havia um forte
+balanço. O mar era grosso, e nós receavamos mau tempo quando nos
+avisinhassemos das correntes do golpho de Lião.
+
+Carmen quasi sempre queria estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar.
+Arranjava-se-lhe uma cama, e ali ficava, olhando, scismando, soffrendo, e
+conversando com o capellão de lord Grenley, velho cheio d'uncção, que
+tinha um encanto singular fallando das cousas do ceu. Aquella scena era
+profundamente triste, sobretudo de tarde; o sol cahia, a immensa sombra
+começava a cobrir o mar: Carmen fallava baixo: nós, em redor,
+escutavamol-a, ou, calados, seguiamos o correr da maresia, olhavamos o fim
+da luz. Um marinheiro escossez vinha ás vezes cantar as arias das suas
+montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago.
+
+Ao terceiro dia de viagem, Carmen, subitamente, teve um grande accesso de
+febre e quiz confessar-se. O medico disse-nos que ella não chegaria a ver
+as montanhas da Hispanha. Que horas dolorosas! Não imagina, senhor
+redactor, que intensidade têem, na vasta extensão das aguas, as dôres
+humanas! Junta-se-lhes o sentimento da immensidade, e não sei que terrivel
+instincto do irreparavel.
+
+A confissão de Carmen foi longa. Quando terminou quiz fallar-me.
+
+--Adeus! disse-me ella, vou morrer.
+
+Disse-lhe que não, quiz dar-lhe esperanças ephemeras.
+
+--Não, não, respondeu ella, nada de enganos. Tenho coragem. Quem a não tem
+para ser feliz? Chame lord Grenley.
+
+Começou então diante de nós a fallar da sua vida. Disse-nos qual fôra a
+sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigencia das suas paixões, e
+fallou-nos da sua ligação com Rytmel, com elevação, como de um sentimento
+quasi legitimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdem. As ultimas
+palavras da sua vida eram dignas. Depois tirou um rozario do seio.
+
+--Veiu de Jerusalem, disse-me, dê-lh'o a _ella_.
+
+Eu tinha os olhos humedecidos, Carmen, entretanto, empallidecia
+terrivelmente.
+
+--Levem-me para cima, quero vêr o mar, quero vêr a luz.
+
+Era uma manhã nebulosa e triste. O mar estava mais sereno. Collocámos
+Carmen cuidadosamente sobre almofadas e mantas, voltada para Malta. Lá
+tinha ficado a sua vida. Esteve muito tempo calada, com as mãos cruzadas.
+
+--Que terra é aquella? perguntou mostrando com a mão tremula, uma linha
+escura no horisonte.
+
+--A Africa, respondeu lord Grenley.
+
+Ella ficou olhando vagamente:
+
+--Fui uma vez a Tanger, disse com uma voz lenta, era nova então! Era
+feliz! Estava um dia lindo... Era em maio...
+
+Calou-se. E voltando-se para mim:
+
+--Faz agora mezes que passámos n'esta altura, lembra-se? E aquelle _punch_
+a bordo do _Ceylão_? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então... O
+que é ser alegre! Tudo acabou, nunca mais! nunca mais!
+
+E como fallando comsigo mesma:
+
+--Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio
+d'este mar. Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse
+encontrado, a elle... Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos
+simples sempre. As loucuras vieram depois... O marinheiro que canta as
+arias escocezas, onde está? Chamem-n'o. Não, não o chamem que me vae fazer
+chorar.
+
+Nós escutavamol-a; a sua alma fallava como um passaro canta ao morrer. As
+nuvens desfaziam-se, o azul aclarava, ia apparecer o sol.
+
+--Vejam isto, continuou ella. Em nova diziam-me _és bonita, amo-te!_ E
+agora que morro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde
+estão? Uns mortos, todos esquecidos. Estão agora alegres, amam outras, vão
+para os theatros. E eu estou aqui a morrer. E _elle_? lembrar-se-ha de
+mim? Tambem não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, que não está
+aqui, que morro e que elle se não lembra de mim!
+
+E soluçava, com a cabeça escondida no travesseiro.
+
+--Rytmel é uma alma nobre. Estima-a, creia...
+
+--Mas esquece-me! dizia ella suspirando e limpando os olhos. De resto, de
+mim ninguem se lembra. Eu não sou uma mulher de quem se seja enfermeiro.
+«Estás boa? estás alegre? amo-te». «Estás a morrer? Vae-te fazer enterrar
+para outro sitio!» É bem triste este mundo!
+
+Lord Grenley, com os olhos rasos d'agua, mordia convulsamente o seu
+cachimbo.
+
+--Guarde bem os meus cabellos, sim? dizia-me ella. Diziam que eram
+bonitos. Se eu por acaso não morresse, haviamos de ir todos a Sevilha. Que
+lindo que é Sevilha. Á tarde, nas _Delicias_, todo o mundo traz um ramo de
+flores.
+
+De repente abriu demasiadamente os olhos como deante d'uma cousa pavorosa;
+levou as mãos á face, gritou:
+
+--Meu padre, meu padre, tenho medo. Não é já o castigo, não? Se cáio no
+inferno, meu Deus!
+
+--O inferno é uma visão, minha pobre senhora! dizia o capellão. Os
+castigos de Deus não são feitos com o fogo.
+
+--Tem razão, tem razão. Sinto-me morrer, venham todos. Lembrem-se de mim,
+sim?
+
+Alguns marinheiros tinham-se approximado. O capellão ajoelhou: todos
+tiraram os barretes, resavam baixo. Lord Grenley ficara de pé, descoberto,
+immovel. Grossas nuvens escuras corriam outra vez no ceu. O vento começava
+a assobiar.
+
+--Adeus, disse-me ella. Dê-me a sua mão. Bem. Fui uma boa rapariga, por
+fim... Um pouco estroina, talvez... Lord Grenley, obrigada. Que tristeza,
+ter morrido alguem no seu _yacht_!... Que é aquillo, além, ao longe? É a
+terra? São nuvens. Ah! meu querido Rytmel! ah! meu amor, ouve-me, onde
+estás tu?
+
+Duas grandes, tristes lagrimas, correram-lhe na face: teve ainda força
+para as enchugar. Depois sorrindo:
+
+--Olhem, não pensem em mim com tristeza. Sómente ás vezes, quando
+estiverem juntos, e elle estiver tambem, lembrem-se d'esta pobre rapariga
+que para aqui morreu no mar... E digam: pobre Carmen! ahi está uma que
+sabia amar devéras!
+
+E dizendo isto, estremeceu, fallou desvairadamente em Malta, em Sevilha,
+em Rytmel, e, dando um gemido profundo, morreu.
+
+O sino de bordo começou a tocar lentamente, Lord Grenley curvou-se,
+beijou-lhe a testa, e cerrou-lhe os olhos. Eu chorava.
+
+Então um velho marinheiro approximou-se, e sobre aquelle corpo, que fôra
+Carmen, estendeu a bandeira ingleza.
+
+
+XIV
+
+
+Imagine, senhor redactor, em que lamentavel estado de espirito nós
+ficámos. Lord Grenley encerrou-se no seu camarote, eu e o capellão ficámos
+velando junto do cadaver. A tarde descia. Uma nevoa extensa cobria o mar.
+O rugido do vento era lugubre. Todos estavam profundamente apiedados. A
+velhos marinheiros, que tinham naufragado no mar da India e dobrado o
+Cabo, eu vi saltarem as lagrimas...
+
+--Pobre creança! diziam elles.
+
+Para aquellas rudes naturezas simples, essa mulher nova, vestida de
+branco, pallidamente linda, era a _miss_, a virgem, a creança! Um
+arranjou-lhe uma corôa d'algas seccas, e foi piedosamente pôr-lh'a sobre o
+peito. Era o ramo de flôres do mar.
+
+Eu pensei algum tempo em conduzir o corpo de Carmen até Hispanha, mas o
+piloto observou-me que teriamos ainda 4 ou 5 dias de viagem, e o corpo não
+podia esperar na sua pureza durante esta longa demora. Por isso resolvemos
+deital-o ao mar, quando viesse a noite. Assim, ficámos o capellão e eu,
+durante a tarde, junto do cadaver, lembrando as suas bellezas e as suas
+desgraças.
+
+A noite caiu; cobriu as aguas. O capellão desceu. Fiquei só. Havia sobre o
+cadaver, pendente d'uma corda, uma lampada. Descobri-lhe o rosto,
+afaguei-lhe os cabellos. A sua belleza tinha-se fixado n'uma immobilidade
+angelica, como se a morte lhe tivesse restituido a virgindade. A curva
+adoravel do seu seio apparecia em relevo na bandeira que a cobria: nunca
+tanta força tinha produzido tanta graça! Olhei-a durante muito tempo,
+enlevado na sua contemplação. As lagrimas cahiam-lhe dos olhos.
+
+--Pobre creatura! dizia eu na solidão dos meus pensamentos, pobre
+creatura! vaes para a mais profunda das covas, para a sepultura errante
+das aguas. Uma febre d'amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te
+agitará na morte! Condiz o tumulo com a existencia! Como o mar tu foste
+bella, orgulhosa e ruidosa. Como o mar tu tiveste as tuas tormentas, as
+tuas calmarias occultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua
+elevação religiosa, a tua espuma immunda. Como sobre o mar, sobre o teu
+cerebro correram as doces idéas geniaes e puras como vélas de pescadores:
+as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes;
+as brutaes exigencias do temperamento, estupidas e victoriosas como
+_monitores_ armados. Despedaçaste-te de encontro á fria reserva d'um amor
+que se extingue, como elle se esmigalha contra a escura insensibilidade
+das rochas. Como elle tem o vento que é o seu tyranno, tu tiveste a
+paixão. Vae, pobrezinha, repousar em paz, no fundo das algas verde-negras!
+Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, córou,
+quiz, venceu? Quantas lagrimas causaste! Quantas loucas palpitações!
+Quantos desejos para ti voaram como bandos de pombas! Quantas vozes
+perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste
+succumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro
+vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duas balas aos pés e atira com
+elle ao mar! E aqui jaz o ruido do vento, e aqui jaz a espuma da onda!
+
+De que te serviu o ser, o que fizeste ao sangue, á vontade, aos nervos, ao
+pensamento, que trouxeste do seio da materia? Que idéa deixaste, que
+memoria, que piedade? Que foste tu mais do que um corpo bello, desejado e
+photographado? Fizeste parte, durante a vida, d'aquellas insensiveis
+bellezas naturaes, que o homem usa e arremessa. Foste como uma camelia, ou
+como a penna d'um pavão. Foste um adorno, não foste um caracter. Nunca
+tiveste um logar definido na vida, como não terás um tumulo certo na
+morte! Adeus pois para sempre, oh doce ephemera! o teu destino é a
+dispersão!
+
+Por isso aqui estás só! Os que te amaram onde estão? onde estão os que tu
+amaste? Aqui estás só, vestida com o teu penteador branco, na tua manta de
+xadrez, sobre o convez d'um navio, só, sempre no meio de homens, como na
+vida! Não ha uma flôr aqui que se te deite em cima, nem uma renda em que
+se te envolva a face morta. Morres entre cordagens, no meio de rudes
+marinheiros, que veem agora da sua ração d'aguardente. Nem um padre
+catholico tens que te falle dos anjos, doces camaradas da tua mocidade.
+Nem um parente, sequer, te comporá a dobra do teu lençol! Não se cantará
+nenhum responso em volta do teu caixão. Não farás scismar as noivas que te
+vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te
+arremessarão ao mar!
+
+Pois bem, minha pobre amiga! que importa? Estás na logica do teu destino,
+que é a revolta. Viveste longe das estreitas conveniencias humanas, morres
+em plena liberdade da natureza.
+
+Não verás o teu leito cercado de parentes avidos, de criados
+indifferentes, de padres que te dêem os santos oleos bocejando, n'um
+quarto escuro e abafado, entre o cheiro dos remedios: morres diante do
+ceu, aos emballos do mar, ao cheiro da maresia, entre velhos marinheiros
+da India, que te choram, sob o sublime ceu, na plena liberdade dos
+elementos!
+
+Não serás vestida com velhas sedas, não levarás na cabeça antigas corôas
+funebres, não te cobrirão com galões de ouro falso; irás com o teu
+penteador branco, como para uma alegria nupcial!
+
+Não te pregarão n'um caixão estreito, nem te apertarão como um fardo;
+terás o contacto das cousas vivas; as lagrimas do mar correrão sobre os
+teus cabellos; poderás toucar-te d'algas; os raios do sol poderão ir
+procurar-te como antigos amantes dos teus olhos, e a tampa do teu esquife
+será o infinito azul.
+
+Não sentirás em volta de ti no teu enterro cantos em mau latim, o som das
+campainhas, a voz aguda dos meninos do côro, os commentarios estupidos da
+multidão, as grosseiras enchadadas do coveiro. Serás lançada á tua cova do
+mar no meio de um silencio militar, levando por mortalha a bandeira
+ingleza, ao cantochão infinito dos ventos e das aguas.
+
+Não ficarás para sempre apertada em cinco palmos de terra, sentindo a bôca
+das raizes pastar o teu seio e a multidão dos vermes entrar no teu corpo
+como n'uma cidadella vencida. Não! a tua morte será uma perpetua viagem:
+viverás nas grutas transparentes de luz, guardarás os thesouros
+mysteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo do mar,
+amarás o corpo encantado d'algum louro principe, outr'ora pirata normando!
+Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma da agua!
+
+Sobre o teu tumulo não virão sentar-se os burguezes, benzer-se os
+sachristães, cacarejar as gallinhas; sobre a tua azul sepultura errará o
+vento, melancolico velho que visita os seus mortos.
+
+Não terás um epitaphio metrificado por um poeta elegiaco, e approvado pela
+camara municipal; serão os reflexos ineffaveis das estrellas que se
+encruzarão para formar sobre a tua sepultura as lettras do teu nome...
+
+Um marinheiro bateu-me no hombro.
+
+--São 11 horas, disse elle.
+
+Ergui-me em sobresalto, e pensando nas vãs chimeras que se tinham estado
+formando no meu cerebro n'aquelle triste scismar, disse commigo:
+
+--Pobre de mim! Tinham-me esquecido os tubarões.
+
+Eram 11 da noite. Não havia estrellas. Todos estavam reunidos na tolda.
+Tinham-se posto lanternas nas cordagens, e accendido archotes.
+
+Dois marinheiros tomaram o cadaver nos braços. O padre abençoou-o.
+Ligou-se-lhe ao corpo com uma corda a bandeira ingleza. Os grumetes
+trouxeram duas balas. Uma foi amarrada aos pés, outra ao pescoço. As
+botinhas d'ella, de seda preta, appareciam fóra da orla do vestido e da
+bandeira que a envolvia. As luzes dos archotes faziam tremer sobre o mar
+vagas claridades. No silencio sentia-se o estalar da rezina.
+
+O sino de bordo começou a tocar. Os marinheiros elevaram o corpo á altura
+proxima da amurada. Então ergueu-se um canto grave, melancolico, de uma
+infinita tristeza. O padre resava com as mãos impostas sobre o cadaver. E
+affastando-se, disse:
+
+--_In eternum sit!_
+
+Todos responderam:
+
+--_Amen!_
+
+O vento gemia. Lord Grenley adiantou-se e disse em voz alta:
+
+--N'este dia, a bordo do _Romantic_, navio inglez, morreu Carmen Puebla,
+de nação hispanhola, e para eterna protecção do seu corpo, como sendo
+sepultada em territorio britannico, foi amortalhada na bandeira ingleza.
+_In pace_.
+
+--_Amen!_ responderam os marinheiros.
+
+--Em nome do Padre, disse o capellão, do Filho e do Espirito, santa seja a
+sepultura a que ella é deitada, e que fique como em terra sagrada n'estas
+aguas do mar!
+
+--_Amen!_ murmuraram os marinheiros.
+
+--Ao mar! disse lord Grenley com voz forte.
+
+Os dois marinheiros suspenderam o cadaver sobre o mar; todos se
+approximaram, fazendo circulo com os archotes; o cadaver, arremessado,
+mergulhou com um som lugubre, desappareceu, e a espuma das vagas
+correu-lhe por cima.
+
+Os archotes foram apagados n'um triste silencio. O navio affastava-se. Eu,
+encostado á amurada, tinha os olhos fitos no ponto vago onde o corpo
+desapparecera. Ella alli ficava morta. Encheu-me o peito uma longa
+saudade. Lembrava-me d'ella, dançando no convez do _Ceylão_, rindo á mesa
+de _Clarence-Hotel_. Tudo tinha acabado. Nunca mais! nunca mais! Alli
+ficava com uma bala aos pés!
+
+O vento refrescou.
+
+--Vento d'Eeste! disse o marinheiro de quarto.
+
+--Vem de Malta... pensei eu.
+
+E as minhas ultimas lagrimas cairam sobre o mar...
+
+
+XV
+
+
+Cheguei ao fim das minhas confidencias.
+
+Quando desembarquei em Lisboa a condessa tinha ido para Cintra. Vi-a, ao
+fim d'esse verão, em Cascaes. Ella mostrava-se alegre, o que era talvez
+uma maneira de estar triste! Cascaes estava imbecilmente jovial: _batia-se
+o fado!_ No inverno seguinte a condessa encontrou-se, em Paris e em
+Londres, com Rytmel. Voltou d'essa viagem mais triste e mais pallida.
+Lentamente, pareceu-me que a confiança do seu coração se affastava de mim.
+Apartei-me, n'uma reserva discreta. Nunca mais nos nossos dialogos, todos
+exteriores e ephemeros, se alludiu á viagem de Malta.
+
+Eu, no entanto, continuava recebendo de Rytmel as cartas mais expansivas e
+mais intimas. A nossa amisade, que a exaltação e o acaso das paixões
+formara, affirmava-se agora n'uma communhão serena de sentimentos e de
+idéas. N'uma d'essas cartas Rytinel fallava-me de miss Shorn, uma rapariga
+irlandeza...
+
+«É uma neta dos bardos, uma sombra ossianica, a alma da verde Erin!»
+dizia-me elle.
+
+No começo d'esta primavera recebi uma carta de Rytmel que continha estas
+palavras:
+
+«Parto para ahi: um quarto livre e solitario em tua casa; bons charutos;
+uma casa affastada e livre n'um bairro pobre; um _coupé_ escuro com bons
+_stores_; reserva e amisade.--_Frater, Rytmel_.»
+
+Executei escrupulosamente as suas determinações.
+
+Ha sessenta dias, talvez, Rytmel chegou, no paquete de Southampton.
+Pareceu-me mais triste, mais concentrado.
+
+Havia certamente um segredo, uma preoccupação, um cuidado qualquer, que
+habitava no seu peito. Esperei que elle se abrisse expansivamente commigo
+n'alguma das longas horas intimas, em que, no jardim de minha casa,
+fallavamos na essencia dos sentimentos. Nunca dos labios d'elle saiu uma
+confidencia: apenas duas ou tres vezes o nome de miss Shorn, que segundo
+elle me disse, era uma relação recente de sua irmã, appareceu vagamente no
+indefinido da conversação.
+
+A sua vida em minha casa, era de um extremo recolhimento.
+
+Parecia mais um refugiado politico do que um amante amado. Não tinha
+relações nem convivencias. Ás vezes de manhã saía n'um _coupé_
+cuidadosamente fechado, que perpetuamente estacionava á porta.
+
+De tarde, ás oito horas, saía tambem, e só o via no outro dia ao almoço,
+em que elle apparecia sempre levemente contrariado pelas cartas que lhe
+vinham de Londres e de Paris. Notei por esse tempo umas certas tendencias
+mysticas no seu espirito, de ordinario tão positivo e tão rectilineo.
+Surprehendi-o mesmo uma vez lendo a _Imitação_.
+
+N'um caracter logico e frio como o de Rytmel, aquelle estado de espirito
+era de certo o symptoma de uma grave perturbação do coração.
+
+Fallava ás vezes em Carmen, sempre com saudade. Gostava de conversar das
+cousas de religião e das legendas do ceu. Fallava na _Trapa_, no socego
+immortal dos claustros, e nas chimeras da vida. Eu extranhava-o.
+
+Desde que elle viera para Lisboa eu não voltara a casa da condessa, por um
+certo sentimento altivo de reserva e de orgulho. N'esse tempo estava ella
+absolutamente livre. O conde achava-se em Bruxellas, onde Mademoiselle
+Rise o tinha captivo dos nervosos e ageis bicos dos seus pés, que então
+escreviam pequeninos poemas no tablado do _Theâtre du Prince Royal_.
+
+Um dia, inesperadamente, recebi da condessa um bilhete que dizia:
+
+«Meu primo: Se um gelado tomado n'um terraço com uma velha amiga não
+sobreexcita excessivamente os seus nervos, espero-o esta tarde em... (era
+uma quinta ao pé de Lisboa que ella habitava algumas vezes no verão).
+Traga o seu amigo Rytmel.»
+
+Mostrei o bilhete a Rytmel, e pelas seis horas da tarde rodavamos na
+estrada de... n'um _coupé_ com os _stores_ corridos.
+
+A condessa tinha acabado de jantar. Passeámos nas sombrias ruas da quinta,
+apanhámos flôres, e voltaram aquellas boas horas intimas d'outr'ora,
+cheias de abandono e de espirito. A condessa estava radiante.
+
+Ás onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admiravel
+luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da
+agua, de largas folhas, e de nenufares, e onde poderia navegar um escaler.
+A agua escorre alli com um murmurio doce. A hora era adoravel. As redondas
+massas de verdura do jardim, os arvoredos, appareciam como grandes sombras
+pesadas e cheias de mysterio. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se
+n'um vapor docemente luminoso e pallido. Havia um silencio suspenso. As
+cousas pareciam contemplar e sonhar.
+
+Sobre uma mesa no terraço estava um bule do Japão e tres pequeninas
+chavenas de Sévres, uma das quaes, de um gosto original e feliz, era a da
+condessa. Tinhamos tomado chá, e eu notava a excentrica fórma, o delicado
+desenho, a pura perfeição d'aquella maravilhosa e pequena chavena, que a
+condessa chamava a _sua taça_.
+
+--O rei Arthur só podia beber pelo seu copo de estanho... disse Rytmel,
+sorrindo.
+
+--E eu só posso tomar chá por esta taça, disse a condessa. Não sei porque,
+representa para mim o socego, a felicidade. Quando estou triste e bebo por
+ella parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flôr que eu queira conservar
+ponho-a dentro d'essa chavena, e a flôr não murcha. Demais o chá bebido
+por ella tem um gosto especial: ora veja, captain Rytmel! beba!
+
+Toda aquella glorificação da chavena tinha tido por fim o poder Rytmel, na
+minha presença, sem isso ser menos discreto, beber pela chavena da
+condessa,--encanto supersticioso e romantico, que pertence de grande
+antiguidade á tradição do amor!
+
+Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina chavena dourada. Eu
+no entanto olhava a condessa.
+
+Estava originalmente linda. Tinha o vestido levemente decotado sobre o
+seio. E o luar dava-lhe aquelle limbo poetico que todas as claridades
+mysteriosas, ou venham de astros mortos ou de luzes desmaiadas, dão ás
+figuras louras.
+
+Havia um piano no terraço; a condessa sentou-se, e sob os seus dedos o
+teclado de marfim, chorou um momento. O silencio, o infinito da luz, a
+attitude contemplativa das cousas, o murmuroso chorar da agua nas bacias
+de marmore, tudo nos tinha insensivelmente lançado n'um estado de suave e
+vago romantismo...
+
+De repente a condessa elevou a voz e cantou. Era a ballada do _Rei de
+Thule_.
+
+Alguem tinha traduzido aquella ballada em rimas populares. E era assim que
+a condessa gostava de a dizer, em logar d'usar as palavras italianas com a
+sua banalidade de _libretto_.
+
+ Houve outr'ora um rei de Thule
+ A quem, em doce legado,
+ Deixou a amante ao morrer
+ Um copo d'ouro lavrado.
+
+Eu ficara junto do piano, fumando. Rytmel, de pé, encostado á balaustrada,
+enlevado no penetrante encanto d'aquella canção, olhava a agua do tanque,
+onde tremia a claridade da lua, conservando a taça na mão.
+
+Os dedos da condessa volteavam no teclado de marfim; e a sua voz
+continuava, triste como a propria ballada:
+
+ Sempre o rei achava n'elle
+ Um sabor da antiga magoa,
+ E se por elle bebia
+ Tinha os olhos rasos d'agua.
+
+--Não cante mais, disse Rytmel de repente, voltando-se.
+
+Á luz da lua eu vi-lhe os olhos humidos como os do rei da canção, e na sua
+mão tremia a pequena chavena dourada.
+
+Ella voltou para Rytmel um longo olhar triste, e a sua voz proseguiu,
+vibrando mais saudosa no silencio:
+
+ N'alta esplanada normanda
+ Batida da fria onda
+ Reune os seus irmãos d'armas
+ A uma tavola-redonda...
+
+Parou com as mãos esquecidas sobre o teclado:
+
+--Foi talvez como n'uma noite d'estas, disse ella. Estamos em plena
+legenda. O terraço batido da agua, a lua, os velhos amigos reunidos, a
+lembrança da pobre amante, que se apaga na memoria d'elle, o presentimento
+da morte... Que linda noite para o rei atirar a sua taça ao mar!
+
+E cantou os derradeiros versos da ballada:
+
+ Foi-se com tremulos passos
+ Na amurada debruçar...
+ E com as suas mãos antigas
+ Atirou a taça ao mar!
+
+ Junto ao seu corpo real
+ Estão os pagens a velar
+ E a taça vae viajando
+ Por sobre as aguas do mar...
+
+De repente Rytmel deu um pequeno grito: descuido, movimento, ou
+irreprimivel impulso d'um coração que se revela, Rytmel deixara cahir a
+pequena chavena ao tanque, entre as folhas dos nenufares.
+
+A condessa ergueu-se, extremamente pallida, apertando com ambas as mãos o
+coração: e com os olhos marejados de lagrimas, disse para Rytmel:
+
+--O rei de Thule ao menos esperou que ella morresse!
+
+Elle desculpava-se banalmente, como se todo o mal fosse perder-se aquella
+fragil preciosidade de Sévres. A condessa deu-me o braço um pouco tremula,
+e penetrámos na sala.
+
+D'ahi a dias foi a catastrophe. Outros que a contem. Eu deponho aqui a
+minha penna, com a consciencia de que ella foi sempre tão digna, quanto a
+minha intenção foi sincera.
+
+
+
+
++AS REVELAÇÕES DE A. M. C.+
+
+
+I
+
+
+Senhor Redactor.--Dirigindo-lhe estas linhas, submetto-me á sentença de um
+tribunal de honra, constituido para julgar a questão levantada perante o
+publico pelas cartas do doutor *** estampadas n'essa folha. Obriguei-me a
+referir quanto se passou por mim como actor d'esse doloroso drama, e venho
+desempenhar-me d'este encargo. Possam estas confidencias, escriptas com o
+mais consciencioso escrupulo, conter a lição que existe sempre no fundo de
+uma verdade! A existencia intima de cada um de nós é uma parte integrante
+da grande historia do nosso tempo e da humanidade. Não ha coração que,
+desvendado nos seus actos, não offereça uma referenda ou uma contestação
+aos principios que regem o mundo moral. Quando o romance, que é hoje uma
+fórma scientifica apenas balbuciante, attingir o desenvolvimento que o
+espera como expressão da verdade, os Balzacs e os Dickens reconstituirão
+sobre uma só paixão um caracter completo e com elle toda a psychologia de
+uma época, assim como os Cuviers reconstituem ja hoje um animal
+desconhecido por meio d'um unico dos seus ossos.
+
+ * * * * *
+
+Sabem que sou natural de Vizeu. Criei-me n'uma aldeia encravada entre dois
+montes da Beira; açoitado de quando em quando por meu pae, quando lhe
+esgalhava alguma arvore mimosa do quinteiro; abençoado por minha mãe como
+a esperança dos seus velhos annos; coberto de prophecias de gloria, como o
+pequeno Marcello da freguezia, pelo reitor, o qual algumas vezes depois de
+lhe ajudar á missa, aos dez annos de idade, me argumentava na sachristia
+as declinações latinas. Era escutado este prodigio por um auditorio
+composto do sachristão e do thesoureiro, que com os chapeus debaixo do
+braço, coçavam na cabeça e olhavam para mim arregalados e attonitos. A um
+recanto, minha mãe sorria, com os olhos banhados de ternura, do fundo da
+caverna formada em redor do seu rosto pela côca de uma ampla e poderosa
+mantilha de panno preto.
+
+Fiz depois os estudos preparatorios no lyceu da cidade, e vim finalmente
+matricular-me em Lisboa na escola de medicina.
+
+Vivo pobre, humilde e obscuramente, tenho a minha existencia adstricta a
+uma pequena mezada, á convivencia de alguns companheiros de estudo e ao
+trato de duas senhoras velhas e pobres, irmãs de um capitão reformado,
+antigo aboletado de meu pae, em cuja casa de hospedes eu tenho por modico
+preço a minha moradia na capital.
+
+A unica luz que atravessava a sombra da minha vida de desterro, de
+desconsolo e de trabalho, era a lembrança de Therezinha...
+
+Therezinha! a doce, a meiga, a querida companheira, á qual eu consagro
+principalmente estas paginas, que são o capitulo unico da minha vida que
+ella não conhece, a confissão sincera, a historia completa do unico erro
+de que posso accusar-me perante a sua innocencia, a sua bondade, e o seu
+amor!
+
+Therezinha! adorada flôr escondida entre as estevas dos nossos montes, que
+ninguem conhece, que ninguem viu, de quem ninguem se occupa, e que no
+emtanto inundas ineffavelmente a minha mocidade e a minha vida com o
+sagrado perfume de um amor casto, puro, imperturbavel e calmo como a luz
+das estrellas.
+
+Se tu as entenderás, minha innocente amiga, estas palavras!
+
+Se me perdoarás, tu, a enfermidade passageira e mysteriosa, cuja historia
+eu ponho confiadamente nas tuas mãos, pedindo-te, não o balsamo da cura
+para uma chaga que está fechada para sempre, mas o sorriso da benevolencia
+e do perdão para a vaga e sobresaltada melancolia do convalescente
+ajoelhado aos teus pés!
+
+Como quer que tenha de ser, minha noiva, eu entendo cumprir perante a
+minha consciencia um dever sagrado contando-te, sem omissões e sem
+reticencias, tudo, absolutamente tudo, quanto se passou por mim. A verdade
+é que te amo! que te amo, e que te amarei! Outra imagem, incoercivel,
+vaporosa, vaga, perpassou por mim, mas esvaiu-se como a sombra de um sonho
+doentio, varada sempre pelo teu olhar candido que atravez d'ella se fixava
+e se embebia constantemente no meu.
+
+Uma noite, ha dois mezes, recolhendo-me por volta das nove horas a minha
+casa, que fica situada em um dos bairros excentricos de Lisboa, encontrei
+parada uma carruagem de praça, cujo cocheiro altercava grosseiramente com
+uma senhora, que estava em pé junto do trem, vestida de preto e coberta
+com um grande veu de renda. Esta senhora trocou algumas palavras com outra
+mais idosa que a acompanhava e disse ao cocheiro com uma voz singularmente
+fina, tremula, delicada, musical, como nenhuma até então ouvida por mim:
+
+--Onde quer que lhe mande pagar?... Não trago mais dinheiro.
+
+--Importa-me pouco isso, respondeu o cocheiro. Quem não tem dinheiro anda
+a pé. Já lhe disse á senhora quanto é que me deve pela tabella. Se não
+paga o resto, chamo um policia. Se não traz dinheiro, dê-me um penhor.
+
+Ella então bateu impacientemente com o pé no chão, ergueu a parte do veu
+que lhe cobria o rosto, e principiou a descalçar convulsamente uma luva.
+Suppuz que iria tirar um annel. O cocheiro apressou-se a passar as guias
+pela grade da almofada e apeou. Tinha-me no emtanto approximado, e no
+momento em que elle dava o primeiro passo, impellido por uma forte
+commoção nervosa, estendi-lhe com as costas da mão uma bofetada que o fez
+cambalear e cair de encontro á parelha. E dando-lhe em seguida uma libra,
+que trazia no bolso:
+
+--Ahi tem pela bofetada; contente-se com o que lhe deram pela corrida.
+
+Diria que alguem por traz de mim suggerira estas palavras romanticas, a
+tal ponto ainda hoje pasmo de as ter eu mesmo inventado como solução
+d'effeito oratorio, para similhante contingencia!
+
+O cocheiro levantou a moeda, examinou-a á luz da lanterna, subiu outra vez
+á almofada, e partiu dizendo-me:
+
+--Boa noite, meu amo!
+
+Eu, atarantado, confuso, tirei machinalmente o chapeu, e titubiei algumas
+palavras vagas, não sabendo como despedir-me da pessoa que tinha ao meu
+lado.
+
+Era a primeira vez que me achava perto de uma d'essas formosas senhoras da
+sociedade, tenra, fina, delicada, como nunca vi ninguem! Tinha uma
+carnação lactea e aveludada, como a petala de uma camelia,--prodigio de
+mimo só comparavel ao de uma outra mulher que não conheço, e que uma noite
+passou por mim no salão de S. Carlos, encostada no braço de um homem e
+envolta em uma grande capa branca de listas côr de rosa.
+
+Aquelles que as conhecem, que as vêem e lhes fallam todos os dias, é
+possivel que se não impressionem com o aspecto d'estas creaturas
+transcendentes. Para quem as encontra de perto pela primeira vez em sua
+vida não ha cousa no mundo que mais perturbe. Homens habituados a arrostar
+com as mais violentas commoções, a olharem denodadamente para o perigo,
+para a desgraça ou para a gloria, tremem diante d'esta simples coisa: o
+primeiro contacto de uma mulher elegante! D'ahi vem o velho prestigio
+magnetico das rainhas sobre os pagens, das castellãs sobre os menestreis.
+É uma sensação unica. O ser humano bestificado converte-se por momentos
+n'um vegetal que vê.
+
+Eu ficara immovel e mudo.
+
+Ella correu-me de cima a baixo com um olhar rapido, e dizendo-me
+_obrigada_ com uma commoção tremula, estendeu-me d'entre a nuvem negra das
+suas rendas a mão de que tinha descalçado a luva.
+
+Entreguei a minha grossa mão a essa mão delicada, magnetica, convulsa e
+fria, e senti percorrer-me todos os nervos um estremecimento electrico
+despedido do _shake-hands_ que ella me deu de um só movimento sacudido,
+fazendo tinir os elos de uma grossa cadeia que lhe servia de bracelete.
+
+Obrigado a dizer alguma coisa, soltei instinctivamente as palavras
+monstruosas de uma formula que se usa em Vizeu, mas que estou bem certo
+nunca até esse dia haviam sido ouvidas por tal creatura, e que certamente
+lhe produziram o effeito do grito stridulo de um animal selvagem, escutado
+pela primeira vez entre mattos desconhecidos.
+
+Vergonha eterna para mim! essas palavras, que eu desgraçadamente
+conservara no meu ouvido de provinciano e que a minha bocca deixou
+bestialmente cair, foram estas:
+
+--Para o que eu prestar estou sempre ás ordens.
+
+E dizendo isto, tendo-o ouvido com horror a mim mesmo, voltei rapidamente
+costas, e affastei-me a passos largos. Ia vexado, envergonhado, corrido,
+como se houvesse proferido uma obscenidade sacrilega. Dava-me vontade de
+me metter pelas paredes ou de me sumir pela terra dentro! Não me atrevia a
+olhar para traz, mas parecia-me que ia envolto em gargalhadas
+phantasticas, que não ouvia. Figurava-se-me que tudo se ria de mim, os
+candeeiros, os cães noctivagos, as pedras da rua, os numeros das portas,
+os letreiros das esquinas, os aguadeiros que passavam uivando com os seus
+barris, e os caixeiros que pesavam arroz sobre o balcão ao fundo das
+tendas.
+
+Entrei precipitadamente em casa, subi as escadas, fechei-me por dentro e
+puz-me a passear ás escuras no meu quarto.
+
+Nas trevas appareciam-me illuminadas por um clarão satanico essas duas
+mãos que pela primeira vez acabavam de se apertar na rua--a minha e a
+d'ella--uma trigueira, aspera e quente, a outra branca, nervosa e gelada.
+Depois entravam a reconstruir-se á minha vista os vultos completos das
+pessoas.
+
+Ella, de uma pallidez eburnea, com o perfil melancolico de uma madona a
+que tivessem levado dos braços o seu bambino, movendo-se mollemente entre
+rendas e setim com uma ondulação de sereia.
+
+Eu, inteiriçado e embasbacado diante d'ella, não sabendo como segurar o
+chapeu e a bengala, na mais flagrante e minuciosa ostentação dos meus
+defeitos e da minha pobreza incaracterisada e burgueza. Ao lado de quanto
+n'ella havia ideal, transcendente, ethereo, ia eu vendo, enormemente
+avultado e saliente, quanto o meu aspecto offerecia mais baixo e mais vil:
+o casaco comprado ao barato n'um algibebe; as botas de duas solas
+torpemente desformadas e orladas de lama; as calças com umas joelheiras
+que me dão ás pernas na posição vertical o desenho das de um homem que se
+está sentando; os punhos da camisa amarrotados; e a ponta do dedo maximo
+da mão direita sujo de tinta de escrever!
+
+Eramos verdadeiramente os antipodas um do outro, postos na mesma latitude
+pela estupidez do acaso, e separados logo para sempre por aquellas
+palavras terriveis que me zuniam nos ouvidos como os prenuncios de uma
+congestão:
+
+«Para o que eu prestar estou sempre ás ordens!»
+
+Não sei que extranha attracção amarrava o meu espirito á lembrança da
+mulher que eu acabava de ver! Não era indefinida sympathia, não era
+occulto desejo, não era um vago amor. Interrogava-me detidamente, e o
+unico movimento que encontrava no meu coração--sinceramente o
+confesso--era o do odio. Odio áquella mulher, odio inexplicavel,
+monstruoso, como aquelle que imagino ser o de um engeitado á sociedade em
+que nasceu!
+
+A distincção aristocratica, a elegancia da raça d'aquella gentil creatura
+aviltava-me, enfurecia-me, revolvia no meu interior esse fermento de
+rebellião demagogica que todo o plebeu traz sempre escondido, como uma
+arma prohibida, no fundo da sua alma.
+
+Aquella mulher tinha certamente, um espirito menos culto do que o meu, uma
+rasão menos firme, uma vontade menos forte, um destino menos amplo. Para
+compensar estas depressões assistia-lhe uma superiodade repugnante,
+inadmissivel: a que procede da casta. Um berço de luxo, uma constituição
+delicada, um leito de pennas, a infancia resguardada na sombra, entre
+estofos, sobre tapetes, ao som de um piano,--isto basta, para que fique
+ridiculo, miseravel, desprezivel ao pé d'ella um homem que se creou ao
+clarão do dia, á luz do sol, tendo por tapetes a aspereza das montanhas, e
+por melodias o roncar das carvalheiras e o gemer dos pinhaes!
+
+E entre mim e ella será isto perpetuamente uma barreira.
+
+Ella ficará sempre bella, dominativa, seductora por natureza,
+instinctivamente captivante, querida, amimada, estremecida, dentro da sua
+zona de aromas, de veludos, de cristaes e de luzes!
+
+Eu, entre a minha estante de pinho adornada com um boneco de gesso e a
+minha cama de ferro coberta de chita, ficarei sempre tenebroso e
+inutil,--desgraçado quando não quiser tornar-me tão ridiculo, e irrisorio
+quando tiver a vaidade de não querer ser desgraçado!...
+
+Accendi as duas torcidas do meu candeeiro de latão e tentei estudar.
+Impossivel. As letras de um livro que tinha aberto diante de mim
+percorri-as com a vista pelo espaço de tres ou quatro paginas,
+machinalmente, sem comprehender o sentido de uma só palavra. Deixei o
+livro e fiquei por algum tempo inerte, estupido, neutro, com a vista fixa
+nas orbitas ôcas de uma caveira que tinha sobre a mesa, e que se ria para
+mim com o escancellado sarcasmo que trazem da cova os esqueletos
+desenterrados. Aborrecia-me a vida. Apaguei a luz, despi-me e deitei-me.
+
+Tinham-me feito a cama n'esse dia com dois d'esses lençoes de folhos
+engommados, com que minha mãe enriquecera liberalmente o meu bahú de
+estudante. Estes lençoes tinham a aspereza do linho novo e o cheiro
+caracteristico do bragal da provincia.
+
+--Pobre mãe, coitada! pensava eu, deitado e embebido n'essa longinqua
+exhalação olphactica da casa paterna. Coitada de ti, que na simplicidade
+dos teus juizos julgaste dotar-me com um luxo que faria commoção em
+Lisboa, orlando-me dois lençoes com esta enorme renda longamente
+trabalhada por ti mesma nos teus bilros infatigaveis! Se soubesses que
+este paciente lavor das tuas mãos em dois annos de applicação consecutiva,
+ninguem aqui o admirou, ninguem o viu, ninguem attentou n'elle, a não ser
+a criada, que esta manhã me perguntou, entre risadas sacrilegas, se os
+padres na minha terra se embrulhavam nos meus lençoes em dias de missa
+cantada! Que importa porém que o não apreciem os outros?... Toda esta
+gente é má, corrupta, perversa! Agradeço-t'o eu, minha obscura, minha
+velha amiga. Nos arabescos d'esta renda, que eu estou apalpando na mão e
+que tu me consagraste, figura-se-me sentir o correr caprichoso e ondeado
+das lagrimas que choraste emquanto o vento ramalhava nas arvores, a
+saraiva estrepitava nas janellas, e tu desvelavas as tuas noites de
+inverno, resignadamente ajoelhada junto do berço em que rabujava o teu
+pequeno. Quando sinto no rosto o aspero contacto dos teus eriçados folhos
+bordados, beijo-os piedosamente, beijo-os eu, como se fosse um anjo bom
+que me tocasse com a ponta das suas azas purificadoras e brancas!
+
+Mas além do cheiro do bragal, que me envolvia como um afago mandado de
+longe, havia na minha cama outro perfume que contrastava singularmente com
+este. Era o que aromatisava a pelle d'aquella mulher desconhecida, e que
+me ficara na mão que ella apertou. Respirei-o com uma curiosidade
+irritante, que me pungia e me dilacerava. Ai de mim! collei os labios na
+mão aberta sobre o meu rosto, e principiei a sorver esse mysterioso
+respiro de um paraiso ignoto e longinquo.
+
+É monstruoso, infernal, o turbilhão das idéas que esse aroma extranho,
+penetrante e cálido, me revolveu na cabeça.
+
+Sentia os fogachos, as palpitações, a hallucinação da febre.
+
+Quando pela manhã me levantei, sem haver dormido em toda a noite, tinha o
+travesseiro inundado em lagrimas...
+
+Perdôa-me, Therezinha! minha Therezinha, perdôa-me...
+
+Não foi pensando em ti, meu puro anjo, que eu chorei tanto n'essa noite!
+
+
+II
+
+
+Soube d'ahi a dias que a senhora com quem me encontrára era a condessa de
+W. A figura d'ella tinha-me ficado moldada na memoria como o rosto de um
+cadaver em uma mascara de gesso. Estava no Rocio quando me disseram o seu
+nome, ao vêl-a passar em carruagem descoberta.
+
+Ia reclinada para o canto de uma victoria, quasi deitada, morbida,
+abstrahida, indifferente, como se uma aureola invisivel a segregasse dos
+aspectos e dos ruidos da rua, grosseiros de mais para lhe tocarem. Tinha
+uma seducção hallucinante, vestida de verão, com uma simplicidade cheia de
+mimo e de frescura, uma graça que se adivinhava mais do que se via e que
+menos appetecia ver do que respirar. Levava no seio uma rosa côr de palha,
+e uma pequena madeixa de cabellos finos, dourados, transparentes, soltos
+do penteado, cahia-lhe na testa.
+
+Cravei os olhos n'ella e tirei o meu chapeu; ella viu o meu cumprimento,
+olhou-me, como se eu lhe apparecesse pela primeira vez, com a mesma
+indifferença com que olharia para uma vidraça vasia ou para uma taboleta
+sem distico, e proseguiu inalteravel e immovel como a imagem preguiçosa da
+formosura arrebatada do seu pedestal por um cocheiro agaloado e por dois
+cavallos a trote.
+
+Continuei a passear com um amigo com quem estava e cobri tanto quanto[1]
+pude com algumas palavras rancorosas a respeito da politica a commoção que
+sentia.
+
+Momentos depois, passou na mesma direcção que tinha tomado a carruagem da
+condessa, um _coupé_ escuro, sem letras nem armas, com todas as cortinas
+cerradas. Esta circumstancia, aliás naturalissima, encheu-me de indignação
+e de rancor. Imaginei possivel que aquelle trem seguisse o da condessa e,
+não sei por que processo do coração ou do espirito, nasceu-me o desejo de
+arrombar essa carruagem e calcar aos pés o homem que lá estivesse dentro.
+
+--Estás a tremer! disse-me o amigo a quem eu dera o braço.
+
+--Não é nada... um estremecimento nervoso.
+
+--Impallideceste, tens os beiços brancos e as orelhas encarnadas...
+
+--Foi uma vertigem. Dá-me isto ás vezes.
+
+--Ahi tens! é o effeito das vigilias e do abuso do tabaco nas funcções do
+coração.
+
+--E debilidade resultante da fome, exclamei eu sorrindo e mal podendo
+conservar-me de pé. Adeus que vou jantar!
+
+E entrei na primeira carruagem de praça que passou por nós, emquanto o meu
+companheiro accrescentava:
+
+--Agora estás afogueado e vermelho como lacre: toma ferro e bromureto.
+
+Quando cheguei a casa tinha febre, e via por fóra do casaco o bater do
+coração.
+
+Não tornei mais a encontral-a senão na noite da catastrophe.
+
+O meu romance mysterioso e absurdo acabou então, cedendo o seu logar á
+tragedia em que entramos juntos.
+
+
+III
+
+
+Foi na noite de 20 de julho passado. Eu voltava de casa de Z... com quem
+tinha estado até ás duas horas; ía chegar quando senti atraz de mim os
+passos de duas mulheres. Parei. Ellas passaram por mim, descendo do
+passeio em que eu estava, e caminhando apressadamente. Entrevi-as á luz de
+um candieiro. Uma era alta, sêcca, direita, edosa; a outra--para que hei
+de descrevel-a?--era ella. Um relance de olhos, e conheci-a logo.
+
+Ia inquieta, arquejante, abafada em pranto e em soluços. Commoveu-me tanto
+o aspecto passageiro d'essa grande angustia, d'essa dôr suprema n'aquella
+formosa mulher ha poucos dias ainda tão patentemente feliz, radiosa,
+intemerata, que eu daria n'esse momento a minha vida inteira, para a não
+vêr assim dobrada na lama de uma rua escura e deserta, pelo que ha mais
+violento, mais voluntario, mais hostil, mais implacavelmente humano: a
+desgraça... Ella, a viva imagem da delicadeza e do mimo, expressão suprema
+da belleza, do dominio, da omnipotencia terreal, via-a de repente
+succumbir envolvida pela serpente cuja cabeça eu imaginava segura pelo seu
+pé sobre um crescente de lua!
+
+Fiquei por um momento perplexo. Por fim os meus passos apressaram-se para
+ella, sahi-lhe ao encontro e disse-lhe convulsivamente:
+
+--Senhora condessa de W..., vejo que chora. É certamente um successo
+extraordinario e terrivel. V. Ex.^a parece-me só e desprotegida n'este
+bairro; sómente em tão excepcionaes circumstancias eu poderia permittir-me
+a liberdade de lhe fallar. Disponha de mim, minha senhora, como se dispõe
+de um amigo ou de um escravo para a vida e para a morte.
+
+Ella parecia escutar sem me comprehender, n'uma grande inquietação. Á
+ultima palavra que proferi:
+
+--Para a morte!--repetiu ella n'um grito de delirio. Quem lh'o disse? Como
+o soube?
+
+E apoiando-se no braço da senhora que a acompanhava, segurou-se n'ella com
+um movimento convulso de pavor, ergueu o rosto para mim e fitou-me,
+trémula, supplicante, com os olhos hallucinados e lacrimosos.
+
+--Que quer? Diga!--accrescentou ella. Vem prender-me? aqui me tem.
+Leve-me.
+
+E tendo dito isto, voltou-se successivamente para todos os lados, olhando
+a rua com a mais exaltada expressão da confusão, da vergonha e do medo.
+Era a angustia personificada pela maneira mais viva e mais lancinante. Eu
+sentia o coração cheio de lastima e de piedade.
+
+--Perdão,--disse-lhe,--socegue, por quem é! Eu nada sei. Não venho
+prendel-a, nem venho interrogal-a. Não sou um juiz, nem um espião, nem um
+carrasco. É esta a terceira vez que a vejo em minha vida. A primeira foi
+n'esta mesma rua ha cerca de um mez, no momento em que um cocheiro lhe
+pedia o aluguer de um trem. A segunda vez foi de passagem no Rocio ha
+quinze dias. Sou um amigo seu desconhecido, obscuro, anonymo. Suppunha-a
+no apogeu da fortuna e da felicidade. Tive-lhe inveja e odio. Encontro-a,
+ao que parece, á beira de um abysmo e não acho na minha alma doente e
+magoada senão enternecimento e dedicação! é, então, desgraçada como os
+outros... coitadinha! coitadinha!
+
+E a minha dôr era profunda e sincera, a minha compaixão illimitada.
+
+--Não sei, tornou ella, estou tão perturbada que não o comprehendo bem;
+estou tão afflicta que não o reconheço bem, entrelembro-me apenas... Mas
+parece-me generoso e compadecido... Ah! eu não posso ter-me em pé!
+
+Dei-lhe o braço, que ella acceitou, e ficou um momento amparada em mim e
+na pessoa que a acompanhava, immovel, com a cabeça reclinada para traz e a
+bocca aberta, bebendo ar a longos sorvos.
+
+--Vamos! disse ella depois de uma pausa. Não posso ficar, não posso morrer
+aqui; tenho que escrever, preciso de chegar a casa quanto antes.
+
+E fazendo um grande esforço continuou a caminhar apoiada como estava, com
+passo vacilante e vagaroso, anciada, arquejante, parando a todo o momento
+para receber nos pulmões o ar que lhe faltava.
+
+Eu ia absorvido pelo aspecto de tamanha dôr. Acudia-me de longe a longe
+uma palavra, que não me atrevia a pronunciar, receiando que ella podesse
+imaginar que eu tentava perscrutar a causa do seu infortunio com uma
+indiscrição grosseira.
+
+A rua em que iamos andava-se concertando e estava coberta de uma camada de
+seixos britados e soltos, por cima de cujos angulos percucientes e
+cortantes eramos obrigados a caminhar. Chegavamos á esquina da rua quando
+ella, voltando-se para a pessoa que a acompanhava, e que então vi ser uma
+criada, lhe disse:
+
+--Betty, calça-me o sapato. Saiu-me do pé.
+
+A criada ajoelhou-se, e exclamou:
+
+--O setim está espedaçado! O pé deita sangue!
+
+A condessa pareceu não ouvir, e continuou a caminhar resolutamente.
+
+Maravilhava-me e compungia-me o valor d'alma d'aquella debil natureza, e
+sentia-me arrebatado a levantar do chão e a transportar nos meus braços
+aquelle formoso corpo tão corajosamente subjugado. Felizmente, de uma
+travessa proxima desembocou pouco depois um trem de praça, vasio. A
+condessa, que tinha visivelmente a maior pressa de chegar, entrou, com a
+criada que a acompanhava, na carruagem que eu mandei approximar. Fechei a
+portinhola e disse á condessa baixo, quasi ao ouvido, dando-lhe o meu
+bilhete:
+
+--Minha senhora, quaesquer que sejam as causas, quaesquer que sejam as
+consequencias da extranha aventura que acaba de approximar-se de v. Ex.^a,
+vá na firme certeza de que ninguem no mundo saberá do encontro que
+acabamos de ter. Se nunca precisar de mim, continuarei como até hoje sendo
+na sua existencia um homem inteiramente desconhecido, o qual de ora ávante
+considerará as suas relações com v. ex.^a exactamente no estado em que
+estavam antes de a ter visto pela primeira vez.
+
+Ella respondeu-me enternecidamente:
+
+--Bem haja por essas palavras de bondade, que são talvez as ultimas
+benevolas que eu tenho de ouvir n'este mundo. Quando souber--porque tem de
+se saber isto, meu Deus!--o que, desde esta horrorosa noite eu fico sendo
+perante a justiça e perante a sociedade, diga á sua mãe, á sua irmã, á sua
+amante, se tem amante, que me não odeiem ellas, ao menos! que eu sou menos
+criminosa do que lhes hei de parecer, que lhe confessei isto, ao
+despedir-me de si, entre a vida e a morte. Adeus!... Não lhe dou a mão...
+Sou indigna da amisade das pessoas de bem. O mais que eu posso pedir, eu,
+é piedade... Tenha piedade de mim... Adeus!
+
+A carruagem tinha rodado a distancia de alguns passos quando parou outra
+vez a um gesto da condessa; ella mesma abriu a portinhola, desceu e
+dirigiu-se a mim. Fui ao seu encontro.
+
+--Quero fallar-lhe ainda, disse ella.
+
+E depois de uma pequena pausa, em que parecia coordenar idéas dispersas,
+accrescentou:
+
+--Foi talvez providencial o nosso encontro aqui, a esta hora, n'esta
+rua... É talvez a unica pessoa que Deus quer permittir que me proteja, que
+seja por mim. Tenho um parente a quem vou escrever immediatamente
+entregando-lhe este segredo. Receio que elle se não ache em Lisboa. Sendo
+assim, não sei de quem me confie. Se tiver no seu coração tanta
+misericordia e tanta bondade que queira valer-me, procure-me em minha
+casa, ámanhã, ás 11 horas.
+
+E dando-me a sua morada em Lisboa, entrou outra vez no trem que partiu.
+
+Singular commoção a que produziu em mim essa mulher de quem acabava de
+saber que tinha commetido um crime; sentia-me inclinado a ajoelhar-me aos
+seus pés dilacerados e adoral-a!
+
+
+IV
+
+
+No dia seguinte á hora assignada apresentei-me em casa da condessa.
+
+Era um predio de um só andar, simples, branco, todo fechado. Abriu-se-me a
+porta da rua, appareceu-me um criado vestido de casaca azul com botões
+brancos, collete encarnado, calção curto. Era um homem velho, de cabellos
+brancos, polido e nedio como um embaixador, serio como uma estatua,
+penteado como um gentleman. Fallou-me em francez e conduziu-me.
+
+As escadas eram pintadas e envernizadas de branco, luzidias como o peito
+engommado de uma camisa. Ao meio dos degraus corria um tapete de veludo
+passado em varetas de cobre reluzente. No patamar projectava-se da parede
+uma concha de alabastro, cheia de plantas de longas folhas, em cima das
+quaes gotejava a agua de uma pequena fonte. No alto da escada a mobilia
+era branca, as paredes forradas de verde, cobertas de molduras doiradas
+encerrando quadros a oleo. A luz, suave e alta, vinha atravez de vidros
+baços. Havia o ar sereno e o perfumado silencio de uma tranquillidade
+elegante e feliz. Não me parecia o palacio de um fidalgo, nem o palacete
+de um burguez, mas sim o ninho domestico de um poeta ou de um artista.
+
+Levantou-se um reposteiro e entrei em uma sala forrada de coiro,
+circumdada de sophás e de poltronas com estofos de marroquim cravejado de
+aço, grandes vasos de porcelana e alguns bronzes, um dos quaes
+representava o busto da condessa, assignado e datado de Milão. Um dos
+espessos reposteiros que cobriam as portas estava corrido e deixava ver,
+no meio da casa proxima, que era um salão antigo, um piano de ebano
+volumoso e longo em cujo flanco se lia em grandes caracteres de prata o
+nome de Erard. Junto do piano, inclinado sobre um _fauteuil_, achava-se um
+violoncello defronte de uma estante de marfim. Sobre as chaminés de
+marmore havia alguns livros e vasos com flores. Os moveis estavam
+dispostos de maneira que parecia conversarem baixinho em coisas delicadas
+e intimas. Sentia-se que estava ali, domiciliada n'um aconchego feliz, uma
+existencia espirituosa e contente: percebia-se no ar e no aspecto das
+coisas, o vago prestigio do perfume, da harmonia, do calor, que as pessoas
+que ahi tivessem estado haviam derramado em volta de si, conversando,
+lendo, fazendo musica. Eu tinha levantado os olhos de um livro sobre a
+mesa do centro da sala, quando vi defronte de mim, ao fundo de um grande
+espelho, uma figura immovel, tectrica, espectral. Voltei-me rapidamente, e
+não pude reprimir um grito de pasmo e de terror. Era a condessa.
+
+Horrivel transformação por que ella passára! Durante as poucas horas que
+haviam mediado entre esse momento e a ultima vez que a vira, a condessa de
+W... tinha envelhecido dez annos. Os olhos profundamente encovados haviam
+tomado uma expressão apagada e immovel; a carne tinha uma côr terrea e
+opaca; os musculos faciaes, contrahidos na mais violenta oppressão,
+davam-lhe ao rosto, transversalmente vincado por dois sulcos escuros, o
+aspecto de uma magreza extrema; os cabellos apanhados todos para traz,
+alizados e seguros n'um rolo sobre a nuca, avultavam-lhe o nariz afilado e
+despegavam-lhe do craneo as orelhas lividas, de uma saliencia rija e
+cadaverica.
+
+Fez-me signal que a acompanhasse. Segui-a com a sensação enregelada de
+quem entra nos dominios da morte. Atravessámos uma sala e entrámos em um
+dos quartos d'ella. Apontou para um sophá e sentou-se ao meu lado, olhando
+para mim, impassivel.
+
+Ficou assim por um momento na mudez de uma dôr intraduzivel, pausa
+terrivel em que a alma emerge de um abysmo de lagrimas e se debate
+violentamente antes de apparecer na voz. Tinha os labios entre-abertos
+como os de quem vae soltar um grito, e o queixo tremulo oscillava-lhe como
+o das creanças subjugadas pelo terror no instante de lhes rebentar o
+pranto. Por fim disse-me lentamente, com palavras pesadas, firmes,
+entrecortadas, como se estivesse retalhando o coração e dando-m'o em
+bocados!
+
+--Peço-lhe que não me condemne pelas primeiras palavras que vae ouvir.
+
+E, em voz baixa, depois de um breve silencio, accrescentou:
+
+--Eu matei um homem.
+
+--Que diz?! gritei eu estupefacto. Está louca! enlouquceu!
+
+--Não. Não estou louca, tornou ella grave e serenamente. Não enlouqueci
+ainda. E admiro isto. Como têem decorrido estas horas, minuto por minuto,
+segundo por segundo, sem que a minha razão succumbisse n'esta desgraça
+infinita, sem remedio, sem termo, sem remissão! Matei um homem...
+Involuntariamente, sim, mas matei-o. Quero entregar-me aos tribunaes,
+estou prompta, estou deliberada. Estendendo os olhos ao meu futuro, não
+vejo senão uma esperança, senão um lenitivo unico no prazer de morrer em
+tormentos, que eu abençoarei como os maiores beneficios do ceu, de morrer
+de fome, de desprezo, de miseria, prostrada no fundo de uma enxovia, no
+porão de um navio, ou abandonada em uma praia da Africa, abrazada pelo
+sol, sobre as areias ardentes, roida pelo cancro, devorada pela sede e
+pela febre. Por mim uma só cousa temo: a loucura que um momento em minha
+vida me consinta a alegria horrivel de cuidar que ainda sou amada e feliz;
+ou a morte repentina que me arrebate a consolação unica que Deus concede
+aos grandes culpados: a liberdade de soffrer. Mas elle... O seu nome
+descoberto! o seu cadaver profanado! o seu segredo trahido!...
+
+E fallando, como n'um sonho, abstractamente:
+
+--Desventurado homem! que fatal destino o encaminhou para mim
+arremessando-o, de encontro ao meu coração, em que estava a sua morte?
+Porque não amou outras mulheres que o mereciam mais do que eu? Porque não
+se deixou amar por Carmen Puebla, que o adorava e que morreu por elle? Que
+cego, que imprudente, que desgraçado que foi!...
+
+E escondendo a face nas mãos, desatou a chorar n'um pranto convulso e
+desfeito, em que a vida parecia despedaçar-lhe o seio e jorrar para fóra
+em borbotões de lagrimas e de soluços.
+
+--Vamos,--disse-lhe eu quando esta crise abrandou,--serenemos um momento,
+e pensemos no que importa fazer. É então positivo que o conde está morto?
+
+--O conde?... interrogou ella, erguendo-se de subito e enxugando os olhos.
+Sim, tem rasão, eu ainda lhe não disse tudo... O homem que eu matei não é
+meu marido.
+
+E, postando-se defronte de mim, fitou-me com um olhar hallucinado, e
+accrescentou com voz demudada e profunda:
+
+--É o meu amante.
+
+Em seguida ficou immovel, esperando as minhas palavras na postura de um
+reu que vae escutar a sentença da bôca de um juiz.
+
+A sensação que experimentei ao ouvir essa confissão breve, sêcca,
+inesperada, foi a da surpreza primeiro, de uma instinctiva repulsão
+depois. Ergui-me machinalmente e dei alguns passos na casa. A condessa
+permanecia na mesma posição, n'uma insensibilidade que tanto podia ser a
+prostração do arrependimento como o cynismo da culpa. Eu estava
+surprehendido e revoltado. Aquella mimosa e pura estatua, á qual eu
+levantára quasi um altar no meu coração, assim repentinamente baqueada
+n'um lamaçal, causava-me horror. Poderia supportal-a criminosa; não podia
+consideral-a prostituida. Medi-a com um olhar em que senti dardejar o
+despreso que ella n'esse momento me inspirava, e depois de um silencio
+repassado de magoa:
+
+--É horrivel isso!
+
+Ella estremeceu, cerrou desfallecidamente os olhos e amparou-se vacillante
+ao espaldar de uma cadeira.
+
+--Extranha talvez a lastima e o horror que me causa? insisti eu. É
+natural. Tendo ouvido que em Lisboa, a sociedade vê benevolamente essas
+quedas como incidentes triviaes da existencia domestica. Eu porém que sou
+um selvagem, eu que me criei no principio de que a fidelidade é no
+caracter de uma mulher um dever tão sagrado como a honra no caracter de um
+homem, eu protesto, em nome das unicas mulheres que a minha inexperiencia
+me tem permittido conhecer no mundo--em nome d'aquella que me gerou e em
+nome d'aquella que eu amo--contra similhante interpretação da liberdade de
+amar. Não comprehendo que cáia em tal erro uma pessoa limpa. O adulterio é
+uma indecencia e uma porcaria. Matar um homem em taes circumstancias, é
+mais do que faltar ferozmente ao respeito devido á inviolabilidade da vida
+humana; é faltar egualmente ao respeito da morte... É atirar um cadaver a
+um cano de esgoto... É tragico--e coisa ainda mais horrivel--é sujo...
+
+Ella escutava-me em silencio, extatica, como hypnotisada pela minha
+instinctiva mas cruel grosseria.
+
+De repente, sem uma exclamação, sem um grito, sem um gesto, caiu
+desamparadamente no chão, fulminada, inerte, como se estivesse morta.
+
+Quiz chamar alguem, ia a tocar no botão de uma campainha quando me
+occorreu a inopportunidade de qualquer intervenção n'esta scena. Fui para
+ella, que ficára estirada de costas sobre o tapete. Levantei-lhe a cabeça.
+Não lhe senti o pulso. Ergui-a em peso, tomei-a nos meus braços. A fronte
+d'ella pendeu sobre o meu hombro, ficando perto dos meus labios a sua face
+desmaiada.
+
+Approximei-me de um sophá. Depois, por um sentimento supersticioso de
+respeito, colloquei-a n'uma cadeira de braços, e corri aos aposentos
+contiguos áquelle em que estavamos. O quarto proximo era um gabinete de
+vestir. Trouxe um frasco de agua de Colonia que estava n'um lavatorio.
+Humedeci-lhe as fontes e os pulsos, fiz-lhe respirar o alcool.
+Auscultei-a. O coração começava a bater. O pulso reapparecia.
+
+Eu tinha-me ajoelhado junto da poltrona em que ella jazia e contemplava
+melancholicamente a sua figura exanime.
+
+Os olhos cerrados, a bocca entre-aberta deixando vêr os dentes miudos e
+côr de perola, a cabeça reclinada ao espaldar, davam ao seu rosto, assim
+em escorso, a expressão de uma figura d'anjo, ascendendo de um tumulo. Os
+pés estreitos e finos, calçados em meias de seda e sapatos de setim preto
+sobresaíam da orla do vestido n'uma immobilidade sepulchral. Uma das mãos,
+atravez de cuja lividez se via a rede tenue e azul das veias, tendo no
+dedo annular um circulo de grossos brilhantes entremeiados de rubis,
+repousava-lhe no regaço, e do seu roupão de rendas pretas exhalava-se o
+mesmo perfume, o perfume d'ella, que ficára na minha mão a primeira vez
+que a vi.
+
+Lembrei-me então da sua figura entrevista de noite, ao gaz de um candeeiro
+da rua, tornada a vêr depois, á luz do dia, no Rocio, passando em
+carruagem descoberta. E estas coisas, tão vivas na minha lembrança,
+faziam-me todavia, a impressão de haverem passado ha muitos annos.
+
+Ella estava velha!
+
+Muitos dos seus cabellos, seccos, baços, como mortos, tinham embranquecido
+nas fontes e no alto da cabeça.
+
+A contracção violenta de todos os musculos da dôr transformara n'uma só
+noite as suas feições e desfigurára a sua physionomia. Os cantos da bocca
+tinham descaído ao peso das lagrimas como ao peso dos annos, e dois vincos
+profundos sulcavam-lhe as faces flaccidas na mesma direcção obliqua que
+tinham tomado os sobr'olhos, riscando-lhe a testa em rugas curvilineas e
+transversaes.
+
+Que medonha, que tenebrosa, que incomparavel angustia devia ter passado em
+algumas horas por este desgraçado corpo para o devastar assim!
+
+Na rua, a pequena distancia, um realejo tocava um _pot-pourri_ de varias
+operas, e, ao som d'esse corrido martellar idiota da musica mecanica,
+pareceu-me ver desfilar em louca debandada no ar, entre mim e a pobre
+senhora, como n'uma especie de evocação ao mesmo tempo tragica e grotesca,
+todos os grandes symbolos das educações sentimentaes, ladainha viva das
+paixões elegantes, girando sob a manivella do seu realejo, n'um redemoinho
+funebre, de dança dos mortos, em torno d'esse corpo desfallecido, como as
+visões da vida passada, figuradas nos velhos retabulos, em torno do leito
+das monjas moribundas.
+
+Era como se, no decorrer d'essa musica, automatica como um andar de
+somnambulo, eu visse perpassar no espaço a grande ronda das tentações que
+na vida levaram comsigo o destino d'esta creatura: os pallidos Manriques e
+os febris Manfredos, trazendo sob a capa das poeticas aventuras a bravura
+cavalleirosa de campeador Ruy de Bivar ou do paladino Rolando, a
+melancolia de Hamlet, a exaltação sentimental de Werther, a revolta do
+Fausto, a sociedade de D. Juan, o tedio de Childe Harold; e toda a legião
+dramatica das bellas mulheres amadas: Francesca, Margarida, Julietta,
+Ophelia, Virginia e Manon.
+
+E, em grinalda de beijos seccos, de beijos de pau, matraqueados no
+instrumento da rua, todas essas figuras d'amorosas legendas bailavam
+mysteriosamente ao som da _Traviata_, da _Lucia_, do _Balle in maschera_.
+
+--_Amor! amor! amor!_--tal foi de certo a letra da grande aria que
+constantemente lhe cantaram atravez de toda a sua existencia de mulher
+bella, instruida e rica.
+
+Foi n'esse mundo moral que a sua imaginação habitou e que se fez o seu
+pobre espirito de linda creatura ociosa e desejada.
+
+Como poderia ella adivinhar a honesta serenidade dos destinos simples no
+meio de uma existencia tão complicadamente artificial como a sua?
+
+Fóra dos interesses da elegancia, da moda, talvez da arte, que conhecia
+ella de serio e de grave na vida senão a religião e o amor? Tinha um
+missal e um marido. É pouco para o equilibrio de uma alma, principalmente
+desde que o missal cessa de convencer e o marido cessa d'amar.
+
+As que tem um salão, uma carroagem, um camarote na opera, um cofre cheio
+de joias, um quarto cheio de vestidos, não pódem ser as singelas mulheres
+que passam a vida a dar de mamar aos filhos e a vender cerveja, como diz o
+Iago, de Shakespeare; nem podem resumir o seu destino facil em ter filhos,
+chorar e fiar na roca, como diz Sancho Pansa. Esta não vendia cerveja, não
+a ensinaram a fiar... Chorou apenas.
+
+Quem sabe se na sua dourada existencia a amargura das lagrimas a não
+compensou hoje de tudo quanto ignora da amargura da vida!
+
+E tive uma paixão sincera com um remorso profundo das palavras crueis que
+lhe dissera.
+
+Que poderia eu fazer para a salvar? Não o sabia. Achava-me porém resolvido
+a tudo, a sacrificar-me inteiramente, para lhe valer.
+
+Devo dizer tambem que, vendo-a, ouvindo-a, eu não suppuz nem por um
+momento que no homicidio de que ella se accusava podesse haver o que se
+chama verdadeiramente um crime, isto é, uma intenção infame ou perversa.
+Um criminoso, um cobarde, um assassino, nem chora assim, nem falla assim,
+nem se denuncia, nem se inculpa, nem se entrega por esta fórma a uma
+pessoa quasi extranha, quasi desconhecida. Ella tinha-m'o dito com a mesma
+simplicidade com que o gritaria da janella para a rua, sem a minima
+preoccupação de se salvar. Cheguei a pensar por um momento que não tinha
+deante de mim senão uma extranha nevrose, um caso de hallucinação, de
+delirio raciocinado. Mas o delirio não faz padecer tanto. Tenho visto
+muitos loucos no hospital. A expressão d'elles, ainda a mais dolorida, não
+apresenta nunca a profundidade d'esta. É preciso ter toda a integridade da
+sensibilidade e da rasão para soffrer assim. No padeccimento dos loucos ha
+um não sei quê, sem nome talvez na symptomatologia do soffrimento, mas a
+que poderiamos chammar--a isolação da alma.
+
+Ao voltar a si, a condessa parecia um pouco mais calma. Para evitar um
+recrudescimento de excitação proveniente de uma longa narrativa de
+episodios que me pareceu discreto evitar, um pouco como estudante de
+medicina, principalmente como homem honrado, disse-lhe:
+
+--Sabe mais alguem d'este caso?
+--Sabe-o a minha creada de quarto, a que me acompanhava hontem quando nos
+viu, e sabel-o-ha dentro em pouco meu primo H... a quem hoje escrevi. Meu
+primo porém está em Cascaes. O morto é um extrangeiro. Ninguem, a não ser
+meu primo, o conhece em Lisboa. Ignorava-se mesmo que elle existisse aqui.
+Entregal-o aos tramites policiaes, ter de revelar o seu nome, descobrir a
+sua naturalidade, a sua familia, eis o que principalmente eu queria
+evitar. Conseguido isto, entrego-me aos tribunaes, mato-me, fujo,
+enterro-me viva... como quiserem!
+
+--E sabe seu primo como elle morreu?
+
+--Não. Vai saber apenas que está morto...
+
+--Póde contar com o silencio da sua creada, por alguns dias ao menos?
+
+--Posso. Por toda a vida.
+
+--Evite, se póde, que seu primo receba hoje a sua carta. E... _elle_, onde
+está?
+
+--Na mesma rua em que nos encontrámos hontem, no predio n.^o...
+
+--Para entrar na casa...
+
+--Ha uma chave--respondeu ella.
+
+E tendo meditado um momento:
+
+--Hontem--prosseguiu--quando lhe disse que viesse hoje a minha casa,
+estava louca de desesperação e de horror. Parecia-me que tudo quanto se
+approximava de mim me trazia a punição, o castigo, e que tudo quanto se
+affastava fugia para longe com o meu ultimo amparo, com o derradeiro
+soccorro que eu ainda poderia ter n'este mundo!... Foi n'este delirio que
+lhe pedi a V..., um extranho, um desconhecido, que viesse vêr-me... Para
+quê?.. nem eu sabia para quê... Para contar isto a alguem, para me
+decidir, para ter uma solução, para apressar um desenlace qualquer, para
+fugir de mim mesma... Ir á policia era entregar esse infeliz á mais
+horrorosa das profanações. Dirigir-me a alguma das senhoras que conheço,
+ir bater á porta de uma familia tranquilla, que me receberia na casa de
+jantar ao levantar da mesa, que me apertaria as mãos, que me traria os
+seus filhos para eu beijar, e depois dizer-lhes de repente: Eu, que aqui
+estou, tinha um amante, e matei-o; venho convidal-os para esta festa de
+vergonha e de ignominia!... Não. Era melhor fugir para o desconhecido,
+entregar-me ao acaso... Em tudo isto pensei confusamente, não sei como,
+sem continuidade, sem nexo, aos pedaços, depois que o vi, durante esta
+noite medonha. Não tenho hoje mais lucidez de espirito do que tinha
+hontem... Não sei o que hei de fazer... Sinto apenas que estou perdida,
+que é preciso que alguem venha, que é preciso que me levem... O senhor
+parece-me um homem generoso, leal, compadecido e bom... Sabe já o que me
+succedeu, sabe onde _elle_ está. Disse-lhe qual era a casa, disse-lhe o
+numero da porta. Aqui tem a chave.
+
+E tirando do seio uma corrente de ferro, de elos angulosos como de um
+cilicio, que trazia suspensa do pescoço por dentro do roupão, abriu uma
+argola que lhe servia de remate, soltou uma pequena chave, e entregou-m'a.
+
+Deixou-se cahir n'um _fauteuil_, inclinou a cabeça para traz e ficou
+prostrada, silenciosa, no abatimento, no abandono, no entorpecimento
+profundo que d'ordinario se succede ás grandes crises nevralgicas.
+
+Sem saber o que fizesse, pensando todavia que uma ideia qualquer me
+occorreria mais tarde como desfecho possivel para esta situação tão
+imprevista, tão extraordinaria, guardei a chave. Senti que me era preciso,
+primeiro que tudo, sahir d'alli, retomar o ar livre, achar-me a sós
+commigo mesmo, reflectir, raciocinar.
+
+--Minha senhora--disse-lhe então--se amanhã, até ao meio dia, eu lhe não
+tiver reenviado esta chave, será signal que me prenderam, que está tudo
+perdido. Se não souber mais de mim, quero dizer, se lhe não fôr restituida
+esta chave, fuja, esconda-se, faça como quizer. Interrogada, negue tudo.
+Eu preferirei mil vezes acceitar a responsabilidade d'esta morte a
+imputar-lh'a, e, por caso algum do mundo, será jámais o seu nome proferido
+por mim. D'aqui até lá, para coordenar as suas ideias, para equilibrar a
+sua razão, para não enlouquecer, se quer um conselho de physiologista,
+violente-se um pouco, abra uma janella, sente-se deante de um caderno de
+papel e escreva o que se passou. Depois queime o que escrever. O unico
+meio de dominar uma situação como a sua, o unico meio de verdadeiramente a
+comprehender, é analysal-a. Houve um philosofo que deixou aos infelizes
+esta maxima: «Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema.» Vá escrever.
+Faça as suas memorias ou faça o seu testamento, mas escreva, e queime
+depois. Agora, adeus. Adeus até amanhã, ou quando não, adeus para sempre.
+
+Ella conservava sempre a attitude extatica em que cahira na cadeira de
+braços. Tinha a bocca entre-aberta, o labio inferior tremia-lhe, com esse
+tocante gesto infantil que toma a desolação no rosto das mulheres, e
+grossas lagrimas silenciosas, corriam-lhe em fio pelas faces e gotejavam
+lentamente nas rendas do vestido. Fez um movimento para se erguer,
+procurando articular uma palavra d'agradecimento. Profundamente
+enternecido, dei um passo para traz, inclinei-me com respeito, e sahi.
+
+
+V
+
+
+Tendo fechado a porta do aposento em que ella ficára, ao passar na sala em
+que primeiro estivera, occorreu-me de repente uma ideia. Sobre uma das
+mezas achavam-se dois grandes albuns. Folheei-os rapidamente. Um d'elles
+encerrava apenas uma serie de apontamentos de viagem tomados por uma só
+pessoa, segundo se via da uniformidade da letra a lapis e em portuguez.
+Entre os apontamentos escriptos estavam collados ou pregados nas paginas
+alguns especimens de plantas e de flôres, e viam-se delineados varios
+esboços de construcções e de fragmentos architectonicos. Era um album de
+estudos. O outro continha uma collecção de pensamentos, de maximas, de
+versos, de desenhos, de aquarellas, firmados por muitos nomes diversos. Eu
+devorava com os olhos o conteúdo de cada lauda.
+
+Não ousára perguntar á condessa o nome do seu amante. Comprehendia que a
+bocca d'ella nunca mais poderia pronuncial-o, e não obstante, eu precisava
+de sabel-o, de ver letra d'elle. Estava certo de que esse nome
+desconhecido figuraria indubitavelmente entre os que eu estava lendo, que
+a letra desejada se encontraria no meio dos escriptos que me estavam
+passando pelos olhos. Como poderia porém adivinhal-o, sem tempo, sem
+vagar, sem o socego de espirito necessario para meditar a intenção de cada
+uma das phrases que ia lendo?... Era-me forçoso abandonar este recurso, e
+o album que tinha nas mãos era todavia, talvez, o unico meio que me
+restava de poder descobrir o que desejava! Hesitei um momento, e sahi por
+fim, levando o livro comigo.
+
+Apenas me achei na rua tomei um trem, que dirigi para minha casa,
+acantoei-me na carroagem e puz-me a ler successivamente cada um dos
+trechos em verso e em prosa, de que se compunha a collecção.
+
+Sabia pela condessa que o morto era estrangeiro. Esta informação era
+insufficiente para que eu o distinguisse n'aquella torre de Babel. De
+pagina para pagina ia-me surprehendendo uma nova lingua. Havia francez,
+italiano, allemão, inglez, hispanhol... O nome de Ernesto Renan apparecia
+sobposto a duas palavras chaldaicas; Garcin de Tassy, orientalista na
+Sorbonne, firmava um periodo em lingua hindustanica; Abd-el-Kader tinha
+deixado simplesmente o seu nome arabe; a princesa Dora Distria assignava
+de Turim um pequeno texto albanez. Nomes portuguezes, apenas dois.
+
+A leitura dos textos não me adiantava mais do que a simples inspecção da
+variedade dos nomes e da differença de linguas.
+
+Ao chegar a casa, vi que o numero que a condessa me indicara era o de um
+predio de um só andar, pobre de apparencia, quasi fronteiro á casa que eu
+habitava, perto de uma esquina, collocado ao lado de um predio mais
+saliente, e tendo a porta n'um angulo reintrante que a escondia da parte
+principal da rua. Para o lado opposto até á esquina proxima havia uns
+armazens deshabitados. Defronte corria um velho muro, ao alto do qual
+sobresaiam as ramas seccas de um canavial. A situação topographica da casa
+onde estava o morto permittia-me pois entrar e sair d'ella sem ser visto.
+
+Ali dentro haveria talvez um papel, uma carta, uma nota, que me revelasse
+o nome que desejava conhecer.
+
+Dei a volta á chave e entrei. No alto da escada, junto de uma porta
+cerrada, estava caida uma luva e dois bocados de papel. Um era meia folha
+pequena, lisa, em branco. O outro era um pedaço de _enveloppe_; tinha no
+alto um carimbo do correio de Lisboa com a data do dia anterior; a um
+canto havia inutilizada uma estampilha franceza; no subscripto lia-se:
+_Mr. W. Rytmel_.
+
+Este nome achava-se no album da condessa por baixo de dois versos
+inglezes.
+
+A luva, que levantei do chão, era de mão de homem, e de pellica branca com
+cordões pretos. Por dentro tinha em letras azues a marca de um luveiro de
+Londres. Era evidente que tinha achado o que procurava. Rytmel era o nome
+do morto.
+
+Abri em seguida a porta que tinha em frente de mim e estremeci de horror.
+Estendido n'um sophá estava o cadaver. A expressão do seu rosto inculcava
+um socego feliz. Parecia dormir. Apalpei-o; estava frio como marmore.
+Collocado perto d'elle estava um copo com um pouco de liquido. Era opio.
+
+Percorri o aposento com um relance d'olhos. No forro de setim preto do
+chapeu, que estava caído no chão, vi bordadas em vermelho uma corôa de
+barão e duas grandes lettras--um W. e um R.
+
+Não podia perder tempo. Fui para casa, sentei-me pacientemente á minha
+banca e abri o album defronte de mim na pagina em que estavam os versos
+assignados por W. Rytmel.
+
+É de saber que tenho aquella especie de habilidade que Alexandre Dumas
+considera aviltante e vilipendiosa para a intelligencia: sou, como terá
+visto pela letra d'estas cartas, um excellente calligrapho. Copiei
+escrupulosamente, desenhando letra a letra, por trinta ou quarenta vezes
+consecutivas, os dois versos que tinha patentes. Depois principiei a
+construir, com letras da mesma fórma das que tinha copiado, outras
+palavras differentes. Finalmente, depois de muito estudo e de muitos
+ensaios, peguei na meia folha de papel que tinha encontrado na casa em que
+se dera a catastrophe, e fiz em inglez com escripta que ninguem no mundo
+duvidaria ser a da pessoa que escreveu no album os versos assignados pelo
+nome de Rytmel, uma declaração pessoal do suicidio por meio do opio.
+D'este modo, quer mais tarde me occorresse, quer não, o meio mais
+conveniente de sepultar o cadaver, as suspeitas de homicidio
+desappareciam.
+
+A condessa estava salva desde que, antes de mais ninguem, eu entrasse na
+casa e collocasse junto do corpo o bilhete que escrevera.
+
+Mas eu ficava sendo um _falsario_. Repeti a mim mesmo esta palavra
+sinistra e estremeci de horror. Era preciso achar outro meio, que eu
+procurava debalde. E no entanto o tempo corria. Veio a noite. Lembrei-me
+que o primo da condessa poderia vir de Cascaes prevenido por ella, e
+cheguei a sahir de casa com pregos e um martello para encravar a fechadura
+da porta e retardar a entrada no predio onde se achava o morto.
+Occorreram-me mil idéas phantasticas, cada qual mais absurda. Passeei por
+muito longe, a pé, meditando, inquieto, nervoso, congestionado, estafado,
+devorado de febre, palpando no fundo do bolso o bilhete terrivel com que
+poderia desviar a responsabilidade da cabeça de um criminoso, tomando
+todavia para mim uma parte egual no seu remorso.
+
+Finalmente, por volta da meia noite, sem bem saber porquê, nem para quê,
+levado por uma attracção terrivel, atraz de uma suprema inspiração,
+cingi-me com o muro, abri a porta, penetrei na casa. Então me encontrei
+inesperadamente com o doutor e com a pessoa conhecida no decurso d'esta
+historia pelo nome de _mascarado alto_.
+
+O primo da condessa, tendo chegado de Cascaes ao meio dia, acompanhado de
+dois amigos intimos, inquieto pelo desapparecimento de Rytmel, que era seu
+hospede e vivia como homiziado em casa d'elle em Lisboa, foi ao predio
+mysterioso de que possuia uma chave e que sabia ser frequentado
+regularmente pelo inglez, e encontrou ahi o cadaver. Conhecendo as
+relações de Rytmel com a condessa, ponderando quanto havia de delicado na
+necessidade de manter o maior sigillo em volta d'aquella catastrophe, e
+julgando por outro lado indispensavel que o testemunho de um medico
+constatasse a morte, que poderia ser apenas apparente, planeou e realisou
+a emboscada em que surprehendeu o doutor ***, que elle sabia casualmente
+que passaria n'essa tarde pela estrada de Cintra.
+
+Sabem o que se passou n'essa noite.
+
+
+VI
+
+
+No dia seguinte ás onze horas da manhã, todos nós, os que haviamos ficado
+n'essa casa fatal, nos achavamos reunidos, de rosto descoberto, em torno
+do cadaver.
+
+O doutor havia sido conduzido ao ponto da estrada de Cintra, em que fôra
+tomado na vespera.
+
+F..., encarcerado durante a noite em um quarto interior da casa, havia
+communicado com um allemão que habitava o predio contiguo, e passára-lhe
+de manhã por um buraco feito no tabique, a carta ao doutor, publicada mais
+tarde no _Diario de Noticias_. Em seguida arrombou a porta do quarto que
+lhe servia de carcere, e depois de uma altercação violenta, arrancou a
+mascara ao primo da viscondessa. Os outros dois mascarados, vendo o seu
+companheiro descoberto, tiraram egualmente as mascaras. Um d'elles era
+intimo amigo de F...
+
+--Que é isto?... Como póde isto ser?... gritou F... exaltado.
+
+E apontando em seguida para o cadaver, continuou:
+
+--Aquelle homem está morto, e foi roubado. Depressa expliquem-se! como
+póde isto ser?
+
+--Meus senhores,--exclamou o _mascarado alto_--o segredo que eu tenho tido
+em meu dever guardar dentro dos muros d'esta casa, e que espero fique para
+sempre sepultado n'ella, pertence a uma senhora. Uma parte d'este segredo,
+aquella que mais particularmente nos interessa, a que explica a presença
+d'aquelle cadaver diante de nós, conhece-a este senhor.
+
+E voltando-se para mim ao dizer estas palavras, accrescentou:
+
+--Em nome da nossa dignidade, emprazo-o pela sua honra a que declare o que
+sabe.
+
+--Jurei não o dizer--respondi eu--não o direi nunca. Ao entrar aqui, em
+presença de um perigo que julguei imminente sobre a cabeça das pessoas
+mais particularmente envolvidas n'este mysterio, perdi os sentidos,
+desmaiei mulheril e miseravelmente. Falta-me diante do perigo a energia
+physica, que é a feição visivel do valor. Não imaginem por isso que tambem
+careço de força moral precisa para guardar um segredo, á custa que seja da
+minha propria vida! Interrogado por gente mascarada, que não conhecia,
+era-me licito mentir, pôr tambem na resposta uma mascara. Diante de gente
+de bem, que me interroga invocando a sua honra, o meu dever é calar-me.
+Previno-os de que são absolutamente inuteis todas as tentativas que
+fizerem para me obrigarem a outra coisa.
+
+--Não é difficil de cumprir o seu dever! observou com ironia o mascarado
+alto. O corpo d'aquelle desgraçado não póde ficar ali por mais tempo. É
+urgente que tomemos uma deliberação decisiva e que salvemos a
+responsabilidade que pesa sobre nós, de modo tal que fique para sempre
+tranquilla a consciencia que nos dictar o conselho que houvermos de
+seguir. Visto que este senhor se recusa a principiar, começarei eu.
+
+E traçou sobre uma folha de papel as seguintes linhas, que ia pronunciando
+ao mesmo tempo que as escrevia:
+
+«_Minha prima._
+
+«Na rua de... n.^o... acham-se n'este momento reunidos diante de um
+cadaver os seguintes homens: (seguiam-se os nossos nomes). É um tribunal
+supremo constituido pelo acaso e que vae julgar em derradeira e unica
+instancia o crime sujeito pela fatalidade á nossa jurisdicção. Se em
+presença d'este tribunal a minha prima tiver que depôr, peço-lhe que o
+faça.»
+
+--Perdão...--observei eu.--Peço licença para accrescentar uma linha:
+
+«A. M. C. não devolve a chave.»
+
+ * * * * *
+
+Elle escreveu o que dictei, assignou, dobrou o papel, e disse a um dos
+seus amigos:
+
+--Vae já entregar este escripto á condessa de W...
+
+Meia hora depois uma carruagem que percorrera a rua a galope parou á porta
+do predio em que estavamos. Rolámos para dentro da alcova o sofá em que se
+achava o cadaver, e cerrámos o reposteiro da sala. Abriu-se a porta, e a
+condessa entrou.
+
+Seguira o alvitre que lhe propus. As vinte e quatro horas decorridas desde
+que eu a deixára até ao momento de partir para ali, tinha-as empregado em
+escrever com uma eloquencia apaixonada e febril a historia da sua
+desgraça. O caderno que lhe remetto encerra, senhor redactor, a copia da
+longa carta dirigida por ella a seu primo. Cedo o logar que estava
+occupando nas columnas do seu periodico á publicação d'este documento, que
+verdadeiramente se poderia chamar _O auto de autópsia de um adultério_.
+
+Depois direi o destino que démos ao cadaver, e o fim que teve a condessa.
+
+
+
+
++A Confissão d'ella+
+
+
+I
+
+
+Parece-me ás vezes que tudo isto se passou n'uma vida distante como um
+romance escripto, que me causa saudades e dôr, ou uma velha confidencia de
+que a minha alma se lembra. Mas de repente a realidade cae arrebatadamente
+sobre mim, e creio que soffro mais então, por ter a consciencia de que não
+devia nunca ter deixado de soffrer. Foi bom que me determinasse a esta
+confissão. Contar uma dôr é consolal-a. Desde que me determinei a escrever
+estas confidencias, ha no meu peito um alivio e como um movimento de dôres
+crueis que desamparem os seus recantos.
+
+O principio das minhas desgraças foi em Paris. Lá comecei a morrer.
+Lembra-me o dia, a hora, a côr da relva, a côr do meu vestido. Foi no fim
+do penultimo inverno, em maio. _Elle_ estava tambem em Paris. Viamo-nos
+sempre. Ás vezes saíamos da cidade, iamos passar o dia a Fontainebleu,
+Vincennes, Bougival, para o campo. A primavera era serena e tepida. Já
+estavam floridos os lilazes. Levavamos um cabazinho da India com fructa,
+n'um leito de folhas de alface. Riamos como noivos...
+
+Havia tres mezes que estavamos em Paris: o conde--creio que o
+disse--estava na Escossia com lord Grenley caçando a raposa nas tapadas do
+principe de Beaufort.
+
+Houve então um baile no _Hotel de Ville_, um d'esses bailes officiaes em
+que uma multidão de praça publica se acotovella sob os lustres,
+brutalmente. Tinha eu acabado de dançar uma walsa com um coronel
+austriaco, quando a viscondessa de L..., que vivia então em Paris, veiu a
+mim, toda risonha:
+
+--Conheces este nome: _miss Shorn?_
+
+--Não. Uma americana?
+
+--Uma irlandeza. Uma maravilha, O prefeito dançou com ella; a condessa
+Waleuska beijou-a na testa, Gustavo Doré prometteu-lhe um desenho. Vae ser
+apresentada nas Tulherias. No fim, queres que te diga? Acho-a
+insignificante. Bonitos cabellos, sim. Não se falla n'outra cousa! Mas tu
+deves conhecel-a...
+
+--Porque?
+
+--Tem dançado com Captain Rytmel, parecem intimos. Tu ris?
+
+--Eu?
+
+--Não... tu riste!
+
+--Nunca rio, senão quando quero chorar, minha querida!
+
+--_Tiens, tiens!_--murmurou ella, olhando muito para mim.
+
+E affastou-se. O meu pobre coração ficou em desordem. Ás vezes, na nossa
+alma, toca-se de repente a rebate, e as desconfianças adormecidas,
+acordam, tomam as suas armas, e fazem sobre nós um fogo cruel.
+
+--Captain Rytmel approximara-se.
+
+--Vem radiante, disse-lhe eu. Quem é miss Shorn?
+
+Elle respondeu gravemente:
+
+--É a amiga intima de minha irmã.
+
+Fomos dançar. Era uma quadrilha. Pareceu-me triste.
+
+Os movimentos da dança lembravam-me as cerimonias d'um culto. O meu ramo
+ficou espalhado pelo chão. N'esse instante, sem saber porquê, detestei
+Paris, o ruido, o imperio; desejei as sombras de Cintra, os retiros
+melancolicos de Bellas, cheios dos murmurios da agua.
+
+Quiz sair. N'uma das ultimas salas uma mulher alta, loira, tomava das mãos
+d'um velho extremamente magro e distincto a sua _sortie de bal_.
+
+Captain Rytmel, que me dava o braço, inclinou-se ao passar junto d'ella, e
+fallando baixo para mim:
+
+--Miss Shorn! disse elle.
+
+Era realmente linda. Grandes cabellos loiros, fortes, luminosos; os olhos
+largos, intelligentes, serios; um corpo perfeito.
+
+N'essa noite chorei. No meu quarto as luzes e o fogão estavam accesos.
+Entrei, fui ao espelho precipitadamente. Deixei cair dos hombros o
+_burnous_. Ergui a cabeça, olhei a medo. A minha imagem apparecia ao fundo
+do quadro n'um vapor luminoso. Achei-me feia. Olhei mais. Tinha os braços
+nús, a cabeça erguida em plena luz. Lentamente a consciencia de que eu
+estava linda assim, penetrou-me, encheu-me de alegria. É tão bom ser
+linda!
+
+D'ali a dois dias houve uma revista militar no campo de Longchamps.
+Captain Rytmel acompanhou-me. Eu tinha um logar na tribuna do _Jockey_.
+Havia uma enorme multidão. Estava a imperatriz, a córte, a diplomacia;--a
+tribuna resplandecia de fardas, de joias, de plumas, de reflexos de seda.
+As musicas, os clarins, o rufar altivo dos tambores, o surdo ruído dos
+batalhões em marcha, o luzir das bayonetas, as vozes de commando, o
+galopar dos cavallos, o brilho dos capacetes, o ceu resplandecente, como
+um largo pavilhão azul, tudo fazia palpitar, dava extranhos sentimentos de
+guerra e de gloria. E todo o corpo estremecia quando aquellas poderosas
+massas passavam gritando:
+
+--Viva o imperador!
+
+Sou uma pobre mulher, mas estremecia tambem!
+
+A infanteria tinha passado. Rytmel fôra fallar com miss Shorn, que estava
+em companhia de lady Lyons. O barão Werther, embaixador da Prussia, ficara
+collocado junto d'ella.
+
+Ia passar a artilheria e a cavallaria. O imperador, com o seu estado
+maior, tinha vindo collocar-se ao pé da tribuna do _Jockey_. Nós todos nos
+inclinavamos para ver os generaes que o cercavam: Montauban, o que tomára
+Pekim; Canrobert com os seus longos cabellos brancos; a espessa figura de
+Besaine; o altivo perfil trigueiro de Mac-Mahon, que viera da Algeria...
+
+Miss Shorn era tambem muito olhada na tribuna do _Jockey_. Dizia-se que a
+imperatriz lhe tinha sorrido e que madame de Talouet lhe mandara, sem a
+conhecer, um ramo de violetas do polo.
+
+Mas os olhos começavam a voltar-se para o fundo da planicie, d'onde a
+cavallaria devia partir, e corria um arrepio d'enthusiasmo perante um tão
+grande poder militar. N'essa manhã fallava-se em certas reservas entre o
+gabinete de Berlim e as Tulherias. Lembrava-se Sadowa, mil cousas que eu
+não sei; e olhava-se muito para o barão Werther, que sorria com o seu
+tumido sorriso prussiano.
+
+No entanto, a cavallaria formara em linha. Os clarins tocavam, as
+bandeiras desdobravam-se: e de repente aquella enorme massa despediu á
+carga cerrada do fundo do campo, para a tribuna do _Jockey_.
+
+Os capacetes, as couraças, as espadas, faiscavam ao sol. O chão tremia sob
+o compasso do galope. Sentia-se já o tinir dos ferros. Distinguiam-se já
+os coroneis, esbeltos moços condecorados. Ouvia-se o respirar offegante
+dos cavallos. O imperador tinha-se descoberto, todos na tribuna estavam de
+pé... De repente, por um movimento unico, toda aquella enorme columna
+estacou firme, vibrante, immovel, reluzente, agitando as espadas, e
+gritando:
+
+--Hurrah! Viva o imperador!
+
+A tribuna, de pé, respondeu:
+
+--Hurrah!
+
+Então, vendo uma tão admiravel cavallaria, uma tão grande força, tanto
+prestigio imperial, e tomados do indomavel orgulho das tradições ou
+possuidos da febre do sangue militar, muitos officiaes, que estavam nas
+outras alas, adiantaram-se, e elevando as espadas, gritaram:
+
+--A Berlim! a Berlim!
+
+Por todo o campo se ouviam agora gritos exaltados:
+
+--A Berlim! a Berlim!
+
+E na tribuna algumas vozes clamavam tambem:
+
+--Sim, sim, a Berlim!
+
+O imperador então, erguendo-se nos estribos, estendeu a mão aberta como
+impondo silencio, ou como dizendo: _Esperae!_
+
+Áquele grito inesperado todo o estado maior se tinha apertado em torno do
+imperador, e eu que estava nos primeiros bancos da tribuna, vi o marechal
+Mac-Mahon deter subitamente o cavallo, voltar meio corpo rapidamente, e
+com a mão apoiada no xairel escarlate bordado a ouro, que cobria a anca do
+animal, erguer os olhos meio risonhos para o lado da tribuna em que estava
+o embaixador da Prussia. Eu segui o olhar do marechal, olhei tambem, e
+vi... como hei de dizel-o? Vi Rytmel. Vi-o junto de miss Shorn, curvado,
+fallando-lhe, sorrindo-lhe, absorto, afogado na luz dos seus olhos. Ella
+olhava-o, extremamente séria, com um longo olhar demorado e convencido, em
+que eu vi todo o fim da minha vida!
+
+
+II
+
+
+D'hai a dez dias o conde chegou; partimos para Portugal. Durante esse
+tempo que ainda estive com Rytmel em Paris, nem eu trahi as minhas
+duvidas, nem elle mostrou preoccupações alheias aos interesses do nosso
+amor.
+
+Vim para Lisboa; recebia regularmente cartas d'elle. Estudava-as,
+decompunha as phrases palavra por palavra para encontrar a occulta verdade
+do sentimento que as creára. E terminava sempre--meu Deus!--por descobrir
+uma serenidade gradual no seu modo de sentir. Rytmel escrevia-me com muito
+espirito e com muita logica para poder pôr o coração no que escrevia.
+Evidentemente o seu amor passava da paixão para o raciocinio. Criticava-o:
+prova de que não estava dominado por elle. Tinha até já palavras
+engenhosas e litterarias. Valia-se da rethorica! Ao mesmo tempo a sua
+lettra tornava-se mais firme; já não eram aquellas linhas tortas,
+convulsivas e arrebatadas que palpitavam, que me envolviam... Era um
+infame cursivo inglez, pausado e correcto. Já me não escrevia como d'antes
+em papel d'acaso, em folhas de carteira, em pedaços de cartas velhas, que
+denotavam as inspirações do amor, os sobresaltos repentinos da paixão:
+escrevia-me em papel Maquet, perfumado! Pobre querido, o que o seu coração
+tinha de menos em amor tinha de mais o seu papel em _marechala!_
+
+E eu? É talvez occasião de fallar aqui do meu sentimento. Duvidei fazel-o.
+Não queria collocar o meu coração sobre esta pagina como n'uma banca de
+anatomia. Mas pensei melhor. Eu já não sou _alguem_. Não existo, não tenho
+individualidade. Não sou uma mulher viva, com nervos, com defeitos, com
+pudor. Sou um _caso_, um _acontecimento_, uma especie de _exemplo_. Não
+vivo da minha respiração, nem da circulação do meu sangue: vivo
+abstractamente, da publicidade, dos commentarios de quem lê este jornal,
+das discussões que as minhas maguas provocam. Não sou uma mulher, sou um
+_romance_.
+
+
+III
+
+
+Não pense que digo isto com amargura. A maior alegria que eu posso ter é a
+anniquilação da minha individualidade.
+
+Por isso não tenho escrupulos. As almas extremamente desgraçadas são como
+as creancinhas: devem mostrar-se nuas.
+
+Além de tudo supponho que estas paginas podem ser uma revelação proveitosa
+para aquellas que estejam nas illusões da paixão. Que me escutem pois!
+
+São 11 horas da noite. N'este momento quantas sei eu que soffrem, que
+esperam, que mentem, possuidas de um sentimento, que pouco mais lhes dá do
+que a felicidade de serem desgraçadas! Tu, minha pobre J..., mulher de
+discretos martyrios, a quem tantas vezes vi os olhos pisados das lagrimas!
+tu pobre Th..., que tens passado a tua vida a tremer, a receiar, a
+humilhar-te, a espreitar, e a fugir..., vós todas que estaes envolvidas
+pelo elemento cruel da paixão, quasi fóra da vida, e em lucta com a
+verdade humana, vós todas escutae-me!
+
+Desde que amei, a minha vida foi um desequilibrio perpetuo. Não era
+voluntariamente que eu cedia á attracção, era com uma repugnancia altiva.
+Mil cousas choravam dentro em mim, soffria sobretudo o orgulho. Era
+impossivel fazer com elle uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda.
+Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim,
+esbofetea-me o coração.
+
+O que eu soffri! o que eu córei! Córei diante da minha pobre Joanna, da
+minha velha ama, um anjo cheio de rugas, que sabe sobretudo amar quando
+tem de perdoar! Córava diante das minhas criadas. Julgava-me feliz quando
+ellas me sorriam, tremia quando lhes via o aspecto serio. Dava-lhes
+vestidos, ensinava-lhes penteados. Saíam ás vezes de tarde, recolhiam alta
+noite; eu córava profundamente no meu coração, e sorria-lhes.
+
+O olhar dos homens era-me insupportavel: parecia-me envolver uma affronta.
+Imaginava que era publica a aventura do meu coração, que era julgada como
+uma creatura de paixões faceis, o que dava a todos o direito de me fazerem
+córar. Quantas vezes sahi do theatro afogada em lagrimas! Analysava os
+gestos, os olhares, os movimentos dos labios. «Fulana olhou-me com desdem!
+Aquelle riu-se insolentemente, quando eu passei! Aquell'outra affectou não
+me ver.» Se n'uma modista, ao escolher um vestido, me diziam: «Esta côr é
+alegre, é bonita!» eu pensava commigo: «Bem sei, aconselham-me as côres
+vivas, ruidosas, as côres do escandalo, o género _artiste!_» E saía,
+fechava os _stores_ do meu _coupé_, chorava desafogadamente.
+
+Não me atrevia a beijar uma creança; olhava-a com uma ternura ineffavel,
+ia a tomal-a nos braços, mas dizia commigo: «Deixa esse pobre anjinho, não
+és bastante pura para lhe tocar!»
+
+Devo dizer tudo. Córava diante do meu cocheiro! Sorria-lhe com o maior
+carinho: temia a todo o momento uma má resposta, uma audacia, uma palavra
+accusadora. Quando eu entrava para a carruagem, e elle se erguia
+respeitosamente, eu ficava tão satisfeita d'aquella prova de attenção, que
+tinha vontade de o abraçar...
+
+Acha odioso, não?
+
+Defino o meu estado por uma palavra precisa e terrivel: quando meu marido
+me apertava expansivamente a mão, eu soffria tanto como se o outro me
+atraiçoasse!
+
+Ai de mim! Quantas vezes quiz eu consolar o meu orgulho, pensando nas
+glorias dramaticas do soffrimento e do martyrio! Quantas vezes me comparei
+ás figuras lyricas da paixão, que contam as legendas da sua dôr ao ruido
+das orchestras, á luz das rampas, e que são _Traviata, Lucia, Elvira,
+Amelia, Margarida, Julietta, Desdemona!_ Ai de mim! mas onde estavam os
+meus castellos, os meus pagens, e o ruido das minhas cavalgadas? Uma pobre
+creatura que vive da existencia do Chiado, que veste na _Aline_, que
+glorificações pode dar á sua paixão?
+
+E depois é cruel, e é forçoso dizel-o: ha sempre um momento em que uma
+mulher pergunta a si mesma se realmente são as grandes qualidades moraes
+do seu amante que a dominaram. Porque então haveria justificações. E ha
+uma profunda humilhação em nossa consciencia quando nos chegamos a
+convencer de que, se amamos um homem, não foi só a nobreza das suas idéas
+e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um _não sei quê_, em
+que entra talvez a côr do seu cabello e o nó da sua gravata. Sejamos
+francas; para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas
+inclinações? Para que havemos de colorir de ideal a origem vulgar das
+nossas preferencias? Não quero dizer que as elevações moraes não sejam um
+auxiliar poderoso á sympathia instinctiva; mas o que na realidade nos
+domina é o exterior de um homem. Que todas as que lerem estas confidencias
+dolorosas se consultem no silencio do seu coração e digam o que determinou
+n'ellas a sensação: se foi o caracter ou se foi a physionomia. E as que
+forem francas dirão que na sua vida influiu talvez mais a côr de um
+_frack_, do que a elevação de um espirito.
+
+Sim, digo-o, francamente, d'aqui d'este canto do mundo, em que o ruido das
+cousas tem o som ôco da tampa de um esquife: os desvarios do coração em
+nós outras, nada os absolve, quasi nada os explica.
+
+Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tedio assaltadas de
+chimeras; tive os meus romances intimos, que nasciam, soffriam, morriam
+entre duas flores do meu bordado. Creei aventuras, dramas apaixonados e
+fugas dramaticas, aconchegadamente encolhida na minha poltrona, ao canto
+do fogão.
+
+Conheci mais tarde muitos caracteres femininos e a historia de muitas
+sensibilidades. Experimentei eu tambem os sobresaltos da paixão--e nunca
+vi, nunca soube que estas imaginações, que estas _attracções_ nascessem de
+uma verdade da natureza, da logica das circumstancias, da irreparavel
+acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo ephemero,
+romantico, litterario, ficticio, que habita no cerebro de todas as
+mulheres.
+
+Vejo-o d'aqui a sorrir... Não se admire de me ver fallar assim. Lembra-se
+d'aquellas conversações tão intimas e tão sérias na rua de...? Lembra-se
+do terraço de _Clarence-Hotel_, em Malta, quando a lua silenciosa cobria o
+mar? Não se recorda das minhas idéas então e d'aquellas imaginações que eu
+denominava gloriosamente os meus _systemas_? Não se lembra que me chammava
+então _philosopho loiro_? O _philosopho_ sentiu, chorou, soffreu, teve por
+isso o melhor estudo. Que maior ensino que as lagrimas? A dôr é uma
+verdade eterna, que fica, emquanto as theorias passam. Não imagina o que
+tenho aprendido da vida desde que sou desgraçada! Não imagina quantas
+idéas rectas e precisas saem das incoherencias do pranto!
+
+Por isso hoje não creio em certas fatalidades, com que as mulheres
+pretendem esquivar-se á responsabilidade. Não creio no que se chama
+theatralmente _as fatalidades da paixão_. A vontade é tudo; é um tão
+grande principio vital como o sol. Contra ella _as fatalidades_, as
+febres, o ideal, quebram-se como bolas de sabão.
+
+Respondem-me chorando: _a fatalidade!_ Mas, meu Deus! tomemos um
+exemplo,--a aventura trivial, a commum, o que se poderia chammar a
+_aventura typo_, o que se vê todos os dias, em qualquer rua, no primeiro
+numero par ou impar... a aventura que nós acotovellamos no passeio, que
+toma comnosco neve na confeitaria Italiana, e que se enterra ao pé de nós
+no Alto de S. João.
+
+A scena é simples, de tres personagens. Eu, por exemplo, sou a mulher. Meu
+marido é um homem honesto e trabalhador. Cança-se, lucta, prodigaliza-se:
+logo de manhã sae para o seu escriptorio, ou para o seu jornal, ou para o
+seu officio, ou para o seu ministerio; cercea o seu somno, almoça á
+pressa, quebra o seu descanço. Todo elle é attenção, vigilia, trabalho,
+sacrificio. Para quê?
+
+Para que os nossos filhos tenham uns _bibes_ brancos, e uma ama aceada;
+para que as minhas cadeiras sejam de estofo e não de páu; para que os meus
+vestidos sejam de seda e talhados na _Marie_, e não de chita e cosidos
+pelas minhas mãos, de noite, a um candieiro amortecido.
+
+Meu marido é um homem honesto, sympathico, serio, affavel. Não usa pós de
+arroz, nem _brilhantine_, não tem gravatas de apparato, não tem a extrema
+elegancia de ser moço de forcado, não escreve folhetins; trabalha,
+trabalha, trabalha! Ganha com o seu cançasso, com os seus tedios, em horas
+pesadas e longas, o jantar de todos os dias, o vestuario de todas as
+estações. A sua consolação sou eu, o centro da sua vida sou eu, o seu
+ideal e o seu absoluto sou eu! Não faz poemas romanticos, porque eu sou o
+seu poema intimo, a musa dos seus sacrificios; não tem aventuras porque eu
+sou a sua esposa; não tem viagens gloriosas pelos desertos nem o prestigio
+das distancias, porque o seu mundo não é maior do que o espaço que enche o
+som da minha voz; não ganhou a batalha de Sadowa mas ganha todos os dias a
+terrivel e obscura batalha do pão dos seus filhos...
+
+É justo, é bom, é dedicado. Dorme profundamente porque o seu cançasso é
+legitimo e puro; gosta da sua _robe de chambre_ porque trabalhou todo o
+dia. Julga-se dispensado de trazer uma flôr na _boutonniére_ porque traz
+sempre no coração a presença da minha imagem.
+
+Pois bem! que faço eu?
+
+Aborreço-me.
+
+Logo que elle sae, bocejo, abro um romance, ralho com as criadas, penteio
+os filhos, torno a bocejar, abro a janella, olho.
+
+Passa um rapaz, airoso ou forte, louro ou trigueiro, imbecil ou mediocre.
+Olhamo-nos. Traz um cravo ao peito, uma gravata complicada. Temo o cabello
+mais bonito do que o do meu marido, o talhe das suas calças é perfeito,
+usa botas inglezas, pateia as dançarinas!
+
+Estou encantada! sorrio-lhe. Recebo uma carta sem espirito e sem
+grammatica. Enlouqueço, escondo-a, beijo-a, releio-a, e desprezo a vida.
+
+Manda-me uns versos--uns versos, meu Deus! e eu então esqueço meu marido,
+os seus sacrificios, a sua bondade, o seu trabalho, a sua doçura; não me
+importam as lagrimas nem as desesperações do futuro; abandono probidade,
+pudor, dever, familia, conceitos sociaes, relações e os filhos, os meus
+filhos! tudo--vencida, arrastada, fascinada por um soneto errado, copiado
+da _Grinalda_!
+
+Realmente! É a isto, minhas pobres amigas, que vós chamaes--_fatalidade da
+paixão!_
+
+E no emtanto como corresponde elle a este sacrificio terrivel?
+
+Como tem uma aventura, não póde occultar a sua alegria, toma ares
+mysteriosos, provoca as perguntas; compromette-me; deixa-me para ir
+esperar os touros em intimidades ignobeis; mostra as minhas cartas em cima
+da mesa de um café, ao pé de uma garrafa de cognac; jura aos seus amigos
+que me não _ama_, e que é--_para se entreter_; e se meu marido o chicotear
+no meio do Chiado, como é vil, cobarde, vulgar e imbecil, irá queixar-se á
+Boa Hora!
+
+_Et voilá D. Juan!..._
+
+Não! é necessario demolir pelo ridiculo, pela caricatura, pelo chicote e
+pela policia correccional, esse typo indigno que se chama o
+_conquistador_. O _conquistador_ não tem attracção, nem belleza, nem
+elevação, nem grandeza como typo,--e como homem não tem educação, nem
+honestidade, nem maneiras, nem espirito, nem _toilette_, nem habilidade,
+nem coragem, nem dignidade, nem limpeza, nem orthographia...
+
+Perdôe-me, meu primo, estas exaltações. Sou impressionavel, vou como se
+costuma dizer--_atraz da phrase_. Esqueço ás vezes as minhas dôres
+modernas, para me lembrar das minhas velhas indignações.
+
+E pensa que, por condemnar estes amores triviais, eu me absolvo a mim?
+Não. Apesar de ter amado um homem de todo o ponto excellente, cuja
+superioridade d'espirito o meu primo conhecia e amava, d'uma distincção
+tão perfeita e tão completa; posto que a nossa affeição tivesse vivido
+n'um meio tão elevado, tão nobre, tão altivo,--apezar de tudo, eu tenho-me
+por tão condemnavel como aquellas de quem fallei,--e julgando-me sem
+justiça e fóra da graça, faço penitencia diante do mundo.
+
+
+IV
+
+
+E quanto, quanto soffri então, na modestia da minha vida, no apartamento
+do meu segredo! Quanto desejei ser uma pobre costureira que leva o seu
+filho pela mão!
+
+Dentro do meu _coupé_, puxado a largo trote á saida do theatro, envolvida
+n'um cachemire, com uma pelle de martha nos pés, e um aroma doce na seda
+das almofadas, quantas vezes invejei as pequenas burguezas que saíam das
+torrinhas, embrulhadas em disformes mantas de agazalho, pisando a lama!
+
+No dia em que recebia cartas d'elle, saía de Lisboa, fugia, ia para o
+campo! Levava-as, amarrotadas e beijadas, ia para a quinta de...,
+penetrava nas sombras espessas, ali ficava, longo tempo, envolta no calor
+tépido do sol, entorpecida pelo rumor sereno das ramagens, e pelo
+murmuroso correr da agua nas bacias de pedra!
+
+Oh doce vida das arvores e das plantas! passividade da relva,
+irresponsabilidade da agua, pacifico somno dos musgos, suave pousar da
+sombra! quantas vezes me consolastes, e me ensinastes a soffrer calada!
+quantas vezes invejei a immobilidade do vosso ser!
+
+Era ali, só, relendo essas cartas crueis, que eu sentia o amor d'aquelle
+homem fugir-me como a agua de um regato que se quer tomar entre os dedos.
+
+Que me restaria então?
+
+Voltar outra vez á serenidade legitima da vida? Não podia, ai de mim!
+estava para sempre expulsa do paraizo pacifico da familia, da casta sombra
+do dever. Lançar-me nas aventuras e na revolta? Meu Deus! isso repugnava
+tanto ao meu caracter como o contacto d'um animal viscoso á pelle do meu
+peito.
+
+Ficava pois sem situação na vida. Não tinha n'ella um logar definido.
+Entrava n'essa legião dolorosa e tristemente miseravel--_das mulheres
+abandonadas_.
+
+A minha unica honestidade agora devia ser conservar-me captiva d'aquelle
+sentimento. A minha unica absolvição estava na verdade da minha paixão.
+Quanto mais me separasse do mundo e me désse ao meu amor; mais me
+approximava da dignidade. Nas situações definidas e corajosas ha sempre um
+lado honesto; o que repugna ao instincto casto são as conciliações
+hypocritas. A posição que me restava, era ser de Rytmel, só d'elle e para
+sempre: e eu sentia que elle se ia lentamente affastando de mim como eu me
+affastava de meu marido.
+
+Era a minha entrada na expiação.
+
+N'estes amores, o castigo não vem só do mundo: elles mesmo conteem os
+elementos da justiça cruel. O coração é o primeiro castigado pela mesma
+paixão. A punição da falta contra a honra vem mais tarde pelos juizos dos
+homens.
+
+Eu estava então diante da maior miseria moral em que se póde encontrar uma
+mulher n'estas condições lamentaveis.
+
+Eu amava Rytmel, Rytmel queria casar.
+
+Que faria, meu Deus? Iria em nome da minha paixão desviar aquella
+existencia de homem, da linha natural, simples, humana, que leva ao
+casamento, á familia, ao dever?
+
+Devia eu impedir que elle casasse? Mas não era isto impedir, abafar a
+legitima expansão da sua vida? Não era proscrevel-o das fecundas e serenas
+alegrias da familia, para o ter preso nos asperos, nos estereis
+sobresaltos de uma paixão romantica?
+
+Tinha eu o direito de sequestrar aquelle homem para uso exclusivo do meu
+coração, encarceral-o dentro d'uma ligação illegitima e secreta, onde elle
+se esterilisaria, onde os seus talentos e as suas qualidades se
+enferrujariam como armas inuteis, e toda a sua acção social se limitaria a
+seguir o _frou-frou_ dos meus vestidos? Não dava isto ao meu sentimento um
+aspecto de egoismo animal? Não tirava isto ao meu amor a melhor qualidade:
+a virtude do sacrificio?
+
+Poderia eu prival-o de ter um dia os filhos, que fossem a continuação do
+seu ser e a sua immortalidade? Podia eu prival-o em nome do meu ideal de
+ter na velhice aquella doce e branca companheira, sob cujo olhar pacifico,
+o homem justo espera, socegado, o nobre momento da morte?
+
+E era só isto?... Póde um espirito sincero acreditar na duração d'estes
+amores exaltados, feitos de sensibilidades e de martyrios, que não têem o
+dever por base, e têem a traição por origem? E por dois ou tres annos mais
+que esta aventura continuaria, tinha eu o direito de ir quebrar o destino
+da _outra, d'ella_, pobre rapariga, que o amava, que edificava a sua vida
+sobre o coração d'elle, que se preparava para ser no lar, e para sempre, a
+presença da graça e a consciencia viva? Não: isto não podia ser.
+
+Mas por outro lado, era justo que eu, tendo sacrificado por elle tudo,
+desde o pudor intimo até á honra social, fosse agora arremessada como uma
+luva velha?
+
+Eu que tinha sido tudo quando se tratava da sua imaginação, não seria nada
+agora porque se tratava do seu interesse? Não me exilara eu por elle, do
+paraizo domestico? Por elle não renunciara as alegrias pacificas da vida,
+e a sublime esperança d'uma morte digna? Como eu tinha sacrificado por
+elle a honra d'um homem, não podia elle sacrificar por mim as esperanças
+romanescas d'uma creança? Era justo ter-me trazido enganada, envolvida,
+como n'um arminho, nas apparencias do amor, ter-me conduzido com os olhos
+vendados, attrahida, suspensa do rythmo dos seus passos, a um logar
+perigoso, a uma situação intoleravel, e chegando ahi dizer-me: «Adeus
+agora! eu vou para a felicidade. Tu fica; mas cuidado, que para traz não
+pódes voltar; e se deres um passo para diante, vaes abysmar-te na
+infamia!».
+
+Não, isto não deve ser: o amor não é uma creação litteraria, é um facto da
+natureza: como tal produz direitos, origina deveres. E os direitos do amor
+não os abdico.
+
+Pois quê! Por causa da _outra_! Hei de dar tamanha consideração ás
+lagrimas que choram dois olhos alheios, que nunca vi, que estão a duzentas
+leguas de distancia e não hei de apiedar-me das minhas lagrimas, que
+escorrem aqui na minha face, e que eu aparo na tremura das minhas mãos!
+
+«És casada» dizem-me. O que! Porque perdi mais, devo ser attendida menos!
+Eu, que vivo quasi fóra do mundo, sem estar ligada a nenhuma d'estas
+cousas superiores que amparam a vida, suspensa sobre a morte por um leve
+fio, por este amor unico, é por isso que devo ir com as minhas mãos
+quebrar esse fio, quebrar esse amor!
+
+Ha algum direito humano que exija isto de mim? Ha alguma piedade que o
+veja friamente? Ha alguma consciencia que o justifique? Se ha, essa
+consciencia poderia ensinar a serem duros os rochedos do mar!
+
+Mas, meu primo, tudo isto é aqui, n'este papel em que lhe escrevo. Porque
+na realidade eu não podia luctar com _ella_! _Ella_ era a _miss_, a que
+havia de ser esposa e mãe,--vencia tudo! Elevava-se sobre as velhas
+affeições, sobre os velhos erros, como a imagem da virgem sobre o globo
+feito de barro e de lama, onde se enrosca a serpente.
+
+Nem tentei luctar!
+
+E foi por esse tempo que recebi uma carta em que elle me dizia: _Parto
+para Portugal._
+
+Que vinha fazer? O que era? Vinha despedir-se de mim? Vinha ver as minhas
+agonias? Vinha consolar-me? Vinha convencer-me? Vinha de novo dar-se
+captivo ao meu amor? Vinha. Nem elle mesmo sabia mais nada!
+
+
+V
+
+
+Rytmel chegou. A primeira vez que o vi foi em minha casa.
+
+O conde estava então em Bruxellas. Era noite e na minha sala de musica
+achavam-se reunidas algumas pessoas: a marqueza de... velha legitimista,
+que fôra a graça da córte toureira de D. Miguel; o visconde de... moço
+insignificante e vagamente loiro, que eu acolhia bem, porque sua irmã, que
+morrera, fôra a minha intima, a minha confidente de collegio.
+
+Viera tambem a viscondessa de... pequenita creatura petulante e mediocre,
+que tinha a graça de ter vinte annos, junta com a desgraça de os não saber
+ter e cuja especialidade era o querer parecer profundamente perversa,
+quando era apenas perfeitamente incaracteristica. Mas ao pé de mim,
+sentado n'um sophá com um abandono asiatico, estava um homem
+verdadeiramente original e superior, um nome conhecido--Carlos Fradique
+Mendes. Passava por ser apenas um excentrico, mas era realmente um grande
+espirito. Eu estimava-o, pelo seu caracter impeccavel, e pela feição
+violenta, quasi cruel, do seu talento. Fôra amigo de Carlos Beaudelaire e
+tinha como elle o olhar frio, felino, magnetico, inquisitorial. Como
+Beaudelaire, usava a cara toda rapada: e a sua maneira de vestir, de uma
+frescura e de uma graça singular, era como a do poeta seu amigo, quasi uma
+obra d'arte, ao mesmo tempo exotica e correcta. Havia em todo o seu
+exterior o que quer que fosse da feição romantica que tem o _Satan_ de Ary
+Sheffer, e ao mesmo tempo a fria exactidão de um _gentleman_. Tocava
+admiravelmente violoncello, era um terrivel jogador d'armas, tinha viajado
+no Oriente, estivera em Meca, e contava que fôra corsario grego. O seu
+espirito tinha um imprevisto profundo e que fazia scismar: fôra elle que
+dissera da pallida duquesa de Morny: _elle a la bêtise melancolique d'un
+ange._ O imperador citava muitas vezes este dito, como sendo
+conjunctamente a critica profunda de uma physionomia e de um caracter.
+
+Carlos Fradique tinha por mim uma amisade elevada e sincera. Chamava-me
+_seu querido irmão_. Conhecia-me desde pequena, andara commigo ao colo. Em
+Paris tornou-se celebre; era o que se poderia chamar um _philosopho do
+boulevard_. Tinha sido _l'ami de coeur_ de Rigolboche, e quando ella
+rompeu por se ter apaixonado por _Capoul_, Carlos Fradique deixou-lhe no
+album uns versos quasi sublimes, de um desdem cruel, de um comico lugubre,
+uma especie de _Dies irae_ do dandysmo... Promettia á Rigolboche que
+quando ella morresse elle velaria para que ainda além do tumulo ella
+vivesse no _chic_, sentindo Paris na sepultura. Algumas das estrophes que
+elle traduziu para mim, e que depois se publicaram, fizeram sensação e
+escola...
+
+ E eu qu'inda te amo, ó pallida canalha,
+ Que sou gentil e bom,
+ Far-te-hei enterrar n'uma mortalha
+ Talhada á _Benoiton_!
+ Irei á noite com Marie Larife,
+ Venus do macadam,
+ Fazer sentir ao pó do teu esquife
+ Os gostos do cancan...
+ E no tempo das _courses_, p'lo verão
+ --Assim t'o juro eu--
+ Irei dar parte á tua podridão
+ Se o _Gladiador_ venceu...
+
+Eram dez horas. Carlos Fradique, com uma voz impassivel, quasi languida,
+contava as situações monstruosas de uma paixão mystica que tivera por uma
+negra antropophaga. A sua veia, n'aquelle dia, era toda grotesca.
+
+--A pobre creatura, dizia elle, untava os cabellos com um oleo ascoroso.
+Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado d'amor, approximei-me d'ella,
+arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nú. Queria fazer-lhe aquelle
+mimo! Ella cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne,
+mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado,
+feliz em soffrer por ella. Suffoquei a dôr, e estendi-lhe outra vez o
+braço...
+
+--Oh! sr. Fradique! gritaram todos, escandalisados com a invenção
+monstruosa.
+
+--Comeu mais, continuou elle gravemente, gostou e pediu outra vez.
+
+Fallava com um sorriso fino, quasi beatifico. Nós iamos revoltar-nos
+contra a cruel excentricidade d'aquella historia.
+
+N'este momento vi á porta da sala, trémula, com um grande espanto nos
+olhos, chamando-me baixo, a minha criada Betty. Fui: ella tomou-me pela
+mão, foi-me levando, e no corredor, olhando com receio, abrindo n'um
+grande pasmo os braços, disse-me ao ouvido:
+
+--É elle!
+
+Encostei-me desfallecidamente á parede, sentindo parar o coração.
+
+Betty, com passos discretos foi abrir a porta do meu _toillette_. Entrei.
+De pé junto d'uma mesa, extremamente pallido, estava elle. Apertei as mãos
+sobre o peito, fiquei immovel, suspensa. Elle caminhou para mim com os
+braços abertos, para me envolver; eu deixei-me cahir aos seus pés, e
+calada beijei-lhe os dedos. Elle tinha ajoelhado commigo, e com as mãos
+enlaçadas, os olhos confundidos, choravamos ambos. Eu só dizia n'um
+murmurio de lagrimas:
+
+--Ha tanto tempo!...
+
+--Minha senhora, minha querida menina, dizia Betty da porta, e aquella
+gente, santo Deus, que ha de dizer?
+
+Eu não a escutava. Foi elle que disse sorrindo:
+
+--Tem razão, Betty, tem razão! É necessario voltar á sala.
+
+E deu-me o braço. Entrámos: elle grave, eu meio desfallecida, abstracta,
+com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso vago nas feições.
+
+Disse o nome de captain Rytmel, e a sua antiga amisade com o conde. Vi a
+marqueza sorrir levemente.
+
+E voltando-me para Rytmel:
+
+--O sr. Carlos Fradique, disse eu, antigo pirata.
+
+Os dois homens apertaram a mão.
+
+--A senhora condessa lisongeia-me extremamente. Eu fui apenas corsario,
+disse Carlos.
+
+Sentei-me ao piano acordando, a fugir, o teclado. Assim via bem Rytmel. A
+luz envolvia-o. Estava mais pallido, o seu rosto apresentava linhas mais
+graves. A testa tinha perdido a sua pureza: havia uma ruga estreita e
+funda que a dominava.
+
+Fradique continuava fallando. Agora fazia a critica das mulheres do Norte.
+
+--A irlandeza, dizia elle, tem mais que nenhuma mulher, a graça... Sobre
+tudo a que vive junto dos lagos! A melhor religião, a melhor moral, a
+melhor sciencia para um espirito feminino--é um lago. Aquella agua
+immovel, azul, pallida, fria, pacifica, dá um extremo repouso á alma, uma
+necessidade de cousas justas, um habito de recolhimento e de pensamento,
+um amor da modestia e das cousas intimas, o segredo de ser infinito, sendo
+monotono, e a sciencia de perdoar... Exijo na mulher com quem casar, que
+tenha as unhas rosadas e polidas, e um anno de convivencia com um lago!
+
+Eu vi Rytmel córar de leve e torcer nervosamente o bigode.
+
+Pelo lucido instincto da paixão, comprehendi que entre aquella
+glorificação dos lagos, e os occultos pensamentos de Rytmel, havia uma
+affinidade. Lembrou-me a revista de Longchamps, os louros cabellos
+irlandezes de miss Shorn, e voltando-me para Carlos Fradique:
+
+--Meu caro amigo, um pouco do seu violoncello, sim?
+
+A sala abria sobre os jardins. A placida respiração do vento fazia arfar
+as cortinas. Carlos Fradique começou a tocar uma ballada das margens do
+mar do norte, de um encanto singularmente triste. Sentia-se o chorar das
+aguas, o feerico correr das ondas, o compassado bater dos remos de um
+pirata norvegio, a fria lua. Eu tinha ido com Rytmel para junto da
+varanda, e emquanto a pequena melodia soava nas cordas do violoncello,
+lembravam-me as antigas cousas do meu amor, o _Ceylão_, as noites
+silenciosas em que elle me jurava a verdade da sua paixão e a voz do mar
+parecia uma affirmação infinita; lembravam-me os terraços de Malta batidos
+da lua, as moitas de rosas de _Clarence-Hotel_, os prados suaves de Ville
+d'Avray; via-o ferido, pallido sobre as suas almofadas; via-o a bordo do
+_Romantic_, commandando as manobras da fuga, chorando os desastres do
+amor... E estas memorias emballavam-se no meu cerebro, confundidas com as
+melodias do violoncello.
+
+
+VI
+
+
+Ao outro dia eu devia encontrar-me com elle n'essa fatal casa n.^o... Fui,
+como sempre, toda vestida de preto, envolta n'um grande veu. Estava
+extremamente pallida, palpitava-me o coração de susto. Era aquelle um
+momento de transe. Eu decidira ter com Rytmel uma explicação clara,
+definitiva, sem equivocos... Uma palavra que elle dissesse, sêcca ou
+indifferente, um gesto impaciente, e eu considerar-me-hia como abandonada,
+exilada da vida; retirava-me para um _chalet_ da Suissa, ou para
+Jerusalem, ou para a melancolia d'um claustro no sul da França. Tinha
+determinado assim a solução do meu destino.
+
+Quando cheguei á casa n.^o... elle não estava ainda. Fiquei alli muito
+tempo, immovel n'uma cadeira. Os ruidos da rua chegavam-me como no fundo
+d'um sonho. A sala tinha uma luz esbatida, atravez dos vidros foscos como
+os globos dos candieiros. Eu sentia aquella impressão indefinida, que nos
+vem quando estamos durante muito tempo n'um logar socegado e triste,
+olhando o silencioso caír da chuva.
+
+De repente a porta gemeu docemente, elle entrou.
+
+Vinha do campo. Tinha colhido para mim um pequenino ramo de flôres miudas
+das sebes. Veio apoiar-se nas costas da minha cadeira, e deixou-m'as cahir
+no regaço...
+
+Depois, fallando-me baixo, junto da face:
+
+--Andei todo o dia a pensar em si, _á travers champs_.
+
+Não respondi, e com os olhos errantes nas côres do tapete, desfolhei
+cruelmente as pequeninas flôres dos prados. Tinha um contentamento amargo
+em torturar aquelles delicados seres, que vinham d'elle, e que me parecia
+terem d'elle aprendido a mentir.
+
+--Pensei constantemente em si, e o passeio foi encantador, repetiu com uma
+voz docemente insistente.
+
+Eu ergui os olhos para elle.
+
+--Responda-me: sabe mentir?
+
+--Mas, meu Deus, disse elle, affastando-se, parece que me quer hoje mal,
+minha querida filha!
+
+Não respondi; mas o meu regaço estava coberto de flôres mutiladas.
+
+Elle então ajoelhou ao meu lado, e tomando-me as mãos, espreitando os meus
+olhos impassiveis, ficou esperando, n'uma contemplação amante e paciente,
+que eu quebrasse aquella imobilidade. Eu sentia todo o meu ser pender para
+elle, n'uma attracção insensivel; mas dominava-me. Até que por fim elle
+ergueu-se lentamente, arremessou o corpo para um sofá, e ali ficou, como
+refugiado, folheando um volume de Musset, que estava sobre a mesa...
+
+Levantei-me, tirei-lhe arrebatadamente o livro das mãos:
+
+--Sabe o que é? Não o comprehendo, e é necessario que me diga, mas
+francamente, claramente, syllaba por syllaba, o que tem! Não me ama, é
+claro. Escusa de protestar. Vi-o logo pelo tom das primeiras cartas que me
+escreveu de Londres. E agora vejo-o pelo seu olhar, as suas menores
+palavras, o seu silencio, até. Ha uma cousa qualquer, não sei qual, mas
+ha. A verdade é que me abandona, que me não ama. É necessario que se
+explique. Isto não póde ser assim. Soffro. Se soubesse! chorei toda a
+noite...
+
+E recomecei a chorar deante d'elle, com soluços que me quebravam. Elle
+tinha-me tomado as mãos e dizia-me baixo as cousas mais tocantes, em que
+havia as ternuras do amante e as consolações do amigo. Affastei-o de mim,
+e comprimindo o pranto:
+
+--Não, não, é necessario que me diga claramente tudo. Eu não sei o que te
+quero perguntar ou não me atrevo talvez... Mas tu sabes o que me deves
+responder... Dize-me a verdade...
+
+Elle, cruzando os braços, respondeu-me, com uma extrema placidez:
+
+--Mas, minha querida amiga, a verdade é que as illusões do seu espirito
+são a nossa desgraça. Não é culpa sua, sei: é uma fatalidade do caracter
+feminino. É-lhes insupportavel a serenidade. Na vida pacifica procuram o
+romance, no romance procuram a dôr. É necessario que esses pequeninos e
+graciosos craneos tenham sempre a honra de cobrir uma tempestade. Que quer
+então que lhe diga? Não vim a Portugal espontaneamente? Não tem encontrado
+sempre ao seu lado o meu amor, fiel como um cão?--Que mais quer? Acha-me
+reservado, diz. E se eu tivesse as violencias d'Othelo, achava-me de certo
+ridiculo! De resto, sabe-o bem, amo-a! Digo-lh'o aqui, sentado n'um sofá,
+de sobrecasaca, em uma casa que tem numero para a rua, e vou d'aqui a
+pouco; n'um _coupé_, jantar, jogar talvez o xadrez, vestir--quem
+sabe?--uma _robe de chambre!_ É lamentavel tudo isto, bem sei. E é por
+isto que não tem confiança em mim? E diga-me francamente: se eu estivesse
+aqui nos paroxismos d'Antony, ou tivesse uma _toilette_ veneziana, ou se
+isto fosse uma abbadia feudal, ou se eu partisse d'aqui para conquistar
+Jerusalem, diga-me--tinha mais confiança?
+
+--Tudo isso não quer dizer nada.
+
+--Oh minha querida amiga...
+
+--A sua querida amiga, interrompi, nada mais pede que um coração franco e
+recto. São tudo pois imaginações minhas? Não ha nada que nos separe? Pois
+bem, vou dizer-lhe uma cousa e juro-lhe que é irremissivel, juro que o
+digo em toda a frieza do meu juizo, sem exaltação e sem paixão, com o
+discernimento mais livre, o calculo mais positivo...
+
+--Mas, meu Deus! Diga...
+
+--E esta resolução, acceita-a?
+
+--Uma resolução... E o que envolve ella?
+
+--Envolve a unica cousa possivel, a unica que me fará crer em si, com a
+mesma fé com que creio em mim. Acceita-a?
+
+--Mas como não hei de acceitar?...
+
+--Pois bem, comecei eu.
+
+E tomando-lhe as mãos, disse-lhe junto da face n'uma voz ardente como um
+beijo:
+
+--Fujamos ámanhã.
+
+Rytmel empallideceu levemente e retirando de vagar as suas mãos d'entre a
+pressão das minhas:
+
+--E sabe que é uma cousa irreparavel?
+
+--Sei.
+
+Elle sentara-se, com os olhos sobre o tapete, e eu no emtanto, de pé junto
+d'elle, com a minha mão pousada sobre o seu hombro, dizia-lhe como no
+murmurio de um sonho:
+
+--Pensava n'isto ha um mez. Vamos para Napoles. Vamos para onde quizer.
+Adoro-te... É como uma pessoa que se deixa adormecer. Adoro-te, e quero
+viver comtigo...
+
+Pousei-lhe a mão sobre a testa, ergui-lhe a cabeça, para ver a resposta
+dos seus olhos; estavam cerrados de lagrimas.
+
+--Meu Deus! Rytmel, tu choras...
+
+--Não, não, minha querida! estava pensando em minha mãe, que não torno
+talvez mais a ver... Acabou-se... Amo-te, amo-te... e... Avante!
+
+E tomou-me nos seus braços, ardentemente, como sellando um pacto eterno.
+
+
+VII
+
+
+Fui logo para casa, chamei precipitadamente Betty.
+
+--Betty, disse eu fechando a porta do quarto, Betty, depressa, quero
+dizer-te uma coisa. Não me digas que não...
+
+--Santo Deus! Socegue, descance, minha querida menina! Jesus, como vem
+pallida!
+
+--Betty, é uma cousa irreparavel... devia ser. Foi pensada a sangue frio.
+Vês como estou tranquilla, sem exaltação, sem nervos. É uma resolução
+digna. Betty, não me digas que não!...
+
+--Mas, minha rica senhora...
+
+--Não se podia voltar atraz. Demais, sou feliz assim, tão feliz, tão
+feliz!
+
+--Bem feliz, ao menos?
+
+--Doidamente. E se não fosse assim, morria...
+
+--Mas então...
+
+--Fugimos ámanhã.
+
+Ella estremeceu toda, deitou-me um grande olhar em que appareciam
+lagrimas, e suffocada, com as mãos juntas:
+
+--E eu?
+
+Atirei-me aos seus braços:
+
+--Pois havias de ficar, Betty? Tu vens comnosco, Betty.
+
+E correndo pelo quarto, abria os guarda-vestidos, tirando roupas, batendo
+as palmas, e gritando:
+
+--Arranja, Betty, arranja tudo. Depressa! Arranja, arranja!
+
+Mandei pôr a caleche. Eram quatro horas. Desci o Chiado. Ia alegre,
+triumphava: a minha vida apparecia-me, larga, cheia, explendida, coberta
+de luz. Entrei nas modistas, olhei, escolhi, comprei, com impaciencias de
+noiva, e recatos de conspirador. Apertei a mão a algumas amigas.
+
+--Partes? perguntavam-me.
+
+--Para França.
+
+--Com a guerra?
+
+--Não ha guerra. E havendo, não é interessante ver matar prussianos?
+
+Á porta do _Sassetti_, encontrei Carlos Fradique.
+
+--Sabe que parto ámanhã? disse-lhe eu.
+
+--Sabe que parto hoje? respondeu-me. Ia lá, apertar-lhe a mão.
+
+--Mas é inesperado isso! Vae para França? Para quê?
+
+--Ver os campos de batalha ao luar, ou aos archotes. Deve haver attitudes
+de mortos muito curiosas.
+
+--Mas vae debalde. Não ha guerra. É positivo. Por isso eu vou para Italia.
+
+--Vae para Italia?... Mas, então... Ah! Vae para Italia? Minha pobre
+amiga, quem sabe se isso devia ser! Em todo o caso, em qualquer parte, ou
+feliz, ou triste, para a consolar, ou para fazer um _trio_ com o meu
+violoncello, sou seu, _adesso e sempre_.
+
+Apertou-me a mão. Não sei porque, aquellas palavras deram-me uma sensação
+triste.
+
+Quiz ir ao Aterro. A tarde caía. A agua tinha uma immobilidade luminosa.
+Do outro lado os montes estavam esbatidos n'um vapor azulado e suave.
+Sobre o mar havia nuvens inflammadas, d'uma côr fulva, como no fundo d'uma
+gloria. Algumas velas passavam rosadas, tocadas da luz.
+
+Sentia-me vagamente melancolica. O rio, aquellas casas triviaes, todos
+aquelles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até ahi quasi
+inexpressivos, appareciam-me pela ultima vez que os via, com uma feição
+sympathica. Tive uma saudade piegas daquelles logares: quiz sorrir,
+escarnecer; mas a verdade era que aquella paisagem, o pesado hotel
+Central, o terraço de Braganza-hotel, a grosseira e escura rua do Arsenal,
+todas essas cousas alheias a mim, me despertavam inesperadamente o desejo
+instinctivo de tranquillidade, de familia, de situações pacificas, fazendo
+destacar no fundo da minha vida, n'um relevo negro, a aventura que eu ia
+intentar; e apparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que
+se despedem, faziam-me pensar nas cousas irreparaveis, no exilio e na
+morte!
+
+A minha carruagem subia a passo a rua do Alecrim. As luzes accendiam-se. O
+ceu estava ainda pallido.
+
+Uma senhora passou, só, a pé, levando uma creança pela mão: era uma mulher
+nova e distincta; parecia feliz. O pequenino, loiro, gordo, ria, palrava
+n'aquella linguagem mysteriosa e doce, que é o que ficou ainda na voz
+humana do _a b c_ do ceu.
+
+Como seria bom ser assim uma mulher pacifica, com um equilíbrio suave no
+coração, uma _toilette_ fresca, o amor das cousas justas, e um filho pela
+mão! Se eu fosse assim seria alegre, amavel, passearia, daria _bonbons_ ao
+meu pequerrucho, tral-o-hia vestido de côres leves, com uma flôr no cinto;
+conversaria com elle, e á volta, depois do cansaço do meu passeio, amaria
+a tranquillidade da minha vida. Elle adormeceria sobre o sofá. A janella
+estaria aberta. Grandes borboletas brancas voariam em volta do candeeiro;
+eu, ajoelhada, procuraria despil-o, sem o acordar, cantando, baixo, em
+segredo, uma melodia dormente de Mozart, e no entretanto a penna do pae
+rangeria, a um canto, sobre o papel. Ó perfumados paraizos da vida! como
+eu me affasto de vós!
+
+Assim pensava, quando cheguei a casa. No meio do meu quarto estavam
+fechadas, affiveladas, sobrepostas as minhas malas. Ao pé uma grande
+pelle, apertada na sua correia. Tudo estava prompto, deviamos partir na
+manhã seguinte. As minhas idéas simples debandaram.
+
+Senti um extremo desejo de liberdade, de mares abertos, de paizes extensos
+e distantes, que se atravessam ao galope da _posta_ ou na velocidade d'um
+_wagon_. Era noite. Não pedi luz. O luar entrava no quarto atravez das
+arvores do jardim. Sentei-me á janella.
+
+A minha situação appareceu-me então com o prestigio de um bello romance.
+Mil imaginações e phantasias cantavam no meu cerebro. Sentia-me á entrada
+de uma vida de perigos, de extasis, de glorias. Via-me na tolda de um
+paquete entre os perigos de um naufragio: ou n'uma serra espessa, por um
+grande luar, n'uma companhia de contrabandistas que cantam á Virgem; ou no
+silencio de uma caravana escoltada de _beduinos_, acampando no monte das
+Oliveiras, defronte de Jerusalem. Percorreria a Italia; entraria nas
+cidades ao galope dos cavallos, ao accender o gaz, quando a multidão enche
+os _corsos_ entre fileiras de altivos palacios da Renascença. Via-me em
+Napoles, na bahia, por um luar calmo: dormindo sob as vinhas em Ischia; ou
+na frescura das grutas do Pausilippo, onde ainda choram as nayades... A
+porta abriu-se de repente, um criado entrou com uma carta. Não vi a letra
+do _enveloppe_, não olhei sequer, mas sentia-a! Veiu luz. Era verdade, era
+de Rytmel! Tive-a longo tempo na mão, incerta, trémula. Pul-a em cima da
+pedra d'uma _console_, fui olhar-me ao espelho, vi-me pallida. No emtanto
+a carta attrahia-me, parecia-me que luzia sobre o marmore branco. Tomei-a,
+pesei-a, senti-lhe o aroma, e de vagar, cançada, suspirando, com os braços
+vergados ao peso d'ella, fui-a lentamente abrindo.
+
+
+VIII
+
+
+Transcrevo textualmente essa carta terrivel:
+
+«Querida:--Tenho aqui no meu quarto, diante de mim, as minhas malas
+fechadas e afiveladas: Tenho o meu passaporte... É verdade! não te
+esqueças de tirar o teu. Escrevi a minha mãe. Escrevi a um amigo querido,
+que vive na intimidade da minha vida. Por isso bem vês que te escrevo, na
+austera firmeza da tua resolução. Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso
+na minha mão, como um passaro, ou como uma luva: posso pousal-o sobre a
+tolda d'um paquete, pol-o n'uma mesa de jogo em cima d'uma carta,
+collocal-o na ponta d'uma espada, ou fechar-t'o na mão e dar-t'o. Mas tu
+pelas condições da tua vida tens um logar definido no mundo, limitado e
+circumscripto. Estás presa, por um annel de casamento, a uma ordem de
+cousas, a um certo numero de leis, e és na vida como um navio ancorado no
+mar. Por isso é justo que antes de te separares violentamente do teu
+centro legitimo, eu, que tenho a experiencia das desgraças, das viagens, e
+do espectaculo do mundo, te diga algumas palavras, que, se não me tornarem
+mais amado ao teu coração, tornar-me-hão mais estimado ao teu caracter.
+Fias-te de mais no amor, minha doce amiga! Abstrae n'este momento de mim,
+da minha honra e da minha fidelidade. Fallo do amor, lei ou mysterio ou
+symbolo, força natural ou invenção litteraria. Fias-te de mais no amor!
+Aquelle amparo superior, aquelle apoio solido e protector, que todo o
+espirito procura no mundo, e que uns acham na familia, outros na sciencia,
+outros na arte, tu parece quereres encontral-o sómente na paixão, e não
+sei se isso é justo, se isso é realisavel!
+
+Creio que te fias de mais no amor! Elle não construe nada, não resolve
+nada, compromette tudo e não responde por cousa alguma. É um desequilibrio
+das faculdades; é o predominio momentaneo e ephemero da sensação; isto
+basta para que não possa repousar sobre elle nenhum destino humano. É uma
+limitação da liberdade, é uma diminuição do caracter; especialisa,
+circumscreve o individuo é uma tyrannia natural, é o inimigo astuto do
+criterio e do arbitrio. E queres que tenha esta base a tua situação na
+vida? E crês na estabilidade do amor, tu?... Sim, é possivel, emquanto
+elle viver do imprevisto, do romance e do obstaculo; emquanto necessitar
+do _coupé_ de _stores_ cerrados; mas logo que entre n'um estado regular,
+que se estabeleça definidamente para durar, que se organise, que se
+economise, extingue-se trivialmente; e quando quer conservar-se, tem a
+miseria de se assimilhar ás chammas pintadas d'um inferno de theatro. E
+então, desde o momento que o amor desapparecesse, que rasão de ser tinha a
+tua vida, e que justificação tinha que dar de si o teu incoherente
+destino? Ficavas sem uma situação definida: tudo te era vedado, ou pela
+força das leis sociaes, ou pela altivez da tua honra. Recuar para as
+cousas legitimas, arrepender-te, era impossivel: o arrependimento é um
+facto catholico, não é um facto social. Continuar e persistir em viver
+pelo amor era um equivoco hypocrita, e poderias um dia encontrar-te a
+viver na libertinagem.
+
+Imaginas hoje que o amor é a unica tendencia, a unica preoccupação da tua
+vida... Não: é apenas idéa dominante na tua natureza. Ha outras
+exigencias, que hoje não sentes chamarem dentro de ti, porque teem sido
+plenamente satisfeitas no meio legitimo em que tens vivido; mas quando,
+mais tarde, estiveres retirada de tudo, fechada no amor como n'uma concha,
+sentirás então amargamente que te falta o _quer que seja_ que é a
+sociedade, a opinião, o centro d'amisades, o _rang_, as consolações
+incomparaveis que dá a estima dos que nos saudam. E o não encontrar então
+no mundo o teu logar, elegante, avelludado, agaloado, emplumado e coroado,
+dar-te-ha a sensação do abandono; e as consolações que então te quizer
+ministrar o amor pela sociedade que te falta, encontrarão aos teus olhos o
+mesmo tedio que encontrariam agora as consolações da sociedade pelo amor
+que te fugisse. Uma mulher que foge com o seu amante, só pode ter um logar
+no _Demi-Monde_; ou então um logar equivoco nas salas, quando é celebre
+por um talento ou por uma arte. Ora tu não quererás ir para a Italia
+frequentar, em Napoles, Madame de Salmé, nem quererás cantar n'um theatro,
+nem commetter a inconveniencia de escrever um livro. A viver modesta, tens
+de viver triste; a viver radiante, tens de viver humilhada. E pensas que
+pódes, por um anno sequer, viver na intimidade absoluta e no segredo?
+
+O segredo, o refugio, um _ninho_ perfumado n'um quinto andar, são cousas
+extremamente doces, no meio da sociedade e das relações do mundo; a
+publicidade official da vida dá então um encanto extranho áqueles momentos
+de mysterio. Mas a perpetuidade do mysterio deve ser egual áquella
+legendaria tortura da beatitude eterna! Quando dois entes se encontram
+pelas fataes condições do seu procedimento, obrigados a viverem um do
+outro, um para o outro, um eternamente no segredo do outro, quando isto se
+não passa na ilha de Robinson, nem entre dois discipulos de Sedwinborg,
+nem entre dois desgraçados cheios de fome--mas n'uma cidade ruidosa e
+viva, entre duas pessoas positivas e educadas pelo segundo imperio, e que
+têem as complacencias do luxo, crê que deve ser amargo.
+
+E depois, pensa! A nossa vida arrastar-se-ha tristemente, de paiz em paiz,
+sem um centro amado, sem uma familia, sem um fim. Não teremos, nem durante
+a existencia, nem no grave momento da morte, a serenidade de quem é justo.
+A nossa vida será como a das sombras romanticas de Paulo e Francesca de
+Rimini, levadas pelo vento contradictorio. Morreremos emfim como dois
+seres estereis, que nada crearam, e que não têem quem fique na terra com a
+herança do seu caracter; e quando todos pelos seus filhos ganham a unica
+justa immortalidade, nós sómente seremos mortaes, e para nós mais que para
+ninguem será terrivel a lembrança do fim! Perdôa que te escreva estas
+cousas. Mas fiz o meu dever. E agora posso livremente, insuspeitamente,
+dizer-te que me sinto feliz, e que o momento d'amanhã, quando virmos
+desapparecer a terra e nos acharmos sós, no infinito mar,--será para mim
+tão bello, que só por elle julgarei justificada a minha vida.»
+
+Quando acabei de lêr esta carta, sentei-me machinalmente deante das malas,
+com os olhos fixos, como idiota. Abri uma gaveta, tirei não me recordo que
+pequeno objecto de renda, e tornei a fechar, com um movimento automatico,
+lugubre, e a ausencia absoluta da consciencia e da vida. Chamei Betty:
+
+--Betty, que horas são?
+
+--Onze, minha senhora.
+
+--Dá-me agua, tenho sede. Dá-me agua com limão...
+
+Quando ella sahiu fui encostar a cabeça á vidraça, a olhar o movimento
+ondeado e lento das ramagens escuras. A lua pareceu-me regelada. Betty
+entrou.
+
+--Betty, disse-lhe eu n'uma voz sumida, sabes? Tenho medo de morrer
+doida...
+
+Ella olhou-me, e viu no meu rosto uma tal expressão d'angustia, que me
+disse:
+
+--Que tem, meu Deus, que tem? Chore, minha rica menina, chore...
+
+--Não posso, não posso. Eu morro... Vem para o pé de mim, Betty!...
+
+--Meu Deus, quer-se deitar? diga...
+
+E erguendo os olhos e as mãos, n'uma imploração cheia de dôr, de
+desespero:
+
+--Deus me leve para si! Ai! nada d'isto era se a mamã fosse viva, minha
+senhora!
+
+Começou a chorar. Eu olhei-a com uma grande afflicção, senti os olhos
+humidos, os soluços suffocaram-me, e arremessando-me aos seus braços,
+chorei, chorei, chorei amargamente, chorei cruelmente, chorei pela
+saudade, chorei pela traição, chorei pelo meu passado legitimo, chorei
+pelo encanto dos meus peccados, chorei por me sentir chorar...
+
+
+IX
+
+
+Soceguei. Vencida, fiquei n'uma _chaise longue_, muda e como morta. Olhava
+machinalmente o tremer da luz.
+
+--Betty, disse eu, deita-te. Eu estou bem. Vae...
+
+Ella saiu, chorando. O quarto estava mal allumiado. Eu via, fóra, as
+ramagens do jardim, recortando-se n'um relevo negro sobre o pallido ceu,
+cheio da lua. Estive muito tempo assim, olhando, sem consciencia e sem
+vontade. Lentamente, creio, comecei pensando em cousas alheias aos
+interesses da minha dôr: lembrava-me a fórma d'um vestido que eu tinha
+desenhado para a Aline.
+
+Por fim ergui-me, passeei muito tempo no quarto, o movimento chamou-me á
+consciencia e á verdade das minhas afflicções. Arranquei a folha d'uma
+carteira, e escrevi a lapis tumultuosamente: «Tem rasão, tem rasão.
+Espero-o ámanhã ás 10 horas da noite na casa... Até lá não lhe direi que o
+amo; só lá lhe direi o que soffro.»
+
+Eu mesma saí ao corredor, e do alto da escadaria, silenciosa, allumiada
+por um grande globo fosco, chamei um criado, André, imbecil e indiscreto,
+e atirei-lhe o bilhete lacrado, dizendo-lhe:
+
+--Leve esse bilhete já... Vá n'uma carruagem.
+
+E indiquei-lhe a casa de meu primo. Rytmel estava hospedado lá.
+
+Vim sentar-me á janella do meu quarto: vinha um aroma suave do jardim; o
+luar, as grandes sombras, tinham um repouso romantico e triste.
+Lentamente, a minha desgraça começou apparecendo-me inteira, nitida, em
+pormenores, n'uma grande synthese, como se fosse um mappa.
+
+Eu era trahida! Aos vinte e tres annos, com todas as intelligencias da
+paixão, com todos os delicados prestigios do luxo, era trahida, era
+trahida! Senti então pela primeira vez a presença do ciume, esse
+personagem tão temido, tão cantado nas epopéas, tão arrastado pela rampa
+do theatro, tão conhecido da policia correccional, tão cruel, tão
+ridiculo, tão real! Vi-o! Conheci-o! Senti o seu contacto irritante e
+mordente como um corrosivo; a sua argumentação miuda, jesuitica,
+implacavel, sanguinaria: todo o seu processo d'acção, que torna de repente
+o coração mais puro tão immundo como a toca d'uma fera.
+
+Senti o mais cruel dos ciumes todos; aquelle que se define, que diz um
+nome, que desenha um perfil, que nol-o mostra, o nosso inimigo, que nos
+enche as mãos d'armas, que nos obriga a avançar para elle. Eu sentia no
+meu ciume um ponto fixo--_ella_. Era _ella_, a _outra_! Lembrava-me
+confusamente: tinha cabellos louros, finos, espalhados, uma nuvem de ouro
+esfiado. Eu tinha-a visto em Paris vestida de roxo na revista de
+_Longchamps_. O seu olhar era franco: os homens deviam encontrar n'elle o
+quer que fosse, que promettia um destino pacifico. Que secreto encanto se
+irradiaria da esbelta fraqueza do seu corpo? Era a simplicidade? Era a
+intelligencia? Era a sciencia das cousas do amor?... Como eu ardia por a
+conhecer! E não sabia nada d'ella senão que era irlandeza, e que se
+chamava Miss Shorn!
+
+Ah sim, sabia outra cousa--que elle a amava!
+
+Conhecel-a! conhecel-a! Mas como? Podia ser, pelas suas cartas! De certo!
+Ella devia pôr n'ellas toda a sua intima personalidade. Era loira, era
+ingleza, por isso raciocinadora: devia escrever pacificamente, sem
+sobresaltos, e sem inspirações da paixão; nas suas cartas provavelmente
+desfiava o seu coração. Eu conhecel-a-hia bem, se as lesse! Eu saberia o
+estado de espirito de Rytmel, a marcha da sua paixão, pelas cartas d'ella.
+Devia lel-as! Era necessario pedil-as, roubal-as, compral-as, eu sei! Mas
+era necessario lel-as!
+
+Para pensar assim eu nenhuma _prova_ tinha de que elle recebia cartas
+d'ella, mas tinha a _certeza_ que ellas existiam e que o seu coração
+estava cheio d'ellas...
+
+Quiz serenar, pacificar-me, dormir.
+
+Deitei-me. O meu pobre cerebro estava n'uma vibração tempestuosa; era como
+n'uma tormenta em que veem á superficie da mesma vaga os destroços d'um
+naufragio e as flores da alga; no meu espirito revolto, surgiam no mesmo
+redemoinho, as cousas graves, e as recordações futeis, as minhas dôres e
+as minhas phantasias, os desastres do meu amor, e ditos de operas comicas!
+Sentia a chegada da febre. Chamei Betty.
+
+--Betty! não posso dormir, não sei que tenho. Quero dormir por força.
+Quero ámanhã todas as minhas faculdades em equilibrio. Se não durmo estou
+perdida, endoideço... Dá-me alguma cousa.
+
+--Mas o quê, minha senhora?
+
+--Olha, dá-me aquella bebida que davam á mamã nas insomnias, a que tu
+tomas quando tens dôres... Tens?
+
+--Quer opio?
+
+--Não sei! agua opiada, vinho opiado, o quer que seja. Foi o doutor que me
+disse...
+
+--Minha querida menina, eu tenho opio. Uma gota, n'um copo de agua. Eu
+sei? Talvez lhe faça mal!
+
+--Dá-m'a, o doutor disse-m'o hontem. Dá, depressa.
+
+Bebi. Era agua opiada, creio eu. Não sei. Parece-me que adormeci logo, e
+lembro-me que durante o somno sentia-me encaminhar incessantemente, n'um
+movimento perpetuo que affectava todas as fórmas; ora lento e pacifico,
+como um passeio sob uma alameda; ora rapido, volteado, e era a _walsa_ de
+_Gounod_ que eu dançava; ora solemne e melancholico, e era um enterro que
+eu acompanhava; ora cortante, escorregadio, veloz, e era em Paris, e era
+no inverno, e eu patinava sobre a neve.
+
+Acordei de manhã, serena, e decidida. Mandei pôr um _coupé_. Saí. Fiz
+parar á porta de meu primo. Eram duas horas da tarde. Eu sabia, desde essa
+manhã, que Rytmel estava com elle em Bellas. Subi. Appareceu um criado
+portuguez, Luis, que eu conhecia, um imbecil, atrevido para o ganho,
+discreto pelo medo.
+
+--Mr. Rytmel!
+
+--Saiu, senhora condessa.
+
+--Jacques?
+
+--Foi com elle, senhora condessa.
+
+Jacques era um criado antigo de Rytmel.
+
+--Luis, leva-me ao quarto de mr. Rytmel.
+
+Ao abrir a porta do quarto estremeci. Sentia-me humilhada. Fui rapidamente
+a uma secretária, revolvi as gavetas, as pequenas papeleiras. Nenhumas
+cartas, apenas cartas indifferentes. Irritada, abri as commodas, espalhei
+as roupas, procurei nos bahus, nas malas, nos bolsos, ergui o travesseiro.
+Tremia, arquejava. Era uma busca inquisitorial, frenetica, desesperada,
+infame!
+
+--Luis, disse eu baixo, Luis, tens vinte libras. Tens cincoenta.
+
+--Mas, minha senhora...
+
+--Este senhor onde tem as suas cartas? Tens cem libras. Dou-te tudo,
+estupido... Onde tem elle as cartas, elle?
+
+--Oh minha senhora! disse o creado, com uma voz lamentavel, eu não sei.
+
+--Não tens visto? Não tem uma secretária, uma papeleira, uma carteira?...
+
+--Tem. Tem uma carteira de marroquim. Tral-a comsigo. Anda cheia de
+cartas...Levou-a decerto. Nunca a deixa.
+
+Sahi, desci a escada, correndo, fugindo d'aquelle desastre, d'aquella
+vergonha, d'aquellas confidencias. Atirei-me para o fundo da carruagem.
+
+--A casa! gritei.
+
+Tinha fechado os _stores_; soluçava, sem soluçar[2].
+
+--Betty! Betty! clamei logo no corredor.
+
+Ella appareceu, correndo.
+
+--Betty, disse eu, vivamente, fechando a porta do quarto. Dize-me: aquella
+agua com opio não faz mal?
+
+--Porque? sente-se doente?
+
+--Não. Estou bem. Não faz mal?
+
+--Nenhum.
+
+--Juras?
+
+--Juro. Mas...
+
+--Jura sobre estes santos Evangelhos.
+
+--Oh, senhora! Mas porque? Juro. Mas porque?
+
+--Tens opio? Dá-m'o.
+
+--Quer dormir?
+
+--Não.
+
+Ella então olhou-me, fez-se extremamente pallida:
+
+--Mas, senhora condessa, que quer isto dizer?
+
+--Dá-m'o. Dá-m'o, Betty. Pensas que me quero matar?
+
+Ella calou-se.
+
+--Oh, doida! disse eu, rindo. Se me quizesse matar não t'o pedia. Mas sou
+feliz... Passaram-se outras cousas, vês tu? Não t'as digo, mas sou feliz.
+Sabes o que é? É que me vou logo encontrar com elle.
+
+E com a voz mais baixa, como envergonhada:
+
+--É ás dez horas, e vês tu? Queria dormir para não esperar.
+
+--Oh, minha senhora, não lhe vá fazer mal! De resto, eu lh'o dou. O frasco
+d'opio está aqui n'esta gaveta do lavatorio. Não lhe faça isto mal, meu
+Deus!
+
+--Não, não, minha Betty! Ah! está na gaveta? Bem. São duas gotas, sim? Não
+me faz mal. Estou tão contente! Olha, até nem quero dormir. Fica aqui a
+conversar commigo. São cinco horas. Para as dez pouco falta. Não custa
+esperar. Está então n'aquella gaveta o frasco... Bom. Sabes, Betty? sou
+feliz. Não quero dormir. Conta-me uma historia.
+
+A pobre creatura, vendo-me alegre, sorria. Eu, entretanto, tinha os olhos
+fitos na gaveta do lavatorio. Betty fallava, fallava! Eu ouvia as suas
+palavras sem comprehender, como se ouve um murmurio d'agua.
+
+
+X
+
+
+A tarde descia no emtanto, e eu sentia uma inquietação, uma angustia
+crescente.
+
+Meu primo, não sei se poderei contar-lhe miudamente todos os transes
+d'aquella noite. Não o exigirá de certo. Nada seria mais terrivel do que
+ter de redigir e colorir o meu crime. Perdôe-me a confusão afflicta das
+minhas palavras e os arabescos tremulos da minha lettra.
+
+Eram dez horas da noite: fui á casa n.^o... Rytmel estava lá. Achei-o
+pallido, e instinctivamente estremeci. Conversámos. Enquanto elle fallava,
+eu olhava-o ávidamente, examinava a sua casaca, espreitava o volume que
+devia fazer a carteira onde estavam as cartas. E revolvia com a mão humida
+o bolso do meu vestido: tinha n'elle o frasco d'opio. Era um frasco de
+crystal verde, facetado, com tampa de metal fixa. As palavras de Rytmel
+n'essa noite eram muito doces e muito amantes. Procuravam explicar-me a
+sua carta, e palpitavam ainda de paixão... Vinham realmente da verdade do
+seu coração? Era uma rhetorica artificial á flor dos labios, enganadora,
+como um panno de theatro? Não o sabia: só as cartas d'ella m'o poderiam
+revelar, e elle tinha-as ali no bolso! Eu via o volume que fazia a
+carteira no peito da casaca! Estava ali a sentença da minha vida, a minha
+infelicidade insondavel, ou a immensa pacificação do meu futuro! Podia
+porventura hesitar?--Elle fallava no emtanto. Eu tremia toda. Olhava
+fixamente para um copo que estava sobre a mesa ao pé d'uma garrafa de
+crystal da Bohemia. O reposteiro da alcova achava-se corrido; dentro
+estava escuro.
+
+Betty tinha ido commigo, e ficára n'um quarto distante, que dava para uns
+terrenos vagos...
+
+--E se houvesse um desastre! pensei eu de repente. Não ha pessoas que
+succumbiram completamente, cujo adormecimento foi acabar de arrefecer no
+tumulo?
+
+Mas eu via sempre a saliencia da carteira, que me tentava como uma cousa
+resplandecente e viva. Podia approximar-me d'elle de repente,
+enfraquecel-o ao calor das minhas palavras, ir levemente, astuciosamente,
+arrebatar-lhe a carteira, saltar, correr, atirar-me para o fundo do meu
+_coupé_, e fugir. Mas se elle resistisse? Se perdesse a consciencia da sua
+dignidade e da humilde debilidade do meu ser? Se me sujeitasse
+violentamente, se me arrancasse outra vez as cartas?
+
+Não podia ser. Era necessario que dormisse tranquillamente! Se as cartas
+fossem innocentes, simples, inexpressivas como eu ajoelharia depois, ao pé
+do seu corpo adormecido, como esperaria com uma ancia feliz que elle
+acordasse! que aurora sublime acharia elle nos meus olhos quando os seus
+se abrissem! Mas se houvesse nas cartas a culpa, a traição, o abandono?!
+
+Levantei-me. Rytmel tinha ao pé de si um copo com agua. Bebia aos pequenos
+golos quando fumava. Eu deixava-o fumar. Mas eu não sabia como havia de
+achar um momento meu, bastante para deitar duas gotas de opio no copo.
+
+Tive um expediente trivial, estupido.
+
+--Rytmel, disse eu, como n'um theatro, como nas comedias de Scribe, com
+uma voz imbecilmente risonha,--vá dizer a Betty, que póde ir, se quizer. A
+pobre creatura dormiu pouco, está doente.
+
+Elle saiu; ergui-me. Mas ao approximar-me da mesa, defronte do copo,
+fiquei hirta, suspensa. Estive assim um tempo infinito, segundos, com a
+mão convulsa apertando o frasco no bolso. Mas era necessario, eu tinha-o
+ouvido fallar, voltava, sentia-lhe os passos, ia entrar... Tirei o frasco,
+e louca, precipitada, mordendo os beiços para não gritar, esvasiei-o no
+copo.
+
+Elle entrou. Eu deixei-me abater sobre uma cadeira, trémula em suor frio,
+e, não sei por quê, sentindo uma infinita ternura, disse-lhe sorrindo, e
+quasi chorando:
+
+--Ah, como eu sou sua amiga! Sente-se ao pé de mim.
+
+Elle sorriu. E--meu Deus!--approximou-se, creio que sorriu, e tomou o
+copo! E com o copo na mão:
+
+--E sabe, disse elle, que ninguem o crê mais do que eu!... Se não fosse o
+teu amor como poderia eu viver?
+
+E conservava o copo erguido. Eu estava como fascinada. Via o reflexo da
+agua, parecia-me vagamente esverdeada. Via as scintilações do crystal
+facetado.
+
+Finalmente bebeu!
+
+... Desde esse momento fiquei n'um terror. Se elle morresse? Meu Deus, por
+que? Não se dá opio ás creanças, aos doentes? não é elle a clemente
+pacificação das dôres? Não havia perigo. Quando acordasse eu seria tão sua
+amiga, tão terna com elle, para me absolver d'aquella aventura imprudente!
+Ainda que seja culpado, amal-o-hei! pensava eu. Pobre d'elle! Não lhe
+bastava ter de dormir assim forçadamente n'um somno pesado e cruel?
+Amal-o-hia, culpado. Trahida, amal-o-hia ainda!
+
+Elle entretanto estava calado, no sophá, com a cabeça encostada. De
+repente pareceu-me vel-o empallidecer, ter uma ancia, sorrir. Não sei o
+que houve então. Não me lembra se fallámos, se elle adormeceu brandamente,
+se alguma convulsão o tomou. De nada me lembro.
+
+Achei-me ajoelhada ao pé d'elle. Devia ser meia noite. Estava immovel,
+deitado no sophá. Tinham passado duas horas. Senti-o frio, via-o livido,
+não me attrevia a chamar Betty. Dei alguns passos pelo quarto em uma
+distracção idiota. Cobri-o com uma manta.
+
+--Vae accordar dizia eu machinalmente.
+Compuz-lhe os cabellos ligeiramente desmanchados. De repente a idéa da
+morte appareceu-me nitida, e pavorosa. Estava morto! Senti como o fim de
+todas as cousas. Mas chamei-o, chamei-o brandamente, e com doçura...
+
+--Rytmel! Rytmel!
+
+E andava nos bicos dos pés para o não acordar! Subitamente estaquei,
+olhei-o ávidamente, precipitei-me sobre o corpo d'elle, envolvi-o,
+gritando suffocada:
+
+--Rytmel! Rytmel!
+
+Ergui-o: a hallucinação dava-me uma força cruel. A cabeça pendeu-lhe
+inanimada. Desapertei-lhe a gravata. Amparei-o nos braços, e n'esse
+momento senti o volume, a saliencia que na sua casaca fazia a carteira.
+Veiu-me a idéa das cartas. Tudo tinha sido pelo desejo de as lêr.
+Tirei-lhe a casaca; era difficil; os seus musculos estavam hirtos. Junto
+com a carteira havia outros papeis e um masso de notas de banco. Ao
+tomal-os, os papeis e as cartas espalharam-se no chão. Apanhei-as,
+apertei-as na gravata branca e metti tudo no bolso.
+
+Isto tinha sido feito convulsivamente, inconscientemente. Dei com os olhos
+em Rytmel. Pela primeira vez via contracção mortal do seu rosto. Chamei-o,
+fallei-lhe! Estava frenetica! Porque não queria elle acordar? Empurrei-o,
+irritei-me com elle. Porque estava assim, porque me fazia chorar? Tinha
+vontade de lhe bater, de lhe fazer mal.
+
+--Acorda! acorda!
+
+Insensivel! Insensivel! Morto! Ouvi passar na rua um carro. Havia pois
+alguem vivo!
+
+De repente, não sei por que, lembrei-me que tinha esvasiado o frasco!
+Deviam ser só duas gotas! Estava morto!
+
+Gritei:
+
+--Betty! Betty!
+
+Ella appareceu, arremessei-me aos seus braços. Chorei. Voltei para junto
+d'elle. Ajoelhei. Chamei-o. Quiz dar-lhe um beijo: toquei-lhe com os
+labios na testa. Estava gelada. Dei um grito. Tive horror d'elle. Tive
+medo do seu rosto livido, das suas mãos geladas!
+
+--Betty, Betty, fujamos!
+
+Consciencia, vontade, raciocinio, pudor, perdi tudo aos pedaços. Tinha
+medo, sómente medo, um medo trivial, vil!
+
+--Fujamos! Fujamos!
+
+Não sei como saí.
+
+Fóra da porta vi ao longe, no começo da rua, uma luz caminhar! caminhava,
+crescia! Havia alguem, vestido de vermelho, que a trazia! Parecia-me ser
+sangue! A luz crescia. Esperei, a tremer. Aquillo caminhava para mim.
+Approximava-se! Eu estava encostada á porta, na sombra, fria de pedra. A
+luz chegou: vi-a. Era um padre, era outro homem com uma opa vermelha e uma
+lanterna. Iam levar a alguem a extrema uncção...
+
+Amparei-me no braço de Betty, e principiei a andar,
+sem saber para onde, como louca.[*]
+
+
+[*] Seguiam-se as linhas em que se contava o encontro que teve commigo, as
+quaes linhas elimino por se referirem a successos que eu mesmo narrei e
+que v. sr. redactor, já conhece.--A. M. C.
+
+
+
+
+CONCLUEM AS REVELAÇÕES DE A. M. C.
+
+
+I
+
+
+Convidada a expor o que sabia, a condessa disse de viva voz, com humildade
+e com firmeza, a causa e o modo como involuntariamente matara Rytmel.
+
+--Eis as cartas e as notas que elle trazia comsigo--concluiu ella,
+collocando sobre a mesa um masso de papeis atados n'uma gravata branca. As
+minhas derradeiras disposições, accrescentou, estão feitas. Dêem-me o
+destino que quizerem. Inflijam-me o castigo que mereço.
+
+Estavamos todos calados. F... adiantou-se para o centro da sala e ergueu a
+voz:
+
+--Castigar é usurpar um poder providencial. A justiça humana que se
+apodera dos criminosos não tem por fim vingar a sociedade, mas sim
+protegel-a do contagio e da infecção da culpa. Todo o crime é uma
+enfermidade. A acção dos tribunaes sobre os criminosos, posto que nem
+sempre cesse de facto, cessa effectivamente de direito no momento em que
+termina a cura. Sequestrar aquelles em que o mal deixou de ser uma
+suspeita physiologica, e por conseguinte uma verdade scientifica, é fazer
+á sociedade uma extorsão, que, por ser muitas vezes irremediavel não deixa
+de ser monstruosa e horrivel. Todo aquelle que não é pernicioso, é
+necessario, é indispensavel ao conjuncto dos sentimentos, ao destino das
+idéas, á arithmetica dos factos no problema da humanidade. A natureza do
+acto que estamos ponderando, as rasões que o determinaram, as
+circumstancias que o revestiram, a intenção que lhe deu origem, tudo isto
+nos convence de que a liberdade d'esta senhora não póde constituir um
+perigo. Encarcerada e entregue á acção dos tribunaes, seria uma
+causa-crime, interessante, escandalosa, prejudicial. Restituida a si
+mesma, será um exemplo, uma lição.
+
+E approximando-se da porta, correu a chave que a fechava por dentro,
+abriu-a de par em par, e dirigindo-se á condessa, com voz respeitosa e
+grave, accrescentou:
+
+--Vá, minha senhora: tem a mais plena liberdade. Poderia disputar-lh'a a
+justiça official, não póde empecer-lh'a a rectidão dos homens de bem a
+quem foi entregue a decisão da sua causa. O seu futuro, violentamente
+assignalado pela desgraça, não pertence aos criminosos, pertence aos
+desgraçados. Leve-lhes a melancolica lição d'estes desenganos, e permitta
+Deus que perante a suprema justiça, possam os beneficios obscuros e
+ignorados que houver de espalhar em volta de si, compensar os erros que
+atravessaram o seu passado! Os vestigios da sua culpa ficarão sepultados
+n'esta casa.
+
+Nós abrimos-lhe passagem para que sahisse. A condessa, n'uma pallidez
+cadaverica, vacillava; faltavam-lhe as forças; não podia sustentar-se em
+pé. O mascarado alto deu-lhe o braço. Ella fez um movimento como se
+tentasse fallar; o seu rosto contrahiu-se n'uma profunda expressão de dôr;
+hesitou um momento; por fim comprimiu os beiços no lenço e sahiu abafando
+uma palavra ou estrangulando um soluço.
+
+Momentos depois ouvimos a carruagem affastando-se com aquillo que fôra no
+mundo a condessa de W...
+
+Haviamos accordado no modo de occultar o cadaver, o que se tornava tanto
+mais facil quanto era inteiramente ignorada a assistencia do capitão em
+Lisboa.
+
+Vieramos para o pavimento inferior do predio, a uma casa terrea, a que se
+descia por quatro degraus para baixo do solo. Era ao fim da tarde.
+Estavamos alumiados com a luz das velas, porque não entrava na loja a luz
+do dia. Tinha-se cavado uma profunda cova. Sentia-se o cheiro humido e
+acre da terra revolvida. Dois dos individuos a que tenho chamado os
+mascarados, seguravam duas serpentinas em que ardiam dez velas côr de
+rosa. Do travejamento escuro do tecto pendiam como cortinas pardacentas e
+prateadas as teias de aranhas rasgadas pelo peso do pó.
+
+Desenrolámos o fardo que tinhamos collocado junto da cova, e contemplámos
+pela derradeira vez a figura do morto estendido sobre a sua manta de
+viagem.
+
+Tinham-lhe atado a gravata branca, abotoado o collete e vestido a casaca
+azul de botões de ouro, em cuja carcella se via ainda pendida uma rosa
+murcha. A cabeça d'elle, na luz a que estava sujeita, era de uma expressão
+ideal. Os olhos, de que se não viam as pupillas, apagados e immoveis,
+davam ao seu rosto o vago aspecto que apresentam os das antigas estatuas.
+Nos labios entre-abertos parecia pairar um leve sorriso sob o bigode
+arqueado. Os anneis do cabello, despenteados pelo contacto da manta em que
+viera envolto o cadaver, destacavam na lividez da fronte como um vello de
+ouro n'uma superficie de marfim.
+
+Havia um silencio profundo. Ouvia-se o bater dos segundos nos relogios que
+tinhamos nas algibeiras e o zumbir das moscas que esvoaçavam sobre a face
+do morto. Eu fitando-o com os olhos marejados de lagrimas, pensava
+melancolicamente...
+
+Pobre Rytmel! Se n'este momento solemne, em que o teu corpo espera á beira
+da cova pelo seu descanço eterno, te faltam na terra as pompas funebres
+devidas á tua jerarchia; se te não seguiu até aqui um prestito de
+uniformes recamados de ouro; se nem sequer tens ao entrar na tua
+derradeira morada as orações de um padre e a luz de um cirio, cubra-te ao
+menos a benção da amisade! Descendente de lords, moço, intelligente e
+bello, quando todas as flores que perfumam a vida desabrochavam debaixo
+dos teus passos, apaga-se de subito no firmamento a estrella que presidiu
+ao teu nascimento, e tu baqueias como o ente mais despresivel no fundo de
+uma sepultura sem lapide, sem nome, na mesma casa em que vieste procurar a
+ultima expressão da tua felicidade, á luz das mesmas velas que alumiaram o
+teu derradeiro beijo! Os outros desgraçados que morrem têem ao menos na
+terra um logar assignalado onde repousam as suas cinzas, e onde podem ir
+os que os amaram chorar por elles. É mais cruel o teu destino: tu morres e
+desappareces! Não ensombrarão a tua campa as arvores tristes dos
+cemiterios. As aves que passarem nos ceus não baixarão a beber da agua que
+as chuvas tiverem deixado na urna do teu mausoleu. A lua, terna amiga dos
+mortos, não virá beijar por entre a rama negra dos cyprestes, a brancura
+da tua campa. O orvalho das madrugadas não chorará nas flores do teu
+jazigo. As abelhas não murmurarão em torno das rosas plantadas sobre o teu
+corpo. As borboletas brancas não adejarão no fluido de ti mesmo que
+podesse romper do seio da terra para a luz da manhã no aroma dos
+jasmineiros e dos goivos. Tua mãe, pensativa e pallida, procurará debalde
+a grade em que se ampare ao dobrar os joelhos e levantar para o céu esse
+olhar de interrogação em que a lembrança dos filhos mortos se envolve como
+na tunica luminosa de uma ressurreição.
+
+O _mascarado alto_, curvou-se sobre o cadaver de Captain Rytmel e ergueu-o
+vigorosamente pelos hombros. Nós amparámos o corpo e descemol-o ao fundo
+da cova. O mascarado, ajoelhando-se depois no chão, cobriu com um lenço o
+rosto do morto e disse, como se estivesse fallando a uma creança
+adormecida:
+
+--Descança em paz! Eu irei dizer a tua mãe o logar em que repousa o teu
+corpo, e voltarei a ajoelhar-me sobre esta sepultura depois de ter
+recebido no meu proprio seio as lagrimas que ella derramar por ti. Adeus,
+Rytmel! adeus!
+
+E impelliu em seguida para dentro da cova uma grande porção da terra
+amontoada aos pés. A terra desabou de chofre sobre o cadaver, levantando
+um som baço e molle.
+
+
+II
+
+
+Examinámos depois os papeis de Rytmel afim de coordenarmos os seus
+negocios. Verificou-se a existencia de mil e trezentas libras em notas do
+banco de Inglaterra. Entre as cartas não havia uma só letra de miss Shorn.
+
+Nenhum de nós tinha o espirito bastante socegado para poder reentrar
+immediatamente nos assumptos triviaes da existencia. Resolvemos permanecer
+ali até que decorressem alguns dias sobre a catastrophe de que tinhamos
+sido testemunhas.
+
+O predio em que estavamos foi comprado em nome de lady... a mãe de Rytmel,
+e n'elle se guardaram todos os objectos que lhe tinham pertencido. Um
+cofre de ferro, damasquinado d'ouro e destinado a receber as cinzas do
+morto, foi collocado no logar em que elle se achava sepultado.
+
+O _mascarado alto_ dispunha-se a partir para Londres quando tivemos
+noticia da publicação das cartas do doutor n'este periodico. A condessa
+declarou que se entregaria á policia, se não levantassemos na imprensa as
+suspeitas formuladas na carta de _Z..._ ácerca da probidade do medico, e
+se F... se não desdissesse categoricamente das injurias que nos dirigira
+na carta imtempestivamente mandada ao dr... por intermedio de Friedlann. A
+condessa auctorisava-nos a tornarmos publica a sua historia, dizendo que
+tinha deixado para sempre de pertencer ao mundo, para o qual a biographia
+que ella lhe legava seria talvez um exemplo proficuo.
+
+Foi então, sr. redactor, que determinámos referir-lhe todos os pormenores
+d'este doloroso acontecimento, occultando ou substituindo os nomes das
+pessoas que tiveram parte n'elle, e deixando á sociedade a faculdade de as
+descobrir e o direito de condemnal-as ou absolvel-as.
+
+A condessa resolveu em seguida entrar em um convento, que ella mesma
+escolheu depois de miudas indagações. O _mascarado alto_ acompanhou-a e eu
+segui-o a uma villa da provincia do Minho, onde existe ainda, regido com
+todo o rigor ascetico do estatuto, um velho convento de carmelitas
+descalças, habitado por cinco ou seis religiosas. Estas mulheres
+decrepitas vivem como d'antes na pobreza de que fizeram voto, mantendo a
+oração, a penitencia e o jejum com a mesma exaltação mystica, com o mesmo
+fervor catholico dos primeiros annos das suas nupcias com o divino esposo.
+Trazem os pés nus e o corpo constantemente envolto na aspereza estreme do
+burel. Não usam roupas de linho nem algodão. Em nenhum dia do anno se
+permittem carne ás suas refeições. Comem juntas no antigo refeitorio,
+havendo sempre uma que revesadamente se prostra á entrada da sala, segundo
+o primitivo uso da ordem, para que as outras lhe passem por cima ao entrar
+e ao sair da mesa. Não têem patrimonio de nenhuma especie, nem outro algum
+rendimento que não seja o producto dos trabalhos que fazem. Furtadas a
+toda a convivencia externa, vivem na clausura mais estreita e na miseria
+extrema. Ninguem no mundo tornou a ver as moradoras d'aquella casa desde
+que entraram n'ella. As que morrem são enterradas pelas outras no claustro
+e cobertas com uma pedra lisa, sem nome e sem data, Não ha distico nem
+outro signal que difference as que deixam de existir. A morte para todas
+ellas começa no momento em que transpõem o limiar da portaria. Dentro tudo
+é sepulchro. A morte é simplesmente a mudança de cubiculo.
+
+Tal foi a casa escolhida pela condessa para recolhimento e asylo do resto
+de seus dias.
+
+O exterior do edificio era mysterioso e lugubre. Cingia-o em toda a sua
+amplitude uma alta muralha que o disgregava do resto do mundo, cerrando as
+casas habitadas pelas freiras ao exame de fóra. Era um predio emparedado.
+A muralha, que media a altura de quatro andares, era da côr da estamenha,
+sombria e triste, manchada de grandes nodoas esverdeadas e negras como o
+capuz de um ermita, uma especie de lençol em que se enrolasse para o
+enterro uma casa morta. Havia um ponto em que esta facha se recolhia,
+formando o pateo por onde se entrava para o convento, cuja porta, mordida
+pelos annos, chapeada e cravejada com enormes pregos, se via no fundo
+atravez dos grossos varões de uma grade de ferro. Pelas juntas
+desarticuladas das grandes pedras que lageavam o pateo, rompiam moitas de
+ortigas, com a rudeza de cabellos hirsutos, sahidos pelos rasgões de um
+barrete. Do meio do largo surgia o bocal da um poço, cujo balde seguro por
+uma corda de esparto pendia de uma estaca. No chão estavam estendidos os
+andrajos das pobres da visinhança, que vinham laval-os ao pé do poço, e
+n'esse recinto os deixavam a enxugar juntamente com as enxergas
+dilaceradas e apodrecidas dos berços dos seus pequenos. A um canto do
+pateo pendia do muro uma corrente de ferro com que se tangia uma sineta
+interior. A este signal via-se n'uma abertura da alvenaria rodar no muro
+um cylindro de madeira, que por um movimento vagaroso mettia para dentro a
+sua superficie concava e mostrava para fóra o seu interior convexo.
+Parecia quando isto se ouvia que o taciturno monstro entreabria a
+palpebra, deixando vêr uma orbita sem olho. Este apparelho chamma-se a
+roda. A condessa pronunciou ahi uma palavra, a que respondeu de dentro uma
+especie de gemido, e foi esperar em seguida para junto da porta negra ao
+fundo do pateo.
+
+Quando a porta se abriu e o primo da condessa lhe apertou pela ultima vez
+a mão, as lagrimas, que até ahi conseguira difficultosamente reprimir,
+saltaram-lhe dos olhos.
+
+--Acha horrivel, não é verdade? perguntou-lhe ella com um sorriso em que
+transparecia a extranha luz da resignação das martyres antigas. Que queria
+que eu fizesse, meu querido amigo? Matar-me? Prostituir-me á convivencia
+da sociedade? Não posso. Falta-me o valor para sacrificar ao meu
+infortunio a salvação da minha alma, e escuso de dizer-lhe que me falta
+igualmente a intrepidez precisa para sacrificar ao socego ordinario da
+vida o pudôr do meu coração. Bem vê pois que acceitei a solução mais
+suave. Coitado! como lhe doe a tristeza do meu destino! Deixe estar:
+prometto-lhe morrer breve, se me não succeder aquella desgraça receada por
+Santa Thereza de Jesus: que o prazer de me sentir morrer me não prolongue
+mais a vida!
+
+Entregando-lhe em seguida o capuz e o manto de casimira em que fôra
+envolvida:
+
+--Adeus, meu primo,--disse-lhe ella deixando-se beijar na testa,--adeus!
+Peça a Deus que me perdôe, e aos vivos que me esqueçam.
+
+Aos primeiros passos que ella deu para lá da porta, esta fechou-se do
+mesmo modo porque havia sido aberta, sem que ninguem mais fosse visto,
+tendo mostrado um buraco lobrego, negro e profundo como a guela de um
+abysmo, e a amante de Rytmel entrou no claustro. Os ferrolhos interiores
+rangeram successivamente nos anneis, expedindo uns sons intercortados,
+similhantes a soluços arrancados de uma garganta de ferro.
+
+O _mascarado alto_ passou parte d'essa noite na villa, esperando a
+mala-posta que partia á uma hora. Ao subirmos juntos á carruagem ouvimos
+uma especie de rebate em dois sinos de uma igreja. Perguntámos o que era.
+O deputado da localidade, que nos acompanhava no _coupé_, respondeu,
+atirando fóra um phosphoro com que accendera um charuto:
+
+--São as carmelitas que pedem o soccorro da caridade, porque não teem que
+comer.
+
+O cocheiro fez estalar o açoite, e a berlinda partiu a galope, abafando o
+vozear entristecido das sinetas com o estrepito que ia fazendo pelas
+calçadas estreitas e tortuosas da povoação.
+
+Pouco mais tenho que contar-lhe.
+
+O conde de W... recebeu em Bruxellas uma carta de sua mulher contendo
+estas linhas:
+
+«Destituo-me voluntariamente da minha posição na sociedade. De todos os
+direitos que por ventura podesse ter, um só peço que não seja contestado:
+o direito de acabar. Supplico-lhe que me permitta desapparecer, e que
+acredite na sinceridade da minha gratidão eterna.»
+
+O doutor está, como elle mesmo disse, nos hospitaes de sangue do exercito
+francez.
+
+Frederico Friedlann partiu repentinamente, no mesmo dia em que lançou no
+correio a carta de F..., para ir encorporar-se na segunda _landwer_ do seu
+paiz.
+
+F... e Carlos Fradique Mendes achavam-se ha dias em uma quinta dos
+suburbios de Lisboa escrevendo, debaixo das arvores e de bruços na relva,
+um livro que estão fazendo de collaboração, e no qual--promettem-n'o elles
+á natureza mãe que viceja a seus olhos--levarão a pontapés ao exterminio
+todos os trambolhos a que as escolas litterarias dominantes em Portugal
+têem querido subjeitar as inviolaveis liberdades do espirito.
+
+Se me é licito por ultimo fallar-lhe de mim, saberá, sr. redactor, que
+estou recolhido em uma pequena casa na provincia. Se ainda se lembra de
+Therezinha, não extranhará que eu accrescente que estou casado ha dias.
+Precisava d'isto o meu coração: da paz de um lar tranquillo. Presencear as
+profundas commoções romanescas da vida é como ter assistido a um grande
+naufragio: sente-se então a necessidade consoladora das cousas pacificas;
+então mais que nunca se reconhece que o ser humano só póde ter a
+felicidade no dever cumprido.--_A. M. C._
+
+
+
+
+A ULTIMA CARTA
+
+
+Sr. redactor do _Diario de Noticias_.--Podendo causar reparo que em toda a
+narrativa que ha dois mezes se publica no folhetim do seu periodico não
+haja um só nome que não seja supposto, nem um só logar que não seja
+hypothetico, fica v. auctorisado por via d'estas lettras a datar o
+desfecho da alludida historia--de Lisboa, aos vinte e sete dias do mez de
+setembro de 1870, e a subscrevel-a com os nomes dos dois signatarios
+d'esta carta.
+
+Temos a honra de ser, etc.
+
+ Eça de Queiroz.
+
+ Ramalho Ortigão.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+Prefacio da 2.^a edição
+
+Exposição do Doutor ***
+
+Intervenção de Z
+
+De F... ao medico
+
+Nota
+
+Segunda carta de Z...
+
+Narrativa do mascarado alto
+
+As revelações de A. M. C.
+
+A confissão d'ella
+
+Concluem as revelações de A. M. C.
+
+A ultima carta
+
+ * * * * *
+
+Notas de Transcrição:
+
+Palavras aparentemente erradas no livro original [1] "quando", [2] chorar.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Mysterio da Estrada de Cintra, by
+José Maria Eça de Queiroz and Ramalho Ortigão
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA ***
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+
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+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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