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diff --git a/17503-8.txt b/17503-8.txt new file mode 100644 index 0000000..38652f5 --- /dev/null +++ b/17503-8.txt @@ -0,0 +1,8565 @@ +The Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os meus amores + contos e balladas + +Author: Trindade Coelho + +Release Date: January 12, 2006 [EBook #17503] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES *** + + + + +Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited +by Rita Farinha (Biblioteca Nacional +Digital--http://bnd.bn.pt). (This file was produced from +images generously made available by National Library of +Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + +OS MEUS AMORES + + +TRINDADE COELHO + + +*OS MEUS AMORES* + +(Contos e Balladas) + +_2.^a edição_ + + +LISBOA + +Livraria de Antonio Maria Pereira + +50, 52--Rua Augusta--52, 54 + +1894 + + + + +_LISBOA_ + +Typographia e Stereotypia Moderna + +11--_Apostolos_--11 + + + + +Ao Doutor + +Antonio Xavier Perestrello + + + + +«_Os Meus Amores_» + + +_Folhas dispersas dos meus annos de oiro, +Vivo enxame das minhas alvoradas, +Tenho zelos de vós, folhas sagradas, +As Desdémonas sois de um outro moiro. + +As brancas horas que eu em sonhos doiro, +Essas horas febris, illuminadas, +Eil-as fugindo, em tristes debandadas... +Levaes nas azas todo o meu thesoiro. + +Folhas: subi, voae ao céo tão alto, +Que o ceo em estrellas vos converta e mude, +Lá nas longinquas illusões que exalto; + +Como as frementes aguas d'um açude, +Levae a Deus, no derradeiro salto, +O derradeiro adeus da juventude_... + +_Luiz Osorio_. + + + + +IDYLLIO RUSTICO + +_A Fialho d'Almeida_. + + +Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atraz d'elle, +era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas +conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais +insignificante ruido. Dormia-se a somno solto por todas aquellas casas. +Apenas algum cão, subitamente acordado em sobresalto pelo chocalhar do +rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde ficara de +sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo +companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores entoavam +matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios, n'alguma +esturdia, a deshoras... + +Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a +banda, n'uma grande pacificação de templo adormecido. Nem viv'alma pela +ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céo +azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a largura, a +paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito mortiça que nem +era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No emtanto a manhã era +calma; nem rumores de briza pela rama das azinheiras velhas que faziam +guarda ao corrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grillos nas +hervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima +do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho +que se ia submissamente á mercê do pequeno pastor, parando se elle +parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de +novo elle se punha a caminhar. + +Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro, +que o echo levou para longe. + +--Não gastes polvora, Antonio!--recommendou o pastor.--Ouviste? + +E logo a voz do guardador: + +--Madrugas hoje, Gonçalo! + +--P'ra que saibas: cá um homem não tem medo. + +--Está bem. Adeus! + +--Saudinha. + +A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na côr. Invadia +a amplidão da cupula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrellas +feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira d'além, entravam de fazer-se +nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham +altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra... N'este assomo +d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade +vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos levantavam-se +repentinamente, em vôo perpendicular, e cortavam ares fóra, chilreantes +e alegres, até se perderem de vista por de traz dos arvoredos e cabeços. +De cauda em riste e orelhas immoveis, o rafeiro espreitava as hervagens +seccas, onde algum reptil passasse vagaroso. + +--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo ás cobras.--Busca, +valente! + +Á medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas ouvia-se, +mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá +se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de +paciencia,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os +interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre, á +frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar +areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle céo ainda estrellado, +o Gonçalo desabafou: + +--Uff! até que emfim!--E pensava aliviado:--Nada mais facil do que +terem-me sahido os lobos!... + +Mas vista áquella hora, e no meio de tal silencio, a corrente liquida +tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças +aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, n'uma +lucta desesperada com as aguas, clamando em vão que lhes acudissem, em +tamanho transe afflictivo. A margem de lá, especialmente, era toda +accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quaes no +inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que era +um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, n'um +descuido involuntario--simples remadela pouco a tempo, manobra menos +segura de leme, ou impulso errado de vara. + +E então, cabeços enormes d'um lado e d'outro, projectando sobre o largo +leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o +sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente, fazendo +limitada a paizagem. + +A todo o comprimento da margem, o rebanho pôz-se então a beber manso e +manso, e sem o minimo ruido. + +Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um +pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem. + +--Táte, Gonçalo! Aquella chocalhada... + +E immovel, remordendo o labio, com o ouvido á escuta, pensava: + +--Ora se será ella?... + +Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um +clarão de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como elle, com +quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira. + +--Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo. + +E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, pôz-se attentamente +á escuta do tilintar dos chocalhos na margem opposta. + +«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser +outro que não a Rosaria...» + +Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou +ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para deante o bornal, feito da +pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua +flauta e pôz-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rustica. + +No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe: + +--Ehlà, Gonçalo, és? + +O pastor desatou a rir. + +--Uhlá, Rosaria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona! + +E logo a voz fresca da rapariga lembrou: + +--Não te esqueceu a moda, rapaz! + +--Isso esquece ella!... Ouviste, Rosaria?--Se outra fosse que m'a +tivesse ensinado... + +N'este meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir +ter com a Rosaria. Mas primeiro perguntou: + +--Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa? + +--Vem tu d'ahi. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Han? + +--Basta! + +E dando o signal da partida, o Gonçalo pôz-se em marcha. D'ahi a +pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte moirisca, toda severa de +construcção nos seus tres arcos lançados sem elegancia, atufados de +parasitas seculares que a faziam pittoresca, heras, silvas, ortigas +bravas. + +A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratorio ao Senhor +Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar +coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho +com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que +era como um talisman precioso para livrar de maiores +desgraças--naufragios no rio, e então maus encontros por aquelles +caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animaes. + +D'ahi a pouco, as duas creanças estavam perto uma da outra, cada qual +seguida do seu rebanho. + +--Ora viva a Rosaria!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da +cachopa. + +--Bons dias, Gonçalo; então que ventos? + +Entre os dois travou-se então um longo dialogo em que se contaram tudo o +que haviam feito desde aquelle dia em que ambos tinham voltado juntos da +feira dos Caniços. + +--Por signal que nem rez se vendeu!--lembrou o Gonçalo. + +--Por signal!--disse com pena a Rosaria. + +Mas elle contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que +a encontrava. «Vêl-a agora, só por milagre de santo; quem o havia de +sonhar! Nanja elle...» + +--Mas se eu estive tão doente!--volveu triste a Rosaria. + +E como o outro acudiu a informar-se, ella explicou: + +--Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era +mesmo lume desde manhã até ao escurecer... Uma assim! + +E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na +febre, sonhara com elle, que se encontravam os dois por montes e prados, +como agora tinha acontecido, «tal e qual». + +--Assim te Deus salve, ó Rosaria?--atalhou rapido o pastor, a quem +enchiam de orgulho os sonhos d'aquella pequena amiga. + +--Assim; pois que duvida?--tornou-lhe confiada a Rosaria. + +--Não!--disse agastado o Gonçalo.--Não has-de dizer assim... Diz certo, +has-de jurar direito. + +--Pois assim me Deus salve... + +--Como é verdade...--Diz tudo, Rosaria!--supplicava o pastor. + +--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como é verdade que sonhava +que nos encontravamos--concluiu por fim, muito risonha. + +E sem disfarçar o jubilo, prestes o Gonçalo a certificou de que tambem +não a esquecera. «Tanto é que tirava da frauta as cantigas todas que +ella lhe tinha ensinado.» + +--Lembras-te? + +A Rosaria faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de +sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar: + +--Sahem d'aqui sem falhar uma.--E resoluto:--Vá feito, Rosaria, pede por +bocca! + +A Rosaria pediu então a _Pastorinha_. + +--Eu é da que mais gosto,--explicou.--É a mais linda. + +--E é!--concordou o Gonçalo.--Ora escuta lá. + +E levando aos labios a avena, pôz-se a tocar a _Pastorinha_, emquanto a +Rosaria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a lettra: + +Onde _vás_, ó Pastorinha, +Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé... + +--Sabes essa! É mesmo assim!--disse-lhe a Rosaria a rir-se. + +--É como vês!--affirmou contente o Gonçalo. + +Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos, +confundidos, andavam na pastagem. + +--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonçalo. + +--Tambem nós nos quedámos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As +pobres dão-se bem, são amigas...--continuou com jubilo. + +--E nós tambem, ora tambem, Rosaria? + +--Tambem--respondeu afoita a pastora. + +E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denuncias. + + * * * * * + +A esse tempo, no céo alto e lavado a estrella d'alva fenecera por fim, e +o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céo em +cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias extranhas que iam +despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de +perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, +tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de +azas--passarada alegre que sahia agora dos ninhos e voava a matar a sêde +á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em +reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convisinhos onde a vegetação +era mais rica de seiva e mais facil a presa dos insectos, perdizes +gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos +vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas +de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicóllos, +viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de +taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já +nas povoações proximas sinos chamavam para a missa d'alva ou tocavam a +Ave-Marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de +almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no céo +immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada +para a labuta interminavel do dia. N'uma clareira elevada, dominando o +rio e um trecho de paizagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores +e continuavam conversa. + +Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua côr +trigueira levemente pallida desde que tivera as maleitas. Não se +lembrava com que santa que elle tinha visto se lhe parecia agora a +Rosaria... + +--Mas o cabello assim cortado...--disse com magua, mirando-lhe a cabeça +nua, e passando a mão pela d'elle,--é que te não fica bem! + +«Melhor fôra que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a +mais, que era como elle gostava...» + +--Promessa da mãe se eu melhorasse--explicou a Rosaria--Lembranças... A +gente quando está afflicta... + +--...Quando está afflicta...--repetiu como um echo o pequeno. E depois, +amuado:--Se promette os olhos... + +A rapariga fitou-o, espantada. + +--...é porque t'os tirava!--concluiu convicto. + +Houve um momento de silencio, em que o Gonçalo se pôz a escavar o chão +com uma pedra, e a Rosaria a torcer um fio saliente do seu vestido +grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar +na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar. + +--Não fallas, Rosaria?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para +ella. + +--Tambem tu...--começou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a +lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!--E depois +animando-se:--Já foste á Senhora dos Remedios? + +O Gonçalo fez signal que não tinha ido. + +--Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. N'um prego ao lado +do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo. + +O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E +para acabar com ella: + +--Que emfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a +girar.--Olha como dança...--E depois, mais pensativo, batendo com o +bilro nos dentes: + +--Que ás vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem +fez este bilro? + +--Foste tu, aposto. + +Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lh'o +orgulhoso--«que visse os _torneados_.» Depois continuou: + +--Vae uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os +santos!--Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem resou e +bem promessas fez, mas ella foi-se. + +E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho. + +--Aquella ovelha, a branca, não vês? A que se vae agora deitar... Pois +era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.--E deitando-se para +traz:--Lá anda ella a pastar!--concluiu desalentado. + +--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosaria,--que as promessas +sempre fazem, lá isso... + +E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo +de que sempre valiam as promessas. No emtanto, deitado de costas, com a +jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em angulo tocando-se com os +joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia +subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto +se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosaria ia +entretendo o pastor. Mas quando ella fazia pausa, logo o rapaz acudia, +firme na sua objecção: + +--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina! + + * * * * * + +Á medida que o sol ia subindo, no céo glorioso e fulvo, iam os dois +conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados, para se livrarem da +estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia, que +foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheiraes, +depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de +conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas +passassem tão depressa. Ainda armaram aos passaros, mas foi o mesmo que +nada, os demonios andavam espantados e já conheciam as esparrellas. + +--Olha lá não caiam,--tinha dito o Gonçalo, já cançado de estar á +espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se elles +fossem tolos... + +E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella +então propoz que jogassem a pocinha. + +--E o fito, ó Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos de +tarde, bato-me com qualquer, sabias? + +E generoso:--Mas a ti dou te partido: vinte e cinco ás quarenta... + +Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a +bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia á mão, era elle que ia +buscar o pausinho, quando zinia longe. + +--Turco, traz cá! + + * * * * * + +No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céo esmorecia no seu +azul suavissimo. Em todo o espaço o ar estava tranquillo e sereno, e já +começava para poente a decoração phantastica do occaso. Parece que se +ouvia mais distincto o marulhar das aguas no rio; já não faiscava assim +tão viva a areia branca das margens. + +Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as +ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os +olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim: + +--Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste? + +«Ora que lhe custava a ella! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo +o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?» + +--E o mais, ó Rosaria?--perguntou de novo com interesse. + +A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar, +respondeu: + +--Tambem.--E sorriu-se.--Pois eu... + +Só depois d'esta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o signal +de partida, assobiando aos cães. + +D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha +ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo +areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada +tremeluzia, tirando á agua a sua translucidez normal. + +--É bonito!--fez notar o pastor. + +A Rosaria explicou logo: + +--São as moiras a caçar com redes d'oiro, sabias? + +Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam á flôr da corrente +as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava +serenamente, a mãe com o mais novito ao collo não os perdia de vista, +emquanto o pae, em mangas de camisa, de pé n'um topo de fraga, lhes ia +ensinando as _manobras_. Ao fundo, tres vitellas passavam o rio a vau, +muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia d'agua +serena, bebendo mansamente. Sobre o vitello das malhas brancas, o +guardador cantarolava, acenando com o chapeu ao moleiro--«boas tardes! +boas tardes!» Ao sahir da ponte, o rebanho teve de se affastar um pouco +do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos +carregados, tilintando campainhas. + +--Adeus pequenos! cumprimentou. + +--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos. + +E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas, +confraternisavam os cães como bons e leaes amigos. Á frente, o Gonçalo +ia tocando na flauta o mesmo que a Rosaria cantava. O brando rumor dos +chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a musica, +fundindo-se n'uma nota subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada... + +Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e +então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, collocando na sua frente +a Rosaria, e pondo-lhe á cara a flauta, na direcção em que devia olhar. + +--Vês além... n'este direito? Rez-vez do castanheiro, não enxergas? + +A outra fez que sim com um gesto, e interrogou: + +--Então é ali? + +--Ali mesmo--volveu-lhe já de marcha. + +E repoisando a mão direita sobre o hombro esquerdo da rapariga, +repetiu-lhe muito contente: + +--É mesmo além. + +N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o espaço +que as ovelhas tinham de occupar essa noite. + +--Falta pouco; a gente vae pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a +cavallo. + +E como elle ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quiz então +saber: + +--Estás triste, ó Rosaria? + +--Triste... não. Já agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa. + +--Huum! Arrependeu-se...--volveu comsigo o pastor. + + * * * * * + +Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para +dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle ainda trazia +azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo +apontou para a cabana que ficava alli perto, e propoz que se deitassem: +estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora. + +Quando o Gonçalo e a Rosaria entraram na cabana e se deitaram sobre o +colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro +os bornaes que faziam de travesseiro, cerrára de todo a noite, e +formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida no azul +indefinido do céo. + +--E os lobos?--perguntou a Rosaria com medo. + +--Não ha perigo--tranquilisou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães. + + * * * * * + +Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos +chocalhos. A ladrar, os cães faziam echo. O rebanho devia dormir +profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada toda a +Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo, +n'um ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se +deixaram adormecer,--quando a historia das moiras encantadas ia no seu +melhor episodio... + +E lá no alto céo, mesmo sobre a cabana, a estrella da tarde não era nem +mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa d'aquellas duas +creanças... + +Quando ao repontar da manhã se levantaram, e sahiram a vêr o céo... + +--Bonito dia, Gonçalo! + +--Bonito dia, Rosaria! Olha... + +...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando... +voando... + + + + +SULTÃO + +(Copiado do Natural) + +_Ao meu Henrique e a Beldemonio, seu amigo_. + + +I + + +Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa, cançado, esfalfado de +andar um dia inteiro a mourejar no campo. + +--Meus peccados, boa tarde!--dizia elle para a mulher, com um sorriso a +affectar seriedade. + +Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a benção. + +--Deus te abençoe. + +--Pae, olhe que o «Sultão»... ia a dizer o pequeno. + +--Bem sei! atalhava logo o Thomé.--O «Sultão» é um maroto e tu és outro. + +E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de +_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze annos, e abria a +gaveta do pão, o Thomé punha-se a fazer de interesseiro comsigo mesmo, +resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse: + +--É que por este caminho não tenho um dia descançado... Nem uma hora... + +Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra. + +--...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim ha de chegar... A +modos que vou já cançando... + +Mas o Thomé não era homem que dissesse estas coisas de coração. +Pareciam-lhe longos, interminaveis, os aborrecidos domingos que passava +sem ir campos fóra, madrugador como um melro. + +--Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thomé encolhendo os +hombros, como quem está desgostoso com um genio assim. + +Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua +cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra +que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito á vontade. + +Costume velho do Thomé:--mal se sentava, mastigando o «boccado», dizia +logo para o filho: + +--Ouves, Manuel? Bota cá fóra o «Sultão». + +O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia +nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de +contente, dizendo cá da rua: + +--«Sultão»! Sae cá p'ra fóra, «Sultão»! + +No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta +baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em +riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um movimento moroso de +palpebras pestanudas... + +E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas +pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava,--um grande riso de +alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão». + +Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o +Thomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de +quadrupede de boa raça, alguem lhe poderia lêr no olhar, mole e +impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o dono... + +Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se +então a fallar muito serio, entre resignado e cortez, para o pequeno e +desdenhoso jumento--o pão e o queijo esquecidos n'uma das mãos, na outra +a navalha de _meia-lua_: + +--Então, «Sultão», não vens? + +--Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a +envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia d'aquella +immobilidade de estatua, apenas de quando em quando uma pequenina patada +na soleira, zap! + +--Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.--De mal comigo? + +E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á +vontade...--que não fosse vel-o o «Sultão»... Mettia entre dentes um +pedacito de queijo, logo uma codea de pão, e fazendo umas grandes rugas +na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito serio: + +--Ficas ahi, «Sultão»? Já não és meu amigo? + +O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que +fazendo-se humilde... + +--Então se és, anda d'ahi. Olha...--E mostrava um pedacito de pão.--P'ra +ti se vieres... + +O «Sultão» dava tres passos, e ficava fóra do cortelho. E por se vingar, +o Thomé carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada, e erguendo o +rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, affirmando que já lhe +não dava o pão. E desfechando-lhe emfim a ameaça de o vender a um +cigano, entrava a tratal-o por senhor--_sôr_ «Sultão»... + +Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas +baixas, pescoço cahido, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão +da arrelia. + +Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra banda, a rir +como um perdido. + +--Diabo do gerico! diabo do ratão! Capaz é elle de fazer rir as pedras, +o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na guela. + +No emtanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com +o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé sacudia-o: + +--Sae-te p'ra lá! dizia elle muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez +que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vae-te! + +Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao +focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar +obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço +superior, a tremer, e roubava-lh'o da mão. + +Pazes feitas! Era então rir a perder, n'umas casquinadas agudas, muito +estridulas. + +--Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.^a Josefa.--Até pareces +doido! + +--Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava +o Thomé, n'uns grandes gestos.--Vamos que eu lhe não queria dar da +merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque. + +Era precisamente o que o Thomé queria:--ver o «Sultão» a brincar. + +...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do +lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe +consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes +causticantes e chuvas torrenciaes. + +Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das +«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Ás vezes, o pequeno jumento, +ferido não sei por que vespa invisivel, despedia sem mais nem menos +n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, agitando a +cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a banda n'um alarido o +rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam como doidas, +cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Accudia gente aos +postigos, ás portas, ás janellas, a ver a polvorosa; e subito se +inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quasi nús, correndo +atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o +mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a propria +rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre +todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, acclamado, na malta +espavorida dos inimigos... + +--«Sultão»! eh lá! «Sultão»! + +Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de +volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga, não lhe +desse na bôlha atacal-os... E abriam alas de repente, quando elle, +tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se não +deixar atropellar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era, +já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas +estridulas, os rogos para que pozesse treguas, as supplicas para que se +accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da escada, onde +se deixava cair,--derrotado! + +--P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Thomé, oppondo-lhe os pés, +desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para traz, a rir +como um perdido. + +Então o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes rompia a +girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as patas, cauda +no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé solicito dava aos +rapazes o aviso de se arredarem--«porque era doido, aquelle demonio»!... + +Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito +cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um cão, +certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os +saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes á surpresa da +viandante. + +--Dê, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de lá o Thomé, com ares de +zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma +verdasca:--«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava. + +E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a elle, +muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um cumprimento humilde +de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça, +preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» signaes de medo, e humilde +proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um +passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada +ganhava o terreno perdido--fitando impassivel o cão... O bruto formava +então o salto, regougando forte, o pêllo eriçado; e ao investir para a +primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que +por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra +coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido: + +--Eh! valente! gritava-lhe então o Thomé. + +E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo +ao correr a caravelha: + +--Não ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve! + +E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia para a cama sem +primeiro descer a vêr o «Sultão»,--de candeia na mão esquerda, e na +direita, contra o sovaco, a bella quarta do grão, acogulada. + +Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de candeia +attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de cima, a sr.^a Josefa +tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado: + +--Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas. + +E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que +fallou,--historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto +que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo +desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse: + +--Boas noites! + + * * * * * + +Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao +cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a +mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de +enorme--gelada... + +--Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.--Ó Josefa! + +A mulher assomou á janella, sobresaltada. + +--Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?! + +--Que te roubaram o quê? fez a sr.^a Josefa, muito attonita. + +--O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que m'o roubaram! + +E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, descalço, romperam todos +tres na gritaria, defronte do cortelho vazio: + +--Á d'el-rei! Á d'el-rei! Á d'el-rei! + +Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na +peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram. + +Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando +ao peito abatido do Thomé a negra e vazia palavra: + +--Nada!... + + +II + + +Dois annos depois. Tarde d'agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a +eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e +embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverisações doiradas da +ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de +ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, +esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja. +Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e +além, alegremente, a monotonia profunda do azul. N'um deslado, sob os +castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da +igreja, as paredes caiadas da escola. + +A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava áquella hora o +aspecto tranquillo e de paz de uma grande officina em repouso. Poucas +«mêdas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e +estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das +«mêdas» altas, entre os utensilios da trilha e a creançada estridula que +brincava, os da lavoura descançavam--vermelhos da soalheira intensa de +todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nú, arregaçados +os braços musculosos, n'uma prostração regalada de matilha que alfim tem +a sua hora de socego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da +fadiga os proprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram +todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali, +dando uma sensação agradavel de fartura, perfilam-se os altos saccos no +meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa, +ao redor de um grande montão de palha triturada, vae «limpando»--visto +que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao +mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os +«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão, +varrendo em roda n'um afan... Em certo ponto, carros vasios; um além, de +altissimas «angarellas», vae-se enchendo de palha; emquanto outros, +atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas mais baixas, +estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois +gigantes. + +Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de +bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas +oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêllo. E lá vão +encosta abaixo, roçando pelos troncos asperos dos castanheiros a enorme +corpolencia, fartar o largo bandulho á serena agua das ribeiras, +sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, +monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam, +submissa... + +Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres +cantava alegremente, em côro. Acabara de ensacar-se o ultimo grão da +farta colheita do Thomé da Eira. + +--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.--A primeira +da aldeia! + +--Qual? isso sim! vão vocês vêr a tulha. Muita palha, é que vocês hão de +dizer, muita palha e pouco grão... + +E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as +mangas arregaçadas pelos cotovelos, O Thomé ia e vinha, dando ordens, +repetindo avisos, distribuindo aqui e além as ultimas tarefas. + +--Ahi vae um sacco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um +grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por ahi +alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso. +Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vae no carro está +bem. + +E era como um doido a metter-se no serviço de todos, muito expedito, +loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora +dormir... + +--Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma, +que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz ahi no chão esse +«rasouro», ó coisa?--Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses saccos que +fiquem bem atados. + +O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no +ar, se era preciso mais alguma coisa. + +--Não, pódes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te. +Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo, +deixa ir os animaes a passo. Vae-te. + +Como o carro chiava, levantou a voz para dizer: + +--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os +bois para o lameiro. + +Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:--«seria preciso vir por +elles?» + +--Não vale a pena, lá irão. + +E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os +levava, aquelles dois saccos... + +--Com mil demonios! Apostar que vocês não adivinham? + +«Elles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois saccos, olhem agora!» + +--O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então +que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve! + +Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a scisma do animal não lhe +passava nem á mão de Deus Padre!» + +--A modos que isso é já mania, ó sr. Thomé? + +Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpreza. Voltaram-se +todos--«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando, +a cavallo. + +--Vocês não querem vêr, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se +pallido.--Aquelle burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por elle... + +Recordaram:--«estrella malhada na testa, a mão direita branca»... + +--É elle, com um milhão de diabos! não ha que vêr! E aquelle é o ladrão! + +E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou, +d'um abanão, o cabo d'uma «espalhadoura» e botou a fugir direito á +estrada. + +Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido: + +--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem +a alma lhe deixa! Acudam! + +Os homens deitaram a correr atraz d'elle, affluia gente de todas as +bandas da eira, os cães ladravam. + +--Então, sr. Thomé? olhe que se perde, sr. Thomé! diziam-lhe, já +agarrados a elle.--Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem, +sr. Thomé, largue vossemecê o cabo! + +--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas, +mais a vocês, se me não largam! Arreda! + +E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a elle mais ao +cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes. + +--Vê, sr. Thomé?! + +«Não via nada, não queria ver cousa nenhuma! Arreda!» E n'um rompante de +ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou á estrada, aos +tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando. + +--Abaixo! intimou.--Você é um ladrão! + +--Um quê? + +--Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matal-o aqui, seu patife! +Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, como um cão! + +E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda, +e na direita o minacissimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo +razo--«com seiscentos milhões de diabos!» + +Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos. + +--Já lhe disse que você é um ladrão! + +--Ladrão será você!--tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos +cerrados.--E não m'o diga outra vez, que o racho! + +Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a +capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador entrava de +tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca +bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um +pedaço de hombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas +agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas cabeças em desordem. + +Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--«tinha-o +comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...» + +--Vê, sr. Thomé? acudiram logo uns poucos.--O homem não tem culpa.--E +gritavam-lhe aos ouvidos:--Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé. +Vês-ahi está! + +--Mente! objectava incredulo o Thomé, cada vez mais irado.--Mente! + +--Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado. + +--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thomé. + +De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi á má +cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Elle então, +abrindo os braços como se fosse para nadar, socegou um pouco, +amainou,--prometteu levar aquillo com paciencia, ás boas. Chegou quasi a +pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das +camarinhas.--«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?» + +Chegou-se por fim a um accordo. «Sim, senhores, accommodava-se, mas +punha uma condição: largasse elle o burro, e o burro é que havia de +resolver...» + +--Serve-lhe o contracto? + +--Qual contracto? + +--Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro ás soltas. +Depois, é p'ra onde elle fôr. Se o burro larga p'ra traz, lá p'r'as +bandas d'onde você vem... Você d'onde vem? + +--Dos Casaes. + +--Pois ahi está. Se o burro tomar p'r'os Casaes, o burro fica seu... + +--E tomando direito á aldeia, é do sr. Thomé,--concluiram alguns do +grupo, conciliadores. + +--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim. + +Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia historia que o +burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe +custara tiral-o de casa. + +--Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe então que vae pr'os +Casaes...--affirmou. + +--Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vae. Você está pelo +dito?--quiz saber o Thomé. + +--Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro +n'um rompante. Olhe: uma, duas, tres; ás tres largo-lhe a arreata. + +Ia já a abrir a bocca para dizer--«uma!» + +--Alto! fez o Thomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas +festas ao animal. + +E pôz-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um +pouco a fital-o de frente, «para que o animal o conhecesse.» + +--«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»! + +O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a +lembrança porventura adormecida d'aquelle nome despertara subitamente... + +--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se +p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casaes nem p'r'o logar. Assim. Eh! Eh! + +E afastou-se para o lado, aguardando. + +Uma anciedade dominava n'aquelle momento os do grupo; o Thomé pôz-se a +roer as unhas, nervoso... + +--Então você porque espera? perguntou. + +Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo: + +--Á uma!... + +O Thomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de +esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da mão direita... + +--...ás duas! + +--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Thomé. + +E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força. + +--...ás tres! + +Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e +gargalhadas! O Thomé vencera: corriam todos a abraçal-o, affirmando que +o caso era para foguetes. + +--Viva o sr. Thomé! Viva o «Sultão»! Aquillo é que é burro! + +--Aquillo é que é amigo, hão-de vocês dizer!--emendava o Thomé a rir. +Tenho-os com dois pés, que não valem metade... + +--Oh! sr. Thomé! protestavam alguns. + +--Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que +não é com vocês. + +E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fóra, o «Sultão» corria +que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao +fundo, na poeirada immensa da estrada, como que nimbado n'um resplendor +de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia +agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casaes... + +Quando o Thomé chegou a casa, offegante, a suar, cheio de gestos e de +palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava á +porta do antigo cortelho, n'uma grande impaciencia, um «rap-rap» +continuo na soleira. + +--Venham vêr! Venham cá vêr! berrava o Thomé para a vizinhança. Ó +Antonio! Ó compadre! Ó Maria Engracia! + +Ás janellas assomava gente, perguntando se era fogo. + +--Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó +Josepha! Josepha! cá temos o burro, este demonio. Assoma. + +Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effusão do lavrador. +Abraços? E até beijos. Aquillo era um thesoiro perdido que reapparecia +alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu +homem teria endoidecido... + +--Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda d'ahi pelos saccos. São +só dois. Ó Josepha! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca, +avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior. + +E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um +pulo. + +--Ah! + +A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafão. + +--Anda, mulher, põe aqui deante de mim. Avia-te. + +Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma observação, um conselho, +qualquer coisa de tomo... + +--Adeus, minhas encommendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe +aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem. + +--Nome do Padre... + +--Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui! + +--Nome do Padre, nome do Filho... + +--A caneca! Venha de lá agora a caneca! + +--...nome do Espirito Santo! + +--Passa bem, ó mulher,--concluiu ás gargalhadas, entre as gargalhadas +dos demais.--Ouves? Quando o Manoel vier dos ninhos, esse maroto, +manda-m'o ás eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente! + +E lá parte, veloz como uma setta. Já de longe volta-se do repente: + +--Josepha! ó Josepha! n'esse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o +«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno +não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido. + +E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a +direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, elle lá vae n'uma +corrida, sumido n'uma onda de poeira, até chegar ás primeiras «mêdas». + +--Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por +andarmos de mal ha 15 annos isso acabou-se! + +E o Thomé atravessou a eira sempre a cavallo no «Sultão», caneca de +vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda. + + * * * * * + +Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manoel no meio +dos saccos, e adeante do Manoel o bello garrafão--sem pinga... + +Pelo caminho, a todos o Thomé contava a historia, a rir como um perdido, +n'um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas. + +--Colheita rica, sim senhores, um colheitão! + +E parando á porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e +remexendo o alguidar de barro: + +--Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo. + +...Ao mesmo tempo que o Thomé, abrindo os braços, respondia reclamando +as sopas: + +--Amen! + + + + +ULTIMA DADIVA + +_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_. + + +Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, +bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de fructas e hortaliças, +fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, communicando +com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao +pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a +nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga magnolia +gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas +janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que +lhe pendiam dos beiraes enlaçadas com as trepadeiras. + +De modo que na primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus +melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnolia +toda se toucava de flores fazendo docel á vivenda, aquelle pequeno canto +d'horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e limpida, tomava a +feição ingenua de uma delicadissima tela de paizagista, aquarella +deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos na poesia rustica da sua +simplicidade. + +No verão, ás horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga +paizagem adormecida e turva, e as arvores da estrada não davam sombra +que aliviasse, aquella tranquillidade com que o José Cosme ressonava sob +o alpendre, braços nús e peito nú, o chapeirão de palha grossa +resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cançados +e cheios de poeira, flagellados por aquella estiagem inclemente. + +--Ó tio José!--gritavam-lhe do caminho.--Tio José! Ó regalado! + +Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses +deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto. + +Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas +não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua +cultura--tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo +de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com symetria agradavel, +verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as +castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda +acaçapada no chão humido das regas, até ás trepadeiras das vagens que +enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o +esmero, formando massiços de verdura sombria que os casulos esguios dos +feijões crivavam de alto a baixo. Arvores, apenas as precisas para +aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca +das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de fructas nas +estações competentes--cerejas, peras, maçãs, pecegos mesmo. + +Poucas flôres: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que +lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as +cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que +por signal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os +goivos. Uma vez por anno, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e +ia leval-os em braçado á sepultura rasa das suas defunctas. + +Exactamente n'essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a funebre +visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se +bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de +chorar. Estava nas suas horas tristes, n'essas horas em que as energias +todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagello de uma +dôr violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham +morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lagrimas. De modo +que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades custavam o dobro a +supportar. Abstracto, n'uma especie de entorpecimento idiota, percorria +sem descanço todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, automato. +Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma quietação attenta, logo um +gesto brusco desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um fundo +gemido, e punha-se de novo a andar. + +--Vens ou não vens?--perguntava elle, evocando com dorido esforço a +imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando apparecia era como se +fosse um relampago, apagava-se logo. + +N'esta lucta com a sua dôr as horas iam passando longas. Era já tarde, +talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrellas, pois que o luar +nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o largo silencio da noite, +apenas cortado, ao longe, pela melopeia somnolenta do rio. + +Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e +viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se n'um recanto +onde a sombra era mais densa. + +--Temos historia...--resmungou comsigo o rapaz. + +E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, á espreita. Não desconfiou +que fosse o José Cosme: aquillo era mariola de larapio que vinha por ali +fazer das suas. Agachou-se então, e poz-se a procurar uma pedra. Apanhou +duas, para o caso de não acertar a primeira. + +--Cão do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a +pedra.--Espera que eu te arranjo...--E já ia arremessal-a na direcção do +canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao +logar onde o rapaz estava. + +--Melhor! Mais a geito ficas... + +E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava, +para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os +hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo +defronte d'elle, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme. +O vulto parecia, com effeito, ser o d'elle; lembrava-se agora de ter +ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da +filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aquelles carreiros +por onde ellas tinham andado. + +Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente, +deixou cair as pedras e perguntou: + +--Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luiz... Vossemecê que tem? + +O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu: + +--Doe-lhe alguma coisa, ó tio José? + +--Não dóe, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes. +Bem me bondam as minhas afflicções. Vae com Deus, vae. + +O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o José +Cosme dera áquellas palavras, e retirou-se silencioso, quasi aterrado +agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse +a pedrada. + +No emtanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruido que não +fosse o das aguas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadario, +ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou um somnambulo. +Ás vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não +sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. N'isto, de uma vez que +passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir passos. + +--Ó Thomaz! + +--Sr. José!--respondeu o que entrava, n'uma voz que era mesmo voz de +barqueiro. + +O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os +beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontral-o a pé, elle +então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado. + +--Como tinha de madrugar... + +--Pois são horas de largar, sr. José; isto vae p'r'as duas. Não tarda +que comece a amanhecer.--E como estavam á porta de casa:--Será bom +acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vae.--Iam á vela +se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso. + +Mas á ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair +sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar +violentamente. + +O barqueiro tentou animal-o, constrangido. + +--Então, sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que +homem!--E tentava levantal-o, pol-o de pé.--Limpe lá essas lagrimas, que +vae affligir o pequeno! Ou quer que elle vá a chorar todo o caminho? + +O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e poz-se a enxugar os +olhos com a manga da camisa. + +--Pois então levante-se lá.--E segurou-o com força por baixo dos +braços.--Assim! Lá porque o pequeno vae para o Brazil não fique +vossemecê a pensar que o não torna a ver. + +Mas era isso mesmo o que elle pensava... + +--Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno--concluiu +a chorar o José Cosme. + +--Scismas! lembranças que veem á gente quando está afflicta. Mas ha-de +vel-o que o não ha-de conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno menos anno, +apparece-lhe ahi rico... + +Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que desejava +era que voltasse e que elle ainda fosse vivo só para o abraçar. + +Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o José Cosme que +se animasse para animar o pequeno--recommendava o barqueiro. + +--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos lá com Deus! Com'assim.. + +E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito á porta para chamar a +pequeno. Não havia remedio, tinha nascido em má hora, havia de ser +desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde +cama o filho dormia profundamente. Que dôr, ter do o acordar! Vieram-lhe +tentações de mandar embora o Thomaz e deixar dormir a creança. Quem sabe +se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquillidade +d'aquelle somno! Não tinha coragem para o acordar, fazel-o vestir: era +quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o tecto +paterno... O ultimo somno! o ultimo somno! + +--Ainda se o deixassemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste. + +Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas de +pôr o barco a andar. + +O José Cosme accendeu então a candeia, reccioso de que a luz o +acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe a respiração. +Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou +baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o, sobresaltado como se fosse +praticar um grande crime: + +--Filho, olha que são horas, meu filho... + +Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o +estonteamento do somno, cerrando os olhos áquella hostilidade viva da +luz, o pae agarrou-se a elle n'um abraço, e ambos romperam a chorar. + +--Adeus, pae! + +--Adeus, filho! + +Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar á porta, avançou para desatar +aquelle abraço. + +--Olhe que é tarde, sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde! + +O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do +alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto. + +--A andorinha, filho?--perguntou o José Cosme.--Deixa que eu hei-de +olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado. + +Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era só um +instante. Lá estava ella, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe +tocou com as pontas dos dedos... + +--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a. + +A esta palavra, o pae retrahiu os braços e tomando o filho no collo +seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de pinho: toda +a bagagem do Joaquim. + +Ao transpor o cancello o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou +soluçando: + +--Quando voltarás ao horto, meu filho? + +O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam +de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as +arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim. + +Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o +sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo, +humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pae desejava +que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante d'elles, de +modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava, +divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação +fallavam alto. + +--Prompto?--perguntou ainda de longe o Thomaz. + +Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua. + +Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os soluços dos +dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de +angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o +barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram á beira do rio, +apressou-se a dizer para o pequeno: + +--Ora bem, Joaquimsinho, beija a mão a teu pae e dize-lhe adeus. + +Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar +o filho: + +--Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te +veja ir.--E fez-lhe prometter que havia de resar sempre a Nossa Senhora, +elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem fazia a +gente feliz. + +--Não te esqueças d'ella mais da alminha de tua mãe e de tua irmã... + +Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pae, +beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra. +Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava +desvairado: + +--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia! + +E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na cabeça, nas +mãos. Até que o Thomaz teve de intervir, era preciso despegar d'ali por +uma vez. + +--Com'assim, sr. José, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com +força puxou-o para elle. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José +Cosme que supplicava de mãos postas: + +--Só um instante, só um quasinadinha, Thomaz!--E o pobre pae caia de +joelhos na areia, n'uma attitude de supplica. + +Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando +ao colo a creança. + +--Rema!--intimou em voz rapida. + +O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram +_plhau_! sobre a agua. + +Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violencia desesperada, ao +ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco. + +--Adeus, Joaquim, adeus! + +--Adeus, pae! + +--Adeus! + +Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na +direcção do barco: + +--Thomaz! ó Thomaz! por alma de teu pae faz lá alto um instante. + +Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resolução, mas já agora era melhor +ficar sósinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto, +arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O Thomaz +que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme, +velho nadador destemido, com meia duzia de braçadas ganhou-lhe de +prompto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ancia de esperar o pae, +de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o José Cosme entregou +ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar: + +--É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!... +Reza-lhe, sim?! + +E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe +chegasse o pequeno para o ultimo beijo... + +Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a +lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue +em região mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro da noite, +apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar desalentado +do triste nadador, á voz do filho que chamava respondia cada vez de mais +longe--longe como se fôra do Infinito! a voz lacrimosa do pae--com o seu +funebre _adeus_! que elle bem sabia ser eterno... + + * * * * * + +...Só quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na distancia, +diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das aguas, +fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar á +praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar, +tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudissimo do Polo, +na direcção do horto silencioso... + + + + +COMEDIA DA PROVINCIA + +_A Alberto Braga_. + + +I + +PRELUDIOS DE FESTA + + +Esse anno, a festa da senhora das Dôres devia ser coisa de estalo. A +começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e +decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da +festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra +de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que +representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a +entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se +tivesse tempo de o acabar. + +--Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de lêr a carta. E +correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que «no seu anno» a _coisa_ +fosse de arromba! Depois, era um despique. No anno atraz, o José da +Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá +uma peça que era um castello a dar tiros, assim: Fff! Pum! + +--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o +Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do +arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que +apresentára. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na villa, ninguem +fallava n'outra coisa. + +--Então você já sabe? + +--Já sei. A cegonha. + +--A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro... + +--O que eu quero vêr é o camello. Feio bicho, já viu? + +--Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adeante do _Valente Rei +Arauto Fiel_. + +Enganava-se. + +O escrivão da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves +aferidor. + +--Até que emfim, amigo Alves. Até que emfim vou ter o gosto de o ver +arder. + +O outro não percebeu. «Que se explicasse...» + +--Um urso, no arraial queima-se um urso. + +--Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Tambem se lá +queima um burro. + +Ás duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não +ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua +predilecção. + +O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por +dentro. + +--Põe a tranca, se fôr preciso. + +Mas então era cá da rua: + +--Ó sr. Antonio! + +E na porta as pancadas ferviam: + +--Truz! truz! truz! Sr. Antonio! + +--Éna! c'um raio de diabos!--fazia lá de dentro o homem, furioso. + +--O senhor faz favor? É só uma palavrinha. + +Á janella assomava então o Antonio Fagote, com os oculos na ponta do +nariz e a carta do foguetorio na mão. + +--O camello? perguntava zangado.--O urso?! Camellos me parecem vocês, +ouviram? O que o homem diz é isto. + +E lia a carta, rematando: + +--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o +macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava +os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra! + +E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não +fosse elle burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar +animaes, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, ahi +tinhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o +José da Loja. + +--Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com +aquelle espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe +tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negocio... + +--Farofias! tinha dito o José da Loja. Farofias! + +--Pois se m'o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal +soube. + +E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde +rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se +proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições. +Depois, bom olho para a caçadeira. D'uma occasião, que foi preciso dar +montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi elle que deu voz de +preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh'a deu? A phrase ficou +lendaria: + +--Como-te a alma se te mexes! + +--E o outro não se mexeu, que elle comia-lhe a alma! commentavam +convictos. + +Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua +figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava com +60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora. Não era +nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma +largura de hombros que era o principal indicio de força. Pescoço curto. +Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremettia com força, +conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n'aquelle movimento sacudido. + +--Safa! que isso ahi é de ferro! diziam os rapazes. D'uma canna, hein? + +Mas bom homem, d'uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para +se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma +testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu lá da cadeira, +foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava sério quando +promettia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora: + +«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau +como o pintavam.» + +--Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o +Fagote. Do que elle é capaz sei eu. + +Mas n'esta occasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe +lembrava uma: ter sido juiz o anno atraz! + +Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz +este anno. + +--Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa +em casa foi elle. Elle é que se lembrou de me escolher, como quem diz: +«entrego-te a vara, sempre quero vêr como te arranjas...» + +--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das idéas do seu +Antonio.» + +--Sejam idéas, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual, +assim me Deus salve! + +--Mas quem t'o disse, homem? Quem foi que t'o disse? + +--Quem m'o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da mão direita.--Foi +este mindinho. Não falha. + +E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de +levar á parede. Agora levava! A festa ha-de se fazer, e festa de +arromba; _nanja_ como a d'elle que só levava seis anjos, e não sei +quantos andores, acho que meia duzia!» + +--Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio d'um homem! +Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do +corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava +olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos, compungida de +ver assim o seu Antonio. + +E poz-se então a renovar ordens, recommendações que a mulher já estava +farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao +atar das sangrias!» + +--Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel á cata d'elles por +esses povos á roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos. + +A mulher contraveio:--«dois seriam bastantes...» + +--Mau que ahi principiamos nós!--E poz-se a assobiar e a rufar com o pé +no soalho, arreliado.--Tres é que hão de ser. Não quero cá dois, porque +dois eram os do _outro_, o anno passado. + +A esta razão, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do silencio da +mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o _outro_. + +--Agora não fanfas tu... insistiu elle, risonho. É assim mesmo que eu +gosto. Signal é que tens vergonha. A _outra_ tamem não é mais que a ti. + +A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto. + +--Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada. + +--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes +de casarem... + +--E olha que depois de casada... insinuou a sr.^a Luiza, de venta no ar, +enfiando a agulha. Cala-te bocca. + +Façamos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que não se calou. +Mas n'este particular, o resto do dialogo convém que se omitta, mesmo +porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal á mulher do José da +Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas n'isto não lhe faço a +vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem sabe que eu sou +conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que por uma associação +logica de idéas a conversa veio parar em vitellas... + +--É preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o Antonio +Fagote. Sem vitella é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta. + +Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio. De +mais a mais sabia-se que o prégador dava o cavaco por um bom pedaço de +vitella assada. + +--O prégador é que arrasta ahi muita gente, observou a sr.^a Luiza. Para +um boccado de sentimento não ha como elle. Quando foi das missões, o que +elle dizia d'aquelle pulpito abaixo! É quanto se póde! + +--A mim o devem, se cá vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não +queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha de ir a umas caldas, e +14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle. + +--Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionario... + +Estavam n'isto, quando bateram á porta. O Fagote foi ver á janella. + +--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo. + +Era a creada da mestra regia, foram abrir. + +--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a sr.^a +Luiza, e este bilhetinho para o sr. Antonio. + +Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o Antonio Fagote foi +accender uma luz. + +«Que conversassem, emquanto elle via se tinha resposta.» + +--Muito calor, começou a sr.^a Luiza. + +--E então a casa da sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais +a creada. + +E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.^a Luiza, ao ouvido, de que +lhe queria uma palavrinha. + +Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n'uma +serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares. + +--Está se aqui bem! exclamou consolada a sr.^a Luiza. + +--Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe +um favor, disse atrapalhada a creada. + +--Se estiver na minha mão... + +A outra começou: «A sr.^a Luiza estava ao facto do que se dizia d'ella +com o criado do inglez. Decerto estava ao facto. Mas era mentira. +Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda +mentira.»--Estamos para casar! é o que estamos! «Elle já mandara vir os +papeis lá da terra, não podiam tardar».--Está claro que eu tenho +affeição ao rapaz... + +--Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.^a Luiza, para +dizer alguma coisa. + +--Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas é ahi que eu quero +chegar. + +--Que experimente o limão azedo, aconselhou a sr.^a Luiza. É milagroso +nas quartans. Não se afflija, que isso não ha-de ser nada.--E +dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom +para matar quartans, pensando que era o que ella queria, afinal. + +--Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recáia. Mas é por via +d'isso que eu lhe quero pedir um favor. + +Chegou para ella o banco de cortiça e confidenciou: + +--Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira, +qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja, n'aquelle +estado! inda não ha nada que sahiu da cama. + +--Pelos modos, os rapazes vão este anno longe pelo pau, disse com pompa +a sr.^a Luiza.--Muito longe! + +--Ouvi que á Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo com quem +elles se vão metter, o Canellas! Se desconfia, vae-se para lá de clavina +e faz alguma desgraça. Mais elle, que é atrevido! + +Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde elles iam pelo pau é +que ella não sabia. + +--A outra noite é que para ahi estiveram a combinar, o meu Antonio mais +os mordomos. Não ouvi. + +--Pois é lá! exclamou a creada. Mas o que eu queria, sr.^a Luiza, é que +o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,--supplicou afflicta a +rapariga. + +--Lá isso, esteja descançada, não vae! prometteu com grande auctoridade +a sr.^a Luiza.--Digo-lhe eu que não vae. E se não quer mais nada... + +--Era só isto, muito agradecida á senhora. + +N'esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a +testa. + +--Ora pois então aqui vae a resposta. Má letra, a sr.^a mestra que +desculpe. Mas emfim que leia como podér. + +--Então muita massada co'a festa? inquiriu solicita a rapariga. + +--Muita. Faz lá ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos +os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquillo. Ahi está que já +hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves. + +--Chh! fez admirada a rapariga. + +--Pois é verdade. Fóra o mais! fóra o mais! Nicas! E depois d'uma +pausa:--Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que ha muita coisa +de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia +uma horta, além no prado. + +--Muita gente... disse a rapariga. + +--Muita! e depois de certa aquella... Á meza talvez vinte e quatro +pessoas... + +A rapariga benzeu-se! + +--Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o Antonio +Fagote.--Olhe: o prégador... + +--Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga. + +--É. Não o ha melhor. Missionario...--explicou o juiz. Pois o prégador, +um; com mais quatro padres, cinco; com quatro musicos, nove; o compadre, +os pequenos, dois, doze. + +--A comadre não vem! que pena! fez do lado a sr.^a Luiza. + +--Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o +Antonio Capador, quatorze. O Telles, é verdade, Telles escrivão, quinze. +(_Pausa_). Com mais alguem que venha, vinte e quatro. Póde-se contar com +mais de vinte e quatro pessoas á mesa.--E a rir-se: Mas ha-de sobrar +muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres? + +--Isso então é uma praga! exclamou a sr.^a Luiza. Até parece que veem do +chão assim... E collocava em pinha os dedos todos das mãos ambas. +Assim... + +Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--«Adeusinho! o que havia de +estimar é que tudo corresse como desejavam.»--E se fôr preciso qualquer +coisa... offereceu-se. As minhas fracas posses... + +--Obrigada. Não faltarão occasiões. Muitos recadinhos á senhora +mestra... + +--E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio +Fagote. + +E então explicou á mulher: «Aquelle bilhete da mestra era a mandar-lhe +perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo». + +--Diz que o irmão, o brazileiro, assim que souber que ha macaco de fogo +no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o +ponho ao pallio. Como tres e dois serem cinco. + +A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mandára. + +--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brazileiro. Sempre é +homem que sabe dar o merecimento ás coisas... Mas o diabo agora é o +macaco! ponderou muito apprehensivo. Está para ahi meio mundo á espera +do macaco... + +A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o +bicho não viesse. + +--Táte! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--Dá cá +d'ahi a minha vestia. Manda-se uma «parte» ao homem. + +--Tambem póde ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje é que não, +aquillo já está fechado, o fio. + +--Vae ámanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez +accrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que accrescento, por via +das duvidas. + +Então, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do homem: + +--Ouves? já se não póde ir ao lameiro do Canellas pelo pau. + +--Han? qual pau? + +--O da bandeira. Todo o mundo já o sabe. + +Elle riu-se. + +--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!... + +E como ella ficasse estupefacta. + +--Nunca ouviste dizer que se põe o ramo n'uma porta e que se vende o +vinho n'outra? + +--Ah!... + +--Mas são verdes. Pois ahi é que vae a historia, e cantarolou, +satisfeito: + +O ladrão do negro melro +Onde foi fazer o ninho + + * * * * * + +Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãsinha o +Antonio Fagote sentiu bater á porta, de rijo. + +--Vae lá ver o que será, ó Luiza!--disse da cama o Fagote sobresaltado. + +Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto. + +--Vista-se, homem! Ande d'ahi depressa! Vista-se. + +--Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado. + +--Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro. + +--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguem á morte? + +--Peor do que isso! resumiu o José Manco. + +--Peor do que isso, então não sei... + +--Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua. + +O Antonio Fagote vestiu-se á toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou +de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava +chapeu. + +--Prompto! cá estou! + +--Venha comigo, avie-se. Abotôe as calças, se faz favor. + +E rodaram rua acima. + +--Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote. + +--Aguarde, que já vae saber. Não tarda. + +De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja. + +--Roubaram Nosso Pae, aposto?! + +--Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos +e veja vossemecê isto, esta porcaria! + +E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada +na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Varios +desenhos de animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas, aos +coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farofia_! + +Por um pouco, Antonio Fagote, de mãos atraz das costas, amarasmou-se, +com os olhos fitos no papel. + +E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n'uma +escamação, aos labios do Antonio Fagote aflorou apenas um sorriso. + +--Hum! resmungou. Bem sei... + +--Não tem que saber,--fez o outro. + +--O patife do Jose da Loja... + +--Pois está visto. + +--Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande socego o +Fagote.--Arranque lá isso, e venha você d'ahi, se quer ver. + +O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que +era melhor botar o patife ao desprezo. + +--Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e +mettendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim! + +Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos +arrancados do codigo penal. «Que não fosse agora pagar por bom +semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a offensa, com +elle José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de +burro não chegam ao céo». + +--Bem, levará só uma lambada, attendendo a que mais ninguem viu isto, +disse n'um grande ar de condescendencia o Fagote.--E você vá lá regar a +horta. + +Foi-se d'alli direito á casa do José da Loja. Estava ainda fechada. +Poz-se á cóca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia +d'aquella demora. + +--Grande cão! grande cão! monologava. + +Até que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de +casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo Antonio +Fagote senão quando se viu ao pé d'elle, cara a cara entre o balcão e a +porta. + +--Ó sr. José. + +--Dirá. + +--Venho aqui saber d'um caso. + +Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh'o pôr ao pé +da cara: + +--Foi o sr. José que fez isto? + +O outro olhou-o, attonito. + +--Sim! se foi o sr. José que fez isto? + +--Nada, eu não senhor. + +--Jura pela boa sorte dos seus filhos? + +Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado. + +--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote. + +O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe: + +--É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro. + +--É outro, que outro?!--disse arrogante o José da Loja, n'um impeto, +barriga panda sob o casacorio de lona. + +--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu +tambem não digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em pedaços, e +atirou-lhe com elles á cara aparvalhada. + +Sahiu d'alli e foi _matar o bicho_, tranquillamente, como quem vem de +cumprir uma obra de misericordia. + + * * * * * + +Na vespera da festa, um sabbado ás 10 horas da manhã, o fogueteiro +passava emfim n'um deslado da villa direito á capella da Senhora das +Dôres. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente. + +--O fogueteiro! chegou o fogueteiro! + +Por toda a villa passou um longo fremito d'enthusiasmo quando se ouviu o +foguete. Deshabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas. +O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro, +a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se +ordens já dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro ruido da +festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saiam esbaforidas +as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o sr. +fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o +que queria para o jantar. + +Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa, +perguntando a todo o mundo se o que estoirára tinha sido effectivamente +um foguete. + +--Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim +senhor! promettia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum! + +--P'ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E então isto? e punha-se a +girar de volta com o braço--o que é fogo do chão?--Mas tinha-se visto em +calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos +tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O +caso tinha estado sério! + +Mentia. + +--Hein? mas não o enganavam? + +--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia elle a atravessar as +eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo! + +O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou cá da +rua: + +--Senhor abbade! ó senhor abbade! + +--Que é lá? + +--Chegue á janella, faz favor? + +--Mas está muito sol, entre você, se quer. + +--Só duas palavras: + +O abbade, um rapaz novo, assomou á janella. + +--Que é? + +--Chegou o homem! + +--O homem! que homem? + +--O fogueteiro, quem ha-de ser? + +--Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E você vae ter com elle? + +--De cara. + +--Faz-me então um favor? + +--Dirá. + +--Dê-lhe recados meus. + +E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no +seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se +aquillo tinha sido o fogueteiro. + +--Grande homem! com seiscentos diabos! + +Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois +machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao +fogueteiro, com furia. + +--Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu +amigo, seu grande amigo». + +--Rapazes! gritou elle então. E tirou o chapeu da cabeça, muito +solemne.--Viva o senhor fogueteiro! + +--Viva! + +...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores +que o Antonio Fagote--chorou!... + + +II + +TYPOS DA TERRA + + +Desembocaram n'um largo. Era o ponto mais central da terra,--«_a +praça_.»--Aqui e alli, ao acaso, algumas arvores enfezadas, quasi tudo +olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas +grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, +com casas em volta,--o que na villa havia de melhor em construcções. +Ficava ao meio o pelourinho, exotico, mutilado, d'uma pedra grosseira e +muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de +ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva +sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n'um +grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de +tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do +_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estylo, +sem gosto, sem cal. Algumas _pedras d'armas_ em velhas paredes +decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam aristocracias +remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a negrura +chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem, fazia +tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruinas. +Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio, +d'uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as +sete: aquelle--«_estafermo_»--é que não andava nunca direito. De dia +ninguem o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando n'um mostrador +sem lettras, d'uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, +alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrazado ora adeantado, +dando meia noite quando eram quatro da tarde, e meio dia mal despontava +o sol. + +Eram as sete. Áquella hora é que os--«_figuros_»--da terra, quasi tudo +empregados publicos, vinham para o largo, á fresca. Alguns +passeavam,--seu fraque, sua bengala de canna com castão, chapelinho á +banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados, +outros do mesmo feitio cavaqueavam,--colletes desabotoados, perna +cruzada, chapeu para a nuca, ás tres pancadas. Um de pera comprida, no +degrau superior, contava facecias. Os outros riam alarvemente, +chamavam-lhe intrujão. Algumas--«_madamas_»--pelas janellas em volta, +nostalgicas, anafadas, de claro. Á porta do estanco, em cima, havia +outra roda,--uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando +cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quasi tudo maiores +burocratas:--o Mello da Administração, o Antunes da Camara, o Escrivão +de Fazenda, o Rodrigues do Real d'Agua. E outros. Á porta, perfilado e +muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexivel, com a sua +cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras +feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva, muito desempenado +quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse +levantar vôo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia fallar deante d'elle +n'um rato morto, n'uma carocha. Aquillo «fazia-lhe nervoso», enojava-o, +ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente: + +--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não +lanço fóra.» + +E se riam, elle exasperava-se: não comprehendia como podessem fallar em +taes coisas... De resto, bom sujeito, finorio para o seu negocio,--um +poucochinho beato,--diziam-lhe. + +--Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno, +a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro. + +E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados, +um poucochinho sibiladas nos _ss_. + +--Cigarros, Ernestinho, um vintem d'elles. Querem-se dos de Lima, +d'esses fortes. + +Declarou que tambem havia dos «especiaes.» Algum senhor queria? Tinham +chegado tres massos, p'ra ver. Oito por um vintem. + +--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorisados com a idéa de dar um +vintem por oito cigarros.--Guarde-os! + +«O senhor engenheiro, quando vinha á villa, perguntava-lhe sempre por +elles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.» + +--Olha o figurão!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre ha muito +idiota! forte cavalgadura! + +O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. Á +porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos. + +--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos +outros. + +Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um +silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo +que n'um gesto acanhado, receoso, fazia menção de offerecer:--«alguem +era servido?» + +Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licôr, e das botijas de +genebra, Ernestinho sommava a conta. Era já taluda.--«E vão dois e dois +quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os +receberia!»--E suspirava, arrumando os massos encetados, sob o olhar +tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao +alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d'um caixote forrado +a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados. +Mas resignava-se, que não tinha outro remedio. Eram os ossos do +officio... + +Cá fóra tinham dado fé, acotovellavam-se chamando asno ao +Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não ha +dinheiro, ha-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E +pagava-se. Mas não senhor! aquella besta mostrava sempre má cara, o +alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o procuravam, que o +preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia... + +O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o _Agua leva o +regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um +sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros. + +--Estender as pernas,--disse. Quem vem d'ahi? + +Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra traz p'ra deante, n'aquella +semsaboria da praça. + +--Até logo. Você apparece no _sitio_, á noite? + +--Appareço, vou á desforra. + +E cumprimentando em roda: + +--Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto. + +Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras. + +--Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe +diga _bem-haja_... + +Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dividas nos outros estancos.--Em toda +a parte.--Lá em casa a familia passava fomes.--Um batoteiro de marca. + +Houve agitação, alguns pozeram-se de pé, outros mudaram de logares. Ia a +passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de +novo, muito ronceiro, roendo as unhas. + +--Com que então... _ponha lá ao pé dos outros_?--disseram-lhe, para o +lisongear nos seus despeitos.--Bem bom freguez! + +Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n'um gesto +de martyr resignado. E não disse palavra--p'ra fallar d'aquelle tinha de +fallar tambem d'elles... + +Mandaram vir limonadas,--tres limonadas! + +--Ahi vão trinta réis! + +Diabo! era preciso animar aquillo. Assim não tinha geito. E pozeram-se a +fallar do tempo, das moscas, d'aquelles idiotas que andavam na praça a +dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar tres limonadas,--e +sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas. + +O Ernestinho deu dois passos fóra da porta, e chamou para a varanda, +onde grandes mangericões floriam: + +--Ó Emilia! Emilinha! + +A mulher assomou, gorducha, muito molle. + +--Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa. + +As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil encontrar +uma collecção d'asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos +grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe +agora para cantar. Lá andava elle. Volta meia volta, + +_Vai alta a lua na mansão da morte_ + +com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava +antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só +tinha uma coisa boa--a caligraphia.--Um talhe de letra +bonito,--confessavam.--E as calças, hein? reparem vocês n'aquellas +calças, vae flammante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os +do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, affavel. Corresponderam todos, +muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota, +palerma, pechisbeque... + +Sósinho, n'uma lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céo, o +Telles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Ás vezes +quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo entre os dentes, um +olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em +marcha, contrafeito. + +--Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Telles, aquelle +telhudo? E isto:--e poz-se a imitar o escrivão. + +Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente. +Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana ás turras a um logogripho +em acrostico. + +--Isso é o Telles!--fez um que vinha da praça.--Aquillo é um intrujão. +Na rua não é que se adivinham logogriphos. Ó Ernestinho, você ainda tem +d'aquillo que _ferve_? + +O Ernestinho deixou descair o labio, não percebia... + +--Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas... + +--Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas... + +--Ora é isso mesmo, nem mais. + +--Bem sei. + +Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra que? Achavam caro um +tostão... + +--Eram aos tres para beber uma garrafa... + +--Podera! Por um pataco, trinta réis levando o assucar, fazia o _Hervas_ +uma sóda,--objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa. + +--E aquella porcaria, ó Ernestinho, e aquella porcaria amarella que +sujava tudo de escuma? + +Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com +seiscentos diabos! + +--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo +toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo. + +E com um sorriso de desdem, exclamou: + +--O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho... + +Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a +palavra--«_pulha_»--pronunciada com força. Sahiram em tropel, ficaram só +tres.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de proposito! +Ficava exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella +sucia lhe chupava o refresco: + +--Tó Russa! já lá vae esse tempo. + +Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma bandeja:--Que +provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas parecia-lhe que devia +estar bom... + +Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para +aquellas coisas. + +--Obrigado, ó Mello! + +--Obrigado, ó menino! + +E os dois sairam de rompante, chamando _pato_ ao Mello, rindo-se d'elle +e limpando os beiços. + +Quando o Mello ia sahir,--a ver o que ia na praça,--o Ernestinho, muito +cortez, objectou-lhe que faltavam trinta réis:--Se alli não tinha, +depois. Isso era o mesmo... + +--Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?--perguntou desconfiado +o Mello. + +--Do assucar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado +acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Mello desculpe. + +Não tinha que desculpar; sómente notava que aquellas coisas diziam-se no +principio.--E sahiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Tres +vintens não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco... + +Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma +grande roda, commentava-se. O Mello quiz informar-se:--que lhe +contassem--«_o escandalo_». + +Ora! não fôra nada: o Veiga que se tinha lembrado que as +correspondencias na _Voz do Districto_ eram escriptas pelo Albano. +Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que +é casmurro, teimou:--que não acreditava, ainda assim!--Vae o outro +chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi está! + +--Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?--quiz saber o Mello. Aquillo +ha-de ser escripto por alguem, está claro. + +Dez réis pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem sabiam +elles... + +--Quem, então? + +Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro +dava a sua palavra de honra que tambem não era elle, jurava-o. Houve um +que se lembrou se aquillo seria do padre Mendonça. + +--Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se mettesse +n'isso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga... + +Mas o da idéa insistiu, renitente:--havia alli suas coisas que o faziam +lembrar, certas facecias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e +_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto. + +--Pois se é elle, que se regale, póde limpar as mãos á parede. Mente +como um alarve, mente da primeira linha até á ultima!--disse firmemente +o verdadeiro auctor das correspondencias. Olhem o que elle diz do juiz +de direito, só calumnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco +pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito. + +De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma +infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma +coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não +havia duas amizades leaes, que era tudo uma impostura... + +Houve um silencio significativo, talvez de approvação. + +--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia +as correspondencias com o pseudonymo de _Aramis_. Vejam vocês aquellas +gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se lá fazer politica?! +Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor, discuta-se o +homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os +fundilhos das calças; ninguem quer saber se os creados lhe param em casa +ou se não. E depois, aquellas allusões á família, aquellas piadas á D. +Engracia, pobre velha... + +--A quem?--interrogaram uns poucos. Á Dona quê? + +--Á D. Engracia, está bem de ver. Aquella beata que fazia piugas de lã +aos missionarios é ella. Presumo eu que é ella-—fazia o Nunes das +correspondencias com um grande ar de supposição. Eu cá foi para onde +deitei. + +Os outros não. E como o das correspondencias tinha promettido explorar a +chronica beata, aguardariam mais informações. Suppunham, no emtanto, ser +com a D. Joanna, a do--«_chá de herva cidreira_.»--Outra canalhice! A D. +Joanna, para festejar os annos da filha, convidára tudo, _lazarões e +penicheiros_, não fizera politica. Depois foi aquella tareia que se +viu:--que o chá era herva cidreira, que tinham bolor os doces de ovos, +que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora isto não se diz, a +pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cór phrases inteiras da +correspondencia. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu +telegrammas de... amor_.--Uma facecia de mau gosto alludindo ao Proença +telegraphista. Depois do que por ahi se diz, é forte... Que afinal, quem +sabe lá? Entre os dois que diabo póde haver? Namoro? + +No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio: + +--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amelia é uma rapariga séria... + +Riram ás gargalhadas, foi um barulho com a tosse. + +--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Accommodem-se lá com o _banzé_, +vocês deixem fallar,--tornou o Nunes, formalisado. Quando digo uma +rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a +phrase, entalado,--por exemplo, que ella não é capaz de receber ninguem, +alta noite, lá pelos quintaes, como o tal das correspondencias quer +fazer suspeitar. + +Iam replicar-lhe, mas elle atalhou: + +--Chama-se áquillo ser canalha ás direitas, arre! Isto agora é fallar +franco. + +Saltaram-lhe: + +--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o +Alves dos Pesos e Medidas. + +Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se +via, pelo que se podia julgar... + +--Léria!--disseram todos. + +O Nunes parece que estava com os beiços com que mamára. Com que então, +para elle era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo +uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade! + +O Nunes observou modesto, quasi agradecido: + +--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente. +Desconto sempre noventa por cento áquillo que vocês dizem, ahi é que +está... + +--Vocês é um modo de fallar,--emendaram alguns. + +--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondencias,--explicou +sophisticamente o Nunes. + +Calaram-se, disfarçaram. Proximo d'elles, a Amelia toda de verde, com +guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solemnemente. +Tiraram todos o chapeu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi +cumprimental-as, submisso. + +--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a +mão:--Vosselencia como passou? A senhora D. Amelia? Obrigadissimo. +Assim... assim... + +Então? que diziam áquelle calor? + +--Abafava-se, alli pelas duas. Que forno! + +--O Brazil tal e qual--reforçou o Nunes. + +Mas que fôra feito, que as não tornara a ver desde os annos? Uma noite +de truz, aquillo sim! + +--Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi +pena! O Abelsito andava constipado. + +A D. Amelia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquellas +noitadas.--E em voz mais baixa, quasi dolente: + +--Depois, veio a _Voz do Districto_, aquillo chocou-a muito. + +--Não ha tal!--fez a mãe. Metteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a fallar, +senhor Nunes. + +E por pouco que não chorava ao dizer isto. + +O Nunes affectou um sentimento profundo:--Era melhor não fallar n'isso, +não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham +acabado de fallar na tal correspondencia, agora mesmo. Uma +garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial: + +--Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e +depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fôr soará. É preciso +dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição! + +Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu +desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janellas, perguntando se +vinham d'ahi, um boccadinho até á capella, espairecer. + +As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho só. Ficava muito bem +aquelle vestido á Amelia. + +Não podiam subir, talvez á volta. + +--Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quasi +prompto, que trabalhão! + +Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O +risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito. +Coisas de anjinhos: + +--Verás. + +Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que +vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,--homens com malhos, e +mulheres de cestas á cabeça. A tarde descahia n'uma serenidade calma. No +degrau de cima, o Paula, official da administração, com fama de typo de +chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas, +zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros +formavam roda. Todos riam, pediam _bis_. + +--Tu has-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco +Maria, um cabo que estava de licença. Tu has-de conhecer isto. + +O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e philosopho, +affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas. Ao Paula +valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o +tinha demittido, ás vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E +pedia a rir, boçalmente: + +--Ó Paula, aquella do _bate-bate_, canta lá. + +E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era +preciso, o Fernandinho ia pelo violão. + +--É verdade, você que fez hoje que não me appareceu na repartição, ó +Fernando? + +--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo ás vezes. +Olhem que pergunta! + +Mas o Paula tinha-se calado, bocejava. + +--Então, ó Paula...--supplicava o administrador. + +--Está fechado o realejo... Depois. + +Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sitio». Ou perder ou +ganhar; tinha alli seis tostões que eram para um _mico_. + +--Mas eu não lhe dizia, sr. doutor? eu não lhe dizia hontem que a _dama_ +se negava? Eu estava mesmo a ver aquillo... Bem feito! «gramou» um +entalão que se consolou. + +--Quatro corôas.--Na vespera tinha ganho um quartinho. + +N'esse momento passava o juiz, sósinho como sempre. Todos tiraram o +chapeu, elle passou gravemente, cortejando. + +--Quem eu te quero á perna é o _Aramis_...--rosnou o Telles escrivão que +embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda elle não +sabe tudo...--insinuava perfidamente. + +--Pois o resto diga-lh'o você, diga-lh'o no _Almanach de Lembranças_, em +verso--fez d'um lado o Rodrigues do Real d'agua. + +O Telles, com famas de litterato, redarguiu que não dava confiança a +analphabetos. + +--E eu a brutos, sabe você? + +Mau! que elles lá começavam. Officiaes do mesmo officio... Ó senhores, +lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com +o outro. Pelo contrario. + +O Telles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava +essa importancia, essa honra. + +O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão n'elle. Mas jurou que d'outra vez +seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas +tesas. + +--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas. + +Havia de dar-lh'as, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter +o gosto de dizer depois, n'um communicado, que desaffrontara as lettras +portuguezas,--elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real d'Agua. + +Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se. + +--Não senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei +que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu +verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas +não ha de ser aquelle _négalhé_ que o ha-de dizer. Não o julgo +habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o +que mando para publico sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no +peito com a larga mão espalmada, furioso, n'umas raivas, de orgulho +triumphante.--Não roubo! nunca roubarei!--affirmou mais alto o +Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois +amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como +elle!--E as palavras sahiam-lhe salivadas, violentas, por entre os +labios espumantes, atiradas ao Telles como pedradas. + +Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao +Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria +dizer. + +--As provas...--e metteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com +impeto:--as provas, vel-as aqui estão! + +Mostrou no ar a brochura verde do _Almanach de Lembranças_.--Era do anno +que vem, tinha-lhe chegado hoje. Alli estava o Peres do correio que lh'o +tinha entregado elle mesmo. + +--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem. + +O Rodrigues, então, affirmou que era preciso historiar, contaria a coisa +em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr. Telles, lembrara-se +um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os annos--zás! +versalhada para o _Lembranças_... + +--Era collaborador--disse o Antunes da Camara que admirava o talento de +Telles.--Era collaborador. + +--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atraz da +orelha.--Massador, massador é que elle era. Nunca lhe admittiram as +asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondencia_ troçavam-no, +chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não +chamava Deus para as lettras. Aquelle _Serei ousado_? é elle, sei que é +elle. Nunca o admittiram. + +--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, sr. Rodrigues, lembro-lhe esses +versos--insistiu o Antunes. + +O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Camara. Não lhe +respondeu. Subiu os tres degraus do _pelourinho_, pausadamente, com +pompa, e chamou a attenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanach de +Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:--«Indignidade». + +--Em lettras bem graúdas, queiram inspeccionar. + +E colou ao peito o _Almanach_, voltando para fóra na pagina onde o seu +dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto em +epigraphe. + +Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que lêsse. + +«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanach de +Lembranças_ do anno extincto, foram-nos remettidos pelo sr. José Maria +Telles, escrivão.» + +--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Elle +depois assignou--e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma +complicada do Telles. + +Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou: + +«Publicámol-os na convicção de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois +que elle os assignava.» + +--E então?--perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda. + +--«Pura illusão!»--continuou solemnemente o Rodrigues.--«Escreve-nos o +mimoso e assaz conhecido poeta sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os +versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu volume +_Lyra Matutina_.» + +Foi uma estupefacção! O Rodrigues proseguiu mais alto, fugindo aos +commentarios: + +«Averiguámos, e d'isso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a +probidade do sr. Telles, a quem mais de uma vez tinhamos fechado a nossa +porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara--por indigno.» + +E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a +porta na cara do Telles escrivão; tomou praça fóra, o livro debaixo do +braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solemne,--vingado! + +Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, +porque além de sempre terem julgado o Telles muito superior ao +Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...--tinham dado uma +sorte de mil demonios, agora é que elles viam! distribuindo no theatro, +por occasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que elles +tinham mandado imprimir avulso--para lisongear o Telles que tivera o +trabalho de os ensaiar no _Santo Antonio_. Hein? quem diabo havia de +dizer que aquelles papelinhos de côr, uns verdes, outros amarellos, +chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quasi +disputados a murro, n'um alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma +insidia,--um logro á boa-fé, á credulidade ingenua de toda a comarca! + +E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o Fernandinho +vestido da menino do côro, batina vermelha e roquete de rendas, +cobrindo-se de teias de aranha lá pelo fôrro do theatro, de gatinhas e +com um «tôco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser +elle a despejar do _oculo_ aquella papelada; o Mello da administração, +vestido de Frei Antonio, sandalias e grande chinó de calva redonda, +feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por entre os +bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em habitos de +frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Telles, +ensaiador da rapaziada! + +Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujão! E quasi se regalavam +da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora +humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito! + +O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fôra elle o da lembrança +de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel +Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os +impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como especial favor. O +homem--prompto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que +se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que +desembolsara elle só, afinal. Bem feito! ninguem o mandava ser burro. +Arre! cavalgadura! + +E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopletico. + +--Mas a bem dizer, tudo isso é nada!--continuou commovido o Antunes.--Ó +senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz n'aquelle +intervallo do drama para a farça?... + +Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada +uma! E relembravam:--levantara-se o panno quando os ouvintes menos o +esperavam. Os que tinham sabido lá fora, ás doceiras, voltaram +apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um +reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam +senhoras, gente fina, começavam a apparecer caras barbadas de sujeitos +que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licôr, um +docinho. Em cima, na galeria alta, creadas e raparigas do povo, +debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, d'olhar attonito. + +--Elle que dianho é?--perguntavam. + +De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima: + +--Caluda, sua gentalha! + +No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da +recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de cardeal, baculo +em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de +côro, todo lépido; a Anna Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olivia; +a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Gloria_, em que +ella subira n'um cesto vindimo á «região sidéra dos astros»; o pae de +Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo pescoço, livido como +saira do tumulo; aquella canalha da tropa--todos emfim! + +N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello +vestido de Santo Antonio e do Proença telegraphista que fazia de Frei +Ignacio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hymno da Carta +á meia duzia de musicos que não entravam na peça. O hynmo rompeu com +grande estampido de pratos, n'uma cadencia funebre. No palco, tudo +immovel. Ninguem sabia o que era aquillo, não estava no cartaz. +Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam. + +Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de centurião, +durindana e botas d'agua, irrompe furioso do buraco do ponto e préga um +discurso na bochecha extatica do Telles: + +«Não era elle o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no +encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter phrases, oratoria, +porque emfim estava falando a um poeta...--collaborador do _Almanach de +Lembranças_ para Portugal e Brazil--accrescentou voltado para o publico, +esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo: dar-lhe um abraço +em nome de todos...--e abraçou-o commovido, emquanto os espectadores +berravam _apoiados_, dando palmas--«... e para isto»--accrescentou +fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa. + +Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanças gritavam--«ó +Emilinha!» Era com effeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e +Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo, tules +verdes e muita lentejoula a brilhar. + +Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o +Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da +«melodia», elle fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu +n'uns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com musica da _Muchagateira_ +original do Peres do correio. + +O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a +Frei Ignacio:--Era de mais, era de mais, elle não merecia...--Ora essa! +pareciam dizer-lhe os outros--seriamos ingratos se... + +A «cantoria» acabou, o theatro parecia desabar com palmas, tudo berrava, +um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir, +cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas +do tecto desabassem. + +Todos olhavam, curiosos. E n'aquella espectação viram de repente descer +do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia +vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da +bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodão a arder que lá trazia +dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanaz nos impetos da +colera. O panno começou a descer, obliquo, esfarrapado d'uma banda. O +Freixedas, suspenso, atirou fóra o algodão e gritou, furibundo: + +--Alto! suas bestas! Inda não!... + +Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a +hombro dizia em caracteres amarellos--_C'est fini_! O panno desceu +então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros, +não tinham percebido... Foi n'esse momento que o sr. Antoninho, que +tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz alta: + +--_É findo_! + + + + +V[AE] VICTORIBUS! + +_A Maria Lucilla_. + + +Em dezembro, ás seis é noite cerrada. Mais boccado, menos boccado, a +essa hora recolhia do monte o José Gaio, sósinho, sachola ao hombro, um +pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima +d'elle, o céo ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa negrura espessa +de tempestade que infunde pavôr á gente, e da qual os proprios passaros +teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora, +agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar +não sei que extranha elegia... A um relampago mais vivo, o José Gaio +apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou, +depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude +do céo. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento, +encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não +ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa. + +--Vamo' lá com Deus! fazia elle animando se. + +Um clarão subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle surgiu de +repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente illuminada. +Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão, +que elle instinctivamente parou e levou ao céo as mãos afflictas, n'um +gesto de quem implora misericordia. N'aquella imminencia de perigo as +proprias arvores lhe pareciam immobilisadas pelo terror, á beira do +caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era como a voz +implorativa da natureza, unindo-se á voz d'elle n'um longo côro de +supplicas... + +O José Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente, sem saber +d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente: + +--Ó José Gaio! + +O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os braços da cruz +negra, que era o signal de alli terem matado o José Tendeiro, ha annos, +apertou o passo e tomou por um atalho, direito á ponte. Mas então a +mesma voz tornou-lhe mais de perto: + +--Ó José Gaio! + +Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um +relampago que illuminou a mil côres a paizagem. Elle cerrou os olhos com +força, nervosamente, ferido por aquelle deslumbramento que por milagre o +não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma immobilidade de +estatua prendia o camponez á terra. Foi então que veio de novo aquella +voz, como um prolongamento do trovão: + +--Ó José Gaio! + +Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta, +galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma +força violentissima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquelle rugir da +agua que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monotono, +infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão +quando, estacou ouvindo a mesma voz: + +--Ó José Gaio! + +E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago côr de +sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquella cruz preta de +longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a +tempestade... + +Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre +exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os +olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em vão! que fôra tão vivo +o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cerebro, que n'um fundo côr de +sangue, como n'um transparente de magica, elle via nitidamente +desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então +deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o +peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento, a voz tornou a chamar: + +--Ó José Gaio! + +Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais intimo do seu ser. Um longo +desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima fibra de energia, +como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe tambem o +cerebro: não formava um só raciocinio nem elaborava sequer uma idéa, a +mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo elle tremer, +abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez reviver n'elle +a vida do espirito; sentiu um grande pavôr áquelle aspecto subito do +campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado como se estivesse +todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda +casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos, definidos +maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores despidas, +sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de recorte que +traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No +meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e tetrico, o triste +camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli chumbado á +terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um só gesto +implorativo, e nem uma só palavra de supplica lhe sahia dos labios +crispados. Porque uma vez que tentára uma palavra, o mais formidavel +trovão cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois, aquella voz não o +largava, imperturbavel e monotona: + +--Ó José Gaio! + +E elle, não respondendo nem fallando, pensava esconjural-a, exorcismal-a +como se fosse a voz d'um duende. E para esta evocação do sobrenatural +muito concorria, como os senhores comprehendem, esse aspecto sereno da +cruz negra, inabalavel sob a aza agitada da procella. + +N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua +depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul +furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer. +Como todo elle ardia em febre, aquelle diluvio era quasi um celeste +beneficio para a sua cabeça n'um vulcão. Mas quando os relampagos +vieram, aquella reverberação da luz nas cordas d'agua fez-lhe um +deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o caminho lamacento por +onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume, +sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz: + +--Ó José Gaio! + +Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como cahiu assim +ficou--de bôrco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quasi +tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relampago. Ella lá estava +no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E +pois que parara o diluvio, dos seus braços abertos as gottas da chuva +cahiam, vermelhas á luz, como grossas lagrimas de sangue... + +Cobarde! Nenhuma comparação póde dar idéa do estado de prostração d'esse +miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi inacção de besta morta. +Dir-se-hia um immundo trapo alli cahido, abandonado alli na lama ignobil +de um caminho, á espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E +emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada +prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastellamento phantastico +das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com +furia o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso +espirito póde conceber de mais grandioso e de mais sublime, epico e +tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente. + +Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões, +aquella voz: + +--Ó José Gaio! + +Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o outro, +o do medo. Parecia colado á lama, preso ao caminho como se fosse uma +rocha. No emtanto, a espaços, tinha a comprehensão clara da sua posição +e do seu estado. E então uma raiva subita galvanisava-o: queria +erguer-se, fugir, desapparecer--erguer-se como aquella cruz, fugir como +aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam rastro +na treva... + +Taes rebates de coragem eram, porém, ephemeros, impotentes para lhe +provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli, +miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as +quatro pernas. E esta idéa, que o instincto de viver lhe suggeriu, +apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli! Mas que +duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se não passava por alli viv'alma, a +taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma noite medonha +de tempestade, ao pé d'aquella cruz negra de longos braços +hirtos--morrer alli!... Eram então já por elle as lagrimas que essa cruz +parecia chorar?... + +Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia. +Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de tropeçar +n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve +estaria de pé,--de pé como essa cruz que um relampago muito vivo acabava +de lhe mostrar... No emtanto, a voz é que se não importava: + +--Ó José Gaio! + +Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o +calcassem, reuniu n'um supremo esforço as maximas energias, e rebolou-se +para um lado, até ficar detraz d'umas urzes. Coisa notavel foi, +senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se +recolheu n'uma absoluta quietação, com medo que o surprehendessem... E +quem quer que era passou, cabeça nua, deante da cruz gottejante... Aos +ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de prece... Não ia só a +rezar; ia tambem chorando, aquelle homem... + +...Quem seria? + +Um clarão branco de relampago fez irromper da treva, livido como um +espectro, o filho do José Tendeiro... + +O desgraçado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia annos, por uma +noite como aquella... + +Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquelle cobarde +não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quasi arrumado á cruz. + +E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade, +perdida n'um murmurio longiquo, lá na extrema fimbria do horizonte... +Quando a lua rompeu, livida n'um céo de anil, nem a grande sombra da +cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma benção, logrou +reanimal-o. Tinha morrido, o estafermo! + +Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abbade foi +depois, buscar o corpo. Os medicos nem lhe tinham mexido. + +--Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma +congestão muito linda--dissera um a rir. + +--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indifferente. + +Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do +abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convulsão agudissima de +choro. E elevando ao céo as mãos mirradas--ao céo que um divino azul +fazia diaphano--elle exclamou, soluçando: + +--Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa +misericordia! + +...Segredo de confissão...--mas o abbade bem sabia quem tinha alli +matado o José Tendeiro... + + + + +BALLADAS + +_A Luiz Osorio_ + + +I + +MARICAS + + +Vocês lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos muito +castanhos, quasi louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A +boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benevola e +complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o dia e de +toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram, as nossas +balburdias e algazarras... + +Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e +encantadora--a de não mostrar jamais na sua amisade preferencia por +algum de nós. Dir-se-hia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois +que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e +brando... + +Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ella vos +perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela solicitude e +interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao +escriptorio. + +--Então esses cabulas? então esses marotinhos? Doente, algum? + +--Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá... + +--Ora vejam!--fazia ella quasi escandalisada. + +Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos +que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos +outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um +_tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quasi que +chamando-lhe por tu e ella a nós! + +Como eu me lembro! + +Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil +perguntas que lhe faziamos, e então uma grande paciencia inexhaurivel. +Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a adorar aquella ingenuidade +singela do seu coração de vinte annos. A boa da Maricas era adoravel, +toda ella bondade e paciencia para os nossos disturbios e para as nossas +algazarras de toda a hora e de todo o instante. + +Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella, é que me não +lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes, +é que nós como que a consideravamos uma companheira de redacção, especie +de directora com casa áparte e viver independente pois que se entravamos +no escriptorio (parece mesmo que estou a ver aquella barafunda +d'escriptorio!) e, assomando á janella, a não viamos na sua, diziamos +quasi sem querer, mas invariavelmente: + +--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas? + +E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, á +formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde fóra, em casa +da _freira_ de Quebra-Costas--d'essa lembram-se vocês... No emtanto, +deveis recordar-vos que ella, no dia seguinte...--coitada!--...a +primeira cousa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui, +estive alli, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborisada e +confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar alli a +aturar-nos. Por pouco ella nos não pedia de mãos postas que lhe +perdoassemos, a boa da rapariga. + +E nós então galhofeiros, brincalhões: + +--Sem mais _aquellas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora +essa!... + +E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra: + +--Pois sim, mas é que ás vezes... + +--Ás vezes quê?... + +«Não! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella estivesse zangada +comnosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...» + +--Pois não era verdade--perguntavamos-lhe--que ella adorava aquella +_troupe_ de bohemios? + +--São todos muito bons rapazes--dizia já a sorrir.--Todos me tractam +muito bem... + +E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se +illuminava de prazer e sorria de intima gratidão. Mas porque +sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas? + +Quando nos via em palestras interminaveis, nas libações do _congnac_ e +do café, ouvia-se lá da janella um _pschiu_! muito sibilado. + +--Que manda a D. Maricas? É servida? + +E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada: + +--Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal? + +O cuidado que lhe dava o jornal! + +--Ora faz favor de não fallar em coisas tristes? Olhem agora que +lembrança, o jornal! + +Ella então, por unica resposta, dizia-nos ás vezes que na semana passada +o typographo viera queixar-se de que havia falta de originaes, quantas +vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas. + +E por fallar em provas:--a Maricas sabia todos os signaes das emendas, +todos. + +--Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais n'esta palavra. + +--Risco por cima, risco á margem, e um _d_ cortado; é facil. + +--Um _m_ de pernas para o ar, e esta? + +--Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está farto de o saber... + +Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse +mostrando as tiras, á medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava +que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal +escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a janella, +acenando-lhe com o papel: + +--Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escripta d'alto a baixo. + +Á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de lá com um _bravo_! e +recommendava, solicita, cinco minutos de folga, emquanto se fumava um +cigarro. + +A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia +a gomma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bella gomma! Em +paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi sempre nos sabbados á +noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era estreita +atirava-se-lhe da janella. + +--Maricas, ahi vae ainda fresquinho! + +--'stá bem, obrigada. Vou lêr, até ámanhã. + +Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á nossa amiga. + +--Durma bem, ouviu? + +E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do +artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que +mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito +bom, «escripto com muita graça e muito bem», como ella dizia. + +Nos serões que faziamos e que por via de regra não passavam de um +interminavel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escandalos, +desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da +Maricas ninguem tinha que dizer senão bem; era a privilegiada n'aquellas +sessões de má lingua. Quasi sempre a conversa degenerava em +algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e +gemia fados com acompanhamento de violão. E era de vêr o Santos Mello, +d'olhos cerrados e cabeça á banda, como cantava a sua quadra predilecta: + +Sei cantigas mysteriosas, +Cantigas de endoidecer, +Que os lirios dizem ás rosas, +Que as rosas me vêm dizer. + +Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava silencio. + +«Com mil demonios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...» + +Todavia...--ó suprema bondade!--...ella nunca se queixava quando no dia +seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se +tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes +que as cadeiras tinham caido. + +«Ora viam?! Não a tinhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse; +palavra d'honra! d'óra ávante...» + +Ella então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça: + +--Não, não, eu até gósto. Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora +essa... + + * * * * * + +Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocês não sabiam! E morreu +tysica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a +pensar n'aquella tossesinha muito secca em que ás vezes a +surprehendiamos, n'aquelle branco pallido das suas faces, no bistre das +suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas mãositas de +marfim... + +Pobre Maricas! + +Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, onde +continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ella +tinha ido?!... + +Mal diria eu que estavas no cemiterio, tão longe e tão só! porventura na +valla commum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura +humilde,--onde n'este instante cáe chuva e chuva! Ainda se as noites +fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio +de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita resignação: + +--...«Entretem-me vêl-os alegres, até me faz bem»... + +Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era +triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobresinha! que n'essa +phrase singela ia a revelação do presentimento que tinhas da tua morte +prematura?! Triste creança que nós não mais veremos! + + * * * * * + +Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes--_bravo_!--ora +não?... + + * * * * * + +...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella +rebentem flôres, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as +seivas... + + +II + +PARA A ESCOLA + + +No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras +lettras. A porta lá estava, amarella com fortes pinceladas vermelhas, ao +cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subil-a. +Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula +quando a Helena entrou commigo pela mão. Fez-se um silencio nas +bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua taboada, +n'um rithmo cadenciado e monotono, cantarolando. E ouviu-se então a voz +da Helena dizer para o senhor professor, um d'oculos e cara rapada, +falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa: + +--Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a +encommendinha. + +Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez á escola. Ali +estava a encommendinha! + +--Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão? + +E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena +enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia +mettido nem eu sabia o quê. Meu pae é que lá sabia... E alli estava eu +entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ n'uma das mãos e a +saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A Helena, que sorria +contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus. + +--Adeus, Josésinho, logo venho cá pelo menino. + +Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella. + +--Não, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui é a escola, é +onde se aprende a ler.--E agachando-se, deante de mim:--Olhe tanto +menino, vê? + +--Mas fica tu tambem--disse-lhe eu então. + +Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, +iracundo: + +--Caluda, sua canalha! Não veem que está gente de fóra? Caluda, que vae +tudo razo com bolaria! + +Foi então que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles eram todos +meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos. +Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes, +cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estevão +principalmente. + +--Isto é preciso muita paciencia, senhora Helena, muita somma de +paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre +as bancadas.)--Mas está bem, diga lá que a encommendinha cá fica. Em boa +hora entrasse... + +--Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Josésinho? + +Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos. + +--É verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino ha-de estudar +as suas lições, não é assim? + +--Diga, sim senhor--ensinou-me então a Helena.--Hei-de estudar muito e +ser socegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em +casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia? + +Elle riu, já sabia; as creanças são todas assim, emquanto estão no mimo +das mães. Mas uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam um pouco. E +piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou transida. + +--Faz milagres, sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz +milagres. + +Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair +quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que servia, a +palmatoria... + +--Mas para o nosso Zézito não ha de ser precisa, ora não? + +--Diga assim: não senhor, porque eu hei de cumprir com as minhas +obrigações, diga. + +--Ora ahi é que está--atalhou o professor.--Vê, sr.^a Helena? Aqui já os +pequenos tem a sua obrigaçãosinha, os seus deveres a cumprir, as suas +coisas... + +--Sim senhor, sim, emquanto que em casa... + +--Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu +menino aquillo. Vão assim creados á lei da natureza, sabe vossemecê? É +mau isso, pessimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?--E bateu +n'um «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui está n'este +livro: «_de pequenino_... + +--..._é que se torce o pepino_»--concluiu rapida a Helena, orgulhosa de +saber o que estava no livro, coitada! + +--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma cousa que se cria +na horta... + +Risota dos rapazes! + +--Ora vê isto, sr.^a Helena? vê estes brutinhos?--E com entono, de +palmatoria alta, fazendo-se carrancudo: + +--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença á sr.^a Helena, +começo n'uma ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o +que se chama tudo! + +E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaça, os rapazes ficaram +transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que elle +podia pedir licença á sr.^a Helena, e mesmo deante d'ella _cascar_ de +rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, socegaram; até o +Estevão deixou de me fazer caretas. + +--É o que vê, sr.^a Helena--disse então victorioso, a sorrir-se, o bom +do professor.--É o que vê! Um mestre sem palmatoria é um artista sem +ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem +feito muitos doutores. + +--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle +pedaço de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito muitos doutores. + +--Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não +faz ao caso. + +Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena. +Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes investigara com magua +o motivo por que a sua palmatoria não fazia um unico doutor... Morreria +sem ter essa «gloria,» decerto! Forte martyrio que a Helena veio +recordar-lhe!... + +Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia +para ir lá fóra. + +--_Licéte_!--foi como elle disse, arremedando o latim _licet_. Outros +havia que diziam, por troça, _Aniceto_! + +--Ora já a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu não havias +de pedir para ir lá fóra, tu...--E ficou-se a fital-o, meneando +pausadamente a cabeça.--Ora vá você lá fóra. + +O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés. + +--Olá?--chamou zangado o sr. professor. + +O outro assomou á porta, contrafeito. + +--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se +percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça +favor de esperar um pouco. + +Poz-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando: + +--Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá! + +Levantaram-se uns poucos, foi um barulho. + +--Canalha!--gritou-lhes então, batendo o pé.--Corja de atrevidos! +Sentados, já! + +Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era elle, +apontando para o peito. + +--Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se. + +Mediu-o d'alto a baixo. Depois: + +--Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fóra com +ella. Agora, sim senhor. Ora vês além aquelle sujeito? o tal das +pressas?... + +--Vejo, sim senhor. + +--Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o +palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra que. E sempre quero ver se tenho +de vos ir lá buscar pelas orelhas. + +Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor: + +--Olá? + +Elles assomaram, outra vez, atrapalhados. + +--Então, seus cabeças d'avelã, torres de vento, então não falta nada? + +Os dois pozeram-se a coçar a cabeça, muito compromettidos. Faltava com +effeito alguma coisa... + +--Então é ahi? + +Elles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro. + +--Ora passa por esta vez, em attenção a estar aqui a sr.^a Helena.--E +enrugando o sobr'olho, commandou em tom marcial:--Ordinario! marche! + +Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava +o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir +ordens suas: + +--Ordinario! marche! + +Sentou-me então no joelho e perguntou: + +--Olha lá, Josésinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o sr. +capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres? + +--Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o sr. prior, dizer +missas. + +Riram-se. Quem sabia lá o que d'ali sairia? Mas o sr. professor fez +notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendencia +qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas +bochechas. + +--Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.--E para a +Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, sr.^a Helena, que respondem a +pés junctos que não querem ser nada. Mau signal, pessimo, sr.^a Helena! +Quando elles assim dizem, de ordinario assim fazem, depois. Nunca são +gente.--E virando-se para mim:--Mas então, Josésinho, em que ficamos? +Corneta ou prior? + +Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente +em dias de festa, com aquella capa toda doirada... + +--Muito bem, escolheste bem. «_Telha de egreja_... + +--..._sempre gotteja_»--concluiu a Helena que ainda hoje é forte em +adagios. + +O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria. + +--Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josésinho, +para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é? + +--É. + +--Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor--emendou a Helena. + +O sr. professor teve um gesto de indulgencia. + +--Mas tu não sabes ainda, ora não? + +--Não senhor. + +Elle então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia +na sacca era um livro. + +--Querem ver que é um livro?... + +--Diga--ensinou a Helena--é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá +ao sr. professor, tome. + +Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do +meu livro. + +--Muito bem! muito bem!--applaudiu o sr. professor.--Mas este livro é +mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que +queria ser prior, ora já? + +Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquillo; mas como é que elle o +sabia? + +--Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar, +não queres? + +--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu +quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga. + +--Primeiro do que aquelles?--perguntou voltando-me para as bancadas. + +Então fui eu mesmo que respondi:--«Sim senhor!»--contente com a +lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos +aquelles. Até podia acontecer que o Estevão das caretas me ajudasse a +alguma... + +--Ora então está muito bem, estamos entendidos.--E com intenção, ferindo +muito as palavras, para m'as gravar no espirito:--A primeira coisa que é +precisa para prior é saber bem isto, vês?--E punha-me deante dos olhos o +livro aberto na primeira pagina.--Isto aqui é já missa, chama-se o _a b +c_, e é aquillo que os priores dizem quando vão para o altar. + +--_Ito_?--inquiri curioso, furando a pagina com o dedo. + +--Sim, isto. E amanha já me has-de trazer sabido d'aqui até ali. Hein? +valeu? + +--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor. + +Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira +lição! + +_A B C D E F_! + +A minha primeira lição! + +--Ora sabe vossemecê o que isto é, sr.^a Helena? isto que eu tenho +estado a fazer? + +--Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é... + +--Não sabe, não admira,--disse complacente o sr. professor.--Puxar o +gosto, sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o +fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vae estudar com +mais gosto, digo-lh'o eu; olé se vae! + +«Mas elle não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas +obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.» + +--Pois isso é verdade, sr. professor; mas não sei que é, custa-me a +separar do menino...--disse a boa da Helena, quasi a chorar. + +--Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi é que está a coisa. Pois tenha +paciencia. Aprender é tão preciso como mamar--concluiu n'uma prosa que é +mesmo poesia. + +--Pois é preciso, é!... + +E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti +na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me +ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou: + +--Sr.^a Helena! + +--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental. + +--Já agora, espere mais um instante. + +Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. +Depois, intimou: + +--Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo +um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora é alli, +sr.^a Helena, alli é que é o logar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe +não deve pesar. + +E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo, +lagrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu +logar...--o meu primeiro posto na arriscada milicia das lettras... + +Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por +acenos com a pessoa que estava de fóra. Pequeno como era, percebi, no +emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica: + +--Bolos?... Não?!... Perdoe a sr.^a Helena, mas isso, quando forem +precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a +mão?... Está bem... Descance... Mesmo com a mão... + +E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre +lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus... + + * * * * * + +...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que +principiei n'esse dia. Não volto mais á escola! Venho hoje restituir-te, +querida amiga, aquelle beijo--dulcissimo beijo aquelle!--que tu então me +déste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, +acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem +que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena? + +Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura. + + + + +TRAGEDIA RUSTICA + + +I + +_Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á +porta do José Grillo_ + + +Truz! truz! truz! + +Os de casa acordaram, sobresaltados. + +--Schiu! nem pio!--fez o José Grillo para a mulher.--Moita! + +--Truz! truz! truz! + +Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a chamar pelo +pae.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria +divertir... + +Mas logo outra vez na porta: + +--Truz! truz! + +--Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José +Grillo, zangado. E pois que se poz á cóca, de orelha fita, olhos +cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de +alguem que fugia. + +--Eu não te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir--explicou elle +para a mulher. + +Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um +cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á ideia que lhe tinham +vindo pôr zôrro... + +--Ó mulher, queres tu ver que ha novidade? + +De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do +casebre. + +--Elle que demonio de embrulho...? + +Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creança, envolta em +dois trapinhos muito velhos. + +--Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a creancinha. + +--Grandes cadellas!--E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a +gente da casa. + +--Andem! a pé! levantem-se! está aqui este innocentinho que vem dar os +bons dias á gente! + +Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grillo +mettera a creança na cama, visto que a pobresinha estava gelada... + +--Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha do Antonio das +Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo. + +Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites que +chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga +que ia correndo: + +--Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquillo que fôr. + +Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de pé no meio da casa, a +saia amarella deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito +embezerrada, permanecia sem dizer palavra. + +--Ó mulher, nada de afflicções, é tal e qual como se fosse nosso, faz de +conta...--observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar taciturno da +femea. + +Ella só redarguiu que _nosso_ era um modo de fallar. Seria d'elle, mais +de qualquer desavergonhada... + +O José Grillo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e +pregou-lhe uma gargalhada. + +--Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E +deixa-te de cantigas, que hoje é dia de entrudo. + +A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé +da creança, affirmando-lhe ás risadas que sim, que o pequeno era filho +d'elle. + +--O pequeno?... mas é que pode ser cachopa--disse o José Grillo para a +mulher.--E certificando-se:--Nada! é rapaz. + +Seguiu-se uma altercação. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela +sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem. + +--Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, braços no ar, o +balandrau da saia amarella enfiado pelo pescoço n'um geito de +sobrepeliz.--Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim! + +--Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz--disse-lhe de lá o +José Grillo, muito fleugmatico, debruçado sobre a creança. + +Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhaço, muito +afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grillo virou-se para +ella e disse-lhe muito solemne: + +--Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz. + +Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se logo para +elle, olhos esbugalhados, muito suspensa. + +--Juras pelas cinco chagas, ó homem? + +--Juro pelas cinco chagas. + +--Assim te Deus dê saude, ó José? + +--Assim me Deus dê saude. + +--Preto sejas tu como o teu chapeu? + +--Preto seja eu como o meu chapeu. + +A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo +a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da +Conceição, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia. + +Depois desabafou, muito aliviada: + +--Ai! + +O José Grillo poz-se a rir.--«O demonio da Joanna, com ciumes!» + +--Mas ciumes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo +tens tu ciumes?--perguntava muito casto o amigo José Grillo, serenissimo +deante da mulher desconfiada. + +A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--«que o seu homem era um +santinho...»--O José Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo, +reguingou d'alto: + +--Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a cadella que +engeitou este... + +Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira: + +--Mas quem seria a grande cadella? + +Poz-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem, +murmurando phrases d'odio, moralistas: + +--Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo +entranhas de lobo. + +O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do +José Grillo. + +--É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar--disse +contristado o lavrador. + +Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a +Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas. + +--Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demonio vens tu cá +fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?--E deu um bofetão +na filha, «para que soubesse dar o recado». + +A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é +que a mandara para levar a creança, porque ella, adoentada, fazia-lhe +mal sair de casa assim cedo... + +--Só se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o José Grillo, virado +para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens. + +A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse: + +--Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça. + +--Eu sei lá se não se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--Dá cá +d'ahi o pequeno. + +Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao José Grillo. O +lavrador depol-o nos braços da Dorotheia, com mil cuidados, e depois +elle mesmo ajudou as mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse +bem quente. + +--Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá appareço, +p'ra ver isto do ajuste. + +A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que tinham alli ficado os +farrapos, gritou para a rapariga: + +--Ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto. + +Então poz-lhe os farrapos ao hombro--uns pedaços miseraveis de velha +chita--e a Dorotheia partiu onde á irmã. + + +II + +_Quarta-feira anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de +Antonio Palma, casado com Rufina Maria_ + + +O Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher, +a Rufina, principiava a lavar a louça, quando á grade do quinchoso uma +voz chamou: + +--Ó sr.^a Rufina! + +Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as mãos +fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o +que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do caminho. + +--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem. + +O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de +cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma +desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Thomaz negociante de +gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os proprios pequenos +olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande mulher gorda que elles +não conheciam. Ella sentou-se logo n'um sacco, muito esfalfada, emquanto +o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se, +com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_ +investiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o +pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a mulher começou +assim: + +--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias. +Já veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu +filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá +em casa de minha mãe aquillo é uma grande miseria, passam-se dias que +não comemos. Não ha uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem +geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este estado, bem veem +como eu ando... + +Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e +a mulher diziam não sei que monosyllabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra +proseguiu: + +--Não é por mim, sabem? não é por mim. É este innocentinho que tem de +nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me +dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse... +Coitadinho! + +Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o +Palma e para a mulher. + +--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou. + +O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de +seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo +se havia de arranjar, que socegasse. + +--Que a fallar os pontos de verdade, sr.^a Fortunata, vossemecê é que +tem a culpa d'esses trabalhos, disse-lhe logo o Palma. + +Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse. + +--Má sorte d'aquelle pobre José Thomaz, acabou-se! Quando elle casou com +vossemecê antes tivesse quebrado uma perna. + +Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta. + +--Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado, +nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vae a uma feira. +Pois olhe que era homem para junctar, videiro como poucos. + +Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois +continuou: + +--Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo +sacco... + +A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O +Palma proseguiu: + +--Sente se vossemecê, mulher, o sacco não faz ao caso. Pois foi ahi +mesmo que elle esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na +camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal. +Que a bem dizer elle quasi não conversa, anda a modos que amalucado, +sempre a levar a mão á cabeça, como se lá dentro aquillo andasse azoado. +E mais é que bem póde o rapaz dar em doido... + +A senhora Rufina foi de parecer que doido já elle andava. Passavam-se +dias que não apparecia em casa do tio José Garção, que o levára logo +para elle, mal a sr.^a Fortunata o deixára. Por onde andava? que fazia? +Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo telheiro que os +porcos. Que d'outra vez fôra ter com o vigario para que lhe baptisasse o +filho, dizendo que já tinha nascido. + +--No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.--Anda com +ella ferrada que o filho já nasceu. + +Aqui, a Fortunata, de pé junto á porta, rompeu n'uma choradeira, ouvindo +fallar no filho. O Palma interveio, condoido, dizendo que se não +affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse. + +Ella ia ajoelhar, o Palma não deixou. + +--Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por +vossemecê. Mas é que o innocentinho que ahi traz esse é que não tem +culpa. Faço de conta que é o pae que me pede, o pobre José Thomaz. +Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Thomaz. Diabo! a gente já +diz _era_, já falla n'elle como se o pobre tivesse morrido... + +N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns +bois que não eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois, +quando já ia para sair, disse em resumo: + +--Fique vossemecê então, sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ella +inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se. + +Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo gordo, desentupiu +e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha +feito uma caricia, quando por volta do meio dia a avó do pequeno alli +chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota +aos cevados, ficou espantado: + +--Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, sr.^a Anna! + +Ella, sem mais rodeios, perguntou se a creança já tinha nascido. + +--Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha d'ahi. + +Mas iam ainda á porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe +perguntou n'um sobresalto: + +--Vivo ou morto, sr. Antonio? + +O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a creança nascesse +morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a +pontapés. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de colera, quando em presença +do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de +fazer. + +O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella insistisse +com a pergunta: «que se ha de agora fazer a isto?» elle redarguiu, +irado; + +--Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se ha de +fazer á creança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar... + +A velha ia fallar. + +--Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda +nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu +uma cadella quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer +cadella vale mais que vocês duas. + +O Palma ia-se pondo amarello, a sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a +que saisse. + +--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de +vespera até á feira. + +Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da egua. + +--Tanto faz ir ámanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mette-me +qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a egua. + +D'ahi a meia hora, o Palma montava á porta, no meio do rancho dos +cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara: + +--Em estando capaz, rua! + +--D'aqui a tres dias, talvez... + +--Então até d'aqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando +esses estafermos sairem. + +Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fóra--com o +embrulhinho do neto ao colo... + +Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado... + +Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? Não sei. Caso é que na +madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino á porta do +José Grillo. + +Madrugada de fevereiro, nevava... + + +III + + +Quando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar á irmã, tinha +amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidissimo +retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquella atmosphera de gelo. +Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão +triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto, +faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella impressão de frio. O chão +estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céo muito azul +annunciava um dia de sol. + +A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda +d'aquelle lado em contacto com o pequenino... + +Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe +perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da +levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um engeitadinho. + +--Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra. + +Mas o moleiro, que vinha chegando, espécou deante da mulher, e repetiu +como um echo: + +--...Um engeitadinho. + +Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga. + +--Sim, um engeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E +d'ahi... póde ser que não seja... + +A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa. + +--Nada! pode ser que a historia seja outra--elucidou o moleiro.--Onde +foi que isso foi posto? + +--Esta madrugada, á porta do José Grillo. + +--Olá! isso então pode ser coisa d'elle--observou a rir o moleiro.--Esse +diabo não é seguro. + +Pozeram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôz-se a +explicar á rapariga: + +--É que hontem á noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a +modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal. Assim ás primeiras, +tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo... + +--Ó Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e +senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobresinho ha-de ter fome. + +A Dorotheia passou a creança para os braços da moleira. Foi uma alegria +ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os olhitos inda fechados. + +--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria +a desavergonhada?... + +--Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro. + +--Depois, dormiu cá, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas dá-se o caso +que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, n'um +fallatorio pegado. «Que o filho era d'elle, que se a cabra da mãe +teimasse em o engeitar, elle ia dar parte á justiça.» Um arrazoado +assim, muito comprido. + +Espantada, a Dorotheia ia fallar. + +--Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia +isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que +onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar. + +Ficaram-se um instante a mirar consolados a creança. + +A pobresinha vagia, mamando com sofreguidão. + +--Mas então sempre elle sabe do filho, reatou com interesse a +Dorotheia.--Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae, +coitadinho! + +A sr.^a Luiza, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar +compungido: + +--Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir! + +Fez-se um silencio, mirando todos a creança. A taramella do moinho +batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro explicou ainda +que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer +obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe +respondera:--«Para a feira. Vender um gado.» + +--Ora vá lá o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido +a vender gado. + +Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Dorotheia, com pressa +por causa da irmã, pegou outra vez na creança e abalou pela porta fóra, +direita á casa do pae. + +--Olha os trapos, ó Dorotheia! olha que deixas cá isto.--E o Paulo +correu a levar á rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram +todo o enxoval do triste pequenino... + +Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a +creança não ia com fome. E para que tambem não fosse com frio, a boa da +rapariga achegava ao peito o engeitadinho, n'uma solicitude toda +materna. + +--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja +capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um innocentinho, +embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José +Grillo não dava fé! Alli se morria de frio o anjinho, capaz de virem +depois os cães e comel-o. + +E espreitando pela fenda estreita do chale: + +--Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua mãe, ora foi? + +--Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo. + +A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que já de +longe a acompanhava, sem ella dar fé, corria tambem atraz d'ella, e não +tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair +com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella +conhecia gritou alli de perto: + +--Larga a rapariga, ó José Thomaz! Larga a cachopa! + +E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os. + +--É o José Thomaz que está doido,--explicou o pastor.--Desde que a +mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado! + +Mas palavras não eram ditas, eis que o José Thomaz de novo se arremessa +á rapariga. + +--Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!--rugiu elle com voz +furiosa. + +E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre +lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas, +impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho... + +A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente. + +E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do +engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a +rir-se... + +--Conheces? perguntou-lhe a rapariga. + +No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido não +respondeu. + +--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos. + +Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como +estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle então oppoz-se, caindo +sobre os calcanhares. + +E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel +farrapo, as lagrimas corriam, copiosas... + +Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram +percebendo. Os farrapos que embrulhavam a creança eram da saia da mãe. A +mãe era a mulher do José Thomaz, e o pequenino era filho d'elle... A +grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao +homem! + +--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vês ahi um +estafermo que precisava que a matassem! + +O José Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma forte +impressão de piedade estampava-se em todos os rostos. + +--Ó Dorotheia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pae +deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga. + +Mas não foi preciso; que o José Thomaz, sempre de joelhos sobre a neve, +foi para ella de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos +labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio que se fez +ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho. + +Como se fôra uma chuva de petalas, do céo de madreperola a neve cahia +mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como +no seio immenso de um orgão, o vento sul--gemia... + + + + +ABYSSUS ABYSSUM... + + +N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. +Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o +rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de +ameaça, aquellas terriveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia +que lhe appareceram em casa tarde e ás más horas. + +--Ouvistes?--ralhara-lhes a mãe.--Olhae se ouvistes: se voltaes ao rio, +mato-vos com pancada. Andae lá... + +Ih! como ella dissera aquillo, Mãe Santissima! Colerica, ameaçadora, com +a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver +tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob +aquella ameaça terminante. E então, n'esse dia, elles não tinham ido ao +rio. Aos passaros sim...--lá estavam as calças rotas do Manuel a +dizel-o--...aos passaros é que elles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe +que o soubesse... + +Ah, mas então não os deixassem dormir n'aquelle quarto. Logo de manhã, +mal abriam as janellas, a primeira coisa que viam era o rio, uma +corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos +salgueiros. Lá estava a ponte velha, d'onde os rapazes se atiravam +despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do +fidalgo,--lindo barquinho!--sempre á espera que o fidalgo o desamarrasse +para passar á grande quinta que tinha na margem de lá. + +De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois +rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores, tão +madrugadores como os melros, metterem-se dentro do barco, desprendel-o +da praia, e deixal-o ir então por onde elle quizesse, comtanto que fosse +sempre para deante... Quando fechavam as janellas para se deitar, a sua +vista seguia, mesmo atravez da escuridão da noite, a linha que ia dar ao +barco. Era o seu--«adeus até ámanhã!»--áquelle pequeno objecto que valia +thesoiros, que para os dois valia mais que tudo, tudo... + +Ah! tivessem elles assim um barquinho, que não queriam mais nada... + +--Mais nada? + +--Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto. + +Mas n'essa manhã, bella manhã, na verdade! a mãe viera acordal-os mais +cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para +os campos, os solavancos dos carros no empedrado pessimo da rua, os +patos da visinhança que saiam em rancho para a digressão pelos prados, +grasnando ruidosamente, levantando-se em vôos curtos, espantados da +aggressão accintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que alli perto +se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador atarracando cravos na +bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e +vagaroso, as chaves da egreja na mão esquerda e na direita a cabacita do +vinho. E áquella hora, onde iria já a missa! A ultima beata, encapuchada +e lenta, recolhera, trazendo comsigo a esteira em que ajoelhára na +egreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, +dava com valentia n'um carro cujo eixo _ardera_ na vespera, e que era +urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a +loja, e subira á varanda a regar os mangericos. Começos da labuta +diaria, emfim; os senhores sabem. + +Pois como lhes disse, a mãe viera n'essa manhã acordar mais cedo os dois +pequenos. + +--Fóra, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal +está! Ai, ai, dia claro ha que tempos, vem ahi o sol, e os morgadinhos +na cama.--E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as janellas.--Persignar e +vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem. + +E poz-lhes tudo sobre a cama. + +--Mãe, a benção!--balbuciaram os dois, tontos do somno ainda. + +--Deus os abençôe. Que Deus não abençôa mandriões, ouviram? Ora eu já +volto. Queira Deus que não vos encontre cá fóra, tendes que ver. + +Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os +olhos áquella hostilidade viva da luz que invadira o quarto n'um jacto +repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito +que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria +tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda +tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego +morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos! + +Mas a mãe não tardava alli. Era preciso vestirem-se, que remedio! Foi +então que o Manuel, mais esperto do somno, olhando para o campo o achou +encantador, todo resplandecente de verduras. + +--Bonita manhã, não vês? As arvores parecem mais lindas, repara. Porque +será? + +O outro encolheu os hombros, não sabia: só se fosse por não haver +nuvens... + +Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva da +manhã fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde encantador, muito +suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das +laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das baixas. Revestidos +de folhagem, ascendiam ares fóra os olmos gigantescos. Pedaços d'horta +estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas +das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas. + +Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa manhã +deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante sob aquelle céo +immaculado. + +--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece? +Olha que é lindo, o rio; ora é, ó Antonio? + +--É, lá isso... Mas _tamem_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o +irmão.--A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?--E +mirando por sua vez a paizagem perguntou:--Já reparaste no barco, ó +Manuel? + +--Tão bonito! + +Os dois riram. + +--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara. + +--Podera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois +radiante, gesticulando para o irmão:--Mas eu era capaz de o +desamarrar... + +--Ai eras!--disse duvidoso o Antonio, para o incitar. + +Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, lá isso era. Ambos dentro +d'elle, sósinhos, isso é que seria bom! E elles então que estavam mortos +por ir ás azenhas, e pelo rio era um instante emquanto lá chegavam. O +barco! Era tão bom andar no barco! E aquelle então era lindo, como não +tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem lá não +esquecessem!--aquellas tardes em que o fidalgo os levara dentro do +barquinho, ensinando-lhes como se remava. + +O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito á janella. +Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando. + +--Está um dia lindo, avia-te. + +--Olha avia-te! p'ra que?--perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o +pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama. + +O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A mãe +não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada +se desceis a ladeira.» Já se vê que depois d'isto...--E os dois +suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos! + +N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo! +Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demonio de +tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo +o comprimento, uma faxa azul-clara destacava nitidamente, parece que +apenas meio palmo acima do nivel da agua. + +--Táte, ó Manuel! E se fugissemos? + +--Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar... + +Ora ahi esta! isso é que era o peor! A mãe, depois, era capaz de fazer o +que tinha promettido. E arregalando muito os olhos, imitando a colera da +mãe:--«Se voltaes ao rio...» Ai, ai, a triste sorte! + +Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia +ao nascente, n'uma explosão violenta de luz, accendendo coloridos na +largura muito ampla da paizagem. + +--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com +alegria o Manuel. + +--Mas é que está, palavra que está. Agora é que ha-de ser bom andar +dentro d'elle... + +Os dois riram-se muito áquella ideia encantadora de andarem no +barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso, +cobrando animo, o Antonio disse resoluto: + +--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela +jaqueta:--Vamos lá, ó Manuel? + +O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não +vinha, disse baixo ao irmão: + +--Á tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão facil dar pela +nossa falta, alli á tardinha. A gente finge que vae para o adro. +Levam-se os peões... + +--Ha-de ser mesmo assim! á tardinha!--concordou o Antonio.--Eh! eh! tu +cá desatraco. + +--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava. + +--Ao leme vou eu: o leme é aquillo que regula--explicou. + +--Pois sim, mas á vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quizeres +assim... + +--Pois está bem, quero! Assim mesmo é que ha-de ser! + +E recapitulando, para melhor ficarem combinados: + +--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo? + +--Remas. + +--E tu regulas, ora regulas? + +--Regúlo. + +--Ao p'ra cima é ás avessas, ora é? + +--É. + +Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se +impozeram segredo... + +--Schiu!... + +--Schiu! + + * * * * * + +A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do céo, penachos de nuvens +alvejavam, immoveis. + +Accesas n'aquella explosão rubra do occaso, as arestas dos montes +franjavam-se de purpura e oiro, na decoração magica dos poentes. +Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquilla dos crepusculos, +e uma quietação dulcissima e vagamente melancolica entrava de adormecer +a natureza para o grande somno reparador de toda a noite. + +...E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida. + +N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando, +os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, +immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os +cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella +indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de silencio +confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como spasmo +amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que +vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as +coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as +formas ás coisas... + +Muda de gorgeios, atravessando o espaço em vôos muito rapidos, a +passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. +Cahiam já pesadas sobre os valles as sombras das montanhas, e um +fumosito subtilmente azulado nadava á flor das coisas, velando-as para o +tranquillo somno em que iam adormecer. + +E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava +mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas +começavam de lampejar. Dentro d'elle, os dois irmãositos silenciosos +iam-se deixando enlevar n'aquelle ruido suave dos remos abrindo fendo +nas aguas... Não! era bem certo que elles não tinham jámais sentido uma +tão poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes trasvasava do peito, +fundindo-se em energia nos musculos e crystallisando-se nos labios em +sorrisos. + +Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores +absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres +de admoestações alheias, sósinhos, independentes. E esta feliz convicção +de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de +alegria. Por certo elles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o +seriam jámais?... No emtanto a noite accentuava-se. Espertava nas +margens o marulho da agua nas raizes fundas dos salgueiros. No céo alto +e sereno scintillavam as estrellas em cardumes. + +--Remas, Antonio?--perguntou o do leme.--Olha se a vês...--E apontava +para Vesper, a estrella que mais brilhava. + +Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcançar a estrella cujo +brilho diamantino os fascinava. Tão linda! + +--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a +estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe +adeante, só por isso... + +--Olha o milagre! Ella está quêda!--fez o outro, convencido da +facilidade da empreza. + +--Está quêda, está quêda, mas sempre na frente de nós; vae lá +entendel-a. Olha como brilha, ó Antonio. + +--Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito d'aquella fraga é que +ella está. + +Não era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de meia hora +era certo alcançal-a. + +E engastada no azul escuro do céo, a estrella parecia brilhar mais, +quanto mais a olhavam. + +--De que são feitas as estrellas?--perguntou o mais novito. + +--De prata, pois está visto. + +Então o outro, lançando um amplo olhar á vastidão infinita do céo, +exclamou: + +--Eh! tanta prata! + +--O sol, esse é d'oiro--disse ainda o Manuel. + +--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmão.--Que eu, se me dessem á +escolha, antes queria as estrellas. Olha que rebanho! + +--Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais +grande. + +E emquanto fallavam, os dois não desfitavam olhos da estrella feiticeira +que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo fenda na agua, com +certo ruido muito doce... E lá no alto céo, dir-se-hia que de instante +para instante a feiticeira estrella mais brilhava, incitando-os. + +--Vêl-a a fazer assim?--e poz-se a pestanejar, imitando a palpitação +crebra e irregular da luz sideral. + +--É que tem somno--respondeu o outro. + +--Olha que não. Aquillo é a fazer-nos negaças, _tamem_ t'o digo. + +--Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo, +bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh, +_boieira_! + +N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul, +sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram +em tom de reza as palavras rituaes: + +Deus te guie bem guiada, +Que no céo foste creada. + +--Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a +apontar para ellas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos. + +--A ti talharam-te o ar, ó Manuel. + +--Diz a mãe. Á meia noite levaram-me á fonte e esparrinharam-me agua +para o corpo. E a agua havia-de estar fria... observou, encolhendo os +hombros. Depois, viraram-me para as estrellas e disse então a mãe: + +Ar vejo, +Lua vejo, +Estrellas vejo: +O mal do meu corpo +Pr'a tráz das costas o despejo. + +Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da mãe, havia-de ser +engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava. + +--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por +anno, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas +estrellas que além estão, e rezar uma Ave-Maria. + +--Sempre, sempre? + +--Até que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com tres noites +dentro de uma. + +--Ora! tornou-lhe incredulo o irmão.--Tu não cabes lá... + +--Não sei: assim é que anda nos livros. + +...Mas os braços doiam já dos remos, doiam muito... + +Devia ser tarde, e elles sem darem fé, enlevados como iam no desejo +louco de alcançar a estrella. + +A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um +silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a +agua da corrente ia espumando na quilha, com certo ruido de uma brandura +suavissima e doce. + +...Mas os braços cada vez doiam mais!... + +Agora, no céo, havia muitas estrellas brilhantes, muitas, mas nenhuma +como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar +menos para ella, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o +peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço. + +...E os braços sempre a doerem!... + +Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente, +cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo do leme, +sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do subito desleixo do outro. + +...E os braços já não doiam, nem ao de leve sequer... + +O pequeno barco vogava agora á mercê da corrente, sem impulso algum +extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das respirações dos dois +pequenos adormecidos... + +Algum tempo assim. Senão quando, um ruido surdo, e logo um movimento +brusco de balanço, fez acordar o do leme. + +Na grande allucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou +immediatamente: + +--Manuel! Ó Manuel! + +O remador acordou, sobresaltado. + +--A estrella? Ainda lá está, olha!--disse incoherente, estonteado pelo +somno. + +--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!—-continuou +afflicto o Antonio. + +--Então não lhe passamos adeante?--perguntou ingenuamente o Manuel, +referindo-se ainda á estrella. + +Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o á realidade, +de novo lhe gritou, com lagrimas na voz: + +--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel! + +E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um +choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel +susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho +aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o +psalmodear monotono e rouco de uma legião de espiritos maus, +preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os +rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que +n'um requinte de malvada indifferença houvessem jurado assistir +impassiveis e mudos á escura tragedia da sua desgraça. + +E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem d'alli. +Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguem +viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os seus afflictivos +gritos. + +Crudelissimo transe!... + +E então os braços continuavam a doer, doia-lhes agora o corpo todo, ao +mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes opprimia o +espirito, parece que embrutecendo-os. + +--Mas a estrella sempre além...--notou ainda o Manuel, balbuciante de +medo, como se quizesse increpar a propria estrella da sua indifferença +criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio em que por causa d'ella +se haviam precipitado.--Se ella podesse acudir-nos... + +Até que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo se deixaram +adormecer, era já alta noite. + +Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte não +cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após +tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as aguas se +contorciam em remoinho, e entrou de girar com elle, violentamente. +Quando a agua se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de +subito acordados romperam em gritos lancinantes: + +--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale! + +Tinha surgido a manhã, serena, tranquilla, cheia de gorgeios e de azul. +Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual, n'um repelão +mais violento o pobre barco esphacelado investiu de proa com o abysmo e +lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo paroxismo da sua +enorme dor desesperada, os dois irmãositos abraçados sumiram-se tambem +com elle!... + + * * * * * + +...N'esse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrella +feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!... + + + + +MÃE! + +_Ao dr. J.C. da Moita Prego_ + + +Bella cabra, a Russa!--posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada, +luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva +de porte quando á frente do rebanho parecia commandal-o, badalando +cadencialmente o seu chocalho enorme--tlão! tlão! Era no rebanho a que +mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilancias particulares no +seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia arvore a que +não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não +triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora. + +E depois, alli onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas +vezes illudira ella a attenção do pastor, e se ficara por hortas e +quintalorios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro. +Por isso Alipio José, pastor, a quem doiam as denuncias, ao pescoço da +Russa prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais facil +rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito mais +grave. + +Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia +gosto vel-a trepar ás ultimas cumiadas, subir destemidamente ás arestas +superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas, +pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as hervas dos declives +alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com +abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e corregos, +saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas excursões +arriscadas de _touriste_. + +Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e +então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de +garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que +encontrasse por essas paragens era para ella um desespero--tamanha a +furia com que a perseguia, e a insistencia com que se ficava ás marradas +na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o +Alipio que dormia á sombra das azinheiras, de chapeu sobre a cara, +levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu +vozeirão que fazia echo: + +--Toma tento, Russa! + +E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos +fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alipio José +ficava-se a olhar a cabra, invejoso d'aquella facilidade em subir aos +ultimos pinaculos, admirado dos saltos que ella fazia para salvar +gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria +infallivel. E por lá andava dias inteiros a Russa, n'aquella +vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho, +resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam +ninho. + + * * * * * + +Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por lá se +deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia +quiz ella descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem +vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio José gritara cá debaixo, cada +vez mais desesperado: + +--Volta ao rebanho, Russa! + +E, cuidando que mais lhe feria assim a attenção, punha-se a agitar com +furia o mólho dos chocalhos, gritando sem cessar: + +--Russa! torna ao rebanho, Russa! + +Mas impossivel! que a não deixava a quebreira em que toda ella ficara do +parto, nem o pequeno poderia--pobresinho!--descer por taes ladeiras, de +pedregosas e asperas que eram. + +Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno +congelava unindo-se á mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o +aconchegava mais e mais para lhe transmittir o natural calor do seu +corpo enfraquecido e doente. + +Por altas horas da noite, na solidão lugubre d'aquelle sitio, +alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava +lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido da mãe, +traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao vagido fraco do +filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a +instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros. + +Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por taes frios e doenças, +impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e +mais n'um como abraço de eterna despedida--amigos que se iam apartar +para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade, +soluçando e gemendo, n'um adeus! que era infinito, como o infinito amor +que os unia... + +E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava +lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fôra o signal +para o transe derradeiro... + +Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abobada, as +estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa indifferença por aquella +dôr suprema de que eram as unicas testemunhas. + +E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céo a vida +do filho, ao menos,--ora supplice em balidos de resignação que uma +profundissima dôr ungia, ora desvairada e louca, em gritos que +significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o céo que a +não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe +estrangular o filhinho que ella amava tanto. + +E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dôr--a ironia acerba da +chocalhada longinqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra +banda, deixando-a a ella sósinha com o filho, á espera da morte que era +inevitavel. + +Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar +fóra o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, n'um adeus! adeus! +de despedida ás companheiras felizes que lá iam, n'um ruido longinquo de +chocalhos... + + * * * * * + +N'aquella solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol +entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam +e o sangue circulava. + +E o cabritinho sem poder ainda descer!... + +De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as +escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e tremula, como +que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas +horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio, +lá baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio. + +Impossivel! impossivel! + +E sentia-se enfraquecer á mingua de sustento, pois a herva, por alli, +estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres dias. + +N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes +e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o +chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que +o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, +assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo... + +Impossivel! impossivel! + +Nada que signifique a dôr d'aquella mãe, e traduzir possa em linguagem +toda a gamma de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se +de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia, +estendido para alli, na prostração pesada do ultimo desalento; animava-o +com caricias, aproximava-lhe da bocca os uberes já flaccidos e +amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse levar +ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe +afflictivo... + +Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a ultima +cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam +subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. Á medida que a treva +se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte, accentuando-se +cada vez mais a melopéa somnolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo +ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos volateis de +arminho, cortavam em vôos mansos a profundidade calma do céo, demandando +os pombaes e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo. +Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um +chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos +estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas rastejavam apressados os +reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama... + +...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem +passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda +a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou alegremente o seu +dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia ámanhã... + +Só a desgraçada cabra, alli, junto do filho tenro, não mais fizera +passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração +alanceado de mãe. Ahi vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o +filho que já tremia a ella aconchegado--o triste pobresinho! + +Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante +n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céo era +baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a espaços a abobada, irradiando +uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em ultimos transes de +creanças, em que a vida gradualmente se extinguisse, n'um latejar +vagaroso de palpebras somnolentas... + +Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva +apparencia da atmosphera e do céo. Noite peor do que as outras, porém +com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e +nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancal-os do abraço em que +se uniram, mal cerrara a noite! + +A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em +rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos, +accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade +esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a +que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz sinistra +na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retrahia-se n'um +como pavôr medonho, concentrado de intimos terrores e silencios lobregos +d'horas altas. Cerrava-se mais no céo a phalange muda das nuvens, +densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas, sem +scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem... + +E sempre, e constantemente immoveis na escuridão pesada, aquelles dois +olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a +treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando +convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme dôr, a pobre mãe não +ousava arriscar um unico movimento e mais e mais cerrava contra si o +corpo inanimado do filhito que parecia adormecido. + +Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes, quasi +eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis angustias, +vasias de esperança na vida do seu pequenino filho. + +De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de +novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distancia. Estremeceu a +pobre de subita alegria,--e no abalo que soffreu o seu corpo, até então +retrahido, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a +desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleoptéros de azas +phosphorescentes, os olhos até então immoveis do inimigo. E por alli +levou a noite toda, farejando e uivando, até que cançado de perscrutar o +insondavel, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada +que vinha, docemente, alumiando pincaros e arestas. + + * * * * * + +Ao romper d'alva o céo era azul. Apenas de longe em longe pennachos de +nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam +lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando, +diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações +imperceptiveis e suaves. + +Começavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina accusava já as +differenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados +de restolhos, tons pardos de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e +pinheiraes cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céo no +alto dos montados. + +Pelas ladeiras d'além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao +areal da margem. Em turbilhões de espuma alvissima precipitava-se a agua +nos açudes, marulhando nos altos penedos marginaes, denegridos e +informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto do moinho, lá +em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se tranquillamente no ar +sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma +ambição ou como um sonho... + + * * * * * + +Foi então que Alipio José, á frente do rebanho, de novo abordou áquellas +paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada. + +--Russa! torna ao rebanho, Russa! + +Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida +sobre o cadaver do pobre filhinho morto!... + +E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos +rochedos--passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a +esfaimada legião dos amaldiçoados corvos... + + + + +ARRULHOS + +_A.M. da Silva Gayo_. + + +Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orificios +triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impeccavel do +muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de distancia. + +--Pombal da Morgada! diziam.--Lá se vê além...--E um gesto muito longo +levava a vista horizontes fóra, á cata do Pombal da Morgada, que +alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros, +como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e osso +provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde +seriam encantadoras as tardes quentes de estio, á sombra de arvores +seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda, pardalada sonora, +gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa semceremonia--frangãos +assados e boa vinhaça da terra. + +Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A +Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e +outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte +desastrada do noivo--um trambulhão de um cavallo que o matara logo alli, +sem mais pio, n'um ai. + +A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera na +vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a +castidade das suas intenções d'elle... + +Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procreou, vieram pombos +novos--todos brancos uns, rajados outros, de um _gris_ delicadissimo +alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos. + +Bellos pombos, na verdade! + +Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo começavam de esbater-se +n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas +entrava de se desfazer em imperceptiveis _nuances_ subtis, n'um +_smorzando_ melancholico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem +caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida +cessava no campo e começava no céo em scintillações argenteas de +estrellas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a +estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto, +espalhando no pavimento terreo, com solicitudes de _menagère_, as +provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço--milho em +abundancia e fartura de alpista. + +Assim todas as tardes, ia já em quatro annos, que não havia forças que +levassem a Morgada para fóra do seu pequeno solar, onde vivia só, +retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel a pedidos de amigas +que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e que a queriam levar +para que se distrahisse, para que se alegrasse--«era nova ainda, podia +arranjar noivo, nada mais facil...» + +--E as pombas? objectava.--Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo. +Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que +matassem, haviam-de até roubal-as, entrar de noite no pombal, leval-as +todas. + +--Que não e que não! insistia renitente;--que tivessem paciencia, que se +divertissem muito, ella ficava. + +--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que +rebentou do trambolhão. Bem tola! + +E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a +ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da simplicidade +habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um +pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma préga, nem sequer um laço. + +Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não +desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de hoje para ámanhã, +desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortavel, muito +abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram +flaccidos--folhas de milho mudadas cada dois dias. + +Que bom, ser pombo da Morgada! + +A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, começava com o +aclarar, muito cedo, depois do descanço do somno na placidez do ninho, +quando as forças eram sãs e as azas pediam vôos. + +Hora dos amores! + +Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente, +lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam, +ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam, +possuindo-as á força, a tremer, azas em concha, pennugem erriçada, +arrulhando muito, arrulhando sempre, cahindo desfallecidos depois, +hirtos, palpebras cerradas, trementes, frementes, em spasmos de luxuria +e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de +contentes, sacudindo as azas, pescoço levantado, orgulhosas talvez, +muito felizes. + +Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo, +quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, n'uma +doçura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo +ás boas, não querendo violencias, detestando-as, bem se via, +supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos, redobravam os +carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de +pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos--beijos +com certeza. + +Isto todos os dias, nas manhãs ennevoadas especialmente. Imagine-se a +vida do pombal áquellas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas +mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que +queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava; +e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era +sanguineo e quem era pachorrento. + +Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um +pousava, retomando vôo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma +direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, n'um +ruido muito doce de bicos que sorviam. + +Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a +Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao +balcão da sua janella, alegre de trepadeiras em flôr, pousar-lhe nos +hombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não +sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lagrimas, mas +que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis: + +--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida... + +D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios felisões, vida +de concubinagem, n'uma promiscuidade sem limites e n'uma libertinagem de +harem. + +Polygamia desenfreada! + +Excepção a ella, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba +branca, de uma alvura impeccavel de neve, e então um pombo rajado, preto +e cinzento, de _nuances_ azues-escuras, ares aguerridos de luctador +vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador. + +Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e +spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de pescoço, +nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a, sem arrulhos previos, +sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe +entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe no ninho, disputando +primazias á força de bicadas. + +E umas atraz de outras, e dias após dias, sempre assim! + +Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar logar +a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado d'elle, paciente, +resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito +meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o ufanava, +incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as +outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam +entregar a outros, e de se affeiçoar á branca, a ella só, acarinhando-a +muito, arrulhando com ella, alternadamente, ora um ora outro, gemendo +amores. + +Não imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da desordem, da +perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instinctos commodos de +polygamia, tão avesso a duetos d'aquella natureza, onde os pombos eram +de todos e as pombas eram communs. + +E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias +inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava de +egoista. E quando saíam não se juntavam com os outros--uma desfeita! uma +offensa!--tomavam rumo differente: para a direita se os outros iam para +a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao +contrario. + +Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os +encontravam no pombal, em ninhos contiguos a principio, no mesmo ninho +depois! + +Um escandalo! Um desaforo! + +E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas. + +Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar +forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se +isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as azas, +levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo +quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados... + +Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a pomba +branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia depois, +luctava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do +pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além, +entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido de azas, receiando +acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido +sob a aza veludinea. + +Dois mezes assim--dois mezes!--n'uma fidelidade conjugal ininterrupta, +digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheço, que os +senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e +esplendida de alegrias, passada em bellas digressões campos fóra, +pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo +de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez... + +Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter desconfianças, suspeitas +de inconstancias e receios de infidelidades, de noite, emquanto dormia. +Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos, +modos de enfadada ás vezes, certas perrices, resistencias mal +disfarçadas. Ficava-se em casa se o rajado sahia, impassivel a +supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e quebramentos +de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o vôo, tomava para norte se o +rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir. + +Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam--rameira do +rajado!--um dia levantou vôo e fez-se ao largo. + + * * * * * + +Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao +_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de +_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, á prova de +rheumatismo e á prova de vintem, felizes na sua pobreza, amigos das +creanças, bem humorados sempre, flôres de uma arvore que ora vae dando +cardos. Perto do solar da Morgada, a tres kilometros só, havia um assim, +o abbade das Donas, bom prégador n'outras eras, com famas de theologo +ainda ao tempo. + +--Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!--era assim que +muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins, +sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos. + +--Theologia velha, diziam, a genuina! + +A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes +a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era +terreo, rimas de lenha secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha, +um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para +um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que +estavam. + +Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas devoções, e n'essa tarde +quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, oculos na +ponta do nariz, breviario na mão direita, a dois palmos, a esquerda a +segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solideo com borla +resguardando-lhe a calvicie. + +A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações +de desgosto, arremessos de breviario, e por fim levantando a voz: + +--Fome as pombas, sr.^a Luiza: não fazem senão saltar... + +--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,--mas têm lá +visita, pomba que arribou. + +E depois informando: + +--Pomba guapa, toda branca. São agora tres ao todo, e então o pombo... + +--Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.--Percebo... percebo +perfeitamente...--E foi metter-se no quarto, continuar a +leitura.--Deixal-as! concluiu evangelico. + +Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar á reles +pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um caixão velho, com +grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'alli ao fundo da +varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros, um nojo. + +Quando a mostrava á creada, o abbade dizia-lhe sempre: + +--A sua vergonha, sr.^a Luiza; a vergonha da sua cara. Como se os +animaes não fossem tambem creaturas de Deus... + +As pombas eram magras e o pombo era esqueletico. + +Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a +alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que ambos +se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e bem +tratada, flaccida de pennugens e de carnação consistente, apetitosa, o +pombo não a largava--genio de libertino em corpo de tisico. + +Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se +queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida, +tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do +rajado, o seu primeiro amor, quem sabe! + +E depois, o pombo sujo já não se importava com ella, desprezava-a, +tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras, dando-lhe maus +tratos,--á intrusa. Dôr incomparavel! + +Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar, +descançando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando +sempre, arrastando-se em vôos baixos, sentindo vertigens se subia mais +alto. Para passar um ribeiro descançou uma hora, e quando cobrou alento +e começou o vôo, viu-se na agua e estremeceu, molhou ainda as azas, viu +um corvo na sua propria imagem, um corvo negro que a perseguia +silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ella tinha +sido e o que era!... + +Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do rajado... Oh! o +rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a quereria, tinha pomba, +decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um vôo valente e +estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda. + +Fez-se de vôo e partiu. + + * * * * * + +A manhã era calma e o céo era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar +que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva +tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra cançada e +adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado +esplendido--decoração triumphal com que se orna aguardando a visita de +quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando +tudo--o cardo que rasteja e o cedro que vê longe... + +N'aquelle repontar da manhã, o alto céo era de uma limpidez crystallina. +Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcissima paz, e +pelas ramagens verdejantes a volata suavissima dos ninhos começava, como +uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras, +florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa d'alva. + +Em manhãs placidas como aquella, quantas vezes a branca não fizera as +suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do rajado, +perdendo-se com elle atravez do horizonte áquella hora tranquillo e para +toda a banda transparente! + +Como tudo isto lembrava, agora! + +Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam descançado muitas +vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura ineffavel o amor +extraordinario que os unia! Em toda a largura não se descobria um só +campanario ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres, +contentes, doidos! E ella sempre ufana, acompanhava o macho nos seus +vôos ainda os mais arrojados, perdia-se com elle para além das serranias +mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que +empenharia a vida só para salvar a da amante. + +E que bella manhã, aquella! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras +acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu vôo perpendicular e +rapido! + +Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos; +melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a +largura--nem uma aza de pomba palpitava. Ella só, desalentada e cheia de +maguas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte... + +Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as azas +contra o muro, arremettendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a +coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos +companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e +arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo +muito as azas combinando ataque. + +E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a +passagem. + +De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou vôo +n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a +desgraçada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue nos bicos e pennas +voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam com furia. Por +fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado, +bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho guttural de +vida que se esvae lentamente, gradualmente, com dôr. Um estremecimento +de membros por fim, uma agitação geral repentina, e--morta! + +Ares além, os assassinos em bando voavam á busca talvez de um ribeiro +onde lavassem os bicos ensanguentados... + + * * * * * + +E o rajado?--hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e +vel-o-hão sair da janella das trepadeiras, alegres, felizão, bohemio, +depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um +leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ella, +arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando... + + + + +BATALHAS DOMESTICAS + + + + +BATALHAS DOMESTICAS[1] + +_A Luiz Trigueiros_. + + +Para o meu proposito, é inutil narrar-lhes esse pequenino e perfumado +idyllio, côr de roza, que foi na vida d'ambos, durante um anno, o seu +mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim Seabra, maior, +empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno uma furiosa +vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda elle era fedelho: e +passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma doença complicada +levara-lhe tambem o pae--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas +leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira, +nas abas da serra da Estrella. + +Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lh'os. E +quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo +peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob a umbella branca de +grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu o padre de que em +podendo lhe desejava uma palavra. + +--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor. + +Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente, +junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho, +entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo +de lhe murmurar, designando vagamente o filho: + +--O pequeno, coitadinho! + +De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos, +veio metter o orphão, como marçano, n'uma loja de ferragens da baixa, +loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para +uns saguões de predios contiguos. De marçano subiu com o tempo a +caixeiro; e como era applicado, humilde, supportando com uma placidez +resignada de beirão um trabalho por vezes superior ás suas forças, pulou +um dia para a escrevaninha da casa, no andar de cima, vaga pela sahida +para a cadeia do outro que commettera umas falcatruas. + +--Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera deante dos patrões o +Joaquim. + +E a incisiva phrase que fôra, emquanto remexia a papelada, todo o seu +commentario ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a +involuntaria conquista do logar, como revelação, que era, das qualidades +fundamentaes do seu caracter,--communs, de resto, ao typo beirão, +profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no fundo generoso e bom. + +A vida começou então a ter para elle umas entreabertas mais risonhas, +livre d'essa prisão estreita da escura loja, onde os seus instinctos +hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma natureza +barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos +repelões de rebelião... Até que um dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo +á escrevaninha o assaltavam, pensou em ir á terra onde não voltara desde +pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E n'uma +introversão de momentos, mirando atravez da janella o claro céo azul, +alto n'aquella manhã serena de maio, o Seabra teve a remota visão do seu +passado--das coisas da sua infancia, da sua pobre e humilde aldeia +encravada n'um declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente +de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo +invertido, elle lá via além, muito longe para as suggestões do seu +desejo, muito afastado para as debeis reminiscencias da sua memoria, +tudo isso que elle dizia em tres palavras--«a minha terra!»--isto é, +esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo +do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja oblonga; a fita +branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua mãe jaziam; a paizagem +circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de prata +serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a +velha legião amiga das arvores--o zimbro ao alto dos môrros nús; depois, +descendo, as urzes brancas; os piornos; os bellos carvalhos altivos; e +já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agricola e horticola o +verde e tenro parasol das suas soberbas folhas--o castanheiro, emfim. + +Atravez da sua vida de balcão, duramente moirejada a mover barras de +ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com +intermittencias raras de descanço, algum domingo, pelas hortas dos +arredores, ou ás vezes n'um bote, pelo Tejo,--a sensação melancolica da +sua paizagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cerebro, nem tão +pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infancia, dos seus +companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, á +lição a casa do reitor, n'aquelle velho sotão da residencia, com paredes +denegridas e tecto de madeira com manchas... + +E que seria feito d'elles? Talvez que os não conhecesse, que o não +reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta desconfiança, dava ao +seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua +bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto +subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim, a propor +aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azues e +toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso, espontaneamente, +insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda +solteira... + +...a Emilia! + +E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente á historia +que lhes vou contando, a chronica preliminar d'esse consorcio, direi que +a velha estola do reitor os uniu emfim uma manhã--manhã de julho, na +velha e ampla igreja da freguezia, toda banhada de sol, toda rumorejante +de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva alegre de +pétalas, a saraivada metalica dos sinos, repicando... Até que passados +dias, eil-os emfim em Lisboa, installados não sei em que beco da Baixa, +perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o +escriptorio. + +E aqui rompe a historia; e se é do agrado dos senhores, comecemos. + + * * * * * + +Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa, +toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no +amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a +mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por +outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e +trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a +homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas +naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas +do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saude, +explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de vontades que os +dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro +avesso nos seus desejos, sem a minima divergencia no seu modo de vêr e +de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que nas suas +naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio +visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer nullo, sem +consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo periodo passado +em latitudes differentes:--ella, onde ambos tinham nascido, debaixo do +mesmo céo, á luz do mesmo sol, á sombra das mesmas arvores; elle, +sequestrado de tudo isso, mas n'um meio sem côr para elle definida, +pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se +conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente +debaixo do luar melancolico... + +Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas +superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao +rythmo da mesma canção, essa forte, dulcissima corrente de ternura +espiritualisada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e +fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada +efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia tambem no sangue +d'ambos--bem como no seio de um diamante as iriações mordentes--as +rubras, incandescentes faulhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se +quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo, +vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas +classicas, por umas cabecitas loiras de creanças, frescas, ridentes, côr +de rosa... + +D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado idyllio, +côr de rosa, que fôra na vida de ambos, durante um anno, o seu mais vivo +encanto... + + * * * * * + +Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escriptorio, noite cerrada +já, quando uma rapariguita que lhes servia de creada havia dois dias, +vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no accento beirão: + +--A minha madrinha está muito mal. + +--Muito mal? + +--Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê. + +Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se á hombreira, +para não cahir, sentiu passar-lhe pelo cerebro, como um tufão de peste, +uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um presentimento... E cobrando +alentos, confuso deante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz +trémula, no tom de quem procura, compromettido e humilde, esconder um +pensamento: + +--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio +da Beira. + +--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como +doida... + +--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso. + +E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do +andar de baixo,--talvez alguem que o procurasse!--fechou a porta com +força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto +impondo silencio, com a mão sobre a bocca arquejante da rapariga. + +--Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo--Se te calares hei-de te +dar dinheiro. Cala-te. + +A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um +novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo o +predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem +nas ruas proximas, o Seabra tomou nos braços trémulos a pequena, e foi, +cauteloso como um bandido, leval-a á cama. + +--Ouves, Luiza? Não faças bulha. Dorme. + +E fechando-lhe a porta á chave, respirou, hirto no meio do corredor em +trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio, aquella +escuridão impenetravel! E elle, como um cataleptico, alli encafuado +vivo...--triturado pela magua, roido pela dôr, desfeito pela desgraça, +como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem, +implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua carne, +sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas até da sua +propria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no +emtanto... morto: vivo para a sensação esphaceladora da sua atroz +desgraça, do seu cruel, cruciantissimo martyrio; morto, aniquillado, +desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças...--as suas +esperanças! revoada alegre de pombas, candidas, serenas, immaculadas, +que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e +para sempre... + +E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma prostração de louco +embriagado, dir-se-hia que o cerebro deixara de funccionar n'esse +infeliz--como relogio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e +que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava! +era essa impressão anniquilladora do _Nada_, que o fundia na treva +circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e +tanto e tão intimamente, que elle proprio n'ella se sentia diluido, e no +silencio... + +Subito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado alli de +perto como um reptil, escoado alli de perto, como um verme, +phosphorejante na treva á semelhança de um demonio, que agitasse um +_pierrot_ de cascaveis,--uma centelha de vida animou esse corpo +aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar, como luz de +lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma de uma +ideia... E teve então de si proprio a extranha, diabolica visão de um +esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco immovel +das orbitas, d'onde dois feixes de luz escorriam--aquelle trapo +miserando alli cahido, informe, esqualido, repellente, montão de gelo, e +lagrimas, e trevas...--que era elle tambem!... + +Entretanto, e como por força mesmo d'essa allucinação desvairada e +tragica, o cerebro perdera n'elle a recta, serena faculdade do +raciocinio, elle continuava absorto, incomprehendido, estupido, deante +da «sua desgraça»--como deante de um grande mar de negrume, profundo e +estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céo sem estrellas, +torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um espectro... E +assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos irracional,--mudo, +aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo +de um poço um bloco inanimado... + + * * * * * + +No escuro do seu cubiculo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a +propria treva soluçasse, esse chorar abafado da creança, espavorida das +coisas que a cercavam, para ella mysteriosas e funebres. Era como se um +alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido +de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um vôo de acaso, +na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de +velho muro, abandonado algures... + +E porque viera? E para que viera? Não sabia. No emtanto, ao contrario do +que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada de profunda +nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, atravez do qual passavam +os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois +dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo! +E não tornara mais a vêr passaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã, +tocando á missa d'alva, tangendo á tarde a Ave-Marias, o seu querido e +alegre sino d'aldeia...--além, n'aquella riba suave e pittoresca, +prateada, beijada do luar áquella hora!... E o fio do seu pensamento, +que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como pequenino +arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas, +torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido n'um +veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fôra de lagrimas, +occulto sob a folhagem pallida... + + * * * * * + +A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto +da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez +dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como +acontece ás tempestades da natureza, tambem a tempestade d'aquella alma +de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente, +gradualmente. Chorou. E como se fôra o véo das lagrimas que lhe não +deixára vêr até então os pormenores do seu infortunio, d'este +permittindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se +fazer com a vasante mais lucido o raciocinio, mais precisa e mais +esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro, como luz que pouco a +pouco vae surgindo na lampada de um claustro, allumiando nitidamente, +sob o docel frio das sombras, as arestas marmoreas de um sepulcro... + +Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas +linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade +rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde secca de maio. E foram +então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina, +por entre as maxillas ferradas, do fundo do peito em ancias. Então foi o +arrancar convulsivo dos cabellos, ás guinadas, teimosamente, n'um duello +de loucura com a dôr physica, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a +beber o proprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes, +lacerantes como se foram de abutre. + +--Ah! raios do céo, e não morro! + +E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao chão, como +beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe então +o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrivel de que se +divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a +conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e +todo elle se sentia gelado até ao mais intimo da sua alma, suppondo-se +na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando adherente ás costas, +como um ferrete ou como um caustico o olhar de «toda a gente»... E com +as unhas ferradas na testa, escondia da propria treva, com as mãos +ambas, o rosto cobarde e arrepanhado. + +--Diabos do inferno! levae-me! + +A este novo grito, porém, subito se recolheu n'um grande pavor +religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce, +harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um +casal... E teve a doce visão de um arco-iris, bonançoso e rutilante, +repontando luminoso no borel asperrimo da sua alma, onde uma clareira se +abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas tranquillas, +que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba alvinitente, que +transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor: + +--Deus! + +E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um +como enlevo de visão, um ruflar de azas de pombas... á hora d'alva... +sobre os campos... n'uma clara manhã de maio, perfumada... + +E como se mão invisivel o erguesse, de vagar, serenamente, enxugando-lhe +da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta alli pela sua +alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contiguo, onde +sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi +submissamente, como um cão duramente batido que volta aos affagos do +dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos, pallidos, +desbotados, ao claro luar vindo do céo, o triste uniu os seus labios +frementes,--...n'um beijo suavissimo de perdão. Ao mesmo tempo que ella, +n'um delirio, repetia a phrase cruel: + +--Mais vinho! + + + + +NOTAS: + +[1] Sendo necessario completar o numero preestabelecido de paginas de +cada volume d'esta _Collecção_, numero além do qual se não póde ir e +aquem do qual se não deve ficar,--o editor pediu e obteve do auctor, em +vez de novo conto, um excerpto do seu livro em preparação, livro +provisoriamente baptisado com o titulo de _Batalhas domesticas_. O +excerpto póde dizer-se que constitue só por si, como os leitores verão, +um trabalho litterario, independente e uno, o que de certo modo lhe dá +logar n'esta collecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além +disso, a transição do espirito do auctor para uma nova phase, litteraria +e artistica. + +N. do E. + + + + +INDICE + + +Idyllio rustico + +Sultão + +Ultima dadiva + +Preludios de festa + +Typos da terra + +V[ae] Victoribus + +Maricas + +Para a escola + +Tragedia rustica + +Abyssus abyssum + +Mãe + +Arrulhos + +Batalhas domesticas + + + + +OS MEUS AMORES E A CRITICA + + +Da Revista Illustrada (extracto da chronica):--«..._Os meus amores_, de +Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições +agradabilissimas ao paladar d'ambos os sexos, e com delicadas +circumstancias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das +preoccupações litterarias mais evidentes d'este escriptor primoroso é +fazer jus á amisade das leitoras, e como dispõe de pericia no ferir de +certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento, +consegue-o.--_Alfredo Mesquita_. + + +Jornal da Noite:--«Trindade Coelho--Este illustre escriptor, nosso +talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo +livro de contos _Os meus amores_. + +De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das +lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distinctamente, +e impõe-se á admiração dos que apreciam os talentos brilhantes +privilegiados. + +Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e +encantadora são dignos do maior apreço, pela elegancia da fórma, +burilada a primor n'um estylo finissimo e scintillante, despertam os +mais francos, sinceros e enthusiasticos encomios dos que os lêem. + +Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello +caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos +serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distincto collega.» + + +Diario Popular:--«_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de +graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo, que +acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho. + +O escriptor, como verdadeiro artista que é, localisa todas as suas +attenções, de ha muito, no trabalho de apprehender com fidelidade o +viver campezino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi +berço. Por isso o seu fabrico litterario se aprimora de dia para dia +n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito: _Os meus +amores_ o attestam, quando postos em parallelo com os primeiros contos +publicados avulso. + +Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e +consegue photographar com particular exactidão. Em vez dos descriptivos, +quasi despresados, são trechos successivos de conversas d'uma +encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de todas as +suas producções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho +pessoal da sua obra, que proporciona agradaveis e confortaveis momentos +de leitura.» + +Diario Illustrado:--«Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um +admiravel soneto de Luiz Osorio, que depômos nas mãos da leitora, como o +perfumado ramo de cravos valencianos, a flôr actual das suas +predilecções femininas: (_segue o soneto incial_.) + +E pelo braço do poeta da _Alma lyrica_ subimos ao doce convivio +espiritual da alma de Trindade Coelho. + +O conto _Mãe_, uma rica joia engastada n'este livro, brilhando ahi por +todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte +de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para +aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante +estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e +melodico, o diploma do seu notavel talento. + +É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade +espontanea que estes contos nos captivam. + +O auctor diz-nos, sem preoccupações de escola e sem pretenções a abrir +caminho pela deslocação do vocabulo ou pela selva escura do escandalo, o +que viu, analysou, observou e sentiu. + +As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam +suavemente, tocadas a espaços de uma inegualavel melancolia +contemplativa que lhes duplica o encanto. + +Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade +Coelho revela o superior poder evocativo da visão intima, que o +singularisa. + +A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle, +como para todos os artistas de raça, attitudes, expressões, côres e +sons, que o auctor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora +eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento, que só nos +transmitte a simples leitura dos poetas. + +Ha rapidos traços de analyse emotiva ou de commoção reflexa que valem +poemas. + +E não serão o _Idylio rustico_, a _Mãe_ e outros contos, soberbamente +delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa? + +Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo +seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o +seu primeiro triumpho.--_Gabriel Claudio_.» + + +Jornal do Porto:--«_Os meus amores_.--A collecção Antonio Maria Pereira +augmentou se d'um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e +está escripto pelo nosso illustre collega e litterato distincto o sr. +Trindade Coelhho. + +D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve +achar grande acceitação no nosso publico, escreveremos em breve as +palavras apreciadoras que elle merece.» + + +Correio Elvense_:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado +escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a +que deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de +Antonio Maria Pereira. + +Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da +capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa +em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que +tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto +estylista. + +Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor +que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus +triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons +e sinceros amigos. + +N'um dos proximos numeros falaremos da impressão colhida em _Os meus +amores_, agradecendo desde já as expressões affectuosissimas que +acompanham a dedicatoria do livro, que o seu auctor nos offertou.» + + +Correio do Norte:--«_Os meus amores_.--Contos e balladas.--Trindade +Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escriptor, acaba de publicar um +livro de contos com o titulo acima indicado. É esta uma bella novidade +para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de ha muito soube +conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello talento e +poderosas qualidades de escriptor. + +Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do +novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle. + +Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu +offerecimento.» + + +O Globo:--«_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de +Antonio Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome +de Trindade Coelho. + +Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser por certo +trabalho de grande valor artistico, como invenção e como execução, +porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra litteraria má. A +sua educação litteraria está feita, e os seus numerosos trabalhos tão +apreciados, tão portuguezmente escriptos, tão sentidos e tão espontaneos +revelam qualidades de escriptor de raça. Elle tanto póde ser um +jornalista eminente como é um contista original. + +_Os meus amores_ é uma collecção de contos e balladas. Conhecemos alguns +capitulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para +não errar na apreciação. Vamos lel-o com a convicção de que teremos de +saborear um d'esses raros mimos litterarios que só os privilegiados de +talento sabem offerecer aos seus leitores.» + + +Diario de Noticias:--«_Os meus amores_.--_Contos e +balladas_.--Anunciámos, em tempo, o proximo apparecimento d'este +trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do _Portugal_, o +sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collecção, já tão valiosa, das +edições do sr. Antonio Maria Pereira. + +O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que +desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do +seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores. + +Com uma observação escrupulosa, e um pittoresco estylo, d'uma pujança e +d'uma riqueza não vulgares, sem attentados contra o bom gosto, nem +rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade Coelho são, a +todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que ha-de entrar, sem +hesitações, na acceitação do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a +attestar, n'uma formosa prova, a riqueza de um espirito, superiormente +educado, ductil e promptamente malleavel. + +Porque esses contos são a obra de um genuino artista, cuja _maneira_, +simultaneamente facil e apuradissima, revelando a espontaneidade de uma +fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma +delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de +seiva. + +Não póde entrar nos curtos limites de uma simples noticia, a mais +desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na proprio nome do seu +auctor, o melhor e o mais seguro titulo de recommendação para obter do +publico a consagração de um largo e legitimo successo. + +Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz +Osorio--preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle +rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias litterarias.» + + +A Actualidade:--«_Os meus amores_.--Este nome é o de um novo livro da +collecção Antonio Maria Pereira. Pelo titulo presume-se um volume de +versos; mas não é, o que não quer dizer que n'elle se não surprehenda +legitima poesia. Trata-se de contos e balladas, originaes do sr. +Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escriptores. + +Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso +contista: + +Estylo correcto, elegante, vivo; descripções ricas de observação e +attrahentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da fórma; despidos de +grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita +naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre +tudo, pela propriedade. + +Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do sr. Trindade Coelho, +deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as +narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idylio rustico_, +que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se +encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notavel poder +de observação e que deixam o espirito suavemente impressionado. Leiam, e +verão que não exageramos na opinião que ahi deixamos rapidamente +exposta. + +Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.» + + +Correio da Manhã:--«Registar o apparecimento de um livro bom, linguagem +elevada e singella, desartificioso e artistico, repositorio vasto de +observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é +sempre agradavel á chronica, n'este tempo sobretudo de litteratura +gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica. + +_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos offerecer sr. Trindade +Coelho é um livro d'esses. Collecção primorosa de contos e balladas, em +que no mais despretencioso dos estylos nos conta recordações e idylios e +nos mostra uma galeria rica de typos e de figuras cuidadosamente +observados e primorosamente expostos. + +O ultimo conto _Para a escola_, que d'essa bella collecção acabamos de +ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assimelha se +notavelmente á maneira de Gustavo Droz. + +Não é o logar nem a accasião de fazermos a critica do livro e a +apreciação d'este novo, d'este debutante, que ao primeiro assalto parece +estar já senhor da batalha. + +É por isso que sinceramente o felicitamos.» + + +Vanguarda:--«_Os meus amores_.--O nosso collega, o sr. Trindade Coelho, +que quasi só conheciamos pelos seus libellos accusatorios, acaba de nos +enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a feição carregada e +sombria do agente do ministerio publico desapparece por completo, para +nos deixar apreciar só o espirito finalmente delicado do homem de +lettras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente +sabedor do seu officio. + +Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o +outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do +ministerio publico, que parece lhe oblitera ás vezes as suas excellentes +faculdades.» + + +Primeiro de Janeiro:--«_Os meus amores_.--Acabamos de receber o +formosissimo livro de contos «_Os meus amores_», de Trindade Coelho. + +Não é ainda a occasião de pôrmos em relevo todas as qualidades +litterarias, complexas e brilhantissimas, que se evidenciam n'este +livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assignalaveis entre os +mais illustres cultores da prosa portugueza. + +Os contos por onde «_Os meus amores_» se repartem não são apenas +maravilhas de linguagem, onde tão sómente se destaquem dextrezas e +fulgurações do estylo: a acção que os anima constitue uma deliciosa +galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em +flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de observação e +trasladados a uma fórma superiormente artistica, onde ha firmemente +accentuados todos os caracteres de uma esplendida organisação +litteraria. + +É um livro vibrante e magnifico--adoraveis paginas intensamente ou +delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas, cuja leitura é um +verdadeiro encanto. + +As nossas cordeaes felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a +gentilissima offerta do seu livro.» + + +Folha do Povo:--«_Os meus amores_.--Esta publicada em volume uma série +de _contos e balladas_ com que o sr. Trindade Coelho, o brilhante +collaborador do _Portugal_, vem enriquecer a litteratura _contista_ +entre nós, hoje tão querida do publico, depois que os trabalhos de +Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um valor até então +mesquinho. + +A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e balladas_ do sr. +Trindade Coelho é um estylo muito seu, cheio de uma crystallina +naturalidade, _affastando-se completamente d'essas excrescencias de mau +gosto_, que ultimamente têm abastardado a lingua portugueza,--prova da +superioridade intellectual do escriptor de que nos occupamos--, visto +que não mira a uma falsa gloria, conquistada facilmenle pelas +excentricidades de estylo, que são hoje uma verdadeira mania entre +alguns escriptores da chamada geração moderna. + +O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo á espontaneidade +das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista, +porque nunca a phrase lhe sae banal, nem tão pouco envolvida em ouropeis +de mau gosto litterario. + +E no entanto encanta-nos,--prova de que está alli um primoroso +escriptor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da +natureza por uma fórma de observação, que não é d'esta nem d'aquella +escola. É simplesmeate sua, individual. + +Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque as +suas primeiras producções litterarias ressentiam-se de uma tal ou qual +preoccupação de _effeito_ no modo de construir a phrase. Hoje, o +escriptor adquire a independencia da sua maneira, do seu processo, e +feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia, visto que os seus +quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reproducção do que o +artista observa em volta de si. + +Certamente que o publico lerá com encanto o novo livro do sr. Trindade +Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e--podemos mesmo dizer--a +litteratura portugueza.--_Silva Lisboa_.» + +Diario Illustrado:--«De tempos a tempos chegava-nos do Atemtejo um +periodico que não deixavamos nunca de lêr pelo fino gosto litterario, +pittoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos, +incluindo os politicos. Esse periodico era redigido por Tindade Coelho, +cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade +litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade +verdadeiramente notavel. + +De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o +_Diario Illustrado_ e, vindo establecer residencia em Lisboa, algumas +vezes tivemos a honra de receber n'esta redacção a sua visita, sempre +agradabillíssima para nós, porque a sua conversação scintillante +aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho. + +Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume--que faz parte da +collecção _Antonio Maria Pereira_--os seus deliciosos contos, cheios de +observação, de verdade, de simplicidade artistisca, que é, a nosso vêr, +suprema expressão de belleza n'este genero de composições litterarias. + +_Os meus amores_ são um bello livro, em que o estylo se não contorce +atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da +forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade. Tudo +alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres e dos +episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos períodos. + +N'uma palavra, _Os meus amores_ são a obra de um artista, de um homem +que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem definida por +traços profundos de verdadeira originalidade.» + + +Voz Publica:--«_Os meus amores_.--Trindade Coelho, innegavelmente um +talento de primeira agua, acaba de brindar a litteratura portugueza com +um excellente livro de contos subordinado áquelle titulo e que constitue +o duodecimo volume da elegantissima _Collecção Antonio Maria Pereira_. + +_Contos e balladas_ é o sub-titulo do livro, e muitos ao lêrem-n'o +julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa +vernacula, correcta e vibrante que estão escriptos os bellos contos de +que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido. + +São todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e +verdade dos seus typos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os +formosos typos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo mallogrado +auctor da _Morgadinha dos Canaviaes_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_. + +Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a lêr +deixará de o fazer como nós; tão attrahente é a fórma por que Trindade +Coelho conduz todos os ligeiros contos de que elle se compõe, que sem +querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste +d'elle ter acabado. + +Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem, +foram os que se intitulam _Typos da terra_ uma galeria curiosa de typos, +e _A mãe_, um conto de natureza, simples e commovente na sua +simplicidade, e notavel pela sua originalidade. + +Recommendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos +leitores.» + + +Ordem do Dia:--«_Os meus amores_.--Este é o titulo do 12.^o volume da +collecção Antonio Maria Pereira, innegavelmente a publicação mais +elegante, mais barata e mais interessante do paiz. + +_Os meus amores_ são uma serie de contos e balladas, em prosa, devidos á +penna d'um moço talentosissímo, de ha muito conhecido nas lides do +jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançára ao mercado um +livro; com este debuta o auctor, e é uma estreia auspiciosissima a sua. + +A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle é +cultivado um genero--o de contos, alguns á maneira de Gustave Droz, que +prendem e interessam o leitor em todo o sentido. + +Foi gratissima a impressão que elle nos deixou no espirito e esperamos +que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas bellas +producções, porque estamos certos de que quem lêr _Os meus amores_ será +com sofreguidão que esperará novo volume do distincto escriptor, tal é o +encanto da sua escriptura». + + +O Sorvete, (com o retrato do auctor):--«Dr. Trindade Coelho.--Mais uma +prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez justificada a alta +competencia e finissimo espirito de escriptor disctinctissimo! + +O novo livro de Trindade Coelho,--_Os meus amores_--contos e +balladas--editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, é, no +dizer dos entendidos em litteratura,--uma verdadeira joia.» + + +O Espozendense:--«_Os meus amores_ (contos e balladas) por Trindade +Coelho.--Faz parte este volume da interessantissima collecção Antonio +Maria Pereira, tão bem acceite do publico, pela superior escolha das +obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus preços. + +_Os meus amores_ é um precioso agrupamento de contos, alguns ineditos, +outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com applauso por +differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em plena aldeia +trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra, pois é natural de +Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos, delegado do procurador regio +n'uma cidade de provincia--os contos d'esta collecção tornam-se +sobretudo notaveis pela propriedade e pela fidelidade da acção, +verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da côr propria da paizagem, +vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens e das +cousas. + +Entre as nossas obras litterarias originaes, _Os meus amores_ merecem, +pois, um logar á parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de +Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam +pela litteratura nacional, mas como a poderosa affirmação de um prosador +elegante e de um contista distincto, no meio da grande maioria da chata +vulgaridade indigena. + +_Os meus amores_ é, em summa, um livro de valor, bem cabido nas mais +escolhidas bibliothecas.» + + +O Portuguez:--«_Os meus amores_.--Delicioso titulo de um livro +delicioso. + +O livro é uma collecção de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio +Maria Pereira; e o auctor é o nosso collega do _Portugal_, sr. Trindade +Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que é digno representante, +cultiva as lettras com desvelado amor. + +Em Coimbra, estudante ainda, era já litterato apreciado, collaborando, +com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que ha mais de dez +annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu título +de jornalista a invejavel nomeada de contista esmerado, e brinda as +lettras portuguezas com um volume, que está tendo a mais justa e +lisonjeira acolhida. + +O primeiro conto do livro, _Idylio rustico_, não obstante ser agora +publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque +appareceu manuscripto n'um concurso litterario da extinta _Associação +dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagração de um jury, terá +agora a consagração do publico. + +Depois do _Idylio rustico_, vem o _Sultão_, um quadro magnifico da vida +campesina, notavel de simplicidade e graça; e a _Ultima dadiva_; e os +_Preludios de festa_; e os _Typos da terra_; e as _Balladas_; e a +_Tragedia rustica_; e a _Mãe_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas +domesticas_: outros tantos primores, que ás vezes nos fazem lembrar as +deleitosas e serenas paizagens de Daudet. + +Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por +não haver ainda expirado entre nós a litteratura san, que, ou nos +desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas, não nos deixa no espirito +a impressão doentia das nevroses litterarias...» + + +Jornal da Manhã, Porto:--«_Os meus amores_.--Mais um volume acaba de ser +publicado da collecção Antonio Maria Pereira, por sem duvida a mais +elegante, a mais escolhida e a mais economica bibliotheca que se publica +em Portugal. + +É o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e +balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir todos os +seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos. + +Do primeiro ao ultimo, os contos que compõem _Os meus amores_ são +specimens no genero, porque, além de constituirem uma esplendida galeria +de quadros intimos, de retratos, de typos, são a confirmação d'uma +verdade já por nós ha muito acceite: que o seu auctor tem todos os +requisitos d'um escriptor de primeira ordem; estylista vibrante, +correcto e sempre elegante. + +E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em serios +embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua +leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que mostrar +predilecções por algum d'elles parece-nos que os melhores serão _A Mãe_ +e _Para a escola_, aquelle uma delicada e emocionante historia arrancada +flagrantemente á natureza, e este saudosas recordações d'um passado que +não volta. + +A edição, escusado é dizel-o, é nitidissima.» + + +O Tempo:--«_Os meus amores_.--Este livro teria vindo melhor nas noites +invernosas para serões ás lareiras crepítantes:--as faíscas d'ouro +subindo no tecto, o vento zenindo fóra açoitando a chuva, e dentro, no +conforto recolhido, gosar-se o contraste das paizagens alegrdas pelo +sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios e trinados d'aves, +paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delicia suave e +subtil d'illudidor ameno. Mas não se póde aconselhar o leitor a que se +prive de saboreal-o desde já, tanto mais que os tempos vão agoureiros +para a arte de manancial, e os que a cultívam teem de separar-se dos +estragadores d'Ella e das cabeças quasi vasias que expremem e segregam o +pus nauseabundo do sadismo mediocre. + +Estes estão agora entretendo o publico arrebanhado para saborear com +prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala--o vingador--ao +imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos auctores das _Pimentinhas_ +e _Berbigões Ardentes_. + +Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o +perfumador dos excrementicios e appareça em plena luz nas mesas e nas +familias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador +d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda á attenção um +artista recolhido que sabe ter força nos traços tenues e meias tintas +dos seus quadros, que capricha em suavisar idylicamente as dôres +vulgares da vida acceite, da materialidade animal, dourando-as com +recantos de natureza chilreante. Que me perdõem insistir na +impertínencia: mas, o que no livro mais particularisa o talento de quem +o assigna é a comprehensão das paizagens, o sabel-as colorir, animar, +pôl-as ante os olhos que lêem. + +As grandes dôres obscuras e sinceras, as brandas affeições, amisades +arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples +sustentados por ingenuas crenças s suavisada fé, tudo o que a aldeia tem +de ameno, d'attraente, de pittoresco, de consolador, os seus ridiculos +mesmo, vestindo atitudes de parodia em theatrinho de curiosos, tudo +reveste bem o sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom +humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reaes, bem apanhadas, como se +diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de ventaróla. O livro +encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o auctor encerrou por +annos a sua nostalgia--a peior de todas: nostalgia de +delegado!--apertando os vôos do seu espírito d'artista que ama pairar +com a fantasia para o longiquo, para o que se Imagina, para o Distante, +o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se +dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas +noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de +recordação e de saudade d'onde brotou o livro, escripto decerto nas +horas feriadas do trabalho arido, com a documentação da natureza que +vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se +compraz na arte libertadora. + +Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar +preferencia pessoal--e talvez peccadora--ao _Idylio rustico_, á _Ultima +dadiva_, á _Mãe_, ás _Batalhas domesticas_, que fecham o livro e deixam +entrever no auctor um desejo de animar os personagens tanto como anima a +natureza onde elles sentiram. Ha contos nos _Meus amores_ que fazem +lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da +patada epica do que fez _Créte-Rouge_ e _Ompdrailles_. + +O sr. Trindade Coelho é um escriptor tão distincto quanto aclarado pelo +jorro d'arte que vem de ha muito confundindo os convulsionarios do +talento; os serenos no desdem; os enthusiastas; o que, despindo o +metaphorico, quer significar que elle está em posição artistica onde +decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar attenção e +respeito.--_M. Caldas Cordeiro_.» + + +Antonio Maria, (com o retrato do auctor, desenho de Raphael +Bordallo):--«_Os meus amores_ por Trindade Coelho.--A livraria +portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede, na ultima +quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de +memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho, +com a amavel denominação de _Os meus amores_. + +Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... É originalissimo, +agradabilissimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar, +que usa o auctor d'este bello livro,--agradabilissimo contista, +escriptor originalissimo, cujo nome a bibliographia regista hoje, tão +notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara. + +A quem o lêr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas +horas muito bem passadas, passeadas por aquellas paizagens e recantos +provincianos que elle pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se +estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão +photographicos, tão nitidos, que é estar a gente a vêl-os, a ouvil-os, a +falar-lhes... + +--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!» + + +O Tempo:--«_Os meus amores_.--É como Trindade Coelho intitula a +collecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela +livraria do sr. Antonio Maria Pereira. + +Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de +Trindade Coelho, desde quando lhe lêmos as suas producções litterarias +n'um jornal de Coimbra, e que eram as primicias de trabalhos mais +primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo. + +O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira á ultima +pagina sem um momento de cansaço ou de fastio. O espirito do leitor +delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma singeleza +tão commovente, e que nos _Meus amores_ são descriptas n'uma forma em +que se revelam todas as qualidades d'um distincto e notavel escriptor. +Só póde apreciar bem o merito d'aquelles contos quem souber quanto +cuidado ha no labôr paciente do artista para conseguir dar ao estylo o +tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este genero de +pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos. + +Não nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contém preciosas +joias litterarias, e ao qual está, sem duvida, destinado um honroso +logar na nossa litteratura contemporanea.» + + +Correio Elvense:--«Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado +escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas que +deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de +Antonio Maria Pereira. + +Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da +capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa +de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que +tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto +estylista. + +Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor +que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus +triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons +e sinceros amigos. + +N'um dos proximos numeros fallaremos da impressão colhida em _Os meus +amores_.» + + +O Dia:--«_Os meus amores_.--Se fosse no seculo passado, os fazedores de +proemios, prologos e conversações preambulares com os pios leitores, á +falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo +aproveitariam a occasião para sobre o nome do auctor glozarem varios +elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e é ao mesmo tempo +um poeta sincero, um escriptor de raça, e um observador attento, +qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto nasceu uma +obra formosissima, animada de verdadeira commoção, sentida nas suas mais +pequenas minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista. + +A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta reunião +de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso, +copiando do natural, e em que os personagens foram surprehendidos nos +seus labores de cada dia ou nas suas intimas cogitações. + +Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na noticia d'este livro, +e por isso nos limitamos a recommendal-o como leitura attrahente, como +obra d'arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma egualdade +nem com o mesmo folego, como uma grande licção litteraria aos fazedores +de naturalismo brutal. + +Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para +que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo meio o +magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos provar +que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não +prejudica a indole do escripior.» + + +Novidades,(entrevista com João de Deus ácerca dos +_novos_):--«_Litteratura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos, +porque não leio jornaes, e não os leio porque os litterarios occupam-se +na propaganda da immoralidade, e os politicos na propaganda do suicidio, +e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os engeitados da +fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte, as agruras da +sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre joga os trinta +réis de tres quartos d'um pão. + +Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira +alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que elle dispa a toga, +que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha +muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem +lh'o ler. + +--Li já todo o livro. + +--E depois, meu amigo, nós andavamos precisados d'uma coisa casta, onde +fossemos purificar o espirito d'essas taes observações physiologicas, e +não sei que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O livro do +Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem +definir-lhe. Olhe: alli está aquelle quadro, em que os traços são +correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma +bella cabeça de rapariga, a physionomia dôce, o olhar abstracto: este +tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus +por ter graça. A graça na litteratura é tudo, mas é muito rara.» + + +Novidades:--«_Novellas rusticas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_ +(contos e balladas.)--Lisboa, livraria de Antonio Maria Pereira--1891. + +No seu penultimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse +sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas +as doutrinas axiomaticas da critica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs +pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que +seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les +gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou +mauvais.» + +O conto moderno é como o romance, essencialmente analytico e +psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a +apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma +humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi +invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixões e todas as +energias depravadas do coração. A arte do sr. Trindade Coelho é muito +differente d'isso, porém. O seu idylico livro de contos e balladas, +aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da +paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples, colhidos com +intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem, +decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta +actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros +dos escriptores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao +emprehender a leitura dos _Meus amores_, duzentas paginas suaves e +simples, sem pedantescas pretenções a passarem como tratado didactico de +psychologia. + +Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e que +as suas figuras só serviam para dar expressão e vida á paizagem. + +O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a sensação visual +particularmente desenvolvida, e as suas descripções são tambem, como as +do auctor das _Pupillas do sr. Reitor_, magicamente poetisadas, como que +apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade. +Chega-se ás vezes a ter a illusão de que o artista está alli, paginas a +dentro do seu livro, fazendo reviver no pensamento a alacre impressão +das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal, +cuja lembrança, elle conserva sempre viva, como nos versos de Salvador +Rueda: + +Por donde voy me sigue como memoria tierna +tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar; +¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna +el coro que tus árboles entonan á la mar! + +Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manhã aldeã, +quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horisonte: + +A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim, +e o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o ceu em +cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam +despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de +perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, +tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de +azas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede +á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em +reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convísinhos onde a vegetação +era mais rica de seivas e mais facil a presa dos insectos, perdizes +gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos +vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas +de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos, viam-se +os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e +berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas +povoações proximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a +Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os tectos, dizendo horas de +almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no ceu +immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza accordada +para a labuta interminavel do dia.» + + +«No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr. Paulhan sobre a +descripção pittoresca, então habilmente apreciados os elementos +constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na +qualidade e na intensidade. + +«Chama-se imaginação sensivel», diz o distincto observador, «o acto pelo +qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação, +como tem sido ha bastante tempo notada, não é,--principalmente se +considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma copia +enfraquecida d'uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar +um momento, um quadro, uma estatua, qualquer coisa que imagino, se as +minhas recordações são bastante nitidas, é uma especie de copia +enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o +quadro ou a estatua. A imaginação, tomada até no sentido restricto que +lhe damos aqui, varia muito d'uma pessoa para outra, quer em +intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas teem as +imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais +concretas; em uma palavra, as suas imagens approximam-se muito da +sensação; outras, pelo contrario, são inclinadas para as idéas +abstractas e teem necessidade d'um esforço para se representarem as +sensações d'uma maneira um pouco nitidas. Tem-se reparado que a visão +mental, nitidissima em geral nas creanças e nas mulheres, torna-se muito +fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas sobretudo de +ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual. +Eis uma pequena experiencia indicada por Wundt, que, mostrando as +analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo tambem as +differenças individuaes com relação á intensidade com que a imagem +concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo +n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma superficie parda, +vemos uma mancha corada da côr complementar da primeira. Se o objecto +era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul +indigo, a mancha será amarella, etc. Ora é possivel, mas isto não +succede a toda a gente, perceber esta côr complementar não só depois de +ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter +imaginado. Póde-se, por exemplo, pensar n'uma cruz vermelha: lançando em +seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se ha +uma boa imaginação visual.» + +«Essa imaginação parece tel-a o sr. Trindade Coelho. A vivacidade, +tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descriptivo, +que nos dá conjunctamente a impressão da forma, da côr, do som, e até ás +vezes do aroma, representa um phenomeno especial de evocação +sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois d'esse, a +intima satisfação que faz aflorar, aos labios do leitor inteligente, um +sorriso de doce commoção, a cada singelo episodio das suas narrativas, +todas frescas e sadias, e cujo menor merito não é, decerto, o de serem +escriptas n'uma linguagem airosa e despreoccupada, mas tersa e +legitimamente portugueza. + +O livro do sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas analyses +introspectivas, o papel da critica perante _Os meus amores_ é bem facil, +porque ella deve quasi cingir-se á affirmação do seu applauso +incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escriptor, o que +póde muito bem representar uma livre depravação de gosto. + +Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel +recordação, para a oxygenada, a leitura d'essas bellas novellas +rusticas, todas impregnadas d'uma ideal graça campesina, tilintando d'um +ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre +margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha +sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o livro e o +caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.» + + +Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder d'observação e uma enorme justeza +d'expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes qualidades +litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de +verdadeiro artista, aberta á comprehensão ampla da natureza, e fundindo +os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um conjuncto nitido que se +desata em descripções opulentas de vida e de calor, fulgurantes +d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o melhor crystal de +Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias +possantes que prendem o espirito mais inculto e o obrigam, alli, a fixar +e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar. + +E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que +compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o +delicado sentir do auctor transmittiu a cada scena onde o coração tem +parte, ou seja o coração de qualquer d'aquelles dois pequenos do _Idylio +rustico_, ou o da _Russa_, a bella cabra que no meio de mil angustias de +mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a elle proprio, +a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida, +vejam o affecto que irradia d'aquelle _Para a escola_, quando falla da +velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras. + +Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das descripções +naturaes, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um +pedaço caricaturando uns typos com tanta sobriedade de _charge_ que mais +nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da +villoria da _Comedia na provincia_, que entreteem a tarde na praça a +dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos habitos. +E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes, aquella _Vespera +da festa_ exemplifica vantajosamente o que elle sabe fazer. + +No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das _Batalhas +domesticas_, onde me pareceu descobrir uma novissima orientação do +auctor, inspirada porventura n'uma atmosphera densa d'innovações que vae +por ahi. Claro que o seu talento adapta-se mais essa fórma com a +malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a +caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos +escriptos, não a sacrificaria a coisa alguma. + +O que o livro é, em summa, é um conjuncto de bellezas que tem sido +largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e oxalá seja apenas a +promessa de muitos outros, que pennas como aquella não devem +calotear-nos na contribuição que nos devem. + +--Mas,--perguntou-me um dia d'estes alguem--porque _Os meus amores_, e +não qualquer outro titulo? + +Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao +livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que +lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de rapaz que nenhuma +lama d'este mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.» + + +Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e balladas por +Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca +mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns +contos singelos, attrahentes, delicadissimos, admiraveis de observação e +de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admiravel simplicidade de +colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade! + +Uma bella obra d'arte e uma altiva lição. + +Alli está como se póde chegar ao naturalismo na litteratura, sem +estropear a lingua e sem chegar ás torpezas da pornographia. Para +attrahir, para ser original, para impôr a supremacia do seu talento, +para conquistar o applauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não +precisou de escrever extravagancias, nem de escalavrar pustulas, nem de +escancarar bordeis. + +Ahí fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar d'elle, se o +tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu auctor.» + + +Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias d'intervallo as +lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de livraria. + +Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de analyse, de profunda +observação, resentida do exaggero do naturalismo e do caracter quasi +scientifico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem +ser exclusivamente litterarios, mas que, não obstante este pequeno +senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel +Botelho creára com os seus livros anteriores, a critica tem de render +respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo como aquelle +e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu espirito, +pela sua notavel orientação litteraria e pelo esplendor de fórma que +caracteriza todos os seus escriptos, mesmo os mais despreoccupadamente +feitos. + +Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traçar estas linhas. +Momentos como este são mesmo os unicos oasis em que se reconfortam os +que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina +improductiva e ingloria do jornal. + +Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem +intimas relações de confraternidade e sympathia e ao ter de formular o +meu juizo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e +applauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo d'um +sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira d'uma +admiração justamente sentida, solidamente baseada. + +O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo +corresponde ao encanto d'este titulo. + +Com que saudade li as ultimas paginas! + +Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer +que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar a naturalidade +das descripções, a limpidez e o crystallino do estylo emocionante e +simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais +diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio, +até á recordação saudosa e terna que o auctor sente do primeiro dia em +que entrou na aula d'instrução primaria da sua modesta aldeia. + +Dando a impressão singela e despretenciosa que me cansaram _Os meus +amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos +pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na +epoca actual quando os vicios da sociedade e a decadencia dos nossos +dias nos gravam no espirito, a cada hora, um carimbo de desanimo e +descrença, quando a litteratura, obedecendo á vertigem mais do que +nervosa, allucinada, que caracterisa o _fin de siècle_, cria as escolas +mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em +apedrejar as normas mais impeccaveis e até agora consagradas da arte, e +em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras +e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo, +desannuvia-se o espirito ao vêr que ainda ha alguem, a quem sobeja +talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa sã, eminentemente +sentida, deliciando-se na descripção das scenas mais simples e tocantes, +na apotheose da natureza em toda a sua magnificencia e no convívio da +vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das +convenções e pretenciosidades que dão um tom falso e mentido aos +sentimentos da sociedade em que vivemos. + +Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um +dos contos e balladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este +proposito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto +amor o escreveu. Ao contrario, sinto que não posso, a não transformar +este artigo n'um hymno laudatorio, referir-me especialmente a cada um +d'aquelles contos e balladas. Mais do que este motivo domina-me o de não +poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo. + +Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as +haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em differentes +jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso estylista dos +_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalisticos, já na bohemia coimbrã, +já em pequenas folhas de provincia e ultimamente nos jornaes da capital, +trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a correcção que nunca +abandonam os verdadeiros artistas. + +Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formára a opinião de que +elle se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de +Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no meu parecer, são, em +Portugal, os mais distinctos escriptores contemporaneos d'este genero, +na apparencia tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difficil, a que +se denomina: _Contos_. + +A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada. + +Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos _typos_, pela naturalidade +do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria sem o minimo +esforço a todas as impressões que pretende transmittir, o auctor dos +_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do genero de +litteratura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na +amizade a opinião dos que, não obstante elle terçar agora quasi as +primeiras armas, o consideram já como um escriptor distinctissimo e n'um +futuro muito proximo um mestre consagrado. + +O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim +desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado ás +bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com uma riqueza +oriental. + +Não obstante o meu proposito de não me referir nomeadamente a nenhum dos +pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que +me causou a _Ultima dadiva_, um primor de sentimento, uma pagina emotiva +arrancada em flagrante a uma das scenas em que tão variadamente se +divide a tragedia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_, +onde passa um folego de epopeia, em que o estylo attinge alturas quasi +desconhecidas, casando se com uma verdade admiravel a grandiosa ideia em +que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura +cada um de nos sente accordar uma recordação muito querida de infancia +descuidada e alegre, e por ultimo: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho +ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo tão malleavel e +tão justo. + +Além d'estes contos, que especialmente destaco pela admiração que me +inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Preludios de +festa_ e _Typos da terra_. + +Quem escreveu os _Preludios de festa_ e especialmente os _Typos da +terra_, é porque estudou com muita attenção, com muito cuidado, os +personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras +pequenas. São typos tirados do natural, com uma perfeição photographica +em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na +descripção da natureza nos seus mais variados aspectos. + +Por ultimo, e para não se dizer que eu n'este paiz de má lingua realisei +o cumulo de escrever um artigo só de palavras encomiasticas e sem a +minima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_, +lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas paginas d'um estylo +formosissimo n'um assumpto que sem duvida é verdadeiro, mas que não +commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a minima +impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus +recursos d'estylista, não precisava realmente do _Sultão_. + +O livro faz parte da edição mensal d'obras portuguezas, editada por +Antonio Maria Pereira, um trabalhador incansavel a quem as lettras +portuguezas devem assignalados serviços. + +Está impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado e esmero a +que nem sempre estamos habituados. + +Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos +para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas á +semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos +como este, para honra do seu nome de escriptor já tão justamente +laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do seu livro, archivando a +dedicatoria que elle contem como nova prova d'uma amisade a que somos +profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço +Cayola_.» + + +Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Collecção +Antonio Maria Pereira_, que sob aquelle titulo contém alguns contos do +apreciado contista Trindade Coelho. + +Pela rapida leitura de dois d'elles--_O Sultão_ e _Typos da terra_, +parece nos que a collecção é estimavel, e que os contos são joias de +grande preço da nossa litteratura, pela linguagem pura genuínamente +portugueza, e pela graça da contextura originalissima, nacional, sem +laivos d'imitação estrangeira, em que se pintam scenas e episodios, +cheios de verdade e de encantadoras descripções, da vida portugueza nas +provincias.» + + +O Seculo:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de +contos, editado pela casa editorial do Antonio Maria Pereira, a +publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso +meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no fundo, +sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de não ser +rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem--diga-se a verdade. + +Parece uma contradicção; mas não é. Se o nosso bom publico fosse dado a +esbanjamentos de emoção artistica, não o sobresaltaria tanto a +pessoalidade, e o imprevisto. + +O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado +severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de +lettras, nas suas horas de remanso. + +É só, porém, como homem de lettras, que nos compete em tal logar +aquilatar-lhe a esthésia, e as faculdades de emoção, ou de attenção +artistica. + +Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A fórma +adapta-se perfeitamento ao fundo, e é sempre fluente, vernacula, +concisa, e precisa. É sóbrio no descriptivo, e não raras vezes +enternece. Não commette a velharia de desenterrar obsoletos termos +classicos, sem incisão, sem propriedade, e sem côr, muito parecidos com +o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portuguezes, nem +onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto. Nem perpetra tambem o +mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na +linguagem patria instrumentos magnificos d'expressão. Sabe a sua lingua, +como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais +completa, e mais delicada da prosa, e tambem a mais transcendente e +lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado interpetre. Os contos +_Sultão_, _Maricas_, _Typos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a +escola_, não contam muitos rivaes na lingua portugueza nem nas +estranhas. + +O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de +centenas de romances em seiscentos volumes já ninguem rememorar o titulo +sequer.--_Gomes Leal_.» + + +Revista Illustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que +deliciosa impressão me deixou aquelle livro, tão adoravelmente simples e +sentido! + +Antes, porém, de começar a analysar, conto por conto, esse fino trabalho +de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão +porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de nome conheço só. + +Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre, +notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito, +distincto em todos os exames. + +Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de +que--o delegado de Portalegre--era um excellente rapaz. + +E digo rapaz, porque todos nós temos o habito de considerar sempre muito +novos aquelles que são da nossa edade... Depois, graças a uma amiga +minha, escriptora de grande talento soube que Trindade Coalho era um +grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admiração +enthsiasta que elle descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que +fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição +publical-as! + +Traduzia elle então o «Pescador de Islandia»; tradução esplendida que a +_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para elle era +já uma suggestão, aquelle trabalho primoroso. + +E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a +Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente alguem se comprazia +em querer negar ao academico gentil. + +Em seguida li uma suavissima elegia escripta á memoria de Antonio +Fogaça--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia duzia de palavras +cortadas por soluços:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!... + +Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os +jornaes annunciaram que elle arrancára um preso á cadeia de Portalegre. +Um preso que era um innocente, e que, como tantos outros, estava +condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam tambem +o effusivo telegramma em que Trindade Coelho agradecia ao nosso +magnanimo rei o seu perdão. + +E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem põe a +lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu coração ao serviço da +humanidade que soffre... + +O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha +alma. + +Eu só fixo o nome dos bons. + +E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe d'aquelle homem! Os +filhos herdam, geralmente, o coração das mães... + + * * * * * + +Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lêr. Pedi-o +rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego. + +Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz +Osorio--uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos +filigranados e vibrantes... + +Segue se o _Idylio rustico_--um amor--atravez do qual nós vêmos subir +lentamente a estrella d'alva que illuminava, coando a sua dôce luz pelo +colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da +outra... + +Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o +Thomé nos communica a sua alegria contagiosa levada á loucura com a +volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros! + +A _Ultima dadiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma +sepultura onde lhe ficára preso o coração para sahir de lá no dia em que +teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o +Brazil. + +A _Comedia da provincia_, magnifica de côr local. Magnífica, +principalmente para quem conhece typos semelhantes e já tem visto a +_Morgadinha de Valflôr_--essa perola!--representada pelo Marques do +correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valôr a esse esplendido +estudo de costumes provincianos. + +_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada... +_Maricas_, uma adoravel poesia escripta em prosa. _Para a escola_, um +beijo de gratidão de uma singelesa adoravel. _Tragedia rustica_, um +vibrantissimo estudo das miserias humanas. + +_Abyssus abyssum_, o agonisar de dois anjos, sob o olhar de uma +estrella... _Mãe_, a flôr mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas +as mães que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos... +E, finalmente, as _Batalhas domesticas_. + +Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho, +que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro +honesto, que não fatiga os homens nem faz córar as mulheres. Por isso +aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.» + + +Portugal:--«_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilísissimo livro +_Os meus amores_, do nosso querido amigo e illustre confrade, Trindade +Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais +legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais carinhoso triumpho. + +Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no +trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos +que na caça de sensações e effeitos novos hoje pavorosamente +desarticulam o _meio_ litterario europeu, tem uma força de restringir-se +a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquilla, a +melodia emocionante, ingenua e simples do viver aldeão; e que por entre +o estridulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasphemias, dôres, +gemidos, que doloridamente rebôam pelas soturnas naves d'este immenso +hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar, +enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira +nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do coração. + +Bem haja. + +Do côro unisono de quasi incondicional applauso com que a imprensa tem +celebrado a apparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnifico +artigo do _Correio Elvense_, devido à penna d'um dos mais lucidos e +impetuosos engenhos da novissima geração.» (_Seguia-se a transcripção_.) + + +Diario Illustrado:--«_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade +Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espirito á proporção que +envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram ás vezes de ouvir +os velhos, e parece-me que teem razão, porque nem sempre o são juizo de +uma experiencia larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo +circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com +singular scepticismo, este meu seculo, que está no fim, e com elle tenho +vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias litterarias, +revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de estylo, +arrancou-se o chiró ás velhas phrases, e todo um mundo novo, +extravagante e phantastico tem surgido,--mau grado as furias rabídas de +escriptores paleontologicos, apparafusados á Arte e á Critica de ha 50 +annos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu +seculo tem-me custado amarguras aterrantes, desequilibrios de espirito e +um desfolhar de verdes illusões, que eu tenho visto irem-me fugindo n'um +_marche-marche_ triumphal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca +mais voltarem!... + +A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica, dá-me a +impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida +real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo ao pedaço de chumbo de uma +capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas; Julio Machado, +de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do +filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros, +bom Deus! Dir-se-hia que uma _má sina_ persegue os homens de +lettras:--quando não é a navalha de barba, é o rewolver, é a consumpção, +é a tisica, é o retrahimento amargo, é o abandono proprio e alheio! Por +isso o meu visinho Gervasio todo se ufana, com certo profundo bom senso +pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um _artista_ +pintor--de portas, e de fóra de portas... + +Na _troupe_ de escriptores em flôr do meu tempo,--parece-me que já lá +vão 30 annos, e tudo isto é apenas de hontem!--havia, joeirados com +singular amor de arte pura, uma duzia de rapazes de incontestavel valor +litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e +revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos, +miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de +rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam +triumphantes,--poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da +vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que é quasi o mesmo, +deram-se a callejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos +incipientes, nas minas de oiro e de ferro da lucta pela vida. Dos +_felizes_, dos que triumpharam,--como quem diz, dos vencidos da +vida,--me sorria eu ás vezes em horas de bom humor, lembrando-me como +elles com um livro de versos foram nomeados consules; com um tratado +sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por +acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com +uma critica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliothecarios +das bellas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos _perdidos_ +pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os philisteus do +Pará, applicando-lhes aos figados hypertrophicos a vermelha caudal da +sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em Paris pelo +alçapão macabro da _correspondencia_ barata; Gualdino Gomes anda ahi +amparando o seu rheumatismo a uma certa _maneira_ de má lingua e a uma +bengala de canna; Leopoldino Gonçalves viaja como medico da armada; e +Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alemtejo, +onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e apparece ás vezes +nedio, côr de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tedio os copinhos de +cognac do _Leão_... + +De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias côr de rosa, o que me +traz mais doces recordações é Trindade Coelho,--porque eu ligara á minha +a alma d'elle, n'um tempo em que dos salgueiraes de Coimbra elle me +fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas chronicas +soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de affirmações de uma +personalidade litteraria. A sua prosa, a um tempo humana e lyrica, +dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como +sabem, além de bachareis anonymos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É +da tradição universitaria, fazerem os doutores as suas primeiras armas +de litteratos e de poetas, na academia, a intervallos do pesado estudo +do Lobão e do direito publico, esvurmado ás cavalleiras do nariz de +Pedro Penedo... Toda a nossa legião distinctissima de poetas e +prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia +coimbrã:--Theophilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Anthero, etc. É a +affirmação do bom Antonio Ferreira feita axioma: + + _Não fazem mal as musas aos doutoures_. + +E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquerir a Junqueiro das bellezas do +Codigo Civil, meio metaphysicamente original e meio copiado dos codigos +de Napoleão! Ah, mas em compensação que appareça ahi o primeiro advogado +a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em ferias_! + +Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descripções n'uma +bella prosa colorida e transparente, trechos de psychologia trasmontana, +e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_ +do proceder litterario d'este escriptor é deliciosa de côr e de verdade, +sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem deslumbramentos de imagens na +apparencia côr de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios +ingenuos dos cordões de latão... Tem-se chegado ahi, no abuso da +originalidade do estylo, a fazer uma prosa estrelicada, engommada, +cabellinho á banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O +burguez já conhece os processos da _chinoiserie_, e d'ahi não ha +espantal-o com nephelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe +elle que debaixo d'essas bellezas está a oleographia reles de porta de +escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota +a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em +Alcantara... + +O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho, +feito com honestidade e sem as preoccupações deploraveis que levam os +corypheus da escola modernissima, mais que zolaista, á descripção e +estudo de pathologias e casos sporadicos, ou não vivos, ou pouco +vívidos. Este livro á quasi um parenthesis aberto como uma clareira +consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos trabalhos +apparecidos, do _sujet_ de um dos quaes, que é em todo o caso a +monographia de um caracter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_ +dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_... + +A feição litteraria de Trindade Coelho parece-me que se define na parte +do livro sub-titulada _Balladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma +duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma +elegia... tragica, _encadrée_ n'uma linguagem côr de opala, em que a +gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma +obra prima. Assim a _Tragedia rustica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco +eu os _Preludios de festa_, _Idylio rustico_, os _Typos da terra_, onde +ha paginas soberbamente observadas, suggestivas, _d'après nature_. +Magnifico o assasino _José Gaio_. + +Trindade Coelho é inquestionavelmente um lyrico. E nem eu sei como elle +chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de +Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os +diccionarios de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista +encantador... sossobrado!--_Ignacio da Silva_.» + + +Nova Alvorada:--«_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe você, amigo Trindade, +que as palavras affectuosas que me endereçou no offerecimento do seu +livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espirito um mundo de +saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsamicas d'uma +quadra primaveril que não volta mais--a vida coimbrã? + +Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa +mas robusta, as _suas feições masculas e energicas_, e a sua _allure_ um +pouco receiosa ao dobrar a soleira da legendaria Porta Ferrea. + +Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de +grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando á direita e á +esquerda, entrou você nos _Geraes_ resignado a um diluvio de troças, +martyrios, horrores... + +Os segundannistas, de cuja respeitavel corporação eu fazia +orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não +encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a d'um Armelim, nem um +rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom Raphael do +Ranhados. + +Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados! + +Em uma medalha d'oiro que você trazia, á guiza de berloque, na corrente! + +O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escandalo_, de forma que a +tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato. + +Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com accentuações de academico +fallado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua +individualidade a destacar-se, como se fôra um _urso_. E assim se +fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feijó por causa dos versos, +do Passaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel +Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades +pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti. + +Você desencubou o seu nome, pol-o em evidencia--o Trindade--, mas foi por +causa d'um excellente resumo das lições de direito romano, d'um bello +discurso no centenario pombalino, e sobretudo das suas graciosas +chronicas no _Diario Illustrado_. + +Ah! e lembra-se você d'aquelle anno em que formámos «republica» na rua +da Trindade, tendo por creada a sr.^a Maria de qualquer coisa, que +denominavamos a _Gorda_, matrona muito caroavel e de enxundiosas formas? + +Eramos uns poucos: + +O Souza, que já tem o galão branco dos tribunaes administrativos, +espirito facil, perspicaz e alegre, nada para massadas, que tinha +orientações definidas em politica partidaria e expedientes reservados de +galopim graúdo contra os progressistas da Barca. + +O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o +evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiunculas com aquelle por +causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e jogador +de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente dos +theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada pela +_Gorda_ n'um cantinho do fogão. + +E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe +chamavamos o Pêgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario plano, +rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito +desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe diziamos que elle +se applicava... 25 horas por dia! + +Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto _sournois_, olhos á bufo, que +não fallava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e +contumaz! + +Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje +conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas, +muito guitarrista e risonho, se bem que intelligente e applicado. + +Eramos mais--você e eu. Você que se mettia muito com a litteratura, +fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por signal +dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas de +feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo +condescendia em o acompanhar na guitarra. + +Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais +tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribanaes de Lisboa e +eu no berço da monarchia. + +Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus +bellos contos em um elefante volume--_Os meus amores_. + +E bellos na verdade, como todos dizem. + +A _Mãe_, aquella cruciante tragedia da pobre _Russa_, morta de terror e +de amor, é para mim o mais apreciavel e sentido conto da sua collecção. + +Costuma-se dizer d'uma mãe descaroavel, d'uma Francisca Fortunata--é uma +cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando +as calumniadas affeições dos pobres ruminantes. + +Quem ler as angustias da misera _Russa_, na espectactiva do filhito +devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituirá áquelle +inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a natural comprehensão +das suas obrigações de mãe e protectora. + +E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra. +Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal +qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella producção +vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_. + +Nos restantes contos, entre os quaes me não agradaram menos _V[ae] +Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da +sua educada phantasia, moderada por um largo peculio de observação; a +sua poderosa intuição artistica; o seu dialogo curto, vibrante e +natural; o seu estylo já caracteristico pela feição franca, _saccadèe_, +de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos; +a verdade das suas descripções e pinturas, que, ao contrario de muitos, +não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, n'uma +pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa +similhante. + +Olhe, amigo. Eu careço de geito para a critica litteraria; mas, emquanto +me é licito exprimir a minha humilima opinião, dir-lhe-hei que você +alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de litterato +distincto e de contista precioso; e que este conceito é merecido, +attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua elegante +brochura recem-editada. + +Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua +fineza com um abraço de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.» + + +Nova Alvorada:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a +offerenda do novo livro de Trindade Coelho,--o sympathico e distincto +escriptor que de ha tempos se vae honrosamente evidenciando no certamen +das lettras patrias, onde já agora a sua individualidade tem uma +reputação firmada. + +_Os meus amores_ é o titulo que o sr. Trindade Coelho escolheu para o +seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama, segundo cremos, +não é porque estas 200 paginas sejam um auto-historiographico dos +idylios romanescos do auctor, n'quella aurea quadra da sua vida +academica, ou um repositorio de alheias aventuras amorosas com +acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario. + +Não. A razão do titulo parece-nos antes proceder da affectividade +psychologica do auctor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto +com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz: + +_Folhas dispersas dos meus annos de oiro, +Vivo enxame das minhas alvoradas, +Tenho zelos de vós, folhas sagradas, +As Desdemonas sois de um outro moiro_. + +Se não fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade do +aphorismo--o habito não faz o monge--, porque o _Idylio rustico_, com que +abre esta bella collecção de contos, não seria bastante para justificar +o titulo sob que se enfeixam. + +Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e a +tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se que +se ha na urdidura dos varios contos muitas situações que nos pintam o +ridiculo, a desgraça ou o crime, poucas ha, entretanto, que nos prendam +o espirito ao devaneio piégas d'um Romeu e d'uma Julieta. + +Mas, ou bem ou mal baptisado, o que é consoladoramente verdadeiro é que +os contos do sr. Trindade Coelho constituem uma das mais bellas +collecções que no genero conhecemos. + +Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores +preceitos da arte. + +Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das +situações e dos dialogos. + +Uns assumptos de felicissíma escolha, a reproduzirem fielmente costumes, +a pôr em jogo com a maior verdade os vicios e as virtudes do povo. + +Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade +Coelho são a fiel expressão da vida rustica do nosso povo, e facil é de +comprehender a importancia moral que estes livros terão quando as +gerações que nos succedam queiram inventariar nas suas tradições o modo +de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, n'este +periodo historico em que vamos. + +Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside +como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade +inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a toda a +prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na narração e nos +personagens. + +E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de François Copée e +Theodore de Bauville, a artistica encenação que, sem desvirtuar-lhe a +naturalidade da fórma e do fundo, lhes imprime o attractivo romanesco +que falla à imaginação do leitor. + +O _Idylio rustico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa, +e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora. + +A _Ultima dadiva_ é a expressão fiel de muitas scenas que a emigração +multiplica cruelmente pelas nossas provincias do norte. + +A acção d'este conto é conduzida com uma tal uncção de sentimentalidade, +que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a commoções, se poderá +esquivar a partilhal-a. + +O conto--_Typos da terra_ é a descripção fiel, fidelissima, da mesquinha +intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de +provincia. + +_Os Preludios de festa_ são de um comico admiravel; _Maricas_ é de um +sentimentalismo commovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade +edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragedia Rustica_, tudo, tudo n'este +livro é bom, e de util e agradabilissima leitura. + +A forma--já o dissemos--é correctamente vernacula e elegantemente +rendilhada. + +A titulo de amostra, para aqui trasladámos do conto--_Sultão_--este +bello _croquis_ de uma tarde de agosto: + +«Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as arestas dos +montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as +suaves e brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos +vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, +destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de +listrões de uma coloração leve de laranja. + +Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e +além, alegremente, a monotonia profunda do azul.» + +E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra á altura da boa reputação +do auctor. + +A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu illustre collega +por tão brilhante producção, e d'aqui lhe envia um cordealissimo aperto +de mão.» + + +A Independencia:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro +de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações, +modestamente, apenas com a consciencia tranquilla de quem escreve bem e +com criterio,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume, +que acaba de dar á estampa, algumas producções litterarias que a sua +vida de jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de +revistas e diarios. + +Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogeneo o que se nos +offerece para apreciar: são pequenas joias litterarias, buriladas por +mão de artista e d'um fino sabor de naturalismo. + +Considerado assim, sem dependencia de escola e confrontação de +originaes, o livro é bom. + +As suas descripções são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se +acostumou, desde creança, a ler muita e a adivinhar mais na biblia +riquissima e inexhaurivel da Natureza. + +Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as +tintas proprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os +olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos outros, deixam-nos +uma impressão agradavel de realismo, e alta comprehensão. São typos +exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que +enjoam. Antonio Fagote é um especimen do juiz de festa das nossas +aldeias, basofão e vingativo, prompto, olá! a gastar as ultimas moedas +da venda do ultimo gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e +a deliciosa ballada _Mãe_ é uma preciosidade litteraria, magnificamente +pensada escripta, digna da penna dos nossos primeiros escriptores. + +Não encomíamos, pois, o valor do livro, dizendo que elle é digno de +figurar ao pé das mais bellas producções dos nossos escriptores mais +consagrados.» + + +Correio de Portalegre:--«_Os meus amores_, contos e balladas por +Trindade Coelho. + +Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois não? + +Eu creio bem isso, porque a verdade é que apezar da celeuma que Trindade +Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento algumas +antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os senhores +jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. É por isso que escolhemos +para encetar esta secção a producção brilhante do distincto litterato, +editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor +escrupulosissimo. + +Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a +attenção do nosso cerebro, á contemplação da nossa alma; e essa leitura, +feita n'umas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me +d'_Os meus amores_ a agradabilissima impressão d'uma caricia, que +persiste a sorrir consoladora. + +Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Commercio_ e da +_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejavel de dar á ideia,--algumas +vezes injusta, dirão alguns,--a mais correcta fórma, iriada sempre da +limpidez mais viva; e isso, n'um trabalho feito agora para apparecer +amanhã, à pressa sempre, n'uma fugida aos calhamaços manuscriptos que +demandam a sua attenção de magistrado, e em que o periodo mais +suggestivo é o do _Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo_. + +É-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do auctor desbasta, +romodela, lima, muito tranquillamente, muito socegadamente, sob a +vigilante direcção do seu delicado gosto artistico. + +_Os meus amores_ teem poesia, e teem verdade; e na maioria dos seus +differentes quadros, adoravel descripção das scenas simples da vida do +campo, da natureza singellamente formosa, o sentimento vibra +intensissimo, e é encantadora a phrase, que um conhecimento profundo +dictou, de que uma subtil observação resáe. Ha alli retratos d'um brilho +sem limite, _typos_ que resumem um estudo fidelissimo. + +É um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa embaraçadissimo, se +queremos escolher alguma,--tão valiosas são todas. + +Todavia,--e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,--_V[ae] +victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estylo, _Para a +escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de +creança, e os admiraveis contos de fina graça e tão verdadeiros, +_Preludios de festa_ e _Typos da terra_, são os meus eleitos, depois +d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre tantos quadros da +perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ captivam tambem a +minha admiração. + +O livro é, como todos os sahidos na _Collecção Antonio Maria Pereira_, +esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em +percalina. + +N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'_Os meus +amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradavel como +sinceramente.» + + +O Nordeste:--«Editado pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, em +volume d'impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado +o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pôr em +relevo as complexas e brilhantissimas qualidades litterarias do auctor, +um _novo_ que já hoje occupa, por direitos justamente adquiridos, um +logar proeminente entre os nossos melhores escriptores. + +_Os meus amores_ teem obtido na imprensa do paiz uma acolhida +enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso +conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos +leitores do _Nordeste_ não dessemos conta da apparição d'esse livro, +juntando ao côro unisono d'applausos as nossas sinceras saudações. + +Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses +contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro +primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a +espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas +historias aldeãs, d'uma simplicidade campesina, repassadas por vezes +d'um sentimentalismo suave, lyrico... + +A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima sympathia, um affecto +antigo e vehemente, seguindo com interesse quaesquer particularidades da +sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem +glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado +intelligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do +procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lêr o seu livro, +e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio nol-o +trouxe. E, agradabilíssima coincidencia! succedeu-nos deparar com o +conto _Para a escola_, quadro tocantissimo que marca distinctamente os +dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a altura em que entra +na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial, +de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com +as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de +continuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e caracter +diamantino. + +Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio, +deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o +confessâmos...--de lagrimas espontaneas nos marejarem os olhos, tão +enternecedoras são essas paginas que evocam em nós as reminiscencias +queridas d'um passado que não volta, e no espirito nos reproduzem, com +uma precisão photographica, completa, scenas eguaes da nossa infancia, +como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lêl-as +e sentil-as... + +Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente, +que _devorámos_ o livro, onde o auctor, n'um esbanjamento prodigo de +verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras narrativas, +descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e rhythmica, +apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em flagrante, _d'après +nature_, com uma extraordinaria lucidez d'observação, e um outro _caso_ +humano trasladado para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente +artista, e que são uma eloquente affirmação da distincta personalidade +de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados +cultores da prosa portugueza. + +Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve +noticia a uma critica a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar +todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as +impressões que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso caloroso para +todo o livro, sem predilecções por este ou por aquelle conto; e d'aqui, +d'esta columna de modesto jornal de provincia, enviamos ao nosso +queridissimo Trindade Coelho, n'uma effusão d'acrisolada estima, com um +aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não +deixe de ser um cultor assiduo da litteratura nacional, e continue a +honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons +livros.--_José Pessanha_.» + + +Da Revista do Minho:--«_Os meus amores_.--Poucos livros terão vindo á +luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplendidos como aquelle +cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as suas paginas +se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e +estimavel debaixo de todos os pontos de vista. + +Este volume pertence á formosissima collecção Antonio Maria Pereira, e é +devido á brilhantissima penna de um dos nossos mais festejados +escriptores--Trindade Coelho. + +Não precisâmos alongar-nos em chamar a attenção do publico para esta +obra, pois é ella sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons +livros.» + + +Revista Illustrada:--«_Os meus amores_.--Ha tempo,--não ha +muito,--começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando, +umas cartas de provincia,--_Cartas alemtejanas_, nos parece,--assignadas +pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a +primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com +verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de apparecer +de todo. + +Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada +jubilosa e cantante de um bom escriptor. Trindade Coelho entrava nas +lettras portuguezas pela porta aurea dos victoriosos, apresentando +natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira n'uma só +peça o seu talento alliado com a sua observação e o seu estudo, sem +esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que +avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamellas de +apaniguados e sequazes. + +Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas; +escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli á mão, das +scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua +alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um +ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar á solidão do seu +eremiterio, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas. +Era um talento e era um caracter. + +Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que +deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua +formatura. Bom signal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciencias +do amor proprio, sacrificando ás altas occupações do seu curso os +brilhos attrahentes da facil nomeada. O escriptor experimentara já o +pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar. + +Eis que nos apparece um dia, subito, no fôro, honrando e glorificando +n'um processo de rehabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe +celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de lettras, que +elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros trabalhos. + +Alguns mezes de collaboração diaria, n'um jornal bem lançado e bem +redigido, avigoraram no conceito publico o renome conquistado, e +Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da paiz, o logar a que +tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem contestar. + +Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos apresentação +mais prometedora e mais sympathica. + + +_Os meus amores_ são uma collecção de esbocetos, alguns dos quaes, como +o _Idylio rustico_, _Ultima dadiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus +abyssum_, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros. +Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o auctor os trabalhou, +solicito na sua obra, no empenho de uma execução immaculada. Não porque +se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem elle era impossivel +conseguir tão completo effeito, tão seguro resultado. + +O estylo do prosador é, quasi sempre, firme, opulento, erudito, original +e variado. Não tem reminiscencias d'este ou d'aquelle, e realisa uma das +condições essenciaes que deve ter em mira todo o escriptor +consciencioso: conservar uma feição propria e individual, sem se afastar +da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso archaico, e +contribuindo para a evolução progressiva d'ella. + +Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cançaremos de louvar, em +vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria +facil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estylistas, +procurou modo de illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na +fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas +mais primitivas do povo campezino, enriquecendo n'esse manancial o +thesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, scenas e +quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e +adoravel. + +É de indiscutível belleza a pastoral com que abre o volume. +Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A descripção da +madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e +Rosaria,--Daphnis e Chloe,--teem um sabor antigo, como o de uma +narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo +tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias. É de um bom +gosto supremo a fórma subtilmente delicada como o narrador, deixando +primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma brutalidade +instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da candura a uma +situação divinamente sublime. + +E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce e +prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espirito aquelles dois +vultos de creança a esfumarem-se nas distancias do espaço e do tempo, +longe, muito longe, n'uma paizagem ideal, vista nos dias da infancia, +vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio ou Theocrito, talvez mais +longe ainda, na Biblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida +contemplação, longe, muito longe, + +«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.» + +Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, ha como que um mixto do +tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christão. Não é vulgar +a concepção do assumpto, nem vulgar, tambem, o desenvolvimento que o +escriptor lhe deu, o scenario é horrivel e magnifico. Está bem +descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro se annuncia, depois +se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma convulsão +pavorosa e enorme; bem descripto o terror angustioso e suppliciante do +misero assassino, o qual vê, na chamma de cada relampago, projectada a +cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende os pés ao +chão, emquanto o seu ouvido, allucinado pelo terror, lhe dá a sensação +de uma voz insistente, que detraz de cada arvore, da espessura de cada +moita, de cima de cada pedra, da resonancia de cada trovão, o chama +inexoravelmente pelo nome:--Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio! + +Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho +fóros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe não engeitaria o +assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria com muita maior perfeição. +Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas tão engenhosas como as da _Genese +de um Poema_, para alguma composição tão extraordinaria e tão +transcendentalmente bella como _O corvo_ ou _Ulalume_. + +Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se +quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade das +suas aptidões litterarias, o prosador que recortou nos mais perfeitos +moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras, detem-se na +commovente e lacrimosa narrativa da _Ultima dadiva_ e nas ligeiras e +facetas descripções dos _Typos da terra_, dos _Preludios de festa_, do +_Sultão_, onde transparecem dotes de observação sarcastica, de ironia +graciosa e de bem humorado espirito. + +Um livro de tantas promessas não póde ser, comtudo, e por isso mesmo, um +livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se +abalançar a empreza maior, estamos certos d'isso. Já no final do +presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas +domesticas_, se annuncia a transição da presente phase litteraria e +artistica do auctor, para uma outra phase progressiva. + +Progressiva, dizemos nós, porque assim o crêmos. Qual ha-de ser, porém, +a predominante caracteristica d'essa phase? Póde a critica conjectural-a +desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazel-o. Porque, a +verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que +o seu temperamento litterario tem energias que lhe hão de abrir novos +caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha já precedentes, que +enormemente o obrigam. + +Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-ha +ainda de um ou outro francezismo escusado, e ha-de adquirir novos dotes +de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde +procural-os. Não é em lexicons, nem em alfarrabios, nem em cartapacios. +É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a +falar o portuguez do povo, os seus typos populares. + +Não se póde ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som, +da melodia. Uma das maneiras de adquirir pericia n'esta fórma de +escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um +exercicio util para chegar a fazer boa prosa. Não é, porem, +indispensavel, bem entendido. + +Contudo, não admittimos que repute possuir as qualidades completas de +escriptor, aquelle que só d'uma das duas fórmas da arte de escrever seja +conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que +praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima. + +Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza +artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase e +maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso, +embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena +empregar todos os esforços para attingir uma perfeição, que não está +longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade +continuamente o approximam.--_Fernandes Costa_.» + + +Aurora do Lima:--«_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade +Coelho. Quando prometti á _Aurora do Lima_ esta ligeira noticia +bibliographica ácerca do livro do brilhante escriptor e meu querido +amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a +retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os +ultimos da ultima fila, nas saudações enthusiasticas á obra e ao seu +auctor. + +Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se começou a +fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria, cruel, desoladora. Os +que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida--e estes +constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras +consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação +docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola, +apezar do enorme _réclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da +escola realista. + +Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras +consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende +pela emoção intima, que interessa pela simplicidade elegante com que +está trabalhado, que impressiona pela correcção impecavel do seu estylo, +malleavel e harmonico. + +Abre-se o livro e depara-se com o _Idylio rustico_, que é uma soberba +tella, amoravelmente tratada, denunciando logo ás primeiras linhas um +alto valor artistico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza +suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores. + +Segue-se-lhe o _Sultão_; e em boa verdade direi que me parece ser este +um dos contos mais formosos do volume, em que pese ás opiniões +contrarias e até ao proprio auctor, que não perde occasião de o +depreciar. + +Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A descripção +da eira, do labutar alegre, da paizagem e dos personagens d'este pequeno +quadro, são um primor notabilissimo de execução artistica, de rigorosa e +completa observação. + +_Ultima dadiva_, um episodio commovente, completa a primeira parte do +livro, a que se segue a _Comedia da provincia_, onde ha preciosos +estudos da vida provinciana; as _Balladas_, onde se depara com o formoso +conto _Para a escola_, de um alto valor litterario; _Arrulhos_, uma +esplendida phantasia, etc. + +Eis uma ligeira noticia do volume de contos _Os meus amores_, que +tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia +do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que +lhe foram dispensados. + +Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a +crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do paiz, +especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudonymo de _Ch. A. +Verde_, e na _Revista Illustrada_, do editor Antonio Maria Pereira. É um +infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frivolo assumpto +um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o espirito do +leitor.--_Luiz Trigueiros_.» + + +Os Gatos:--«Vem a proposito de historias, fallar, bem sei que tarde, dos +_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro portuguez que +mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em polyedros de +multiplices aptidões. Os contos dos _Meus amores_ são pela maior parte +uma bagagem de vida academica, assimilativa (Trindade Coelho, muito +novo, findou ha quatro ou cinco annos o curso juridico) e como tal sahem +da penna do escriptor ainda sem uma crystallisação homogenea de fórma e +de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso d'um espirito +buscando a perfeição com escrupulos d'eleito; de sorte que o volume até +como auto-biographia se insinua, elle precisando as phases, notulas, e +predilecções litterarias do contista, e emfim, depois de hesitações, +emancipando-o n'um dos mais delicados microscopistas do coração, das +nossas lettras. Como é provinciano, provinciano d'aldeia, e natureza +contempladora inda por cima, Trindade Coelho captiva-se principalmente +dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana, tempestades de +campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o não faça por +diletantismo de escriptor avocando de cór dramas lambidos, senão por +esse estro de visão retrospectiva dos melancholicos despaizados em +terras hostis, e que protestam contra o egoismo ambiente, recluinde-se +no passado, como n'um sanctuario de mumias adoradas. É a tendencia geral +dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes, +especialmente dos campos, materia prima para seus contos e poemetos. Em +poucos porém a predilecção se escóra na sinceridade e conhecimento +pratico da vida rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma +autopse sagaz da natureza psychica e moral do camponez. Grande parte dos +que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos +n'um scenario de convenção, e com o fazer fallar aos bonequinhos mancos +que resultam, aravias mais ou menos inventadas d'um pictoresco sorna, em +cuja trama não ha vislumbres d'alma regional, de caracter profissional, +d'individualismo typico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra, +mandem vir a collecção dos contistas rusticos portuguezes, e riam á +larga das fantasias lorpas que lá virem. Em dialagos amorosos ha por +exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam ás namoradas protestos +de paixão, em linguagem que seria preciosa até na bocca d'um pisa-flôres +do Martinho e da Havaneza. Ellas, de lhes retrucar em phrase +equivalente, e de se mecherem em scena com os ademanes que a _Dama das +Camelias_ consagrou na cachimonia dos auctores, como os mais proprios +para mimar o amor que as enchaquéca. + +Em paizagens e descripções d'interior, a mesma ausencia de detalhe certo +e de visão propria, que reduzem esses quadros, a méras caganifancias +d'aguarellistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a +quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das +cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os +seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal +imitação da Rua do Ouro, e o camponez como uma arreglo grotesco do +alfacinha. + +Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da +paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade +Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema, +em fórma d'arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo á vista +do leitor, que não mais lhe perderá de vista os vôos poeticos, e a +singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em +prolongadas estações nas duas mais typicas provincias de Portugal, o +Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha assím nos _Meus amores_, a par d'algumas +benignas composições representativas da transição critica do rapaz para +o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes, +sobrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da +minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras primas. +_Typos da terra_ e _Preludias de festa_, por exemplo, são duas narrações +que mordem fundo a attenção de quem nas lê, e que por sua admiravel +sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido +que ficarão modelarmente apontadas aos collecionadores de litteratura +typica. + +Qualquer das peças abrange apenas o folego d'uma ou duas duzias de +paginas, deliciosas porém como factura, admiraveis de bonhomia, e d'uma +saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o seu auctor. + +Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante +rico em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais +finas intenções. _Typos da terra_ é o quadro satyrico d'uma má lingua +d'aldeia, tendo por club a porta da tenda, por scenario a praça publica, +e por personagens o pessoal burocratico e elegante da terriola. +_Preludios de festa_ é um estimulo de festeiros preoccupados de qual +fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os typos +rapidos, a descripção dita a correr, mas no conjuncto ha um tal +equilibrio esthetico, a meia tinta é tão fluida, e as intenções ironicas +sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista, +Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os semsaborões que por +ahi medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno +romance portuguez.--_Fialho d'Almeida_.» + + +Jornal de Santo Thyrso:--«_Os meus amores_.--Foi penhorante e commovente +para nós a gentilissima offerta que Trindade Coelho nos fez do seu +adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta singela +noticia. + +O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o +brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje, +porém, apparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a +primorosissima fórma se allia com o mais delicado criterio d'artista +d'_élite_ e com a fina observação d'um talento verdadeiramente superior. + +O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e +obscura penna não está--seja este o seu unico merito!--habituada a vir +entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se +prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as +ondas d'esse barato incenso. + +Os nossos leitores melhor ajuisarão, em presença do trecho que lhes +offerecemos como mimo de rara valia.» + + +Diario Illustrado, (com o retrato do auctor):--«Trindade Coelho.--N'esta +aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras que ninguem sonha, +ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos é dado +experimentar, accrescente-se. + +Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,--na +elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestigio do +talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de adivinhar, +logo aos primeiros passos, a revelação de Alguem, que vae ser +unanimemente admirado. + +Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na +galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo. + +Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam; +admirei-o, muito antes d'elle trazer á litteratura patria o livro _Os +meus amores_, que foi como que a subita illuminação do seu nome. + +Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a +sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso +encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o +temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do +estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!... + +O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de +rapidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação, +vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com +um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a +perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e +do camponio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande critico Fialho +d'Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu +criterio do problema, em fórma de arte, e dos que mais progressivamente +vão crescendo á vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os +vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de +genero, colhidos em prolongadas estações nas duas mais typicas +provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes.» + +Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho começara a affirmar a sua +poderosa, individualidade em uma secção do _Diario Illustrado_, _Cartas +alemtejanas_, chronicas expedidas de Portalegre, em um arranque de +talento, com exuberancia de fantasia, modos de ver e dizer, +flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo á Vacherai, velados +a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante +originalidade. + +Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio +das suas funcções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitaria de +arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o +condemnara. + +E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos +vôos, fez-se um côro de bençãos, como que uma apotheose de amor, que +deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma +effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos, superiores a todas +as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto. + +Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterisam e +lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam, uma dualidade, +verdadeiramente phenomenal. + +É que, sendo elle um artista, na rigorosa accepção titular da palavra, +namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na +extatica adoração de tudo quanto ella sobredoira do seu brilho immortal, +é ao mesmo tempo um funccionario exemplar, um delegado do procurador +regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte +Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter e no +correcto exercicio da sua profissão, toda a perstigiosa soberania da +Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito, quando se +trata de aquilatar o merito de um auctor: + +«Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante +rico, em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das +mais finas intenções.» + +Ás vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade +nostalgica ou treme de frio... legal. + +É então que elle murmura, (perdoa a indiscreta allusão, meu caro +Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o +meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu +ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz idéa, não! +Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E là fóra, e lá em cima--que amplo +céo azul para voar!» + +Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda o +esperam, meu illustre amigo?--_Guiomar Torrezão_.» + + +Revista de Portugal:--(Excerpto de um artigo critico ácerca do _Só_ de +Antonio Nobre).--«Alma doente, o sr. Antonio Nobre soube extrahir da sua +doença effeitos de Arte singulares e ás vezes intensos. Outros +attingiram o mesmo objectivo pela descripção das emoções naturaes e pelo +appello aos instinctos sãos do coração humano. Acabo de rêler o livro +d'um escriptor tambem novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com +casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser comprehendidos +por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a affeição de dois +pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida +junto á cruz da sua victima, o amor materno de uma cabra que se deixa +morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o narrador +interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha atravez +d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do suor dos +lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade +pessoal decisiva para a belleza das obras.--_Moniz Barreto_.» + + +Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face, +olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,--o que não seria difficil mesmo +no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar +no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples +conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se elle de nós, porque já +então a gente não se atreve a separar-se d'elle, tem-se adquirido a +certeza de que aquillo é o que é, e chegado á mais solida convicção de +que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um +coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais +insubmissas ao menor proposito do menor disfarce, do que na sua +physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho intensíssimo do +seu olhar muito limpido, muito penetrante, se expressam toda a +sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso +temperamento. + +E ao vel-o partir pela rua fóra, decidido e tezo, resoluto e rijo, a +cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que +dá gosto vel-o, não resistem os olhos ao desejo de acompanhal-o de +longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou +pensa:--«Demonio!... Com meia duzia assim, poderia fazer-se _alguma +coisa_ ainda!...» + +Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas +perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos +quando com elles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando +passam--só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este sólo e +purificar esta atmosphera. + +Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem +da sua vida,--o mundo litterario e o mundo judicial--affigura-se-me +elle, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelevel +cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos +para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este +agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio +Publico contra os altos reus de certas causas celebres,--ora imprimindo +n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da fórma é +posta sempre ao serviço das emoções mais dôces e das mais penetrantes, +esse outro cunho, d'essa outra individualidade que n'elle ha, e tão +diversa é, tão original e tão rara, tão comtemplativa e tão terna. + +...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do +seu impetuoso temperamento! + +No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas +palavras se não limitam ao cumprimento do dever de officio, não tardará +que á serena exposição dos primeiros articulados succeda a expressão +calorosa, indomita, sempre crescente, da indignação, e da colera, que +lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vae deduzindo a +tremenda accusação contra o réo--...esse réo que alli está, alli! +sentado n'aquelle banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés! +Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração accelera-se, a face +ruborisa-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito +enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cerebro +vigorisa-lhe os musculos, affirma-lhe a energia, parece transportal-o ao +imperio da força, n'um arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas +se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado +a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta, +quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem ferir de +arripios a espinha dorsal do auditorio... Já não é para a justiça dos +homens que elle appella; não lhe bastam, não o saciam as penas maximas +dos Codigos! Quer o castigo do Céo, quer a justiça de Deus! + +...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem peor +que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana +havia condemnado por assassino e ladrão--o pobre Manuel Barradas. Muito +commentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministerio +Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos agoniados da sua vida +em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a collecção +desses jornaes, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no +principio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um +pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Elle, em +premio da minha obediencia, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo +do meu coração. Queres ouvil-o bater? Ausculta essas folhas... Bemdito +seja Deus! serão ainda minhas as tuas lagrimas enternecidas, e, ainda +depois de morto, viverei na tua commoção e na tua alegria, para a +commoção e para a alegria da minha obra...» + +Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste +nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto austero +do magistrado, cedendo o logar á delicada individualidade do homem de +lettras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa, +muito á vontade e á fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a +vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, d'essa muito +viva e muito affectuosa ternura que á sua alma de artista dá, e que a +sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que +não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordação a +que andam para sempre ligados, n'uma doce e meiga associação de ideias, +certos logares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo +olmo, que já lá estavam quando elle nasceu, que o embalaram nos +primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao +baptismo o levaram, e o conduziram á escola; alegrando-se com as suas +alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas... + +N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da +sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se +pousar-lhe nos beiços e nas palpebras a serenidade meiga de um sorriso, +como que o doce agradecimento á alma de sua mãe, que tivesse vindo, +muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito, +aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a amorosa +caricia dos seus beijos... + +Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade +essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos musculos e a +effusão das lagrimas realisam o phenomeno das emoções reaes. + +Os seus escriptos obedecem sempre á logica influencia d'esta convicção +em que elle está, quando me diz, bem medindo e pezando cada uma das suas +palavras: + +--«Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais nada, que o +escriptor preste na sua obra o culto que é devido á sua lingua. Depois, +deseja que o commovam, que honesta e consoladoramente o emocionem, +preferindo que o assumpto do quadro seja a exploração das coisas +triviaes da vida, certamente porque reside no Simples a formula mais +natural da Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lêem está +fatigado d'essa confusão do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me, +emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro dever, e como +condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre +de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e +entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferencia, mesmo, +ás faculdades intellectuaes...» + +Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos. É o primeiro d'elles, +_Idylio rustico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarella, parece que +feito sobre um esbatido de céo purissimo, côr de sovaco de andorinha e +não sei com que singular sabor eucharistico de primeira communhão... É +um sonho de absynto, que serve de aperitivo divino para a leitura +soffrega de todo o livro. Dois pastoritos ingenuos, a Rosaria e o +Gonçalo, encontram-se e approximam-se, n'uma indecisa alvorada de +derriço, cheios de boas tenções e puros ideaes. Acontece, porém, que por +viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada, +imaginem os que como elles se amem a alegria que inunda aquellas duas +almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias longas, quiz Deus que +os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando +seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como +juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se +põe, vagueam nas frescuras marginaes do rio, a par, e sós, elle +dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com murmurios d'agua +correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz d'alma idylica de +illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe immenso a +separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as +ovelhas durmam em mistura e que passem elles a noitada sobre o mesmo +colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instinctiva reluctancia, +Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as +mantas cobertor commum, e pousando as cabeças nos bornaes unidos, +parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos +desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo, e +os bons dos namorados, n'uma placida orchestração final que se smorza, +referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no somno e +adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da +maldade nossa. + +Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fóra, e que vamos +bisando e saboreando a pequeninos gólos, durante algumas horas bem +fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que +elle nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivessemos; em +companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão photographicos, tão +nitidos, que é estar a gente a vel-os, a ouvil-os, a falar-lhes, a +deitar-lhes o braço pelo hombro... + +Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao +serviço da moderna arte, o ineffavel goso de tão estranhas, tão novas, +tão encantadoras surprezas! Quizera eu, inedita, bem fresca, pela +primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante +comparação:--dir-se-ia traçada com uma penna d'aguia... arrancada d'uma +aza de pomba. + +Os seus livros ficarão pertencendo ao numero d'aquelles que parecem +possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espirito de quem os lê. +Relêr o que elle escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de +quando se contempla pela centesima vez algum querido, precioso objecto, +que noventa e nove vezes se contemplara já: privilegio esse de eterna +seducção, que só disfructam as obras em que o artista deixou pedaços da +sua alma.--_Alfredo Mesquita_.» + + +Do Poema do Ideal: + +«_Os meus amores_! que livro +Tão fragante e saboroso! +Scentelhas aureas e vivas, +D'um prosador luminoso! + +Brisas da serra! +Trechos idylicos +Da nossa terra!» + +_Fernandes Casta_. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES *** + +***** This file should be named 17503-8.txt or 17503-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/7/5/0/17503/ + +Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited +by Rita Farinha (Biblioteca Nacional +Digital--http://bnd.bn.pt). (This file was produced from +images generously made available by National Library of +Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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