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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 01:23:33 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Mysterio da Estrada de Cintra + Cartas ao Diário de Noticias, terceira edição + +Author: José Maria Eça de Queiroz + Ramalho Ortigão + +Release Date: February 12, 2007 [EBook #20574] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (This file was produced from +images generously made available by National Library of +Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + +O Mysterio da Estrada de Cintra + + +COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA + + +EÇA DE QUEIROZ E RAMALHO ORTIGÃO + + + + +O Mysterio da Estrada de Cintra + + +Cartas ao _Diario de Noticias_ + + +Terceira Edição emendada e precedida d'um Prefacio + + +LISBOA + +Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor +50--RUA AUGUSTA--54 + +MDCCCXCIV + + +LISBOA +TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA +11--Apostolos--1.^o + + + + ++PREFACIO DA 2^a EDIÇÃO+ + + +CARTA AO EDITOR D'O _Mysterio da Estrada de Cintra_ + + +Ha quatorze annos, n'uma noite de verão no Passeio Publico, em frente de +duas chavenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em +torno de nós cabeceava de somno ao som de um soluçante _pot-pourri_ dos +_Dois Foscaris_, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo +a berros, n'um romance tremendo, businado á baixa das alturas do _Diario +de Noticias_. + +Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, sem +estylo, recolhidos á simples «torre de crystal da Imaginação», desfechámos +a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com +com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia. + +Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pela +curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do _Diario de Noticias_ +o _Mysterio da Estrada de Cintra_, o comprou ainda n'uma edição em livro; +e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos o +que pensamos da obra escripta n'esses velhos tempos, que recordamos com +saudade... + +Havia já então terminado o feliz reinado do senhor D. João VI. Fallecera o +sympathico Garção, Tolentino o jocundo, e o sempre chorado Quita. Além do +Passeio Publico, já n'essa epoca evacuado como o resto do paiz pelas +tropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar ás imaginações o sr. +Octave Feuillet. O nome de Flaubert não era familiar aos folhetinistas. +Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e das +bibliothecas economicas. O sr. Jules Claretie publicava um livro +intitulado... (ninguem hoje se lembra do titulo) do qual diziam +commovidamente os criticos:--_Eis ahi uma obra que ha de ficar!_... Nós, +emfim, eramos novos. + +O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?... +Pensamos simplesmente--louvores a Deus!--que elle é execravel; e nenhum de +nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu peor +inimigo, um livro egual. Porque n'elle ha um pouco de tudo quanto um +romancista lhe não deveria pôr e quasi tudo quanto um critico lhe deveria +tirar. + +Poupemol-o--para o não aggravar fazendo-o em tres volumes--á enumeração de +todas as suas deformidades! Corramos um veu discreto sobre os seus +mascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos, sobre +os seus louros capitães inglezes, sobre as suas condessas fataes, sobre os +seus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que se +arvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda, +sobre os seus sinistros copos d'opio, sobre os seus cadaveres elegantes, +sobre as suas _toilettes_ romanticas, sobre os seus cavallos esporeados +por cavalleiros de capas alvadias desapparecendo envoltos no pó das +phantasticas aventuras pella Porcalhota fóra!... + +Todas estas cousas, aliás sympathicas, commoventes por vezes, sempre +sinceras, desgostam todavia velhos escriptores, que ha muito desviaram os +seus olhos das perspectivas enevoadas da sentimentalidade, para estudarem +pacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua. + +Como permittimos pois que se republique um livro que sendo todo +d'imaginação, scismando e não observado, desmente toda a campanha que +temos feito pella arte de analyse e de certeza objectiva? + +Consentimol-o porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer +envergonhar-se do ser trabalho. + +Conta-se que Murat, sendo rei de Napoles, mandara pendurar na sala do +throno o seu antigo chicote de postilhão, e muitas vezes, apontando para o +sceptro mostrava depois o açoite, gostando de repetir: _Comecei por ali_. +Esta gloriosa historia confirma o nosso parecer, sem com isto querermos +dizer que ella se applique ás nossa pessoas. Como throno temos ainda a +mesma velha cadeira em que escreviamos ha quinze annos; não temos docel +que nos cubra; e as nossas cabeças, que embranquecem, não se cingem por +emquanto de corôa alguma, nem de louros, nem de Napoles. + +Para nossa modesta satisfação basta-nos não ter cessado de trabalhar um só +dia desde aquelle em que datámos este livro até o instante em que elle nos +reapparece inesperadamente na sua terceira edição, com um petulante +arzinho de triumpho que, á fé de Deus, não lhe vae mal! + +Então, como agora, escreviamos honestamente, isto é, o melhor que +podiamos: d'esse amor da perfeição, que é a honradez dos artistas, veio +talvez a sympathia do publico ao livro da nossa mocidade. + +Ha mais duas razões, para auctorizar esta reedição. + +A primeira é que a publicação d'este livro, fóra de todos os moldes até o +seu tempo consagrados, pode conter, para uma geração que precisa de a +receber, uma util lição de independencia. + +A mocidade que nos succedeu, em vez de ser inventiva, audaz, +revolucionaria, destruidosa d'idolos, parece-nos servil, imitadora, +copista curvada de mais deante dos mestres. Os novos escriptores não +avançam um pé que não pousem na pégada que deixaram outros. Esta +pusilanimidade torna todas as obras tropegas, dá-lhes uma expressão +estafada; e a nós, que partimos, a geração que chega faz-nos o effeito de +sahir velha do berço e de entrar na arte de muletas. + +Os documentos das nossas primeiras loucuras de coração queimámol-os ha +muito, os das nossas extravagancias de espirito desejamos que fiquem. Aos +vinte annos é preciso que alguem seja estroina, nem sempre talvez para que +o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite, Para ser +ponderado, correcto e immovel ha tempo de sobra na velhice. + +Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistencia ás +correntes da tradição, é indispensavel para a revivescencia da invenção e +do poder criativo, e para a originalidade artistica. Ai das litteraturas +em que não ha mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o +sobressalto de uma aventura, não haverá n'ellas que lembrar. Além de que, +para os que na edade madura foram arrancados pelo dever ás facilidades da +improvisação e encontram n'esta região dura das coisas exactas, +entristecedora e mesquinha, onde, em logar do esplendor dos heroismos e da +belleza das paixões, só ha a pequenez dos caracteres e a miseria dos +sentimenos, seria dôce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs +de sol, ao voltar da primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a +doirada abelha da phantasia. + +A ultima razão que nos leva a não repudiar este livro, é que elle é ainda +o testemunho da intima confraternidade de dois antigos homens de lettras, +resistindo a vinte annos de provação nos contactos de uma sociedade que +por todos os lados se dissolve. E, se isto não é um triumpho para o nosso +espírito, é para o nosso coração uma suave alegria. + + Lisboa, 14 de dezembro de 1881 + + De V. + + Antigos amigos + + Eça de Queiroz + + Ramalho Ortigão + + ++O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA+ + + + + ++EXPOSIÇÃO DO DOUTOR*** + + + +I + + +Sr. redactor do _Diario de Noticias_ + +Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente +extraordinario em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo +modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substancia, pelo +menos, do que vou expôr. + +Os successos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mysterio, +envolve-os uma tal apparencia de crime que a publicidade do que se passou +por mim torna-se importantissima como chave unica para a desencerração de +um drama que supponho terrivel com quanto não conheça d'elle senão um só +acto e ignore inteiramente quaes foram as scenas precedentes e quaes +tenham de ser as ultimas. + +Ha tres dias que eu vinha dos suburbios de Cintra em companhia de F..., um +amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo. + +Montavamos dois cavallos que F... tem na sua quinta e que deviam ser +reconduzidos a Cintra por um criado que viera na vespera para Lisboa. + +Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A mellancolia do logar +e da hora tinha-se-nos communicado, e vinhamos silenciosos, abstrahidos na +paizagem, caminhando a passo. + +A cerca de talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacem, +n'um ponto a que não sei o nome, porque tenho transitado pouco n'aquella +estrada, sitio deserto como todo o caminho através da charneca, estava +parada uma carruagem. + +Era um _coupé_ pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha +côr de castanha. + +O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos +cavallos. + +Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte +da estrada por onde tinhamos de passar, e pareciam occupados em examinar +attentamente o jogo da carruagem. + +Um quarto individuo, egualmente de costas para nós, estava perto do +vallado do outro lado do caminho, procurando alguma cousa, talvez uma +pedra para calçar o trem. + +É o resultado das sobrodas que tem a estrada, observou o meu amigo. +Provavelmente o eixo partido ou alguma roda desembuxada. + +Passavamos a este tempo pelo meio dos tres vultos a que me referi, e F... +tinha tido apenas tempo de concluir a phrase que proferira, quando o +cavallo que eu montava deu repentinamente meia volta rapida, violenta, e +caiu de chapa. + +O homem que estava junto do vallado, ao qual eu não dava attenção porque +ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo +repentinamente e com a maxima força as redeas que ficavam para o lado +d'elle e impellindo ao mesmo tempo com um pontapé o flanco do animal para +o lado oposto. + +O cavallo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, escorregou das +pernas e tombou ao dar a volta rapida e precipitada a que o tinham +constrangido. + +O desconhecido fez levantar o cavallo segurando-lhe as redeas, e, +ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna +que ficára debaixo do cavallo. + +Este individuo tinha na voz a entoação especial dos homens bem educados. A +mão que me offereceu era delicada. O rosto tinha-o coberto com uma mascara +de setim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapeu. +Era um homem agil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez +cair o cavallo. + +Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma +palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara lucta entre o meu +companheiro e os outros dois individuos que fingiam examinar o trem e que +tinham a cara coberta como aquelle de que já fallei. + +Puro Ponson du Terrail! dirá o sr. redactor. Evidentemente. Parece que a +vida, mesmo no caminho de Cintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais +romanesca do que pede a verosimilhança artistica. Mas eu não faço arte, +narro factos unicamente. + +F..., vendo o seu cavallo subitamente seguro pellas cambas do freio, tinha +obrigado a largal-o um dos desconhecidos, em cuja cabeça descarregára uma +pancada com o cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo +depois arrancar-lhe da mão. + +Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha no entanto tirado da +algibeira a chave de uma porta da casa de Cintra, e esporeava o cavallo +estirando-se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça d'aquelle que o +tinha seguro. + +O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do +cavallo empinado, apontou com a outra um rewolver á cabeça do meu amigo e +disse-lhe com serenidade: + +--Menos furia! menos furia! + +O que levára com o chicote na cabeça e ficára por um momento encostado á +portinhola do trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo +era de baleia e tinha por castão uma simples guarnição feita com uma +trança de clina, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça +o chapeu que lhe caira. + +A este tempo o que me derribara o cavallo e me ajudara a levantar tinha-me +deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, d'aquellas +a que chamam em França _coups de poing_ e que varam uma porta a trinta +passos de distancia. Depois do que, me offereceu delicadamente o braço, +dizendo-me com afabilidade: + +--Parece-me mais commodo acceitar um logar que lhe offereço na carruagem +do que montar outra vez no cavallo ou ter de arrastar a pé d'aqui á +pharmacia da Porcalhota a sua perna magoada. + +Não sou dos que se amedrontam mais promptamente com a ameaça feita com +armas. Sei que ha um abysmo entre prometter um tiro e desfechal-o. Eu +movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavallo +possante; somos ambos robustos; poderiamos talvez resistir por dez +minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais +provavel, em estrada tão frequentada como a de Cintra n'esta quadra, do +que apparecerem passageiros que nos prestassem auxílio. + +Todavia confesso que me sentia attrahido para o imprevisto de uma tão +extranha aventura. + +Nenhum caso anterior, nenhuma circumstancia da nossa vida nos permittia +suspeitar que alguem podesse ter interesse em exercer comnosco pressão ou +violencia alguma. + +Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me parecia tambem que +as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um +homicidio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e +tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me +pessoas de bom mundo. Agora que de espírito socegado penso no acontecido, +vejo que a minha conjectura se baseava em varias circumstancias dispersas, +nas quaes, ainda que de relance, eu attentara, mesmo sem proposito de +analyse. Lembro-me, por exemplo, que era de setim alvadio o forro do +chapeu do que levara a pancada na cabeça. O que apontára o rewolver a F... +trazia calçada uma luva côr de chumbo apertada com dois botões. O que me +ajudára a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas; as calças, de +casimira côr de avelã, eram muito justas e de presilhas. Tinha esporas. + +Não obstante a disposição em que me achava de ceder da lucta e de entrar +no trem, perguntei em allemão ao meu amigo se elle era de opinião que +resistissemos ou que nos rendessemos. + +--Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso! +disse gravemente um dos desconhecidos. Por quem são, acompanhem-nos! Um +dia saberão por que motivo lhes sahimos ao caminho mascarados. Damos-lhes +a nossa palavra que ámanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavallos +ficarão em Cintra d'aqui a duas horas. + +Depois de uma breve reluctancia, que eu contribuí para desvanecer, o meu +companheiro apeou-se e entrou no _coupé_. Eu segui-o. + +Cederam-nos os melhores logares. O homem que se achava em frente da +parelha segurou os nossos cavallos; o que fizera cair o poldro subiu para +a almofada e pegou nas guias; ou outros dois entraram comnosco e +sentaram-se nos logares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os +stores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que +cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem. + +No momento de partirmos, o que ia guiar bateu na vidraça e pediu um +charuto. Passaram-lhe para fóra uma charuteira de palha de Java. Pella +fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a mascara +que tinha no rosto, e partimos a galope. + +Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de +Lisboa, um omnibus, talvez uma sege. Se me não illudi, a pessoa ou pessoas +que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavallos, um dos +quaes é russo e o outro castanho, e poderão talvez dar noticia da +carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro. O coupé +era, como já disse, verde e preto. Os stores, de mogno polido, tinham no +alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz. + +Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de +expedir ainda hoje esta carta pela posta interna. + +Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo porque lhe +occulto o meu nome e o nome do meu amigo. + + +II + + +Julho, 24 de 1870--Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada +integralmente por v. no logar destinado ao folhetim do seu periodico. Em +vista da collocação dada ao meu escripto procurarei nas cartas que houver +de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do +jornal. + +Por esquecimento não datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso +qual o dia em que fomos surprehendidos na estrada de Cintra. Foi quarta +feira, 20 do corrente mez de julho. + +Passo de prompto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando +minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o dialogo que +travámos, tanto quanto me seja possivel com as mesmas palavras que n'elle +se empregaram. + +A carruagem partiu na direcção de Cintra. Presumo porém que deu na estrada +algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não presentiram pela +intercadencia da velocidade no passo dos cavallos. Levaram-me a suppol-o, +em primeiro logar as differenças de declive no nivel do terreno, com +quanto estivessemos rodando sempre em uma estrada macadamisada e lisa; em +segundo logar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro +do _coupé_ coada pela cortina de seda verde, o que me indicava que o trem +passava por encontradas exposições com rellação ao sol que se escondia no +horisonte. + +Havia evidentemente o designio de nos desorientar no rumo definitivo que +tomassemos. + +É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria +absolutamente impossivel decidir se ia de Lisboa para Cintra ou se vinha +de Cintra para Lisboa. + +Na carruagem havia uma claridade bassa e tenue, que todavia nos permittia +distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relogio. Eram sete e um +quarto. + +O desconhecido que ia defronte de mim examinou tambem as horas. O relogio +que elle não introduziu bem na algibeira do collete e que um momento +depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, +era um relogio singular que se não confunde facilmente e que não deixará +de ser reconhecido, depois da noticia que dou d'elle, pellas pessoas que +alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado opposto ao mostrador era de +esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo +de armas de ouro encobrado e polido. + +Havia poucos momentos que caminhavamos quando o individuo sentado defronte +de F..., o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o +acompanhassemos, nos disse: + +--Eu julgo inutil asseverar-lhes que devem tranquilisar-se inteiramente em +quanto á segurança das suas pessoas... + +--Está visto que sim, respondeu o meu amigo; nós estamos perfeitamente +socegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de +acreditar que nos não têem coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão creança +que se apavore com o aspecto das suas mascaras negras ou das suas armas de +fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não +querem fazer-nos mal: nós devemos pela nossa parte annunciar-lhes que +desde o momento em que a sua companhia principiasse a tornar-se-nos +desagradavel, nada nos seria mais facil do que arrancar-lhes as mascaras, +arrombar os stores, convidal-os perante o primeiro trem que passasse por +nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxal-os em seguida aos +cuidados policiaes do regedor da primeira parochia que atravessassemos. +Parece-me portanto justo que principiemos por prestar o devido culto aos +sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos. +D'outro modo ficariamos todos grotescos: os senhores terriveis e nós +assustados. + +Com quanto estas cousas fossem ditas por F... com um ar de bondade +risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao +ouvil-o. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovello n'um +joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois, +reclinando-se para traz e como se mudasse de resolução: + +--No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez eu fizesse e +dissesse o mesmo no seu logar. + +E, tendo meditado um momento, continuou: + +--Que diriam porém os senhores se eu lhes provasse que esta mascara em que +querem ver apenas um symptoma burlesco é em vez d'isso a confirmação da +seriedade do caso que nos trouxe aqui?... Queiram imaginar por um momento +um d'esses romances como ha muitos: Uma senhora casada, por exemplo, cujo +marido viaja ha um anno. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, +está gravida. Que deliberação ha de tomar? + +Houve um silencio. + +Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude +d'aquelle problema e respondi: + +--Enviar ao marido uma escriptura de separação em regra. Depois, se é +rica, ir com o amante para a America ou para a Suissa; se é porbre, +comprar uma machina de costura e trabalhar para fóra n'uma agua furtada. É +o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se +morre depressa n'essas condições, n'um _cottage_ á beira do lago Genebra +ou n'um quarto de oito tostões ao mez na rua dos Vinagres. Morre-se +egualmente, de tisica ou de tedio, no esfalfamento do trabalho ou no enjôo +do idyllio. + +--E o filho? + +--O filho, desde que está fóra da familia e fóra da lei, é um desgraçado +cujo infortunio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube +definir a responsabilidade do pae clandestino. Se os paes fazem como a +legislação, e mandam buscar gente á estrada de Cintra para perguntar o que +se ha de fazer, o melhor para o filho é deital-o á roda. + +--O doutor discorre muito bem como philosopho distincto. Como puro medico, +esquece-lhe talvez que na conjunctura de que se trata, antes de deitar o +filho á roda ha uma pequena formalidade a cumprir, que é deital-o ao +mundo. + +--Isso é com os especialistas. Creio que não é n'essa qualidade que estou +aqui. + +--Engana-se. É precisamente como medico, é n'essa qualidade que aqui está +e é por esse titulo que viemos busca-lo de surpresa á estrada de Cintra e +o levamos a occultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa d'elle. + +--Mas eu não faço clinica. + +--É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso: +não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos +seguir n'esta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma these +de cirurgia que despertou a attenção e mereceu o elogio da faculdade. +Queira fazer de conta que vae assistir a um parto. + +O meu amigo F... poz-se a rir e observou: + +--Mas eu que não tenho curso medico nem these alguma de que me accuse na +minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer? + +--Quer saber o motivo porque se encontra aqui?... Eu lh'o digo. + +N'este momento porém a carruagem parou repentinamente e os nossos +companheiros sobresaltados ergueram-se. + + +III + + +Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir +successivamente as duas lanternas e raspar um phosphoro na roda. Senti +depois estalir a mola que comprime a portinha que se fecha depois de +accender as velas, e rangerem nos anneis dos cachimbos os pés das +lanternas como se as estivessem endireitando. + +Não comprehendí logo a razão porque nos tivessemos detido para similhante +fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho. + +Isto porém explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos +servia de cocheiro não quereria parar em logar onde houvesse gente. Se +tivessemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a +accender-se e que nós veriamos atravez da cortina ou das fendas dos +stores, poderiam dar-nos alguma idéa do sitio em que nos achassemos. Por +esta fórma esse meio de investigação desapparecia. Ao passarmos entre +predios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre +as paredes e a reflexão d'essa claridade para dentro do trem +impossibilitava-nos de distinguir se atravessavamos uma aldeia ou uma rua +illuminada. + +Logo que a carruagem começou a rodar depois de accezas as lanternas, +aquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F... a razão +porque elle nos acompanhava, prosseguiu: + +--O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no +unicamente n'este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de +infancia, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um +constantemente prompto a prestar aos outros os derradeiros sacrificios que +póde impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um medico. +Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que não passasse a +outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor +de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente +esta noite ou ámanhã pela manhã; não devendo saber ninguem quem é sua mãe, +não devendo sequer por algum indicio vir a suspeitar um dia quem ella +seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem falla, e +qual é a casa em que vae entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto +uma mascara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permittir que +continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos +antes de os apearmos defronte do predio a que vão subir. Agora +comprehende, continuou elle dirigindo-se a F..., a razão por que nos +acompanha. Era-nos impossivel evitar que o senhor viesse hoje de Cintra +com o seu amigo, era-nos impossivel adiar esta visita, e era-nos +impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O +senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos. + +--A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisongeira para a minha +discrição. + +--A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não +pertence. + +F... achava-se inteiramente d'accordo com esta maneira de ver, e disse-o +elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados. + +As palavras de F... accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me +que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava +discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e +surprehendia desagradavelmente esse córte imprevisto. Elle, que tinha a +replica prompta e a palavra facil, não achou que retorquir á confiança com +que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um +silencio que devia pezar ás suas tendencias expansivas e discursadoras. + +É verdade que pouco depois d'este dialogo o trem deixou a estrada de +macadam em que até ahi rodara e entrou n'um caminho vicinal ou n'um +atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que +seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrepito dos +stores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar. + +Tornámos por fim a entrar n'uma estrada lisa. A carruagem parou ainda uma +segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo: + +--Lá vou! + +Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia: + +--Vão com raparigas para Lisboa. + +O trem prosseguiu. + +Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto +plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola? +Entender-se-hia com os meus companheiros a phrase que eu ouvira? + +Não posso dizel-o com certeza. + +A carruagem entrou logo depois n'um pavimento lageado e d'ahi a dois ou +tres minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse: + +--Chegámos. + +O mascardo que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que +acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma +commoção: + +--Tenham paciencia! perdôem-m'o... Assim é preciso! + +F... approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente +vendado pelo que estava em frente de mim. + +Apeámo-nos em seguida e entrámos n'um corredor conduzidos pela mão dos +nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo +por que nos encontrámos e démos passagem a alguem que sahia. Quem quer que +era disse: + +--Levo o trem? + +A voz do que nos guiara respondeu: + +--Leva. + +Demorámo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada á +chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo: + +--Vamos! + +Démos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos á direita e +entrámos na escada. Era de madeira, ingreme e velha, coberta com um tapete +estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na +superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente +angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia +de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar +humido e impregnado das exhalações interiores dos predios deshabitados. +Subimos oito ou dez degraus, tomámos á esquerda n'um patamar, subimos +ainda outros degraus e parámos n'um primeiro andar. + +Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de +lugubre n'este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza. + +Ouvi então a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppressão, uma +especie de sobresalto pueril. + +Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que +foi outra vez fechada á chave depois de havermos entrado. + +--Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros. + +Descobri os olhos. Era noite. + +Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n'uma +serpentina de bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que +estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta. + +Não pude conter a commoção que senti, e soltei um grito de horror. + +O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem. + + +IV + + +Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negocio em que me +acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em +que estou para comprehender a secreta verdade d'esta aventura, os habitos +da minha vida repousada subitamente exaltados,--tudo isto me dá um estado +de irritação morbida que me aniquilla. + +Logo que vi o cadaver perguntei violentamente: + +--Que quer isto dizer, meus senhores? + +Um dos mascarados, o mais alto, respondeu: + +--Não ha tempo para explicações. Perdôem ter sido enganados! Pelo amor de +Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Está morto? Está adormecido com +algum narcotico? + +Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente +interrogativa que eu, dominado pelo imprevisto d'aquella situação, +approximei-me do cadaver, e examinei-o. + +Estava deitado n'uma _chaise-longue_, com a cabeça pousada n'uma almofada, +as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descançando no +peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha +golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha signaes +de congestão, nem vestigios de estrangulação. A expressão da physionomia +não denotava soffrimento, contracção ou dôr. Os olhos cerrados +frouxamente, eram como n'um somno leve. Estava frio e livido. + +Não quero aqui fazer a historia do que encontrei no cadaver. Seria +embaraçar esta narração concisa com explicações scientificas. Mesmo sem +exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a +analyse ou a autopsia, pareceu-me que aquelle homem estava sob a +influencia já mortal de um narcotico, que não era tempo de dominar. + +--Que bebeu elle? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente medica. + +Não pensava então em crime nem na mysteriosa aventura que ali me prendia; +queria só ter uma historia progressiva dos factos que tinham determinado a +narcotisação. + +Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da _chaise-longue_ +sobre uma cadeira de estofo. + +--Não sei, disse elle, talvez aquillo. + +O que havia no copo era evidentemente opio. + +--Este homem está morto, disse eu. + +--Morto! repetiu um d'elles, tremendo. + +Ergui as palpebras do cadaver, os olhos tinham uma dilatação fixa, +horrivel. + +Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente: + +--Ignoro o motivo porque vim aqui; como medico d'um doente sou inutil; +como testemunha posso ser perigoso. + +Um dos mascarados veiu para mim e com a voz insinuante, e grave: + +--Escute, crê em sua consciencia que esse homem esteja morto? + +--De certo. + +--E qual pensa que fosse a causa da morte? + +--O opio; mas creio que devem sabel-o melhor do que eu os que andam +mascarados surprehendendo gente pela estrada de Cintra. + +Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que +cortasse os embaraços da minha situação. + +--Perdão, disse um, e ha que tempo suppõe que esse homem esteja morto? + +Não respondi, puz o chapeu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F... +junto da janella batia o pé impaciente. Houve um silencio. + +Aquelle quarto pesado de estofos, o cadaver estendido com reflexos lividos +na face, os vultos mascarados, o socego lugubre do logar, as luzes claras, +tudo dava áquelle momento um aspecto profundamente sinistro. + +--Meus senhores, disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o +que tinha guiado a carruagem--comprehendem perfeitamente, que se nós +tivessemos morto este homem sabiamos bem que um medico era inutil, e uma +testemunha importuna! Desconfiavamos, é claro, que estava sob a acção de +um narcotico, mas queriamos adquirir a certeza da morte. Por isso os +trouxemos. A respeito do crime estamos tão ignorantes como os senhores. Se +não entregamos este caso á policia, se cercámos de mysterio e de violencia +a sua visita a esta casa, se lhes vendámos os olhos, é porque receavamos +que as indagações que se podessem fazer, conduzissem a descobrir, como +criminoso ou como cumplice, alguem que nós temos em nossa honra salvar; se +lhes damos estas explicações... + +--Essas explicações são absurdas! gritou F. Aqui ha um crime; este homem +está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitaria, nós +achamo-nos aqui violentados, e todas estas circumstancias teem um mysterio +tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais +leve acto, nem pela mais involuntaria assistencia, ser parte n'este +negocio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquella porta. + +Com a violencia dos seus gestos, um dos mascarados riu. + +--Ah! os senhores escarnecem! gritou F... + +E arremessando-se violentamente contra a janella, ia fazer saltar os +fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre elle, +curvaram-n'o, arrastaram-n'o até uma poltrona, e deixaram-n'o cair, +offegante, tremulo de desespero. + +Eu tinha ficado sentado e impassivel. + +--Meus senhores, observei, notem que emquanto o meu amigo protesta pela +colera, eu protesto pelo tedio. + +E accendi um charuto. + +--Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente. +Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a mascara, +tiro-a eu! É necessario que nos vejam! Não quero, nem escondido por um +pedaço de cartão, passar por assassino!... Senhores! dou-lhes a minha +palavra que ignoro quem matou este homem! + +E fez um gesto furioso. N'este movimento, a mascara desapertou-se, +descahindo. Elle voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. +Foi um movimento instinctivo, irreflectido, de desesperação. Os outros +cercaram-n'o, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassivel. +Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera +defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com +suspeita. Houve um longo silencio. Os mascarados, a um canto, fallavam +baixo. Eu no emtanto examinava a sala. + +Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete molle, espesso, bom +para correr com os pés nús. O estofo dos moveis era de seda vermelha com +uma barra verde, unica e transversal, como têem na antiga heraldica os +brasões dos bastardos. As cortinas das janellas pendiam em pregas amplas e +suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tepido e penetrante, onde se +sentia a verbena e o perfume de _marechala_. + +O homem que estava morto era moço, de perfil sympathico e fino, de bigode +louro. Tinha o casaco e collete despidos, e o largo peitilho da camisa +reluzia com botões de perolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma +côr clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda +em grandes quadrados brancos e cinzentos. + +Pella physionomia, pela construcção, pelo corte e côr do cabello, aquelle +homem parecia inglez. + +Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente +corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo +luxo, d'um aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os +logares onde ordinariamente se está, se falla e se vive, aquelle quarto +não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira, +umas luvas cahidas, alguma d'estas mil pequenas coisas confusas, que +demonstram a vida e os seus incidentes triviaes. + +F..., tinha-se approximado de mim. + +--Conheceste aquelle a quem caiu a mascara? perguntei. + +--Não. Conheceste? + +--Tambem não. Ha um que ainda não fallou, que está sempre olhando para ti. +Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista. + +Um dos mascarados approximou-se, perguntando: + +--Quanto tempo póde ficar o corpo assim n'esta _chaise-longue_? + +Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colerico, mas +conteve-se. N'este momento o mascarado mais alto, que tinha saido, +entrara, dizendo para os outros: + +--Prompto!... + +Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pendula e os passos de F..., que +passeiava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode. + +--Meus senhores, continuou voltando-se para nós o mascarado--damos-lhe a +nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este successo. +Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão +retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, +tudo o que quizerem. Imaginem que estão aqui pela violencia, pela +corrupção, pela astucia, ou pela força da lei... como entenderem! O facto +é que ficam até amanhã. O seu quarto--disse-me--é n'aquella alcova, e o +seu--apontou para F.--lá dentro. Eu fico comsigo, doutor, n'este sofá. Um +dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Ámanhã +despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte á policia ou escrever para +os jornaes. + +Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquillidade. Não +respondemos. + +Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta +de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. +Eu passeava. N'uma das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto +d'uma poltrona, uma coisa branca similhante a um lenço. Passei defronte da +poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz +para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caido. Era +effectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande +delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter +bordadas uma firma e uma corôa. + +N'este momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se +a F... + +--Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessario vendar-lhe +os olhos. + +F. tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu elle mesmo os +olhos, e sairam. + +Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz sympathica e attrahente. + +Perguntou-me se queria jantar. Comquanto lhe respondesse negativamente, +elle abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. +Bebi apenas um copo d'agua. Elle comeu. + +Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quasi em amizade. Eu sou +naturalmente expansivo, o silencio pesava-me. Elle era instruido, tinha +viajado e tinha lido. + +De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar +leve e cauteloso, e logo alguem tocar na porta do quarto onde estavamos. O +mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. +Erguemo-nos sobresaltados. O cadaver achava-se coberto. O mascarado apagou +as luzes. + +Eu estava aterrado. O silencio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das +chaves que a pessoa que estava fóra ás escuras procurava introduzir na +fechadura. + +Nós, immoveis, não respiravamos. + +Finalmente a porta abriu-se, alguem entrou, fechou-a, accendeu um +phosphoro, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, immovel, +com os braços estendidos. + +Ámanhã, mais socegado e claro de recordações, direi o que se seguiu. + + * * * * * + +P.S.--Uma circumstancia que póde esclarecer sobre a rua e o sitio da casa: +De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando +o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra: + + Escrevi uma carta a Cupido + A mandar-lhe perguntar + Se um coração offendido... + +Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, +lerem esta carta, prestarão um notavel esclarecimento dizendo em que rua +passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquellas rymas +populares. + + +V + + +Hoje, mais socegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade, +reconstruindo-o do modo mais nitido, nos dialogos e nos olhares, o que se +seguiu á entrada imprevista d'aquella pessoa no quarto onde estava o +morto. + +O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a +testa, demos-lhe a respirar vinagre de _toilette_. Voltou a si, e, ainda +tremulo e pallido, o seu primeiro movimento instinctivo foi correr para a +janella! + +O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e +arremessou-o com violencia para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. +Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme: + +--Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo- lhe o +coração! + +--Vá, vá, disse eu, breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui? + +Elle não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia +machinalmente: + +--Está perdido tudo! Está tudo perdido! + +--Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço, que veiu +fazer aqui? Que é isto? como soube?... + +A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o setim negro da +mascara. + +--Que veiu fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos hombros e sacudindo-o +como um vime. + +--Escute... disse o homem convulsivamente. Vinha saber... disseram-me... +Não sei. Parece que já cá estava a policia... queria... saber a verdade, +indagar quem o tinha assassinado... vinha tomar informações... + +--Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços. + +Eu estava surprehendido; aquelle homem conhecia o crime, sabia que havia +ali um cadaver! Só elle o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente +ignorados aquelles successos lugubres. Por consequencia quem sabia onde +estava o cadaver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao +logar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surprehendido, estava +positivamente envolvido no crime... + +--Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado. + +O homem calou-se. + +--Quem lhe fallou n'isto? + +Calou-se. + +--Que vinha fazer, de noite, ás escondidas, a esta casa? + +Calou-se. + +--Mas como sabia d'este absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento +nós?... + +E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptivel do +expediente que ia tomar, accrescentou: + +-- ... nós e o senhor comissário. + +O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os +bolsos. Encontrou um pequeno martello e um masso de pregos. + +--Para que era isto? + +--Trazia naturalmente isso, queria concertar não sei quê, em casa... um +caixote... + +O mascarado tomou a luz, approximou-se do morto, e por um movimento +rapido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a +livida face do cadaver. + +--Conhece este homem? + +O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar, +demorado e attento. + +Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistencia implacavel nos +olhos d'elle, dominei-o, dísse-lhe baixo, apertando-lhe a mão: + +--Porque o matou? + +--Eu? gritou elle. Está doido! + +Era uma resposta clara, franca, natural, innocente. + +--Mas porque veiu aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como +tinha a chave? Para que era este martello? Quem é o senhor? Ou dá +explicações claras, ou d'aqui a uma hora está no segredo, e d'aqui a um +mez nas galés. Chame os outros, disse elle para mim. + +--Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o +desconhecido. + +Esperámos; mas retraindo a voz, e com uma intonação demorada, como quem +dicta: + +--A verdade, prosseguiu, é esta: encontrei hoje de tarde um homem +desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é +destemido, vá a tal rua, n.º tantos... + +Eu tive um movimento avido, curioso, interrogador. Ia emfim saber onde +estava! + +Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôz-lhe a mão aberta sobre a +bocca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível: + +--Se diz onde estamos, mato-o. + +O homem fitou-nos: comprehendeu evidentemente que eu tambem estava ali, +sem saber onde, por um mysterio, que os motivos da nossa presença eram +tambem suspeitos, e que por consequencia não eramos empregados da policia. +Esteve um momento calado e accrescentou: + +--Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem +aqui? + +--Está preso, gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o +assassino. + +--Esperem, esperem, gritou elle, não comprehendo! Quem são os senhores? +Suppuz que eram da policia... São talvez... disfarçam para me +surprehender! Eu não conheço aquelle homem, nunca o vi. Deixem-me sair... +Que desgraça! + +--Este miseravel ha de fallar, elle tem o segredo! bradava o mascarado. + +Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astucia. +Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me +que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu. +O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o +homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Elle pedia-me _que o +salvasse_, chamava-me seu _amigo_. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado +pela imaginação. Era facil surprehender a verdade dos seus actos. Com um +modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras e +simples, mas cheias de traição e de analyse. Elle, com uma boa fé +inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava. + +--Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto. + +--Qual? + +--É que não tivesse deixado signaes o arsenico... + +--Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil. + +Ergui-me de salto. Aquelle homem, se não era o assassino, conhecia +profundamente todos os segredos do crime. + +--Sabe tudo, disse eu ao mascarado. + +--Foi elle, confirmou o mascarado convencido. + +Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples: + +--A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a mão, +dêmos parte á policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem +decerto que vêr n'este negócio. + +--De certo que não. Este homem é o assassino. + +E voltando-se para elle com um olhar terrivel, que flammejava debaixo da +mascara: + +--E porque o matou? + +--Matei-o... respondeu o homem. + +--Matou-o, disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou, para +lhe roubar 2:300 libras em _bank-notes_, que aquelle homem tinha no bolso, +dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas lettras de +prata, que eram as iniciais do seu nome. + +--Eu!... para o roubar! Que infamia! Mente! Eu não conheço esse homem, +nunca o vi, não o matei! + +--Que malditas contradicções! gritou o mascarado exaltado. + +A.M.C. objectou lentamente: + +--O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o unico +amigo que elle conhecia em Lisboa? + +--Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço. +Falle,diga. + +--Por motivos que devo occultar, continuou o homem, sabia que este +sujeito, que é extrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou ha +poucas semanas, vinha a esta casa... + +--É verdade, atalhou o mascarado. + +--Que se encontrava aqui com alguem... + +--É verdade, disse o mascarado. + +Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das idéas perturbada, via +apparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicavel. + +--Além d'isso, continuou o homem desconhecido, ha de saber tambem que um +grande segredo occupava a vida d'este infeliz... + +--É verdade, é verdade, dizia o mascarado absorto. + +--Pois bem, hontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, +pediu-me que viesse ver se o encontrava... + +Nós esperavamos, petrificados, o fim daquellas confissões. + +--Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel. + +E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada. + +--Leia, disse elle ao mascarado. + +Este approximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com +os braços pendentes, os olhos cerrados. + +Ergui o papel, li: + +_I declare that I have killed myself with opium._ + +(Declaro que me matei com opio). + +Fiquei petrificado. + +O mascarado dizia com a voz absorta como n'um sonho: + +--Não é possivel. Mas é a lettra dele, é! Ah! que mysterio, que mysterio! + +Vinha a amanhecer. + +Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até +ámanhã. + + +VI + + +Peço-lhe agora toda a sua attenção para o que tenho de contar-lhe. + +A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruidos da povoação que desperta. A rua +não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. +Tambem não era uma rua larga, porque o echo das carroças era profundo, +cheio e proximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens. + +O mascarado tinha ficado n'uma prostração extrema, sentado, immovel, com a +cabeça apoiada nas mãos. + +O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os +olhos cerrados, como adormecido. + +Eu abri as portas da janella: era dia. Os transparentes e as persianas +estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros. +Entrava uma luz lugubre, esverdeada. + +--Meu amigo, disse eu ao mascarado, é dia. Coragem! é necessario fazer o +exame do quarto, movel por movel. + +Elle ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma +cama, e á cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um panno de +velludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um _edredon_ de +setim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fôfo, como se não +usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vasio e uma jarra com +flores murchas. Havia um lavatorio, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas +dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova +estava uma bengala grossa com estoque. + +Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade +significativa. O exame d'ella dava na verdade a persuasão de que se estava +n'uma casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um logar +de entrevistas, e não um interior regular. + +A casaca e o collete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos +via-se no chão, ao pé da _chaise-longue_; o chapeu achava-se sobre o +tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caido ao pé da +cama. + +Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou +carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do collete estava o +relogio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha +d'ouro, com dinheiro miudo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde +averiguar em que tivesse sido trazido de fóra o opio; não appareceu +frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou +em pó; e foi a primeira difficuldade que no meu espírito se apresentou +contra o suicidio. + +Perguntei se não havia na casa outros quartos que communicassem com +aquelle aposento e que devessemos visitar. + +--Há, disse o mascarado, mas este predio tem duas entradas e duas escadas. +Ora aquella porta, que communica com os demais quartos, encontrámol-a +fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu +d'esta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto. + +Como tinha então trazido o opio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o +frasco, ou qualquer envolucro que contivesse o narcotico devia apparecer. +Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto +da agua opiada, alli estava. Um indicio mais grave parecia destruir a +hypothese do suicidio: não se encontrou a gravata do morto. Não era +natural que elle a tivesse tirado, que a tivesse destruido ou lançado +fóra. Não era tambem racional que tendo vindo áquelle quarto, +esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse +gravata. Alguem pois tinha estado n'aquella casa, ou pouco antes da morte +ou ao tempo d'ella. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a +gravata do morto. + +Ora a presença de alguem n'aquelle quarto, coincidindo com a estada do +supposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicidio e dava +presumpções ao crime. + +Aproximámo-nos da janella, examinámos detidamente o papel em que estava +escripta a declaração do suicida. + +--A lettra é d'ele, parece-me indubitavel que é--disse o mascarado--mas na +verdade, não sei porque, não lhe acho a feição usual da sua escripta! + +Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas. +Notei logo no alto da pagina a impressão muito apagada, muito indistincta, +d'uma firma e de uma corôa, que devia ter estado gravada na outra meia +folha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circumstancia ao +mascarado: elle ficou surprehendido e confuso. No quarto não havia papel, +nem tinteiro, nem pennas. A declaração pois tinha sido escripta e +preparada fóra. + +--Eu conheço o papel de que elle usava em casa, disse o mascarado; não é +d'este; não tinha firma, não tinha corôa. Não podia usar d'outro. + +A impressão da marca não era bastante distincta para que se percebesse +qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração +não tinha sido escripta nem em casa d'elle, onde não havia d'aquelle +papel, nem n'aquelle quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem +um livro, um _buvard_, um lapis. + +Teria sido escripta fóra, na rua, ao acaso? Em casa d'alguem? Não, porque +elle não tinha em Lisboa, nem relações intimas, nem conhecimento de +pessoas cujo papel fosse marcado com corôa. + +Teria sido feita n'uma loja de papel? Não, porque o papel que se vende +vulgarmente nas lojas não tem corôas. + +Seria a declaração escripta n'alguma meia folha branca tirada de uma velha +carta recebida? Não parecia tambem natural, porque o papel estava dobrado +ao meio e não tinha os vincos que dá o _enveloppe_. + +Demais a folha tinha um aroma de pós de _marechala_, o mesmo que se +sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos. + +Além d'isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz, +distingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o +papel no momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua +brancura lisa e assetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este +dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente +vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente +efficaz e seguro. + +--Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de +escrever, abreviando-a, a palavra _that_, d'este modo: dois TT separados +por um traço. Esta abreviatura era só d'elle, original, desconhecida. +N'esta declaração, aliás pouco ingleza, a palavra _that_ acha-se escripta +por inteiro. + +Voltando-se então para M. C.: + +--Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta +declaração foi falsificada. + +--Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com +surpreza. + +--Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indicios +d'isso. Mas o grande, o forte, o positivo indicio é este: onde estão 2:300 +libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso? + +M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho. + +--Não apparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este +homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete. + +--Senhor, observou gravemente A.M.C., falla-me em 2:300 libras: dou-lhe a +minha palavra de honra que não sei a que se quer referir. + +Eu então disse lentamente pondo os olhos com uma perscrutação demorada +sobre as feições do mancebo: + +--Esta declaração é falsa, evidentemente, não percebo o que quer dizer +este novo negocio das 2:300 libras, de que só agora se falla; o que vejo é +que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o +matou, o que sei é que evidentemente o cumplice é uma mulher. + +--Não póde ser, doutor!, gritou o mascarado. É uma supposição absurda. + +--Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente +perfumado, carregado de estofos, illuminado por uma claridade baça coada +por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado +com uma corda de seda; ali aos pés d'aquella volteriana aquelle tapete +feito de uma pelle de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o +vestigio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta +evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?... + +--Ou a qualquer outro fim. + +--E este papel? este papel de marca pequenissima, do que as mulheres +compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz? + +--Muitos homens o usam! + +--Mas não o cobrem como este foi coberto, com um _sachet_ em que havia o +mesmo aroma que se respira no ambiente d'esta casa. Este papel pertence a +uma mulher, que examinou a falsificação que elle encerra, que assistiu a +ella, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os +dedos humidos, deixando no papel um vestigio tão claro... + +O mascarado calava-se. + +--E um ramo de flôres murchas, que está ali dentro? um ramo que examinei e +que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita +está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco, +como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um +buraquinho... É o vestigio flagrante que deixou no veludo um gancho de +segurar o cabello! + +--Esse ramo podiam ter-lh'o dado, podia tel-o trazido elle mesmo de fóra. + +--E este lenço que encontrei hontem debaixo de uma cadeira? + +E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou n'elle avidamente, +examinou-o e guardou-o. + +M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquillado pela dura logica das +minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois +com voz humilde, quasi supplicante: + +--Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indicios não provam. Este lenço, +de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto +trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço? + +--E não se lembra tambem que não lhe encontrámos gravata? + +O mascarado calou-se succumbido. + +--No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro +vivamente esta morte, e fallo n'isto unicamente pelo pezar e pelo horror +que ella me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que +caisse ás mãos de uma mulher ou ás mãos de um homem, importa-me pouco. O +que devo dizer-lhe é que o cadáver não póde ficar por muito mais tempo +insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é +sair. + +--Tem razão, vae sair já, cortou o mascarado. + +E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me: + +--Um momento! Eu volto já! + +E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa, +fechando-a á chave pelo outro lado. + +Fiquei só, passeando agitadamente. + +A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de +pensamentos inteiramente novos e diversos d'aqueles que me haviam occupado +durante a noite. Ha pensamentos que não vivem senão no silencio e na +sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que só surgem +ao clarão do sol. + +Eu sentia no cerebro uma multidão de idéas extremunhadas, que á luz +repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas +amedrontadas pelo estridor de um tiro. + +Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no +travesseiro. + +Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commoção, sobre a +alvura do travesseiro, preso n'um botão de madreperola, um longo cabello +louro, um cabello de mulher. + +Não me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente. + +--Era então certo! ahi estás pois! encontro-te finalmente!... Pobre +cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi, +patente, descuidado, preguiçoso, languido! Pódes ter maldade, pódes ter +malvadez, mas não tens malicia, não tens astucia. Tenho-te nas mãos, +fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não córas; dás-te, +consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no emtanto, +tenue, exigua, quasi microscopica, és uma parte da mulher que eu +adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ella auctora do crime? é +inteiramente innocente? é apenas cumplice? Não sei, nem tu m'o poderás +dizer? + +De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de +espírito inexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro, +reconhecel-o em tudo: na sua côr, na sua _nuance_ especial, no seu +aspecto! Lembrou-me, appareceu-me então a mulher a quem aquelle cabello +pertencia! Mas quando o nome d'ella me veio insensivelmente aos +labios,disse commigo: + +--Ora! por um cabello! que loucura! + +E não pude deixar de rir. + +Esta carta vae já demasiadamente longa. Continuarei ámanhã. + + +VII + + +Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado á cabeceira da +cama um cabello louro. + +Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso, +languidamente enrolado, quasi casto, era o indicio d'um assassinato, d'uma +cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, +immovel, aquelle cabello perdido. + +A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena, +_mignonne_, porque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente +puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por +uma ligação tenue, delicadamente organisada. + +O caracter d'essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, +porque o cabello não tinha ao contacto aquella aspereza cortante que +offerecem os cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento, +altivo e egoista. + +Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, já +pelo imperceptivel perfume d'elle, já porque não tinha vestigios de ter +sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados +phantasiosos. + +Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello +denotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do +norte, completamente extranho ás meridionaes, que abandonam os seus +cabelos á abundante espessura natural. + +Isto eram apenas conjecturas, deducções da phantasia, que nem constituem +uma verdade scientifica, nem uma prova judicial. + +Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d'um cabello, e que me +apparecia doce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter +sido o protagonista cheio de astucia d'aquella occulta tragedia? Mas +conhecemos nós porventura a secreta logica das paixões? + +Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como +cumplice. Aquelle homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no +momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado, sem +violencia evidentemente, por ardil ou engano, n'um copo d'agua. A ausencia +do lenço, o desapparecimento da gravata, a collocação do fato, aquelle +cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de +uma cabeça, tudo indicava a presença d'alguem n'aquella casa durante a +noite da catastrophe. Por consequencia: impossibilidade de suicidio, +verosimilhança de crime. + +O lenço achado, o cabello, a disposição da casa, (evidentemente destinada +a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha, +devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... +tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a +parte d'ella n'aquella aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? +Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? Não sei. M. C. não +podia ser extranho a essa mulher. Não era de certo um cumplice tomado +exclusivamente para o crime. Para dar opio n'um copo de agua não é +necessario chamar um assassino assalariado. Tinham por consequencia um +interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E accudia-me á +memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras que de repente me +tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas +fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as idéas que se formavam e que +se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n'um ceu varrido pelo vento? + +Há de certo na minha hypothese ambiguidades, contradicções e fraquezas, ha +nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas +significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores +inexpressivos se me gravaram na memoria, mas eu estava n'um estado morbido +de perturbação, inteiramente desorganisado por aquella aventura, que +inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na +minha vida. + +O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que +socegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar, +estabelecer deducções mais certas, e melhor approximar-se pela inducção e +pela logica da verdade occulta. + +Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o +chapeu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia. + +--Vamos, disse elle. + +Tomei calado o meu chapéu. + +--Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar dê-me a sua palavra de +honra que ao subir agora á carruagem não terá um gesto, um grito, um +movimento que me denuncie. + +Dei a minha palavra. + +--Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu +caracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em +qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso +affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez +entregue este caso á policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez +carrasco. Esta casa é um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva +d'aqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu n'este crime: não o +supponha, não podia ser. No emtanto, se alguma vez lá fóra fallar, a +respeito d'este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a +minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia, +naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! +esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas +lunetas de cambraia. + +E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos. + +Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os stores fechados. +Não pude vêr quem guiava os cavallos porque só dentro do coupé achei a +vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte +da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida, o cabello castanho, +levemente annelado. + +A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela +differença de velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas +de macadam e de calçada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na +vespera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga. + +--Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? É +que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se póde remediar isto. Mas não +se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi encontra facilmente +conducção para Lisboa. + +E offereceu-me charutos. + +Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem +parou. + +--Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor. + +E abriu por dentro a portinhola. + +--Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. +Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no +prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da +scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus! + +Apertámo-nos a mão, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu os stores e +estendendo-me para fóra um pequeno cartão: + +--Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato. + +Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente, +olhei. O retrato estava tambem mascarado! + +--É um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou +elle, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a +rodar a trote. + +Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma +capa traçada sobre o rosto. + +Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle +trem levava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle +homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo. + +O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sophá, que lhe servia de +sarcophago! + +Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancolica. Ao +longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto +áquelle por onde elle desapparecia. + +--Onde fica o Cacem? + +--De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua. + +A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra. + +Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, á quinta de F., saber +se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a +a uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores +e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda +a brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o +vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa +alvadia. + +Tomei informações a respeito da carruagem que passara na vespera comnosco. +Havia contradicções sobre a côr dos cavallos. + +Voltou de Cintra o homem que eu ali mandára, dizendo que na quinta de F. +tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera +que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara +comsigo em uma caleche para Lisboa. D'ahi a momentos chegou a minha +carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido +este bilhete a lapis: _Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem +me procurar, que fui para Madrid._ + +Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava +evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do +mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, +notei que era seguido. + +Entregar á policia este negocio, tão vago e tão incompleto como elle é, +seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que, em resultado das +primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa officiou ao +administrador de Cintra convidando-o a metter o esforço da sua policia no +descobrimento d'este crime. Foram inuteis estas providencias. Assim devia +ser. O successo que constitue o assumpto d'estas cartas está por sua +natureza fóra da alçada das pesquizas policiaes. Nunca me dirigi ás +authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo para isso +as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando ser +victima de uma emboscada. + +São obvias, depois d'isto, as rasões por que lhe occulto o meu nome: +assignar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como +quero. + +Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do +sol nascente atravez das minhas jelozias. Oiço os pregões dos vendedores +matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens, o murmurio +alegre da povoação que se levanta depois de um somno despreoccupado e +feliz... Invejo aquelles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras +passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu--pobre de mim!--estou encarcerado +por um mysterio, guardado por um segredo! + + +P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escripta ha dias, +só hoje me veiu á mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu +ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora +pude haver essa interessante missiva. Ahi tem, senhor redactor, copiada +por mim, a primeira parte d'essa carta, da qual depois de ámanhã lhe +enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante +esclarecimento n'este obscuro successo; é um vestigio luminoso e profundo. +F... é um escriptor publico, e descobrir pelo estylo um homem é muito mais +facil do que reconstruir sobre um cabello a figura de uma mulher. É +gravissima a situação do meu amigo. Eu, afflicto, cuidadoso, hesitante, +perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, +rendo-me á decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do +autographo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa +carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me +a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem... se poderem. +Adeus! + + + + ++INTERVENÇÃO DE Z.+ + + +Nota do Diario de Noticias.--No original da carta publicada hontem havia +algumas palavras a lapis, nas quaes só fizemos reparo depois de impresso o +jornal. Essas palavras continham esta observação: _A photographia do +mascarado foi feita em casa de Henrique Nunes, rua das Chagas, Lisboa. +Talvez ahi possa haver noticia do sujeito photographado._ + +Antes de darmos á estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos +foi hontem enviada pelo medico, é dever nosso tornar conhecida uma outra +importantissima que recebemos pela posta interna, assignada com a inicial +_Z._, e que temos em nosso poder ha já tres dias. Esta carta, que tão +estreitamente vem prender-se na historia dos successos que constituem o +assumpto d'esta narrativa, é a seguinte: + +Senhor redactor do _Diario de Noticias_.--Lisboa, 30 de julho de +1870.--Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quasi +toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor +anonymo conta o caso que essa redacção intitulou _O mysterio da Estrada de +Cintra_. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade +despreoccupada que se liga a um _canard_ fabricado com engenho, a um +romance á similhança dos _Thugs_ e de alguns outros do mesmo genero com +que a veia imaginosa dos phantasistas francezes e americanos vem de quando +em quando acordar a attenção da Europa para um successo estupendo. A +narração do seu periodico tinha sobre as demais que tenho lido o merito +original de se passarem os successos ao tempo que se vão lendo, de serem +anonymas as personagens e de estar tão secretamente encoberta a mola +principal do enredo, que nenhum leitor poderia contestar com provas a +veracidade do caso portentosamente romanesco, que o auctor da narrativa se +lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira, +simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o +ideal mais perfeito, o typo mais acabado do _roman feuilleton_, quando +inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciaes de um nome +de homem--A. M. C.--accrescentando-se que a pessoa designada por estas +lettras é estudante de medicina e natural de Vizeu. Eu tenho um amigo +querido com aquellas iniciaes no seu nome. É justamente estudante de +medicina e natural de Vizeu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia por +tanto o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamissima. Isto não +é licito a romancista nenhum. + +A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tedio. Saindo de +casa pouco depois da leitura do seu periodico, procurei o meu amigo para +lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me á sua disposição no +caso que precisasse de mim para pedir quanto antes á redacção do _Diario +de Noticias_ a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não +poderiam de certo recusar a semelhante aggravo. + +Em casa do meu amigo acabo porém de saber, cheio de confusão e de +surpresa, que elle desappareceu e que é ignorado o seu destino! + +Este desapparecimento e a coincidencia achada na carta do doutor levam-me +desgraçadamente a acreditar que por extranhas fatalidades o meu infeliz +amigo se acha involuntariamente envolvido n'este tenebroso negocio. A data +do desapparecimento d'elle condiz perfeitamente com a que encontro na +carta do seu correspondente. É claro que ha pois em volta da pessoa de A. +M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição. + +Serei tristemente obrigado a ter por veridica, no todo ou em parte, a +noticia que leio na sua folha? + +Julgo do meu dever assegurar o seguinte: + +Não sei o que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa +desconhecida, tendo uma chave d'ella, martello e pregos. Não sei porque se +declarou auctor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a intima verdade +d'estas contradicções. + +Mas o que sei, aquillo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas +amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do +assassinato elle esteve, até quasi de madrugada, em minha casa, +conversando, rindo, bebendo cerveja. + +Saiu talvez ás tres horas da noite. + +Declaro tambem, e isto póde ser egualmente apoiado por seguras +testemunhas: que ás nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto +d'elle. Ainda dormia, acordou sobresaltado á minha voz, e tornou a +adormecer em quanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine. + +As donas da casa que o hospedam disseram-me que elle entrara pela +madrugada. + +--Ali pela volta das tres e meia, conjecturavam ellas. + +Ora da minha casa, d'onde saiu ás tres, até casa d'elle, onde entrou ás +tres e meia, o caminho que é longo, occupa justamente este espaço de +tempo. + +Por consequencia, respondam: quando commetteu elle o crime? O emprego do +seu tempo está todo justificado: das nove da noite até á madrugada em +minha casa, n'uma conversa jovial e intima; da madrugada até ás nove, n'um +somno pacifico em sua propria casa. + +Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não ha testemunhas. É +crivel que em meia hora podesse ir alguem a essa casa, preparar opio, +fazel-o beber a um homem, falsificar uma declaração e vir socegadamente +dormir? Tem isto logica? + +Demais o crime foi commettido n'uma casa, o opio foi deitado n'um copo +d'agua, dado traiçoeiramente. O cadaver estava meio despido. Tudo isto +indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham +conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha +talvez calor, poz-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura +anedoctas, e n'um momento de sede, o opio foi dado n'um copo d'agua. E +tudo isto se faz em meia hora! em _meia hora!_ Devendo, meus senhores, +descontar-se d'esta meia hora o tempo que vae de minha casa á casa do +crime, e d'ahi a casa de A. M. C.! Póde isto ser? + +Agora outro argumento: Eu conheço A. M. C.: o seu caracter é digno, +impeccavel; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e +isolada; não existe n'ella nem mysterio, nem aventura, nem pathetico: +estava para casar, sem romance, trivialmente. + +Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo +que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia +extrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado ha pouco tempo em Portugal! + +Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossivel. Se o +homem foi encontrado estendido n'um sophá, morto com opio! + +Poderia M. C. ter sido assalariado para commetter este crime? Que loucura! +Um homem da sua intelligencia, do seu caracter, da sua elevação de +espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente +retribuido como uma funcção publica, não existe nos costumes. + +Póde-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até ao momento +decisivo distrahido, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo +cerveja? E que depois vá socegadamente dormir, e que um amigo que o visite +na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chavena de +chá e um livro de historia? + +E dê-se isto com um homem de caracter timido, de habitos modestos, homem +de estudo, sem energia de acção, e de uma notavel franqueza de impressões! + +Se me perguntarem, porém, porque apparece M. C. de noite n'aquella casa +com um martello, com pregos, e se declara assassino,--isso não o sei +explicar. + +Suspeito que haja uma grande influencia que peza sobre elle, alguem que +com promessas extraordinarias, com seducções indisiveis, o obriga a +apresentar-se como auctor do crime. M. C. evidentemente sacrifica-se. Por +quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorancia de que estas dedicações +são sempre desapreciadas perante o trabalho da policia, quer expiar o +crime de outro; perde-se para salvar alguem. + +Com que interesse? por que seducções? Não sei explicar. Elle, tão +indifferente ao dinheiro! tão rigido de costumes e de sensações! + +Pois bem! M. C. póde sacrificar-se; póde-o fazer. Nós, seus amigos, é que +não podemos consentil-o. O seu corpo, que lhe pertence exclusivamente, +póde dal-o á infecção d'um carcere, ou ao peso d'uma grilheta. Mas o seu +caracter, a sua honra, a sua reputação, a sua alma, essa pertence tambem +aos seus amigos, e a parte que nos pertence havemos de defendel-a +corajosamente. + +Não! M. C. não foi o assassino. Dil-o a evidencia, a fatal logica dos +factos, a terrivel mathematica do tempo, o conhecimento do seu caracter, e +a coherencia dos temperamentos, que é uma verdade nas sciencias +physiologicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, _mente_. +Digo-lh'o claramente, em frente, diante dos seus proprios olhos fitos +sobre os meus:--Se te declaras o auctor d'esse crime, _mentes_! + +Elle tem de certo o senso moral transviado. Se me deixassem fallar-lhe!... +Esclareçam-lhe, pelo amor de Deus, aquella rasão cheia de escuras nuvens +da paixão e da dôr! Isto é afflictivo! Honra, amor, familia, esperança, +tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, o desgraçado, que não é só n'este +mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da provincia, sua +mãe, suas irmãs, sabem já que elle está aqui apontado como assassino! Que +se lembre da terrivel deshonra, do seu futuro perdido, das horas +solitarias da prisão, da atroz vergonha de um interrogatorio publico, e do +echo profundo que faz na alma humana o ruido sinistro dos ferros da +grilheta. + +Não ponho no fim d'esta carta o meu nome, porque presinto vagamente n'este +grupo de successos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a +passagem mysteriosa e fatal de um crime que vae poderosamente na direcção +do seu fito, esmagando e despedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu +não quero que a publicidade do meu nome leve os cumplices no attentado de +que se trata, ou porventura a policia, a aniquillar ou a embaraçar de +qualquer modo a intervenção expontanea que eu proprio vou ter no +descobrimento dos reus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os +pôr em pratica de toda a minha liberdade. + +Creia-me, senhor redactor, etc--_Z._ + + + + ++DE F... AO MEDICO+ + + +I + + +Julho 21 à 1 hora da noite. + +--Meu querido amigo. + +--Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se +continuas, como eu, permanecendo aqui em carcere privado. Em qualquer dos +casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão +encerrando para aquelle de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa +das horas mais extraordinarias da nossa vida. + +Escrevo mais para coordenar e fixar na memoria estes momentos do que para +empregar n'outro destino puramente hypothetico esta carta. Será uma pagina +das minhas confidencias que entregarei á discrição ou ao acaso da posta, +reservando-me o direito de lhe pedir que m'as restitua a seu tempo. + +Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos hontem á noite, +pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadaver. O +mascarado que se encarregára de me conduzir ao quarto onde me acho deu-me +o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua +e o numero de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da +casa em que ella mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui +dizer serenamente: + +--Não o comprehendo. + +Este individuo era o mesmo que na carruagem se conservára sempre calado, o +mesmo que na sala me observava com attenção e desconfiança. + +Aquella estatura, aquella falla, aquella voz, posto que apenas perceptivel +ao meu ouvido, não eram novas para mim. + +Elle respondeu fallando-me ainda mais baixo: + +--Não poderá sair d'aqui antes de dois ou tres dias. Veja se precisa de +escrever uma carta ou de mandar um recado. + +Passou-me pela mente uma idéa a respeito d'aquelle homem... Se fosse... + +Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se +não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio; +bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o +dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura +do esmalte e no centro a saliencia de um brasão. + +--Escreverei duas linhas, disse eu; quererá dar-me um lapis? + +Tinhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo +em que elle saia promettendo trazer-me o necessario para escrever. O +individuo que voltou com papel e pennas não era o mesmo que acabara de +sair. Assim tinha eu perdido a occasião de confirmar uma suspeita ou de +desvanecer uma duvida. + +Em todo o caso escrevi duas linhas ao meu creado serenando-o com relação +ao meu desapparecimento. + +--Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete. + +--Nada mais. + +Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de +escrever directamente á pessoa a quem o mascarado se referira. + +Fecharam a porta e fiquei só. + +Achei-me n'um quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janella. A um +lado havia um lavatorio; sobrepostas a um canto tres malas de viagem, de +coiro de Varsovia com pregos d'aço, estrelladas com senhas de caminhos de +ferro, d'hoteis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em +grandes lettras pretas sobre uma tira de papel este distico: +_Grand-Hotel-Paris_; uma das senhas era dos paquetes inglezes da carreira +da India. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples +guarnição d'este aposento um sophá forrado de marroquim verde, collocado +no meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha +ceia á luz fulgurante de um grande candeeiro com largo _abat-jour_. + +Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquelle recolhimento, aquelle +socego, aquella solidão, depois da grande sobreexcitação em que me tinha +achado! + +Estirei-me no sophá, puz-me a olhar machinalmente para o circulo da luz +trepidante projectada pelo candeeiro e contornada no tecto pela abertura +do _abat-jour_, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos spasmos do +coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me +convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação occupada n'um +trabalho inconsciente, similhante ao dos sonhos, ia tirando no emtanto do +caso que eu presenceára as ramificações mais illogicas e mais +phantasticas. Os successos por que passámos desde a estrada de Cintra até +á minha entrada n'este quarto appareciam-me redemoinhando convulsamente no +ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impellidos +pelos pontapés de diabinhos sarcasticos, que se riam para mim e me +deitavam de fóra as linguasinhas em braza. + +Fui caindo mollemente n'um despego languido, fecharam-se-me os olhos, +adormeci. + +Ao acordar, depois de um somno breve mas socegado e reparador, encarei na +ceia que reluzia aos meus olhos. + +Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma +terrinasinha de _foie gras_, uma perdiz, uma fatia de queijo e tres +garrafas de vinho de Bourgogne, lacradas de verde; junto d'estas, quatro +garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o +sacarolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um feixe de charutos côr +de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas +de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se collocado o +instrumento destinado a abril-a. O copo era de cristal finissimo, o garfo +de prata dourada, a faca de cabo de madreperola, os pratos de porcellana +brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei +rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sophá, senti a fome +encavallar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia, +cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estomago +vasio os acicates da gula. + +Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto, +cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão +descarnada e tremula com um gesto prohibitivo e solemne. Atarantado, +perplexo, escutei então dentro de mim um breve dialogo similhante áquelles +que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a _besta_, na sua +viagem á volta do quarto. + +Havia uma voz pausada e grave que dizia: + +--Attenta no que fazes, temerario! abre teus olhos, inconsiderado mortal! +Essa perdiz, cujo peito insidioso e perfido está lourejando a teus olhos, +foi apimentada com arsenico. Aquelle Chambertin, que te espera como uma +onda da lagoa Stigia, embuscada por detraz d'aquelle lettreiro +envernizado, apparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade +tenebroso e fatal como o distico do festim de Balthazar, aquelle vinho, +que te offerece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com +acido prussico. As truffas, lubricas, venaes, devassas, envoltas n'esses +figados de pato, estão empapadas nos temperos lethaes da cosinha dos +Borgias! + +A outra voz, insinuante e meiga, dizia n'uma vaga melodia de sereia: + +--Come, se tens fome, estupido! Estás com medo do papão, maluco?... Põe os +olhos n'esse lacre: não será um penhor seguro da pureza do liquido que +elle tapa a marca d'esse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada, +chumbada e garantida com os mais especiaes lavores a lata d'essas +sardinhas pescadas nas costas de França e cosinhadas ha seis mezes em +Marselha? Não vês religiosamente grudada e sellada com as etiquetas +insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de _foie +gras_? Suppões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te +arrancar essa vida inutil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da +sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso. +Deleita-te conversando depois comtigo e repousando-te no seio tepido da +melancolia, d'essa deliciosa fada que só apparece evocada pelos namorados +e pelos solitarios, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã +_gatée_, a irmã feliz! + +Eu no entanto havia cortado a caixa de sardinhas, desgrudado a tampa da +terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que +misturára n'um copo. + +Puz-me por fim a comer com apetite, com valor, com delicia, com uma +especie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta +de mim os espiritos beneficos do carcere que bafejaram as prisões de +Silvio Pellico. + +É singular isto: achava-me bem! + +Depois da ceia accendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo +comigo: + +--Visitemos o paiz! + +Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra +porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei +a cama encostada á parede em que se achava esta porta e abri-a. + +Era uma armario na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia +altura por um prateleiro espaçoso e solido. + +Occorreu-me que ao fundo do armario haveria talvez um tabique delgado +atravez do qual me seria possivel escutar o que se passasse na casa +contigua. + +Penetrei no armario, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado +havia um ruido volumoso e macisso. Parecia que se estava arrastando um +movel pesado e grande. + +O fundo do armario era effectivamente formado por um tapamento franzino. +Era possivel que tivesse havido primitivamente uma porta no logar em que +se fizera o armario. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via +deante de mim um pedaço de ripa atravessada diagonalmente e descarnada da +cal. + +Peguei no saccarolhas, e no logar indicado fui esburacando devagarinho e +progressivamente o cimento do muro, até operar um orificio imperceptivel, +pelo qual me era dado vêr a luz e ouvir distinctamente o que se dizia do +outro lado. + +Eis-aqui o que ás onze horas e meia da noite se estava passando no quarto +contiguo áquelle que me serve de prisão: + + +II + + +Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do logar em +que elle estava para ao pé da parede que divide a casa em que me acho +d'aquella em que se passava a scena que descrevo, e exactamente para junto +do logar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de +orelha. + +Um d'esses homens dizia assim: + +--Será o que muito bem quizer, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos +trambulhões com os moveis á hora da meia noite. + +--Ha de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para +me ajudar, quero saber se não é melhor isto que estar lá em baixo +estendido ao pé da mangedoura, á espera que chegue o trem para ir tratar +dos cavallos, a enfastiar-se sem ganhar vintem. + +Aquelle que dizia estas palavras, comquanto se expressasse claramente, +tinha todos os defeitos de pronuncia que distinguem os extrangeiro que +falla portuguez. Pela aspiração especial de certas vogaes e pela +contracção habil com que pronunciava os aa, era por certo allemão. + +O que primeiramente fallára, proseguiu: + +--É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E +olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a +estas horas, ainda que os pese a oiro! + +--Para mudar uma cama! + +--Não é pela cama, é por ser a casa que é! + +--Ora adeus! que tem a casa?!... + +--Não tem nada! É uma graça! Ella é de tal casta que o senhorio teve-a +quatro annos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já +de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A ultima gente que cá +morou esteve só duas noites, e foi-se d'aqui tolhida com as coisas que lhe +appareceram e com as trapalhadas que ouvia... Cruzes demonio! cruzes +diabo! + +--Petas! historias da vida! + +--O senhor! não me diga que são petas! Pois eu não vi a familia!?... não +estive com elles!? Fugiram de noite, fugiram á segunda noite que dormiram +cá, estarrecidos de medo. + +--Então que viram elles? + +--Elles não viram nada. + +--Então ahi tem! + +--Não viram, mas ouviram. + +--Haviam de ouvir boas coisas! + +--Ouviram, sim senhor, ouviram. E não foi só a elles que succedeu isso, +foi a todos quantos cá moraram. E era gente de bem, que não mentia, que +não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram +com ella perdida! + +--Então que ouviam elles? + +--O senhor bem o sabe!... O que elles ouviam? Ouviam pancadas nas portas, +quando ninguem batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem +os carvões exactamente como se estivessem abanando á fogueira, quando +estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um +passaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes; +ouviam-o arquejar e bufar approximando-se cada vez mais dos que estavam +deitados, pairando tão rente das camas que se lhe sentia o estremecer das +pennas, o calor de lume que elle deitava do bico e ao mesmo tempo o frio +de neve que fazia a mover as azas! + +--Ora adeus! tinham ouvido fallar n'isso e pareceu-lhes que sentiam o tal +passaro, de que já fallavam os inquilinos anteriores, os quaes tambem +tinham ouvido fallar n'elle, não havendo ao fim de contas ninguem que +verdadeiramente o tivesse ouvido. + +--Então o senhor não sabe porque foi que elles fugiram, os ultimos que +estiveram cá, faz agora quatro annos? + +--Ouvi fallar n'isso, mas por alto, não me deram pormenores. + +--Eis ahi está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram +gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis annos. Para o +que désse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem +elles não contavam nada por causa do medo, estava n'uma caminha a um lado. +Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam +cansadissimos á noite, lá pegavam no somno apesar do barulho das faúlas do +fogareiro e das argoladas nas portas. Vae senão quando, á segunda noite +que passavam cá, accordam aos gritos da creança. Tinha-se apagado a luz. +Accenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por +dentro. Os fechos das janellas achavam-se corridos. No quarto não havia +mais ninguem. Mas a roupa da cama da creança estava cahida a dois ou tres +passos de distancia do berço em que ella dormia, e a pequenita, nua, +tranzida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, +disse, quando lhe chegou a falla que teve perdida por um bocado, que +sentira umas cousas como os pés de uma gallinha muito grande que se lhe +pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas +suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que mettiam medo e que ella +não entendia, emquanto um peito coberto de pennas se lhe roçava pelo seio +nu. A mãe então vestiu-lhe á pressa uns fatinhos, embrulhou-a n'um chale, +estreitou-a nos braços, poz-se a dar-lhe beijos e acalental-a com o bafo, +e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e +destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, mettendo-se por todos os +cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com +uma faca de ponta que levava em punho. Não appareceu ninguem! Ninguem +podia ter saido! Ninguem podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a +chave do predio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro +lhe compraria esta casa para elle mesmo a deitar abaixo com um picão e a +machado, para lançar o fogo a quanto podesse arder, e calcar depois aos +pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão. + +--Pois senhor, eu nenhuma d'essas cousas tenho ouvido, e é esta a segunda +noite que durmo aqui. + +--Gabo-lhe o gosto! E não tem medo? + +--Nenhum. + +--Por isso por ahi dizem do senhor o que dizem! + +--Então que dizem por ahi de mim? + +--Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um allemão da Moirama e que +tem partes com o demonio. + +--Mais um bocadinho para traz, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro, +mudando de tom. + +--Isto assim? + +--Ainda mais... um quasi nada... até ficar a cabeceira unida á hombreira +da porta... Basta! + +--Não quer mais nada? + +--Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve d'ali uma d'aquellas velas para +que o avejão lhe não appareça na escada ao apanhal-o ás escuras. + +--Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta... + +--A fallar-lhe a verdade gosto! + +--Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, +veja se passa ahi para a casa que fica ao lado! + +--Bem me queria a mim parecer que a casa do lado tambem tem... + +--Se tem! Essa então é o diabo, é o proprio diabo que lá mora! + +O homem que viera ajudar á mudança da cama accendeu a luz e desceu a +escada. O allemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para +se deitar. + +O dialogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e +despertado em mim o mais curioso interesse. + +Sem procurar directamente indagar cousa alguma, começava a entrar pelo +modo mais extranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados +pela superstição ou pela ignorancia, explicariam de certo o desfecho a que +viemos assistir e a presença do cadaver na sala em que o fomos encontrar. + +Agora nós, meu interessante e precioso visinho. + + +III + + +A cama do allemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de +observação. O meu visinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou ás +escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se +ageitava para dormir. + +--Ah! tua amas o murmurio dos espiritos invisiveis?... exclamei eu, +dirigindo-me mentalmente ao philosopho que me ficava do outro lado do +muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moleculas da vida animal que +vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro mysterioso que as +condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu +espírito esses elos informes e incoerciveis, que ligam o mundo das cousas +conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas +as tuas faculdades de _medium_... + +E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas +seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos. + +Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem +procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira. + +Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera +percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario. + +Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro. +Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei +silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de +alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como +primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu +outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual +lhe ficava a cama. + +No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte +do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz. + +O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede, +expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror, +com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. +O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da +cama abaixo. + +Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza: + +--Quem está ahi? + +Respondi-lhe: + +--Sou eu. + +--Quem és tu? + +--E tu quem és? + +--Frederico Friedlann, cidadão prussiano. + +--Ah! disse eu. + +--Viajo por conta da primeira fabrica de productos chimicos de Buda Pesth, +os quaes sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriaes da +Europa. + +--Bem! observei. + +Elle continuou impassivelmente: + +--Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa tres predios de que +elle tinha noticia, os quaes se achavam abandonados depois de algum tempo +de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi +morar successivamente nas casas que elle me indicou e é esta a primeira +que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo. +Poderei saber agora a quem me dirijo? + +--Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das +minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e occupando-me +de quando em quando com a politica ou com a litteratura, quando não tenho +outra cousa menos insipida e menos inutil em que agitar a minha ociosidade +e o meu tedio. Não sou espiritista. + +--Pois faz mal! O espiritismo é um systema e póde bem succeder que venha +ainda a ser uma religião. + +--Puff! exclamei eu rindo. + +--O quê! continuou elle. O materialismo, guiado de um lado pelas +conquistas das sciencias physicas e naturaes e de outro lado pelo +relaxamento dos costumes contemporaneos, e pela depressão successiva e +assustadora da moral, vae comendo no campo da philosophia o espaço não já +muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão +successivamente sustituir as crenças e as doutrinas mortas por que se +regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades, +não poderá nunca prescindir do maravilhoso, d'esse attractivo supremo da +sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e +aperfeiçoado pela sciencia futura, a theoria de uma tal ou qual +sobrevivencia que o lisongeie, e a base de correlações ainda não estudadas +dos seres que existem com aquelles que os precederam e com os que se lhes +hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os philosophos +contemporaneos que não querem acceitar em absoluto o dogma esteril e +desconsolador da materia omnipotente, os unicos que hão de collaborar na +philosophia do futuro. + +--Ora ha de me dar licença que lhe pergunte uma cousa... + +--Tem-me ás suas ordens. + +--Sem com isto querer fazer aggravo ao seu juizo! + +--Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a +natureza d'ella. + +--Acredita em alguma das cousas em que esteve ahi fallando o homem que +veiu ajudal-o a mudar a cama? + +Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava fallando com +um doido, com um visionario, com um monomaniaco, ou simplesmente com um +homem de espírito extravagante, com um excentrico. + +--Eu não creio nem tambem descreio de cousa alguma que ouço, responde-me +elle. É meu systema admittir tudo quanto esteja para se provar e duvidar +de tudo aquillo que me apresentem como cousa positiva. É o unico meio +prudente de nunca nos affastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa +de ha pouco, tem uma parte da historia d'esta casa. Neguei quanto me disse +o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do predio a +desvanecer com as minhas informações o anathema que pesa sobre a sua +propriedade. A verdade é que tenho ouvido distinctamente ha duas noites +consecutivas um rumor insistente e prolongado similhante aos estalidos que +produz ao ateiar-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca +um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se +move, sem que ninguem lhe toque, do centro da mesa em que o colloquei para +uma das extremidades d'ella. O pó agglomerado em volta da base do busto, e +que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vae deixando +successivamente sobre a superficie da mesa o vestigio d'esse movimento +vagaroso, lento, quasi imperceptivel, mas progressivo e constante. N'esta +porta ao pé da qual colloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por +duas, ora por tres vezes, uma argolada perfeitamente clara e distincta. +Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder +fazel-o do modo mais rapido), fica sempre inexplicavel para mim a razão +porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta! + +Todas estas cousas eram asseveradas pelo prussiano com a emphase da +sinceridade e da convicção mais profunda! + +--E d'esta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que +lhe consta? + +--Eu lhe digo... + +--Sinceramente! + +--Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu +conta que ouvia no silencio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar +de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns visinhos têem visto entrar +vultos mysteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural d'este +mundo. + +--Qual é então o seu juizo, vejamos? + +--É evidentemente... + +--Diga! diga! + +--Presumo eu, pelo menos... + +--Vamos! sem rodeios, francamente! + +--De duas uma: ou uma loja maçonica, ou uma casa de jogo. + + +IV + + +As palavras do allemão acabavam de lançar no meu espírito a luz subita de +uma revelação que me obrigava a meditar. + +O que se passava por mim, o mysterio que me cercava, o cadaver que vira, a +presumpção--ainda que vaga--da concorrencia de um ou mais amigos meus +envolvidos n'este acontecimento, tudo isto era tão extraordinario e tão +grave que eu não ousava referil-o ao homem desconhecido que o acaso me +deparava por visinho. + +Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente +saber qual era a rua e a casa em que estava; não me occorria porém um +pretexto plausivel para levar o allemão a dizer-m'o, sem que eu o +interrogasse de um modo ambiguo, que poderia levantar sobre a situação em +que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas +compromettidas n'este negocio. Contentei-me pois em allegar o incommodo a +que me obrigava a posição em que estava, e dei as bôas noites ao meu +visinho. Elle despediu-se batendo no muro tres pancadas espaçadas por +pausas eguaes ás d'aquellas com que eu primeiro lhe despertára a attenção. +Lembrou-me que poderia ser mação aquelle homem, e que nas circumstancias +em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de +juramentos reciprocos e de compromissos communs. Dei-lhe então uma letra, +elle respondeu-me com outra e assim construimos successivamente a palavra +da senha. + +--_Salut, mon frêre!_ exclamou elle. + +--Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro +ao sinal que me déra. + +Fechei em seguida o armario, cheguei a cama para o logar d'onde a tinha +removido, e deitei-me vestido. + +Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer. + +N'esta casa, debaixo d'estes mesmos tectos, está morto um homem, moço, +elegante e bello, que entrára aqui, cheio talvez de esperanças, +d'alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o +sempre, envenenado por mão mysteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe +de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da familia que +o acarinhou em pequeno, longe dos logares saudosos que o viram nascer, da +mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pae angustiado que em nome da +humanidade lhe lançasse a derradeira benção. + +Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito +para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu +corpo inerte, impassivel, mudo como a interrogação de um enigma posto +anonymamente no meio de uma pagina branca? quem sabe os pensamentos que a +morte immobilisou no teu cerebro? quem sabe os affectos que ella enregelou +no teu coração, onde ha pouco tempo ainda golphava abundantemente a +fecunda seiva d'essa mocidade esterilisada e extincta agora para sempre? + +Pobre moço! tão digno de lastima como és, merecedor talvez de profundas +saudades, ahi estás adormecido no teu somno eterno, vestido de baile, +coberto com uma manta de viagem, estirado n'um sophá, insensivel para +sempre ás alegrias e ás amarguras d'esta vida miseravel; e não haverá por +ventura uma só lagrima que commemore, na historia breve da tua passagem na +terra, este praso tão pungentemente melancolico em que os mortos estão +esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade póde +dispensar áquelles que mais présa e que mais ama: a doação da cova em que +reside o esquecimento! + +Os olhos d'aquelles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados +talvez pelo somno tranquillo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem +querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam +sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz +cantarolando a ultima valsa que o baile te deixou no ouvido, vêr-te +finalmente apparecer, descuidado, risonho e feliz. + +Coitados!... Os passos d'aquelle que ainda hoje talvez se despediu da vós +contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir +o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais á voz +que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o +fitavam; os seus labios não voltarão outra vez a approximar-se dos labios +que se collavam nos d'elle! + +Eu não choro a tua memoria, porque não te conheço, porque nunca nos +encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dôr que +adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes +insepulto, em quanto alguem te espera vivo no mundo. + +Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei +da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite +escrevendo-te estas longas paginas, que de certo estimaremos ler um dia, +em disposição de espírito bem differente d'aquella em que ambos nos +achamos hoje. + +Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o +silencio que me envolvia, cortado apenas pelo fremito da minha penna no +papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados fallando baixo no +aposento que atravessei antes de entrar n'aquelle em que estou. Tinha +terminado o paragrapho anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e +tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Approximei-me da porta e +collei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo +natural que os nossos aprisionadores estejam ás escuras, é provavel que +haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquelle em que +eu me acho e o quarto proximo em que elles fallam. Não podia perceber o +que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me +chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar +esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distinctamente estas +palavras: + +--Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia elle? + +--Sei que as trazia, dizia outra voz. + +--É atroz então! + +Estas palavras, unicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes +calcular! + +É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho +consagrado a entrevistas d'amor, como eu primeiro suppuz. Das hypotheses +do prussiano é absolutamente necessario acceitar uma: isto ou é uma casa +de jogo ou uma loja maçonica. Assim o provam convincentemente os ruidos +que se ouviam na morada contigua. N'um retiro de paixões ternas não se +escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas +mezas. A referencia dos vultos mysteriosos feita pela visinhança permitte +a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo +aspecto do _boudoir_ em que estivemos não consentem duvidar-se que esta +casa é uma caverna de jogo e de orgia. + +As palavras que ha pouco ouvi suggerem-me sobre estas supposições a mais +tenebrosa suspeita. + +O desgraçado que jaz ahi dentro podia ter sido victima de um homicidio, +premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que elle trazia comsigo. + +Occorre uma contradicção: na suggerida hypothese para que foram buscar um +medico? Explicam-n'o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham +propinado opio á sua victima com o intuito de a roubarem, encontram +illudido este projecto com o desapparecimento das notas que lhe suppunham +na algibeira. N'esta conjectura sobrevem-lhes um recurso extremo: procurar +um medico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem +por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua innocencia, +affastar de si a presumpção do crime, e crear as difficuldades de um +mysterio! É possivel que eu não attinja exactamente a verdade do que se +passou. O indubitavel porém é que o desapparecimento já constatado da +somma que o assassinado trazia comsigo não póde adunar-se dentro d'esta +casa com a probidade e com a honra. + +Depois d'isto é quasi escusado dizer-te qual é a determinação que vou +tomar. O meu visinho prussiano é um homem um tanto phantastico, mas +parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscriptal-a e +pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para +o quarto d'elle. Se conseguir arrombar completamente, sem que me +presintam, o tapamento que serve de fundo ao armario, passarei eu em vez +de expedir a carta. No caso contrario, apenas se abrir aquella porta, +precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e +abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciencia +delibera passar por cima de meia duzia de miseraveis. + +Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos +ámanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas +depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, _posta +restante, Lisboa_. Elle te procurará no logar que indicares e te dirá onde +estou.--Adeus.--_F_ + + * * * * * + +Nota.--Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de +papel escriptas pela mesma lettra das cartas do medico, anteriormente +publicadas n'esta folha: + +F... não appareceu. No mesmo dia, dois dias e tres dias depois de haver +recebido a extensa carta que elle me dirigiu e de que enviei logo a +primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos +os meios ter noticias d'elle. Foram inuteis todos os esforços que +empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao +correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual +lhe aprasava uma entrevista. + +Estou vivamente inquieto, sobresaltado, cuidadoso. + +F... é um homem arrebatado, irascivel, pundonoroso até o delirio. Receio +do seu caracter e da violencia das suas determinações uma explosão que +teria podido talvez ser-lhe fatal. + +Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo +completamente da opinião d'elle emquanto á qualidade moral das pessoas com +quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadaver. + +O mascarado alto, com quem tive occasião de fallar por mais tempo, não +póde ser uma assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo comnosco, não +pôde attentar nos individuos que o rodeavam. Ouviu apenas uma phrase, que +para mim proprio é ainda inexplicavel e terrivel, e baseou n'ella a sua +indignação e o seu odio. + +Eu tratei apenas com um d'esses homens--o mais alto--mas com este fallei +incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe +os movimentos da physionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, +scintillantes. Ouvia-lhe a voz metallica, pura, clara, vibrante, +obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo +dos sentimentos. + +Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos +incidentes que acompanharam o inquerito de A. M. C., escutei-lhe sempre +com interesse, com sympathia, algumas vezes com admiração, a palavra +sincera, facil, despresumida, espontanea, original, pittoresca sem +litteratismo, eloquente sem propositos oratorios,--limpido espelho de uma +alma energica, integra, perspicaz e sensivel. Tinha arrebatamentos +enthusiasticos, indignações convictas, concentrações melancolicas, que se +via provirem d'esse fundo de lagrimas, que todas as naturezas +priveligiadamente boas e honestas têem no intimo da sua essencia. +Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é facil enganar-se +por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquella em +que nos achámos, um homem com a minha experiencia do mundo e a minha +pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principaes +considerações que do principio logo me impediram de tornar publico o nome +do meu amigo violentamente retido em carcere privado. F... é um homem +conhecido, é quasi um homem celebre; em Lisboa ninguem ha que não conheça +o seu nome entre os escriptores mais applaudidos, ninguem que não distinga +a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente +uniformes dos passeios, das salas e dos theatros. + +Se eu communicasse á policia o desapparecimento do meu amigo, é quasi +seguro que ella encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto +a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus +companheiros que eu todavia considero innocentes? + +A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desapparecimento +das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho. + +Na carta de F... encontra-se o seguinte periodo: + + * * * * * + +«Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou +se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o +relogio: bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para +reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio +teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.» + +Ora o relogio a que n'estas linhas se allude, se bem lembrado está, é +exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse +periodico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na +carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fóra da algibeira do collete, +suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... ao quarto em que +elle se acha preso, é effectivamente um amigo d'elle, intimo e particular. + +Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha +vida com uma sombra eterna, denunciar á policia uma particularidade, um +nome, uma circumstancia positiva, que a ponha no encalço d'este crime e no +descobrimento das pessoas, innocentes ou culpadas, que circulam fatalmente +em torno d'elle? + +As mesmas noticias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente +comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anonymo, me +vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a +severidade incorruptivel, despreocupada e fria dos homens de bem, uma +traição aos imprescriptiveis deveres da amisade, um aggravo á +inviolabilidade do sigillo, uma offensa a esse culto intimo que se baseia +na delicadeza, no melindre, no primor,--culto que para as almas honradas +constitue uma parte dos principios supremos da primeira das religiões--a +religião do caracter? + +Mas podia tambem calar-me? ficar mudo, impassivel, inerte, neutro, diante +d'este successo obscuro mas tremendo? Podia acaso acceitar na +impassibilidade e no silencio a responsabilidade terrivel de um homicidio +tenebroso, do qual sou eu a unica testemunha com iniciativa, com +liberdade, com faculdade de acção?... + +Decidam-no as pessoas que por um momento quizerem imaginar-se nas +circumstancias excepcionaes e unicas em que eu estou. + +Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstaculos em que +me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um +unico momento que perder, uma só cousa me occorreu, possivel, clara, +solvente: publicar anonymamente o que me succedera, entregar por este modo +á sociedade a historia da minha situação e esperar dos outros, do publico, +a solução do problema que eu não sabia resolver por mim. + +Nem uma palavra de conselho, de analyse, de critica! + +Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não +posso ficar eternamente immovel, como um condemnado, com o pesado fuzil de +um segredo soldado a um pé. + +Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei +partido para fóra do paiz. As ambulancias do exercito francez precisam de +cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu paiz dispensa-me, e eu, +como todo o homem na presença dos infortunios irremediaveis, sinto a doce +necessidade de ser util. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu +nome. + +Despedindo-me--seguramente para sempre--dos seus leitores, cuja attenção +tenho largamente prendido com a narrativa d'este caso lugubre, seja-me +permittido acrescentar uma derradeira palavra: + +A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso n'esta +pagina, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo +quanto em contrario quiz allegar o amigo d'elle que sob a letra Z. veiu +defendel-o n'este mesmo logar, A. M. C., quaesquer que sejam as causas que +o levaram a intervir nas circumstancias que rodeiam o crime, conhece-o +interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar. + +Se estas linhas chegarem aos olhos d'esse moço, uma coisa lhe peço em nome +da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das +pessoas envolvidas em tão extranho successo. Procure no correio uma carta +que lhe dirijo n'esta mesma data. N'essa carta verá quem eu sou, onde +poderá enviar as suas cartas ou vêr-me e fallar-me pessoalmente. Se a sua +idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da +sua carreira, a tranquillidade da sua familia, a incompetencia da sua +auctoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este +acontecimento até á ultima das suas consequencias, arrancando a um tal +mysterio a secreta verdade que elle envolve, dirija-se a mim, +collaboraremos juntos n'essa obra, que tenho por meritoria e honrada. Eu +acceitarei clara e abertamente para todas as consequencias e para todos os +effeitos a responsabilidade que d'ahi provenha, e terei meio de salvar o +seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre +ou o macule. + +Emquanto a ti, meu querido e meu honrado F..., não creio que sejas victima +de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu unico perigo está, a meu vêr, +no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrupulos, no teu valor, +finalmente, e no teu brio. + +Que te matassem cobardemente no carcere clandestino que ha pouco tempo +ainda tu illuminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não póde ser. Que +a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desaggravo +de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus mysteriosos +commensaes, isso acho logico, e é possivel. + +Punge-me não sei que vago e triste presentimento... Meu pobre F...! Se +estará destinado que não nos tornemos a vêr! Se o dia fatal em que +regressámos ambos de Cintra, descuidados, contentes, suspirando com as +nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortunios, terá acaso de ser o +ultimo d'essa doce convivencia que por tanto tempo nos juntou!... + +E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam +envolvidos no turbilhão implacavel e terrivel da crua solidariedade +humana! + +Que remedio?! + +Se a vida é isto, aceitemol-a corajosamente como ella é, e ávante! +aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se +ser feliz! + + + + ++Segunda carta de Z+ + + +Senhor redactor.--Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em +que o doutor..., com uma insistencia malevola, torna a inculcar, como +cumplice no attentado de que elle se fez o historiador voluntario, o meu +pobre amigo A. M. C. + +Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia com o +auxílio unico da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da +curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia +que ha mais d'uma semana, vem todos os dias successivamente, no folhetim +do seu jornal, apresentar deante d'um publico attonito um quadro +mysterioso e lugubre. + +Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatorios, visitas aos +logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais n'uma nevoa +que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda--não sei se n'um retiro +voluntario, se n'uma sequestração forçada. + +Na impossibilidade de descobrir, physicamente, por essas ruas, a verdade, +resolvi ir buscal-a ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as +palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados. + +O _Mysterio da estrada de Cintra_ é uma invenção: não uma invenção +litteraria, como ao principio suppuz, mas uma invenção criminosa, com um +fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos d'esta +invenção: + +Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cumplices d'este crime é o +doutor ***. Elle está envolvido no anonymo: não tenho por isso duvida em +apresentar esta accusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as +suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me +atreveria a escrever esta grave affirmativa. + +Sim, o doutor *** é o cumplice d'um crime: o meu pobre amigo M. C. é um +desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se +possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime, +que existe, apparece-nos envolvido nas roupas litterarias d'um mysterio de +theatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos. + +É possivel que n'uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são +visinhos, amigos de _tu_, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem +notado na sociedade, vivendo n'ella, frequentando as suas salas e os seus +theatros, não conhecesse nenhum d'estes quatro mascarados, que pelas suas +indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, +escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos theatros? + +Uma mascara de velludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu +cabello, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas +mãos, a sua _toillete_, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O +doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão +distinctos, governam tão bem as suas parelhas, fallam tão bem as suas +linguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem +relacionado, um velho dilletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os +percebeu, n'esta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de +lama do Chiado! E F... tem um amigo intimo entre os mascarados, diante de +si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos +olhos, pelo corpo, pelo silencio até! Comedia! + +E o menos conhecido, o menos celebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no +carnaval de Turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de +Mephistopheles, de Ci-devant, ou de Melão, e não ha ninguem que no salão +de S. Carlos, não diga ao passar por elle: _lá vae fulano!_ E é de noite, +ás luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distrahidos, e não estamos +n'uma estrada, de dia, surprehendidos e violentados! Tanto nos conhecemos +todos! Comedia! Comedia! + +E aquelles mascarados, são tão innocentes, tão ingenuos, que vão procurar, +n'um momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua +posição, pela sua intelligente penetração, mais facilmente os poderia +reconhecer. + +Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquelle +homem? Se lhes era indifferente, para que se mascararam? + +E depois, para que era um medico? Era para verificar a morte? Para acudir? +Para salvar? N'esse caso então que homens são esses, que em logar d'ir á +botica mais proxima, a casa do primeiro medico rapidamente, logo, +logo,--vão em socego mascarar-se nos seus quartos, para irem ao +crepusculo, para uma charneca, a duas legoas de distancia, representar os +velhos episodios de floresta dos dramas de Soulié? + +Suppunham por ventura que elle estava morto? Para que era então um medico, +uma testemunha? E se não receavam as testemunhas para que punham nos seus +rostos uma mascara, e nos olhos dos surprehendidos um lenço de cambraia? +Comedia! Comedia sempre! + +Veja-se o doutor *** diante do cadaver: não ha ali uma palavra que seja +scientifica: desde a serenidade das feições até á dilatação das pupillas, +tudo é falso n'aquella descripção symptomatica. + +E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F... que na rua d'uma cidade, +dentro d'uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelles +mascaras? Como é que, sendo generosos e altivos supportam certas +violencias humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, acceitam pela +sua attitude condescendente uma parte da cumplicidade? + +E A. M. C.! Como o representam ali, pueril, nervoso, timido, imbecil e +coacto! Elle d'uma tão grande força de temperamento! d'uma tão energica +coragem! d'um tão altivo sangue frio! Como se póde acreditar n'aquella +astucia infantil, com que o doutor *** o envolve? + +--O que admira é que não deixasse vestigios o arsenico! + +--Mas foi o opio! responde M. C., segundo conta o doutor ***. + +Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade +lôrpa? + +E emfim, que mulher é aquella, que ahi se entrevê? Porque a quer o +mascarado salvar? Que roubo é aquelle de 2:300 libras? Sejamos logicos: +dado o typo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que elle, vendo que +o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por +uma mulher que mata para roubar? + +Se elle suspeita que o crime commetido por essa mulher teve por mobil a +paixão, como explica o roubo? + +Demais, se desconfiava que ella estivesse envolvida n'aquelle facto, se +estava tão ligado com ella que a queria salvar, por que a não procurou +logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as +estradas, e vir fazer _tableau_ em volta d'um cadaver? + +Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada! +aquellas carruagens como galopam mysteriosamente pelas ruas de Lisboa! +aquelles mascarados, fumando n'um caminho, ao crepusculo, aquellas +estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e +onde galopam, ao escurecer, cavalleiros com capas alvadias! Parece um +romance do tempo do ministerio Villele. Não fallo nas cartas de F... que +não explicam nada, nada revelam, nada significam--a não ser a necessidade +que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ôca, nas columnas +d'um jornal honesto. + +Deducção: o doutor *** foi cumplice d'um crime; sabe que ha alguem que +possue esse segredo, presente que tudo se vae espalhar, receia a policia, +houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as +pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, +enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vae +ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui! + +O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o. + +Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas +inverosimeis invenções.--Z. + + + + +NARRATIVA DO +MASCARADO ALTO+ + + +I + + +Senhor redactor.--A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n'essa +aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***, +guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de +setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido +com interesse a successiva apparição d'estes segredos singulares; eu era +nas cartas do doutor *** designado pelo--_mascarado mais alto._--Sou eu. +Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal +trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações +improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim, +eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece +a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções +hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, +implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde +dominar um caracter altivo: era necessario fallar n'uma mulher, e arrastar +pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e +de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas +considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a +minha mesa, este bilhete simples e nobre:--«Vi as accusações contra si e +os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade, +imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu +já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se +não fizer isto, denuncio-me á policia.» + +Apesar porém d'estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar +do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com +aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em +Lisboa, e determinado esse desenlace passado n'uma alcova solitaria, n'uma +casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores +murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d'essa noite. Eu +não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia +das dores mais profundas d'um coração que estimo. + +Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa, +aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de _whist_, onde +ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a +casa do conde de W. A condessa era minha prima. + +Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a +_graça_. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando +estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d'uma infinita doçura de +ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se +estendesse, como a corda n'um instrumento, de encontro á claridade, +reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra +tirada ao coração do sol. + +Os seus olhos eram d'um azul profundo como o da agua do Mediterraneo. +Havia n'elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e +havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho +sonho de se affogar n'aquelles olhos. + +Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a +cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella +ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias. + +De resto, simples e espirituosa. + +Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza +infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d'um extranho orgulho. +Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor +indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella +doce creatura. Disse-lh'o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos +gravemente a mão; jogámos n'essa noite o _écarté_; e ella terminou por +fazer n'uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; +nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava +contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas +tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e +definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus +estados de espírito nervosos, ou melancolicos. + +--Estou hoje com os meus _blue decils_, dizia ella. + +Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o +marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era +estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha +amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o +seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram +excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d'elle admirado: + +--Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem _ar_, não tem +grammatica, não tem _toilette_, e todavia não é desagradavel. + +Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas +repugnancias, com a presença d'esta pessoa trivial e monotona. Elle no +emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores, +mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu _dog-cart_. + +O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais +sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente +do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas +gravatas. + +Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos +aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do +Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido +secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India +havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em +Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto +heroico dos palacios, e a animação petulante das _maltezas_ de grandes +olhos arabes... + +--Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher. + +--Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a +Malta. Venha tambem, primo. + +--Está claro que vem! gritou o conde. + +E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu +parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n'um +navio, e que me deixava seu herdeiro. + +Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade, +queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de +caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados--mil planos incoherentes que nos +faziam rir... + +Partimos n'um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete +da India. + +Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por +traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos +d'aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma +malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava +na tolda, sentada n'uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida, +os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude +e no rosto. + +--Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta;--estou com uma +sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos... + +E mais baixo: + +-- ... e de vago amor ... Sabe explicar-me isto? + +Estavamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa +ondulação da agua arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnetico +calor d'Africa. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe n'um segredo: + +--Sabe que está linda! + +--Oh! primo! interrompeu ella rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está +doido! O que é fallar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo, +creia que o que senti, inexplicavel como é, não foi por si, graças a Deus, +foi por alguem que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi +ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Ahi está! Como o luar é traiçoeiro, +meu Deus! E eu que estou velha! + +Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distancia na bruma nocturna: o +capitão approximou-se: + +--Conhecem aquella luz? + +--Nunca viajei n'este mar, capitão--respondi. + +--São portuguezes, não?... Aquella luz é o pharol de Ceuta. + +Era uma luz melancolica, e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta. +D'ahi a momentos descemos á camara. Eu estava surprehendido, nunca tinha +ouvido á condessa palavras que caracterisassem tanto o estado do seu +coração. Achava-se n'aquelle periodo em que um amor pode apoderar-se para +sempre d'uma existencia. + +Que succederia se lhe apparecesse um homem bello, nobre, forte, que lhe +dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como ha pouco, as coisas +infinitas da paixão? + +Na manhã seguinte avistámos o môrro de Gibraltar. Desembarcámos. N'uma +praça, á entrada, um regimento inglez, de uniformes vermelhos, manobrava +ao som da canção do general Boum. + +--Detesto os inglezes, disse a condessa. + +--O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os inglezes! Detestas os +inglezes? + +E voltando-se para mim, com uma attitude profundamente pasmada e abatida: + +--Detesta os inglezes, menino! + + +II + + +Sr. Redactor.--Em Gibraltar fomos para _Club House-Hotel_. Os quartos +abriam sobre a muralha do mar; viamos defronte, afogada n'uma luz +admiravel, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas +brumas esbatidas, a terra de Africa. + +Fomos passeiar logo n'um d'aquelles carros de Gibraltar que são dois +bancos parallelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes, +puchados por um cavallo inglez robusto, rapido, e tendo já adquirido nas +convivencias hispanholas um espirito teimoso. + +O bello passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia vertente por cima +da cidade, contorna a montanha, e é orlada de _cottages_, de jardins, de +pomares, cheios já das extranhas e poderosas vegetações do Oriente, aloes, +nopaes, cactus e palmeiras; e vê-se sempre, atravez da folhagem, lá no +fundo, a azul immobilidade luminosa do Mediterraneo. + +A condessa estava encantada: aquella luz ampla e magnifica, a agua pesada +pelo sol, o silencio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e róxas +das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava áquella pobre +alma contraida uma expressão inesperada. Ria, queria correr, tinha +_verve_, e uma luz bailava-lhe nos olhos. + +Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores inglezes +artilharam-no talvez um pouco de mais. Não ha fontes, mas ha estatuas de +generaes; as pyramides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e +a estupida impassibilidade dos canhões assenta sob arbustos de magnolias. +Mas que serenidade! Que silencio abstracto e divino! Que ar immortal! +Parece que as cousas, os seres vegetaes, a terra, a luz, tudo está parado, +absorto n'uma contemplação, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em +baixo está o Mediterraneo, liso como um setim, delicado, coberto de luz. +Mais longe vaporisadas, docemente esbatidas nas nevoas azues, as duras +fórmas do monte Atlas. Nada se move: apenas ás vezes uma pomba passa, +voando com uma serenidade ineffavel. Um momento veiu-nos de baixo, onde +passava um regimento de Highlanders, o som das _cornemuses_ que tocavam as +arias melancolicas das montanhas da Escocia. E os sons chegavam-nos doces, +ethereos, como se fossem habitantes sonoros do ar. + +A condessa tinha ficado sentada, e immovel, calada, penetrada d'aquella +admiravel serenidade das cousas, da beleza da luz, do somno da agua, dos +vivos aromas. + +--Não é verdade, disse, que dá vontade de morrer aqui, brandamente, só... + +--Só? perguntei eu. + +Ella sorriu, com os olhos perdidos na bella decoração do horisonte +luminoso. + +--Só... disse ella, não! + +--Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! observei eu. Começa-se scismando +assim vagamente, vem um pequeno sonho bem innocente, acampa no nosso +coração, começa, a caval-o, e depois, querida prima, e depois... + +--E depois vae-se jantar, disse o conde que tinha chegado ao pé de nós, +radiante por ter apertado a mão de um coronel inglez, e colhido um cacto +vermelho. + +Descemos ao hotel. Á noite passeavamos no Martillo. Era a hora de +recolher; uma fanfarra ingleza tocava uma melopéa melancolica. Ouviu-se no +mar um tiro de peça. + +--Chegou o paquete da India, disse o nosso guia. E no alto do morro um +canhão respondeu com um echo cheio e poderoso. + +--Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? perguntei. + +--Os militares quasi sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com +licença do governador. + +Quando pelas 10 horas entrámos, depois de termos passeiado ao luar nas +esplanadas, sentimos na sala de _Club-House_, ruido, vozes alegres, +estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de homens. A condessa subiu +para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Officiaes inglezes que +vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham +desembarcado, e ceavam. + +Nós tinhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive occasião de +approximar d'um dos officiaes inglezes que estava proximo de mim o frasco +de mostarda. O frasco caiu, sujou-me, elle sorriu com polidez, eu ri +alegremente, conversámos, e ao fim da noite passeiavamos ambos pelo braço, +na esplanada que ficava defonte das janellas do hotel e que está sobre o +mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualisava a decoração +admiravel das montanhas, a vasta agua immovel. + +Eu tinha sympathisado com aquelle official, já pelo seu perfil altivo e +delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade +triste que havia na sua attitude. Era moço, capitão de artilheria, e +batera-se na India. Era loiro e branco; mas o sol do Indostão tinha +amadurecido aquella carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos, +e dado aos cabellos uma côr fulva e ardente. + +Passeiavamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, abriu-se +uma janella, e uma mulher com um penteador branco, apoiou-se levemente na +varanda, e ficou olhando o horisonte luminoso, a melancolia da agua. Era a +condessa. + +O luar envolvia-a, empallidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava +á sua forma toda a espiritualisação de uma figura de antiga legenda: o seu +penteador caia largamente ao redor d'ella, em grandes pregas quebradas. + +--Que linda! disse o official parando, com um olhar admirado, e profundo. +Quem será? + +--Somos um pouco primos, disse eu rindo. É casada. É a condessa de W. +Parte para Malta ámanhã no paquete. A bordo levar-lhe-hei o meu amigo para +a entreter contando-lhe historias da India. Adora o romanesco aquella +pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o ha. Caçou o tigre, +capitão? + +--Um pouco. Falla o inglez sua prima? + +--Como uma portugueza, mal; mas ouve com os olhos, e adivinha sempre. + +Separámo-nos. + +--Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima--disse eu entrando na +sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando;--um romance onde se caçam +tigres com rajahs, onde ha bayaderas, florestas de palmeiras, guerras +inglezas, e elephantes... + +--Ah! como se chama? + +--Chama-se Captain Rytmel, official de artilheria, 28 annos, em viagem +para Malta, bigode loiro, um pouco da India nos olhos, muito da Inglaterra +na excentricidade, um perfeito _gentleman_. + +--Um bebedor de cerveja! disse ella, desfolhando a flôr de cactus. + +--Um bebedor de cerveja! gritou o conde erguendo a cabeça com uma +indignação comica. Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas +isso se não queres fazer-me cabellos brancos! Estimo os inglezes e +respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço d'aquella perfeição!... +murmurava elle, fazendo ranger a penna. + +Ao outro dia subiamos para bordo do paquete da India, o _Ceylão_. Eram 7 +horas da manhã. O morro de Gibraltar mal acordada tinha ainda o seu +barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já viajantes e officiaes sobre +a tolda. O chão estava humido, havia uma confusão violenta de bagagens, de +cestos de fructa, de gaiolas de aves; a escada de serviço via-se cheia de +vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se á _cabine_, para dormir um +pouco. Ás 9 horas quasi todos os passageiros que tinham entrado de +Gibraltar e os que vinham de Southampton estavam em cima; o vapor +fumegava, os escaleres affastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol +dava uma côr rosada ás casa brancas de Algesiras e de S. Roque, e ouvia-se +em terra o rufar dos tambores. + +A condessa, sentada n'uma cadeira indiana, olhava para as pequenas +povoações hispanholas que assentam na bahia. + +O official inglez, Captain Rytmel, conversava a distancia com o conde, que +adorava já a sua figura captivante e altiva, as suas aventuras da India, e +a excentrica fórma do seu chapeu, que elle trazia com uma graça distincta +e audaz. O capitão tinha na mão um album e um lapis. + +--Captain, disse-lhe eu tomando-lhe o braço, vou leval-o a minha prima, a +senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ella é implacavel e faz +caricaturas. + +A condessa estendeu ao inglez uma pequena mão, magra, nervosa, macia, com +umas unhas polidas como o marfim de Dieppe. + +--Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil historias da India +para me contar. Já lhe digo que lhe não perdôo nem um tigre, nem uma +paisagem. Quero tudo! adoro a India, a dos Indios, já se vê, não a dos +senhores inglezes. Já esteve em Malta? é bonita? + +--Malta, condessa, é um pouco de Italia e um pouco de Oriente. Surprehende +por isso. Tem um encanto extranho, singular. De resto é um rochedo. + +--Demora-se em Malta? perguntou a condessa. + +--Uma semana. + +A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no +official, tossiu brandamente, e com um movimento rapido: + +--Ah! vae deixar-me ver o seu album. + +--Mas, condessa, está branco, quasi branco; tem apenas desenhos lineares, +apontamentos topographicos. + +--Não creio; deve ter paisagens da India, ha de haver ahi um tigre, pelo +menos, a não ser que haja uma bayadera! + +E com um gesto de graça victoriosa, tomou o album da mão do official. + +O capitão fez-se todo vermelho. Ella folheou o livro e de repente deu um +pequeno grito, córou, e ficou com o album aberto, os olhos humidos, +risonhos, os labios entreabertos. Olhei: na pagina estava desenhada uma +mulher com um penteador branco, debruçada a uma janella, tendo defronte um +horisonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Elle +tinha-a visto assim na vespera, ao luar, á janella do _Club-House_. + +O conde tinha-se approximado. + +--Como! como! És tu, Luiza! Mas que talento! É um homem adoravel, capitão. +Que desenho! Que verdade! + +--Oh! não! não! disse o capitão. Hontem estava no meu quarto, em +_Club-House_; instinctivamente tinha o album aberto, e o lapis, sem eu +querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lapis +que deve ser castigado. + +--O quê! gritou o conde, é um lapis encantado. Capitão, está decidido que +vae jantar commigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! +Ha de ser o nosso _cicerone_ em Malta. Mas que talento! Que verdade! + +E fallando em portuguez para a condessa: + +--E um bebedor de cerveja, hein? + +N'esse momento uma sineta tocou: era o almoço. + + +III + + +Talvez extranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu +conto estes factos, conservando-lhes a paizagem, o dialogo, o gesto, toda +a vida palpavel do momento. Não se admire. Nem tenho uma memoria +excepcional, nem faço uma invenção phantasista. Tenho por costume todas as +noites, quando fico só, apontar n'um livro branco os factos, as idéas, as +imaginações, os dialogos, tudo aquillo que no dia o meu cerebro cria ou a +minha vida encontra. São essas notas que eu copio aqui. + +Á mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso logar era ao +pé do capitão. O commandante do _Ceilão_ era um homem magro, esguio, com +uma pelle muito vermelha, d'onde sahiam com a hostil aspereza com que as +urzes saem da terra, duas duras suissas brancas. + +Ao seu lado sentavam-se duas excentricas personalidades de bordo: o +_Purser_, que é o commissario que vela pela installação dos viajantes e +pelos regulamentos de serviço, e mr. Colney, empregado do correio de +Londres. O _Purser_ era tão gordo que fazia lembrar um grupo de homens +robustos mettidos e apertados n'uma farda de marinha mercante. Mr. Colney +era alto e secco, com um immenso nariz agudo e enristado, em cuja ponta +repousava pedagogicamente o aro de ouro dos seus oculos burocraticos. O +_Purser_ tinha uma fraqueza que o dominava--era o desejo de fallar bem +brazileiro. Tinha viajado no Brazil, admirava o Maranhão, o Pará, os +grandes recursos do imperio. A todo o momento se approximava de mim para +me perguntar certas subtilezas de pronuncia brazileira. Mister Colney, +esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas comicas. Os outros +passageiros eram officiaes, que iam tomar serviço na India, algumas +_misses_ alegres e loiras, um _clergiman_ com doze filhos, e duas velhas +philantropicas, pertencentes á Sociedade educadora dos pequenos +patagonios. + +Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que +se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fria, encarou-o, +ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou: + +--_Viva Dios!_ É Captain Rytmel! Eh! querido! mil abraços! Está gordo, +hombre, está mais gordo! + +Envolvia-o nos braços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos +negros. Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpreza, em que se +fez pallido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente +bella, que estava sentada ao pé d'aquelle homem guloso e expansivo, o qual +era um hispanhol, negociante de sedas, e se chamava D. Nicazio Puebla. + +A senhora, que se chamava Carmen, era cubana, e segunda mulher de D. +Nicazio; era alta, de fórmas magnificas, com uma carnação que fazia +lembrar um marmore pallido, uns olhos pretos que pareciam setim negro +coberto de agua, e cabellos annelados, abundantes, d'esses a que +Beaudelaire chamava _tenebrosos_. Vestia de seda preta e com mantilha. + +--Estavam em Gibraltar? perguntou Captain Rytmel. + +--Em Cadix, meu caro, disse D. Nicazio. Viemos hontem. Vamos a Malta. +Volta para a India? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcuttá! Lembra-se +hein? + +--Captain Rytmel--disse sorrindo friamente Carmen--esquece depressa, e +bem! + +No emtanto nós olhámos curiosamente para Carmen Puebla. O conde achava-a +_sublime_. Eu admirado tambem, disse á condessa: + +--Que formosa creatura! + +--Sim! Tem ares d'uma estatua malcreada, respondeu ella seccamente. + +Olhei para a condessa, ri: + +--Oh prima! É uma mulher adoravel, que devia ser em miniatura para se +poder trazer nos berloques do relogio; uma mulher que de certo vou roubar, +aqui no alto mar, n'um escaler; uma mulher cujos movimentos parecem musica +condensada! Oh prima! confesse que é perfeita... Menino! accrescentei para +o conde, passa-me depressa a soda, preciso calmantes... + +No emtanto Captain Rytmel, sentado junto de Carmen, fallava da India, de +velhos amigos de Calcuttá, de recordações de viagens. A condessa não +comia, parecia nervosa. + +--Vou para cima, disse ella de repente, mandem-me chá. + +Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde: + +--Está incommodada a condessa? + +--Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de companhia, falle-lhe +da India. Eu, não posso deixar este _carril_... + +Eu tinha interesse em ficar á mesa defronte da luminosa Carmen, +concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado logo o seu +excentrico chapeu indio, orlado de veus brancos. + +Ao vel-o seguir a condessa, a hispanhola empallideceu. Momentos depois +ergueu-se tambem, tomou uma larga capa de seda á maneira arabe de um +_bournous_, enrolou-a em roda do corpo, e subiu para a tolda, apoiada +n'uma alta bengala de castão de marfim. + +O almoço tinha acabado. Fallava-se da India, do theatro de Malta, de lord +Derby, dos Fenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao commandante, e +fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar. + +A condessa estava sentada n'um banco á pôpa; ao pé d'ella o capitão +Rytmel, n'um _pliant_ de vime. + +Carmen passeava rapidamente ao comprido da tolda; ás vezes, firmando-se +nas cordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e +ficava olhando para o mar, emquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam +de vento, e lhe davam uma apparencia ondeada e balançada, que a +assimilhava áquellas divindades que os esculptores antigos enroscavam no +flanco dos galeões! + + +IV + + +D. Nicazio Puebla, que o _Purser_ me apresentara já, viera fumar para o pé +de mim. + +--Esteve na India, Caballero? perguntei-lhe eu. + +--Dois annos, em Calcuttá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel. +Conviviamos muito. Jantavamos sempre juntos. Fui á caça do tigre com elle. +Cacei o tigre. Deve ir a Calcuttá! Que palacios! Que fabricas! + +--O capitão é um valente official. + +--É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a +vida. + +--N'alguma caçada. + +--Eu lhe conto. + +Tinhamo-nos approximado da pôpa, fallando. N'este momento vi eu a +hispanhola encaminhar-se para o logar em que a condessa fallava com +Rytmel, e com uma resolução atrevida, a voz altiva, dizer-lhe: + +--Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra? + +A condessa fez-se muito pallida. O capitão teve um movimento colerico, mas +ergueu-se e seguiu a hispanhola. + +Eu approximei-me da condessa. + +--Quem é esta mulher? Que quer?... disse-me ella toda tremula. + +Eu soceguei-a e dirigi-me a D. Nicazio. + +--Viu aquelle movimento de sua mulher? + +--Vi. + +--É inconveniente: e o cavalheiro responde de certo pelas phantasias ou +pelos habitos d'aquella senhora... + +--Eu! gritou o hispanhol, eu não respondo por coisa alguma. O senhor que +quer? É um monstro essa mulher! Livre-me d'ella, se póde! Olhe: quel-a o +senhor? Guarde-a. Está sempre a fazer d'estas scenas! E não lhe posso +fazer uma observação! É uma furia, usa punhal! + +--Esta mulher, fui eu dizer á condessa, é uma creatura sem consideração e +parece que sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a +presinta. Se houver outra inconveniencia eu dirijo-me ao commandante, como +se ella fosse um grumete insolente. É pena... é terrivelmente linda! + +A hispanhola no entanto, junto da amurada, fallava violentamente ao +capitão Rytmel que a escutava frio, impassivel, com os olhos no chão. + +O conde subiu n'este momento. Outras senhoras vieram, os grupos +formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo _do +boi_... + +Eu approximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importancia: + +--Então esta sua senhora dá-lhe desgostos? + +--É sempre aquillo com o capitão. Foi desde a tal caçada ao tigre... Quer +que lhe conte?... + +--Diga lá. + +Sentei-me na tenda onde se fuma, accendi um charuto, cruzei as pernas, +recostei a cabeça e, emballado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos. + +--Um dia em Calcuttá, começou o hispanhol, dia de grande calor... + +Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta historia a saiba do proprio +capitão. Ahi tem a tradução fiel de uma das mais vivas paginas de um dos +seus albuns de impressões de viagem. + + * * * * * + +...«Sabes, escrevia elle a um amigo, que o sonho de todo o negociante que +chega á India é caçar o tigre. + +D. Nicazio Puebla quiz caçar o tigre. Sua mulher Carmen decidiu +acompanhal-o. Essa, sim, que tinha a coragem, a violencia, a necessidade +de perigos de um velho explorador Hundodo! Eu estimava aquella familia. +Combinámos uma caçada com alguns officiaes meus amigos, então em Calcuttá. +A duas leguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre. +Tinha mesmo saltado, havia duas noites, uma palliçada de bambus, na +propriedade d'um doutor inglez, antigo colono, e tinha devorado a filha de +um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente listrado. + +Partimos de madrugada, a cavallo. Um elephante, com um palanquim, levava +Carmen. Um boi conduzia agua em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns +officiaes de artilheria, cipaios, tres malaios e um velho caçador +experimentado, antigo brahmane, degenerado e devasso, que vivia em +Calcuttá das esmolas dos nababos e dos officiaes inglezes. Era destemido, +meio louco, cantava extranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e +dormia sempre em cima de uma palmeira. + +Nós levavamos espingardas excelentes, punhaes recurvados, espadas de dois +gumes, curtas, á maneira dos gladios romanos, e o terrivel tridente de +ferro que é a melhor arma para a lucta com o tigre. Ia uma matilha de +cães, forte e dextra, da confiança dos malaios. + +Ás 11 horas do dia penetravamos em plena floresta. O tigre devia ser +encontrado n'uma clareira conhecida. Iamos calados, vergando ao peso +implacavel do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, n'um +ar suffocado, cheio d'aromas acres. Toda aquella natureza estava +entorpecida pela calma: os passaros, silenciosos, tinham um vôo pesado; as +suas pennas coloridas, vermelhas, negras, roxas, doiradas, resplandeciam, +sobre o verde negro da folhagem. O ceu mostrava uma côr de cobre ardente; +os cavallos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi +que levava a agua mugia lamentavelmente; só o elephante caminhava na sua +pompa impassivel, em quanto os malaios para esquecer a fadiga, diziam, com +a voz monotona e lenta, cantigas de Bombaim. + +Estavamos ainda distantes do tigre: nem os cavallos tinham rinchado, nem o +elephante soltara o seu grito melancolico e doce. Todavia achavamo-nos +proximo da clareira. + +Eu cheguei ao palanquim de Carmen e bati nas cortinas. Carmen +entreabriu-as: estava pallida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os +olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Anciava pela lucta, pelos tiros, +pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de cognac e +agua... + +Eu desde que a conhecia tinha muitas vezes olhado Carmen com insistencia, +e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me +respondendo ao meu. + +Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que n'um terrasso em +Calcuttá, olhavamos as poderosas constellações da India, o ceu pulverisado +de luz, ella tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A +sua belleza perturbava-me como um vinho muito forte. E alli, n'aquella +floresta, sob um céo affogueado, entre os aromas das magnolias, Carmen +apparecia-me com uma belleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não +foge. + +--Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcuttá! + +--Está rindo, capitão... + +--Na caçada do tigre póde-se pensar n'isto: o tigre é astuto; tem o +instincto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado. + +--Ninguem hoje seria mais lamentado que o capitão. + +--Só hoje? + +--Sempre, e bem sabe por quê. + +De repente o meu cavallo estacou. + +--O tigre! o tigre! gritaram os malaios. + +Os cavallos da frente recuaram; os cipaios entraram nas fileiras da +caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturaes, e o +elephante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa +solemne e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens. + +Estavamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro +lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. +Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pallido e inquieto. + +--D. Nicazio! dê o primeiro tiro, o signal d'alarma! + +D. Nicazio picou rapidamente o cavallo para mim, murmurou com uma voz +suffocada: + +--Quero subir para o elephante. Carmen não deve estar só; póde haver +perigo... + +Fallei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde +se sobe ao dorso dos elephantes. O Carnak dormia encruzado no vasto +pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremeçou-se para dentro +do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho +faiscante e medroso. + +Mas estão foi Carmen que não quiz ficar dentro do palanquim, pediu, +gritou, queria montar a cavallo, sentir o cheiro á fera. + +--Tirem-me d'aqui, tirem-me d'aqui! Não fiz esta jornada toda para ficar +dentro d'uma gaiola... + +Não havia sella em que mulher montasse, nem cavallo bastante fiel; não se +podia consentir que Carmen descesse. Mas eu tive uma idéa extranha, +perigosa, tentadora, imprevista: era pôl-a á garupa do meu cavallo. +Disse-lh'o. + +Ella teve um gesto de alegria, quasi se deixou escorregar, agarrando-se ás +cordas do palanquim, pelo ventre do elephante; correu, pôz o pé no meu +estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentou-se á garupa. Os +officiaes exclamavam que era uma imprudencia. Ella queria, instava e +apertava-me contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras +do tigre a arrancariam d'alli... + +Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava +Carmen á garupa, tinha-me collocado atraz do grupo, cerrado, com os pés +firmes nos estribos, attento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos. + +Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folhagem. + +Carmen apertava-me exaltada. + +--Vá! Vá! pediu-me ella baixo. O tigre, o tigre! Dê o signal. + +Ergui um rewolver e disparei. O echo foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se +um rugido surdo, lugubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava +perto, entre os primeiros tamarindos. A matilha rompeu a ladrar... + +--Que ninguem se alargue! disse o velho brahmane, que tinha trepado a uma +palmeira, e de lá olhava, farejava, ordenava! + +Todos conservavam a espada ou tridente inclinado em riste, esperando o +salto do tigre. Eu déra uma _cuchilla_ a Carmen, tinha na mão da redea um +forte rewolver e na outra um punhal curvo... + +De repente os arbustos estremeceram, as altas hervas curvaram-se, +sentiu-se um bafo quente, um cheiro de sangue, e o tigre veiu cair, com um +rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado, e immovel. + +Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ossea, os olhos +fulvos, ferozes, n'um movimento perpetuo e convulsivo; e a lingua vermelha +como sangue coalhado, pendia-lhe fóra da bocca. + +Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhaes com a cauda. Depois com +um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arremessando-se, tinham-no +prendido no ar, pelas orelhas, pela pelle espessa do pescoço, pelas +pernas, vestindo-o de mordeduras, rasgando-o, rugindo, cobrindo-o todo. +Alguns ficaram logo despedaçados. + +E no instante em que a fera tendo cuspido todos os cães, ficou só, +magnifico, e de cabeça alta o brahmane fez um signal. Duas balas partiram. +O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido. +Immediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o +tridente e os punhaes enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas +laminas agudas. Prendera porém um malaio entre as garras, e rasgava-lhe o +peito. Á uma todos enterravam as facas no corpo do animal, e elle, +succumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se +ainda ferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio. + +--Nada de bala! nada de bala! gritava o brahmane. + +Eu estava fascinado. Carmen convulsivamente apertada a mim, com os olhos +chammejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos d'excitação. O +tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista, +seguia-lhe a mais pequena contracção dos musculos. Vi-o arquear-se de +repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Carmen. +Com uma determinação subita, disparei um tiro do meu rewolver no ouvido do +cavallo que montavamos. O animal caiu sobre os joelhos, nós rolámos no +chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair +a distancia, revolvendo-se na terra. Ergui-me, arrojei-me a elle, +cravando-lhe o punhal entre as patas dianteiras com um movimento rapido, +que lhe foi ao coração. O tigre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca +malaia em fórma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Carmen. + +--Hurrah! gritaram todos, e o echo d'este grito estendeu-se pela floresta. + +Carmen tinha-se approximado do tigre morto, acariciava-lhe a pelle +aveludada, tocava-lhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria. + +--Hurrah! hurrah! continuavam gritando os caçadores. + +Carmen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com +enthusiasmo, dizendo alto: + +--Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!... + +E mais baixo, murmurou-me ao ouvido: + +--Amo-te. + +A tarde cahia. Sentiamos os braços fracos, e grande sede. Começámos a +dirigir-nos para Calcuttá. Descançámos n'uma plantação de indigo. E ao +começar da noite, com archotes accesos e cantando, partimos alegremente +para a cidade, pela floresta, n'um caminho conhecido e seguro. As luzes +davam á ramagem attitudes phantasticas; passaros acordando esvoaçavam; e +sentia-se o fugir dos chacaes. Era como a volta d'uma caçada barbara, das +velhas legendas da India. Carmen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu +montava, ao lado d'ella, o cavallo do malaio morto. Ella inclinou-se para +mim e com a voz abafada: + +--Juro-te, disse-me, que te amo, como só no nosso paiz se ama. Juro-te que +em todas as circumstancias, sempre darei a minha vida pela tua, quererei +os teus perigos, serei a tua creatura, e só te peço uma cousa. + +--O quê? + +--É que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fazer, te lembres +um pouco de mim. + +O momento, o sitio, os perfumes acres, as phantasticas sombras da +floresta, a luz dos archotes, a belleza maravilhosa e fatal de Carmen, os +tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavallos, os gritos dos +chacaes, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esquecendo o senso e a +logica, disse-lhe: + +--Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires +que te esqueço, quero que me mates! + +Ella segurou a mão que lhe estendi, e com uma caricia humilde, com um +gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e +beijou-me os dedos. + +A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrellas scintillantes...» + + +V + + +Ao terceiro dia de viagem do _Ceylão_, um dia antes de avistarmos Malta, +um official inglez, ao almoço, lembrou que n'aquelle dia fazia 28 annos o +principe de Galles. Quasi todos os officiaes que estavam a bordo conheciam +o principe, estimavam o seu caracter, o seu temperamento eminentemente +_byroneano_. Resolveram, com accedencia do commandante, celebrar a data e +valsar á noite, na tolda, á luz d'um _punch_ collossal. + +O jantar foi já ruidoso; o Champagne resplandeceu como opala liquida nas +taças facetadas; a pesada _pale ale_ espumou; o Xerez ferveu na _soda +water_. Carmen, pela sua belleza e pela extranha _verve_ da sua agitação, +foi a alegria d'aquelle pesado e longo banquete de annos reaes. + +Houve _toasts_, á rainha e aos principes inglezes, ao lord-almirante, á +companhia _P. and O._; e um inglez rico fez um _speech_ aos estrangeiros: +_The count and countess of W_. + +--Peço um _toast_, disse Carmen, de repente. + +Os copos tiniram, estalaram as rolhas. + +--Á caçada do tigre! aos palanquins de cortinas brancas! aos caçadores que +salvam as damas que têem á garupa! + +A maior parte não comprehendeu, alguns riram, mas como o _toast_ era +excentrico, foi escoltado d'applausos. + +--_Oh! shocking!_ disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo +amplo ventre do _Purser_ uma fascinação concentrada. + +--_Not at all, Madam!_ disse eu, é apenas o sangue meridional. Aquella +viveza, aquelles olhos luzentes, é o sangue meridional: se ella agora +quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue +meridional... + +A ingleza escutava, como quem se instrue. + +-- ... Se ella tomasse de repente a roda do leme e arremessasse o paquete +contra um rochedo, era o sangue meridional; se ella ousasse arrancar com +mãos impias os seus oculos, milady... + +--Ouh! gritou ella. + +-- ... era ainda o sangue meridional! + +--_Oh! very shocking the_ sangue meridional. + +Os officiaes inglezes, esses, estavam enthusiasmados com Carmen. + +No emtanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do conde juntára-se +um grupo de bebedores convictos e serios. Serviu-se o cognac e os alcools. +Carmen ficára entre os homens, bebendo licôr, rindo e fumando cigarrettes. + +A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel. + +D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adornado de mostarda, +de salada, de vinagre, de sal, de rabanos e d'um leve pó apimentado de +Ceylão. + +Não sei como, fallou-se de mulheres, e de caracteres femininos. + +--Eu, disse logo Carmen, comprehendo a gravidade devota das _misses_: como +senhoras inglezas é sua educação; nasceram para serem hirtas, loiras, +frias e leitoras da _Revista d'Edimburgo_. Estão na verdade do seu +caracter: um pouco menos vivas seriam de _biscuit_, um pouco mais seriam +_shockings_. Mas o que eu detesto, são as canduras allemãs, os modos +virginaes de creaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu paiz, +pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma hispanhola, uma +italiana, uma portugueza, caindo no _missismo_, e dando-se ares vaporosos, +hypocritas e beatos, serve sempre para esconder um amante, quando não +serve para esconder dois. + +Aquellas palavras eram evidentemente uma allusão sanguinolenta ás maneiras +reservadas da condessa, que, sendo loira, discreta, suave, contrastava +poderosamente com aquella trigueira e ruidosa hispanhola. + +--Perdão, _señora_, disse-lhe eu em hispanhol: hoje as verdadeiras +maneiras não são o _salero_, são a _gravidade_. O _salero_ póde ser bom no +theatro, na _zarzuella_, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem á +Hispanha, mas é de todo o ponto inconveniente n'uma sala. + +Ella empallideceu levemente, e fitou-me: + +--_Caballero_, perguntou, _es usted pedante de rhetorica?_ + +Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo _toast_. + +Mr. Cokney, que escutava a hispanhola, tinha attendido ás nossas palavras, +tinha achado um som pittoresco e extranho n'aquelle dizer--_pedante de +rhetorica_, e exclamava para os outros inglezes, rindo: + +--_Oh yes, Pedantt de Rhetoric, it is very phantastic!_ + +Entretanto, a noite caia. Eu senti-me pesado, recolhi á _cabine_, adormeci +ligeiramente. Pelas nove horas subi á tolda. Fiquei surprehendido. + +Não havia luar, nem estrellas, nem vento. Ao fim da tolda ardia o _punch_. +Era enorme, a sua chamma larga, azulada, phantastica, subia, palpitava, +fazia sobre o navio toda a sorte de reflexos e de sombras. Dos logares +escuros saiam risadas de _flirtations_. Havia uma flauta, e uma rebeca. E +já um ou outro par valsava em roda da _clara-boia_ da tolda. + +A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pela luz do +_punch_, fazia lembrar um galeão de legenda, o paquete de Satan. + +Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando nos circulos da +valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas n'uma claridade +phosphorica, os vestidos brancos tomavam tons espectraes, os cabellos +louros luziam com um encanto morto, havia em tudo aquillo como uns longes +de dança macabra... + +Carmen estava possuida da mesma agitação da chamma do _punch_, travava do +braço a um, valsava com outro, escarnecia, tinha replicas, batia o leque. +D. Nicazio, esse resonava perto da amurada. De vez em quando +entornavam-lhe _punch_ pela bocca: elle abria uma frestado olho: + +--_Thank you_, caballeros! e adormecia. + +--Onde está captain Rytmel? disse de repente Carmen. Tragam-n'o... Quero +valsar com elle. + +Rytmel conversava com a condessa socegadamente, longe da luz. + +--Rytmel! Rytmel! chamaram varias vozes. + +Vimol-o approximar-se contrariado, mas rindo. + +--Uma valsa, gritou-lhe a hispanhola. + +A flauta começou: ella tomou os hombros do capitão, e despediram em +grandes circulos; os vestidos de Carmen enchiam-se d'ar, os seus cabellos +desmanchavam-se; a luz do _punch_ tremia; ao compasso rapido, os giros +vertiginosos, enlaçados, pareciam vôos, lembravam a valsa do diabo cantada +por Byron. Ella vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante, os +olhos cerrados, os beiços entreabertos e humidos. + +--Bravo! Bravo! gritavam os inglezes em roda. + +A luz do _punch_ erguia-se, balançava-se, valsava tambem. Carmen e Rytmel +passavam como sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos +idealisadores da chamma azul. O som frenetico da flauta perseguia-os; +parecia que elles iam voar, desapparecer entre as cordagens, dissipar-se +na noite. Os inglezes gritavam, erguendo os chapeus: + +--Hip! hip! hip! + +Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação: estava +observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante. +Apenas a valsa findou, ella tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer +n'uma voz grave e reprehensiva: + +--Não dance mais. + +Fiquei surprehendido. Que havia? Um segredo? Pois a condessa, tão altiva, +tão casta, tão timida!... + +Approximei-me d'ella. + +--Prima, é tarde. Não quer descer?... + +Ella olhou-me serenamente, sorrindo. + +--Não. Porquê? + +E affastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se +fumava, e agora deserta e quasi escura. + +Eu machinalmente fui-os seguindo, cheguei-me imperceptivelmente pelo lado +opposto, e quasi sem querer ouvi. + +O capitão dizia-lhe: + +--Mas porque duvida? Eu desprezo aquella mulher. A nossa amisade nada +perde, e nada soffre. Ella foi para mim um capricho, e historia de um +momento. Agora nem uma recordação é... + +Continuaram fallando baixo, e melancolicamente. Eu fui encostar-me um +momento á amurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar... + +Quando me approximei de novo dos grupos ruidosos, ouvi casualmente Carmen +que dizia: + +--Onde se some aquelle capitão Rytmel? Desappareceu outra vez com a +condessa, não viram? Vamos procural-os. + +Comprehendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, á tenda +_fumoir_, entrei, sentei-me n'um banco, conversando alto, ao acaso. A +tenda estava apenas allumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me +apparecer assim tão bruscamente, fizera-se pallida de colera. + +Mas n'este momento chegavam alguns officiaes, gritando: + +--Rytmel! Rytmel! + +Eu adiantei-me, dizendo: + +--Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais... + +Os officiaes affastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de +uma situação penosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me, +profundamente. + +--Desça, condessa, desça, segredei-lhe eu. + +Ella disse com um sorriso melancolico a Rytmel: + +--Está frio, adeus! + +Rytmel e eu voltámos para o grupo dos officiaes. + +Eu queria-me vingar-me de Carmen; lembrou-me o tornal-a o centro de ruido, +e d'orgia. + +--Señorita! disse-lhe eu, cante-nos uma _seguidilla_ ou uma _habanera_! +Faz um bello effeito no alto mar. Estão aqui _gentlemen_ que nunca ouviram +a musica dos nossos paizes. + +--Sim, sim, gritaram todos. _Uma seguidilla_! + +Ella queria recusar-se, descer ao beliche. + +--Não, não, cante, mylady, cante! + +Os pedidos eram instantes, e ruidosos. Ella cedeu, ergueu a voz, no meio +do silencio, acompanhada pelo monotono ruido do vapôr e pelo vento +crescente, e cantou com uma voz forte e languida: + + Á la puerta de mi casa + Hay una piedra mui larga... + +Os inglezes estavam extaticos. No fim os applausos estalaram como +foguetes, encheram-se os copos, um gritou: + +--Pela _señorita Carmen!_ hip! hip! Hurrah! + +Os applausos echoaram no mar. + +Ella estava extremamente embaraçada, comprehendia que só, no meio +d'aquellas acclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada. + +--Ora vejam! disse eu então, com uma bonhomia mephistophelica, é pena que +as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na +pandiga. + +Carmen deitou-me um vivo olhar de odio: eu estava vingado. + +Um dos inglezes, no entanto, Mr. Reder, continuava, erguendo o copo, cheio +de _punch_: + +--A Carmen Puebla! Hip! hip! hip! + +--Hurrah! responderam os outros enthusiasmados. + +E o echo triste do mar, repetiu: + +--Hurra! + +Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram se as luzes. Quasi todos +desceram rapidamente. Havia um forte vento de noroeste. O balanço do navio +crescia. Navegavamos então á vista da terra d'Africa. Quando a tolda ficou +deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a +grande pancada do mar. + +De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melancolica do +marinheiro de vigia, dizia, pausadamente: + +--_All is well_. + +Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava n'aquella confusa +penumbra que não é o somno, nem a vigilia, mas um vago sonho vivo que se +sente e que se domina: via a condessa passar n'uma nuvem com Rytmel, +alegre, bebendo cerveja; via Carmen vestida de monge, dançando sobre a +corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater do +helice. + +De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou +um grande grito. + + +VI + + +Dei um salto, corri á porta do beliche: + +--_Stewart! Stewart!_ + +_Stewart_,(Criado dos quartos.) apareceu esguedelhado, quasi nú. + +--Que é? Estamos perdidos? Batemos n'um rochedo? + +--Não sei. Não ha de ser nada, o navio é seguro. + +Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz n'um perigo. + +--Estamos perdidos, pensei eu, vestindo-me com uma precipitação +angustiada. + +A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda +pesada entrar, alagar a _cabine_. + +Corri á tolda. Giravam lanternas. Quasi todos tinham subido: os vestidos +brancos, os penteadores das mulheres, davam aos grupos um vago mais +lugubre. A officialidade estava impassivel. + +--Que foi? que foi? perguntei a alguem. + +--Não se sabe, quebrou-se a machina. Mas temos sobre nós um terrivel +vendaval... + +--Estamos perdidos! + +--O navio é seguro, respondeu o outro. + +Ao lado diziam: + +--O capitão devia deitar as lanchas ao mar. + +O ceu estava limpo: luziam estrellas. O vento assobiava mais forte. O +navio tinha aquella oscillação lugubre de bombordo a estibordo, que têem +os grandes peixes mortos quando boiam ao cimo d'agua. Olhei os astros, o +ceu impassivel, a agua negra,--e senti um immenso despreso pela vida. + +Em roda de mim a cada instante ouvia-se versões contradictorias. Uns +diziam que ficariamos _á capa_, esperando firmemente o mau tempo; outros +que o navio estava perdido... Um official disse ao passar: + +--Oh, senhores! isto não vale nada: concerta-se; já me aconteceu duas +vezes d'Aden a Bombaim. + +Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e regular, como se +caminhassemos n'um largo rio, á clara luz do sol. O commandante, emfim, +appareceu: + +--Meus senhores, disse elle, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo +grave na machina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas +com o vento que vem sobre nós, é caso para um atrazo de quatro ou cinco +dias. + +No emtanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma. +Ouvia-se no horisonte um ruido surdo, como o marchar de mil batalhões. + +A maior parte dos inglezes, pesados de somno e de vinho, tinham voltado +para as _cabines_, indifferentes ao perigo. Algumas _ladies_, tranzidas, +mas graves, ficaram no convez. + +Em baixo, os engenheiros e os machinistas trabalhavam poderosamente, e sem +cessar. + +Captain Rytmel approximou-se de mim. + +--É um perigo, e é um perigo sem lucta. Este imbecil d'este commandante +navegou de mais para sul. Estamos perto da costa d'Africa. Se o vendaval +nos apanha agora atira-nos para lá... Todavia o nosso engenheiro de bordo, +Pernester, é um homem de genio. Onde está a condessa? + +Descemos á sala commum. A condessa lá estava, encostada á mesa, serena e +pallida. + +--Suba, prima, suba, disse eu. Ao menos em cima vê-se o ceu, a agua e o +perigo! + +Viemos encostar-nos á amurada, agarrados ás cordagens. As estrellas davam +uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma, +reluziam sob aquella luz vaga. O vento era terrivel. + +--Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos luctava-se, +havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a Africa como uma +baleia morta!... + +Ella quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era +necessario encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu difficilmente me +equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lugubre. A +sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos. +Tinham-se accendido mais pharoes no alto dos mastros. O ruido do vento de +temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condemnadas. + +Desci á camara para beber cognac, porque o frio era agudo. Carmen, sentada +no sophá, no alto da sala, estava ali immovel, com os olhos vagos, as mãos +crusadas. + +--Morremos, hein? perguntou ella. + +--Tem medo? disse eu. + +--Um pouco, de morrer affogada. D'uma bala ou d'uma facada, não me +custava. Mas aqui, estupidamente, n'este antipathico elemento, é cruel! Ao +menos não morro só! Lá se vae a sua linda prima!... + +--Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo. + +--Eu! de modo algum. Acho-a piegas, detesto aquelles ares sentimentaes, +deshonra a Peninsula. Ahi está. + +--Não é isso: é porque suppõe que Captain Rytmel se interessa de mais por +ella. + +--E que me importa a mim esse cavalheiro? + +E deu uma curta risada. + +No emtanto o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi +á tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo +deprehendi, debaixo da _tenda_. Eu, de pé, atravez da lona podia escutar, +apesar do ruido do vento. + +Uma curiosidade indomavel, a necessidade de comprehender a situação do +espirito da condessa, a certeza de que estavamos na afflição d'um +perigo,--e as acções humanas n'esses momentos não se podem sujeitar ao +criterio da vida trivial,--tudo me levou a ir escutar, apesar das +repugnancias do meu caracter. Acerquei-me, fiz ouvido d'espião: + +--E custa-lhe morrer? + +--Muito e nada, respondia a condessa. Muito porque morre commigo o +primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amisade; nada, porque, +francamente, sou eu feliz? + +--Se a minha amisade é para si um interesse profundo... + +A condessa calou-se. + +--Oh! comprehendo-a bem, disse Rytmel. Sabe por que não é feliz, apesar da +minha amisade? É porque não é a minha amisade o que o seu coração precisa. +Oh! deixe-me fallar! É o amor profundo, inalteravel, omnipotente, que +esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as idéas do seu +espirito; que viva do prazer e viva do sacrificio; que seja a ultima rasão +da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que ha de +mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que ha de mais elevado prenda a +sua alma... + +--Cale-se, cale-se, dizia a condessa. É uma loucura fallar assim... Vamos +passear, vamos ver o mar. + +O vento agora era terrivel. O mar estava como agua de sabão a perder de +vista. O navio oscilava perdidamente, e sem rumo. No emtanto, na machina +trabalhava-se sempre. + +Rytmel continuava fallando á condessa. + +--Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida. + +--Não; devo dizer-lh'o: esta palavra «amisade» é falsa. D'aqui a duas +horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma +justiça. Digo-lh'o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta +confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d'estas palavras, o mar é um +bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a... + +--Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos +levaria? ou ao despreso ou á tortura... + +Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia +lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam +como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os +martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez. + +De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua +voz era alta e vibrante: + +--Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer? + +--Penso, condessa. + +--Pois bem, quero dizer-lh'o então: amo-o! + +E depois de um momento: + +--Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a +certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o. + +N'este momento um ruido extranho tomou o navio. + +Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga. +Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha +retomado a sua vitalidade... Então senti o helice... o helice! O navio +movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei +para a abertura que desce á machina. + +--Que é? perguntei a um official que subia. + +--Um milagre de Pernester! + +Todos tinham corrido. Era uma anciedade. + +O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior +da machina sobe ao pavimento do navio. + +Estava radiante. + +--Imaginem que Pernester... + +--Sim, sim, interrompi, mas então? + +--Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta. + +--Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos. + +O grande homem subiu a escada da machina, offegante, impassivel, vermelho, +grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse +n'um tom suave: + +--_Now, I should enjoy a nice glass of beer..._ + + +VII + + +No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrellas. A +agua da bahia estava immovel e negra. Via-se defronte _La Valette_, +elevada como uma collina, altiva como um castello, pespontada de luzes. Em +redor do paquete as gondolas corriam silenciosamente tendo á popa, esguia +e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silencio, uma suavidade +ineffavel. Os gondoleiros remavam calados. Aquillo era doce e regular. +Sentia-se o mysterio italiano e a policia ingleza. + +Desembarcámos: fomos para Clarence Hotel, na Strada-Reale, defronte da +celebre igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos officiaes +inglezes. D. Nicazio e Carmen vieram para Clarence-Hotel, tambem. Os tres +primeiros dias em Malta foram occupados em percorrer os monumentos: o +palacio dos grã-mestres, os palacios chamados _Estalagens_, e que eram +pertencentes ás differentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas +brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os +arredores de Malta, Citta-Vechia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calypso, +que tem tantos encantos em Homero e que é um rochedo humido, cheio de +cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns officiaes iam +jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O +ruido, a petulancia da mesa, era Carmen. Deixara-se logo seguir sempre por +um rapaz francez, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny, +_viajante por tedio_, dizia elle. + +Carmen não se approximava de Rytmel. Havia entre elles como uma separação +combinada e discreta. Rytmel, pelo contrario, não se affastava de nós em +todas as excursões ao campo, ás fortificações, á bahia; todas as noites +nos acompanhava ao theatro. O conde tinha ficado logo captivado das +grandes tranças louras d'uma rapariga que nós viamos sempre na 1.^a ordem +do theatro, com a tez ingleza e os olhos malteses, d'uma frescura de +_miss_ e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize, +dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de +Rytmel. + +Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do official não estavam tanto +sob o dominio da minha vista. Eu, ás vezes, não via a condessa um dia, +dois dias, absorto na companhia de alguns officiaes inglezes, em passeios +no mar, no campo, em ceias e no jogo. Comprehendia porém que aquella +paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me tambem +perdidamente namorado. + +Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocinios interiores, que me +determinaram a ser indifferente áquella situação. Comprehenderá claramente +os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me +n'uma discripção completa e delicada. + +Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tinhamo-nos relacionado com lord +Grenley, que estava ali passando o inverno e curando os seus _blue +devils_. Tinha vindo de Inglaterra n'um lindo _yacht_, chamado _The +Romantic_, que nós viamos todos os dias na bahia bordejar, fazendo reluzir +ao sol os seus cobres polidos e o seu esvelto costado branco. Lord Grenley +ligára-se muito com o conde. Era tambem o Intimo de Rytmel. + +Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro, +onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da +condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de _ladies_, não a +encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção +dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de +Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de +allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre +Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as +opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se +apenas pelo gosto de o vêr contrariado... + +Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a +Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny. + +--Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido. + +--Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que _transformação +fecunda_ fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da +imaginação, do sol, n'uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu +estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores +inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do +_Morning Post_. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a +grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no +divino Ganges paquetes a tres _schellings_ por cabeça; fazem beber ás +_bayaderas_, _pale ale_, e ensinam-lhes o jogo do _criket_; abrem +_squares_ a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores, +desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n'os +por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de _porter_, que +quando não vão ser forçados em _Botany-Bay_, vão ser governadores da +India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de +rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja! + +Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse: + +--Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu +logar, a sua hora e as suas armas. + +E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e +transmitti-lhe as palavras do meu amigo. + +Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços +na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o +achava um adoravel _gentleman_, que pedia das suas palavras as mais +humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas +quaesquer... + +--Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as +armas... + +--Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho +que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter +e da dignidade da França. Isto é que exige reparação. + +Nomearam-se padrinhos n'essa noite. Combinou-se que o duello não fosse em +Malta: Rytmel era official, e os duellos nas praças d'armas têem as mais +severas penalidades. Era difficil, porém, estando n'uma ilha ingleza, não +se baterem em territorio inglez. Resolveu-se então que o duello fosse no +alto mar, a um tiro de canhão da costa ingleza. Lord Grenley emprestou o +seu _yacht_ e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre. +As cousas foram rapidas. Puzemo-nos á capa a 5 milhas de Malta, arriámos o +pavilhão inglez, a marinhagem subiu ás vergas, e como havia egualdade de +nivel, um dos adversarios foi collocado á pôpa e outro á prôa. O sol +davanos de estibordo. Éram 7 horas, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no +ar. O duello era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lord Grenley +deu o signal, os dois adversarios fizeram fogo. Perny deixou cahir a +pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a +clavicula partida. Foi deitado n'uma _cabine_ preparada. Levantou-se o +pavilhão inglez e navegámos para Malta. Vinha cahindo a tarde. + +Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Carmen estava só. + +--Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido. + +--Isso cura-se, eu mesma o curarei... agora o que é sério, é o que se está +tramando aqui dentro d'este hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio +apenas... Diga ao conde que vigie a condessa! + +Eu encolhi os hombros, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde, +Rytmel, e Lord Grenley. O ferimento de Perny fôra declarado sem perigo, o +capitão estava tranquillo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma +visita á ilha de Gozzo, a oito kilometros de Malta. Grenley tinha proposto +a excursão, e offerecia o seu _yacht_. O conde esquivava-se, dizendo que o +mar o incommodava, no estado nervoso em que estava. + +--Menino, é aquella maldita Rize! veio-me elle dizer em voz baixa, +tenho-lhe para amanhã promettido um passeio a Bengama. + +--Mas, então? + +--Acompanha tu a condessa. Vae Grenley e Rytmel. Faze-me isto. Bem vês! +Mademoiselle Rize é exigente, mas pobresinha d'ella, tem o sangue maltez! + +Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veiu a mim +no corredor e tomou-me pela mão. + +--Escute, disse-me uma voz subtil como um sopro. + +Era Carmen. + +--Se é um homem de honra, cautella amanhã com o passeio a Gozzo. + +E desappareceu. + + +VIII + + +No outro dia ás seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia +estado durante a noite sob o dominio d'uma extrema agitação nervosa, mas +não queria renunciar ao passeio de Gozzo. Encontrei Lord Grenley com +Rytmel, tomando chá. + +Pareceu-me pela fadiga das suas physionomias, que se não tinham deitado: +lord Grenley decerto que não, porque estava de casaca, como na vespera, e +tinha ainda na _boutonniêre_ um jasmim do Cabo, murcho e amarellado. + +--Bonita madrugada! disse Rytmel. + +Tinham aberto a janella, o ar fresco entrava; nas arvores do jardim +cantavam os passaros. + +--Adoravel! disse eu. A condessa esteve toda a noite doente, mas não se +transtorna o passeio... Outra cousa: tem um rewolver, Rytmel? + +--Para quê? + +--Disseram-me que era muito curioso atirar aos passaros que se escondem +nas cavernas, em Gozzo. Ha um echo excentrico. Precisamos de uma arma. + +Rytmel deu-me um pequeno rewolver marchetado. + +--Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da albuns e de canetas para tirar +desenhos... Ah! Sabe que este Grenley não vae? + +--Porque? como assim, mylord? + +--Um jantar official com o governador disse Lord Grenley, é horrivel. +Tenho uma pena immensa... + +Ás sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou-nos até o caes +Marsa-Muscheto. + +Notei ao entrar no _yacht_ que a equipagem estava augmentada e havia um +piloto arabe. + +Largámos com um vento fresco, ás oito horas da manhã; as gaivotas voavam +em roda das velas, as casas brancas de _La Valette_ tinham uma côr rosada, +ouviam-se as musicas militares, o ceu estava d'uma pureza encantadora. + +A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria avida, para o vasto +mar azul, livre, infinito, coberto de luz. + +--O que são as mulheres! pensava eu. Esta, tão altiva e tão discreta, está +encantada por se vêr só, com rapazes, n'um _yacht_, no alto mar. É para +ella quasi uma aventura! + +Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante. +Representar eu alli o marido, a familia, o dever, diante de duas creaturas +moças, bellas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro annos, ardente e +apaixonado, o encarregado de fazer a policia d'aquelle romance sympathico! +_Á la grace de Dieu!_ O mar é largo, o ceu profundo, a honra existe, daqui +a duas horas estamos em Gozzo, passeamos, rimos, jantamos, e ao anoitecer, +quando Deus espalhar o seu rebanho de estrellas, voltaremos na viração e +na phosphorescencia, calados, ouvindo o piloto arabe cantar as doces +melopeas da Syria, ao ruido languido da maresia... + +Rytmel tinha descido a dar as ordens para o almoço. A condessa ficara de +pé, á prôa, com um vestido curto de xadrez, botinas altas, envolta n'uma +manta escoceza, de largas pregas. Nunca eu a vira tão linda. + +Costeavamos Malta com vento oeste. + +Approximamo-nos da ilha de Cumino. Rytmel veio-nos dizer que deveriamos +almoçar, e que ao fim de meia hora desembarcavamos em Gozzo, na _Calle +Maggiara_; iriamos vêr as curiosidades da ilha, tornariamos a embarcar +para tornear Gozzo, e vêr as terriveis cavernas, onde o mar se abysma e se +perde, e ao anoitecer tocariamos o caes de La Valette. + +O almoço foi muito alegre. Havia Champagne, um Rheno adoravel, um guizado +arabe e um piano na camara. Captain Rytmel, cujo aspecto me parecia ter +uma preoccupação inexplicavel, fez ao piano depois do almoço interminaveis +improvisações. Caminhavamos sempre. Casualmente, tirei o relogio, e tive +um sobresalto! Havia duas horas e meia que tinhamos descido! Ora quando o +almoço começára, faltava-nos meia hora para desembarcar em Maggiara! +Porque seguiamos então? Subi rapidamente á tolda. O piloto arabe estava ao +leme. Não se via quasi a terra: iamos no mar alto, navegando com uma +extraordinaria velocidade sob o vento. + +--Onde está Gozzo? gritei ao arabe em inglez, depois em francez, depois em +italiano. + +O arabe nem sequer se dignou olhar-me. N'este momento Rytmel e a condessa +subiam. + +--Onde está Gozzo? perguntei eu a Rytmel. + +--Ha talvez uma bruma, respondeu elle vagamente e voltando o rosto. + +O horisonte porém estava limpo, puro, sem mysterio, a perder de vista. Ao +longe via-se uma sombra indefinida que denunciava a terra: e nós +affastavamo-nos d'ella! + +Corri á bussola. Navegavamos para Oeste. + +--Navegamos para Oeste, Captain Rytmel! affastámo-nos de Malta! Que é +isto? Para onde vamos? + +Rytmel olhou longamente a condessa, depois a mim e disse: + +--Vamos para Alexandria. + +Num relance comprehendi tudo. Rytmel fugia com a Condessa!... + +Eu fitei Rytmel, e disse-lhe tremendo todo: + +--Isso é uma infamia! + +Elle empallideceu terrivelmente; mas a condessa, interpondo-se, com uma +voz vibrante: + +--Não! sou eu! Sou eu que vou para Alexandria. + +--N'esse caso sou eu o infame, prima. + +Houve um silencio. Os olhos da condessa estavam humidos. Correu para mim, +tomou-me uma das mãos, murmurou entre soluços: + +--Que quer? Ninguem tem culpa. Amo este homem, fujo com elle. + +Rytmel tomara-me a outra mão. + +--Agora, dizia, é impossivel voltar. É um passo dado, irreparavel... + +Eu estava succumbido: aquella situação imprevista, deixava-me sem +raciocinio, sem voz, sem vontade. + +Eu, amigo do conde!... Eu, cumplice d'aquella fuga! Além d'isso, alli, no +meio d'aquelles dois amantes encantadores, que me supplicavam apertando-me +as mãos, eu sentia-me ridiculo--e isto augmentava o meu desespero. A +condessa, no entanto, continuava: + +--Primo, disse ella, que importa? Estou deshonrada, bem sei. Mas que +queria? que eu ficasse ao lado de meu marido, amando este, n'uma mentira +perpetua, vivendo alegremente instalada na infamia? Essa situação nunca! É +suja! Ao menos isto é franco. Rompo com o mundo, sou uma aventureira, fico +sendo uma mulher perdida, mas conservo-me para um só e sendo pura para +elle. + +--Captain Rytmel, disse eu, então mande deitar uma lancha ao mar. + +--Que quer fazer? gritou a condessa. + +--Eu? ganhar a terra. Acha que tambem não é uma infamia installar-me +n'este navio? + +--Está louco, disse Rytmel, ha só um escaler a bordo. O vento cresce, o +mar incha. O escaler não se aguentará dez minutos. + +--Melhor! Um escaler ao mar! gritei eu. + +--Ninguem se mecha! bradou Rytmel. + +E voltando-se para a condessa: + +--Mas diga-lhe que é a morte! Que cumplicidade tem elle? Foi forçado, foi +levado. Não responde por nada. + +--Um escaler ao mar! gritava eu. + +Mas, de repente, Rytmel tomando um machado correu ao bordo d'onde pendia o +escaler, cortou as correias de suspensão; o barco cahiu na agua com um +ruido surdo, ficou jogando sobre as ondas meio voltado, sobrenadando como +um corpo morto. + +Eu bati o pé, desesperado. + +--Ah que infamia! capitão Rytmel! Que infamia! + +E por uma inspiração absurda, querendo desabafar, fazendo alguma cousa de +violento, gritei para alguns marinheiros que estavam á prôa: + +--Ha algum inglez ahi que preze a sua bandeira? + +Todos se voltaram admirados, mas sem comprehender. + +--Pois bem! gritei eu, declaro que esta bandeira cobre uma torpeza, tem a +cumplicidade da deshonra, e que é sobre toda a face ingleza que eu cuspo, +cuspindo no pavilhão inglez. + +E correndo á popa cuspi, ou fiz o gesto de cuspir sobre a larga bandeira +ingleza. Um dos marujos então de certo comprehendeu porque teve um +movimento de ameaça. + +--Ninguem se mova! gritou Rytmel. Eu sou o offendido. Meu amigo, disse +elle com a voz suffocada, tem razão: desde que abandonei Malta, deixei de +ser official inglez. Sou um aventureiro. Esta bandeira, com effeito, não +tem que fazer aqui! + +Adeantou-se, arreou o pavilhão de tope da popa. + +E n'uma exaltação tão insensata como a minha, arremessou o pavilhão ao +mar; as ondas envolveram-n'o, e por um estranho acaso, no encontro das +aguas, a bandeira desdobrou-se, e ficou estendida sem movimento, serena, +immovel, á superficie do mar, até que se afundou. + +Rytmel, então, por um impulso romanesco e apaixonado, tomou um lenço das +mãos da condessa, amarrou-o á corda da bandeira, e içando-o rapidamente, +gritou: + +--De ora em diante o nosso pavilhão é este! + +Eu achava-me no meio de todas aquellas scenas violentas, como entre as +incoherencias d'um sonho. + +N'um movimento que fiz, senti no bolso o rewolver: não sei que desvairadas +ideias de honra me hallucinaram, tirei-o, engatilhei-o, brandi-o, gritei: + +--Boa viagem! + +--Jesus! bradou a condessa. + + +IX + + +Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o rewolver. + +Eu murmurei simplesmente: + +--Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos. + +A condessa então adiantou-se, livida como a cal e disse (nunca me esqueceu +o som da sua voz): + +--Rytmel, voltemos para Malta. + +--Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus! + +Eu interpuz-me, disse as cousas mais loucas: + +--Rytmel, dê-me esse rewolver, sejamos homens. Que as nossas acções tenham +a altura dos nossos caracteres. Nada mais simples. Nem a paixão póde +retroceder, nem a honra condescender. A solução é a morte. Eu mato-me, +fugi vós para bem longe... + +Mas a condessa, que era a unica que parecia ter ainda uma luz de razão +dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sentia a dôr oculta: + +--Rytmel, voltemos para Malta. + +Elle olhou-a um momento: a consciencia da nossa odiosa situação pareceu +então invadil-o, subjugal-o; vergou os hombros, obedeceu, foi dizer +algumas palavras ao capitão do _yacht_. + +D'ahi a um instante corriamos sobre Malta. + +Houve um grande silencio, como o cançasso d'aquella lucta da paixão. +Rytmel passeava rapidamente pelo convez, e sob a serenidade do seu rosto, +sentia-se a tormenta que lhe ia dentro. + +--Aqui está! disse elle de repente, parando e cruzando os braços, com um +extranho fogo nos olhos. Acabou tudo! Voltamos para Malta. Que mais +querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre! +Iamos a Alexandria; estavamos salvos, sós, novos, felizes! E agora? +Felicidade, amor, paixão, esperança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre +ingenuo! Fallam-te na honra! Que honra a que me vae matar todos os dias, a +que me arranca do meu paraiso, a que me torna o ultimo desditoso! Honra! +Que me resta a mim? Uma bala na India. Morrer para ali, só, como um cão. + +A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar. + +E Rytmel vindo para mim, tomando-me o braço, com um gesto desesperado: + +--Vês tu! Vês isto? Eu soffria tudo por ella; a deshonra, a infamia, o +desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o +escarneo, tudo por ella. Diz-se a um homem--amo-te, vae-se fugir com elle, +está-se n'um navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraiso, +quando já se não vê terra, vem um escrupulo, uma mágoa, uma saudade do +marido talvez, uma lembrança d'um baile, ou d'uma flôr que ficava bem--e +adeus para sempre! e quer-se voltar; e tu, miseravel, soffre, chora, +arrepella-te, e morre para ahi como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz, +nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a +terra!... + +--William! William! gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as +mãos. Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua, +só tua... tua deante de Deus, tua deante dos homens... + +N'este momento ouviu-se a voz distante de um sino! + +Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte. + +A suavidade da hora era extrema; o ar estava ineffavelmente limpido. +Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de la Valette. O sol +descia. Os seus ultimos raios obliquos faziam scintilar os _miradouros_. +Distinguiam-se no caes os vendedores de flores. Duas gondolas corriam para +nós. Houve um grande ruido nas velas, assobios de manobras, o navio parou, +e a ancora caiu na agua! Tinhamos chegado. Os sinos de Malta continuavam +repicando. + + +X + + +Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu +passeio a Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa, +n'um triste estado de exaltação e de paixão. + +Carmen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapidamente, +perguntou-me: + +--Voltaram? como foi? + +--Sabia então alguma cousa? interroguei admirado. + +--Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante toda a noite Rytmel +andou fazendo preparativos. Era uma combinação de ha trez dias. Lord +Grenley sabia. E agora? + +--Agora, disse eu, tudo terminou. A condessa naturalmente parte no +primeiro paquete. + +--Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fatalidade, bem o sei, +mas que quer? Amo aquelle homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação, +salvou-me a vida. É sobretudo uma paixão estupida que me roe, que me mata. +E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar. +Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar o orvalho para o terraço. Para +que vivo eu? Vivia d'esta paixão. Cresceu desde que o vi agora. E diga-me +quem o não ha de adorar? Ás vezes lembra-me matal-o!... + +Conversámos algum tempo. A pobre creatura tinha nos olhos um fulgor +febril, na face uma pallidez de marmore. Eu procurei calmal-a. Começava a +sympathizar com ella... + +A condessa não sahiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ella +tivera em Gozzo um susto terrivel, porque tinhamos estado em perigo, na +visita ás cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive +quasi sempre, depois, com Rytmel. Lentamente a esperança renascia no seu +espirito. Accommodava-se, ainda que com certas repugnancias, a uma +situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da +paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana +é cheia de conciliações!) ao fim de cinco dias a condessa appareceu no +theatro, fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus hombros reluziam +as dragonas de ouro de Captain Rytmel! + +Entrámos então n'uma vida serena, sem romance e sem lucta. Os corações +tinham calmado, e fallavam baixo. O conde passeava no campo com +mademoiselle Rize; lord Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de +opio; eu jogava as armas com os officiaes inglezes; D. Nicazio negociava; +Rytmel tinha um ar feliz e mysterioso; a condessa recebia, guiava os seus +poneys, e todas as noites, no theatro, fazia reluzir ao gaz o louro +esplendor dos seus cabellos e a pallidez preciosa das suas perolas. Santa +paz! + +O tempo estava adoravel. Malta resplandecia, a bahia reluzia ao sol, os +jardins floresciam, os olhos das maltezas suspiravam. Era o tempo das +flôres da laranjeira. Só Carmen emmagrecia e vivia retirada. + +Mr. Perny entrava em convalescença: passava o tempo deitado n'um _sophá_, +de dia compondo uma opera comica, á noite jogando com alguns officiaes, e +salpicando a gravidade britannica de _calembourgs_ bonapartistas. + +Uma occasião, ao sair de casa d'elle, onde tinha perdido algumas duzias de +libras, recolhia eu a Clarence-Hotel levemente irritado, e sentindo um +prazer excentrico em cantar o _fado_ pela ruas de Malta, a mil legoas do +Bairro Alto. O pavilhão que nós habitavamos em Clarence-Hotel dava sobre +um jardim todo escuro d'arvores e de moitas de flôres. + +Ordinariamente o conde e eu entravamos pelo jardim. Tinhamos uma pequena +chave que abria a portinha verde no muro, todo coberto de musgo e de copas +d'arbustos orientaes. N'essa noite, ao abrir a porta, cantando em voz +alta, senti sumir-se rapidamente na espessura das folhagens um vulto. O ar +estava sereno, accendi um phosphoro, e áquella luz trémula, entrei na +sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-se +seguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente, +retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e proferiu o meu +nome. Era Carmen. + +--Que faz aqui? disse eu. + +--Mato-me. Não lhe disse que sempre que suava de noite, me erguia e vinha +apanhar o orvalho? + +Mas ella estava completamente vestida de seda preta, e tinha sobre os +hombros uma larga capa escura, de fórma arabe, com grande capuz! + +--Ah! minha cara, disse eu, mata-se mas é d'amores. A esta hora, com essa +_toillette_, n'este jardim, com este aroma de laranjeiras!... Que historia +me vem contar d'orvalhos e de suor? + +--Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui n'esta sombra +encontrar alguem?... + +--E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a côrte. Que lhe dê uma +serenada, que suba por uma escada de corda, que a seduza n'este jardim... + +Emquanto eu fallava, davam horas na Igreja de S. João, e Carmen mostrava +uma agitação impaciente. A todo o momento olhava para a porta do jardim, +torcendo freneticamente uma luva descalçada. + +Eu comprehendi que ella esperava _alguem_. Alguem, isto é, _el querido, el +precioso, el saleroso, el niño_ de toda a legitima andaluza. Affastei-me +discretamente, como um confidente, e no momento que pisava a rua areada +que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura +plangente. + +--É elle, pensei eu. É o _niño_. Pobre Carmen! Bebe vinagre, apanha os +orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não póde ser superior a +vir receber debaixo das laranjeiras algum cabelleireiro francez com voz de +tenor, ou algum tenor maltez com bigodes de cabelleireiro. + +Subi ao meu quarto, mas não tinha somno; a noite era suave e languida, +mordia-me uma aspera curiosidade, e com a astucia d'um ladrão napolitano, +desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi +Carmen. Estava só! Extrema surpreza! + +--E _el querido?_ perguntei-lhe eu rindo. + +Ella voltou-se em sobresalto e perguntou-me com a voz agitada: + +--Qual _querido_? + +--O que entrou agora? + +--Não entrou ninguem. + +--Eu vi. + +--Conheceu? + +--Não, onde está? + +--Abriu as asas, voou! disse ella rindo-se e affastando-se em direcção aos +seus quartos. + +--Diabo! pensei eu. É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os, +parte-os aos bocadinhos e enterra-os na areia! + +No emtanto, tinha a curiosidade excitada. _Alguem_ tinha entrado +mysteriosamente, com uma chave falsa de certo, porque só o conde e eu +tinhamos a chave d'aquella porta do jardim. Mas onde estava esse _alguem_? + Teria entrado, e saído logo? N'esse caso não era uma entrevista d'amor! +Mas se não era um segredo de coração, para que era o mysterio, a hora +escura, o silencio, a chave falsa? + +_Alguem_ teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbusto por +arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto. + +Deitei-me preoccupado com aquella aventura. No outro dia, ao almoço, um +criado em voz alta declarou que se tinha achado no jardim um pequeno +punhal e que o hospede a quem elle pertencesse o reclamasse em baixo, no +_office_. Era um punhal, de fórma curva como se usa no Hindustão. Tinha +sido encontrado n'uma moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido, +mas voluntariamente arremessado. Ninguem reclamou o punhal. + +Tudo isto me causava uma singular curiosidade. + +--Diabo! dizia eu commigo, estamos em terra italiana, apesar da policia +ingleza, e é provavel que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda +por ahi haja alguma _agua tufana_. Sejamos prudentes. + +Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado á minha secretaria, escrevia +para Portugal, quando senti no corredor passos rapidos, e a porta abriu-se +violentamente. + +Abafei um grito de terror. De pé, á entrada do quarto, livida, com os +cabellos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a +condessa. + +--Que foi? bradei. + +Ella tinha caido n'um sophá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os +dentes trémulos. + +Eu borrifava-a d'agua, tomava-lhe as mãos, fallava-lhe baixo, e +perguntava-lhe, aterrado, dando-lhe os nomes mais doces para a serenar: + +--Que foi, minha querida, que foi? + +Via-lhe os vestidos cheios de sangue. + +--Feriram-n'a? + +Ella fez um gesto negativo. + +--Então? então? disse eu. + +A pobre senhora queria fallar, erguia-se, suffocava, anciava, parecia +n'uma agonia. + +De repente atirou-se aos meus braços e desatou a chorar. + +--Fale, diga, insistia eu. + +--Mataram-n'o, disse ella. + +--Mataram quem? + +--Rytmel. + +--Como? Onde? + +--No jardim... Vá! + + +XI + + +Corri ao jardim. Os meus passos instinctivamente, apressaram-me para o +lado da pequena porta verde aberta no muro. + +Estava aberta. Ao lado, junto de uma moita de baunilhas, estendido no +chão, levemente apoiado no cotovello, vi Rytmel. + +--Então? gritei-lhe, abaixando-me anciosamente para elle. + +--Só ferido... + +--Como? onde? + +Não respondeu, os olhos cerraram-se e desfalleceu sobre a relva. + +Corri ao tanque, trouxe um lenço ensopado em agua, molhei-lhe as faces e +as mãos: a ferida era na parte superior do peito, do lado direito, por +baixo da clavicula. Vi que não era mortal. + +Eu estava n'uma extrema hesitação. Para onde levar aquelle homem? + +O mais racional era conduzil-o a um quarto do hotel; mas isso era dar ao +facto uma publicidade ruidosa, fazel-o cair sob o dominio da policia, +arrastar até á acção dos tribunaes inglezes o nome da condessa. Porque eu +tinha comprehendido tudo. Sabia agora, bem, quem na vespera entrára +rapidamente pela porta verde com uma chave falsa. Sabia bem a quem +pertencia o punhal indio achado nas moitas de buxo. Comprehendia a +commoção de Carmen, quando eu a surprehendera ali, no jardim, embuçada +n'um _burnous_, esperando. E comprehendia desgraçadamente a que quarto se +dirigiam os passos de Rytmel dentro do jardim de _Clarence-Hotel_. + +Era, pois, necessario encobrir aquella aventura. E Rytmel, apesar dos +obscurecimentos do desmaio e da dôr, tinha-o pensado tambem, porque me +disse com uma voz expirante: + +--Escondam-me em qualquer parte! + +Sahi logo á rua. Passava um daquelles carros ligeiros, d'um só cavallo, +que percorrem, com extrema velocidade, e com immensa doçura, as ruas +inclinadas de _La Valette_. O _vatturino_ era italiano. Fallei-lhe +vagamente n'um duello, dei-lhe um punhado de _shellings_, ameacei-o com os +_policemen_, e pul-o absolutamente ao serviço do meu segredo. + +Collocámos Rytmel no carro; com mantas fizemos-lhe uma especie de ninho, +commodo e molle, e o cavallo trotou rapidamente, pela rua de S. Marcos, +para casa de Rytmel. Ahi grande rumor entre os officiaes inglezes. Eu +contei uma incoherente historia d'assalto ao florete, em que a minha arma +subitamente se tinha desembolado. A historia era inacceitavel; mas era +facil comprehender que havia por traz d'ella um segredo delicado, e isto +era o bastante para a altiva reserva de _gentlemen_. + +Rytmel, aos primeiros curativos, serenou e adormeceu. + +Tudo tinha sido feito em silencio, desapercebidamente. Fui tranquilizar a +condessa. Eram tres horas da noite. Havia temporal, e eu sentia quebrar o +mar nas rochas da bahia. Tudo dormia em Clarence-Hotel. + +--Agora nós! disse eu. E dirigi-me ao quarto de Carmen. + +Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa, +desmaiada. Ao principio não distingui ninguem e ouvi apenas soluçar. Emfim +sobre um sophá, deitada, enroscada, sepultada, vi Carmen, com a cabeça +escondida, o penteado solto, coberta de sangue e abraçada a um crucifixo. +Ao pé, sobre uma mesa, havia uma garrafa de _cognac_ e um pequeno frasco +azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Carmen levantou-se +um pouco no sophá. N'aquelle momento a sua belleza era prodigiosa. + +Tinha os cabellos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador, +aberto sobre o peito, deixava vêr a belleza maravilhosa do seio. + +Confesso que não foi a idéa da vingança e do castigo que me tomou o +espirito diante d'aquella mulher tão terrivelmente possuida da paixão. +Lembraram-me as figuras tragicas da arte, lady Macbeth e Clithemnestre, e +tanta belleza, tanto esplendor, fizeram-me subir ao cerebro um vapor de +amores pagãos. + +Ella tinha-se erguido e, com uma voz secca: + +--Que quer? + +Eu fiquei calado. + +--Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está ahi a policia, não? +Estou prompta. É pôr um chale. + +--Ninguem o sabe, disse-lhe eu baixo, e, sem saber por quê, commovido. + +--Que me importa? Não o occulto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! pois quê? +nós outras damos a nossa vida, a nossa alma, entregamos todo o nosso ser, +pomos n'isto toda a nossa existencia, a nossa honra, a nossa salvação na +outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabellos mais loiros ou a +cinta mais fina, adeus tu, para sempre! olá creatura! despreso-te, tu +foste para mim o momento, o capricho, a _futilidade_. Ah! sim? Então que +morra. Que quer mais? Vá buscar os _policemen_. + +Eu disse-lhe então, em voz baixa: + +--Fui encontral-o banhado em sangue. + +Ella olhou-me desvairadamente um momento, e de repente, arremessando-se +sobre o sophá, abraçou-se ao crucifixo e com grandes lagrimas, com um +delirio de soluços: + +--Ah, meu Deus, perdoae-me! Perdoae-me, Jesus! Perdoae-me! Fui eu que o +matei! Estou doida de certo. Pobre Rytmel! Rytmel da minha alma! Não o +torno a vêr, não lhe torno a fallar! Acabou-se para sempre!... Jesus, o +que eu sinto na cabeça!... Em Calcuttá adorou-me, aquelle homem. Ajoelhava +aos meus pés, eu queria morrer por elle. Diga-me,escute: enterraram-n'o? +Está muito ferido? Eu não o feri no rosto? não, isso não! Vá depressa. Vá +buscar a _policia_!... Mas porque me não prendem? Ah meu pobre Rytmel! eu +morro, eu morro, eu morro! D'aqui a pouco começam a tocar os sinos!.. + +Ergueu-se com gestos de louca, foi ao espelho, compoz o cabello com ar +desvairado, e de repente voltou a abraçar, apaixonadamente, o crucifixo +negro. + +--Escute, disse-lhe eu. Rytmel não morreu. + +--Não morreu? gritou ella. + +De repente, arrojou-se aos meus braços que a ampararam, tomou-me a cabeça +entre as mãos, e fitando-me com uma grande angustia: + +--Dize-me: não morreu? Está salvo? + +--Está, disse eu. + +--Juras? + +--Juro. + +--Quero vêl-o, quero vêl-o já! gritou ella. O meu chale, o meu chale! +Procure-me ahi o meu chale. Aposto que não lhe fizeram bem o curativo... +Positivamente não lh'o fizeram! Se não lhe acudo! Que diz elle? Chora? +Pobresinho! Adormeceu? Onde é a ferida? Maldita seja eu! maldita seja eu! + +Com uma exaltação delirante procurava abrir as gavetas, derrubava os +moveis, arremessava as roupas, fallando, gesticulando, e ás vezes +cantando. + +--Meu Deus, faz-se tarde! Que ando eu a procurar? Que horas são? Elle +falou no meu nome? + +Veio tomar-me o braço: + +--Vamos. + +--Onde? + +--Vêl-o. Quero vêl-o. Quero! não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão, +amal-o, servil-o, ser a sua criada, a sua enfermeira... + +Parou, e desprendendo-se do meu braço: + +--E a outra? Não a quero vêr lá! Ella está lá? Não quero que ella o trate. +Mato-a, se a vejo. A outra, não, não, não! Não a deixe chegar ao pé +d'elle. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto. + +Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande suspiro, e caiu no +chão immovel. + +Levantei-a, deitei-a no sophá, borrifei-a d'agua; e ella com uma voz +expirante: + +--Eu morro! eu morro... chame um padre. Não lhe tinha dito... +Envenenei-me. + +--Envenenou-se? gritei aterrado. + +--N'aquelle frasco, alli! + + +XII + + +O medico, apressadamente chammado, declarou que não havia perigo. Carmen +tinha tomado o veneno n'um preparado fraco, e n'uma porção diminuta. Podia +porém receiar-se que a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação +dos seus espiritos, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do +dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se +fazia sentir pelos _ais_ soluçados que se lhe desprendiam do peito. + +Fui então vêr a condessa. Não se tinha deitado. Ficára embrulhada n'um +chale, sentada aos pés da cama, n'uma attitude absorta de dôr e de inercia +que me encheu de piedade. Era dia. Mas as janellas conservavam-se +fechadas, e as luzes ardiam melancolicamente. As jarras estavam cheias de +flôres. + +Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul, +para duas pessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flôres murchavam. + +--Então? disse ella quando me viu. + +--Então! elle está curado, e bom n'um mez. A condessa deve partir dentro +de quinze dias. + +--Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instante que seja! Não +me póde impedir isto: não m'o impeça, não? + +--De modo algum, prima. Eu mesmo lh'o facilito. + +--E ella? + +--Ella, minha prima? Entrei no quarto d'ella para a arrastar ao primeiro +_policeman_ que passasse. Sahi jurando que em toda a parte aquella mulher +me havia de achar a seu lado para a defender e, se ella o quizesse, para a +amar. + +--Tem talvez rasão. É uma verdadeira mulher. + +--É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou +n'este mundo n'um aspecto divino foi n'aquella mulher. É a deusa da +paixão. De resto tem a grande qualidade:--a logica. + +Eu, na realidade, tomara por Carmen uma grande admiração! Eu, que na sua +saude e na sua belleza nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora +nas suas horas de dôr e doença, o seu fiel _cavalliere serviente_. Vi-a +convalescer sob os meus cuidados: D. Nicazio tinha ido para Sicilia. +Sustentei os primeiros passos que ella deu no seu quarto, extremamente +magra, com o olhar quebrado, uma transparencia morbida na physionomia, e a +imaginação doente. + +Começou logo a entregar-se a longas orações, a leituras piedosas. O seu +intento era entrar n'um convento em Hespanha, e ali, matar o seu corpo na +penitencia e na dôr. Passava agora os dias nas egrejas. Estava mudada nos +seus habitos e nas suas maneiras. A sua belleza mesmo tomava uma expressão +ascetica. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Ás vezes olhava-me, +e dizia de repente, lembrando o convento: + +--É triste! Aos vinte e oito annos! + +Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças, +idéas de uma redempção pela oração, pelo jejum, pelo silencio e pela +contemplação. N'aquelle espirito visitado por todas as paixões, e sempre +n'uma vibração exaltada, entrava por seu turno o sombrio catholicismo +hispanhol, e vendo o logar deserto das outras idéas do mundo, acampava lá +serenamente. + +Um dia pediu-me para ir vêr Rytmel antes de partir para Hispanha. + +--É como irmã da caridade que o quero vêr! + +Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal alumiado pela +desmaiada luz de velas de stearina. A pallidez de Rytmel era dolorosa +sobre a brancura do seu travesseiro. Carmen entrou, arremessou-se de +joelhos ao pé da cama d'elle, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando +longo tempo. Rytmel chorava tambem. + +Eu tinha-me encostado á parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda +e insondavel como a noite. Um visinho, cuja janella abria para o estreito +pateo, para onde dava tambem uma janella de Rytmel, tocava n'esse momento +na sua rebeca, com uma melancholia plangente, a walsa do _Baile de +mascaras_, que, sendo doce e tenebrosa, desperta não sei que idéas de +festa e de morte, de amor e de claustro. + +Rytmel queria levantar Carmen, fallar-lhe. Mas ella estava prostrada, com +o rosto escondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia: + +--Perdôe-me, perdôe-me! + +Rytmel por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, tomou-a nos braços, +disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um +encanto infinito beijou-a nos olhos. + +A pobre creatura córou, eu senti renascerem-se as lagrimas. Querido e +pobre Rytmel! como elle teve n'aquelle momento a ternura ideal, e o divino +encanto do perdão! + +Ella com uma simplicidade, em que já se sentia a immensa força interior +que lhe dava a fé, fallou a Rytmel de Deus, do convento em que queria +entrar, da ordem que preferia, com palavras naturaes e tocantes, que nos +enchiam de magoa. Por fim beijou a mão do seu amante. + +--Adeus, disse ella. Para sempre! Resarei por si. + +E ia sahir, de vagar, succumbida, quando de repente, á porta do quarto, +parou, voltou-se, olhou-o longamente; os olhos encheram-se-lhe de uma luz +sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empallideceu, e +com os braços abertos, os labios cheios de beijos, n'um impeto da sua +antiga natureza, correu para se atirar aos braços d'elle com o phrenesi +das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, cahiu de joelhos, +e n'um grande silencio e n'um grande recolhimento beijou-lhe castamente os +dedos! Depois tomou-me o braço, e sahimos. + +Ao outro dia chamou as criadas e repartiu por ellas todos os seus +vestidos, rendas e _toilettes_. Deu as suas joias a um padre inglez para +as distribuir pelos pobres. Frascos, bijouterias, essencias, tudo +destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia resando na egreja de S. João e +preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam. + +Á noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta +do quarto e entregou-me o seu testamento, para eu o deixar depositado em +Malta, de sorte que D. Nicazio o recebesse á sua volta da Sicilia. +Deixava-lhe tudo. + +Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabeça e o seu +immenso cabello caíu, quasi até ao chão, em grossos anneis, esplendido, +forte, immenso, e d'uma poesia sensual. + +Tomou uma thesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquellas +tranças admiraveis, que teriam sido uma gloria publica no tempo da Grecia. + +Eu estava absorto pela belleza, magoado com o desastre. Parecia-me já +aquillo o começo do claustro. + +Carmen apanhou o cabello caído, embrulhou-o n'um lenço, e, entregando-m'o, +disse: + +--Guarde essa lembrança. É a verdadeira Carmen, a outra que eu lhe deixo +ahi. Agora peço-lhe uma derradeira cousa. Prepare tudo e leve-me a Cadiz. +Ámanhã... é possivel? + +--Ámanhã não; mas dentro d'uma semana, juro-lh'o, teremos visto do mar as +montanhas de Valencia. + +Ella no entanto passava rapidamente as mãos pelos cabellos, dando-lhes uma +feição masculina. Era encantadora assim. A sua belleza tomava uma +expressão ingenua de um extraordinario mimo. Ella sorria ao espelho, eu +olhava-a, e via, entre as duas luzes, a sua imagem, como n'um leve vapor +azulado e luminoso. Ella, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e +compunha o geito do cabello. Eu por traz d'ella sorria. Ella, no enlevo do +espelho, na surpreza de se achar linda com o cabello cortado, sorria +tambem. Parecia-me ver-lhe as faces tomarem a côr da vida e o seio a +ondulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma cousa doce, chamal-a ao +mundo... De repente arremessou o pente, e curvando a cabeça, foi +silenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu +leito, e sobre a qual agonisava um Christo com a cabeça pendente, a testa +gottejante, os braços distendidos, o peito constellado de chagas! + + +XIII + + +D'ahi a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da India a +Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rize ficava, e o Chiado +esperava-o! De mais, o estar só com a condessa embaraçava-o: as +melancholias d'ella, as suas lagrimas inexplicaveis, a sua pallidez +apaixonada, toda a incoherencia do seu caracter, que aquelle excelente +libertino explicava pelo _nervoso_ e pelo histerismo, davam-lhe uma certa +fadiga enfastiada, e, como elle dizia, embirrava com romantismos. A +condessa, essa, partia resignada: Rytmel depois da sua convalescença iria +para a Italia, para aquecer as forças ao sol de Napoles, e mais tarde em +Paris, e depois em Lisboa, teriam alguns mezes livres, para, como diziam +os antigos poetas, os tecerem d'ouro, seda e beijos. + +Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cumprir um dever +melancholico: acompanhar a Cadiz aquella infeliz Carmen, ainda ha pouco de +uma belleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitencias. + +Lord Grenley, que ia para Cadiz dentro de quatro dias, tinha-nos +offerecido, a Carmen e a mim, o seu _yacht_. Aceitei com alegria. Era um +transporte commodo e livre, e lord Grenley uma companhia symphatica, +porque me assustava a idéa de ver durante uma longa viagem no mar, a +debilidade de Carmen estiolar-se ao meu lado. Emfim uma tarde partimos. + +Era ao escurecer, o ceu estava nublado, quasi chuvoso. Carmen ia +profundamente doente. Magra, transparente, livida, sem poder suster-se, +sem dormir, alimentando-se quasi só de chá, a sua vida parecia estar a +todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus +livros de orações. Aquella exaltação a que faltava a terra procurava +febrilmente todos os caminhos do ceu. + +Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas brumas da noite. +Nunca mais tornaria a ver aquella branca cidade. Não fôra ali feliz. Mas +amamos todos aquelles logares em que por qualquer sentimento ou por +qualquer idéa a nossa natureza palpitou fortemente. E ali tinham ficado +lagrimas minhas. + +Logo no primeiro dia de viagem, Carmen esteve expirante. Havia um forte +balanço. O mar era grosso, e nós receavamos mau tempo quando nos +avisinhassemos das correntes do golpho de Lião. + +Carmen quasi sempre queria estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar. +Arranjava-se-lhe uma cama, e ali ficava, olhando, scismando, soffrendo, e +conversando com o capellão de lord Grenley, velho cheio d'uncção, que +tinha um encanto singular fallando das cousas do ceu. Aquella scena era +profundamente triste, sobretudo de tarde; o sol cahia, a immensa sombra +começava a cobrir o mar: Carmen fallava baixo: nós, em redor, +escutavamol-a, ou, calados, seguiamos o correr da maresia, olhavamos o fim +da luz. Um marinheiro escossez vinha ás vezes cantar as arias das suas +montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago. + +Ao terceiro dia de viagem, Carmen, subitamente, teve um grande accesso de +febre e quiz confessar-se. O medico disse-nos que ella não chegaria a ver +as montanhas da Hispanha. Que horas dolorosas! Não imagina, senhor +redactor, que intensidade têem, na vasta extensão das aguas, as dôres +humanas! Junta-se-lhes o sentimento da immensidade, e não sei que terrivel +instincto do irreparavel. + +A confissão de Carmen foi longa. Quando terminou quiz fallar-me. + +--Adeus! disse-me ella, vou morrer. + +Disse-lhe que não, quiz dar-lhe esperanças ephemeras. + +--Não, não, respondeu ella, nada de enganos. Tenho coragem. Quem a não tem +para ser feliz? Chame lord Grenley. + +Começou então diante de nós a fallar da sua vida. Disse-nos qual fôra a +sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigencia das suas paixões, e +fallou-nos da sua ligação com Rytmel, com elevação, como de um sentimento +quasi legitimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdem. As ultimas +palavras da sua vida eram dignas. Depois tirou um rozario do seio. + +--Veiu de Jerusalem, disse-me, dê-lh'o a _ella_. + +Eu tinha os olhos humedecidos, Carmen, entretanto, empallidecia +terrivelmente. + +--Levem-me para cima, quero vêr o mar, quero vêr a luz. + +Era uma manhã nebulosa e triste. O mar estava mais sereno. Collocámos +Carmen cuidadosamente sobre almofadas e mantas, voltada para Malta. Lá +tinha ficado a sua vida. Esteve muito tempo calada, com as mãos cruzadas. + +--Que terra é aquella? perguntou mostrando com a mão tremula, uma linha +escura no horisonte. + +--A Africa, respondeu lord Grenley. + +Ella ficou olhando vagamente: + +--Fui uma vez a Tanger, disse com uma voz lenta, era nova então! Era +feliz! Estava um dia lindo... Era em maio... + +Calou-se. E voltando-se para mim: + +--Faz agora mezes que passámos n'esta altura, lembra-se? E aquelle _punch_ +a bordo do _Ceylão_? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então... O +que é ser alegre! Tudo acabou, nunca mais! nunca mais! + +E como fallando comsigo mesma: + +--Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio +d'este mar. Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse +encontrado, a elle... Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos +simples sempre. As loucuras vieram depois... O marinheiro que canta as +arias escocezas, onde está? Chamem-n'o. Não, não o chamem que me vae fazer +chorar. + +Nós escutavamol-a; a sua alma fallava como um passaro canta ao morrer. As +nuvens desfaziam-se, o azul aclarava, ia apparecer o sol. + +--Vejam isto, continuou ella. Em nova diziam-me _és bonita, amo-te!_ E +agora que morro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde +estão? Uns mortos, todos esquecidos. Estão agora alegres, amam outras, vão +para os theatros. E eu estou aqui a morrer. E _elle_? lembrar-se-ha de +mim? Tambem não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, que não está +aqui, que morro e que elle se não lembra de mim! + +E soluçava, com a cabeça escondida no travesseiro. + +--Rytmel é uma alma nobre. Estima-a, creia... + +--Mas esquece-me! dizia ella suspirando e limpando os olhos. De resto, de +mim ninguem se lembra. Eu não sou uma mulher de quem se seja enfermeiro. +«Estás boa? estás alegre? amo-te». «Estás a morrer? Vae-te fazer enterrar +para outro sitio!» É bem triste este mundo! + +Lord Grenley, com os olhos rasos d'agua, mordia convulsamente o seu +cachimbo. + +--Guarde bem os meus cabellos, sim? dizia-me ella. Diziam que eram +bonitos. Se eu por acaso não morresse, haviamos de ir todos a Sevilha. Que +lindo que é Sevilha. Á tarde, nas _Delicias_, todo o mundo traz um ramo de +flores. + +De repente abriu demasiadamente os olhos como deante d'uma cousa pavorosa; +levou as mãos á face, gritou: + +--Meu padre, meu padre, tenho medo. Não é já o castigo, não? Se cáio no +inferno, meu Deus! + +--O inferno é uma visão, minha pobre senhora! dizia o capellão. Os +castigos de Deus não são feitos com o fogo. + +--Tem razão, tem razão. Sinto-me morrer, venham todos. Lembrem-se de mim, +sim? + +Alguns marinheiros tinham-se approximado. O capellão ajoelhou: todos +tiraram os barretes, resavam baixo. Lord Grenley ficara de pé, descoberto, +immovel. Grossas nuvens escuras corriam outra vez no ceu. O vento começava +a assobiar. + +--Adeus, disse-me ella. Dê-me a sua mão. Bem. Fui uma boa rapariga, por +fim... Um pouco estroina, talvez... Lord Grenley, obrigada. Que tristeza, +ter morrido alguem no seu _yacht_!... Que é aquillo, além, ao longe? É a +terra? São nuvens. Ah! meu querido Rytmel! ah! meu amor, ouve-me, onde +estás tu? + +Duas grandes, tristes lagrimas, correram-lhe na face: teve ainda força +para as enchugar. Depois sorrindo: + +--Olhem, não pensem em mim com tristeza. Sómente ás vezes, quando +estiverem juntos, e elle estiver tambem, lembrem-se d'esta pobre rapariga +que para aqui morreu no mar... E digam: pobre Carmen! ahi está uma que +sabia amar devéras! + +E dizendo isto, estremeceu, fallou desvairadamente em Malta, em Sevilha, +em Rytmel, e, dando um gemido profundo, morreu. + +O sino de bordo começou a tocar lentamente, Lord Grenley curvou-se, +beijou-lhe a testa, e cerrou-lhe os olhos. Eu chorava. + +Então um velho marinheiro approximou-se, e sobre aquelle corpo, que fôra +Carmen, estendeu a bandeira ingleza. + + +XIV + + +Imagine, senhor redactor, em que lamentavel estado de espirito nós +ficámos. Lord Grenley encerrou-se no seu camarote, eu e o capellão ficámos +velando junto do cadaver. A tarde descia. Uma nevoa extensa cobria o mar. +O rugido do vento era lugubre. Todos estavam profundamente apiedados. A +velhos marinheiros, que tinham naufragado no mar da India e dobrado o +Cabo, eu vi saltarem as lagrimas... + +--Pobre creança! diziam elles. + +Para aquellas rudes naturezas simples, essa mulher nova, vestida de +branco, pallidamente linda, era a _miss_, a virgem, a creança! Um +arranjou-lhe uma corôa d'algas seccas, e foi piedosamente pôr-lh'a sobre o +peito. Era o ramo de flôres do mar. + +Eu pensei algum tempo em conduzir o corpo de Carmen até Hispanha, mas o +piloto observou-me que teriamos ainda 4 ou 5 dias de viagem, e o corpo não +podia esperar na sua pureza durante esta longa demora. Por isso resolvemos +deital-o ao mar, quando viesse a noite. Assim, ficámos o capellão e eu, +durante a tarde, junto do cadaver, lembrando as suas bellezas e as suas +desgraças. + +A noite caiu; cobriu as aguas. O capellão desceu. Fiquei só. Havia sobre o +cadaver, pendente d'uma corda, uma lampada. Descobri-lhe o rosto, +afaguei-lhe os cabellos. A sua belleza tinha-se fixado n'uma immobilidade +angelica, como se a morte lhe tivesse restituido a virgindade. A curva +adoravel do seu seio apparecia em relevo na bandeira que a cobria: nunca +tanta força tinha produzido tanta graça! Olhei-a durante muito tempo, +enlevado na sua contemplação. As lagrimas cahiam-lhe dos olhos. + +--Pobre creatura! dizia eu na solidão dos meus pensamentos, pobre +creatura! vaes para a mais profunda das covas, para a sepultura errante +das aguas. Uma febre d'amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te +agitará na morte! Condiz o tumulo com a existencia! Como o mar tu foste +bella, orgulhosa e ruidosa. Como o mar tu tiveste as tuas tormentas, as +tuas calmarias occultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua +elevação religiosa, a tua espuma immunda. Como sobre o mar, sobre o teu +cerebro correram as doces idéas geniaes e puras como vélas de pescadores: +as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes; +as brutaes exigencias do temperamento, estupidas e victoriosas como +_monitores_ armados. Despedaçaste-te de encontro á fria reserva d'um amor +que se extingue, como elle se esmigalha contra a escura insensibilidade +das rochas. Como elle tem o vento que é o seu tyranno, tu tiveste a +paixão. Vae, pobrezinha, repousar em paz, no fundo das algas verde-negras! +Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, córou, +quiz, venceu? Quantas lagrimas causaste! Quantas loucas palpitações! +Quantos desejos para ti voaram como bandos de pombas! Quantas vozes +perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste +succumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro +vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duas balas aos pés e atira com +elle ao mar! E aqui jaz o ruido do vento, e aqui jaz a espuma da onda! + +De que te serviu o ser, o que fizeste ao sangue, á vontade, aos nervos, ao +pensamento, que trouxeste do seio da materia? Que idéa deixaste, que +memoria, que piedade? Que foste tu mais do que um corpo bello, desejado e +photographado? Fizeste parte, durante a vida, d'aquellas insensiveis +bellezas naturaes, que o homem usa e arremessa. Foste como uma camelia, ou +como a penna d'um pavão. Foste um adorno, não foste um caracter. Nunca +tiveste um logar definido na vida, como não terás um tumulo certo na +morte! Adeus pois para sempre, oh doce ephemera! o teu destino é a +dispersão! + +Por isso aqui estás só! Os que te amaram onde estão? onde estão os que tu +amaste? Aqui estás só, vestida com o teu penteador branco, na tua manta de +xadrez, sobre o convez d'um navio, só, sempre no meio de homens, como na +vida! Não ha uma flôr aqui que se te deite em cima, nem uma renda em que +se te envolva a face morta. Morres entre cordagens, no meio de rudes +marinheiros, que veem agora da sua ração d'aguardente. Nem um padre +catholico tens que te falle dos anjos, doces camaradas da tua mocidade. +Nem um parente, sequer, te comporá a dobra do teu lençol! Não se cantará +nenhum responso em volta do teu caixão. Não farás scismar as noivas que te +vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te +arremessarão ao mar! + +Pois bem, minha pobre amiga! que importa? Estás na logica do teu destino, +que é a revolta. Viveste longe das estreitas conveniencias humanas, morres +em plena liberdade da natureza. + +Não verás o teu leito cercado de parentes avidos, de criados +indifferentes, de padres que te dêem os santos oleos bocejando, n'um +quarto escuro e abafado, entre o cheiro dos remedios: morres diante do +ceu, aos emballos do mar, ao cheiro da maresia, entre velhos marinheiros +da India, que te choram, sob o sublime ceu, na plena liberdade dos +elementos! + +Não serás vestida com velhas sedas, não levarás na cabeça antigas corôas +funebres, não te cobrirão com galões de ouro falso; irás com o teu +penteador branco, como para uma alegria nupcial! + +Não te pregarão n'um caixão estreito, nem te apertarão como um fardo; +terás o contacto das cousas vivas; as lagrimas do mar correrão sobre os +teus cabellos; poderás toucar-te d'algas; os raios do sol poderão ir +procurar-te como antigos amantes dos teus olhos, e a tampa do teu esquife +será o infinito azul. + +Não sentirás em volta de ti no teu enterro cantos em mau latim, o som das +campainhas, a voz aguda dos meninos do côro, os commentarios estupidos da +multidão, as grosseiras enchadadas do coveiro. Serás lançada á tua cova do +mar no meio de um silencio militar, levando por mortalha a bandeira +ingleza, ao cantochão infinito dos ventos e das aguas. + +Não ficarás para sempre apertada em cinco palmos de terra, sentindo a bôca +das raizes pastar o teu seio e a multidão dos vermes entrar no teu corpo +como n'uma cidadella vencida. Não! a tua morte será uma perpetua viagem: +viverás nas grutas transparentes de luz, guardarás os thesouros +mysteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo do mar, +amarás o corpo encantado d'algum louro principe, outr'ora pirata normando! +Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma da agua! + +Sobre o teu tumulo não virão sentar-se os burguezes, benzer-se os +sachristães, cacarejar as gallinhas; sobre a tua azul sepultura errará o +vento, melancolico velho que visita os seus mortos. + +Não terás um epitaphio metrificado por um poeta elegiaco, e approvado pela +camara municipal; serão os reflexos ineffaveis das estrellas que se +encruzarão para formar sobre a tua sepultura as lettras do teu nome... + +Um marinheiro bateu-me no hombro. + +--São 11 horas, disse elle. + +Ergui-me em sobresalto, e pensando nas vãs chimeras que se tinham estado +formando no meu cerebro n'aquelle triste scismar, disse commigo: + +--Pobre de mim! Tinham-me esquecido os tubarões. + +Eram 11 da noite. Não havia estrellas. Todos estavam reunidos na tolda. +Tinham-se posto lanternas nas cordagens, e accendido archotes. + +Dois marinheiros tomaram o cadaver nos braços. O padre abençoou-o. +Ligou-se-lhe ao corpo com uma corda a bandeira ingleza. Os grumetes +trouxeram duas balas. Uma foi amarrada aos pés, outra ao pescoço. As +botinhas d'ella, de seda preta, appareciam fóra da orla do vestido e da +bandeira que a envolvia. As luzes dos archotes faziam tremer sobre o mar +vagas claridades. No silencio sentia-se o estalar da rezina. + +O sino de bordo começou a tocar. Os marinheiros elevaram o corpo á altura +proxima da amurada. Então ergueu-se um canto grave, melancolico, de uma +infinita tristeza. O padre resava com as mãos impostas sobre o cadaver. E +affastando-se, disse: + +--_In eternum sit!_ + +Todos responderam: + +--_Amen!_ + +O vento gemia. Lord Grenley adiantou-se e disse em voz alta: + +--N'este dia, a bordo do _Romantic_, navio inglez, morreu Carmen Puebla, +de nação hispanhola, e para eterna protecção do seu corpo, como sendo +sepultada em territorio britannico, foi amortalhada na bandeira ingleza. +_In pace_. + +--_Amen!_ responderam os marinheiros. + +--Em nome do Padre, disse o capellão, do Filho e do Espirito, santa seja a +sepultura a que ella é deitada, e que fique como em terra sagrada n'estas +aguas do mar! + +--_Amen!_ murmuraram os marinheiros. + +--Ao mar! disse lord Grenley com voz forte. + +Os dois marinheiros suspenderam o cadaver sobre o mar; todos se +approximaram, fazendo circulo com os archotes; o cadaver, arremessado, +mergulhou com um som lugubre, desappareceu, e a espuma das vagas +correu-lhe por cima. + +Os archotes foram apagados n'um triste silencio. O navio affastava-se. Eu, +encostado á amurada, tinha os olhos fitos no ponto vago onde o corpo +desapparecera. Ella alli ficava morta. Encheu-me o peito uma longa +saudade. Lembrava-me d'ella, dançando no convez do _Ceylão_, rindo á mesa +de _Clarence-Hotel_. Tudo tinha acabado. Nunca mais! nunca mais! Alli +ficava com uma bala aos pés! + +O vento refrescou. + +--Vento d'Eeste! disse o marinheiro de quarto. + +--Vem de Malta... pensei eu. + +E as minhas ultimas lagrimas cairam sobre o mar... + + +XV + + +Cheguei ao fim das minhas confidencias. + +Quando desembarquei em Lisboa a condessa tinha ido para Cintra. Vi-a, ao +fim d'esse verão, em Cascaes. Ella mostrava-se alegre, o que era talvez +uma maneira de estar triste! Cascaes estava imbecilmente jovial: _batia-se +o fado!_ No inverno seguinte a condessa encontrou-se, em Paris e em +Londres, com Rytmel. Voltou d'essa viagem mais triste e mais pallida. +Lentamente, pareceu-me que a confiança do seu coração se affastava de mim. +Apartei-me, n'uma reserva discreta. Nunca mais nos nossos dialogos, todos +exteriores e ephemeros, se alludiu á viagem de Malta. + +Eu, no entanto, continuava recebendo de Rytmel as cartas mais expansivas e +mais intimas. A nossa amisade, que a exaltação e o acaso das paixões +formara, affirmava-se agora n'uma communhão serena de sentimentos e de +idéas. N'uma d'essas cartas Rytinel fallava-me de miss Shorn, uma rapariga +irlandeza... + +«É uma neta dos bardos, uma sombra ossianica, a alma da verde Erin!» +dizia-me elle. + +No começo d'esta primavera recebi uma carta de Rytmel que continha estas +palavras: + +«Parto para ahi: um quarto livre e solitario em tua casa; bons charutos; +uma casa affastada e livre n'um bairro pobre; um _coupé_ escuro com bons +_stores_; reserva e amisade.--_Frater, Rytmel_.» + +Executei escrupulosamente as suas determinações. + +Ha sessenta dias, talvez, Rytmel chegou, no paquete de Southampton. +Pareceu-me mais triste, mais concentrado. + +Havia certamente um segredo, uma preoccupação, um cuidado qualquer, que +habitava no seu peito. Esperei que elle se abrisse expansivamente commigo +n'alguma das longas horas intimas, em que, no jardim de minha casa, +fallavamos na essencia dos sentimentos. Nunca dos labios d'elle saiu uma +confidencia: apenas duas ou tres vezes o nome de miss Shorn, que segundo +elle me disse, era uma relação recente de sua irmã, appareceu vagamente no +indefinido da conversação. + +A sua vida em minha casa, era de um extremo recolhimento. + +Parecia mais um refugiado politico do que um amante amado. Não tinha +relações nem convivencias. Ás vezes de manhã saía n'um _coupé_ +cuidadosamente fechado, que perpetuamente estacionava á porta. + +De tarde, ás oito horas, saía tambem, e só o via no outro dia ao almoço, +em que elle apparecia sempre levemente contrariado pelas cartas que lhe +vinham de Londres e de Paris. Notei por esse tempo umas certas tendencias +mysticas no seu espirito, de ordinario tão positivo e tão rectilineo. +Surprehendi-o mesmo uma vez lendo a _Imitação_. + +N'um caracter logico e frio como o de Rytmel, aquelle estado de espirito +era de certo o symptoma de uma grave perturbação do coração. + +Fallava ás vezes em Carmen, sempre com saudade. Gostava de conversar das +cousas de religião e das legendas do ceu. Fallava na _Trapa_, no socego +immortal dos claustros, e nas chimeras da vida. Eu extranhava-o. + +Desde que elle viera para Lisboa eu não voltara a casa da condessa, por um +certo sentimento altivo de reserva e de orgulho. N'esse tempo estava ella +absolutamente livre. O conde achava-se em Bruxellas, onde Mademoiselle +Rise o tinha captivo dos nervosos e ageis bicos dos seus pés, que então +escreviam pequeninos poemas no tablado do _Theâtre du Prince Royal_. + +Um dia, inesperadamente, recebi da condessa um bilhete que dizia: + +«Meu primo: Se um gelado tomado n'um terraço com uma velha amiga não +sobreexcita excessivamente os seus nervos, espero-o esta tarde em... (era +uma quinta ao pé de Lisboa que ella habitava algumas vezes no verão). +Traga o seu amigo Rytmel.» + +Mostrei o bilhete a Rytmel, e pelas seis horas da tarde rodavamos na +estrada de... n'um _coupé_ com os _stores_ corridos. + +A condessa tinha acabado de jantar. Passeámos nas sombrias ruas da quinta, +apanhámos flôres, e voltaram aquellas boas horas intimas d'outr'ora, +cheias de abandono e de espirito. A condessa estava radiante. + +Ás onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admiravel +luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da +agua, de largas folhas, e de nenufares, e onde poderia navegar um escaler. +A agua escorre alli com um murmurio doce. A hora era adoravel. As redondas +massas de verdura do jardim, os arvoredos, appareciam como grandes sombras +pesadas e cheias de mysterio. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se +n'um vapor docemente luminoso e pallido. Havia um silencio suspenso. As +cousas pareciam contemplar e sonhar. + +Sobre uma mesa no terraço estava um bule do Japão e tres pequeninas +chavenas de Sévres, uma das quaes, de um gosto original e feliz, era a da +condessa. Tinhamos tomado chá, e eu notava a excentrica fórma, o delicado +desenho, a pura perfeição d'aquella maravilhosa e pequena chavena, que a +condessa chamava a _sua taça_. + +--O rei Arthur só podia beber pelo seu copo de estanho... disse Rytmel, +sorrindo. + +--E eu só posso tomar chá por esta taça, disse a condessa. Não sei porque, +representa para mim o socego, a felicidade. Quando estou triste e bebo por +ella parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flôr que eu queira conservar +ponho-a dentro d'essa chavena, e a flôr não murcha. Demais o chá bebido +por ella tem um gosto especial: ora veja, captain Rytmel! beba! + +Toda aquella glorificação da chavena tinha tido por fim o poder Rytmel, na +minha presença, sem isso ser menos discreto, beber pela chavena da +condessa,--encanto supersticioso e romantico, que pertence de grande +antiguidade á tradição do amor! + +Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina chavena dourada. Eu +no entanto olhava a condessa. + +Estava originalmente linda. Tinha o vestido levemente decotado sobre o +seio. E o luar dava-lhe aquelle limbo poetico que todas as claridades +mysteriosas, ou venham de astros mortos ou de luzes desmaiadas, dão ás +figuras louras. + +Havia um piano no terraço; a condessa sentou-se, e sob os seus dedos o +teclado de marfim, chorou um momento. O silencio, o infinito da luz, a +attitude contemplativa das cousas, o murmuroso chorar da agua nas bacias +de marmore, tudo nos tinha insensivelmente lançado n'um estado de suave e +vago romantismo... + +De repente a condessa elevou a voz e cantou. Era a ballada do _Rei de +Thule_. + +Alguem tinha traduzido aquella ballada em rimas populares. E era assim que +a condessa gostava de a dizer, em logar d'usar as palavras italianas com a +sua banalidade de _libretto_. + + Houve outr'ora um rei de Thule + A quem, em doce legado, + Deixou a amante ao morrer + Um copo d'ouro lavrado. + +Eu ficara junto do piano, fumando. Rytmel, de pé, encostado á balaustrada, +enlevado no penetrante encanto d'aquella canção, olhava a agua do tanque, +onde tremia a claridade da lua, conservando a taça na mão. + +Os dedos da condessa volteavam no teclado de marfim; e a sua voz +continuava, triste como a propria ballada: + + Sempre o rei achava n'elle + Um sabor da antiga magoa, + E se por elle bebia + Tinha os olhos rasos d'agua. + +--Não cante mais, disse Rytmel de repente, voltando-se. + +Á luz da lua eu vi-lhe os olhos humidos como os do rei da canção, e na sua +mão tremia a pequena chavena dourada. + +Ella voltou para Rytmel um longo olhar triste, e a sua voz proseguiu, +vibrando mais saudosa no silencio: + + N'alta esplanada normanda + Batida da fria onda + Reune os seus irmãos d'armas + A uma tavola-redonda... + +Parou com as mãos esquecidas sobre o teclado: + +--Foi talvez como n'uma noite d'estas, disse ella. Estamos em plena +legenda. O terraço batido da agua, a lua, os velhos amigos reunidos, a +lembrança da pobre amante, que se apaga na memoria d'elle, o presentimento +da morte... Que linda noite para o rei atirar a sua taça ao mar! + +E cantou os derradeiros versos da ballada: + + Foi-se com tremulos passos + Na amurada debruçar... + E com as suas mãos antigas + Atirou a taça ao mar! + + Junto ao seu corpo real + Estão os pagens a velar + E a taça vae viajando + Por sobre as aguas do mar... + +De repente Rytmel deu um pequeno grito: descuido, movimento, ou +irreprimivel impulso d'um coração que se revela, Rytmel deixara cahir a +pequena chavena ao tanque, entre as folhas dos nenufares. + +A condessa ergueu-se, extremamente pallida, apertando com ambas as mãos o +coração: e com os olhos marejados de lagrimas, disse para Rytmel: + +--O rei de Thule ao menos esperou que ella morresse! + +Elle desculpava-se banalmente, como se todo o mal fosse perder-se aquella +fragil preciosidade de Sévres. A condessa deu-me o braço um pouco tremula, +e penetrámos na sala. + +D'ahi a dias foi a catastrophe. Outros que a contem. Eu deponho aqui a +minha penna, com a consciencia de que ella foi sempre tão digna, quanto a +minha intenção foi sincera. + + + + ++AS REVELAÇÕES DE A. M. C.+ + + +I + + +Senhor Redactor.--Dirigindo-lhe estas linhas, submetto-me á sentença de um +tribunal de honra, constituido para julgar a questão levantada perante o +publico pelas cartas do doutor *** estampadas n'essa folha. Obriguei-me a +referir quanto se passou por mim como actor d'esse doloroso drama, e venho +desempenhar-me d'este encargo. Possam estas confidencias, escriptas com o +mais consciencioso escrupulo, conter a lição que existe sempre no fundo de +uma verdade! A existencia intima de cada um de nós é uma parte integrante +da grande historia do nosso tempo e da humanidade. Não ha coração que, +desvendado nos seus actos, não offereça uma referenda ou uma contestação +aos principios que regem o mundo moral. Quando o romance, que é hoje uma +fórma scientifica apenas balbuciante, attingir o desenvolvimento que o +espera como expressão da verdade, os Balzacs e os Dickens reconstituirão +sobre uma só paixão um caracter completo e com elle toda a psychologia de +uma época, assim como os Cuviers reconstituem ja hoje um animal +desconhecido por meio d'um unico dos seus ossos. + + * * * * * + +Sabem que sou natural de Vizeu. Criei-me n'uma aldeia encravada entre dois +montes da Beira; açoitado de quando em quando por meu pae, quando lhe +esgalhava alguma arvore mimosa do quinteiro; abençoado por minha mãe como +a esperança dos seus velhos annos; coberto de prophecias de gloria, como o +pequeno Marcello da freguezia, pelo reitor, o qual algumas vezes depois de +lhe ajudar á missa, aos dez annos de idade, me argumentava na sachristia +as declinações latinas. Era escutado este prodigio por um auditorio +composto do sachristão e do thesoureiro, que com os chapeus debaixo do +braço, coçavam na cabeça e olhavam para mim arregalados e attonitos. A um +recanto, minha mãe sorria, com os olhos banhados de ternura, do fundo da +caverna formada em redor do seu rosto pela côca de uma ampla e poderosa +mantilha de panno preto. + +Fiz depois os estudos preparatorios no lyceu da cidade, e vim finalmente +matricular-me em Lisboa na escola de medicina. + +Vivo pobre, humilde e obscuramente, tenho a minha existencia adstricta a +uma pequena mezada, á convivencia de alguns companheiros de estudo e ao +trato de duas senhoras velhas e pobres, irmãs de um capitão reformado, +antigo aboletado de meu pae, em cuja casa de hospedes eu tenho por modico +preço a minha moradia na capital. + +A unica luz que atravessava a sombra da minha vida de desterro, de +desconsolo e de trabalho, era a lembrança de Therezinha... + +Therezinha! a doce, a meiga, a querida companheira, á qual eu consagro +principalmente estas paginas, que são o capitulo unico da minha vida que +ella não conhece, a confissão sincera, a historia completa do unico erro +de que posso accusar-me perante a sua innocencia, a sua bondade, e o seu +amor! + +Therezinha! adorada flôr escondida entre as estevas dos nossos montes, que +ninguem conhece, que ninguem viu, de quem ninguem se occupa, e que no +emtanto inundas ineffavelmente a minha mocidade e a minha vida com o +sagrado perfume de um amor casto, puro, imperturbavel e calmo como a luz +das estrellas. + +Se tu as entenderás, minha innocente amiga, estas palavras! + +Se me perdoarás, tu, a enfermidade passageira e mysteriosa, cuja historia +eu ponho confiadamente nas tuas mãos, pedindo-te, não o balsamo da cura +para uma chaga que está fechada para sempre, mas o sorriso da benevolencia +e do perdão para a vaga e sobresaltada melancolia do convalescente +ajoelhado aos teus pés! + +Como quer que tenha de ser, minha noiva, eu entendo cumprir perante a +minha consciencia um dever sagrado contando-te, sem omissões e sem +reticencias, tudo, absolutamente tudo, quanto se passou por mim. A verdade +é que te amo! que te amo, e que te amarei! Outra imagem, incoercivel, +vaporosa, vaga, perpassou por mim, mas esvaiu-se como a sombra de um sonho +doentio, varada sempre pelo teu olhar candido que atravez d'ella se fixava +e se embebia constantemente no meu. + +Uma noite, ha dois mezes, recolhendo-me por volta das nove horas a minha +casa, que fica situada em um dos bairros excentricos de Lisboa, encontrei +parada uma carruagem de praça, cujo cocheiro altercava grosseiramente com +uma senhora, que estava em pé junto do trem, vestida de preto e coberta +com um grande veu de renda. Esta senhora trocou algumas palavras com outra +mais idosa que a acompanhava e disse ao cocheiro com uma voz singularmente +fina, tremula, delicada, musical, como nenhuma até então ouvida por mim: + +--Onde quer que lhe mande pagar?... Não trago mais dinheiro. + +--Importa-me pouco isso, respondeu o cocheiro. Quem não tem dinheiro anda +a pé. Já lhe disse á senhora quanto é que me deve pela tabella. Se não +paga o resto, chamo um policia. Se não traz dinheiro, dê-me um penhor. + +Ella então bateu impacientemente com o pé no chão, ergueu a parte do veu +que lhe cobria o rosto, e principiou a descalçar convulsamente uma luva. +Suppuz que iria tirar um annel. O cocheiro apressou-se a passar as guias +pela grade da almofada e apeou. Tinha-me no emtanto approximado, e no +momento em que elle dava o primeiro passo, impellido por uma forte +commoção nervosa, estendi-lhe com as costas da mão uma bofetada que o fez +cambalear e cair de encontro á parelha. E dando-lhe em seguida uma libra, +que trazia no bolso: + +--Ahi tem pela bofetada; contente-se com o que lhe deram pela corrida. + +Diria que alguem por traz de mim suggerira estas palavras romanticas, a +tal ponto ainda hoje pasmo de as ter eu mesmo inventado como solução +d'effeito oratorio, para similhante contingencia! + +O cocheiro levantou a moeda, examinou-a á luz da lanterna, subiu outra vez +á almofada, e partiu dizendo-me: + +--Boa noite, meu amo! + +Eu, atarantado, confuso, tirei machinalmente o chapeu, e titubiei algumas +palavras vagas, não sabendo como despedir-me da pessoa que tinha ao meu +lado. + +Era a primeira vez que me achava perto de uma d'essas formosas senhoras da +sociedade, tenra, fina, delicada, como nunca vi ninguem! Tinha uma +carnação lactea e aveludada, como a petala de uma camelia,--prodigio de +mimo só comparavel ao de uma outra mulher que não conheço, e que uma noite +passou por mim no salão de S. Carlos, encostada no braço de um homem e +envolta em uma grande capa branca de listas côr de rosa. + +Aquelles que as conhecem, que as vêem e lhes fallam todos os dias, é +possivel que se não impressionem com o aspecto d'estas creaturas +transcendentes. Para quem as encontra de perto pela primeira vez em sua +vida não ha cousa no mundo que mais perturbe. Homens habituados a arrostar +com as mais violentas commoções, a olharem denodadamente para o perigo, +para a desgraça ou para a gloria, tremem diante d'esta simples coisa: o +primeiro contacto de uma mulher elegante! D'ahi vem o velho prestigio +magnetico das rainhas sobre os pagens, das castellãs sobre os menestreis. +É uma sensação unica. O ser humano bestificado converte-se por momentos +n'um vegetal que vê. + +Eu ficara immovel e mudo. + +Ella correu-me de cima a baixo com um olhar rapido, e dizendo-me +_obrigada_ com uma commoção tremula, estendeu-me d'entre a nuvem negra das +suas rendas a mão de que tinha descalçado a luva. + +Entreguei a minha grossa mão a essa mão delicada, magnetica, convulsa e +fria, e senti percorrer-me todos os nervos um estremecimento electrico +despedido do _shake-hands_ que ella me deu de um só movimento sacudido, +fazendo tinir os elos de uma grossa cadeia que lhe servia de bracelete. + +Obrigado a dizer alguma coisa, soltei instinctivamente as palavras +monstruosas de uma formula que se usa em Vizeu, mas que estou bem certo +nunca até esse dia haviam sido ouvidas por tal creatura, e que certamente +lhe produziram o effeito do grito stridulo de um animal selvagem, escutado +pela primeira vez entre mattos desconhecidos. + +Vergonha eterna para mim! essas palavras, que eu desgraçadamente +conservara no meu ouvido de provinciano e que a minha bocca deixou +bestialmente cair, foram estas: + +--Para o que eu prestar estou sempre ás ordens. + +E dizendo isto, tendo-o ouvido com horror a mim mesmo, voltei rapidamente +costas, e affastei-me a passos largos. Ia vexado, envergonhado, corrido, +como se houvesse proferido uma obscenidade sacrilega. Dava-me vontade de +me metter pelas paredes ou de me sumir pela terra dentro! Não me atrevia a +olhar para traz, mas parecia-me que ia envolto em gargalhadas +phantasticas, que não ouvia. Figurava-se-me que tudo se ria de mim, os +candeeiros, os cães noctivagos, as pedras da rua, os numeros das portas, +os letreiros das esquinas, os aguadeiros que passavam uivando com os seus +barris, e os caixeiros que pesavam arroz sobre o balcão ao fundo das +tendas. + +Entrei precipitadamente em casa, subi as escadas, fechei-me por dentro e +puz-me a passear ás escuras no meu quarto. + +Nas trevas appareciam-me illuminadas por um clarão satanico essas duas +mãos que pela primeira vez acabavam de se apertar na rua--a minha e a +d'ella--uma trigueira, aspera e quente, a outra branca, nervosa e gelada. +Depois entravam a reconstruir-se á minha vista os vultos completos das +pessoas. + +Ella, de uma pallidez eburnea, com o perfil melancolico de uma madona a +que tivessem levado dos braços o seu bambino, movendo-se mollemente entre +rendas e setim com uma ondulação de sereia. + +Eu, inteiriçado e embasbacado diante d'ella, não sabendo como segurar o +chapeu e a bengala, na mais flagrante e minuciosa ostentação dos meus +defeitos e da minha pobreza incaracterisada e burgueza. Ao lado de quanto +n'ella havia ideal, transcendente, ethereo, ia eu vendo, enormemente +avultado e saliente, quanto o meu aspecto offerecia mais baixo e mais vil: +o casaco comprado ao barato n'um algibebe; as botas de duas solas +torpemente desformadas e orladas de lama; as calças com umas joelheiras +que me dão ás pernas na posição vertical o desenho das de um homem que se +está sentando; os punhos da camisa amarrotados; e a ponta do dedo maximo +da mão direita sujo de tinta de escrever! + +Eramos verdadeiramente os antipodas um do outro, postos na mesma latitude +pela estupidez do acaso, e separados logo para sempre por aquellas +palavras terriveis que me zuniam nos ouvidos como os prenuncios de uma +congestão: + +«Para o que eu prestar estou sempre ás ordens!» + +Não sei que extranha attracção amarrava o meu espirito á lembrança da +mulher que eu acabava de ver! Não era indefinida sympathia, não era +occulto desejo, não era um vago amor. Interrogava-me detidamente, e o +unico movimento que encontrava no meu coração--sinceramente o +confesso--era o do odio. Odio áquella mulher, odio inexplicavel, +monstruoso, como aquelle que imagino ser o de um engeitado á sociedade em +que nasceu! + +A distincção aristocratica, a elegancia da raça d'aquella gentil creatura +aviltava-me, enfurecia-me, revolvia no meu interior esse fermento de +rebellião demagogica que todo o plebeu traz sempre escondido, como uma +arma prohibida, no fundo da sua alma. + +Aquella mulher tinha certamente, um espirito menos culto do que o meu, uma +rasão menos firme, uma vontade menos forte, um destino menos amplo. Para +compensar estas depressões assistia-lhe uma superiodade repugnante, +inadmissivel: a que procede da casta. Um berço de luxo, uma constituição +delicada, um leito de pennas, a infancia resguardada na sombra, entre +estofos, sobre tapetes, ao som de um piano,--isto basta, para que fique +ridiculo, miseravel, desprezivel ao pé d'ella um homem que se creou ao +clarão do dia, á luz do sol, tendo por tapetes a aspereza das montanhas, e +por melodias o roncar das carvalheiras e o gemer dos pinhaes! + +E entre mim e ella será isto perpetuamente uma barreira. + +Ella ficará sempre bella, dominativa, seductora por natureza, +instinctivamente captivante, querida, amimada, estremecida, dentro da sua +zona de aromas, de veludos, de cristaes e de luzes! + +Eu, entre a minha estante de pinho adornada com um boneco de gesso e a +minha cama de ferro coberta de chita, ficarei sempre tenebroso e +inutil,--desgraçado quando não quiser tornar-me tão ridiculo, e irrisorio +quando tiver a vaidade de não querer ser desgraçado!... + +Accendi as duas torcidas do meu candeeiro de latão e tentei estudar. +Impossivel. As letras de um livro que tinha aberto diante de mim +percorri-as com a vista pelo espaço de tres ou quatro paginas, +machinalmente, sem comprehender o sentido de uma só palavra. Deixei o +livro e fiquei por algum tempo inerte, estupido, neutro, com a vista fixa +nas orbitas ôcas de uma caveira que tinha sobre a mesa, e que se ria para +mim com o escancellado sarcasmo que trazem da cova os esqueletos +desenterrados. Aborrecia-me a vida. Apaguei a luz, despi-me e deitei-me. + +Tinham-me feito a cama n'esse dia com dois d'esses lençoes de folhos +engommados, com que minha mãe enriquecera liberalmente o meu bahú de +estudante. Estes lençoes tinham a aspereza do linho novo e o cheiro +caracteristico do bragal da provincia. + +--Pobre mãe, coitada! pensava eu, deitado e embebido n'essa longinqua +exhalação olphactica da casa paterna. Coitada de ti, que na simplicidade +dos teus juizos julgaste dotar-me com um luxo que faria commoção em +Lisboa, orlando-me dois lençoes com esta enorme renda longamente +trabalhada por ti mesma nos teus bilros infatigaveis! Se soubesses que +este paciente lavor das tuas mãos em dois annos de applicação consecutiva, +ninguem aqui o admirou, ninguem o viu, ninguem attentou n'elle, a não ser +a criada, que esta manhã me perguntou, entre risadas sacrilegas, se os +padres na minha terra se embrulhavam nos meus lençoes em dias de missa +cantada! Que importa porém que o não apreciem os outros?... Toda esta +gente é má, corrupta, perversa! Agradeço-t'o eu, minha obscura, minha +velha amiga. Nos arabescos d'esta renda, que eu estou apalpando na mão e +que tu me consagraste, figura-se-me sentir o correr caprichoso e ondeado +das lagrimas que choraste emquanto o vento ramalhava nas arvores, a +saraiva estrepitava nas janellas, e tu desvelavas as tuas noites de +inverno, resignadamente ajoelhada junto do berço em que rabujava o teu +pequeno. Quando sinto no rosto o aspero contacto dos teus eriçados folhos +bordados, beijo-os piedosamente, beijo-os eu, como se fosse um anjo bom +que me tocasse com a ponta das suas azas purificadoras e brancas! + +Mas além do cheiro do bragal, que me envolvia como um afago mandado de +longe, havia na minha cama outro perfume que contrastava singularmente com +este. Era o que aromatisava a pelle d'aquella mulher desconhecida, e que +me ficara na mão que ella apertou. Respirei-o com uma curiosidade +irritante, que me pungia e me dilacerava. Ai de mim! collei os labios na +mão aberta sobre o meu rosto, e principiei a sorver esse mysterioso +respiro de um paraiso ignoto e longinquo. + +É monstruoso, infernal, o turbilhão das idéas que esse aroma extranho, +penetrante e cálido, me revolveu na cabeça. + +Sentia os fogachos, as palpitações, a hallucinação da febre. + +Quando pela manhã me levantei, sem haver dormido em toda a noite, tinha o +travesseiro inundado em lagrimas... + +Perdôa-me, Therezinha! minha Therezinha, perdôa-me... + +Não foi pensando em ti, meu puro anjo, que eu chorei tanto n'essa noite! + + +II + + +Soube d'ahi a dias que a senhora com quem me encontrára era a condessa de +W. A figura d'ella tinha-me ficado moldada na memoria como o rosto de um +cadaver em uma mascara de gesso. Estava no Rocio quando me disseram o seu +nome, ao vêl-a passar em carruagem descoberta. + +Ia reclinada para o canto de uma victoria, quasi deitada, morbida, +abstrahida, indifferente, como se uma aureola invisivel a segregasse dos +aspectos e dos ruidos da rua, grosseiros de mais para lhe tocarem. Tinha +uma seducção hallucinante, vestida de verão, com uma simplicidade cheia de +mimo e de frescura, uma graça que se adivinhava mais do que se via e que +menos appetecia ver do que respirar. Levava no seio uma rosa côr de palha, +e uma pequena madeixa de cabellos finos, dourados, transparentes, soltos +do penteado, cahia-lhe na testa. + +Cravei os olhos n'ella e tirei o meu chapeu; ella viu o meu cumprimento, +olhou-me, como se eu lhe apparecesse pela primeira vez, com a mesma +indifferença com que olharia para uma vidraça vasia ou para uma taboleta +sem distico, e proseguiu inalteravel e immovel como a imagem preguiçosa da +formosura arrebatada do seu pedestal por um cocheiro agaloado e por dois +cavallos a trote. + +Continuei a passear com um amigo com quem estava e cobri tanto quanto[1] +pude com algumas palavras rancorosas a respeito da politica a commoção que +sentia. + +Momentos depois, passou na mesma direcção que tinha tomado a carruagem da +condessa, um _coupé_ escuro, sem letras nem armas, com todas as cortinas +cerradas. Esta circumstancia, aliás naturalissima, encheu-me de indignação +e de rancor. Imaginei possivel que aquelle trem seguisse o da condessa e, +não sei por que processo do coração ou do espirito, nasceu-me o desejo de +arrombar essa carruagem e calcar aos pés o homem que lá estivesse dentro. + +--Estás a tremer! disse-me o amigo a quem eu dera o braço. + +--Não é nada... um estremecimento nervoso. + +--Impallideceste, tens os beiços brancos e as orelhas encarnadas... + +--Foi uma vertigem. Dá-me isto ás vezes. + +--Ahi tens! é o effeito das vigilias e do abuso do tabaco nas funcções do +coração. + +--E debilidade resultante da fome, exclamei eu sorrindo e mal podendo +conservar-me de pé. Adeus que vou jantar! + +E entrei na primeira carruagem de praça que passou por nós, emquanto o meu +companheiro accrescentava: + +--Agora estás afogueado e vermelho como lacre: toma ferro e bromureto. + +Quando cheguei a casa tinha febre, e via por fóra do casaco o bater do +coração. + +Não tornei mais a encontral-a senão na noite da catastrophe. + +O meu romance mysterioso e absurdo acabou então, cedendo o seu logar á +tragedia em que entramos juntos. + + +III + + +Foi na noite de 20 de julho passado. Eu voltava de casa de Z... com quem +tinha estado até ás duas horas; ía chegar quando senti atraz de mim os +passos de duas mulheres. Parei. Ellas passaram por mim, descendo do +passeio em que eu estava, e caminhando apressadamente. Entrevi-as á luz de +um candieiro. Uma era alta, sêcca, direita, edosa; a outra--para que hei +de descrevel-a?--era ella. Um relance de olhos, e conheci-a logo. + +Ia inquieta, arquejante, abafada em pranto e em soluços. Commoveu-me tanto +o aspecto passageiro d'essa grande angustia, d'essa dôr suprema n'aquella +formosa mulher ha poucos dias ainda tão patentemente feliz, radiosa, +intemerata, que eu daria n'esse momento a minha vida inteira, para a não +vêr assim dobrada na lama de uma rua escura e deserta, pelo que ha mais +violento, mais voluntario, mais hostil, mais implacavelmente humano: a +desgraça... Ella, a viva imagem da delicadeza e do mimo, expressão suprema +da belleza, do dominio, da omnipotencia terreal, via-a de repente +succumbir envolvida pela serpente cuja cabeça eu imaginava segura pelo seu +pé sobre um crescente de lua! + +Fiquei por um momento perplexo. Por fim os meus passos apressaram-se para +ella, sahi-lhe ao encontro e disse-lhe convulsivamente: + +--Senhora condessa de W..., vejo que chora. É certamente um successo +extraordinario e terrivel. V. Ex.^a parece-me só e desprotegida n'este +bairro; sómente em tão excepcionaes circumstancias eu poderia permittir-me +a liberdade de lhe fallar. Disponha de mim, minha senhora, como se dispõe +de um amigo ou de um escravo para a vida e para a morte. + +Ella parecia escutar sem me comprehender, n'uma grande inquietação. Á +ultima palavra que proferi: + +--Para a morte!--repetiu ella n'um grito de delirio. Quem lh'o disse? Como +o soube? + +E apoiando-se no braço da senhora que a acompanhava, segurou-se n'ella com +um movimento convulso de pavor, ergueu o rosto para mim e fitou-me, +trémula, supplicante, com os olhos hallucinados e lacrimosos. + +--Que quer? Diga!--accrescentou ella. Vem prender-me? aqui me tem. +Leve-me. + +E tendo dito isto, voltou-se successivamente para todos os lados, olhando +a rua com a mais exaltada expressão da confusão, da vergonha e do medo. +Era a angustia personificada pela maneira mais viva e mais lancinante. Eu +sentia o coração cheio de lastima e de piedade. + +--Perdão,--disse-lhe,--socegue, por quem é! Eu nada sei. Não venho +prendel-a, nem venho interrogal-a. Não sou um juiz, nem um espião, nem um +carrasco. É esta a terceira vez que a vejo em minha vida. A primeira foi +n'esta mesma rua ha cerca de um mez, no momento em que um cocheiro lhe +pedia o aluguer de um trem. A segunda vez foi de passagem no Rocio ha +quinze dias. Sou um amigo seu desconhecido, obscuro, anonymo. Suppunha-a +no apogeu da fortuna e da felicidade. Tive-lhe inveja e odio. Encontro-a, +ao que parece, á beira de um abysmo e não acho na minha alma doente e +magoada senão enternecimento e dedicação! é, então, desgraçada como os +outros... coitadinha! coitadinha! + +E a minha dôr era profunda e sincera, a minha compaixão illimitada. + +--Não sei, tornou ella, estou tão perturbada que não o comprehendo bem; +estou tão afflicta que não o reconheço bem, entrelembro-me apenas... Mas +parece-me generoso e compadecido... Ah! eu não posso ter-me em pé! + +Dei-lhe o braço, que ella acceitou, e ficou um momento amparada em mim e +na pessoa que a acompanhava, immovel, com a cabeça reclinada para traz e a +bocca aberta, bebendo ar a longos sorvos. + +--Vamos! disse ella depois de uma pausa. Não posso ficar, não posso morrer +aqui; tenho que escrever, preciso de chegar a casa quanto antes. + +E fazendo um grande esforço continuou a caminhar apoiada como estava, com +passo vacilante e vagaroso, anciada, arquejante, parando a todo o momento +para receber nos pulmões o ar que lhe faltava. + +Eu ia absorvido pelo aspecto de tamanha dôr. Acudia-me de longe a longe +uma palavra, que não me atrevia a pronunciar, receiando que ella podesse +imaginar que eu tentava perscrutar a causa do seu infortunio com uma +indiscrição grosseira. + +A rua em que iamos andava-se concertando e estava coberta de uma camada de +seixos britados e soltos, por cima de cujos angulos percucientes e +cortantes eramos obrigados a caminhar. Chegavamos á esquina da rua quando +ella, voltando-se para a pessoa que a acompanhava, e que então vi ser uma +criada, lhe disse: + +--Betty, calça-me o sapato. Saiu-me do pé. + +A criada ajoelhou-se, e exclamou: + +--O setim está espedaçado! O pé deita sangue! + +A condessa pareceu não ouvir, e continuou a caminhar resolutamente. + +Maravilhava-me e compungia-me o valor d'alma d'aquella debil natureza, e +sentia-me arrebatado a levantar do chão e a transportar nos meus braços +aquelle formoso corpo tão corajosamente subjugado. Felizmente, de uma +travessa proxima desembocou pouco depois um trem de praça, vasio. A +condessa, que tinha visivelmente a maior pressa de chegar, entrou, com a +criada que a acompanhava, na carruagem que eu mandei approximar. Fechei a +portinhola e disse á condessa baixo, quasi ao ouvido, dando-lhe o meu +bilhete: + +--Minha senhora, quaesquer que sejam as causas, quaesquer que sejam as +consequencias da extranha aventura que acaba de approximar-se de v. Ex.^a, +vá na firme certeza de que ninguem no mundo saberá do encontro que +acabamos de ter. Se nunca precisar de mim, continuarei como até hoje sendo +na sua existencia um homem inteiramente desconhecido, o qual de ora ávante +considerará as suas relações com v. ex.^a exactamente no estado em que +estavam antes de a ter visto pela primeira vez. + +Ella respondeu-me enternecidamente: + +--Bem haja por essas palavras de bondade, que são talvez as ultimas +benevolas que eu tenho de ouvir n'este mundo. Quando souber--porque tem de +se saber isto, meu Deus!--o que, desde esta horrorosa noite eu fico sendo +perante a justiça e perante a sociedade, diga á sua mãe, á sua irmã, á sua +amante, se tem amante, que me não odeiem ellas, ao menos! que eu sou menos +criminosa do que lhes hei de parecer, que lhe confessei isto, ao +despedir-me de si, entre a vida e a morte. Adeus!... Não lhe dou a mão... +Sou indigna da amisade das pessoas de bem. O mais que eu posso pedir, eu, +é piedade... Tenha piedade de mim... Adeus! + +A carruagem tinha rodado a distancia de alguns passos quando parou outra +vez a um gesto da condessa; ella mesma abriu a portinhola, desceu e +dirigiu-se a mim. Fui ao seu encontro. + +--Quero fallar-lhe ainda, disse ella. + +E depois de uma pequena pausa, em que parecia coordenar idéas dispersas, +accrescentou: + +--Foi talvez providencial o nosso encontro aqui, a esta hora, n'esta +rua... É talvez a unica pessoa que Deus quer permittir que me proteja, que +seja por mim. Tenho um parente a quem vou escrever immediatamente +entregando-lhe este segredo. Receio que elle se não ache em Lisboa. Sendo +assim, não sei de quem me confie. Se tiver no seu coração tanta +misericordia e tanta bondade que queira valer-me, procure-me em minha +casa, ámanhã, ás 11 horas. + +E dando-me a sua morada em Lisboa, entrou outra vez no trem que partiu. + +Singular commoção a que produziu em mim essa mulher de quem acabava de +saber que tinha commetido um crime; sentia-me inclinado a ajoelhar-me aos +seus pés dilacerados e adoral-a! + + +IV + + +No dia seguinte á hora assignada apresentei-me em casa da condessa. + +Era um predio de um só andar, simples, branco, todo fechado. Abriu-se-me a +porta da rua, appareceu-me um criado vestido de casaca azul com botões +brancos, collete encarnado, calção curto. Era um homem velho, de cabellos +brancos, polido e nedio como um embaixador, serio como uma estatua, +penteado como um gentleman. Fallou-me em francez e conduziu-me. + +As escadas eram pintadas e envernizadas de branco, luzidias como o peito +engommado de uma camisa. Ao meio dos degraus corria um tapete de veludo +passado em varetas de cobre reluzente. No patamar projectava-se da parede +uma concha de alabastro, cheia de plantas de longas folhas, em cima das +quaes gotejava a agua de uma pequena fonte. No alto da escada a mobilia +era branca, as paredes forradas de verde, cobertas de molduras doiradas +encerrando quadros a oleo. A luz, suave e alta, vinha atravez de vidros +baços. Havia o ar sereno e o perfumado silencio de uma tranquillidade +elegante e feliz. Não me parecia o palacio de um fidalgo, nem o palacete +de um burguez, mas sim o ninho domestico de um poeta ou de um artista. + +Levantou-se um reposteiro e entrei em uma sala forrada de coiro, +circumdada de sophás e de poltronas com estofos de marroquim cravejado de +aço, grandes vasos de porcelana e alguns bronzes, um dos quaes +representava o busto da condessa, assignado e datado de Milão. Um dos +espessos reposteiros que cobriam as portas estava corrido e deixava ver, +no meio da casa proxima, que era um salão antigo, um piano de ebano +volumoso e longo em cujo flanco se lia em grandes caracteres de prata o +nome de Erard. Junto do piano, inclinado sobre um _fauteuil_, achava-se um +violoncello defronte de uma estante de marfim. Sobre as chaminés de +marmore havia alguns livros e vasos com flores. Os moveis estavam +dispostos de maneira que parecia conversarem baixinho em coisas delicadas +e intimas. Sentia-se que estava ali, domiciliada n'um aconchego feliz, uma +existencia espirituosa e contente: percebia-se no ar e no aspecto das +coisas, o vago prestigio do perfume, da harmonia, do calor, que as pessoas +que ahi tivessem estado haviam derramado em volta de si, conversando, +lendo, fazendo musica. Eu tinha levantado os olhos de um livro sobre a +mesa do centro da sala, quando vi defronte de mim, ao fundo de um grande +espelho, uma figura immovel, tectrica, espectral. Voltei-me rapidamente, e +não pude reprimir um grito de pasmo e de terror. Era a condessa. + +Horrivel transformação por que ella passára! Durante as poucas horas que +haviam mediado entre esse momento e a ultima vez que a vira, a condessa de +W... tinha envelhecido dez annos. Os olhos profundamente encovados haviam +tomado uma expressão apagada e immovel; a carne tinha uma côr terrea e +opaca; os musculos faciaes, contrahidos na mais violenta oppressão, +davam-lhe ao rosto, transversalmente vincado por dois sulcos escuros, o +aspecto de uma magreza extrema; os cabellos apanhados todos para traz, +alizados e seguros n'um rolo sobre a nuca, avultavam-lhe o nariz afilado e +despegavam-lhe do craneo as orelhas lividas, de uma saliencia rija e +cadaverica. + +Fez-me signal que a acompanhasse. Segui-a com a sensação enregelada de +quem entra nos dominios da morte. Atravessámos uma sala e entrámos em um +dos quartos d'ella. Apontou para um sophá e sentou-se ao meu lado, olhando +para mim, impassivel. + +Ficou assim por um momento na mudez de uma dôr intraduzivel, pausa +terrivel em que a alma emerge de um abysmo de lagrimas e se debate +violentamente antes de apparecer na voz. Tinha os labios entre-abertos +como os de quem vae soltar um grito, e o queixo tremulo oscillava-lhe como +o das creanças subjugadas pelo terror no instante de lhes rebentar o +pranto. Por fim disse-me lentamente, com palavras pesadas, firmes, +entrecortadas, como se estivesse retalhando o coração e dando-m'o em +bocados! + +--Peço-lhe que não me condemne pelas primeiras palavras que vae ouvir. + +E, em voz baixa, depois de um breve silencio, accrescentou: + +--Eu matei um homem. + +--Que diz?! gritei eu estupefacto. Está louca! enlouquceu! + +--Não. Não estou louca, tornou ella grave e serenamente. Não enlouqueci +ainda. E admiro isto. Como têem decorrido estas horas, minuto por minuto, +segundo por segundo, sem que a minha razão succumbisse n'esta desgraça +infinita, sem remedio, sem termo, sem remissão! Matei um homem... +Involuntariamente, sim, mas matei-o. Quero entregar-me aos tribunaes, +estou prompta, estou deliberada. Estendendo os olhos ao meu futuro, não +vejo senão uma esperança, senão um lenitivo unico no prazer de morrer em +tormentos, que eu abençoarei como os maiores beneficios do ceu, de morrer +de fome, de desprezo, de miseria, prostrada no fundo de uma enxovia, no +porão de um navio, ou abandonada em uma praia da Africa, abrazada pelo +sol, sobre as areias ardentes, roida pelo cancro, devorada pela sede e +pela febre. Por mim uma só cousa temo: a loucura que um momento em minha +vida me consinta a alegria horrivel de cuidar que ainda sou amada e feliz; +ou a morte repentina que me arrebate a consolação unica que Deus concede +aos grandes culpados: a liberdade de soffrer. Mas elle... O seu nome +descoberto! o seu cadaver profanado! o seu segredo trahido!... + +E fallando, como n'um sonho, abstractamente: + +--Desventurado homem! que fatal destino o encaminhou para mim +arremessando-o, de encontro ao meu coração, em que estava a sua morte? +Porque não amou outras mulheres que o mereciam mais do que eu? Porque não +se deixou amar por Carmen Puebla, que o adorava e que morreu por elle? Que +cego, que imprudente, que desgraçado que foi!... + +E escondendo a face nas mãos, desatou a chorar n'um pranto convulso e +desfeito, em que a vida parecia despedaçar-lhe o seio e jorrar para fóra +em borbotões de lagrimas e de soluços. + +--Vamos,--disse-lhe eu quando esta crise abrandou,--serenemos um momento, +e pensemos no que importa fazer. É então positivo que o conde está morto? + +--O conde?... interrogou ella, erguendo-se de subito e enxugando os olhos. +Sim, tem rasão, eu ainda lhe não disse tudo... O homem que eu matei não é +meu marido. + +E, postando-se defronte de mim, fitou-me com um olhar hallucinado, e +accrescentou com voz demudada e profunda: + +--É o meu amante. + +Em seguida ficou immovel, esperando as minhas palavras na postura de um +reu que vae escutar a sentença da bôca de um juiz. + +A sensação que experimentei ao ouvir essa confissão breve, sêcca, +inesperada, foi a da surpreza primeiro, de uma instinctiva repulsão +depois. Ergui-me machinalmente e dei alguns passos na casa. A condessa +permanecia na mesma posição, n'uma insensibilidade que tanto podia ser a +prostração do arrependimento como o cynismo da culpa. Eu estava +surprehendido e revoltado. Aquella mimosa e pura estatua, á qual eu +levantára quasi um altar no meu coração, assim repentinamente baqueada +n'um lamaçal, causava-me horror. Poderia supportal-a criminosa; não podia +consideral-a prostituida. Medi-a com um olhar em que senti dardejar o +despreso que ella n'esse momento me inspirava, e depois de um silencio +repassado de magoa: + +--É horrivel isso! + +Ella estremeceu, cerrou desfallecidamente os olhos e amparou-se vacillante +ao espaldar de uma cadeira. + +--Extranha talvez a lastima e o horror que me causa? insisti eu. É +natural. Tendo ouvido que em Lisboa, a sociedade vê benevolamente essas +quedas como incidentes triviaes da existencia domestica. Eu porém que sou +um selvagem, eu que me criei no principio de que a fidelidade é no +caracter de uma mulher um dever tão sagrado como a honra no caracter de um +homem, eu protesto, em nome das unicas mulheres que a minha inexperiencia +me tem permittido conhecer no mundo--em nome d'aquella que me gerou e em +nome d'aquella que eu amo--contra similhante interpretação da liberdade de +amar. Não comprehendo que cáia em tal erro uma pessoa limpa. O adulterio é +uma indecencia e uma porcaria. Matar um homem em taes circumstancias, é +mais do que faltar ferozmente ao respeito devido á inviolabilidade da vida +humana; é faltar egualmente ao respeito da morte... É atirar um cadaver a +um cano de esgoto... É tragico--e coisa ainda mais horrivel--é sujo... + +Ella escutava-me em silencio, extatica, como hypnotisada pela minha +instinctiva mas cruel grosseria. + +De repente, sem uma exclamação, sem um grito, sem um gesto, caiu +desamparadamente no chão, fulminada, inerte, como se estivesse morta. + +Quiz chamar alguem, ia a tocar no botão de uma campainha quando me +occorreu a inopportunidade de qualquer intervenção n'esta scena. Fui para +ella, que ficára estirada de costas sobre o tapete. Levantei-lhe a cabeça. +Não lhe senti o pulso. Ergui-a em peso, tomei-a nos meus braços. A fronte +d'ella pendeu sobre o meu hombro, ficando perto dos meus labios a sua face +desmaiada. + +Approximei-me de um sophá. Depois, por um sentimento supersticioso de +respeito, colloquei-a n'uma cadeira de braços, e corri aos aposentos +contiguos áquelle em que estavamos. O quarto proximo era um gabinete de +vestir. Trouxe um frasco de agua de Colonia que estava n'um lavatorio. +Humedeci-lhe as fontes e os pulsos, fiz-lhe respirar o alcool. +Auscultei-a. O coração começava a bater. O pulso reapparecia. + +Eu tinha-me ajoelhado junto da poltrona em que ella jazia e contemplava +melancholicamente a sua figura exanime. + +Os olhos cerrados, a bocca entre-aberta deixando vêr os dentes miudos e +côr de perola, a cabeça reclinada ao espaldar, davam ao seu rosto, assim +em escorso, a expressão de uma figura d'anjo, ascendendo de um tumulo. Os +pés estreitos e finos, calçados em meias de seda e sapatos de setim preto +sobresaíam da orla do vestido n'uma immobilidade sepulchral. Uma das mãos, +atravez de cuja lividez se via a rede tenue e azul das veias, tendo no +dedo annular um circulo de grossos brilhantes entremeiados de rubis, +repousava-lhe no regaço, e do seu roupão de rendas pretas exhalava-se o +mesmo perfume, o perfume d'ella, que ficára na minha mão a primeira vez +que a vi. + +Lembrei-me então da sua figura entrevista de noite, ao gaz de um candeeiro +da rua, tornada a vêr depois, á luz do dia, no Rocio, passando em +carruagem descoberta. E estas coisas, tão vivas na minha lembrança, +faziam-me todavia, a impressão de haverem passado ha muitos annos. + +Ella estava velha! + +Muitos dos seus cabellos, seccos, baços, como mortos, tinham embranquecido +nas fontes e no alto da cabeça. + +A contracção violenta de todos os musculos da dôr transformara n'uma só +noite as suas feições e desfigurára a sua physionomia. Os cantos da bocca +tinham descaído ao peso das lagrimas como ao peso dos annos, e dois vincos +profundos sulcavam-lhe as faces flaccidas na mesma direcção obliqua que +tinham tomado os sobr'olhos, riscando-lhe a testa em rugas curvilineas e +transversaes. + +Que medonha, que tenebrosa, que incomparavel angustia devia ter passado em +algumas horas por este desgraçado corpo para o devastar assim! + +Na rua, a pequena distancia, um realejo tocava um _pot-pourri_ de varias +operas, e, ao som d'esse corrido martellar idiota da musica mecanica, +pareceu-me ver desfilar em louca debandada no ar, entre mim e a pobre +senhora, como n'uma especie de evocação ao mesmo tempo tragica e grotesca, +todos os grandes symbolos das educações sentimentaes, ladainha viva das +paixões elegantes, girando sob a manivella do seu realejo, n'um redemoinho +funebre, de dança dos mortos, em torno d'esse corpo desfallecido, como as +visões da vida passada, figuradas nos velhos retabulos, em torno do leito +das monjas moribundas. + +Era como se, no decorrer d'essa musica, automatica como um andar de +somnambulo, eu visse perpassar no espaço a grande ronda das tentações que +na vida levaram comsigo o destino d'esta creatura: os pallidos Manriques e +os febris Manfredos, trazendo sob a capa das poeticas aventuras a bravura +cavalleirosa de campeador Ruy de Bivar ou do paladino Rolando, a +melancolia de Hamlet, a exaltação sentimental de Werther, a revolta do +Fausto, a sociedade de D. Juan, o tedio de Childe Harold; e toda a legião +dramatica das bellas mulheres amadas: Francesca, Margarida, Julietta, +Ophelia, Virginia e Manon. + +E, em grinalda de beijos seccos, de beijos de pau, matraqueados no +instrumento da rua, todas essas figuras d'amorosas legendas bailavam +mysteriosamente ao som da _Traviata_, da _Lucia_, do _Balle in maschera_. + +--_Amor! amor! amor!_--tal foi de certo a letra da grande aria que +constantemente lhe cantaram atravez de toda a sua existencia de mulher +bella, instruida e rica. + +Foi n'esse mundo moral que a sua imaginação habitou e que se fez o seu +pobre espirito de linda creatura ociosa e desejada. + +Como poderia ella adivinhar a honesta serenidade dos destinos simples no +meio de uma existencia tão complicadamente artificial como a sua? + +Fóra dos interesses da elegancia, da moda, talvez da arte, que conhecia +ella de serio e de grave na vida senão a religião e o amor? Tinha um +missal e um marido. É pouco para o equilibrio de uma alma, principalmente +desde que o missal cessa de convencer e o marido cessa d'amar. + +As que tem um salão, uma carroagem, um camarote na opera, um cofre cheio +de joias, um quarto cheio de vestidos, não pódem ser as singelas mulheres +que passam a vida a dar de mamar aos filhos e a vender cerveja, como diz o +Iago, de Shakespeare; nem podem resumir o seu destino facil em ter filhos, +chorar e fiar na roca, como diz Sancho Pansa. Esta não vendia cerveja, não +a ensinaram a fiar... Chorou apenas. + +Quem sabe se na sua dourada existencia a amargura das lagrimas a não +compensou hoje de tudo quanto ignora da amargura da vida! + +E tive uma paixão sincera com um remorso profundo das palavras crueis que +lhe dissera. + +Que poderia eu fazer para a salvar? Não o sabia. Achava-me porém resolvido +a tudo, a sacrificar-me inteiramente, para lhe valer. + +Devo dizer tambem que, vendo-a, ouvindo-a, eu não suppuz nem por um +momento que no homicidio de que ella se accusava podesse haver o que se +chama verdadeiramente um crime, isto é, uma intenção infame ou perversa. +Um criminoso, um cobarde, um assassino, nem chora assim, nem falla assim, +nem se denuncia, nem se inculpa, nem se entrega por esta fórma a uma +pessoa quasi extranha, quasi desconhecida. Ella tinha-m'o dito com a mesma +simplicidade com que o gritaria da janella para a rua, sem a minima +preoccupação de se salvar. Cheguei a pensar por um momento que não tinha +deante de mim senão uma extranha nevrose, um caso de hallucinação, de +delirio raciocinado. Mas o delirio não faz padecer tanto. Tenho visto +muitos loucos no hospital. A expressão d'elles, ainda a mais dolorida, não +apresenta nunca a profundidade d'esta. É preciso ter toda a integridade da +sensibilidade e da rasão para soffrer assim. No padeccimento dos loucos ha +um não sei quê, sem nome talvez na symptomatologia do soffrimento, mas a +que poderiamos chammar--a isolação da alma. + +Ao voltar a si, a condessa parecia um pouco mais calma. Para evitar um +recrudescimento de excitação proveniente de uma longa narrativa de +episodios que me pareceu discreto evitar, um pouco como estudante de +medicina, principalmente como homem honrado, disse-lhe: + +--Sabe mais alguem d'este caso? +--Sabe-o a minha creada de quarto, a que me acompanhava hontem quando nos +viu, e sabel-o-ha dentro em pouco meu primo H... a quem hoje escrevi. Meu +primo porém está em Cascaes. O morto é um extrangeiro. Ninguem, a não ser +meu primo, o conhece em Lisboa. Ignorava-se mesmo que elle existisse aqui. +Entregal-o aos tramites policiaes, ter de revelar o seu nome, descobrir a +sua naturalidade, a sua familia, eis o que principalmente eu queria +evitar. Conseguido isto, entrego-me aos tribunaes, mato-me, fujo, +enterro-me viva... como quiserem! + +--E sabe seu primo como elle morreu? + +--Não. Vai saber apenas que está morto... + +--Póde contar com o silencio da sua creada, por alguns dias ao menos? + +--Posso. Por toda a vida. + +--Evite, se póde, que seu primo receba hoje a sua carta. E... _elle_, onde +está? + +--Na mesma rua em que nos encontrámos hontem, no predio n.^o... + +--Para entrar na casa... + +--Ha uma chave--respondeu ella. + +E tendo meditado um momento: + +--Hontem--prosseguiu--quando lhe disse que viesse hoje a minha casa, +estava louca de desesperação e de horror. Parecia-me que tudo quanto se +approximava de mim me trazia a punição, o castigo, e que tudo quanto se +affastava fugia para longe com o meu ultimo amparo, com o derradeiro +soccorro que eu ainda poderia ter n'este mundo!... Foi n'este delirio que +lhe pedi a V..., um extranho, um desconhecido, que viesse vêr-me... Para +quê?.. nem eu sabia para quê... Para contar isto a alguem, para me +decidir, para ter uma solução, para apressar um desenlace qualquer, para +fugir de mim mesma... Ir á policia era entregar esse infeliz á mais +horrorosa das profanações. Dirigir-me a alguma das senhoras que conheço, +ir bater á porta de uma familia tranquilla, que me receberia na casa de +jantar ao levantar da mesa, que me apertaria as mãos, que me traria os +seus filhos para eu beijar, e depois dizer-lhes de repente: Eu, que aqui +estou, tinha um amante, e matei-o; venho convidal-os para esta festa de +vergonha e de ignominia!... Não. Era melhor fugir para o desconhecido, +entregar-me ao acaso... Em tudo isto pensei confusamente, não sei como, +sem continuidade, sem nexo, aos pedaços, depois que o vi, durante esta +noite medonha. Não tenho hoje mais lucidez de espirito do que tinha +hontem... Não sei o que hei de fazer... Sinto apenas que estou perdida, +que é preciso que alguem venha, que é preciso que me levem... O senhor +parece-me um homem generoso, leal, compadecido e bom... Sabe já o que me +succedeu, sabe onde _elle_ está. Disse-lhe qual era a casa, disse-lhe o +numero da porta. Aqui tem a chave. + +E tirando do seio uma corrente de ferro, de elos angulosos como de um +cilicio, que trazia suspensa do pescoço por dentro do roupão, abriu uma +argola que lhe servia de remate, soltou uma pequena chave, e entregou-m'a. + +Deixou-se cahir n'um _fauteuil_, inclinou a cabeça para traz e ficou +prostrada, silenciosa, no abatimento, no abandono, no entorpecimento +profundo que d'ordinario se succede ás grandes crises nevralgicas. + +Sem saber o que fizesse, pensando todavia que uma ideia qualquer me +occorreria mais tarde como desfecho possivel para esta situação tão +imprevista, tão extraordinaria, guardei a chave. Senti que me era preciso, +primeiro que tudo, sahir d'alli, retomar o ar livre, achar-me a sós +commigo mesmo, reflectir, raciocinar. + +--Minha senhora--disse-lhe então--se amanhã, até ao meio dia, eu lhe não +tiver reenviado esta chave, será signal que me prenderam, que está tudo +perdido. Se não souber mais de mim, quero dizer, se lhe não fôr restituida +esta chave, fuja, esconda-se, faça como quizer. Interrogada, negue tudo. +Eu preferirei mil vezes acceitar a responsabilidade d'esta morte a +imputar-lh'a, e, por caso algum do mundo, será jámais o seu nome proferido +por mim. D'aqui até lá, para coordenar as suas ideias, para equilibrar a +sua razão, para não enlouquecer, se quer um conselho de physiologista, +violente-se um pouco, abra uma janella, sente-se deante de um caderno de +papel e escreva o que se passou. Depois queime o que escrever. O unico +meio de dominar uma situação como a sua, o unico meio de verdadeiramente a +comprehender, é analysal-a. Houve um philosofo que deixou aos infelizes +esta maxima: «Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema.» Vá escrever. +Faça as suas memorias ou faça o seu testamento, mas escreva, e queime +depois. Agora, adeus. Adeus até amanhã, ou quando não, adeus para sempre. + +Ella conservava sempre a attitude extatica em que cahira na cadeira de +braços. Tinha a bocca entre-aberta, o labio inferior tremia-lhe, com esse +tocante gesto infantil que toma a desolação no rosto das mulheres, e +grossas lagrimas silenciosas, corriam-lhe em fio pelas faces e gotejavam +lentamente nas rendas do vestido. Fez um movimento para se erguer, +procurando articular uma palavra d'agradecimento. Profundamente +enternecido, dei um passo para traz, inclinei-me com respeito, e sahi. + + +V + + +Tendo fechado a porta do aposento em que ella ficára, ao passar na sala em +que primeiro estivera, occorreu-me de repente uma ideia. Sobre uma das +mezas achavam-se dois grandes albuns. Folheei-os rapidamente. Um d'elles +encerrava apenas uma serie de apontamentos de viagem tomados por uma só +pessoa, segundo se via da uniformidade da letra a lapis e em portuguez. +Entre os apontamentos escriptos estavam collados ou pregados nas paginas +alguns especimens de plantas e de flôres, e viam-se delineados varios +esboços de construcções e de fragmentos architectonicos. Era um album de +estudos. O outro continha uma collecção de pensamentos, de maximas, de +versos, de desenhos, de aquarellas, firmados por muitos nomes diversos. Eu +devorava com os olhos o conteúdo de cada lauda. + +Não ousára perguntar á condessa o nome do seu amante. Comprehendia que a +bocca d'ella nunca mais poderia pronuncial-o, e não obstante, eu precisava +de sabel-o, de ver letra d'elle. Estava certo de que esse nome +desconhecido figuraria indubitavelmente entre os que eu estava lendo, que +a letra desejada se encontraria no meio dos escriptos que me estavam +passando pelos olhos. Como poderia porém adivinhal-o, sem tempo, sem +vagar, sem o socego de espirito necessario para meditar a intenção de cada +uma das phrases que ia lendo?... Era-me forçoso abandonar este recurso, e +o album que tinha nas mãos era todavia, talvez, o unico meio que me +restava de poder descobrir o que desejava! Hesitei um momento, e sahi por +fim, levando o livro comigo. + +Apenas me achei na rua tomei um trem, que dirigi para minha casa, +acantoei-me na carroagem e puz-me a ler successivamente cada um dos +trechos em verso e em prosa, de que se compunha a collecção. + +Sabia pela condessa que o morto era estrangeiro. Esta informação era +insufficiente para que eu o distinguisse n'aquella torre de Babel. De +pagina para pagina ia-me surprehendendo uma nova lingua. Havia francez, +italiano, allemão, inglez, hispanhol... O nome de Ernesto Renan apparecia +sobposto a duas palavras chaldaicas; Garcin de Tassy, orientalista na +Sorbonne, firmava um periodo em lingua hindustanica; Abd-el-Kader tinha +deixado simplesmente o seu nome arabe; a princesa Dora Distria assignava +de Turim um pequeno texto albanez. Nomes portuguezes, apenas dois. + +A leitura dos textos não me adiantava mais do que a simples inspecção da +variedade dos nomes e da differença de linguas. + +Ao chegar a casa, vi que o numero que a condessa me indicara era o de um +predio de um só andar, pobre de apparencia, quasi fronteiro á casa que eu +habitava, perto de uma esquina, collocado ao lado de um predio mais +saliente, e tendo a porta n'um angulo reintrante que a escondia da parte +principal da rua. Para o lado opposto até á esquina proxima havia uns +armazens deshabitados. Defronte corria um velho muro, ao alto do qual +sobresaiam as ramas seccas de um canavial. A situação topographica da casa +onde estava o morto permittia-me pois entrar e sair d'ella sem ser visto. + +Ali dentro haveria talvez um papel, uma carta, uma nota, que me revelasse +o nome que desejava conhecer. + +Dei a volta á chave e entrei. No alto da escada, junto de uma porta +cerrada, estava caida uma luva e dois bocados de papel. Um era meia folha +pequena, lisa, em branco. O outro era um pedaço de _enveloppe_; tinha no +alto um carimbo do correio de Lisboa com a data do dia anterior; a um +canto havia inutilizada uma estampilha franceza; no subscripto lia-se: +_Mr. W. Rytmel_. + +Este nome achava-se no album da condessa por baixo de dois versos +inglezes. + +A luva, que levantei do chão, era de mão de homem, e de pellica branca com +cordões pretos. Por dentro tinha em letras azues a marca de um luveiro de +Londres. Era evidente que tinha achado o que procurava. Rytmel era o nome +do morto. + +Abri em seguida a porta que tinha em frente de mim e estremeci de horror. +Estendido n'um sophá estava o cadaver. A expressão do seu rosto inculcava +um socego feliz. Parecia dormir. Apalpei-o; estava frio como marmore. +Collocado perto d'elle estava um copo com um pouco de liquido. Era opio. + +Percorri o aposento com um relance d'olhos. No forro de setim preto do +chapeu, que estava caído no chão, vi bordadas em vermelho uma corôa de +barão e duas grandes lettras--um W. e um R. + +Não podia perder tempo. Fui para casa, sentei-me pacientemente á minha +banca e abri o album defronte de mim na pagina em que estavam os versos +assignados por W. Rytmel. + +É de saber que tenho aquella especie de habilidade que Alexandre Dumas +considera aviltante e vilipendiosa para a intelligencia: sou, como terá +visto pela letra d'estas cartas, um excellente calligrapho. Copiei +escrupulosamente, desenhando letra a letra, por trinta ou quarenta vezes +consecutivas, os dois versos que tinha patentes. Depois principiei a +construir, com letras da mesma fórma das que tinha copiado, outras +palavras differentes. Finalmente, depois de muito estudo e de muitos +ensaios, peguei na meia folha de papel que tinha encontrado na casa em que +se dera a catastrophe, e fiz em inglez com escripta que ninguem no mundo +duvidaria ser a da pessoa que escreveu no album os versos assignados pelo +nome de Rytmel, uma declaração pessoal do suicidio por meio do opio. +D'este modo, quer mais tarde me occorresse, quer não, o meio mais +conveniente de sepultar o cadaver, as suspeitas de homicidio +desappareciam. + +A condessa estava salva desde que, antes de mais ninguem, eu entrasse na +casa e collocasse junto do corpo o bilhete que escrevera. + +Mas eu ficava sendo um _falsario_. Repeti a mim mesmo esta palavra +sinistra e estremeci de horror. Era preciso achar outro meio, que eu +procurava debalde. E no entanto o tempo corria. Veio a noite. Lembrei-me +que o primo da condessa poderia vir de Cascaes prevenido por ella, e +cheguei a sahir de casa com pregos e um martello para encravar a fechadura +da porta e retardar a entrada no predio onde se achava o morto. +Occorreram-me mil idéas phantasticas, cada qual mais absurda. Passeei por +muito longe, a pé, meditando, inquieto, nervoso, congestionado, estafado, +devorado de febre, palpando no fundo do bolso o bilhete terrivel com que +poderia desviar a responsabilidade da cabeça de um criminoso, tomando +todavia para mim uma parte egual no seu remorso. + +Finalmente, por volta da meia noite, sem bem saber porquê, nem para quê, +levado por uma attracção terrivel, atraz de uma suprema inspiração, +cingi-me com o muro, abri a porta, penetrei na casa. Então me encontrei +inesperadamente com o doutor e com a pessoa conhecida no decurso d'esta +historia pelo nome de _mascarado alto_. + +O primo da condessa, tendo chegado de Cascaes ao meio dia, acompanhado de +dois amigos intimos, inquieto pelo desapparecimento de Rytmel, que era seu +hospede e vivia como homiziado em casa d'elle em Lisboa, foi ao predio +mysterioso de que possuia uma chave e que sabia ser frequentado +regularmente pelo inglez, e encontrou ahi o cadaver. Conhecendo as +relações de Rytmel com a condessa, ponderando quanto havia de delicado na +necessidade de manter o maior sigillo em volta d'aquella catastrophe, e +julgando por outro lado indispensavel que o testemunho de um medico +constatasse a morte, que poderia ser apenas apparente, planeou e realisou +a emboscada em que surprehendeu o doutor ***, que elle sabia casualmente +que passaria n'essa tarde pela estrada de Cintra. + +Sabem o que se passou n'essa noite. + + +VI + + +No dia seguinte ás onze horas da manhã, todos nós, os que haviamos ficado +n'essa casa fatal, nos achavamos reunidos, de rosto descoberto, em torno +do cadaver. + +O doutor havia sido conduzido ao ponto da estrada de Cintra, em que fôra +tomado na vespera. + +F..., encarcerado durante a noite em um quarto interior da casa, havia +communicado com um allemão que habitava o predio contiguo, e passára-lhe +de manhã por um buraco feito no tabique, a carta ao doutor, publicada mais +tarde no _Diario de Noticias_. Em seguida arrombou a porta do quarto que +lhe servia de carcere, e depois de uma altercação violenta, arrancou a +mascara ao primo da viscondessa. Os outros dois mascarados, vendo o seu +companheiro descoberto, tiraram egualmente as mascaras. Um d'elles era +intimo amigo de F... + +--Que é isto?... Como póde isto ser?... gritou F... exaltado. + +E apontando em seguida para o cadaver, continuou: + +--Aquelle homem está morto, e foi roubado. Depressa expliquem-se! como +póde isto ser? + +--Meus senhores,--exclamou o _mascarado alto_--o segredo que eu tenho tido +em meu dever guardar dentro dos muros d'esta casa, e que espero fique para +sempre sepultado n'ella, pertence a uma senhora. Uma parte d'este segredo, +aquella que mais particularmente nos interessa, a que explica a presença +d'aquelle cadaver diante de nós, conhece-a este senhor. + +E voltando-se para mim ao dizer estas palavras, accrescentou: + +--Em nome da nossa dignidade, emprazo-o pela sua honra a que declare o que +sabe. + +--Jurei não o dizer--respondi eu--não o direi nunca. Ao entrar aqui, em +presença de um perigo que julguei imminente sobre a cabeça das pessoas +mais particularmente envolvidas n'este mysterio, perdi os sentidos, +desmaiei mulheril e miseravelmente. Falta-me diante do perigo a energia +physica, que é a feição visivel do valor. Não imaginem por isso que tambem +careço de força moral precisa para guardar um segredo, á custa que seja da +minha propria vida! Interrogado por gente mascarada, que não conhecia, +era-me licito mentir, pôr tambem na resposta uma mascara. Diante de gente +de bem, que me interroga invocando a sua honra, o meu dever é calar-me. +Previno-os de que são absolutamente inuteis todas as tentativas que +fizerem para me obrigarem a outra coisa. + +--Não é difficil de cumprir o seu dever! observou com ironia o mascarado +alto. O corpo d'aquelle desgraçado não póde ficar ali por mais tempo. É +urgente que tomemos uma deliberação decisiva e que salvemos a +responsabilidade que pesa sobre nós, de modo tal que fique para sempre +tranquilla a consciencia que nos dictar o conselho que houvermos de +seguir. Visto que este senhor se recusa a principiar, começarei eu. + +E traçou sobre uma folha de papel as seguintes linhas, que ia pronunciando +ao mesmo tempo que as escrevia: + +«_Minha prima._ + +«Na rua de... n.^o... acham-se n'este momento reunidos diante de um +cadaver os seguintes homens: (seguiam-se os nossos nomes). É um tribunal +supremo constituido pelo acaso e que vae julgar em derradeira e unica +instancia o crime sujeito pela fatalidade á nossa jurisdicção. Se em +presença d'este tribunal a minha prima tiver que depôr, peço-lhe que o +faça.» + +--Perdão...--observei eu.--Peço licença para accrescentar uma linha: + +«A. M. C. não devolve a chave.» + + * * * * * + +Elle escreveu o que dictei, assignou, dobrou o papel, e disse a um dos +seus amigos: + +--Vae já entregar este escripto á condessa de W... + +Meia hora depois uma carruagem que percorrera a rua a galope parou á porta +do predio em que estavamos. Rolámos para dentro da alcova o sofá em que se +achava o cadaver, e cerrámos o reposteiro da sala. Abriu-se a porta, e a +condessa entrou. + +Seguira o alvitre que lhe propus. As vinte e quatro horas decorridas desde +que eu a deixára até ao momento de partir para ali, tinha-as empregado em +escrever com uma eloquencia apaixonada e febril a historia da sua +desgraça. O caderno que lhe remetto encerra, senhor redactor, a copia da +longa carta dirigida por ella a seu primo. Cedo o logar que estava +occupando nas columnas do seu periodico á publicação d'este documento, que +verdadeiramente se poderia chamar _O auto de autópsia de um adultério_. + +Depois direi o destino que démos ao cadaver, e o fim que teve a condessa. + + + + ++A Confissão d'ella+ + + +I + + +Parece-me ás vezes que tudo isto se passou n'uma vida distante como um +romance escripto, que me causa saudades e dôr, ou uma velha confidencia de +que a minha alma se lembra. Mas de repente a realidade cae arrebatadamente +sobre mim, e creio que soffro mais então, por ter a consciencia de que não +devia nunca ter deixado de soffrer. Foi bom que me determinasse a esta +confissão. Contar uma dôr é consolal-a. Desde que me determinei a escrever +estas confidencias, ha no meu peito um alivio e como um movimento de dôres +crueis que desamparem os seus recantos. + +O principio das minhas desgraças foi em Paris. Lá comecei a morrer. +Lembra-me o dia, a hora, a côr da relva, a côr do meu vestido. Foi no fim +do penultimo inverno, em maio. _Elle_ estava tambem em Paris. Viamo-nos +sempre. Ás vezes saíamos da cidade, iamos passar o dia a Fontainebleu, +Vincennes, Bougival, para o campo. A primavera era serena e tepida. Já +estavam floridos os lilazes. Levavamos um cabazinho da India com fructa, +n'um leito de folhas de alface. Riamos como noivos... + +Havia tres mezes que estavamos em Paris: o conde--creio que o +disse--estava na Escossia com lord Grenley caçando a raposa nas tapadas do +principe de Beaufort. + +Houve então um baile no _Hotel de Ville_, um d'esses bailes officiaes em +que uma multidão de praça publica se acotovella sob os lustres, +brutalmente. Tinha eu acabado de dançar uma walsa com um coronel +austriaco, quando a viscondessa de L..., que vivia então em Paris, veiu a +mim, toda risonha: + +--Conheces este nome: _miss Shorn?_ + +--Não. Uma americana? + +--Uma irlandeza. Uma maravilha, O prefeito dançou com ella; a condessa +Waleuska beijou-a na testa, Gustavo Doré prometteu-lhe um desenho. Vae ser +apresentada nas Tulherias. No fim, queres que te diga? Acho-a +insignificante. Bonitos cabellos, sim. Não se falla n'outra cousa! Mas tu +deves conhecel-a... + +--Porque? + +--Tem dançado com Captain Rytmel, parecem intimos. Tu ris? + +--Eu? + +--Não... tu riste! + +--Nunca rio, senão quando quero chorar, minha querida! + +--_Tiens, tiens!_--murmurou ella, olhando muito para mim. + +E affastou-se. O meu pobre coração ficou em desordem. Ás vezes, na nossa +alma, toca-se de repente a rebate, e as desconfianças adormecidas, +acordam, tomam as suas armas, e fazem sobre nós um fogo cruel. + +--Captain Rytmel approximara-se. + +--Vem radiante, disse-lhe eu. Quem é miss Shorn? + +Elle respondeu gravemente: + +--É a amiga intima de minha irmã. + +Fomos dançar. Era uma quadrilha. Pareceu-me triste. + +Os movimentos da dança lembravam-me as cerimonias d'um culto. O meu ramo +ficou espalhado pelo chão. N'esse instante, sem saber porquê, detestei +Paris, o ruido, o imperio; desejei as sombras de Cintra, os retiros +melancolicos de Bellas, cheios dos murmurios da agua. + +Quiz sair. N'uma das ultimas salas uma mulher alta, loira, tomava das mãos +d'um velho extremamente magro e distincto a sua _sortie de bal_. + +Captain Rytmel, que me dava o braço, inclinou-se ao passar junto d'ella, e +fallando baixo para mim: + +--Miss Shorn! disse elle. + +Era realmente linda. Grandes cabellos loiros, fortes, luminosos; os olhos +largos, intelligentes, serios; um corpo perfeito. + +N'essa noite chorei. No meu quarto as luzes e o fogão estavam accesos. +Entrei, fui ao espelho precipitadamente. Deixei cair dos hombros o +_burnous_. Ergui a cabeça, olhei a medo. A minha imagem apparecia ao fundo +do quadro n'um vapor luminoso. Achei-me feia. Olhei mais. Tinha os braços +nús, a cabeça erguida em plena luz. Lentamente a consciencia de que eu +estava linda assim, penetrou-me, encheu-me de alegria. É tão bom ser +linda! + +D'ali a dois dias houve uma revista militar no campo de Longchamps. +Captain Rytmel acompanhou-me. Eu tinha um logar na tribuna do _Jockey_. +Havia uma enorme multidão. Estava a imperatriz, a córte, a diplomacia;--a +tribuna resplandecia de fardas, de joias, de plumas, de reflexos de seda. +As musicas, os clarins, o rufar altivo dos tambores, o surdo ruído dos +batalhões em marcha, o luzir das bayonetas, as vozes de commando, o +galopar dos cavallos, o brilho dos capacetes, o ceu resplandecente, como +um largo pavilhão azul, tudo fazia palpitar, dava extranhos sentimentos de +guerra e de gloria. E todo o corpo estremecia quando aquellas poderosas +massas passavam gritando: + +--Viva o imperador! + +Sou uma pobre mulher, mas estremecia tambem! + +A infanteria tinha passado. Rytmel fôra fallar com miss Shorn, que estava +em companhia de lady Lyons. O barão Werther, embaixador da Prussia, ficara +collocado junto d'ella. + +Ia passar a artilheria e a cavallaria. O imperador, com o seu estado +maior, tinha vindo collocar-se ao pé da tribuna do _Jockey_. Nós todos nos +inclinavamos para ver os generaes que o cercavam: Montauban, o que tomára +Pekim; Canrobert com os seus longos cabellos brancos; a espessa figura de +Besaine; o altivo perfil trigueiro de Mac-Mahon, que viera da Algeria... + +Miss Shorn era tambem muito olhada na tribuna do _Jockey_. Dizia-se que a +imperatriz lhe tinha sorrido e que madame de Talouet lhe mandara, sem a +conhecer, um ramo de violetas do polo. + +Mas os olhos começavam a voltar-se para o fundo da planicie, d'onde a +cavallaria devia partir, e corria um arrepio d'enthusiasmo perante um tão +grande poder militar. N'essa manhã fallava-se em certas reservas entre o +gabinete de Berlim e as Tulherias. Lembrava-se Sadowa, mil cousas que eu +não sei; e olhava-se muito para o barão Werther, que sorria com o seu +tumido sorriso prussiano. + +No entanto, a cavallaria formara em linha. Os clarins tocavam, as +bandeiras desdobravam-se: e de repente aquella enorme massa despediu á +carga cerrada do fundo do campo, para a tribuna do _Jockey_. + +Os capacetes, as couraças, as espadas, faiscavam ao sol. O chão tremia sob +o compasso do galope. Sentia-se já o tinir dos ferros. Distinguiam-se já +os coroneis, esbeltos moços condecorados. Ouvia-se o respirar offegante +dos cavallos. O imperador tinha-se descoberto, todos na tribuna estavam de +pé... De repente, por um movimento unico, toda aquella enorme columna +estacou firme, vibrante, immovel, reluzente, agitando as espadas, e +gritando: + +--Hurrah! Viva o imperador! + +A tribuna, de pé, respondeu: + +--Hurrah! + +Então, vendo uma tão admiravel cavallaria, uma tão grande força, tanto +prestigio imperial, e tomados do indomavel orgulho das tradições ou +possuidos da febre do sangue militar, muitos officiaes, que estavam nas +outras alas, adiantaram-se, e elevando as espadas, gritaram: + +--A Berlim! a Berlim! + +Por todo o campo se ouviam agora gritos exaltados: + +--A Berlim! a Berlim! + +E na tribuna algumas vozes clamavam tambem: + +--Sim, sim, a Berlim! + +O imperador então, erguendo-se nos estribos, estendeu a mão aberta como +impondo silencio, ou como dizendo: _Esperae!_ + +Áquele grito inesperado todo o estado maior se tinha apertado em torno do +imperador, e eu que estava nos primeiros bancos da tribuna, vi o marechal +Mac-Mahon deter subitamente o cavallo, voltar meio corpo rapidamente, e +com a mão apoiada no xairel escarlate bordado a ouro, que cobria a anca do +animal, erguer os olhos meio risonhos para o lado da tribuna em que estava +o embaixador da Prussia. Eu segui o olhar do marechal, olhei tambem, e +vi... como hei de dizel-o? Vi Rytmel. Vi-o junto de miss Shorn, curvado, +fallando-lhe, sorrindo-lhe, absorto, afogado na luz dos seus olhos. Ella +olhava-o, extremamente séria, com um longo olhar demorado e convencido, em +que eu vi todo o fim da minha vida! + + +II + + +D'hai a dez dias o conde chegou; partimos para Portugal. Durante esse +tempo que ainda estive com Rytmel em Paris, nem eu trahi as minhas +duvidas, nem elle mostrou preoccupações alheias aos interesses do nosso +amor. + +Vim para Lisboa; recebia regularmente cartas d'elle. Estudava-as, +decompunha as phrases palavra por palavra para encontrar a occulta verdade +do sentimento que as creára. E terminava sempre--meu Deus!--por descobrir +uma serenidade gradual no seu modo de sentir. Rytmel escrevia-me com muito +espirito e com muita logica para poder pôr o coração no que escrevia. +Evidentemente o seu amor passava da paixão para o raciocinio. Criticava-o: +prova de que não estava dominado por elle. Tinha até já palavras +engenhosas e litterarias. Valia-se da rethorica! Ao mesmo tempo a sua +lettra tornava-se mais firme; já não eram aquellas linhas tortas, +convulsivas e arrebatadas que palpitavam, que me envolviam... Era um +infame cursivo inglez, pausado e correcto. Já me não escrevia como d'antes +em papel d'acaso, em folhas de carteira, em pedaços de cartas velhas, que +denotavam as inspirações do amor, os sobresaltos repentinos da paixão: +escrevia-me em papel Maquet, perfumado! Pobre querido, o que o seu coração +tinha de menos em amor tinha de mais o seu papel em _marechala!_ + +E eu? É talvez occasião de fallar aqui do meu sentimento. Duvidei fazel-o. +Não queria collocar o meu coração sobre esta pagina como n'uma banca de +anatomia. Mas pensei melhor. Eu já não sou _alguem_. Não existo, não tenho +individualidade. Não sou uma mulher viva, com nervos, com defeitos, com +pudor. Sou um _caso_, um _acontecimento_, uma especie de _exemplo_. Não +vivo da minha respiração, nem da circulação do meu sangue: vivo +abstractamente, da publicidade, dos commentarios de quem lê este jornal, +das discussões que as minhas maguas provocam. Não sou uma mulher, sou um +_romance_. + + +III + + +Não pense que digo isto com amargura. A maior alegria que eu posso ter é a +anniquilação da minha individualidade. + +Por isso não tenho escrupulos. As almas extremamente desgraçadas são como +as creancinhas: devem mostrar-se nuas. + +Além de tudo supponho que estas paginas podem ser uma revelação proveitosa +para aquellas que estejam nas illusões da paixão. Que me escutem pois! + +São 11 horas da noite. N'este momento quantas sei eu que soffrem, que +esperam, que mentem, possuidas de um sentimento, que pouco mais lhes dá do +que a felicidade de serem desgraçadas! Tu, minha pobre J..., mulher de +discretos martyrios, a quem tantas vezes vi os olhos pisados das lagrimas! +tu pobre Th..., que tens passado a tua vida a tremer, a receiar, a +humilhar-te, a espreitar, e a fugir..., vós todas que estaes envolvidas +pelo elemento cruel da paixão, quasi fóra da vida, e em lucta com a +verdade humana, vós todas escutae-me! + +Desde que amei, a minha vida foi um desequilibrio perpetuo. Não era +voluntariamente que eu cedia á attracção, era com uma repugnancia altiva. +Mil cousas choravam dentro em mim, soffria sobretudo o orgulho. Era +impossivel fazer com elle uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda. +Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, +esbofetea-me o coração. + +O que eu soffri! o que eu córei! Córei diante da minha pobre Joanna, da +minha velha ama, um anjo cheio de rugas, que sabe sobretudo amar quando +tem de perdoar! Córava diante das minhas criadas. Julgava-me feliz quando +ellas me sorriam, tremia quando lhes via o aspecto serio. Dava-lhes +vestidos, ensinava-lhes penteados. Saíam ás vezes de tarde, recolhiam alta +noite; eu córava profundamente no meu coração, e sorria-lhes. + +O olhar dos homens era-me insupportavel: parecia-me envolver uma affronta. +Imaginava que era publica a aventura do meu coração, que era julgada como +uma creatura de paixões faceis, o que dava a todos o direito de me fazerem +córar. Quantas vezes sahi do theatro afogada em lagrimas! Analysava os +gestos, os olhares, os movimentos dos labios. «Fulana olhou-me com desdem! +Aquelle riu-se insolentemente, quando eu passei! Aquell'outra affectou não +me ver.» Se n'uma modista, ao escolher um vestido, me diziam: «Esta côr é +alegre, é bonita!» eu pensava commigo: «Bem sei, aconselham-me as côres +vivas, ruidosas, as côres do escandalo, o género _artiste!_» E saía, +fechava os _stores_ do meu _coupé_, chorava desafogadamente. + +Não me atrevia a beijar uma creança; olhava-a com uma ternura ineffavel, +ia a tomal-a nos braços, mas dizia commigo: «Deixa esse pobre anjinho, não +és bastante pura para lhe tocar!» + +Devo dizer tudo. Córava diante do meu cocheiro! Sorria-lhe com o maior +carinho: temia a todo o momento uma má resposta, uma audacia, uma palavra +accusadora. Quando eu entrava para a carruagem, e elle se erguia +respeitosamente, eu ficava tão satisfeita d'aquella prova de attenção, que +tinha vontade de o abraçar... + +Acha odioso, não? + +Defino o meu estado por uma palavra precisa e terrivel: quando meu marido +me apertava expansivamente a mão, eu soffria tanto como se o outro me +atraiçoasse! + +Ai de mim! Quantas vezes quiz eu consolar o meu orgulho, pensando nas +glorias dramaticas do soffrimento e do martyrio! Quantas vezes me comparei +ás figuras lyricas da paixão, que contam as legendas da sua dôr ao ruido +das orchestras, á luz das rampas, e que são _Traviata, Lucia, Elvira, +Amelia, Margarida, Julietta, Desdemona!_ Ai de mim! mas onde estavam os +meus castellos, os meus pagens, e o ruido das minhas cavalgadas? Uma pobre +creatura que vive da existencia do Chiado, que veste na _Aline_, que +glorificações pode dar á sua paixão? + +E depois é cruel, e é forçoso dizel-o: ha sempre um momento em que uma +mulher pergunta a si mesma se realmente são as grandes qualidades moraes +do seu amante que a dominaram. Porque então haveria justificações. E ha +uma profunda humilhação em nossa consciencia quando nos chegamos a +convencer de que, se amamos um homem, não foi só a nobreza das suas idéas +e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um _não sei quê_, em +que entra talvez a côr do seu cabello e o nó da sua gravata. Sejamos +francas; para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas +inclinações? Para que havemos de colorir de ideal a origem vulgar das +nossas preferencias? Não quero dizer que as elevações moraes não sejam um +auxiliar poderoso á sympathia instinctiva; mas o que na realidade nos +domina é o exterior de um homem. Que todas as que lerem estas confidencias +dolorosas se consultem no silencio do seu coração e digam o que determinou +n'ellas a sensação: se foi o caracter ou se foi a physionomia. E as que +forem francas dirão que na sua vida influiu talvez mais a côr de um +_frack_, do que a elevação de um espirito. + +Sim, digo-o, francamente, d'aqui d'este canto do mundo, em que o ruido das +cousas tem o som ôco da tampa de um esquife: os desvarios do coração em +nós outras, nada os absolve, quasi nada os explica. + +Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tedio assaltadas de +chimeras; tive os meus romances intimos, que nasciam, soffriam, morriam +entre duas flores do meu bordado. Creei aventuras, dramas apaixonados e +fugas dramaticas, aconchegadamente encolhida na minha poltrona, ao canto +do fogão. + +Conheci mais tarde muitos caracteres femininos e a historia de muitas +sensibilidades. Experimentei eu tambem os sobresaltos da paixão--e nunca +vi, nunca soube que estas imaginações, que estas _attracções_ nascessem de +uma verdade da natureza, da logica das circumstancias, da irreparavel +acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo ephemero, +romantico, litterario, ficticio, que habita no cerebro de todas as +mulheres. + +Vejo-o d'aqui a sorrir... Não se admire de me ver fallar assim. Lembra-se +d'aquellas conversações tão intimas e tão sérias na rua de...? Lembra-se +do terraço de _Clarence-Hotel_, em Malta, quando a lua silenciosa cobria o +mar? Não se recorda das minhas idéas então e d'aquellas imaginações que eu +denominava gloriosamente os meus _systemas_? Não se lembra que me chammava +então _philosopho loiro_? O _philosopho_ sentiu, chorou, soffreu, teve por +isso o melhor estudo. Que maior ensino que as lagrimas? A dôr é uma +verdade eterna, que fica, emquanto as theorias passam. Não imagina o que +tenho aprendido da vida desde que sou desgraçada! Não imagina quantas +idéas rectas e precisas saem das incoherencias do pranto! + +Por isso hoje não creio em certas fatalidades, com que as mulheres +pretendem esquivar-se á responsabilidade. Não creio no que se chama +theatralmente _as fatalidades da paixão_. A vontade é tudo; é um tão +grande principio vital como o sol. Contra ella _as fatalidades_, as +febres, o ideal, quebram-se como bolas de sabão. + +Respondem-me chorando: _a fatalidade!_ Mas, meu Deus! tomemos um +exemplo,--a aventura trivial, a commum, o que se poderia chammar a +_aventura typo_, o que se vê todos os dias, em qualquer rua, no primeiro +numero par ou impar... a aventura que nós acotovellamos no passeio, que +toma comnosco neve na confeitaria Italiana, e que se enterra ao pé de nós +no Alto de S. João. + +A scena é simples, de tres personagens. Eu, por exemplo, sou a mulher. Meu +marido é um homem honesto e trabalhador. Cança-se, lucta, prodigaliza-se: +logo de manhã sae para o seu escriptorio, ou para o seu jornal, ou para o +seu officio, ou para o seu ministerio; cercea o seu somno, almoça á +pressa, quebra o seu descanço. Todo elle é attenção, vigilia, trabalho, +sacrificio. Para quê? + +Para que os nossos filhos tenham uns _bibes_ brancos, e uma ama aceada; +para que as minhas cadeiras sejam de estofo e não de páu; para que os meus +vestidos sejam de seda e talhados na _Marie_, e não de chita e cosidos +pelas minhas mãos, de noite, a um candieiro amortecido. + +Meu marido é um homem honesto, sympathico, serio, affavel. Não usa pós de +arroz, nem _brilhantine_, não tem gravatas de apparato, não tem a extrema +elegancia de ser moço de forcado, não escreve folhetins; trabalha, +trabalha, trabalha! Ganha com o seu cançasso, com os seus tedios, em horas +pesadas e longas, o jantar de todos os dias, o vestuario de todas as +estações. A sua consolação sou eu, o centro da sua vida sou eu, o seu +ideal e o seu absoluto sou eu! Não faz poemas romanticos, porque eu sou o +seu poema intimo, a musa dos seus sacrificios; não tem aventuras porque eu +sou a sua esposa; não tem viagens gloriosas pelos desertos nem o prestigio +das distancias, porque o seu mundo não é maior do que o espaço que enche o +som da minha voz; não ganhou a batalha de Sadowa mas ganha todos os dias a +terrivel e obscura batalha do pão dos seus filhos... + +É justo, é bom, é dedicado. Dorme profundamente porque o seu cançasso é +legitimo e puro; gosta da sua _robe de chambre_ porque trabalhou todo o +dia. Julga-se dispensado de trazer uma flôr na _boutonniére_ porque traz +sempre no coração a presença da minha imagem. + +Pois bem! que faço eu? + +Aborreço-me. + +Logo que elle sae, bocejo, abro um romance, ralho com as criadas, penteio +os filhos, torno a bocejar, abro a janella, olho. + +Passa um rapaz, airoso ou forte, louro ou trigueiro, imbecil ou mediocre. +Olhamo-nos. Traz um cravo ao peito, uma gravata complicada. Temo o cabello +mais bonito do que o do meu marido, o talhe das suas calças é perfeito, +usa botas inglezas, pateia as dançarinas! + +Estou encantada! sorrio-lhe. Recebo uma carta sem espirito e sem +grammatica. Enlouqueço, escondo-a, beijo-a, releio-a, e desprezo a vida. + +Manda-me uns versos--uns versos, meu Deus! e eu então esqueço meu marido, +os seus sacrificios, a sua bondade, o seu trabalho, a sua doçura; não me +importam as lagrimas nem as desesperações do futuro; abandono probidade, +pudor, dever, familia, conceitos sociaes, relações e os filhos, os meus +filhos! tudo--vencida, arrastada, fascinada por um soneto errado, copiado +da _Grinalda_! + +Realmente! É a isto, minhas pobres amigas, que vós chamaes--_fatalidade da +paixão!_ + +E no emtanto como corresponde elle a este sacrificio terrivel? + +Como tem uma aventura, não póde occultar a sua alegria, toma ares +mysteriosos, provoca as perguntas; compromette-me; deixa-me para ir +esperar os touros em intimidades ignobeis; mostra as minhas cartas em cima +da mesa de um café, ao pé de uma garrafa de cognac; jura aos seus amigos +que me não _ama_, e que é--_para se entreter_; e se meu marido o chicotear +no meio do Chiado, como é vil, cobarde, vulgar e imbecil, irá queixar-se á +Boa Hora! + +_Et voilá D. Juan!..._ + +Não! é necessario demolir pelo ridiculo, pela caricatura, pelo chicote e +pela policia correccional, esse typo indigno que se chama o +_conquistador_. O _conquistador_ não tem attracção, nem belleza, nem +elevação, nem grandeza como typo,--e como homem não tem educação, nem +honestidade, nem maneiras, nem espirito, nem _toilette_, nem habilidade, +nem coragem, nem dignidade, nem limpeza, nem orthographia... + +Perdôe-me, meu primo, estas exaltações. Sou impressionavel, vou como se +costuma dizer--_atraz da phrase_. Esqueço ás vezes as minhas dôres +modernas, para me lembrar das minhas velhas indignações. + +E pensa que, por condemnar estes amores triviais, eu me absolvo a mim? +Não. Apesar de ter amado um homem de todo o ponto excellente, cuja +superioridade d'espirito o meu primo conhecia e amava, d'uma distincção +tão perfeita e tão completa; posto que a nossa affeição tivesse vivido +n'um meio tão elevado, tão nobre, tão altivo,--apezar de tudo, eu tenho-me +por tão condemnavel como aquellas de quem fallei,--e julgando-me sem +justiça e fóra da graça, faço penitencia diante do mundo. + + +IV + + +E quanto, quanto soffri então, na modestia da minha vida, no apartamento +do meu segredo! Quanto desejei ser uma pobre costureira que leva o seu +filho pela mão! + +Dentro do meu _coupé_, puxado a largo trote á saida do theatro, envolvida +n'um cachemire, com uma pelle de martha nos pés, e um aroma doce na seda +das almofadas, quantas vezes invejei as pequenas burguezas que saíam das +torrinhas, embrulhadas em disformes mantas de agazalho, pisando a lama! + +No dia em que recebia cartas d'elle, saía de Lisboa, fugia, ia para o +campo! Levava-as, amarrotadas e beijadas, ia para a quinta de..., +penetrava nas sombras espessas, ali ficava, longo tempo, envolta no calor +tépido do sol, entorpecida pelo rumor sereno das ramagens, e pelo +murmuroso correr da agua nas bacias de pedra! + +Oh doce vida das arvores e das plantas! passividade da relva, +irresponsabilidade da agua, pacifico somno dos musgos, suave pousar da +sombra! quantas vezes me consolastes, e me ensinastes a soffrer calada! +quantas vezes invejei a immobilidade do vosso ser! + +Era ali, só, relendo essas cartas crueis, que eu sentia o amor d'aquelle +homem fugir-me como a agua de um regato que se quer tomar entre os dedos. + +Que me restaria então? + +Voltar outra vez á serenidade legitima da vida? Não podia, ai de mim! +estava para sempre expulsa do paraizo pacifico da familia, da casta sombra +do dever. Lançar-me nas aventuras e na revolta? Meu Deus! isso repugnava +tanto ao meu caracter como o contacto d'um animal viscoso á pelle do meu +peito. + +Ficava pois sem situação na vida. Não tinha n'ella um logar definido. +Entrava n'essa legião dolorosa e tristemente miseravel--_das mulheres +abandonadas_. + +A minha unica honestidade agora devia ser conservar-me captiva d'aquelle +sentimento. A minha unica absolvição estava na verdade da minha paixão. +Quanto mais me separasse do mundo e me désse ao meu amor; mais me +approximava da dignidade. Nas situações definidas e corajosas ha sempre um +lado honesto; o que repugna ao instincto casto são as conciliações +hypocritas. A posição que me restava, era ser de Rytmel, só d'elle e para +sempre: e eu sentia que elle se ia lentamente affastando de mim como eu me +affastava de meu marido. + +Era a minha entrada na expiação. + +N'estes amores, o castigo não vem só do mundo: elles mesmo conteem os +elementos da justiça cruel. O coração é o primeiro castigado pela mesma +paixão. A punição da falta contra a honra vem mais tarde pelos juizos dos +homens. + +Eu estava então diante da maior miseria moral em que se póde encontrar uma +mulher n'estas condições lamentaveis. + +Eu amava Rytmel, Rytmel queria casar. + +Que faria, meu Deus? Iria em nome da minha paixão desviar aquella +existencia de homem, da linha natural, simples, humana, que leva ao +casamento, á familia, ao dever? + +Devia eu impedir que elle casasse? Mas não era isto impedir, abafar a +legitima expansão da sua vida? Não era proscrevel-o das fecundas e serenas +alegrias da familia, para o ter preso nos asperos, nos estereis +sobresaltos de uma paixão romantica? + +Tinha eu o direito de sequestrar aquelle homem para uso exclusivo do meu +coração, encarceral-o dentro d'uma ligação illegitima e secreta, onde elle +se esterilisaria, onde os seus talentos e as suas qualidades se +enferrujariam como armas inuteis, e toda a sua acção social se limitaria a +seguir o _frou-frou_ dos meus vestidos? Não dava isto ao meu sentimento um +aspecto de egoismo animal? Não tirava isto ao meu amor a melhor qualidade: +a virtude do sacrificio? + +Poderia eu prival-o de ter um dia os filhos, que fossem a continuação do +seu ser e a sua immortalidade? Podia eu prival-o em nome do meu ideal de +ter na velhice aquella doce e branca companheira, sob cujo olhar pacifico, +o homem justo espera, socegado, o nobre momento da morte? + +E era só isto?... Póde um espirito sincero acreditar na duração d'estes +amores exaltados, feitos de sensibilidades e de martyrios, que não têem o +dever por base, e têem a traição por origem? E por dois ou tres annos mais +que esta aventura continuaria, tinha eu o direito de ir quebrar o destino +da _outra, d'ella_, pobre rapariga, que o amava, que edificava a sua vida +sobre o coração d'elle, que se preparava para ser no lar, e para sempre, a +presença da graça e a consciencia viva? Não: isto não podia ser. + +Mas por outro lado, era justo que eu, tendo sacrificado por elle tudo, +desde o pudor intimo até á honra social, fosse agora arremessada como uma +luva velha? + +Eu que tinha sido tudo quando se tratava da sua imaginação, não seria nada +agora porque se tratava do seu interesse? Não me exilara eu por elle, do +paraizo domestico? Por elle não renunciara as alegrias pacificas da vida, +e a sublime esperança d'uma morte digna? Como eu tinha sacrificado por +elle a honra d'um homem, não podia elle sacrificar por mim as esperanças +romanescas d'uma creança? Era justo ter-me trazido enganada, envolvida, +como n'um arminho, nas apparencias do amor, ter-me conduzido com os olhos +vendados, attrahida, suspensa do rythmo dos seus passos, a um logar +perigoso, a uma situação intoleravel, e chegando ahi dizer-me: «Adeus +agora! eu vou para a felicidade. Tu fica; mas cuidado, que para traz não +pódes voltar; e se deres um passo para diante, vaes abysmar-te na +infamia!». + +Não, isto não deve ser: o amor não é uma creação litteraria, é um facto da +natureza: como tal produz direitos, origina deveres. E os direitos do amor +não os abdico. + +Pois quê! Por causa da _outra_! Hei de dar tamanha consideração ás +lagrimas que choram dois olhos alheios, que nunca vi, que estão a duzentas +leguas de distancia e não hei de apiedar-me das minhas lagrimas, que +escorrem aqui na minha face, e que eu aparo na tremura das minhas mãos! + +«És casada» dizem-me. O que! Porque perdi mais, devo ser attendida menos! +Eu, que vivo quasi fóra do mundo, sem estar ligada a nenhuma d'estas +cousas superiores que amparam a vida, suspensa sobre a morte por um leve +fio, por este amor unico, é por isso que devo ir com as minhas mãos +quebrar esse fio, quebrar esse amor! + +Ha algum direito humano que exija isto de mim? Ha alguma piedade que o +veja friamente? Ha alguma consciencia que o justifique? Se ha, essa +consciencia poderia ensinar a serem duros os rochedos do mar! + +Mas, meu primo, tudo isto é aqui, n'este papel em que lhe escrevo. Porque +na realidade eu não podia luctar com _ella_! _Ella_ era a _miss_, a que +havia de ser esposa e mãe,--vencia tudo! Elevava-se sobre as velhas +affeições, sobre os velhos erros, como a imagem da virgem sobre o globo +feito de barro e de lama, onde se enrosca a serpente. + +Nem tentei luctar! + +E foi por esse tempo que recebi uma carta em que elle me dizia: _Parto +para Portugal._ + +Que vinha fazer? O que era? Vinha despedir-se de mim? Vinha ver as minhas +agonias? Vinha consolar-me? Vinha convencer-me? Vinha de novo dar-se +captivo ao meu amor? Vinha. Nem elle mesmo sabia mais nada! + + +V + + +Rytmel chegou. A primeira vez que o vi foi em minha casa. + +O conde estava então em Bruxellas. Era noite e na minha sala de musica +achavam-se reunidas algumas pessoas: a marqueza de... velha legitimista, +que fôra a graça da córte toureira de D. Miguel; o visconde de... moço +insignificante e vagamente loiro, que eu acolhia bem, porque sua irmã, que +morrera, fôra a minha intima, a minha confidente de collegio. + +Viera tambem a viscondessa de... pequenita creatura petulante e mediocre, +que tinha a graça de ter vinte annos, junta com a desgraça de os não saber +ter e cuja especialidade era o querer parecer profundamente perversa, +quando era apenas perfeitamente incaracteristica. Mas ao pé de mim, +sentado n'um sophá com um abandono asiatico, estava um homem +verdadeiramente original e superior, um nome conhecido--Carlos Fradique +Mendes. Passava por ser apenas um excentrico, mas era realmente um grande +espirito. Eu estimava-o, pelo seu caracter impeccavel, e pela feição +violenta, quasi cruel, do seu talento. Fôra amigo de Carlos Beaudelaire e +tinha como elle o olhar frio, felino, magnetico, inquisitorial. Como +Beaudelaire, usava a cara toda rapada: e a sua maneira de vestir, de uma +frescura e de uma graça singular, era como a do poeta seu amigo, quasi uma +obra d'arte, ao mesmo tempo exotica e correcta. Havia em todo o seu +exterior o que quer que fosse da feição romantica que tem o _Satan_ de Ary +Sheffer, e ao mesmo tempo a fria exactidão de um _gentleman_. Tocava +admiravelmente violoncello, era um terrivel jogador d'armas, tinha viajado +no Oriente, estivera em Meca, e contava que fôra corsario grego. O seu +espirito tinha um imprevisto profundo e que fazia scismar: fôra elle que +dissera da pallida duquesa de Morny: _elle a la bêtise melancolique d'un +ange._ O imperador citava muitas vezes este dito, como sendo +conjunctamente a critica profunda de uma physionomia e de um caracter. + +Carlos Fradique tinha por mim uma amisade elevada e sincera. Chamava-me +_seu querido irmão_. Conhecia-me desde pequena, andara commigo ao colo. Em +Paris tornou-se celebre; era o que se poderia chamar um _philosopho do +boulevard_. Tinha sido _l'ami de coeur_ de Rigolboche, e quando ella +rompeu por se ter apaixonado por _Capoul_, Carlos Fradique deixou-lhe no +album uns versos quasi sublimes, de um desdem cruel, de um comico lugubre, +uma especie de _Dies irae_ do dandysmo... Promettia á Rigolboche que +quando ella morresse elle velaria para que ainda além do tumulo ella +vivesse no _chic_, sentindo Paris na sepultura. Algumas das estrophes que +elle traduziu para mim, e que depois se publicaram, fizeram sensação e +escola... + + E eu qu'inda te amo, ó pallida canalha, + Que sou gentil e bom, + Far-te-hei enterrar n'uma mortalha + Talhada á _Benoiton_! + Irei á noite com Marie Larife, + Venus do macadam, + Fazer sentir ao pó do teu esquife + Os gostos do cancan... + E no tempo das _courses_, p'lo verão + --Assim t'o juro eu-- + Irei dar parte á tua podridão + Se o _Gladiador_ venceu... + +Eram dez horas. Carlos Fradique, com uma voz impassivel, quasi languida, +contava as situações monstruosas de uma paixão mystica que tivera por uma +negra antropophaga. A sua veia, n'aquelle dia, era toda grotesca. + +--A pobre creatura, dizia elle, untava os cabellos com um oleo ascoroso. +Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado d'amor, approximei-me d'ella, +arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nú. Queria fazer-lhe aquelle +mimo! Ella cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, +mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, +feliz em soffrer por ella. Suffoquei a dôr, e estendi-lhe outra vez o +braço... + +--Oh! sr. Fradique! gritaram todos, escandalisados com a invenção +monstruosa. + +--Comeu mais, continuou elle gravemente, gostou e pediu outra vez. + +Fallava com um sorriso fino, quasi beatifico. Nós iamos revoltar-nos +contra a cruel excentricidade d'aquella historia. + +N'este momento vi á porta da sala, trémula, com um grande espanto nos +olhos, chamando-me baixo, a minha criada Betty. Fui: ella tomou-me pela +mão, foi-me levando, e no corredor, olhando com receio, abrindo n'um +grande pasmo os braços, disse-me ao ouvido: + +--É elle! + +Encostei-me desfallecidamente á parede, sentindo parar o coração. + +Betty, com passos discretos foi abrir a porta do meu _toillette_. Entrei. +De pé junto d'uma mesa, extremamente pallido, estava elle. Apertei as mãos +sobre o peito, fiquei immovel, suspensa. Elle caminhou para mim com os +braços abertos, para me envolver; eu deixei-me cahir aos seus pés, e +calada beijei-lhe os dedos. Elle tinha ajoelhado commigo, e com as mãos +enlaçadas, os olhos confundidos, choravamos ambos. Eu só dizia n'um +murmurio de lagrimas: + +--Ha tanto tempo!... + +--Minha senhora, minha querida menina, dizia Betty da porta, e aquella +gente, santo Deus, que ha de dizer? + +Eu não a escutava. Foi elle que disse sorrindo: + +--Tem razão, Betty, tem razão! É necessario voltar á sala. + +E deu-me o braço. Entrámos: elle grave, eu meio desfallecida, abstracta, +com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso vago nas feições. + +Disse o nome de captain Rytmel, e a sua antiga amisade com o conde. Vi a +marqueza sorrir levemente. + +E voltando-me para Rytmel: + +--O sr. Carlos Fradique, disse eu, antigo pirata. + +Os dois homens apertaram a mão. + +--A senhora condessa lisongeia-me extremamente. Eu fui apenas corsario, +disse Carlos. + +Sentei-me ao piano acordando, a fugir, o teclado. Assim via bem Rytmel. A +luz envolvia-o. Estava mais pallido, o seu rosto apresentava linhas mais +graves. A testa tinha perdido a sua pureza: havia uma ruga estreita e +funda que a dominava. + +Fradique continuava fallando. Agora fazia a critica das mulheres do Norte. + +--A irlandeza, dizia elle, tem mais que nenhuma mulher, a graça... Sobre +tudo a que vive junto dos lagos! A melhor religião, a melhor moral, a +melhor sciencia para um espirito feminino--é um lago. Aquella agua +immovel, azul, pallida, fria, pacifica, dá um extremo repouso á alma, uma +necessidade de cousas justas, um habito de recolhimento e de pensamento, +um amor da modestia e das cousas intimas, o segredo de ser infinito, sendo +monotono, e a sciencia de perdoar... Exijo na mulher com quem casar, que +tenha as unhas rosadas e polidas, e um anno de convivencia com um lago! + +Eu vi Rytmel córar de leve e torcer nervosamente o bigode. + +Pelo lucido instincto da paixão, comprehendi que entre aquella +glorificação dos lagos, e os occultos pensamentos de Rytmel, havia uma +affinidade. Lembrou-me a revista de Longchamps, os louros cabellos +irlandezes de miss Shorn, e voltando-me para Carlos Fradique: + +--Meu caro amigo, um pouco do seu violoncello, sim? + +A sala abria sobre os jardins. A placida respiração do vento fazia arfar +as cortinas. Carlos Fradique começou a tocar uma ballada das margens do +mar do norte, de um encanto singularmente triste. Sentia-se o chorar das +aguas, o feerico correr das ondas, o compassado bater dos remos de um +pirata norvegio, a fria lua. Eu tinha ido com Rytmel para junto da +varanda, e emquanto a pequena melodia soava nas cordas do violoncello, +lembravam-me as antigas cousas do meu amor, o _Ceylão_, as noites +silenciosas em que elle me jurava a verdade da sua paixão e a voz do mar +parecia uma affirmação infinita; lembravam-me os terraços de Malta batidos +da lua, as moitas de rosas de _Clarence-Hotel_, os prados suaves de Ville +d'Avray; via-o ferido, pallido sobre as suas almofadas; via-o a bordo do +_Romantic_, commandando as manobras da fuga, chorando os desastres do +amor... E estas memorias emballavam-se no meu cerebro, confundidas com as +melodias do violoncello. + + +VI + + +Ao outro dia eu devia encontrar-me com elle n'essa fatal casa n.^o... Fui, +como sempre, toda vestida de preto, envolta n'um grande veu. Estava +extremamente pallida, palpitava-me o coração de susto. Era aquelle um +momento de transe. Eu decidira ter com Rytmel uma explicação clara, +definitiva, sem equivocos... Uma palavra que elle dissesse, sêcca ou +indifferente, um gesto impaciente, e eu considerar-me-hia como abandonada, +exilada da vida; retirava-me para um _chalet_ da Suissa, ou para +Jerusalem, ou para a melancolia d'um claustro no sul da França. Tinha +determinado assim a solução do meu destino. + +Quando cheguei á casa n.^o... elle não estava ainda. Fiquei alli muito +tempo, immovel n'uma cadeira. Os ruidos da rua chegavam-me como no fundo +d'um sonho. A sala tinha uma luz esbatida, atravez dos vidros foscos como +os globos dos candieiros. Eu sentia aquella impressão indefinida, que nos +vem quando estamos durante muito tempo n'um logar socegado e triste, +olhando o silencioso caír da chuva. + +De repente a porta gemeu docemente, elle entrou. + +Vinha do campo. Tinha colhido para mim um pequenino ramo de flôres miudas +das sebes. Veio apoiar-se nas costas da minha cadeira, e deixou-m'as cahir +no regaço... + +Depois, fallando-me baixo, junto da face: + +--Andei todo o dia a pensar em si, _á travers champs_. + +Não respondi, e com os olhos errantes nas côres do tapete, desfolhei +cruelmente as pequeninas flôres dos prados. Tinha um contentamento amargo +em torturar aquelles delicados seres, que vinham d'elle, e que me parecia +terem d'elle aprendido a mentir. + +--Pensei constantemente em si, e o passeio foi encantador, repetiu com uma +voz docemente insistente. + +Eu ergui os olhos para elle. + +--Responda-me: sabe mentir? + +--Mas, meu Deus, disse elle, affastando-se, parece que me quer hoje mal, +minha querida filha! + +Não respondi; mas o meu regaço estava coberto de flôres mutiladas. + +Elle então ajoelhou ao meu lado, e tomando-me as mãos, espreitando os meus +olhos impassiveis, ficou esperando, n'uma contemplação amante e paciente, +que eu quebrasse aquella imobilidade. Eu sentia todo o meu ser pender para +elle, n'uma attracção insensivel; mas dominava-me. Até que por fim elle +ergueu-se lentamente, arremessou o corpo para um sofá, e ali ficou, como +refugiado, folheando um volume de Musset, que estava sobre a mesa... + +Levantei-me, tirei-lhe arrebatadamente o livro das mãos: + +--Sabe o que é? Não o comprehendo, e é necessario que me diga, mas +francamente, claramente, syllaba por syllaba, o que tem! Não me ama, é +claro. Escusa de protestar. Vi-o logo pelo tom das primeiras cartas que me +escreveu de Londres. E agora vejo-o pelo seu olhar, as suas menores +palavras, o seu silencio, até. Ha uma cousa qualquer, não sei qual, mas +ha. A verdade é que me abandona, que me não ama. É necessario que se +explique. Isto não póde ser assim. Soffro. Se soubesse! chorei toda a +noite... + +E recomecei a chorar deante d'elle, com soluços que me quebravam. Elle +tinha-me tomado as mãos e dizia-me baixo as cousas mais tocantes, em que +havia as ternuras do amante e as consolações do amigo. Affastei-o de mim, +e comprimindo o pranto: + +--Não, não, é necessario que me diga claramente tudo. Eu não sei o que te +quero perguntar ou não me atrevo talvez... Mas tu sabes o que me deves +responder... Dize-me a verdade... + +Elle, cruzando os braços, respondeu-me, com uma extrema placidez: + +--Mas, minha querida amiga, a verdade é que as illusões do seu espirito +são a nossa desgraça. Não é culpa sua, sei: é uma fatalidade do caracter +feminino. É-lhes insupportavel a serenidade. Na vida pacifica procuram o +romance, no romance procuram a dôr. É necessario que esses pequeninos e +graciosos craneos tenham sempre a honra de cobrir uma tempestade. Que quer +então que lhe diga? Não vim a Portugal espontaneamente? Não tem encontrado +sempre ao seu lado o meu amor, fiel como um cão?--Que mais quer? Acha-me +reservado, diz. E se eu tivesse as violencias d'Othelo, achava-me de certo +ridiculo! De resto, sabe-o bem, amo-a! Digo-lh'o aqui, sentado n'um sofá, +de sobrecasaca, em uma casa que tem numero para a rua, e vou d'aqui a +pouco; n'um _coupé_, jantar, jogar talvez o xadrez, vestir--quem +sabe?--uma _robe de chambre!_ É lamentavel tudo isto, bem sei. E é por +isto que não tem confiança em mim? E diga-me francamente: se eu estivesse +aqui nos paroxismos d'Antony, ou tivesse uma _toilette_ veneziana, ou se +isto fosse uma abbadia feudal, ou se eu partisse d'aqui para conquistar +Jerusalem, diga-me--tinha mais confiança? + +--Tudo isso não quer dizer nada. + +--Oh minha querida amiga... + +--A sua querida amiga, interrompi, nada mais pede que um coração franco e +recto. São tudo pois imaginações minhas? Não ha nada que nos separe? Pois +bem, vou dizer-lhe uma cousa e juro-lhe que é irremissivel, juro que o +digo em toda a frieza do meu juizo, sem exaltação e sem paixão, com o +discernimento mais livre, o calculo mais positivo... + +--Mas, meu Deus! Diga... + +--E esta resolução, acceita-a? + +--Uma resolução... E o que envolve ella? + +--Envolve a unica cousa possivel, a unica que me fará crer em si, com a +mesma fé com que creio em mim. Acceita-a? + +--Mas como não hei de acceitar?... + +--Pois bem, comecei eu. + +E tomando-lhe as mãos, disse-lhe junto da face n'uma voz ardente como um +beijo: + +--Fujamos ámanhã. + +Rytmel empallideceu levemente e retirando de vagar as suas mãos d'entre a +pressão das minhas: + +--E sabe que é uma cousa irreparavel? + +--Sei. + +Elle sentara-se, com os olhos sobre o tapete, e eu no emtanto, de pé junto +d'elle, com a minha mão pousada sobre o seu hombro, dizia-lhe como no +murmurio de um sonho: + +--Pensava n'isto ha um mez. Vamos para Napoles. Vamos para onde quizer. +Adoro-te... É como uma pessoa que se deixa adormecer. Adoro-te, e quero +viver comtigo... + +Pousei-lhe a mão sobre a testa, ergui-lhe a cabeça, para ver a resposta +dos seus olhos; estavam cerrados de lagrimas. + +--Meu Deus! Rytmel, tu choras... + +--Não, não, minha querida! estava pensando em minha mãe, que não torno +talvez mais a ver... Acabou-se... Amo-te, amo-te... e... Avante! + +E tomou-me nos seus braços, ardentemente, como sellando um pacto eterno. + + +VII + + +Fui logo para casa, chamei precipitadamente Betty. + +--Betty, disse eu fechando a porta do quarto, Betty, depressa, quero +dizer-te uma coisa. Não me digas que não... + +--Santo Deus! Socegue, descance, minha querida menina! Jesus, como vem +pallida! + +--Betty, é uma cousa irreparavel... devia ser. Foi pensada a sangue frio. +Vês como estou tranquilla, sem exaltação, sem nervos. É uma resolução +digna. Betty, não me digas que não!... + +--Mas, minha rica senhora... + +--Não se podia voltar atraz. Demais, sou feliz assim, tão feliz, tão +feliz! + +--Bem feliz, ao menos? + +--Doidamente. E se não fosse assim, morria... + +--Mas então... + +--Fugimos ámanhã. + +Ella estremeceu toda, deitou-me um grande olhar em que appareciam +lagrimas, e suffocada, com as mãos juntas: + +--E eu? + +Atirei-me aos seus braços: + +--Pois havias de ficar, Betty? Tu vens comnosco, Betty. + +E correndo pelo quarto, abria os guarda-vestidos, tirando roupas, batendo +as palmas, e gritando: + +--Arranja, Betty, arranja tudo. Depressa! Arranja, arranja! + +Mandei pôr a caleche. Eram quatro horas. Desci o Chiado. Ia alegre, +triumphava: a minha vida apparecia-me, larga, cheia, explendida, coberta +de luz. Entrei nas modistas, olhei, escolhi, comprei, com impaciencias de +noiva, e recatos de conspirador. Apertei a mão a algumas amigas. + +--Partes? perguntavam-me. + +--Para França. + +--Com a guerra? + +--Não ha guerra. E havendo, não é interessante ver matar prussianos? + +Á porta do _Sassetti_, encontrei Carlos Fradique. + +--Sabe que parto ámanhã? disse-lhe eu. + +--Sabe que parto hoje? respondeu-me. Ia lá, apertar-lhe a mão. + +--Mas é inesperado isso! Vae para França? Para quê? + +--Ver os campos de batalha ao luar, ou aos archotes. Deve haver attitudes +de mortos muito curiosas. + +--Mas vae debalde. Não ha guerra. É positivo. Por isso eu vou para Italia. + +--Vae para Italia?... Mas, então... Ah! Vae para Italia? Minha pobre +amiga, quem sabe se isso devia ser! Em todo o caso, em qualquer parte, ou +feliz, ou triste, para a consolar, ou para fazer um _trio_ com o meu +violoncello, sou seu, _adesso e sempre_. + +Apertou-me a mão. Não sei porque, aquellas palavras deram-me uma sensação +triste. + +Quiz ir ao Aterro. A tarde caía. A agua tinha uma immobilidade luminosa. +Do outro lado os montes estavam esbatidos n'um vapor azulado e suave. +Sobre o mar havia nuvens inflammadas, d'uma côr fulva, como no fundo d'uma +gloria. Algumas velas passavam rosadas, tocadas da luz. + +Sentia-me vagamente melancolica. O rio, aquellas casas triviaes, todos +aquelles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até ahi quasi +inexpressivos, appareciam-me pela ultima vez que os via, com uma feição +sympathica. Tive uma saudade piegas daquelles logares: quiz sorrir, +escarnecer; mas a verdade era que aquella paisagem, o pesado hotel +Central, o terraço de Braganza-hotel, a grosseira e escura rua do Arsenal, +todas essas cousas alheias a mim, me despertavam inesperadamente o desejo +instinctivo de tranquillidade, de familia, de situações pacificas, fazendo +destacar no fundo da minha vida, n'um relevo negro, a aventura que eu ia +intentar; e apparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que +se despedem, faziam-me pensar nas cousas irreparaveis, no exilio e na +morte! + +A minha carruagem subia a passo a rua do Alecrim. As luzes accendiam-se. O +ceu estava ainda pallido. + +Uma senhora passou, só, a pé, levando uma creança pela mão: era uma mulher +nova e distincta; parecia feliz. O pequenino, loiro, gordo, ria, palrava +n'aquella linguagem mysteriosa e doce, que é o que ficou ainda na voz +humana do _a b c_ do ceu. + +Como seria bom ser assim uma mulher pacifica, com um equilíbrio suave no +coração, uma _toilette_ fresca, o amor das cousas justas, e um filho pela +mão! Se eu fosse assim seria alegre, amavel, passearia, daria _bonbons_ ao +meu pequerrucho, tral-o-hia vestido de côres leves, com uma flôr no cinto; +conversaria com elle, e á volta, depois do cansaço do meu passeio, amaria +a tranquillidade da minha vida. Elle adormeceria sobre o sofá. A janella +estaria aberta. Grandes borboletas brancas voariam em volta do candeeiro; +eu, ajoelhada, procuraria despil-o, sem o acordar, cantando, baixo, em +segredo, uma melodia dormente de Mozart, e no entretanto a penna do pae +rangeria, a um canto, sobre o papel. Ó perfumados paraizos da vida! como +eu me affasto de vós! + +Assim pensava, quando cheguei a casa. No meio do meu quarto estavam +fechadas, affiveladas, sobrepostas as minhas malas. Ao pé uma grande +pelle, apertada na sua correia. Tudo estava prompto, deviamos partir na +manhã seguinte. As minhas idéas simples debandaram. + +Senti um extremo desejo de liberdade, de mares abertos, de paizes extensos +e distantes, que se atravessam ao galope da _posta_ ou na velocidade d'um +_wagon_. Era noite. Não pedi luz. O luar entrava no quarto atravez das +arvores do jardim. Sentei-me á janella. + +A minha situação appareceu-me então com o prestigio de um bello romance. +Mil imaginações e phantasias cantavam no meu cerebro. Sentia-me á entrada +de uma vida de perigos, de extasis, de glorias. Via-me na tolda de um +paquete entre os perigos de um naufragio: ou n'uma serra espessa, por um +grande luar, n'uma companhia de contrabandistas que cantam á Virgem; ou no +silencio de uma caravana escoltada de _beduinos_, acampando no monte das +Oliveiras, defronte de Jerusalem. Percorreria a Italia; entraria nas +cidades ao galope dos cavallos, ao accender o gaz, quando a multidão enche +os _corsos_ entre fileiras de altivos palacios da Renascença. Via-me em +Napoles, na bahia, por um luar calmo: dormindo sob as vinhas em Ischia; ou +na frescura das grutas do Pausilippo, onde ainda choram as nayades... A +porta abriu-se de repente, um criado entrou com uma carta. Não vi a letra +do _enveloppe_, não olhei sequer, mas sentia-a! Veiu luz. Era verdade, era +de Rytmel! Tive-a longo tempo na mão, incerta, trémula. Pul-a em cima da +pedra d'uma _console_, fui olhar-me ao espelho, vi-me pallida. No emtanto +a carta attrahia-me, parecia-me que luzia sobre o marmore branco. Tomei-a, +pesei-a, senti-lhe o aroma, e de vagar, cançada, suspirando, com os braços +vergados ao peso d'ella, fui-a lentamente abrindo. + + +VIII + + +Transcrevo textualmente essa carta terrivel: + +«Querida:--Tenho aqui no meu quarto, diante de mim, as minhas malas +fechadas e afiveladas: Tenho o meu passaporte... É verdade! não te +esqueças de tirar o teu. Escrevi a minha mãe. Escrevi a um amigo querido, +que vive na intimidade da minha vida. Por isso bem vês que te escrevo, na +austera firmeza da tua resolução. Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso +na minha mão, como um passaro, ou como uma luva: posso pousal-o sobre a +tolda d'um paquete, pol-o n'uma mesa de jogo em cima d'uma carta, +collocal-o na ponta d'uma espada, ou fechar-t'o na mão e dar-t'o. Mas tu +pelas condições da tua vida tens um logar definido no mundo, limitado e +circumscripto. Estás presa, por um annel de casamento, a uma ordem de +cousas, a um certo numero de leis, e és na vida como um navio ancorado no +mar. Por isso é justo que antes de te separares violentamente do teu +centro legitimo, eu, que tenho a experiencia das desgraças, das viagens, e +do espectaculo do mundo, te diga algumas palavras, que, se não me tornarem +mais amado ao teu coração, tornar-me-hão mais estimado ao teu caracter. +Fias-te de mais no amor, minha doce amiga! Abstrae n'este momento de mim, +da minha honra e da minha fidelidade. Fallo do amor, lei ou mysterio ou +symbolo, força natural ou invenção litteraria. Fias-te de mais no amor! +Aquelle amparo superior, aquelle apoio solido e protector, que todo o +espirito procura no mundo, e que uns acham na familia, outros na sciencia, +outros na arte, tu parece quereres encontral-o sómente na paixão, e não +sei se isso é justo, se isso é realisavel! + +Creio que te fias de mais no amor! Elle não construe nada, não resolve +nada, compromette tudo e não responde por cousa alguma. É um desequilibrio +das faculdades; é o predominio momentaneo e ephemero da sensação; isto +basta para que não possa repousar sobre elle nenhum destino humano. É uma +limitação da liberdade, é uma diminuição do caracter; especialisa, +circumscreve o individuo é uma tyrannia natural, é o inimigo astuto do +criterio e do arbitrio. E queres que tenha esta base a tua situação na +vida? E crês na estabilidade do amor, tu?... Sim, é possivel, emquanto +elle viver do imprevisto, do romance e do obstaculo; emquanto necessitar +do _coupé_ de _stores_ cerrados; mas logo que entre n'um estado regular, +que se estabeleça definidamente para durar, que se organise, que se +economise, extingue-se trivialmente; e quando quer conservar-se, tem a +miseria de se assimilhar ás chammas pintadas d'um inferno de theatro. E +então, desde o momento que o amor desapparecesse, que rasão de ser tinha a +tua vida, e que justificação tinha que dar de si o teu incoherente +destino? Ficavas sem uma situação definida: tudo te era vedado, ou pela +força das leis sociaes, ou pela altivez da tua honra. Recuar para as +cousas legitimas, arrepender-te, era impossivel: o arrependimento é um +facto catholico, não é um facto social. Continuar e persistir em viver +pelo amor era um equivoco hypocrita, e poderias um dia encontrar-te a +viver na libertinagem. + +Imaginas hoje que o amor é a unica tendencia, a unica preoccupação da tua +vida... Não: é apenas idéa dominante na tua natureza. Ha outras +exigencias, que hoje não sentes chamarem dentro de ti, porque teem sido +plenamente satisfeitas no meio legitimo em que tens vivido; mas quando, +mais tarde, estiveres retirada de tudo, fechada no amor como n'uma concha, +sentirás então amargamente que te falta o _quer que seja_ que é a +sociedade, a opinião, o centro d'amisades, o _rang_, as consolações +incomparaveis que dá a estima dos que nos saudam. E o não encontrar então +no mundo o teu logar, elegante, avelludado, agaloado, emplumado e coroado, +dar-te-ha a sensação do abandono; e as consolações que então te quizer +ministrar o amor pela sociedade que te falta, encontrarão aos teus olhos o +mesmo tedio que encontrariam agora as consolações da sociedade pelo amor +que te fugisse. Uma mulher que foge com o seu amante, só pode ter um logar +no _Demi-Monde_; ou então um logar equivoco nas salas, quando é celebre +por um talento ou por uma arte. Ora tu não quererás ir para a Italia +frequentar, em Napoles, Madame de Salmé, nem quererás cantar n'um theatro, +nem commetter a inconveniencia de escrever um livro. A viver modesta, tens +de viver triste; a viver radiante, tens de viver humilhada. E pensas que +pódes, por um anno sequer, viver na intimidade absoluta e no segredo? + +O segredo, o refugio, um _ninho_ perfumado n'um quinto andar, são cousas +extremamente doces, no meio da sociedade e das relações do mundo; a +publicidade official da vida dá então um encanto extranho áqueles momentos +de mysterio. Mas a perpetuidade do mysterio deve ser egual áquella +legendaria tortura da beatitude eterna! Quando dois entes se encontram +pelas fataes condições do seu procedimento, obrigados a viverem um do +outro, um para o outro, um eternamente no segredo do outro, quando isto se +não passa na ilha de Robinson, nem entre dois discipulos de Sedwinborg, +nem entre dois desgraçados cheios de fome--mas n'uma cidade ruidosa e +viva, entre duas pessoas positivas e educadas pelo segundo imperio, e que +têem as complacencias do luxo, crê que deve ser amargo. + +E depois, pensa! A nossa vida arrastar-se-ha tristemente, de paiz em paiz, +sem um centro amado, sem uma familia, sem um fim. Não teremos, nem durante +a existencia, nem no grave momento da morte, a serenidade de quem é justo. +A nossa vida será como a das sombras romanticas de Paulo e Francesca de +Rimini, levadas pelo vento contradictorio. Morreremos emfim como dois +seres estereis, que nada crearam, e que não têem quem fique na terra com a +herança do seu caracter; e quando todos pelos seus filhos ganham a unica +justa immortalidade, nós sómente seremos mortaes, e para nós mais que para +ninguem será terrivel a lembrança do fim! Perdôa que te escreva estas +cousas. Mas fiz o meu dever. E agora posso livremente, insuspeitamente, +dizer-te que me sinto feliz, e que o momento d'amanhã, quando virmos +desapparecer a terra e nos acharmos sós, no infinito mar,--será para mim +tão bello, que só por elle julgarei justificada a minha vida.» + +Quando acabei de lêr esta carta, sentei-me machinalmente deante das malas, +com os olhos fixos, como idiota. Abri uma gaveta, tirei não me recordo que +pequeno objecto de renda, e tornei a fechar, com um movimento automatico, +lugubre, e a ausencia absoluta da consciencia e da vida. Chamei Betty: + +--Betty, que horas são? + +--Onze, minha senhora. + +--Dá-me agua, tenho sede. Dá-me agua com limão... + +Quando ella sahiu fui encostar a cabeça á vidraça, a olhar o movimento +ondeado e lento das ramagens escuras. A lua pareceu-me regelada. Betty +entrou. + +--Betty, disse-lhe eu n'uma voz sumida, sabes? Tenho medo de morrer +doida... + +Ella olhou-me, e viu no meu rosto uma tal expressão d'angustia, que me +disse: + +--Que tem, meu Deus, que tem? Chore, minha rica menina, chore... + +--Não posso, não posso. Eu morro... Vem para o pé de mim, Betty!... + +--Meu Deus, quer-se deitar? diga... + +E erguendo os olhos e as mãos, n'uma imploração cheia de dôr, de +desespero: + +--Deus me leve para si! Ai! nada d'isto era se a mamã fosse viva, minha +senhora! + +Começou a chorar. Eu olhei-a com uma grande afflicção, senti os olhos +humidos, os soluços suffocaram-me, e arremessando-me aos seus braços, +chorei, chorei, chorei amargamente, chorei cruelmente, chorei pela +saudade, chorei pela traição, chorei pelo meu passado legitimo, chorei +pelo encanto dos meus peccados, chorei por me sentir chorar... + + +IX + + +Soceguei. Vencida, fiquei n'uma _chaise longue_, muda e como morta. Olhava +machinalmente o tremer da luz. + +--Betty, disse eu, deita-te. Eu estou bem. Vae... + +Ella saiu, chorando. O quarto estava mal allumiado. Eu via, fóra, as +ramagens do jardim, recortando-se n'um relevo negro sobre o pallido ceu, +cheio da lua. Estive muito tempo assim, olhando, sem consciencia e sem +vontade. Lentamente, creio, comecei pensando em cousas alheias aos +interesses da minha dôr: lembrava-me a fórma d'um vestido que eu tinha +desenhado para a Aline. + +Por fim ergui-me, passeei muito tempo no quarto, o movimento chamou-me á +consciencia e á verdade das minhas afflicções. Arranquei a folha d'uma +carteira, e escrevi a lapis tumultuosamente: «Tem rasão, tem rasão. +Espero-o ámanhã ás 10 horas da noite na casa... Até lá não lhe direi que o +amo; só lá lhe direi o que soffro.» + +Eu mesma saí ao corredor, e do alto da escadaria, silenciosa, allumiada +por um grande globo fosco, chamei um criado, André, imbecil e indiscreto, +e atirei-lhe o bilhete lacrado, dizendo-lhe: + +--Leve esse bilhete já... Vá n'uma carruagem. + +E indiquei-lhe a casa de meu primo. Rytmel estava hospedado lá. + +Vim sentar-me á janella do meu quarto: vinha um aroma suave do jardim; o +luar, as grandes sombras, tinham um repouso romantico e triste. +Lentamente, a minha desgraça começou apparecendo-me inteira, nitida, em +pormenores, n'uma grande synthese, como se fosse um mappa. + +Eu era trahida! Aos vinte e tres annos, com todas as intelligencias da +paixão, com todos os delicados prestigios do luxo, era trahida, era +trahida! Senti então pela primeira vez a presença do ciume, esse +personagem tão temido, tão cantado nas epopéas, tão arrastado pela rampa +do theatro, tão conhecido da policia correccional, tão cruel, tão +ridiculo, tão real! Vi-o! Conheci-o! Senti o seu contacto irritante e +mordente como um corrosivo; a sua argumentação miuda, jesuitica, +implacavel, sanguinaria: todo o seu processo d'acção, que torna de repente +o coração mais puro tão immundo como a toca d'uma fera. + +Senti o mais cruel dos ciumes todos; aquelle que se define, que diz um +nome, que desenha um perfil, que nol-o mostra, o nosso inimigo, que nos +enche as mãos d'armas, que nos obriga a avançar para elle. Eu sentia no +meu ciume um ponto fixo--_ella_. Era _ella_, a _outra_! Lembrava-me +confusamente: tinha cabellos louros, finos, espalhados, uma nuvem de ouro +esfiado. Eu tinha-a visto em Paris vestida de roxo na revista de +_Longchamps_. O seu olhar era franco: os homens deviam encontrar n'elle o +quer que fosse, que promettia um destino pacifico. Que secreto encanto se +irradiaria da esbelta fraqueza do seu corpo? Era a simplicidade? Era a +intelligencia? Era a sciencia das cousas do amor?... Como eu ardia por a +conhecer! E não sabia nada d'ella senão que era irlandeza, e que se +chamava Miss Shorn! + +Ah sim, sabia outra cousa--que elle a amava! + +Conhecel-a! conhecel-a! Mas como? Podia ser, pelas suas cartas! De certo! +Ella devia pôr n'ellas toda a sua intima personalidade. Era loira, era +ingleza, por isso raciocinadora: devia escrever pacificamente, sem +sobresaltos, e sem inspirações da paixão; nas suas cartas provavelmente +desfiava o seu coração. Eu conhecel-a-hia bem, se as lesse! Eu saberia o +estado de espirito de Rytmel, a marcha da sua paixão, pelas cartas d'ella. +Devia lel-as! Era necessario pedil-as, roubal-as, compral-as, eu sei! Mas +era necessario lel-as! + +Para pensar assim eu nenhuma _prova_ tinha de que elle recebia cartas +d'ella, mas tinha a _certeza_ que ellas existiam e que o seu coração +estava cheio d'ellas... + +Quiz serenar, pacificar-me, dormir. + +Deitei-me. O meu pobre cerebro estava n'uma vibração tempestuosa; era como +n'uma tormenta em que veem á superficie da mesma vaga os destroços d'um +naufragio e as flores da alga; no meu espirito revolto, surgiam no mesmo +redemoinho, as cousas graves, e as recordações futeis, as minhas dôres e +as minhas phantasias, os desastres do meu amor, e ditos de operas comicas! +Sentia a chegada da febre. Chamei Betty. + +--Betty! não posso dormir, não sei que tenho. Quero dormir por força. +Quero ámanhã todas as minhas faculdades em equilibrio. Se não durmo estou +perdida, endoideço... Dá-me alguma cousa. + +--Mas o quê, minha senhora? + +--Olha, dá-me aquella bebida que davam á mamã nas insomnias, a que tu +tomas quando tens dôres... Tens? + +--Quer opio? + +--Não sei! agua opiada, vinho opiado, o quer que seja. Foi o doutor que me +disse... + +--Minha querida menina, eu tenho opio. Uma gota, n'um copo de agua. Eu +sei? Talvez lhe faça mal! + +--Dá-m'a, o doutor disse-m'o hontem. Dá, depressa. + +Bebi. Era agua opiada, creio eu. Não sei. Parece-me que adormeci logo, e +lembro-me que durante o somno sentia-me encaminhar incessantemente, n'um +movimento perpetuo que affectava todas as fórmas; ora lento e pacifico, +como um passeio sob uma alameda; ora rapido, volteado, e era a _walsa_ de +_Gounod_ que eu dançava; ora solemne e melancholico, e era um enterro que +eu acompanhava; ora cortante, escorregadio, veloz, e era em Paris, e era +no inverno, e eu patinava sobre a neve. + +Acordei de manhã, serena, e decidida. Mandei pôr um _coupé_. Saí. Fiz +parar á porta de meu primo. Eram duas horas da tarde. Eu sabia, desde essa +manhã, que Rytmel estava com elle em Bellas. Subi. Appareceu um criado +portuguez, Luis, que eu conhecia, um imbecil, atrevido para o ganho, +discreto pelo medo. + +--Mr. Rytmel! + +--Saiu, senhora condessa. + +--Jacques? + +--Foi com elle, senhora condessa. + +Jacques era um criado antigo de Rytmel. + +--Luis, leva-me ao quarto de mr. Rytmel. + +Ao abrir a porta do quarto estremeci. Sentia-me humilhada. Fui rapidamente +a uma secretária, revolvi as gavetas, as pequenas papeleiras. Nenhumas +cartas, apenas cartas indifferentes. Irritada, abri as commodas, espalhei +as roupas, procurei nos bahus, nas malas, nos bolsos, ergui o travesseiro. +Tremia, arquejava. Era uma busca inquisitorial, frenetica, desesperada, +infame! + +--Luis, disse eu baixo, Luis, tens vinte libras. Tens cincoenta. + +--Mas, minha senhora... + +--Este senhor onde tem as suas cartas? Tens cem libras. Dou-te tudo, +estupido... Onde tem elle as cartas, elle? + +--Oh minha senhora! disse o creado, com uma voz lamentavel, eu não sei. + +--Não tens visto? Não tem uma secretária, uma papeleira, uma carteira?... + +--Tem. Tem uma carteira de marroquim. Tral-a comsigo. Anda cheia de +cartas...Levou-a decerto. Nunca a deixa. + +Sahi, desci a escada, correndo, fugindo d'aquelle desastre, d'aquella +vergonha, d'aquellas confidencias. Atirei-me para o fundo da carruagem. + +--A casa! gritei. + +Tinha fechado os _stores_; soluçava, sem soluçar[2]. + +--Betty! Betty! clamei logo no corredor. + +Ella appareceu, correndo. + +--Betty, disse eu, vivamente, fechando a porta do quarto. Dize-me: aquella +agua com opio não faz mal? + +--Porque? sente-se doente? + +--Não. Estou bem. Não faz mal? + +--Nenhum. + +--Juras? + +--Juro. Mas... + +--Jura sobre estes santos Evangelhos. + +--Oh, senhora! Mas porque? Juro. Mas porque? + +--Tens opio? Dá-m'o. + +--Quer dormir? + +--Não. + +Ella então olhou-me, fez-se extremamente pallida: + +--Mas, senhora condessa, que quer isto dizer? + +--Dá-m'o. Dá-m'o, Betty. Pensas que me quero matar? + +Ella calou-se. + +--Oh, doida! disse eu, rindo. Se me quizesse matar não t'o pedia. Mas sou +feliz... Passaram-se outras cousas, vês tu? Não t'as digo, mas sou feliz. +Sabes o que é? É que me vou logo encontrar com elle. + +E com a voz mais baixa, como envergonhada: + +--É ás dez horas, e vês tu? Queria dormir para não esperar. + +--Oh, minha senhora, não lhe vá fazer mal! De resto, eu lh'o dou. O frasco +d'opio está aqui n'esta gaveta do lavatorio. Não lhe faça isto mal, meu +Deus! + +--Não, não, minha Betty! Ah! está na gaveta? Bem. São duas gotas, sim? Não +me faz mal. Estou tão contente! Olha, até nem quero dormir. Fica aqui a +conversar commigo. São cinco horas. Para as dez pouco falta. Não custa +esperar. Está então n'aquella gaveta o frasco... Bom. Sabes, Betty? sou +feliz. Não quero dormir. Conta-me uma historia. + +A pobre creatura, vendo-me alegre, sorria. Eu, entretanto, tinha os olhos +fitos na gaveta do lavatorio. Betty fallava, fallava! Eu ouvia as suas +palavras sem comprehender, como se ouve um murmurio d'agua. + + +X + + +A tarde descia no emtanto, e eu sentia uma inquietação, uma angustia +crescente. + +Meu primo, não sei se poderei contar-lhe miudamente todos os transes +d'aquella noite. Não o exigirá de certo. Nada seria mais terrivel do que +ter de redigir e colorir o meu crime. Perdôe-me a confusão afflicta das +minhas palavras e os arabescos tremulos da minha lettra. + +Eram dez horas da noite: fui á casa n.^o... Rytmel estava lá. Achei-o +pallido, e instinctivamente estremeci. Conversámos. Enquanto elle fallava, +eu olhava-o ávidamente, examinava a sua casaca, espreitava o volume que +devia fazer a carteira onde estavam as cartas. E revolvia com a mão humida +o bolso do meu vestido: tinha n'elle o frasco d'opio. Era um frasco de +crystal verde, facetado, com tampa de metal fixa. As palavras de Rytmel +n'essa noite eram muito doces e muito amantes. Procuravam explicar-me a +sua carta, e palpitavam ainda de paixão... Vinham realmente da verdade do +seu coração? Era uma rhetorica artificial á flor dos labios, enganadora, +como um panno de theatro? Não o sabia: só as cartas d'ella m'o poderiam +revelar, e elle tinha-as ali no bolso! Eu via o volume que fazia a +carteira no peito da casaca! Estava ali a sentença da minha vida, a minha +infelicidade insondavel, ou a immensa pacificação do meu futuro! Podia +porventura hesitar?--Elle fallava no emtanto. Eu tremia toda. Olhava +fixamente para um copo que estava sobre a mesa ao pé d'uma garrafa de +crystal da Bohemia. O reposteiro da alcova achava-se corrido; dentro +estava escuro. + +Betty tinha ido commigo, e ficára n'um quarto distante, que dava para uns +terrenos vagos... + +--E se houvesse um desastre! pensei eu de repente. Não ha pessoas que +succumbiram completamente, cujo adormecimento foi acabar de arrefecer no +tumulo? + +Mas eu via sempre a saliencia da carteira, que me tentava como uma cousa +resplandecente e viva. Podia approximar-me d'elle de repente, +enfraquecel-o ao calor das minhas palavras, ir levemente, astuciosamente, +arrebatar-lhe a carteira, saltar, correr, atirar-me para o fundo do meu +_coupé_, e fugir. Mas se elle resistisse? Se perdesse a consciencia da sua +dignidade e da humilde debilidade do meu ser? Se me sujeitasse +violentamente, se me arrancasse outra vez as cartas? + +Não podia ser. Era necessario que dormisse tranquillamente! Se as cartas +fossem innocentes, simples, inexpressivas como eu ajoelharia depois, ao pé +do seu corpo adormecido, como esperaria com uma ancia feliz que elle +acordasse! que aurora sublime acharia elle nos meus olhos quando os seus +se abrissem! Mas se houvesse nas cartas a culpa, a traição, o abandono?! + +Levantei-me. Rytmel tinha ao pé de si um copo com agua. Bebia aos pequenos +golos quando fumava. Eu deixava-o fumar. Mas eu não sabia como havia de +achar um momento meu, bastante para deitar duas gotas de opio no copo. + +Tive um expediente trivial, estupido. + +--Rytmel, disse eu, como n'um theatro, como nas comedias de Scribe, com +uma voz imbecilmente risonha,--vá dizer a Betty, que póde ir, se quizer. A +pobre creatura dormiu pouco, está doente. + +Elle saiu; ergui-me. Mas ao approximar-me da mesa, defronte do copo, +fiquei hirta, suspensa. Estive assim um tempo infinito, segundos, com a +mão convulsa apertando o frasco no bolso. Mas era necessario, eu tinha-o +ouvido fallar, voltava, sentia-lhe os passos, ia entrar... Tirei o frasco, +e louca, precipitada, mordendo os beiços para não gritar, esvasiei-o no +copo. + +Elle entrou. Eu deixei-me abater sobre uma cadeira, trémula em suor frio, +e, não sei por quê, sentindo uma infinita ternura, disse-lhe sorrindo, e +quasi chorando: + +--Ah, como eu sou sua amiga! Sente-se ao pé de mim. + +Elle sorriu. E--meu Deus!--approximou-se, creio que sorriu, e tomou o +copo! E com o copo na mão: + +--E sabe, disse elle, que ninguem o crê mais do que eu!... Se não fosse o +teu amor como poderia eu viver? + +E conservava o copo erguido. Eu estava como fascinada. Via o reflexo da +agua, parecia-me vagamente esverdeada. Via as scintilações do crystal +facetado. + +Finalmente bebeu! + +... Desde esse momento fiquei n'um terror. Se elle morresse? Meu Deus, por +que? Não se dá opio ás creanças, aos doentes? não é elle a clemente +pacificação das dôres? Não havia perigo. Quando acordasse eu seria tão sua +amiga, tão terna com elle, para me absolver d'aquella aventura imprudente! +Ainda que seja culpado, amal-o-hei! pensava eu. Pobre d'elle! Não lhe +bastava ter de dormir assim forçadamente n'um somno pesado e cruel? +Amal-o-hia, culpado. Trahida, amal-o-hia ainda! + +Elle entretanto estava calado, no sophá, com a cabeça encostada. De +repente pareceu-me vel-o empallidecer, ter uma ancia, sorrir. Não sei o +que houve então. Não me lembra se fallámos, se elle adormeceu brandamente, +se alguma convulsão o tomou. De nada me lembro. + +Achei-me ajoelhada ao pé d'elle. Devia ser meia noite. Estava immovel, +deitado no sophá. Tinham passado duas horas. Senti-o frio, via-o livido, +não me attrevia a chamar Betty. Dei alguns passos pelo quarto em uma +distracção idiota. Cobri-o com uma manta. + +--Vae accordar dizia eu machinalmente. +Compuz-lhe os cabellos ligeiramente desmanchados. De repente a idéa da +morte appareceu-me nitida, e pavorosa. Estava morto! Senti como o fim de +todas as cousas. Mas chamei-o, chamei-o brandamente, e com doçura... + +--Rytmel! Rytmel! + +E andava nos bicos dos pés para o não acordar! Subitamente estaquei, +olhei-o ávidamente, precipitei-me sobre o corpo d'elle, envolvi-o, +gritando suffocada: + +--Rytmel! Rytmel! + +Ergui-o: a hallucinação dava-me uma força cruel. A cabeça pendeu-lhe +inanimada. Desapertei-lhe a gravata. Amparei-o nos braços, e n'esse +momento senti o volume, a saliencia que na sua casaca fazia a carteira. +Veiu-me a idéa das cartas. Tudo tinha sido pelo desejo de as lêr. +Tirei-lhe a casaca; era difficil; os seus musculos estavam hirtos. Junto +com a carteira havia outros papeis e um masso de notas de banco. Ao +tomal-os, os papeis e as cartas espalharam-se no chão. Apanhei-as, +apertei-as na gravata branca e metti tudo no bolso. + +Isto tinha sido feito convulsivamente, inconscientemente. Dei com os olhos +em Rytmel. Pela primeira vez via contracção mortal do seu rosto. Chamei-o, +fallei-lhe! Estava frenetica! Porque não queria elle acordar? Empurrei-o, +irritei-me com elle. Porque estava assim, porque me fazia chorar? Tinha +vontade de lhe bater, de lhe fazer mal. + +--Acorda! acorda! + +Insensivel! Insensivel! Morto! Ouvi passar na rua um carro. Havia pois +alguem vivo! + +De repente, não sei por que, lembrei-me que tinha esvasiado o frasco! +Deviam ser só duas gotas! Estava morto! + +Gritei: + +--Betty! Betty! + +Ella appareceu, arremessei-me aos seus braços. Chorei. Voltei para junto +d'elle. Ajoelhei. Chamei-o. Quiz dar-lhe um beijo: toquei-lhe com os +labios na testa. Estava gelada. Dei um grito. Tive horror d'elle. Tive +medo do seu rosto livido, das suas mãos geladas! + +--Betty, Betty, fujamos! + +Consciencia, vontade, raciocinio, pudor, perdi tudo aos pedaços. Tinha +medo, sómente medo, um medo trivial, vil! + +--Fujamos! Fujamos! + +Não sei como saí. + +Fóra da porta vi ao longe, no começo da rua, uma luz caminhar! caminhava, +crescia! Havia alguem, vestido de vermelho, que a trazia! Parecia-me ser +sangue! A luz crescia. Esperei, a tremer. Aquillo caminhava para mim. +Approximava-se! Eu estava encostada á porta, na sombra, fria de pedra. A +luz chegou: vi-a. Era um padre, era outro homem com uma opa vermelha e uma +lanterna. Iam levar a alguem a extrema uncção... + +Amparei-me no braço de Betty, e principiei a andar, +sem saber para onde, como louca.[*] + + +[*] Seguiam-se as linhas em que se contava o encontro que teve commigo, as +quaes linhas elimino por se referirem a successos que eu mesmo narrei e +que v. sr. redactor, já conhece.--A. M. C. + + + + +CONCLUEM AS REVELAÇÕES DE A. M. C. + + +I + + +Convidada a expor o que sabia, a condessa disse de viva voz, com humildade +e com firmeza, a causa e o modo como involuntariamente matara Rytmel. + +--Eis as cartas e as notas que elle trazia comsigo--concluiu ella, +collocando sobre a mesa um masso de papeis atados n'uma gravata branca. As +minhas derradeiras disposições, accrescentou, estão feitas. Dêem-me o +destino que quizerem. Inflijam-me o castigo que mereço. + +Estavamos todos calados. F... adiantou-se para o centro da sala e ergueu a +voz: + +--Castigar é usurpar um poder providencial. A justiça humana que se +apodera dos criminosos não tem por fim vingar a sociedade, mas sim +protegel-a do contagio e da infecção da culpa. Todo o crime é uma +enfermidade. A acção dos tribunaes sobre os criminosos, posto que nem +sempre cesse de facto, cessa effectivamente de direito no momento em que +termina a cura. Sequestrar aquelles em que o mal deixou de ser uma +suspeita physiologica, e por conseguinte uma verdade scientifica, é fazer +á sociedade uma extorsão, que, por ser muitas vezes irremediavel não deixa +de ser monstruosa e horrivel. Todo aquelle que não é pernicioso, é +necessario, é indispensavel ao conjuncto dos sentimentos, ao destino das +idéas, á arithmetica dos factos no problema da humanidade. A natureza do +acto que estamos ponderando, as rasões que o determinaram, as +circumstancias que o revestiram, a intenção que lhe deu origem, tudo isto +nos convence de que a liberdade d'esta senhora não póde constituir um +perigo. Encarcerada e entregue á acção dos tribunaes, seria uma +causa-crime, interessante, escandalosa, prejudicial. Restituida a si +mesma, será um exemplo, uma lição. + +E approximando-se da porta, correu a chave que a fechava por dentro, +abriu-a de par em par, e dirigindo-se á condessa, com voz respeitosa e +grave, accrescentou: + +--Vá, minha senhora: tem a mais plena liberdade. Poderia disputar-lh'a a +justiça official, não póde empecer-lh'a a rectidão dos homens de bem a +quem foi entregue a decisão da sua causa. O seu futuro, violentamente +assignalado pela desgraça, não pertence aos criminosos, pertence aos +desgraçados. Leve-lhes a melancolica lição d'estes desenganos, e permitta +Deus que perante a suprema justiça, possam os beneficios obscuros e +ignorados que houver de espalhar em volta de si, compensar os erros que +atravessaram o seu passado! Os vestigios da sua culpa ficarão sepultados +n'esta casa. + +Nós abrimos-lhe passagem para que sahisse. A condessa, n'uma pallidez +cadaverica, vacillava; faltavam-lhe as forças; não podia sustentar-se em +pé. O mascarado alto deu-lhe o braço. Ella fez um movimento como se +tentasse fallar; o seu rosto contrahiu-se n'uma profunda expressão de dôr; +hesitou um momento; por fim comprimiu os beiços no lenço e sahiu abafando +uma palavra ou estrangulando um soluço. + +Momentos depois ouvimos a carruagem affastando-se com aquillo que fôra no +mundo a condessa de W... + +Haviamos accordado no modo de occultar o cadaver, o que se tornava tanto +mais facil quanto era inteiramente ignorada a assistencia do capitão em +Lisboa. + +Vieramos para o pavimento inferior do predio, a uma casa terrea, a que se +descia por quatro degraus para baixo do solo. Era ao fim da tarde. +Estavamos alumiados com a luz das velas, porque não entrava na loja a luz +do dia. Tinha-se cavado uma profunda cova. Sentia-se o cheiro humido e +acre da terra revolvida. Dois dos individuos a que tenho chamado os +mascarados, seguravam duas serpentinas em que ardiam dez velas côr de +rosa. Do travejamento escuro do tecto pendiam como cortinas pardacentas e +prateadas as teias de aranhas rasgadas pelo peso do pó. + +Desenrolámos o fardo que tinhamos collocado junto da cova, e contemplámos +pela derradeira vez a figura do morto estendido sobre a sua manta de +viagem. + +Tinham-lhe atado a gravata branca, abotoado o collete e vestido a casaca +azul de botões de ouro, em cuja carcella se via ainda pendida uma rosa +murcha. A cabeça d'elle, na luz a que estava sujeita, era de uma expressão +ideal. Os olhos, de que se não viam as pupillas, apagados e immoveis, +davam ao seu rosto o vago aspecto que apresentam os das antigas estatuas. +Nos labios entre-abertos parecia pairar um leve sorriso sob o bigode +arqueado. Os anneis do cabello, despenteados pelo contacto da manta em que +viera envolto o cadaver, destacavam na lividez da fronte como um vello de +ouro n'uma superficie de marfim. + +Havia um silencio profundo. Ouvia-se o bater dos segundos nos relogios que +tinhamos nas algibeiras e o zumbir das moscas que esvoaçavam sobre a face +do morto. Eu fitando-o com os olhos marejados de lagrimas, pensava +melancolicamente... + +Pobre Rytmel! Se n'este momento solemne, em que o teu corpo espera á beira +da cova pelo seu descanço eterno, te faltam na terra as pompas funebres +devidas á tua jerarchia; se te não seguiu até aqui um prestito de +uniformes recamados de ouro; se nem sequer tens ao entrar na tua +derradeira morada as orações de um padre e a luz de um cirio, cubra-te ao +menos a benção da amisade! Descendente de lords, moço, intelligente e +bello, quando todas as flores que perfumam a vida desabrochavam debaixo +dos teus passos, apaga-se de subito no firmamento a estrella que presidiu +ao teu nascimento, e tu baqueias como o ente mais despresivel no fundo de +uma sepultura sem lapide, sem nome, na mesma casa em que vieste procurar a +ultima expressão da tua felicidade, á luz das mesmas velas que alumiaram o +teu derradeiro beijo! Os outros desgraçados que morrem têem ao menos na +terra um logar assignalado onde repousam as suas cinzas, e onde podem ir +os que os amaram chorar por elles. É mais cruel o teu destino: tu morres e +desappareces! Não ensombrarão a tua campa as arvores tristes dos +cemiterios. As aves que passarem nos ceus não baixarão a beber da agua que +as chuvas tiverem deixado na urna do teu mausoleu. A lua, terna amiga dos +mortos, não virá beijar por entre a rama negra dos cyprestes, a brancura +da tua campa. O orvalho das madrugadas não chorará nas flores do teu +jazigo. As abelhas não murmurarão em torno das rosas plantadas sobre o teu +corpo. As borboletas brancas não adejarão no fluido de ti mesmo que +podesse romper do seio da terra para a luz da manhã no aroma dos +jasmineiros e dos goivos. Tua mãe, pensativa e pallida, procurará debalde +a grade em que se ampare ao dobrar os joelhos e levantar para o céu esse +olhar de interrogação em que a lembrança dos filhos mortos se envolve como +na tunica luminosa de uma ressurreição. + +O _mascarado alto_, curvou-se sobre o cadaver de Captain Rytmel e ergueu-o +vigorosamente pelos hombros. Nós amparámos o corpo e descemol-o ao fundo +da cova. O mascarado, ajoelhando-se depois no chão, cobriu com um lenço o +rosto do morto e disse, como se estivesse fallando a uma creança +adormecida: + +--Descança em paz! Eu irei dizer a tua mãe o logar em que repousa o teu +corpo, e voltarei a ajoelhar-me sobre esta sepultura depois de ter +recebido no meu proprio seio as lagrimas que ella derramar por ti. Adeus, +Rytmel! adeus! + +E impelliu em seguida para dentro da cova uma grande porção da terra +amontoada aos pés. A terra desabou de chofre sobre o cadaver, levantando +um som baço e molle. + + +II + + +Examinámos depois os papeis de Rytmel afim de coordenarmos os seus +negocios. Verificou-se a existencia de mil e trezentas libras em notas do +banco de Inglaterra. Entre as cartas não havia uma só letra de miss Shorn. + +Nenhum de nós tinha o espirito bastante socegado para poder reentrar +immediatamente nos assumptos triviaes da existencia. Resolvemos permanecer +ali até que decorressem alguns dias sobre a catastrophe de que tinhamos +sido testemunhas. + +O predio em que estavamos foi comprado em nome de lady... a mãe de Rytmel, +e n'elle se guardaram todos os objectos que lhe tinham pertencido. Um +cofre de ferro, damasquinado d'ouro e destinado a receber as cinzas do +morto, foi collocado no logar em que elle se achava sepultado. + +O _mascarado alto_ dispunha-se a partir para Londres quando tivemos +noticia da publicação das cartas do doutor n'este periodico. A condessa +declarou que se entregaria á policia, se não levantassemos na imprensa as +suspeitas formuladas na carta de _Z..._ ácerca da probidade do medico, e +se F... se não desdissesse categoricamente das injurias que nos dirigira +na carta imtempestivamente mandada ao dr... por intermedio de Friedlann. A +condessa auctorisava-nos a tornarmos publica a sua historia, dizendo que +tinha deixado para sempre de pertencer ao mundo, para o qual a biographia +que ella lhe legava seria talvez um exemplo proficuo. + +Foi então, sr. redactor, que determinámos referir-lhe todos os pormenores +d'este doloroso acontecimento, occultando ou substituindo os nomes das +pessoas que tiveram parte n'elle, e deixando á sociedade a faculdade de as +descobrir e o direito de condemnal-as ou absolvel-as. + +A condessa resolveu em seguida entrar em um convento, que ella mesma +escolheu depois de miudas indagações. O _mascarado alto_ acompanhou-a e eu +segui-o a uma villa da provincia do Minho, onde existe ainda, regido com +todo o rigor ascetico do estatuto, um velho convento de carmelitas +descalças, habitado por cinco ou seis religiosas. Estas mulheres +decrepitas vivem como d'antes na pobreza de que fizeram voto, mantendo a +oração, a penitencia e o jejum com a mesma exaltação mystica, com o mesmo +fervor catholico dos primeiros annos das suas nupcias com o divino esposo. +Trazem os pés nus e o corpo constantemente envolto na aspereza estreme do +burel. Não usam roupas de linho nem algodão. Em nenhum dia do anno se +permittem carne ás suas refeições. Comem juntas no antigo refeitorio, +havendo sempre uma que revesadamente se prostra á entrada da sala, segundo +o primitivo uso da ordem, para que as outras lhe passem por cima ao entrar +e ao sair da mesa. Não têem patrimonio de nenhuma especie, nem outro algum +rendimento que não seja o producto dos trabalhos que fazem. Furtadas a +toda a convivencia externa, vivem na clausura mais estreita e na miseria +extrema. Ninguem no mundo tornou a ver as moradoras d'aquella casa desde +que entraram n'ella. As que morrem são enterradas pelas outras no claustro +e cobertas com uma pedra lisa, sem nome e sem data, Não ha distico nem +outro signal que difference as que deixam de existir. A morte para todas +ellas começa no momento em que transpõem o limiar da portaria. Dentro tudo +é sepulchro. A morte é simplesmente a mudança de cubiculo. + +Tal foi a casa escolhida pela condessa para recolhimento e asylo do resto +de seus dias. + +O exterior do edificio era mysterioso e lugubre. Cingia-o em toda a sua +amplitude uma alta muralha que o disgregava do resto do mundo, cerrando as +casas habitadas pelas freiras ao exame de fóra. Era um predio emparedado. +A muralha, que media a altura de quatro andares, era da côr da estamenha, +sombria e triste, manchada de grandes nodoas esverdeadas e negras como o +capuz de um ermita, uma especie de lençol em que se enrolasse para o +enterro uma casa morta. Havia um ponto em que esta facha se recolhia, +formando o pateo por onde se entrava para o convento, cuja porta, mordida +pelos annos, chapeada e cravejada com enormes pregos, se via no fundo +atravez dos grossos varões de uma grade de ferro. Pelas juntas +desarticuladas das grandes pedras que lageavam o pateo, rompiam moitas de +ortigas, com a rudeza de cabellos hirsutos, sahidos pelos rasgões de um +barrete. Do meio do largo surgia o bocal da um poço, cujo balde seguro por +uma corda de esparto pendia de uma estaca. No chão estavam estendidos os +andrajos das pobres da visinhança, que vinham laval-os ao pé do poço, e +n'esse recinto os deixavam a enxugar juntamente com as enxergas +dilaceradas e apodrecidas dos berços dos seus pequenos. A um canto do +pateo pendia do muro uma corrente de ferro com que se tangia uma sineta +interior. A este signal via-se n'uma abertura da alvenaria rodar no muro +um cylindro de madeira, que por um movimento vagaroso mettia para dentro a +sua superficie concava e mostrava para fóra o seu interior convexo. +Parecia quando isto se ouvia que o taciturno monstro entreabria a +palpebra, deixando vêr uma orbita sem olho. Este apparelho chamma-se a +roda. A condessa pronunciou ahi uma palavra, a que respondeu de dentro uma +especie de gemido, e foi esperar em seguida para junto da porta negra ao +fundo do pateo. + +Quando a porta se abriu e o primo da condessa lhe apertou pela ultima vez +a mão, as lagrimas, que até ahi conseguira difficultosamente reprimir, +saltaram-lhe dos olhos. + +--Acha horrivel, não é verdade? perguntou-lhe ella com um sorriso em que +transparecia a extranha luz da resignação das martyres antigas. Que queria +que eu fizesse, meu querido amigo? Matar-me? Prostituir-me á convivencia +da sociedade? Não posso. Falta-me o valor para sacrificar ao meu +infortunio a salvação da minha alma, e escuso de dizer-lhe que me falta +igualmente a intrepidez precisa para sacrificar ao socego ordinario da +vida o pudôr do meu coração. Bem vê pois que acceitei a solução mais +suave. Coitado! como lhe doe a tristeza do meu destino! Deixe estar: +prometto-lhe morrer breve, se me não succeder aquella desgraça receada por +Santa Thereza de Jesus: que o prazer de me sentir morrer me não prolongue +mais a vida! + +Entregando-lhe em seguida o capuz e o manto de casimira em que fôra +envolvida: + +--Adeus, meu primo,--disse-lhe ella deixando-se beijar na testa,--adeus! +Peça a Deus que me perdôe, e aos vivos que me esqueçam. + +Aos primeiros passos que ella deu para lá da porta, esta fechou-se do +mesmo modo porque havia sido aberta, sem que ninguem mais fosse visto, +tendo mostrado um buraco lobrego, negro e profundo como a guela de um +abysmo, e a amante de Rytmel entrou no claustro. Os ferrolhos interiores +rangeram successivamente nos anneis, expedindo uns sons intercortados, +similhantes a soluços arrancados de uma garganta de ferro. + +O _mascarado alto_ passou parte d'essa noite na villa, esperando a +mala-posta que partia á uma hora. Ao subirmos juntos á carruagem ouvimos +uma especie de rebate em dois sinos de uma igreja. Perguntámos o que era. +O deputado da localidade, que nos acompanhava no _coupé_, respondeu, +atirando fóra um phosphoro com que accendera um charuto: + +--São as carmelitas que pedem o soccorro da caridade, porque não teem que +comer. + +O cocheiro fez estalar o açoite, e a berlinda partiu a galope, abafando o +vozear entristecido das sinetas com o estrepito que ia fazendo pelas +calçadas estreitas e tortuosas da povoação. + +Pouco mais tenho que contar-lhe. + +O conde de W... recebeu em Bruxellas uma carta de sua mulher contendo +estas linhas: + +«Destituo-me voluntariamente da minha posição na sociedade. De todos os +direitos que por ventura podesse ter, um só peço que não seja contestado: +o direito de acabar. Supplico-lhe que me permitta desapparecer, e que +acredite na sinceridade da minha gratidão eterna.» + +O doutor está, como elle mesmo disse, nos hospitaes de sangue do exercito +francez. + +Frederico Friedlann partiu repentinamente, no mesmo dia em que lançou no +correio a carta de F..., para ir encorporar-se na segunda _landwer_ do seu +paiz. + +F... e Carlos Fradique Mendes achavam-se ha dias em uma quinta dos +suburbios de Lisboa escrevendo, debaixo das arvores e de bruços na relva, +um livro que estão fazendo de collaboração, e no qual--promettem-n'o elles +á natureza mãe que viceja a seus olhos--levarão a pontapés ao exterminio +todos os trambolhos a que as escolas litterarias dominantes em Portugal +têem querido subjeitar as inviolaveis liberdades do espirito. + +Se me é licito por ultimo fallar-lhe de mim, saberá, sr. redactor, que +estou recolhido em uma pequena casa na provincia. Se ainda se lembra de +Therezinha, não extranhará que eu accrescente que estou casado ha dias. +Precisava d'isto o meu coração: da paz de um lar tranquillo. Presencear as +profundas commoções romanescas da vida é como ter assistido a um grande +naufragio: sente-se então a necessidade consoladora das cousas pacificas; +então mais que nunca se reconhece que o ser humano só póde ter a +felicidade no dever cumprido.--_A. M. C._ + + + + +A ULTIMA CARTA + + +Sr. redactor do _Diario de Noticias_.--Podendo causar reparo que em toda a +narrativa que ha dois mezes se publica no folhetim do seu periodico não +haja um só nome que não seja supposto, nem um só logar que não seja +hypothetico, fica v. auctorisado por via d'estas lettras a datar o +desfecho da alludida historia--de Lisboa, aos vinte e sete dias do mez de +setembro de 1870, e a subscrevel-a com os nomes dos dois signatarios +d'esta carta. + +Temos a honra de ser, etc. + + Eça de Queiroz. + + Ramalho Ortigão. + + + + +INDICE + + +Prefacio da 2.^a edição + +Exposição do Doutor *** + +Intervenção de Z + +De F... ao medico + +Nota + +Segunda carta de Z... + +Narrativa do mascarado alto + +As revelações de A. M. C. + +A confissão d'ella + +Concluem as revelações de A. M. C. + +A ultima carta + + * * * * * + +Notas de Transcrição: + +Palavras aparentemente erradas no livro original [1] "quando", [2] chorar. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Mysterio da Estrada de Cintra, by +José Maria Eça de Queiroz and Ramalho Ortigão + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA *** + +***** This file should be named 20574-8.txt or 20574-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/0/5/7/20574/ + +Produced by Pedro Saborano (This file was produced from +images generously made available by National Library of +Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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