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+The Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Os meus amores
+ contos e balladas
+
+Author: Trindade Coelho
+
+Release Date: January 12, 2006 [EBook #17503]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***
+
+
+
+
+Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited
+by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
+Digital--http://bnd.bn.pt). (This file was produced from
+images generously made available by National Library of
+Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+
+
+
+OS MEUS AMORES
+
+
+TRINDADE COELHO
+
+
+*OS MEUS AMORES*
+
+(Contos e Balladas)
+
+_2.^a edição_
+
+
+LISBOA
+
+Livraria de Antonio Maria Pereira
+
+50, 52--Rua Augusta--52, 54
+
+1894
+
+
+
+
+_LISBOA_
+
+Typographia e Stereotypia Moderna
+
+11--_Apostolos_--11
+
+
+
+
+Ao Doutor
+
+Antonio Xavier Perestrello
+
+
+
+
+«_Os Meus Amores_»
+
+
+_Folhas dispersas dos meus annos de oiro,
+Vivo enxame das minhas alvoradas,
+Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
+As Desdémonas sois de um outro moiro.
+
+As brancas horas que eu em sonhos doiro,
+Essas horas febris, illuminadas,
+Eil-as fugindo, em tristes debandadas...
+Levaes nas azas todo o meu thesoiro.
+
+Folhas: subi, voae ao céo tão alto,
+Que o ceo em estrellas vos converta e mude,
+Lá nas longinquas illusões que exalto;
+
+Como as frementes aguas d'um açude,
+Levae a Deus, no derradeiro salto,
+O derradeiro adeus da juventude_...
+
+_Luiz Osorio_.
+
+
+
+
+IDYLLIO RUSTICO
+
+_A Fialho d'Almeida_.
+
+
+Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atraz d'elle,
+era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
+conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
+insignificante ruido. Dormia-se a somno solto por todas aquellas casas.
+Apenas algum cão, subitamente acordado em sobresalto pelo chocalhar do
+rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde ficara de
+sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
+companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores entoavam
+matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios, n'alguma
+esturdia, a deshoras...
+
+Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a
+banda, n'uma grande pacificação de templo adormecido. Nem viv'alma pela
+ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céo
+azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a largura, a
+paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito mortiça que nem
+era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No emtanto a manhã era
+calma; nem rumores de briza pela rama das azinheiras velhas que faziam
+guarda ao corrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grillos nas
+hervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
+do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
+que se ia submissamente á mercê do pequeno pastor, parando se elle
+parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
+novo elle se punha a caminhar.
+
+Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro,
+que o echo levou para longe.
+
+--Não gastes polvora, Antonio!--recommendou o pastor.--Ouviste?
+
+E logo a voz do guardador:
+
+--Madrugas hoje, Gonçalo!
+
+--P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.
+
+--Está bem. Adeus!
+
+--Saudinha.
+
+A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na côr. Invadia
+a amplidão da cupula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrellas
+feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira d'além, entravam de fazer-se
+nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
+altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra... N'este assomo
+d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
+vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos levantavam-se
+repentinamente, em vôo perpendicular, e cortavam ares fóra, chilreantes
+e alegres, até se perderem de vista por de traz dos arvoredos e cabeços.
+De cauda em riste e orelhas immoveis, o rafeiro espreitava as hervagens
+seccas, onde algum reptil passasse vagaroso.
+
+--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo ás cobras.--Busca,
+valente!
+
+Á medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas ouvia-se,
+mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
+se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de
+paciencia,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
+interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre, á
+frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
+areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle céo ainda estrellado,
+o Gonçalo desabafou:
+
+--Uff! até que emfim!--E pensava aliviado:--Nada mais facil do que
+terem-me sahido os lobos!...
+
+Mas vista áquella hora, e no meio de tal silencio, a corrente liquida
+tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
+aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, n'uma
+lucta desesperada com as aguas, clamando em vão que lhes acudissem, em
+tamanho transe afflictivo. A margem de lá, especialmente, era toda
+accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quaes no
+inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que era
+um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, n'um
+descuido involuntario--simples remadela pouco a tempo, manobra menos
+segura de leme, ou impulso errado de vara.
+
+E então, cabeços enormes d'um lado e d'outro, projectando sobre o largo
+leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
+sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
+limitada a paizagem.
+
+A todo o comprimento da margem, o rebanho pôz-se então a beber manso e
+manso, e sem o minimo ruido.
+
+Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
+pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem.
+
+--Táte, Gonçalo! Aquella chocalhada...
+
+E immovel, remordendo o labio, com o ouvido á escuta, pensava:
+
+--Ora se será ella?...
+
+Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um
+clarão de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como elle, com
+quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
+
+--Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo.
+
+E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, pôz-se attentamente
+á escuta do tilintar dos chocalhos na margem opposta.
+
+«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser
+outro que não a Rosaria...»
+
+Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
+ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para deante o bornal, feito da
+pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
+flauta e pôz-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rustica.
+
+No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
+
+--Ehlà, Gonçalo, és?
+
+O pastor desatou a rir.
+
+--Uhlá, Rosaria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
+
+E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
+
+--Não te esqueceu a moda, rapaz!
+
+--Isso esquece ella!... Ouviste, Rosaria?--Se outra fosse que m'a
+tivesse ensinado...
+
+N'este meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
+ter com a Rosaria. Mas primeiro perguntou:
+
+--Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
+
+--Vem tu d'ahi. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Han?
+
+--Basta!
+
+E dando o signal da partida, o Gonçalo pôz-se em marcha. D'ahi a
+pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte moirisca, toda severa de
+construcção nos seus tres arcos lançados sem elegancia, atufados de
+parasitas seculares que a faziam pittoresca, heras, silvas, ortigas
+bravas.
+
+A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratorio ao Senhor
+Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
+coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
+com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
+era como um talisman precioso para livrar de maiores
+desgraças--naufragios no rio, e então maus encontros por aquelles
+caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animaes.
+
+D'ahi a pouco, as duas creanças estavam perto uma da outra, cada qual
+seguida do seu rebanho.
+
+--Ora viva a Rosaria!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da
+cachopa.
+
+--Bons dias, Gonçalo; então que ventos?
+
+Entre os dois travou-se então um longo dialogo em que se contaram tudo o
+que haviam feito desde aquelle dia em que ambos tinham voltado juntos da
+feira dos Caniços.
+
+--Por signal que nem rez se vendeu!--lembrou o Gonçalo.
+
+--Por signal!--disse com pena a Rosaria.
+
+Mas elle contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
+a encontrava. «Vêl-a agora, só por milagre de santo; quem o havia de
+sonhar! Nanja elle...»
+
+--Mas se eu estive tão doente!--volveu triste a Rosaria.
+
+E como o outro acudiu a informar-se, ella explicou:
+
+--Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
+mesmo lume desde manhã até ao escurecer... Uma assim!
+
+E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
+febre, sonhara com elle, que se encontravam os dois por montes e prados,
+como agora tinha acontecido, «tal e qual».
+
+--Assim te Deus salve, ó Rosaria?--atalhou rapido o pastor, a quem
+enchiam de orgulho os sonhos d'aquella pequena amiga.
+
+--Assim; pois que duvida?--tornou-lhe confiada a Rosaria.
+
+--Não!--disse agastado o Gonçalo.--Não has-de dizer assim... Diz certo,
+has-de jurar direito.
+
+--Pois assim me Deus salve...
+
+--Como é verdade...--Diz tudo, Rosaria!--supplicava o pastor.
+
+--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como é verdade que sonhava
+que nos encontravamos--concluiu por fim, muito risonha.
+
+E sem disfarçar o jubilo, prestes o Gonçalo a certificou de que tambem
+não a esquecera. «Tanto é que tirava da frauta as cantigas todas que
+ella lhe tinha ensinado.»
+
+--Lembras-te?
+
+A Rosaria faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de
+sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
+
+--Sahem d'aqui sem falhar uma.--E resoluto:--Vá feito, Rosaria, pede por
+bocca!
+
+A Rosaria pediu então a _Pastorinha_.
+
+--Eu é da que mais gosto,--explicou.--É a mais linda.
+
+--E é!--concordou o Gonçalo.--Ora escuta lá.
+
+E levando aos labios a avena, pôz-se a tocar a _Pastorinha_, emquanto a
+Rosaria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a lettra:
+
+Onde _vás_, ó Pastorinha,
+Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé...
+
+--Sabes essa! É mesmo assim!--disse-lhe a Rosaria a rir-se.
+
+--É como vês!--affirmou contente o Gonçalo.
+
+Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
+confundidos, andavam na pastagem.
+
+--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonçalo.
+
+--Tambem nós nos quedámos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As
+pobres dão-se bem, são amigas...--continuou com jubilo.
+
+--E nós tambem, ora tambem, Rosaria?
+
+--Tambem--respondeu afoita a pastora.
+
+E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denuncias.
+
+ * * * * *
+
+A esse tempo, no céo alto e lavado a estrella d'alva fenecera por fim, e
+o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céo em
+cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias extranhas que iam
+despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de
+perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena,
+tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de
+azas--passarada alegre que sahia agora dos ninhos e voava a matar a sêde
+á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
+reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convisinhos onde a vegetação
+era mais rica de seiva e mais facil a presa dos insectos, perdizes
+gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
+vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
+de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicóllos,
+viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
+taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
+nas povoações proximas sinos chamavam para a missa d'alva ou tocavam a
+Ave-Marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
+almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no céo
+immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
+para a labuta interminavel do dia. N'uma clareira elevada, dominando o
+rio e um trecho de paizagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
+e continuavam conversa.
+
+Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua côr
+trigueira levemente pallida desde que tivera as maleitas. Não se
+lembrava com que santa que elle tinha visto se lhe parecia agora a
+Rosaria...
+
+--Mas o cabello assim cortado...--disse com magua, mirando-lhe a cabeça
+nua, e passando a mão pela d'elle,--é que te não fica bem!
+
+«Melhor fôra que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
+mais, que era como elle gostava...»
+
+--Promessa da mãe se eu melhorasse--explicou a Rosaria--Lembranças... A
+gente quando está afflicta...
+
+--...Quando está afflicta...--repetiu como um echo o pequeno. E depois,
+amuado:--Se promette os olhos...
+
+A rapariga fitou-o, espantada.
+
+--...é porque t'os tirava!--concluiu convicto.
+
+Houve um momento de silencio, em que o Gonçalo se pôz a escavar o chão
+com uma pedra, e a Rosaria a torcer um fio saliente do seu vestido
+grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
+na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.
+
+--Não fallas, Rosaria?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para
+ella.
+
+--Tambem tu...--começou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a
+lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!--E depois
+animando-se:--Já foste á Senhora dos Remedios?
+
+O Gonçalo fez signal que não tinha ido.
+
+--Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. N'um prego ao lado
+do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.
+
+O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
+para acabar com ella:
+
+--Que emfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a
+girar.--Olha como dança...--E depois, mais pensativo, batendo com o
+bilro nos dentes:
+
+--Que ás vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem
+fez este bilro?
+
+--Foste tu, aposto.
+
+Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lh'o
+orgulhoso--«que visse os _torneados_.» Depois continuou:
+
+--Vae uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
+santos!--Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem resou e
+bem promessas fez, mas ella foi-se.
+
+E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
+
+--Aquella ovelha, a branca, não vês? A que se vae agora deitar... Pois
+era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.--E deitando-se para
+traz:--Lá anda ella a pastar!--concluiu desalentado.
+
+--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosaria,--que as promessas
+sempre fazem, lá isso...
+
+E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
+de que sempre valiam as promessas. No emtanto, deitado de costas, com a
+jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em angulo tocando-se com os
+joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
+subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
+se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosaria ia
+entretendo o pastor. Mas quando ella fazia pausa, logo o rapaz acudia,
+firme na sua objecção:
+
+--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!
+
+ * * * * *
+
+Á medida que o sol ia subindo, no céo glorioso e fulvo, iam os dois
+conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados, para se livrarem da
+estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia, que
+foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheiraes,
+depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
+conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
+passassem tão depressa. Ainda armaram aos passaros, mas foi o mesmo que
+nada, os demonios andavam espantados e já conheciam as esparrellas.
+
+--Olha lá não caiam,--tinha dito o Gonçalo, já cançado de estar á
+espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se elles
+fossem tolos...
+
+E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella
+então propoz que jogassem a pocinha.
+
+--E o fito, ó Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos de
+tarde, bato-me com qualquer, sabias?
+
+E generoso:--Mas a ti dou te partido: vinte e cinco ás quarenta...
+
+Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a
+bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia á mão, era elle que ia
+buscar o pausinho, quando zinia longe.
+
+--Turco, traz cá!
+
+ * * * * *
+
+No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céo esmorecia no seu
+azul suavissimo. Em todo o espaço o ar estava tranquillo e sereno, e já
+começava para poente a decoração phantastica do occaso. Parece que se
+ouvia mais distincto o marulhar das aguas no rio; já não faiscava assim
+tão viva a areia branca das margens.
+
+Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
+ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
+olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim:
+
+--Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste?
+
+«Ora que lhe custava a ella! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
+o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»
+
+--E o mais, ó Rosaria?--perguntou de novo com interesse.
+
+A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
+respondeu:
+
+--Tambem.--E sorriu-se.--Pois eu...
+
+Só depois d'esta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o signal
+de partida, assobiando aos cães.
+
+D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
+ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
+areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
+tremeluzia, tirando á agua a sua translucidez normal.
+
+--É bonito!--fez notar o pastor.
+
+A Rosaria explicou logo:
+
+--São as moiras a caçar com redes d'oiro, sabias?
+
+Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam á flôr da corrente
+as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
+serenamente, a mãe com o mais novito ao collo não os perdia de vista,
+emquanto o pae, em mangas de camisa, de pé n'um topo de fraga, lhes ia
+ensinando as _manobras_. Ao fundo, tres vitellas passavam o rio a vau,
+muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia d'agua
+serena, bebendo mansamente. Sobre o vitello das malhas brancas, o
+guardador cantarolava, acenando com o chapeu ao moleiro--«boas tardes!
+boas tardes!» Ao sahir da ponte, o rebanho teve de se affastar um pouco
+do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
+carregados, tilintando campainhas.
+
+--Adeus pequenos! cumprimentou.
+
+--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos.
+
+E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
+confraternisavam os cães como bons e leaes amigos. Á frente, o Gonçalo
+ia tocando na flauta o mesmo que a Rosaria cantava. O brando rumor dos
+chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a musica,
+fundindo-se n'uma nota subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada...
+
+Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
+então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, collocando na sua frente
+a Rosaria, e pondo-lhe á cara a flauta, na direcção em que devia olhar.
+
+--Vês além... n'este direito? Rez-vez do castanheiro, não enxergas?
+
+A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
+
+--Então é ali?
+
+--Ali mesmo--volveu-lhe já de marcha.
+
+E repoisando a mão direita sobre o hombro esquerdo da rapariga,
+repetiu-lhe muito contente:
+
+--É mesmo além.
+
+N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o espaço
+que as ovelhas tinham de occupar essa noite.
+
+--Falta pouco; a gente vae pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
+cavallo.
+
+E como elle ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quiz então
+saber:
+
+--Estás triste, ó Rosaria?
+
+--Triste... não. Já agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa.
+
+--Huum! Arrependeu-se...--volveu comsigo o pastor.
+
+ * * * * *
+
+Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
+dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle ainda trazia
+azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
+apontou para a cabana que ficava alli perto, e propoz que se deitassem:
+estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.
+
+Quando o Gonçalo e a Rosaria entraram na cabana e se deitaram sobre o
+colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
+os bornaes que faziam de travesseiro, cerrára de todo a noite, e
+formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida no azul
+indefinido do céo.
+
+--E os lobos?--perguntou a Rosaria com medo.
+
+--Não ha perigo--tranquilisou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães.
+
+ * * * * *
+
+Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos
+chocalhos. A ladrar, os cães faziam echo. O rebanho devia dormir
+profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada toda a
+Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
+n'um ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
+deixaram adormecer,--quando a historia das moiras encantadas ia no seu
+melhor episodio...
+
+E lá no alto céo, mesmo sobre a cabana, a estrella da tarde não era nem
+mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa d'aquellas duas
+creanças...
+
+Quando ao repontar da manhã se levantaram, e sahiram a vêr o céo...
+
+--Bonito dia, Gonçalo!
+
+--Bonito dia, Rosaria! Olha...
+
+...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
+voando...
+
+
+
+
+SULTÃO
+
+(Copiado do Natural)
+
+_Ao meu Henrique e a Beldemonio, seu amigo_.
+
+
+I
+
+
+Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa, cançado, esfalfado de
+andar um dia inteiro a mourejar no campo.
+
+--Meus peccados, boa tarde!--dizia elle para a mulher, com um sorriso a
+affectar seriedade.
+
+Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a benção.
+
+--Deus te abençoe.
+
+--Pae, olhe que o «Sultão»... ia a dizer o pequeno.
+
+--Bem sei! atalhava logo o Thomé.--O «Sultão» é um maroto e tu és outro.
+
+E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de
+_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze annos, e abria a
+gaveta do pão, o Thomé punha-se a fazer de interesseiro comsigo mesmo,
+resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:
+
+--É que por este caminho não tenho um dia descançado... Nem uma hora...
+
+Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.
+
+--...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim ha de chegar... A
+modos que vou já cançando...
+
+Mas o Thomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
+Pareciam-lhe longos, interminaveis, os aborrecidos domingos que passava
+sem ir campos fóra, madrugador como um melro.
+
+--Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thomé encolhendo os
+hombros, como quem está desgostoso com um genio assim.
+
+Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
+cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
+que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito á vontade.
+
+Costume velho do Thomé:--mal se sentava, mastigando o «boccado», dizia
+logo para o filho:
+
+--Ouves, Manuel? Bota cá fóra o «Sultão».
+
+O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
+nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
+contente, dizendo cá da rua:
+
+--«Sultão»! Sae cá p'ra fóra, «Sultão»!
+
+No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
+baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
+riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um movimento moroso de
+palpebras pestanudas...
+
+E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
+pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava,--um grande riso de
+alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».
+
+Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
+Thomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
+quadrupede de boa raça, alguem lhe poderia lêr no olhar, mole e
+impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o dono...
+
+Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
+então a fallar muito serio, entre resignado e cortez, para o pequeno e
+desdenhoso jumento--o pão e o queijo esquecidos n'uma das mãos, na outra
+a navalha de _meia-lua_:
+
+--Então, «Sultão», não vens?
+
+--Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
+envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia d'aquella
+immobilidade de estatua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
+na soleira, zap!
+
+--Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.--De mal comigo?
+
+E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á
+vontade...--que não fosse vel-o o «Sultão»... Mettia entre dentes um
+pedacito de queijo, logo uma codea de pão, e fazendo umas grandes rugas
+na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito serio:
+
+--Ficas ahi, «Sultão»? Já não és meu amigo?
+
+O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
+fazendo-se humilde...
+
+--Então se és, anda d'ahi. Olha...--E mostrava um pedacito de pão.--P'ra
+ti se vieres...
+
+O «Sultão» dava tres passos, e ficava fóra do cortelho. E por se vingar,
+o Thomé carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada, e erguendo o
+rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, affirmando que já lhe
+não dava o pão. E desfechando-lhe emfim a ameaça de o vender a um
+cigano, entrava a tratal-o por senhor--_sôr_ «Sultão»...
+
+Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
+baixas, pescoço cahido, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
+da arrelia.
+
+Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra banda, a rir
+como um perdido.
+
+--Diabo do gerico! diabo do ratão! Capaz é elle de fazer rir as pedras,
+o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na guela.
+
+No emtanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
+o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé sacudia-o:
+
+--Sae-te p'ra lá! dizia elle muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez
+que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vae-te!
+
+Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
+focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
+obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
+superior, a tremer, e roubava-lh'o da mão.
+
+Pazes feitas! Era então rir a perder, n'umas casquinadas agudas, muito
+estridulas.
+
+--Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.^a Josefa.--Até pareces
+doido!
+
+--Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
+o Thomé, n'uns grandes gestos.--Vamos que eu lhe não queria dar da
+merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque.
+
+Era precisamente o que o Thomé queria:--ver o «Sultão» a brincar.
+
+...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
+lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe
+consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes
+causticantes e chuvas torrenciaes.
+
+Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das
+«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Ás vezes, o pequeno jumento,
+ferido não sei por que vespa invisivel, despedia sem mais nem menos
+n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, agitando a
+cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a banda n'um alarido o
+rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
+cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Accudia gente aos
+postigos, ás portas, ás janellas, a ver a polvorosa; e subito se
+inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quasi nús, correndo
+atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o
+mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a propria
+rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
+todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, acclamado, na malta
+espavorida dos inimigos...
+
+--«Sultão»! eh lá! «Sultão»!
+
+Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
+volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga, não lhe
+desse na bôlha atacal-os... E abriam alas de repente, quando elle,
+tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se não
+deixar atropellar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
+já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
+estridulas, os rogos para que pozesse treguas, as supplicas para que se
+accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da escada, onde
+se deixava cair,--derrotado!
+
+--P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Thomé, oppondo-lhe os pés,
+desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para traz, a rir
+como um perdido.
+
+Então o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes rompia a
+girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as patas, cauda
+no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé solicito dava aos
+rapazes o aviso de se arredarem--«porque era doido, aquelle demonio»!...
+
+Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito
+cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um cão,
+certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
+saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes á surpresa da
+viandante.
+
+--Dê, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de lá o Thomé, com ares de
+zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
+verdasca:--«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.
+
+E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a elle,
+muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um cumprimento humilde
+de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
+preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» signaes de medo, e humilde
+proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
+passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada
+ganhava o terreno perdido--fitando impassivel o cão... O bruto formava
+então o salto, regougando forte, o pêllo eriçado; e ao investir para a
+primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
+por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
+coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:
+
+--Eh! valente! gritava-lhe então o Thomé.
+
+E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo
+ao correr a caravelha:
+
+--Não ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve!
+
+E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia para a cama sem
+primeiro descer a vêr o «Sultão»,--de candeia na mão esquerda, e na
+direita, contra o sovaco, a bella quarta do grão, acogulada.
+
+Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de candeia
+attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de cima, a sr.^a Josefa
+tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:
+
+--Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.
+
+E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que
+fallou,--historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto
+que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo
+desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:
+
+--Boas noites!
+
+ * * * * *
+
+Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao
+cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a
+mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
+enorme--gelada...
+
+--Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.--Ó Josefa!
+
+A mulher assomou á janella, sobresaltada.
+
+--Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!
+
+--Que te roubaram o quê? fez a sr.^a Josefa, muito attonita.
+
+--O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que m'o roubaram!
+
+E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, descalço, romperam todos
+tres na gritaria, defronte do cortelho vazio:
+
+--Á d'el-rei! Á d'el-rei! Á d'el-rei!
+
+Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na
+peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram.
+
+Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando
+ao peito abatido do Thomé a negra e vazia palavra:
+
+--Nada!...
+
+
+II
+
+
+Dois annos depois. Tarde d'agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
+eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e
+embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverisações doiradas da
+ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
+ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar,
+esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
+Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
+além, alegremente, a monotonia profunda do azul. N'um deslado, sob os
+castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
+igreja, as paredes caiadas da escola.
+
+A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava áquella hora o
+aspecto tranquillo e de paz de uma grande officina em repouso. Poucas
+«mêdas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
+estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
+«mêdas» altas, entre os utensilios da trilha e a creançada estridula que
+brincava, os da lavoura descançavam--vermelhos da soalheira intensa de
+todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nú, arregaçados
+os braços musculosos, n'uma prostração regalada de matilha que alfim tem
+a sua hora de socego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
+fadiga os proprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
+todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
+dando uma sensação agradavel de fartura, perfilam-se os altos saccos no
+meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
+ao redor de um grande montão de palha triturada, vae «limpando»--visto
+que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
+mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
+«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
+varrendo em roda n'um afan... Em certo ponto, carros vasios; um além, de
+altissimas «angarellas», vae-se enchendo de palha; emquanto outros,
+atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas mais baixas,
+estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
+gigantes.
+
+Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
+bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
+oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêllo. E lá vão
+encosta abaixo, roçando pelos troncos asperos dos castanheiros a enorme
+corpolencia, fartar o largo bandulho á serena agua das ribeiras,
+sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
+monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam,
+submissa...
+
+Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
+cantava alegremente, em côro. Acabara de ensacar-se o ultimo grão da
+farta colheita do Thomé da Eira.
+
+--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.--A primeira
+da aldeia!
+
+--Qual? isso sim! vão vocês vêr a tulha. Muita palha, é que vocês hão de
+dizer, muita palha e pouco grão...
+
+E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as
+mangas arregaçadas pelos cotovelos, O Thomé ia e vinha, dando ordens,
+repetindo avisos, distribuindo aqui e além as ultimas tarefas.
+
+--Ahi vae um sacco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
+grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por ahi
+alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
+Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vae no carro está
+bem.
+
+E era como um doido a metter-se no serviço de todos, muito expedito,
+loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
+dormir...
+
+--Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma,
+que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz ahi no chão esse
+«rasouro», ó coisa?--Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses saccos que
+fiquem bem atados.
+
+O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
+ar, se era preciso mais alguma coisa.
+
+--Não, pódes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
+Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
+deixa ir os animaes a passo. Vae-te.
+
+Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:
+
+--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
+bois para o lameiro.
+
+Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:--«seria preciso vir por
+elles?»
+
+--Não vale a pena, lá irão.
+
+E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os
+levava, aquelles dois saccos...
+
+--Com mil demonios! Apostar que vocês não adivinham?
+
+«Elles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois saccos, olhem agora!»
+
+--O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
+que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!
+
+Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a scisma do animal não lhe
+passava nem á mão de Deus Padre!»
+
+--A modos que isso é já mania, ó sr. Thomé?
+
+Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpreza. Voltaram-se
+todos--«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
+a cavallo.
+
+--Vocês não querem vêr, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
+pallido.--Aquelle burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por elle...
+
+Recordaram:--«estrella malhada na testa, a mão direita branca»...
+
+--É elle, com um milhão de diabos! não ha que vêr! E aquelle é o ladrão!
+
+E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
+d'um abanão, o cabo d'uma «espalhadoura» e botou a fugir direito á
+estrada.
+
+Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:
+
+--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
+a alma lhe deixa! Acudam!
+
+Os homens deitaram a correr atraz d'elle, affluia gente de todas as
+bandas da eira, os cães ladravam.
+
+--Então, sr. Thomé? olhe que se perde, sr. Thomé! diziam-lhe, já
+agarrados a elle.--Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
+sr. Thomé, largue vossemecê o cabo!
+
+--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas,
+mais a vocês, se me não largam! Arreda!
+
+E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a elle mais ao
+cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.
+
+--Vê, sr. Thomé?!
+
+«Não via nada, não queria ver cousa nenhuma! Arreda!» E n'um rompante de
+ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou á estrada, aos
+tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.
+
+--Abaixo! intimou.--Você é um ladrão!
+
+--Um quê?
+
+--Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matal-o aqui, seu patife!
+Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, como um cão!
+
+E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
+e na direita o minacissimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
+razo--«com seiscentos milhões de diabos!»
+
+Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.
+
+--Já lhe disse que você é um ladrão!
+
+--Ladrão será você!--tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
+cerrados.--E não m'o diga outra vez, que o racho!
+
+Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
+capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador entrava de
+tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
+bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
+pedaço de hombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
+agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas cabeças em desordem.
+
+Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--«tinha-o
+comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...»
+
+--Vê, sr. Thomé? acudiram logo uns poucos.--O homem não tem culpa.--E
+gritavam-lhe aos ouvidos:--Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
+Vês-ahi está!
+
+--Mente! objectava incredulo o Thomé, cada vez mais irado.--Mente!
+
+--Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.
+
+--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thomé.
+
+De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi á má
+cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Elle então,
+abrindo os braços como se fosse para nadar, socegou um pouco,
+amainou,--prometteu levar aquillo com paciencia, ás boas. Chegou quasi a
+pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
+camarinhas.--«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»
+
+Chegou-se por fim a um accordo. «Sim, senhores, accommodava-se, mas
+punha uma condição: largasse elle o burro, e o burro é que havia de
+resolver...»
+
+--Serve-lhe o contracto?
+
+--Qual contracto?
+
+--Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro ás soltas.
+Depois, é p'ra onde elle fôr. Se o burro larga p'ra traz, lá p'r'as
+bandas d'onde você vem... Você d'onde vem?
+
+--Dos Casaes.
+
+--Pois ahi está. Se o burro tomar p'r'os Casaes, o burro fica seu...
+
+--E tomando direito á aldeia, é do sr. Thomé,--concluiram alguns do
+grupo, conciliadores.
+
+--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.
+
+Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia historia que o
+burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe
+custara tiral-o de casa.
+
+--Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe então que vae pr'os
+Casaes...--affirmou.
+
+--Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vae. Você está pelo
+dito?--quiz saber o Thomé.
+
+--Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro
+n'um rompante. Olhe: uma, duas, tres; ás tres largo-lhe a arreata.
+
+Ia já a abrir a bocca para dizer--«uma!»
+
+--Alto! fez o Thomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
+festas ao animal.
+
+E pôz-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
+pouco a fital-o de frente, «para que o animal o conhecesse.»
+
+--«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!
+
+O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a
+lembrança porventura adormecida d'aquelle nome despertara subitamente...
+
+--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
+p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casaes nem p'r'o logar. Assim. Eh! Eh!
+
+E afastou-se para o lado, aguardando.
+
+Uma anciedade dominava n'aquelle momento os do grupo; o Thomé pôz-se a
+roer as unhas, nervoso...
+
+--Então você porque espera? perguntou.
+
+Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:
+
+--Á uma!...
+
+O Thomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
+esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da mão direita...
+
+--...ás duas!
+
+--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Thomé.
+
+E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.
+
+--...ás tres!
+
+Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
+gargalhadas! O Thomé vencera: corriam todos a abraçal-o, affirmando que
+o caso era para foguetes.
+
+--Viva o sr. Thomé! Viva o «Sultão»! Aquillo é que é burro!
+
+--Aquillo é que é amigo, hão-de vocês dizer!--emendava o Thomé a rir.
+Tenho-os com dois pés, que não valem metade...
+
+--Oh! sr. Thomé! protestavam alguns.
+
+--Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que
+não é com vocês.
+
+E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fóra, o «Sultão» corria
+que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
+fundo, na poeirada immensa da estrada, como que nimbado n'um resplendor
+de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
+agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casaes...
+
+Quando o Thomé chegou a casa, offegante, a suar, cheio de gestos e de
+palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava á
+porta do antigo cortelho, n'uma grande impaciencia, um «rap-rap»
+continuo na soleira.
+
+--Venham vêr! Venham cá vêr! berrava o Thomé para a vizinhança. Ó
+Antonio! Ó compadre! Ó Maria Engracia!
+
+Ás janellas assomava gente, perguntando se era fogo.
+
+--Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
+Josepha! Josepha! cá temos o burro, este demonio. Assoma.
+
+Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effusão do lavrador.
+Abraços? E até beijos. Aquillo era um thesoiro perdido que reapparecia
+alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
+homem teria endoidecido...
+
+--Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda d'ahi pelos saccos. São
+só dois. Ó Josepha! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
+avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.
+
+E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
+pulo.
+
+--Ah!
+
+A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafão.
+
+--Anda, mulher, põe aqui deante de mim. Avia-te.
+
+Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma observação, um conselho,
+qualquer coisa de tomo...
+
+--Adeus, minhas encommendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
+aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.
+
+--Nome do Padre...
+
+--Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!
+
+--Nome do Padre, nome do Filho...
+
+--A caneca! Venha de lá agora a caneca!
+
+--...nome do Espirito Santo!
+
+--Passa bem, ó mulher,--concluiu ás gargalhadas, entre as gargalhadas
+dos demais.--Ouves? Quando o Manoel vier dos ninhos, esse maroto,
+manda-m'o ás eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!
+
+E lá parte, veloz como uma setta. Já de longe volta-se do repente:
+
+--Josepha! ó Josepha! n'esse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
+«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
+não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.
+
+E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
+direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, elle lá vae n'uma
+corrida, sumido n'uma onda de poeira, até chegar ás primeiras «mêdas».
+
+--Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
+andarmos de mal ha 15 annos isso acabou-se!
+
+E o Thomé atravessou a eira sempre a cavallo no «Sultão», caneca de
+vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.
+
+ * * * * *
+
+Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manoel no meio
+dos saccos, e adeante do Manoel o bello garrafão--sem pinga...
+
+Pelo caminho, a todos o Thomé contava a historia, a rir como um perdido,
+n'um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas.
+
+--Colheita rica, sim senhores, um colheitão!
+
+E parando á porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
+remexendo o alguidar de barro:
+
+--Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo.
+
+...Ao mesmo tempo que o Thomé, abrindo os braços, respondia reclamando
+as sopas:
+
+--Amen!
+
+
+
+
+ULTIMA DADIVA
+
+_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.
+
+
+Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
+bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de fructas e hortaliças,
+fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, communicando
+com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
+pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a
+nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga magnolia
+gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
+janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que
+lhe pendiam dos beiraes enlaçadas com as trepadeiras.
+
+De modo que na primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
+melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnolia
+toda se toucava de flores fazendo docel á vivenda, aquelle pequeno canto
+d'horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e limpida, tomava a
+feição ingenua de uma delicadissima tela de paizagista, aquarella
+deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos na poesia rustica da sua
+simplicidade.
+
+No verão, ás horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
+paizagem adormecida e turva, e as arvores da estrada não davam sombra
+que aliviasse, aquella tranquillidade com que o José Cosme ressonava sob
+o alpendre, braços nús e peito nú, o chapeirão de palha grossa
+resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cançados
+e cheios de poeira, flagellados por aquella estiagem inclemente.
+
+--Ó tio José!--gritavam-lhe do caminho.--Tio José! Ó regalado!
+
+Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses
+deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.
+
+Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas
+não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
+cultura--tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
+de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com symetria agradavel,
+verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
+castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
+acaçapada no chão humido das regas, até ás trepadeiras das vagens que
+enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
+esmero, formando massiços de verdura sombria que os casulos esguios dos
+feijões crivavam de alto a baixo. Arvores, apenas as precisas para
+aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
+das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de fructas nas
+estações competentes--cerejas, peras, maçãs, pecegos mesmo.
+
+Poucas flôres: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
+lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
+cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
+por signal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
+goivos. Uma vez por anno, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
+ia leval-os em braçado á sepultura rasa das suas defunctas.
+
+Exactamente n'essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a funebre
+visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
+bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
+chorar. Estava nas suas horas tristes, n'essas horas em que as energias
+todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagello de uma
+dôr violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
+morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lagrimas. De modo
+que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades custavam o dobro a
+supportar. Abstracto, n'uma especie de entorpecimento idiota, percorria
+sem descanço todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, automato.
+Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma quietação attenta, logo um
+gesto brusco desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um fundo
+gemido, e punha-se de novo a andar.
+
+--Vens ou não vens?--perguntava elle, evocando com dorido esforço a
+imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando apparecia era como se
+fosse um relampago, apagava-se logo.
+
+N'esta lucta com a sua dôr as horas iam passando longas. Era já tarde,
+talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrellas, pois que o luar
+nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o largo silencio da noite,
+apenas cortado, ao longe, pela melopeia somnolenta do rio.
+
+Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
+viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se n'um recanto
+onde a sombra era mais densa.
+
+--Temos historia...--resmungou comsigo o rapaz.
+
+E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, á espreita. Não desconfiou
+que fosse o José Cosme: aquillo era mariola de larapio que vinha por ali
+fazer das suas. Agachou-se então, e poz-se a procurar uma pedra. Apanhou
+duas, para o caso de não acertar a primeira.
+
+--Cão do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
+pedra.--Espera que eu te arranjo...--E já ia arremessal-a na direcção do
+canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
+logar onde o rapaz estava.
+
+--Melhor! Mais a geito ficas...
+
+E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava,
+para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
+hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
+defronte d'elle, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
+O vulto parecia, com effeito, ser o d'elle; lembrava-se agora de ter
+ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
+filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aquelles carreiros
+por onde ellas tinham andado.
+
+Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
+deixou cair as pedras e perguntou:
+
+--Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luiz... Vossemecê que tem?
+
+O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:
+
+--Doe-lhe alguma coisa, ó tio José?
+
+--Não dóe, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
+Bem me bondam as minhas afflicções. Vae com Deus, vae.
+
+O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o José
+Cosme dera áquellas palavras, e retirou-se silencioso, quasi aterrado
+agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
+a pedrada.
+
+No emtanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruido que não
+fosse o das aguas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadario,
+ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou um somnambulo.
+Ás vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
+sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. N'isto, de uma vez que
+passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir passos.
+
+--Ó Thomaz!
+
+--Sr. José!--respondeu o que entrava, n'uma voz que era mesmo voz de
+barqueiro.
+
+O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
+beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontral-o a pé, elle
+então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.
+
+--Como tinha de madrugar...
+
+--Pois são horas de largar, sr. José; isto vae p'r'as duas. Não tarda
+que comece a amanhecer.--E como estavam á porta de casa:--Será bom
+acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vae.--Iam á vela
+se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.
+
+Mas á ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
+sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
+violentamente.
+
+O barqueiro tentou animal-o, constrangido.
+
+--Então, sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
+homem!--E tentava levantal-o, pol-o de pé.--Limpe lá essas lagrimas, que
+vae affligir o pequeno! Ou quer que elle vá a chorar todo o caminho?
+
+O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e poz-se a enxugar os
+olhos com a manga da camisa.
+
+--Pois então levante-se lá.--E segurou-o com força por baixo dos
+braços.--Assim! Lá porque o pequeno vae para o Brazil não fique
+vossemecê a pensar que o não torna a ver.
+
+Mas era isso mesmo o que elle pensava...
+
+--Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno--concluiu
+a chorar o José Cosme.
+
+--Scismas! lembranças que veem á gente quando está afflicta. Mas ha-de
+vel-o que o não ha-de conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno menos anno,
+apparece-lhe ahi rico...
+
+Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que desejava
+era que voltasse e que elle ainda fosse vivo só para o abraçar.
+
+Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o José Cosme que
+se animasse para animar o pequeno--recommendava o barqueiro.
+
+--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos lá com Deus! Com'assim..
+
+E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito á porta para chamar a
+pequeno. Não havia remedio, tinha nascido em má hora, havia de ser
+desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde
+cama o filho dormia profundamente. Que dôr, ter do o acordar! Vieram-lhe
+tentações de mandar embora o Thomaz e deixar dormir a creança. Quem sabe
+se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquillidade
+d'aquelle somno! Não tinha coragem para o acordar, fazel-o vestir: era
+quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o tecto
+paterno... O ultimo somno! o ultimo somno!
+
+--Ainda se o deixassemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste.
+
+Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas de
+pôr o barco a andar.
+
+O José Cosme accendeu então a candeia, reccioso de que a luz o
+acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe a respiração.
+Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
+baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o, sobresaltado como se fosse
+praticar um grande crime:
+
+--Filho, olha que são horas, meu filho...
+
+Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
+estonteamento do somno, cerrando os olhos áquella hostilidade viva da
+luz, o pae agarrou-se a elle n'um abraço, e ambos romperam a chorar.
+
+--Adeus, pae!
+
+--Adeus, filho!
+
+Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar á porta, avançou para desatar
+aquelle abraço.
+
+--Olhe que é tarde, sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!
+
+O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do
+alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto.
+
+--A andorinha, filho?--perguntou o José Cosme.--Deixa que eu hei-de
+olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado.
+
+Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era só um
+instante. Lá estava ella, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
+tocou com as pontas dos dedos...
+
+--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a.
+
+A esta palavra, o pae retrahiu os braços e tomando o filho no collo
+seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de pinho: toda
+a bagagem do Joaquim.
+
+Ao transpor o cancello o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
+soluçando:
+
+--Quando voltarás ao horto, meu filho?
+
+O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
+de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as
+arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim.
+
+Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
+sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
+humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pae desejava
+que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante d'elles, de
+modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
+divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
+fallavam alto.
+
+--Prompto?--perguntou ainda de longe o Thomaz.
+
+Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.
+
+Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os soluços dos
+dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
+angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o
+barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram á beira do rio,
+apressou-se a dizer para o pequeno:
+
+--Ora bem, Joaquimsinho, beija a mão a teu pae e dize-lhe adeus.
+
+Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
+o filho:
+
+--Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te
+veja ir.--E fez-lhe prometter que havia de resar sempre a Nossa Senhora,
+elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem fazia a
+gente feliz.
+
+--Não te esqueças d'ella mais da alminha de tua mãe e de tua irmã...
+
+Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pae,
+beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
+Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
+desvairado:
+
+--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia!
+
+E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na cabeça, nas
+mãos. Até que o Thomaz teve de intervir, era preciso despegar d'ali por
+uma vez.
+
+--Com'assim, sr. José, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com
+força puxou-o para elle. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
+Cosme que supplicava de mãos postas:
+
+--Só um instante, só um quasinadinha, Thomaz!--E o pobre pae caia de
+joelhos na areia, n'uma attitude de supplica.
+
+Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
+ao colo a creança.
+
+--Rema!--intimou em voz rapida.
+
+O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
+_plhau_! sobre a agua.
+
+Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violencia desesperada, ao
+ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.
+
+--Adeus, Joaquim, adeus!
+
+--Adeus, pae!
+
+--Adeus!
+
+Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
+direcção do barco:
+
+--Thomaz! ó Thomaz! por alma de teu pae faz lá alto um instante.
+
+Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resolução, mas já agora era melhor
+ficar sósinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
+arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O Thomaz
+que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
+velho nadador destemido, com meia duzia de braçadas ganhou-lhe de
+prompto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ancia de esperar o pae,
+de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o José Cosme entregou
+ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:
+
+--É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!...
+Reza-lhe, sim?!
+
+E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
+chegasse o pequeno para o ultimo beijo...
+
+Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a
+lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
+em região mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro da noite,
+apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar desalentado
+do triste nadador, á voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
+longe--longe como se fôra do Infinito! a voz lacrimosa do pae--com o seu
+funebre _adeus_! que elle bem sabia ser eterno...
+
+ * * * * *
+
+...Só quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na distancia,
+diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das aguas,
+fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar á
+praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
+tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudissimo do Polo,
+na direcção do horto silencioso...
+
+
+
+
+COMEDIA DA PROVINCIA
+
+_A Alberto Braga_.
+
+
+I
+
+PRELUDIOS DE FESTA
+
+
+Esse anno, a festa da senhora das Dôres devia ser coisa de estalo. A
+começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e
+decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
+festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
+de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
+representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
+entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
+tivesse tempo de o acabar.
+
+--Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de lêr a carta. E
+correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que «no seu anno» a _coisa_
+fosse de arromba! Depois, era um despique. No anno atraz, o José da
+Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
+uma peça que era um castello a dar tiros, assim: Fff! Pum!
+
+--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o
+Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
+arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
+apresentára. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na villa, ninguem
+fallava n'outra coisa.
+
+--Então você já sabe?
+
+--Já sei. A cegonha.
+
+--A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro...
+
+--O que eu quero vêr é o camello. Feio bicho, já viu?
+
+--Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adeante do _Valente Rei
+Arauto Fiel_.
+
+Enganava-se.
+
+O escrivão da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
+aferidor.
+
+--Até que emfim, amigo Alves. Até que emfim vou ter o gosto de o ver
+arder.
+
+O outro não percebeu. «Que se explicasse...»
+
+--Um urso, no arraial queima-se um urso.
+
+--Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Tambem se lá
+queima um burro.
+
+Ás duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
+ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
+predilecção.
+
+O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
+dentro.
+
+--Põe a tranca, se fôr preciso.
+
+Mas então era cá da rua:
+
+--Ó sr. Antonio!
+
+E na porta as pancadas ferviam:
+
+--Truz! truz! truz! Sr. Antonio!
+
+--Éna! c'um raio de diabos!--fazia lá de dentro o homem, furioso.
+
+--O senhor faz favor? É só uma palavrinha.
+
+Á janella assomava então o Antonio Fagote, com os oculos na ponta do
+nariz e a carta do foguetorio na mão.
+
+--O camello? perguntava zangado.--O urso?! Camellos me parecem vocês,
+ouviram? O que o homem diz é isto.
+
+E lia a carta, rematando:
+
+--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
+macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava
+os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra!
+
+E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
+fosse elle burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar
+animaes, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, ahi
+tinhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
+José da Loja.
+
+--Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com
+aquelle espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
+tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negocio...
+
+--Farofias! tinha dito o José da Loja. Farofias!
+
+--Pois se m'o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
+soube.
+
+E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
+rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
+proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
+Depois, bom olho para a caçadeira. D'uma occasião, que foi preciso dar
+montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi elle que deu voz de
+preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh'a deu? A phrase ficou
+lendaria:
+
+--Como-te a alma se te mexes!
+
+--E o outro não se mexeu, que elle comia-lhe a alma! commentavam
+convictos.
+
+Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
+figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava com
+60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora. Não era
+nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
+largura de hombros que era o principal indicio de força. Pescoço curto.
+Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremettia com força,
+conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n'aquelle movimento sacudido.
+
+--Safa! que isso ahi é de ferro! diziam os rapazes. D'uma canna, hein?
+
+Mas bom homem, d'uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para
+se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma
+testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu lá da cadeira,
+foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava sério quando
+promettia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:
+
+«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
+como o pintavam.»
+
+--Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
+Fagote. Do que elle é capaz sei eu.
+
+Mas n'esta occasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
+lembrava uma: ter sido juiz o anno atraz!
+
+Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz
+este anno.
+
+--Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa
+em casa foi elle. Elle é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
+«entrego-te a vara, sempre quero vêr como te arranjas...»
+
+--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das idéas do seu
+Antonio.»
+
+--Sejam idéas, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
+assim me Deus salve!
+
+--Mas quem t'o disse, homem? Quem foi que t'o disse?
+
+--Quem m'o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da mão direita.--Foi
+este mindinho. Não falha.
+
+E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
+levar á parede. Agora levava! A festa ha-de se fazer, e festa de
+arromba; _nanja_ como a d'elle que só levava seis anjos, e não sei
+quantos andores, acho que meia duzia!»
+
+--Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio d'um homem!
+Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
+corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
+olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos, compungida de
+ver assim o seu Antonio.
+
+E poz-se então a renovar ordens, recommendações que a mulher já estava
+farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
+atar das sangrias!»
+
+--Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel á cata d'elles por
+esses povos á roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos.
+
+A mulher contraveio:--«dois seriam bastantes...»
+
+--Mau que ahi principiamos nós!--E poz-se a assobiar e a rufar com o pé
+no soalho, arreliado.--Tres é que hão de ser. Não quero cá dois, porque
+dois eram os do _outro_, o anno passado.
+
+A esta razão, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do silencio da
+mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o _outro_.
+
+--Agora não fanfas tu... insistiu elle, risonho. É assim mesmo que eu
+gosto. Signal é que tens vergonha. A _outra_ tamem não é mais que a ti.
+
+A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.
+
+--Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada.
+
+--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
+de casarem...
+
+--E olha que depois de casada... insinuou a sr.^a Luiza, de venta no ar,
+enfiando a agulha. Cala-te bocca.
+
+Façamos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que não se calou.
+Mas n'este particular, o resto do dialogo convém que se omitta, mesmo
+porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal á mulher do José da
+Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas n'isto não lhe faço a
+vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem sabe que eu sou
+conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que por uma associação
+logica de idéas a conversa veio parar em vitellas...
+
+--É preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o Antonio
+Fagote. Sem vitella é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.
+
+Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio. De
+mais a mais sabia-se que o prégador dava o cavaco por um bom pedaço de
+vitella assada.
+
+--O prégador é que arrasta ahi muita gente, observou a sr.^a Luiza. Para
+um boccado de sentimento não ha como elle. Quando foi das missões, o que
+elle dizia d'aquelle pulpito abaixo! É quanto se póde!
+
+--A mim o devem, se cá vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
+queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha de ir a umas caldas, e
+14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle.
+
+--Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionario...
+
+Estavam n'isto, quando bateram á porta. O Fagote foi ver á janella.
+
+--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.
+
+Era a creada da mestra regia, foram abrir.
+
+--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a sr.^a
+Luiza, e este bilhetinho para o sr. Antonio.
+
+Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o Antonio Fagote foi
+accender uma luz.
+
+«Que conversassem, emquanto elle via se tinha resposta.»
+
+--Muito calor, começou a sr.^a Luiza.
+
+--E então a casa da sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
+a creada.
+
+E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.^a Luiza, ao ouvido, de que
+lhe queria uma palavrinha.
+
+Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n'uma
+serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.
+
+--Está se aqui bem! exclamou consolada a sr.^a Luiza.
+
+--Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
+um favor, disse atrapalhada a creada.
+
+--Se estiver na minha mão...
+
+A outra começou: «A sr.^a Luiza estava ao facto do que se dizia d'ella
+com o criado do inglez. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
+Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
+mentira.»--Estamos para casar! é o que estamos! «Elle já mandara vir os
+papeis lá da terra, não podiam tardar».--Está claro que eu tenho
+affeição ao rapaz...
+
+--Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.^a Luiza, para
+dizer alguma coisa.
+
+--Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas é ahi que eu quero
+chegar.
+
+--Que experimente o limão azedo, aconselhou a sr.^a Luiza. É milagroso
+nas quartans. Não se afflija, que isso não ha-de ser nada.--E
+dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
+para matar quartans, pensando que era o que ella queria, afinal.
+
+--Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recáia. Mas é por via
+d'isso que eu lhe quero pedir um favor.
+
+Chegou para ella o banco de cortiça e confidenciou:
+
+--Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
+qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja, n'aquelle
+estado! inda não ha nada que sahiu da cama.
+
+--Pelos modos, os rapazes vão este anno longe pelo pau, disse com pompa
+a sr.^a Luiza.--Muito longe!
+
+--Ouvi que á Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo com quem
+elles se vão metter, o Canellas! Se desconfia, vae-se para lá de clavina
+e faz alguma desgraça. Mais elle, que é atrevido!
+
+Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde elles iam pelo pau é
+que ella não sabia.
+
+--A outra noite é que para ahi estiveram a combinar, o meu Antonio mais
+os mordomos. Não ouvi.
+
+--Pois é lá! exclamou a creada. Mas o que eu queria, sr.^a Luiza, é que
+o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,--supplicou afflicta a
+rapariga.
+
+--Lá isso, esteja descançada, não vae! prometteu com grande auctoridade
+a sr.^a Luiza.--Digo-lhe eu que não vae. E se não quer mais nada...
+
+--Era só isto, muito agradecida á senhora.
+
+N'esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a
+testa.
+
+--Ora pois então aqui vae a resposta. Má letra, a sr.^a mestra que
+desculpe. Mas emfim que leia como podér.
+
+--Então muita massada co'a festa? inquiriu solicita a rapariga.
+
+--Muita. Faz lá ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
+os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquillo. Ahi está que já
+hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.
+
+--Chh! fez admirada a rapariga.
+
+--Pois é verdade. Fóra o mais! fóra o mais! Nicas! E depois d'uma
+pausa:--Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que ha muita coisa
+de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
+uma horta, além no prado.
+
+--Muita gente... disse a rapariga.
+
+--Muita! e depois de certa aquella... Á meza talvez vinte e quatro
+pessoas...
+
+A rapariga benzeu-se!
+
+--Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o Antonio
+Fagote.--Olhe: o prégador...
+
+--Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.
+
+--É. Não o ha melhor. Missionario...--explicou o juiz. Pois o prégador,
+um; com mais quatro padres, cinco; com quatro musicos, nove; o compadre,
+os pequenos, dois, doze.
+
+--A comadre não vem! que pena! fez do lado a sr.^a Luiza.
+
+--Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
+Antonio Capador, quatorze. O Telles, é verdade, Telles escrivão, quinze.
+(_Pausa_). Com mais alguem que venha, vinte e quatro. Póde-se contar com
+mais de vinte e quatro pessoas á mesa.--E a rir-se: Mas ha-de sobrar
+muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?
+
+--Isso então é uma praga! exclamou a sr.^a Luiza. Até parece que veem do
+chão assim... E collocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
+Assim...
+
+Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--«Adeusinho! o que havia de
+estimar é que tudo corresse como desejavam.»--E se fôr preciso qualquer
+coisa... offereceu-se. As minhas fracas posses...
+
+--Obrigada. Não faltarão occasiões. Muitos recadinhos á senhora
+mestra...
+
+--E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio
+Fagote.
+
+E então explicou á mulher: «Aquelle bilhete da mestra era a mandar-lhe
+perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».
+
+--Diz que o irmão, o brazileiro, assim que souber que ha macaco de fogo
+no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
+ponho ao pallio. Como tres e dois serem cinco.
+
+A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mandára.
+
+--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brazileiro. Sempre é
+homem que sabe dar o merecimento ás coisas... Mas o diabo agora é o
+macaco! ponderou muito apprehensivo. Está para ahi meio mundo á espera
+do macaco...
+
+A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
+bicho não viesse.
+
+--Táte! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--Dá cá
+d'ahi a minha vestia. Manda-se uma «parte» ao homem.
+
+--Tambem póde ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje é que não,
+aquillo já está fechado, o fio.
+
+--Vae ámanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
+accrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que accrescento, por via
+das duvidas.
+
+Então, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do homem:
+
+--Ouves? já se não póde ir ao lameiro do Canellas pelo pau.
+
+--Han? qual pau?
+
+--O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.
+
+Elle riu-se.
+
+--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
+
+E como ella ficasse estupefacta.
+
+--Nunca ouviste dizer que se põe o ramo n'uma porta e que se vende o
+vinho n'outra?
+
+--Ah!...
+
+--Mas são verdes. Pois ahi é que vae a historia, e cantarolou,
+satisfeito:
+
+O ladrão do negro melro
+Onde foi fazer o ninho
+
+ * * * * *
+
+Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãsinha o
+Antonio Fagote sentiu bater á porta, de rijo.
+
+--Vae lá ver o que será, ó Luiza!--disse da cama o Fagote sobresaltado.
+
+Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.
+
+--Vista-se, homem! Ande d'ahi depressa! Vista-se.
+
+--Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado.
+
+--Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.
+
+--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguem á morte?
+
+--Peor do que isso! resumiu o José Manco.
+
+--Peor do que isso, então não sei...
+
+--Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.
+
+O Antonio Fagote vestiu-se á toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
+de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
+chapeu.
+
+--Prompto! cá estou!
+
+--Venha comigo, avie-se. Abotôe as calças, se faz favor.
+
+E rodaram rua acima.
+
+--Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote.
+
+--Aguarde, que já vae saber. Não tarda.
+
+De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja.
+
+--Roubaram Nosso Pae, aposto?!
+
+--Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos
+e veja vossemecê isto, esta porcaria!
+
+E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
+na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Varios
+desenhos de animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas, aos
+coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farofia_!
+
+Por um pouco, Antonio Fagote, de mãos atraz das costas, amarasmou-se,
+com os olhos fitos no papel.
+
+E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n'uma
+escamação, aos labios do Antonio Fagote aflorou apenas um sorriso.
+
+--Hum! resmungou. Bem sei...
+
+--Não tem que saber,--fez o outro.
+
+--O patife do Jose da Loja...
+
+--Pois está visto.
+
+--Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande socego o
+Fagote.--Arranque lá isso, e venha você d'ahi, se quer ver.
+
+O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
+era melhor botar o patife ao desprezo.
+
+--Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e
+mettendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim!
+
+Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
+arrancados do codigo penal. «Que não fosse agora pagar por bom
+semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a offensa, com
+elle José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de
+burro não chegam ao céo».
+
+--Bem, levará só uma lambada, attendendo a que mais ninguem viu isto,
+disse n'um grande ar de condescendencia o Fagote.--E você vá lá regar a
+horta.
+
+Foi-se d'alli direito á casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
+Poz-se á cóca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
+d'aquella demora.
+
+--Grande cão! grande cão! monologava.
+
+Até que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
+casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo Antonio
+Fagote senão quando se viu ao pé d'elle, cara a cara entre o balcão e a
+porta.
+
+--Ó sr. José.
+
+--Dirá.
+
+--Venho aqui saber d'um caso.
+
+Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh'o pôr ao pé
+da cara:
+
+--Foi o sr. José que fez isto?
+
+O outro olhou-o, attonito.
+
+--Sim! se foi o sr. José que fez isto?
+
+--Nada, eu não senhor.
+
+--Jura pela boa sorte dos seus filhos?
+
+Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
+
+--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.
+
+O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
+
+--É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.
+
+--É outro, que outro?!--disse arrogante o José da Loja, n'um impeto,
+barriga panda sob o casacorio de lona.
+
+--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu
+tambem não digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em pedaços, e
+atirou-lhe com elles á cara aparvalhada.
+
+Sahiu d'alli e foi _matar o bicho_, tranquillamente, como quem vem de
+cumprir uma obra de misericordia.
+
+ * * * * *
+
+Na vespera da festa, um sabbado ás 10 horas da manhã, o fogueteiro
+passava emfim n'um deslado da villa direito á capella da Senhora das
+Dôres. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.
+
+--O fogueteiro! chegou o fogueteiro!
+
+Por toda a villa passou um longo fremito d'enthusiasmo quando se ouviu o
+foguete. Deshabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
+O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
+a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
+ordens já dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro ruido da
+festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saiam esbaforidas
+as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o sr.
+fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
+que queria para o jantar.
+
+Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa,
+perguntando a todo o mundo se o que estoirára tinha sido effectivamente
+um foguete.
+
+--Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim
+senhor! promettia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
+
+--P'ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E então isto? e punha-se a
+girar de volta com o braço--o que é fogo do chão?--Mas tinha-se visto em
+calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
+tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
+caso tinha estado sério!
+
+Mentia.
+
+--Hein? mas não o enganavam?
+
+--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia elle a atravessar as
+eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!
+
+O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou cá da
+rua:
+
+--Senhor abbade! ó senhor abbade!
+
+--Que é lá?
+
+--Chegue á janella, faz favor?
+
+--Mas está muito sol, entre você, se quer.
+
+--Só duas palavras:
+
+O abbade, um rapaz novo, assomou á janella.
+
+--Que é?
+
+--Chegou o homem!
+
+--O homem! que homem?
+
+--O fogueteiro, quem ha-de ser?
+
+--Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E você vae ter com elle?
+
+--De cara.
+
+--Faz-me então um favor?
+
+--Dirá.
+
+--Dê-lhe recados meus.
+
+E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no
+seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
+aquillo tinha sido o fogueteiro.
+
+--Grande homem! com seiscentos diabos!
+
+Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
+machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
+fogueteiro, com furia.
+
+--Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
+amigo, seu grande amigo».
+
+--Rapazes! gritou elle então. E tirou o chapeu da cabeça, muito
+solemne.--Viva o senhor fogueteiro!
+
+--Viva!
+
+...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
+que o Antonio Fagote--chorou!...
+
+
+II
+
+TYPOS DA TERRA
+
+
+Desembocaram n'um largo. Era o ponto mais central da terra,--«_a
+praça_.»--Aqui e alli, ao acaso, algumas arvores enfezadas, quasi tudo
+olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
+grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
+com casas em volta,--o que na villa havia de melhor em construcções.
+Ficava ao meio o pelourinho, exotico, mutilado, d'uma pedra grosseira e
+muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de
+ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva
+sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n'um
+grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
+tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
+_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estylo,
+sem gosto, sem cal. Algumas _pedras d'armas_ em velhas paredes
+decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam aristocracias
+remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a negrura
+chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem, fazia
+tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruinas.
+Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio,
+d'uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
+sete: aquelle--«_estafermo_»--é que não andava nunca direito. De dia
+ninguem o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando n'um mostrador
+sem lettras, d'uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
+alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrazado ora adeantado,
+dando meia noite quando eram quatro da tarde, e meio dia mal despontava
+o sol.
+
+Eram as sete. Áquella hora é que os--«_figuros_»--da terra, quasi tudo
+empregados publicos, vinham para o largo, á fresca. Alguns
+passeavam,--seu fraque, sua bengala de canna com castão, chapelinho á
+banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
+outros do mesmo feitio cavaqueavam,--colletes desabotoados, perna
+cruzada, chapeu para a nuca, ás tres pancadas. Um de pera comprida, no
+degrau superior, contava facecias. Os outros riam alarvemente,
+chamavam-lhe intrujão. Algumas--«_madamas_»--pelas janellas em volta,
+nostalgicas, anafadas, de claro. Á porta do estanco, em cima, havia
+outra roda,--uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
+cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quasi tudo maiores
+burocratas:--o Mello da Administração, o Antunes da Camara, o Escrivão
+de Fazenda, o Rodrigues do Real d'Agua. E outros. Á porta, perfilado e
+muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexivel, com a sua
+cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
+feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva, muito desempenado
+quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
+levantar vôo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia fallar deante d'elle
+n'um rato morto, n'uma carocha. Aquillo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
+ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:
+
+--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
+lanço fóra.»
+
+E se riam, elle exasperava-se: não comprehendia como podessem fallar em
+taes coisas... De resto, bom sujeito, finorio para o seu negocio,--um
+poucochinho beato,--diziam-lhe.
+
+--Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
+a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.
+
+E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados,
+um poucochinho sibiladas nos _ss_.
+
+--Cigarros, Ernestinho, um vintem d'elles. Querem-se dos de Lima,
+d'esses fortes.
+
+Declarou que tambem havia dos «especiaes.» Algum senhor queria? Tinham
+chegado tres massos, p'ra ver. Oito por um vintem.
+
+--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorisados com a idéa de dar um
+vintem por oito cigarros.--Guarde-os!
+
+«O senhor engenheiro, quando vinha á villa, perguntava-lhe sempre por
+elles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»
+
+--Olha o figurão!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre ha muito
+idiota! forte cavalgadura!
+
+O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. Á
+porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.
+
+--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
+outros.
+
+Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
+silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
+que n'um gesto acanhado, receoso, fazia menção de offerecer:--«alguem
+era servido?»
+
+Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licôr, e das botijas de
+genebra, Ernestinho sommava a conta. Era já taluda.--«E vão dois e dois
+quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
+receberia!»--E suspirava, arrumando os massos encetados, sob o olhar
+tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
+alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d'um caixote forrado
+a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados.
+Mas resignava-se, que não tinha outro remedio. Eram os ossos do
+officio...
+
+Cá fóra tinham dado fé, acotovellavam-se chamando asno ao
+Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não ha
+dinheiro, ha-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
+pagava-se. Mas não senhor! aquella besta mostrava sempre má cara, o
+alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o procuravam, que o
+preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia...
+
+O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o _Agua leva o
+regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
+sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros.
+
+--Estender as pernas,--disse. Quem vem d'ahi?
+
+Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra traz p'ra deante, n'aquella
+semsaboria da praça.
+
+--Até logo. Você apparece no _sitio_, á noite?
+
+--Appareço, vou á desforra.
+
+E cumprimentando em roda:
+
+--Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto.
+
+Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.
+
+--Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
+diga _bem-haja_...
+
+Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dividas nos outros estancos.--Em toda
+a parte.--Lá em casa a familia passava fomes.--Um batoteiro de marca.
+
+Houve agitação, alguns pozeram-se de pé, outros mudaram de logares. Ia a
+passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
+novo, muito ronceiro, roendo as unhas.
+
+--Com que então... _ponha lá ao pé dos outros_?--disseram-lhe, para o
+lisongear nos seus despeitos.--Bem bom freguez!
+
+Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n'um gesto
+de martyr resignado. E não disse palavra--p'ra fallar d'aquelle tinha de
+fallar tambem d'elles...
+
+Mandaram vir limonadas,--tres limonadas!
+
+--Ahi vão trinta réis!
+
+Diabo! era preciso animar aquillo. Assim não tinha geito. E pozeram-se a
+fallar do tempo, das moscas, d'aquelles idiotas que andavam na praça a
+dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar tres limonadas,--e
+sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.
+
+O Ernestinho deu dois passos fóra da porta, e chamou para a varanda,
+onde grandes mangericões floriam:
+
+--Ó Emilia! Emilinha!
+
+A mulher assomou, gorducha, muito molle.
+
+--Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa.
+
+As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil encontrar
+uma collecção d'asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
+grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
+agora para cantar. Lá andava elle. Volta meia volta,
+
+_Vai alta a lua na mansão da morte_
+
+com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
+antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
+tinha uma coisa boa--a caligraphia.--Um talhe de letra
+bonito,--confessavam.--E as calças, hein? reparem vocês n'aquellas
+calças, vae flammante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
+do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, affavel. Corresponderam todos,
+muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota,
+palerma, pechisbeque...
+
+Sósinho, n'uma lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céo, o
+Telles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Ás vezes
+quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo entre os dentes, um
+olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
+marcha, contrafeito.
+
+--Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Telles, aquelle
+telhudo? E isto:--e poz-se a imitar o escrivão.
+
+Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
+Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana ás turras a um logogripho
+em acrostico.
+
+--Isso é o Telles!--fez um que vinha da praça.--Aquillo é um intrujão.
+Na rua não é que se adivinham logogriphos. Ó Ernestinho, você ainda tem
+d'aquillo que _ferve_?
+
+O Ernestinho deixou descair o labio, não percebia...
+
+--Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas...
+
+--Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas...
+
+--Ora é isso mesmo, nem mais.
+
+--Bem sei.
+
+Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra que? Achavam caro um
+tostão...
+
+--Eram aos tres para beber uma garrafa...
+
+--Podera! Por um pataco, trinta réis levando o assucar, fazia o _Hervas_
+uma sóda,--objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.
+
+--E aquella porcaria, ó Ernestinho, e aquella porcaria amarella que
+sujava tudo de escuma?
+
+Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
+seiscentos diabos!
+
+--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
+toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.
+
+E com um sorriso de desdem, exclamou:
+
+--O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...
+
+Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a
+palavra--«_pulha_»--pronunciada com força. Sahiram em tropel, ficaram só
+tres.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de proposito!
+Ficava exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella
+sucia lhe chupava o refresco:
+
+--Tó Russa! já lá vae esse tempo.
+
+Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma bandeja:--Que
+provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas parecia-lhe que devia
+estar bom...
+
+Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para
+aquellas coisas.
+
+--Obrigado, ó Mello!
+
+--Obrigado, ó menino!
+
+E os dois sairam de rompante, chamando _pato_ ao Mello, rindo-se d'elle
+e limpando os beiços.
+
+Quando o Mello ia sahir,--a ver o que ia na praça,--o Ernestinho, muito
+cortez, objectou-lhe que faltavam trinta réis:--Se alli não tinha,
+depois. Isso era o mesmo...
+
+--Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?--perguntou desconfiado
+o Mello.
+
+--Do assucar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado
+acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Mello desculpe.
+
+Não tinha que desculpar; sómente notava que aquellas coisas diziam-se no
+principio.--E sahiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Tres
+vintens não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...
+
+Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
+grande roda, commentava-se. O Mello quiz informar-se:--que lhe
+contassem--«_o escandalo_».
+
+Ora! não fôra nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
+correspondencias na _Voz do Districto_ eram escriptas pelo Albano.
+Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
+é casmurro, teimou:--que não acreditava, ainda assim!--Vae o outro
+chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi está!
+
+--Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?--quiz saber o Mello. Aquillo
+ha-de ser escripto por alguem, está claro.
+
+Dez réis pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem sabiam
+elles...
+
+--Quem, então?
+
+Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
+dava a sua palavra de honra que tambem não era elle, jurava-o. Houve um
+que se lembrou se aquillo seria do padre Mendonça.
+
+--Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se mettesse
+n'isso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga...
+
+Mas o da idéa insistiu, renitente:--havia alli suas coisas que o faziam
+lembrar, certas facecias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
+_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.
+
+--Pois se é elle, que se regale, póde limpar as mãos á parede. Mente
+como um alarve, mente da primeira linha até á ultima!--disse firmemente
+o verdadeiro auctor das correspondencias. Olhem o que elle diz do juiz
+de direito, só calumnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
+pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.
+
+De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma
+infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma
+coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
+havia duas amizades leaes, que era tudo uma impostura...
+
+Houve um silencio significativo, talvez de approvação.
+
+--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
+as correspondencias com o pseudonymo de _Aramis_. Vejam vocês aquellas
+gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se lá fazer politica?!
+Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor, discuta-se o
+homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
+fundilhos das calças; ninguem quer saber se os creados lhe param em casa
+ou se não. E depois, aquellas allusões á família, aquellas piadas á D.
+Engracia, pobre velha...
+
+--A quem?--interrogaram uns poucos. Á Dona quê?
+
+--Á D. Engracia, está bem de ver. Aquella beata que fazia piugas de lã
+aos missionarios é ella. Presumo eu que é ella-—fazia o Nunes das
+correspondencias com um grande ar de supposição. Eu cá foi para onde
+deitei.
+
+Os outros não. E como o das correspondencias tinha promettido explorar a
+chronica beata, aguardariam mais informações. Suppunham, no emtanto, ser
+com a D. Joanna, a do--«_chá de herva cidreira_.»--Outra canalhice! A D.
+Joanna, para festejar os annos da filha, convidára tudo, _lazarões e
+penicheiros_, não fizera politica. Depois foi aquella tareia que se
+viu:--que o chá era herva cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
+que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora isto não se diz, a
+pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cór phrases inteiras da
+correspondencia. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu
+telegrammas de... amor_.--Uma facecia de mau gosto alludindo ao Proença
+telegraphista. Depois do que por ahi se diz, é forte... Que afinal, quem
+sabe lá? Entre os dois que diabo póde haver? Namoro?
+
+No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:
+
+--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amelia é uma rapariga séria...
+
+Riram ás gargalhadas, foi um barulho com a tosse.
+
+--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Accommodem-se lá com o _banzé_,
+vocês deixem fallar,--tornou o Nunes, formalisado. Quando digo uma
+rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a
+phrase, entalado,--por exemplo, que ella não é capaz de receber ninguem,
+alta noite, lá pelos quintaes, como o tal das correspondencias quer
+fazer suspeitar.
+
+Iam replicar-lhe, mas elle atalhou:
+
+--Chama-se áquillo ser canalha ás direitas, arre! Isto agora é fallar
+franco.
+
+Saltaram-lhe:
+
+--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o
+Alves dos Pesos e Medidas.
+
+Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
+via, pelo que se podia julgar...
+
+--Léria!--disseram todos.
+
+O Nunes parece que estava com os beiços com que mamára. Com que então,
+para elle era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
+uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!
+
+O Nunes observou modesto, quasi agradecido:
+
+--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente.
+Desconto sempre noventa por cento áquillo que vocês dizem, ahi é que
+está...
+
+--Vocês é um modo de fallar,--emendaram alguns.
+
+--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondencias,--explicou
+sophisticamente o Nunes.
+
+Calaram-se, disfarçaram. Proximo d'elles, a Amelia toda de verde, com
+guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solemnemente.
+Tiraram todos o chapeu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
+cumprimental-as, submisso.
+
+--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a
+mão:--Vosselencia como passou? A senhora D. Amelia? Obrigadissimo.
+Assim... assim...
+
+Então? que diziam áquelle calor?
+
+--Abafava-se, alli pelas duas. Que forno!
+
+--O Brazil tal e qual--reforçou o Nunes.
+
+Mas que fôra feito, que as não tornara a ver desde os annos? Uma noite
+de truz, aquillo sim!
+
+--Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi
+pena! O Abelsito andava constipado.
+
+A D. Amelia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquellas
+noitadas.--E em voz mais baixa, quasi dolente:
+
+--Depois, veio a _Voz do Districto_, aquillo chocou-a muito.
+
+--Não ha tal!--fez a mãe. Metteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a fallar,
+senhor Nunes.
+
+E por pouco que não chorava ao dizer isto.
+
+O Nunes affectou um sentimento profundo:--Era melhor não fallar n'isso,
+não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
+acabado de fallar na tal correspondencia, agora mesmo. Uma
+garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial:
+
+--Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e
+depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fôr soará. É preciso
+dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição!
+
+Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu
+desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janellas, perguntando se
+vinham d'ahi, um boccadinho até á capella, espairecer.
+
+As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho só. Ficava muito bem
+aquelle vestido á Amelia.
+
+Não podiam subir, talvez á volta.
+
+--Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quasi
+prompto, que trabalhão!
+
+Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
+risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
+Coisas de anjinhos:
+
+--Verás.
+
+Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
+vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,--homens com malhos, e
+mulheres de cestas á cabeça. A tarde descahia n'uma serenidade calma. No
+degrau de cima, o Paula, official da administração, com fama de typo de
+chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
+zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
+formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.
+
+--Tu has-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco
+Maria, um cabo que estava de licença. Tu has-de conhecer isto.
+
+O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e philosopho,
+affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas. Ao Paula
+valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
+tinha demittido, ás vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
+pedia a rir, boçalmente:
+
+--Ó Paula, aquella do _bate-bate_, canta lá.
+
+E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era
+preciso, o Fernandinho ia pelo violão.
+
+--É verdade, você que fez hoje que não me appareceu na repartição, ó
+Fernando?
+
+--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo ás vezes.
+Olhem que pergunta!
+
+Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.
+
+--Então, ó Paula...--supplicava o administrador.
+
+--Está fechado o realejo... Depois.
+
+Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sitio». Ou perder ou
+ganhar; tinha alli seis tostões que eram para um _mico_.
+
+--Mas eu não lhe dizia, sr. doutor? eu não lhe dizia hontem que a _dama_
+se negava? Eu estava mesmo a ver aquillo... Bem feito! «gramou» um
+entalão que se consolou.
+
+--Quatro corôas.--Na vespera tinha ganho um quartinho.
+
+N'esse momento passava o juiz, sósinho como sempre. Todos tiraram o
+chapeu, elle passou gravemente, cortejando.
+
+--Quem eu te quero á perna é o _Aramis_...--rosnou o Telles escrivão que
+embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda elle não
+sabe tudo...--insinuava perfidamente.
+
+--Pois o resto diga-lh'o você, diga-lh'o no _Almanach de Lembranças_, em
+verso--fez d'um lado o Rodrigues do Real d'agua.
+
+O Telles, com famas de litterato, redarguiu que não dava confiança a
+analphabetos.
+
+--E eu a brutos, sabe você?
+
+Mau! que elles lá começavam. Officiaes do mesmo officio... Ó senhores,
+lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
+o outro. Pelo contrario.
+
+O Telles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
+essa importancia, essa honra.
+
+O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão n'elle. Mas jurou que d'outra vez
+seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
+tesas.
+
+--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.
+
+Havia de dar-lh'as, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
+o gosto de dizer depois, n'um communicado, que desaffrontara as lettras
+portuguezas,--elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real d'Agua.
+
+Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se.
+
+--Não senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei
+que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
+verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
+não ha de ser aquelle _négalhé_ que o ha-de dizer. Não o julgo
+habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
+que mando para publico sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no
+peito com a larga mão espalmada, furioso, n'umas raivas, de orgulho
+triumphante.--Não roubo! nunca roubarei!--affirmou mais alto o
+Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois
+amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como
+elle!--E as palavras sahiam-lhe salivadas, violentas, por entre os
+labios espumantes, atiradas ao Telles como pedradas.
+
+Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
+Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria
+dizer.
+
+--As provas...--e metteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
+impeto:--as provas, vel-as aqui estão!
+
+Mostrou no ar a brochura verde do _Almanach de Lembranças_.--Era do anno
+que vem, tinha-lhe chegado hoje. Alli estava o Peres do correio que lh'o
+tinha entregado elle mesmo.
+
+--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem.
+
+O Rodrigues, então, affirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
+em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr. Telles, lembrara-se
+um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os annos--zás!
+versalhada para o _Lembranças_...
+
+--Era collaborador--disse o Antunes da Camara que admirava o talento de
+Telles.--Era collaborador.
+
+--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atraz da
+orelha.--Massador, massador é que elle era. Nunca lhe admittiram as
+asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondencia_ troçavam-no,
+chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
+chamava Deus para as lettras. Aquelle _Serei ousado_? é elle, sei que é
+elle. Nunca o admittiram.
+
+--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
+versos--insistiu o Antunes.
+
+O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Camara. Não lhe
+respondeu. Subiu os tres degraus do _pelourinho_, pausadamente, com
+pompa, e chamou a attenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanach de
+Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:--«Indignidade».
+
+--Em lettras bem graúdas, queiram inspeccionar.
+
+E colou ao peito o _Almanach_, voltando para fóra na pagina onde o seu
+dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto em
+epigraphe.
+
+Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que lêsse.
+
+«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanach de
+Lembranças_ do anno extincto, foram-nos remettidos pelo sr. José Maria
+Telles, escrivão.»
+
+--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Elle
+depois assignou--e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma
+complicada do Telles.
+
+Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou:
+
+«Publicámol-os na convicção de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois
+que elle os assignava.»
+
+--E então?--perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda.
+
+--«Pura illusão!»--continuou solemnemente o Rodrigues.--«Escreve-nos o
+mimoso e assaz conhecido poeta sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os
+versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu volume
+_Lyra Matutina_.»
+
+Foi uma estupefacção! O Rodrigues proseguiu mais alto, fugindo aos
+commentarios:
+
+«Averiguámos, e d'isso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a
+probidade do sr. Telles, a quem mais de uma vez tinhamos fechado a nossa
+porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara--por indigno.»
+
+E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
+porta na cara do Telles escrivão; tomou praça fóra, o livro debaixo do
+braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solemne,--vingado!
+
+Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
+porque além de sempre terem julgado o Telles muito superior ao
+Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...--tinham dado uma
+sorte de mil demonios, agora é que elles viam! distribuindo no theatro,
+por occasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que elles
+tinham mandado imprimir avulso--para lisongear o Telles que tivera o
+trabalho de os ensaiar no _Santo Antonio_. Hein? quem diabo havia de
+dizer que aquelles papelinhos de côr, uns verdes, outros amarellos,
+chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quasi
+disputados a murro, n'um alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma
+insidia,--um logro á boa-fé, á credulidade ingenua de toda a comarca!
+
+E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o Fernandinho
+vestido da menino do côro, batina vermelha e roquete de rendas,
+cobrindo-se de teias de aranha lá pelo fôrro do theatro, de gatinhas e
+com um «tôco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser
+elle a despejar do _oculo_ aquella papelada; o Mello da administração,
+vestido de Frei Antonio, sandalias e grande chinó de calva redonda,
+feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por entre os
+bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em habitos de
+frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Telles,
+ensaiador da rapaziada!
+
+Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujão! E quasi se regalavam
+da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora
+humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!
+
+O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fôra elle o da lembrança
+de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel
+Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os
+impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como especial favor. O
+homem--prompto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que
+se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que
+desembolsara elle só, afinal. Bem feito! ninguem o mandava ser burro.
+Arre! cavalgadura!
+
+E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopletico.
+
+--Mas a bem dizer, tudo isso é nada!--continuou commovido o Antunes.--Ó
+senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz n'aquelle
+intervallo do drama para a farça?...
+
+Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada
+uma! E relembravam:--levantara-se o panno quando os ouvintes menos o
+esperavam. Os que tinham sabido lá fora, ás doceiras, voltaram
+apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um
+reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam
+senhoras, gente fina, começavam a apparecer caras barbadas de sujeitos
+que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licôr, um
+docinho. Em cima, na galeria alta, creadas e raparigas do povo,
+debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, d'olhar attonito.
+
+--Elle que dianho é?--perguntavam.
+
+De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima:
+
+--Caluda, sua gentalha!
+
+No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da
+recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de cardeal, baculo
+em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de
+côro, todo lépido; a Anna Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olivia;
+a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Gloria_, em que
+ella subira n'um cesto vindimo á «região sidéra dos astros»; o pae de
+Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo pescoço, livido como
+saira do tumulo; aquella canalha da tropa--todos emfim!
+
+N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello
+vestido de Santo Antonio e do Proença telegraphista que fazia de Frei
+Ignacio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hymno da Carta
+á meia duzia de musicos que não entravam na peça. O hynmo rompeu com
+grande estampido de pratos, n'uma cadencia funebre. No palco, tudo
+immovel. Ninguem sabia o que era aquillo, não estava no cartaz.
+Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.
+
+Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de centurião,
+durindana e botas d'agua, irrompe furioso do buraco do ponto e préga um
+discurso na bochecha extatica do Telles:
+
+«Não era elle o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no
+encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter phrases, oratoria,
+porque emfim estava falando a um poeta...--collaborador do _Almanach de
+Lembranças_ para Portugal e Brazil--accrescentou voltado para o publico,
+esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo: dar-lhe um abraço
+em nome de todos...--e abraçou-o commovido, emquanto os espectadores
+berravam _apoiados_, dando palmas--«... e para isto»--accrescentou
+fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.
+
+Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanças gritavam--«ó
+Emilinha!» Era com effeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e
+Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo, tules
+verdes e muita lentejoula a brilhar.
+
+Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o
+Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da
+«melodia», elle fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu
+n'uns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com musica da _Muchagateira_
+original do Peres do correio.
+
+O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a
+Frei Ignacio:--Era de mais, era de mais, elle não merecia...--Ora essa!
+pareciam dizer-lhe os outros--seriamos ingratos se...
+
+A «cantoria» acabou, o theatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,
+um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir,
+cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas
+do tecto desabassem.
+
+Todos olhavam, curiosos. E n'aquella espectação viram de repente descer
+do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia
+vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da
+bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodão a arder que lá trazia
+dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanaz nos impetos da
+colera. O panno começou a descer, obliquo, esfarrapado d'uma banda. O
+Freixedas, suspenso, atirou fóra o algodão e gritou, furibundo:
+
+--Alto! suas bestas! Inda não!...
+
+Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a
+hombro dizia em caracteres amarellos--_C'est fini_! O panno desceu
+então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,
+não tinham percebido... Foi n'esse momento que o sr. Antoninho, que
+tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz alta:
+
+--_É findo_!
+
+
+
+
+V[AE] VICTORIBUS!
+
+_A Maria Lucilla_.
+
+
+Em dezembro, ás seis é noite cerrada. Mais boccado, menos boccado, a
+essa hora recolhia do monte o José Gaio, sósinho, sachola ao hombro, um
+pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima
+d'elle, o céo ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa negrura espessa
+de tempestade que infunde pavôr á gente, e da qual os proprios passaros
+teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,
+agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar
+não sei que extranha elegia... A um relampago mais vivo, o José Gaio
+apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou,
+depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude
+do céo. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento,
+encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não
+ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.
+
+--Vamo' lá com Deus! fazia elle animando se.
+
+Um clarão subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle surgiu de
+repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente illuminada.
+Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão,
+que elle instinctivamente parou e levou ao céo as mãos afflictas, n'um
+gesto de quem implora misericordia. N'aquella imminencia de perigo as
+proprias arvores lhe pareciam immobilisadas pelo terror, á beira do
+caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era como a voz
+implorativa da natureza, unindo-se á voz d'elle n'um longo côro de
+supplicas...
+
+O José Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente, sem saber
+d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente:
+
+--Ó José Gaio!
+
+O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os braços da cruz
+negra, que era o signal de alli terem matado o José Tendeiro, ha annos,
+apertou o passo e tomou por um atalho, direito á ponte. Mas então a
+mesma voz tornou-lhe mais de perto:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um
+relampago que illuminou a mil côres a paizagem. Elle cerrou os olhos com
+força, nervosamente, ferido por aquelle deslumbramento que por milagre o
+não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma immobilidade de
+estatua prendia o camponez á terra. Foi então que veio de novo aquella
+voz, como um prolongamento do trovão:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,
+galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma
+força violentissima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquelle rugir da
+agua que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monotono,
+infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão
+quando, estacou ouvindo a mesma voz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago côr de
+sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquella cruz preta de
+longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a
+tempestade...
+
+Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre
+exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
+olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em vão! que fôra tão vivo
+o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cerebro, que n'um fundo côr de
+sangue, como n'um transparente de magica, elle via nitidamente
+desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então
+deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o
+peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento, a voz tornou a chamar:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais intimo do seu ser. Um longo
+desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima fibra de energia,
+como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe tambem o
+cerebro: não formava um só raciocinio nem elaborava sequer uma idéa, a
+mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo elle tremer,
+abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez reviver n'elle
+a vida do espirito; sentiu um grande pavôr áquelle aspecto subito do
+campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado como se estivesse
+todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda
+casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos, definidos
+maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores despidas,
+sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de recorte que
+traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No
+meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e tetrico, o triste
+camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli chumbado á
+terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um só gesto
+implorativo, e nem uma só palavra de supplica lhe sahia dos labios
+crispados. Porque uma vez que tentára uma palavra, o mais formidavel
+trovão cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois, aquella voz não o
+largava, imperturbavel e monotona:
+
+--Ó José Gaio!
+
+E elle, não respondendo nem fallando, pensava esconjural-a, exorcismal-a
+como se fosse a voz d'um duende. E para esta evocação do sobrenatural
+muito concorria, como os senhores comprehendem, esse aspecto sereno da
+cruz negra, inabalavel sob a aza agitada da procella.
+
+N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua
+depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul
+furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer.
+Como todo elle ardia em febre, aquelle diluvio era quasi um celeste
+beneficio para a sua cabeça n'um vulcão. Mas quando os relampagos
+vieram, aquella reverberação da luz nas cordas d'agua fez-lhe um
+deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o caminho lamacento por
+onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
+sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como cahiu assim
+ficou--de bôrco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quasi
+tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relampago. Ella lá estava
+no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E
+pois que parara o diluvio, dos seus braços abertos as gottas da chuva
+cahiam, vermelhas á luz, como grossas lagrimas de sangue...
+
+Cobarde! Nenhuma comparação póde dar idéa do estado de prostração d'esse
+miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi inacção de besta morta.
+Dir-se-hia um immundo trapo alli cahido, abandonado alli na lama ignobil
+de um caminho, á espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E
+emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada
+prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastellamento phantastico
+das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com
+furia o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso
+espirito póde conceber de mais grandioso e de mais sublime, epico e
+tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente.
+
+Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões,
+aquella voz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o outro,
+o do medo. Parecia colado á lama, preso ao caminho como se fosse uma
+rocha. No emtanto, a espaços, tinha a comprehensão clara da sua posição
+e do seu estado. E então uma raiva subita galvanisava-o: queria
+erguer-se, fugir, desapparecer--erguer-se como aquella cruz, fugir como
+aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam rastro
+na treva...
+
+Taes rebates de coragem eram, porém, ephemeros, impotentes para lhe
+provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli,
+miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as
+quatro pernas. E esta idéa, que o instincto de viver lhe suggeriu,
+apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli! Mas que
+duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se não passava por alli viv'alma, a
+taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma noite medonha
+de tempestade, ao pé d'aquella cruz negra de longos braços
+hirtos--morrer alli!... Eram então já por elle as lagrimas que essa cruz
+parecia chorar?...
+
+Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia.
+Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de tropeçar
+n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve
+estaria de pé,--de pé como essa cruz que um relampago muito vivo acabava
+de lhe mostrar... No emtanto, a voz é que se não importava:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o
+calcassem, reuniu n'um supremo esforço as maximas energias, e rebolou-se
+para um lado, até ficar detraz d'umas urzes. Coisa notavel foi,
+senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se
+recolheu n'uma absoluta quietação, com medo que o surprehendessem... E
+quem quer que era passou, cabeça nua, deante da cruz gottejante... Aos
+ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de prece... Não ia só a
+rezar; ia tambem chorando, aquelle homem...
+
+...Quem seria?
+
+Um clarão branco de relampago fez irromper da treva, livido como um
+espectro, o filho do José Tendeiro...
+
+O desgraçado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia annos, por uma
+noite como aquella...
+
+Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquelle cobarde
+não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quasi arrumado á cruz.
+
+E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade,
+perdida n'um murmurio longiquo, lá na extrema fimbria do horizonte...
+Quando a lua rompeu, livida n'um céo de anil, nem a grande sombra da
+cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma benção, logrou
+reanimal-o. Tinha morrido, o estafermo!
+
+Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abbade foi
+depois, buscar o corpo. Os medicos nem lhe tinham mexido.
+
+--Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma
+congestão muito linda--dissera um a rir.
+
+--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indifferente.
+
+Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do
+abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convulsão agudissima de
+choro. E elevando ao céo as mãos mirradas--ao céo que um divino azul
+fazia diaphano--elle exclamou, soluçando:
+
+--Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa
+misericordia!
+
+...Segredo de confissão...--mas o abbade bem sabia quem tinha alli
+matado o José Tendeiro...
+
+
+
+
+BALLADAS
+
+_A Luiz Osorio_
+
+
+I
+
+MARICAS
+
+
+Vocês lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos muito
+castanhos, quasi louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A
+boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benevola e
+complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o dia e de
+toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram, as nossas
+balburdias e algazarras...
+
+Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
+encantadora--a de não mostrar jamais na sua amisade preferencia por
+algum de nós. Dir-se-hia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois
+que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e
+brando...
+
+Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ella vos
+perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela solicitude e
+interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao
+escriptorio.
+
+--Então esses cabulas? então esses marotinhos? Doente, algum?
+
+--Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá...
+
+--Ora vejam!--fazia ella quasi escandalisada.
+
+Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos
+que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos
+outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um
+_tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quasi que
+chamando-lhe por tu e ella a nós!
+
+Como eu me lembro!
+
+Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
+perguntas que lhe faziamos, e então uma grande paciencia inexhaurivel.
+Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a adorar aquella ingenuidade
+singela do seu coração de vinte annos. A boa da Maricas era adoravel,
+toda ella bondade e paciencia para os nossos disturbios e para as nossas
+algazarras de toda a hora e de todo o instante.
+
+Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella, é que me não
+lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes,
+é que nós como que a consideravamos uma companheira de redacção, especie
+de directora com casa áparte e viver independente pois que se entravamos
+no escriptorio (parece mesmo que estou a ver aquella barafunda
+d'escriptorio!) e, assomando á janella, a não viamos na sua, diziamos
+quasi sem querer, mas invariavelmente:
+
+--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?
+
+E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, á
+formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde fóra, em casa
+da _freira_ de Quebra-Costas--d'essa lembram-se vocês... No emtanto,
+deveis recordar-vos que ella, no dia seguinte...--coitada!--...a
+primeira cousa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui,
+estive alli, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborisada e
+confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar alli a
+aturar-nos. Por pouco ella nos não pedia de mãos postas que lhe
+perdoassemos, a boa da rapariga.
+
+E nós então galhofeiros, brincalhões:
+
+--Sem mais _aquellas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora
+essa!...
+
+E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra:
+
+--Pois sim, mas é que ás vezes...
+
+--Ás vezes quê?...
+
+«Não! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella estivesse zangada
+comnosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...»
+
+--Pois não era verdade--perguntavamos-lhe--que ella adorava aquella
+_troupe_ de bohemios?
+
+--São todos muito bons rapazes--dizia já a sorrir.--Todos me tractam
+muito bem...
+
+E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se
+illuminava de prazer e sorria de intima gratidão. Mas porque
+sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas?
+
+Quando nos via em palestras interminaveis, nas libações do _congnac_ e
+do café, ouvia-se lá da janella um _pschiu_! muito sibilado.
+
+--Que manda a D. Maricas? É servida?
+
+E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada:
+
+--Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?
+
+O cuidado que lhe dava o jornal!
+
+--Ora faz favor de não fallar em coisas tristes? Olhem agora que
+lembrança, o jornal!
+
+Ella então, por unica resposta, dizia-nos ás vezes que na semana passada
+o typographo viera queixar-se de que havia falta de originaes, quantas
+vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.
+
+E por fallar em provas:--a Maricas sabia todos os signaes das emendas,
+todos.
+
+--Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais n'esta palavra.
+
+--Risco por cima, risco á margem, e um _d_ cortado; é facil.
+
+--Um _m_ de pernas para o ar, e esta?
+
+--Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está farto de o saber...
+
+Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse
+mostrando as tiras, á medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava
+que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal
+escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a janella,
+acenando-lhe com o papel:
+
+--Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escripta d'alto a baixo.
+
+Á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de lá com um _bravo_! e
+recommendava, solicita, cinco minutos de folga, emquanto se fumava um
+cigarro.
+
+A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
+a gomma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bella gomma! Em
+paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi sempre nos sabbados á
+noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era estreita
+atirava-se-lhe da janella.
+
+--Maricas, ahi vae ainda fresquinho!
+
+--'stá bem, obrigada. Vou lêr, até ámanhã.
+
+Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á nossa amiga.
+
+--Durma bem, ouviu?
+
+E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do
+artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que
+mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito
+bom, «escripto com muita graça e muito bem», como ella dizia.
+
+Nos serões que faziamos e que por via de regra não passavam de um
+interminavel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escandalos,
+desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da
+Maricas ninguem tinha que dizer senão bem; era a privilegiada n'aquellas
+sessões de má lingua. Quasi sempre a conversa degenerava em
+algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e
+gemia fados com acompanhamento de violão. E era de vêr o Santos Mello,
+d'olhos cerrados e cabeça á banda, como cantava a sua quadra predilecta:
+
+Sei cantigas mysteriosas,
+Cantigas de endoidecer,
+Que os lirios dizem ás rosas,
+Que as rosas me vêm dizer.
+
+Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava silencio.
+
+«Com mil demonios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...»
+
+Todavia...--ó suprema bondade!--...ella nunca se queixava quando no dia
+seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se
+tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes
+que as cadeiras tinham caido.
+
+«Ora viam?! Não a tinhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;
+palavra d'honra! d'óra ávante...»
+
+Ella então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:
+
+--Não, não, eu até gósto. Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora
+essa...
+
+ * * * * *
+
+Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocês não sabiam! E morreu
+tysica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a
+pensar n'aquella tossesinha muito secca em que ás vezes a
+surprehendiamos, n'aquelle branco pallido das suas faces, no bistre das
+suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas mãositas de
+marfim...
+
+Pobre Maricas!
+
+Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, onde
+continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ella
+tinha ido?!...
+
+Mal diria eu que estavas no cemiterio, tão longe e tão só! porventura na
+valla commum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura
+humilde,--onde n'este instante cáe chuva e chuva! Ainda se as noites
+fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio
+de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita resignação:
+
+--...«Entretem-me vêl-os alegres, até me faz bem»...
+
+Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era
+triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobresinha! que n'essa
+phrase singela ia a revelação do presentimento que tinhas da tua morte
+prematura?! Triste creança que nós não mais veremos!
+
+ * * * * *
+
+Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes--_bravo_!--ora
+não?...
+
+ * * * * *
+
+...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella
+rebentem flôres, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as
+seivas...
+
+
+II
+
+PARA A ESCOLA
+
+
+No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras
+lettras. A porta lá estava, amarella com fortes pinceladas vermelhas, ao
+cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subil-a.
+Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula
+quando a Helena entrou commigo pela mão. Fez-se um silencio nas
+bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua taboada,
+n'um rithmo cadenciado e monotono, cantarolando. E ouviu-se então a voz
+da Helena dizer para o senhor professor, um d'oculos e cara rapada,
+falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:
+
+--Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a
+encommendinha.
+
+Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez á escola. Ali
+estava a encommendinha!
+
+--Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
+
+E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
+enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia
+mettido nem eu sabia o quê. Meu pae é que lá sabia... E alli estava eu
+entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ n'uma das mãos e a
+saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A Helena, que sorria
+contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
+
+--Adeus, Josésinho, logo venho cá pelo menino.
+
+Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella.
+
+--Não, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui é a escola, é
+onde se aprende a ler.--E agachando-se, deante de mim:--Olhe tanto
+menino, vê?
+
+--Mas fica tu tambem--disse-lhe eu então.
+
+Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
+iracundo:
+
+--Caluda, sua canalha! Não veem que está gente de fóra? Caluda, que vae
+tudo razo com bolaria!
+
+Foi então que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles eram todos
+meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos.
+Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,
+cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estevão
+principalmente.
+
+--Isto é preciso muita paciencia, senhora Helena, muita somma de
+paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre
+as bancadas.)--Mas está bem, diga lá que a encommendinha cá fica. Em boa
+hora entrasse...
+
+--Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Josésinho?
+
+Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.
+
+--É verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino ha-de estudar
+as suas lições, não é assim?
+
+--Diga, sim senhor--ensinou-me então a Helena.--Hei-de estudar muito e
+ser socegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em
+casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?
+
+Elle riu, já sabia; as creanças são todas assim, emquanto estão no mimo
+das mães. Mas uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam um pouco. E
+piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou transida.
+
+--Faz milagres, sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz
+milagres.
+
+Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair
+quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que servia, a
+palmatoria...
+
+--Mas para o nosso Zézito não ha de ser precisa, ora não?
+
+--Diga assim: não senhor, porque eu hei de cumprir com as minhas
+obrigações, diga.
+
+--Ora ahi é que está--atalhou o professor.--Vê, sr.^a Helena? Aqui já os
+pequenos tem a sua obrigaçãosinha, os seus deveres a cumprir, as suas
+coisas...
+
+--Sim senhor, sim, emquanto que em casa...
+
+--Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu
+menino aquillo. Vão assim creados á lei da natureza, sabe vossemecê? É
+mau isso, pessimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?--E bateu
+n'um «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui está n'este
+livro: «_de pequenino_...
+
+--..._é que se torce o pepino_»--concluiu rapida a Helena, orgulhosa de
+saber o que estava no livro, coitada!
+
+--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma cousa que se cria
+na horta...
+
+Risota dos rapazes!
+
+--Ora vê isto, sr.^a Helena? vê estes brutinhos?--E com entono, de
+palmatoria alta, fazendo-se carrancudo:
+
+--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença á sr.^a Helena,
+começo n'uma ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o
+que se chama tudo!
+
+E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaça, os rapazes ficaram
+transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que elle
+podia pedir licença á sr.^a Helena, e mesmo deante d'ella _cascar_ de
+rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, socegaram; até o
+Estevão deixou de me fazer caretas.
+
+--É o que vê, sr.^a Helena--disse então victorioso, a sorrir-se, o bom
+do professor.--É o que vê! Um mestre sem palmatoria é um artista sem
+ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem
+feito muitos doutores.
+
+--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle
+pedaço de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito muitos doutores.
+
+--Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não
+faz ao caso.
+
+Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.
+Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes investigara com magua
+o motivo por que a sua palmatoria não fazia um unico doutor... Morreria
+sem ter essa «gloria,» decerto! Forte martyrio que a Helena veio
+recordar-lhe!...
+
+Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia
+para ir lá fóra.
+
+--_Licéte_!--foi como elle disse, arremedando o latim _licet_. Outros
+havia que diziam, por troça, _Aniceto_!
+
+--Ora já a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu não havias
+de pedir para ir lá fóra, tu...--E ficou-se a fital-o, meneando
+pausadamente a cabeça.--Ora vá você lá fóra.
+
+O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.
+
+--Olá?--chamou zangado o sr. professor.
+
+O outro assomou á porta, contrafeito.
+
+--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se
+percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça
+favor de esperar um pouco.
+
+Poz-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:
+
+--Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá!
+
+Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.
+
+--Canalha!--gritou-lhes então, batendo o pé.--Corja de atrevidos!
+Sentados, já!
+
+Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era elle,
+apontando para o peito.
+
+--Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.
+
+Mediu-o d'alto a baixo. Depois:
+
+--Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fóra com
+ella. Agora, sim senhor. Ora vês além aquelle sujeito? o tal das
+pressas?...
+
+--Vejo, sim senhor.
+
+--Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o
+palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra que. E sempre quero ver se tenho
+de vos ir lá buscar pelas orelhas.
+
+Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor:
+
+--Olá?
+
+Elles assomaram, outra vez, atrapalhados.
+
+--Então, seus cabeças d'avelã, torres de vento, então não falta nada?
+
+Os dois pozeram-se a coçar a cabeça, muito compromettidos. Faltava com
+effeito alguma coisa...
+
+--Então é ahi?
+
+Elles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.
+
+--Ora passa por esta vez, em attenção a estar aqui a sr.^a Helena.--E
+enrugando o sobr'olho, commandou em tom marcial:--Ordinario! marche!
+
+Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava
+o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir
+ordens suas:
+
+--Ordinario! marche!
+
+Sentou-me então no joelho e perguntou:
+
+--Olha lá, Josésinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o sr.
+capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?
+
+--Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o sr. prior, dizer
+missas.
+
+Riram-se. Quem sabia lá o que d'ali sairia? Mas o sr. professor fez
+notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendencia
+qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas
+bochechas.
+
+--Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.--E para a
+Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, sr.^a Helena, que respondem a
+pés junctos que não querem ser nada. Mau signal, pessimo, sr.^a Helena!
+Quando elles assim dizem, de ordinario assim fazem, depois. Nunca são
+gente.--E virando-se para mim:--Mas então, Josésinho, em que ficamos?
+Corneta ou prior?
+
+Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente
+em dias de festa, com aquella capa toda doirada...
+
+--Muito bem, escolheste bem. «_Telha de egreja_...
+
+--..._sempre gotteja_»--concluiu a Helena que ainda hoje é forte em
+adagios.
+
+O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.
+
+--Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josésinho,
+para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?
+
+--É.
+
+--Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor--emendou a Helena.
+
+O sr. professor teve um gesto de indulgencia.
+
+--Mas tu não sabes ainda, ora não?
+
+--Não senhor.
+
+Elle então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia
+na sacca era um livro.
+
+--Querem ver que é um livro?...
+
+--Diga--ensinou a Helena--é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá
+ao sr. professor, tome.
+
+Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
+meu livro.
+
+--Muito bem! muito bem!--applaudiu o sr. professor.--Mas este livro é
+mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que
+queria ser prior, ora já?
+
+Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquillo; mas como é que elle o
+sabia?
+
+--Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar,
+não queres?
+
+--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu
+quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.
+
+--Primeiro do que aquelles?--perguntou voltando-me para as bancadas.
+
+Então fui eu mesmo que respondi:--«Sim senhor!»--contente com a
+lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos
+aquelles. Até podia acontecer que o Estevão das caretas me ajudasse a
+alguma...
+
+--Ora então está muito bem, estamos entendidos.--E com intenção, ferindo
+muito as palavras, para m'as gravar no espirito:--A primeira coisa que é
+precisa para prior é saber bem isto, vês?--E punha-me deante dos olhos o
+livro aberto na primeira pagina.--Isto aqui é já missa, chama-se o _a b
+c_, e é aquillo que os priores dizem quando vão para o altar.
+
+--_Ito_?--inquiri curioso, furando a pagina com o dedo.
+
+--Sim, isto. E amanha já me has-de trazer sabido d'aqui até ali. Hein?
+valeu?
+
+--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.
+
+Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira
+lição!
+
+_A B C D E F_!
+
+A minha primeira lição!
+
+--Ora sabe vossemecê o que isto é, sr.^a Helena? isto que eu tenho
+estado a fazer?
+
+--Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é...
+
+--Não sabe, não admira,--disse complacente o sr. professor.--Puxar o
+gosto, sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o
+fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vae estudar com
+mais gosto, digo-lh'o eu; olé se vae!
+
+«Mas elle não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas
+obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»
+
+--Pois isso é verdade, sr. professor; mas não sei que é, custa-me a
+separar do menino...--disse a boa da Helena, quasi a chorar.
+
+--Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi é que está a coisa. Pois tenha
+paciencia. Aprender é tão preciso como mamar--concluiu n'uma prosa que é
+mesmo poesia.
+
+--Pois é preciso, é!...
+
+E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
+na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me
+ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:
+
+--Sr.^a Helena!
+
+--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental.
+
+--Já agora, espere mais um instante.
+
+Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
+Depois, intimou:
+
+--Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo
+um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora é alli,
+sr.^a Helena, alli é que é o logar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe
+não deve pesar.
+
+E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo,
+lagrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu
+logar...--o meu primeiro posto na arriscada milicia das lettras...
+
+Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por
+acenos com a pessoa que estava de fóra. Pequeno como era, percebi, no
+emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica:
+
+--Bolos?... Não?!... Perdoe a sr.^a Helena, mas isso, quando forem
+precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a
+mão?... Está bem... Descance... Mesmo com a mão...
+
+E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre
+lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...
+
+ * * * * *
+
+...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
+principiei n'esse dia. Não volto mais á escola! Venho hoje restituir-te,
+querida amiga, aquelle beijo--dulcissimo beijo aquelle!--que tu então me
+déste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse,
+acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
+que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?
+
+Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.
+
+
+
+
+TRAGEDIA RUSTICA
+
+
+I
+
+_Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á
+porta do José Grillo_
+
+
+Truz! truz! truz!
+
+Os de casa acordaram, sobresaltados.
+
+--Schiu! nem pio!--fez o José Grillo para a mulher.--Moita!
+
+--Truz! truz! truz!
+
+Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a chamar pelo
+pae.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
+divertir...
+
+Mas logo outra vez na porta:
+
+--Truz! truz!
+
+--Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José
+Grillo, zangado. E pois que se poz á cóca, de orelha fita, olhos
+cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de
+alguem que fugia.
+
+--Eu não te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir--explicou elle
+para a mulher.
+
+Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
+cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á ideia que lhe tinham
+vindo pôr zôrro...
+
+--Ó mulher, queres tu ver que ha novidade?
+
+De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
+casebre.
+
+--Elle que demonio de embrulho...?
+
+Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creança, envolta em
+dois trapinhos muito velhos.
+
+--Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a creancinha.
+
+--Grandes cadellas!--E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
+gente da casa.
+
+--Andem! a pé! levantem-se! está aqui este innocentinho que vem dar os
+bons dias á gente!
+
+Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grillo
+mettera a creança na cama, visto que a pobresinha estava gelada...
+
+--Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha do Antonio das
+Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.
+
+Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites que
+chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
+que ia correndo:
+
+--Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquillo que fôr.
+
+Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de pé no meio da casa, a
+saia amarella deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito
+embezerrada, permanecia sem dizer palavra.
+
+--Ó mulher, nada de afflicções, é tal e qual como se fosse nosso, faz de
+conta...--observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar taciturno da
+femea.
+
+Ella só redarguiu que _nosso_ era um modo de fallar. Seria d'elle, mais
+de qualquer desavergonhada...
+
+O José Grillo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e
+pregou-lhe uma gargalhada.
+
+--Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E
+deixa-te de cantigas, que hoje é dia de entrudo.
+
+A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé
+da creança, affirmando-lhe ás risadas que sim, que o pequeno era filho
+d'elle.
+
+--O pequeno?... mas é que pode ser cachopa--disse o José Grillo para a
+mulher.--E certificando-se:--Nada! é rapaz.
+
+Seguiu-se uma altercação. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela
+sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.
+
+--Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, braços no ar, o
+balandrau da saia amarella enfiado pelo pescoço n'um geito de
+sobrepeliz.--Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim!
+
+--Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz--disse-lhe de lá o
+José Grillo, muito fleugmatico, debruçado sobre a creança.
+
+Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhaço, muito
+afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grillo virou-se para
+ella e disse-lhe muito solemne:
+
+--Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.
+
+Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se logo para
+elle, olhos esbugalhados, muito suspensa.
+
+--Juras pelas cinco chagas, ó homem?
+
+--Juro pelas cinco chagas.
+
+--Assim te Deus dê saude, ó José?
+
+--Assim me Deus dê saude.
+
+--Preto sejas tu como o teu chapeu?
+
+--Preto seja eu como o meu chapeu.
+
+A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
+a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
+Conceição, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia.
+
+Depois desabafou, muito aliviada:
+
+--Ai!
+
+O José Grillo poz-se a rir.--«O demonio da Joanna, com ciumes!»
+
+--Mas ciumes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo
+tens tu ciumes?--perguntava muito casto o amigo José Grillo, serenissimo
+deante da mulher desconfiada.
+
+A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--«que o seu homem era um
+santinho...»--O José Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo,
+reguingou d'alto:
+
+--Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a cadella que
+engeitou este...
+
+Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:
+
+--Mas quem seria a grande cadella?
+
+Poz-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem,
+murmurando phrases d'odio, moralistas:
+
+--Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo
+entranhas de lobo.
+
+O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do
+José Grillo.
+
+--É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar--disse
+contristado o lavrador.
+
+Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
+Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas.
+
+--Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demonio vens tu cá
+fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?--E deu um bofetão
+na filha, «para que soubesse dar o recado».
+
+A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é
+que a mandara para levar a creança, porque ella, adoentada, fazia-lhe
+mal sair de casa assim cedo...
+
+--Só se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o José Grillo, virado
+para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens.
+
+A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse:
+
+--Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.
+
+--Eu sei lá se não se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--Dá cá
+d'ahi o pequeno.
+
+Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao José Grillo. O
+lavrador depol-o nos braços da Dorotheia, com mil cuidados, e depois
+elle mesmo ajudou as mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse
+bem quente.
+
+--Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá appareço,
+p'ra ver isto do ajuste.
+
+A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que tinham alli ficado os
+farrapos, gritou para a rapariga:
+
+--Ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto.
+
+Então poz-lhe os farrapos ao hombro--uns pedaços miseraveis de velha
+chita--e a Dorotheia partiu onde á irmã.
+
+
+II
+
+_Quarta-feira anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de
+Antonio Palma, casado com Rufina Maria_
+
+
+O Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
+a Rufina, principiava a lavar a louça, quando á grade do quinchoso uma
+voz chamou:
+
+--Ó sr.^a Rufina!
+
+Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as mãos
+fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
+que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do caminho.
+
+--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.
+
+O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de
+cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma
+desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Thomaz negociante de
+gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os proprios pequenos
+olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande mulher gorda que elles
+não conheciam. Ella sentou-se logo n'um sacco, muito esfalfada, emquanto
+o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
+com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
+investiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o
+pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a mulher começou
+assim:
+
+--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
+Já veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
+filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá
+em casa de minha mãe aquillo é uma grande miseria, passam-se dias que
+não comemos. Não ha uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
+geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este estado, bem veem
+como eu ando...
+
+Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e
+a mulher diziam não sei que monosyllabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
+proseguiu:
+
+--Não é por mim, sabem? não é por mim. É este innocentinho que tem de
+nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me
+dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse...
+Coitadinho!
+
+Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o
+Palma e para a mulher.
+
+--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.
+
+O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de
+seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
+se havia de arranjar, que socegasse.
+
+--Que a fallar os pontos de verdade, sr.^a Fortunata, vossemecê é que
+tem a culpa d'esses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.
+
+Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.
+
+--Má sorte d'aquelle pobre José Thomaz, acabou-se! Quando elle casou com
+vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.
+
+Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta.
+
+--Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
+nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vae a uma feira.
+Pois olhe que era homem para junctar, videiro como poucos.
+
+Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois
+continuou:
+
+--Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo
+sacco...
+
+A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O
+Palma proseguiu:
+
+--Sente se vossemecê, mulher, o sacco não faz ao caso. Pois foi ahi
+mesmo que elle esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na
+camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal.
+Que a bem dizer elle quasi não conversa, anda a modos que amalucado,
+sempre a levar a mão á cabeça, como se lá dentro aquillo andasse azoado.
+E mais é que bem póde o rapaz dar em doido...
+
+A senhora Rufina foi de parecer que doido já elle andava. Passavam-se
+dias que não apparecia em casa do tio José Garção, que o levára logo
+para elle, mal a sr.^a Fortunata o deixára. Por onde andava? que fazia?
+Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo telheiro que os
+porcos. Que d'outra vez fôra ter com o vigario para que lhe baptisasse o
+filho, dizendo que já tinha nascido.
+
+--No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.--Anda com
+ella ferrada que o filho já nasceu.
+
+Aqui, a Fortunata, de pé junto á porta, rompeu n'uma choradeira, ouvindo
+fallar no filho. O Palma interveio, condoido, dizendo que se não
+affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.
+
+Ella ia ajoelhar, o Palma não deixou.
+
+--Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por
+vossemecê. Mas é que o innocentinho que ahi traz esse é que não tem
+culpa. Faço de conta que é o pae que me pede, o pobre José Thomaz.
+Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Thomaz. Diabo! a gente já
+diz _era_, já falla n'elle como se o pobre tivesse morrido...
+
+N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns
+bois que não eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
+quando já ia para sair, disse em resumo:
+
+--Fique vossemecê então, sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ella
+inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.
+
+Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo gordo, desentupiu
+e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
+feito uma caricia, quando por volta do meio dia a avó do pequeno alli
+chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
+aos cevados, ficou espantado:
+
+--Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, sr.^a Anna!
+
+Ella, sem mais rodeios, perguntou se a creança já tinha nascido.
+
+--Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha d'ahi.
+
+Mas iam ainda á porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe
+perguntou n'um sobresalto:
+
+--Vivo ou morto, sr. Antonio?
+
+O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a creança nascesse
+morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
+pontapés. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de colera, quando em presença
+do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
+fazer.
+
+O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella insistisse
+com a pergunta: «que se ha de agora fazer a isto?» elle redarguiu,
+irado;
+
+--Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se ha de
+fazer á creança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar...
+
+A velha ia fallar.
+
+--Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda
+nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu
+uma cadella quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer
+cadella vale mais que vocês duas.
+
+O Palma ia-se pondo amarello, a sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
+que saisse.
+
+--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de
+vespera até á feira.
+
+Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da egua.
+
+--Tanto faz ir ámanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mette-me
+qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a egua.
+
+D'ahi a meia hora, o Palma montava á porta, no meio do rancho dos
+cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:
+
+--Em estando capaz, rua!
+
+--D'aqui a tres dias, talvez...
+
+--Então até d'aqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
+esses estafermos sairem.
+
+Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fóra--com o
+embrulhinho do neto ao colo...
+
+Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado...
+
+Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? Não sei. Caso é que na
+madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino á porta do
+José Grillo.
+
+Madrugada de fevereiro, nevava...
+
+
+III
+
+
+Quando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar á irmã, tinha
+amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidissimo
+retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquella atmosphera de gelo.
+Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão
+triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto,
+faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella impressão de frio. O chão
+estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céo muito azul
+annunciava um dia de sol.
+
+A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda
+d'aquelle lado em contacto com o pequenino...
+
+Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
+perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da
+levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um engeitadinho.
+
+--Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.
+
+Mas o moleiro, que vinha chegando, espécou deante da mulher, e repetiu
+como um echo:
+
+--...Um engeitadinho.
+
+Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga.
+
+--Sim, um engeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E
+d'ahi... póde ser que não seja...
+
+A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.
+
+--Nada! pode ser que a historia seja outra--elucidou o moleiro.--Onde
+foi que isso foi posto?
+
+--Esta madrugada, á porta do José Grillo.
+
+--Olá! isso então pode ser coisa d'elle--observou a rir o moleiro.--Esse
+diabo não é seguro.
+
+Pozeram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôz-se a
+explicar á rapariga:
+
+--É que hontem á noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
+modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal. Assim ás primeiras,
+tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo...
+
+--Ó Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e
+senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobresinho ha-de ter fome.
+
+A Dorotheia passou a creança para os braços da moleira. Foi uma alegria
+ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os olhitos inda fechados.
+
+--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria
+a desavergonhada?...
+
+--Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro.
+
+--Depois, dormiu cá, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas dá-se o caso
+que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, n'um
+fallatorio pegado. «Que o filho era d'elle, que se a cabra da mãe
+teimasse em o engeitar, elle ia dar parte á justiça.» Um arrazoado
+assim, muito comprido.
+
+Espantada, a Dorotheia ia fallar.
+
+--Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia
+isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que
+onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar.
+
+Ficaram-se um instante a mirar consolados a creança.
+
+A pobresinha vagia, mamando com sofreguidão.
+
+--Mas então sempre elle sabe do filho, reatou com interesse a
+Dorotheia.--Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae,
+coitadinho!
+
+A sr.^a Luiza, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
+compungido:
+
+--Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir!
+
+Fez-se um silencio, mirando todos a creança. A taramella do moinho
+batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro explicou ainda
+que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
+obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe
+respondera:--«Para a feira. Vender um gado.»
+
+--Ora vá lá o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido
+a vender gado.
+
+Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Dorotheia, com pressa
+por causa da irmã, pegou outra vez na creança e abalou pela porta fóra,
+direita á casa do pae.
+
+--Olha os trapos, ó Dorotheia! olha que deixas cá isto.--E o Paulo
+correu a levar á rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
+todo o enxoval do triste pequenino...
+
+Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a
+creança não ia com fome. E para que tambem não fosse com frio, a boa da
+rapariga achegava ao peito o engeitadinho, n'uma solicitude toda
+materna.
+
+--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja
+capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um innocentinho,
+embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José
+Grillo não dava fé! Alli se morria de frio o anjinho, capaz de virem
+depois os cães e comel-o.
+
+E espreitando pela fenda estreita do chale:
+
+--Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua mãe, ora foi?
+
+--Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo.
+
+A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que já de
+longe a acompanhava, sem ella dar fé, corria tambem atraz d'ella, e não
+tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
+com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella
+conhecia gritou alli de perto:
+
+--Larga a rapariga, ó José Thomaz! Larga a cachopa!
+
+E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.
+
+--É o José Thomaz que está doido,--explicou o pastor.--Desde que a
+mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!
+
+Mas palavras não eram ditas, eis que o José Thomaz de novo se arremessa
+á rapariga.
+
+--Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!--rugiu elle com voz
+furiosa.
+
+E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
+lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas,
+impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...
+
+A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente.
+
+E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do
+engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
+rir-se...
+
+--Conheces? perguntou-lhe a rapariga.
+
+No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido não
+respondeu.
+
+--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.
+
+Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
+estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle então oppoz-se, caindo
+sobre os calcanhares.
+
+E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel
+farrapo, as lagrimas corriam, copiosas...
+
+Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
+percebendo. Os farrapos que embrulhavam a creança eram da saia da mãe. A
+mãe era a mulher do José Thomaz, e o pequenino era filho d'elle... A
+grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
+homem!
+
+--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vês ahi um
+estafermo que precisava que a matassem!
+
+O José Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma forte
+impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.
+
+--Ó Dorotheia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pae
+deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.
+
+Mas não foi preciso; que o José Thomaz, sempre de joelhos sobre a neve,
+foi para ella de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos
+labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio que se fez
+ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.
+
+Como se fôra uma chuva de petalas, do céo de madreperola a neve cahia
+mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
+no seio immenso de um orgão, o vento sul--gemia...
+
+
+
+
+ABYSSUS ABYSSUM...
+
+
+N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
+Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o
+rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
+ameaça, aquellas terriveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia
+que lhe appareceram em casa tarde e ás más horas.
+
+--Ouvistes?--ralhara-lhes a mãe.--Olhae se ouvistes: se voltaes ao rio,
+mato-vos com pancada. Andae lá...
+
+Ih! como ella dissera aquillo, Mãe Santissima! Colerica, ameaçadora, com
+a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver
+tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
+aquella ameaça terminante. E então, n'esse dia, elles não tinham ido ao
+rio. Aos passaros sim...--lá estavam as calças rotas do Manuel a
+dizel-o--...aos passaros é que elles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe
+que o soubesse...
+
+Ah, mas então não os deixassem dormir n'aquelle quarto. Logo de manhã,
+mal abriam as janellas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
+corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
+salgueiros. Lá estava a ponte velha, d'onde os rapazes se atiravam
+despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do
+fidalgo,--lindo barquinho!--sempre á espera que o fidalgo o desamarrasse
+para passar á grande quinta que tinha na margem de lá.
+
+De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois
+rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores, tão
+madrugadores como os melros, metterem-se dentro do barco, desprendel-o
+da praia, e deixal-o ir então por onde elle quizesse, comtanto que fosse
+sempre para deante... Quando fechavam as janellas para se deitar, a sua
+vista seguia, mesmo atravez da escuridão da noite, a linha que ia dar ao
+barco. Era o seu--«adeus até ámanhã!»--áquelle pequeno objecto que valia
+thesoiros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...
+
+Ah! tivessem elles assim um barquinho, que não queriam mais nada...
+
+--Mais nada?
+
+--Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.
+
+Mas n'essa manhã, bella manhã, na verdade! a mãe viera acordal-os mais
+cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para
+os campos, os solavancos dos carros no empedrado pessimo da rua, os
+patos da visinhança que saiam em rancho para a digressão pelos prados,
+grasnando ruidosamente, levantando-se em vôos curtos, espantados da
+aggressão accintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que alli perto
+se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador atarracando cravos na
+bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
+vagaroso, as chaves da egreja na mão esquerda e na direita a cabacita do
+vinho. E áquella hora, onde iria já a missa! A ultima beata, encapuchada
+e lenta, recolhera, trazendo comsigo a esteira em que ajoelhára na
+egreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua,
+dava com valentia n'um carro cujo eixo _ardera_ na vespera, e que era
+urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a
+loja, e subira á varanda a regar os mangericos. Começos da labuta
+diaria, emfim; os senhores sabem.
+
+Pois como lhes disse, a mãe viera n'essa manhã acordar mais cedo os dois
+pequenos.
+
+--Fóra, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal
+está! Ai, ai, dia claro ha que tempos, vem ahi o sol, e os morgadinhos
+na cama.--E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as janellas.--Persignar e
+vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem.
+
+E poz-lhes tudo sobre a cama.
+
+--Mãe, a benção!--balbuciaram os dois, tontos do somno ainda.
+
+--Deus os abençôe. Que Deus não abençôa mandriões, ouviram? Ora eu já
+volto. Queira Deus que não vos encontre cá fóra, tendes que ver.
+
+Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
+olhos áquella hostilidade viva da luz que invadira o quarto n'um jacto
+repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito
+que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria
+tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda
+tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego
+morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!
+
+Mas a mãe não tardava alli. Era preciso vestirem-se, que remedio! Foi
+então que o Manuel, mais esperto do somno, olhando para o campo o achou
+encantador, todo resplandecente de verduras.
+
+--Bonita manhã, não vês? As arvores parecem mais lindas, repara. Porque
+será?
+
+O outro encolheu os hombros, não sabia: só se fosse por não haver
+nuvens...
+
+Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva da
+manhã fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde encantador, muito
+suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das
+laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das baixas. Revestidos
+de folhagem, ascendiam ares fóra os olmos gigantescos. Pedaços d'horta
+estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas
+das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.
+
+Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa manhã
+deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante sob aquelle céo
+immaculado.
+
+--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece?
+Olha que é lindo, o rio; ora é, ó Antonio?
+
+--É, lá isso... Mas _tamem_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o
+irmão.--A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?--E
+mirando por sua vez a paizagem perguntou:--Já reparaste no barco, ó
+Manuel?
+
+--Tão bonito!
+
+Os dois riram.
+
+--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.
+
+--Podera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois
+radiante, gesticulando para o irmão:--Mas eu era capaz de o
+desamarrar...
+
+--Ai eras!--disse duvidoso o Antonio, para o incitar.
+
+Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, lá isso era. Ambos dentro
+d'elle, sósinhos, isso é que seria bom! E elles então que estavam mortos
+por ir ás azenhas, e pelo rio era um instante emquanto lá chegavam. O
+barco! Era tão bom andar no barco! E aquelle então era lindo, como não
+tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem lá não
+esquecessem!--aquellas tardes em que o fidalgo os levara dentro do
+barquinho, ensinando-lhes como se remava.
+
+O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito á janella.
+Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando.
+
+--Está um dia lindo, avia-te.
+
+--Olha avia-te! p'ra que?--perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o
+pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.
+
+O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A mãe
+não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada
+se desceis a ladeira.» Já se vê que depois d'isto...--E os dois
+suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!
+
+N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo!
+Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demonio de
+tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo
+o comprimento, uma faxa azul-clara destacava nitidamente, parece que
+apenas meio palmo acima do nivel da agua.
+
+--Táte, ó Manuel! E se fugissemos?
+
+--Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar...
+
+Ora ahi esta! isso é que era o peor! A mãe, depois, era capaz de fazer o
+que tinha promettido. E arregalando muito os olhos, imitando a colera da
+mãe:--«Se voltaes ao rio...» Ai, ai, a triste sorte!
+
+Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
+ao nascente, n'uma explosão violenta de luz, accendendo coloridos na
+largura muito ampla da paizagem.
+
+--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com
+alegria o Manuel.
+
+--Mas é que está, palavra que está. Agora é que ha-de ser bom andar
+dentro d'elle...
+
+Os dois riram-se muito áquella ideia encantadora de andarem no
+barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso,
+cobrando animo, o Antonio disse resoluto:
+
+--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela
+jaqueta:--Vamos lá, ó Manuel?
+
+O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não
+vinha, disse baixo ao irmão:
+
+--Á tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão facil dar pela
+nossa falta, alli á tardinha. A gente finge que vae para o adro.
+Levam-se os peões...
+
+--Ha-de ser mesmo assim! á tardinha!--concordou o Antonio.--Eh! eh! tu
+cá desatraco.
+
+--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava.
+
+--Ao leme vou eu: o leme é aquillo que regula--explicou.
+
+--Pois sim, mas á vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quizeres
+assim...
+
+--Pois está bem, quero! Assim mesmo é que ha-de ser!
+
+E recapitulando, para melhor ficarem combinados:
+
+--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?
+
+--Remas.
+
+--E tu regulas, ora regulas?
+
+--Regúlo.
+
+--Ao p'ra cima é ás avessas, ora é?
+
+--É.
+
+Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
+impozeram segredo...
+
+--Schiu!...
+
+--Schiu!
+
+ * * * * *
+
+A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do céo, penachos de nuvens
+alvejavam, immoveis.
+
+Accesas n'aquella explosão rubra do occaso, as arestas dos montes
+franjavam-se de purpura e oiro, na decoração magica dos poentes.
+Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquilla dos crepusculos,
+e uma quietação dulcissima e vagamente melancolica entrava de adormecer
+a natureza para o grande somno reparador de toda a noite.
+
+...E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida.
+
+N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando,
+os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
+immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
+cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella
+indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de silencio
+confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como spasmo
+amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que
+vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as
+coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as
+formas ás coisas...
+
+Muda de gorgeios, atravessando o espaço em vôos muito rapidos, a
+passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.
+Cahiam já pesadas sobre os valles as sombras das montanhas, e um
+fumosito subtilmente azulado nadava á flor das coisas, velando-as para o
+tranquillo somno em que iam adormecer.
+
+E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava
+mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas
+começavam de lampejar. Dentro d'elle, os dois irmãositos silenciosos
+iam-se deixando enlevar n'aquelle ruido suave dos remos abrindo fendo
+nas aguas... Não! era bem certo que elles não tinham jámais sentido uma
+tão poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes trasvasava do peito,
+fundindo-se em energia nos musculos e crystallisando-se nos labios em
+sorrisos.
+
+Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
+absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
+de admoestações alheias, sósinhos, independentes. E esta feliz convicção
+de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de
+alegria. Por certo elles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o
+seriam jámais?... No emtanto a noite accentuava-se. Espertava nas
+margens o marulho da agua nas raizes fundas dos salgueiros. No céo alto
+e sereno scintillavam as estrellas em cardumes.
+
+--Remas, Antonio?--perguntou o do leme.--Olha se a vês...--E apontava
+para Vesper, a estrella que mais brilhava.
+
+Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcançar a estrella cujo
+brilho diamantino os fascinava. Tão linda!
+
+--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a
+estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
+adeante, só por isso...
+
+--Olha o milagre! Ella está quêda!--fez o outro, convencido da
+facilidade da empreza.
+
+--Está quêda, está quêda, mas sempre na frente de nós; vae lá
+entendel-a. Olha como brilha, ó Antonio.
+
+--Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito d'aquella fraga é que
+ella está.
+
+Não era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de meia hora
+era certo alcançal-a.
+
+E engastada no azul escuro do céo, a estrella parecia brilhar mais,
+quanto mais a olhavam.
+
+--De que são feitas as estrellas?--perguntou o mais novito.
+
+--De prata, pois está visto.
+
+Então o outro, lançando um amplo olhar á vastidão infinita do céo,
+exclamou:
+
+--Eh! tanta prata!
+
+--O sol, esse é d'oiro--disse ainda o Manuel.
+
+--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmão.--Que eu, se me dessem á
+escolha, antes queria as estrellas. Olha que rebanho!
+
+--Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais
+grande.
+
+E emquanto fallavam, os dois não desfitavam olhos da estrella feiticeira
+que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo fenda na agua, com
+certo ruido muito doce... E lá no alto céo, dir-se-hia que de instante
+para instante a feiticeira estrella mais brilhava, incitando-os.
+
+--Vêl-a a fazer assim?--e poz-se a pestanejar, imitando a palpitação
+crebra e irregular da luz sideral.
+
+--É que tem somno--respondeu o outro.
+
+--Olha que não. Aquillo é a fazer-nos negaças, _tamem_ t'o digo.
+
+--Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo,
+bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh,
+_boieira_!
+
+N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul,
+sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram
+em tom de reza as palavras rituaes:
+
+Deus te guie bem guiada,
+Que no céo foste creada.
+
+--Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a
+apontar para ellas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.
+
+--A ti talharam-te o ar, ó Manuel.
+
+--Diz a mãe. Á meia noite levaram-me á fonte e esparrinharam-me agua
+para o corpo. E a agua havia-de estar fria... observou, encolhendo os
+hombros. Depois, viraram-me para as estrellas e disse então a mãe:
+
+Ar vejo,
+Lua vejo,
+Estrellas vejo:
+O mal do meu corpo
+Pr'a tráz das costas o despejo.
+
+Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da mãe, havia-de ser
+engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.
+
+--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por
+anno, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas
+estrellas que além estão, e rezar uma Ave-Maria.
+
+--Sempre, sempre?
+
+--Até que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com tres noites
+dentro de uma.
+
+--Ora! tornou-lhe incredulo o irmão.--Tu não cabes lá...
+
+--Não sei: assim é que anda nos livros.
+
+...Mas os braços doiam já dos remos, doiam muito...
+
+Devia ser tarde, e elles sem darem fé, enlevados como iam no desejo
+louco de alcançar a estrella.
+
+A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um
+silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a
+agua da corrente ia espumando na quilha, com certo ruido de uma brandura
+suavissima e doce.
+
+...Mas os braços cada vez doiam mais!...
+
+Agora, no céo, havia muitas estrellas brilhantes, muitas, mas nenhuma
+como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar
+menos para ella, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o
+peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.
+
+...E os braços sempre a doerem!...
+
+Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente,
+cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo do leme,
+sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do subito desleixo do outro.
+
+...E os braços já não doiam, nem ao de leve sequer...
+
+O pequeno barco vogava agora á mercê da corrente, sem impulso algum
+extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das respirações dos dois
+pequenos adormecidos...
+
+Algum tempo assim. Senão quando, um ruido surdo, e logo um movimento
+brusco de balanço, fez acordar o do leme.
+
+Na grande allucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou
+immediatamente:
+
+--Manuel! Ó Manuel!
+
+O remador acordou, sobresaltado.
+
+--A estrella? Ainda lá está, olha!--disse incoherente, estonteado pelo
+somno.
+
+--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!—-continuou
+afflicto o Antonio.
+
+--Então não lhe passamos adeante?--perguntou ingenuamente o Manuel,
+referindo-se ainda á estrella.
+
+Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o á realidade,
+de novo lhe gritou, com lagrimas na voz:
+
+--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!
+
+E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um
+choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel
+susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
+aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o
+psalmodear monotono e rouco de uma legião de espiritos maus,
+preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
+rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que
+n'um requinte de malvada indifferença houvessem jurado assistir
+impassiveis e mudos á escura tragedia da sua desgraça.
+
+E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem d'alli.
+Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguem
+viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os seus afflictivos
+gritos.
+
+Crudelissimo transe!...
+
+E então os braços continuavam a doer, doia-lhes agora o corpo todo, ao
+mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes opprimia o
+espirito, parece que embrutecendo-os.
+
+--Mas a estrella sempre além...--notou ainda o Manuel, balbuciante de
+medo, como se quizesse increpar a propria estrella da sua indifferença
+criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio em que por causa d'ella
+se haviam precipitado.--Se ella podesse acudir-nos...
+
+Até que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo se deixaram
+adormecer, era já alta noite.
+
+Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte não
+cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após
+tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as aguas se
+contorciam em remoinho, e entrou de girar com elle, violentamente.
+Quando a agua se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de
+subito acordados romperam em gritos lancinantes:
+
+--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!
+
+Tinha surgido a manhã, serena, tranquilla, cheia de gorgeios e de azul.
+Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual, n'um repelão
+mais violento o pobre barco esphacelado investiu de proa com o abysmo e
+lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo paroxismo da sua
+enorme dor desesperada, os dois irmãositos abraçados sumiram-se tambem
+com elle!...
+
+ * * * * *
+
+...N'esse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrella
+feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!...
+
+
+
+
+MÃE!
+
+_Ao dr. J.C. da Moita Prego_
+
+
+Bella cabra, a Russa!--posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada,
+luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva
+de porte quando á frente do rebanho parecia commandal-o, badalando
+cadencialmente o seu chocalho enorme--tlão! tlão! Era no rebanho a que
+mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilancias particulares no
+seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia arvore a que
+não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não
+triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
+
+E depois, alli onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas
+vezes illudira ella a attenção do pastor, e se ficara por hortas e
+quintalorios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.
+Por isso Alipio José, pastor, a quem doiam as denuncias, ao pescoço da
+Russa prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais facil
+rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito mais
+grave.
+
+Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia
+gosto vel-a trepar ás ultimas cumiadas, subir destemidamente ás arestas
+superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,
+pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as hervas dos declives
+alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com
+abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e corregos,
+saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas excursões
+arriscadas de _touriste_.
+
+Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e
+então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de
+garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que
+encontrasse por essas paragens era para ella um desespero--tamanha a
+furia com que a perseguia, e a insistencia com que se ficava ás marradas
+na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o
+Alipio que dormia á sombra das azinheiras, de chapeu sobre a cara,
+levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu
+vozeirão que fazia echo:
+
+--Toma tento, Russa!
+
+E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos
+fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alipio José
+ficava-se a olhar a cabra, invejoso d'aquella facilidade em subir aos
+ultimos pinaculos, admirado dos saltos que ella fazia para salvar
+gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria
+infallivel. E por lá andava dias inteiros a Russa, n'aquella
+vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho,
+resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam
+ninho.
+
+ * * * * *
+
+Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por lá se
+deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia
+quiz ella descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem
+vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio José gritara cá debaixo, cada
+vez mais desesperado:
+
+--Volta ao rebanho, Russa!
+
+E, cuidando que mais lhe feria assim a attenção, punha-se a agitar com
+furia o mólho dos chocalhos, gritando sem cessar:
+
+--Russa! torna ao rebanho, Russa!
+
+Mas impossivel! que a não deixava a quebreira em que toda ella ficara do
+parto, nem o pequeno poderia--pobresinho!--descer por taes ladeiras, de
+pedregosas e asperas que eram.
+
+Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno
+congelava unindo-se á mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o
+aconchegava mais e mais para lhe transmittir o natural calor do seu
+corpo enfraquecido e doente.
+
+Por altas horas da noite, na solidão lugubre d'aquelle sitio,
+alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava
+lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido da mãe,
+traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao vagido fraco do
+filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
+instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.
+
+Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por taes frios e doenças,
+impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e
+mais n'um como abraço de eterna despedida--amigos que se iam apartar
+para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade,
+soluçando e gemendo, n'um adeus! que era infinito, como o infinito amor
+que os unia...
+
+E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
+lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fôra o signal
+para o transe derradeiro...
+
+Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abobada, as
+estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa indifferença por aquella
+dôr suprema de que eram as unicas testemunhas.
+
+E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céo a vida
+do filho, ao menos,--ora supplice em balidos de resignação que uma
+profundissima dôr ungia, ora desvairada e louca, em gritos que
+significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o céo que a
+não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe
+estrangular o filhinho que ella amava tanto.
+
+E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dôr--a ironia acerba da
+chocalhada longinqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra
+banda, deixando-a a ella sósinha com o filho, á espera da morte que era
+inevitavel.
+
+Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar
+fóra o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, n'um adeus! adeus!
+de despedida ás companheiras felizes que lá iam, n'um ruido longinquo de
+chocalhos...
+
+ * * * * *
+
+N'aquella solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol
+entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam
+e o sangue circulava.
+
+E o cabritinho sem poder ainda descer!...
+
+De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as
+escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e tremula, como
+que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas
+horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,
+lá baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio.
+
+Impossivel! impossivel!
+
+E sentia-se enfraquecer á mingua de sustento, pois a herva, por alli,
+estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres dias.
+
+N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes
+e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o
+chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que
+o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
+assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo...
+
+Impossivel! impossivel!
+
+Nada que signifique a dôr d'aquella mãe, e traduzir possa em linguagem
+toda a gamma de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se
+de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,
+estendido para alli, na prostração pesada do ultimo desalento; animava-o
+com caricias, aproximava-lhe da bocca os uberes já flaccidos e
+amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse levar
+ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe
+afflictivo...
+
+Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a ultima
+cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
+subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. Á medida que a treva
+se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte, accentuando-se
+cada vez mais a melopéa somnolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo
+ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos volateis de
+arminho, cortavam em vôos mansos a profundidade calma do céo, demandando
+os pombaes e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.
+Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um
+chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
+estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas rastejavam apressados os
+reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama...
+
+...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem
+passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda
+a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou alegremente o seu
+dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia ámanhã...
+
+Só a desgraçada cabra, alli, junto do filho tenro, não mais fizera
+passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração
+alanceado de mãe. Ahi vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o
+filho que já tremia a ella aconchegado--o triste pobresinho!
+
+Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
+n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céo era
+baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a espaços a abobada, irradiando
+uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em ultimos transes de
+creanças, em que a vida gradualmente se extinguisse, n'um latejar
+vagaroso de palpebras somnolentas...
+
+Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
+apparencia da atmosphera e do céo. Noite peor do que as outras, porém
+com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e
+nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancal-os do abraço em que
+se uniram, mal cerrara a noite!
+
+A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em
+rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos,
+accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade
+esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
+que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz sinistra
+na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retrahia-se n'um
+como pavôr medonho, concentrado de intimos terrores e silencios lobregos
+d'horas altas. Cerrava-se mais no céo a phalange muda das nuvens,
+densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas, sem
+scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem...
+
+E sempre, e constantemente immoveis na escuridão pesada, aquelles dois
+olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
+treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
+convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme dôr, a pobre mãe não
+ousava arriscar um unico movimento e mais e mais cerrava contra si o
+corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.
+
+Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes, quasi
+eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis angustias,
+vasias de esperança na vida do seu pequenino filho.
+
+De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
+novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distancia. Estremeceu a
+pobre de subita alegria,--e no abalo que soffreu o seu corpo, até então
+retrahido, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a
+desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleoptéros de azas
+phosphorescentes, os olhos até então immoveis do inimigo. E por alli
+levou a noite toda, farejando e uivando, até que cançado de perscrutar o
+insondavel, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
+que vinha, docemente, alumiando pincaros e arestas.
+
+ * * * * *
+
+Ao romper d'alva o céo era azul. Apenas de longe em longe pennachos de
+nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
+lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
+diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações
+imperceptiveis e suaves.
+
+Começavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina accusava já as
+differenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados
+de restolhos, tons pardos de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e
+pinheiraes cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céo no
+alto dos montados.
+
+Pelas ladeiras d'além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao
+areal da margem. Em turbilhões de espuma alvissima precipitava-se a agua
+nos açudes, marulhando nos altos penedos marginaes, denegridos e
+informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto do moinho, lá
+em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se tranquillamente no ar
+sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma
+ambição ou como um sonho...
+
+ * * * * *
+
+Foi então que Alipio José, á frente do rebanho, de novo abordou áquellas
+paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.
+
+--Russa! torna ao rebanho, Russa!
+
+Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida
+sobre o cadaver do pobre filhinho morto!...
+
+E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos
+rochedos--passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a
+esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...
+
+
+
+
+ARRULHOS
+
+_A.M. da Silva Gayo_.
+
+
+Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orificios
+triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impeccavel do
+muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de distancia.
+
+--Pombal da Morgada! diziam.--Lá se vê além...--E um gesto muito longo
+levava a vista horizontes fóra, á cata do Pombal da Morgada, que
+alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
+como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e osso
+provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
+seriam encantadoras as tardes quentes de estio, á sombra de arvores
+seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda, pardalada sonora,
+gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa semceremonia--frangãos
+assados e boa vinhaça da terra.
+
+Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A
+Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e
+outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte
+desastrada do noivo--um trambulhão de um cavallo que o matara logo alli,
+sem mais pio, n'um ai.
+
+A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera na
+vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a
+castidade das suas intenções d'elle...
+
+Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procreou, vieram pombos
+novos--todos brancos uns, rajados outros, de um _gris_ delicadissimo
+alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos.
+
+Bellos pombos, na verdade!
+
+Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo começavam de esbater-se
+n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas
+entrava de se desfazer em imperceptiveis _nuances_ subtis, n'um
+_smorzando_ melancholico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
+caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida
+cessava no campo e começava no céo em scintillações argenteas de
+estrellas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
+estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
+espalhando no pavimento terreo, com solicitudes de _menagère_, as
+provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço--milho em
+abundancia e fartura de alpista.
+
+Assim todas as tardes, ia já em quatro annos, que não havia forças que
+levassem a Morgada para fóra do seu pequeno solar, onde vivia só,
+retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel a pedidos de amigas
+que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e que a queriam levar
+para que se distrahisse, para que se alegrasse--«era nova ainda, podia
+arranjar noivo, nada mais facil...»
+
+--E as pombas? objectava.--Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo.
+Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
+matassem, haviam-de até roubal-as, entrar de noite no pombal, leval-as
+todas.
+
+--Que não e que não! insistia renitente;--que tivessem paciencia, que se
+divertissem muito, ella ficava.
+
+--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que
+rebentou do trambolhão. Bem tola!
+
+E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
+ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da simplicidade
+habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um
+pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma préga, nem sequer um laço.
+
+Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não
+desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de hoje para ámanhã,
+desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortavel, muito
+abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram
+flaccidos--folhas de milho mudadas cada dois dias.
+
+Que bom, ser pombo da Morgada!
+
+A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, começava com o
+aclarar, muito cedo, depois do descanço do somno na placidez do ninho,
+quando as forças eram sãs e as azas pediam vôos.
+
+Hora dos amores!
+
+Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente,
+lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
+ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
+possuindo-as á força, a tremer, azas em concha, pennugem erriçada,
+arrulhando muito, arrulhando sempre, cahindo desfallecidos depois,
+hirtos, palpebras cerradas, trementes, frementes, em spasmos de luxuria
+e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de
+contentes, sacudindo as azas, pescoço levantado, orgulhosas talvez,
+muito felizes.
+
+Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
+quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, n'uma
+doçura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
+ás boas, não querendo violencias, detestando-as, bem se via,
+supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos, redobravam os
+carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de
+pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos--beijos
+com certeza.
+
+Isto todos os dias, nas manhãs ennevoadas especialmente. Imagine-se a
+vida do pombal áquellas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas
+mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
+queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava;
+e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
+sanguineo e quem era pachorrento.
+
+Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
+pousava, retomando vôo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
+direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, n'um
+ruido muito doce de bicos que sorviam.
+
+Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
+Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao
+balcão da sua janella, alegre de trepadeiras em flôr, pousar-lhe nos
+hombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não
+sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lagrimas, mas
+que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis:
+
+--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...
+
+D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios felisões, vida
+de concubinagem, n'uma promiscuidade sem limites e n'uma libertinagem de
+harem.
+
+Polygamia desenfreada!
+
+Excepção a ella, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba
+branca, de uma alvura impeccavel de neve, e então um pombo rajado, preto
+e cinzento, de _nuances_ azues-escuras, ares aguerridos de luctador
+vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.
+
+Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e
+spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de pescoço,
+nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a, sem arrulhos previos,
+sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
+entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe no ninho, disputando
+primazias á força de bicadas.
+
+E umas atraz de outras, e dias após dias, sempre assim!
+
+Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar logar
+a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado d'elle, paciente,
+resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
+meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o ufanava,
+incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
+outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
+entregar a outros, e de se affeiçoar á branca, a ella só, acarinhando-a
+muito, arrulhando com ella, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
+amores.
+
+Não imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da desordem, da
+perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instinctos commodos de
+polygamia, tão avesso a duetos d'aquella natureza, onde os pombos eram
+de todos e as pombas eram communs.
+
+E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
+inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava de
+egoista. E quando saíam não se juntavam com os outros--uma desfeita! uma
+offensa!--tomavam rumo differente: para a direita se os outros iam para
+a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
+contrario.
+
+Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os
+encontravam no pombal, em ninhos contiguos a principio, no mesmo ninho
+depois!
+
+Um escandalo! Um desaforo!
+
+E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.
+
+Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
+forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
+isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as azas,
+levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
+quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados...
+
+Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a pomba
+branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia depois,
+luctava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do
+pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além,
+entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido de azas, receiando
+acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido
+sob a aza veludinea.
+
+Dois mezes assim--dois mezes!--n'uma fidelidade conjugal ininterrupta,
+digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheço, que os
+senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
+esplendida de alegrias, passada em bellas digressões campos fóra,
+pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo
+de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...
+
+Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter desconfianças, suspeitas
+de inconstancias e receios de infidelidades, de noite, emquanto dormia.
+Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
+modos de enfadada ás vezes, certas perrices, resistencias mal
+disfarçadas. Ficava-se em casa se o rajado sahia, impassivel a
+supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e quebramentos
+de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o vôo, tomava para norte se o
+rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.
+
+Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam--rameira do
+rajado!--um dia levantou vôo e fez-se ao largo.
+
+ * * * * *
+
+Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao
+_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
+_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, á prova de
+rheumatismo e á prova de vintem, felizes na sua pobreza, amigos das
+creanças, bem humorados sempre, flôres de uma arvore que ora vae dando
+cardos. Perto do solar da Morgada, a tres kilometros só, havia um assim,
+o abbade das Donas, bom prégador n'outras eras, com famas de theologo
+ainda ao tempo.
+
+--Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!--era assim que
+muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins,
+sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos.
+
+--Theologia velha, diziam, a genuina!
+
+A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
+a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era
+terreo, rimas de lenha secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha,
+um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para
+um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
+estavam.
+
+Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas devoções, e n'essa tarde
+quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, oculos na
+ponta do nariz, breviario na mão direita, a dois palmos, a esquerda a
+segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solideo com borla
+resguardando-lhe a calvicie.
+
+A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações
+de desgosto, arremessos de breviario, e por fim levantando a voz:
+
+--Fome as pombas, sr.^a Luiza: não fazem senão saltar...
+
+--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,--mas têm lá
+visita, pomba que arribou.
+
+E depois informando:
+
+--Pomba guapa, toda branca. São agora tres ao todo, e então o pombo...
+
+--Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.--Percebo... percebo
+perfeitamente...--E foi metter-se no quarto, continuar a
+leitura.--Deixal-as! concluiu evangelico.
+
+Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar á reles
+pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um caixão velho, com
+grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'alli ao fundo da
+varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros, um nojo.
+
+Quando a mostrava á creada, o abbade dizia-lhe sempre:
+
+--A sua vergonha, sr.^a Luiza; a vergonha da sua cara. Como se os
+animaes não fossem tambem creaturas de Deus...
+
+As pombas eram magras e o pombo era esqueletico.
+
+Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a
+alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que ambos
+se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e bem
+tratada, flaccida de pennugens e de carnação consistente, apetitosa, o
+pombo não a largava--genio de libertino em corpo de tisico.
+
+Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se
+queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
+tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do
+rajado, o seu primeiro amor, quem sabe!
+
+E depois, o pombo sujo já não se importava com ella, desprezava-a,
+tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras, dando-lhe maus
+tratos,--á intrusa. Dôr incomparavel!
+
+Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar,
+descançando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando
+sempre, arrastando-se em vôos baixos, sentindo vertigens se subia mais
+alto. Para passar um ribeiro descançou uma hora, e quando cobrou alento
+e começou o vôo, viu-se na agua e estremeceu, molhou ainda as azas, viu
+um corvo na sua propria imagem, um corvo negro que a perseguia
+silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ella tinha
+sido e o que era!...
+
+Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do rajado... Oh! o
+rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a quereria, tinha pomba,
+decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um vôo valente e
+estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.
+
+Fez-se de vôo e partiu.
+
+ * * * * *
+
+A manhã era calma e o céo era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar
+que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva
+tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra cançada e
+adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado
+esplendido--decoração triumphal com que se orna aguardando a visita de
+quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando
+tudo--o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...
+
+N'aquelle repontar da manhã, o alto céo era de uma limpidez crystallina.
+Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcissima paz, e
+pelas ramagens verdejantes a volata suavissima dos ninhos começava, como
+uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras,
+florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa d'alva.
+
+Em manhãs placidas como aquella, quantas vezes a branca não fizera as
+suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do rajado,
+perdendo-se com elle atravez do horizonte áquella hora tranquillo e para
+toda a banda transparente!
+
+Como tudo isto lembrava, agora!
+
+Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam descançado muitas
+vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura ineffavel o amor
+extraordinario que os unia! Em toda a largura não se descobria um só
+campanario ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres,
+contentes, doidos! E ella sempre ufana, acompanhava o macho nos seus
+vôos ainda os mais arrojados, perdia-se com elle para além das serranias
+mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que
+empenharia a vida só para salvar a da amante.
+
+E que bella manhã, aquella! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras
+acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu vôo perpendicular e
+rapido!
+
+Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
+melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
+largura--nem uma aza de pomba palpitava. Ella só, desalentada e cheia de
+maguas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte...
+
+Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as azas
+contra o muro, arremettendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a
+coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos
+companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
+arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo
+muito as azas combinando ataque.
+
+E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a
+passagem.
+
+De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou vôo
+n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a
+desgraçada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue nos bicos e pennas
+voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam com furia. Por
+fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado,
+bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho guttural de
+vida que se esvae lentamente, gradualmente, com dôr. Um estremecimento
+de membros por fim, uma agitação geral repentina, e--morta!
+
+Ares além, os assassinos em bando voavam á busca talvez de um ribeiro
+onde lavassem os bicos ensanguentados...
+
+ * * * * *
+
+E o rajado?--hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e
+vel-o-hão sair da janella das trepadeiras, alegres, felizão, bohemio,
+depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um
+leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ella,
+arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando...
+
+
+
+
+BATALHAS DOMESTICAS
+
+
+
+
+BATALHAS DOMESTICAS[1]
+
+_A Luiz Trigueiros_.
+
+
+Para o meu proposito, é inutil narrar-lhes esse pequenino e perfumado
+idyllio, côr de roza, que foi na vida d'ambos, durante um anno, o seu
+mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim Seabra, maior,
+empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno uma furiosa
+vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda elle era fedelho: e
+passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma doença complicada
+levara-lhe tambem o pae--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas
+leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira,
+nas abas da serra da Estrella.
+
+Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lh'os. E
+quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo
+peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob a umbella branca de
+grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu o padre de que em
+podendo lhe desejava uma palavra.
+
+--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.
+
+Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente,
+junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho,
+entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo
+de lhe murmurar, designando vagamente o filho:
+
+--O pequeno, coitadinho!
+
+De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos,
+veio metter o orphão, como marçano, n'uma loja de ferragens da baixa,
+loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para
+uns saguões de predios contiguos. De marçano subiu com o tempo a
+caixeiro; e como era applicado, humilde, supportando com uma placidez
+resignada de beirão um trabalho por vezes superior ás suas forças, pulou
+um dia para a escrevaninha da casa, no andar de cima, vaga pela sahida
+para a cadeia do outro que commettera umas falcatruas.
+
+--Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera deante dos patrões o
+Joaquim.
+
+E a incisiva phrase que fôra, emquanto remexia a papelada, todo o seu
+commentario ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a
+involuntaria conquista do logar, como revelação, que era, das qualidades
+fundamentaes do seu caracter,--communs, de resto, ao typo beirão,
+profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no fundo generoso e bom.
+
+A vida começou então a ter para elle umas entreabertas mais risonhas,
+livre d'essa prisão estreita da escura loja, onde os seus instinctos
+hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma natureza
+barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos
+repelões de rebelião... Até que um dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo
+á escrevaninha o assaltavam, pensou em ir á terra onde não voltara desde
+pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E n'uma
+introversão de momentos, mirando atravez da janella o claro céo azul,
+alto n'aquella manhã serena de maio, o Seabra teve a remota visão do seu
+passado--das coisas da sua infancia, da sua pobre e humilde aldeia
+encravada n'um declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente
+de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo
+invertido, elle lá via além, muito longe para as suggestões do seu
+desejo, muito afastado para as debeis reminiscencias da sua memoria,
+tudo isso que elle dizia em tres palavras--«a minha terra!»--isto é,
+esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo
+do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja oblonga; a fita
+branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua mãe jaziam; a paizagem
+circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de prata
+serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a
+velha legião amiga das arvores--o zimbro ao alto dos môrros nús; depois,
+descendo, as urzes brancas; os piornos; os bellos carvalhos altivos; e
+já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agricola e horticola o
+verde e tenro parasol das suas soberbas folhas--o castanheiro, emfim.
+
+Atravez da sua vida de balcão, duramente moirejada a mover barras de
+ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com
+intermittencias raras de descanço, algum domingo, pelas hortas dos
+arredores, ou ás vezes n'um bote, pelo Tejo,--a sensação melancolica da
+sua paizagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cerebro, nem tão
+pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infancia, dos seus
+companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, á
+lição a casa do reitor, n'aquelle velho sotão da residencia, com paredes
+denegridas e tecto de madeira com manchas...
+
+E que seria feito d'elles? Talvez que os não conhecesse, que o não
+reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta desconfiança, dava ao
+seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua
+bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto
+subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim, a propor
+aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azues e
+toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso, espontaneamente,
+insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda
+solteira...
+
+...a Emilia!
+
+E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente á historia
+que lhes vou contando, a chronica preliminar d'esse consorcio, direi que
+a velha estola do reitor os uniu emfim uma manhã--manhã de julho, na
+velha e ampla igreja da freguezia, toda banhada de sol, toda rumorejante
+de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva alegre de
+pétalas, a saraivada metalica dos sinos, repicando... Até que passados
+dias, eil-os emfim em Lisboa, installados não sei em que beco da Baixa,
+perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o
+escriptorio.
+
+E aqui rompe a historia; e se é do agrado dos senhores, comecemos.
+
+ * * * * *
+
+Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa,
+toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no
+amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a
+mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por
+outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e
+trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a
+homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas
+naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas
+do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saude,
+explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de vontades que os
+dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro
+avesso nos seus desejos, sem a minima divergencia no seu modo de vêr e
+de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que nas suas
+naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio
+visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer nullo, sem
+consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo periodo passado
+em latitudes differentes:--ella, onde ambos tinham nascido, debaixo do
+mesmo céo, á luz do mesmo sol, á sombra das mesmas arvores; elle,
+sequestrado de tudo isso, mas n'um meio sem côr para elle definida,
+pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se
+conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente
+debaixo do luar melancolico...
+
+Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas
+superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao
+rythmo da mesma canção, essa forte, dulcissima corrente de ternura
+espiritualisada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e
+fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada
+efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia tambem no sangue
+d'ambos--bem como no seio de um diamante as iriações mordentes--as
+rubras, incandescentes faulhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se
+quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo,
+vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas
+classicas, por umas cabecitas loiras de creanças, frescas, ridentes, côr
+de rosa...
+
+D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado idyllio,
+côr de rosa, que fôra na vida de ambos, durante um anno, o seu mais vivo
+encanto...
+
+ * * * * *
+
+Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escriptorio, noite cerrada
+já, quando uma rapariguita que lhes servia de creada havia dois dias,
+vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no accento beirão:
+
+--A minha madrinha está muito mal.
+
+--Muito mal?
+
+--Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê.
+
+Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se á hombreira,
+para não cahir, sentiu passar-lhe pelo cerebro, como um tufão de peste,
+uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um presentimento... E cobrando
+alentos, confuso deante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz
+trémula, no tom de quem procura, compromettido e humilde, esconder um
+pensamento:
+
+--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio
+da Beira.
+
+--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como
+doida...
+
+--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso.
+
+E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do
+andar de baixo,--talvez alguem que o procurasse!--fechou a porta com
+força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto
+impondo silencio, com a mão sobre a bocca arquejante da rapariga.
+
+--Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo--Se te calares hei-de te
+dar dinheiro. Cala-te.
+
+A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um
+novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo o
+predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem
+nas ruas proximas, o Seabra tomou nos braços trémulos a pequena, e foi,
+cauteloso como um bandido, leval-a á cama.
+
+--Ouves, Luiza? Não faças bulha. Dorme.
+
+E fechando-lhe a porta á chave, respirou, hirto no meio do corredor em
+trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio, aquella
+escuridão impenetravel! E elle, como um cataleptico, alli encafuado
+vivo...--triturado pela magua, roido pela dôr, desfeito pela desgraça,
+como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem,
+implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua carne,
+sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas até da sua
+propria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no
+emtanto... morto: vivo para a sensação esphaceladora da sua atroz
+desgraça, do seu cruel, cruciantissimo martyrio; morto, aniquillado,
+desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças...--as suas
+esperanças! revoada alegre de pombas, candidas, serenas, immaculadas,
+que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e
+para sempre...
+
+E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma prostração de louco
+embriagado, dir-se-hia que o cerebro deixara de funccionar n'esse
+infeliz--como relogio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e
+que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava!
+era essa impressão anniquilladora do _Nada_, que o fundia na treva
+circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e
+tanto e tão intimamente, que elle proprio n'ella se sentia diluido, e no
+silencio...
+
+Subito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado alli de
+perto como um reptil, escoado alli de perto, como um verme,
+phosphorejante na treva á semelhança de um demonio, que agitasse um
+_pierrot_ de cascaveis,--uma centelha de vida animou esse corpo
+aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar, como luz de
+lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma de uma
+ideia... E teve então de si proprio a extranha, diabolica visão de um
+esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco immovel
+das orbitas, d'onde dois feixes de luz escorriam--aquelle trapo
+miserando alli cahido, informe, esqualido, repellente, montão de gelo, e
+lagrimas, e trevas...--que era elle tambem!...
+
+Entretanto, e como por força mesmo d'essa allucinação desvairada e
+tragica, o cerebro perdera n'elle a recta, serena faculdade do
+raciocinio, elle continuava absorto, incomprehendido, estupido, deante
+da «sua desgraça»--como deante de um grande mar de negrume, profundo e
+estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céo sem estrellas,
+torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um espectro... E
+assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos irracional,--mudo,
+aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo
+de um poço um bloco inanimado...
+
+ * * * * *
+
+No escuro do seu cubiculo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a
+propria treva soluçasse, esse chorar abafado da creança, espavorida das
+coisas que a cercavam, para ella mysteriosas e funebres. Era como se um
+alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido
+de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um vôo de acaso,
+na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de
+velho muro, abandonado algures...
+
+E porque viera? E para que viera? Não sabia. No emtanto, ao contrario do
+que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada de profunda
+nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, atravez do qual passavam
+os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois
+dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo!
+E não tornara mais a vêr passaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã,
+tocando á missa d'alva, tangendo á tarde a Ave-Marias, o seu querido e
+alegre sino d'aldeia...--além, n'aquella riba suave e pittoresca,
+prateada, beijada do luar áquella hora!... E o fio do seu pensamento,
+que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como pequenino
+arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas,
+torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido n'um
+veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fôra de lagrimas,
+occulto sob a folhagem pallida...
+
+ * * * * *
+
+A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto
+da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez
+dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como
+acontece ás tempestades da natureza, tambem a tempestade d'aquella alma
+de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente,
+gradualmente. Chorou. E como se fôra o véo das lagrimas que lhe não
+deixára vêr até então os pormenores do seu infortunio, d'este
+permittindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se
+fazer com a vasante mais lucido o raciocinio, mais precisa e mais
+esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro, como luz que pouco a
+pouco vae surgindo na lampada de um claustro, allumiando nitidamente,
+sob o docel frio das sombras, as arestas marmoreas de um sepulcro...
+
+Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas
+linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade
+rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde secca de maio. E foram
+então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina,
+por entre as maxillas ferradas, do fundo do peito em ancias. Então foi o
+arrancar convulsivo dos cabellos, ás guinadas, teimosamente, n'um duello
+de loucura com a dôr physica, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a
+beber o proprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes,
+lacerantes como se foram de abutre.
+
+--Ah! raios do céo, e não morro!
+
+E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao chão, como
+beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe então
+o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrivel de que se
+divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a
+conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e
+todo elle se sentia gelado até ao mais intimo da sua alma, suppondo-se
+na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando adherente ás costas,
+como um ferrete ou como um caustico o olhar de «toda a gente»... E com
+as unhas ferradas na testa, escondia da propria treva, com as mãos
+ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.
+
+--Diabos do inferno! levae-me!
+
+A este novo grito, porém, subito se recolheu n'um grande pavor
+religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce,
+harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um
+casal... E teve a doce visão de um arco-iris, bonançoso e rutilante,
+repontando luminoso no borel asperrimo da sua alma, onde uma clareira se
+abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas tranquillas,
+que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba alvinitente, que
+transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:
+
+--Deus!
+
+E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um
+como enlevo de visão, um ruflar de azas de pombas... á hora d'alva...
+sobre os campos... n'uma clara manhã de maio, perfumada...
+
+E como se mão invisivel o erguesse, de vagar, serenamente, enxugando-lhe
+da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta alli pela sua
+alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contiguo, onde
+sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi
+submissamente, como um cão duramente batido que volta aos affagos do
+dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos, pallidos,
+desbotados, ao claro luar vindo do céo, o triste uniu os seus labios
+frementes,--...n'um beijo suavissimo de perdão. Ao mesmo tempo que ella,
+n'um delirio, repetia a phrase cruel:
+
+--Mais vinho!
+
+
+
+
+NOTAS:
+
+[1] Sendo necessario completar o numero preestabelecido de paginas de
+cada volume d'esta _Collecção_, numero além do qual se não póde ir e
+aquem do qual se não deve ficar,--o editor pediu e obteve do auctor, em
+vez de novo conto, um excerpto do seu livro em preparação, livro
+provisoriamente baptisado com o titulo de _Batalhas domesticas_. O
+excerpto póde dizer-se que constitue só por si, como os leitores verão,
+um trabalho litterario, independente e uno, o que de certo modo lhe dá
+logar n'esta collecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além
+disso, a transição do espirito do auctor para uma nova phase, litteraria
+e artistica.
+
+N. do E.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+Idyllio rustico
+
+Sultão
+
+Ultima dadiva
+
+Preludios de festa
+
+Typos da terra
+
+V[ae] Victoribus
+
+Maricas
+
+Para a escola
+
+Tragedia rustica
+
+Abyssus abyssum
+
+Mãe
+
+Arrulhos
+
+Batalhas domesticas
+
+
+
+
+OS MEUS AMORES E A CRITICA
+
+
+Da Revista Illustrada (extracto da chronica):--«..._Os meus amores_, de
+Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições
+agradabilissimas ao paladar d'ambos os sexos, e com delicadas
+circumstancias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das
+preoccupações litterarias mais evidentes d'este escriptor primoroso é
+fazer jus á amisade das leitoras, e como dispõe de pericia no ferir de
+certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento,
+consegue-o.--_Alfredo Mesquita_.
+
+
+Jornal da Noite:--«Trindade Coelho--Este illustre escriptor, nosso
+talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo
+livro de contos _Os meus amores_.
+
+De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das
+lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distinctamente,
+e impõe-se á admiração dos que apreciam os talentos brilhantes
+privilegiados.
+
+Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e
+encantadora são dignos do maior apreço, pela elegancia da fórma,
+burilada a primor n'um estylo finissimo e scintillante, despertam os
+mais francos, sinceros e enthusiasticos encomios dos que os lêem.
+
+Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello
+caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos
+serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distincto collega.»
+
+
+Diario Popular:--«_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de
+graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo, que
+acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho.
+
+O escriptor, como verdadeiro artista que é, localisa todas as suas
+attenções, de ha muito, no trabalho de apprehender com fidelidade o
+viver campezino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi
+berço. Por isso o seu fabrico litterario se aprimora de dia para dia
+n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito: _Os meus
+amores_ o attestam, quando postos em parallelo com os primeiros contos
+publicados avulso.
+
+Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e
+consegue photographar com particular exactidão. Em vez dos descriptivos,
+quasi despresados, são trechos successivos de conversas d'uma
+encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de todas as
+suas producções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho
+pessoal da sua obra, que proporciona agradaveis e confortaveis momentos
+de leitura.»
+
+Diario Illustrado:--«Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um
+admiravel soneto de Luiz Osorio, que depômos nas mãos da leitora, como o
+perfumado ramo de cravos valencianos, a flôr actual das suas
+predilecções femininas: (_segue o soneto incial_.)
+
+E pelo braço do poeta da _Alma lyrica_ subimos ao doce convivio
+espiritual da alma de Trindade Coelho.
+
+O conto _Mãe_, uma rica joia engastada n'este livro, brilhando ahi por
+todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte
+de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para
+aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante
+estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e
+melodico, o diploma do seu notavel talento.
+
+É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade
+espontanea que estes contos nos captivam.
+
+O auctor diz-nos, sem preoccupações de escola e sem pretenções a abrir
+caminho pela deslocação do vocabulo ou pela selva escura do escandalo, o
+que viu, analysou, observou e sentiu.
+
+As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam
+suavemente, tocadas a espaços de uma inegualavel melancolia
+contemplativa que lhes duplica o encanto.
+
+Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade
+Coelho revela o superior poder evocativo da visão intima, que o
+singularisa.
+
+A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle,
+como para todos os artistas de raça, attitudes, expressões, côres e
+sons, que o auctor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora
+eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento, que só nos
+transmitte a simples leitura dos poetas.
+
+Ha rapidos traços de analyse emotiva ou de commoção reflexa que valem
+poemas.
+
+E não serão o _Idylio rustico_, a _Mãe_ e outros contos, soberbamente
+delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?
+
+Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo
+seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o
+seu primeiro triumpho.--_Gabriel Claudio_.»
+
+
+Jornal do Porto:--«_Os meus amores_.--A collecção Antonio Maria Pereira
+augmentou se d'um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e
+está escripto pelo nosso illustre collega e litterato distincto o sr.
+Trindade Coelhho.
+
+D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve
+achar grande acceitação no nosso publico, escreveremos em breve as
+palavras apreciadoras que elle merece.»
+
+
+Correio Elvense_:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
+escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a
+que deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
+Antonio Maria Pereira.
+
+Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
+capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
+em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
+tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
+estylista.
+
+Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor
+que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus
+triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons
+e sinceros amigos.
+
+N'um dos proximos numeros falaremos da impressão colhida em _Os meus
+amores_, agradecendo desde já as expressões affectuosissimas que
+acompanham a dedicatoria do livro, que o seu auctor nos offertou.»
+
+
+Correio do Norte:--«_Os meus amores_.--Contos e balladas.--Trindade
+Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escriptor, acaba de publicar um
+livro de contos com o titulo acima indicado. É esta uma bella novidade
+para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de ha muito soube
+conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello talento e
+poderosas qualidades de escriptor.
+
+Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do
+novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle.
+
+Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu
+offerecimento.»
+
+
+O Globo:--«_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de
+Antonio Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome
+de Trindade Coelho.
+
+Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser por certo
+trabalho de grande valor artistico, como invenção e como execução,
+porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra litteraria má. A
+sua educação litteraria está feita, e os seus numerosos trabalhos tão
+apreciados, tão portuguezmente escriptos, tão sentidos e tão espontaneos
+revelam qualidades de escriptor de raça. Elle tanto póde ser um
+jornalista eminente como é um contista original.
+
+_Os meus amores_ é uma collecção de contos e balladas. Conhecemos alguns
+capitulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para
+não errar na apreciação. Vamos lel-o com a convicção de que teremos de
+saborear um d'esses raros mimos litterarios que só os privilegiados de
+talento sabem offerecer aos seus leitores.»
+
+
+Diario de Noticias:--«_Os meus amores_.--_Contos e
+balladas_.--Anunciámos, em tempo, o proximo apparecimento d'este
+trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do _Portugal_, o
+sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collecção, já tão valiosa, das
+edições do sr. Antonio Maria Pereira.
+
+O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que
+desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do
+seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores.
+
+Com uma observação escrupulosa, e um pittoresco estylo, d'uma pujança e
+d'uma riqueza não vulgares, sem attentados contra o bom gosto, nem
+rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade Coelho são, a
+todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que ha-de entrar, sem
+hesitações, na acceitação do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a
+attestar, n'uma formosa prova, a riqueza de um espirito, superiormente
+educado, ductil e promptamente malleavel.
+
+Porque esses contos são a obra de um genuino artista, cuja _maneira_,
+simultaneamente facil e apuradissima, revelando a espontaneidade de uma
+fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma
+delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de
+seiva.
+
+Não póde entrar nos curtos limites de uma simples noticia, a mais
+desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na proprio nome do seu
+auctor, o melhor e o mais seguro titulo de recommendação para obter do
+publico a consagração de um largo e legitimo successo.
+
+Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz
+Osorio--preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle
+rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias litterarias.»
+
+
+A Actualidade:--«_Os meus amores_.--Este nome é o de um novo livro da
+collecção Antonio Maria Pereira. Pelo titulo presume-se um volume de
+versos; mas não é, o que não quer dizer que n'elle se não surprehenda
+legitima poesia. Trata-se de contos e balladas, originaes do sr.
+Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escriptores.
+
+Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso
+contista:
+
+Estylo correcto, elegante, vivo; descripções ricas de observação e
+attrahentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da fórma; despidos de
+grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita
+naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre
+tudo, pela propriedade.
+
+Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do sr. Trindade Coelho,
+deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as
+narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idylio rustico_,
+que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se
+encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notavel poder
+de observação e que deixam o espirito suavemente impressionado. Leiam, e
+verão que não exageramos na opinião que ahi deixamos rapidamente
+exposta.
+
+Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.»
+
+
+Correio da Manhã:--«Registar o apparecimento de um livro bom, linguagem
+elevada e singella, desartificioso e artistico, repositorio vasto de
+observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é
+sempre agradavel á chronica, n'este tempo sobretudo de litteratura
+gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica.
+
+_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos offerecer sr. Trindade
+Coelho é um livro d'esses. Collecção primorosa de contos e balladas, em
+que no mais despretencioso dos estylos nos conta recordações e idylios e
+nos mostra uma galeria rica de typos e de figuras cuidadosamente
+observados e primorosamente expostos.
+
+O ultimo conto _Para a escola_, que d'essa bella collecção acabamos de
+ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assimelha se
+notavelmente á maneira de Gustavo Droz.
+
+Não é o logar nem a accasião de fazermos a critica do livro e a
+apreciação d'este novo, d'este debutante, que ao primeiro assalto parece
+estar já senhor da batalha.
+
+É por isso que sinceramente o felicitamos.»
+
+
+Vanguarda:--«_Os meus amores_.--O nosso collega, o sr. Trindade Coelho,
+que quasi só conheciamos pelos seus libellos accusatorios, acaba de nos
+enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a feição carregada e
+sombria do agente do ministerio publico desapparece por completo, para
+nos deixar apreciar só o espirito finalmente delicado do homem de
+lettras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente
+sabedor do seu officio.
+
+Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o
+outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do
+ministerio publico, que parece lhe oblitera ás vezes as suas excellentes
+faculdades.»
+
+
+Primeiro de Janeiro:--«_Os meus amores_.--Acabamos de receber o
+formosissimo livro de contos «_Os meus amores_», de Trindade Coelho.
+
+Não é ainda a occasião de pôrmos em relevo todas as qualidades
+litterarias, complexas e brilhantissimas, que se evidenciam n'este
+livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assignalaveis entre os
+mais illustres cultores da prosa portugueza.
+
+Os contos por onde «_Os meus amores_» se repartem não são apenas
+maravilhas de linguagem, onde tão sómente se destaquem dextrezas e
+fulgurações do estylo: a acção que os anima constitue uma deliciosa
+galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em
+flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de observação e
+trasladados a uma fórma superiormente artistica, onde ha firmemente
+accentuados todos os caracteres de uma esplendida organisação
+litteraria.
+
+É um livro vibrante e magnifico--adoraveis paginas intensamente ou
+delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas, cuja leitura é um
+verdadeiro encanto.
+
+As nossas cordeaes felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a
+gentilissima offerta do seu livro.»
+
+
+Folha do Povo:--«_Os meus amores_.--Esta publicada em volume uma série
+de _contos e balladas_ com que o sr. Trindade Coelho, o brilhante
+collaborador do _Portugal_, vem enriquecer a litteratura _contista_
+entre nós, hoje tão querida do publico, depois que os trabalhos de
+Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um valor até então
+mesquinho.
+
+A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e balladas_ do sr.
+Trindade Coelho é um estylo muito seu, cheio de uma crystallina
+naturalidade, _affastando-se completamente d'essas excrescencias de mau
+gosto_, que ultimamente têm abastardado a lingua portugueza,--prova da
+superioridade intellectual do escriptor de que nos occupamos--, visto
+que não mira a uma falsa gloria, conquistada facilmenle pelas
+excentricidades de estylo, que são hoje uma verdadeira mania entre
+alguns escriptores da chamada geração moderna.
+
+O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo á espontaneidade
+das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista,
+porque nunca a phrase lhe sae banal, nem tão pouco envolvida em ouropeis
+de mau gosto litterario.
+
+E no entanto encanta-nos,--prova de que está alli um primoroso
+escriptor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da
+natureza por uma fórma de observação, que não é d'esta nem d'aquella
+escola. É simplesmeate sua, individual.
+
+Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque as
+suas primeiras producções litterarias ressentiam-se de uma tal ou qual
+preoccupação de _effeito_ no modo de construir a phrase. Hoje, o
+escriptor adquire a independencia da sua maneira, do seu processo, e
+feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia, visto que os seus
+quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reproducção do que o
+artista observa em volta de si.
+
+Certamente que o publico lerá com encanto o novo livro do sr. Trindade
+Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e--podemos mesmo dizer--a
+litteratura portugueza.--_Silva Lisboa_.»
+
+Diario Illustrado:--«De tempos a tempos chegava-nos do Atemtejo um
+periodico que não deixavamos nunca de lêr pelo fino gosto litterario,
+pittoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos,
+incluindo os politicos. Esse periodico era redigido por Tindade Coelho,
+cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade
+litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade
+verdadeiramente notavel.
+
+De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o
+_Diario Illustrado_ e, vindo establecer residencia em Lisboa, algumas
+vezes tivemos a honra de receber n'esta redacção a sua visita, sempre
+agradabillíssima para nós, porque a sua conversação scintillante
+aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho.
+
+Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume--que faz parte da
+collecção _Antonio Maria Pereira_--os seus deliciosos contos, cheios de
+observação, de verdade, de simplicidade artistisca, que é, a nosso vêr,
+suprema expressão de belleza n'este genero de composições litterarias.
+
+_Os meus amores_ são um bello livro, em que o estylo se não contorce
+atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da
+forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade. Tudo
+alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres e dos
+episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos períodos.
+
+N'uma palavra, _Os meus amores_ são a obra de um artista, de um homem
+que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem definida por
+traços profundos de verdadeira originalidade.»
+
+
+Voz Publica:--«_Os meus amores_.--Trindade Coelho, innegavelmente um
+talento de primeira agua, acaba de brindar a litteratura portugueza com
+um excellente livro de contos subordinado áquelle titulo e que constitue
+o duodecimo volume da elegantissima _Collecção Antonio Maria Pereira_.
+
+_Contos e balladas_ é o sub-titulo do livro, e muitos ao lêrem-n'o
+julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa
+vernacula, correcta e vibrante que estão escriptos os bellos contos de
+que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido.
+
+São todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e
+verdade dos seus typos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os
+formosos typos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo mallogrado
+auctor da _Morgadinha dos Canaviaes_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_.
+
+Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a lêr
+deixará de o fazer como nós; tão attrahente é a fórma por que Trindade
+Coelho conduz todos os ligeiros contos de que elle se compõe, que sem
+querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste
+d'elle ter acabado.
+
+Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem,
+foram os que se intitulam _Typos da terra_ uma galeria curiosa de typos,
+e _A mãe_, um conto de natureza, simples e commovente na sua
+simplicidade, e notavel pela sua originalidade.
+
+Recommendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos
+leitores.»
+
+
+Ordem do Dia:--«_Os meus amores_.--Este é o titulo do 12.^o volume da
+collecção Antonio Maria Pereira, innegavelmente a publicação mais
+elegante, mais barata e mais interessante do paiz.
+
+_Os meus amores_ são uma serie de contos e balladas, em prosa, devidos á
+penna d'um moço talentosissímo, de ha muito conhecido nas lides do
+jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançára ao mercado um
+livro; com este debuta o auctor, e é uma estreia auspiciosissima a sua.
+
+A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle é
+cultivado um genero--o de contos, alguns á maneira de Gustave Droz, que
+prendem e interessam o leitor em todo o sentido.
+
+Foi gratissima a impressão que elle nos deixou no espirito e esperamos
+que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas bellas
+producções, porque estamos certos de que quem lêr _Os meus amores_ será
+com sofreguidão que esperará novo volume do distincto escriptor, tal é o
+encanto da sua escriptura».
+
+
+O Sorvete, (com o retrato do auctor):--«Dr. Trindade Coelho.--Mais uma
+prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez justificada a alta
+competencia e finissimo espirito de escriptor disctinctissimo!
+
+O novo livro de Trindade Coelho,--_Os meus amores_--contos e
+balladas--editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, é, no
+dizer dos entendidos em litteratura,--uma verdadeira joia.»
+
+
+O Espozendense:--«_Os meus amores_ (contos e balladas) por Trindade
+Coelho.--Faz parte este volume da interessantissima collecção Antonio
+Maria Pereira, tão bem acceite do publico, pela superior escolha das
+obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus preços.
+
+_Os meus amores_ é um precioso agrupamento de contos, alguns ineditos,
+outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com applauso por
+differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em plena aldeia
+trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra, pois é natural de
+Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos, delegado do procurador regio
+n'uma cidade de provincia--os contos d'esta collecção tornam-se
+sobretudo notaveis pela propriedade e pela fidelidade da acção,
+verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da côr propria da paizagem,
+vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens e das
+cousas.
+
+Entre as nossas obras litterarias originaes, _Os meus amores_ merecem,
+pois, um logar á parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de
+Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam
+pela litteratura nacional, mas como a poderosa affirmação de um prosador
+elegante e de um contista distincto, no meio da grande maioria da chata
+vulgaridade indigena.
+
+_Os meus amores_ é, em summa, um livro de valor, bem cabido nas mais
+escolhidas bibliothecas.»
+
+
+O Portuguez:--«_Os meus amores_.--Delicioso titulo de um livro
+delicioso.
+
+O livro é uma collecção de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio
+Maria Pereira; e o auctor é o nosso collega do _Portugal_, sr. Trindade
+Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que é digno representante,
+cultiva as lettras com desvelado amor.
+
+Em Coimbra, estudante ainda, era já litterato apreciado, collaborando,
+com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que ha mais de dez
+annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu título
+de jornalista a invejavel nomeada de contista esmerado, e brinda as
+lettras portuguezas com um volume, que está tendo a mais justa e
+lisonjeira acolhida.
+
+O primeiro conto do livro, _Idylio rustico_, não obstante ser agora
+publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque
+appareceu manuscripto n'um concurso litterario da extinta _Associação
+dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagração de um jury, terá
+agora a consagração do publico.
+
+Depois do _Idylio rustico_, vem o _Sultão_, um quadro magnifico da vida
+campesina, notavel de simplicidade e graça; e a _Ultima dadiva_; e os
+_Preludios de festa_; e os _Typos da terra_; e as _Balladas_; e a
+_Tragedia rustica_; e a _Mãe_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas
+domesticas_: outros tantos primores, que ás vezes nos fazem lembrar as
+deleitosas e serenas paizagens de Daudet.
+
+Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por
+não haver ainda expirado entre nós a litteratura san, que, ou nos
+desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas, não nos deixa no espirito
+a impressão doentia das nevroses litterarias...»
+
+
+Jornal da Manhã, Porto:--«_Os meus amores_.--Mais um volume acaba de ser
+publicado da collecção Antonio Maria Pereira, por sem duvida a mais
+elegante, a mais escolhida e a mais economica bibliotheca que se publica
+em Portugal.
+
+É o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e
+balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir todos os
+seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos.
+
+Do primeiro ao ultimo, os contos que compõem _Os meus amores_ são
+specimens no genero, porque, além de constituirem uma esplendida galeria
+de quadros intimos, de retratos, de typos, são a confirmação d'uma
+verdade já por nós ha muito acceite: que o seu auctor tem todos os
+requisitos d'um escriptor de primeira ordem; estylista vibrante,
+correcto e sempre elegante.
+
+E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em serios
+embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua
+leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que mostrar
+predilecções por algum d'elles parece-nos que os melhores serão _A Mãe_
+e _Para a escola_, aquelle uma delicada e emocionante historia arrancada
+flagrantemente á natureza, e este saudosas recordações d'um passado que
+não volta.
+
+A edição, escusado é dizel-o, é nitidissima.»
+
+
+O Tempo:--«_Os meus amores_.--Este livro teria vindo melhor nas noites
+invernosas para serões ás lareiras crepítantes:--as faíscas d'ouro
+subindo no tecto, o vento zenindo fóra açoitando a chuva, e dentro, no
+conforto recolhido, gosar-se o contraste das paizagens alegrdas pelo
+sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios e trinados d'aves,
+paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delicia suave e
+subtil d'illudidor ameno. Mas não se póde aconselhar o leitor a que se
+prive de saboreal-o desde já, tanto mais que os tempos vão agoureiros
+para a arte de manancial, e os que a cultívam teem de separar-se dos
+estragadores d'Ella e das cabeças quasi vasias que expremem e segregam o
+pus nauseabundo do sadismo mediocre.
+
+Estes estão agora entretendo o publico arrebanhado para saborear com
+prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala--o vingador--ao
+imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos auctores das _Pimentinhas_
+e _Berbigões Ardentes_.
+
+Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o
+perfumador dos excrementicios e appareça em plena luz nas mesas e nas
+familias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador
+d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda á attenção um
+artista recolhido que sabe ter força nos traços tenues e meias tintas
+dos seus quadros, que capricha em suavisar idylicamente as dôres
+vulgares da vida acceite, da materialidade animal, dourando-as com
+recantos de natureza chilreante. Que me perdõem insistir na
+impertínencia: mas, o que no livro mais particularisa o talento de quem
+o assigna é a comprehensão das paizagens, o sabel-as colorir, animar,
+pôl-as ante os olhos que lêem.
+
+As grandes dôres obscuras e sinceras, as brandas affeições, amisades
+arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples
+sustentados por ingenuas crenças s suavisada fé, tudo o que a aldeia tem
+de ameno, d'attraente, de pittoresco, de consolador, os seus ridiculos
+mesmo, vestindo atitudes de parodia em theatrinho de curiosos, tudo
+reveste bem o sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom
+humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reaes, bem apanhadas, como se
+diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de ventaróla. O livro
+encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o auctor encerrou por
+annos a sua nostalgia--a peior de todas: nostalgia de
+delegado!--apertando os vôos do seu espírito d'artista que ama pairar
+com a fantasia para o longiquo, para o que se Imagina, para o Distante,
+o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se
+dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas
+noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de
+recordação e de saudade d'onde brotou o livro, escripto decerto nas
+horas feriadas do trabalho arido, com a documentação da natureza que
+vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se
+compraz na arte libertadora.
+
+Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar
+preferencia pessoal--e talvez peccadora--ao _Idylio rustico_, á _Ultima
+dadiva_, á _Mãe_, ás _Batalhas domesticas_, que fecham o livro e deixam
+entrever no auctor um desejo de animar os personagens tanto como anima a
+natureza onde elles sentiram. Ha contos nos _Meus amores_ que fazem
+lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da
+patada epica do que fez _Créte-Rouge_ e _Ompdrailles_.
+
+O sr. Trindade Coelho é um escriptor tão distincto quanto aclarado pelo
+jorro d'arte que vem de ha muito confundindo os convulsionarios do
+talento; os serenos no desdem; os enthusiastas; o que, despindo o
+metaphorico, quer significar que elle está em posição artistica onde
+decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar attenção e
+respeito.--_M. Caldas Cordeiro_.»
+
+
+Antonio Maria, (com o retrato do auctor, desenho de Raphael
+Bordallo):--«_Os meus amores_ por Trindade Coelho.--A livraria
+portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede, na ultima
+quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de
+memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho,
+com a amavel denominação de _Os meus amores_.
+
+Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... É originalissimo,
+agradabilissimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar,
+que usa o auctor d'este bello livro,--agradabilissimo contista,
+escriptor originalissimo, cujo nome a bibliographia regista hoje, tão
+notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara.
+
+A quem o lêr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas
+horas muito bem passadas, passeadas por aquellas paizagens e recantos
+provincianos que elle pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se
+estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão
+photographicos, tão nitidos, que é estar a gente a vêl-os, a ouvil-os, a
+falar-lhes...
+
+--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!»
+
+
+O Tempo:--«_Os meus amores_.--É como Trindade Coelho intitula a
+collecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela
+livraria do sr. Antonio Maria Pereira.
+
+Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de
+Trindade Coelho, desde quando lhe lêmos as suas producções litterarias
+n'um jornal de Coimbra, e que eram as primicias de trabalhos mais
+primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo.
+
+O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira á ultima
+pagina sem um momento de cansaço ou de fastio. O espirito do leitor
+delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma singeleza
+tão commovente, e que nos _Meus amores_ são descriptas n'uma forma em
+que se revelam todas as qualidades d'um distincto e notavel escriptor.
+Só póde apreciar bem o merito d'aquelles contos quem souber quanto
+cuidado ha no labôr paciente do artista para conseguir dar ao estylo o
+tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este genero de
+pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos.
+
+Não nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contém preciosas
+joias litterarias, e ao qual está, sem duvida, destinado um honroso
+logar na nossa litteratura contemporanea.»
+
+
+Correio Elvense:--«Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
+escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas que
+deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
+Antonio Maria Pereira.
+
+Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
+capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
+de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
+tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
+estylista.
+
+Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor
+que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus
+triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons
+e sinceros amigos.
+
+N'um dos proximos numeros fallaremos da impressão colhida em _Os meus
+amores_.»
+
+
+O Dia:--«_Os meus amores_.--Se fosse no seculo passado, os fazedores de
+proemios, prologos e conversações preambulares com os pios leitores, á
+falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo
+aproveitariam a occasião para sobre o nome do auctor glozarem varios
+elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e é ao mesmo tempo
+um poeta sincero, um escriptor de raça, e um observador attento,
+qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto nasceu uma
+obra formosissima, animada de verdadeira commoção, sentida nas suas mais
+pequenas minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.
+
+A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta reunião
+de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso,
+copiando do natural, e em que os personagens foram surprehendidos nos
+seus labores de cada dia ou nas suas intimas cogitações.
+
+Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na noticia d'este livro,
+e por isso nos limitamos a recommendal-o como leitura attrahente, como
+obra d'arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma egualdade
+nem com o mesmo folego, como uma grande licção litteraria aos fazedores
+de naturalismo brutal.
+
+Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para
+que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo meio o
+magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos provar
+que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não
+prejudica a indole do escripior.»
+
+
+Novidades,(entrevista com João de Deus ácerca dos
+_novos_):--«_Litteratura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos,
+porque não leio jornaes, e não os leio porque os litterarios occupam-se
+na propaganda da immoralidade, e os politicos na propaganda do suicidio,
+e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os engeitados da
+fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte, as agruras da
+sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre joga os trinta
+réis de tres quartos d'um pão.
+
+Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira
+alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que elle dispa a toga,
+que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha
+muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem
+lh'o ler.
+
+--Li já todo o livro.
+
+--E depois, meu amigo, nós andavamos precisados d'uma coisa casta, onde
+fossemos purificar o espirito d'essas taes observações physiologicas, e
+não sei que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O livro do
+Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem
+definir-lhe. Olhe: alli está aquelle quadro, em que os traços são
+correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma
+bella cabeça de rapariga, a physionomia dôce, o olhar abstracto: este
+tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus
+por ter graça. A graça na litteratura é tudo, mas é muito rara.»
+
+
+Novidades:--«_Novellas rusticas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_
+(contos e balladas.)--Lisboa, livraria de Antonio Maria Pereira--1891.
+
+No seu penultimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse
+sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas
+as doutrinas axiomaticas da critica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs
+pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que
+seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les
+gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou
+mauvais.»
+
+O conto moderno é como o romance, essencialmente analytico e
+psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a
+apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
+humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi
+invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixões e todas as
+energias depravadas do coração. A arte do sr. Trindade Coelho é muito
+differente d'isso, porém. O seu idylico livro de contos e balladas,
+aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da
+paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples, colhidos com
+intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem,
+decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta
+actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros
+dos escriptores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao
+emprehender a leitura dos _Meus amores_, duzentas paginas suaves e
+simples, sem pedantescas pretenções a passarem como tratado didactico de
+psychologia.
+
+Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e que
+as suas figuras só serviam para dar expressão e vida á paizagem.
+
+O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a sensação visual
+particularmente desenvolvida, e as suas descripções são tambem, como as
+do auctor das _Pupillas do sr. Reitor_, magicamente poetisadas, como que
+apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade.
+Chega-se ás vezes a ter a illusão de que o artista está alli, paginas a
+dentro do seu livro, fazendo reviver no pensamento a alacre impressão
+das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal,
+cuja lembrança, elle conserva sempre viva, como nos versos de Salvador
+Rueda:
+
+Por donde voy me sigue como memoria tierna
+tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;
+¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna
+el coro que tus árboles entonan á la mar!
+
+Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manhã aldeã,
+quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horisonte:
+
+A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim,
+e o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o ceu em
+cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
+despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de
+perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena,
+tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de
+azas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
+á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
+reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convísinhos onde a vegetação
+era mais rica de seivas e mais facil a presa dos insectos, perdizes
+gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
+vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
+de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos, viam-se
+os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e
+berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas
+povoações proximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
+Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os tectos, dizendo horas de
+almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no ceu
+immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza accordada
+para a labuta interminavel do dia.»
+
+
+«No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr. Paulhan sobre a
+descripção pittoresca, então habilmente apreciados os elementos
+constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na
+qualidade e na intensidade.
+
+«Chama-se imaginação sensivel», diz o distincto observador, «o acto pelo
+qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação,
+como tem sido ha bastante tempo notada, não é,--principalmente se
+considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma copia
+enfraquecida d'uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar
+um momento, um quadro, uma estatua, qualquer coisa que imagino, se as
+minhas recordações são bastante nitidas, é uma especie de copia
+enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o
+quadro ou a estatua. A imaginação, tomada até no sentido restricto que
+lhe damos aqui, varia muito d'uma pessoa para outra, quer em
+intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas teem as
+imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais
+concretas; em uma palavra, as suas imagens approximam-se muito da
+sensação; outras, pelo contrario, são inclinadas para as idéas
+abstractas e teem necessidade d'um esforço para se representarem as
+sensações d'uma maneira um pouco nitidas. Tem-se reparado que a visão
+mental, nitidissima em geral nas creanças e nas mulheres, torna-se muito
+fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas sobretudo de
+ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual.
+Eis uma pequena experiencia indicada por Wundt, que, mostrando as
+analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo tambem as
+differenças individuaes com relação á intensidade com que a imagem
+concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo
+n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma superficie parda,
+vemos uma mancha corada da côr complementar da primeira. Se o objecto
+era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul
+indigo, a mancha será amarella, etc. Ora é possivel, mas isto não
+succede a toda a gente, perceber esta côr complementar não só depois de
+ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter
+imaginado. Póde-se, por exemplo, pensar n'uma cruz vermelha: lançando em
+seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se ha
+uma boa imaginação visual.»
+
+«Essa imaginação parece tel-a o sr. Trindade Coelho. A vivacidade,
+tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descriptivo,
+que nos dá conjunctamente a impressão da forma, da côr, do som, e até ás
+vezes do aroma, representa um phenomeno especial de evocação
+sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois d'esse, a
+intima satisfação que faz aflorar, aos labios do leitor inteligente, um
+sorriso de doce commoção, a cada singelo episodio das suas narrativas,
+todas frescas e sadias, e cujo menor merito não é, decerto, o de serem
+escriptas n'uma linguagem airosa e despreoccupada, mas tersa e
+legitimamente portugueza.
+
+O livro do sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas analyses
+introspectivas, o papel da critica perante _Os meus amores_ é bem facil,
+porque ella deve quasi cingir-se á affirmação do seu applauso
+incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escriptor, o que
+póde muito bem representar uma livre depravação de gosto.
+
+Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel
+recordação, para a oxygenada, a leitura d'essas bellas novellas
+rusticas, todas impregnadas d'uma ideal graça campesina, tilintando d'um
+ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre
+margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha
+sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o livro e o
+caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.»
+
+
+Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder d'observação e uma enorme justeza
+d'expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes qualidades
+litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de
+verdadeiro artista, aberta á comprehensão ampla da natureza, e fundindo
+os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um conjuncto nitido que se
+desata em descripções opulentas de vida e de calor, fulgurantes
+d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o melhor crystal de
+Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias
+possantes que prendem o espirito mais inculto e o obrigam, alli, a fixar
+e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar.
+
+E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que
+compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o
+delicado sentir do auctor transmittiu a cada scena onde o coração tem
+parte, ou seja o coração de qualquer d'aquelles dois pequenos do _Idylio
+rustico_, ou o da _Russa_, a bella cabra que no meio de mil angustias de
+mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a elle proprio,
+a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida,
+vejam o affecto que irradia d'aquelle _Para a escola_, quando falla da
+velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras.
+
+Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das descripções
+naturaes, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um
+pedaço caricaturando uns typos com tanta sobriedade de _charge_ que mais
+nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da
+villoria da _Comedia na provincia_, que entreteem a tarde na praça a
+dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos habitos.
+E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes, aquella _Vespera
+da festa_ exemplifica vantajosamente o que elle sabe fazer.
+
+No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das _Batalhas
+domesticas_, onde me pareceu descobrir uma novissima orientação do
+auctor, inspirada porventura n'uma atmosphera densa d'innovações que vae
+por ahi. Claro que o seu talento adapta-se mais essa fórma com a
+malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
+caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
+escriptos, não a sacrificaria a coisa alguma.
+
+O que o livro é, em summa, é um conjuncto de bellezas que tem sido
+largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e oxalá seja apenas a
+promessa de muitos outros, que pennas como aquella não devem
+calotear-nos na contribuição que nos devem.
+
+--Mas,--perguntou-me um dia d'estes alguem--porque _Os meus amores_, e
+não qualquer outro titulo?
+
+Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao
+livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que
+lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de rapaz que nenhuma
+lama d'este mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.»
+
+
+Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e balladas por
+Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca
+mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns
+contos singelos, attrahentes, delicadissimos, admiraveis de observação e
+de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admiravel simplicidade de
+colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade!
+
+Uma bella obra d'arte e uma altiva lição.
+
+Alli está como se póde chegar ao naturalismo na litteratura, sem
+estropear a lingua e sem chegar ás torpezas da pornographia. Para
+attrahir, para ser original, para impôr a supremacia do seu talento,
+para conquistar o applauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não
+precisou de escrever extravagancias, nem de escalavrar pustulas, nem de
+escancarar bordeis.
+
+Ahí fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar d'elle, se o
+tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu auctor.»
+
+
+Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias d'intervallo as
+lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de livraria.
+
+Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de analyse, de profunda
+observação, resentida do exaggero do naturalismo e do caracter quasi
+scientifico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem
+ser exclusivamente litterarios, mas que, não obstante este pequeno
+senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel
+Botelho creára com os seus livros anteriores, a critica tem de render
+respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo como aquelle
+e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu espirito,
+pela sua notavel orientação litteraria e pelo esplendor de fórma que
+caracteriza todos os seus escriptos, mesmo os mais despreoccupadamente
+feitos.
+
+Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traçar estas linhas.
+Momentos como este são mesmo os unicos oasis em que se reconfortam os
+que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina
+improductiva e ingloria do jornal.
+
+Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem
+intimas relações de confraternidade e sympathia e ao ter de formular o
+meu juizo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e
+applauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo d'um
+sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira d'uma
+admiração justamente sentida, solidamente baseada.
+
+O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo
+corresponde ao encanto d'este titulo.
+
+Com que saudade li as ultimas paginas!
+
+Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer
+que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar a naturalidade
+das descripções, a limpidez e o crystallino do estylo emocionante e
+simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais
+diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio,
+até á recordação saudosa e terna que o auctor sente do primeiro dia em
+que entrou na aula d'instrução primaria da sua modesta aldeia.
+
+Dando a impressão singela e despretenciosa que me cansaram _Os meus
+amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos
+pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na
+epoca actual quando os vicios da sociedade e a decadencia dos nossos
+dias nos gravam no espirito, a cada hora, um carimbo de desanimo e
+descrença, quando a litteratura, obedecendo á vertigem mais do que
+nervosa, allucinada, que caracterisa o _fin de siècle_, cria as escolas
+mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em
+apedrejar as normas mais impeccaveis e até agora consagradas da arte, e
+em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras
+e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo,
+desannuvia-se o espirito ao vêr que ainda ha alguem, a quem sobeja
+talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa sã, eminentemente
+sentida, deliciando-se na descripção das scenas mais simples e tocantes,
+na apotheose da natureza em toda a sua magnificencia e no convívio da
+vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das
+convenções e pretenciosidades que dão um tom falso e mentido aos
+sentimentos da sociedade em que vivemos.
+
+Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um
+dos contos e balladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este
+proposito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto
+amor o escreveu. Ao contrario, sinto que não posso, a não transformar
+este artigo n'um hymno laudatorio, referir-me especialmente a cada um
+d'aquelles contos e balladas. Mais do que este motivo domina-me o de não
+poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.
+
+Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as
+haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em differentes
+jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso estylista dos
+_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalisticos, já na bohemia coimbrã,
+já em pequenas folhas de provincia e ultimamente nos jornaes da capital,
+trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a correcção que nunca
+abandonam os verdadeiros artistas.
+
+Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formára a opinião de que
+elle se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de
+Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no meu parecer, são, em
+Portugal, os mais distinctos escriptores contemporaneos d'este genero,
+na apparencia tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difficil, a que
+se denomina: _Contos_.
+
+A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.
+
+Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos _typos_, pela naturalidade
+do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria sem o minimo
+esforço a todas as impressões que pretende transmittir, o auctor dos
+_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do genero de
+litteratura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na
+amizade a opinião dos que, não obstante elle terçar agora quasi as
+primeiras armas, o consideram já como um escriptor distinctissimo e n'um
+futuro muito proximo um mestre consagrado.
+
+O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim
+desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado ás
+bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com uma riqueza
+oriental.
+
+Não obstante o meu proposito de não me referir nomeadamente a nenhum dos
+pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que
+me causou a _Ultima dadiva_, um primor de sentimento, uma pagina emotiva
+arrancada em flagrante a uma das scenas em que tão variadamente se
+divide a tragedia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_,
+onde passa um folego de epopeia, em que o estylo attinge alturas quasi
+desconhecidas, casando se com uma verdade admiravel a grandiosa ideia em
+que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura
+cada um de nos sente accordar uma recordação muito querida de infancia
+descuidada e alegre, e por ultimo: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho
+ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo tão malleavel e
+tão justo.
+
+Além d'estes contos, que especialmente destaco pela admiração que me
+inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Preludios de
+festa_ e _Typos da terra_.
+
+Quem escreveu os _Preludios de festa_ e especialmente os _Typos da
+terra_, é porque estudou com muita attenção, com muito cuidado, os
+personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras
+pequenas. São typos tirados do natural, com uma perfeição photographica
+em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na
+descripção da natureza nos seus mais variados aspectos.
+
+Por ultimo, e para não se dizer que eu n'este paiz de má lingua realisei
+o cumulo de escrever um artigo só de palavras encomiasticas e sem a
+minima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_,
+lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas paginas d'um estylo
+formosissimo n'um assumpto que sem duvida é verdadeiro, mas que não
+commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a minima
+impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus
+recursos d'estylista, não precisava realmente do _Sultão_.
+
+O livro faz parte da edição mensal d'obras portuguezas, editada por
+Antonio Maria Pereira, um trabalhador incansavel a quem as lettras
+portuguezas devem assignalados serviços.
+
+Está impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado e esmero a
+que nem sempre estamos habituados.
+
+Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos
+para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas á
+semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos
+como este, para honra do seu nome de escriptor já tão justamente
+laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do seu livro, archivando a
+dedicatoria que elle contem como nova prova d'uma amisade a que somos
+profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço
+Cayola_.»
+
+
+Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Collecção
+Antonio Maria Pereira_, que sob aquelle titulo contém alguns contos do
+apreciado contista Trindade Coelho.
+
+Pela rapida leitura de dois d'elles--_O Sultão_ e _Typos da terra_,
+parece nos que a collecção é estimavel, e que os contos são joias de
+grande preço da nossa litteratura, pela linguagem pura genuínamente
+portugueza, e pela graça da contextura originalissima, nacional, sem
+laivos d'imitação estrangeira, em que se pintam scenas e episodios,
+cheios de verdade e de encantadoras descripções, da vida portugueza nas
+provincias.»
+
+
+O Seculo:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de
+contos, editado pela casa editorial do Antonio Maria Pereira, a
+publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso
+meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no fundo,
+sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de não ser
+rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem--diga-se a verdade.
+
+Parece uma contradicção; mas não é. Se o nosso bom publico fosse dado a
+esbanjamentos de emoção artistica, não o sobresaltaria tanto a
+pessoalidade, e o imprevisto.
+
+O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado
+severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de
+lettras, nas suas horas de remanso.
+
+É só, porém, como homem de lettras, que nos compete em tal logar
+aquilatar-lhe a esthésia, e as faculdades de emoção, ou de attenção
+artistica.
+
+Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A fórma
+adapta-se perfeitamento ao fundo, e é sempre fluente, vernacula,
+concisa, e precisa. É sóbrio no descriptivo, e não raras vezes
+enternece. Não commette a velharia de desenterrar obsoletos termos
+classicos, sem incisão, sem propriedade, e sem côr, muito parecidos com
+o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portuguezes, nem
+onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto. Nem perpetra tambem o
+mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na
+linguagem patria instrumentos magnificos d'expressão. Sabe a sua lingua,
+como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais
+completa, e mais delicada da prosa, e tambem a mais transcendente e
+lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado interpetre. Os contos
+_Sultão_, _Maricas_, _Typos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a
+escola_, não contam muitos rivaes na lingua portugueza nem nas
+estranhas.
+
+O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de
+centenas de romances em seiscentos volumes já ninguem rememorar o titulo
+sequer.--_Gomes Leal_.»
+
+
+Revista Illustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que
+deliciosa impressão me deixou aquelle livro, tão adoravelmente simples e
+sentido!
+
+Antes, porém, de começar a analysar, conto por conto, esse fino trabalho
+de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão
+porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de nome conheço só.
+
+Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre,
+notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito,
+distincto em todos os exames.
+
+Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de
+que--o delegado de Portalegre--era um excellente rapaz.
+
+E digo rapaz, porque todos nós temos o habito de considerar sempre muito
+novos aquelles que são da nossa edade... Depois, graças a uma amiga
+minha, escriptora de grande talento soube que Trindade Coalho era um
+grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admiração
+enthsiasta que elle descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que
+fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição
+publical-as!
+
+Traduzia elle então o «Pescador de Islandia»; tradução esplendida que a
+_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para elle era
+já uma suggestão, aquelle trabalho primoroso.
+
+E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a
+Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente alguem se comprazia
+em querer negar ao academico gentil.
+
+Em seguida li uma suavissima elegia escripta á memoria de Antonio
+Fogaça--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia duzia de palavras
+cortadas por soluços:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...
+
+Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os
+jornaes annunciaram que elle arrancára um preso á cadeia de Portalegre.
+Um preso que era um innocente, e que, como tantos outros, estava
+condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam tambem
+o effusivo telegramma em que Trindade Coelho agradecia ao nosso
+magnanimo rei o seu perdão.
+
+E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem põe a
+lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu coração ao serviço da
+humanidade que soffre...
+
+O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha
+alma.
+
+Eu só fixo o nome dos bons.
+
+E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe d'aquelle homem! Os
+filhos herdam, geralmente, o coração das mães...
+
+ * * * * *
+
+Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lêr. Pedi-o
+rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego.
+
+Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz
+Osorio--uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos
+filigranados e vibrantes...
+
+Segue se o _Idylio rustico_--um amor--atravez do qual nós vêmos subir
+lentamente a estrella d'alva que illuminava, coando a sua dôce luz pelo
+colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da
+outra...
+
+Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o
+Thomé nos communica a sua alegria contagiosa levada á loucura com a
+volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros!
+
+A _Ultima dadiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma
+sepultura onde lhe ficára preso o coração para sahir de lá no dia em que
+teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o
+Brazil.
+
+A _Comedia da provincia_, magnifica de côr local. Magnífica,
+principalmente para quem conhece typos semelhantes e já tem visto a
+_Morgadinha de Valflôr_--essa perola!--representada pelo Marques do
+correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valôr a esse esplendido
+estudo de costumes provincianos.
+
+_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada...
+_Maricas_, uma adoravel poesia escripta em prosa. _Para a escola_, um
+beijo de gratidão de uma singelesa adoravel. _Tragedia rustica_, um
+vibrantissimo estudo das miserias humanas.
+
+_Abyssus abyssum_, o agonisar de dois anjos, sob o olhar de uma
+estrella... _Mãe_, a flôr mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas
+as mães que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos...
+E, finalmente, as _Batalhas domesticas_.
+
+Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho,
+que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro
+honesto, que não fatiga os homens nem faz córar as mulheres. Por isso
+aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.»
+
+
+Portugal:--«_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilísissimo livro
+_Os meus amores_, do nosso querido amigo e illustre confrade, Trindade
+Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais
+legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais carinhoso triumpho.
+
+Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no
+trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos
+que na caça de sensações e effeitos novos hoje pavorosamente
+desarticulam o _meio_ litterario europeu, tem uma força de restringir-se
+a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquilla, a
+melodia emocionante, ingenua e simples do viver aldeão; e que por entre
+o estridulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasphemias, dôres,
+gemidos, que doloridamente rebôam pelas soturnas naves d'este immenso
+hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar,
+enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira
+nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do coração.
+
+Bem haja.
+
+Do côro unisono de quasi incondicional applauso com que a imprensa tem
+celebrado a apparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnifico
+artigo do _Correio Elvense_, devido à penna d'um dos mais lucidos e
+impetuosos engenhos da novissima geração.» (_Seguia-se a transcripção_.)
+
+
+Diario Illustrado:--«_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade
+Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espirito á proporção que
+envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram ás vezes de ouvir
+os velhos, e parece-me que teem razão, porque nem sempre o são juizo de
+uma experiencia larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo
+circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com
+singular scepticismo, este meu seculo, que está no fim, e com elle tenho
+vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias litterarias,
+revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de estylo,
+arrancou-se o chiró ás velhas phrases, e todo um mundo novo,
+extravagante e phantastico tem surgido,--mau grado as furias rabídas de
+escriptores paleontologicos, apparafusados á Arte e á Critica de ha 50
+annos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu
+seculo tem-me custado amarguras aterrantes, desequilibrios de espirito e
+um desfolhar de verdes illusões, que eu tenho visto irem-me fugindo n'um
+_marche-marche_ triumphal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca
+mais voltarem!...
+
+A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica, dá-me a
+impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida
+real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo ao pedaço de chumbo de uma
+capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas; Julio Machado,
+de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do
+filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros,
+bom Deus! Dir-se-hia que uma _má sina_ persegue os homens de
+lettras:--quando não é a navalha de barba, é o rewolver, é a consumpção,
+é a tisica, é o retrahimento amargo, é o abandono proprio e alheio! Por
+isso o meu visinho Gervasio todo se ufana, com certo profundo bom senso
+pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um _artista_
+pintor--de portas, e de fóra de portas...
+
+Na _troupe_ de escriptores em flôr do meu tempo,--parece-me que já lá
+vão 30 annos, e tudo isto é apenas de hontem!--havia, joeirados com
+singular amor de arte pura, uma duzia de rapazes de incontestavel valor
+litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e
+revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,
+miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de
+rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam
+triumphantes,--poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da
+vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que é quasi o mesmo,
+deram-se a callejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos
+incipientes, nas minas de oiro e de ferro da lucta pela vida. Dos
+_felizes_, dos que triumpharam,--como quem diz, dos vencidos da
+vida,--me sorria eu ás vezes em horas de bom humor, lembrando-me como
+elles com um livro de versos foram nomeados consules; com um tratado
+sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por
+acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com
+uma critica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliothecarios
+das bellas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos _perdidos_
+pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os philisteus do
+Pará, applicando-lhes aos figados hypertrophicos a vermelha caudal da
+sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em Paris pelo
+alçapão macabro da _correspondencia_ barata; Gualdino Gomes anda ahi
+amparando o seu rheumatismo a uma certa _maneira_ de má lingua e a uma
+bengala de canna; Leopoldino Gonçalves viaja como medico da armada; e
+Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alemtejo,
+onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e apparece ás vezes
+nedio, côr de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tedio os copinhos de
+cognac do _Leão_...
+
+De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias côr de rosa, o que me
+traz mais doces recordações é Trindade Coelho,--porque eu ligara á minha
+a alma d'elle, n'um tempo em que dos salgueiraes de Coimbra elle me
+fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas chronicas
+soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de affirmações de uma
+personalidade litteraria. A sua prosa, a um tempo humana e lyrica,
+dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como
+sabem, além de bachareis anonymos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É
+da tradição universitaria, fazerem os doutores as suas primeiras armas
+de litteratos e de poetas, na academia, a intervallos do pesado estudo
+do Lobão e do direito publico, esvurmado ás cavalleiras do nariz de
+Pedro Penedo... Toda a nossa legião distinctissima de poetas e
+prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia
+coimbrã:--Theophilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Anthero, etc. É a
+affirmação do bom Antonio Ferreira feita axioma:
+
+ _Não fazem mal as musas aos doutoures_.
+
+E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquerir a Junqueiro das bellezas do
+Codigo Civil, meio metaphysicamente original e meio copiado dos codigos
+de Napoleão! Ah, mas em compensação que appareça ahi o primeiro advogado
+a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em ferias_!
+
+Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descripções n'uma
+bella prosa colorida e transparente, trechos de psychologia trasmontana,
+e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_
+do proceder litterario d'este escriptor é deliciosa de côr e de verdade,
+sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem deslumbramentos de imagens na
+apparencia côr de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios
+ingenuos dos cordões de latão... Tem-se chegado ahi, no abuso da
+originalidade do estylo, a fazer uma prosa estrelicada, engommada,
+cabellinho á banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O
+burguez já conhece os processos da _chinoiserie_, e d'ahi não ha
+espantal-o com nephelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe
+elle que debaixo d'essas bellezas está a oleographia reles de porta de
+escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota
+a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em
+Alcantara...
+
+O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho,
+feito com honestidade e sem as preoccupações deploraveis que levam os
+corypheus da escola modernissima, mais que zolaista, á descripção e
+estudo de pathologias e casos sporadicos, ou não vivos, ou pouco
+vívidos. Este livro á quasi um parenthesis aberto como uma clareira
+consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos trabalhos
+apparecidos, do _sujet_ de um dos quaes, que é em todo o caso a
+monographia de um caracter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_
+dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_...
+
+A feição litteraria de Trindade Coelho parece-me que se define na parte
+do livro sub-titulada _Balladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma
+duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma
+elegia... tragica, _encadrée_ n'uma linguagem côr de opala, em que a
+gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma
+obra prima. Assim a _Tragedia rustica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco
+eu os _Preludios de festa_, _Idylio rustico_, os _Typos da terra_, onde
+ha paginas soberbamente observadas, suggestivas, _d'après nature_.
+Magnifico o assasino _José Gaio_.
+
+Trindade Coelho é inquestionavelmente um lyrico. E nem eu sei como elle
+chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de
+Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os
+diccionarios de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista
+encantador... sossobrado!--_Ignacio da Silva_.»
+
+
+Nova Alvorada:--«_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe você, amigo Trindade,
+que as palavras affectuosas que me endereçou no offerecimento do seu
+livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espirito um mundo de
+saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsamicas d'uma
+quadra primaveril que não volta mais--a vida coimbrã?
+
+Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa
+mas robusta, as _suas feições masculas e energicas_, e a sua _allure_ um
+pouco receiosa ao dobrar a soleira da legendaria Porta Ferrea.
+
+Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de
+grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando á direita e á
+esquerda, entrou você nos _Geraes_ resignado a um diluvio de troças,
+martyrios, horrores...
+
+Os segundannistas, de cuja respeitavel corporação eu fazia
+orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não
+encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a d'um Armelim, nem um
+rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom Raphael do
+Ranhados.
+
+Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados!
+
+Em uma medalha d'oiro que você trazia, á guiza de berloque, na corrente!
+
+O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escandalo_, de forma que a
+tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato.
+
+Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com accentuações de academico
+fallado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua
+individualidade a destacar-se, como se fôra um _urso_. E assim se
+fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feijó por causa dos versos,
+do Passaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel
+Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades
+pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.
+
+Você desencubou o seu nome, pol-o em evidencia--o Trindade--, mas foi por
+causa d'um excellente resumo das lições de direito romano, d'um bello
+discurso no centenario pombalino, e sobretudo das suas graciosas
+chronicas no _Diario Illustrado_.
+
+Ah! e lembra-se você d'aquelle anno em que formámos «republica» na rua
+da Trindade, tendo por creada a sr.^a Maria de qualquer coisa, que
+denominavamos a _Gorda_, matrona muito caroavel e de enxundiosas formas?
+
+Eramos uns poucos:
+
+O Souza, que já tem o galão branco dos tribunaes administrativos,
+espirito facil, perspicaz e alegre, nada para massadas, que tinha
+orientações definidas em politica partidaria e expedientes reservados de
+galopim graúdo contra os progressistas da Barca.
+
+O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o
+evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiunculas com aquelle por
+causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e jogador
+de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente dos
+theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada pela
+_Gorda_ n'um cantinho do fogão.
+
+E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe
+chamavamos o Pêgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario plano,
+rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito
+desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe diziamos que elle
+se applicava... 25 horas por dia!
+
+Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto _sournois_, olhos á bufo, que
+não fallava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e
+contumaz!
+
+Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje
+conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas,
+muito guitarrista e risonho, se bem que intelligente e applicado.
+
+Eramos mais--você e eu. Você que se mettia muito com a litteratura,
+fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por signal
+dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas de
+feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo
+condescendia em o acompanhar na guitarra.
+
+Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais
+tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribanaes de Lisboa e
+eu no berço da monarchia.
+
+Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus
+bellos contos em um elefante volume--_Os meus amores_.
+
+E bellos na verdade, como todos dizem.
+
+A _Mãe_, aquella cruciante tragedia da pobre _Russa_, morta de terror e
+de amor, é para mim o mais apreciavel e sentido conto da sua collecção.
+
+Costuma-se dizer d'uma mãe descaroavel, d'uma Francisca Fortunata--é uma
+cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando
+as calumniadas affeições dos pobres ruminantes.
+
+Quem ler as angustias da misera _Russa_, na espectactiva do filhito
+devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituirá áquelle
+inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a natural comprehensão
+das suas obrigações de mãe e protectora.
+
+E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra.
+Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal
+qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella producção
+vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_.
+
+Nos restantes contos, entre os quaes me não agradaram menos _V[ae]
+Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da
+sua educada phantasia, moderada por um largo peculio de observação; a
+sua poderosa intuição artistica; o seu dialogo curto, vibrante e
+natural; o seu estylo já caracteristico pela feição franca, _saccadèe_,
+de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos;
+a verdade das suas descripções e pinturas, que, ao contrario de muitos,
+não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, n'uma
+pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa
+similhante.
+
+Olhe, amigo. Eu careço de geito para a critica litteraria; mas, emquanto
+me é licito exprimir a minha humilima opinião, dir-lhe-hei que você
+alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de litterato
+distincto e de contista precioso; e que este conceito é merecido,
+attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua elegante
+brochura recem-editada.
+
+Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua
+fineza com um abraço de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.»
+
+
+Nova Alvorada:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a
+offerenda do novo livro de Trindade Coelho,--o sympathico e distincto
+escriptor que de ha tempos se vae honrosamente evidenciando no certamen
+das lettras patrias, onde já agora a sua individualidade tem uma
+reputação firmada.
+
+_Os meus amores_ é o titulo que o sr. Trindade Coelho escolheu para o
+seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama, segundo cremos,
+não é porque estas 200 paginas sejam um auto-historiographico dos
+idylios romanescos do auctor, n'quella aurea quadra da sua vida
+academica, ou um repositorio de alheias aventuras amorosas com
+acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario.
+
+Não. A razão do titulo parece-nos antes proceder da affectividade
+psychologica do auctor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto
+com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:
+
+_Folhas dispersas dos meus annos de oiro,
+Vivo enxame das minhas alvoradas,
+Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
+As Desdemonas sois de um outro moiro_.
+
+Se não fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade do
+aphorismo--o habito não faz o monge--, porque o _Idylio rustico_, com que
+abre esta bella collecção de contos, não seria bastante para justificar
+o titulo sob que se enfeixam.
+
+Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e a
+tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se que
+se ha na urdidura dos varios contos muitas situações que nos pintam o
+ridiculo, a desgraça ou o crime, poucas ha, entretanto, que nos prendam
+o espirito ao devaneio piégas d'um Romeu e d'uma Julieta.
+
+Mas, ou bem ou mal baptisado, o que é consoladoramente verdadeiro é que
+os contos do sr. Trindade Coelho constituem uma das mais bellas
+collecções que no genero conhecemos.
+
+Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores
+preceitos da arte.
+
+Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das
+situações e dos dialogos.
+
+Uns assumptos de felicissíma escolha, a reproduzirem fielmente costumes,
+a pôr em jogo com a maior verdade os vicios e as virtudes do povo.
+
+Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade
+Coelho são a fiel expressão da vida rustica do nosso povo, e facil é de
+comprehender a importancia moral que estes livros terão quando as
+gerações que nos succedam queiram inventariar nas suas tradições o modo
+de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, n'este
+periodo historico em que vamos.
+
+Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside
+como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade
+inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a toda a
+prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na narração e nos
+personagens.
+
+E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de François Copée e
+Theodore de Bauville, a artistica encenação que, sem desvirtuar-lhe a
+naturalidade da fórma e do fundo, lhes imprime o attractivo romanesco
+que falla à imaginação do leitor.
+
+O _Idylio rustico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa,
+e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora.
+
+A _Ultima dadiva_ é a expressão fiel de muitas scenas que a emigração
+multiplica cruelmente pelas nossas provincias do norte.
+
+A acção d'este conto é conduzida com uma tal uncção de sentimentalidade,
+que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a commoções, se poderá
+esquivar a partilhal-a.
+
+O conto--_Typos da terra_ é a descripção fiel, fidelissima, da mesquinha
+intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de
+provincia.
+
+_Os Preludios de festa_ são de um comico admiravel; _Maricas_ é de um
+sentimentalismo commovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade
+edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragedia Rustica_, tudo, tudo n'este
+livro é bom, e de util e agradabilissima leitura.
+
+A forma--já o dissemos--é correctamente vernacula e elegantemente
+rendilhada.
+
+A titulo de amostra, para aqui trasladámos do conto--_Sultão_--este
+bello _croquis_ de uma tarde de agosto:
+
+«Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as arestas dos
+montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as
+suaves e brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos
+vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro,
+destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de
+listrões de uma coloração leve de laranja.
+
+Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
+além, alegremente, a monotonia profunda do azul.»
+
+E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra á altura da boa reputação
+do auctor.
+
+A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu illustre collega
+por tão brilhante producção, e d'aqui lhe envia um cordealissimo aperto
+de mão.»
+
+
+A Independencia:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro
+de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações,
+modestamente, apenas com a consciencia tranquilla de quem escreve bem e
+com criterio,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,
+que acaba de dar á estampa, algumas producções litterarias que a sua
+vida de jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de
+revistas e diarios.
+
+Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogeneo o que se nos
+offerece para apreciar: são pequenas joias litterarias, buriladas por
+mão de artista e d'um fino sabor de naturalismo.
+
+Considerado assim, sem dependencia de escola e confrontação de
+originaes, o livro é bom.
+
+As suas descripções são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se
+acostumou, desde creança, a ler muita e a adivinhar mais na biblia
+riquissima e inexhaurivel da Natureza.
+
+Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as
+tintas proprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os
+olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos outros, deixam-nos
+uma impressão agradavel de realismo, e alta comprehensão. São typos
+exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que
+enjoam. Antonio Fagote é um especimen do juiz de festa das nossas
+aldeias, basofão e vingativo, prompto, olá! a gastar as ultimas moedas
+da venda do ultimo gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e
+a deliciosa ballada _Mãe_ é uma preciosidade litteraria, magnificamente
+pensada escripta, digna da penna dos nossos primeiros escriptores.
+
+Não encomíamos, pois, o valor do livro, dizendo que elle é digno de
+figurar ao pé das mais bellas producções dos nossos escriptores mais
+consagrados.»
+
+
+Correio de Portalegre:--«_Os meus amores_, contos e balladas por
+Trindade Coelho.
+
+Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois não?
+
+Eu creio bem isso, porque a verdade é que apezar da celeuma que Trindade
+Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento algumas
+antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os senhores
+jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. É por isso que escolhemos
+para encetar esta secção a producção brilhante do distincto litterato,
+editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor
+escrupulosissimo.
+
+Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a
+attenção do nosso cerebro, á contemplação da nossa alma; e essa leitura,
+feita n'umas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me
+d'_Os meus amores_ a agradabilissima impressão d'uma caricia, que
+persiste a sorrir consoladora.
+
+Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Commercio_ e da
+_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejavel de dar á ideia,--algumas
+vezes injusta, dirão alguns,--a mais correcta fórma, iriada sempre da
+limpidez mais viva; e isso, n'um trabalho feito agora para apparecer
+amanhã, à pressa sempre, n'uma fugida aos calhamaços manuscriptos que
+demandam a sua attenção de magistrado, e em que o periodo mais
+suggestivo é o do _Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo_.
+
+É-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do auctor desbasta,
+romodela, lima, muito tranquillamente, muito socegadamente, sob a
+vigilante direcção do seu delicado gosto artistico.
+
+_Os meus amores_ teem poesia, e teem verdade; e na maioria dos seus
+differentes quadros, adoravel descripção das scenas simples da vida do
+campo, da natureza singellamente formosa, o sentimento vibra
+intensissimo, e é encantadora a phrase, que um conhecimento profundo
+dictou, de que uma subtil observação resáe. Ha alli retratos d'um brilho
+sem limite, _typos_ que resumem um estudo fidelissimo.
+
+É um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa embaraçadissimo, se
+queremos escolher alguma,--tão valiosas são todas.
+
+Todavia,--e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,--_V[ae]
+victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estylo, _Para a
+escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de
+creança, e os admiraveis contos de fina graça e tão verdadeiros,
+_Preludios de festa_ e _Typos da terra_, são os meus eleitos, depois
+d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre tantos quadros da
+perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ captivam tambem a
+minha admiração.
+
+O livro é, como todos os sahidos na _Collecção Antonio Maria Pereira_,
+esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em
+percalina.
+
+N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'_Os meus
+amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradavel como
+sinceramente.»
+
+
+O Nordeste:--«Editado pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, em
+volume d'impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado
+o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pôr em
+relevo as complexas e brilhantissimas qualidades litterarias do auctor,
+um _novo_ que já hoje occupa, por direitos justamente adquiridos, um
+logar proeminente entre os nossos melhores escriptores.
+
+_Os meus amores_ teem obtido na imprensa do paiz uma acolhida
+enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso
+conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos
+leitores do _Nordeste_ não dessemos conta da apparição d'esse livro,
+juntando ao côro unisono d'applausos as nossas sinceras saudações.
+
+Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses
+contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro
+primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a
+espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas
+historias aldeãs, d'uma simplicidade campesina, repassadas por vezes
+d'um sentimentalismo suave, lyrico...
+
+A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima sympathia, um affecto
+antigo e vehemente, seguindo com interesse quaesquer particularidades da
+sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem
+glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado
+intelligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do
+procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lêr o seu livro,
+e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio nol-o
+trouxe. E, agradabilíssima coincidencia! succedeu-nos deparar com o
+conto _Para a escola_, quadro tocantissimo que marca distinctamente os
+dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a altura em que entra
+na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial,
+de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com
+as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de
+continuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e caracter
+diamantino.
+
+Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio,
+deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o
+confessâmos...--de lagrimas espontaneas nos marejarem os olhos, tão
+enternecedoras são essas paginas que evocam em nós as reminiscencias
+queridas d'um passado que não volta, e no espirito nos reproduzem, com
+uma precisão photographica, completa, scenas eguaes da nossa infancia,
+como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lêl-as
+e sentil-as...
+
+Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente,
+que _devorámos_ o livro, onde o auctor, n'um esbanjamento prodigo de
+verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras narrativas,
+descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e rhythmica,
+apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em flagrante, _d'après
+nature_, com uma extraordinaria lucidez d'observação, e um outro _caso_
+humano trasladado para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente
+artista, e que são uma eloquente affirmação da distincta personalidade
+de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados
+cultores da prosa portugueza.
+
+Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve
+noticia a uma critica a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar
+todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as
+impressões que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso caloroso para
+todo o livro, sem predilecções por este ou por aquelle conto; e d'aqui,
+d'esta columna de modesto jornal de provincia, enviamos ao nosso
+queridissimo Trindade Coelho, n'uma effusão d'acrisolada estima, com um
+aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não
+deixe de ser um cultor assiduo da litteratura nacional, e continue a
+honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons
+livros.--_José Pessanha_.»
+
+
+Da Revista do Minho:--«_Os meus amores_.--Poucos livros terão vindo á
+luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplendidos como aquelle
+cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as suas paginas
+se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e
+estimavel debaixo de todos os pontos de vista.
+
+Este volume pertence á formosissima collecção Antonio Maria Pereira, e é
+devido á brilhantissima penna de um dos nossos mais festejados
+escriptores--Trindade Coelho.
+
+Não precisâmos alongar-nos em chamar a attenção do publico para esta
+obra, pois é ella sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons
+livros.»
+
+
+Revista Illustrada:--«_Os meus amores_.--Ha tempo,--não ha
+muito,--começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando,
+umas cartas de provincia,--_Cartas alemtejanas_, nos parece,--assignadas
+pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a
+primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com
+verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de apparecer
+de todo.
+
+Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada
+jubilosa e cantante de um bom escriptor. Trindade Coelho entrava nas
+lettras portuguezas pela porta aurea dos victoriosos, apresentando
+natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira n'uma só
+peça o seu talento alliado com a sua observação e o seu estudo, sem
+esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que
+avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamellas de
+apaniguados e sequazes.
+
+Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas;
+escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli á mão, das
+scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua
+alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um
+ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar á solidão do seu
+eremiterio, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas.
+Era um talento e era um caracter.
+
+Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que
+deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua
+formatura. Bom signal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciencias
+do amor proprio, sacrificando ás altas occupações do seu curso os
+brilhos attrahentes da facil nomeada. O escriptor experimentara já o
+pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar.
+
+Eis que nos apparece um dia, subito, no fôro, honrando e glorificando
+n'um processo de rehabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe
+celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de lettras, que
+elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.
+
+Alguns mezes de collaboração diaria, n'um jornal bem lançado e bem
+redigido, avigoraram no conceito publico o renome conquistado, e
+Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da paiz, o logar a que
+tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem contestar.
+
+Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos apresentação
+mais prometedora e mais sympathica.
+
+
+_Os meus amores_ são uma collecção de esbocetos, alguns dos quaes, como
+o _Idylio rustico_, _Ultima dadiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus
+abyssum_, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros.
+Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o auctor os trabalhou,
+solicito na sua obra, no empenho de uma execução immaculada. Não porque
+se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem elle era impossivel
+conseguir tão completo effeito, tão seguro resultado.
+
+O estylo do prosador é, quasi sempre, firme, opulento, erudito, original
+e variado. Não tem reminiscencias d'este ou d'aquelle, e realisa uma das
+condições essenciaes que deve ter em mira todo o escriptor
+consciencioso: conservar uma feição propria e individual, sem se afastar
+da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso archaico, e
+contribuindo para a evolução progressiva d'ella.
+
+Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cançaremos de louvar, em
+vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria
+facil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estylistas,
+procurou modo de illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na
+fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas
+mais primitivas do povo campezino, enriquecendo n'esse manancial o
+thesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, scenas e
+quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e
+adoravel.
+
+É de indiscutível belleza a pastoral com que abre o volume.
+Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A descripção da
+madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e
+Rosaria,--Daphnis e Chloe,--teem um sabor antigo, como o de uma
+narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo
+tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias. É de um bom
+gosto supremo a fórma subtilmente delicada como o narrador, deixando
+primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma brutalidade
+instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da candura a uma
+situação divinamente sublime.
+
+E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce e
+prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espirito aquelles dois
+vultos de creança a esfumarem-se nas distancias do espaço e do tempo,
+longe, muito longe, n'uma paizagem ideal, vista nos dias da infancia,
+vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio ou Theocrito, talvez mais
+longe ainda, na Biblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida
+contemplação, longe, muito longe,
+
+«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.»
+
+Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, ha como que um mixto do
+tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christão. Não é vulgar
+a concepção do assumpto, nem vulgar, tambem, o desenvolvimento que o
+escriptor lhe deu, o scenario é horrivel e magnifico. Está bem
+descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro se annuncia, depois
+se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma convulsão
+pavorosa e enorme; bem descripto o terror angustioso e suppliciante do
+misero assassino, o qual vê, na chamma de cada relampago, projectada a
+cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende os pés ao
+chão, emquanto o seu ouvido, allucinado pelo terror, lhe dá a sensação
+de uma voz insistente, que detraz de cada arvore, da espessura de cada
+moita, de cima de cada pedra, da resonancia de cada trovão, o chama
+inexoravelmente pelo nome:--Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio!
+
+Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho
+fóros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe não engeitaria o
+assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria com muita maior perfeição.
+Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas tão engenhosas como as da _Genese
+de um Poema_, para alguma composição tão extraordinaria e tão
+transcendentalmente bella como _O corvo_ ou _Ulalume_.
+
+Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se
+quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade das
+suas aptidões litterarias, o prosador que recortou nos mais perfeitos
+moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras, detem-se na
+commovente e lacrimosa narrativa da _Ultima dadiva_ e nas ligeiras e
+facetas descripções dos _Typos da terra_, dos _Preludios de festa_, do
+_Sultão_, onde transparecem dotes de observação sarcastica, de ironia
+graciosa e de bem humorado espirito.
+
+Um livro de tantas promessas não póde ser, comtudo, e por isso mesmo, um
+livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se
+abalançar a empreza maior, estamos certos d'isso. Já no final do
+presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas
+domesticas_, se annuncia a transição da presente phase litteraria e
+artistica do auctor, para uma outra phase progressiva.
+
+Progressiva, dizemos nós, porque assim o crêmos. Qual ha-de ser, porém,
+a predominante caracteristica d'essa phase? Póde a critica conjectural-a
+desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazel-o. Porque, a
+verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que
+o seu temperamento litterario tem energias que lhe hão de abrir novos
+caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha já precedentes, que
+enormemente o obrigam.
+
+Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-ha
+ainda de um ou outro francezismo escusado, e ha-de adquirir novos dotes
+de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde
+procural-os. Não é em lexicons, nem em alfarrabios, nem em cartapacios.
+É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a
+falar o portuguez do povo, os seus typos populares.
+
+Não se póde ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som,
+da melodia. Uma das maneiras de adquirir pericia n'esta fórma de
+escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um
+exercicio util para chegar a fazer boa prosa. Não é, porem,
+indispensavel, bem entendido.
+
+Contudo, não admittimos que repute possuir as qualidades completas de
+escriptor, aquelle que só d'uma das duas fórmas da arte de escrever seja
+conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que
+praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima.
+
+Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza
+artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase e
+maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso,
+embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena
+empregar todos os esforços para attingir uma perfeição, que não está
+longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade
+continuamente o approximam.--_Fernandes Costa_.»
+
+
+Aurora do Lima:--«_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade
+Coelho. Quando prometti á _Aurora do Lima_ esta ligeira noticia
+bibliographica ácerca do livro do brilhante escriptor e meu querido
+amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a
+retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os
+ultimos da ultima fila, nas saudações enthusiasticas á obra e ao seu
+auctor.
+
+Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se começou a
+fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria, cruel, desoladora. Os
+que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida--e estes
+constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras
+consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação
+docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola,
+apezar do enorme _réclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da
+escola realista.
+
+Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras
+consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende
+pela emoção intima, que interessa pela simplicidade elegante com que
+está trabalhado, que impressiona pela correcção impecavel do seu estylo,
+malleavel e harmonico.
+
+Abre-se o livro e depara-se com o _Idylio rustico_, que é uma soberba
+tella, amoravelmente tratada, denunciando logo ás primeiras linhas um
+alto valor artistico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza
+suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.
+
+Segue-se-lhe o _Sultão_; e em boa verdade direi que me parece ser este
+um dos contos mais formosos do volume, em que pese ás opiniões
+contrarias e até ao proprio auctor, que não perde occasião de o
+depreciar.
+
+Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A descripção
+da eira, do labutar alegre, da paizagem e dos personagens d'este pequeno
+quadro, são um primor notabilissimo de execução artistica, de rigorosa e
+completa observação.
+
+_Ultima dadiva_, um episodio commovente, completa a primeira parte do
+livro, a que se segue a _Comedia da provincia_, onde ha preciosos
+estudos da vida provinciana; as _Balladas_, onde se depara com o formoso
+conto _Para a escola_, de um alto valor litterario; _Arrulhos_, uma
+esplendida phantasia, etc.
+
+Eis uma ligeira noticia do volume de contos _Os meus amores_, que
+tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia
+do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que
+lhe foram dispensados.
+
+Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a
+crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do paiz,
+especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudonymo de _Ch. A.
+Verde_, e na _Revista Illustrada_, do editor Antonio Maria Pereira. É um
+infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frivolo assumpto
+um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o espirito do
+leitor.--_Luiz Trigueiros_.»
+
+
+Os Gatos:--«Vem a proposito de historias, fallar, bem sei que tarde, dos
+_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro portuguez que
+mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em polyedros de
+multiplices aptidões. Os contos dos _Meus amores_ são pela maior parte
+uma bagagem de vida academica, assimilativa (Trindade Coelho, muito
+novo, findou ha quatro ou cinco annos o curso juridico) e como tal sahem
+da penna do escriptor ainda sem uma crystallisação homogenea de fórma e
+de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso d'um espirito
+buscando a perfeição com escrupulos d'eleito; de sorte que o volume até
+como auto-biographia se insinua, elle precisando as phases, notulas, e
+predilecções litterarias do contista, e emfim, depois de hesitações,
+emancipando-o n'um dos mais delicados microscopistas do coração, das
+nossas lettras. Como é provinciano, provinciano d'aldeia, e natureza
+contempladora inda por cima, Trindade Coelho captiva-se principalmente
+dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana, tempestades de
+campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o não faça por
+diletantismo de escriptor avocando de cór dramas lambidos, senão por
+esse estro de visão retrospectiva dos melancholicos despaizados em
+terras hostis, e que protestam contra o egoismo ambiente, recluinde-se
+no passado, como n'um sanctuario de mumias adoradas. É a tendencia geral
+dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes,
+especialmente dos campos, materia prima para seus contos e poemetos. Em
+poucos porém a predilecção se escóra na sinceridade e conhecimento
+pratico da vida rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma
+autopse sagaz da natureza psychica e moral do camponez. Grande parte dos
+que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos
+n'um scenario de convenção, e com o fazer fallar aos bonequinhos mancos
+que resultam, aravias mais ou menos inventadas d'um pictoresco sorna, em
+cuja trama não ha vislumbres d'alma regional, de caracter profissional,
+d'individualismo typico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra,
+mandem vir a collecção dos contistas rusticos portuguezes, e riam á
+larga das fantasias lorpas que lá virem. Em dialagos amorosos ha por
+exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam ás namoradas protestos
+de paixão, em linguagem que seria preciosa até na bocca d'um pisa-flôres
+do Martinho e da Havaneza. Ellas, de lhes retrucar em phrase
+equivalente, e de se mecherem em scena com os ademanes que a _Dama das
+Camelias_ consagrou na cachimonia dos auctores, como os mais proprios
+para mimar o amor que as enchaquéca.
+
+Em paizagens e descripções d'interior, a mesma ausencia de detalhe certo
+e de visão propria, que reduzem esses quadros, a méras caganifancias
+d'aguarellistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a
+quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das
+cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os
+seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal
+imitação da Rua do Ouro, e o camponez como uma arreglo grotesco do
+alfacinha.
+
+Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da
+paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade
+Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema,
+em fórma d'arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo á vista
+do leitor, que não mais lhe perderá de vista os vôos poeticos, e a
+singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em
+prolongadas estações nas duas mais typicas provincias de Portugal, o
+Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha assím nos _Meus amores_, a par d'algumas
+benignas composições representativas da transição critica do rapaz para
+o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes,
+sobrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da
+minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras primas.
+_Typos da terra_ e _Preludias de festa_, por exemplo, são duas narrações
+que mordem fundo a attenção de quem nas lê, e que por sua admiravel
+sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido
+que ficarão modelarmente apontadas aos collecionadores de litteratura
+typica.
+
+Qualquer das peças abrange apenas o folego d'uma ou duas duzias de
+paginas, deliciosas porém como factura, admiraveis de bonhomia, e d'uma
+saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o seu auctor.
+
+Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante
+rico em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais
+finas intenções. _Typos da terra_ é o quadro satyrico d'uma má lingua
+d'aldeia, tendo por club a porta da tenda, por scenario a praça publica,
+e por personagens o pessoal burocratico e elegante da terriola.
+_Preludios de festa_ é um estimulo de festeiros preoccupados de qual
+fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os typos
+rapidos, a descripção dita a correr, mas no conjuncto ha um tal
+equilibrio esthetico, a meia tinta é tão fluida, e as intenções ironicas
+sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista,
+Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os semsaborões que por
+ahi medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno
+romance portuguez.--_Fialho d'Almeida_.»
+
+
+Jornal de Santo Thyrso:--«_Os meus amores_.--Foi penhorante e commovente
+para nós a gentilissima offerta que Trindade Coelho nos fez do seu
+adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta singela
+noticia.
+
+O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o
+brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje,
+porém, apparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a
+primorosissima fórma se allia com o mais delicado criterio d'artista
+d'_élite_ e com a fina observação d'um talento verdadeiramente superior.
+
+O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e
+obscura penna não está--seja este o seu unico merito!--habituada a vir
+entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se
+prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as
+ondas d'esse barato incenso.
+
+Os nossos leitores melhor ajuisarão, em presença do trecho que lhes
+offerecemos como mimo de rara valia.»
+
+
+Diario Illustrado, (com o retrato do auctor):--«Trindade Coelho.--N'esta
+aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras que ninguem sonha,
+ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos é dado
+experimentar, accrescente-se.
+
+Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,--na
+elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestigio do
+talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de adivinhar,
+logo aos primeiros passos, a revelação de Alguem, que vae ser
+unanimemente admirado.
+
+Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na
+galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo.
+
+Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam;
+admirei-o, muito antes d'elle trazer á litteratura patria o livro _Os
+meus amores_, que foi como que a subita illuminação do seu nome.
+
+Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a
+sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso
+encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o
+temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do
+estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...
+
+O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de
+rapidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação,
+vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com
+um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a
+perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e
+do camponio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande critico Fialho
+d'Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu
+criterio do problema, em fórma de arte, e dos que mais progressivamente
+vão crescendo á vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os
+vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de
+genero, colhidos em prolongadas estações nas duas mais typicas
+provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes.»
+
+Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho começara a affirmar a sua
+poderosa, individualidade em uma secção do _Diario Illustrado_, _Cartas
+alemtejanas_, chronicas expedidas de Portalegre, em um arranque de
+talento, com exuberancia de fantasia, modos de ver e dizer,
+flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo á Vacherai, velados
+a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante
+originalidade.
+
+Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio
+das suas funcções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitaria de
+arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o
+condemnara.
+
+E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos
+vôos, fez-se um côro de bençãos, como que uma apotheose de amor, que
+deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma
+effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos, superiores a todas
+as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto.
+
+Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterisam e
+lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam, uma dualidade,
+verdadeiramente phenomenal.
+
+É que, sendo elle um artista, na rigorosa accepção titular da palavra,
+namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na
+extatica adoração de tudo quanto ella sobredoira do seu brilho immortal,
+é ao mesmo tempo um funccionario exemplar, um delegado do procurador
+regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte
+Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter e no
+correcto exercicio da sua profissão, toda a perstigiosa soberania da
+Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito, quando se
+trata de aquilatar o merito de um auctor:
+
+«Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante
+rico, em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das
+mais finas intenções.»
+
+Ás vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade
+nostalgica ou treme de frio... legal.
+
+É então que elle murmura, (perdoa a indiscreta allusão, meu caro
+Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o
+meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu
+ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz idéa, não!
+Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E là fóra, e lá em cima--que amplo
+céo azul para voar!»
+
+Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda o
+esperam, meu illustre amigo?--_Guiomar Torrezão_.»
+
+
+Revista de Portugal:--(Excerpto de um artigo critico ácerca do _Só_ de
+Antonio Nobre).--«Alma doente, o sr. Antonio Nobre soube extrahir da sua
+doença effeitos de Arte singulares e ás vezes intensos. Outros
+attingiram o mesmo objectivo pela descripção das emoções naturaes e pelo
+appello aos instinctos sãos do coração humano. Acabo de rêler o livro
+d'um escriptor tambem novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com
+casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser comprehendidos
+por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a affeição de dois
+pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida
+junto á cruz da sua victima, o amor materno de uma cabra que se deixa
+morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o narrador
+interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha atravez
+d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do suor dos
+lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade
+pessoal decisiva para a belleza das obras.--_Moniz Barreto_.»
+
+
+Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face,
+olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,--o que não seria difficil mesmo
+no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar
+no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples
+conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se elle de nós, porque já
+então a gente não se atreve a separar-se d'elle, tem-se adquirido a
+certeza de que aquillo é o que é, e chegado á mais solida convicção de
+que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um
+coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais
+insubmissas ao menor proposito do menor disfarce, do que na sua
+physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho intensíssimo do
+seu olhar muito limpido, muito penetrante, se expressam toda a
+sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso
+temperamento.
+
+E ao vel-o partir pela rua fóra, decidido e tezo, resoluto e rijo, a
+cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que
+dá gosto vel-o, não resistem os olhos ao desejo de acompanhal-o de
+longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou
+pensa:--«Demonio!... Com meia duzia assim, poderia fazer-se _alguma
+coisa_ ainda!...»
+
+Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas
+perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos
+quando com elles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando
+passam--só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este sólo e
+purificar esta atmosphera.
+
+Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem
+da sua vida,--o mundo litterario e o mundo judicial--affigura-se-me
+elle, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelevel
+cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos
+para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este
+agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio
+Publico contra os altos reus de certas causas celebres,--ora imprimindo
+n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da fórma é
+posta sempre ao serviço das emoções mais dôces e das mais penetrantes,
+esse outro cunho, d'essa outra individualidade que n'elle ha, e tão
+diversa é, tão original e tão rara, tão comtemplativa e tão terna.
+
+...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do
+seu impetuoso temperamento!
+
+No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas
+palavras se não limitam ao cumprimento do dever de officio, não tardará
+que á serena exposição dos primeiros articulados succeda a expressão
+calorosa, indomita, sempre crescente, da indignação, e da colera, que
+lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vae deduzindo a
+tremenda accusação contra o réo--...esse réo que alli está, alli!
+sentado n'aquelle banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés!
+Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração accelera-se, a face
+ruborisa-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito
+enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cerebro
+vigorisa-lhe os musculos, affirma-lhe a energia, parece transportal-o ao
+imperio da força, n'um arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas
+se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado
+a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta,
+quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem ferir de
+arripios a espinha dorsal do auditorio... Já não é para a justiça dos
+homens que elle appella; não lhe bastam, não o saciam as penas maximas
+dos Codigos! Quer o castigo do Céo, quer a justiça de Deus!
+
+...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem peor
+que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana
+havia condemnado por assassino e ladrão--o pobre Manuel Barradas. Muito
+commentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministerio
+Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos agoniados da sua vida
+em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a collecção
+desses jornaes, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no
+principio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um
+pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Elle, em
+premio da minha obediencia, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo
+do meu coração. Queres ouvil-o bater? Ausculta essas folhas... Bemdito
+seja Deus! serão ainda minhas as tuas lagrimas enternecidas, e, ainda
+depois de morto, viverei na tua commoção e na tua alegria, para a
+commoção e para a alegria da minha obra...»
+
+Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste
+nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto austero
+do magistrado, cedendo o logar á delicada individualidade do homem de
+lettras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa,
+muito á vontade e á fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a
+vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, d'essa muito
+viva e muito affectuosa ternura que á sua alma de artista dá, e que a
+sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que
+não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordação a
+que andam para sempre ligados, n'uma doce e meiga associação de ideias,
+certos logares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo
+olmo, que já lá estavam quando elle nasceu, que o embalaram nos
+primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao
+baptismo o levaram, e o conduziram á escola; alegrando-se com as suas
+alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas...
+
+N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da
+sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se
+pousar-lhe nos beiços e nas palpebras a serenidade meiga de um sorriso,
+como que o doce agradecimento á alma de sua mãe, que tivesse vindo,
+muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito,
+aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a amorosa
+caricia dos seus beijos...
+
+Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade
+essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos musculos e a
+effusão das lagrimas realisam o phenomeno das emoções reaes.
+
+Os seus escriptos obedecem sempre á logica influencia d'esta convicção
+em que elle está, quando me diz, bem medindo e pezando cada uma das suas
+palavras:
+
+--«Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais nada, que o
+escriptor preste na sua obra o culto que é devido á sua lingua. Depois,
+deseja que o commovam, que honesta e consoladoramente o emocionem,
+preferindo que o assumpto do quadro seja a exploração das coisas
+triviaes da vida, certamente porque reside no Simples a formula mais
+natural da Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lêem está
+fatigado d'essa confusão do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me,
+emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro dever, e como
+condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre
+de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e
+entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferencia, mesmo,
+ás faculdades intellectuaes...»
+
+Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos. É o primeiro d'elles,
+_Idylio rustico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarella, parece que
+feito sobre um esbatido de céo purissimo, côr de sovaco de andorinha e
+não sei com que singular sabor eucharistico de primeira communhão... É
+um sonho de absynto, que serve de aperitivo divino para a leitura
+soffrega de todo o livro. Dois pastoritos ingenuos, a Rosaria e o
+Gonçalo, encontram-se e approximam-se, n'uma indecisa alvorada de
+derriço, cheios de boas tenções e puros ideaes. Acontece, porém, que por
+viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada,
+imaginem os que como elles se amem a alegria que inunda aquellas duas
+almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias longas, quiz Deus que
+os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando
+seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como
+juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se
+põe, vagueam nas frescuras marginaes do rio, a par, e sós, elle
+dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com murmurios d'agua
+correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz d'alma idylica de
+illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe immenso a
+separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as
+ovelhas durmam em mistura e que passem elles a noitada sobre o mesmo
+colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instinctiva reluctancia,
+Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as
+mantas cobertor commum, e pousando as cabeças nos bornaes unidos,
+parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos
+desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo, e
+os bons dos namorados, n'uma placida orchestração final que se smorza,
+referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no somno e
+adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da
+maldade nossa.
+
+Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fóra, e que vamos
+bisando e saboreando a pequeninos gólos, durante algumas horas bem
+fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que
+elle nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivessemos; em
+companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão photographicos, tão
+nitidos, que é estar a gente a vel-os, a ouvil-os, a falar-lhes, a
+deitar-lhes o braço pelo hombro...
+
+Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao
+serviço da moderna arte, o ineffavel goso de tão estranhas, tão novas,
+tão encantadoras surprezas! Quizera eu, inedita, bem fresca, pela
+primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante
+comparação:--dir-se-ia traçada com uma penna d'aguia... arrancada d'uma
+aza de pomba.
+
+Os seus livros ficarão pertencendo ao numero d'aquelles que parecem
+possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espirito de quem os lê.
+Relêr o que elle escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de
+quando se contempla pela centesima vez algum querido, precioso objecto,
+que noventa e nove vezes se contemplara já: privilegio esse de eterna
+seducção, que só disfructam as obras em que o artista deixou pedaços da
+sua alma.--_Alfredo Mesquita_.»
+
+
+Do Poema do Ideal:
+
+«_Os meus amores_! que livro
+Tão fragante e saboroso!
+Scentelhas aureas e vivas,
+D'um prosador luminoso!
+
+Brisas da serra!
+Trechos idylicos
+Da nossa terra!»
+
+_Fernandes Casta_.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***
+
+***** This file should be named 17503-8.txt or 17503-8.zip *****
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+
+Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited
+by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
+Digital--http://bnd.bn.pt). (This file was produced from
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+Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
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+Creating the works from public domain print editions means that no
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Literary Archive Foundation
+
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
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+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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