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Edited +by Rita Farinha (Biblioteca Nacional +Digital--http://bnd.bn.pt). (This file was produced from +images generously made available by National Library of +Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + +OS MEUS AMORES + + +TRINDADE COELHO + + +*OS MEUS AMORES* + +(Contos e Balladas) + +_2.^a edição_ + + +LISBOA + +Livraria de Antonio Maria Pereira + +50, 52--Rua Augusta--52, 54 + +1894 + + + + +_LISBOA_ + +Typographia e Stereotypia Moderna + +11--_Apostolos_--11 + + + + +Ao Doutor + +Antonio Xavier Perestrello + + + + +«_Os Meus Amores_» + + +_Folhas dispersas dos meus annos de oiro, +Vivo enxame das minhas alvoradas, +Tenho zelos de vós, folhas sagradas, +As Desdémonas sois de um outro moiro. + +As brancas horas que eu em sonhos doiro, +Essas horas febris, illuminadas, +Eil-as fugindo, em tristes debandadas... +Levaes nas azas todo o meu thesoiro. + +Folhas: subi, voae ao céo tão alto, +Que o ceo em estrellas vos converta e mude, +Lá nas longinquas illusões que exalto; + +Como as frementes aguas d'um açude, +Levae a Deus, no derradeiro salto, +O derradeiro adeus da juventude_... + +_Luiz Osorio_. + + + + +IDYLLIO RUSTICO + +_A Fialho d'Almeida_. + + +Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atraz d'elle, +era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas +conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais +insignificante ruido. Dormia-se a somno solto por todas aquellas casas. +Apenas algum cão, subitamente acordado em sobresalto pelo chocalhar do +rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde ficara de +sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo +companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores entoavam +matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios, n'alguma +esturdia, a deshoras... + +Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a +banda, n'uma grande pacificação de templo adormecido. Nem viv'alma pela +ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céo +azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a largura, a +paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito mortiça que nem +era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No emtanto a manhã era +calma; nem rumores de briza pela rama das azinheiras velhas que faziam +guarda ao corrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grillos nas +hervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima +do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho +que se ia submissamente á mercê do pequeno pastor, parando se elle +parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de +novo elle se punha a caminhar. + +Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro, +que o echo levou para longe. + +--Não gastes polvora, Antonio!--recommendou o pastor.--Ouviste? + +E logo a voz do guardador: + +--Madrugas hoje, Gonçalo! + +--P'ra que saibas: cá um homem não tem medo. + +--Está bem. Adeus! + +--Saudinha. + +A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na côr. Invadia +a amplidão da cupula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrellas +feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira d'além, entravam de fazer-se +nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham +altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra... N'este assomo +d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade +vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos levantavam-se +repentinamente, em vôo perpendicular, e cortavam ares fóra, chilreantes +e alegres, até se perderem de vista por de traz dos arvoredos e cabeços. +De cauda em riste e orelhas immoveis, o rafeiro espreitava as hervagens +seccas, onde algum reptil passasse vagaroso. + +--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo ás cobras.--Busca, +valente! + +Á medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas ouvia-se, +mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá +se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de +paciencia,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os +interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre, á +frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar +areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle céo ainda estrellado, +o Gonçalo desabafou: + +--Uff! até que emfim!--E pensava aliviado:--Nada mais facil do que +terem-me sahido os lobos!... + +Mas vista áquella hora, e no meio de tal silencio, a corrente liquida +tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças +aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, n'uma +lucta desesperada com as aguas, clamando em vão que lhes acudissem, em +tamanho transe afflictivo. A margem de lá, especialmente, era toda +accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quaes no +inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que era +um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, n'um +descuido involuntario--simples remadela pouco a tempo, manobra menos +segura de leme, ou impulso errado de vara. + +E então, cabeços enormes d'um lado e d'outro, projectando sobre o largo +leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o +sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente, fazendo +limitada a paizagem. + +A todo o comprimento da margem, o rebanho pôz-se então a beber manso e +manso, e sem o minimo ruido. + +Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um +pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem. + +--Táte, Gonçalo! Aquella chocalhada... + +E immovel, remordendo o labio, com o ouvido á escuta, pensava: + +--Ora se será ella?... + +Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um +clarão de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como elle, com +quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira. + +--Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo. + +E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, pôz-se attentamente +á escuta do tilintar dos chocalhos na margem opposta. + +«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser +outro que não a Rosaria...» + +Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou +ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para deante o bornal, feito da +pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua +flauta e pôz-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rustica. + +No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe: + +--Ehlà, Gonçalo, és? + +O pastor desatou a rir. + +--Uhlá, Rosaria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona! + +E logo a voz fresca da rapariga lembrou: + +--Não te esqueceu a moda, rapaz! + +--Isso esquece ella!... Ouviste, Rosaria?--Se outra fosse que m'a +tivesse ensinado... + +N'este meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir +ter com a Rosaria. Mas primeiro perguntou: + +--Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa? + +--Vem tu d'ahi. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Han? + +--Basta! + +E dando o signal da partida, o Gonçalo pôz-se em marcha. D'ahi a +pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte moirisca, toda severa de +construcção nos seus tres arcos lançados sem elegancia, atufados de +parasitas seculares que a faziam pittoresca, heras, silvas, ortigas +bravas. + +A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratorio ao Senhor +Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar +coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho +com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que +era como um talisman precioso para livrar de maiores +desgraças--naufragios no rio, e então maus encontros por aquelles +caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animaes. + +D'ahi a pouco, as duas creanças estavam perto uma da outra, cada qual +seguida do seu rebanho. + +--Ora viva a Rosaria!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da +cachopa. + +--Bons dias, Gonçalo; então que ventos? + +Entre os dois travou-se então um longo dialogo em que se contaram tudo o +que haviam feito desde aquelle dia em que ambos tinham voltado juntos da +feira dos Caniços. + +--Por signal que nem rez se vendeu!--lembrou o Gonçalo. + +--Por signal!--disse com pena a Rosaria. + +Mas elle contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que +a encontrava. «Vêl-a agora, só por milagre de santo; quem o havia de +sonhar! Nanja elle...» + +--Mas se eu estive tão doente!--volveu triste a Rosaria. + +E como o outro acudiu a informar-se, ella explicou: + +--Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era +mesmo lume desde manhã até ao escurecer... Uma assim! + +E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na +febre, sonhara com elle, que se encontravam os dois por montes e prados, +como agora tinha acontecido, «tal e qual». + +--Assim te Deus salve, ó Rosaria?--atalhou rapido o pastor, a quem +enchiam de orgulho os sonhos d'aquella pequena amiga. + +--Assim; pois que duvida?--tornou-lhe confiada a Rosaria. + +--Não!--disse agastado o Gonçalo.--Não has-de dizer assim... Diz certo, +has-de jurar direito. + +--Pois assim me Deus salve... + +--Como é verdade...--Diz tudo, Rosaria!--supplicava o pastor. + +--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como é verdade que sonhava +que nos encontravamos--concluiu por fim, muito risonha. + +E sem disfarçar o jubilo, prestes o Gonçalo a certificou de que tambem +não a esquecera. «Tanto é que tirava da frauta as cantigas todas que +ella lhe tinha ensinado.» + +--Lembras-te? + +A Rosaria faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de +sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar: + +--Sahem d'aqui sem falhar uma.--E resoluto:--Vá feito, Rosaria, pede por +bocca! + +A Rosaria pediu então a _Pastorinha_. + +--Eu é da que mais gosto,--explicou.--É a mais linda. + +--E é!--concordou o Gonçalo.--Ora escuta lá. + +E levando aos labios a avena, pôz-se a tocar a _Pastorinha_, emquanto a +Rosaria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a lettra: + +Onde _vás_, ó Pastorinha, +Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé... + +--Sabes essa! É mesmo assim!--disse-lhe a Rosaria a rir-se. + +--É como vês!--affirmou contente o Gonçalo. + +Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos, +confundidos, andavam na pastagem. + +--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonçalo. + +--Tambem nós nos quedámos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As +pobres dão-se bem, são amigas...--continuou com jubilo. + +--E nós tambem, ora tambem, Rosaria? + +--Tambem--respondeu afoita a pastora. + +E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denuncias. + + * * * * * + +A esse tempo, no céo alto e lavado a estrella d'alva fenecera por fim, e +o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céo em +cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias extranhas que iam +despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de +perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, +tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de +azas--passarada alegre que sahia agora dos ninhos e voava a matar a sêde +á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em +reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convisinhos onde a vegetação +era mais rica de seiva e mais facil a presa dos insectos, perdizes +gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos +vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas +de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicóllos, +viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de +taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já +nas povoações proximas sinos chamavam para a missa d'alva ou tocavam a +Ave-Marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de +almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no céo +immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada +para a labuta interminavel do dia. N'uma clareira elevada, dominando o +rio e um trecho de paizagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores +e continuavam conversa. + +Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua côr +trigueira levemente pallida desde que tivera as maleitas. Não se +lembrava com que santa que elle tinha visto se lhe parecia agora a +Rosaria... + +--Mas o cabello assim cortado...--disse com magua, mirando-lhe a cabeça +nua, e passando a mão pela d'elle,--é que te não fica bem! + +«Melhor fôra que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a +mais, que era como elle gostava...» + +--Promessa da mãe se eu melhorasse--explicou a Rosaria--Lembranças... A +gente quando está afflicta... + +--...Quando está afflicta...--repetiu como um echo o pequeno. E depois, +amuado:--Se promette os olhos... + +A rapariga fitou-o, espantada. + +--...é porque t'os tirava!--concluiu convicto. + +Houve um momento de silencio, em que o Gonçalo se pôz a escavar o chão +com uma pedra, e a Rosaria a torcer um fio saliente do seu vestido +grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar +na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar. + +--Não fallas, Rosaria?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para +ella. + +--Tambem tu...--começou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a +lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!--E depois +animando-se:--Já foste á Senhora dos Remedios? + +O Gonçalo fez signal que não tinha ido. + +--Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. N'um prego ao lado +do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo. + +O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E +para acabar com ella: + +--Que emfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a +girar.--Olha como dança...--E depois, mais pensativo, batendo com o +bilro nos dentes: + +--Que ás vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem +fez este bilro? + +--Foste tu, aposto. + +Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lh'o +orgulhoso--«que visse os _torneados_.» Depois continuou: + +--Vae uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os +santos!--Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem resou e +bem promessas fez, mas ella foi-se. + +E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho. + +--Aquella ovelha, a branca, não vês? A que se vae agora deitar... Pois +era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.--E deitando-se para +traz:--Lá anda ella a pastar!--concluiu desalentado. + +--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosaria,--que as promessas +sempre fazem, lá isso... + +E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo +de que sempre valiam as promessas. No emtanto, deitado de costas, com a +jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em angulo tocando-se com os +joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia +subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto +se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosaria ia +entretendo o pastor. Mas quando ella fazia pausa, logo o rapaz acudia, +firme na sua objecção: + +--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina! + + * * * * * + +Á medida que o sol ia subindo, no céo glorioso e fulvo, iam os dois +conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados, para se livrarem da +estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia, que +foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheiraes, +depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de +conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas +passassem tão depressa. Ainda armaram aos passaros, mas foi o mesmo que +nada, os demonios andavam espantados e já conheciam as esparrellas. + +--Olha lá não caiam,--tinha dito o Gonçalo, já cançado de estar á +espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se elles +fossem tolos... + +E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella +então propoz que jogassem a pocinha. + +--E o fito, ó Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos de +tarde, bato-me com qualquer, sabias? + +E generoso:--Mas a ti dou te partido: vinte e cinco ás quarenta... + +Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a +bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia á mão, era elle que ia +buscar o pausinho, quando zinia longe. + +--Turco, traz cá! + + * * * * * + +No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céo esmorecia no seu +azul suavissimo. Em todo o espaço o ar estava tranquillo e sereno, e já +começava para poente a decoração phantastica do occaso. Parece que se +ouvia mais distincto o marulhar das aguas no rio; já não faiscava assim +tão viva a areia branca das margens. + +Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as +ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os +olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim: + +--Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste? + +«Ora que lhe custava a ella! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo +o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?» + +--E o mais, ó Rosaria?--perguntou de novo com interesse. + +A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar, +respondeu: + +--Tambem.--E sorriu-se.--Pois eu... + +Só depois d'esta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o signal +de partida, assobiando aos cães. + +D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha +ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo +areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada +tremeluzia, tirando á agua a sua translucidez normal. + +--É bonito!--fez notar o pastor. + +A Rosaria explicou logo: + +--São as moiras a caçar com redes d'oiro, sabias? + +Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam á flôr da corrente +as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava +serenamente, a mãe com o mais novito ao collo não os perdia de vista, +emquanto o pae, em mangas de camisa, de pé n'um topo de fraga, lhes ia +ensinando as _manobras_. Ao fundo, tres vitellas passavam o rio a vau, +muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia d'agua +serena, bebendo mansamente. Sobre o vitello das malhas brancas, o +guardador cantarolava, acenando com o chapeu ao moleiro--«boas tardes! +boas tardes!» Ao sahir da ponte, o rebanho teve de se affastar um pouco +do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos +carregados, tilintando campainhas. + +--Adeus pequenos! cumprimentou. + +--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos. + +E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas, +confraternisavam os cães como bons e leaes amigos. Á frente, o Gonçalo +ia tocando na flauta o mesmo que a Rosaria cantava. O brando rumor dos +chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a musica, +fundindo-se n'uma nota subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada... + +Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e +então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, collocando na sua frente +a Rosaria, e pondo-lhe á cara a flauta, na direcção em que devia olhar. + +--Vês além... n'este direito? Rez-vez do castanheiro, não enxergas? + +A outra fez que sim com um gesto, e interrogou: + +--Então é ali? + +--Ali mesmo--volveu-lhe já de marcha. + +E repoisando a mão direita sobre o hombro esquerdo da rapariga, +repetiu-lhe muito contente: + +--É mesmo além. + +N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o espaço +que as ovelhas tinham de occupar essa noite. + +--Falta pouco; a gente vae pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a +cavallo. + +E como elle ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quiz então +saber: + +--Estás triste, ó Rosaria? + +--Triste... não. Já agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa. + +--Huum! Arrependeu-se...--volveu comsigo o pastor. + + * * * * * + +Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para +dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle ainda trazia +azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo +apontou para a cabana que ficava alli perto, e propoz que se deitassem: +estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora. + +Quando o Gonçalo e a Rosaria entraram na cabana e se deitaram sobre o +colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro +os bornaes que faziam de travesseiro, cerrára de todo a noite, e +formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida no azul +indefinido do céo. + +--E os lobos?--perguntou a Rosaria com medo. + +--Não ha perigo--tranquilisou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães. + + * * * * * + +Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos +chocalhos. A ladrar, os cães faziam echo. O rebanho devia dormir +profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada toda a +Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo, +n'um ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se +deixaram adormecer,--quando a historia das moiras encantadas ia no seu +melhor episodio... + +E lá no alto céo, mesmo sobre a cabana, a estrella da tarde não era nem +mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa d'aquellas duas +creanças... + +Quando ao repontar da manhã se levantaram, e sahiram a vêr o céo... + +--Bonito dia, Gonçalo! + +--Bonito dia, Rosaria! Olha... + +...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando... +voando... + + + + +SULTÃO + +(Copiado do Natural) + +_Ao meu Henrique e a Beldemonio, seu amigo_. + + +I + + +Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa, cançado, esfalfado de +andar um dia inteiro a mourejar no campo. + +--Meus peccados, boa tarde!--dizia elle para a mulher, com um sorriso a +affectar seriedade. + +Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a benção. + +--Deus te abençoe. + +--Pae, olhe que o «Sultão»... ia a dizer o pequeno. + +--Bem sei! atalhava logo o Thomé.--O «Sultão» é um maroto e tu és outro. + +E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de +_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze annos, e abria a +gaveta do pão, o Thomé punha-se a fazer de interesseiro comsigo mesmo, +resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse: + +--É que por este caminho não tenho um dia descançado... Nem uma hora... + +Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra. + +--...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim ha de chegar... A +modos que vou já cançando... + +Mas o Thomé não era homem que dissesse estas coisas de coração. +Pareciam-lhe longos, interminaveis, os aborrecidos domingos que passava +sem ir campos fóra, madrugador como um melro. + +--Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thomé encolhendo os +hombros, como quem está desgostoso com um genio assim. + +Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua +cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra +que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito á vontade. + +Costume velho do Thomé:--mal se sentava, mastigando o «boccado», dizia +logo para o filho: + +--Ouves, Manuel? Bota cá fóra o «Sultão». + +O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia +nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de +contente, dizendo cá da rua: + +--«Sultão»! Sae cá p'ra fóra, «Sultão»! + +No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta +baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em +riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um movimento moroso de +palpebras pestanudas... + +E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas +pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava,--um grande riso de +alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão». + +Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o +Thomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de +quadrupede de boa raça, alguem lhe poderia lêr no olhar, mole e +impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o dono... + +Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se +então a fallar muito serio, entre resignado e cortez, para o pequeno e +desdenhoso jumento--o pão e o queijo esquecidos n'uma das mãos, na outra +a navalha de _meia-lua_: + +--Então, «Sultão», não vens? + +--Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a +envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia d'aquella +immobilidade de estatua, apenas de quando em quando uma pequenina patada +na soleira, zap! + +--Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.--De mal comigo? + +E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á +vontade...--que não fosse vel-o o «Sultão»... Mettia entre dentes um +pedacito de queijo, logo uma codea de pão, e fazendo umas grandes rugas +na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito serio: + +--Ficas ahi, «Sultão»? Já não és meu amigo? + +O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que +fazendo-se humilde... + +--Então se és, anda d'ahi. Olha...--E mostrava um pedacito de pão.--P'ra +ti se vieres... + +O «Sultão» dava tres passos, e ficava fóra do cortelho. E por se vingar, +o Thomé carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada, e erguendo o +rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, affirmando que já lhe +não dava o pão. E desfechando-lhe emfim a ameaça de o vender a um +cigano, entrava a tratal-o por senhor--_sôr_ «Sultão»... + +Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas +baixas, pescoço cahido, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão +da arrelia. + +Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra banda, a rir +como um perdido. + +--Diabo do gerico! diabo do ratão! Capaz é elle de fazer rir as pedras, +o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na guela. + +No emtanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com +o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé sacudia-o: + +--Sae-te p'ra lá! dizia elle muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez +que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vae-te! + +Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao +focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar +obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço +superior, a tremer, e roubava-lh'o da mão. + +Pazes feitas! Era então rir a perder, n'umas casquinadas agudas, muito +estridulas. + +--Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.^a Josefa.--Até pareces +doido! + +--Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava +o Thomé, n'uns grandes gestos.--Vamos que eu lhe não queria dar da +merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque. + +Era precisamente o que o Thomé queria:--ver o «Sultão» a brincar. + +...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do +lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe +consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes +causticantes e chuvas torrenciaes. + +Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das +«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Ás vezes, o pequeno jumento, +ferido não sei por que vespa invisivel, despedia sem mais nem menos +n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, agitando a +cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a banda n'um alarido o +rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam como doidas, +cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Accudia gente aos +postigos, ás portas, ás janellas, a ver a polvorosa; e subito se +inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quasi nús, correndo +atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o +mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a propria +rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre +todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, acclamado, na malta +espavorida dos inimigos... + +--«Sultão»! eh lá! «Sultão»! + +Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de +volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga, não lhe +desse na bôlha atacal-os... E abriam alas de repente, quando elle, +tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se não +deixar atropellar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era, +já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas +estridulas, os rogos para que pozesse treguas, as supplicas para que se +accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da escada, onde +se deixava cair,--derrotado! + +--P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Thomé, oppondo-lhe os pés, +desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para traz, a rir +como um perdido. + +Então o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes rompia a +girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as patas, cauda +no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé solicito dava aos +rapazes o aviso de se arredarem--«porque era doido, aquelle demonio»!... + +Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito +cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um cão, +certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os +saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes á surpresa da +viandante. + +--Dê, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de lá o Thomé, com ares de +zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma +verdasca:--«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava. + +E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a elle, +muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um cumprimento humilde +de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça, +preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» signaes de medo, e humilde +proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um +passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada +ganhava o terreno perdido--fitando impassivel o cão... O bruto formava +então o salto, regougando forte, o pêllo eriçado; e ao investir para a +primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que +por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra +coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido: + +--Eh! valente! gritava-lhe então o Thomé. + +E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo +ao correr a caravelha: + +--Não ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve! + +E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia para a cama sem +primeiro descer a vêr o «Sultão»,--de candeia na mão esquerda, e na +direita, contra o sovaco, a bella quarta do grão, acogulada. + +Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de candeia +attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de cima, a sr.^a Josefa +tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado: + +--Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas. + +E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que +fallou,--historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto +que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo +desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse: + +--Boas noites! + + * * * * * + +Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao +cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a +mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de +enorme--gelada... + +--Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.--Ó Josefa! + +A mulher assomou á janella, sobresaltada. + +--Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?! + +--Que te roubaram o quê? fez a sr.^a Josefa, muito attonita. + +--O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que m'o roubaram! + +E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, descalço, romperam todos +tres na gritaria, defronte do cortelho vazio: + +--Á d'el-rei! Á d'el-rei! Á d'el-rei! + +Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na +peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram. + +Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando +ao peito abatido do Thomé a negra e vazia palavra: + +--Nada!... + + +II + + +Dois annos depois. Tarde d'agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a +eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e +embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverisações doiradas da +ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de +ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, +esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja. +Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e +além, alegremente, a monotonia profunda do azul. N'um deslado, sob os +castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da +igreja, as paredes caiadas da escola. + +A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava áquella hora o +aspecto tranquillo e de paz de uma grande officina em repouso. Poucas +«mêdas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e +estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das +«mêdas» altas, entre os utensilios da trilha e a creançada estridula que +brincava, os da lavoura descançavam--vermelhos da soalheira intensa de +todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nú, arregaçados +os braços musculosos, n'uma prostração regalada de matilha que alfim tem +a sua hora de socego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da +fadiga os proprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram +todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali, +dando uma sensação agradavel de fartura, perfilam-se os altos saccos no +meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa, +ao redor de um grande montão de palha triturada, vae «limpando»--visto +que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao +mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os +«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão, +varrendo em roda n'um afan... Em certo ponto, carros vasios; um além, de +altissimas «angarellas», vae-se enchendo de palha; emquanto outros, +atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas mais baixas, +estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois +gigantes. + +Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de +bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas +oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêllo. E lá vão +encosta abaixo, roçando pelos troncos asperos dos castanheiros a enorme +corpolencia, fartar o largo bandulho á serena agua das ribeiras, +sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, +monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam, +submissa... + +Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres +cantava alegremente, em côro. Acabara de ensacar-se o ultimo grão da +farta colheita do Thomé da Eira. + +--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.--A primeira +da aldeia! + +--Qual? isso sim! vão vocês vêr a tulha. Muita palha, é que vocês hão de +dizer, muita palha e pouco grão... + +E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as +mangas arregaçadas pelos cotovelos, O Thomé ia e vinha, dando ordens, +repetindo avisos, distribuindo aqui e além as ultimas tarefas. + +--Ahi vae um sacco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um +grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por ahi +alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso. +Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vae no carro está +bem. + +E era como um doido a metter-se no serviço de todos, muito expedito, +loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora +dormir... + +--Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma, +que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz ahi no chão esse +«rasouro», ó coisa?--Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses saccos que +fiquem bem atados. + +O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no +ar, se era preciso mais alguma coisa. + +--Não, pódes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te. +Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo, +deixa ir os animaes a passo. Vae-te. + +Como o carro chiava, levantou a voz para dizer: + +--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os +bois para o lameiro. + +Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:--«seria preciso vir por +elles?» + +--Não vale a pena, lá irão. + +E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os +levava, aquelles dois saccos... + +--Com mil demonios! Apostar que vocês não adivinham? + +«Elles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois saccos, olhem agora!» + +--O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então +que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve! + +Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a scisma do animal não lhe +passava nem á mão de Deus Padre!» + +--A modos que isso é já mania, ó sr. Thomé? + +Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpreza. Voltaram-se +todos--«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando, +a cavallo. + +--Vocês não querem vêr, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se +pallido.--Aquelle burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por elle... + +Recordaram:--«estrella malhada na testa, a mão direita branca»... + +--É elle, com um milhão de diabos! não ha que vêr! E aquelle é o ladrão! + +E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou, +d'um abanão, o cabo d'uma «espalhadoura» e botou a fugir direito á +estrada. + +Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido: + +--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem +a alma lhe deixa! Acudam! + +Os homens deitaram a correr atraz d'elle, affluia gente de todas as +bandas da eira, os cães ladravam. + +--Então, sr. Thomé? olhe que se perde, sr. Thomé! diziam-lhe, já +agarrados a elle.--Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem, +sr. Thomé, largue vossemecê o cabo! + +--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas, +mais a vocês, se me não largam! Arreda! + +E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a elle mais ao +cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes. + +--Vê, sr. Thomé?! + +«Não via nada, não queria ver cousa nenhuma! Arreda!» E n'um rompante de +ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou á estrada, aos +tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando. + +--Abaixo! intimou.--Você é um ladrão! + +--Um quê? + +--Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matal-o aqui, seu patife! +Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, como um cão! + +E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda, +e na direita o minacissimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo +razo--«com seiscentos milhões de diabos!» + +Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos. + +--Já lhe disse que você é um ladrão! + +--Ladrão será você!--tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos +cerrados.--E não m'o diga outra vez, que o racho! + +Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a +capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador entrava de +tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca +bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um +pedaço de hombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas +agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas cabeças em desordem. + +Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--«tinha-o +comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...» + +--Vê, sr. Thomé? acudiram logo uns poucos.--O homem não tem culpa.--E +gritavam-lhe aos ouvidos:--Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé. +Vês-ahi está! + +--Mente! objectava incredulo o Thomé, cada vez mais irado.--Mente! + +--Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado. + +--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thomé. + +De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi á má +cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Elle então, +abrindo os braços como se fosse para nadar, socegou um pouco, +amainou,--prometteu levar aquillo com paciencia, ás boas. Chegou quasi a +pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das +camarinhas.--«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?» + +Chegou-se por fim a um accordo. «Sim, senhores, accommodava-se, mas +punha uma condição: largasse elle o burro, e o burro é que havia de +resolver...» + +--Serve-lhe o contracto? + +--Qual contracto? + +--Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro ás soltas. +Depois, é p'ra onde elle fôr. Se o burro larga p'ra traz, lá p'r'as +bandas d'onde você vem... Você d'onde vem? + +--Dos Casaes. + +--Pois ahi está. Se o burro tomar p'r'os Casaes, o burro fica seu... + +--E tomando direito á aldeia, é do sr. Thomé,--concluiram alguns do +grupo, conciliadores. + +--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim. + +Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia historia que o +burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe +custara tiral-o de casa. + +--Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe então que vae pr'os +Casaes...--affirmou. + +--Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vae. Você está pelo +dito?--quiz saber o Thomé. + +--Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro +n'um rompante. Olhe: uma, duas, tres; ás tres largo-lhe a arreata. + +Ia já a abrir a bocca para dizer--«uma!» + +--Alto! fez o Thomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas +festas ao animal. + +E pôz-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um +pouco a fital-o de frente, «para que o animal o conhecesse.» + +--«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»! + +O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a +lembrança porventura adormecida d'aquelle nome despertara subitamente... + +--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se +p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casaes nem p'r'o logar. Assim. Eh! Eh! + +E afastou-se para o lado, aguardando. + +Uma anciedade dominava n'aquelle momento os do grupo; o Thomé pôz-se a +roer as unhas, nervoso... + +--Então você porque espera? perguntou. + +Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo: + +--Á uma!... + +O Thomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de +esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da mão direita... + +--...ás duas! + +--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Thomé. + +E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força. + +--...ás tres! + +Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e +gargalhadas! O Thomé vencera: corriam todos a abraçal-o, affirmando que +o caso era para foguetes. + +--Viva o sr. Thomé! Viva o «Sultão»! Aquillo é que é burro! + +--Aquillo é que é amigo, hão-de vocês dizer!--emendava o Thomé a rir. +Tenho-os com dois pés, que não valem metade... + +--Oh! sr. Thomé! protestavam alguns. + +--Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que +não é com vocês. + +E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fóra, o «Sultão» corria +que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao +fundo, na poeirada immensa da estrada, como que nimbado n'um resplendor +de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia +agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casaes... + +Quando o Thomé chegou a casa, offegante, a suar, cheio de gestos e de +palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava á +porta do antigo cortelho, n'uma grande impaciencia, um «rap-rap» +continuo na soleira. + +--Venham vêr! Venham cá vêr! berrava o Thomé para a vizinhança. Ó +Antonio! Ó compadre! Ó Maria Engracia! + +Ás janellas assomava gente, perguntando se era fogo. + +--Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó +Josepha! Josepha! cá temos o burro, este demonio. Assoma. + +Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effusão do lavrador. +Abraços? E até beijos. Aquillo era um thesoiro perdido que reapparecia +alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu +homem teria endoidecido... + +--Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda d'ahi pelos saccos. São +só dois. Ó Josepha! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca, +avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior. + +E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um +pulo. + +--Ah! + +A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafão. + +--Anda, mulher, põe aqui deante de mim. Avia-te. + +Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma observação, um conselho, +qualquer coisa de tomo... + +--Adeus, minhas encommendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe +aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem. + +--Nome do Padre... + +--Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui! + +--Nome do Padre, nome do Filho... + +--A caneca! Venha de lá agora a caneca! + +--...nome do Espirito Santo! + +--Passa bem, ó mulher,--concluiu ás gargalhadas, entre as gargalhadas +dos demais.--Ouves? Quando o Manoel vier dos ninhos, esse maroto, +manda-m'o ás eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente! + +E lá parte, veloz como uma setta. Já de longe volta-se do repente: + +--Josepha! ó Josepha! n'esse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o +«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno +não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido. + +E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a +direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, elle lá vae n'uma +corrida, sumido n'uma onda de poeira, até chegar ás primeiras «mêdas». + +--Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por +andarmos de mal ha 15 annos isso acabou-se! + +E o Thomé atravessou a eira sempre a cavallo no «Sultão», caneca de +vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda. + + * * * * * + +Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manoel no meio +dos saccos, e adeante do Manoel o bello garrafão--sem pinga... + +Pelo caminho, a todos o Thomé contava a historia, a rir como um perdido, +n'um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas. + +--Colheita rica, sim senhores, um colheitão! + +E parando á porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e +remexendo o alguidar de barro: + +--Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo. + +...Ao mesmo tempo que o Thomé, abrindo os braços, respondia reclamando +as sopas: + +--Amen! + + + + +ULTIMA DADIVA + +_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_. + + +Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, +bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de fructas e hortaliças, +fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, communicando +com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao +pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a +nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga magnolia +gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas +janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que +lhe pendiam dos beiraes enlaçadas com as trepadeiras. + +De modo que na primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus +melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnolia +toda se toucava de flores fazendo docel á vivenda, aquelle pequeno canto +d'horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e limpida, tomava a +feição ingenua de uma delicadissima tela de paizagista, aquarella +deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos na poesia rustica da sua +simplicidade. + +No verão, ás horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga +paizagem adormecida e turva, e as arvores da estrada não davam sombra +que aliviasse, aquella tranquillidade com que o José Cosme ressonava sob +o alpendre, braços nús e peito nú, o chapeirão de palha grossa +resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cançados +e cheios de poeira, flagellados por aquella estiagem inclemente. + +--Ó tio José!--gritavam-lhe do caminho.--Tio José! Ó regalado! + +Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses +deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto. + +Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas +não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua +cultura--tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo +de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com symetria agradavel, +verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as +castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda +acaçapada no chão humido das regas, até ás trepadeiras das vagens que +enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o +esmero, formando massiços de verdura sombria que os casulos esguios dos +feijões crivavam de alto a baixo. Arvores, apenas as precisas para +aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca +das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de fructas nas +estações competentes--cerejas, peras, maçãs, pecegos mesmo. + +Poucas flôres: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que +lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as +cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que +por signal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os +goivos. Uma vez por anno, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e +ia leval-os em braçado á sepultura rasa das suas defunctas. + +Exactamente n'essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a funebre +visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se +bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de +chorar. Estava nas suas horas tristes, n'essas horas em que as energias +todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagello de uma +dôr violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham +morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lagrimas. De modo +que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades custavam o dobro a +supportar. Abstracto, n'uma especie de entorpecimento idiota, percorria +sem descanço todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, automato. +Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma quietação attenta, logo um +gesto brusco desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um fundo +gemido, e punha-se de novo a andar. + +--Vens ou não vens?--perguntava elle, evocando com dorido esforço a +imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando apparecia era como se +fosse um relampago, apagava-se logo. + +N'esta lucta com a sua dôr as horas iam passando longas. Era já tarde, +talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrellas, pois que o luar +nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o largo silencio da noite, +apenas cortado, ao longe, pela melopeia somnolenta do rio. + +Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e +viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se n'um recanto +onde a sombra era mais densa. + +--Temos historia...--resmungou comsigo o rapaz. + +E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, á espreita. Não desconfiou +que fosse o José Cosme: aquillo era mariola de larapio que vinha por ali +fazer das suas. Agachou-se então, e poz-se a procurar uma pedra. Apanhou +duas, para o caso de não acertar a primeira. + +--Cão do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a +pedra.--Espera que eu te arranjo...--E já ia arremessal-a na direcção do +canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao +logar onde o rapaz estava. + +--Melhor! Mais a geito ficas... + +E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava, +para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os +hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo +defronte d'elle, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme. +O vulto parecia, com effeito, ser o d'elle; lembrava-se agora de ter +ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da +filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aquelles carreiros +por onde ellas tinham andado. + +Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente, +deixou cair as pedras e perguntou: + +--Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luiz... Vossemecê que tem? + +O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu: + +--Doe-lhe alguma coisa, ó tio José? + +--Não dóe, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes. +Bem me bondam as minhas afflicções. Vae com Deus, vae. + +O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o José +Cosme dera áquellas palavras, e retirou-se silencioso, quasi aterrado +agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse +a pedrada. + +No emtanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruido que não +fosse o das aguas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadario, +ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou um somnambulo. +Ás vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não +sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. N'isto, de uma vez que +passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir passos. + +--Ó Thomaz! + +--Sr. José!--respondeu o que entrava, n'uma voz que era mesmo voz de +barqueiro. + +O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os +beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontral-o a pé, elle +então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado. + +--Como tinha de madrugar... + +--Pois são horas de largar, sr. José; isto vae p'r'as duas. Não tarda +que comece a amanhecer.--E como estavam á porta de casa:--Será bom +acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vae.--Iam á vela +se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso. + +Mas á ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair +sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar +violentamente. + +O barqueiro tentou animal-o, constrangido. + +--Então, sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que +homem!--E tentava levantal-o, pol-o de pé.--Limpe lá essas lagrimas, que +vae affligir o pequeno! Ou quer que elle vá a chorar todo o caminho? + +O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e poz-se a enxugar os +olhos com a manga da camisa. + +--Pois então levante-se lá.--E segurou-o com força por baixo dos +braços.--Assim! Lá porque o pequeno vae para o Brazil não fique +vossemecê a pensar que o não torna a ver. + +Mas era isso mesmo o que elle pensava... + +--Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno--concluiu +a chorar o José Cosme. + +--Scismas! lembranças que veem á gente quando está afflicta. Mas ha-de +vel-o que o não ha-de conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno menos anno, +apparece-lhe ahi rico... + +Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que desejava +era que voltasse e que elle ainda fosse vivo só para o abraçar. + +Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o José Cosme que +se animasse para animar o pequeno--recommendava o barqueiro. + +--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos lá com Deus! Com'assim.. + +E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito á porta para chamar a +pequeno. Não havia remedio, tinha nascido em má hora, havia de ser +desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde +cama o filho dormia profundamente. Que dôr, ter do o acordar! Vieram-lhe +tentações de mandar embora o Thomaz e deixar dormir a creança. Quem sabe +se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquillidade +d'aquelle somno! Não tinha coragem para o acordar, fazel-o vestir: era +quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o tecto +paterno... O ultimo somno! o ultimo somno! + +--Ainda se o deixassemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste. + +Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas de +pôr o barco a andar. + +O José Cosme accendeu então a candeia, reccioso de que a luz o +acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe a respiração. +Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou +baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o, sobresaltado como se fosse +praticar um grande crime: + +--Filho, olha que são horas, meu filho... + +Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o +estonteamento do somno, cerrando os olhos áquella hostilidade viva da +luz, o pae agarrou-se a elle n'um abraço, e ambos romperam a chorar. + +--Adeus, pae! + +--Adeus, filho! + +Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar á porta, avançou para desatar +aquelle abraço. + +--Olhe que é tarde, sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde! + +O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do +alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto. + +--A andorinha, filho?--perguntou o José Cosme.--Deixa que eu hei-de +olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado. + +Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era só um +instante. Lá estava ella, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe +tocou com as pontas dos dedos... + +--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a. + +A esta palavra, o pae retrahiu os braços e tomando o filho no collo +seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de pinho: toda +a bagagem do Joaquim. + +Ao transpor o cancello o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou +soluçando: + +--Quando voltarás ao horto, meu filho? + +O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam +de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as +arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim. + +Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o +sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo, +humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pae desejava +que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante d'elles, de +modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava, +divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação +fallavam alto. + +--Prompto?--perguntou ainda de longe o Thomaz. + +Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua. + +Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os soluços dos +dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de +angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o +barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram á beira do rio, +apressou-se a dizer para o pequeno: + +--Ora bem, Joaquimsinho, beija a mão a teu pae e dize-lhe adeus. + +Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar +o filho: + +--Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te +veja ir.--E fez-lhe prometter que havia de resar sempre a Nossa Senhora, +elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem fazia a +gente feliz. + +--Não te esqueças d'ella mais da alminha de tua mãe e de tua irmã... + +Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pae, +beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra. +Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava +desvairado: + +--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia! + +E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na cabeça, nas +mãos. Até que o Thomaz teve de intervir, era preciso despegar d'ali por +uma vez. + +--Com'assim, sr. José, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com +força puxou-o para elle. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José +Cosme que supplicava de mãos postas: + +--Só um instante, só um quasinadinha, Thomaz!--E o pobre pae caia de +joelhos na areia, n'uma attitude de supplica. + +Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando +ao colo a creança. + +--Rema!--intimou em voz rapida. + +O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram +_plhau_! sobre a agua. + +Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violencia desesperada, ao +ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco. + +--Adeus, Joaquim, adeus! + +--Adeus, pae! + +--Adeus! + +Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na +direcção do barco: + +--Thomaz! ó Thomaz! por alma de teu pae faz lá alto um instante. + +Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resolução, mas já agora era melhor +ficar sósinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto, +arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O Thomaz +que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme, +velho nadador destemido, com meia duzia de braçadas ganhou-lhe de +prompto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ancia de esperar o pae, +de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o José Cosme entregou +ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar: + +--É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!... +Reza-lhe, sim?! + +E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe +chegasse o pequeno para o ultimo beijo... + +Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a +lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue +em região mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro da noite, +apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar desalentado +do triste nadador, á voz do filho que chamava respondia cada vez de mais +longe--longe como se fôra do Infinito! a voz lacrimosa do pae--com o seu +funebre _adeus_! que elle bem sabia ser eterno... + + * * * * * + +...Só quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na distancia, +diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das aguas, +fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar á +praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar, +tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudissimo do Polo, +na direcção do horto silencioso... + + + + +COMEDIA DA PROVINCIA + +_A Alberto Braga_. + + +I + +PRELUDIOS DE FESTA + + +Esse anno, a festa da senhora das Dôres devia ser coisa de estalo. A +começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e +decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da +festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra +de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que +representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a +entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se +tivesse tempo de o acabar. + +--Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de lêr a carta. E +correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que «no seu anno» a _coisa_ +fosse de arromba! Depois, era um despique. No anno atraz, o José da +Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá +uma peça que era um castello a dar tiros, assim: Fff! Pum! + +--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o +Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do +arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que +apresentára. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na villa, ninguem +fallava n'outra coisa. + +--Então você já sabe? + +--Já sei. A cegonha. + +--A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro... + +--O que eu quero vêr é o camello. Feio bicho, já viu? + +--Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adeante do _Valente Rei +Arauto Fiel_. + +Enganava-se. + +O escrivão da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves +aferidor. + +--Até que emfim, amigo Alves. Até que emfim vou ter o gosto de o ver +arder. + +O outro não percebeu. «Que se explicasse...» + +--Um urso, no arraial queima-se um urso. + +--Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Tambem se lá +queima um burro. + +Ás duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não +ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua +predilecção. + +O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por +dentro. + +--Põe a tranca, se fôr preciso. + +Mas então era cá da rua: + +--Ó sr. Antonio! + +E na porta as pancadas ferviam: + +--Truz! truz! truz! Sr. Antonio! + +--Éna! c'um raio de diabos!--fazia lá de dentro o homem, furioso. + +--O senhor faz favor? É só uma palavrinha. + +Á janella assomava então o Antonio Fagote, com os oculos na ponta do +nariz e a carta do foguetorio na mão. + +--O camello? perguntava zangado.--O urso?! Camellos me parecem vocês, +ouviram? O que o homem diz é isto. + +E lia a carta, rematando: + +--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o +macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava +os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra! + +E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não +fosse elle burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar +animaes, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, ahi +tinhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o +José da Loja. + +--Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com +aquelle espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe +tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negocio... + +--Farofias! tinha dito o José da Loja. Farofias! + +--Pois se m'o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal +soube. + +E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde +rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se +proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições. +Depois, bom olho para a caçadeira. D'uma occasião, que foi preciso dar +montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi elle que deu voz de +preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh'a deu? A phrase ficou +lendaria: + +--Como-te a alma se te mexes! + +--E o outro não se mexeu, que elle comia-lhe a alma! commentavam +convictos. + +Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua +figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava com +60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora. Não era +nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma +largura de hombros que era o principal indicio de força. Pescoço curto. +Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremettia com força, +conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n'aquelle movimento sacudido. + +--Safa! que isso ahi é de ferro! diziam os rapazes. D'uma canna, hein? + +Mas bom homem, d'uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para +se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma +testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu lá da cadeira, +foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava sério quando +promettia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora: + +«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau +como o pintavam.» + +--Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o +Fagote. Do que elle é capaz sei eu. + +Mas n'esta occasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe +lembrava uma: ter sido juiz o anno atraz! + +Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz +este anno. + +--Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa +em casa foi elle. Elle é que se lembrou de me escolher, como quem diz: +«entrego-te a vara, sempre quero vêr como te arranjas...» + +--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das idéas do seu +Antonio.» + +--Sejam idéas, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual, +assim me Deus salve! + +--Mas quem t'o disse, homem? Quem foi que t'o disse? + +--Quem m'o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da mão direita.--Foi +este mindinho. Não falha. + +E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de +levar á parede. Agora levava! A festa ha-de se fazer, e festa de +arromba; _nanja_ como a d'elle que só levava seis anjos, e não sei +quantos andores, acho que meia duzia!» + +--Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio d'um homem! +Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do +corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava +olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos, compungida de +ver assim o seu Antonio. + +E poz-se então a renovar ordens, recommendações que a mulher já estava +farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao +atar das sangrias!» + +--Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel á cata d'elles por +esses povos á roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos. + +A mulher contraveio:--«dois seriam bastantes...» + +--Mau que ahi principiamos nós!--E poz-se a assobiar e a rufar com o pé +no soalho, arreliado.--Tres é que hão de ser. Não quero cá dois, porque +dois eram os do _outro_, o anno passado. + +A esta razão, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do silencio da +mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o _outro_. + +--Agora não fanfas tu... insistiu elle, risonho. É assim mesmo que eu +gosto. Signal é que tens vergonha. A _outra_ tamem não é mais que a ti. + +A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto. + +--Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada. + +--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes +de casarem... + +--E olha que depois de casada... insinuou a sr.^a Luiza, de venta no ar, +enfiando a agulha. Cala-te bocca. + +Façamos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que não se calou. +Mas n'este particular, o resto do dialogo convém que se omitta, mesmo +porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal á mulher do José da +Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas n'isto não lhe faço a +vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem sabe que eu sou +conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que por uma associação +logica de idéas a conversa veio parar em vitellas... + +--É preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o Antonio +Fagote. Sem vitella é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta. + +Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio. De +mais a mais sabia-se que o prégador dava o cavaco por um bom pedaço de +vitella assada. + +--O prégador é que arrasta ahi muita gente, observou a sr.^a Luiza. Para +um boccado de sentimento não ha como elle. Quando foi das missões, o que +elle dizia d'aquelle pulpito abaixo! É quanto se póde! + +--A mim o devem, se cá vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não +queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha de ir a umas caldas, e +14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle. + +--Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionario... + +Estavam n'isto, quando bateram á porta. O Fagote foi ver á janella. + +--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo. + +Era a creada da mestra regia, foram abrir. + +--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a sr.^a +Luiza, e este bilhetinho para o sr. Antonio. + +Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o Antonio Fagote foi +accender uma luz. + +«Que conversassem, emquanto elle via se tinha resposta.» + +--Muito calor, começou a sr.^a Luiza. + +--E então a casa da sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais +a creada. + +E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.^a Luiza, ao ouvido, de que +lhe queria uma palavrinha. + +Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n'uma +serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares. + +--Está se aqui bem! exclamou consolada a sr.^a Luiza. + +--Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe +um favor, disse atrapalhada a creada. + +--Se estiver na minha mão... + +A outra começou: «A sr.^a Luiza estava ao facto do que se dizia d'ella +com o criado do inglez. Decerto estava ao facto. Mas era mentira. +Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda +mentira.»--Estamos para casar! é o que estamos! «Elle já mandara vir os +papeis lá da terra, não podiam tardar».--Está claro que eu tenho +affeição ao rapaz... + +--Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.^a Luiza, para +dizer alguma coisa. + +--Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas é ahi que eu quero +chegar. + +--Que experimente o limão azedo, aconselhou a sr.^a Luiza. É milagroso +nas quartans. Não se afflija, que isso não ha-de ser nada.--E +dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom +para matar quartans, pensando que era o que ella queria, afinal. + +--Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recáia. Mas é por via +d'isso que eu lhe quero pedir um favor. + +Chegou para ella o banco de cortiça e confidenciou: + +--Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira, +qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja, n'aquelle +estado! inda não ha nada que sahiu da cama. + +--Pelos modos, os rapazes vão este anno longe pelo pau, disse com pompa +a sr.^a Luiza.--Muito longe! + +--Ouvi que á Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo com quem +elles se vão metter, o Canellas! Se desconfia, vae-se para lá de clavina +e faz alguma desgraça. Mais elle, que é atrevido! + +Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde elles iam pelo pau é +que ella não sabia. + +--A outra noite é que para ahi estiveram a combinar, o meu Antonio mais +os mordomos. Não ouvi. + +--Pois é lá! exclamou a creada. Mas o que eu queria, sr.^a Luiza, é que +o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,--supplicou afflicta a +rapariga. + +--Lá isso, esteja descançada, não vae! prometteu com grande auctoridade +a sr.^a Luiza.--Digo-lhe eu que não vae. E se não quer mais nada... + +--Era só isto, muito agradecida á senhora. + +N'esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a +testa. + +--Ora pois então aqui vae a resposta. Má letra, a sr.^a mestra que +desculpe. Mas emfim que leia como podér. + +--Então muita massada co'a festa? inquiriu solicita a rapariga. + +--Muita. Faz lá ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos +os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquillo. Ahi está que já +hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves. + +--Chh! fez admirada a rapariga. + +--Pois é verdade. Fóra o mais! fóra o mais! Nicas! E depois d'uma +pausa:--Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que ha muita coisa +de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia +uma horta, além no prado. + +--Muita gente... disse a rapariga. + +--Muita! e depois de certa aquella... Á meza talvez vinte e quatro +pessoas... + +A rapariga benzeu-se! + +--Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o Antonio +Fagote.--Olhe: o prégador... + +--Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga. + +--É. Não o ha melhor. Missionario...--explicou o juiz. Pois o prégador, +um; com mais quatro padres, cinco; com quatro musicos, nove; o compadre, +os pequenos, dois, doze. + +--A comadre não vem! que pena! fez do lado a sr.^a Luiza. + +--Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o +Antonio Capador, quatorze. O Telles, é verdade, Telles escrivão, quinze. +(_Pausa_). Com mais alguem que venha, vinte e quatro. Póde-se contar com +mais de vinte e quatro pessoas á mesa.--E a rir-se: Mas ha-de sobrar +muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres? + +--Isso então é uma praga! exclamou a sr.^a Luiza. Até parece que veem do +chão assim... E collocava em pinha os dedos todos das mãos ambas. +Assim... + +Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--«Adeusinho! o que havia de +estimar é que tudo corresse como desejavam.»--E se fôr preciso qualquer +coisa... offereceu-se. As minhas fracas posses... + +--Obrigada. Não faltarão occasiões. Muitos recadinhos á senhora +mestra... + +--E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio +Fagote. + +E então explicou á mulher: «Aquelle bilhete da mestra era a mandar-lhe +perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo». + +--Diz que o irmão, o brazileiro, assim que souber que ha macaco de fogo +no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o +ponho ao pallio. Como tres e dois serem cinco. + +A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mandára. + +--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brazileiro. Sempre é +homem que sabe dar o merecimento ás coisas... Mas o diabo agora é o +macaco! ponderou muito apprehensivo. Está para ahi meio mundo á espera +do macaco... + +A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o +bicho não viesse. + +--Táte! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--Dá cá +d'ahi a minha vestia. Manda-se uma «parte» ao homem. + +--Tambem póde ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje é que não, +aquillo já está fechado, o fio. + +--Vae ámanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez +accrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que accrescento, por via +das duvidas. + +Então, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do homem: + +--Ouves? já se não póde ir ao lameiro do Canellas pelo pau. + +--Han? qual pau? + +--O da bandeira. Todo o mundo já o sabe. + +Elle riu-se. + +--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!... + +E como ella ficasse estupefacta. + +--Nunca ouviste dizer que se põe o ramo n'uma porta e que se vende o +vinho n'outra? + +--Ah!... + +--Mas são verdes. Pois ahi é que vae a historia, e cantarolou, +satisfeito: + +O ladrão do negro melro +Onde foi fazer o ninho + + * * * * * + +Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãsinha o +Antonio Fagote sentiu bater á porta, de rijo. + +--Vae lá ver o que será, ó Luiza!--disse da cama o Fagote sobresaltado. + +Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto. + +--Vista-se, homem! Ande d'ahi depressa! Vista-se. + +--Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado. + +--Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro. + +--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguem á morte? + +--Peor do que isso! resumiu o José Manco. + +--Peor do que isso, então não sei... + +--Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua. + +O Antonio Fagote vestiu-se á toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou +de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava +chapeu. + +--Prompto! cá estou! + +--Venha comigo, avie-se. Abotôe as calças, se faz favor. + +E rodaram rua acima. + +--Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote. + +--Aguarde, que já vae saber. Não tarda. + +De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja. + +--Roubaram Nosso Pae, aposto?! + +--Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos +e veja vossemecê isto, esta porcaria! + +E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada +na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Varios +desenhos de animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas, aos +coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farofia_! + +Por um pouco, Antonio Fagote, de mãos atraz das costas, amarasmou-se, +com os olhos fitos no papel. + +E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n'uma +escamação, aos labios do Antonio Fagote aflorou apenas um sorriso. + +--Hum! resmungou. Bem sei... + +--Não tem que saber,--fez o outro. + +--O patife do Jose da Loja... + +--Pois está visto. + +--Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande socego o +Fagote.--Arranque lá isso, e venha você d'ahi, se quer ver. + +O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que +era melhor botar o patife ao desprezo. + +--Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e +mettendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim! + +Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos +arrancados do codigo penal. «Que não fosse agora pagar por bom +semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a offensa, com +elle José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de +burro não chegam ao céo». + +--Bem, levará só uma lambada, attendendo a que mais ninguem viu isto, +disse n'um grande ar de condescendencia o Fagote.--E você vá lá regar a +horta. + +Foi-se d'alli direito á casa do José da Loja. Estava ainda fechada. +Poz-se á cóca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia +d'aquella demora. + +--Grande cão! grande cão! monologava. + +Até que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de +casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo Antonio +Fagote senão quando se viu ao pé d'elle, cara a cara entre o balcão e a +porta. + +--Ó sr. José. + +--Dirá. + +--Venho aqui saber d'um caso. + +Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh'o pôr ao pé +da cara: + +--Foi o sr. José que fez isto? + +O outro olhou-o, attonito. + +--Sim! se foi o sr. José que fez isto? + +--Nada, eu não senhor. + +--Jura pela boa sorte dos seus filhos? + +Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado. + +--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote. + +O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe: + +--É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro. + +--É outro, que outro?!--disse arrogante o José da Loja, n'um impeto, +barriga panda sob o casacorio de lona. + +--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu +tambem não digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em pedaços, e +atirou-lhe com elles á cara aparvalhada. + +Sahiu d'alli e foi _matar o bicho_, tranquillamente, como quem vem de +cumprir uma obra de misericordia. + + * * * * * + +Na vespera da festa, um sabbado ás 10 horas da manhã, o fogueteiro +passava emfim n'um deslado da villa direito á capella da Senhora das +Dôres. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente. + +--O fogueteiro! chegou o fogueteiro! + +Por toda a villa passou um longo fremito d'enthusiasmo quando se ouviu o +foguete. Deshabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas. +O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro, +a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se +ordens já dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro ruido da +festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saiam esbaforidas +as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o sr. +fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o +que queria para o jantar. + +Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa, +perguntando a todo o mundo se o que estoirára tinha sido effectivamente +um foguete. + +--Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim +senhor! promettia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum! + +--P'ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E então isto? e punha-se a +girar de volta com o braço--o que é fogo do chão?--Mas tinha-se visto em +calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos +tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O +caso tinha estado sério! + +Mentia. + +--Hein? mas não o enganavam? + +--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia elle a atravessar as +eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo! + +O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou cá da +rua: + +--Senhor abbade! ó senhor abbade! + +--Que é lá? + +--Chegue á janella, faz favor? + +--Mas está muito sol, entre você, se quer. + +--Só duas palavras: + +O abbade, um rapaz novo, assomou á janella. + +--Que é? + +--Chegou o homem! + +--O homem! que homem? + +--O fogueteiro, quem ha-de ser? + +--Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E você vae ter com elle? + +--De cara. + +--Faz-me então um favor? + +--Dirá. + +--Dê-lhe recados meus. + +E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no +seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se +aquillo tinha sido o fogueteiro. + +--Grande homem! com seiscentos diabos! + +Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois +machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao +fogueteiro, com furia. + +--Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu +amigo, seu grande amigo». + +--Rapazes! gritou elle então. E tirou o chapeu da cabeça, muito +solemne.--Viva o senhor fogueteiro! + +--Viva! + +...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores +que o Antonio Fagote--chorou!... + + +II + +TYPOS DA TERRA + + +Desembocaram n'um largo. Era o ponto mais central da terra,--«_a +praça_.»--Aqui e alli, ao acaso, algumas arvores enfezadas, quasi tudo +olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas +grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, +com casas em volta,--o que na villa havia de melhor em construcções. +Ficava ao meio o pelourinho, exotico, mutilado, d'uma pedra grosseira e +muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de +ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva +sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n'um +grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de +tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do +_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estylo, +sem gosto, sem cal. Algumas _pedras d'armas_ em velhas paredes +decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam aristocracias +remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a negrura +chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem, fazia +tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruinas. +Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio, +d'uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as +sete: aquelle--«_estafermo_»--é que não andava nunca direito. De dia +ninguem o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando n'um mostrador +sem lettras, d'uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, +alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrazado ora adeantado, +dando meia noite quando eram quatro da tarde, e meio dia mal despontava +o sol. + +Eram as sete. Áquella hora é que os--«_figuros_»--da terra, quasi tudo +empregados publicos, vinham para o largo, á fresca. Alguns +passeavam,--seu fraque, sua bengala de canna com castão, chapelinho á +banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados, +outros do mesmo feitio cavaqueavam,--colletes desabotoados, perna +cruzada, chapeu para a nuca, ás tres pancadas. Um de pera comprida, no +degrau superior, contava facecias. Os outros riam alarvemente, +chamavam-lhe intrujão. Algumas--«_madamas_»--pelas janellas em volta, +nostalgicas, anafadas, de claro. Á porta do estanco, em cima, havia +outra roda,--uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando +cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quasi tudo maiores +burocratas:--o Mello da Administração, o Antunes da Camara, o Escrivão +de Fazenda, o Rodrigues do Real d'Agua. E outros. Á porta, perfilado e +muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexivel, com a sua +cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras +feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva, muito desempenado +quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse +levantar vôo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia fallar deante d'elle +n'um rato morto, n'uma carocha. Aquillo «fazia-lhe nervoso», enojava-o, +ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente: + +--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não +lanço fóra.» + +E se riam, elle exasperava-se: não comprehendia como podessem fallar em +taes coisas... De resto, bom sujeito, finorio para o seu negocio,--um +poucochinho beato,--diziam-lhe. + +--Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno, +a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro. + +E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados, +um poucochinho sibiladas nos _ss_. + +--Cigarros, Ernestinho, um vintem d'elles. Querem-se dos de Lima, +d'esses fortes. + +Declarou que tambem havia dos «especiaes.» Algum senhor queria? Tinham +chegado tres massos, p'ra ver. Oito por um vintem. + +--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorisados com a idéa de dar um +vintem por oito cigarros.--Guarde-os! + +«O senhor engenheiro, quando vinha á villa, perguntava-lhe sempre por +elles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.» + +--Olha o figurão!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre ha muito +idiota! forte cavalgadura! + +O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. Á +porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos. + +--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos +outros. + +Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um +silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo +que n'um gesto acanhado, receoso, fazia menção de offerecer:--«alguem +era servido?» + +Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licôr, e das botijas de +genebra, Ernestinho sommava a conta. Era já taluda.--«E vão dois e dois +quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os +receberia!»--E suspirava, arrumando os massos encetados, sob o olhar +tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao +alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d'um caixote forrado +a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados. +Mas resignava-se, que não tinha outro remedio. Eram os ossos do +officio... + +Cá fóra tinham dado fé, acotovellavam-se chamando asno ao +Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não ha +dinheiro, ha-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E +pagava-se. Mas não senhor! aquella besta mostrava sempre má cara, o +alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o procuravam, que o +preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia... + +O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o _Agua leva o +regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um +sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros. + +--Estender as pernas,--disse. Quem vem d'ahi? + +Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra traz p'ra deante, n'aquella +semsaboria da praça. + +--Até logo. Você apparece no _sitio_, á noite? + +--Appareço, vou á desforra. + +E cumprimentando em roda: + +--Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto. + +Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras. + +--Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe +diga _bem-haja_... + +Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dividas nos outros estancos.--Em toda +a parte.--Lá em casa a familia passava fomes.--Um batoteiro de marca. + +Houve agitação, alguns pozeram-se de pé, outros mudaram de logares. Ia a +passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de +novo, muito ronceiro, roendo as unhas. + +--Com que então... _ponha lá ao pé dos outros_?--disseram-lhe, para o +lisongear nos seus despeitos.--Bem bom freguez! + +Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n'um gesto +de martyr resignado. E não disse palavra--p'ra fallar d'aquelle tinha de +fallar tambem d'elles... + +Mandaram vir limonadas,--tres limonadas! + +--Ahi vão trinta réis! + +Diabo! era preciso animar aquillo. Assim não tinha geito. E pozeram-se a +fallar do tempo, das moscas, d'aquelles idiotas que andavam na praça a +dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar tres limonadas,--e +sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas. + +O Ernestinho deu dois passos fóra da porta, e chamou para a varanda, +onde grandes mangericões floriam: + +--Ó Emilia! Emilinha! + +A mulher assomou, gorducha, muito molle. + +--Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa. + +As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil encontrar +uma collecção d'asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos +grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe +agora para cantar. Lá andava elle. Volta meia volta, + +_Vai alta a lua na mansão da morte_ + +com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava +antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só +tinha uma coisa boa--a caligraphia.--Um talhe de letra +bonito,--confessavam.--E as calças, hein? reparem vocês n'aquellas +calças, vae flammante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os +do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, affavel. Corresponderam todos, +muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota, +palerma, pechisbeque... + +Sósinho, n'uma lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céo, o +Telles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Ás vezes +quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo entre os dentes, um +olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em +marcha, contrafeito. + +--Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Telles, aquelle +telhudo? E isto:--e poz-se a imitar o escrivão. + +Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente. +Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana ás turras a um logogripho +em acrostico. + +--Isso é o Telles!--fez um que vinha da praça.--Aquillo é um intrujão. +Na rua não é que se adivinham logogriphos. Ó Ernestinho, você ainda tem +d'aquillo que _ferve_? + +O Ernestinho deixou descair o labio, não percebia... + +--Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas... + +--Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas... + +--Ora é isso mesmo, nem mais. + +--Bem sei. + +Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra que? Achavam caro um +tostão... + +--Eram aos tres para beber uma garrafa... + +--Podera! Por um pataco, trinta réis levando o assucar, fazia o _Hervas_ +uma sóda,--objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa. + +--E aquella porcaria, ó Ernestinho, e aquella porcaria amarella que +sujava tudo de escuma? + +Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com +seiscentos diabos! + +--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo +toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo. + +E com um sorriso de desdem, exclamou: + +--O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho... + +Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a +palavra--«_pulha_»--pronunciada com força. Sahiram em tropel, ficaram só +tres.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de proposito! +Ficava exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella +sucia lhe chupava o refresco: + +--Tó Russa! já lá vae esse tempo. + +Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma bandeja:--Que +provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas parecia-lhe que devia +estar bom... + +Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para +aquellas coisas. + +--Obrigado, ó Mello! + +--Obrigado, ó menino! + +E os dois sairam de rompante, chamando _pato_ ao Mello, rindo-se d'elle +e limpando os beiços. + +Quando o Mello ia sahir,--a ver o que ia na praça,--o Ernestinho, muito +cortez, objectou-lhe que faltavam trinta réis:--Se alli não tinha, +depois. Isso era o mesmo... + +--Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?--perguntou desconfiado +o Mello. + +--Do assucar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado +acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Mello desculpe. + +Não tinha que desculpar; sómente notava que aquellas coisas diziam-se no +principio.--E sahiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Tres +vintens não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco... + +Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma +grande roda, commentava-se. O Mello quiz informar-se:--que lhe +contassem--«_o escandalo_». + +Ora! não fôra nada: o Veiga que se tinha lembrado que as +correspondencias na _Voz do Districto_ eram escriptas pelo Albano. +Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que +é casmurro, teimou:--que não acreditava, ainda assim!--Vae o outro +chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi está! + +--Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?--quiz saber o Mello. Aquillo +ha-de ser escripto por alguem, está claro. + +Dez réis pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem sabiam +elles... + +--Quem, então? + +Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro +dava a sua palavra de honra que tambem não era elle, jurava-o. Houve um +que se lembrou se aquillo seria do padre Mendonça. + +--Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se mettesse +n'isso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga... + +Mas o da idéa insistiu, renitente:--havia alli suas coisas que o faziam +lembrar, certas facecias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e +_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto. + +--Pois se é elle, que se regale, póde limpar as mãos á parede. Mente +como um alarve, mente da primeira linha até á ultima!--disse firmemente +o verdadeiro auctor das correspondencias. Olhem o que elle diz do juiz +de direito, só calumnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco +pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito. + +De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma +infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma +coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não +havia duas amizades leaes, que era tudo uma impostura... + +Houve um silencio significativo, talvez de approvação. + +--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia +as correspondencias com o pseudonymo de _Aramis_. Vejam vocês aquellas +gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se lá fazer politica?! +Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor, discuta-se o +homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os +fundilhos das calças; ninguem quer saber se os creados lhe param em casa +ou se não. E depois, aquellas allusões á família, aquellas piadas á D. +Engracia, pobre velha... + +--A quem?--interrogaram uns poucos. Á Dona quê? + +--Á D. Engracia, está bem de ver. Aquella beata que fazia piugas de lã +aos missionarios é ella. Presumo eu que é ella-—fazia o Nunes das +correspondencias com um grande ar de supposição. Eu cá foi para onde +deitei. + +Os outros não. E como o das correspondencias tinha promettido explorar a +chronica beata, aguardariam mais informações. Suppunham, no emtanto, ser +com a D. Joanna, a do--«_chá de herva cidreira_.»--Outra canalhice! A D. +Joanna, para festejar os annos da filha, convidára tudo, _lazarões e +penicheiros_, não fizera politica. Depois foi aquella tareia que se +viu:--que o chá era herva cidreira, que tinham bolor os doces de ovos, +que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora isto não se diz, a +pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cór phrases inteiras da +correspondencia. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu +telegrammas de... amor_.--Uma facecia de mau gosto alludindo ao Proença +telegraphista. Depois do que por ahi se diz, é forte... Que afinal, quem +sabe lá? Entre os dois que diabo póde haver? Namoro? + +No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio: + +--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amelia é uma rapariga séria... + +Riram ás gargalhadas, foi um barulho com a tosse. + +--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Accommodem-se lá com o _banzé_, +vocês deixem fallar,--tornou o Nunes, formalisado. Quando digo uma +rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a +phrase, entalado,--por exemplo, que ella não é capaz de receber ninguem, +alta noite, lá pelos quintaes, como o tal das correspondencias quer +fazer suspeitar. + +Iam replicar-lhe, mas elle atalhou: + +--Chama-se áquillo ser canalha ás direitas, arre! Isto agora é fallar +franco. + +Saltaram-lhe: + +--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o +Alves dos Pesos e Medidas. + +Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se +via, pelo que se podia julgar... + +--Léria!--disseram todos. + +O Nunes parece que estava com os beiços com que mamára. Com que então, +para elle era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo +uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade! + +O Nunes observou modesto, quasi agradecido: + +--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente. +Desconto sempre noventa por cento áquillo que vocês dizem, ahi é que +está... + +--Vocês é um modo de fallar,--emendaram alguns. + +--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondencias,--explicou +sophisticamente o Nunes. + +Calaram-se, disfarçaram. Proximo d'elles, a Amelia toda de verde, com +guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solemnemente. +Tiraram todos o chapeu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi +cumprimental-as, submisso. + +--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a +mão:--Vosselencia como passou? A senhora D. Amelia? Obrigadissimo. +Assim... assim... + +Então? que diziam áquelle calor? + +--Abafava-se, alli pelas duas. Que forno! + +--O Brazil tal e qual--reforçou o Nunes. + +Mas que fôra feito, que as não tornara a ver desde os annos? Uma noite +de truz, aquillo sim! + +--Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi +pena! O Abelsito andava constipado. + +A D. Amelia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquellas +noitadas.--E em voz mais baixa, quasi dolente: + +--Depois, veio a _Voz do Districto_, aquillo chocou-a muito. + +--Não ha tal!--fez a mãe. Metteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a fallar, +senhor Nunes. + +E por pouco que não chorava ao dizer isto. + +O Nunes affectou um sentimento profundo:--Era melhor não fallar n'isso, +não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham +acabado de fallar na tal correspondencia, agora mesmo. Uma +garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial: + +--Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e +depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fôr soará. É preciso +dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição! + +Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu +desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janellas, perguntando se +vinham d'ahi, um boccadinho até á capella, espairecer. + +As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho só. Ficava muito bem +aquelle vestido á Amelia. + +Não podiam subir, talvez á volta. + +--Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quasi +prompto, que trabalhão! + +Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O +risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito. +Coisas de anjinhos: + +--Verás. + +Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que +vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,--homens com malhos, e +mulheres de cestas á cabeça. A tarde descahia n'uma serenidade calma. No +degrau de cima, o Paula, official da administração, com fama de typo de +chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas, +zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros +formavam roda. Todos riam, pediam _bis_. + +--Tu has-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco +Maria, um cabo que estava de licença. Tu has-de conhecer isto. + +O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e philosopho, +affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas. Ao Paula +valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o +tinha demittido, ás vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E +pedia a rir, boçalmente: + +--Ó Paula, aquella do _bate-bate_, canta lá. + +E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era +preciso, o Fernandinho ia pelo violão. + +--É verdade, você que fez hoje que não me appareceu na repartição, ó +Fernando? + +--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo ás vezes. +Olhem que pergunta! + +Mas o Paula tinha-se calado, bocejava. + +--Então, ó Paula...--supplicava o administrador. + +--Está fechado o realejo... Depois. + +Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sitio». Ou perder ou +ganhar; tinha alli seis tostões que eram para um _mico_. + +--Mas eu não lhe dizia, sr. doutor? eu não lhe dizia hontem que a _dama_ +se negava? Eu estava mesmo a ver aquillo... Bem feito! «gramou» um +entalão que se consolou. + +--Quatro corôas.--Na vespera tinha ganho um quartinho. + +N'esse momento passava o juiz, sósinho como sempre. Todos tiraram o +chapeu, elle passou gravemente, cortejando. + +--Quem eu te quero á perna é o _Aramis_...--rosnou o Telles escrivão que +embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda elle não +sabe tudo...--insinuava perfidamente. + +--Pois o resto diga-lh'o você, diga-lh'o no _Almanach de Lembranças_, em +verso--fez d'um lado o Rodrigues do Real d'agua. + +O Telles, com famas de litterato, redarguiu que não dava confiança a +analphabetos. + +--E eu a brutos, sabe você? + +Mau! que elles lá começavam. Officiaes do mesmo officio... Ó senhores, +lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com +o outro. Pelo contrario. + +O Telles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava +essa importancia, essa honra. + +O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão n'elle. Mas jurou que d'outra vez +seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas +tesas. + +--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas. + +Havia de dar-lh'as, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter +o gosto de dizer depois, n'um communicado, que desaffrontara as lettras +portuguezas,--elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real d'Agua. + +Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se. + +--Não senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei +que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu +verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas +não ha de ser aquelle _négalhé_ que o ha-de dizer. Não o julgo +habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o +que mando para publico sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no +peito com a larga mão espalmada, furioso, n'umas raivas, de orgulho +triumphante.--Não roubo! nunca roubarei!--affirmou mais alto o +Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois +amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como +elle!--E as palavras sahiam-lhe salivadas, violentas, por entre os +labios espumantes, atiradas ao Telles como pedradas. + +Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao +Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria +dizer. + +--As provas...--e metteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com +impeto:--as provas, vel-as aqui estão! + +Mostrou no ar a brochura verde do _Almanach de Lembranças_.--Era do anno +que vem, tinha-lhe chegado hoje. Alli estava o Peres do correio que lh'o +tinha entregado elle mesmo. + +--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem. + +O Rodrigues, então, affirmou que era preciso historiar, contaria a coisa +em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr. Telles, lembrara-se +um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os annos--zás! +versalhada para o _Lembranças_... + +--Era collaborador--disse o Antunes da Camara que admirava o talento de +Telles.--Era collaborador. + +--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atraz da +orelha.--Massador, massador é que elle era. Nunca lhe admittiram as +asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondencia_ troçavam-no, +chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não +chamava Deus para as lettras. Aquelle _Serei ousado_? é elle, sei que é +elle. Nunca o admittiram. + +--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, sr. Rodrigues, lembro-lhe esses +versos--insistiu o Antunes. + +O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Camara. Não lhe +respondeu. Subiu os tres degraus do _pelourinho_, pausadamente, com +pompa, e chamou a attenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanach de +Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:--«Indignidade». + +--Em lettras bem graúdas, queiram inspeccionar. + +E colou ao peito o _Almanach_, voltando para fóra na pagina onde o seu +dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto em +epigraphe. + +Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que lêsse. + +«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanach de +Lembranças_ do anno extincto, foram-nos remettidos pelo sr. José Maria +Telles, escrivão.» + +--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Elle +depois assignou--e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma +complicada do Telles. + +Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou: + +«Publicámol-os na convicção de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois +que elle os assignava.» + +--E então?--perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda. + +--«Pura illusão!»--continuou solemnemente o Rodrigues.--«Escreve-nos o +mimoso e assaz conhecido poeta sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os +versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu volume +_Lyra Matutina_.» + +Foi uma estupefacção! O Rodrigues proseguiu mais alto, fugindo aos +commentarios: + +«Averiguámos, e d'isso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a +probidade do sr. Telles, a quem mais de uma vez tinhamos fechado a nossa +porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara--por indigno.» + +E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a +porta na cara do Telles escrivão; tomou praça fóra, o livro debaixo do +braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solemne,--vingado! + +Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, +porque além de sempre terem julgado o Telles muito superior ao +Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...--tinham dado uma +sorte de mil demonios, agora é que elles viam! distribuindo no theatro, +por occasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que elles +tinham mandado imprimir avulso--para lisongear o Telles que tivera o +trabalho de os ensaiar no _Santo Antonio_. Hein? quem diabo havia de +dizer que aquelles papelinhos de côr, uns verdes, outros amarellos, +chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quasi +disputados a murro, n'um alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma +insidia,--um logro á boa-fé, á credulidade ingenua de toda a comarca! + +E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o Fernandinho +vestido da menino do côro, batina vermelha e roquete de rendas, +cobrindo-se de teias de aranha lá pelo fôrro do theatro, de gatinhas e +com um «tôco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser +elle a despejar do _oculo_ aquella papelada; o Mello da administração, +vestido de Frei Antonio, sandalias e grande chinó de calva redonda, +feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por entre os +bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em habitos de +frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Telles, +ensaiador da rapaziada! + +Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujão! E quasi se regalavam +da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora +humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito! + +O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fôra elle o da lembrança +de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel +Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os +impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como especial favor. O +homem--prompto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que +se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que +desembolsara elle só, afinal. Bem feito! ninguem o mandava ser burro. +Arre! cavalgadura! + +E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopletico. + +--Mas a bem dizer, tudo isso é nada!--continuou commovido o Antunes.--Ó +senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz n'aquelle +intervallo do drama para a farça?... + +Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada +uma! E relembravam:--levantara-se o panno quando os ouvintes menos o +esperavam. Os que tinham sabido lá fora, ás doceiras, voltaram +apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um +reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam +senhoras, gente fina, começavam a apparecer caras barbadas de sujeitos +que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licôr, um +docinho. Em cima, na galeria alta, creadas e raparigas do povo, +debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, d'olhar attonito. + +--Elle que dianho é?--perguntavam. + +De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima: + +--Caluda, sua gentalha! + +No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da +recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de cardeal, baculo +em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de +côro, todo lépido; a Anna Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olivia; +a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Gloria_, em que +ella subira n'um cesto vindimo á «região sidéra dos astros»; o pae de +Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo pescoço, livido como +saira do tumulo; aquella canalha da tropa--todos emfim! + +N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello +vestido de Santo Antonio e do Proença telegraphista que fazia de Frei +Ignacio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hymno da Carta +á meia duzia de musicos que não entravam na peça. O hynmo rompeu com +grande estampido de pratos, n'uma cadencia funebre. No palco, tudo +immovel. Ninguem sabia o que era aquillo, não estava no cartaz. +Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam. + +Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de centurião, +durindana e botas d'agua, irrompe furioso do buraco do ponto e préga um +discurso na bochecha extatica do Telles: + +«Não era elle o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no +encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter phrases, oratoria, +porque emfim estava falando a um poeta...--collaborador do _Almanach de +Lembranças_ para Portugal e Brazil--accrescentou voltado para o publico, +esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo: dar-lhe um abraço +em nome de todos...--e abraçou-o commovido, emquanto os espectadores +berravam _apoiados_, dando palmas--«... e para isto»--accrescentou +fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa. + +Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanças gritavam--«ó +Emilinha!» Era com effeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e +Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo, tules +verdes e muita lentejoula a brilhar. + +Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o +Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da +«melodia», elle fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu +n'uns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com musica da _Muchagateira_ +original do Peres do correio. + +O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a +Frei Ignacio:--Era de mais, era de mais, elle não merecia...--Ora essa! +pareciam dizer-lhe os outros--seriamos ingratos se... + +A «cantoria» acabou, o theatro parecia desabar com palmas, tudo berrava, +um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir, +cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas +do tecto desabassem. + +Todos olhavam, curiosos. E n'aquella espectação viram de repente descer +do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia +vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da +bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodão a arder que lá trazia +dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanaz nos impetos da +colera. O panno começou a descer, obliquo, esfarrapado d'uma banda. O +Freixedas, suspenso, atirou fóra o algodão e gritou, furibundo: + +--Alto! suas bestas! Inda não!... + +Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a +hombro dizia em caracteres amarellos--_C'est fini_! O panno desceu +então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros, +não tinham percebido... Foi n'esse momento que o sr. Antoninho, que +tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz alta: + +--_É findo_! + + + + +V[AE] VICTORIBUS! + +_A Maria Lucilla_. + + +Em dezembro, ás seis é noite cerrada. Mais boccado, menos boccado, a +essa hora recolhia do monte o José Gaio, sósinho, sachola ao hombro, um +pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima +d'elle, o céo ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa negrura espessa +de tempestade que infunde pavôr á gente, e da qual os proprios passaros +teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora, +agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar +não sei que extranha elegia... A um relampago mais vivo, o José Gaio +apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou, +depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude +do céo. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento, +encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não +ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa. + +--Vamo' lá com Deus! fazia elle animando se. + +Um clarão subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle surgiu de +repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente illuminada. +Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão, +que elle instinctivamente parou e levou ao céo as mãos afflictas, n'um +gesto de quem implora misericordia. N'aquella imminencia de perigo as +proprias arvores lhe pareciam immobilisadas pelo terror, á beira do +caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era como a voz +implorativa da natureza, unindo-se á voz d'elle n'um longo côro de +supplicas... + +O José Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente, sem saber +d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente: + +--Ó José Gaio! + +O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os braços da cruz +negra, que era o signal de alli terem matado o José Tendeiro, ha annos, +apertou o passo e tomou por um atalho, direito á ponte. Mas então a +mesma voz tornou-lhe mais de perto: + +--Ó José Gaio! + +Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um +relampago que illuminou a mil côres a paizagem. Elle cerrou os olhos com +força, nervosamente, ferido por aquelle deslumbramento que por milagre o +não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma immobilidade de +estatua prendia o camponez á terra. Foi então que veio de novo aquella +voz, como um prolongamento do trovão: + +--Ó José Gaio! + +Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta, +galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma +força violentissima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquelle rugir da +agua que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monotono, +infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão +quando, estacou ouvindo a mesma voz: + +--Ó José Gaio! + +E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago côr de +sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquella cruz preta de +longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a +tempestade... + +Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre +exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os +olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em vão! que fôra tão vivo +o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cerebro, que n'um fundo côr de +sangue, como n'um transparente de magica, elle via nitidamente +desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então +deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o +peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento, a voz tornou a chamar: + +--Ó José Gaio! + +Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais intimo do seu ser. Um longo +desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima fibra de energia, +como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe tambem o +cerebro: não formava um só raciocinio nem elaborava sequer uma idéa, a +mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo elle tremer, +abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez reviver n'elle +a vida do espirito; sentiu um grande pavôr áquelle aspecto subito do +campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado como se estivesse +todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda +casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos, definidos +maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores despidas, +sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de recorte que +traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No +meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e tetrico, o triste +camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli chumbado á +terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um só gesto +implorativo, e nem uma só palavra de supplica lhe sahia dos labios +crispados. Porque uma vez que tentára uma palavra, o mais formidavel +trovão cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois, aquella voz não o +largava, imperturbavel e monotona: + +--Ó José Gaio! + +E elle, não respondendo nem fallando, pensava esconjural-a, exorcismal-a +como se fosse a voz d'um duende. E para esta evocação do sobrenatural +muito concorria, como os senhores comprehendem, esse aspecto sereno da +cruz negra, inabalavel sob a aza agitada da procella. + +N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua +depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul +furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer. +Como todo elle ardia em febre, aquelle diluvio era quasi um celeste +beneficio para a sua cabeça n'um vulcão. Mas quando os relampagos +vieram, aquella reverberação da luz nas cordas d'agua fez-lhe um +deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o caminho lamacento por +onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume, +sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz: + +--Ó José Gaio! + +Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como cahiu assim +ficou--de bôrco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quasi +tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relampago. Ella lá estava +no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E +pois que parara o diluvio, dos seus braços abertos as gottas da chuva +cahiam, vermelhas á luz, como grossas lagrimas de sangue... + +Cobarde! Nenhuma comparação póde dar idéa do estado de prostração d'esse +miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi inacção de besta morta. +Dir-se-hia um immundo trapo alli cahido, abandonado alli na lama ignobil +de um caminho, á espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E +emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada +prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastellamento phantastico +das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com +furia o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso +espirito póde conceber de mais grandioso e de mais sublime, epico e +tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente. + +Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões, +aquella voz: + +--Ó José Gaio! + +Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o outro, +o do medo. Parecia colado á lama, preso ao caminho como se fosse uma +rocha. No emtanto, a espaços, tinha a comprehensão clara da sua posição +e do seu estado. E então uma raiva subita galvanisava-o: queria +erguer-se, fugir, desapparecer--erguer-se como aquella cruz, fugir como +aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam rastro +na treva... + +Taes rebates de coragem eram, porém, ephemeros, impotentes para lhe +provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli, +miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as +quatro pernas. E esta idéa, que o instincto de viver lhe suggeriu, +apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli! Mas que +duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se não passava por alli viv'alma, a +taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma noite medonha +de tempestade, ao pé d'aquella cruz negra de longos braços +hirtos--morrer alli!... Eram então já por elle as lagrimas que essa cruz +parecia chorar?... + +Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia. +Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de tropeçar +n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve +estaria de pé,--de pé como essa cruz que um relampago muito vivo acabava +de lhe mostrar... No emtanto, a voz é que se não importava: + +--Ó José Gaio! + +Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o +calcassem, reuniu n'um supremo esforço as maximas energias, e rebolou-se +para um lado, até ficar detraz d'umas urzes. Coisa notavel foi, +senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se +recolheu n'uma absoluta quietação, com medo que o surprehendessem... E +quem quer que era passou, cabeça nua, deante da cruz gottejante... Aos +ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de prece... Não ia só a +rezar; ia tambem chorando, aquelle homem... + +...Quem seria? + +Um clarão branco de relampago fez irromper da treva, livido como um +espectro, o filho do José Tendeiro... + +O desgraçado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia annos, por uma +noite como aquella... + +Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquelle cobarde +não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quasi arrumado á cruz. + +E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade, +perdida n'um murmurio longiquo, lá na extrema fimbria do horizonte... +Quando a lua rompeu, livida n'um céo de anil, nem a grande sombra da +cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma benção, logrou +reanimal-o. Tinha morrido, o estafermo! + +Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abbade foi +depois, buscar o corpo. Os medicos nem lhe tinham mexido. + +--Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma +congestão muito linda--dissera um a rir. + +--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indifferente. + +Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do +abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convulsão agudissima de +choro. E elevando ao céo as mãos mirradas--ao céo que um divino azul +fazia diaphano--elle exclamou, soluçando: + +--Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa +misericordia! + +...Segredo de confissão...--mas o abbade bem sabia quem tinha alli +matado o José Tendeiro... + + + + +BALLADAS + +_A Luiz Osorio_ + + +I + +MARICAS + + +Vocês lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos muito +castanhos, quasi louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A +boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benevola e +complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o dia e de +toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram, as nossas +balburdias e algazarras... + +Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e +encantadora--a de não mostrar jamais na sua amisade preferencia por +algum de nós. Dir-se-hia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois +que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e +brando... + +Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ella vos +perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela solicitude e +interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao +escriptorio. + +--Então esses cabulas? então esses marotinhos? Doente, algum? + +--Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá... + +--Ora vejam!--fazia ella quasi escandalisada. + +Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos +que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos +outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um +_tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quasi que +chamando-lhe por tu e ella a nós! + +Como eu me lembro! + +Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil +perguntas que lhe faziamos, e então uma grande paciencia inexhaurivel. +Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a adorar aquella ingenuidade +singela do seu coração de vinte annos. A boa da Maricas era adoravel, +toda ella bondade e paciencia para os nossos disturbios e para as nossas +algazarras de toda a hora e de todo o instante. + +Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella, é que me não +lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes, +é que nós como que a consideravamos uma companheira de redacção, especie +de directora com casa áparte e viver independente pois que se entravamos +no escriptorio (parece mesmo que estou a ver aquella barafunda +d'escriptorio!) e, assomando á janella, a não viamos na sua, diziamos +quasi sem querer, mas invariavelmente: + +--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas? + +E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, á +formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde fóra, em casa +da _freira_ de Quebra-Costas--d'essa lembram-se vocês... No emtanto, +deveis recordar-vos que ella, no dia seguinte...--coitada!--...a +primeira cousa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui, +estive alli, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborisada e +confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar alli a +aturar-nos. Por pouco ella nos não pedia de mãos postas que lhe +perdoassemos, a boa da rapariga. + +E nós então galhofeiros, brincalhões: + +--Sem mais _aquellas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora +essa!... + +E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra: + +--Pois sim, mas é que ás vezes... + +--Ás vezes quê?... + +«Não! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella estivesse zangada +comnosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...» + +--Pois não era verdade--perguntavamos-lhe--que ella adorava aquella +_troupe_ de bohemios? + +--São todos muito bons rapazes--dizia já a sorrir.--Todos me tractam +muito bem... + +E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se +illuminava de prazer e sorria de intima gratidão. Mas porque +sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas? + +Quando nos via em palestras interminaveis, nas libações do _congnac_ e +do café, ouvia-se lá da janella um _pschiu_! muito sibilado. + +--Que manda a D. Maricas? É servida? + +E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada: + +--Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal? + +O cuidado que lhe dava o jornal! + +--Ora faz favor de não fallar em coisas tristes? Olhem agora que +lembrança, o jornal! + +Ella então, por unica resposta, dizia-nos ás vezes que na semana passada +o typographo viera queixar-se de que havia falta de originaes, quantas +vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas. + +E por fallar em provas:--a Maricas sabia todos os signaes das emendas, +todos. + +--Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais n'esta palavra. + +--Risco por cima, risco á margem, e um _d_ cortado; é facil. + +--Um _m_ de pernas para o ar, e esta? + +--Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está farto de o saber... + +Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse +mostrando as tiras, á medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava +que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal +escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a janella, +acenando-lhe com o papel: + +--Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escripta d'alto a baixo. + +Á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de lá com um _bravo_! e +recommendava, solicita, cinco minutos de folga, emquanto se fumava um +cigarro. + +A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia +a gomma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bella gomma! Em +paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi sempre nos sabbados á +noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era estreita +atirava-se-lhe da janella. + +--Maricas, ahi vae ainda fresquinho! + +--'stá bem, obrigada. Vou lêr, até ámanhã. + +Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á nossa amiga. + +--Durma bem, ouviu? + +E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do +artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que +mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito +bom, «escripto com muita graça e muito bem», como ella dizia. + +Nos serões que faziamos e que por via de regra não passavam de um +interminavel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escandalos, +desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da +Maricas ninguem tinha que dizer senão bem; era a privilegiada n'aquellas +sessões de má lingua. Quasi sempre a conversa degenerava em +algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e +gemia fados com acompanhamento de violão. E era de vêr o Santos Mello, +d'olhos cerrados e cabeça á banda, como cantava a sua quadra predilecta: + +Sei cantigas mysteriosas, +Cantigas de endoidecer, +Que os lirios dizem ás rosas, +Que as rosas me vêm dizer. + +Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava silencio. + +«Com mil demonios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...» + +Todavia...--ó suprema bondade!--...ella nunca se queixava quando no dia +seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se +tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes +que as cadeiras tinham caido. + +«Ora viam?! Não a tinhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse; +palavra d'honra! d'óra ávante...» + +Ella então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça: + +--Não, não, eu até gósto. Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora +essa... + + * * * * * + +Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocês não sabiam! E morreu +tysica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a +pensar n'aquella tossesinha muito secca em que ás vezes a +surprehendiamos, n'aquelle branco pallido das suas faces, no bistre das +suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas mãositas de +marfim... + +Pobre Maricas! + +Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, onde +continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ella +tinha ido?!... + +Mal diria eu que estavas no cemiterio, tão longe e tão só! porventura na +valla commum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura +humilde,--onde n'este instante cáe chuva e chuva! Ainda se as noites +fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio +de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita resignação: + +--...«Entretem-me vêl-os alegres, até me faz bem»... + +Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era +triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobresinha! que n'essa +phrase singela ia a revelação do presentimento que tinhas da tua morte +prematura?! Triste creança que nós não mais veremos! + + * * * * * + +Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes--_bravo_!--ora +não?... + + * * * * * + +...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella +rebentem flôres, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as +seivas... + + +II + +PARA A ESCOLA + + +No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras +lettras. A porta lá estava, amarella com fortes pinceladas vermelhas, ao +cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subil-a. +Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula +quando a Helena entrou commigo pela mão. Fez-se um silencio nas +bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua taboada, +n'um rithmo cadenciado e monotono, cantarolando. E ouviu-se então a voz +da Helena dizer para o senhor professor, um d'oculos e cara rapada, +falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa: + +--Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a +encommendinha. + +Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez á escola. Ali +estava a encommendinha! + +--Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão? + +E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena +enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia +mettido nem eu sabia o quê. Meu pae é que lá sabia... E alli estava eu +entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ n'uma das mãos e a +saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A Helena, que sorria +contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus. + +--Adeus, Josésinho, logo venho cá pelo menino. + +Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella. + +--Não, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui é a escola, é +onde se aprende a ler.--E agachando-se, deante de mim:--Olhe tanto +menino, vê? + +--Mas fica tu tambem--disse-lhe eu então. + +Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, +iracundo: + +--Caluda, sua canalha! Não veem que está gente de fóra? Caluda, que vae +tudo razo com bolaria! + +Foi então que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles eram todos +meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos. +Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes, +cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estevão +principalmente. + +--Isto é preciso muita paciencia, senhora Helena, muita somma de +paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre +as bancadas.)--Mas está bem, diga lá que a encommendinha cá fica. Em boa +hora entrasse... + +--Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Josésinho? + +Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos. + +--É verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino ha-de estudar +as suas lições, não é assim? + +--Diga, sim senhor--ensinou-me então a Helena.--Hei-de estudar muito e +ser socegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em +casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia? + +Elle riu, já sabia; as creanças são todas assim, emquanto estão no mimo +das mães. Mas uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam um pouco. E +piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou transida. + +--Faz milagres, sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz +milagres. + +Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair +quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que servia, a +palmatoria... + +--Mas para o nosso Zézito não ha de ser precisa, ora não? + +--Diga assim: não senhor, porque eu hei de cumprir com as minhas +obrigações, diga. + +--Ora ahi é que está--atalhou o professor.--Vê, sr.^a Helena? Aqui já os +pequenos tem a sua obrigaçãosinha, os seus deveres a cumprir, as suas +coisas... + +--Sim senhor, sim, emquanto que em casa... + +--Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu +menino aquillo. Vão assim creados á lei da natureza, sabe vossemecê? É +mau isso, pessimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?--E bateu +n'um «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui está n'este +livro: «_de pequenino_... + +--..._é que se torce o pepino_»--concluiu rapida a Helena, orgulhosa de +saber o que estava no livro, coitada! + +--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma cousa que se cria +na horta... + +Risota dos rapazes! + +--Ora vê isto, sr.^a Helena? vê estes brutinhos?--E com entono, de +palmatoria alta, fazendo-se carrancudo: + +--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença á sr.^a Helena, +começo n'uma ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o +que se chama tudo! + +E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaça, os rapazes ficaram +transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que elle +podia pedir licença á sr.^a Helena, e mesmo deante d'ella _cascar_ de +rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, socegaram; até o +Estevão deixou de me fazer caretas. + +--É o que vê, sr.^a Helena--disse então victorioso, a sorrir-se, o bom +do professor.--É o que vê! Um mestre sem palmatoria é um artista sem +ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem +feito muitos doutores. + +--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle +pedaço de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito muitos doutores. + +--Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não +faz ao caso. + +Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena. +Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes investigara com magua +o motivo por que a sua palmatoria não fazia um unico doutor... Morreria +sem ter essa «gloria,» decerto! Forte martyrio que a Helena veio +recordar-lhe!... + +Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia +para ir lá fóra. + +--_Licéte_!--foi como elle disse, arremedando o latim _licet_. Outros +havia que diziam, por troça, _Aniceto_! + +--Ora já a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu não havias +de pedir para ir lá fóra, tu...--E ficou-se a fital-o, meneando +pausadamente a cabeça.--Ora vá você lá fóra. + +O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés. + +--Olá?--chamou zangado o sr. professor. + +O outro assomou á porta, contrafeito. + +--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se +percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça +favor de esperar um pouco. + +Poz-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando: + +--Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá! + +Levantaram-se uns poucos, foi um barulho. + +--Canalha!--gritou-lhes então, batendo o pé.--Corja de atrevidos! +Sentados, já! + +Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era elle, +apontando para o peito. + +--Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se. + +Mediu-o d'alto a baixo. Depois: + +--Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fóra com +ella. Agora, sim senhor. Ora vês além aquelle sujeito? o tal das +pressas?... + +--Vejo, sim senhor. + +--Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o +palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra que. E sempre quero ver se tenho +de vos ir lá buscar pelas orelhas. + +Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor: + +--Olá? + +Elles assomaram, outra vez, atrapalhados. + +--Então, seus cabeças d'avelã, torres de vento, então não falta nada? + +Os dois pozeram-se a coçar a cabeça, muito compromettidos. Faltava com +effeito alguma coisa... + +--Então é ahi? + +Elles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro. + +--Ora passa por esta vez, em attenção a estar aqui a sr.^a Helena.--E +enrugando o sobr'olho, commandou em tom marcial:--Ordinario! marche! + +Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava +o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir +ordens suas: + +--Ordinario! marche! + +Sentou-me então no joelho e perguntou: + +--Olha lá, Josésinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o sr. +capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres? + +--Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o sr. prior, dizer +missas. + +Riram-se. Quem sabia lá o que d'ali sairia? Mas o sr. professor fez +notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendencia +qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas +bochechas. + +--Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.--E para a +Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, sr.^a Helena, que respondem a +pés junctos que não querem ser nada. Mau signal, pessimo, sr.^a Helena! +Quando elles assim dizem, de ordinario assim fazem, depois. Nunca são +gente.--E virando-se para mim:--Mas então, Josésinho, em que ficamos? +Corneta ou prior? + +Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente +em dias de festa, com aquella capa toda doirada... + +--Muito bem, escolheste bem. «_Telha de egreja_... + +--..._sempre gotteja_»--concluiu a Helena que ainda hoje é forte em +adagios. + +O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria. + +--Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josésinho, +para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é? + +--É. + +--Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor--emendou a Helena. + +O sr. professor teve um gesto de indulgencia. + +--Mas tu não sabes ainda, ora não? + +--Não senhor. + +Elle então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia +na sacca era um livro. + +--Querem ver que é um livro?... + +--Diga--ensinou a Helena--é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá +ao sr. professor, tome. + +Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do +meu livro. + +--Muito bem! muito bem!--applaudiu o sr. professor.--Mas este livro é +mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que +queria ser prior, ora já? + +Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquillo; mas como é que elle o +sabia? + +--Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar, +não queres? + +--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu +quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga. + +--Primeiro do que aquelles?--perguntou voltando-me para as bancadas. + +Então fui eu mesmo que respondi:--«Sim senhor!»--contente com a +lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos +aquelles. Até podia acontecer que o Estevão das caretas me ajudasse a +alguma... + +--Ora então está muito bem, estamos entendidos.--E com intenção, ferindo +muito as palavras, para m'as gravar no espirito:--A primeira coisa que é +precisa para prior é saber bem isto, vês?--E punha-me deante dos olhos o +livro aberto na primeira pagina.--Isto aqui é já missa, chama-se o _a b +c_, e é aquillo que os priores dizem quando vão para o altar. + +--_Ito_?--inquiri curioso, furando a pagina com o dedo. + +--Sim, isto. E amanha já me has-de trazer sabido d'aqui até ali. Hein? +valeu? + +--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor. + +Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira +lição! + +_A B C D E F_! + +A minha primeira lição! + +--Ora sabe vossemecê o que isto é, sr.^a Helena? isto que eu tenho +estado a fazer? + +--Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é... + +--Não sabe, não admira,--disse complacente o sr. professor.--Puxar o +gosto, sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o +fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vae estudar com +mais gosto, digo-lh'o eu; olé se vae! + +«Mas elle não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas +obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.» + +--Pois isso é verdade, sr. professor; mas não sei que é, custa-me a +separar do menino...--disse a boa da Helena, quasi a chorar. + +--Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi é que está a coisa. Pois tenha +paciencia. Aprender é tão preciso como mamar--concluiu n'uma prosa que é +mesmo poesia. + +--Pois é preciso, é!... + +E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti +na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me +ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou: + +--Sr.^a Helena! + +--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental. + +--Já agora, espere mais um instante. + +Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. +Depois, intimou: + +--Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo +um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora é alli, +sr.^a Helena, alli é que é o logar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe +não deve pesar. + +E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo, +lagrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu +logar...--o meu primeiro posto na arriscada milicia das lettras... + +Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por +acenos com a pessoa que estava de fóra. Pequeno como era, percebi, no +emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica: + +--Bolos?... Não?!... Perdoe a sr.^a Helena, mas isso, quando forem +precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a +mão?... Está bem... Descance... Mesmo com a mão... + +E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre +lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus... + + * * * * * + +...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que +principiei n'esse dia. Não volto mais á escola! Venho hoje restituir-te, +querida amiga, aquelle beijo--dulcissimo beijo aquelle!--que tu então me +déste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, +acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem +que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena? + +Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura. + + + + +TRAGEDIA RUSTICA + + +I + +_Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á +porta do José Grillo_ + + +Truz! truz! truz! + +Os de casa acordaram, sobresaltados. + +--Schiu! nem pio!--fez o José Grillo para a mulher.--Moita! + +--Truz! truz! truz! + +Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a chamar pelo +pae.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria +divertir... + +Mas logo outra vez na porta: + +--Truz! truz! + +--Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José +Grillo, zangado. E pois que se poz á cóca, de orelha fita, olhos +cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de +alguem que fugia. + +--Eu não te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir--explicou elle +para a mulher. + +Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um +cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á ideia que lhe tinham +vindo pôr zôrro... + +--Ó mulher, queres tu ver que ha novidade? + +De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do +casebre. + +--Elle que demonio de embrulho...? + +Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creança, envolta em +dois trapinhos muito velhos. + +--Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a creancinha. + +--Grandes cadellas!--E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a +gente da casa. + +--Andem! a pé! levantem-se! está aqui este innocentinho que vem dar os +bons dias á gente! + +Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grillo +mettera a creança na cama, visto que a pobresinha estava gelada... + +--Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha do Antonio das +Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo. + +Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites que +chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga +que ia correndo: + +--Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquillo que fôr. + +Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de pé no meio da casa, a +saia amarella deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito +embezerrada, permanecia sem dizer palavra. + +--Ó mulher, nada de afflicções, é tal e qual como se fosse nosso, faz de +conta...--observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar taciturno da +femea. + +Ella só redarguiu que _nosso_ era um modo de fallar. Seria d'elle, mais +de qualquer desavergonhada... + +O José Grillo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e +pregou-lhe uma gargalhada. + +--Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E +deixa-te de cantigas, que hoje é dia de entrudo. + +A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé +da creança, affirmando-lhe ás risadas que sim, que o pequeno era filho +d'elle. + +--O pequeno?... mas é que pode ser cachopa--disse o José Grillo para a +mulher.--E certificando-se:--Nada! é rapaz. + +Seguiu-se uma altercação. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela +sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem. + +--Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, braços no ar, o +balandrau da saia amarella enfiado pelo pescoço n'um geito de +sobrepeliz.--Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim! + +--Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz--disse-lhe de lá o +José Grillo, muito fleugmatico, debruçado sobre a creança. + +Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhaço, muito +afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grillo virou-se para +ella e disse-lhe muito solemne: + +--Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz. + +Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se logo para +elle, olhos esbugalhados, muito suspensa. + +--Juras pelas cinco chagas, ó homem? + +--Juro pelas cinco chagas. + +--Assim te Deus dê saude, ó José? + +--Assim me Deus dê saude. + +--Preto sejas tu como o teu chapeu? + +--Preto seja eu como o meu chapeu. + +A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo +a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da +Conceição, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia. + +Depois desabafou, muito aliviada: + +--Ai! + +O José Grillo poz-se a rir.--«O demonio da Joanna, com ciumes!» + +--Mas ciumes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo +tens tu ciumes?--perguntava muito casto o amigo José Grillo, serenissimo +deante da mulher desconfiada. + +A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--«que o seu homem era um +santinho...»--O José Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo, +reguingou d'alto: + +--Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a cadella que +engeitou este... + +Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira: + +--Mas quem seria a grande cadella? + +Poz-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem, +murmurando phrases d'odio, moralistas: + +--Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo +entranhas de lobo. + +O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do +José Grillo. + +--É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar--disse +contristado o lavrador. + +Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a +Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas. + +--Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demonio vens tu cá +fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?--E deu um bofetão +na filha, «para que soubesse dar o recado». + +A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é +que a mandara para levar a creança, porque ella, adoentada, fazia-lhe +mal sair de casa assim cedo... + +--Só se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o José Grillo, virado +para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens. + +A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse: + +--Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça. + +--Eu sei lá se não se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--Dá cá +d'ahi o pequeno. + +Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao José Grillo. O +lavrador depol-o nos braços da Dorotheia, com mil cuidados, e depois +elle mesmo ajudou as mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse +bem quente. + +--Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá appareço, +p'ra ver isto do ajuste. + +A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que tinham alli ficado os +farrapos, gritou para a rapariga: + +--Ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto. + +Então poz-lhe os farrapos ao hombro--uns pedaços miseraveis de velha +chita--e a Dorotheia partiu onde á irmã. + + +II + +_Quarta-feira anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de +Antonio Palma, casado com Rufina Maria_ + + +O Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher, +a Rufina, principiava a lavar a louça, quando á grade do quinchoso uma +voz chamou: + +--Ó sr.^a Rufina! + +Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as mãos +fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o +que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do caminho. + +--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem. + +O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de +cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma +desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Thomaz negociante de +gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os proprios pequenos +olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande mulher gorda que elles +não conheciam. Ella sentou-se logo n'um sacco, muito esfalfada, emquanto +o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se, +com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_ +investiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o +pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a mulher começou +assim: + +--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias. +Já veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu +filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá +em casa de minha mãe aquillo é uma grande miseria, passam-se dias que +não comemos. Não ha uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem +geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este estado, bem veem +como eu ando... + +Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e +a mulher diziam não sei que monosyllabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra +proseguiu: + +--Não é por mim, sabem? não é por mim. É este innocentinho que tem de +nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me +dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse... +Coitadinho! + +Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o +Palma e para a mulher. + +--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou. + +O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de +seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo +se havia de arranjar, que socegasse. + +--Que a fallar os pontos de verdade, sr.^a Fortunata, vossemecê é que +tem a culpa d'esses trabalhos, disse-lhe logo o Palma. + +Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse. + +--Má sorte d'aquelle pobre José Thomaz, acabou-se! Quando elle casou com +vossemecê antes tivesse quebrado uma perna. + +Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta. + +--Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado, +nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vae a uma feira. +Pois olhe que era homem para junctar, videiro como poucos. + +Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois +continuou: + +--Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo +sacco... + +A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O +Palma proseguiu: + +--Sente se vossemecê, mulher, o sacco não faz ao caso. Pois foi ahi +mesmo que elle esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na +camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal. +Que a bem dizer elle quasi não conversa, anda a modos que amalucado, +sempre a levar a mão á cabeça, como se lá dentro aquillo andasse azoado. +E mais é que bem póde o rapaz dar em doido... + +A senhora Rufina foi de parecer que doido já elle andava. Passavam-se +dias que não apparecia em casa do tio José Garção, que o levára logo +para elle, mal a sr.^a Fortunata o deixára. Por onde andava? que fazia? +Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo telheiro que os +porcos. Que d'outra vez fôra ter com o vigario para que lhe baptisasse o +filho, dizendo que já tinha nascido. + +--No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.--Anda com +ella ferrada que o filho já nasceu. + +Aqui, a Fortunata, de pé junto á porta, rompeu n'uma choradeira, ouvindo +fallar no filho. O Palma interveio, condoido, dizendo que se não +affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse. + +Ella ia ajoelhar, o Palma não deixou. + +--Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por +vossemecê. Mas é que o innocentinho que ahi traz esse é que não tem +culpa. Faço de conta que é o pae que me pede, o pobre José Thomaz. +Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Thomaz. Diabo! a gente já +diz _era_, já falla n'elle como se o pobre tivesse morrido... + +N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns +bois que não eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois, +quando já ia para sair, disse em resumo: + +--Fique vossemecê então, sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ella +inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se. + +Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo gordo, desentupiu +e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha +feito uma caricia, quando por volta do meio dia a avó do pequeno alli +chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota +aos cevados, ficou espantado: + +--Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, sr.^a Anna! + +Ella, sem mais rodeios, perguntou se a creança já tinha nascido. + +--Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha d'ahi. + +Mas iam ainda á porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe +perguntou n'um sobresalto: + +--Vivo ou morto, sr. Antonio? + +O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a creança nascesse +morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a +pontapés. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de colera, quando em presença +do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de +fazer. + +O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella insistisse +com a pergunta: «que se ha de agora fazer a isto?» elle redarguiu, +irado; + +--Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se ha de +fazer á creança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar... + +A velha ia fallar. + +--Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda +nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu +uma cadella quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer +cadella vale mais que vocês duas. + +O Palma ia-se pondo amarello, a sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a +que saisse. + +--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de +vespera até á feira. + +Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da egua. + +--Tanto faz ir ámanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mette-me +qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a egua. + +D'ahi a meia hora, o Palma montava á porta, no meio do rancho dos +cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara: + +--Em estando capaz, rua! + +--D'aqui a tres dias, talvez... + +--Então até d'aqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando +esses estafermos sairem. + +Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fóra--com o +embrulhinho do neto ao colo... + +Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado... + +Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? Não sei. Caso é que na +madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino á porta do +José Grillo. + +Madrugada de fevereiro, nevava... + + +III + + +Quando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar á irmã, tinha +amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidissimo +retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquella atmosphera de gelo. +Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão +triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto, +faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella impressão de frio. O chão +estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céo muito azul +annunciava um dia de sol. + +A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda +d'aquelle lado em contacto com o pequenino... + +Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe +perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da +levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um engeitadinho. + +--Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra. + +Mas o moleiro, que vinha chegando, espécou deante da mulher, e repetiu +como um echo: + +--...Um engeitadinho. + +Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga. + +--Sim, um engeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E +d'ahi... póde ser que não seja... + +A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa. + +--Nada! pode ser que a historia seja outra--elucidou o moleiro.--Onde +foi que isso foi posto? + +--Esta madrugada, á porta do José Grillo. + +--Olá! isso então pode ser coisa d'elle--observou a rir o moleiro.--Esse +diabo não é seguro. + +Pozeram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôz-se a +explicar á rapariga: + +--É que hontem á noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a +modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal. Assim ás primeiras, +tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo... + +--Ó Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e +senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobresinho ha-de ter fome. + +A Dorotheia passou a creança para os braços da moleira. Foi uma alegria +ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os olhitos inda fechados. + +--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria +a desavergonhada?... + +--Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro. + +--Depois, dormiu cá, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas dá-se o caso +que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, n'um +fallatorio pegado. «Que o filho era d'elle, que se a cabra da mãe +teimasse em o engeitar, elle ia dar parte á justiça.» Um arrazoado +assim, muito comprido. + +Espantada, a Dorotheia ia fallar. + +--Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia +isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que +onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar. + +Ficaram-se um instante a mirar consolados a creança. + +A pobresinha vagia, mamando com sofreguidão. + +--Mas então sempre elle sabe do filho, reatou com interesse a +Dorotheia.--Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae, +coitadinho! + +A sr.^a Luiza, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar +compungido: + +--Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir! + +Fez-se um silencio, mirando todos a creança. A taramella do moinho +batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro explicou ainda +que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer +obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe +respondera:--«Para a feira. Vender um gado.» + +--Ora vá lá o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido +a vender gado. + +Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Dorotheia, com pressa +por causa da irmã, pegou outra vez na creança e abalou pela porta fóra, +direita á casa do pae. + +--Olha os trapos, ó Dorotheia! olha que deixas cá isto.--E o Paulo +correu a levar á rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram +todo o enxoval do triste pequenino... + +Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a +creança não ia com fome. E para que tambem não fosse com frio, a boa da +rapariga achegava ao peito o engeitadinho, n'uma solicitude toda +materna. + +--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja +capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um innocentinho, +embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José +Grillo não dava fé! Alli se morria de frio o anjinho, capaz de virem +depois os cães e comel-o. + +E espreitando pela fenda estreita do chale: + +--Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua mãe, ora foi? + +--Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo. + +A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que já de +longe a acompanhava, sem ella dar fé, corria tambem atraz d'ella, e não +tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair +com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella +conhecia gritou alli de perto: + +--Larga a rapariga, ó José Thomaz! Larga a cachopa! + +E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os. + +--É o José Thomaz que está doido,--explicou o pastor.--Desde que a +mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado! + +Mas palavras não eram ditas, eis que o José Thomaz de novo se arremessa +á rapariga. + +--Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!--rugiu elle com voz +furiosa. + +E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre +lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas, +impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho... + +A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente. + +E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do +engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a +rir-se... + +--Conheces? perguntou-lhe a rapariga. + +No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido não +respondeu. + +--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos. + +Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como +estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle então oppoz-se, caindo +sobre os calcanhares. + +E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel +farrapo, as lagrimas corriam, copiosas... + +Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram +percebendo. Os farrapos que embrulhavam a creança eram da saia da mãe. A +mãe era a mulher do José Thomaz, e o pequenino era filho d'elle... A +grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao +homem! + +--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vês ahi um +estafermo que precisava que a matassem! + +O José Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma forte +impressão de piedade estampava-se em todos os rostos. + +--Ó Dorotheia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pae +deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga. + +Mas não foi preciso; que o José Thomaz, sempre de joelhos sobre a neve, +foi para ella de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos +labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio que se fez +ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho. + +Como se fôra uma chuva de petalas, do céo de madreperola a neve cahia +mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como +no seio immenso de um orgão, o vento sul--gemia... + + + + +ABYSSUS ABYSSUM... + + +N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. +Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o +rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de +ameaça, aquellas terriveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia +que lhe appareceram em casa tarde e ás más horas. + +--Ouvistes?--ralhara-lhes a mãe.--Olhae se ouvistes: se voltaes ao rio, +mato-vos com pancada. Andae lá... + +Ih! como ella dissera aquillo, Mãe Santissima! Colerica, ameaçadora, com +a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver +tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob +aquella ameaça terminante. E então, n'esse dia, elles não tinham ido ao +rio. Aos passaros sim...--lá estavam as calças rotas do Manuel a +dizel-o--...aos passaros é que elles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe +que o soubesse... + +Ah, mas então não os deixassem dormir n'aquelle quarto. Logo de manhã, +mal abriam as janellas, a primeira coisa que viam era o rio, uma +corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos +salgueiros. Lá estava a ponte velha, d'onde os rapazes se atiravam +despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do +fidalgo,--lindo barquinho!--sempre á espera que o fidalgo o desamarrasse +para passar á grande quinta que tinha na margem de lá. + +De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois +rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores, tão +madrugadores como os melros, metterem-se dentro do barco, desprendel-o +da praia, e deixal-o ir então por onde elle quizesse, comtanto que fosse +sempre para deante... Quando fechavam as janellas para se deitar, a sua +vista seguia, mesmo atravez da escuridão da noite, a linha que ia dar ao +barco. Era o seu--«adeus até ámanhã!»--áquelle pequeno objecto que valia +thesoiros, que para os dois valia mais que tudo, tudo... + +Ah! tivessem elles assim um barquinho, que não queriam mais nada... + +--Mais nada? + +--Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto. + +Mas n'essa manhã, bella manhã, na verdade! a mãe viera acordal-os mais +cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para +os campos, os solavancos dos carros no empedrado pessimo da rua, os +patos da visinhança que saiam em rancho para a digressão pelos prados, +grasnando ruidosamente, levantando-se em vôos curtos, espantados da +aggressão accintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que alli perto +se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador atarracando cravos na +bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e +vagaroso, as chaves da egreja na mão esquerda e na direita a cabacita do +vinho. E áquella hora, onde iria já a missa! A ultima beata, encapuchada +e lenta, recolhera, trazendo comsigo a esteira em que ajoelhára na +egreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, +dava com valentia n'um carro cujo eixo _ardera_ na vespera, e que era +urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a +loja, e subira á varanda a regar os mangericos. Começos da labuta +diaria, emfim; os senhores sabem. + +Pois como lhes disse, a mãe viera n'essa manhã acordar mais cedo os dois +pequenos. + +--Fóra, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal +está! Ai, ai, dia claro ha que tempos, vem ahi o sol, e os morgadinhos +na cama.--E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as janellas.--Persignar e +vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem. + +E poz-lhes tudo sobre a cama. + +--Mãe, a benção!--balbuciaram os dois, tontos do somno ainda. + +--Deus os abençôe. Que Deus não abençôa mandriões, ouviram? Ora eu já +volto. Queira Deus que não vos encontre cá fóra, tendes que ver. + +Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os +olhos áquella hostilidade viva da luz que invadira o quarto n'um jacto +repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito +que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria +tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda +tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego +morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos! + +Mas a mãe não tardava alli. Era preciso vestirem-se, que remedio! Foi +então que o Manuel, mais esperto do somno, olhando para o campo o achou +encantador, todo resplandecente de verduras. + +--Bonita manhã, não vês? As arvores parecem mais lindas, repara. Porque +será? + +O outro encolheu os hombros, não sabia: só se fosse por não haver +nuvens... + +Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva da +manhã fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde encantador, muito +suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das +laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das baixas. Revestidos +de folhagem, ascendiam ares fóra os olmos gigantescos. Pedaços d'horta +estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas +das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas. + +Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa manhã +deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante sob aquelle céo +immaculado. + +--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece? +Olha que é lindo, o rio; ora é, ó Antonio? + +--É, lá isso... Mas _tamem_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o +irmão.--A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?--E +mirando por sua vez a paizagem perguntou:--Já reparaste no barco, ó +Manuel? + +--Tão bonito! + +Os dois riram. + +--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara. + +--Podera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois +radiante, gesticulando para o irmão:--Mas eu era capaz de o +desamarrar... + +--Ai eras!--disse duvidoso o Antonio, para o incitar. + +Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, lá isso era. Ambos dentro +d'elle, sósinhos, isso é que seria bom! E elles então que estavam mortos +por ir ás azenhas, e pelo rio era um instante emquanto lá chegavam. O +barco! Era tão bom andar no barco! E aquelle então era lindo, como não +tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem lá não +esquecessem!--aquellas tardes em que o fidalgo os levara dentro do +barquinho, ensinando-lhes como se remava. + +O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito á janella. +Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando. + +--Está um dia lindo, avia-te. + +--Olha avia-te! p'ra que?--perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o +pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama. + +O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A mãe +não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada +se desceis a ladeira.» Já se vê que depois d'isto...--E os dois +suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos! + +N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo! +Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demonio de +tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo +o comprimento, uma faxa azul-clara destacava nitidamente, parece que +apenas meio palmo acima do nivel da agua. + +--Táte, ó Manuel! E se fugissemos? + +--Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar... + +Ora ahi esta! isso é que era o peor! A mãe, depois, era capaz de fazer o +que tinha promettido. E arregalando muito os olhos, imitando a colera da +mãe:--«Se voltaes ao rio...» Ai, ai, a triste sorte! + +Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia +ao nascente, n'uma explosão violenta de luz, accendendo coloridos na +largura muito ampla da paizagem. + +--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com +alegria o Manuel. + +--Mas é que está, palavra que está. Agora é que ha-de ser bom andar +dentro d'elle... + +Os dois riram-se muito áquella ideia encantadora de andarem no +barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso, +cobrando animo, o Antonio disse resoluto: + +--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela +jaqueta:--Vamos lá, ó Manuel? + +O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não +vinha, disse baixo ao irmão: + +--Á tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão facil dar pela +nossa falta, alli á tardinha. A gente finge que vae para o adro. +Levam-se os peões... + +--Ha-de ser mesmo assim! á tardinha!--concordou o Antonio.--Eh! eh! tu +cá desatraco. + +--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava. + +--Ao leme vou eu: o leme é aquillo que regula--explicou. + +--Pois sim, mas á vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quizeres +assim... + +--Pois está bem, quero! Assim mesmo é que ha-de ser! + +E recapitulando, para melhor ficarem combinados: + +--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo? + +--Remas. + +--E tu regulas, ora regulas? + +--Regúlo. + +--Ao p'ra cima é ás avessas, ora é? + +--É. + +Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se +impozeram segredo... + +--Schiu!... + +--Schiu! + + * * * * * + +A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do céo, penachos de nuvens +alvejavam, immoveis. + +Accesas n'aquella explosão rubra do occaso, as arestas dos montes +franjavam-se de purpura e oiro, na decoração magica dos poentes. +Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquilla dos crepusculos, +e uma quietação dulcissima e vagamente melancolica entrava de adormecer +a natureza para o grande somno reparador de toda a noite. + +...E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida. + +N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando, +os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, +immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os +cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella +indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de silencio +confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como spasmo +amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que +vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as +coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as +formas ás coisas... + +Muda de gorgeios, atravessando o espaço em vôos muito rapidos, a +passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. +Cahiam já pesadas sobre os valles as sombras das montanhas, e um +fumosito subtilmente azulado nadava á flor das coisas, velando-as para o +tranquillo somno em que iam adormecer. + +E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava +mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas +começavam de lampejar. Dentro d'elle, os dois irmãositos silenciosos +iam-se deixando enlevar n'aquelle ruido suave dos remos abrindo fendo +nas aguas... Não! era bem certo que elles não tinham jámais sentido uma +tão poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes trasvasava do peito, +fundindo-se em energia nos musculos e crystallisando-se nos labios em +sorrisos. + +Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores +absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres +de admoestações alheias, sósinhos, independentes. E esta feliz convicção +de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de +alegria. Por certo elles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o +seriam jámais?... No emtanto a noite accentuava-se. Espertava nas +margens o marulho da agua nas raizes fundas dos salgueiros. No céo alto +e sereno scintillavam as estrellas em cardumes. + +--Remas, Antonio?--perguntou o do leme.--Olha se a vês...--E apontava +para Vesper, a estrella que mais brilhava. + +Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcançar a estrella cujo +brilho diamantino os fascinava. Tão linda! + +--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a +estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe +adeante, só por isso... + +--Olha o milagre! Ella está quêda!--fez o outro, convencido da +facilidade da empreza. + +--Está quêda, está quêda, mas sempre na frente de nós; vae lá +entendel-a. Olha como brilha, ó Antonio. + +--Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito d'aquella fraga é que +ella está. + +Não era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de meia hora +era certo alcançal-a. + +E engastada no azul escuro do céo, a estrella parecia brilhar mais, +quanto mais a olhavam. + +--De que são feitas as estrellas?--perguntou o mais novito. + +--De prata, pois está visto. + +Então o outro, lançando um amplo olhar á vastidão infinita do céo, +exclamou: + +--Eh! tanta prata! + +--O sol, esse é d'oiro--disse ainda o Manuel. + +--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmão.--Que eu, se me dessem á +escolha, antes queria as estrellas. Olha que rebanho! + +--Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais +grande. + +E emquanto fallavam, os dois não desfitavam olhos da estrella feiticeira +que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo fenda na agua, com +certo ruido muito doce... E lá no alto céo, dir-se-hia que de instante +para instante a feiticeira estrella mais brilhava, incitando-os. + +--Vêl-a a fazer assim?--e poz-se a pestanejar, imitando a palpitação +crebra e irregular da luz sideral. + +--É que tem somno--respondeu o outro. + +--Olha que não. Aquillo é a fazer-nos negaças, _tamem_ t'o digo. + +--Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo, +bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh, +_boieira_! + +N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul, +sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram +em tom de reza as palavras rituaes: + +Deus te guie bem guiada, +Que no céo foste creada. + +--Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a +apontar para ellas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos. + +--A ti talharam-te o ar, ó Manuel. + +--Diz a mãe. Á meia noite levaram-me á fonte e esparrinharam-me agua +para o corpo. E a agua havia-de estar fria... observou, encolhendo os +hombros. Depois, viraram-me para as estrellas e disse então a mãe: + +Ar vejo, +Lua vejo, +Estrellas vejo: +O mal do meu corpo +Pr'a tráz das costas o despejo. + +Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da mãe, havia-de ser +engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava. + +--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por +anno, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas +estrellas que além estão, e rezar uma Ave-Maria. + +--Sempre, sempre? + +--Até que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com tres noites +dentro de uma. + +--Ora! tornou-lhe incredulo o irmão.--Tu não cabes lá... + +--Não sei: assim é que anda nos livros. + +...Mas os braços doiam já dos remos, doiam muito... + +Devia ser tarde, e elles sem darem fé, enlevados como iam no desejo +louco de alcançar a estrella. + +A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um +silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a +agua da corrente ia espumando na quilha, com certo ruido de uma brandura +suavissima e doce. + +...Mas os braços cada vez doiam mais!... + +Agora, no céo, havia muitas estrellas brilhantes, muitas, mas nenhuma +como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar +menos para ella, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o +peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço. + +...E os braços sempre a doerem!... + +Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente, +cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo do leme, +sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do subito desleixo do outro. + +...E os braços já não doiam, nem ao de leve sequer... + +O pequeno barco vogava agora á mercê da corrente, sem impulso algum +extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das respirações dos dois +pequenos adormecidos... + +Algum tempo assim. Senão quando, um ruido surdo, e logo um movimento +brusco de balanço, fez acordar o do leme. + +Na grande allucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou +immediatamente: + +--Manuel! Ó Manuel! + +O remador acordou, sobresaltado. + +--A estrella? Ainda lá está, olha!--disse incoherente, estonteado pelo +somno. + +--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!—-continuou +afflicto o Antonio. + +--Então não lhe passamos adeante?--perguntou ingenuamente o Manuel, +referindo-se ainda á estrella. + +Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o á realidade, +de novo lhe gritou, com lagrimas na voz: + +--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel! + +E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um +choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel +susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho +aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o +psalmodear monotono e rouco de uma legião de espiritos maus, +preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os +rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que +n'um requinte de malvada indifferença houvessem jurado assistir +impassiveis e mudos á escura tragedia da sua desgraça. + +E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem d'alli. +Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguem +viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os seus afflictivos +gritos. + +Crudelissimo transe!... + +E então os braços continuavam a doer, doia-lhes agora o corpo todo, ao +mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes opprimia o +espirito, parece que embrutecendo-os. + +--Mas a estrella sempre além...--notou ainda o Manuel, balbuciante de +medo, como se quizesse increpar a propria estrella da sua indifferença +criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio em que por causa d'ella +se haviam precipitado.--Se ella podesse acudir-nos... + +Até que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo se deixaram +adormecer, era já alta noite. + +Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte não +cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após +tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as aguas se +contorciam em remoinho, e entrou de girar com elle, violentamente. +Quando a agua se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de +subito acordados romperam em gritos lancinantes: + +--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale! + +Tinha surgido a manhã, serena, tranquilla, cheia de gorgeios e de azul. +Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual, n'um repelão +mais violento o pobre barco esphacelado investiu de proa com o abysmo e +lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo paroxismo da sua +enorme dor desesperada, os dois irmãositos abraçados sumiram-se tambem +com elle!... + + * * * * * + +...N'esse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrella +feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!... + + + + +MÃE! + +_Ao dr. J.C. da Moita Prego_ + + +Bella cabra, a Russa!--posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada, +luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva +de porte quando á frente do rebanho parecia commandal-o, badalando +cadencialmente o seu chocalho enorme--tlão! tlão! Era no rebanho a que +mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilancias particulares no +seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia arvore a que +não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não +triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora. + +E depois, alli onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas +vezes illudira ella a attenção do pastor, e se ficara por hortas e +quintalorios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro. +Por isso Alipio José, pastor, a quem doiam as denuncias, ao pescoço da +Russa prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais facil +rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito mais +grave. + +Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia +gosto vel-a trepar ás ultimas cumiadas, subir destemidamente ás arestas +superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas, +pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as hervas dos declives +alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com +abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e corregos, +saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas excursões +arriscadas de _touriste_. + +Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e +então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de +garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que +encontrasse por essas paragens era para ella um desespero--tamanha a +furia com que a perseguia, e a insistencia com que se ficava ás marradas +na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o +Alipio que dormia á sombra das azinheiras, de chapeu sobre a cara, +levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu +vozeirão que fazia echo: + +--Toma tento, Russa! + +E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos +fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alipio José +ficava-se a olhar a cabra, invejoso d'aquella facilidade em subir aos +ultimos pinaculos, admirado dos saltos que ella fazia para salvar +gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria +infallivel. E por lá andava dias inteiros a Russa, n'aquella +vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho, +resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam +ninho. + + * * * * * + +Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por lá se +deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia +quiz ella descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem +vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio José gritara cá debaixo, cada +vez mais desesperado: + +--Volta ao rebanho, Russa! + +E, cuidando que mais lhe feria assim a attenção, punha-se a agitar com +furia o mólho dos chocalhos, gritando sem cessar: + +--Russa! torna ao rebanho, Russa! + +Mas impossivel! que a não deixava a quebreira em que toda ella ficara do +parto, nem o pequeno poderia--pobresinho!--descer por taes ladeiras, de +pedregosas e asperas que eram. + +Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno +congelava unindo-se á mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o +aconchegava mais e mais para lhe transmittir o natural calor do seu +corpo enfraquecido e doente. + +Por altas horas da noite, na solidão lugubre d'aquelle sitio, +alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava +lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido da mãe, +traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao vagido fraco do +filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a +instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros. + +Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por taes frios e doenças, +impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e +mais n'um como abraço de eterna despedida--amigos que se iam apartar +para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade, +soluçando e gemendo, n'um adeus! que era infinito, como o infinito amor +que os unia... + +E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava +lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fôra o signal +para o transe derradeiro... + +Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abobada, as +estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa indifferença por aquella +dôr suprema de que eram as unicas testemunhas. + +E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céo a vida +do filho, ao menos,--ora supplice em balidos de resignação que uma +profundissima dôr ungia, ora desvairada e louca, em gritos que +significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o céo que a +não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe +estrangular o filhinho que ella amava tanto. + +E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dôr--a ironia acerba da +chocalhada longinqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra +banda, deixando-a a ella sósinha com o filho, á espera da morte que era +inevitavel. + +Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar +fóra o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, n'um adeus! adeus! +de despedida ás companheiras felizes que lá iam, n'um ruido longinquo de +chocalhos... + + * * * * * + +N'aquella solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol +entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam +e o sangue circulava. + +E o cabritinho sem poder ainda descer!... + +De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as +escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e tremula, como +que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas +horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio, +lá baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio. + +Impossivel! impossivel! + +E sentia-se enfraquecer á mingua de sustento, pois a herva, por alli, +estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres dias. + +N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes +e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o +chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que +o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, +assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo... + +Impossivel! impossivel! + +Nada que signifique a dôr d'aquella mãe, e traduzir possa em linguagem +toda a gamma de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se +de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia, +estendido para alli, na prostração pesada do ultimo desalento; animava-o +com caricias, aproximava-lhe da bocca os uberes já flaccidos e +amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse levar +ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe +afflictivo... + +Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a ultima +cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam +subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. Á medida que a treva +se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte, accentuando-se +cada vez mais a melopéa somnolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo +ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos volateis de +arminho, cortavam em vôos mansos a profundidade calma do céo, demandando +os pombaes e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo. +Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um +chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos +estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas rastejavam apressados os +reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama... + +...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem +passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda +a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou alegremente o seu +dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia ámanhã... + +Só a desgraçada cabra, alli, junto do filho tenro, não mais fizera +passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração +alanceado de mãe. Ahi vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o +filho que já tremia a ella aconchegado--o triste pobresinho! + +Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante +n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céo era +baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a espaços a abobada, irradiando +uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em ultimos transes de +creanças, em que a vida gradualmente se extinguisse, n'um latejar +vagaroso de palpebras somnolentas... + +Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva +apparencia da atmosphera e do céo. Noite peor do que as outras, porém +com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e +nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancal-os do abraço em que +se uniram, mal cerrara a noite! + +A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em +rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos, +accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade +esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a +que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz sinistra +na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retrahia-se n'um +como pavôr medonho, concentrado de intimos terrores e silencios lobregos +d'horas altas. Cerrava-se mais no céo a phalange muda das nuvens, +densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas, sem +scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem... + +E sempre, e constantemente immoveis na escuridão pesada, aquelles dois +olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a +treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando +convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme dôr, a pobre mãe não +ousava arriscar um unico movimento e mais e mais cerrava contra si o +corpo inanimado do filhito que parecia adormecido. + +Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes, quasi +eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis angustias, +vasias de esperança na vida do seu pequenino filho. + +De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de +novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distancia. Estremeceu a +pobre de subita alegria,--e no abalo que soffreu o seu corpo, até então +retrahido, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a +desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleoptéros de azas +phosphorescentes, os olhos até então immoveis do inimigo. E por alli +levou a noite toda, farejando e uivando, até que cançado de perscrutar o +insondavel, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada +que vinha, docemente, alumiando pincaros e arestas. + + * * * * * + +Ao romper d'alva o céo era azul. Apenas de longe em longe pennachos de +nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam +lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando, +diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações +imperceptiveis e suaves. + +Começavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina accusava já as +differenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados +de restolhos, tons pardos de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e +pinheiraes cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céo no +alto dos montados. + +Pelas ladeiras d'além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao +areal da margem. Em turbilhões de espuma alvissima precipitava-se a agua +nos açudes, marulhando nos altos penedos marginaes, denegridos e +informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto do moinho, lá +em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se tranquillamente no ar +sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma +ambição ou como um sonho... + + * * * * * + +Foi então que Alipio José, á frente do rebanho, de novo abordou áquellas +paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada. + +--Russa! torna ao rebanho, Russa! + +Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida +sobre o cadaver do pobre filhinho morto!... + +E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos +rochedos--passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a +esfaimada legião dos amaldiçoados corvos... + + + + +ARRULHOS + +_A.M. da Silva Gayo_. + + +Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orificios +triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impeccavel do +muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de distancia. + +--Pombal da Morgada! diziam.--Lá se vê além...--E um gesto muito longo +levava a vista horizontes fóra, á cata do Pombal da Morgada, que +alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros, +como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e osso +provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde +seriam encantadoras as tardes quentes de estio, á sombra de arvores +seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda, pardalada sonora, +gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa semceremonia--frangãos +assados e boa vinhaça da terra. + +Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A +Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e +outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte +desastrada do noivo--um trambulhão de um cavallo que o matara logo alli, +sem mais pio, n'um ai. + +A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera na +vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a +castidade das suas intenções d'elle... + +Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procreou, vieram pombos +novos--todos brancos uns, rajados outros, de um _gris_ delicadissimo +alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos. + +Bellos pombos, na verdade! + +Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo começavam de esbater-se +n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas +entrava de se desfazer em imperceptiveis _nuances_ subtis, n'um +_smorzando_ melancholico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem +caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida +cessava no campo e começava no céo em scintillações argenteas de +estrellas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a +estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto, +espalhando no pavimento terreo, com solicitudes de _menagère_, as +provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço--milho em +abundancia e fartura de alpista. + +Assim todas as tardes, ia já em quatro annos, que não havia forças que +levassem a Morgada para fóra do seu pequeno solar, onde vivia só, +retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel a pedidos de amigas +que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e que a queriam levar +para que se distrahisse, para que se alegrasse--«era nova ainda, podia +arranjar noivo, nada mais facil...» + +--E as pombas? objectava.--Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo. +Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que +matassem, haviam-de até roubal-as, entrar de noite no pombal, leval-as +todas. + +--Que não e que não! insistia renitente;--que tivessem paciencia, que se +divertissem muito, ella ficava. + +--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que +rebentou do trambolhão. Bem tola! + +E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a +ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da simplicidade +habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um +pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma préga, nem sequer um laço. + +Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não +desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de hoje para ámanhã, +desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortavel, muito +abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram +flaccidos--folhas de milho mudadas cada dois dias. + +Que bom, ser pombo da Morgada! + +A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, começava com o +aclarar, muito cedo, depois do descanço do somno na placidez do ninho, +quando as forças eram sãs e as azas pediam vôos. + +Hora dos amores! + +Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente, +lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam, +ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam, +possuindo-as á força, a tremer, azas em concha, pennugem erriçada, +arrulhando muito, arrulhando sempre, cahindo desfallecidos depois, +hirtos, palpebras cerradas, trementes, frementes, em spasmos de luxuria +e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de +contentes, sacudindo as azas, pescoço levantado, orgulhosas talvez, +muito felizes. + +Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo, +quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, n'uma +doçura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo +ás boas, não querendo violencias, detestando-as, bem se via, +supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos, redobravam os +carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de +pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos--beijos +com certeza. + +Isto todos os dias, nas manhãs ennevoadas especialmente. Imagine-se a +vida do pombal áquellas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas +mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que +queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava; +e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era +sanguineo e quem era pachorrento. + +Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um +pousava, retomando vôo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma +direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, n'um +ruido muito doce de bicos que sorviam. + +Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a +Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao +balcão da sua janella, alegre de trepadeiras em flôr, pousar-lhe nos +hombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não +sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lagrimas, mas +que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis: + +--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida... + +D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios felisões, vida +de concubinagem, n'uma promiscuidade sem limites e n'uma libertinagem de +harem. + +Polygamia desenfreada! + +Excepção a ella, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba +branca, de uma alvura impeccavel de neve, e então um pombo rajado, preto +e cinzento, de _nuances_ azues-escuras, ares aguerridos de luctador +vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador. + +Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e +spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de pescoço, +nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a, sem arrulhos previos, +sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe +entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe no ninho, disputando +primazias á força de bicadas. + +E umas atraz de outras, e dias após dias, sempre assim! + +Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar logar +a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado d'elle, paciente, +resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito +meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o ufanava, +incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as +outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam +entregar a outros, e de se affeiçoar á branca, a ella só, acarinhando-a +muito, arrulhando com ella, alternadamente, ora um ora outro, gemendo +amores. + +Não imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da desordem, da +perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instinctos commodos de +polygamia, tão avesso a duetos d'aquella natureza, onde os pombos eram +de todos e as pombas eram communs. + +E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias +inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava de +egoista. E quando saíam não se juntavam com os outros--uma desfeita! uma +offensa!--tomavam rumo differente: para a direita se os outros iam para +a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao +contrario. + +Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os +encontravam no pombal, em ninhos contiguos a principio, no mesmo ninho +depois! + +Um escandalo! Um desaforo! + +E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas. + +Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar +forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se +isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as azas, +levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo +quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados... + +Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a pomba +branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia depois, +luctava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do +pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além, +entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido de azas, receiando +acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido +sob a aza veludinea. + +Dois mezes assim--dois mezes!--n'uma fidelidade conjugal ininterrupta, +digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheço, que os +senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e +esplendida de alegrias, passada em bellas digressões campos fóra, +pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo +de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez... + +Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter desconfianças, suspeitas +de inconstancias e receios de infidelidades, de noite, emquanto dormia. +Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos, +modos de enfadada ás vezes, certas perrices, resistencias mal +disfarçadas. Ficava-se em casa se o rajado sahia, impassivel a +supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e quebramentos +de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o vôo, tomava para norte se o +rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir. + +Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam--rameira do +rajado!--um dia levantou vôo e fez-se ao largo. + + * * * * * + +Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao +_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de +_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, á prova de +rheumatismo e á prova de vintem, felizes na sua pobreza, amigos das +creanças, bem humorados sempre, flôres de uma arvore que ora vae dando +cardos. Perto do solar da Morgada, a tres kilometros só, havia um assim, +o abbade das Donas, bom prégador n'outras eras, com famas de theologo +ainda ao tempo. + +--Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!--era assim que +muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins, +sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos. + +--Theologia velha, diziam, a genuina! + +A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes +a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era +terreo, rimas de lenha secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha, +um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para +um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que +estavam. + +Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas devoções, e n'essa tarde +quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, oculos na +ponta do nariz, breviario na mão direita, a dois palmos, a esquerda a +segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solideo com borla +resguardando-lhe a calvicie. + +A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações +de desgosto, arremessos de breviario, e por fim levantando a voz: + +--Fome as pombas, sr.^a Luiza: não fazem senão saltar... + +--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,--mas têm lá +visita, pomba que arribou. + +E depois informando: + +--Pomba guapa, toda branca. São agora tres ao todo, e então o pombo... + +--Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.--Percebo... percebo +perfeitamente...--E foi metter-se no quarto, continuar a +leitura.--Deixal-as! concluiu evangelico. + +Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar á reles +pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um caixão velho, com +grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'alli ao fundo da +varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros, um nojo. + +Quando a mostrava á creada, o abbade dizia-lhe sempre: + +--A sua vergonha, sr.^a Luiza; a vergonha da sua cara. Como se os +animaes não fossem tambem creaturas de Deus... + +As pombas eram magras e o pombo era esqueletico. + +Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a +alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que ambos +se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e bem +tratada, flaccida de pennugens e de carnação consistente, apetitosa, o +pombo não a largava--genio de libertino em corpo de tisico. + +Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se +queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida, +tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do +rajado, o seu primeiro amor, quem sabe! + +E depois, o pombo sujo já não se importava com ella, desprezava-a, +tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras, dando-lhe maus +tratos,--á intrusa. Dôr incomparavel! + +Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar, +descançando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando +sempre, arrastando-se em vôos baixos, sentindo vertigens se subia mais +alto. Para passar um ribeiro descançou uma hora, e quando cobrou alento +e começou o vôo, viu-se na agua e estremeceu, molhou ainda as azas, viu +um corvo na sua propria imagem, um corvo negro que a perseguia +silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ella tinha +sido e o que era!... + +Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do rajado... Oh! o +rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a quereria, tinha pomba, +decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um vôo valente e +estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda. + +Fez-se de vôo e partiu. + + * * * * * + +A manhã era calma e o céo era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar +que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva +tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra cançada e +adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado +esplendido--decoração triumphal com que se orna aguardando a visita de +quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando +tudo--o cardo que rasteja e o cedro que vê longe... + +N'aquelle repontar da manhã, o alto céo era de uma limpidez crystallina. +Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcissima paz, e +pelas ramagens verdejantes a volata suavissima dos ninhos começava, como +uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras, +florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa d'alva. + +Em manhãs placidas como aquella, quantas vezes a branca não fizera as +suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do rajado, +perdendo-se com elle atravez do horizonte áquella hora tranquillo e para +toda a banda transparente! + +Como tudo isto lembrava, agora! + +Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam descançado muitas +vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura ineffavel o amor +extraordinario que os unia! Em toda a largura não se descobria um só +campanario ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres, +contentes, doidos! E ella sempre ufana, acompanhava o macho nos seus +vôos ainda os mais arrojados, perdia-se com elle para além das serranias +mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que +empenharia a vida só para salvar a da amante. + +E que bella manhã, aquella! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras +acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu vôo perpendicular e +rapido! + +Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos; +melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a +largura--nem uma aza de pomba palpitava. Ella só, desalentada e cheia de +maguas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte... + +Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as azas +contra o muro, arremettendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a +coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos +companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e +arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo +muito as azas combinando ataque. + +E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a +passagem. + +De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou vôo +n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a +desgraçada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue nos bicos e pennas +voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam com furia. Por +fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado, +bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho guttural de +vida que se esvae lentamente, gradualmente, com dôr. Um estremecimento +de membros por fim, uma agitação geral repentina, e--morta! + +Ares além, os assassinos em bando voavam á busca talvez de um ribeiro +onde lavassem os bicos ensanguentados... + + * * * * * + +E o rajado?--hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e +vel-o-hão sair da janella das trepadeiras, alegres, felizão, bohemio, +depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um +leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ella, +arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando... + + + + +BATALHAS DOMESTICAS + + + + +BATALHAS DOMESTICAS[1] + +_A Luiz Trigueiros_. + + +Para o meu proposito, é inutil narrar-lhes esse pequenino e perfumado +idyllio, côr de roza, que foi na vida d'ambos, durante um anno, o seu +mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim Seabra, maior, +empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno uma furiosa +vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda elle era fedelho: e +passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma doença complicada +levara-lhe tambem o pae--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas +leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira, +nas abas da serra da Estrella. + +Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lh'os. E +quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo +peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob a umbella branca de +grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu o padre de que em +podendo lhe desejava uma palavra. + +--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor. + +Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente, +junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho, +entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo +de lhe murmurar, designando vagamente o filho: + +--O pequeno, coitadinho! + +De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos, +veio metter o orphão, como marçano, n'uma loja de ferragens da baixa, +loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para +uns saguões de predios contiguos. De marçano subiu com o tempo a +caixeiro; e como era applicado, humilde, supportando com uma placidez +resignada de beirão um trabalho por vezes superior ás suas forças, pulou +um dia para a escrevaninha da casa, no andar de cima, vaga pela sahida +para a cadeia do outro que commettera umas falcatruas. + +--Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera deante dos patrões o +Joaquim. + +E a incisiva phrase que fôra, emquanto remexia a papelada, todo o seu +commentario ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a +involuntaria conquista do logar, como revelação, que era, das qualidades +fundamentaes do seu caracter,--communs, de resto, ao typo beirão, +profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no fundo generoso e bom. + +A vida começou então a ter para elle umas entreabertas mais risonhas, +livre d'essa prisão estreita da escura loja, onde os seus instinctos +hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma natureza +barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos +repelões de rebelião... Até que um dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo +á escrevaninha o assaltavam, pensou em ir á terra onde não voltara desde +pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E n'uma +introversão de momentos, mirando atravez da janella o claro céo azul, +alto n'aquella manhã serena de maio, o Seabra teve a remota visão do seu +passado--das coisas da sua infancia, da sua pobre e humilde aldeia +encravada n'um declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente +de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo +invertido, elle lá via além, muito longe para as suggestões do seu +desejo, muito afastado para as debeis reminiscencias da sua memoria, +tudo isso que elle dizia em tres palavras--«a minha terra!»--isto é, +esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo +do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja oblonga; a fita +branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua mãe jaziam; a paizagem +circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de prata +serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a +velha legião amiga das arvores--o zimbro ao alto dos môrros nús; depois, +descendo, as urzes brancas; os piornos; os bellos carvalhos altivos; e +já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agricola e horticola o +verde e tenro parasol das suas soberbas folhas--o castanheiro, emfim. + +Atravez da sua vida de balcão, duramente moirejada a mover barras de +ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com +intermittencias raras de descanço, algum domingo, pelas hortas dos +arredores, ou ás vezes n'um bote, pelo Tejo,--a sensação melancolica da +sua paizagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cerebro, nem tão +pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infancia, dos seus +companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, á +lição a casa do reitor, n'aquelle velho sotão da residencia, com paredes +denegridas e tecto de madeira com manchas... + +E que seria feito d'elles? Talvez que os não conhecesse, que o não +reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta desconfiança, dava ao +seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua +bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto +subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim, a propor +aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azues e +toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso, espontaneamente, +insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda +solteira... + +...a Emilia! + +E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente á historia +que lhes vou contando, a chronica preliminar d'esse consorcio, direi que +a velha estola do reitor os uniu emfim uma manhã--manhã de julho, na +velha e ampla igreja da freguezia, toda banhada de sol, toda rumorejante +de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva alegre de +pétalas, a saraivada metalica dos sinos, repicando... Até que passados +dias, eil-os emfim em Lisboa, installados não sei em que beco da Baixa, +perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o +escriptorio. + +E aqui rompe a historia; e se é do agrado dos senhores, comecemos. + + * * * * * + +Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa, +toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no +amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a +mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por +outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e +trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a +homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas +naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas +do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saude, +explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de vontades que os +dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro +avesso nos seus desejos, sem a minima divergencia no seu modo de vêr e +de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que nas suas +naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio +visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer nullo, sem +consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo periodo passado +em latitudes differentes:--ella, onde ambos tinham nascido, debaixo do +mesmo céo, á luz do mesmo sol, á sombra das mesmas arvores; elle, +sequestrado de tudo isso, mas n'um meio sem côr para elle definida, +pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se +conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente +debaixo do luar melancolico... + +Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas +superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao +rythmo da mesma canção, essa forte, dulcissima corrente de ternura +espiritualisada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e +fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada +efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia tambem no sangue +d'ambos--bem como no seio de um diamante as iriações mordentes--as +rubras, incandescentes faulhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se +quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo, +vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas +classicas, por umas cabecitas loiras de creanças, frescas, ridentes, côr +de rosa... + +D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado idyllio, +côr de rosa, que fôra na vida de ambos, durante um anno, o seu mais vivo +encanto... + + * * * * * + +Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escriptorio, noite cerrada +já, quando uma rapariguita que lhes servia de creada havia dois dias, +vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no accento beirão: + +--A minha madrinha está muito mal. + +--Muito mal? + +--Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê. + +Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se á hombreira, +para não cahir, sentiu passar-lhe pelo cerebro, como um tufão de peste, +uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um presentimento... E cobrando +alentos, confuso deante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz +trémula, no tom de quem procura, compromettido e humilde, esconder um +pensamento: + +--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio +da Beira. + +--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como +doida... + +--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso. + +E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do +andar de baixo,--talvez alguem que o procurasse!--fechou a porta com +força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto +impondo silencio, com a mão sobre a bocca arquejante da rapariga. + +--Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo--Se te calares hei-de te +dar dinheiro. Cala-te. + +A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um +novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo o +predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem +nas ruas proximas, o Seabra tomou nos braços trémulos a pequena, e foi, +cauteloso como um bandido, leval-a á cama. + +--Ouves, Luiza? Não faças bulha. Dorme. + +E fechando-lhe a porta á chave, respirou, hirto no meio do corredor em +trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio, aquella +escuridão impenetravel! E elle, como um cataleptico, alli encafuado +vivo...--triturado pela magua, roido pela dôr, desfeito pela desgraça, +como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem, +implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua carne, +sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas até da sua +propria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no +emtanto... morto: vivo para a sensação esphaceladora da sua atroz +desgraça, do seu cruel, cruciantissimo martyrio; morto, aniquillado, +desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças...--as suas +esperanças! revoada alegre de pombas, candidas, serenas, immaculadas, +que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e +para sempre... + +E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma prostração de louco +embriagado, dir-se-hia que o cerebro deixara de funccionar n'esse +infeliz--como relogio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e +que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava! +era essa impressão anniquilladora do _Nada_, que o fundia na treva +circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e +tanto e tão intimamente, que elle proprio n'ella se sentia diluido, e no +silencio... + +Subito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado alli de +perto como um reptil, escoado alli de perto, como um verme, +phosphorejante na treva á semelhança de um demonio, que agitasse um +_pierrot_ de cascaveis,--uma centelha de vida animou esse corpo +aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar, como luz de +lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma de uma +ideia... E teve então de si proprio a extranha, diabolica visão de um +esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco immovel +das orbitas, d'onde dois feixes de luz escorriam--aquelle trapo +miserando alli cahido, informe, esqualido, repellente, montão de gelo, e +lagrimas, e trevas...--que era elle tambem!... + +Entretanto, e como por força mesmo d'essa allucinação desvairada e +tragica, o cerebro perdera n'elle a recta, serena faculdade do +raciocinio, elle continuava absorto, incomprehendido, estupido, deante +da «sua desgraça»--como deante de um grande mar de negrume, profundo e +estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céo sem estrellas, +torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um espectro... E +assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos irracional,--mudo, +aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo +de um poço um bloco inanimado... + + * * * * * + +No escuro do seu cubiculo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a +propria treva soluçasse, esse chorar abafado da creança, espavorida das +coisas que a cercavam, para ella mysteriosas e funebres. Era como se um +alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido +de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um vôo de acaso, +na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de +velho muro, abandonado algures... + +E porque viera? E para que viera? Não sabia. No emtanto, ao contrario do +que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada de profunda +nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, atravez do qual passavam +os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois +dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo! +E não tornara mais a vêr passaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã, +tocando á missa d'alva, tangendo á tarde a Ave-Marias, o seu querido e +alegre sino d'aldeia...--além, n'aquella riba suave e pittoresca, +prateada, beijada do luar áquella hora!... E o fio do seu pensamento, +que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como pequenino +arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas, +torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido n'um +veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fôra de lagrimas, +occulto sob a folhagem pallida... + + * * * * * + +A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto +da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez +dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como +acontece ás tempestades da natureza, tambem a tempestade d'aquella alma +de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente, +gradualmente. Chorou. E como se fôra o véo das lagrimas que lhe não +deixára vêr até então os pormenores do seu infortunio, d'este +permittindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se +fazer com a vasante mais lucido o raciocinio, mais precisa e mais +esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro, como luz que pouco a +pouco vae surgindo na lampada de um claustro, allumiando nitidamente, +sob o docel frio das sombras, as arestas marmoreas de um sepulcro... + +Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas +linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade +rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde secca de maio. E foram +então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina, +por entre as maxillas ferradas, do fundo do peito em ancias. Então foi o +arrancar convulsivo dos cabellos, ás guinadas, teimosamente, n'um duello +de loucura com a dôr physica, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a +beber o proprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes, +lacerantes como se foram de abutre. + +--Ah! raios do céo, e não morro! + +E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao chão, como +beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe então +o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrivel de que se +divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a +conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e +todo elle se sentia gelado até ao mais intimo da sua alma, suppondo-se +na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando adherente ás costas, +como um ferrete ou como um caustico o olhar de «toda a gente»... E com +as unhas ferradas na testa, escondia da propria treva, com as mãos +ambas, o rosto cobarde e arrepanhado. + +--Diabos do inferno! levae-me! + +A este novo grito, porém, subito se recolheu n'um grande pavor +religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce, +harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um +casal... E teve a doce visão de um arco-iris, bonançoso e rutilante, +repontando luminoso no borel asperrimo da sua alma, onde uma clareira se +abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas tranquillas, +que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba alvinitente, que +transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor: + +--Deus! + +E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um +como enlevo de visão, um ruflar de azas de pombas... á hora d'alva... +sobre os campos... n'uma clara manhã de maio, perfumada... + +E como se mão invisivel o erguesse, de vagar, serenamente, enxugando-lhe +da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta alli pela sua +alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contiguo, onde +sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi +submissamente, como um cão duramente batido que volta aos affagos do +dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos, pallidos, +desbotados, ao claro luar vindo do céo, o triste uniu os seus labios +frementes,--...n'um beijo suavissimo de perdão. Ao mesmo tempo que ella, +n'um delirio, repetia a phrase cruel: + +--Mais vinho! + + + + +NOTAS: + +[1] Sendo necessario completar o numero preestabelecido de paginas de +cada volume d'esta _Collecção_, numero além do qual se não póde ir e +aquem do qual se não deve ficar,--o editor pediu e obteve do auctor, em +vez de novo conto, um excerpto do seu livro em preparação, livro +provisoriamente baptisado com o titulo de _Batalhas domesticas_. O +excerpto póde dizer-se que constitue só por si, como os leitores verão, +um trabalho litterario, independente e uno, o que de certo modo lhe dá +logar n'esta collecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além +disso, a transição do espirito do auctor para uma nova phase, litteraria +e artistica. + +N. do E. + + + + +INDICE + + +Idyllio rustico + +Sultão + +Ultima dadiva + +Preludios de festa + +Typos da terra + +V[ae] Victoribus + +Maricas + +Para a escola + +Tragedia rustica + +Abyssus abyssum + +Mãe + +Arrulhos + +Batalhas domesticas + + + + +OS MEUS AMORES E A CRITICA + + +Da Revista Illustrada (extracto da chronica):--«..._Os meus amores_, de +Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições +agradabilissimas ao paladar d'ambos os sexos, e com delicadas +circumstancias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das +preoccupações litterarias mais evidentes d'este escriptor primoroso é +fazer jus á amisade das leitoras, e como dispõe de pericia no ferir de +certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento, +consegue-o.--_Alfredo Mesquita_. + + +Jornal da Noite:--«Trindade Coelho--Este illustre escriptor, nosso +talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo +livro de contos _Os meus amores_. + +De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das +lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distinctamente, +e impõe-se á admiração dos que apreciam os talentos brilhantes +privilegiados. + +Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e +encantadora são dignos do maior apreço, pela elegancia da fórma, +burilada a primor n'um estylo finissimo e scintillante, despertam os +mais francos, sinceros e enthusiasticos encomios dos que os lêem. + +Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello +caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos +serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distincto collega.» + + +Diario Popular:--«_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de +graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo, que +acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho. + +O escriptor, como verdadeiro artista que é, localisa todas as suas +attenções, de ha muito, no trabalho de apprehender com fidelidade o +viver campezino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi +berço. Por isso o seu fabrico litterario se aprimora de dia para dia +n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito: _Os meus +amores_ o attestam, quando postos em parallelo com os primeiros contos +publicados avulso. + +Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e +consegue photographar com particular exactidão. Em vez dos descriptivos, +quasi despresados, são trechos successivos de conversas d'uma +encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de todas as +suas producções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho +pessoal da sua obra, que proporciona agradaveis e confortaveis momentos +de leitura.» + +Diario Illustrado:--«Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um +admiravel soneto de Luiz Osorio, que depômos nas mãos da leitora, como o +perfumado ramo de cravos valencianos, a flôr actual das suas +predilecções femininas: (_segue o soneto incial_.) + +E pelo braço do poeta da _Alma lyrica_ subimos ao doce convivio +espiritual da alma de Trindade Coelho. + +O conto _Mãe_, uma rica joia engastada n'este livro, brilhando ahi por +todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte +de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para +aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante +estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e +melodico, o diploma do seu notavel talento. + +É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade +espontanea que estes contos nos captivam. + +O auctor diz-nos, sem preoccupações de escola e sem pretenções a abrir +caminho pela deslocação do vocabulo ou pela selva escura do escandalo, o +que viu, analysou, observou e sentiu. + +As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam +suavemente, tocadas a espaços de uma inegualavel melancolia +contemplativa que lhes duplica o encanto. + +Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade +Coelho revela o superior poder evocativo da visão intima, que o +singularisa. + +A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle, +como para todos os artistas de raça, attitudes, expressões, côres e +sons, que o auctor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora +eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento, que só nos +transmitte a simples leitura dos poetas. + +Ha rapidos traços de analyse emotiva ou de commoção reflexa que valem +poemas. + +E não serão o _Idylio rustico_, a _Mãe_ e outros contos, soberbamente +delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa? + +Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo +seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o +seu primeiro triumpho.--_Gabriel Claudio_.» + + +Jornal do Porto:--«_Os meus amores_.--A collecção Antonio Maria Pereira +augmentou se d'um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e +está escripto pelo nosso illustre collega e litterato distincto o sr. +Trindade Coelhho. + +D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve +achar grande acceitação no nosso publico, escreveremos em breve as +palavras apreciadoras que elle merece.» + + +Correio Elvense_:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado +escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a +que deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de +Antonio Maria Pereira. + +Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da +capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa +em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que +tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto +estylista. + +Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor +que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus +triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons +e sinceros amigos. + +N'um dos proximos numeros falaremos da impressão colhida em _Os meus +amores_, agradecendo desde já as expressões affectuosissimas que +acompanham a dedicatoria do livro, que o seu auctor nos offertou.» + + +Correio do Norte:--«_Os meus amores_.--Contos e balladas.--Trindade +Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escriptor, acaba de publicar um +livro de contos com o titulo acima indicado. É esta uma bella novidade +para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de ha muito soube +conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello talento e +poderosas qualidades de escriptor. + +Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do +novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle. + +Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu +offerecimento.» + + +O Globo:--«_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de +Antonio Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome +de Trindade Coelho. + +Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser por certo +trabalho de grande valor artistico, como invenção e como execução, +porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra litteraria má. A +sua educação litteraria está feita, e os seus numerosos trabalhos tão +apreciados, tão portuguezmente escriptos, tão sentidos e tão espontaneos +revelam qualidades de escriptor de raça. Elle tanto póde ser um +jornalista eminente como é um contista original. + +_Os meus amores_ é uma collecção de contos e balladas. Conhecemos alguns +capitulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para +não errar na apreciação. Vamos lel-o com a convicção de que teremos de +saborear um d'esses raros mimos litterarios que só os privilegiados de +talento sabem offerecer aos seus leitores.» + + +Diario de Noticias:--«_Os meus amores_.--_Contos e +balladas_.--Anunciámos, em tempo, o proximo apparecimento d'este +trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do _Portugal_, o +sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collecção, já tão valiosa, das +edições do sr. Antonio Maria Pereira. + +O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que +desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do +seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores. + +Com uma observação escrupulosa, e um pittoresco estylo, d'uma pujança e +d'uma riqueza não vulgares, sem attentados contra o bom gosto, nem +rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade Coelho são, a +todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que ha-de entrar, sem +hesitações, na acceitação do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a +attestar, n'uma formosa prova, a riqueza de um espirito, superiormente +educado, ductil e promptamente malleavel. + +Porque esses contos são a obra de um genuino artista, cuja _maneira_, +simultaneamente facil e apuradissima, revelando a espontaneidade de uma +fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma +delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de +seiva. + +Não póde entrar nos curtos limites de uma simples noticia, a mais +desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na proprio nome do seu +auctor, o melhor e o mais seguro titulo de recommendação para obter do +publico a consagração de um largo e legitimo successo. + +Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz +Osorio--preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle +rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias litterarias.» + + +A Actualidade:--«_Os meus amores_.--Este nome é o de um novo livro da +collecção Antonio Maria Pereira. Pelo titulo presume-se um volume de +versos; mas não é, o que não quer dizer que n'elle se não surprehenda +legitima poesia. Trata-se de contos e balladas, originaes do sr. +Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escriptores. + +Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso +contista: + +Estylo correcto, elegante, vivo; descripções ricas de observação e +attrahentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da fórma; despidos de +grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita +naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre +tudo, pela propriedade. + +Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do sr. Trindade Coelho, +deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as +narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idylio rustico_, +que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se +encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notavel poder +de observação e que deixam o espirito suavemente impressionado. Leiam, e +verão que não exageramos na opinião que ahi deixamos rapidamente +exposta. + +Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.» + + +Correio da Manhã:--«Registar o apparecimento de um livro bom, linguagem +elevada e singella, desartificioso e artistico, repositorio vasto de +observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é +sempre agradavel á chronica, n'este tempo sobretudo de litteratura +gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica. + +_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos offerecer sr. Trindade +Coelho é um livro d'esses. Collecção primorosa de contos e balladas, em +que no mais despretencioso dos estylos nos conta recordações e idylios e +nos mostra uma galeria rica de typos e de figuras cuidadosamente +observados e primorosamente expostos. + +O ultimo conto _Para a escola_, que d'essa bella collecção acabamos de +ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assimelha se +notavelmente á maneira de Gustavo Droz. + +Não é o logar nem a accasião de fazermos a critica do livro e a +apreciação d'este novo, d'este debutante, que ao primeiro assalto parece +estar já senhor da batalha. + +É por isso que sinceramente o felicitamos.» + + +Vanguarda:--«_Os meus amores_.--O nosso collega, o sr. Trindade Coelho, +que quasi só conheciamos pelos seus libellos accusatorios, acaba de nos +enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a feição carregada e +sombria do agente do ministerio publico desapparece por completo, para +nos deixar apreciar só o espirito finalmente delicado do homem de +lettras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente +sabedor do seu officio. + +Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o +outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do +ministerio publico, que parece lhe oblitera ás vezes as suas excellentes +faculdades.» + + +Primeiro de Janeiro:--«_Os meus amores_.--Acabamos de receber o +formosissimo livro de contos «_Os meus amores_», de Trindade Coelho. + +Não é ainda a occasião de pôrmos em relevo todas as qualidades +litterarias, complexas e brilhantissimas, que se evidenciam n'este +livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assignalaveis entre os +mais illustres cultores da prosa portugueza. + +Os contos por onde «_Os meus amores_» se repartem não são apenas +maravilhas de linguagem, onde tão sómente se destaquem dextrezas e +fulgurações do estylo: a acção que os anima constitue uma deliciosa +galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em +flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de observação e +trasladados a uma fórma superiormente artistica, onde ha firmemente +accentuados todos os caracteres de uma esplendida organisação +litteraria. + +É um livro vibrante e magnifico--adoraveis paginas intensamente ou +delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas, cuja leitura é um +verdadeiro encanto. + +As nossas cordeaes felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a +gentilissima offerta do seu livro.» + + +Folha do Povo:--«_Os meus amores_.--Esta publicada em volume uma série +de _contos e balladas_ com que o sr. Trindade Coelho, o brilhante +collaborador do _Portugal_, vem enriquecer a litteratura _contista_ +entre nós, hoje tão querida do publico, depois que os trabalhos de +Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um valor até então +mesquinho. + +A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e balladas_ do sr. +Trindade Coelho é um estylo muito seu, cheio de uma crystallina +naturalidade, _affastando-se completamente d'essas excrescencias de mau +gosto_, que ultimamente têm abastardado a lingua portugueza,--prova da +superioridade intellectual do escriptor de que nos occupamos--, visto +que não mira a uma falsa gloria, conquistada facilmenle pelas +excentricidades de estylo, que são hoje uma verdadeira mania entre +alguns escriptores da chamada geração moderna. + +O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo á espontaneidade +das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista, +porque nunca a phrase lhe sae banal, nem tão pouco envolvida em ouropeis +de mau gosto litterario. + +E no entanto encanta-nos,--prova de que está alli um primoroso +escriptor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da +natureza por uma fórma de observação, que não é d'esta nem d'aquella +escola. É simplesmeate sua, individual. + +Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque as +suas primeiras producções litterarias ressentiam-se de uma tal ou qual +preoccupação de _effeito_ no modo de construir a phrase. Hoje, o +escriptor adquire a independencia da sua maneira, do seu processo, e +feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia, visto que os seus +quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reproducção do que o +artista observa em volta de si. + +Certamente que o publico lerá com encanto o novo livro do sr. Trindade +Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e--podemos mesmo dizer--a +litteratura portugueza.--_Silva Lisboa_.» + +Diario Illustrado:--«De tempos a tempos chegava-nos do Atemtejo um +periodico que não deixavamos nunca de lêr pelo fino gosto litterario, +pittoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos, +incluindo os politicos. Esse periodico era redigido por Tindade Coelho, +cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade +litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade +verdadeiramente notavel. + +De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o +_Diario Illustrado_ e, vindo establecer residencia em Lisboa, algumas +vezes tivemos a honra de receber n'esta redacção a sua visita, sempre +agradabillíssima para nós, porque a sua conversação scintillante +aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho. + +Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume--que faz parte da +collecção _Antonio Maria Pereira_--os seus deliciosos contos, cheios de +observação, de verdade, de simplicidade artistisca, que é, a nosso vêr, +suprema expressão de belleza n'este genero de composições litterarias. + +_Os meus amores_ são um bello livro, em que o estylo se não contorce +atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da +forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade. Tudo +alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres e dos +episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos períodos. + +N'uma palavra, _Os meus amores_ são a obra de um artista, de um homem +que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem definida por +traços profundos de verdadeira originalidade.» + + +Voz Publica:--«_Os meus amores_.--Trindade Coelho, innegavelmente um +talento de primeira agua, acaba de brindar a litteratura portugueza com +um excellente livro de contos subordinado áquelle titulo e que constitue +o duodecimo volume da elegantissima _Collecção Antonio Maria Pereira_. + +_Contos e balladas_ é o sub-titulo do livro, e muitos ao lêrem-n'o +julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa +vernacula, correcta e vibrante que estão escriptos os bellos contos de +que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido. + +São todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e +verdade dos seus typos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os +formosos typos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo mallogrado +auctor da _Morgadinha dos Canaviaes_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_. + +Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a lêr +deixará de o fazer como nós; tão attrahente é a fórma por que Trindade +Coelho conduz todos os ligeiros contos de que elle se compõe, que sem +querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste +d'elle ter acabado. + +Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem, +foram os que se intitulam _Typos da terra_ uma galeria curiosa de typos, +e _A mãe_, um conto de natureza, simples e commovente na sua +simplicidade, e notavel pela sua originalidade. + +Recommendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos +leitores.» + + +Ordem do Dia:--«_Os meus amores_.--Este é o titulo do 12.^o volume da +collecção Antonio Maria Pereira, innegavelmente a publicação mais +elegante, mais barata e mais interessante do paiz. + +_Os meus amores_ são uma serie de contos e balladas, em prosa, devidos á +penna d'um moço talentosissímo, de ha muito conhecido nas lides do +jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançára ao mercado um +livro; com este debuta o auctor, e é uma estreia auspiciosissima a sua. + +A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle é +cultivado um genero--o de contos, alguns á maneira de Gustave Droz, que +prendem e interessam o leitor em todo o sentido. + +Foi gratissima a impressão que elle nos deixou no espirito e esperamos +que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas bellas +producções, porque estamos certos de que quem lêr _Os meus amores_ será +com sofreguidão que esperará novo volume do distincto escriptor, tal é o +encanto da sua escriptura». + + +O Sorvete, (com o retrato do auctor):--«Dr. Trindade Coelho.--Mais uma +prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez justificada a alta +competencia e finissimo espirito de escriptor disctinctissimo! + +O novo livro de Trindade Coelho,--_Os meus amores_--contos e +balladas--editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, é, no +dizer dos entendidos em litteratura,--uma verdadeira joia.» + + +O Espozendense:--«_Os meus amores_ (contos e balladas) por Trindade +Coelho.--Faz parte este volume da interessantissima collecção Antonio +Maria Pereira, tão bem acceite do publico, pela superior escolha das +obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus preços. + +_Os meus amores_ é um precioso agrupamento de contos, alguns ineditos, +outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com applauso por +differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em plena aldeia +trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra, pois é natural de +Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos, delegado do procurador regio +n'uma cidade de provincia--os contos d'esta collecção tornam-se +sobretudo notaveis pela propriedade e pela fidelidade da acção, +verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da côr propria da paizagem, +vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens e das +cousas. + +Entre as nossas obras litterarias originaes, _Os meus amores_ merecem, +pois, um logar á parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de +Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam +pela litteratura nacional, mas como a poderosa affirmação de um prosador +elegante e de um contista distincto, no meio da grande maioria da chata +vulgaridade indigena. + +_Os meus amores_ é, em summa, um livro de valor, bem cabido nas mais +escolhidas bibliothecas.» + + +O Portuguez:--«_Os meus amores_.--Delicioso titulo de um livro +delicioso. + +O livro é uma collecção de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio +Maria Pereira; e o auctor é o nosso collega do _Portugal_, sr. Trindade +Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que é digno representante, +cultiva as lettras com desvelado amor. + +Em Coimbra, estudante ainda, era já litterato apreciado, collaborando, +com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que ha mais de dez +annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu título +de jornalista a invejavel nomeada de contista esmerado, e brinda as +lettras portuguezas com um volume, que está tendo a mais justa e +lisonjeira acolhida. + +O primeiro conto do livro, _Idylio rustico_, não obstante ser agora +publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque +appareceu manuscripto n'um concurso litterario da extinta _Associação +dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagração de um jury, terá +agora a consagração do publico. + +Depois do _Idylio rustico_, vem o _Sultão_, um quadro magnifico da vida +campesina, notavel de simplicidade e graça; e a _Ultima dadiva_; e os +_Preludios de festa_; e os _Typos da terra_; e as _Balladas_; e a +_Tragedia rustica_; e a _Mãe_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas +domesticas_: outros tantos primores, que ás vezes nos fazem lembrar as +deleitosas e serenas paizagens de Daudet. + +Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por +não haver ainda expirado entre nós a litteratura san, que, ou nos +desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas, não nos deixa no espirito +a impressão doentia das nevroses litterarias...» + + +Jornal da Manhã, Porto:--«_Os meus amores_.--Mais um volume acaba de ser +publicado da collecção Antonio Maria Pereira, por sem duvida a mais +elegante, a mais escolhida e a mais economica bibliotheca que se publica +em Portugal. + +É o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e +balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir todos os +seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos. + +Do primeiro ao ultimo, os contos que compõem _Os meus amores_ são +specimens no genero, porque, além de constituirem uma esplendida galeria +de quadros intimos, de retratos, de typos, são a confirmação d'uma +verdade já por nós ha muito acceite: que o seu auctor tem todos os +requisitos d'um escriptor de primeira ordem; estylista vibrante, +correcto e sempre elegante. + +E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em serios +embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua +leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que mostrar +predilecções por algum d'elles parece-nos que os melhores serão _A Mãe_ +e _Para a escola_, aquelle uma delicada e emocionante historia arrancada +flagrantemente á natureza, e este saudosas recordações d'um passado que +não volta. + +A edição, escusado é dizel-o, é nitidissima.» + + +O Tempo:--«_Os meus amores_.--Este livro teria vindo melhor nas noites +invernosas para serões ás lareiras crepítantes:--as faíscas d'ouro +subindo no tecto, o vento zenindo fóra açoitando a chuva, e dentro, no +conforto recolhido, gosar-se o contraste das paizagens alegrdas pelo +sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios e trinados d'aves, +paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delicia suave e +subtil d'illudidor ameno. Mas não se póde aconselhar o leitor a que se +prive de saboreal-o desde já, tanto mais que os tempos vão agoureiros +para a arte de manancial, e os que a cultívam teem de separar-se dos +estragadores d'Ella e das cabeças quasi vasias que expremem e segregam o +pus nauseabundo do sadismo mediocre. + +Estes estão agora entretendo o publico arrebanhado para saborear com +prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala--o vingador--ao +imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos auctores das _Pimentinhas_ +e _Berbigões Ardentes_. + +Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o +perfumador dos excrementicios e appareça em plena luz nas mesas e nas +familias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador +d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda á attenção um +artista recolhido que sabe ter força nos traços tenues e meias tintas +dos seus quadros, que capricha em suavisar idylicamente as dôres +vulgares da vida acceite, da materialidade animal, dourando-as com +recantos de natureza chilreante. Que me perdõem insistir na +impertínencia: mas, o que no livro mais particularisa o talento de quem +o assigna é a comprehensão das paizagens, o sabel-as colorir, animar, +pôl-as ante os olhos que lêem. + +As grandes dôres obscuras e sinceras, as brandas affeições, amisades +arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples +sustentados por ingenuas crenças s suavisada fé, tudo o que a aldeia tem +de ameno, d'attraente, de pittoresco, de consolador, os seus ridiculos +mesmo, vestindo atitudes de parodia em theatrinho de curiosos, tudo +reveste bem o sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom +humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reaes, bem apanhadas, como se +diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de ventaróla. O livro +encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o auctor encerrou por +annos a sua nostalgia--a peior de todas: nostalgia de +delegado!--apertando os vôos do seu espírito d'artista que ama pairar +com a fantasia para o longiquo, para o que se Imagina, para o Distante, +o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se +dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas +noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de +recordação e de saudade d'onde brotou o livro, escripto decerto nas +horas feriadas do trabalho arido, com a documentação da natureza que +vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se +compraz na arte libertadora. + +Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar +preferencia pessoal--e talvez peccadora--ao _Idylio rustico_, á _Ultima +dadiva_, á _Mãe_, ás _Batalhas domesticas_, que fecham o livro e deixam +entrever no auctor um desejo de animar os personagens tanto como anima a +natureza onde elles sentiram. Ha contos nos _Meus amores_ que fazem +lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da +patada epica do que fez _Créte-Rouge_ e _Ompdrailles_. + +O sr. Trindade Coelho é um escriptor tão distincto quanto aclarado pelo +jorro d'arte que vem de ha muito confundindo os convulsionarios do +talento; os serenos no desdem; os enthusiastas; o que, despindo o +metaphorico, quer significar que elle está em posição artistica onde +decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar attenção e +respeito.--_M. Caldas Cordeiro_.» + + +Antonio Maria, (com o retrato do auctor, desenho de Raphael +Bordallo):--«_Os meus amores_ por Trindade Coelho.--A livraria +portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede, na ultima +quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de +memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho, +com a amavel denominação de _Os meus amores_. + +Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... É originalissimo, +agradabilissimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar, +que usa o auctor d'este bello livro,--agradabilissimo contista, +escriptor originalissimo, cujo nome a bibliographia regista hoje, tão +notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara. + +A quem o lêr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas +horas muito bem passadas, passeadas por aquellas paizagens e recantos +provincianos que elle pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se +estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão +photographicos, tão nitidos, que é estar a gente a vêl-os, a ouvil-os, a +falar-lhes... + +--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!» + + +O Tempo:--«_Os meus amores_.--É como Trindade Coelho intitula a +collecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela +livraria do sr. Antonio Maria Pereira. + +Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de +Trindade Coelho, desde quando lhe lêmos as suas producções litterarias +n'um jornal de Coimbra, e que eram as primicias de trabalhos mais +primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo. + +O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira á ultima +pagina sem um momento de cansaço ou de fastio. O espirito do leitor +delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma singeleza +tão commovente, e que nos _Meus amores_ são descriptas n'uma forma em +que se revelam todas as qualidades d'um distincto e notavel escriptor. +Só póde apreciar bem o merito d'aquelles contos quem souber quanto +cuidado ha no labôr paciente do artista para conseguir dar ao estylo o +tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este genero de +pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos. + +Não nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contém preciosas +joias litterarias, e ao qual está, sem duvida, destinado um honroso +logar na nossa litteratura contemporanea.» + + +Correio Elvense:--«Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado +escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas que +deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de +Antonio Maria Pereira. + +Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da +capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa +de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que +tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto +estylista. + +Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor +que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus +triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons +e sinceros amigos. + +N'um dos proximos numeros fallaremos da impressão colhida em _Os meus +amores_.» + + +O Dia:--«_Os meus amores_.--Se fosse no seculo passado, os fazedores de +proemios, prologos e conversações preambulares com os pios leitores, á +falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo +aproveitariam a occasião para sobre o nome do auctor glozarem varios +elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e é ao mesmo tempo +um poeta sincero, um escriptor de raça, e um observador attento, +qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto nasceu uma +obra formosissima, animada de verdadeira commoção, sentida nas suas mais +pequenas minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista. + +A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta reunião +de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso, +copiando do natural, e em que os personagens foram surprehendidos nos +seus labores de cada dia ou nas suas intimas cogitações. + +Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na noticia d'este livro, +e por isso nos limitamos a recommendal-o como leitura attrahente, como +obra d'arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma egualdade +nem com o mesmo folego, como uma grande licção litteraria aos fazedores +de naturalismo brutal. + +Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para +que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo meio o +magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos provar +que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não +prejudica a indole do escripior.» + + +Novidades,(entrevista com João de Deus ácerca dos +_novos_):--«_Litteratura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos, +porque não leio jornaes, e não os leio porque os litterarios occupam-se +na propaganda da immoralidade, e os politicos na propaganda do suicidio, +e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os engeitados da +fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte, as agruras da +sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre joga os trinta +réis de tres quartos d'um pão. + +Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira +alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que elle dispa a toga, +que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha +muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem +lh'o ler. + +--Li já todo o livro. + +--E depois, meu amigo, nós andavamos precisados d'uma coisa casta, onde +fossemos purificar o espirito d'essas taes observações physiologicas, e +não sei que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O livro do +Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem +definir-lhe. Olhe: alli está aquelle quadro, em que os traços são +correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma +bella cabeça de rapariga, a physionomia dôce, o olhar abstracto: este +tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus +por ter graça. A graça na litteratura é tudo, mas é muito rara.» + + +Novidades:--«_Novellas rusticas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_ +(contos e balladas.)--Lisboa, livraria de Antonio Maria Pereira--1891. + +No seu penultimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse +sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas +as doutrinas axiomaticas da critica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs +pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que +seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les +gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou +mauvais.» + +O conto moderno é como o romance, essencialmente analytico e +psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a +apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma +humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi +invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixões e todas as +energias depravadas do coração. A arte do sr. Trindade Coelho é muito +differente d'isso, porém. O seu idylico livro de contos e balladas, +aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da +paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples, colhidos com +intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem, +decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta +actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros +dos escriptores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao +emprehender a leitura dos _Meus amores_, duzentas paginas suaves e +simples, sem pedantescas pretenções a passarem como tratado didactico de +psychologia. + +Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e que +as suas figuras só serviam para dar expressão e vida á paizagem. + +O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a sensação visual +particularmente desenvolvida, e as suas descripções são tambem, como as +do auctor das _Pupillas do sr. Reitor_, magicamente poetisadas, como que +apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade. +Chega-se ás vezes a ter a illusão de que o artista está alli, paginas a +dentro do seu livro, fazendo reviver no pensamento a alacre impressão +das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal, +cuja lembrança, elle conserva sempre viva, como nos versos de Salvador +Rueda: + +Por donde voy me sigue como memoria tierna +tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar; +¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna +el coro que tus árboles entonan á la mar! + +Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manhã aldeã, +quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horisonte: + +A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim, +e o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o ceu em +cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam +despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de +perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena, +tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de +azas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede +á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em +reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convísinhos onde a vegetação +era mais rica de seivas e mais facil a presa dos insectos, perdizes +gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos +vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas +de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos, viam-se +os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e +berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas +povoações proximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a +Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os tectos, dizendo horas de +almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no ceu +immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza accordada +para a labuta interminavel do dia.» + + +«No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr. Paulhan sobre a +descripção pittoresca, então habilmente apreciados os elementos +constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na +qualidade e na intensidade. + +«Chama-se imaginação sensivel», diz o distincto observador, «o acto pelo +qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação, +como tem sido ha bastante tempo notada, não é,--principalmente se +considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma copia +enfraquecida d'uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar +um momento, um quadro, uma estatua, qualquer coisa que imagino, se as +minhas recordações são bastante nitidas, é uma especie de copia +enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o +quadro ou a estatua. A imaginação, tomada até no sentido restricto que +lhe damos aqui, varia muito d'uma pessoa para outra, quer em +intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas teem as +imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais +concretas; em uma palavra, as suas imagens approximam-se muito da +sensação; outras, pelo contrario, são inclinadas para as idéas +abstractas e teem necessidade d'um esforço para se representarem as +sensações d'uma maneira um pouco nitidas. Tem-se reparado que a visão +mental, nitidissima em geral nas creanças e nas mulheres, torna-se muito +fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas sobretudo de +ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual. +Eis uma pequena experiencia indicada por Wundt, que, mostrando as +analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo tambem as +differenças individuaes com relação á intensidade com que a imagem +concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo +n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma superficie parda, +vemos uma mancha corada da côr complementar da primeira. Se o objecto +era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul +indigo, a mancha será amarella, etc. Ora é possivel, mas isto não +succede a toda a gente, perceber esta côr complementar não só depois de +ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter +imaginado. Póde-se, por exemplo, pensar n'uma cruz vermelha: lançando em +seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se ha +uma boa imaginação visual.» + +«Essa imaginação parece tel-a o sr. Trindade Coelho. A vivacidade, +tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descriptivo, +que nos dá conjunctamente a impressão da forma, da côr, do som, e até ás +vezes do aroma, representa um phenomeno especial de evocação +sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois d'esse, a +intima satisfação que faz aflorar, aos labios do leitor inteligente, um +sorriso de doce commoção, a cada singelo episodio das suas narrativas, +todas frescas e sadias, e cujo menor merito não é, decerto, o de serem +escriptas n'uma linguagem airosa e despreoccupada, mas tersa e +legitimamente portugueza. + +O livro do sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas analyses +introspectivas, o papel da critica perante _Os meus amores_ é bem facil, +porque ella deve quasi cingir-se á affirmação do seu applauso +incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escriptor, o que +póde muito bem representar uma livre depravação de gosto. + +Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel +recordação, para a oxygenada, a leitura d'essas bellas novellas +rusticas, todas impregnadas d'uma ideal graça campesina, tilintando d'um +ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre +margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha +sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o livro e o +caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.» + + +Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder d'observação e uma enorme justeza +d'expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes qualidades +litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de +verdadeiro artista, aberta á comprehensão ampla da natureza, e fundindo +os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um conjuncto nitido que se +desata em descripções opulentas de vida e de calor, fulgurantes +d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o melhor crystal de +Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias +possantes que prendem o espirito mais inculto e o obrigam, alli, a fixar +e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar. + +E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que +compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o +delicado sentir do auctor transmittiu a cada scena onde o coração tem +parte, ou seja o coração de qualquer d'aquelles dois pequenos do _Idylio +rustico_, ou o da _Russa_, a bella cabra que no meio de mil angustias de +mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a elle proprio, +a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida, +vejam o affecto que irradia d'aquelle _Para a escola_, quando falla da +velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras. + +Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das descripções +naturaes, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um +pedaço caricaturando uns typos com tanta sobriedade de _charge_ que mais +nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da +villoria da _Comedia na provincia_, que entreteem a tarde na praça a +dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos habitos. +E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes, aquella _Vespera +da festa_ exemplifica vantajosamente o que elle sabe fazer. + +No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das _Batalhas +domesticas_, onde me pareceu descobrir uma novissima orientação do +auctor, inspirada porventura n'uma atmosphera densa d'innovações que vae +por ahi. Claro que o seu talento adapta-se mais essa fórma com a +malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a +caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos +escriptos, não a sacrificaria a coisa alguma. + +O que o livro é, em summa, é um conjuncto de bellezas que tem sido +largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e oxalá seja apenas a +promessa de muitos outros, que pennas como aquella não devem +calotear-nos na contribuição que nos devem. + +--Mas,--perguntou-me um dia d'estes alguem--porque _Os meus amores_, e +não qualquer outro titulo? + +Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao +livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que +lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de rapaz que nenhuma +lama d'este mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.» + + +Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e balladas por +Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca +mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns +contos singelos, attrahentes, delicadissimos, admiraveis de observação e +de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admiravel simplicidade de +colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade! + +Uma bella obra d'arte e uma altiva lição. + +Alli está como se póde chegar ao naturalismo na litteratura, sem +estropear a lingua e sem chegar ás torpezas da pornographia. Para +attrahir, para ser original, para impôr a supremacia do seu talento, +para conquistar o applauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não +precisou de escrever extravagancias, nem de escalavrar pustulas, nem de +escancarar bordeis. + +Ahí fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar d'elle, se o +tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu auctor.» + + +Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias d'intervallo as +lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de livraria. + +Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de analyse, de profunda +observação, resentida do exaggero do naturalismo e do caracter quasi +scientifico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem +ser exclusivamente litterarios, mas que, não obstante este pequeno +senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel +Botelho creára com os seus livros anteriores, a critica tem de render +respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo como aquelle +e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu espirito, +pela sua notavel orientação litteraria e pelo esplendor de fórma que +caracteriza todos os seus escriptos, mesmo os mais despreoccupadamente +feitos. + +Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traçar estas linhas. +Momentos como este são mesmo os unicos oasis em que se reconfortam os +que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina +improductiva e ingloria do jornal. + +Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem +intimas relações de confraternidade e sympathia e ao ter de formular o +meu juizo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e +applauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo d'um +sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira d'uma +admiração justamente sentida, solidamente baseada. + +O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo +corresponde ao encanto d'este titulo. + +Com que saudade li as ultimas paginas! + +Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer +que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar a naturalidade +das descripções, a limpidez e o crystallino do estylo emocionante e +simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais +diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio, +até á recordação saudosa e terna que o auctor sente do primeiro dia em +que entrou na aula d'instrução primaria da sua modesta aldeia. + +Dando a impressão singela e despretenciosa que me cansaram _Os meus +amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos +pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na +epoca actual quando os vicios da sociedade e a decadencia dos nossos +dias nos gravam no espirito, a cada hora, um carimbo de desanimo e +descrença, quando a litteratura, obedecendo á vertigem mais do que +nervosa, allucinada, que caracterisa o _fin de siècle_, cria as escolas +mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em +apedrejar as normas mais impeccaveis e até agora consagradas da arte, e +em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras +e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo, +desannuvia-se o espirito ao vêr que ainda ha alguem, a quem sobeja +talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa sã, eminentemente +sentida, deliciando-se na descripção das scenas mais simples e tocantes, +na apotheose da natureza em toda a sua magnificencia e no convívio da +vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das +convenções e pretenciosidades que dão um tom falso e mentido aos +sentimentos da sociedade em que vivemos. + +Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um +dos contos e balladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este +proposito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto +amor o escreveu. Ao contrario, sinto que não posso, a não transformar +este artigo n'um hymno laudatorio, referir-me especialmente a cada um +d'aquelles contos e balladas. Mais do que este motivo domina-me o de não +poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo. + +Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as +haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em differentes +jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso estylista dos +_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalisticos, já na bohemia coimbrã, +já em pequenas folhas de provincia e ultimamente nos jornaes da capital, +trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a correcção que nunca +abandonam os verdadeiros artistas. + +Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formára a opinião de que +elle se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de +Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no meu parecer, são, em +Portugal, os mais distinctos escriptores contemporaneos d'este genero, +na apparencia tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difficil, a que +se denomina: _Contos_. + +A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada. + +Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos _typos_, pela naturalidade +do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria sem o minimo +esforço a todas as impressões que pretende transmittir, o auctor dos +_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do genero de +litteratura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na +amizade a opinião dos que, não obstante elle terçar agora quasi as +primeiras armas, o consideram já como um escriptor distinctissimo e n'um +futuro muito proximo um mestre consagrado. + +O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim +desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado ás +bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com uma riqueza +oriental. + +Não obstante o meu proposito de não me referir nomeadamente a nenhum dos +pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que +me causou a _Ultima dadiva_, um primor de sentimento, uma pagina emotiva +arrancada em flagrante a uma das scenas em que tão variadamente se +divide a tragedia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_, +onde passa um folego de epopeia, em que o estylo attinge alturas quasi +desconhecidas, casando se com uma verdade admiravel a grandiosa ideia em +que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura +cada um de nos sente accordar uma recordação muito querida de infancia +descuidada e alegre, e por ultimo: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho +ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo tão malleavel e +tão justo. + +Além d'estes contos, que especialmente destaco pela admiração que me +inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Preludios de +festa_ e _Typos da terra_. + +Quem escreveu os _Preludios de festa_ e especialmente os _Typos da +terra_, é porque estudou com muita attenção, com muito cuidado, os +personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras +pequenas. São typos tirados do natural, com uma perfeição photographica +em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na +descripção da natureza nos seus mais variados aspectos. + +Por ultimo, e para não se dizer que eu n'este paiz de má lingua realisei +o cumulo de escrever um artigo só de palavras encomiasticas e sem a +minima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_, +lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas paginas d'um estylo +formosissimo n'um assumpto que sem duvida é verdadeiro, mas que não +commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a minima +impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus +recursos d'estylista, não precisava realmente do _Sultão_. + +O livro faz parte da edição mensal d'obras portuguezas, editada por +Antonio Maria Pereira, um trabalhador incansavel a quem as lettras +portuguezas devem assignalados serviços. + +Está impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado e esmero a +que nem sempre estamos habituados. + +Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos +para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas á +semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos +como este, para honra do seu nome de escriptor já tão justamente +laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do seu livro, archivando a +dedicatoria que elle contem como nova prova d'uma amisade a que somos +profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço +Cayola_.» + + +Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Collecção +Antonio Maria Pereira_, que sob aquelle titulo contém alguns contos do +apreciado contista Trindade Coelho. + +Pela rapida leitura de dois d'elles--_O Sultão_ e _Typos da terra_, +parece nos que a collecção é estimavel, e que os contos são joias de +grande preço da nossa litteratura, pela linguagem pura genuínamente +portugueza, e pela graça da contextura originalissima, nacional, sem +laivos d'imitação estrangeira, em que se pintam scenas e episodios, +cheios de verdade e de encantadoras descripções, da vida portugueza nas +provincias.» + + +O Seculo:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de +contos, editado pela casa editorial do Antonio Maria Pereira, a +publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso +meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no fundo, +sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de não ser +rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem--diga-se a verdade. + +Parece uma contradicção; mas não é. Se o nosso bom publico fosse dado a +esbanjamentos de emoção artistica, não o sobresaltaria tanto a +pessoalidade, e o imprevisto. + +O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado +severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de +lettras, nas suas horas de remanso. + +É só, porém, como homem de lettras, que nos compete em tal logar +aquilatar-lhe a esthésia, e as faculdades de emoção, ou de attenção +artistica. + +Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A fórma +adapta-se perfeitamento ao fundo, e é sempre fluente, vernacula, +concisa, e precisa. É sóbrio no descriptivo, e não raras vezes +enternece. Não commette a velharia de desenterrar obsoletos termos +classicos, sem incisão, sem propriedade, e sem côr, muito parecidos com +o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portuguezes, nem +onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto. Nem perpetra tambem o +mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na +linguagem patria instrumentos magnificos d'expressão. Sabe a sua lingua, +como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais +completa, e mais delicada da prosa, e tambem a mais transcendente e +lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado interpetre. Os contos +_Sultão_, _Maricas_, _Typos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a +escola_, não contam muitos rivaes na lingua portugueza nem nas +estranhas. + +O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de +centenas de romances em seiscentos volumes já ninguem rememorar o titulo +sequer.--_Gomes Leal_.» + + +Revista Illustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que +deliciosa impressão me deixou aquelle livro, tão adoravelmente simples e +sentido! + +Antes, porém, de começar a analysar, conto por conto, esse fino trabalho +de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão +porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de nome conheço só. + +Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre, +notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito, +distincto em todos os exames. + +Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de +que--o delegado de Portalegre--era um excellente rapaz. + +E digo rapaz, porque todos nós temos o habito de considerar sempre muito +novos aquelles que são da nossa edade... Depois, graças a uma amiga +minha, escriptora de grande talento soube que Trindade Coalho era um +grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admiração +enthsiasta que elle descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que +fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição +publical-as! + +Traduzia elle então o «Pescador de Islandia»; tradução esplendida que a +_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para elle era +já uma suggestão, aquelle trabalho primoroso. + +E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a +Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente alguem se comprazia +em querer negar ao academico gentil. + +Em seguida li uma suavissima elegia escripta á memoria de Antonio +Fogaça--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia duzia de palavras +cortadas por soluços:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!... + +Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os +jornaes annunciaram que elle arrancára um preso á cadeia de Portalegre. +Um preso que era um innocente, e que, como tantos outros, estava +condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam tambem +o effusivo telegramma em que Trindade Coelho agradecia ao nosso +magnanimo rei o seu perdão. + +E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem põe a +lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu coração ao serviço da +humanidade que soffre... + +O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha +alma. + +Eu só fixo o nome dos bons. + +E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe d'aquelle homem! Os +filhos herdam, geralmente, o coração das mães... + + * * * * * + +Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lêr. Pedi-o +rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego. + +Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz +Osorio--uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos +filigranados e vibrantes... + +Segue se o _Idylio rustico_--um amor--atravez do qual nós vêmos subir +lentamente a estrella d'alva que illuminava, coando a sua dôce luz pelo +colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da +outra... + +Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o +Thomé nos communica a sua alegria contagiosa levada á loucura com a +volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros! + +A _Ultima dadiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma +sepultura onde lhe ficára preso o coração para sahir de lá no dia em que +teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o +Brazil. + +A _Comedia da provincia_, magnifica de côr local. Magnífica, +principalmente para quem conhece typos semelhantes e já tem visto a +_Morgadinha de Valflôr_--essa perola!--representada pelo Marques do +correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valôr a esse esplendido +estudo de costumes provincianos. + +_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada... +_Maricas_, uma adoravel poesia escripta em prosa. _Para a escola_, um +beijo de gratidão de uma singelesa adoravel. _Tragedia rustica_, um +vibrantissimo estudo das miserias humanas. + +_Abyssus abyssum_, o agonisar de dois anjos, sob o olhar de uma +estrella... _Mãe_, a flôr mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas +as mães que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos... +E, finalmente, as _Batalhas domesticas_. + +Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho, +que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro +honesto, que não fatiga os homens nem faz córar as mulheres. Por isso +aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.» + + +Portugal:--«_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilísissimo livro +_Os meus amores_, do nosso querido amigo e illustre confrade, Trindade +Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais +legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais carinhoso triumpho. + +Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no +trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos +que na caça de sensações e effeitos novos hoje pavorosamente +desarticulam o _meio_ litterario europeu, tem uma força de restringir-se +a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquilla, a +melodia emocionante, ingenua e simples do viver aldeão; e que por entre +o estridulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasphemias, dôres, +gemidos, que doloridamente rebôam pelas soturnas naves d'este immenso +hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar, +enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira +nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do coração. + +Bem haja. + +Do côro unisono de quasi incondicional applauso com que a imprensa tem +celebrado a apparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnifico +artigo do _Correio Elvense_, devido à penna d'um dos mais lucidos e +impetuosos engenhos da novissima geração.» (_Seguia-se a transcripção_.) + + +Diario Illustrado:--«_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade +Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espirito á proporção que +envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram ás vezes de ouvir +os velhos, e parece-me que teem razão, porque nem sempre o são juizo de +uma experiencia larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo +circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com +singular scepticismo, este meu seculo, que está no fim, e com elle tenho +vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias litterarias, +revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de estylo, +arrancou-se o chiró ás velhas phrases, e todo um mundo novo, +extravagante e phantastico tem surgido,--mau grado as furias rabídas de +escriptores paleontologicos, apparafusados á Arte e á Critica de ha 50 +annos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu +seculo tem-me custado amarguras aterrantes, desequilibrios de espirito e +um desfolhar de verdes illusões, que eu tenho visto irem-me fugindo n'um +_marche-marche_ triumphal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca +mais voltarem!... + +A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica, dá-me a +impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida +real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo ao pedaço de chumbo de uma +capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas; Julio Machado, +de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do +filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros, +bom Deus! Dir-se-hia que uma _má sina_ persegue os homens de +lettras:--quando não é a navalha de barba, é o rewolver, é a consumpção, +é a tisica, é o retrahimento amargo, é o abandono proprio e alheio! Por +isso o meu visinho Gervasio todo se ufana, com certo profundo bom senso +pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um _artista_ +pintor--de portas, e de fóra de portas... + +Na _troupe_ de escriptores em flôr do meu tempo,--parece-me que já lá +vão 30 annos, e tudo isto é apenas de hontem!--havia, joeirados com +singular amor de arte pura, uma duzia de rapazes de incontestavel valor +litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e +revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos, +miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de +rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam +triumphantes,--poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da +vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que é quasi o mesmo, +deram-se a callejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos +incipientes, nas minas de oiro e de ferro da lucta pela vida. Dos +_felizes_, dos que triumpharam,--como quem diz, dos vencidos da +vida,--me sorria eu ás vezes em horas de bom humor, lembrando-me como +elles com um livro de versos foram nomeados consules; com um tratado +sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por +acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com +uma critica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliothecarios +das bellas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos _perdidos_ +pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os philisteus do +Pará, applicando-lhes aos figados hypertrophicos a vermelha caudal da +sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em Paris pelo +alçapão macabro da _correspondencia_ barata; Gualdino Gomes anda ahi +amparando o seu rheumatismo a uma certa _maneira_ de má lingua e a uma +bengala de canna; Leopoldino Gonçalves viaja como medico da armada; e +Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alemtejo, +onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e apparece ás vezes +nedio, côr de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tedio os copinhos de +cognac do _Leão_... + +De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias côr de rosa, o que me +traz mais doces recordações é Trindade Coelho,--porque eu ligara á minha +a alma d'elle, n'um tempo em que dos salgueiraes de Coimbra elle me +fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas chronicas +soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de affirmações de uma +personalidade litteraria. A sua prosa, a um tempo humana e lyrica, +dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como +sabem, além de bachareis anonymos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É +da tradição universitaria, fazerem os doutores as suas primeiras armas +de litteratos e de poetas, na academia, a intervallos do pesado estudo +do Lobão e do direito publico, esvurmado ás cavalleiras do nariz de +Pedro Penedo... Toda a nossa legião distinctissima de poetas e +prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia +coimbrã:--Theophilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Anthero, etc. É a +affirmação do bom Antonio Ferreira feita axioma: + + _Não fazem mal as musas aos doutoures_. + +E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquerir a Junqueiro das bellezas do +Codigo Civil, meio metaphysicamente original e meio copiado dos codigos +de Napoleão! Ah, mas em compensação que appareça ahi o primeiro advogado +a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em ferias_! + +Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descripções n'uma +bella prosa colorida e transparente, trechos de psychologia trasmontana, +e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_ +do proceder litterario d'este escriptor é deliciosa de côr e de verdade, +sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem deslumbramentos de imagens na +apparencia côr de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios +ingenuos dos cordões de latão... Tem-se chegado ahi, no abuso da +originalidade do estylo, a fazer uma prosa estrelicada, engommada, +cabellinho á banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O +burguez já conhece os processos da _chinoiserie_, e d'ahi não ha +espantal-o com nephelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe +elle que debaixo d'essas bellezas está a oleographia reles de porta de +escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota +a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em +Alcantara... + +O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho, +feito com honestidade e sem as preoccupações deploraveis que levam os +corypheus da escola modernissima, mais que zolaista, á descripção e +estudo de pathologias e casos sporadicos, ou não vivos, ou pouco +vívidos. Este livro á quasi um parenthesis aberto como uma clareira +consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos trabalhos +apparecidos, do _sujet_ de um dos quaes, que é em todo o caso a +monographia de um caracter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_ +dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_... + +A feição litteraria de Trindade Coelho parece-me que se define na parte +do livro sub-titulada _Balladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma +duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma +elegia... tragica, _encadrée_ n'uma linguagem côr de opala, em que a +gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma +obra prima. Assim a _Tragedia rustica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco +eu os _Preludios de festa_, _Idylio rustico_, os _Typos da terra_, onde +ha paginas soberbamente observadas, suggestivas, _d'après nature_. +Magnifico o assasino _José Gaio_. + +Trindade Coelho é inquestionavelmente um lyrico. E nem eu sei como elle +chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de +Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os +diccionarios de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista +encantador... sossobrado!--_Ignacio da Silva_.» + + +Nova Alvorada:--«_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe você, amigo Trindade, +que as palavras affectuosas que me endereçou no offerecimento do seu +livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espirito um mundo de +saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsamicas d'uma +quadra primaveril que não volta mais--a vida coimbrã? + +Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa +mas robusta, as _suas feições masculas e energicas_, e a sua _allure_ um +pouco receiosa ao dobrar a soleira da legendaria Porta Ferrea. + +Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de +grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando á direita e á +esquerda, entrou você nos _Geraes_ resignado a um diluvio de troças, +martyrios, horrores... + +Os segundannistas, de cuja respeitavel corporação eu fazia +orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não +encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a d'um Armelim, nem um +rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom Raphael do +Ranhados. + +Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados! + +Em uma medalha d'oiro que você trazia, á guiza de berloque, na corrente! + +O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escandalo_, de forma que a +tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato. + +Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com accentuações de academico +fallado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua +individualidade a destacar-se, como se fôra um _urso_. E assim se +fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feijó por causa dos versos, +do Passaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel +Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades +pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti. + +Você desencubou o seu nome, pol-o em evidencia--o Trindade--, mas foi por +causa d'um excellente resumo das lições de direito romano, d'um bello +discurso no centenario pombalino, e sobretudo das suas graciosas +chronicas no _Diario Illustrado_. + +Ah! e lembra-se você d'aquelle anno em que formámos «republica» na rua +da Trindade, tendo por creada a sr.^a Maria de qualquer coisa, que +denominavamos a _Gorda_, matrona muito caroavel e de enxundiosas formas? + +Eramos uns poucos: + +O Souza, que já tem o galão branco dos tribunaes administrativos, +espirito facil, perspicaz e alegre, nada para massadas, que tinha +orientações definidas em politica partidaria e expedientes reservados de +galopim graúdo contra os progressistas da Barca. + +O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o +evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiunculas com aquelle por +causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e jogador +de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente dos +theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada pela +_Gorda_ n'um cantinho do fogão. + +E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe +chamavamos o Pêgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario plano, +rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito +desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe diziamos que elle +se applicava... 25 horas por dia! + +Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto _sournois_, olhos á bufo, que +não fallava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e +contumaz! + +Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje +conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas, +muito guitarrista e risonho, se bem que intelligente e applicado. + +Eramos mais--você e eu. Você que se mettia muito com a litteratura, +fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por signal +dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas de +feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo +condescendia em o acompanhar na guitarra. + +Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais +tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribanaes de Lisboa e +eu no berço da monarchia. + +Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus +bellos contos em um elefante volume--_Os meus amores_. + +E bellos na verdade, como todos dizem. + +A _Mãe_, aquella cruciante tragedia da pobre _Russa_, morta de terror e +de amor, é para mim o mais apreciavel e sentido conto da sua collecção. + +Costuma-se dizer d'uma mãe descaroavel, d'uma Francisca Fortunata--é uma +cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando +as calumniadas affeições dos pobres ruminantes. + +Quem ler as angustias da misera _Russa_, na espectactiva do filhito +devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituirá áquelle +inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a natural comprehensão +das suas obrigações de mãe e protectora. + +E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra. +Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal +qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella producção +vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_. + +Nos restantes contos, entre os quaes me não agradaram menos _V[ae] +Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da +sua educada phantasia, moderada por um largo peculio de observação; a +sua poderosa intuição artistica; o seu dialogo curto, vibrante e +natural; o seu estylo já caracteristico pela feição franca, _saccadèe_, +de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos; +a verdade das suas descripções e pinturas, que, ao contrario de muitos, +não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, n'uma +pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa +similhante. + +Olhe, amigo. Eu careço de geito para a critica litteraria; mas, emquanto +me é licito exprimir a minha humilima opinião, dir-lhe-hei que você +alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de litterato +distincto e de contista precioso; e que este conceito é merecido, +attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua elegante +brochura recem-editada. + +Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua +fineza com um abraço de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.» + + +Nova Alvorada:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a +offerenda do novo livro de Trindade Coelho,--o sympathico e distincto +escriptor que de ha tempos se vae honrosamente evidenciando no certamen +das lettras patrias, onde já agora a sua individualidade tem uma +reputação firmada. + +_Os meus amores_ é o titulo que o sr. Trindade Coelho escolheu para o +seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama, segundo cremos, +não é porque estas 200 paginas sejam um auto-historiographico dos +idylios romanescos do auctor, n'quella aurea quadra da sua vida +academica, ou um repositorio de alheias aventuras amorosas com +acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario. + +Não. A razão do titulo parece-nos antes proceder da affectividade +psychologica do auctor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto +com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz: + +_Folhas dispersas dos meus annos de oiro, +Vivo enxame das minhas alvoradas, +Tenho zelos de vós, folhas sagradas, +As Desdemonas sois de um outro moiro_. + +Se não fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade do +aphorismo--o habito não faz o monge--, porque o _Idylio rustico_, com que +abre esta bella collecção de contos, não seria bastante para justificar +o titulo sob que se enfeixam. + +Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e a +tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se que +se ha na urdidura dos varios contos muitas situações que nos pintam o +ridiculo, a desgraça ou o crime, poucas ha, entretanto, que nos prendam +o espirito ao devaneio piégas d'um Romeu e d'uma Julieta. + +Mas, ou bem ou mal baptisado, o que é consoladoramente verdadeiro é que +os contos do sr. Trindade Coelho constituem uma das mais bellas +collecções que no genero conhecemos. + +Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores +preceitos da arte. + +Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das +situações e dos dialogos. + +Uns assumptos de felicissíma escolha, a reproduzirem fielmente costumes, +a pôr em jogo com a maior verdade os vicios e as virtudes do povo. + +Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade +Coelho são a fiel expressão da vida rustica do nosso povo, e facil é de +comprehender a importancia moral que estes livros terão quando as +gerações que nos succedam queiram inventariar nas suas tradições o modo +de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, n'este +periodo historico em que vamos. + +Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside +como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade +inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a toda a +prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na narração e nos +personagens. + +E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de François Copée e +Theodore de Bauville, a artistica encenação que, sem desvirtuar-lhe a +naturalidade da fórma e do fundo, lhes imprime o attractivo romanesco +que falla à imaginação do leitor. + +O _Idylio rustico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa, +e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora. + +A _Ultima dadiva_ é a expressão fiel de muitas scenas que a emigração +multiplica cruelmente pelas nossas provincias do norte. + +A acção d'este conto é conduzida com uma tal uncção de sentimentalidade, +que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a commoções, se poderá +esquivar a partilhal-a. + +O conto--_Typos da terra_ é a descripção fiel, fidelissima, da mesquinha +intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de +provincia. + +_Os Preludios de festa_ são de um comico admiravel; _Maricas_ é de um +sentimentalismo commovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade +edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragedia Rustica_, tudo, tudo n'este +livro é bom, e de util e agradabilissima leitura. + +A forma--já o dissemos--é correctamente vernacula e elegantemente +rendilhada. + +A titulo de amostra, para aqui trasladámos do conto--_Sultão_--este +bello _croquis_ de uma tarde de agosto: + +«Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as arestas dos +montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as +suaves e brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos +vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, +destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de +listrões de uma coloração leve de laranja. + +Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e +além, alegremente, a monotonia profunda do azul.» + +E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra á altura da boa reputação +do auctor. + +A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu illustre collega +por tão brilhante producção, e d'aqui lhe envia um cordealissimo aperto +de mão.» + + +A Independencia:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro +de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações, +modestamente, apenas com a consciencia tranquilla de quem escreve bem e +com criterio,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume, +que acaba de dar á estampa, algumas producções litterarias que a sua +vida de jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de +revistas e diarios. + +Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogeneo o que se nos +offerece para apreciar: são pequenas joias litterarias, buriladas por +mão de artista e d'um fino sabor de naturalismo. + +Considerado assim, sem dependencia de escola e confrontação de +originaes, o livro é bom. + +As suas descripções são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se +acostumou, desde creança, a ler muita e a adivinhar mais na biblia +riquissima e inexhaurivel da Natureza. + +Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as +tintas proprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os +olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos outros, deixam-nos +uma impressão agradavel de realismo, e alta comprehensão. São typos +exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que +enjoam. Antonio Fagote é um especimen do juiz de festa das nossas +aldeias, basofão e vingativo, prompto, olá! a gastar as ultimas moedas +da venda do ultimo gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e +a deliciosa ballada _Mãe_ é uma preciosidade litteraria, magnificamente +pensada escripta, digna da penna dos nossos primeiros escriptores. + +Não encomíamos, pois, o valor do livro, dizendo que elle é digno de +figurar ao pé das mais bellas producções dos nossos escriptores mais +consagrados.» + + +Correio de Portalegre:--«_Os meus amores_, contos e balladas por +Trindade Coelho. + +Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois não? + +Eu creio bem isso, porque a verdade é que apezar da celeuma que Trindade +Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento algumas +antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os senhores +jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. É por isso que escolhemos +para encetar esta secção a producção brilhante do distincto litterato, +editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor +escrupulosissimo. + +Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a +attenção do nosso cerebro, á contemplação da nossa alma; e essa leitura, +feita n'umas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me +d'_Os meus amores_ a agradabilissima impressão d'uma caricia, que +persiste a sorrir consoladora. + +Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Commercio_ e da +_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejavel de dar á ideia,--algumas +vezes injusta, dirão alguns,--a mais correcta fórma, iriada sempre da +limpidez mais viva; e isso, n'um trabalho feito agora para apparecer +amanhã, à pressa sempre, n'uma fugida aos calhamaços manuscriptos que +demandam a sua attenção de magistrado, e em que o periodo mais +suggestivo é o do _Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo_. + +É-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do auctor desbasta, +romodela, lima, muito tranquillamente, muito socegadamente, sob a +vigilante direcção do seu delicado gosto artistico. + +_Os meus amores_ teem poesia, e teem verdade; e na maioria dos seus +differentes quadros, adoravel descripção das scenas simples da vida do +campo, da natureza singellamente formosa, o sentimento vibra +intensissimo, e é encantadora a phrase, que um conhecimento profundo +dictou, de que uma subtil observação resáe. Ha alli retratos d'um brilho +sem limite, _typos_ que resumem um estudo fidelissimo. + +É um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa embaraçadissimo, se +queremos escolher alguma,--tão valiosas são todas. + +Todavia,--e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,--_V[ae] +victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estylo, _Para a +escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de +creança, e os admiraveis contos de fina graça e tão verdadeiros, +_Preludios de festa_ e _Typos da terra_, são os meus eleitos, depois +d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre tantos quadros da +perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ captivam tambem a +minha admiração. + +O livro é, como todos os sahidos na _Collecção Antonio Maria Pereira_, +esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em +percalina. + +N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'_Os meus +amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradavel como +sinceramente.» + + +O Nordeste:--«Editado pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, em +volume d'impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado +o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pôr em +relevo as complexas e brilhantissimas qualidades litterarias do auctor, +um _novo_ que já hoje occupa, por direitos justamente adquiridos, um +logar proeminente entre os nossos melhores escriptores. + +_Os meus amores_ teem obtido na imprensa do paiz uma acolhida +enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso +conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos +leitores do _Nordeste_ não dessemos conta da apparição d'esse livro, +juntando ao côro unisono d'applausos as nossas sinceras saudações. + +Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses +contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro +primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a +espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas +historias aldeãs, d'uma simplicidade campesina, repassadas por vezes +d'um sentimentalismo suave, lyrico... + +A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima sympathia, um affecto +antigo e vehemente, seguindo com interesse quaesquer particularidades da +sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem +glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado +intelligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do +procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lêr o seu livro, +e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio nol-o +trouxe. E, agradabilíssima coincidencia! succedeu-nos deparar com o +conto _Para a escola_, quadro tocantissimo que marca distinctamente os +dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a altura em que entra +na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial, +de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com +as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de +continuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e caracter +diamantino. + +Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio, +deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o +confessâmos...--de lagrimas espontaneas nos marejarem os olhos, tão +enternecedoras são essas paginas que evocam em nós as reminiscencias +queridas d'um passado que não volta, e no espirito nos reproduzem, com +uma precisão photographica, completa, scenas eguaes da nossa infancia, +como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lêl-as +e sentil-as... + +Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente, +que _devorámos_ o livro, onde o auctor, n'um esbanjamento prodigo de +verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras narrativas, +descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e rhythmica, +apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em flagrante, _d'après +nature_, com uma extraordinaria lucidez d'observação, e um outro _caso_ +humano trasladado para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente +artista, e que são uma eloquente affirmação da distincta personalidade +de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados +cultores da prosa portugueza. + +Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve +noticia a uma critica a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar +todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as +impressões que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso caloroso para +todo o livro, sem predilecções por este ou por aquelle conto; e d'aqui, +d'esta columna de modesto jornal de provincia, enviamos ao nosso +queridissimo Trindade Coelho, n'uma effusão d'acrisolada estima, com um +aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não +deixe de ser um cultor assiduo da litteratura nacional, e continue a +honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons +livros.--_José Pessanha_.» + + +Da Revista do Minho:--«_Os meus amores_.--Poucos livros terão vindo á +luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplendidos como aquelle +cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as suas paginas +se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e +estimavel debaixo de todos os pontos de vista. + +Este volume pertence á formosissima collecção Antonio Maria Pereira, e é +devido á brilhantissima penna de um dos nossos mais festejados +escriptores--Trindade Coelho. + +Não precisâmos alongar-nos em chamar a attenção do publico para esta +obra, pois é ella sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons +livros.» + + +Revista Illustrada:--«_Os meus amores_.--Ha tempo,--não ha +muito,--começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando, +umas cartas de provincia,--_Cartas alemtejanas_, nos parece,--assignadas +pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a +primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com +verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de apparecer +de todo. + +Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada +jubilosa e cantante de um bom escriptor. Trindade Coelho entrava nas +lettras portuguezas pela porta aurea dos victoriosos, apresentando +natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira n'uma só +peça o seu talento alliado com a sua observação e o seu estudo, sem +esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que +avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamellas de +apaniguados e sequazes. + +Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas; +escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli á mão, das +scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua +alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um +ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar á solidão do seu +eremiterio, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas. +Era um talento e era um caracter. + +Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que +deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua +formatura. Bom signal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciencias +do amor proprio, sacrificando ás altas occupações do seu curso os +brilhos attrahentes da facil nomeada. O escriptor experimentara já o +pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar. + +Eis que nos apparece um dia, subito, no fôro, honrando e glorificando +n'um processo de rehabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe +celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de lettras, que +elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros trabalhos. + +Alguns mezes de collaboração diaria, n'um jornal bem lançado e bem +redigido, avigoraram no conceito publico o renome conquistado, e +Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da paiz, o logar a que +tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem contestar. + +Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos apresentação +mais prometedora e mais sympathica. + + +_Os meus amores_ são uma collecção de esbocetos, alguns dos quaes, como +o _Idylio rustico_, _Ultima dadiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus +abyssum_, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros. +Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o auctor os trabalhou, +solicito na sua obra, no empenho de uma execução immaculada. Não porque +se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem elle era impossivel +conseguir tão completo effeito, tão seguro resultado. + +O estylo do prosador é, quasi sempre, firme, opulento, erudito, original +e variado. Não tem reminiscencias d'este ou d'aquelle, e realisa uma das +condições essenciaes que deve ter em mira todo o escriptor +consciencioso: conservar uma feição propria e individual, sem se afastar +da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso archaico, e +contribuindo para a evolução progressiva d'ella. + +Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cançaremos de louvar, em +vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria +facil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estylistas, +procurou modo de illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na +fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas +mais primitivas do povo campezino, enriquecendo n'esse manancial o +thesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, scenas e +quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e +adoravel. + +É de indiscutível belleza a pastoral com que abre o volume. +Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A descripção da +madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e +Rosaria,--Daphnis e Chloe,--teem um sabor antigo, como o de uma +narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo +tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias. É de um bom +gosto supremo a fórma subtilmente delicada como o narrador, deixando +primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma brutalidade +instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da candura a uma +situação divinamente sublime. + +E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce e +prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espirito aquelles dois +vultos de creança a esfumarem-se nas distancias do espaço e do tempo, +longe, muito longe, n'uma paizagem ideal, vista nos dias da infancia, +vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio ou Theocrito, talvez mais +longe ainda, na Biblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida +contemplação, longe, muito longe, + +«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.» + +Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, ha como que um mixto do +tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christão. Não é vulgar +a concepção do assumpto, nem vulgar, tambem, o desenvolvimento que o +escriptor lhe deu, o scenario é horrivel e magnifico. Está bem +descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro se annuncia, depois +se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma convulsão +pavorosa e enorme; bem descripto o terror angustioso e suppliciante do +misero assassino, o qual vê, na chamma de cada relampago, projectada a +cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende os pés ao +chão, emquanto o seu ouvido, allucinado pelo terror, lhe dá a sensação +de uma voz insistente, que detraz de cada arvore, da espessura de cada +moita, de cima de cada pedra, da resonancia de cada trovão, o chama +inexoravelmente pelo nome:--Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio! + +Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho +fóros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe não engeitaria o +assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria com muita maior perfeição. +Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas tão engenhosas como as da _Genese +de um Poema_, para alguma composição tão extraordinaria e tão +transcendentalmente bella como _O corvo_ ou _Ulalume_. + +Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se +quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade das +suas aptidões litterarias, o prosador que recortou nos mais perfeitos +moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras, detem-se na +commovente e lacrimosa narrativa da _Ultima dadiva_ e nas ligeiras e +facetas descripções dos _Typos da terra_, dos _Preludios de festa_, do +_Sultão_, onde transparecem dotes de observação sarcastica, de ironia +graciosa e de bem humorado espirito. + +Um livro de tantas promessas não póde ser, comtudo, e por isso mesmo, um +livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se +abalançar a empreza maior, estamos certos d'isso. Já no final do +presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas +domesticas_, se annuncia a transição da presente phase litteraria e +artistica do auctor, para uma outra phase progressiva. + +Progressiva, dizemos nós, porque assim o crêmos. Qual ha-de ser, porém, +a predominante caracteristica d'essa phase? Póde a critica conjectural-a +desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazel-o. Porque, a +verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que +o seu temperamento litterario tem energias que lhe hão de abrir novos +caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha já precedentes, que +enormemente o obrigam. + +Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-ha +ainda de um ou outro francezismo escusado, e ha-de adquirir novos dotes +de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde +procural-os. Não é em lexicons, nem em alfarrabios, nem em cartapacios. +É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a +falar o portuguez do povo, os seus typos populares. + +Não se póde ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som, +da melodia. Uma das maneiras de adquirir pericia n'esta fórma de +escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um +exercicio util para chegar a fazer boa prosa. Não é, porem, +indispensavel, bem entendido. + +Contudo, não admittimos que repute possuir as qualidades completas de +escriptor, aquelle que só d'uma das duas fórmas da arte de escrever seja +conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que +praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima. + +Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza +artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase e +maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso, +embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena +empregar todos os esforços para attingir uma perfeição, que não está +longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade +continuamente o approximam.--_Fernandes Costa_.» + + +Aurora do Lima:--«_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade +Coelho. Quando prometti á _Aurora do Lima_ esta ligeira noticia +bibliographica ácerca do livro do brilhante escriptor e meu querido +amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a +retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os +ultimos da ultima fila, nas saudações enthusiasticas á obra e ao seu +auctor. + +Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se começou a +fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria, cruel, desoladora. Os +que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida--e estes +constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras +consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação +docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola, +apezar do enorme _réclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da +escola realista. + +Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras +consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende +pela emoção intima, que interessa pela simplicidade elegante com que +está trabalhado, que impressiona pela correcção impecavel do seu estylo, +malleavel e harmonico. + +Abre-se o livro e depara-se com o _Idylio rustico_, que é uma soberba +tella, amoravelmente tratada, denunciando logo ás primeiras linhas um +alto valor artistico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza +suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores. + +Segue-se-lhe o _Sultão_; e em boa verdade direi que me parece ser este +um dos contos mais formosos do volume, em que pese ás opiniões +contrarias e até ao proprio auctor, que não perde occasião de o +depreciar. + +Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A descripção +da eira, do labutar alegre, da paizagem e dos personagens d'este pequeno +quadro, são um primor notabilissimo de execução artistica, de rigorosa e +completa observação. + +_Ultima dadiva_, um episodio commovente, completa a primeira parte do +livro, a que se segue a _Comedia da provincia_, onde ha preciosos +estudos da vida provinciana; as _Balladas_, onde se depara com o formoso +conto _Para a escola_, de um alto valor litterario; _Arrulhos_, uma +esplendida phantasia, etc. + +Eis uma ligeira noticia do volume de contos _Os meus amores_, que +tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia +do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que +lhe foram dispensados. + +Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a +crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do paiz, +especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudonymo de _Ch. A. +Verde_, e na _Revista Illustrada_, do editor Antonio Maria Pereira. É um +infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frivolo assumpto +um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o espirito do +leitor.--_Luiz Trigueiros_.» + + +Os Gatos:--«Vem a proposito de historias, fallar, bem sei que tarde, dos +_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro portuguez que +mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em polyedros de +multiplices aptidões. Os contos dos _Meus amores_ são pela maior parte +uma bagagem de vida academica, assimilativa (Trindade Coelho, muito +novo, findou ha quatro ou cinco annos o curso juridico) e como tal sahem +da penna do escriptor ainda sem uma crystallisação homogenea de fórma e +de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso d'um espirito +buscando a perfeição com escrupulos d'eleito; de sorte que o volume até +como auto-biographia se insinua, elle precisando as phases, notulas, e +predilecções litterarias do contista, e emfim, depois de hesitações, +emancipando-o n'um dos mais delicados microscopistas do coração, das +nossas lettras. Como é provinciano, provinciano d'aldeia, e natureza +contempladora inda por cima, Trindade Coelho captiva-se principalmente +dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana, tempestades de +campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o não faça por +diletantismo de escriptor avocando de cór dramas lambidos, senão por +esse estro de visão retrospectiva dos melancholicos despaizados em +terras hostis, e que protestam contra o egoismo ambiente, recluinde-se +no passado, como n'um sanctuario de mumias adoradas. É a tendencia geral +dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes, +especialmente dos campos, materia prima para seus contos e poemetos. Em +poucos porém a predilecção se escóra na sinceridade e conhecimento +pratico da vida rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma +autopse sagaz da natureza psychica e moral do camponez. Grande parte dos +que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos +n'um scenario de convenção, e com o fazer fallar aos bonequinhos mancos +que resultam, aravias mais ou menos inventadas d'um pictoresco sorna, em +cuja trama não ha vislumbres d'alma regional, de caracter profissional, +d'individualismo typico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra, +mandem vir a collecção dos contistas rusticos portuguezes, e riam á +larga das fantasias lorpas que lá virem. Em dialagos amorosos ha por +exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam ás namoradas protestos +de paixão, em linguagem que seria preciosa até na bocca d'um pisa-flôres +do Martinho e da Havaneza. Ellas, de lhes retrucar em phrase +equivalente, e de se mecherem em scena com os ademanes que a _Dama das +Camelias_ consagrou na cachimonia dos auctores, como os mais proprios +para mimar o amor que as enchaquéca. + +Em paizagens e descripções d'interior, a mesma ausencia de detalhe certo +e de visão propria, que reduzem esses quadros, a méras caganifancias +d'aguarellistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a +quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das +cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os +seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal +imitação da Rua do Ouro, e o camponez como uma arreglo grotesco do +alfacinha. + +Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da +paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade +Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema, +em fórma d'arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo á vista +do leitor, que não mais lhe perderá de vista os vôos poeticos, e a +singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em +prolongadas estações nas duas mais typicas provincias de Portugal, o +Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha assím nos _Meus amores_, a par d'algumas +benignas composições representativas da transição critica do rapaz para +o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes, +sobrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da +minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras primas. +_Typos da terra_ e _Preludias de festa_, por exemplo, são duas narrações +que mordem fundo a attenção de quem nas lê, e que por sua admiravel +sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido +que ficarão modelarmente apontadas aos collecionadores de litteratura +typica. + +Qualquer das peças abrange apenas o folego d'uma ou duas duzias de +paginas, deliciosas porém como factura, admiraveis de bonhomia, e d'uma +saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o seu auctor. + +Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante +rico em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais +finas intenções. _Typos da terra_ é o quadro satyrico d'uma má lingua +d'aldeia, tendo por club a porta da tenda, por scenario a praça publica, +e por personagens o pessoal burocratico e elegante da terriola. +_Preludios de festa_ é um estimulo de festeiros preoccupados de qual +fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os typos +rapidos, a descripção dita a correr, mas no conjuncto ha um tal +equilibrio esthetico, a meia tinta é tão fluida, e as intenções ironicas +sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista, +Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os semsaborões que por +ahi medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno +romance portuguez.--_Fialho d'Almeida_.» + + +Jornal de Santo Thyrso:--«_Os meus amores_.--Foi penhorante e commovente +para nós a gentilissima offerta que Trindade Coelho nos fez do seu +adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta singela +noticia. + +O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o +brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje, +porém, apparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a +primorosissima fórma se allia com o mais delicado criterio d'artista +d'_élite_ e com a fina observação d'um talento verdadeiramente superior. + +O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e +obscura penna não está--seja este o seu unico merito!--habituada a vir +entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se +prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as +ondas d'esse barato incenso. + +Os nossos leitores melhor ajuisarão, em presença do trecho que lhes +offerecemos como mimo de rara valia.» + + +Diario Illustrado, (com o retrato do auctor):--«Trindade Coelho.--N'esta +aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras que ninguem sonha, +ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos é dado +experimentar, accrescente-se. + +Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,--na +elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestigio do +talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de adivinhar, +logo aos primeiros passos, a revelação de Alguem, que vae ser +unanimemente admirado. + +Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na +galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo. + +Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam; +admirei-o, muito antes d'elle trazer á litteratura patria o livro _Os +meus amores_, que foi como que a subita illuminação do seu nome. + +Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a +sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso +encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o +temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do +estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!... + +O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de +rapidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação, +vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com +um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a +perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e +do camponio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande critico Fialho +d'Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu +criterio do problema, em fórma de arte, e dos que mais progressivamente +vão crescendo á vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os +vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de +genero, colhidos em prolongadas estações nas duas mais typicas +provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes.» + +Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho começara a affirmar a sua +poderosa, individualidade em uma secção do _Diario Illustrado_, _Cartas +alemtejanas_, chronicas expedidas de Portalegre, em um arranque de +talento, com exuberancia de fantasia, modos de ver e dizer, +flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo á Vacherai, velados +a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante +originalidade. + +Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio +das suas funcções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitaria de +arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o +condemnara. + +E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos +vôos, fez-se um côro de bençãos, como que uma apotheose de amor, que +deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma +effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos, superiores a todas +as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto. + +Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterisam e +lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam, uma dualidade, +verdadeiramente phenomenal. + +É que, sendo elle um artista, na rigorosa accepção titular da palavra, +namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na +extatica adoração de tudo quanto ella sobredoira do seu brilho immortal, +é ao mesmo tempo um funccionario exemplar, um delegado do procurador +regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte +Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter e no +correcto exercicio da sua profissão, toda a perstigiosa soberania da +Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito, quando se +trata de aquilatar o merito de um auctor: + +«Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante +rico, em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das +mais finas intenções.» + +Ás vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade +nostalgica ou treme de frio... legal. + +É então que elle murmura, (perdoa a indiscreta allusão, meu caro +Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o +meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu +ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz idéa, não! +Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E là fóra, e lá em cima--que amplo +céo azul para voar!» + +Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda o +esperam, meu illustre amigo?--_Guiomar Torrezão_.» + + +Revista de Portugal:--(Excerpto de um artigo critico ácerca do _Só_ de +Antonio Nobre).--«Alma doente, o sr. Antonio Nobre soube extrahir da sua +doença effeitos de Arte singulares e ás vezes intensos. Outros +attingiram o mesmo objectivo pela descripção das emoções naturaes e pelo +appello aos instinctos sãos do coração humano. Acabo de rêler o livro +d'um escriptor tambem novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com +casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser comprehendidos +por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a affeição de dois +pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida +junto á cruz da sua victima, o amor materno de uma cabra que se deixa +morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o narrador +interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha atravez +d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do suor dos +lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade +pessoal decisiva para a belleza das obras.--_Moniz Barreto_.» + + +Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face, +olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,--o que não seria difficil mesmo +no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar +no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples +conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se elle de nós, porque já +então a gente não se atreve a separar-se d'elle, tem-se adquirido a +certeza de que aquillo é o que é, e chegado á mais solida convicção de +que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um +coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais +insubmissas ao menor proposito do menor disfarce, do que na sua +physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho intensíssimo do +seu olhar muito limpido, muito penetrante, se expressam toda a +sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso +temperamento. + +E ao vel-o partir pela rua fóra, decidido e tezo, resoluto e rijo, a +cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que +dá gosto vel-o, não resistem os olhos ao desejo de acompanhal-o de +longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou +pensa:--«Demonio!... Com meia duzia assim, poderia fazer-se _alguma +coisa_ ainda!...» + +Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas +perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos +quando com elles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando +passam--só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este sólo e +purificar esta atmosphera. + +Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem +da sua vida,--o mundo litterario e o mundo judicial--affigura-se-me +elle, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelevel +cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos +para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este +agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio +Publico contra os altos reus de certas causas celebres,--ora imprimindo +n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da fórma é +posta sempre ao serviço das emoções mais dôces e das mais penetrantes, +esse outro cunho, d'essa outra individualidade que n'elle ha, e tão +diversa é, tão original e tão rara, tão comtemplativa e tão terna. + +...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do +seu impetuoso temperamento! + +No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas +palavras se não limitam ao cumprimento do dever de officio, não tardará +que á serena exposição dos primeiros articulados succeda a expressão +calorosa, indomita, sempre crescente, da indignação, e da colera, que +lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vae deduzindo a +tremenda accusação contra o réo--...esse réo que alli está, alli! +sentado n'aquelle banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés! +Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração accelera-se, a face +ruborisa-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito +enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cerebro +vigorisa-lhe os musculos, affirma-lhe a energia, parece transportal-o ao +imperio da força, n'um arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas +se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado +a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta, +quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem ferir de +arripios a espinha dorsal do auditorio... Já não é para a justiça dos +homens que elle appella; não lhe bastam, não o saciam as penas maximas +dos Codigos! Quer o castigo do Céo, quer a justiça de Deus! + +...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem peor +que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana +havia condemnado por assassino e ladrão--o pobre Manuel Barradas. Muito +commentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministerio +Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos agoniados da sua vida +em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a collecção +desses jornaes, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no +principio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um +pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Elle, em +premio da minha obediencia, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo +do meu coração. Queres ouvil-o bater? Ausculta essas folhas... Bemdito +seja Deus! serão ainda minhas as tuas lagrimas enternecidas, e, ainda +depois de morto, viverei na tua commoção e na tua alegria, para a +commoção e para a alegria da minha obra...» + +Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste +nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto austero +do magistrado, cedendo o logar á delicada individualidade do homem de +lettras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa, +muito á vontade e á fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a +vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, d'essa muito +viva e muito affectuosa ternura que á sua alma de artista dá, e que a +sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que +não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordação a +que andam para sempre ligados, n'uma doce e meiga associação de ideias, +certos logares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo +olmo, que já lá estavam quando elle nasceu, que o embalaram nos +primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao +baptismo o levaram, e o conduziram á escola; alegrando-se com as suas +alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas... + +N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da +sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se +pousar-lhe nos beiços e nas palpebras a serenidade meiga de um sorriso, +como que o doce agradecimento á alma de sua mãe, que tivesse vindo, +muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito, +aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a amorosa +caricia dos seus beijos... + +Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade +essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos musculos e a +effusão das lagrimas realisam o phenomeno das emoções reaes. + +Os seus escriptos obedecem sempre á logica influencia d'esta convicção +em que elle está, quando me diz, bem medindo e pezando cada uma das suas +palavras: + +--«Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais nada, que o +escriptor preste na sua obra o culto que é devido á sua lingua. Depois, +deseja que o commovam, que honesta e consoladoramente o emocionem, +preferindo que o assumpto do quadro seja a exploração das coisas +triviaes da vida, certamente porque reside no Simples a formula mais +natural da Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lêem está +fatigado d'essa confusão do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me, +emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro dever, e como +condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre +de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e +entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferencia, mesmo, +ás faculdades intellectuaes...» + +Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos. É o primeiro d'elles, +_Idylio rustico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarella, parece que +feito sobre um esbatido de céo purissimo, côr de sovaco de andorinha e +não sei com que singular sabor eucharistico de primeira communhão... É +um sonho de absynto, que serve de aperitivo divino para a leitura +soffrega de todo o livro. Dois pastoritos ingenuos, a Rosaria e o +Gonçalo, encontram-se e approximam-se, n'uma indecisa alvorada de +derriço, cheios de boas tenções e puros ideaes. Acontece, porém, que por +viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada, +imaginem os que como elles se amem a alegria que inunda aquellas duas +almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias longas, quiz Deus que +os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando +seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como +juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se +põe, vagueam nas frescuras marginaes do rio, a par, e sós, elle +dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com murmurios d'agua +correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz d'alma idylica de +illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe immenso a +separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as +ovelhas durmam em mistura e que passem elles a noitada sobre o mesmo +colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instinctiva reluctancia, +Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as +mantas cobertor commum, e pousando as cabeças nos bornaes unidos, +parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos +desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo, e +os bons dos namorados, n'uma placida orchestração final que se smorza, +referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no somno e +adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da +maldade nossa. + +Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fóra, e que vamos +bisando e saboreando a pequeninos gólos, durante algumas horas bem +fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que +elle nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivessemos; em +companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão photographicos, tão +nitidos, que é estar a gente a vel-os, a ouvil-os, a falar-lhes, a +deitar-lhes o braço pelo hombro... + +Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao +serviço da moderna arte, o ineffavel goso de tão estranhas, tão novas, +tão encantadoras surprezas! Quizera eu, inedita, bem fresca, pela +primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante +comparação:--dir-se-ia traçada com uma penna d'aguia... arrancada d'uma +aza de pomba. + +Os seus livros ficarão pertencendo ao numero d'aquelles que parecem +possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espirito de quem os lê. +Relêr o que elle escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de +quando se contempla pela centesima vez algum querido, precioso objecto, +que noventa e nove vezes se contemplara já: privilegio esse de eterna +seducção, que só disfructam as obras em que o artista deixou pedaços da +sua alma.--_Alfredo Mesquita_.» + + +Do Poema do Ideal: + +«_Os meus amores_! que livro +Tão fragante e saboroso! +Scentelhas aureas e vivas, +D'um prosador luminoso! + +Brisas da serra! +Trechos idylicos +Da nossa terra!» + +_Fernandes Casta_. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES *** + +***** This file should be named 17503-8.txt or 17503-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/7/5/0/17503/ + +Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited +by Rita Farinha (Biblioteca Nacional +Digital--http://bnd.bn.pt). (This file was produced from +images generously made available by National Library of +Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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You may copy it, give it +away or <br /> + +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included <br /> + +with this eBook or online at www.gutenberg.org <br /> + +<br /> + +<br /> + +Title: Os meus amores <br /> + + contos e +balladas <br /> + +<br /> + +Author: Trindade Coelho <br /> + +<br /> + +Release Date: January 12, 2006 [EBook #17503] <br /> + +<br /> + +Language: Portuguese <br /> + +<br /> + +Character set encoding: ISO-8859-1 <br /> + +<br /> + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES *** <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited by +Rita Farinha<br /> + +(Biblioteca Nacional Digital--http://bnd.bn.pt). (This file +was produced from <br /> + +images generously made available by National Library +of Portugal (Biblioteca Nacional<br /> + +de Portugal).)</span><br /> + +<br /> + +<pre>NOTA: Este texto tem uma versão em língua portuguesa moderna, a que pode ser aceder<br />clicando na ligação:<big><b><br /><br /> <a href="modern/amores.txt">TEXT</a></b></big></pre> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>OS MEUS AMORES </h1> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h3>TRINDADE COELHO </h3> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h1>OS MEUS AMORES</h1> + +<h3> +(Contos e Balladas) </h3> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<div style="text-align: center;"><em>2.ª +edição</em></div> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 87px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +LISBOA<br /> + +<span class="smallcaps">Livraria de Antonio Maria Pereira</span><br /> + +50, 52―Rua Augusta―52, 54<br /> + +1894 </h4> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<h4><em>LISBOA</em><br /> + +Typographia e Stereotypia Moderna<br /> + +11―<em>Apostolos</em>―11 </h4> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Ao +Doutor</span><br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Antonio Xavier PERESTRELLO</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>«<em>Os Meus Amores</em>» </h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"><em>Folhas dispersas dos meus +annos de oiro, <br /> + +Vivo enxame das minhas alvoradas, <br /> + +Tenho zelos de vós, folhas sagradas, <br /> + +As Desdémonas sois de um outro moiro. <br /> + +<br /> + +As brancas horas que eu em sonhos doiro, <br /> + +Essas horas febris, illuminadas, <br /> + +Eil-as fugindo, em tristes debandadas... <br /> + +Levaes nas azas todo o meu thesoiro. <br /> + +<br /> + +Folhas: subi, voae ao céo tão alto, <br /> + +Que o ceo em estrellas vos converta e mude, <br /> + +Lá nas longinquas illusões que exalto; <br /> + +<br /> + +Como as frementes aguas d'um açude, <br /> + +Levae a Deus, no derradeiro salto, <br /> + +O derradeiro adeus da juventude</em>...</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature1 smallcaps"><em>Luiz Osorio</em>.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[1]</span> +<h3><a name="c1"></a>IDYLLIO RUSTICO </h3> + +<br /> + +<div class="signature"><em>A Fialho d'Almeida</em>.</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Quando</span> atravessou a +povoação, rua abaixo, com o +rebanho atraz d'elle, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas +tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e não vinha +das +habitações o mais insignificante ruido. Dormia-se +a somno solto por todas aquellas casas. +Apenas algum cão, subitamente acordado em sobresalto pelo +chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde +ficara de sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite +fazendo companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores +entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios, +n'alguma esturdia, a deshoras... <br /> + +<br /> + +Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a +banda, n'uma grande pacificação de templo +adormecido. Nem viv'alma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho +em zig-zags. Fulgiam no +céo +<span class="pagenum">[2]</span> +azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a +largura, a paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito +mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da +noite. No emtanto a +manhã era calma; nem rumores de briza pela rama das +azinheiras velhas que faziam guarda ao corrego por onde o rebanho +tomara. Cigarras, grillos nas hervagens, rãs que coaxavam +nas regueiras, era o mais que se +ouvia acima do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em +todo o +rebanho que se ia submissamente á mercê do pequeno +pastor, +parando se elle parava a colher as amoras frescas dos silvados, +recomeçando +marcha se de novo elle se punha a caminhar. <br /> + +<br /> + +Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro, +que o echo levou para longe. <br /> + +<br /> + +―Não gastes polvora, Antonio!―recommendou o +pastor.―Ouviste? <br /> + +<br /> + +E logo a voz do guardador: <br /> + +<br /> + +―Madrugas hoje, Gonçalo! <br /> + +<br /> + +―P'ra que saibas: cá um homem não tem medo. <br /> + +<br /> + +―Está bem. Adeus! <br /> + +<br /> + +―Saudinha. <br /> + +<br /> + +A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, +no som, na côr. Invadia a amplidão da cupula +celeste uma tinta alvacenta, onde as +estrellas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira +d'além, entravam +de fazer-se nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes +rochedos tinham altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra... +<span class="pagenum">[3]</span> +N'este assomo d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a +alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos +levantavam-se repentinamente, em vôo perpendicular, e +cortavam ares +fóra, chilreantes e alegres, até se perderem de +vista por de traz dos +arvoredos e cabeços. De cauda em riste e orelhas immoveis, o +rafeiro espreitava as hervagens +seccas, onde algum reptil passasse vagaroso. <br /> + +<br /> + +―Busca, Turco!―fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo +ás cobras.―Busca, valente! <br /> + +<br /> + +Á medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas +ouvia-se, mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas +primeiro que +lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de +passos e de paciencia,―reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte +os interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre, +á frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos +começaram +de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle +céo ainda +estrellado, o Gonçalo desabafou: <br /> + +<br /> + +―Uff! até que emfim!―E pensava aliviado:―Nada mais facil +do que terem-me sahido os lobos!... <br /> + +<br /> + +Mas vista áquella hora, e no meio de tal silencio, a +corrente liquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava +lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham +morrido afogados, n'uma +lucta desesperada com as aguas, clamando em vão que lhes +acudissem, em tamanho transe afflictivo. A margem de lá, +especialmente, +era toda accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre +os quaes +no inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que +era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem +<span class="pagenum">[4]</span> +incautos, n'um +descuido involuntario―simples remadela pouco a tempo, manobra menos +segura de leme, ou impulso errado de vara. <br /> + +<br /> + +E então, cabeços enormes d'um lado e d'outro, +projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e +desconforme, que mais triste fazia o +sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente, +fazendo limitada a paizagem. <br /> + +<br /> + +A todo o comprimento da margem, o rebanho pôz-se +então a beber manso e manso, e sem o minimo ruido. <br /> + +<br /> + +Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de +lá, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem. <br /> + +<br /> + +―Táte, Gonçalo! Aquella chocalhada... <br /> + +<br /> + +E immovel, remordendo o labio, com o ouvido á escuta, +pensava: <br /> + +<br /> + +―Ora se será ella?... <br /> + +<br /> + +Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um +clarão de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como +elle, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito +não +vira. <br /> + +<br /> + +―Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo. <br /> + +<br /> + +E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, pôz-se +attentamente á escuta do tilintar dos chocalhos na margem +opposta. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[5]</span> +«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o +pastor é que podia ser outro que não a +Rosaria...» <br /> + +<br /> + +Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de +contente. Atirou ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando +para deante o +bornal, feito da pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou +de lá +a sua flauta e pôz-se a tocar apressadamente um trecho de +cantiga +rustica. <br /> + +<br /> + +No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe: <br /> + +<br /> + +―Ehlà, Gonçalo, és? <br /> + +<br /> + +O pastor desatou a rir. <br /> + +<br /> + +―Uhlá, Rosaria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona! <br /> + +<br /> + +E logo a voz fresca da rapariga lembrou: <br /> + +<br /> + +―Não te esqueceu a moda, rapaz! <br /> + +<br /> + +―Isso esquece ella!... Ouviste, Rosaria?―Se outra fosse que m'a +tivesse ensinado... <br /> + +<br /> + +N'este meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e +o marmeleiro para ir ter com a Rosaria. Mas primeiro perguntou: <br /> + +<br /> + +―Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa? <br /> + +<br /> + +―Vem tu d'ahi. Por cá sempre é outra coisa +p'r'as ovelhas. Han? <br /> + +<br /> + +―Basta! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[6]</span> +E dando o signal da partida, o Gonçalo pôz-se em +marcha. D'ahi a pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte +moirisca, toda severa de +construcção nos seus tres arcos +lançados sem elegancia, atufados de parasitas seculares que +a faziam pittoresca, heras, silvas, ortigas bravas. <br /> + +<br /> + +A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno +oratorio ao Senhor Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades +de arame, diziam +dar coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde +nicho com respeito se descobrissem, e com devoção +rezassem uma velha prece que era como um talisman precioso para livrar +de maiores desgraças―naufragios no rio, e então +maus +encontros por aquelles caminhos escabrosos, que eram um perigo +constante para homens e +animaes. <br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco, as duas creanças estavam perto uma da outra, +cada qual seguida do seu rebanho. <br /> + +<br /> + +―Ora viva a Rosaria!―disse o pastor muito alegre, parando defronte da +cachopa. <br /> + +<br /> + +―Bons dias, Gonçalo; então que ventos? <br /> + +<br /> + +Entre os dois travou-se então um longo dialogo em que se +contaram tudo o que haviam feito desde aquelle dia em que ambos tinham +voltado juntos +da feira dos Caniços. <br /> + +<br /> + +―Por signal que nem rez se vendeu!―lembrou o Gonçalo. <br /> + +<br /> + +―Por signal!―disse com pena a Rosaria. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[7]</span> +Mas elle contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na +fé que a encontrava. «Vêl-a agora, +só por +milagre de santo; quem o havia de sonhar! Nanja elle...» <br /> + +<br /> + +―Mas se eu estive tão doente!―volveu triste a Rosaria. <br /> + +<br /> + +E como o outro acudiu a informar-se, ella explicou: <br /> + +<br /> + +―Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! +Febre que era mesmo lume desde manhã até ao +escurecer... Uma +assim! <br /> + +<br /> + +E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas +vezes, na febre, sonhara com elle, que se encontravam os dois por +montes e +prados, como agora tinha acontecido, «tal e qual». <br /> + +<br /> + +―Assim te Deus salve, ó Rosaria?―atalhou rapido o pastor, +a quem enchiam de orgulho os sonhos d'aquella pequena amiga. <br /> + +<br /> + +―Assim; pois que duvida?―tornou-lhe confiada a Rosaria. <br /> + +<br /> + +―Não!―disse agastado o Gonçalo.―Não +has-de dizer assim... Diz certo, has-de jurar direito. <br /> + +<br /> + +―Pois assim me Deus salve... <br /> + +<br /> + +―Como é verdade...―Diz tudo, Rosaria!―supplicava o +pastor. <br /> + +<br /> + +―Sim, volveu-lhe paciente a companheira,―como é verdade +que sonhava que nos encontravamos―concluiu por fim, muito risonha. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[8]</span> +E sem disfarçar o jubilo, prestes o Gonçalo a +certificou de que tambem não a esquecera. «Tanto +é que tirava da +frauta as cantigas todas que ella lhe tinha ensinado.» <br /> + +<br /> + +―Lembras-te? <br /> + +<br /> + +A Rosaria faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na +frauta de sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar: <br /> + +<br /> + +―Sahem d'aqui sem falhar uma.―E resoluto:―Vá feito, +Rosaria, pede por bocca! <br /> + +<br /> + +A Rosaria pediu então a <em>Pastorinha</em>. <br /> + +<br /> + +―Eu é da que mais gosto,―explicou.―É a mais +linda. <br /> + +<br /> + +―E é!―concordou o Gonçalo.―Ora escuta +lá. <br /> + +<br /> + +E levando aos labios a avena, pôz-se a tocar a <em>Pastorinha</em>, +emquanto a Rosaria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a +lettra: <br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Onde <em>vás</em>, +ó +Pastorinha,<br /> + +Ai-li, ai-li, ai-li, +ai-lé... </div> + +<br /> + +―Sabes essa! É mesmo assim!―disse-lhe a Rosaria a rir-se. <br /> + +<br /> + +―É como vês!―affirmou contente o +Gonçalo. <br /> + +<br /> + +Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já +os dois rebanhos, confundidos, andavam na pastagem. <br /> + +<br /> + +―Olha as ovelhas juntas!―notou o Gonçalo. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[9]</span> ―Tambem nós nos quedámos juntos,―volveu-lhe a +pequena, sorrindo.―As pobres dão-se bem, são +amigas...―continuou com +jubilo. <br /> + +<br /> + +―E nós tambem, ora tambem, Rosaria? <br /> + +<br /> + +―Tambem―respondeu afoita a pastora. <br /> + +<br /> + +E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denuncias.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A esse tempo, no céo alto e lavado a estrella d'alva +fenecera por fim, e o horisonte começava de carminar-se ao +de leve. Por todo o +céo em cupula, a luz fresca e viva da manhã +vibrava harmonias +extranhas que iam despertar tudo, a côr da paizagem e a +musica dos ninhos, +cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. +Manhã de +verão, serena, tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um +movimento extraordinario de azas―passarada alegre que sahia agora dos +ninhos e voava a matar a +sêde á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam +as suas +casinholas em reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convisinhos +onde a +vegetação era mais rica de seiva e mais facil a +presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, +tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques +verdejantes, gente em +mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em +torcicóllos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo +machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada <em>chó</em>! +que se ouvia na outra +ladeira. Já nas povoações proximas +sinos chamavam para a +missa d'alva ou tocavam a Ave-Marias. Nas quintas e casas fumegavam os +tectos, dizendo +<span class="pagenum">[10]</span> +horas de almoço. De modo que o sol quando +rompeu, solemne e +triumphante no céo immaculado, encontrou muita vida pelos +campos, toda a natureza acordada +para a labuta interminavel do dia. N'uma clareira elevada, dominando o +rio e um trecho de paizagem para sul, tinham-se sentado os dois +pastores e continuavam conversa. <br /> + +<br /> + +Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua +côr trigueira levemente pallida desde que tivera as maleitas. +Não se lembrava com que santa que elle tinha visto se lhe +parecia agora a Rosaria... <br /> + +<br /> + +―Mas o cabello assim cortado...―disse com magua, mirando-lhe a +cabeça nua, e passando a mão pela +d'elle,―é que te +não fica bem! <br /> + +<br /> + +«Melhor fôra que lhe tivessem deixado as +tranças. Negras, de mais a mais, que era como elle +gostava...» <br /> + +<br /> + +―Promessa da mãe se eu melhorasse―explicou a +Rosaria―Lembranças... A gente quando está +afflicta... <br /> + +<br /> + +―...Quando está afflicta...―repetiu como um echo o +pequeno. E depois, amuado:―Se promette os olhos... <br /> + +<br /> + +A rapariga fitou-o, espantada. <br /> + +<br /> + +―...é porque t'os tirava!―concluiu convicto. <br /> + +<br /> + +Houve um momento de silencio, em que o Gonçalo se +pôz a escavar o chão com uma pedra, e a Rosaria a +torcer um fio saliente do seu vestido grosseiro. Ouviam-se as ovelhas +chocalhando nas pastagens, ia a passar na rodeira, longe, um carro que +chiava, com uvas para algum lagar. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[11]</span> ―Não fallas, Rosaria?―perguntou o pastor sem levantar os +olhos para ella. <br /> + +<br /> + +―Tambem tu...―começou com medo a pequena,―logo te zangas! +Olhem a lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, +credo!―E depois animando-se:―Já foste á Senhora +dos Remedios? <br /> + +<br /> + +O Gonçalo fez signal que não tinha ido. <br /> + +<br /> + +―Pois foi lá que deixámos as tranças, +eu mais a mãe. N'um prego ao lado do altar, um lacinho verde +nas pontas. Ficou lindo. <br /> + +<br /> + +O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a +conversa. E para acabar com ella: <br /> + +<br /> + +―Que emfim como melhoraste...―fez que concordava, pondo o bilro a +girar.―Olha como dança...―E depois, mais pensativo, +batendo com o bilro nos dentes: <br /> + +<br /> + +―Que ás vezes as promessas pouco fazem...―E +interrompendo:―Sabes quem fez este bilro? <br /> + +<br /> + +―Foste tu, aposto. <br /> + +<br /> + +Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lh'o +orgulhoso―«que visse os <em>torneados</em>.» +Depois +continuou: <br /> + +<br /> + +―Vae uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, +os santos!―Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A +gente +bem resou e bem promessas fez, mas ella foi-se. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho. <br /> + +<br /> + +―Aquella ovelha, a branca, não vês? A que se vae +agora deitar... Pois era p'ra Nossa Senhora, repara que é a +melhor.―E +deitando-se para traz:―Lá anda ella a pastar!―concluiu +desalentado. <br /> + +<br /> + +―Mas tinha de ser,―volveu-lhe triste a Rosaria,―que as promessas +sempre fazem, lá isso... <br /> + +<br /> + +E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o +Gonçalo de que sempre valiam as promessas. No emtanto, +deitado de costas, com a +jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em angulo tocando-se com os +joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que +constantemente ia subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do +cão +que ali perto se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a +Rosaria ia entretendo o pastor. Mas quando ella fazia pausa, logo o +rapaz acudia, firme na sua objecção: <br /> + +<br /> + +―Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Á medida que o sol ia subindo, no céo glorioso e +fulvo, iam os dois conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados, +para se livrarem da +estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia, +que foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os +pinheiraes, depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros +levaram de conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado +fé que as +horas passassem tão depressa. +<span class="pagenum">[13]</span> +Ainda armaram aos passaros, +mas foi +o mesmo que nada, os demonios andavam espantados e já +conheciam as +esparrellas. <br /> + +<br /> + +―Olha lá não caiam,―tinha dito o +Gonçalo, já cançado de estar +á espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao +dedo.―Se elles fossem tolos... <br /> + +<br /> + +E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella +então propoz que jogassem a pocinha. <br /> + +<br /> + +―E o fito, ó Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos +domingos de tarde, bato-me com qualquer, sabias? <br /> + +<br /> + +E generoso:―Mas a ti dou te partido: vinte e cinco ás +quarenta... <br /> + +<br /> + +Como o tempo rendia, jogaram tudo―a pocinha, o fito, as necas, a +bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia á +mão, era elle que ia buscar o pausinho, quando zinia longe. <br /> + +<br /> + +―Turco, traz cá! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céo +esmorecia no seu azul suavissimo. Em todo o espaço o ar +estava tranquillo e +sereno, e já começava para poente a +decoração +phantastica do occaso. Parece que se ouvia mais distincto o marulhar +das aguas no rio; já +não faiscava assim tão viva a areia branca das +margens. <br /> + +<br /> + +Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se +chegando, mais as ovelhas, para as terras onde tinham de +<span class="pagenum">[14]</span> +pernoitar. E +fitando fixamente +os olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim: <br /> + +<br /> + +―Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste? <br /> + +<br /> + +«Ora que lhe custava a ella! Já que as ovelhas +tinham andado juntas todo o santo dia, que mais era que dormissem no +mesmo curral, essa +noite?» <br /> + +<br /> + +―E o mais, ó Rosaria?―perguntou de novo com interesse. <br /> + +<br /> + +A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a +olhar, respondeu: <br /> + +<br /> + +―Tambem.―E sorriu-se.―Pois eu... <br /> + +<br /> + +Só depois d'esta segunda promessa o Gonçalo se +levantou, e deu o signal de partida, assobiando aos cães. <br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha +ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo +areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz +alaranjada tremeluzia, tirando á agua a sua translucidez +normal. <br /> + +<br /> + +―É bonito!―fez notar o pastor. <br /> + +<br /> + +A Rosaria explicou logo: <br /> + +<br /> + +―São as moiras a caçar com redes d'oiro, sabias? +<br /> + +<br /> + +Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam á +flôr da corrente as cabeças dos dois rapazotes do +moleiro. Dentro da <em>chata</em> +que vogava serenamente, a mãe +<span class="pagenum">[15]</span> +com o mais novito ao collo +não +os perdia de vista, emquanto o pae, em mangas de camisa, de +pé n'um topo de +fraga, lhes ia ensinando as <em>manobras</em>. Ao fundo, +tres vitellas +passavam o rio a vau, muito devagar, parando a espaços, +alongando o +pescoço para a veia d'agua serena, bebendo mansamente. Sobre +o vitello das malhas brancas, o guardador cantarolava, acenando com o +chapeu ao +moleiro―«boas tardes! boas tardes!» Ao sahir da +ponte, o rebanho teve de se +affastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa +fila de machos carregados, tilintando campainhas. <br /> + +<br /> + +―Adeus pequenos! cumprimentou. <br /> + +<br /> + +―Venha com Deus!―tornaram-lhe ambos. <br /> + +<br /> + +E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas, +confraternisavam os cães como bons e leaes amigos. +Á frente, o Gonçalo ia tocando na flauta o mesmo +que a Rosaria cantava. O brando rumor dos chocalhos, que se levantava +de todo o rebanho, casava-se com a musica, fundindo-se n'uma nota +subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada... <br /> + +<br /> + +Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal +rasteiro, e então, parando um momento, o Gonçalo +perguntou, +collocando na sua frente a Rosaria, e pondo-lhe á cara a +flauta, na +direcção em que devia olhar. <br /> + +<br /> + +―Vês além... n'este direito? Rez-vez do +castanheiro, não enxergas? <br /> + +<br /> + +A outra fez que sim com um gesto, e interrogou: <br /> + +<br /> + +―Então é ali? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> ―Ali mesmo―volveu-lhe já de marcha. <br /> + +<br /> + +E repoisando a mão direita sobre o hombro esquerdo da +rapariga, repetiu-lhe muito contente: <br /> + +<br /> + +―É mesmo além. <br /> + +<br /> + +N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o +espaço que as ovelhas tinham de occupar essa noite. <br /> + +<br /> + +―Falta pouco; a gente vae pelo atalho que é só +mau p'ra quem passa a cavallo. <br /> + +<br /> + +E como elle ia expansivo, e a companheira não dava palavra, +quiz então saber: <br /> + +<br /> + +―Estás triste, ó Rosaria? <br /> + +<br /> + +―Triste... não. Já agora... tem de +ser―volveu-lhe cabisbaixa. <br /> + +<br /> + +―Huum! Arrependeu-se...―volveu comsigo o pastor. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. +Gado para dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle +ainda trazia +azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o +Gonçalo apontou para a cabana que ficava alli perto, e +propoz que se deitassem: +estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada +agora. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +Quando o Gonçalo e a Rosaria entraram na cabana e se +deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a +cabeça +um do outro os bornaes que faziam de travesseiro, cerrára de +todo a +noite, e formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida +no azul indefinido do céo. <br /> + +<br /> + +―E os lobos?―perguntou a Rosaria com medo. <br /> + +<br /> + +―Não ha perigo―tranquilisou-a o Gonçalo.―Isso +é lá com os cães. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos +chocalhos. A ladrar, os cães faziam echo. O rebanho devia +dormir profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada +toda a Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum +tempo, n'um ciciar brando de vozes, até que por fim, +vencidos da +fadiga, se deixaram adormecer,―quando a historia das moiras encantadas +ia no seu melhor episodio... <br /> + +<br /> + +E lá no alto céo, mesmo sobre a cabana, a +estrella da tarde não era nem mais pura nem mais luminosa do +que a alma simples e boa d'aquellas duas +creanças... <br /> + +<br /> + +Quando ao repontar da manhã se levantaram, e sahiram a +vêr o céo... <br /> + +<br /> + +―Bonito dia, Gonçalo! <br /> + +<br /> + +―Bonito dia, Rosaria! Olha... <br /> + +<br /> + +...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando... +voando... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c2"></a>SULTÃO </h3> + +<h4> +(Copiado do Natural) </h4> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Ao meu Henrique e a +Beldemonio, seu amigo</em>.</div> + +<br /> + +<h4>I </h4> + +<br /> + +Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa, +cançado, esfalfado de andar um dia inteiro a mourejar no +campo. <br /> + +<br /> + +―Meus peccados, boa tarde!―dizia elle para a mulher, com um sorriso a +affectar seriedade. <br /> + +<br /> + +Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a +benção. <br /> + +<br /> + +―Deus te abençoe. <br /> + +<br /> + +―Pae, olhe que o «Sultão»... ia a dizer +o pequeno. <br /> + +<br /> + +―Bem sei! atalhava logo o Thomé.―O +«Sultão» é um maroto e tu +és outro. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> +E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de +<em>meia-lua</em>, que lhe custara um pinto havia bons +quinze annos, e abria a +gaveta do pão, o Thomé punha-se a fazer de +interesseiro comsigo mesmo, resmungando alto p'ra que a mulher o +ouvisse: <br /> + +<br /> + +―É que por este caminho não tenho um dia +descançado... Nem uma hora... <br /> + +<br /> + +Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra. <br /> + +<br /> + +―...Pois vamos já que já era tempo... Porque +p'ra mim ha de chegar... A modos que vou já +cançando... <br /> + +<br /> + +Mas o Thomé não era homem que dissesse estas +coisas de coração. Pareciam-lhe longos, +interminaveis, os aborrecidos domingos que passava +sem ir campos fóra, madrugador como um melro. <br /> + +<br /> + +―Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thomé +encolhendo os hombros, como quem está desgostoso com um +genio assim. <br /> + +<br /> + +Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua +cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra +que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito +á vontade. <br /> + +<br /> + +Costume velho do Thomé:―mal se sentava, mastigando o +«boccado», dizia logo para o filho: <br /> + +<br /> + +―Ouves, Manuel? Bota cá fóra o +«Sultão». <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[21]</span> +O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia +nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se +a pular de contente, dizendo cá da rua: <br /> + +<br /> + +―«Sultão»! Sae cá p'ra +fóra, «Sultão»! <br /> + +<br /> + +No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta +baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, +orelhas em riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um +movimento moroso de +palpebras pestanudas... <br /> + +<br /> + +E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas +pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava,―um grande +riso de alegria nas feições amorenadas, contente +de ver o +seu «Sultão». <br /> + +<br /> + +Mas o pequeno jumento não avançava um passo, +divertindo-se em arreliar o Thomé, fitando-o com um ar +estagnado. Altivo na sua nobre +linha de quadrupede de boa raça, alguem lhe poderia +lêr no +olhar, mole e impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o +dono... <br /> + +<br /> + +Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava +graça. E punha-se então a fallar muito serio, +entre resignado e cortez, para o +pequeno e desdenhoso jumento―o pão e o queijo esquecidos +n'uma das +mãos, na outra a navalha de <em>meia-lua</em>: <br /> + +<br /> + +―Então, «Sultão», +não vens? <br /> + +<br /> + +―Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, +continuava a envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia +d'aquella immobilidade de estatua, apenas +<span class="pagenum">[22]</span> +de quando em quando uma +pequenina +patada na soleira, zap! <br /> + +<br /> + +―Zangado, «Sultão»? perguntava o +lavrador.―De mal comigo? <br /> + +<br /> + +E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á +vontade...―que não fosse vel-o o +«Sultão»... Mettia entre dentes um +pedacito de queijo, logo uma codea de pão, e fazendo umas +grandes rugas na testa, de quem começa a zangar-se, +voltava-se +então muito serio: <br /> + +<br /> + +―Ficas ahi, «Sultão»? Já +não és meu amigo? <br /> + +<br /> + +O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, +parece que fazendo-se humilde... <br /> + +<br /> + +―Então se és, anda d'ahi. Olha...―E mostrava um +pedacito de pão.―P'ra ti se vieres... <br /> + +<br /> + +O «Sultão» dava tres passos, e ficava +fóra do cortelho. E por se vingar, o Thomé +carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada, +e erguendo o rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, +affirmando que +já lhe não dava o pão. E +desfechando-lhe emfim a +ameaça de o vender a um cigano, entrava a tratal-o por +senhor―<em>sôr</em> +«Sultão»... <br /> + +<br /> + +Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas +baixas, pescoço cahido, a modo de arrependido, parece que +pedindo perdão da arrelia. <br /> + +<br /> + +Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra +banda, a rir como um perdido. <br /> + +<br /> + +―Diabo do gerico! diabo do ratão! Capaz é elle +de +<span class="pagenum">[23]</span> +fazer rir as pedras, o mariola!―E tossia de engasgado, uma +migalhita de queijo na guela. <br /> + +<br /> + +No emtanto, o «Sultão» ia +avançando, muito ronceiro, até que tocava com o +focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé +sacudia-o: <br /> + +<br /> + +―Sae-te p'ra lá! dizia elle muito amuado, sem se +voltar.―Cuidas talvez que te não conheço, +cuidas? Já te +não quero, vae-te! <br /> + +<br /> + +Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, +chegava-lhe ao focinho um pedacito do pão, o melhor da +fatia. +«Sultão» lançava um olhar +obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o +beiço superior, a tremer, e roubava-lh'o da mão. <br /> + +<br /> + +Pazes feitas! Era então rir a perder, n'umas casquinadas +agudas, muito estridulas. <br /> + +<br /> + +―Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.<sup>a</sup> +Josefa.―Até pareces doido! <br /> + +<br /> + +―Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba +seu dono? perguntava o Thomé, n'uns grandes gestos.―Vamos +que eu lhe +não queria dar da merenda? Ladrão, de mais a +mais!... Ora bem! agora brinque. <br /> + +<br /> + +Era precisamente o que o Thomé queria:―ver o +«Sultão» a brincar. <br /> + +<br /> + +...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do +lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe +consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes +causticantes e chuvas torrenciaes. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das +«partidas» e «diabruras» do +«Sultão»! Ás vezes, o pequeno +jumento, ferido não sei por que vespa invisivel, despedia +sem mais +nem menos n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, +agitando a cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a +banda n'um +alarido o rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam +como +doidas, cacarejando, como se um pé de vento as levasse. +Accudia +gente aos postigos, ás portas, ás janellas, a ver +a +polvorosa; e subito se inundava a rua de rapazes, rotos, +descalços, alguns quasi +nús, correndo atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, +espantando-o―como se o mesmo vento de folia os houvesse varrido a +todos, varrendo a propria rua... E um lá ia a terra, e sobre +esse passavam os outros, +e sobre todos voava o «Sultão», apupado, +perseguido, acclamado, na malta espavorida dos inimigos... <br /> + +<br /> + +―«Sultão»! eh lá! +«Sultão»! <br /> + +<br /> + +Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de +volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga, +não lhe desse na bôlha atacal-os... E abriam alas +de repente, quando +elle, tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se +não deixar atropellar investia com o +«Sultão» de braços abertos, o +que era, já se vê, um modo de o +abraçar, +fingindo medo. E vinham as gargalhadas estridulas, os rogos para que +pozesse treguas, as supplicas para que se +accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da +escada, onde se deixava cair,―derrotado! <br /> + +<br /> + +―P'ra lá, «Sultão»! p'ra +lá! fazia então o Thomé, oppondo-lhe +os pés, desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito +inclinado para traz, a +rir como um perdido. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[25]</span> +Então o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes +rompia a girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as +patas, +cauda no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé +solicito +dava aos rapazes o aviso de se arredarem―«porque era doido, +aquelle +demonio»!... <br /> + +<br /> + +Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito +cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um +cão, certa mulher que passava. Até que +lá ia uma +focinhada, e logo após os saltos do costume, respondendo com +uma ameaça de pinotes +á surpresa da viandante. <br /> + +<br /> + +―Dê, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de lá o +Thomé, com ares de zangado. E depois, batendo o +pé, pedindo que lhe dessem uma +verdasca:―«Sultão»! venha já +p'r'aqui! intimava. <br /> + +<br /> + +E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia +logo direito a elle, muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um +cumprimento humilde de focinho. O cão regougava, +desconfiado, entreabrindo a +dentuça, preparando a sua dentada. Não dava o +«Sultão» signaes de medo, e humilde +proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava +um passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada +ganhava o terreno perdido―fitando impassivel o cão... O +bruto formava então o salto, regougando forte, o +pêllo +eriçado; e ao investir para a primeira dentada, salvava-o de +um pulo o +«Sultão», evitando-o, até que +por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais +feitio que outra coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, +ganindo, vencido: <br /> + +<br /> + +―Eh! valente! gritava-lhe então o Thomé. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[26]</span> +E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo +ao correr a caravelha: <br /> + +<br /> + +―Não ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve! <br /> + +<br /> + +E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia +para a cama sem primeiro descer a vêr o +«Sultão»,―de candeia na mão +esquerda, e na direita, contra o sovaco, a bella quarta do +grão, acogulada. +<br /> + +<br /> + +Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de +candeia attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de +cima, a +sr.<sup>a</sup> Josefa tinha de intervir então, +gritando-lhe pelas +frinchas do +sobrado: <br /> + +<br /> + +―Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha +que são horas. <br /> + +<br /> + +E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que +fallou,―historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto +que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo +desgosto que o «Sultão» lhe +não respondesse: <br /> + +<br /> + +―Boas noites! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao +cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. +Ficou parvo! Poz-se a mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, +e além de enorme―gelada... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[27]</span> ―Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.―Ó +Josefa! <br /> + +<br /> + +A mulher assomou á janella, sobresaltada. <br /> + +<br /> + +―Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?! <br /> + +<br /> + +―Que te roubaram o quê? fez a sr.<sup>a</sup> +Josefa, muito attonita. <br /> + +<br /> + +―O burro, o «Sultão»! Vem cá +ver que m'o roubaram! <br /> + +<br /> + +E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, +descalço, romperam todos tres na gritaria, defronte do +cortelho vazio: <br /> + +<br /> + +―Á d'el-rei! Á d'el-rei! Á d'el-rei! <br /> + +<br /> + +Até que o regedor, que era compadre, intervindo +estremunhado, poz na peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que +compareceram. <br /> + +<br /> + +Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e +desfechando ao peito abatido do Thomé a negra e vazia +palavra: <br /> + +<br /> + +―Nada!... <br /> + +<br /> + +<h4>II </h4> + +<br /> + +Dois annos depois. Tarde d'agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a +eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e +embaciavam +<span class="pagenum">[28]</span> +ainda o poente as suaves, brandas +pulverisações doiradas da ultima luz do sol. +Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao +rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, +raiado de listrões de uma +coloração leve de laranja. Pequenos +algodões transparentes, com alvuras de neve, +cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do +azul. N'um +deslado, sob os castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a +torre branca da +igreja, as paredes caiadas da escola. <br /> + +<br /> + +A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava +áquella hora o aspecto tranquillo e de paz de uma grande +officina em repouso. Poucas «mêdas», iam +no fim as colheitas: mais +uma semana, duas quando muito, e estaria tudo recolhido. Já +sobre a palha das +«parvas» ou ao sopé das +«mêdas» altas, entre os utensilios da +trilha e a creançada estridula que brincava, os da lavoura +descançavam―vermelhos da soalheira +intensa de todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito +nú, +arregaçados os braços musculosos, n'uma +prostração +regalada de matilha que alfim tem a sua hora de socego, após +um dia de caçada. +Parecem prostrados da fadiga os proprios malhos, os trilhos, as +pás, os +«baleios» que levaram todo o santo dia varrendo o +chão em volta das +«parvas». E aqui e ali, dando uma +sensação agradavel de fartura, +perfilam-se os altos saccos no meio das rasas, extravasando de +grão. Além, gente +em mangas de camisa, ao redor de um grande montão de palha +triturada, vae +«limpando»―visto que sopra um +«ventinho». E sente-se sobre as +pás a chuva do grão, ao mesmo tempo que a palha, +voando, faz monte da outra banda, e os «baleios», +em mãos de mulheres, +não cessam de arrebanhar o grão, varrendo em roda +n'um afan... Em certo ponto, carros vasios; um +além, de altissimas «angarellas», vae-se +enchendo de palha; +emquanto outros, atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas +<span class="pagenum">[29]</span> +mais +baixas, estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos +bois gigantes. <br /> + +<br /> + +Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, +levas de bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, +caudas oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio +pêllo. E lá vão encosta abaixo, +roçando pelos troncos asperos dos +castanheiros a enorme corpolencia, fartar o largo bandulho á +serena agua das +ribeiras, sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, +monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam, +submissa... <br /> + +<br /> + +Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres +cantava alegremente, em côro. Acabara de ensacar-se o ultimo +grão da farta colheita do Thomé da Eira. <br /> + +<br /> + +―Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.―A primeira +da aldeia! <br /> + +<br /> + +―Qual? isso sim! vão vocês vêr a tulha. +Muita palha, é que vocês hão de dizer, +muita palha e pouco grão... <br /> + +<br /> + +E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as +mangas arregaçadas pelos cotovelos, O Thomé ia e +vinha, dando ordens, repetindo avisos, distribuindo aqui e +além as ultimas +tarefas. <br /> + +<br /> + +―Ahi vae um sacco, ó tu! É p'r'as +«rabeiras». Que não fique nem um +grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que +não fique por ahi alguma coisa esquecida: essas +pás, esses +«baleios», tudo isso. Margarida! ó +Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! +se vae no carro está bem. <br /> + +<br /> + +E era como um doido a metter-se no serviço de todos, +<span class="pagenum">[30]</span> +muito +expedito, loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se +não +deixassem agora dormir... <br /> + +<br /> + +―Vamos lá! vamos lá! As pás, +ó tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma, que eu depois te +ensinarei, ouviste?―Que faz ahi no chão +esse «rasouro», ó coisa?―Olha p'r'o que +estás a fazer, tu: esses saccos que fiquem bem atados. <br /> + +<br /> + +O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de +«aguilhada» no ar, se era preciso mais alguma +coisa. <br /> + +<br /> + +―Não, pódes ir. Ouves? lá em casa que +tenham a ceia a horas. Avia-te. Ouves, Francisco? Não piques +os bois, a carrada é +valente. A passo, deixa ir os animaes a passo. Vae-te. <br /> + +<br /> + +Como o carro chiava, levantou a voz para dizer: <br /> + +<br /> + +―Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não +ouves? Os bois para o lameiro. <br /> + +<br /> + +Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:―«seria +preciso vir por elles?» <br /> + +<br /> + +―Não vale a pena, lá irão. <br /> + +<br /> + +E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os +levava, aquelles dois saccos... <br /> + +<br /> + +―Com mil demonios! Apostar que vocês não +adivinham? <br /> + +<br /> + +«Elles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois +saccos, olhem agora!» <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[31]</span> ―O «Sultão», sabem? o +«Sultão»! Esse é que os +levava. E digo-vos então que valia o dobro a colheita, assim +me Deus salve! <br /> + +<br /> + +Alguns riram da lembrança. «Tinha graça +que a scisma do animal não lhe passava nem á +mão de Deus Padre!» <br /> + +<br /> + +―A modos que isso é já mania, ó sr. +Thomé? <br /> + +<br /> + +Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» +de surpreza. Voltaram-se todos―«que era?» Na +estrada que a eira dominava, +um homem ia passando, a cavallo. <br /> + +<br /> + +―Vocês não querem vêr, ó +rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se pallido.―Aquelle burro, +hein? se não é o +«Sultão» é o diabo por +elle... <br /> + +<br /> + +Recordaram:―«estrella malhada na testa, a mão +direita branca»... <br /> + +<br /> + +―É elle, com um milhão de diabos! não +ha que vêr! E aquelle é o ladrão! <br /> + +<br /> + +E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas +da camisa, arrancou, d'um abanão, o cabo d'uma +«espalhadoura» +e botou a fugir direito á estrada. <br /> + +<br /> + +Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido: <br /> + +<br /> + +―Que o mata! gritavam todas.―Ai que o mata! Acudam! Ai a +desgraça! Nem a alma lhe deixa! Acudam! <br /> + +<br /> + +Os homens deitaram a correr atraz d'elle, affluia gente de todas as +bandas da eira, os cães ladravam. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[32]</span> ―Então, sr. Thomé? olhe que se perde, sr. +Thomé! diziam-lhe, já agarrados a elle.―Largue o +cabo, que se desgraça! Tudo se +faz a bem, sr. Thomé, largue vossemecê o cabo! <br /> + +<br /> + +―Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas, +mais a vocês, se me não largam! Arreda! <br /> + +<br /> + +E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a +elle mais ao cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por +instantes. <br /> + +<br /> + +―Vê, sr. Thomé?! <br /> + +<br /> + +«Não via nada, não queria ver cousa +nenhuma! Arreda!» E n'um rompante de ira, abrindo brecha com +um «sarilho», de um pulo +saltou á estrada, aos tropeções nas +pedras que encontrava, mal se +equilibrando. <br /> + +<br /> + +―Abaixo! intimou.―Você é um ladrão! <br /> + +<br /> + +―Um quê? <br /> + +<br /> + +―Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matal-o +aqui, seu patife! Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, +como um +cão! <br /> + +<br /> + +E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na +mão esquerda, e na direita o minacissimo cacete, berrava que +o deixassem, que ia tudo +razo―«com seiscentos milhões de +diabos!» <br /> + +<br /> + +Seguiu-se altercação, vieram razões de +parte a parte, insultos. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[33]</span> ―Já lhe disse que você é um +ladrão! <br /> + +<br /> + +―Ladrão será você!―tornou-lhe o outro +já de pé, avançando de punhos +cerrados.―E não m'o diga outra vez, que o racho! <br /> + +<br /> + +Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, +para a capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador +entrava de +tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito +branca bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe +já um pedaço de hombro. Tinham, alfim, conseguido +arrancar-lhe o +cacete, mas agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas +cabeças em +desordem. <br /> + +<br /> + +Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se +desculpava:―«tinha-o comprado a uns ciganos, fossem +lá adivinhar que o burro era +roubado...» <br /> + +<br /> + +―Vê, sr. Thomé? acudiram logo uns poucos.―O +homem não tem culpa.―E gritavam-lhe aos +ouvidos:―Não tem culpa! Comprou o animal +na boa fé. Vês-ahi está! <br /> + +<br /> + +―Mente! objectava incredulo o Thomé, cada vez mais +irado.―Mente! <br /> + +<br /> + +―Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado. <br /> + +<br /> + +―Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thomé. <br /> + +<br /> + +De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi +á má cara, chamar-lhe homem de rixas, +despropositado, bulhento. Elle +então, abrindo os braços como se fosse para +nadar, socegou um +pouco, amainou,―prometteu levar aquillo com paciencia, ás +boas. +Chegou +<span class="pagenum">[34]</span> +quasi a pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das +camarinhas.―«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe +queriam?» <br /> + +<br /> + +Chegou-se por fim a um accordo. «Sim, senhores, +accommodava-se, mas punha uma condição: largasse +elle o burro, e o +burro é que havia de resolver...» <br /> + +<br /> + +―Serve-lhe o contracto? <br /> + +<br /> + +―Qual contracto? <br /> + +<br /> + +―Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro +ás soltas. Depois, é p'ra onde elle +fôr. Se o burro larga +p'ra traz, lá p'r'as bandas d'onde você vem... +Você d'onde vem? <br /> + +<br /> + +―Dos Casaes. <br /> + +<br /> + +―Pois ahi está. Se o burro tomar p'r'os Casaes, o burro +fica seu... <br /> + +<br /> + +―E tomando direito á aldeia, é do sr. +Thomé,―concluiram alguns do grupo, conciliadores. <br /> + +<br /> + +―Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim. <br /> + +<br /> + +Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia +historia que o burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão +má +vontade, que até lhe custara tiral-o de casa. <br /> + +<br /> + +―Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe então que vae pr'os +Casaes...―affirmou. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[35]</span> ―Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vae. +Você está pelo dito?―quiz saber o +Thomé. <br /> + +<br /> + +―Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro +n'um rompante. Olhe: uma, duas, tres; ás tres largo-lhe a +arreata. <br /> + +<br /> + +Ia já a abrir a bocca para dizer―«uma!» +<br /> + +<br /> + +―Alto! fez o Thomé. Espere lá um pouco. Primeiro +hei-de fazer duas festas ao animal. <br /> + +<br /> + +E pôz-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no +peito, demorando-se um pouco a fital-o de frente, «para que o +animal o +conhecesse.» <br /> + +<br /> + +―«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! +«Sultão»! <br /> + +<br /> + +O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a +lembrança porventura adormecida d'aquelle nome despertara +subitamente... <br /> + +<br /> + +―Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se +p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casaes nem p'r'o logar. Assim. +Eh! Eh! <br /> + +<br /> + +E afastou-se para o lado, aguardando. <br /> + +<br /> + +Uma anciedade dominava n'aquelle momento os do grupo; o +Thomé pôz-se a roer as unhas, nervoso... <br /> + +<br /> + +―Então você porque espera? perguntou. <br /> + +<br /> + +Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo: <br /> + +<br /> + +―Á uma!... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[36]</span> +O Thomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de +medo, o olhar de esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da +mão +direita... <br /> + +<br /> + +―...ás duas! <br /> + +<br /> + +―Ih! c'um raio!... dizia baixo o Thomé. <br /> + +<br /> + +E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força. <br /> + +<br /> + +―...ás tres! <br /> + +<br /> + +Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de +vivas e gargalhadas! O Thomé vencera: corriam todos a +abraçal-o, affirmando que o caso era para foguetes. <br /> + +<br /> + +―Viva o sr. Thomé! Viva o +«Sultão»! Aquillo é que +é burro! <br /> + +<br /> + +―Aquillo é que é amigo, hão-de +vocês dizer!―emendava o Thomé a rir. Tenho-os com +dois pés, que não valem metade... <br /> + +<br /> + +―Oh! sr. Thomé! protestavam alguns. <br /> + +<br /> + +―Isto não é com vocês, mas +é como quem se confessa... Está visto que +não é com vocês. <br /> + +<br /> + +E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fóra, o +«Sultão» corria que voava, cauda no ar, +corda de rastos, perdendo-se por fim +lá ao fundo, na poeirada immensa da estrada, como que +nimbado n'um resplendor +de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia +agora o lavrador, após o fraternal abraço, +pregado no dos Casaes... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[37]</span> +Quando o Thomé chegou a casa, offegante, a suar, cheio de +gestos e de palavras entrecortadas de riso, já o +«Sultão», relinchando, pateava +á porta do antigo cortelho, n'uma grande impaciencia, um +«rap-rap» continuo na soleira. <br /> + +<br /> + +―Venham vêr! Venham cá vêr! berrava o +Thomé para a vizinhança. Ó Antonio! +Ó compadre! Ó Maria Engracia! <br /> + +<br /> + +Ás janellas assomava gente, perguntando se era fogo. <br /> + +<br /> + +―Qual fogo, nem qual carapuça! É o +«Sultão», mas é! Este +inimigo! Ó Josepha! Josepha! cá temos o burro, +este demonio. Assoma. <br /> + +<br /> + +Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effusão do +lavrador. Abraços? E até beijos. Aquillo era um +thesoiro +perdido que reapparecia alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, +perguntando se o seu homem teria endoidecido... <br /> + +<br /> + +―Palavra de rei, «Sultão», palavra de +rei! Anda d'ahi pelos saccos. São só dois. +Ó Josepha! Ouves? p'ra cá +esse garrafão que está ao pé da arca, +avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior. <br /> + +<br /> + +E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito +regalado, de um pulo. <br /> + +<br /> + +―Ah! <br /> + +<br /> + +A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafão. <br /> + +<br /> + +―Anda, mulher, põe aqui deante de mim. Avia-te. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma +observação, um conselho, qualquer coisa de +tomo... <br /> + +<br /> + +―Adeus, minhas encommendas! Não me fanfes, mulher, +não me fanfes. Põe aqui, que mando eu, avia-te. +Assim. Está bem. <br /> + +<br /> + +―Nome do Padre... <br /> + +<br /> + +―Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui! <br /> + +<br /> + +―Nome do Padre, nome do Filho... <br /> + +<br /> + +―A caneca! Venha de lá agora a caneca! <br /> + +<br /> + +―...nome do Espirito Santo! <br /> + +<br /> + +―Passa bem, ó mulher,―concluiu ás gargalhadas, +entre as gargalhadas dos demais.―Ouves? Quando o Manoel vier dos +ninhos, esse maroto, manda-m'o ás eiras. A trote, +«Sultão»! Eh! valente! <br /> + +<br /> + +E lá parte, veloz como uma setta. Já de longe +volta-se do repente: <br /> + +<br /> + +―Josepha! ó Josepha! n'esse alguidar do meio umas sopas de +vinho p'r'o «Sultão», ouviste? No do +meio. O grande +é muito grande, e esse pequeno não presta. Ouves? +mas quer-se coisa que farte, bem +entendido. <br /> + +<br /> + +E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao +garrafão. Arreata para a direita, arreata para a esquerda, +pernas a dar a dar, elle +lá vae n'uma corrida, sumido n'uma onda de poeira, +até chegar +ás primeiras «mêdas». <br /> + +<br /> + +―Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma +<span class="pagenum">[39]</span> +pinga, mulher! Lá por andarmos de mal ha 15 annos isso +acabou-se! <br /> + +<br /> + +E o Thomé atravessou a eira sempre a cavallo no +«Sultão», caneca de vinho para a +direita, caneca de vinho para a esquerda. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Meia hora depois regressava, o «Sultão» +pela arreata, o Manoel no meio dos saccos, e adeante do Manoel o bello +garrafão―sem +pinga... <br /> + +<br /> + +Pelo caminho, a todos o Thomé contava a historia, a rir como +um perdido, n'um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas. <br /> + +<br /> + +―Colheita rica, sim senhores, um colheitão! <br /> + +<br /> + +E parando á porta, ainda a mulher se benzia do alto da +escada, mexendo e remexendo o alguidar de barro: <br /> + +<br /> + +―Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo. <br /> + +<br /> + +...Ao mesmo tempo que o Thomé, abrindo os braços, +respondia reclamando as sopas: <br /> + +<br /> + +―Amen! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c3"></a>ULTIMA DADIVA </h3> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Ao dr. A.A. da Fonseca +Pinto.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Distante</span> do rio +apenas um tiro de bala ficava o horto do +José Cosme, bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de +fructas e +hortaliças, fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas +em silvedo, +communicando com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali +quanto ao pobre homem restava dos seus antigos haveres:―o horto, a um +canto a nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga +magnolia gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma +porta e duas +janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que +lhe pendiam dos beiraes enlaçadas com as trepadeiras. <br /> + +<br /> + +De modo que na primavera, quando as parasitas abriam +<span class="pagenum">[42]</span> +serenamente os +seus melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a +magnolia +toda se toucava de flores fazendo docel á vivenda, aquelle +pequeno canto d'horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e +limpida, tomava a +feição ingenua de uma delicadissima tela de +paizagista, aquarella deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos +na poesia rustica da +sua simplicidade. <br /> + +<br /> + +No verão, ás horas de calor, quando o sol +caía a pino sobre a larga paizagem adormecida e turva, e as +arvores da estrada não +davam sombra que aliviasse, aquella tranquillidade com que o +José Cosme +ressonava sob o alpendre, braços nús e peito +nú, o +chapeirão de palha grossa resguardando-lhe a cara, fazia +inveja aos que por ali passavam, +cançados e cheios de poeira, flagellados por aquella +estiagem inclemente. <br /> + +<br /> + +―Ó tio José!―gritavam-lhe do caminho.―Tio +José! Ó regalado! <br /> + +<br /> + +Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses +deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto. +<br /> + +<br /> + +Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas +não havia outro que se lhe comparasse, tão +esmerada era a sua cultura―tão esmerada e tão +completa, pois que de +mais a mais nem palmo de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas +com symetria agradavel, verdejavam cheios de viço, frescos e +medrados, legumes de +todas as castas―desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, +toda acaçapada no chão humido das regas, +até ás trepadeiras das vagens que enroscadas +ascendiam pela basta «rodriga» de +castanho aparada com todo o esmero, formando massiços de +verdura +<span class="pagenum">[43]</span> +sombria que os casulos +esguios dos feijões crivavam de alto a baixo. Arvores, +apenas as +precisas para aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a +vegetação franca das hortaliças. Mas +todas as que havia eram mimosas de +fructas nas estações competentes―cerejas, peras, +maçãs, pecegos mesmo. <br /> + +<br /> + +Poucas flôres: uma coisa que todos notavam com estranheza. +Mas desde que lhe morrera a mulher mais a filha, o José +Cosme deixara-se +de as cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, +que por signal vinham enfezados. Só teve o cuidado de +não deixar morrer os goivos. Uma vez por anno, em fins de +Maio, colhia-os todos de uma vez, +e ia leval-os em braçado á sepultura rasa das +suas +defunctas. <br /> + +<br /> + +Exactamente n'essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a funebre +visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear +levantou-se bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande +vontade de chorar. Estava nas suas horas tristes, n'essas horas em que +as energias +todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o +flagello de uma dôr violenta, exacerbada agora pela saudade +dos que lhe +tinham morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das +lagrimas. De modo que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades +custavam o dobro a +supportar. Abstracto, n'uma especie de entorpecimento idiota, percorria +sem descanço todas as ruas do horto, cabisbaixo, +acabrunhado, automato. Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma +quietação attenta, logo um gesto brusco +desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um +fundo gemido, e punha-se de novo a andar. <br /> + +<br /> + +―Vens ou não vens?―perguntava elle, evocando com dorido +esforço a imagem da mulher ou da filha. Não +vinha; +<span class="pagenum">[44]</span> +e quando apparecia +era como se fosse um relampago, apagava-se logo. <br /> + +<br /> + +N'esta lucta com a sua dôr as horas iam passando longas. Era +já tarde, talvez a uma da noite. Luz, apenas a das +estrellas, pois que o luar nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o +largo silencio da noite, apenas cortado, ao longe, pela melopeia +somnolenta do rio. <br /> + +<br /> + +Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do +José Cosmo e viu um vulto perpassar de repente e de repente +sumir-se n'um recanto onde a sombra era mais densa. <br /> + +<br /> + +―Temos historia...―resmungou comsigo o rapaz. <br /> + +<br /> + +E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, á espreita. +Não desconfiou que fosse o José Cosme: aquillo +era mariola de larapio que +vinha por ali fazer das suas. Agachou-se então, e poz-se a +procurar uma +pedra. Apanhou duas, para o caso de não acertar a primeira. <br /> + +<br /> + +―Cão do diabo!―exclamou baixo o rapaz, pondo-se em +posição de jogar a pedra.―Espera que eu te +arranjo...―E já ia arremessal-a na +direcção do canto, quando o vulto saiu da sombra +e tomou por um carreiro, direito +ao logar onde o rapaz estava. <br /> + +<br /> + +―Melhor! Mais a geito ficas... <br /> + +<br /> + +E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto +que avançava, para ver se o conhecia. Quem quer que era +trazia a jaqueta sobre os hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A +meio do carreiro, mesmo defronte d'elle, parou. Foi então +que o rapaz se lembrou do +José Cosme. O vulto parecia, com effeito, ser o +<span class="pagenum">[45]</span> +d'elle; +lembrava-se agora de ter ouvido que o pobre homem, quando o ralavam +saudades da mulher e da filha, levava noites em claro, a percorrer como +doido aquelles +carreiros por onde ellas tinham andado. <br /> + +<br /> + +Quando ouviu soluçar, acabou então de se +convencer. Insensivelmente, deixou cair as pedras e perguntou: <br /> + +<br /> + +―Tio José! Ó tio José! Sou eu, o +Luiz... Vossemecê que tem? <br /> + +<br /> + +O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O +rapaz insistiu: <br /> + +<br /> + +―Doe-lhe alguma coisa, ó tio José? <br /> + +<br /> + +―Não dóe, não. Sabes que mais? +peço-te pelas alminhas que me deixes. Bem me bondam as +minhas afflicções. Vae com Deus, +vae. <br /> + +<br /> + +O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o +José Cosme dera áquellas palavras, e retirou-se +silencioso, quasi +aterrado agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, +caso jogasse +a pedrada. <br /> + +<br /> + +No emtanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro +ruido que não fosse o das aguas do rio. E o José +Cosme, sem despegar do +seu fadario, ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou +um somnambulo. +Ás vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. +Como não sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. +N'isto, de uma vez que passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir +passos. <br /> + +<br /> + +―Ó Thomaz! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[46]</span> ―Sr. José!―respondeu o que entrava, n'uma voz que era +mesmo voz de barqueiro. <br /> + +<br /> + +O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas +remordendo os beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse +encontral-o a +pé, elle então redarguiu-lhe que nem se tinha +deitado. <br /> + +<br /> + +―Como tinha de madrugar... <br /> + +<br /> + +―Pois são horas de largar, sr. José; isto vae +p'r'as duas. Não tarda que comece a amanhecer.―E como +estavam á porta de +casa:―Será bom acordar já o pequeno: veste, +não veste, +é tempo que se vae.―Iam á vela se o tempo +não mudasse. Era bom aviar, por isso. <br /> + +<br /> + +Mas á ideia de ter de acordar o pequeno, o José +Cosme deixou-se cair sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e +desatou a chorar violentamente. <br /> + +<br /> + +O barqueiro tentou animal-o, constrangido. <br /> + +<br /> + +―Então, sr. José?... O chorar é +lá para as mulheres. Olhem agora que homem!―E tentava +levantal-o, pol-o de pé.―Limpe +lá essas lagrimas, que vae affligir o pequeno! Ou quer que +elle vá a chorar todo o +caminho? <br /> + +<br /> + +O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, +e poz-se a enxugar os olhos com a manga da camisa. <br /> + +<br /> + +―Pois então levante-se lá.―E segurou-o com +força por baixo dos braços.―Assim! Lá +porque o pequeno vae para o +Brazil não fique vossemecê a pensar que o +não torna a ver. <br /> + +<br /> + +Mas era isso mesmo o que elle pensava... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> ―Porque não sei que me adivinha que não torno a +ver o pequeno―concluiu a chorar o José Cosme. <br /> + +<br /> + +―Scismas! lembranças que veem á gente quando +está afflicta. Mas ha-de vel-o que o não ha-de +conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno +menos anno, apparece-lhe ahi rico... <br /> + +<br /> + +Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que +desejava era que voltasse e que elle ainda fosse vivo só +para o +abraçar. <br /> + +<br /> + +Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o +José Cosme que se animasse para animar o +pequeno―recommendava o barqueiro. <br /> + +<br /> + +―Sim... sim...―tartamudeava o Cosme.―Vamos lá com Deus! +Com'assim.. <br /> + +<br /> + +E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito á porta +para chamar a pequeno. Não havia remedio, tinha nascido em +má +hora, havia de ser desgraçado até que o levassem +para a cova... +Sobre a estreita e humilde cama o filho dormia profundamente. Que +dôr, ter do o acordar! +Vieram-lhe tentações de mandar embora o Thomaz e +deixar +dormir a creança. Quem sabe se a sua sorte futura, se toda a +sua vida, valeria a boa tranquillidade +d'aquelle somno! Não tinha coragem para o acordar, fazel-o +vestir: era quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o +tecto paterno... O ultimo somno! o ultimo somno! <br /> + +<br /> + +―Ainda se o deixassemos acordar...―aventurou-se a dizer o triste. <br /> + +<br /> + +Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas +de pôr o barco a andar. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[48]</span> +O José Cosme accendeu então a candeia, reccioso +de que a luz o acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe +a +respiração. Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe +a mão sobre a +cabeça e chamou baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o, +sobresaltado como se fosse praticar um grande crime: <br /> + +<br /> + +―Filho, olha que são horas, meu filho... <br /> + +<br /> + +Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o +estonteamento do somno, cerrando os olhos áquella +hostilidade viva da luz, o pae agarrou-se a elle n'um +abraço, e ambos romperam a +chorar. <br /> + +<br /> + +―Adeus, pae! <br /> + +<br /> + +―Adeus, filho! <br /> + +<br /> + +Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar á porta, +avançou para desatar aquelle abraço. <br /> + +<br /> + +―Olhe que é tarde, sr. José. Perdoe, mas olhe +que é tarde! <br /> + +<br /> + +O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do +alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto. <br /> + +<br /> + +―A andorinha, filho?―perguntou o José Cosme.―Deixa que eu +hei-de olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado. +<br /> + +<br /> + +Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era +só um instante. Lá estava ella, coitadinha! +sentiu-a estremecer +quando lhe tocou com as pontas dos dedos... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[49]</span> ―Adeus!―disse-lhe o pequeno afagando-a. <br /> + +<br /> + +A esta palavra, o pae retrahiu os braços e tomando o filho +no collo seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de +pinho: +toda a bagagem do Joaquim. <br /> + +<br /> + +Ao transpor o cancello o José Cosme deteve-se um pouco e +perguntou soluçando: <br /> + +<br /> + +―Quando voltarás ao horto, meu filho? <br /> + +<br /> + +O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o +separavam de tudo o que adorava―a andorinha, depois da andorinha o +horto, as arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim. <br /> + +<br /> + +Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. +Quando o sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, +deram-se um +longo beijo, humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o +triste pae +desejava que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante +d'elles, +de modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia +principiava, divisava-se já perto o vulto escuro do barco +onde os da +tripulação fallavam alto. <br /> + +<br /> + +―Prompto?―perguntou ainda de longe o Thomaz. <br /> + +<br /> + +Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia +romper a lua. <br /> + +<br /> + +Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os +soluços dos dois, parece que prolongados infinitamente, na +sua expressão +de angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o +barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram á +beira do rio, apressou-se a dizer para o pequeno: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[50]</span> ―Ora bem, Joaquimsinho, beija a mão a teu pae e dize-lhe +adeus. <br /> + +<br /> + +Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a +querer animar o filho: <br /> + +<br /> + +―Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu +amor... Nossa Senhora te veja ir.―E fez-lhe prometter que havia de +resar sempre a Nossa +Senhora, elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem +fazia a gente feliz. <br /> + +<br /> + +―Não te esqueças d'ella mais da alminha de tua +mãe e de tua irmã... <br /> + +<br /> + +Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do +pae, beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para +dizer palavra. Então o José Cosme, perdida a +esperança de animar o filho, só exclamava +desvairado: <br /> + +<br /> + +―Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia! <br /> + +<br /> + +E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na +cabeça, nas mãos. Até que o Thomaz +teve de intervir, era +preciso despegar d'ali por uma vez. <br /> + +<br /> + +―Com'assim, sr. José, isto tem de ser...―E segurando o +pequeno com força puxou-o para elle. Quando já o +tinha nos +braços, ouviu-se o José Cosme que supplicava de +mãos postas: <br /> + +<br /> + +―Só um instante, só um quasinadinha, Thomaz!―E +o pobre pae caia de joelhos na areia, n'uma attitude de supplica. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[51]</span> +Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando +ao colo a creança. <br /> + +<br /> + +―Rema!―intimou em voz rapida. <br /> + +<br /> + +O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os +remos fizeram <em>plhau</em>! sobre a agua. <br /> + +<br /> + +Então o choro do José Cosme tornou-se de uma +violencia desesperada, ao ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe +adeus lá do +barco. <br /> + +<br /> + +―Adeus, Joaquim, adeus! <br /> + +<br /> + +―Adeus, pae! <br /> + +<br /> + +―Adeus! <br /> + +<br /> + +Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme +gritou na direcção do barco: <br /> + +<br /> + +―Thomaz! ó Thomaz! por alma de teu pae faz lá +alto um instante. <br /> + +<br /> + +Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resolução, +mas já agora era melhor ficar sósinho de todo. E +segurando nos dentes um pequeno +objecto, arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O +Thomaz que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o +José Cosme, velho nadador destemido, com meia duzia de +braçadas +ganhou-lhe de prompto a quilha. O filho tinha-se debruçado, +na ancia de +esperar o pae, de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o +José +Cosme entregou ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a +chorar: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[52]</span> ―É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua +mãe, meu filho!... Reza-lhe, sim?! <br /> + +<br /> + +E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao +barqueiro que lhe chegasse o pequeno para o ultimo beijo... <br /> + +<br /> + +Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a +lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue +em região mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro +da noite, apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar +desalentado do triste nadador, á voz do filho que chamava +respondia cada +vez de mais longe―longe como se fôra do Infinito! a voz +lacrimosa do +pae―com o seu funebre <em>adeus</em>! que elle bem sabia +ser eterno... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +...Só quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na +distancia, diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das +aguas, fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar +á praia, é que o pobre abandonou o areal e se +foi, sempre a +chorar, tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento +agudissimo do Polo, na direcção do horto +silencioso... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>COMEDIA<br /> + +DA<br /> + +PROVINCIA </h2> + +<br /> + +<div class="signature1"><em>A Alberto Braga</em>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +I<br /> + +<br /> + +</h4> + +<h3><a name="c4"></a>PRELUDIOS DE FESTA </h3> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Esse</span> anno, a festa da +senhora das Dôres devia ser coisa de +estalo. A começar pelo juiz, todos os da mesa eram de +respeito―abonados e decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que +afinal era o melhor da festa, vinha lá de Chaves, longe que +nem seiscentos diabos. +Mas era obra de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse +coisa que representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava +mesmo a entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um +macaco, +se tivesse tempo de o acabar. <br /> + +<br /> + +―Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de lêr a +carta. E correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que «no +seu +anno» a <em>coisa</em> fosse de arromba! Depois, +era um despique. No +anno atraz, o +José da Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, +só +porque +<span class="pagenum">[56]</span> +vinha lá uma peça que era um castello a +dar tiros, assim: Fff! Pum! <br /> + +<br /> + +―Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus +botões o Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar +que na noite do arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas +pelo fogo que apresentára. Espalhou-se a novidade. Uma hora +depois, na +villa, ninguem fallava n'outra coisa. <br /> + +<br /> + +―Então você já sabe? <br /> + +<br /> + +―Já sei. A cegonha. <br /> + +<br /> + +―A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro... <br /> + +<br /> + +―O que eu quero vêr é o camello. Feio bicho, +já viu? <br /> + +<br /> + +―Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adeante do +<em>Valente Rei Arauto Fiel</em>. <br /> + +<br /> + +Enganava-se. <br /> + +<br /> + +O escrivão da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua +com o Alves aferidor. <br /> + +<br /> + +―Até que emfim, amigo Alves. Até que emfim vou +ter o gosto de o ver arder. <br /> + +<br /> + +O outro não percebeu. «Que se +explicasse...» <br /> + +<br /> + +―Um urso, no arraial queima-se um urso. <br /> + +<br /> + +―Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o +Alves.―Tambem se lá queima um burro. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[57]</span> +Ás duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de +gente. Quem não ia, mandava recado: todos queriam saber se +vinha o animalejo da sua predilecção. <br /> + +<br /> + +O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a +porta, por dentro. <br /> + +<br /> + +―Põe a tranca, se fôr preciso. <br /> + +<br /> + +Mas então era cá da rua: <br /> + +<br /> + +―Ó sr. Antonio! <br /> + +<br /> + +E na porta as pancadas ferviam: <br /> + +<br /> + +―Truz! truz! truz! Sr. Antonio! <br /> + +<br /> + +―Éna! c'um raio de diabos!―fazia lá de dentro o +homem, furioso. <br /> + +<br /> + +―O senhor faz favor? É só uma palavrinha. <br /> + +<br /> + +Á janella assomava então o Antonio Fagote, com os +oculos na ponta do nariz e a carta do foguetorio na mão. <br /> + +<br /> + +―O camello? perguntava zangado.―O urso?! Camellos me parecem +vocês, ouviram? O que o homem diz é isto. <br /> + +<br /> + +E lia a carta, rematando: <br /> + +<br /> + +―Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que +serão, e talvez o macaco, se houver tempo de o acabar. E +agora, sabem que mais?... Tirava +os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.―Irra! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[58]</span> +E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado +segredo. Não fosse elle burro... Mesmo porque cada um +começou logo a +inventar animaes, e todos é que não podiam vir. +Claro! E +não vindo todos, ahi tinhamos nós descontentes. E +havendo descontentes, quem +lucrava era o José da Loja. <br /> + +<br /> + +―Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com +aquelle espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a +mais, já lhe tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava +mal do negocio... <br /> + +<br /> + +―Farofias! tinha dito o José da Loja. Farofias! <br /> + +<br /> + +―Pois se m'o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal +soube. <br /> + +<br /> + +E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde +rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se +proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de +eleições. Depois, bom olho para a +caçadeira. D'uma +occasião, que foi preciso dar montaria aos +ladrões, portou-se como um leão, foi +elle que deu voz de preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh'a +deu? A phrase ficou lendaria: <br /> + +<br /> + +―Como-te a alma se te mexes! <br /> + +<br /> + +―E o outro não se mexeu, que elle comia-lhe a alma! +commentavam convictos. <br /> + +<br /> + +Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua +figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava +com 60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora. +Não era nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada, +olhos pequenos, +<span class="pagenum">[59]</span> +uma largura de hombros que era o principal indicio de força. +Pescoço curto. Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e +arremettia com +força, conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n'aquelle +movimento sacudido. <br /> + +<br /> + +―Safa! que isso ahi é de ferro! diziam os rapazes. D'uma +canna, hein? <br /> + +<br /> + +Mas bom homem, d'uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para +se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma +testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu lá da +cadeira, foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava +sério +quando promettia arrebentar o José da Loja. A mulher +interveio +pacificadora: <br /> + +<br /> + +«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, +que não era tão mau como o pintavam.» <br /> + +<br /> + +―Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse +velhaco! redarguiu o Fagote. Do que elle é capaz sei eu. <br /> + +<br /> + +Mas n'esta occasião, de todas as velhacarias do +José da Loja, só lhe lembrava uma: ter sido juiz +o anno atraz! <br /> + +<br /> + +Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz +este anno. <br /> + +<br /> + +―Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa +em casa foi elle. Elle é que se lembrou de me escolher, como +quem diz: «entrego-te a vara, sempre quero vêr como +te +arranjas...» <br /> + +<br /> + +―Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das +idéas do seu Antonio.» <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[60]</span> ―Sejam idéas, que não sejam! teimou o Fagote. +Isto foi tal e qual, assim me Deus salve! <br /> + +<br /> + +―Mas quem t'o disse, homem? Quem foi que t'o disse? <br /> + +<br /> + +―Quem m'o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da mão +direita.―Foi este mindinho. Não falha. <br /> + +<br /> + +E então desabafou: «que não pensasse o +José da Loja, que o havia de levar á parede. +Agora levava! A festa ha-de se fazer, e +festa de arromba; <em>nanja</em> como a d'elle que +só levava seis +anjos, e +não sei quantos andores, acho que meia duzia!» <br /> + +<br /> + +―Ó mulher, então é para que saibas +onde chega o brio d'um homem! Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo +preciso até vendia a +camisa do corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José +da Loja! E +espipava olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos, +compungida de ver assim o seu Antonio. <br /> + +<br /> + +E poz-se então a renovar ordens, +recommendações que a mulher já estava +farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se +pensavam, não era ao atar das sangrias!» <br /> + +<br /> + +―Leitões se os cá não houver, +manda-se o Miguel á cata d'elles por esses povos +á roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos. +<br /> + +<br /> + +A mulher contraveio:―«dois seriam bastantes...» <br /> + +<br /> + +―Mau que ahi principiamos nós!―E poz-se a assobiar e a +rufar com o pé no soalho, arreliado.―Tres é que +hão de ser. +Não quero cá dois, porque dois eram os do +<em>outro</em>, o anno passado. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[61]</span> +A esta razão, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do +silencio da mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o +<em>outro</em>. <br /> + +<br /> + +―Agora não fanfas tu... insistiu elle, risonho. +É assim mesmo que eu gosto. Signal é que tens +vergonha. A <em>outra</em> tamem +não é mais que a ti. <br /> + +<br /> + +A <em>outra</em> era a mulher do José da Loja, +está +visto. <br /> + +<br /> + +―Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada. <br /> + +<br /> + +―Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora +que antes de casarem... <br /> + +<br /> + +―E olha que depois de casada... insinuou a sr.<sup>a</sup> +Luiza, de venta no +ar, enfiando a agulha. Cala-te bocca. <br /> + +<br /> + +Façamos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que +não se calou. Mas n'este particular, o resto do dialogo +convém que se +omitta, mesmo porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal +á mulher +do José da Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas +n'isto não lhe +faço a vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem +sabe que eu sou conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que +por uma +associação logica de idéas a conversa +veio parar em vitellas... <br /> + +<br /> + +―É preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o +Antonio Fagote. Sem vitella é que se não faz +nada. Uma +perna sempre se gasta. <br /> + +<br /> + +Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio. +De mais a mais sabia-se que o prégador dava o cavaco por um +bom +pedaço de vitella assada. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[62]</span> ―O prégador é que arrasta ahi muita gente, +observou a sr.<sup>a</sup> Luiza. Para um boccado de +sentimento não ha +como elle. Quando foi das +missões, o que elle dizia d'aquelle pulpito abaixo! +É quanto se +póde! <br /> + +<br /> + +―A mim o devem, se cá vem!―disse orgulhoso o Fagote. Que o +homem não queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha +de ir a umas caldas, e +14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle. <br /> + +<br /> + +―Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que é o +missionario... <br /> + +<br /> + +Estavam n'isto, quando bateram á porta. O Fagote foi ver +á janella. <br /> + +<br /> + +―Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo. <br /> + +<br /> + +Era a creada da mestra regia, foram abrir. <br /> + +<br /> + +―A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está +a sr.<sup>a</sup> Luiza, e este bilhetinho para o sr. +Antonio. <br /> + +<br /> + +Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o Antonio +Fagote foi accender uma luz. <br /> + +<br /> + +«Que conversassem, emquanto elle via se tinha +resposta.» <br /> + +<br /> + +―Muito calor, começou a sr.<sup>a</sup> Luiza. <br /> + +<br /> + +―E então a casa da sr.<sup>a</sup> mestra que +é mesmo um +forno, disse por demais a creada. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[63]</span> +E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.<sup>a</sup> +Luiza, ao ouvido, de que +lhe queria uma palavrinha. <br /> + +<br /> + +Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n'uma +serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares. <br /> + +<br /> + +―Está se aqui bem! exclamou consolada a sr.<sup>a</sup> +Luiza. <br /> + +<br /> + +―Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu +queria dizer era pedir-lhe um favor, disse atrapalhada a creada. <br /> + +<br /> + +―Se estiver na minha mão... <br /> + +<br /> + +A outra começou: «A sr.<sup>a</sup> +Luiza estava ao facto do +que se dizia d'ella com o criado do inglez. Decerto estava ao facto. +Mas era mentira. Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era +redonda mentira.»―Estamos para casar! é o que +estamos! +«Elle já mandara vir os papeis lá da +terra, não podiam +tardar».―Está claro que eu tenho +affeição ao rapaz... <br /> + +<br /> + +―Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.<sup>a</sup> +Luiza, para +dizer alguma coisa. <br /> + +<br /> + +―Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas é ahi +que eu quero chegar. <br /> + +<br /> + +―Que experimente o limão azedo, aconselhou a sr.<sup>a</sup> +Luiza. +É milagroso nas quartans. Não se afflija, que +isso não ha-de +ser nada.―E dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que +sabia de bom para matar quartans, pensando que era o que ella queria, +afinal. <br /> + +<br /> + +―Não senhora. O rapaz está melhor. Caso +é que não +<span class="pagenum">[64]</span> +recáia. Mas é por +via d'isso que eu lhe quero pedir um favor. <br /> + +<br /> + +Chegou para ella o banco de cortiça e confidenciou: <br /> + +<br /> + +―Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a +bandeira, qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja, +n'aquelle estado! inda não ha nada que sahiu da cama. <br /> + +<br /> + +―Pelos modos, os rapazes vão este anno longe pelo pau, +disse com pompa a sr.<sup>a</sup> Luiza.―Muito longe! <br /> + +<br /> + +―Ouvi que á Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo +com quem elles se vão metter, o Canellas! Se desconfia, +vae-se para +lá de clavina e faz alguma desgraça. Mais elle, +que é atrevido! +<br /> + +<br /> + +Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde elles iam +pelo pau é que ella não sabia. <br /> + +<br /> + +―A outra noite é que para ahi estiveram a combinar, o meu +Antonio mais os mordomos. Não ouvi. <br /> + +<br /> + +―Pois é lá! exclamou a creada. Mas o que eu +queria, sr.<sup>a</sup> Luiza, é que o seu +marido me não +deixasse ir o rapaz na malta,―supplicou +afflicta a rapariga. <br /> + +<br /> + +―Lá isso, esteja descançada, não vae! +prometteu com grande auctoridade a sr.<sup>a</sup> +Luiza.―Digo-lhe eu que +não vae. E se não +quer mais nada... <br /> + +<br /> + +―Era só isto, muito agradecida á senhora. <br /> + +<br /> + +N'esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a +testa. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[65]</span> ―Ora pois então aqui vae a resposta. Má letra, a +sr.<sup>a</sup> mestra que desculpe. Mas emfim que leia +como podér. <br /> + +<br /> + +―Então muita massada co'a festa? inquiriu solicita a +rapariga. <br /> + +<br /> + +―Muita. Faz lá ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz +despesa. Todos os dias são precisas coisas, mais isto, mais +aquillo. Ahi +está que já hoje mandei pedir para o Porto uma +palheta para o clarinete do Alves. <br /> + +<br /> + +―Chh! fez admirada a rapariga. <br /> + +<br /> + +―Pois é verdade. Fóra o mais! fóra o +mais! Nicas! E depois d'uma pausa:―Só com o que se gasta no +jantar, e é +verdade que ha muita coisa de casa, mas só com o que se +gasta no jantar, a bem dizer +que se fazia uma horta, além no prado. <br /> + +<br /> + +―Muita gente... disse a rapariga. <br /> + +<br /> + +―Muita! e depois de certa aquella... Á meza talvez vinte e +quatro pessoas... <br /> + +<br /> + +A rapariga benzeu-se! <br /> + +<br /> + +―Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o +Antonio Fagote.―Olhe: o prégador... <br /> + +<br /> + +―Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga. <br /> + +<br /> + +―É. Não o ha melhor. Missionario...―explicou o +juiz. Pois o prégador, um; com mais quatro padres, cinco; +com quatro musicos, nove; o +compadre, os pequenos, dois, doze. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[66]</span> ―A comadre não vem! que pena! fez do lado a sr.<sup>a</sup> +Luiza. <br /> + +<br /> + +―Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O +Morgado da Fonte e o Antonio Capador, quatorze. O Telles, é +verdade, Telles +escrivão, quinze. (<em>Pausa</em>). Com mais +alguem que venha, +vinte e quatro. +Póde-se contar com mais de vinte e quatro pessoas +á mesa.―E a rir-se: Mas +ha-de sobrar muita coisa, graças a Deus... E depois os +pobres? <br /> + +<br /> + +―Isso então é uma praga! exclamou a sr.<sup>a</sup> +Luiza. +Até parece que veem do chão assim... E collocava +em pinha os dedos todos das +mãos ambas. Assim... <br /> + +<br /> + +Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.―«Adeusinho! o +que havia de estimar é que tudo corresse como +desejavam.»―E se +fôr preciso qualquer coisa... offereceu-se. As minhas fracas +posses... <br /> + +<br /> + +―Obrigada. Não faltarão occasiões. +Muitos recadinhos á senhora mestra... <br /> + +<br /> + +―E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio +Fagote. <br /> + +<br /> + +E então explicou á mulher: «Aquelle +bilhete da mestra era a mandar-lhe perguntar se sempre era certo vir o +macaco de fogo». <br /> + +<br /> + +―Diz que o irmão, o brazileiro, assim que souber que ha +macaco de fogo no arraial, não tem mão em si que +não +venha. E Deus o queira, porque o ponho ao pallio. Como tres e dois +serem cinco. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[67]</span> +A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mandára. <br /> + +<br /> + +―Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o +brazileiro. Sempre é homem que sabe dar o merecimento +ás coisas... Mas o diabo +agora é o macaco! ponderou muito apprehensivo. +Está para ahi meio +mundo á espera do macaco... <br /> + +<br /> + +A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o +bicho não viesse. <br /> + +<br /> + +―Táte! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na +testa.―Dá cá d'ahi a minha vestia. Manda-se uma +«parte» ao +homem. <br /> + +<br /> + +―Tambem póde ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje +é que não, aquillo já está +fechado, o fio. <br /> + +<br /> + +―Vae ámanhã. «Agradeço +favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez accrescente: +«Não se olha a dinheiro». +Mas é que accrescento, por via das duvidas. <br /> + +<br /> + +Então, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do +homem: <br /> + +<br /> + +―Ouves? já se não póde ir ao lameiro +do Canellas pelo pau. <br /> + +<br /> + +―Han? qual pau? <br /> + +<br /> + +―O da bandeira. Todo o mundo já o sabe. <br /> + +<br /> + +Elle riu-se. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[68]</span> ―Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!... <br /> + +<br /> + +E como ella ficasse estupefacta. <br /> + +<br /> + +―Nunca ouviste dizer que se põe o ramo n'uma porta e que se +vende o vinho n'outra? <br /> + +<br /> + +―Ah!... <br /> + +<br /> + +―Mas são verdes. Pois ahi é que vae a historia, +e cantarolou, satisfeito: <br /> + +<br /> + +<div class="poetry">O ladrão do negro melro<br /> + +Onde foi fazer o ninho </div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de +manhãsinha o Antonio Fagote sentiu bater á porta, +de rijo. <br /> + +<br /> + +―Vae lá ver o que será, ó +Luiza!―disse da cama o Fagote sobresaltado. <br /> + +<br /> + +Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de +rompante pelo quarto. <br /> + +<br /> + +―Vista-se, homem! Ande d'ahi depressa! Vista-se. <br /> + +<br /> + +―Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado. <br /> + +<br /> + +―Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[69]</span> ―Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguem á morte? <br /> + +<br /> + +―Peor do que isso! resumiu o José Manco. <br /> + +<br /> + +―Peor do que isso, então não sei... <br /> + +<br /> + +―Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu +cá o espero na rua. <br /> + +<br /> + +O Antonio Fagote vestiu-se á toa, aparvalhado. Foi +já na rua que acabou de enfiar a jaqueta. As correias dos +sapatos iam de rastos, +não levava chapeu. <br /> + +<br /> + +―Prompto! cá estou! <br /> + +<br /> + +―Venha comigo, avie-se. Abotôe as calças, se faz +favor. <br /> + +<br /> + +E rodaram rua acima. <br /> + +<br /> + +―Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote. <br /> + +<br /> + +―Aguarde, que já vae saber. Não tarda. <br /> + +<br /> + +De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja. <br /> + +<br /> + +―Roubaram Nosso Pae, aposto?! <br /> + +<br /> + +―Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos +e veja vossemecê isto, esta porcaria! <br /> + +<br /> + +E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de +papel, pregada na torre com miolo de pão centeio mastigado. +Era um pasquim! +Varios desenhos de +<span class="pagenum">[70]</span> +animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas, +aos coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:―<em>Farofia</em>! +<br /> + +<br /> + +Por um pouco, Antonio Fagote, de mãos atraz das costas, +amarasmou-se, com os olhos fitos no papel. <br /> + +<br /> + +E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n'uma +escamação, aos labios do Antonio Fagote aflorou +apenas um sorriso. <br /> + +<br /> + +―Hum! resmungou. Bem sei... <br /> + +<br /> + +―Não tem que saber,―fez o outro. <br /> + +<br /> + +―O patife do Jose da Loja... <br /> + +<br /> + +―Pois está visto. <br /> + +<br /> + +―Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande socego o +Fagote.―Arranque lá isso, e venha você d'ahi, se +quer ver. <br /> + +<br /> + +O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas +opinou prudentemente que era melhor botar o patife ao desprezo. <br /> + +<br /> + +―Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e +mettendo-o na algibeira de dentro.―Pois sim! <br /> + +<br /> + +Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos +arrancados do codigo penal. «Que não fosse agora +pagar por bom semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a +offensa, com elle José Manco. Mas fazia de conta... Como o +outro que diz, +vozes de burro não chegam ao céo». <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[71]</span> ―Bem, levará só uma lambada, attendendo a que +mais ninguem viu isto, disse n'um grande ar de condescendencia o +Fagote.―E você +vá lá regar a horta. <br /> + +<br /> + +Foi-se d'alli direito á casa do José da Loja. +Estava ainda fechada. Poz-se á cóca, de longe, +com a ira muito +exulcerada pela arrelia d'aquella demora. <br /> + +<br /> + +―Grande cão! grande cão! monologava. <br /> + +<br /> + +Até que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro +em pessoa, de casaco de lona e chinelos de trança, muito +fresco. +Não deu pelo Antonio Fagote senão quando se viu +ao pé d'elle, cara a +cara entre o balcão e a porta. <br /> + +<br /> + +―Ó sr. José. <br /> + +<br /> + +―Dirá. <br /> + +<br /> + +―Venho aqui saber d'um caso. <br /> + +<br /> + +Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh'o +pôr ao pé da cara: <br /> + +<br /> + +―Foi o sr. José que fez isto? <br /> + +<br /> + +O outro olhou-o, attonito. <br /> + +<br /> + +―Sim! se foi o sr. José que fez isto? <br /> + +<br /> + +―Nada, eu não senhor. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[72]</span> ―Jura pela boa sorte dos seus filhos? <br /> + +<br /> + +Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado. <br /> + +<br /> + +―Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote. <br /> + +<br /> + +O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe: +<br /> + +<br /> + +―É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso +é outro. <br /> + +<br /> + +―É outro, que outro?!―disse arrogante o José da +Loja, n'um impeto, barriga panda sob o casacorio de lona. <br /> + +<br /> + +―Isto!―E foi-lhe uma bofetada para a cara.―E muito caladinho, que eu +tambem não digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em +pedaços, e atirou-lhe com elles á cara +aparvalhada. <br /> + +<br /> + +Sahiu d'alli e foi <em>matar o bicho</em>, +tranquillamente, como quem vem de +cumprir uma obra de misericordia. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Na vespera da festa, um sabbado ás 10 horas da +manhã, o fogueteiro passava emfim n'um deslado da villa +direito á capella da +Senhora das Dôres. Largou um foguete, que estrondeou no ar, +galhardamente. <br /> + +<br /> + +―O fogueteiro! chegou o fogueteiro! <br /> + +<br /> + +Por toda a villa passou um longo fremito d'enthusiasmo quando se ouviu +o foguete. Deshabituados, os cães ladravam, em correria +doida +pelas ruas. O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do +fogueteiro, +<span class="pagenum">[73]</span> +a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se +ordens já dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro +ruido da festa, não havia tempo a perder. De casa dos +mordomos saiam +esbaforidas as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria +«o +sr. fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram +almoço, e que dissesse o que queria para o jantar. <br /> + +<br /> + +Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa, +perguntando a todo o mundo se o que estoirára tinha sido +effectivamente um foguete. <br /> + +<br /> + +―Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim +senhor! promettia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum! <br /> + +<br /> + +―P'ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E então isto? e +punha-se a girar de volta com o braço―o que é +fogo do +chão?―Mas tinha-se visto em calças pardas para +que o homem não faltasse. +Complicações! Pelos modos tinham-no convidado +para outra festa, com mais bagalhoça, +está claro. O caso tinha estado sério! <br /> + +<br /> + +Mentia. <br /> + +<br /> + +―Hein? mas não o enganavam? <br /> + +<br /> + +―Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia +elle a atravessar as eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas +cargas de fogo! <br /> + +<br /> + +O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou +cá da rua: <br /> + +<br /> + +―Senhor abbade! ó senhor abbade! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[74]</span> ―Que é lá? <br /> + +<br /> + +―Chegue á janella, faz favor? <br /> + +<br /> + +―Mas está muito sol, entre você, se quer. <br /> + +<br /> + +―Só duas palavras: <br /> + +<br /> + +O abbade, um rapaz novo, assomou á janella. <br /> + +<br /> + +―Que é? <br /> + +<br /> + +―Chegou o homem! <br /> + +<br /> + +―O homem! que homem? <br /> + +<br /> + +―O fogueteiro, quem ha-de ser? <br /> + +<br /> + +―Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E você vae ter +com elle? <br /> + +<br /> + +―De cara. <br /> + +<br /> + +―Faz-me então um favor? <br /> + +<br /> + +―Dirá. <br /> + +<br /> + +―Dê-lhe recados meus. <br /> + +<br /> + +E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no +seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se +aquillo tinha sido o fogueteiro. <br /> + +<br /> + +―Grande homem! com seiscentos diabos! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[75]</span> +Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois +machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao +fogueteiro, com furia. <br /> + +<br /> + +―Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, +chamando-lhe «seu amigo, seu grande amigo». <br /> + +<br /> + +―Rapazes! gritou elle então. E tirou o chapeu da +cabeça, muito solemne.―Viva o senhor fogueteiro! <br /> + +<br /> + +―Viva! <br /> + +<br /> + +...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou +em dizer aos senhores que o Antonio Fagote―chorou!... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 140px; height: 134px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>I<br /> + +<br /> + +</h4> + +<h3><a name="c5"></a>TYPOS DA TERRA </h3> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Desembocaram</span> n'um +largo. Era o +ponto mais central da +terra,―«<em>a praça</em>.»―Aqui +e alli, ao +acaso, algumas arvores +enfezadas, quasi tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos +protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro +vasto, muito chato, com casas em volta,―o que na villa havia de melhor +em +construcções. Ficava ao meio o pelourinho, +exotico, mutilado, d'uma pedra grosseira e +muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de +ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva +sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n'um +grande <em>X</em> de pedra deitado horizontalmente. Um +espigão de +ferro, de tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente +do meio do +<em>X</em>, perfurando o espaço. Em volta, a +casaria era triste, +sem estylo, +<span class="pagenum">[78]</span> +sem gosto, sem cal. Algumas <em>pedras d'armas</em> +em velhas +paredes decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam +aristocracias remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a +negrura chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem, +fazia tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em +ruinas. +Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio, +d'uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas +as sete: aquelle―«<em>estafermo</em>»―é +que +não andava nunca direito. De dia ninguem o entendia, com o +seu ponteiro de ferro girando n'um mostrador sem lettras, d'uma pedra +azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoroçando a +povoação como se fosse a +fogo, ora atrazado ora adeantado, dando meia noite quando eram quatro +da tarde, e meio dia mal despontava +o sol. <br /> + +<br /> + +Eram as sete. Áquella hora é que +os―«<em>figuros</em>»―da terra, quasi +tudo empregados +publicos, vinham para o largo, á fresca. Alguns +passeavam,―seu fraque, sua bengala de canna com castão, +chapelinho á banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas +do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio cavaqueavam,―colletes +desabotoados, perna cruzada, chapeu para a nuca, ás tres +pancadas. Um de pera +comprida, no degrau superior, contava facecias. Os outros riam +alarvemente, chamavam-lhe intrujão. +Algumas―«<em>madamas</em>»―pelas +janellas em volta, +nostalgicas, anafadas, de claro. Á porta do estanco, em +cima, havia outra roda,―uns de pé, outros sentados em +caixas, alguns +montando cadeiras de pinho. Era a―<em>roda mais forte</em>,―quasi +tudo +maiores burocratas:―o Mello da Administração, o +Antunes +da Camara, o Escrivão de Fazenda, o Rodrigues do Real +d'Agua. E outros. Á porta, +perfilado e muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, +flexivel, com a sua +cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e +velho. Era de maneiras +<span class="pagenum">[79]</span> +feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva, +muito desempenado quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de +pés +como se fosse levantar vôo. Chamavam-lhe Ernestinho. +Não se +podia fallar deante d'elle n'um rato morto, n'uma carocha. Aquillo +«fazia-lhe +nervoso», enojava-o, ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo +constantemente: <br /> + +<br /> + +―Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como +não lanço fóra.» <br /> + +<br /> + +E se riam, elle exasperava-se: não comprehendia como +podessem fallar em taes coisas... De resto, bom sujeito, finorio para o +seu negocio,―um poucochinho beato,―diziam-lhe. <br /> + +<br /> + +―Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma +nas penas do inferno, a arder. Leiam a <em>Missão +Abreviada</em>, +leiam esse rico livro. <br /> + +<br /> + +E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados, +um poucochinho sibiladas nos <em>ss</em>. <br /> + +<br /> + +―Cigarros, Ernestinho, um vintem d'elles. Querem-se dos de Lima, +d'esses fortes. <br /> + +<br /> + +Declarou que tambem havia dos «especiaes.» Algum +senhor queria? Tinham chegado tres massos, p'ra ver. Oito por um +vintem. <br /> + +<br /> + +―Pois guarde-os!―disseram alguns, horrorisados com a idéa +de dar um vintem por oito cigarros.―Guarde-os! <br /> + +<br /> + +«O senhor engenheiro, quando vinha á villa, +perguntava-lhe sempre por elles. Dos de Lima nem o cheiro, +não gostava.» <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[80]</span> ―Olha o figurão!―disseram a rir. Por esse mundo fora +sempre ha muito idiota! forte cavalgadura! <br /> + +<br /> + +O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. +Á porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. +Estavam certos. <br /> + +<br /> + +―O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, +ao pé dos outros. <br /> + +<br /> + +Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um +silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo +tempo que n'um gesto acanhado, receoso, fazia +menção de +offerecer:―«alguem era servido?» <br /> + +<br /> + +Dentro do balcão, ao pé das garrafas com +licôr, e das botijas de genebra, Ernestinho sommava a conta. +Era já +taluda.―«E vão dois e dois quatro e dois seis, +seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os receberia!»―E +suspirava, arrumando os massos encetados, sob +o olhar tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que lá +estava +em cima, ao alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d'um +caixote forrado +a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados. +Mas resignava-se, que não tinha outro remedio. Eram os ossos +do officio... <br /> + +<br /> + +Cá fóra tinham dado fé, +acotovellavam-se chamando asno ao Ernestinho,―um pulha a quem ajudavam +a viver... Se hoje não +ha dinheiro, ha-o amanhã, essa é boa! E +pagava-se, +c'os diabos! E pagava-se. Mas não senhor! aquella besta +mostrava sempre +má cara, o alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o +procuravam, que o preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[81]</span> +O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o <em>Agua leva o +regadinho</em>. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de +enfado, um +sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros. <br /> + +<br /> + +―Estender as pernas,―disse. Quem vem d'ahi? <br /> + +<br /> + +Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra traz p'ra deante, n'aquella +semsaboria da praça. <br /> + +<br /> + +―Até logo. Você apparece no <em>sitio</em>, +á +noite? <br /> + +<br /> + +―Appareço, vou á desforra. <br /> + +<br /> + +E cumprimentando em roda: <br /> + +<br /> + +―Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto. <br /> + +<br /> + +Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as +joelheiras. <br /> + +<br /> + +―Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o +Ernestinho lhe diga <em>bem-haja</em>... <br /> + +<br /> + +Era um parvo.―Era um tolo.―Tinha dividas nos outros estancos.―Em +toda a parte.―Lá em casa a familia passava fomes.―Um +batoteiro +de marca. <br /> + +<br /> + +Houve agitação, alguns pozeram-se de +pé, outros mudaram de logares. Ia a passar um grande carro +de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de +novo, muito ronceiro, roendo as unhas. <br /> + +<br /> + +―Com que então... <em>ponha lá ao +pé dos +outros</em>?―disseram-lhe, para o lisongear nos seus +despeitos.―Bem bom +freguez! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[82]</span> +Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n'um gesto +de martyr resignado. E não disse palavra―p'ra fallar +d'aquelle tinha de fallar tambem d'elles... <br /> + +<br /> + +Mandaram vir limonadas,―tres limonadas! <br /> + +<br /> + +―Ahi vão trinta réis! <br /> + +<br /> + +Diabo! era preciso animar aquillo. Assim não tinha geito. E +pozeram-se a fallar do tempo, das moscas, d'aquelles idiotas que +andavam na +praça a dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam +tomar tres +limonadas,―e sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas. <br /> + +<br /> + +O Ernestinho deu dois passos fóra da porta, e chamou para a +varanda, onde grandes mangericões floriam: <br /> + +<br /> + +―Ó Emilia! Emilinha! <br /> + +<br /> + +A mulher assomou, gorducha, muito molle. <br /> + +<br /> + +―Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa. <br /> + +<br /> + +As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil +encontrar uma collecção d'asnos assim. Falavam +dos que +passeavam na praça, aos grupos.―Deus os faz, Deus os +ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe +agora para cantar. Lá andava elle. Volta meia volta,<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Vai alta a lua +na +mansão da morte</em> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava +antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. +Só tinha uma coisa boa―a +<span class="pagenum">[83]</span> +caligraphia.―Um talhe de letra +bonito,―confessavam.―E as calças, hein? reparem +vocês n'aquellas calças, vae flammante. +Casualmente, Fernandinho olhou de +longe para os do estanco, disse-lhes <em>adeus</em> com a +mão, +affavel. +Corresponderam todos, muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre +os dentes:―idiota, palerma, pechisbeque... <br /> + +<br /> + +Sósinho, n'uma lentidão moribunda, olhos nas +botas, olhos no céo, o Telles escrivão passava ao +largo, ruminando alguma poesia. +Ás vezes quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo +entre os dentes, um olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto +e punha-se de novo +em marcha, contrafeito. <br /> + +<br /> + +―Ó senhores! mas não me dirão em que +anda a parafusar o Telles, aquelle telhudo? E isto:―e poz-se a imitar +o escrivão. <br /> + +<br /> + +Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente. +Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana ás turras a um +logogripho em acrostico. <br /> + +<br /> + +―Isso é o Telles!―fez um que vinha da +praça.―Aquillo é um intrujão. Na rua +não é que se adivinham logogriphos. +Ó Ernestinho, você ainda tem d'aquillo que +<em>ferve</em>? <br /> + +<br /> + +O Ernestinho deixou descair o labio, não percebia... <br /> + +<br /> + +―Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas... +<br /> + +<br /> + +―Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[84]</span> ―Ora é isso mesmo, nem mais. <br /> + +<br /> + +―Bem sei. <br /> + +<br /> + +Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra +que? Achavam caro um tostão... <br /> + +<br /> + +―Eram aos tres para beber uma garrafa... <br /> + +<br /> + +―Podera! Por um pataco, trinta réis levando o assucar, +fazia o <em>Hervas</em> uma sóda,―objectaram +alguns. Ponha +lá que em +gosto é a mesma coisa. <br /> + +<br /> + +―E aquella porcaria, ó Ernestinho, e aquella porcaria +amarella que sujava tudo de escuma? <br /> + +<br /> + +Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com +seiscentos diabos! <br /> + +<br /> + +―Cerveja!―disse o Ernestinho―cerveja! uma coisa que lá +p'ra baixo toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo. <br /> + +<br /> + +E com um sorriso de desdem, exclamou: <br /> + +<br /> + +―O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do +Filho... <br /> + +<br /> + +Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a +palavra―«<em>pulha</em>»―pronunciada +com +força. Sahiram em tropel, ficaram só tres.―O que +pagava as limonadas exultou:―Homem! nem de proposito! Ficava +exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella sucia lhe +chupava o refresco: <br /> + +<br /> + +―Tó Russa! já lá vae esse tempo. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[85]</span> +Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma +bandeja:―Que provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas +parecia-lhe que devia estar bom... <br /> + +<br /> + +Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para +aquellas coisas. <br /> + +<br /> + +―Obrigado, ó Mello! <br /> + +<br /> + +―Obrigado, ó menino! <br /> + +<br /> + +E os dois sairam de rompante, chamando <em>pato</em> ao +Mello, rindo-se d'elle +e limpando os beiços. <br /> + +<br /> + +Quando o Mello ia sahir,―a ver o que ia na praça,―o +Ernestinho, muito cortez, objectou-lhe que faltavam trinta +réis:―Se alli +não tinha, depois. Isso era o mesmo... <br /> + +<br /> + +―Mas trinta réis?!... De que são os trinta +réis?―perguntou desconfiado o Mello. <br /> + +<br /> + +―Do assucar, foi do refinado,―explicou o Ernestinho. O mascavado +acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O +senhor Mello desculpe. <br /> + +<br /> + +Não tinha que desculpar; sómente notava que +aquellas coisas diziam-se no principio.―E sahiu sem dar mais palavra, +furioso:―Uma ladroeira! Tres +vintens não valiam os dois que lhe tinham chupado o +refresco... <br /> + +<br /> + +Na praça tinha cessado a altercação, +os grupos, reunidos, formavam uma grande roda, commentava-se. O Mello +quiz informar-se:―que lhe contassem―«<em>o +escandalo</em>». <br /> + +<br /> + +Ora! não fôra nada: o Veiga que se tinha lembrado +<span class="pagenum">[86]</span> +que as correspondencias na <em>Voz do Districto</em> eram +escriptas pelo +Albano. Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O +Veiga que +é casmurro, teimou:―que não acreditava, ainda +assim!―Vae o outro chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi +está! <br /> + +<br /> + +―Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?―quiz saber o Mello. Aquillo +ha-de ser escripto por alguem, está claro. <br /> + +<br /> + +Dez réis pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem +sabiam elles... <br /> + +<br /> + +―Quem, então? <br /> + +<br /> + +Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. +Um ou outro dava a sua palavra de honra que tambem não era +elle, +jurava-o. Houve um que se lembrou se aquillo seria do padre +Mendonça. <br /> + +<br /> + +―Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia +coisa melhor, se se mettesse n'isso. Olha o padre Mendonça, +o da <em>gibreira</em> de Braga... <br /> + +<br /> + +Mas o da idéa insistiu, renitente:―havia alli suas coisas +que o faziam lembrar, certas facecias, como a de chamar <em>Frei +Asneira</em> +ao Reitor e <em>Cabeça de Comarca</em> ao +Felisberto. <br /> + +<br /> + +―Pois se é elle, que se regale, póde limpar as +mãos á parede. Mente como um alarve, mente da +primeira linha até á +ultima!―disse firmemente o verdadeiro auctor das correspondencias. +Olhem o que elle diz do juiz de direito, só calumnias! O +juiz! um homem teso! Tem +lá o seu fraco pelas saias, mas isso, que diabo! isso +não é +defeito. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[87]</span> +De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma +infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma +coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os +rapazes não havia duas amizades leaes, que era tudo uma +impostura... <br /> + +<br /> + +Houve um silencio significativo, talvez de +approvação. <br /> + +<br /> + +―Só de pulha!―rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal +que escrevia as correspondencias com o pseudonymo de <em>Aramis</em>. +Vejam +vocês +aquellas gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se lá +fazer +politica?! Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor, +discuta-se o homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a +<em>marreca</em>, os fundilhos das calças; +ninguem quer saber se os +creados lhe +param em casa ou se não. E depois, aquellas +allusões +á família, aquellas piadas á D. +Engracia, pobre velha... <br /> + +<br /> + +―A quem?―interrogaram uns poucos. Á Dona quê? <br /> + +<br /> + +―Á D. Engracia, está bem de ver. Aquella beata +que fazia piugas de lã aos missionarios é ella. +Presumo eu que é +ella—fazia o Nunes das correspondencias com um +grande ar de +supposição. +Eu cá foi para onde deitei. <br /> + +<br /> + +Os outros não. E como o das correspondencias tinha +promettido explorar a chronica beata, aguardariam mais +informações. +Suppunham, no emtanto, ser com a D. Joanna, a +do―«<em>chá de herva +cidreira</em>.»―Outra canalhice! A D. Joanna, para +festejar os +annos da filha, convidára tudo, +<em>lazarões e penicheiros</em>, não +fizera politica. +Depois foi aquella tareia +que se viu:―que o chá era herva cidreira, que tinham bolor +os +doces de ovos, que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora +isto +não se diz, a pobre mulher doeu-se. Citavam-se de +cór phrases inteiras +<span class="pagenum">[88]</span> +da correspondencia. Por exemplo:―<em>A +deusa da festa dizem que recebeu telegrammas de... amor</em>.―Uma +facecia +de mau gosto alludindo ao +Proença telegraphista. Depois do que por ahi se diz, +é forte... Que +afinal, quem sabe lá? Entre os dois que diabo +póde haver? +Namoro? <br /> + +<br /> + +No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio: <br /> + +<br /> + +―Não senhores! Isto agora alto lá. A Amelia +é uma rapariga séria... <br /> + +<br /> + +Riram ás gargalhadas, foi um barulho com a tosse. <br /> + +<br /> + +―Quando digo uma rapariga séria... Mau! Accommodem-se +lá com o <em>banzé</em>, +vocês deixem +fallar,―tornou o Nunes, formalisado. Quando +digo uma rapariga séria, quero dizer... sim... quero +dizer...―e +procurava a phrase, entalado,―por exemplo, que ella não +é +capaz de receber ninguem, alta noite, lá pelos quintaes, +como o tal das +correspondencias quer fazer suspeitar. <br /> + +<br /> + +Iam replicar-lhe, mas elle atalhou: <br /> + +<br /> + +―Chama-se áquillo ser canalha ás direitas, arre! +Isto agora é fallar franco. <br /> + +<br /> + +Saltaram-lhe: <br /> + +<br /> + +―E você jura, ó Nunes? você +jura?―perguntou, com gesto perfurante, o Alves dos Pesos e Medidas. <br /> + +<br /> + +Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os +diabos! pelo que se via, pelo que se podia julgar... <br /> + +<br /> + +―Léria!―disseram todos. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[89]</span> +O Nunes parece que estava com os beiços com que +mamára. Com que então, para elle era tudo uma +récua de <em>santas</em>? Desenganasse-se, +que era tudo uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de +ingenuidade! <br /> + +<br /> + +O Nunes observou modesto, quasi agradecido: <br /> + +<br /> + +―Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O +que sou é prudente. Desconto sempre noventa por cento +áquillo que +vocês dizem, ahi é que está... <br /> + +<br /> + +―Vocês é um modo de fallar,―emendaram alguns. <br /> + +<br /> + +―Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem +correspondencias,―explicou sophisticamente o Nunes. <br /> + +<br /> + +Calaram-se, disfarçaram. Proximo d'elles, a Amelia toda de +verde, com guarnições de fita preta, caminhava ao +lado da +mãe, solemnemente. Tiraram todos o chapeu, cortejando +risonhos, respeitosos. O Nunes foi cumprimental-as, submisso. <br /> + +<br /> + +―Dar o seu passeio, não é verdade?―E +apertando-lhes a mão:―Vosselencia como passou? A senhora D. +Amelia? +Obrigadissimo. Assim... assim... <br /> + +<br /> + +Então? que diziam áquelle calor? <br /> + +<br /> + +―Abafava-se, alli pelas duas. Que forno! <br /> + +<br /> + +―O Brazil tal e qual―reforçou o Nunes. <br /> + +<br /> + +Mas que fôra feito, que as não tornara a ver desde +os annos? Uma noite de truz, aquillo sim! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> ―Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta é que nem +por isso, foi pena! O Abelsito andava constipado. <br /> + +<br /> + +A D. Amelia explicou. A mãe ficara doente, já +não era para aquellas noitadas.―E em voz mais baixa, quasi +dolente: <br /> + +<br /> + +―Depois, veio a <em>Voz do Districto</em>, aquillo +chocou-a muito. <br /> + +<br /> + +―Não ha tal!―fez a mãe. Metteu-se-te isso na +cabeça. Deixe-a fallar, senhor Nunes. <br /> + +<br /> + +E por pouco que não chorava ao dizer isto. <br /> + +<br /> + +O Nunes affectou um sentimento profundo:―Era melhor não +fallar n'isso, não pensar em tal; todos as conheciam, todos +lhes faziam +justiça. Tinham acabado de fallar na tal correspondencia, +agora mesmo. Uma garotada!―resumiu o Nunes.―E em tom confidencial: <br /> + +<br /> + +―Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e +depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fôr +soará. É preciso dar um exemplo,―concluiu +terminantemente. Uma severa +lição! <br /> + +<br /> + +Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes―«a parte que +tomava no seu desgosto.»―E seguiram cumprimentando para as +janellas, +perguntando se vinham d'ahi, um boccadinho até á +capella, +espairecer. <br /> + +<br /> + +As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho só. Ficava +muito bem aquelle vestido á Amelia. <br /> + +<br /> + +Não podiam subir, talvez á volta. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[91]</span> ―Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio +está quasi prompto, que trabalhão! <br /> + +<br /> + +Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não +gostava. O risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, +talvez mais +bonito. Coisas de anjinhos: <br /> + +<br /> + +―Verás. <br /> + +<br /> + +Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que +vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,―homens com malhos, e +mulheres de cestas á cabeça. A tarde descahia +n'uma serenidade calma. No degrau de cima, o Paula, official da +administração, com fama de typo de +chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, +obscenas, zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, +os outros formavam roda. Todos riam, pediam <em>bis</em>. <br /> + +<br /> + +―Tu has-de conhecer isto, ó Chico,―dizia o Paula para o +Francisco Maria, um cabo que estava de licença. Tu has-de +conhecer +isto. <br /> + +<br /> + +O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e +philosopho, affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas. +Ao Paula valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, +senão já o tinha demittido, ás vezes +que lhe entrava borracho pela +repartição. E pedia a rir, boçalmente: +<br /> + +<br /> + +―Ó Paula, aquella do <em>bate-bate</em>, canta +lá. <br /> + +<br /> + +E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.―Se era +preciso, o Fernandinho ia pelo violão. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[92]</span> ―É verdade, você que fez hoje que não +me appareceu na repartição, ó +Fernando? <br /> + +<br /> + +―Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo +ás vezes. Olhem que pergunta! <br /> + +<br /> + +Mas o Paula tinha-se calado, bocejava. <br /> + +<br /> + +―Então, ó Paula...―supplicava o administrador. <br /> + +<br /> + +―Está fechado o realejo... Depois. <br /> + +<br /> + +Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao +«sitio». Ou perder ou ganhar; tinha alli seis +tostões que eram para um <em>mico</em>. <br /> + +<br /> + +―Mas eu não lhe dizia, sr. doutor? eu não lhe +dizia hontem que a <em>dama</em> se negava? Eu estava +mesmo a ver aquillo... +Bem feito! +«gramou» um entalão que se consolou. <br /> + +<br /> + +―Quatro corôas.―Na vespera tinha ganho um quartinho. <br /> + +<br /> + +N'esse momento passava o juiz, sósinho como sempre. Todos +tiraram o chapeu, elle passou gravemente, cortejando. <br /> + +<br /> + +―Quem eu te quero á perna é o +<em>Aramis</em>...―rosnou o Telles escrivão que +embirrava com o +juiz desde que o suspendera uma vez.―E ainda elle +não sabe tudo...―insinuava perfidamente. <br /> + +<br /> + +―Pois o resto diga-lh'o você, diga-lh'o no <em>Almanach +de +Lembranças</em>, em verso―fez d'um lado o Rodrigues +do Real +d'agua. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[93]</span> +O Telles, com famas de litterato, redarguiu que não dava +confiança a analphabetos. <br /> + +<br /> + +―E eu a brutos, sabe você? <br /> + +<br /> + +Mau! que elles lá começavam. Officiaes do mesmo +officio... Ó senhores, lá porque ambos faziam +versos não se seguia que +devessem embirrar um com o outro. Pelo contrario. <br /> + +<br /> + +O Telles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que +nem lhe dava essa importancia, essa honra. <br /> + +<br /> + +O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão n'elle. Mas jurou que +d'outra vez seria, que fizesse de conta que já lá +tinha na +cara quatro bofetadas tesas. <br /> + +<br /> + +―Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas. <br /> + +<br /> + +Havia de dar-lh'as, tão certo como dois e dois serem quatro, +só para ter o gosto de dizer depois, n'um communicado, que +desaffrontara as lettras +portuguezas,―elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real +d'Agua. <br /> + +<br /> + +Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se. <br /> + +<br /> + +―Não senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes +gestos.―Bem sei que não valho nada. Escrevi, é +verdade que +escrevi; faço ainda o meu verso quando me dá na +cabeça. Uma rapaziada! +Estão maus? Concordo. Mas não ha de ser aquelle +<em>négalhé</em> que o +ha-de dizer. Não o julgo habilitado. Lá porque +tem soletrado dois romances, +não se segue. Mas o que mando para publico sim, o que +entrego aos prelos―é +meu!―E batia no peito com a larga mão espalmada, furioso, +n'umas raivas, de +orgulho triumphante.―Não roubo! nunca roubarei!―affirmou +<span class="pagenum">[94]</span> +mais alto +o Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois +amigos, conciliadores, o ouvisse.―Repito: não roubo, +não faço como elle!―E as palavras sahiam-lhe +salivadas, violentas, por entre os labios espumantes, atiradas ao +Telles como pedradas. <br /> + +<br /> + +Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão +ao Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria +dizer. <br /> + +<br /> + +―As provas...―e metteu a mão no bolso do seu casaco de +lona, com impeto:―as provas, vel-as aqui estão! <br /> + +<br /> + +Mostrou no ar a brochura verde do <em>Almanach de +Lembranças</em>.―Era do anno que vem, tinha-lhe +chegado hoje. +Alli estava o Peres do correio que +lh'o tinha entregado elle mesmo. <br /> + +<br /> + +―Sou testemunha―confirmou do lado não sei quem. <br /> + +<br /> + +O Rodrigues, então, affirmou que era preciso historiar, +contaria a coisa em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr. +Telles, lembrara-se +um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os +annos―zás! versalhada para o <em>Lembranças</em>... +<br /> + +<br /> + +―Era collaborador―disse o Antunes da Camara que admirava o talento de +Telles.―Era collaborador. <br /> + +<br /> + +―Era quê?―interrogou logo o Rodrigues, de mão +atraz da orelha.―Massador, massador é que elle era. Nunca +lhe +admittiram as asneiras, se me faz favor, nunca! Na <em>correspondencia</em> +troçavam-no, chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna +pelas tombas, que o +não chamava Deus para as lettras. Aquelle <em>Serei +ousado</em>? +é +elle, sei que é elle. Nunca o admittiram. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[95]</span> ―Lembro-lhe a <em>Flor do Campo</em>, sr. Rodrigues, +lembro-lhe esses +versos―insistiu o Antunes. <br /> + +<br /> + +O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da +Camara. Não lhe respondeu. Subiu os tres degraus do +<em>pelourinho</em>, pausadamente, com pompa, e chamou a +attenção dos amigos. Ia ler. +Abriu o <em>Almanach de Lembranças</em>, onde +trazia um papel, e +rompeu:―«Indignidade». <br /> + +<br /> + +―Em lettras bem graúdas, queiram inspeccionar. <br /> + +<br /> + +E colou ao peito o <em>Almanach</em>, voltando para +fóra na pagina +onde o seu dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto +em epigraphe. <br /> + +<br /> + +Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que +lêsse. <br /> + +<br /> + +«Os versos intitulados <em>Flor do Campo</em>, +que viram a luz no +<em>Almanach de Lembranças</em> do anno +extincto, foram-nos +remettidos pelo sr. +José Maria Telles, escrivão.» <br /> + +<br /> + +―Copiados por mim, uma letra floreada―esclareceu o Fernandinho.―Elle +depois assignou―e fez no ar, com o dedo, o traço complicado +da firma complicada do Telles. <br /> + +<br /> + +Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou: <br /> + +<br /> + +«Publicámol-os na convicção +de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois que elle os +assignava.» <br /> + +<br /> + +―E então?―perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda. <br /> + +<br /> + +―«Pura illusão!»―continuou +solemnemente o Rodrigues.―«Escreve-nos +<span class="pagenum">[96]</span> +o mimoso e assaz +conhecido poeta sr. Alfredo Mendonça, dizendo +que os versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu +volume +<em>Lyra Matutina</em>.» <br /> + +<br /> + +Foi uma estupefacção! O Rodrigues proseguiu mais +alto, fugindo aos commentarios: <br /> + +<br /> + +«Averiguámos, e d'isso alfim nos convencemos. Os +leitores avaliarão a probidade do sr. Telles, a quem mais de +uma vez tinhamos fechado a +nossa porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara―por +indigno.» <br /> + +<br /> + +E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a +porta na cara do Telles escrivão; tomou praça +fóra, o livro debaixo do braço, e foi-se para o +estanco do Ernestinho, altivo, +solemne,―vingado! <br /> + +<br /> + +Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, +porque além de sempre terem julgado o Telles muito superior +ao Rodrigues―e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...―tinham dado uma +sorte de mil demonios, agora é que elles viam! distribuindo +no theatro, por occasião da festa de Santa Barbara, a <em>Flor +do Campo</em> +que elles tinham mandado imprimir avulso―para lisongear o Telles que +tivera o trabalho de os ensaiar no <em>Santo Antonio</em>. +Hein? quem diabo +havia de dizer que aquelles papelinhos de côr, uns verdes, +outros +amarellos, chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, +e quasi disputados a murro, n'um alvoroço de seiscentos +diabos, +encerravam uma insidia,―um logro á boa-fé, +á +credulidade ingenua de toda a comarca! <br /> + +<br /> + +E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o +Fernandinho vestido da menino do côro, batina vermelha e +roquete de +rendas, cobrindo-se de teias de aranha +<span class="pagenum">[97]</span> +lá pelo +fôrro do +theatro, de gatinhas e com um «tôco» de +vela na mão, +aos tropeções, só para ter o gosto de +ser elle a despejar do <em>oculo</em> aquella papelada; o +Mello da +administração, vestido de Frei Antonio, sandalias +e grande chinó de calva +redonda, feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por +entre os bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em +habitos de frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao <em>poeta</em>! +ao +grande Telles, +ensaiador da rapaziada! <br /> + +<br /> + +Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujão! E quasi +se regalavam da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver +agora humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem +feito! <br /> + +<br /> + +O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fôra elle o +da lembrança de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera +para Coimbra ao Manuel Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, +Praça Velha n.º 11, +que mandava os impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como +especial favor. O homem―prompto. Duzentos exemplares, quinze +tostões. Quinze +tostões que se tinha combinado dividir por todos, contas do +Porto, mas que desembolsara elle só, afinal. Bem feito! +ninguem o mandava +ser burro. Arre! cavalgadura! <br /> + +<br /> + +E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopletico. <br /> + +<br /> + +―Mas a bem dizer, tudo isso é nada!―continuou commovido o +Antunes.―Ó senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura +que eu fiz n'aquelle intervallo do drama para a farça?... <br /> + +<br /> + +Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada +uma! E relembravam:―levantara-se +<span class="pagenum">[98]</span> +o panno quando os ouvintes menos o +esperavam. Os que tinham sabido lá fora, ás +doceiras, voltaram apressadamente com os cartuchos na mão, +ensacando os +rebuçados. Ia um reboliço pela plateia. Na +«galeria dos +camarotes» para onde só iam senhoras, gente fina, +começavam a apparecer caras barbadas +de sujeitos que iam saber «que tal», perguntar se +ia uma +pinguinha de licôr, um docinho. Em cima, na galeria alta, +creadas e raparigas do povo, debruçadas no parapeito, +apontavam para o palco, d'olhar +attonito. <br /> + +<br /> + +―Elle que dianho é?―perguntavam. <br /> + +<br /> + +De baixo, da plateia, todos faziam <em>chut</em>! voltados +lá para +cima: <br /> + +<br /> + +―Caluda, sua gentalha! <br /> + +<br /> + +No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O +Freitas da recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de +cardeal, baculo +em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de +côro, todo lépido; a Anna Pisca muito acanhada no +seu fatinho de Olivia; a Margarida que tinha feito de anjo no quadro +final da <em>Gloria</em>, em que +ella subira n'um cesto vindimo á +«região sidéra dos astros»; o +pae de Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo +pescoço, +livido como saira do tumulo; aquella canalha da tropa―todos emfim! <br /> + +<br /> + +N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello +vestido de Santo Antonio e do Proença telegraphista que +fazia de Frei Ignacio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto +mandou tocar o +Hymno da Carta á meia duzia de musicos que não +entravam na +peça. O hynmo rompeu com grande estampido de pratos, n'uma +<span class="pagenum">[99]</span> +cadencia funebre. No palco, tudo immovel. Ninguem sabia o que era +aquillo, não estava no +cartaz. Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam. <br /> + +<br /> + +Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de +centurião, durindana e botas d'agua, irrompe furioso do +buraco do ponto e +préga um discurso na bochecha extatica do Telles: <br /> + +<br /> + +«Não era elle o mais competente, de certo, o +mais... etc. Mas tinham-no encarregado, obedecia... e tal. +Só sentia não ter +phrases, oratoria, porque emfim estava falando a um +poeta...―collaborador do <em>Almanach de +Lembranças</em> para Portugal e Brazil―accrescentou +voltado +para o publico, esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo: +dar-lhe um +abraço em nome de todos...―e abraçou-o +commovido, emquanto os +espectadores berravam <em>apoiados</em>, dando +palmas―«... e para +isto»―accrescentou fazendo com a mão que se +calassem, que se calassem depressa. +<br /> + +<br /> + +Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanças +gritavam―«ó Emilinha!» Era com effeito +a Emilinha, a filha do Alves dos +Pesos e Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo, +tules verdes e muita lentejoula a brilhar. <br /> + +<br /> + +Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o +Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da +«melodia», elle fez-lhe com a cabeça +«que entrasse», e a Emilinha rompeu n'uns guinchos, +cantando a <em>Flor do Campo</em>, com musica da +<em>Muchagateira</em> original do Peres do correio. <br /> + +<br /> + +O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a +Frei Ignacio:―Era de mais, era de +<span class="pagenum">[100]</span> +mais, elle não +merecia...―Ora essa! pareciam dizer-lhe os outros―seriamos ingratos +se... <br /> + +<br /> + +A «cantoria» acabou, o theatro parecia desabar com +palmas, tudo berrava, um ou outro cão latia. Se +não quando, os do palco +desataram a rir, cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de +que as bambolinas +do tecto desabassem. <br /> + +<br /> + +Todos olhavam, curiosos. E n'aquella espectação +viram de repente descer do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o +Freixedas da Mercearia vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. +Cuidaram de estoirar a rir. +Da bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodão a +arder +que lá trazia dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando +Satanaz nos impetos da colera. O panno começou a descer, +obliquo, esfarrapado d'uma +banda. O Freixedas, suspenso, atirou fóra o +algodão e +gritou, furibundo: <br /> + +<br /> + +―Alto! suas bestas! Inda não!... <br /> + +<br /> + +Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a +hombro dizia em caracteres amarellos―<em>C'est fini</em>! +O panno desceu +então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para +os outros, não tinham percebido... Foi n'esse momento que o +sr. +Antoninho, que tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz +alta: <br /> + +<br /> + +―<em>É findo</em>! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c6"></a>VAE VICTORIBUS! </h3> + +<br /> + +<div class="signature"><em>A Maria Lucilla</em>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Em</span> dezembro, +ás seis é noite cerrada. Mais +boccado, menos boccado, a essa hora recolhia do monte o José +Gaio, sósinho, +sachola ao hombro, um pouco atarantado com a trovoada que rugia ao +longe, em surdina. Por +cima d'elle, o céo ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa +negrura espessa de tempestade que infunde pavôr á +gente, e da qual +os proprios passaros teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul +principiava agora, agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, +fazendo-os +murmurar não sei que extranha elegia... A um relampago mais +vivo, o +José +<span class="pagenum">[102]</span> +Gaio apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a +<em>Magnificat</em>. O +trovão chegou, depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em +roldões na +larga amplitude do céo. Debaixo dos pés, o +José Gaio +sentia o caminho lamacento, encharcado das enxurradas valentes de todo +o dia. Mas a ponte +já não ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio +da ladeira a casa. <br /> + +<br /> + +―Vamo' lá com Deus! fazia elle animando se. <br /> + +<br /> + +Um clarão subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle +surgiu de repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente +illuminada. +Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte +veio em seguida o trovão, que elle instinctivamente parou e +levou ao céo as +mãos afflictas, n'um gesto de quem implora misericordia. +N'aquella imminencia de perigo as proprias arvores lhe pareciam +immobilisadas pelo terror, á +beira do caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era +como a +voz implorativa da natureza, unindo-se á voz d'elle n'um +longo +côro de supplicas... <br /> + +<br /> + +O José Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente, +sem saber d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente: <br /> + +<br /> + +―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os +braços da cruz negra, que era o signal de alli terem matado +o José +Tendeiro, ha annos, apertou o passo e tomou por um atalho, direito +á ponte. Mas +então a mesma voz tornou-lhe mais de perto: <br /> + +<br /> + +―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um +relampago que illuminou a mil côres a paizagem. Elle cerrou +os olhos com força, nervosamente, ferido por aquelle +deslumbramento que +por milagre +<span class="pagenum">[103]</span> +o não prostrou. E quando o trovão +bramiu, +rudemente, uma immobilidade de estatua prendia o camponez á +terra. Foi então que +veio de novo aquella voz, como um prolongamento do trovão: <br /> + +<br /> + +―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez +transposta, galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente, +cedendo a uma força violentissima, entrou de retroceder, +cambaleando. +Aquelle rugir da agua que logo abaixo da ponte fazia cachão, +rugir violento +mas monotono, infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se +retroceder... +Senão quando, estacou ouvindo a mesma voz: <br /> + +<br /> + +―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago +côr de sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos +aquella cruz preta de longos braços, sempre abertos e sempre +firmes, que pareciam +desafiar a tempestade... <br /> + +<br /> + +Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre +exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os +olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em vão! que +fôra tão vivo o deslumbramento, e tanto lhe ferira +o cerebro, que n'um fundo +côr de sangue, como n'um transparente de magica, elle via +nitidamente desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o +estonteara. +Então deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem +parecia dilatar-lhe o peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento, +a voz tornou a chamar: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[104]</span> ―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais intimo do seu +ser. Um longo desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima +fibra de +energia, como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe +tambem o cerebro: não formava um só raciocinio +nem +elaborava sequer uma idéa, a mais simples. E foi preciso um +grande trovão para todo elle +tremer, abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez +reviver +n'elle a vida do espirito; sentiu um grande pavôr +áquelle +aspecto subito do campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado +como se estivesse +todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda +a banda casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos, +definidos maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores +despidas, sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de +recorte +que traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos +troncos e +ramarias. No meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e +tetrico, o +triste camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli +chumbado +á terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um +só gesto +implorativo, e nem uma só palavra de supplica lhe sahia dos +labios crispados. Porque uma vez que tentára uma palavra, o +mais +formidavel trovão cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois, +aquella voz +não o largava, imperturbavel e monotona: <br /> + +<br /> + +―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +E elle, não respondendo nem fallando, pensava esconjural-a, +exorcismal-a como se fosse a voz d'um duende. E para esta +evocação do sobrenatural muito concorria, como os +senhores comprehendem, esse aspecto sereno da cruz negra, inabalavel +sob a aza agitada da procella. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[105]</span> +N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua +depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul +furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, +não se mexeu sequer. Como todo elle ardia em febre, aquelle +diluvio era quasi um celeste beneficio para a sua cabeça +n'um vulcão. Mas +quando os relampagos vieram, aquella reverberação +da luz nas cordas +d'agua fez-lhe um deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o +caminho lamacento por +onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume, +sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz: <br /> + +<br /> + +―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como +cahiu assim ficou―de bôrco. Depois, quando abriu os olhos, +na larga +poça onde quasi tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a +cada relampago. Ella +lá estava no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta +como um exemplo... E pois que parara o diluvio, dos seus +braços abertos as gottas +da chuva cahiam, vermelhas á luz, como grossas lagrimas de +sangue... <br /> + +<br /> + +Cobarde! Nenhuma comparação póde dar +idéa do estado de prostração d'esse +miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi +inacção de besta morta. Dir-se-hia um immundo +trapo alli cahido, abandonado alli na lama +ignobil de um caminho, á espera da enxurrada que o +levasse... Era +abjecto!... E emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que +uma malhoada prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o +encastellamento +phantastico das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo, +metralhando com +furia o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o +nosso espirito póde conceber +<span class="pagenum">[106]</span> +de mais grandioso e de mais +sublime, +epico e tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente. <br /> + +<br /> + +Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos +trovões, aquella voz: <br /> + +<br /> + +―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o +outro, o do medo. Parecia colado á lama, preso ao caminho +como se +fosse uma rocha. No emtanto, a espaços, tinha a +comprehensão clara da sua posição e do +seu estado. E então uma raiva subita galvanisava-o: +queria erguer-se, fugir, desapparecer―erguer-se como aquella cruz, +fugir como +aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam +rastro na treva... <br /> + +<br /> + +Taes rebates de coragem eram, porém, ephemeros, impotentes +para lhe provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli, +miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem +amputado as quatro pernas. E esta idéa, que o instincto de +viver lhe +suggeriu, apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli! +Mas que duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se não passava +por alli +viv'alma, a taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma +noite medonha +de tempestade, ao pé d'aquella cruz negra de longos +braços hirtos―morrer alli!... Eram então +já por elle as +lagrimas que essa cruz parecia chorar?... <br /> + +<br /> + +Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia. +Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de +tropeçar n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. +Estava salvo. Em breve estaria de pé,―de pé como +essa cruz que um +relampago muito vivo +<span class="pagenum">[107]</span> +acabava de lhe mostrar... No emtanto, a voz +é que se não +importava: <br /> + +<br /> + +―Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse +que o calcassem, reuniu n'um supremo esforço as maximas +energias, +e rebolou-se para um lado, até ficar detraz d'umas urzes. +Coisa notavel +foi, senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se +recolheu n'uma absoluta quietação, com medo que o +surprehendessem... E quem quer que era passou, cabeça nua, +deante da cruz +gottejante... Aos ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de +prece... Não +ia só a rezar; ia tambem chorando, aquelle homem... <br /> + +<br /> + +...Quem seria? <br /> + +<br /> + +Um clarão branco de relampago fez irromper da treva, livido +como um espectro, o filho do José Tendeiro... <br /> + +<br /> + +O desgraçado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia +annos, por uma noite como aquella... <br /> + +<br /> + +Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha +ponte. Só aquelle cobarde não se mexeu, prostrado +sobre as urzes, quasi arrumado +á cruz. <br /> + +<br /> + +E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a +tempestade, perdida n'um murmurio longiquo, lá na extrema +fimbria do +horizonte... Quando a lua rompeu, livida n'um céo de anil, +nem a grande +sombra da cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma +benção, logrou reanimal-o. Tinha morrido, o +estafermo! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[108]</span> +Ao outro dia, está claro, foram lá os da +justiça. O velho abbade foi depois, buscar o corpo. Os +medicos nem lhe tinham mexido. <br /> + +<br /> + +―Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma +congestão muito linda―dissera um a rir. <br /> + +<br /> + +―E muito mal empregada―fizera o outro do lado, indifferente. <br /> + +<br /> + +Mas quando os da maca disseram a um tempo―<em>Upa</em>!―esse +bom velho do +abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convulsão +agudissima de choro. E elevando ao céo as mãos +mirradas―ao +céo que um divino azul fazia diaphano―elle exclamou, +soluçando: <br /> + +<br /> + +―Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, +como é infinita a vossa misericordia! <br /> + +<br /> + +...Segredo de confissão...―mas o abbade bem sabia quem +tinha alli matado o José Tendeiro... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 120px; height: 78px;" alt="" src="images/fig03.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>BALLADAS </h2> + +<br /> + +<div class="signature1"><em>A Luiz Osorio</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4>I<br /> + +<br /> + +</h4> + +<h3><a name="c7"></a>MARICAS </h3> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vocês</span> +lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos +muito castanhos, quasi louros, que morava defronte da +redacção, lembram-se? A boa da rapariga era nossa +amiga, pois não era? Sempre +benevola e complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o +dia e de toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram, +as +nossas balburdias e algazarras... <br /> + +<br /> + +Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e +encantadora―a de não mostrar jamais na sua amisade +preferencia por algum de nós. Dir-se-hia que era nossa +irmã, ou +mesmo nossa mãe, pois que nos queria a todos por igual, a +pobre Maricas de olhar azul e brando... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[112]</span> +Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com +que ella vos perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela +solicitude e interesse com que me perguntava por vocês, +quando faziam +gazeta ao escriptorio. <br /> + +<br /> + +―Então esses cabulas? então esses marotinhos? +Doente, algum? <br /> + +<br /> + +―Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá... <br /> + +<br /> + +―Ora vejam!―fazia ella quasi escandalisada. <br /> + +<br /> + +Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos +que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos +outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um +<em>tête-à-tête</em> que +durava horas, muito +familiares, muito dados, quasi que chamando-lhe por tu e ella a +nós! <br /> + +<br /> + +Como eu me lembro! <br /> + +<br /> + +Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil +perguntas que lhe faziamos, e então uma grande paciencia +inexhaurivel. Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a +adorar aquella +ingenuidade singela do seu coração de vinte +annos. A boa da +Maricas era adoravel, toda ella bondade e paciencia para os nossos +disturbios e para as +nossas algazarras de toda a hora e de todo o instante. <br /> + +<br /> + +Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella, +é que me não lembra, e porventura a nenhum de +vocês, acho eu. O que +é certo, rapazes, é que nós como que a +consideravamos uma +companheira de redacção, especie de directora com +casa áparte e viver independente pois que +se entravamos no escriptorio (parece mesmo +<span class="pagenum">[113]</span> +que estou a ver aquella +barafunda d'escriptorio!) e, assomando á janella, a +não +viamos na sua, diziamos quasi sem querer, mas invariavelmente: <br /> + +<br /> + +―Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas? <br /> + +<br /> + +E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, +á formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde +fóra, em casa da <em>freira</em> de +Quebra-Costas―d'essa +lembram-se vocês... No +emtanto, deveis recordar-vos que ella, no dia +seguinte...―coitada!―...a primeira cousa que fazia era justificar a +sua falta, «estive +aqui, estive alli, fui a umas compras com a mamã», +um +pouco ruborisada e confusa, como se na realidade a sua +obrigação +fosse estar alli a aturar-nos. Por pouco ella nos não pedia +de mãos +postas que lhe perdoassemos, a boa da rapariga. <br /> + +<br /> + +E nós então galhofeiros, brincalhões: <br /> + +<br /> + +―Sem mais <em>aquellas</em>, D. Maricas! A +congregação +risca-lhe a falta, ora essa!... <br /> + +<br /> + +E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra: <br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas é que ás vezes... <br /> + +<br /> + +―Ás vezes quê?... <br /> + +<br /> + +«Não! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella +estivesse zangada comnosco. Saíra, porque tinha de sair, +essa é +boa...» <br /> + +<br /> + +―Pois não era verdade―perguntavamos-lhe―que ella adorava +aquella <em>troupe</em> de bohemios? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[114]</span> ―São todos muito bons rapazes―dizia já a +sorrir.―Todos me tractam muito bem... <br /> + +<br /> + +E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se +illuminava de prazer e sorria de intima gratidão. Mas porque +sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas? <br /> + +<br /> + +Quando nos via em palestras interminaveis, nas +libações do <em>congnac</em> e do +café, +ouvia-se lá da janella um <em>pschiu</em>! +muito sibilado. <br /> + +<br /> + +―Que manda a D. Maricas? É servida? <br /> + +<br /> + +E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada: <br /> + +<br /> + +―Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal? <br /> + +<br /> + +O cuidado que lhe dava o jornal! <br /> + +<br /> + +―Ora faz favor de não fallar em coisas tristes? Olhem agora +que lembrança, o jornal! <br /> + +<br /> + +Ella então, por unica resposta, dizia-nos ás +vezes que na semana passada o typographo viera queixar-se de que havia +falta de originaes, quantas vezes o garoto da imprensa viera pedir as +provas emendadas. <br /> + +<br /> + +E por fallar em provas:―a Maricas sabia todos os signaes das emendas, +todos. <br /> + +<br /> + +―Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais +n'esta palavra. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[115]</span> ―Risco por cima, risco á margem, e um <em>d</em> +cortado; +é facil. <br /> + +<br /> + +―Um <em>m</em> de pernas para o ar, e esta? <br /> + +<br /> + +―Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está +farto de o saber... <br /> + +<br /> + +Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre +que lhe fosse mostrando as tiras, á medida que as +escrevesse, talvez +porque adivinhava que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe +então a vontade, +e mal escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a +janella, +acenando-lhe com o papel: <br /> + +<br /> + +―Maricas, cá está uma, vá contando. +Veja: escripta d'alto a baixo. <br /> + +<br /> + +Á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de +lá com um <em>bravo</em>! e recommendava, +solicita, cinco minutos +de folga, emquanto se fumava um cigarro. <br /> + +<br /> + +A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia +a gomma nos dias de expedição. Que ricas cintas e +que bella gomma! Em paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi +sempre nos sabbados +á noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era +estreita atirava-se-lhe da janella. <br /> + +<br /> + +―Maricas, ahi vae ainda fresquinho! <br /> + +<br /> + +―'stá bem, obrigada. Vou lêr, até +ámanhã. <br /> + +<br /> + +Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á +nossa amiga. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[116]</span> ―Durma bem, ouviu? <br /> + +<br /> + +E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do +artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que +mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito +bom, «escripto com muita graça e muito +bem», como ella dizia. <br /> + +<br /> + +Nos serões que faziamos e que por via de regra +não passavam de um interminavel cavaco, dizia-se mal das +mulheres, discutiam-se +escandalos, desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as +redacções... Mas da Maricas ninguem tinha que +dizer senão bem; era a +privilegiada n'aquellas sessões de má lingua. +Quasi sempre a conversa +degenerava em algazarra―um que se lembrava de cantar, outro que ia +pela guitarra e gemia fados com acompanhamento de violão. E +era de +vêr o Santos Mello, d'olhos cerrados e cabeça +á banda, como cantava a +sua quadra predilecta: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Sei cantigas mysteriosas,<br /> + +Cantigas de endoidecer,<br /> + +Que os lirios dizem +ás rosas,<br /> + +Que as rosas me vêm dizer. </div> + +<br /> + +<br /> + +Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava +silencio. <br /> + +<br /> + +«Com mil demonios! não viam que a Maricas +não podia pregar olho...» <br /> + +<br /> + +Todavia...―ó suprema bondade!―...ella nunca se queixava +quando no dia seguinte nos vinha dizer até que horas durara +a estroinice, +o que se tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, +até, as vezes que as cadeiras tinham caido. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[117]</span> +«Ora viam?! Não a tinhamos deixado dormir! A +Maricas que desculpasse; palavra d'honra! d'óra +ávante...» <br /> + +<br /> + +Ella então acudia logo, como a remediar uma grande +desgraça: <br /> + +<br /> + +―Não, não, eu até gósto. +Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora essa... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Pois, meus amigos, a boa da Maricas―morreu! vocês +não sabiam! E morreu tysica, a desgraçada +Maricas! Só depois que o +soube, é que eu comecei a pensar n'aquella tossesinha muito +secca em que ás vezes a surprehendiamos, n'aquelle branco +pallido das suas faces, no bistre das +suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas +mãositas de marfim... <br /> + +<br /> + +Pobre Maricas! <br /> + +<br /> + +Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, +onde continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia +lá para onde ella tinha ido?!... <br /> + +<br /> + +Mal diria eu que estavas no cemiterio, tão longe e +tão só! porventura na valla commum, sem umas +folhas de rosa sobre a tua sepultura humilde,―onde n'este instante +cáe chuva e chuva! Ainda se +as noites fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora +relembro +cheio de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita +resignação: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[118]</span> ―...«Entretem-me vêl-os alegres, até me +faz bem»... <br /> + +<br /> + +Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a +tua alma era triste... Mas porque foi que nos não disseste, +pobresinha! +que n'essa phrase singela ia a revelação do +presentimento +que tinhas da tua morte prematura?! Triste creança que +nós não +mais veremos! <br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não +dizes―<em>bravo</em>!―ora não?... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella +rebentem flôres, são talvez precisos estes corpos +a avigorar-lhe as seivas... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 90px; height: 100px;" alt="" src="images/fig04.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>II <br /> + +<br /> + +</h4> + +<h3><a name="c8"></a>PARA A ESCOLA </h3> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">No</span> velho +casarão do convento é que era a aula. +Aula de primeiras lettras. A porta lá estava, amarella com +fortes pinceladas +vermelhas, ao cima da grande escadaria de pedra, tão suave +que era um +regalo subil-a. Obra de frades, os senhores calculam... Já +tinha principiado +a aula quando a Helena entrou commigo pela mão. Fez-se um +silencio +nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas +lições e a sua taboada, n'um rithmo cadenciado e +monotono, cantarolando. E ouviu-se +então a voz da Helena dizer para o senhor professor, um +d'oculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço +vermelho, atado em +nó sobre a testa: <br /> + +<br /> + +―Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui +está a encommendinha. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[120]</span> +Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez á +escola. Ali estava a encommendinha! <br /> + +<br /> + +―Está bem, que fica entregue. E lá em casa como +vão? <br /> + +<br /> + +E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena +enfiava-me no braço o cordão da saquinha +vermelha, com borlas, onde ia mettido nem eu sabia o quê. Meu +pae é que +lá sabia... E alli estava eu entre os joelhos do senhor +professor, com o <em>bonnet</em> n'uma das +mãos e a saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A +Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e +disse-me adeus. <br /> + +<br /> + +―Adeus, Josésinho, logo venho cá pelo menino. <br /> + +<br /> + +Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella. <br /> + +<br /> + +―Não, agora o menino fica―disse-me a Helena.―Isto aqui +é a escola, é onde se aprende a ler.―E +agachando-se, deante de mim:―Olhe tanto menino, vê? <br /> + +<br /> + +―Mas fica tu tambem―disse-lhe eu então. <br /> + +<br /> + +Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, +iracundo: <br /> + +<br /> + +―Caluda, sua canalha! Não veem que está gente de +fóra? Caluda, que vae tudo razo com bolaria! <br /> + +<br /> + +Foi então que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles +eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E +estavam todos +alegres, p'los modos. Reanimei-me. Então já eu +podia ficar, estavam ali +os meus amigalhotes, cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam +alguns, o +Estevão principalmente. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[121]</span> ―Isto é preciso muita paciencia, senhora Helena, muita +somma de paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.―(Pausa. Olho +duro sobre as bancadas.)―Mas está bem, diga lá +que a +encommendinha cá fica. Em boa hora entrasse... <br /> + +<br /> + +―Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Josésinho? <br /> + +<br /> + +Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito +os olhos. <br /> + +<br /> + +―É verdade,―insistiu por sua vez o professor―o menino +ha-de estudar as suas lições, não +é +assim? <br /> + +<br /> + +―Diga, sim senhor―ensinou-me então a Helena.―Hei-de +estudar muito e ser socegadinho na aula, diga.―E a meia voz para o +professor:―isto em +casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia? <br /> + +<br /> + +Elle riu, já sabia; as creanças são +todas assim, emquanto estão no mimo das mães. Mas +uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam +um pouco. E piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou +transida. <br /> + +<br /> + +―Faz milagres, sr.<sup>a</sup> Helena. Digam lá +o que disserem, olhe +que faz milagres. <br /> + +<br /> + +Eu tinha percebido. Começava de novo a <em>embezerrar</em>, +com +vontade de sair quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que +servia, a palmatoria... <br /> + +<br /> + +―Mas para o nosso Zézito não ha de ser precisa, +ora não? <br /> + +<br /> + +―Diga assim: não senhor, porque eu hei de cumprir com as +minhas obrigações, diga. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[122]</span> ―Ora ahi é que está―atalhou o +professor.―Vê, sr.<sup>a</sup> Helena? Aqui +já os pequenos +tem a sua obrigaçãosinha, os seus +deveres a cumprir, as suas coisas... <br /> + +<br /> + +―Sim senhor, sim, emquanto que em casa... <br /> + +<br /> + +―Em casa é o que nós sabemos. Tudo +são mimos, meu menino isto, meu menino aquillo. +Vão assim creados á lei da +natureza, sabe vossemecê? É mau isso, pessimo! +Porque é que os rapazes são +todos teimosos?―E bateu n'um «Monteverde» pousado +sobre a mesa, +dizendo:―Olhe, aqui está n'este livro: «<em>de +pequenino</em>... <br /> + +<br /> + +―...<em>é que se torce o pepino</em>»―concluiu +rapida a +Helena, orgulhosa de saber o que estava no livro, coitada! <br /> + +<br /> + +―Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma cousa +que se cria na horta... <br /> + +<br /> + +Risota dos rapazes! <br /> + +<br /> + +―Ora vê isto, sr.<sup>a</sup> Helena? +vê estes brutinhos?―E +com entono, de palmatoria alta, fazendo-se carrancudo: <br /> + +<br /> + +―Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço +licença á sr.<sup>a</sup> Helena, +começo n'uma +ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, +tudo, mas o que se chama tudo! <br /> + +<br /> + +E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaça, os +rapazes ficaram transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. +É verdade +que elle podia pedir licença á sr.<sup>a</sup> +Helena, e +mesmo +deante d'ella <em>cascar</em> de rijo... Uma sombra de +terror passou por toda +a sala, socegaram; +até o Estevão deixou de me fazer caretas. <br /> + +<br /> + +―É o que vê, sr.<sup>a</sup> +Helena―disse então +victorioso, a +<span class="pagenum">[123]</span> +sorrir-se, o bom do professor.―É o que +vê! Um mestre sem +palmatoria é um artista sem ferramenta, não faz +nada. <em>Santa Luzia</em> milagrosa! Aqui onde +a vê tem feito muitos doutores. <br /> + +<br /> + +―Essa?―perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle +pedaço de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito +muitos doutores. <br /> + +<br /> + +―Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, +essa é boa! Isso não faz ao caso. <br /> + +<br /> + +Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da +pobre Helena. Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes +investigara com +magua o motivo por que a sua palmatoria não fazia um unico +doutor... Morreria sem ter essa «gloria,» decerto! +Forte martyrio que +a Helena veio recordar-lhe!... <br /> + +<br /> + +Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e +de braço no ar pedia para ir lá fóra. <br /> + +<br /> + +―<em>Licéte</em>!―foi como elle disse, +arremedando o latim +<em>licet</em>. Outros havia que diziam, por +troça, <em>Aniceto</em>! <br /> + +<br /> + +―Ora já a mim me admirava,―tornou-lhe o professor.―Se tu +não havias de pedir para ir lá fóra, +tu...―E ficou-se a +fital-o, meneando pausadamente a cabeça.―Ora vá +você +lá fóra. <br /> + +<br /> + +O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés. <br /> + +<br /> + +―Olá?―chamou zangado o sr. professor. <br /> + +<br /> + +O outro assomou á porta, contrafeito. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[124]</span> ―Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, +ouviu? Não sei se percebes... Ora já que tem +tanta pressa, eu não +tenho nenhuma; faça favor de esperar um pouco. <br /> + +<br /> + +Poz-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando: <br /> + +<br /> + +―Tu não... tu não... tu não... Tu, +olá, venha cá! <br /> + +<br /> + +Levantaram-se uns poucos, foi um barulho. <br /> + +<br /> + +―Canalha!―gritou-lhes então, batendo o +pé.―Corja de atrevidos! Sentados, já! <br /> + +<br /> + +Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, +se era elle, apontando para o peito. <br /> + +<br /> + +―Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se. +<br /> + +<br /> + +Mediu-o d'alto a baixo. Depois: <br /> + +<br /> + +―Isso mesmo. Essa mão no bolso é que +não é do <em>regulamento</em>, +fóra com ella. +Agora, sim senhor. Ora vês além aquelle +sujeito? o tal das pressas?... <br /> + +<br /> + +―Vejo, sim senhor. <br /> + +<br /> + +―Bem sei que vês, se o não vissem é +porque eras cego; que tal está o palerma? Ora acompanhe-o, +já sabe p'ra que. E sempre quero +ver se tenho de vos ir lá buscar pelas orelhas. <br /> + +<br /> + +Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[125]</span> ―Olá? <br /> + +<br /> + +Elles assomaram, outra vez, atrapalhados. <br /> + +<br /> + +―Então, seus cabeças d'avelã, torres +de vento, então não falta nada? <br /> + +<br /> + +Os dois pozeram-se a coçar a cabeça, muito +compromettidos. Faltava com effeito alguma coisa... <br /> + +<br /> + +―Então é ahi? <br /> + +<br /> + +Elles avançaram até ao meio da sala, +tropeçando um no outro. <br /> + +<br /> + +―Ora passa por esta vez, em attenção a estar +aqui a sr.<sup>a</sup> Helena.―E enrugando o sobr'olho, +commandou em tom +marcial:―Ordinario! marche! <br /> + +<br /> + +Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava +o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir +ordens suas: <br /> + +<br /> + +―Ordinario! marche! <br /> + +<br /> + +Sentou-me então no joelho e perguntou: <br /> + +<br /> + +―Olha lá, Josésinho, tu queres ser militar, +queres? Assim como o sr. capitão do destacamento, que +lá está +aboletado em casa, queres? <br /> + +<br /> + +―Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o sr. +prior, dizer missas. <br /> + +<br /> + +Riram-se. Quem sabia lá o que d'ali sairia? Mas o sr. +professor fez notar que era bom que os pequenos tivessem +<span class="pagenum">[126]</span> +já +assim uma +tendencia qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas +nas bochechas. <br /> + +<br /> + +―Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é +preciso escolher.―E para a Helena:―Pois olhe que os tenho conhecido, +sr.<sup>a</sup> Helena, que respondem +a pés junctos que não querem ser nada. Mau +signal, +pessimo, sr.<sup>a</sup> Helena! Quando elles assim dizem, +de ordinario assim +fazem, depois. Nunca +são gente.―E virando-se para mim:―Mas então, +Josésinho, em que ficamos? Corneta ou prior? <br /> + +<br /> + +Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, +especialmente em dias de festa, com aquella capa toda doirada... <br /> + +<br /> + +―Muito bem, escolheste bem. «<em>Telha de egreja</em>... +<br /> + +<br /> + +―...<em>sempre gotteja</em>»―concluiu a Helena +que ainda hoje +é forte em adagios. <br /> + +<br /> + +O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria. <br /> + +<br /> + +―Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. +Pois olha, Josésinho, para ser prior é preciso +estudar, saber ler no missal, ora +é? <br /> + +<br /> + +―É. <br /> + +<br /> + +―Ah!... Não é assim que se diz. É, +sim senhor―emendou a Helena. <br /> + +<br /> + +O sr. professor teve um gesto de indulgencia. <br /> + +<br /> + +―Mas tu não sabes ainda, ora não? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[127]</span> ―Não senhor. <br /> + +<br /> + +Elle então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que +eu trazia na sacca era um livro. <br /> + +<br /> + +―Querem ver que é um livro?... <br /> + +<br /> + +―Diga―ensinou a Helena―é o meu livro para aprender a ler. +Mostre-o lá ao sr. professor, tome. <br /> + +<br /> + +Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do +meu livro. <br /> + +<br /> + +―Muito bem! muito bem!―applaudiu o sr. professor.―Mas este livro +é mesmo para aprender a prior... O menino já +tinha dito +lá em casa que queria ser prior, ora já? <br /> + +<br /> + +Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquillo; mas como +é que elle o sabia? <br /> + +<br /> + +―Bem se vê por este livro. É livro para prior. +Queres então principiar, não queres? <br /> + +<br /> + +―Quero, sim senhor,―ensinou ainda a Helena e eu repeti.―O que eu +quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga. <br /> + +<br /> + +―Primeiro do que aquelles?―perguntou voltando-me para as bancadas. <br /> + +<br /> + +Então fui eu mesmo que respondi:―«Sim +senhor!»―contente com a lembrança de vir a dizer +missa, e de a vir a dizer primeiro +do que todos aquelles. Até podia acontecer que o +Estevão das +caretas me ajudasse a alguma... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[128]</span> ―Ora então está muito bem, estamos +entendidos.―E com intenção, ferindo muito as +palavras, para m'as gravar no espirito:―A primeira coisa que +é precisa para prior é saber bem isto, +vês?―E +punha-me deante dos olhos o livro aberto na primeira pagina.―Isto aqui +é já +missa, chama-se o <em>a b c</em>, e é aquillo +que os priores dizem +quando vão +para o altar. <br /> + +<br /> + +―<em>Ito</em>?―inquiri curioso, furando a pagina com o +dedo. <br /> + +<br /> + +―Sim, isto. E amanha já me has-de trazer sabido d'aqui +até ali. Hein? valeu? <br /> + +<br /> + +―Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor. <br /> + +<br /> + +Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira +lição! <br /> + +<br /> + +<em>A B C D E F</em>! <br /> + +<br /> + +A minha primeira lição! <br /> + +<br /> + +―Ora sabe vossemecê o que isto é, sr.<sup>a</sup> +Helena? +isto que eu tenho estado a fazer? <br /> + +<br /> + +―Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... +é... <br /> + +<br /> + +―Não sabe, não admira,―disse complacente o sr. +professor.―Puxar o gosto, sr.<sup>a</sup> Helena, puxar o +gosto é que +isto é. +Nem todos os mestres o fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, +até +já vae estudar com mais gosto, digo-lh'o eu; olé +se vae! <br /> + +<br /> + +«Mas elle não a queria demorar mais, tinha +lá em casa as suas obrigações, as suas +voltas, e deviam ser +horas.» <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[129]</span> ―Pois isso é verdade, sr. professor; mas não sei +que é, custa-me a separar do menino...―disse a boa da +Helena, quasi a chorar. <br /> + +<br /> + +―Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi é que está a +coisa. Pois tenha paciencia. Aprender é tão +preciso como +mamar―concluiu n'uma prosa que é mesmo poesia. <br /> + +<br /> + +―Pois é preciso, é!... <br /> + +<br /> + +E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti +na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me +ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou: <br /> + +<br /> + +―sr.<sup>a</sup> Helena! <br /> + +<br /> + +―Meu senhor!―respondeu, levando aos olhos o avental. <br /> + +<br /> + +―Já agora, espere mais um instante. <br /> + +<br /> + +Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. +Depois, intimou: <br /> + +<br /> + +―Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te +chamas, abaixo um pouco.―E virando-se para a pobre mulher +lacrimosa:―Ora +é alli, sr.<sup>a</sup> Helena, alli +é que é o +logar do pequeno. +Leve-o lá, ande, que lhe não deve pesar. <br /> + +<br /> + +E dos braços do meu professor passei para os +braços da ama. Novo beijo, lagrimas mais quentes, e saiu a +boa da Helena, deixando-me no meu logar...―o meu primeiro posto na +arriscada milicia das lettras... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[130]</span> +Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a +conversar por acenos com a pessoa que estava de fóra. +Pequeno como era, +percebi, no emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica: <br /> + +<br /> + +―Bolos?... Não?!... Perdoe a sr.<sup>a</sup> +Helena, mas isso, quando +forem precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... +Han? +mesmo com a mão?... Está bem... Descance... Mesmo +com a +mão... <br /> + +<br /> + +E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre +lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que +principiei n'esse dia. Não volto mais á escola! +Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquelle beijo―dulcissimo beijo +aquelle!―que tu +então me déste. E afinal não fui +prior, ora +vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, acho que parecia mal +beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem +que não fui prior, ainda bem... Não é +verdade, Helena? <br /> + +<br /> + +<div class="quote1 tinyl">Em Coimbra,</div> + +no dia do meu acto de formatura. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c9"></a>TRAGEDIA RUSTICA </h3> + +<h4> +I </h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Madrugada de +segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, +á porta do José Grillo</em> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Truz! truz! truz! <br /> + +<br /> + +Os de casa acordaram, sobresaltados. <br /> + +<br /> + +―Schiu! nem pio!―fez o José Grillo para a mulher.―Moita! <br /> + +<br /> + +―Truz! truz! truz! <br /> + +<br /> + +Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a +chamar pelo pae.―Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se +queria divertir... <br /> + +<br /> + +Mas logo outra vez na porta: <br /> + +<br /> + +―Truz! truz! <br /> + +<br /> + +―Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem +é! gritou +<span class="pagenum">[132]</span> +de dentro o José Grillo, zangado. E +pois que se poz á cóca, de +orelha fita, olhos cravados na telha-van do casebre, sentiu +distinctamente os passos de alguem que fugia. <br /> + +<br /> + +―Eu não te disse? aquillo foi bruto que se quiz +divertir―explicou elle para a mulher. <br /> + +<br /> + +Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um +cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á +ideia que lhe tinham vindo pôr zôrro... <br /> + +<br /> + +―Ó mulher, queres tu ver que ha novidade? <br /> + +<br /> + +De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do +casebre. <br /> + +<br /> + +―Elle que demonio de embrulho...? <br /> + +<br /> + +Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creança, +envolta em dois trapinhos muito velhos. <br /> + +<br /> + +―Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a creancinha. <br /> + +<br /> + +―Grandes cadellas!―E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a +gente da casa. <br /> + +<br /> + +―Andem! a pé! levantem-se! está aqui este +innocentinho que vem dar os bons dias á gente! <br /> + +<br /> + +Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do +José Grillo mettera a creança na cama, visto que +a pobresinha estava +gelada... <br /> + +<br /> + +―Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha +<span class="pagenum">[133]</span> +do Antonio das +Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo. <br /> + +<br /> + +Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites +que chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a +rapariga que ia correndo: <br /> + +<br /> + +―Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquillo que +fôr. <br /> + +<br /> + +Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de +pé no meio da casa, a saia amarella deitada pela +cabeça, de braços +cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra. <br /> + +<br /> + +―Ó mulher, nada de afflicções, +é tal e qual como se fosse nosso, faz de +conta...―observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar +taciturno da femea. <br /> + +<br /> + +Ella só redarguiu que <em>nosso</em> era um +modo de fallar. Seria +d'elle, mais de qualquer desavergonhada... <br /> + +<br /> + +O José Grillo, que estava a enfiar as calças, +parou no serviço e pregou-lhe uma gargalhada. <br /> + +<br /> + +―Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez +esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje é dia de +entrudo. <br /> + +<br /> + +A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um braço, +levou-a ao pé da creança, affirmando-lhe +ás risadas que sim, +que o pequeno era filho d'elle. <br /> + +<br /> + +―O pequeno?... mas é que pode ser cachopa―disse o +José Grillo para a mulher.―E certificando-se:―Nada! +é rapaz. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[134]</span> +Seguiu-se uma altercação. A senhora Joanna, a +chorar, ia jurando pela sua salvação que +«o +crianço» era filho do seu homem. <br /> + +<br /> + +―Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, +braços no ar, o balandrau da saia amarella enfiado pelo +pescoço n'um geito +de sobrepeliz.―Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae +ser de mim! <br /> + +<br /> + +―Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que +é rapaz―disse-lhe de lá o José +Grillo, muito fleugmatico, debruçado sobre a +creança. <br /> + +<br /> + +Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhaço, +muito afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José +Grillo +virou-se para ella e disse-lhe muito solemne: <br /> + +<br /> + +―Pois assim me Deus salve como não é meu o +rapaz. <br /> + +<br /> + +Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se +logo para elle, olhos esbugalhados, muito suspensa. <br /> + +<br /> + +―Juras pelas cinco chagas, ó homem? <br /> + +<br /> + +―Juro pelas cinco chagas. <br /> + +<br /> + +―Assim te Deus dê saude, ó José? <br /> + +<br /> + +―Assim me Deus dê saude. <br /> + +<br /> + +―Preto sejas tu como o teu chapeu? <br /> + +<br /> + +―Preto seja eu como o meu chapeu. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[135]</span> +A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e +abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa +Senhora da Conceição, pegada na face interna da +tampa, com +boccadinhos d'hostia. <br /> + +<br /> + +Depois desabafou, muito aliviada: <br /> + +<br /> + +―Ai! <br /> + +<br /> + +O José Grillo poz-se a rir.―«O demonio da Joanna, +com ciumes!» <br /> + +<br /> + +―Mas ciumes de quê, ó mulher? não +farás favor de me dizer de que diabo tens tu +ciumes?―perguntava muito casto o amigo José Grillo, +serenissimo deante da mulher desconfiada. <br /> + +<br /> + +A outra, muito delambida, redarguiu com ironia―«que o seu +homem era um santinho...»―O José Grillo ia +defender-se. Mas +ella, atalhando logo, reguingou d'alto: <br /> + +<br /> + +―Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a +cadella que engeitou este... <br /> + +<br /> + +Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira: <br /> + +<br /> + +―Mas quem seria a grande cadella? <br /> + +<br /> + +Poz-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares +de alguem, murmurando phrases d'odio, moralistas: <br /> + +<br /> + +―Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que +é tem mesmo entranhas de lobo. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[136]</span> +O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do +José Grillo. <br /> + +<br /> + +―É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que +coisa é mamar―disse contristado o lavrador. <br /> + +<br /> + +Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem +vinha com a Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas. <br /> + +<br /> + +―Tua irmã, tua irmã é que se +cá precisava. Que demonio vens tu cá fazer? +Ouves? não me dirás que diabo vens tu +cá fazer?―E deu um bofetão na filha, +«para que soubesse dar o recado». <br /> + +<br /> + +A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga não tinha +culpa. A irmã é que a mandara para levar a +creança, porque ella, adoentada, +fazia-lhe mal sair de casa assim cedo... <br /> + +<br /> + +―Só se lhe queres tu dar de mamar―insistiu ainda o +José Grillo, virado para a Dorotheia, irreverente pelos seus +dezenove annos inda virgens. <br /> + +<br /> + +A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse: <br /> + +<br /> + +―Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por +graça. <br /> + +<br /> + +―Eu sei lá se não se dizem?―observou o +lavrador, muito zangado.―Dá cá d'ahi o pequeno. <br /> + +<br /> + +Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao +José Grillo. O lavrador depol-o nos braços da +Dorotheia, com mil cuidados, +e depois elle mesmo ajudou +<span class="pagenum">[137]</span> +as mulheres a ageitar o pequenino, em termos +que +fosse bem quente. <br /> + +<br /> + +―Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de +tarde por lá appareço, p'ra ver isto do ajuste. <br /> + +<br /> + +A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que +tinham alli ficado os farrapos, gritou para a rapariga: <br /> + +<br /> + +―Ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto. <br /> + +<br /> + +Então poz-lhe os farrapos ao hombro―uns pedaços +miseraveis de velha chita―e a Dorotheia partiu onde á +irmã. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>II </h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Quarta-feira +anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de +Antonio Palma, casado com Rufina Maria</em> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +O Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A +mulher, a Rufina, principiava a lavar a louça, quando +á +grade do quinchoso uma voz chamou: <br /> + +<br /> + +―Ó sr.<sup>a</sup> Rufina! <br /> + +<br /> + +Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as +mãos fumegantes. Foi preciso fazer calar o <em>Farrusco</em> +para +se poder ouvir o que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do +caminho. <br /> + +<br /> + +―Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem. <br /> + +<br /> + +O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de +cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma +desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Thomaz +negociante de gado. Entrou, fizeram-lhe uma +recepção fria. Os +proprios pequenos olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande +mulher gorda que +elles não conheciam. Ella sentou-se +<span class="pagenum">[139]</span> +logo n'um sacco, muito +esfalfada, emquanto o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um +banco, acotovelando-se, +com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O <em>Farrusco</em> +investiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o +pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a +mulher começou assim: <br /> + +<br /> + +―Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias. +Já veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que +tenha o meu filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e +vou-me embora. +Lá em casa de minha mãe aquillo é uma +grande +miseria, passam-se dias que não comemos. Não ha +uma cama, a gente dorme sobre +umas palhas, sem geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este +estado, bem veem como eu ando... <br /> + +<br /> + +Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e +a mulher diziam não sei que monosyllabos, o <em>Farrusco</em> +rosnava. A outra proseguiu: <br /> + +<br /> + +―Não é por mim, sabem? não +é por mim. É este innocentinho que tem de nascer +no chão, como os cães... Bem sabem que +isto custa. Pouco se me dava de morrer, afinal, mas queria que o meu +filho vivesse... Coitadinho! <br /> + +<br /> + +Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas +para o Palma e para a mulher. <br /> + +<br /> + +―Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou. <br /> + +<br /> + +O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de +seu lado, ajudaram-na a levantar-se, +<span class="pagenum">[140]</span> +dizendo-lhe submissamente que tudo +se havia de arranjar, que socegasse. <br /> + +<br /> + +―Que a fallar os pontos de verdade, sr.<sup>a</sup> +Fortunata, +vossemecê é que tem a culpa d'esses trabalhos, +disse-lhe logo o Palma. <br /> + +<br /> + +Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que +se calasse. <br /> + +<br /> + +―Má sorte d'aquelle pobre José Thomaz, +acabou-se! Quando elle casou com vossemecê antes tivesse +quebrado uma perna. <br /> + +<br /> + +Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta. <br /> + +<br /> + +―Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado, +nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz +não vae a uma feira. Pois olhe que era homem para junctar, +videiro como poucos. <br /> + +<br /> + +Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois +continuou: <br /> + +<br /> + +―Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo +sacco... <br /> + +<br /> + +A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O +Palma proseguiu: <br /> + +<br /> + +―Sente se vossemecê, mulher, o sacco não faz ao +caso. Pois foi ahi mesmo que elle esteve, até parecia um +pobre de pedir. Nem +botões na camisa, coitado! Mas pela conversa bem se +vê que inda lhe +não quer mal. Que a bem dizer elle quasi não +conversa, anda a modos que +amalucado, sempre a levar a mão á +cabeça, como se +lá +<span class="pagenum">[141]</span> +dentro aquillo andasse azoado. E mais é que +bem póde o rapaz dar em doido... <br /> + +<br /> + +A senhora Rufina foi de parecer que doido já elle andava. +Passavam-se dias que não apparecia em casa do tio +José +Garção, que o levára logo para elle, +mal a sr.<sup>a</sup> Fortunata o deixára. Por +onde andava? +que fazia? Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo +telheiro que +os porcos. Que d'outra vez fôra ter com o vigario para que +lhe +baptisasse o filho, dizendo que já tinha nascido. <br /> + +<br /> + +―No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.―Anda com +ella ferrada que o filho já nasceu. <br /> + +<br /> + +Aqui, a Fortunata, de pé junto á porta, rompeu +n'uma choradeira, ouvindo fallar no filho. O Palma interveio, condoido, +dizendo que se +não affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde +nascesse. <br /> + +<br /> + +Ella ia ajoelhar, o Palma não deixou. <br /> + +<br /> + +―Não é por vossemecê, mulher, assim me +Deus salve como não é por vossemecê. +Mas é que o innocentinho que ahi traz +esse é que não tem culpa. Faço de +conta que é o pae que me pede, o +pobre José Thomaz. Vossemecê bem sabe que eu era +amigo do José +Thomaz. Diabo! a gente já diz <em>era</em>, +já falla +n'elle como se o pobre tivesse +morrido... <br /> + +<br /> + +N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns +bois que não eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e +depois, quando já ia para sair, disse em resumo: <br /> + +<br /> + +―Fique vossemecê então, sr.<sup>a</sup> +Fortunata. Ouves, +Rufina? +<span class="pagenum">[142]</span> +Talvez que ella inda não jantasse. Faz-lhe a cama +lá dentro, e o +resto arranjem-se. <br /> + +<br /> + +Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo +gordo, desentupiu e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda +beijado, nem lhe tinha feito uma caricia, quando por volta do meio dia +a avó do +pequeno alli chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a +dar a bolota +aos cevados, ficou espantado: <br /> + +<br /> + +―Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, sr.<sup>a</sup> +Anna! <br /> + +<br /> + +Ella, sem mais rodeios, perguntou se a creança já +tinha nascido. <br /> + +<br /> + +―Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro +se a quer ver. Venha d'ahi. <br /> + +<br /> + +Mas iam ainda á porta, quando a velha, filando o +braço do Palma, lhe perguntou n'um sobresalto: <br /> + +<br /> + +―Vivo ou morto, sr. Antonio? <br /> + +<br /> + +O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a creança +nascesse morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a +mulher a pontapés. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de +colera, quando +em presença do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o +que se lhe havia de fazer. <br /> + +<br /> + +O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella +insistisse com a pergunta: «que se ha de agora fazer a +isto?» +elle redarguiu, irado; <br /> + +<br /> + +―Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você +pergunta +<span class="pagenum">[143]</span> +o que se ha de fazer á creança. Talvez +você queira que +o pequeno vá já cavar... <br /> + +<br /> + +A velha ia fallar. <br /> + +<br /> + +―Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que +você lhe tem, que inda nem sequer a beijou. Nem a +mãe o beijou ainda, coitadinho! +Você já viu uma cadella quando tem os filhos, +já viu? Com mil diabos, +qualquer cadella vale mais que vocês duas. <br /> + +<br /> + +O Palma ia-se pondo amarello, a sr.<sup>a</sup> Rufina +interveio, aconselhando-o +a que saisse. <br /> + +<br /> + +―Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de +vespera até á feira. <br /> + +<br /> + +Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o +freio da egua. <br /> + +<br /> + +―Tanto faz ir ámanhã cedo, como ir já +agora. É já de cara. Mette-me qualquer coisa nos +alforges, que vou já aparelhar a egua. <br /> + +<br /> + +D'ahi a meia hora, o Palma montava á porta, no meio do +rancho dos cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má +cara: <br /> + +<br /> + +―Em estando capaz, rua! <br /> + +<br /> + +―D'aqui a tres dias, talvez... <br /> + +<br /> + +―Então até d'aqui a quatro. Ouves? E olha se +defumas a casa, quando esses estafermos sairem. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[144]</span> +Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta +fóra―com o embrulhinho do neto ao colo... <br /> + +<br /> + +Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado... <br /> + +<br /> + +Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? Não sei. +Caso é que na madrugada seguinte, a desavergonhada +abandonava o pequenino +á porta do José Grillo. <br /> + +<br /> + +Madrugada de fevereiro, nevava... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>III </h4> + +<br /> + +Quando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar á +irmã, tinha amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um +nordeste frigidissimo retalhava a cara da rapariga, encolhida sob +aquella atmosphera de gelo. +Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido +e tão triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de +neve até +ao alto, faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella +impressão de +frio. O chão estava coberto de neve; e lá em +cima, muito alto, o +céo muito azul annunciava um dia de sol. <br /> + +<br /> + +A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda +d'aquelle lado em contacto com o pequenino... <br /> + +<br /> + +Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe +perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da +levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um +engeitadinho. <br /> + +<br /> + +―Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[146]</span> +Mas o moleiro, que vinha chegando, espécou deante da mulher, +e repetiu como um echo: <br /> + +<br /> + +―...Um engeitadinho. <br /> + +<br /> + +Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga. <br /> + +<br /> + +―Sim, um engeitadinho, deve ser isso...―continuou o moleiro.―E +d'ahi... póde ser que não seja... <br /> + +<br /> + +A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa. <br /> + +<br /> + +―Nada! pode ser que a historia seja outra―elucidou o moleiro.―Onde +foi que isso foi posto? <br /> + +<br /> + +―Esta madrugada, á porta do José Grillo. <br /> + +<br /> + +―Olá! isso então pode ser coisa d'elle―observou +a rir o moleiro.―Esse diabo não é seguro. <br /> + +<br /> + +Pozeram-se a rir da lembrança. Já dentro do +moinho, o homem pôz-se a explicar á rapariga: <br /> + +<br /> + +―É que hontem á noite veio aqui um homem pedir +pousada, um homem a modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal. +Assim ás +primeiras, tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo... <br /> + +<br /> + +―Ó Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro, +dá cá o menino e senta-te. Vou-lhe dar de mamar, +que o pobresinho ha-de ter fome. <br /> + +<br /> + +A Dorotheia passou a creança para os braços da +moleira. Foi uma alegria ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os +olhitos inda fechados. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[147]</span> ―Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho +tem! Quem seria a desavergonhada?... <br /> + +<br /> + +―Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro. <br /> + +<br /> + +―Depois, dormiu cá, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas +dá-se o caso que o homem não pregou olho em toda +a noite, sempre a +malucar, n'um fallatorio pegado. «Que o filho era d'elle, que +se a cabra da +mãe teimasse em o engeitar, elle ia dar parte á +justiça.» Um arrazoado assim, muito comprido. <br /> + +<br /> + +Espantada, a Dorotheia ia fallar. <br /> + +<br /> + +―Mas espera, que o melhor da festa é que o homem +tão depressa dizia isto, como dizia que o filho +já tinha nascido, que era muito +lindo, que onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar. <br /> + +<br /> + +Ficaram-se um instante a mirar consolados a creança. <br /> + +<br /> + +A pobresinha vagia, mamando com sofreguidão. <br /> + +<br /> + +―Mas então sempre elle sabe do filho, reatou com interesse +a Dorotheia.―Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae, +coitadinho! <br /> + +<br /> + +A sr.<sup>a</sup> Luiza, que não gostara que se +recolhesse o homem, +resumiu com ar compungido: <br /> + +<br /> + +―Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir! <br /> + +<br /> + +Fez-se um silencio, mirando todos a creança. A taramella do +moinho batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro +explicou ainda +que o homem alvorara +<span class="pagenum">[148]</span> +muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer +obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe +respondera:―«Para a feira. Vender um gado.» <br /> + +<br /> + +―Ora vá lá o diabo entender isto!―rematou por +fim o moleiro. Um doido a vender gado. <br /> + +<br /> + +Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Dorotheia, +com pressa por causa da irmã, pegou outra vez na +creança e +abalou pela porta fóra, direita á casa do pae. <br /> + +<br /> + +―Olha os trapos, ó Dorotheia! olha que deixas cá +isto.―E o Paulo correu a levar á rapariga os trapos segunda +vez esquecidos, +e que eram todo o enxoval do triste pequenino... <br /> + +<br /> + +Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a +creança não ia com fome. E para que tambem +não fosse com frio, a boa da rapariga achegava ao peito o +engeitadinho, n'uma solicitude toda materna. <br /> + +<br /> + +―Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá +gente que seja capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um +innocentinho, embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! +Vamos que o +José Grillo não dava fé! Alli se +morria de frio o +anjinho, capaz de virem depois os cães e comel-o. <br /> + +<br /> + +E espreitando pela fenda estreita do chale: <br /> + +<br /> + +―Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua mãe, ora foi? <br /> + +<br /> + +―Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que +já de longe a acompanhava, sem ella dar fé, +corria tambem atraz +d'ella, e não tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga +soltou um grito, ia cair +com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella +conhecia gritou alli de perto: <br /> + +<br /> + +―Larga a rapariga, ó José Thomaz! Larga a +cachopa! <br /> + +<br /> + +E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os. <br /> + +<br /> + +―É o José Thomaz que está +doido,―explicou o pastor.―Desde que a mulher lhe fugiu, que o pobre +anda assim, coitado! <br /> + +<br /> + +Mas palavras não eram ditas, eis que o José +Thomaz de novo se arremessa á rapariga. <br /> + +<br /> + +―Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!―rugiu elle com voz +furiosa. <br /> + +<br /> + +E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre +lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as +mãos erguidas, impetrando a chorar que lhe dessem o seu +filho... <br /> + +<br /> + +A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente. <br /> + +<br /> + +E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do +engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a +rir-se... <br /> + +<br /> + +―Conheces? perguntou-lhe a rapariga. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[150]</span> +No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido +não respondeu. <br /> + +<br /> + +―Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos. <br /> + +<br /> + +Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia +todo. Como estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle +então +oppoz-se, caindo sobre os calcanhares. <br /> + +<br /> + +E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel +farrapo, as lagrimas corriam, copiosas... <br /> + +<br /> + +Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram +percebendo. Os farrapos que embrulhavam a creança eram da +saia da mãe. A mãe era a mulher do +José Thomaz, e o pequenino +era filho d'elle... A grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois +de ter fugido ao homem! <br /> + +<br /> + +―Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.―Ora vês +ahi um estafermo que precisava que a matassem! <br /> + +<br /> + +O José Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma +forte impressão de piedade estampava-se em todos os rostos. <br /> + +<br /> + +―Ó Dorotheia! chamou então um dos do grupo. Traz +aqui o menino. Um pae deve sempre beijar o seu filho. Traz +cá o pequeno, +ó rapariga. <br /> + +<br /> + +Mas não foi preciso; que o José Thomaz, sempre de +joelhos sobre a neve, foi para ella de mãos postas humilde +<span class="pagenum">[151]</span> +como um rafeiro... E +como aos labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio +que se fez ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o +filho. <br /> + +<br /> + +Como se fôra uma chuva de petalas, do céo de +madreperola a neve cahia mais densa...―ao mesmo tempo que nos ramos +altos dos castanheiros, +como no seio immenso de um orgão, o vento sul―gemia... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 80px; height: 86px;" alt="" src="images/fig05.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c10"></a>ABYSSUS ABYSSUM... </h3> + +<br /> + +<br /> + +N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. +Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que +tentação para ambos, o rio! Ainda lhes soavam aos +ouvidos, com todo o seu entono vibrante de ameaça, aquellas +terriveis palavras com que a mãe +os intimidara, um dia que lhe appareceram em casa tarde e ás +más horas. +<br /> + +<br /> + +―Ouvistes?―ralhara-lhes a mãe.―Olhae se ouvistes: se +voltaes ao rio, mato-vos com pancada. Andae lá... <br /> + +<br /> + +Ih! como ella dissera aquillo, Mãe Santissima! Colerica, +ameaçadora, com a mão em gume sobre as suas +cabecitas loiras... Lembravam-se +de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes +sob aquella ameaça terminante. E então, n'esse +dia, +elles não tinham ido ao rio. Aos passaros +sim...―lá estavam as calças +rotas do Manuel a dizel-o―...aos passaros é +<span class="pagenum">[154]</span> +que elles +tinham ido. Ao rio era +bom! a mãe que o soubesse... <br /> + +<br /> + +Ah, mas então não os deixassem dormir n'aquelle +quarto. Logo de manhã, mal abriam as janellas, a primeira +coisa que viam era o rio, uma corrente muito lisa e esverdeada, +serpeando entre os renques baixos dos +salgueiros. Lá estava a ponte velha, d'onde os rapazes se +atiravam despidos, de cabeça para baixo, e então +o +barquinho branco do fidalgo,―lindo barquinho!―sempre á +espera que o fidalgo o +desamarrasse para passar á grande quinta que tinha na margem +de +lá. <br /> + +<br /> + +De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava +os dois rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores, +tão madrugadores como os melros, metterem-se dentro do +barco, desprendel-o da praia, e deixal-o ir então por onde +elle quizesse, +comtanto que fosse sempre para deante... Quando fechavam as janellas +para se deitar, a sua +vista seguia, mesmo atravez da escuridão da noite, a linha +que ia dar ao barco. Era o seu―«adeus até +ámanhã!»―áquelle pequeno +objecto que valia thesoiros, que para os dois valia mais que tudo, +tudo... <br /> + +<br /> + +Ah! tivessem elles assim um barquinho, que não queriam mais +nada... <br /> + +<br /> + +―Mais nada? <br /> + +<br /> + +―Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que +não ralhasse, está visto. <br /> + +<br /> + +Mas n'essa manhã, bella manhã, na verdade! a +mãe viera acordal-os mais cedo. Ia já pela aldeia +um claro rumor de vida―gente que +passava para os campos, os +<span class="pagenum">[155]</span> +solavancos dos carros no empedrado pessimo +da rua, os patos da visinhança que saiam em rancho para a +digressão pelos prados, grasnando ruidosamente, +levantando-se em vôos curtos, +espantados da aggressão accintosa dos rapazes. Havia mais de +uma hora que +alli perto se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador +atarracando cravos na +bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito +hirto e vagaroso, as chaves da egreja na mão esquerda e na +direita a +cabacita do vinho. E áquella hora, onde iria já a +missa! A +ultima beata, encapuchada e lenta, recolhera, trazendo comsigo a +esteira em que +ajoelhára na egreja. Havia mais de meia hora que o +João carpinteiro, no +meio da rua, dava com valentia n'um carro cujo eixo <em>ardera</em> +na +vespera, e que era urgente compor, p'los modos. Até o +Ernestinho do estanco +abrira já a loja, e subira á varanda a regar os +mangericos. +Começos da labuta diaria, emfim; os senhores sabem. <br /> + +<br /> + +Pois como lhes disse, a mãe viera n'essa manhã +acordar mais cedo os dois pequenos. <br /> + +<br /> + +―Fóra, mandriões, vamos! É preciso +afazerem-se a madrugar, que tal está! Ai, ai, dia claro ha +que tempos, vem ahi o sol, e os +morgadinhos na cama.―E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as +janellas.―Persignar e +vestir, vamos! Calças... colete... os +jaquetões... tomem. <br /> + +<br /> + +E poz-lhes tudo sobre a cama. <br /> + +<br /> + +―Mãe, a benção!―balbuciaram os dois, +tontos do somno ainda. <br /> + +<br /> + +―Deus os abençôe. Que Deus não +abençôa mandriões, ouviram? Ora eu +já volto. Queira Deus que não vos encontre +cá +fóra, tendes que ver. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[156]</span> +Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os +olhos áquella hostilidade viva da luz que invadira o quarto +n'um jacto repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa +assomava-lhes o peito +que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria +tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais +novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar +já +o aconchego morno da cama, onde se estava tão bem! onde os +sonhos eram +tão lindos! <br /> + +<br /> + +Mas a mãe não tardava alli. Era preciso +vestirem-se, que remedio! Foi então que o Manuel, mais +esperto do somno, olhando para o +campo o achou encantador, todo resplandecente de verduras. <br /> + +<br /> + +―Bonita manhã, não vês? As arvores +parecem mais lindas, repara. Porque será? <br /> + +<br /> + +O outro encolheu os hombros, não sabia: só se +fosse por não haver nuvens... <br /> + +<br /> + +Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva +da manhã fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde +encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com +a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das +baixas. +Revestidos de folhagem, ascendiam ares fóra os olmos +gigantescos. +Pedaços d'horta estavam em toda a pompa do seu +viço e da sua frescura. +Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as +merendas. <br /> + +<br /> + +Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa +manhã deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante +sob aquelle +céo immaculado. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[157]</span> ―Ah! ah!...―riu-se o Manuel, contemplando-o.―O rio! Que te parece? +Olha que é lindo, o rio; ora é, ó +Antonio? <br /> + +<br /> + +―É, lá isso... Mas <em>tamem</em> +de que +vale?―tornou-lhe com desalento o irmão.―A gente +não pode lá ir... Olha +se a mãe o soubesse, han?―E mirando por sua vez a paizagem +perguntou:―Já reparaste no +barco, ó Manuel? <br /> + +<br /> + +―Tão bonito! <br /> + +<br /> + +Os dois riram. <br /> + +<br /> + +―Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara. <br /> + +<br /> + +―Podera!...―explicou o Manuel―...amarrado com uma corda...―E depois +radiante, gesticulando para o irmão:―Mas eu era capaz de o +desamarrar... <br /> + +<br /> + +―Ai eras!―disse duvidoso o Antonio, para o incitar. <br /> + +<br /> + +Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, lá isso era. Ambos +dentro d'elle, sósinhos, isso é que seria bom! E +elles +então que estavam mortos por ir ás azenhas, e +pelo rio era um instante emquanto +lá chegavam. O barco! Era tão bom andar no barco! +E aquelle +então era lindo, como não tinham ainda visto +outro. Nunca lhes haviam esquecido―olhem +lá não esquecessem!―aquellas tardes em que o +fidalgo os levara dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava. <br /> + +<br /> + +O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito á +janella. Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[158]</span> ―Está um dia lindo, avia-te. <br /> + +<br /> + +―Olha avia-te! p'ra que?―perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o +pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos +ambas na borda da cama. <br /> + +<br /> + +O Manuel sorriu-se, triste.―Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A +mãe não os deixava ir ao rio... E se +não que fossem! +«Mato-vos com pancada se desceis a ladeira.» +Já se vê que +depois d'isto...―E os dois suspiravam, desgostosos. Que pena serem +pequenos! <br /> + +<br /> + +N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo! +Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, +fascinados. Demonio de tentação! E para mais, +tinham-no pintado de novo: +sobre o branco, a todo o comprimento, uma faxa azul-clara destacava +nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nivel da agua. <br /> + +<br /> + +―Táte, ó Manuel! E se fugissemos? <br /> + +<br /> + +―Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar... <br /> + +<br /> + +Ora ahi esta! isso é que era o peor! A mãe, +depois, era capaz de fazer o que tinha promettido. E arregalando muito +os olhos, imitando a colera +da mãe:―«Se voltaes ao rio...» Ai, ai, +a +triste sorte! <br /> + +<br /> + +Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia +ao nascente, n'uma explosão violenta de luz, accendendo +coloridos na largura muito ampla da paizagem. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[159]</span> ―Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com +alegria o Manuel. <br /> + +<br /> + +―Mas é que está, palavra que está. +Agora é que ha-de ser bom andar dentro d'elle... <br /> + +<br /> + +Os dois riram-se muito áquella ideia encantadora de andarem +no barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? +Por +isso, cobrando animo, o Antonio disse resoluto: <br /> + +<br /> + +―Olha agora o medo! Seguro que nos mata.―E puxando-o pela +jaqueta:―Vamos lá, ó Manuel? <br /> + +<br /> + +O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se +vinha a mãe. Como não vinha, disse baixo ao +irmão: <br /> + +<br /> + +―Á tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. +Não é tão facil dar pela nossa falta, +alli á tardinha. A gente finge que vae para o +adro. Levam-se os peões... <br /> + +<br /> + +―Ha-de ser mesmo assim! á tardinha!―concordou o +Antonio.―Eh! eh! tu cá desatraco. <br /> + +<br /> + +―E eu remo,―disse logo o Manuel com gesto de quem remava. <br /> + +<br /> + +―Ao leme vou eu: o leme é aquillo que regula―explicou. <br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas á vinda pertence-me a mim, remas tu. Se +quizeres assim... <br /> + +<br /> + +―Pois está bem, quero! Assim mesmo é que ha-de +ser! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[160]</span> +E recapitulando, para melhor ficarem combinados: <br /> + +<br /> + +―Ao p'ra baixo remo eu, ora remo? <br /> + +<br /> + +―Remas. <br /> + +<br /> + +―E tu regulas, ora regulas? <br /> + +<br /> + +―Regúlo. <br /> + +<br /> + +―Ao p'ra cima é ás avessas, ora é? <br /> + +<br /> + +―É. <br /> + +<br /> + +Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se +impozeram segredo... <br /> + +<br /> + +―Schiu!... <br /> + +<br /> + +―Schiu! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do céo, penachos +de nuvens alvejavam, immoveis. <br /> + +<br /> + +Accesas n'aquella explosão rubra do occaso, as arestas dos +montes franjavam-se de purpura e oiro, na +decoração +magica dos poentes. Começava de cair sobre os campos a larga +paz tranquilla dos +crepusculos, e uma quietação dulcissima e +vagamente +melancolica entrava de adormecer a natureza para o grande somno +reparador de toda a noite. <br /> + +<br /> + +...E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[161]</span> +N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando, +os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, +immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os +cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella +indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de +silencio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como +spasmo amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a +essa hora +não sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem +com que na +imaginação as coisas criem vulto, e no mundo +exterior obrigam a retina a exagerar as formas ás coisas... <br /> + +<br /> + +Muda de gorgeios, atravessando o espaço em vôos +muito rapidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do +frio que acordava. Cahiam já pesadas sobre os valles as +sombras das montanhas, +e um fumosito subtilmente azulado nadava á flor das coisas, +velando-as para o tranquillo somno em que iam adormecer. <br /> + +<br /> + +E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava +mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas +começavam de lampejar. Dentro d'elle, os dois +irmãositos silenciosos iam-se deixando enlevar n'aquelle +ruido suave dos remos abrindo fendo nas aguas... Não! era +bem certo que elles não +tinham jámais sentido uma tão poderosa e viva +alegria―alegria doida que lhes +trasvasava do peito, fundindo-se em energia nos musculos e +crystallisando-se nos labios em sorrisos. <br /> + +<br /> + +Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores +absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres +de admoestações alheias, sósinhos, +independentes. E esta feliz convicção de +liberdade +<span class="pagenum">[162]</span> +alcançada, fazia-os agora orgulhosos, +além de os encher de alegria. Por certo elles nunca tinham +sido tão felizes, e +quem sabe se o seriam jámais?... No emtanto a noite +accentuava-se. +Espertava nas margens o marulho da agua nas raizes fundas dos +salgueiros. No +céo alto e sereno scintillavam as estrellas em cardumes. <br /> + +<br /> + +―Remas, Antonio?―perguntou o do leme.―Olha se a vês...―E +apontava para Vesper, a estrella que mais brilhava. <br /> + +<br /> + +Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcançar a +estrella cujo brilho diamantino os fascinava. Tão linda! <br /> + +<br /> + +―Anda-me tu com o leme!―tornou-lhe com intimativa o Manuel.―Ai a +estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe +adeante, só por isso... <br /> + +<br /> + +―Olha o milagre! Ella está quêda!―fez o outro, +convencido da facilidade da empreza. <br /> + +<br /> + +―Está quêda, está quêda, mas +sempre na frente de nós; vae lá entendel-a. Olha +como brilha, ó Antonio. <br /> + +<br /> + +―Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito d'aquella +fraga é que ella está. <br /> + +<br /> + +Não era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de +meia hora era certo alcançal-a. <br /> + +<br /> + +E engastada no azul escuro do céo, a estrella parecia +brilhar mais, quanto mais a olhavam. <br /> + +<br /> + +―De que são feitas as estrellas?―perguntou o mais novito. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[163]</span> ―De prata, pois está visto. <br /> + +<br /> + +Então o outro, lançando um amplo olhar +á vastidão infinita do céo, exclamou: <br /> + +<br /> + +―Eh! tanta prata! <br /> + +<br /> + +―O sol, esse é d'oiro―disse ainda o Manuel. <br /> + +<br /> + +―Bem de ver!―volveu-lhe convencido o irmão.―Que eu, se me +dessem á escolha, antes queria as estrellas. Olha que +rebanho! <br /> + +<br /> + +―Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, +sempre é mais grande. <br /> + +<br /> + +E emquanto fallavam, os dois não desfitavam olhos da +estrella feiticeira que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo +fenda na agua, com certo ruido muito doce... E lá no alto +céo, +dir-se-hia que de instante para instante a feiticeira estrella mais +brilhava, incitando-os. <br /> + +<br /> + +―Vêl-a a fazer assim?―e poz-se a pestanejar, imitando a +palpitação crebra e irregular da luz sideral. <br /> + +<br /> + +―É que tem somno―respondeu o outro. <br /> + +<br /> + +―Olha que não. Aquillo é a fazer-nos +negaças, <em>tamem</em> t'o digo. <br /> + +<br /> + +―Ai é?! Pois que faça as negaças e +que se descuide: se malha cá baixo, bem se afoga...―E +apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:―Eh, <em>boieira</em>! +<br /> + +<br /> + +N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul, +sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram +<span class="pagenum">[164]</span> +com medo e ambos murmuraram +em tom de reza as palavras rituaes: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Deus te guie bem guiada,<br /> + +Que no céo foste creada. </div> + +<br /> + +<br /> + +―Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais +supersticioso.―Torna a apontar para ellas... Eu cá +não aponto, que +nascem «cravos» nas mãos. <br /> + +<br /> + +―A ti talharam-te o ar, ó Manuel. <br /> + +<br /> + +―Diz a mãe. Á meia noite levaram-me á +fonte e esparrinharam-me agua para o corpo. E a agua havia-de estar +fria... observou, encolhendo os hombros. Depois, viraram-me para as +estrellas e disse então +a mãe: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Ar vejo,<br /> + +Lua vejo,<br /> + +Estrellas vejo:<br /> + +O mal do meu corpo<br /> + +Pr'a +tráz das costas o despejo. </div> + +<br /> + +<br /> + +Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da mãe, +havia-de ser engraçado. E então todos de volta, a +ver quando o +ar se talhava. <br /> + +<br /> + +―Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por +anno, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as <em>cinco +chagas</em>, umas estrellas que além estão, +e rezar +uma Ave-Maria. <br /> + +<br /> + +―Sempre, sempre? <br /> + +<br /> + +―Até que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com +tres noites dentro de uma. <br /> + +<br /> + +―Ora! tornou-lhe incredulo o irmão.―Tu não +cabes lá... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[165]</span> ―Não sei: assim é que anda nos livros. <br /> + +<br /> + +...Mas os braços doiam já dos remos, doiam +muito... <br /> + +<br /> + +Devia ser tarde, e elles sem darem fé, enlevados como iam no +desejo louco de alcançar a estrella. <br /> + +<br /> + +A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de +salgueiro, um silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora +e +múrmura, a agua da corrente ia espumando na quilha, com +certo ruido de uma +brandura suavissima e doce. <br /> + +<br /> + +...Mas os braços cada vez doiam mais!... <br /> + +<br /> + +Agora, no céo, havia muitas estrellas brilhantes, muitas, +mas nenhuma como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos +entraram de +olhar menos para ella, pois que irresistivelmente a cabeça +lhes +pendia para o peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de +todo o +esforço. <br /> + +<br /> + +...E os braços sempre a doerem!... <br /> + +<br /> + +Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na +corrente, cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo +do leme, sem que nenhum dos dois irmãos desse fé +do subito +desleixo do outro. <br /> + +<br /> + +...E os braços já não doiam, nem ao de +leve sequer... <br /> + +<br /> + +O pequeno barco vogava agora á mercê da corrente, +sem impulso algum extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das +respirações dos dois pequenos adormecidos... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[166]</span> +Algum tempo assim. Senão quando, um ruido surdo, e logo um +movimento brusco de balanço, fez acordar o do leme. <br /> + +<br /> + +Na grande allucinação do perigo, desvairado pelo +medo, gritou immediatamente: <br /> + +<br /> + +―Manuel! Ó Manuel! <br /> + +<br /> + +O remador acordou, sobresaltado. <br /> + +<br /> + +―A estrella? Ainda lá está, olha!―disse +incoherente, estonteado pelo somno. <br /> + +<br /> + +―Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito +tarde!—-continuou afflicto o Antonio. <br /> + +<br /> + +―Então não lhe passamos adeante?―perguntou +ingenuamente o Manuel, referindo-se ainda á estrella. <br /> + +<br /> + +Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o +á realidade, de novo lhe gritou, com lagrimas na voz: <br /> + +<br /> + +―Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel! <br /> + +<br /> + +E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um +choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel +susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho +aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o +psalmodear monotono e rouco de uma legião de espiritos maus, +preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os +rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que +n'um requinte +<span class="pagenum">[167]</span> +de malvada indifferença houvessem jurado +assistir impassiveis e mudos á escura tragedia da sua +desgraça. <br /> + +<br /> + +E o barco sempre encalhado, não havia forças que +o arrancassem d'alli. Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que +amanhecesse e alguem viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os +seus afflictivos gritos. <br /> + +<br /> + +Crudelissimo transe!... <br /> + +<br /> + +E então os braços continuavam a doer, doia-lhes +agora o corpo todo, ao mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada +lhes opprimia o espirito, parece que embrutecendo-os. <br /> + +<br /> + +―Mas a estrella sempre além...―notou ainda o Manuel, +balbuciante de medo, como se quizesse increpar a propria estrella da +sua +indifferença criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio +em que por causa d'ella se haviam precipitado.―Se ella podesse +acudir-nos... <br /> + +<br /> + +Até que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo +se deixaram adormecer, era já alta noite. <br /> + +<br /> + +Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte +não cessava de bater contra as pedras o pobre barco +indefeso. +Até que após tamanho lidar, o rio safou-o de +repente para um lado onde as aguas se contorciam em remoinho, e entrou +de girar com elle, violentamente. Quando a agua se precipitou para +dentro, os dois pequenos assim de subito acordados romperam em gritos +lancinantes: <br /> + +<br /> + +―Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[168]</span> +Tinha surgido a manhã, serena, tranquilla, cheia de gorgeios +e de azul. Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual, +n'um +repelão mais violento o pobre barco esphacelado investiu de +proa com o abysmo e +lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo +paroxismo da sua enorme dor desesperada, os dois irmãositos +abraçados sumiram-se tambem com elle!... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +...N'esse mesmo instante...―e mais longe do que nunca―...a estrella +feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 66px; height: 78px;" alt="" src="images/fig06.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c11"></a>MÃE! </h3> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Ao dr. J.C. da Moita Prego</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Bella</span> cabra, a +Russa!―posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada, +luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva +de porte quando á frente do rebanho parecia commandal-o, +badalando cadencialmente o seu chocalho enorme―tlão! +tlão! +Era no rebanho a que mais dava que fazer ao pastor, requerendo +vigilancias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem +livre não havia +arvore a que não trepasse, oliveira especialmente, nem +rebento novo que +não triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora. <br /> + +<br /> + +E depois, alli onde a viam, estava cara só pelas coimas, que +muitas vezes illudira ella a attenção do pastor, +e se +ficara por hortas e quintalorios, causando estragos que os louvados +depois avaliavam caro. Por isso Alipio José, pastor, a quem +doiam as denuncias, ao +pescoço da Russa prendera o chocalhão, para dar +do atrevido +<span class="pagenum">[170]</span> +animal mais +facil rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito +mais grave. <br /> + +<br /> + +Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia +gosto vel-a trepar ás ultimas cumiadas, subir destemidamente +ás arestas superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas +suas pernas delgadas, +pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as +hervas dos declives alcantilados e escorregadios, não +medindo perigos nem se +importando com abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas +encostas e corregos, +saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas +excursões arriscadas de <em>touriste</em>. <br /> + +<br /> + +Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e +então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em +rochedo ou de garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. +Cobra que encontrasse por essas paragens era para ella um +desespero―tamanha a furia com que a perseguia, e a insistencia com que +se ficava +ás marradas na lura onde se lhe acoitava. O chocalho +então badalava com +força, e o Alipio que dormia á sombra das +azinheiras, de chapeu sobre a +cara, levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu +vozeirão que fazia echo: <br /> + +<br /> + +―Toma tento, Russa! <br /> + +<br /> + +E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos +fincados no chão, os queixos entre as mãos +espalmadas, Alipio José ficava-se a olhar a cabra, invejoso +d'aquella facilidade em subir aos ultimos pinaculos, admirado dos +saltos que ella fazia para salvar gargantas pedregosas e +perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria infallivel. E por +lá andava dias inteiros a Russa, +<span class="pagenum">[171]</span> +n'aquella +vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho, +resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam +ninho. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por +lá se deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite +velando. Ao outro dia quiz ella descer, e vir para o rebanho que a +aguardava. Mais de cem vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio +José gritara +cá debaixo, cada vez mais desesperado: <br /> + +<br /> + +―Volta ao rebanho, Russa! <br /> + +<br /> + +E, cuidando que mais lhe feria assim a attenção, +punha-se a agitar com furia o mólho dos chocalhos, gritando +sem cessar: <br /> + +<br /> + +―Russa! torna ao rebanho, Russa! <br /> + +<br /> + +Mas impossivel! que a não deixava a quebreira em que toda +ella ficara do parto, nem o pequeno poderia―pobresinho!―descer por +taes ladeiras, de +pedregosas e asperas que eram. <br /> + +<br /> + +Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno +congelava unindo-se á mãe que o bafejava para o +aquecer, e a si o aconchegava mais e mais para lhe transmittir o +natural calor do seu corpo enfraquecido e doente. <br /> + +<br /> + +Por altas horas da noite, na solidão lugubre d'aquelle +sitio, alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas +<span class="pagenum">[172]</span> +onde o vento +sibilava lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido +da +mãe, traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao +vagido fraco do +filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a +instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros +delicados e tenros. <br /> + +<br /> + +Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por taes frios e +doenças, impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, +achegando-se mais e mais n'um como abraço de eterna +despedida―amigos que se iam +apartar para uma longa viagem de trevas, com o +coração +alanceado pela saudade, soluçando e gemendo, n'um adeus! que +era infinito, como o +infinito amor que os unia... <br /> + +<br /> + +E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava +lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fôra +o signal para o transe derradeiro... <br /> + +<br /> + +Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na +abobada, as estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa +indifferença +por aquella dôr suprema de que eram as unicas testemunhas. <br /> + +<br /> + +E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao +céo a vida do filho, ao menos,―ora supplice em balidos de +resignação que uma profundissima dôr +ungia, ora desvairada e louca, em gritos +que significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o +céo que a não ouvia, e contra a morte que bem +sentia aproximar-se para +lhe estrangular o filhinho que ella amava tanto. <br /> + +<br /> + +E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dôr―a ironia +acerba da chocalhada longinqua das companheiras, +<span class="pagenum">[173]</span> +que se iam pelos +montes da outra +banda, deixando-a a ella sósinha com o filho, á +espera da morte que era inevitavel. <br /> + +<br /> + +Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o +pescoço, e pelo ar fóra o som triste do chocalho +espraiou-se lentamente, n'um +adeus! adeus! de despedida ás companheiras felizes que +lá iam, +n'um ruido longinquo de chocalhos... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +N'aquella solidão os dias eram melhores. Com os primeiros +raios do sol entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros +desentorpeciam e o sangue circulava. <br /> + +<br /> + +E o cabritinho sem poder ainda descer!... <br /> + +<br /> + +De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava +olhos compungidos para as escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, +desvairada e tremula, +como que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram +todas horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois +o rio, +lá baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio. <br /> + +<br /> + +Impossivel! impossivel! <br /> + +<br /> + +E sentia-se enfraquecer á mingua de sustento, pois a herva, +por alli, estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres +dias. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[174]</span> +N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais +dolentes e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os +dentes o chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do +lado em +que o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, +assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo... <br /> + +<br /> + +Impossivel! impossivel! <br /> + +<br /> + +Nada que signifique a dôr d'aquella mãe, e +traduzir possa em linguagem toda a gamma de sentimentos e +emoções no seu +balar expressos. Atirou-se de joelhos sobre o corpinho do filho que +hirto chorava e tremia, estendido para alli, na +prostração pesada do +ultimo desalento; animava-o com caricias, aproximava-lhe da bocca os +uberes já flaccidos +e amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse +levar ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe +afflictivo... <br /> + +<br /> + +Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a +ultima cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam +subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. Á medida +que a treva se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte, +accentuando-se +cada vez mais a melopéa somnolenta do rio nos +açudes. Perpassavam pelo ar as aves para os ninhos. Bandos +de pombas, como flocos volateis de arminho, cortavam em vôos +mansos a profundidade calma do +céo, demandando os pombaes e os povoados, onde se acolhessem +da noite que vinha caindo. +Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um +chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos +estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas +<span class="pagenum">[175]</span> +rastejavam apressados os +reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama... <br /> + +<br /> + +...E tudo tinha ninho―pombas que voavam e perdizada sonora, quem +passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, +cobras, toda a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou +alegremente o seu dia, e se ia recolher agora para recomeçar +dia +ámanhã... <br /> + +<br /> + +Só a desgraçada cabra, alli, junto do filho +tenro, não mais fizera passo. Com as brumas da noite, as +brumas da tristeza para o seu +coração alanceado de mãe. Ahi vinha o +frio inclemente flagelar-lhe o +filho...―o filho que já tremia a ella aconchegado―o triste +pobresinho! +<br /> + +<br /> + +Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante +n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O +céo era baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a +espaços a abobada, +irradiando uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em +ultimos +transes de creanças, em que a vida gradualmente se +extinguisse, n'um +latejar vagaroso de palpebras somnolentas... <br /> + +<br /> + +Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva +apparencia da atmosphera e do céo. Noite peor do que as +outras, porém com menos balidos, pois que mãe e +filho estavam extenuados +de forças e nem gemer podiam. E a morte que não +vinha arrancal-os do +abraço em que se uniram, mal cerrara a noite! <br /> + +<br /> + +A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em +rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos, +accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade +esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de +<span class="pagenum">[176]</span> +lobo, a +que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz +sinistra na direcção do grupo que velava. A +natureza +inteira retrahia-se n'um como pavôr medonho, concentrado de +intimos terrores e +silencios lobregos d'horas altas. Cerrava-se mais no céo a +phalange muda das +nuvens, densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas, +sem scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem... <br /> + +<br /> + +E sempre, e constantemente immoveis na escuridão pesada, +aquelles dois olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes, +perscrutando a treva da direcção mais exacta do +grupo. Transida +de susto, arquejando convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme +dôr, a pobre +mãe não ousava arriscar um unico movimento e mais +e mais cerrava contra si o corpo inanimado do filhito que parecia +adormecido. <br /> + +<br /> + +Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes, +quasi eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis +angustias, +vasias de esperança na vida do seu pequenino filho. <br /> + +<br /> + +De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de +novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distancia. +Estremeceu a pobre de subita alegria,―e no abalo que soffreu o seu +corpo, +até então retrahido, o chocalho badalou. Voltou a +correr o lobo, e +então a desgraçada viu errarem na treva, como +dois grandes +coleoptéros de azas phosphorescentes, os olhos +até então immoveis do +inimigo. E por alli levou a noite toda, farejando e uivando, +até que +cançado de perscrutar o insondavel, se foi ladeira abaixo, +aos primeiros assomos da madrugada que vinha, docemente, alumiando +pincaros e arestas. <br /> + +<span class="pagenum">[177]</span> +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ao romper d'alva o céo era azul. Apenas de longe em longe +pennachos de nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se +esfarpavam lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia +desmaiando, diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do +alto em +gradações imperceptiveis e suaves. <br /> + +<br /> + +Começavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina +accusava já as differenças mais salientes dos +campos e herdades, +pedaços esbranquiçados de restolhos, tons pardos +de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e pinheiraes cerrados galgando +desfiladeiros e investindo com o +céo no alto dos montados. <br /> + +<br /> + +Pelas ladeiras d'além, caminhos e atalhos corriam em +torcicolos até ao areal da margem. Em turbilhões +de espuma alvissima +precipitava-se a agua nos açudes, marulhando nos altos +penedos marginaes, +denegridos e informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto +do moinho, +lá em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se +tranquillamente no ar sereno e doce, até se desfazer no +espaço amplo e +benigno, como uma ambição ou como um sonho... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Foi então que Alipio José, á frente do +rebanho, de novo abordou áquellas paragens, no intuito de +procurar a cabra tresmalhada. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[178]</span> ―Russa! torna ao rebanho, Russa! <br /> + +<br /> + +Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida +sobre o cadaver do pobre filhinho morto!... <br /> + +<br /> + +E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos +rochedos―passava na direcção da montanha, +crocitando lugubremente, a esfaimada legião dos +amaldiçoados corvos... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 190px; height: 152px;" alt="" src="images/fig07.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c12"></a>ARRULHOS </h3> + +<br /> + +<div class="signature"><em>A.M. da Silva Gayo</em>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Ao</span> fundo do jardim +ficava o pombal―uma casinhola redonda, com +orificios triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura +impeccavel do muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de +distancia. <br /> + +<br /> + +―Pombal da Morgada! diziam.―Lá se vê +além...―E um gesto muito longo levava a vista horizontes +fóra, á cata do Pombal +da Morgada, que alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos +montes sobranceiros, +como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e +osso provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde +seriam encantadoras as tardes quentes de estio, á sombra de +arvores seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda, +pardalada +sonora, gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa +semceremonia―frangãos assados e boa vinhaça da +terra. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[180]</span> +Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A +Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e +outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte +desastrada do noivo―um trambulhão de um cavallo que o +matara logo alli, sem mais pio, n'um ai. <br /> + +<br /> + +A recordar esse amor―um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera +na vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a +castidade das suas intenções d'elle... <br /> + +<br /> + +Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procreou, vieram +pombos novos―todos brancos uns, rajados outros, de um <em>gris</em> +delicadissimo alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos. <br /> + +<br /> + +Bellos pombos, na verdade! <br /> + +<br /> + +Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo começavam de +esbater-se n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a +percepção clara das coisas entrava de se desfazer +em imperceptiveis <em>nuances</em> subtis, n'um <em>smorzando</em> +melancholico onde +palpitavam vagos terrores de noite que +vem caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida +cessava no campo e começava no céo em +scintillações argenteas de estrellas―todas as +tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a estreita porta do pombal, +e uma mulher nova, vestida de preto, espalhando no pavimento terreo, +com solicitudes de +<em>menagère</em>, as provisões de um +pequeno cabaz que +lhe pendia do +braço―milho em abundancia e fartura de alpista. <br /> + +<br /> + +Assim todas as tardes, ia já em quatro annos, que +não havia forças que levassem a Morgada para +fóra do seu +<span class="pagenum">[181]</span> +pequeno solar, onde +vivia só, retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel +a pedidos de amigas que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e +que a queriam levar +para que se distrahisse, para que se alegrasse―«era nova +ainda, podia arranjar noivo, nada mais facil...» <br /> + +<br /> + +―E as pombas? objectava.―Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo. +Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que +matassem, haviam-de até roubal-as, entrar de noite no +pombal, leval-as todas. <br /> + +<br /> + +―Que não e que não! insistia renitente;―que +tivessem paciencia, que se divertissem muito, ella ficava. <br /> + +<br /> + +―Platonismos! gargalhavam depois as amigas.―Saudades do outro que +rebentou do trambolhão. Bem tola! <br /> + +<br /> + +E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, +achando-a ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da +simplicidade habitual da sua <em>toilette</em>―vestido +preto todo liso, muito +afogado, um pequeno <em>ruche</em> no pescoço e +mangas, nem uma +préga, nem sequer um laço. <br /> + +<br /> + +Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as +visse não desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de +hoje para +ámanhã, desenvolvia a +propagação o bom tracto, a +habitação confortavel, muito abrigada de ventos, +onde a chuva não entrava e os ninhos +eram flaccidos―folhas de milho mudadas cada dois dias. <br /> + +<br /> + +Que bom, ser pombo da Morgada! <br /> + +<br /> + +A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, começava +com o aclarar, muito cedo, depois do descanço +<span class="pagenum">[182]</span> +do somno na +placidez +do ninho, quando as forças eram sãs e as azas +pediam +vôos. <br /> + +<br /> + +Hora dos amores! <br /> + +<br /> + +Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente, +lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, +perseguiam-nas se voejavam, ameaçando-as de bicadas +primeiro, picando-as nas cabecitas +se resistiam, possuindo-as á força, a tremer, +azas em concha, +pennugem erriçada, arrulhando muito, arrulhando sempre, +cahindo desfallecidos depois, hirtos, palpebras cerradas, trementes, +frementes, em spasmos de luxuria +e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de +contentes, sacudindo as azas, pescoço levantado, orgulhosas +talvez, muito felizes. <br /> + +<br /> + +Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos +por certo, quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua +eleita, n'uma +doçura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos, +mas pedindo ás boas, não querendo violencias, +detestando-as, +bem se via, supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos, +redobravam os +carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de +pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos―beijos +com certeza. <br /> + +<br /> + +Isto todos os dias, nas manhãs ennevoadas especialmente. +Imagine-se a vida do pombal áquellas horas:―pombas que +voejavam +assustadas, esquivas mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que +condescendiam e pombas +que queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem +não arrulhasse voava; e tudo gozava―quem era feliz e quem +estava para o ser, quem era sanguineo e quem era pachorrento. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[183]</span> +Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um +pousava, retomando vôo se um voava, sempre juntos, sempre na +mesma direcção, a beber no mesmo ribeiro, em +linha, +todos a um tempo, n'um ruido muito doce de bicos que sorviam. <br /> + +<br /> + +Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a +Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao +balcão da sua janella, alegre de trepadeiras em +flôr, pousar-lhe nos hombros, na cabeça as mais +ousadas ou as mais amigas, +segredando-lhe não sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, +ora lhe traziam lagrimas, mas +que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis: <br /> + +<br /> + +―Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida... <br /> + +<br /> + +D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios +felisões, vida de concubinagem, n'uma promiscuidade sem +limites e n'uma libertinagem +de harem. <br /> + +<br /> + +Polygamia desenfreada! <br /> + +<br /> + +Excepção a ella, apenas um casal―a melhor pomba +da manada, pomba branca, de uma alvura impeccavel de neve, e +então um pombo +rajado, preto e cinzento, de <em>nuances</em> +azues-escuras, ares aguerridos +de luctador vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador. <br /> + +<br /> + +Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e +spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de +pescoço, nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a, +sem arrulhos +previos, sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque +muitas se +lhe entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe +<span class="pagenum">[184]</span> +no ninho, disputando +primazias á força de bicadas. <br /> + +<br /> + +E umas atraz de outras, e dias após dias, sempre assim! <br /> + +<br /> + +Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se +para dar logar a outras; uma só, a pomba branca, se quedava +ao lado d'elle, +paciente, resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de +ternuras, muito meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o +ufanava, incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de +aborrecer +as outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam +entregar a outros, e de se affeiçoar á branca, a +ella só, acarinhando-a muito, arrulhando com ella, +alternadamente, ora um ora outro, gemendo amores. <br /> + +<br /> + +Não imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da +desordem, da perturbação que isso levou ao rancho +tão dado a instinctos commodos de polygamia, tão +avesso a duetos d'aquella natureza, onde os +pombos eram de todos e as pombas eram communs. <br /> + +<br /> + +E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias +inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava +de egoista. E quando saíam não se juntavam com os +outros―uma desfeita! uma offensa!―tomavam rumo differente: para a +direita se os outros iam para +a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao +contrario. <br /> + +<br /> + +Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, +já os encontravam no pombal, em ninhos contiguos a +principio, no mesmo ninho depois! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[185]</span> +Um escandalo! Um desaforo! <br /> + +<br /> + +E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas. <br /> + +<br /> + +Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar +forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, +combinados. E se isto não bastava, começavam +todos a voar, batendo +muito as azas, levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o +casal, fingindo quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou +então os mais +despeitados... <br /> + +<br /> + +Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a +pomba branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia +depois, +luctava por fim, levando-os não raro de vencida, +obrigando-os a fugir do pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, +vencidos. E noite +além, entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido +de azas, receiando +acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, +pescoço escondido sob a aza veludinea. <br /> + +<br /> + +Dois mezes assim―dois mezes!―n'uma fidelidade conjugal ininterrupta, +digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheço, +que os senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, +perfumada +de arrulhos e esplendida de alegrias, passada em bellas +digressões campos +fóra, pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma +poça, dormindo no +mesmo palmo de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez... <br /> + +<br /> + +Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter +desconfianças, suspeitas de inconstancias e receios de +infidelidades, de noite, emquanto dormia. +Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos, +modos +<span class="pagenum">[186]</span> +de enfadada ás vezes, certas perrices, resistencias +mal disfarçadas. Ficava-se em casa se o rajado sahia, +impassivel +a supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e +quebramentos de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o +vôo, tomava para +norte se o rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se +só, para lhe +fugir. <br /> + +<br /> + +Estava farta, vê-se. E como os outros a não +queriam―rameira do rajado!―um dia levantou vôo e fez-se ao +largo. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao +<em>vinagrinho</em> de Xabregas, muito nacional e muito +fino, bons velhos de +<em>quinzena</em> e calça de +alçapão, feros, +muito rijos, á prova de rheumatismo e á prova de +vintem, felizes na sua pobreza, +amigos das creanças, bem humorados sempre, flôres +de uma +arvore que ora vae dando cardos. Perto do solar da Morgada, a tres +kilometros só, +havia um assim, o abbade das Donas, bom prégador n'outras +eras, com famas de +theologo ainda ao tempo. <br /> + +<br /> + +―Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!―era assim que +muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins, +sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos. <br /> + +<br /> + +―Theologia velha, diziam, a genuina! <br /> + +<br /> + +A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes +a desabar,―uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era +terreo, rimas de lenha +<span class="pagenum">[187]</span> +secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha, +um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para +um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que +estavam. <br /> + +<br /> + +Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas +devoções, e n'essa tarde quem quer o poderia ver +passeando-a a todo o comprimento, oculos na ponta do nariz, breviario +na mão direita, a dois palmos, a +esquerda a segurar a aba da <em>quinzena</em>, e um +pequeno solideo com borla +resguardando-lhe a calvicie. <br /> + +<br /> + +A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas +exclamações de desgosto, arremessos de breviario, +e por fim levantando a voz: <br /> + +<br /> + +―Fome as pombas, sr.<sup>a</sup> Luiza: não +fazem senão +saltar... <br /> + +<br /> + +―Bem fartas!―retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,―mas +têm lá visita, pomba que arribou. <br /> + +<br /> + +E depois informando: <br /> + +<br /> + +―Pomba guapa, toda branca. São agora tres ao todo, e +então o pombo... <br /> + +<br /> + +―Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.―Percebo... +percebo perfeitamente...―E foi metter-se no quarto, continuar a +leitura.―Deixal-as! concluiu evangelico. <br /> + +<br /> + +Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar á +reles pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um +caixão +velho, com grades só na frente, muito suja sempre, arrumada +p'r'alli ao +fundo da varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros, +um nojo. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[188]</span> +Quando a mostrava á creada, o abbade dizia-lhe sempre: <br /> + +<br /> + +―A sua vergonha, sr.<sup>a</sup> Luiza; a vergonha da sua +cara. Como se os +animaes não fossem tambem creaturas de Deus... <br /> + +<br /> + +As pombas eram magras e o pombo era esqueletico. <br /> + +<br /> + +Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a +alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que +ambos se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e +bem tratada, flaccida de pennugens e de carnação +consistente, apetitosa, o pombo não a largava―genio de +libertino em corpo de tisico. <br /> + +<br /> + +Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem forças +para voar se queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, +encolhida, tristonha, arrependida talvez de ter deixado o +pombal,―saudosa do rajado, o seu primeiro amor, quem sabe! <br /> + +<br /> + +E depois, o pombo sujo já não se importava com +ella, desprezava-a, tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras, +dando-lhe maus tratos,―á intrusa. Dôr +incomparavel! <br /> + +<br /> + +Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar, +descançando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as +forças, arquejando sempre, arrastando-se em vôos +baixos, sentindo vertigens se +subia mais alto. Para passar um ribeiro descançou uma hora, +e quando +cobrou alento e começou o vôo, viu-se na agua e +estremeceu, +molhou ainda as azas, viu um corvo na sua propria imagem, um corvo +negro que a perseguia silencioso, traiçoeiramente, +<span class="pagenum">[189]</span> +que a ia +talvez devorar... O +que ella tinha sido e o que era!... <br /> + +<br /> + +Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do +rajado... Oh! o rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a +quereria, tinha pomba, +decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um +vôo valente e estava lá, acharia tudo em casa, era +cedo ainda. <br /> + +<br /> + +Fez-se de vôo e partiu. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A manhã era calma e o céo era azul. +Canções de cotovias vibravam pelo ar que as +balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva tinha +os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra +cançada e adormecer no azul; e o oriente começava +de animar-se de um +alaranjado esplendido―decoração triumphal com +que se orna +aguardando a visita de quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o +hemispherio e fecundando tudo―o cardo que rasteja e o cedro que +vê longe... <br /> + +<br /> + +N'aquelle repontar da manhã, o alto céo era de +uma limpidez crystallina. Evolava-se de toda a banda um perfume +virginal de dulcissima paz, e pelas ramagens verdejantes a volata +suavissima dos ninhos +começava, como uma saudação ao dia que +vinha rompendo. No altar +das laranjeiras, florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a +missa d'alva. <br /> + +<br /> + +Em manhãs placidas como aquella, quantas vezes a branca +não fizera as suas excursões alegres de +<em>touriste</em>, na companhia do +rajado, perdendo-se com elle atravez +<span class="pagenum">[190]</span> +do horizonte áquella +hora +tranquillo e para toda a banda transparente! <br /> + +<br /> + +Como tudo isto lembrava, agora! <br /> + +<br /> + +Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam +descançado muitas vezes, muitas, expandindo em arrulhos de +uma ternura ineffavel o amor extraordinario que os unia! Em toda a +largura não se +descobria um só campanario ou um só telhado onde +não tivessem +pousado ambos, alegres, contentes, doidos! E ella sempre ufana, +acompanhava o macho nos seus vôos ainda os mais arrojados, +perdia-se com elle para +além das serranias mais distantes, destemida com a companhia +que levava―um amigo que empenharia a vida só para salvar a +da amante. <br /> + +<br /> + +E que bella manhã, aquella! Tudo tão alegre! Era +ver como as calhandras acordavam contentes, e se atiravam ares +além no seu +vôo perpendicular e rapido! <br /> + +<br /> + +Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos; +melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a +largura―nem uma aza de pomba palpitava. Ella só, +desalentada e cheia de maguas, ia para onde a levava o destino,―quem +sabe se para a morte... <br /> + +<br /> + +Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno +espadanando as azas contra o muro, arremettendo os buracos, desejando +entrar, faltando-lhe +a coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos +companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e +arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo +muito as azas combinando ataque. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[191]</span> +E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a +passagem. <br /> + +<br /> + +De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou +vôo n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, +com a desgraçada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue +nos +bicos e pennas voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam +com furia. Por +fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho +arrebentado, bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho +guttural de vida que se esvae lentamente, gradualmente, com +dôr. Um +estremecimento de membros por fim, uma agitação +geral repentina, +e―morta! <br /> + +<br /> + +Ares além, os assassinos em bando voavam á busca +talvez de um ribeiro onde lavassem os bicos ensanguentados... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +E o rajado?―hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um +pouco e vel-o-hão sair da janella das trepadeiras, alegres, +felizão, bohemio, depois de uma noite passada na meia sombra +dos cortinados leves de um leito, a rir, a amar, beijando o colo da +Morgada, arrulhando com ella, arrulhando, ora um ora +outro,―debicando... debicando... debicando... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>BATALHAS DOMESTICAS </h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c13"></a>BATALHAS DOMESTICAS<sup><a href="#1">[1]</a></sup></h3> + +<br /> + +<div class="signature"><em>A Luiz Trigueiros</em>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Para</span> o meu proposito, +é inutil narrar-lhes esse pequenino e +perfumado idyllio, côr de roza, que foi na vida d'ambos, +durante um +anno, o seu mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim +Seabra, maior, empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno +uma furiosa vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda +elle era +fedelho: e passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma +doença complicada levara-lhe tambem o pae―homem +<span class="pagenum">[196]</span> +de lavoura, +pobre mas honrado, bronco +mas leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que +aldeia da Beira, nas abas da serra da Estrella. <br /> + +<br /> + +Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. +Deram-lh'os. E quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, +aconchegando ao largo peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob +a umbella branca de grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu +o padre de que em podendo lhe desejava uma palavra. <br /> + +<br /> + +―Volto por aqui de caminho, dissera o reitor. <br /> + +<br /> + +Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do +doente, junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal +remendado, o +velho, entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera +tempo de lhe murmurar, designando vagamente o filho: <br /> + +<br /> + +―O pequeno, coitadinho! <br /> + +<br /> + +De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos, +veio metter o orphão, como marçano, n'uma loja de +ferragens da baixa, loja escura, funda, com uma ventana de +vidraças, combalida, +dando para uns saguões de predios contiguos. De +marçano +subiu com o tempo a caixeiro; e como era applicado, humilde, +supportando com uma placidez resignada de beirão um trabalho +por vezes superior +ás suas forças, pulou um dia para a escrevaninha +da casa, no andar de cima, vaga pela sahida para a cadeia do outro que +commettera umas falcatruas. <br /> + +<br /> + +―Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera deante dos +patrões o Joaquim. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[197]</span> +E a incisiva phrase que fôra, emquanto remexia a papelada, +todo o seu commentario ao procedimento irregular do companheiro, +valera-lhe a involuntaria conquista do logar, como +revelação, +que era, das qualidades fundamentaes do seu caracter,―communs, de +resto, ao typo +beirão, profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no +fundo generoso e +bom. <br /> + +<br /> + +A vida começou então a ter para elle umas +entreabertas mais risonhas, livre d'essa prisão estreita da +escura loja, onde os seus +instinctos hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma +natureza barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, +violentos repelões de rebelião... Até +que um +dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo á escrevaninha o +assaltavam, pensou em ir á terra +onde não voltara desde pequeno. Ainda lá tinha +uns tios, vivia ainda o reitor. E +n'uma introversão de momentos, mirando atravez da janella o +claro +céo azul, alto n'aquella manhã serena de maio, o +Seabra teve a remota +visão do seu passado―das coisas da sua infancia, da sua +pobre e humilde aldeia encravada n'um declive de serrania que ao longe +elevava o dorso, +nitente de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo +invertido, elle lá via além, muito longe para as +suggestões do seu desejo, muito afastado para as debeis +reminiscencias da sua memoria, tudo isso que elle dizia em tres +palavras―«a minha +terra!»―isto é, esse montão informe de +velhos tectos chamuscados onde havia +um debaixo do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja +oblonga; a fita branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua +mãe jaziam; a +paizagem circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de +prata serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e +então a velha legião amiga das arvores―o zimbro +ao alto dos +môrros nús; depois, descendo, as urzes brancas; os +piornos; os bellos carvalhos +<span class="pagenum">[198]</span> +altivos; e já a meio da +encosta, estendendo sobre a zona agricola e +horticola o verde e tenro parasol das suas soberbas folhas―o +castanheiro, emfim. <br /> + +<br /> + +Atravez da sua vida de balcão, duramente moirejada a mover +barras de ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes +de +pregaria, com intermittencias raras de descanço, algum +domingo, pelas +hortas dos arredores, ou ás vezes n'um bote, pelo Tejo,―a +sensação melancolica da sua paizagem nativa +não chegara a obliterar-se-lhe no +cerebro, nem tão pouco a lembrança dos seus +velhos conhecimentos de infancia, +dos seus companheiros de escola que iam todos os dias, de +manhã e de +tarde, á lição a casa do reitor, +n'aquelle velho +sotão da residencia, com paredes denegridas e tecto de +madeira com manchas... <br /> + +<br /> + +E que seria feito d'elles? Talvez que os não conhecesse, que +o não reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta +desconfiança, dava ao seu desejo de os ver, de se lhes +mostrar,―com o seu fraque, a sua bengala, a sua cadeia de oiro +escorrendo sobre o colete claro―o +encanto subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim, +a propor +aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, +olhos azues e toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso, +espontaneamente, insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se +conservava ainda solteira... <br /> + +<br /> + +...a Emilia! <br /> + +<br /> + +E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente +á historia que lhes vou contando, a chronica preliminar +d'esse consorcio, direi +que a velha estola do reitor os uniu emfim uma +manhã―manhã de julho, na velha e ampla igreja da +freguezia, toda banhada de sol, +<span class="pagenum">[199]</span> +toda +rumorejante de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva +alegre de pétalas, a saraivada metalica dos sinos, +repicando... +Até que passados dias, eil-os emfim em Lisboa, installados +não sei em que +beco da Baixa, perto da +«obrigação» do +Joaquim, que era, como lhes disse, o escriptorio. <br /> + +<br /> + +E aqui rompe a historia; e se é do agrado dos senhores, +comecemos. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa, +toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no +amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a +mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por +outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e +trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a +homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas +naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma raça, +temperadas do mesmo sangue, ricas das mesmas +infiltrações de +seiva e de saude, explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de +vontades que os dois levavam na vida, sem um choque nas suas +aspirações, sem um encontro avesso nos seus +desejos, sem a minima divergencia no seu modo de +vêr e de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que +nas suas naturezas havia de fundamental, e até de +intensamente +uniforme no raio visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer +nullo, sem consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo +periodo passado em latitudes differentes:―ella, onde ambos tinham +nascido, debaixo do mesmo céo, +<span class="pagenum">[200]</span> +á luz do mesmo +sol, á +sombra das mesmas arvores; elle, sequestrado de tudo isso, mas n'um +meio sem côr para elle +definida, pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua +natureza se conservara estagnada,―estagnada como uma pequena lagoa, +dormente debaixo do luar melancolico... <br /> + +<br /> + +Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas +superstições, povoadas das mesmas imagens, +embaladas, ao nascerem, ao rythmo da mesma +canção, essa forte, dulcissima +corrente de ternura espiritualisada que era o motor primeiro dos seus +abraços, o +mais vivo e fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena +e orvalhada efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia +tambem no +sangue d'ambos―bem como no seio de um diamante as +iriações mordentes―as rubras, incandescentes +faulhas de uma animalidade impetuosa, +adivinha-se quanto seria intensa nos dois a vida sexual,―casta a +despeito de tudo, +vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas +classicas, por umas cabecitas loiras de creanças, frescas, +ridentes, côr de rosa... <br /> + +<br /> + +D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado +idyllio, côr de rosa, que fôra na vida de ambos, +durante um +anno, o seu mais vivo encanto... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escriptorio, +noite cerrada já, quando uma rapariguita que lhes servia de +creada havia +dois dias, vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no +accento +beirão: <br /> + +<br /> + +―A minha madrinha está muito mal. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[201]</span> ―Muito mal? <br /> + +<br /> + +―Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei +quê. <br /> + +<br /> + +Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se +á hombreira, para não cahir, sentiu passar-lhe +pelo cerebro, como um +tufão de peste, uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um +presentimento... E cobrando alentos, confuso deante da rapariguita que +o olhava, disse-lhe com a +voz trémula, no tom de quem procura, compromettido e +humilde, +esconder um pensamento: <br /> + +<br /> + +―Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio +da Beira. <br /> + +<br /> + +―Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.―Fica-se como +doida... <br /> + +<br /> + +―Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso. <br /> + +<br /> + +E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do +andar de baixo,―talvez alguem que o procurasse!―fechou a porta com +força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, +coseu-se a um canto impondo silencio, com a mão sobre a +bocca arquejante da +rapariga. <br /> + +<br /> + +―Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo―Se te calares hei-de te +dar dinheiro. Cala-te. <br /> + +<br /> + +A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um +novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo +o predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem +nas ruas proximas, o Seabra tomou nos braços +trémulos +<span class="pagenum">[202]</span> +a pequena, e foi, cauteloso como um bandido, +leval-a á cama. <br /> + +<br /> + +―Ouves, Luiza? Não faças bulha. Dorme. <br /> + +<br /> + +E fechando-lhe a porta á chave, respirou, hirto no meio do +corredor em trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio, +aquella escuridão impenetravel! E elle, como um cataleptico, +alli +encafuado vivo...―triturado pela magua, roido pela dôr, +desfeito pela +desgraça, como se milhões de larvas o +triturassem, roessem, +desfizessem, implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua +carne, sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas +até da sua propria alma... Vivo, ó Deus cruel! +ó Deus +desapiedado! Vivo e no emtanto... morto: vivo para a +sensação +esphaceladora da sua atroz desgraça, do seu cruel, +cruciantissimo martyrio; morto, +aniquillado, desfeito, para a visão auroreal das suas +esperanças...―as suas esperanças! revoada alegre +de pombas, candidas, serenas, +immaculadas, que um tufão de desgraça varrera do +ninho do seu +peito, para longe e para sempre... <br /> + +<br /> + +E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma +prostração de louco embriagado, dir-se-hia que o +cerebro deixara de funccionar n'esse infeliz―como relogio subitamente +parado, marcando um momento fatal!―e +que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava! +era essa impressão anniquilladora do <em>Nada</em>, +que o fundia na +treva circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o, +confundindo-o, e tanto e tão intimamente, que elle proprio +n'ella se sentia +diluido, e no silencio... <br /> + +<br /> + +Subito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado +alli de perto como um reptil, escoado alli de +<span class="pagenum">[203]</span> +perto, como um verme, +phosphorejante na treva á semelhança de um +demonio, que agitasse um <em>pierrot</em> de +cascaveis,―uma centelha de vida +animou esse corpo aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar, +como luz de lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma +de uma ideia... E teve então de si proprio a extranha, +diabolica +visão de um esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, +mirando pelo arco immovel das orbitas, d'onde dois feixes de luz +escorriam―aquelle trapo miserando alli cahido, informe, esqualido, +repellente, +montão de gelo, e lagrimas, e trevas...―que era elle +tambem!... <br /> + +<br /> + +Entretanto, e como por força mesmo d'essa +allucinação desvairada e tragica, o cerebro +perdera n'elle a recta, serena faculdade do raciocinio, elle continuava +absorto, incomprehendido, estupido, deante da «sua +desgraça»―como deante de um +grande mar de negrume, profundo e estagnado, por uma noite sem lua e +debaixo de um céo sem +estrellas, torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um +espectro... E assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos +irracional,―mudo, +aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo +de um poço um bloco inanimado... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No escuro do seu cubiculo, a pequena soluçava a +espaços. E era como se a propria treva soluçasse, +esse chorar abafado da +creança, espavorida das coisas que a cercavam, para ella +mysteriosas e funebres. Era como se um +alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo +florido de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um +vôo de acaso, na mansarda +<span class="pagenum">[204]</span> +tristonha de um morcego, em +qualquer frincha desabrigada de +velho muro, abandonado algures... <br /> + +<br /> + +E porque viera? E para que viera? Não sabia. No emtanto, ao +contrario do que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada +de profunda nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, +atravez do +qual passavam os primeiros alvores da manhã, como um +perfumado beijo de +frescura! Dois dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto +tempo em +tão pouco tempo! E não tornara mais a +vêr passaros! e +não mais tornara a ouvir, de manhã, tocando +á missa d'alva, tangendo á tarde a +Ave-Marias, o seu querido e alegre sino d'aldeia...―além, +n'aquella riba suave e +pittoresca, prateada, beijada do luar áquella hora!... E o +fio do seu +pensamento, que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como +pequenino arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas, +torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido +n'um veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se +fôra de lagrimas, occulto sob a folhagem pallida... <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto +da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez +dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... +Mas como acontece ás tempestades da natureza, tambem a +tempestade +d'aquella alma de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, +serenamente, gradualmente. Chorou. E como se fôra o +véo das +lagrimas que lhe não deixára vêr +até então os +pormenores do seu infortunio, d'este permittindo-lhe apenas uma +sensação que diremos +<span class="pagenum">[205]</span> +informe, entrou de se fazer com a vasante mais lucido o raciocinio, +mais precisa e mais esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro, +como luz que pouco a pouco vae surgindo na lampada de um claustro, +allumiando nitidamente, sob o docel frio das sombras, as arestas +marmoreas de um sepulcro... <br /> + +<br /> + +Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria +da sua tragedia, cujas linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma +nova tempestade rebentou,―como uma trovoada enorme em tarde secca de +maio. E foram então as imprecações, os +gritos +estrangulados irrompendo, em surdina, por entre as maxillas ferradas, +do fundo do peito em ancias. +Então foi o arrancar convulsivo dos cabellos, ás +guinadas, teimosamente, +n'um duello de loucura com a dôr physica, desafiando-a, +espicaçando-a, dando-lhe a beber o proprio sangue do peito, +rasgado pelas dez unhas crispantes, lacerantes como se foram de abutre. +<br /> + +<br /> + +―Ah! raios do céo, e não morro! <br /> + +<br /> + +E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao chão, +como beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe +então o pudor melindroso da sua desgraça, o medo +horrivel de que +se divulgasse, de que os outros a soubessem,―de que a pequenita, +mesmo, a +conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e +todo elle se sentia gelado até ao mais intimo da sua alma, +suppondo-se na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando +adherente +ás costas, como um ferrete ou como um caustico o olhar de +«toda a +gente»... E com as unhas ferradas na testa, escondia da +propria treva, com as +mãos ambas, o rosto cobarde e arrepanhado. <br /> + +<br /> + +―Diabos do inferno! levae-me! <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[206]</span> +A este novo grito, porém, subito se recolheu n'um grande +pavor religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, +doce, +harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um +casal... E teve a doce visão de um arco-iris, +bonançoso e rutilante, repontando luminoso no borel +asperrimo da sua alma, onde uma clareira +se abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas +tranquillas, que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba +alvinitente, que transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta +palavra de amor: <br /> + +<br /> + +―Deus! <br /> + +<br /> + +E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um +como enlevo de visão, um ruflar de azas de pombas... +á hora d'alva... sobre os campos... n'uma clara +manhã de maio, perfumada... <br /> + +<br /> + +E como se mão invisivel o erguesse, de vagar, serenamente, +enxugando-lhe da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta +alli pela sua alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto +contiguo, +onde sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi +submissamente, como um cão duramente batido que volta aos +affagos do dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos, +pallidos, desbotados, ao claro luar vindo do céo, o triste +uniu os +seus labios frementes,―...n'um beijo suavissimo de perdão. +Ao mesmo +tempo que ella, n'um delirio, repetia a phrase cruel: <br /> + +<br /> + +―Mais vinho! <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>NOTAS:</b><br /> + +<br /> + +<a name="1"></a><sup>[1]</sup> Sendo +necessario completar o numero preestabelecido de paginas de +cada volume d'esta <em>Collecção</em>, +numero +além do qual se não póde ir e aquem do +qual se não deve ficar,―o editor pediu e obteve do +auctor, em vez de novo conto, um excerpto do seu livro em +preparação, livro provisoriamente baptisado com o +titulo de <em>Batalhas domesticas</em>. O excerpto +póde dizer-se +que constitue só por si, +como os leitores verão, um trabalho litterario, independente +e uno, o que de certo modo lhe +dá logar n'esta collecção, ao lado dos +precedentes, +estabelecendo, além disso, a transição +do espirito do auctor para uma +nova phase, litteraria e artistica. <br /> + +<br /> + +<div class="signature">N. do E.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>INDICE </h2> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td>Idyllio rustico</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c1">1</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Sultão</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c2">18</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Ultima dadiva</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c3">41</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Preludios de festa </td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c4">55</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Typos da terra </td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c5">73</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Vae Victoribus</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c6">101</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Maricas</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c7">111</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Para a escola </td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c8">119</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Tragedia rustica </td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c9">131</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Abyssus abyssum</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c10">153</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Mãe</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c11">169</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Arrulhos</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c12">179</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Batalhas domesticas</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c13">195</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>OS MEUS AMORES E A CRITICA </h3> + +<br /> + +<br /> + +Da Revista Illustrada (extracto da chronica):―«...<em>Os +meus +amores</em>, de Trindade Coelho, é um volume de contos +para toda +a gente, em +condições agradabilissimas ao paladar d'ambos os +sexos, e com delicadas circumstancias a prazerem, principalmente, ao +feminino. Porque uma das preoccupações +litterarias mais evidentes d'este +escriptor primoroso é fazer jus á amisade das +leitoras, e como dispõe +de pericia no ferir de certas notas emoventes e no tocar certas +fragilidades de sentimento, consegue-o.―<em>Alfredo Mesquita</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Jornal da Noite:―«Trindade Coelho―Este illustre escriptor, +nosso talentoso colega do «Portugal», brindou-nos +com um +exemplar do seu novo livro de contos <em>Os meus amores</em>. +<br /> + +<br /> + +De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das +lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se +distinctamente, e impõe-se á +admiração dos +que apreciam os talentos brilhantes privilegiados. <br /> + +<br /> + +Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e +encantadora são dignos do maior apreço, pela +elegancia da fórma, burilada a primor n'um estylo finissimo +e scintillante, despertam os mais francos, sinceros e enthusiasticos +encomios dos que os +lêem. <br /> + +<br /> + +Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello +caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus +característicos serão traduzidos no novo livro de +contos do nosso distincto +collega.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +Diario Popular:―«<em>Os meus amores</em>.―Assim +se chama um livro +de graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo, +que acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho. <br /> + +<br /> + +O escriptor, como verdadeiro artista que é, localisa todas +as suas attenções, de ha muito, no trabalho de +apprehender com fidelidade o viver campezino, sobretudo da vasta +região transmontana, a +qual lhe foi berço. Por isso o seu fabrico litterario se +aprimora de dia +para dia n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito: <em>Os +meus amores</em> o attestam, quando postos em parallelo com os +primeiros +contos publicados avulso. <br /> + +<br /> + +Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e +consegue photographar com particular exactidão. Em vez dos +descriptivos, quasi despresados, são trechos successivos de +conversas +d'uma encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de +todas as suas producções. Isto e a felicidade com +que sabe +observar, dão o cunho pessoal da sua obra, que proporciona +agradaveis e confortaveis momentos +de leitura.» <br /> + +<br /> + +Diario Illustrado:―«Abrem <em>Os meus amores</em>, +de Trindade +Coelho, com um admiravel soneto de Luiz Osorio, que depômos +nas +mãos da leitora, como o perfumado ramo de cravos +valencianos, a flôr actual das suas +predilecções femininas: (<em>segue o soneto +incial</em>.) <br /> + +<br /> + +E pelo braço do poeta da <em>Alma lyrica</em> +subimos ao doce +convivio espiritual da alma de Trindade Coelho. <br /> + +<br /> + +O conto <em>Mãe</em>, uma rica joia engastada +n'este livro, +brilhando ahi por todas as suas facetas cortadas em diamante, e +buriladas com a fina arte +de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para +aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante +estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e +melodico, o diploma do seu notavel talento. <br /> + +<br /> + +É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela +naturalidade espontanea que estes contos nos captivam. <br /> + +<br /> + +O auctor diz-nos, sem preoccupações de escola e +sem pretenções a abrir caminho pela +deslocação do vocabulo ou pela selva +escura do escandalo, o que viu, analysou, observou e sentiu. <br /> + +<br /> + +As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam +suavemente, tocadas a espaços de uma inegualavel melancolia +contemplativa que lhes duplica o encanto. <br /> + +<br /> + +Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade +Coelho revela o superior poder evocativo da visão intima, +que o singularisa. <br /> + +<br /> + +A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle, +como para todos os artistas de raça, attitudes, +expressões, côres e sons, que o auctor +vê, adivinha, sente e traduz com a +fascinadora eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento, +que +só nos transmitte a simples leitura dos poetas. <br /> + +<br /> + +Ha rapidos traços de analyse emotiva ou de +commoção reflexa que valem poemas. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[III]</span> +E não serão o <em>Idylio rustico</em>, +a +<em>Mãe</em> e outros contos, soberbamente +delineados e intimamente +vividos, verdadeiros poemas em prosa? <br /> + +<br /> + +Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo +seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não +é de certo o seu primeiro triumpho.―<em>Gabriel +Claudio</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +Jornal do Porto:―«<em>Os meus amores</em>.―A +collecção Antonio Maria Pereira augmentou se d'um +novo volume original. Intitula-se <em>Os meus amores</em> +e está +escripto pelo nosso illustre collega e litterato +distincto o sr. Trindade Coelhho. <br /> + +<br /> + +D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve +achar grande acceitação no nosso publico, +escreveremos em breve as palavras apreciadoras que elle +merece.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Correio Elvense</span>:―Trindade +Coelho.―Este nosso amigo e festejado +escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a +que deu o titulo: <em>Os meus amores</em>, editado pela +acreditada livraria de +Antonio Maria Pereira. <br /> + +<br /> + +Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da +capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa +em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que +tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto +estylista. <br /> + +<br /> + +Não só nos seus escriptos passados, mas +então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente +possue. Não nos surprehendem pois os +seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade +de +bons e sinceros amigos. <br /> + +<br /> + +N'um dos proximos numeros falaremos da impressão colhida em +<em>Os meus amores</em>, agradecendo desde já as +expressões +affectuosissimas que acompanham a dedicatoria do livro, que o seu +auctor nos +offertou.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +Correio do Norte:―«<em>Os meus amores</em>.―Contos +e +balladas.―Trindade Coelho, o já conhecido e +apreciadíssimo +escriptor, acaba de publicar um livro de contos com o titulo acima +indicado. É esta uma +bella novidade para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de +ha muito soube conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello +talento e poderosas qualidades de escriptor. <br /> + +<br /> + +Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do +novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle. <br /> + +<br /> + +Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu +offerecimento.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +O Globo:―«<em>Os meus amores</em>.―Mais um +livro editado pela +livraria de Antonio Maria Pereira. Intitula-se <em>Os meus amores</em> +e +subscreve-o o +nome de Trindade Coelho. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[IV]</span> +Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser +por certo trabalho de grande valor artistico, como +invenção +e como execução, porque Trindade Coelho +é incapaz de produzir uma obra +litteraria má. A sua educação +litteraria está feita, e +os seus numerosos trabalhos tão apreciados, tão +portuguezmente escriptos, tão +sentidos e tão espontaneos revelam qualidades de escriptor +de raça. Elle tanto +póde ser um jornalista eminente como é um +contista original. <br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> é uma +collecção de +contos e balladas. Conhecemos alguns capitulos, que são +primorosos, mas carecemos de ler todo o +livro para não errar na apreciação. +Vamos lel-o +com a convicção de que teremos de saborear um +d'esses raros mimos litterarios que só os +privilegiados de talento sabem offerecer aos seus leitores.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Diario de Noticias</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―<em>Contos +e +balladas</em>.―Anunciámos, em tempo, o proximo +apparecimento +d'este trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do +<em>Portugal</em>, o +sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collecção, +já tão valiosa, das edições +do sr. Antonio Maria Pereira. <br /> + +<br /> + +O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que +desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do +seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores. +<br /> + +<br /> + +Com uma observação escrupulosa, e um pittoresco +estylo, d'uma pujança e d'uma riqueza não +vulgares, sem attentados contra o bom +gosto, nem rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade +Coelho +são, a todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra +que ha-de entrar, +sem hesitações, na +acceitação +do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a attestar, n'uma formosa +prova, a riqueza de um espirito, superiormente educado, ductil e +promptamente malleavel. <br /> + +<br /> + +Porque esses contos são a obra de um genuino artista, cuja +<em>maneira</em>, simultaneamente facil e apuradissima, +revelando a +espontaneidade de uma +fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma +delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e +de seiva. <br /> + +<br /> + +Não póde entrar nos curtos limites de uma simples +noticia, a mais desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na +proprio nome do seu auctor, o melhor e o mais seguro titulo de +recommendação para obter do publico a +consagração de um largo e legitimo +successo. <br /> + +<br /> + +Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz +Osorio―preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle +rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias +litterarias.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +A Actualidade:―«<em>Os meus amores</em>.―Este +nome é o +de um novo livro da collecção Antonio Maria +Pereira. Pelo titulo +presume-se um volume de versos; mas não é, o que +não quer +dizer que n'elle se não surprehenda +<span class="pagenum">[V]</span> +legitima poesia. +Trata-se de contos e balladas, originaes do sr. Trindade Coelho, um dos +nossos mais apreciados e brilhantes +escriptores. <br /> + +<br /> + +Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso +contista: <br /> + +<br /> + +Estylo correcto, elegante, vivo; descripções +ricas de observação e attrahentes tanto pelo +colorido como pelo esmerado da fórma; +despidos de grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita +naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre +tudo, pela propriedade. <br /> + +<br /> + +Com estes predicados o livro <em>Os meus amores</em>, do +sr. Trindade Coelho, +deve incontestavelmente ser de valor. E é. São +encantadoras todas as narrativas que contém. Logo ao abrir +depara-se-nos um +<em>Idylio rustico</em>, que embriaga e +predispõe para a leitura de +todo o volume, +onde se encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um +notavel +poder de observação e que deixam o espirito +suavemente +impressionado. Leiam, e verão que não exageramos +na opinião +que ahi deixamos rapidamente exposta. <br /> + +<br /> + +Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Correio da Manhã</span>:―«Registar +o apparecimento de um +livro bom, linguagem elevada e singella, desartificioso e artistico, +repositorio vasto de observação, vibrado por uma +grande +impressão pessoal e subjectiva, é sempre +agradavel á chronica, n'este tempo sobretudo de +litteratura gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica. <br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> que amavelmente acaba de nos +offerecer sr. Trindade +Coelho é um livro d'esses. Collecção +primorosa de contos e balladas, em que no mais despretencioso dos +estylos nos conta +recordações e idylios e nos mostra uma galeria +rica de typos e de figuras cuidadosamente observados e primorosamente +expostos. <br /> + +<br /> + +O ultimo conto <em>Para a escola</em>, que d'essa bella +collecção acabamos de ler, é +encantador de verdade, de singeleza, de arte, e +assimelha se notavelmente á maneira de Gustavo Droz. <br /> + +<br /> + +Não é o logar nem a accasião de +fazermos a critica do livro e a apreciação d'este +novo, d'este debutante, que ao +primeiro assalto parece estar já senhor da batalha. <br /> + +<br /> + +É por isso que sinceramente o felicitamos.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vanguarda</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―O nosso collega, o sr. +Trindade Coelho, que quasi só conheciamos pelos seus +libellos accusatorios, +acaba de nos enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a +feição carregada e sombria do agente do +ministerio publico desapparece por completo, para nos deixar apreciar +só o espirito finalmente delicado do +homem de lettras conhecedor dos melhores processos de arte e +verdadeiramente sabedor do seu officio. <br /> + +<br /> + +Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, +<span class="pagenum">[VI]</span> +que +o outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente +do ministerio publico, que parece lhe oblitera ás vezes as +suas +excellentes faculdades.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Primeiro de Janeiro</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Acabamos de receber +o formosissimo livro de contos «<em>Os meus amores</em>», +de +Trindade Coelho. <br /> + +<br /> + +Não é ainda a occasião de +pôrmos em relevo todas as qualidades litterarias, complexas e +brilhantissimas, que se evidenciam n'este livro, demonstrando um dos +talentos mais vivos e assignalaveis entre os +mais illustres cultores da prosa portugueza. <br /> + +<br /> + +Os contos por onde «<em>Os meus amores</em>» +se repartem +não são apenas maravilhas de linguagem, onde +tão sómente se +destaquem dextrezas e fulgurações do estylo: a +acção que os anima constitue uma deliciosa +galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em +flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de +observação e trasladados a uma fórma +superiormente artistica, onde ha +firmemente accentuados todos os caracteres de uma esplendida +organisação litteraria. <br /> + +<br /> + +É um livro vibrante e magnifico―adoraveis paginas +intensamente ou delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas, +cuja leitura +é um verdadeiro encanto. <br /> + +<br /> + +As nossas cordeaes felicitações a Trindade +Coelho, a quem agradecemos a gentilissima offerta do seu +livro.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Folha do Povo</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Esta publicada em volume +uma série de <em>contos e balladas</em> com que +o sr. Trindade +Coelho, o brilhante collaborador do <em>Portugal</em>, vem +enriquecer a +litteratura <em>contista</em> entre nós, hoje +tão +querida do publico, depois +que os trabalhos de Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um +valor até +então mesquinho. <br /> + +<br /> + +A primeira qualidade que notamos logo nos <em>contos e balladas</em> +do sr. +Trindade Coelho é um estylo muito seu, cheio de uma +crystallina naturalidade, <em>affastando-se completamente +d'essas +excrescencias de mau +gosto</em>, que ultimamente têm abastardado a lingua +portugueza,―prova da superioridade intellectual do escriptor de que +nos occupamos―, visto que não mira a uma falsa gloria, +conquistada facilmenle +pelas excentricidades de estylo, que são hoje uma verdadeira +mania +entre alguns escriptores da chamada geração +moderna. <br /> + +<br /> + +O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo á +espontaneidade das suas impressões, ao seu sentir, sem +deixar de se revelar +um artista, porque nunca a phrase lhe sae banal, nem tão +pouco envolvida +em ouropeis de mau gosto litterario. <br /> + +<br /> + +E no entanto encanta-nos,―prova de que está alli um +primoroso escriptor, um espírito delicado, reproduzindo +todos os +cambiantes da natureza por uma fórma de +observação, +que não é d'esta nem d'aquella escola. +É simplesmeate sua, individual. <br /> + +<br /> + +Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque +<span class="pagenum">[VII]</span> +as +suas primeiras producções litterarias +ressentiam-se de uma tal ou qual preoccupação de +<em>effeito</em> no modo de construir a +phrase. Hoje, o escriptor adquire a independencia da sua maneira, do +seu processo, e feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia, +visto que os +seus quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel +reproducção do que o artista observa em volta de +si. <br /> + +<br /> + +Certamente que o publico lerá com encanto o novo livro do +sr. Trindade Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e―podemos mesmo +dizer―a litteratura portugueza.―<em>Silva Lisboa</em>.» +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Diario Illustrado</span>:―«De +tempos a tempos chegava-nos do +Atemtejo um periodico que não deixavamos nunca de +lêr pelo +fino gosto litterario, pittoresco e moderno, que se revelava em todos +os seus artigos, incluindo os politicos. Esse periodico era redigido +por Tindade Coelho, +cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade +litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade +verdadeiramente notavel. <br /> + +<br /> + +De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para +o <em>Diario Illustrado</em> e, vindo establecer +residencia em Lisboa, algumas +vezes tivemos a honra de receber n'esta redacção +a sua visita, sempre agradabillíssima para nós, +porque a sua +conversação scintillante aligeirava as nossas +pesadas horas de trabalho. <br /> + +<br /> + +Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume―que faz parte da +collecção <em>Antonio Maria Pereira</em>―os +seus +deliciosos contos, cheios de observação, de +verdade, de simplicidade +artistisca, que é, a nosso vêr, suprema +expressão de belleza n'este genero de +composições litterarias. <br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> são um bello livro, em +que o estylo se +não contorce atormentado, como em tantos outros, em que os +rebuscados esplendores da +forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade. +Tudo alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres +e +dos episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos +períodos. <br /> + +<br /> + +N'uma palavra, <em>Os meus amores</em> são a +obra de um artista, de +um homem que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem +definida por +traços profundos de verdadeira originalidade.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Voz Publica</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Trindade Coelho, +innegavelmente um talento de primeira agua, acaba de brindar a +litteratura portugueza com +um excellente livro de contos subordinado áquelle titulo e +que constitue o duodecimo volume da elegantissima +<em>Collecção +Antonio Maria Pereira</em>. <br /> + +<br /> + +<em>Contos e balladas</em> é o sub-titulo do +livro, e muitos ao +lêrem-n'o julgarão que se trata de versos; mas +não, +é em prosa, em prosa vernacula, correcta e vibrante que +estão escriptos os bellos +contos de que se compõe este livro, digno a todos os +respeitos de ser +lido. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[VIII]</span> +São todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela +espontaneidade e verdade dos seus typos e das suas +situações, +lembrando um tudo-nada os formosos typos de aldeia, tão +magistralmente desenhados pelo +mallogrado auctor da <em>Morgadinha dos Canaviaes</em> e +dos <em>Fidalgos da Casa +Mourisca</em>. +<br /> + +<br /> + +Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a +lêr deixará de o fazer como nós; +tão +attrahente é a fórma por que Trindade Coelho +conduz todos os ligeiros contos de que elle se +compõe, que sem querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim +e fica-se como triste d'elle ter acabado. <br /> + +<br /> + +Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem, +foram os que se intitulam <em>Typos da terra</em> uma +galeria curiosa de +typos, e <em>A mãe</em>, um conto de natureza, +simples e commovente +na sua +simplicidade, e notavel pela sua originalidade. <br /> + +<br /> + +Recommendar o livro de Trindade Coelho é prestar um +serviço aos nossos leitores.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Ordem do Dia</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Este é o titulo +do 12.º volume da collecção Antonio +Maria +Pereira, innegavelmente a +publicação mais elegante, mais barata e mais +interessante do paiz. <br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> são uma serie de contos +e balladas, em +prosa, devidos á penna d'um moço +talentosissímo, de ha muito +conhecido nas lides do jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda +não +lançára ao mercado um livro; com este debuta o +auctor, e é uma estreia +auspiciosissima a sua. <br /> + +<br /> + +A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle +é cultivado um genero―o de contos, alguns á +maneira de +Gustave Droz, que prendem e interessam o leitor em todo o sentido. <br /> + +<br /> + +Foi gratissima a impressão que elle nos deixou no espirito e +esperamos que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas +bellas producções, porque estamos certos de que +quem +lêr <em>Os meus amores</em> será com +sofreguidão que esperará novo volume do +distincto escriptor, tal é o encanto da sua +escriptura». <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Sorvete</span>, (com o +retrato do auctor):―«Dr. Trindade +Coelho.―Mais uma prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez +justificada a alta competencia e finissimo espirito de escriptor +disctinctissimo! <br /> + +<br /> + +O novo livro de Trindade Coelho,―<em>Os meus amores</em>―contos +e +balladas―editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, +é, no dizer dos entendidos em litteratura,―uma verdadeira +joia.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Espozendense</span>:―«<em>Os +meus amores</em> (contos e balladas) por +Trindade Coelho.―Faz parte este volume da interessantissima +collecção Antonio Maria Pereira, tão +bem acceite do publico, pela superior +escolha das obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus +preços. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[IX]</span> +<em>Os meus amores</em> é um precioso +agrupamento de contos, alguns +ineditos, outros já conhecidos, e que Trindade Coelho +espalhara com +applauso por differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em +plena aldeia trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra, +pois +é natural de Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos, +delegado do procurador +regio n'uma cidade de provincia―os contos d'esta +collecção tornam-se sobretudo notaveis pela +propriedade e pela fidelidade da +acção, verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da +côr propria da +paizagem, vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens +e das cousas. <br /> + +<br /> + +Entre as nossas obras litterarias originaes, <em>Os meus amores</em> +merecem, +pois, um logar á parte, não como uma estreia +auspiciosa, que o nome de Trindade Coelho é já +demasiado conhecido de todos +quantos se interessam pela litteratura nacional, mas como a poderosa +affirmação de um prosador elegante e de um +contista distincto, no meio da grande maioria da chata +vulgaridade indigena. <br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> é, em summa, um livro de +valor, bem cabido +nas mais escolhidas bibliothecas.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Portuguez</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Delicioso titulo de um +livro delicioso. <br /> + +<br /> + +O livro é uma collecção de graciosos +contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor +é o nosso collega do O livro é uma +collecção de graciosos +contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor +é o nosso collega do <em>Portugal</em>, +sr. Trindade Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que +é digno +representante, cultiva as lettras com desvelado amor. <br /> + +<br /> + +Em Coimbra, estudante ainda, era já litterato apreciado, +collaborando, com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que +ha mais de dez +annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu +título de jornalista a invejavel nomeada de contista +esmerado, e brinda as lettras portuguezas com um volume, que +está tendo a mais +justa e lisonjeira acolhida. <br /> + +<br /> + +O primeiro conto do livro, <em>Idylio rustico</em>, +não obstante +ser agora publicado pela primeira vez, cremos nós, +é +já nosso conhecido, porque appareceu manuscripto n'um +concurso litterario da extinta +<em>Associação dos jornalistas</em>, +sendo premiado. +Depois da +consagração de um jury, terá agora a +consagração do publico. <br /> + +<br /> + +Depois do <em>Idylio rustico</em>, vem o <em>Sultão</em>, +um quadro +magnifico da vida campesina, notavel de simplicidade e +graça; e a <em>Ultima +dadiva</em>; e os <em>Preludios de festa</em>; e os <em>Typos +da terra</em>; +e as +<em>Balladas</em>; e a <em>Tragedia rustica</em>; +e a <em>Mãe</em>; e os +<em>Arrulhos</em>; e as +<em>Batalhas domesticas</em>: outros tantos primores, que +ás vezes +nos fazem +lembrar as deleitosas e serenas paizagens de Daudet. <br /> + +<br /> + +Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por +não haver ainda expirado entre nós a litteratura +san, que, ou nos desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas, +não nos deixa +no espirito a impressão doentia das nevroses +litterarias...» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[X]</span> +<span class="smallcaps">Jornal da Manhã</span>, +Porto:―«<em>Os meus amores</em>.―Mais +um volume acaba de ser publicado da collecção +Antonio Maria Pereira, por +sem duvida a mais elegante, a mais escolhida e a mais economica +bibliotheca que se +publica em Portugal. <br /> + +<br /> + +É o primeiro livro de Trindade Coelho, <em>Os meus +amores</em>, +contos e balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir +todos os seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos. <br /> + +<br /> + +Do primeiro ao ultimo, os contos que compõem <em>Os +meus +amores</em> são specimens no genero, porque, +além de +constituirem uma +esplendida galeria de quadros intimos, de retratos, de typos, +são a +confirmação d'uma verdade já por +nós ha muito acceite: que o seu +auctor tem todos os requisitos d'um escriptor de primeira ordem; +estylista vibrante, correcto e sempre elegante. <br /> + +<br /> + +E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em +serios embaraços, porque são todos por igual +deliciosos, +constituindo a sua leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que +mostrar predilecções por algum d'elles parece-nos +que os +melhores serão <em>A Mãe</em> e <em>Para +a escola</em>, aquelle +uma delicada e emocionante historia +arrancada flagrantemente á natureza, e este saudosas +recordações d'um passado que não +volta. <br /> + +<br /> + +A edição, escusado é dizel-o, +é nitidissima.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Tempo</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Este livro teria vindo melhor +nas noites invernosas para serões ás lareiras +crepítantes:―as faíscas d'ouro subindo no tecto, +o vento zenindo fóra açoitando +a chuva, e dentro, no conforto recolhido, gosar-se o contraste das +paizagens alegrdas pelo sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios +e trinados d'aves, paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar +com a delicia suave e +subtil d'illudidor ameno. Mas não se póde +aconselhar o leitor a que se prive de saboreal-o desde já, +tanto mais que os tempos +vão agoureiros para a arte de manancial, e os que a +cultívam teem de +separar-se dos estragadores d'Ella e das cabeças quasi +vasias que expremem +e segregam o pus nauseabundo do sadismo mediocre. <br /> + +<br /> + +Estes estão agora entretendo o publico arrebanhado para +saborear com prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala―o +vingador―ao imbecil que escreveu o <em>Senhor Dupont</em> +e aos auctores das +<em>Pimentinhas</em> +e <em>Berbigões Ardentes</em>. <br /> + +<br /> + +Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o +perfumador dos excrementicios e appareça em plena luz nas +mesas e nas familias dos que compravam os outros, é o voto +que faz o +alinhavador d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda +á +attenção um artista recolhido que sabe ter +força nos traços +tenues e meias tintas dos seus quadros, que capricha em suavisar +idylicamente as +dôres vulgares da vida acceite, da materialidade animal, +dourando-as com recantos de natureza chilreante. Que me +perdõem insistir na impertínencia: mas, o que no +livro +<span class="pagenum">[XI]</span> +mais particularisa o +talento de quem o assigna é a comprehensão das +paizagens, o +sabel-as colorir, animar, pôl-as ante os olhos que +lêem. <br /> + +<br /> + +As grandes dôres obscuras e sinceras, as brandas +affeições, amisades arreigadas, a placidez do +recanto habitado, os amores simples sustentados por ingenuas +crenças s suavisada fé, +tudo o que a aldeia tem de ameno, d'attraente, de pittoresco, de +consolador, os seus ridiculos mesmo, vestindo atitudes de parodia em +theatrinho de curiosos, tudo reveste bem o sr. Trindade Coelho, e +aligeira com um optimismo de bom humor, sublinhando aqui e +acolá umas notas reaes, bem +apanhadas, como se diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de +ventaróla. O livro encanta porque traz todo o aroma da +aldeia onde o auctor encerrou por annos a sua nostalgia―a peior de +todas: nostalgia de delegado!―apertando os vôos do seu +espírito +d'artista que ama pairar com a fantasia para o longiquo, para o que se +Imagina, para o Distante, +o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se +dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria +nas noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes +de recordação e de saudade d'onde brotou o livro, +escripto decerto nas horas feriadas do trabalho arido, com a +documentação da natureza que vivifica, com a +elaboração pachorrenta de quem +não tem pressa e se compraz na arte libertadora. <br /> + +<br /> + +Especificar um ou outro conto não é depreciar os +não citados, mas dar preferencia pessoal―e talvez +peccadora―ao <em>Idylio rustico</em>, +á <em>Ultima dadiva</em>, á <em>Mãe</em>, +ás <em>Batalhas +domesticas</em>, que fecham o livro e deixam entrever no auctor +um desejo +de animar os personagens tanto como anima +a natureza onde elles sentiram. Ha contos nos <em>Meus amores</em> +que fazem +lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem +lê da patada epica do que fez <em>Créte-Rouge</em> +e +<em>Ompdrailles</em>. <br /> + +<br /> + +O sr. Trindade Coelho é um escriptor tão +distincto quanto aclarado pelo jorro d'arte que vem de ha muito +confundindo os convulsionarios do talento; os serenos no desdem; os +enthusiastas; o que, despindo o metaphorico, quer significar que elle +está em +posição artistica onde decerto o seu talento e o +seu trabalho continuarão a chamar +attenção e respeito.―<em>M. Caldas +Cordeiro</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Antonio Maria</span>, (com o +retrato do auctor, desenho de Raphael +Bordallo):―«<em>Os meus amores</em> por Trindade +Coelho.―A +livraria portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede, +na ultima +quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de +memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho, +com a amavel denominação de <em>Os meus +amores</em>. <br /> + +<br /> + +Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... +É originalissimo, agradabilissimo o modo de escrever, de +descrever, de dizer, de contar, que usa o auctor d'este bello +livro,―agradabilissimo contista, escriptor originalissimo, cujo nome a +bibliographia regista hoje, +tão notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XII]</span> +A quem o lêr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso +gosto, algumas horas muito bem passadas, passeadas por aquellas +paizagens e recantos provincianos que elle pinta, tão real e +verdadeiramente como +se lá se estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle +retrata, +tão photographicos, tão nitidos, que é +estar a gente +a vêl-os, a ouvil-os, a falar-lhes... <br /> + +<br /> + +―<em>Os meus amores</em>, meus amores, que +encanto!» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Tempo</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―É +como Trindade +Coelho intitula a collecção de formosos contos, +publicados em +volume, editado pela livraria do sr. Antonio Maria Pereira. <br /> + +<br /> + +Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de +Trindade Coelho, desde quando lhe lêmos as suas +producções litterarias n'um jornal de Coimbra, e +que eram as primicias de trabalhos mais primorosos, como são +hoje os contos a que nos vimos +referindo. <br /> + +<br /> + +O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem +da primeira á ultima pagina sem um momento de +cansaço ou de fastio. O espirito do +leitor delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma +singeleza tão commovente, e que nos <em>Meus amores</em> +são +descriptas n'uma forma em que se revelam todas as qualidades d'um +distincto e notavel escriptor. Só póde apreciar +bem o merito d'aquelles contos +quem souber quanto cuidado ha no labôr paciente do artista +para conseguir dar ao +estylo o tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este +genero de +pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos. <br /> + +<br /> + +Não nos demoraremos a falar dos <em>Meus amores</em>, +que +contém preciosas joias litterarias, e ao qual +está, sem duvida, destinado um +honroso logar na nossa litteratura contemporanea.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Correio Elvense</span>:―«Trindade +Coelho.―Este nosso amigo e +festejado escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e +balladas que deu o titulo: <em>Os meus amores</em>, +editado pela acreditada +livraria de Antonio Maria Pereira. <br /> + +<br /> + +Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da +capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa +de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que +tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto +estylista. <br /> + +<br /> + +Não só nos seus escriptos passados, mas +então, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente +possue. Não nos surprehendem pois os +seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade +de +bons e sinceros amigos. <br /> + +<br /> + +N'um dos proximos numeros fallaremos da impressão colhida em +<em>Os meus amores</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XIII]</span> +<span class="smallcaps">O Dia</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Se fosse no +seculo passado, os +fazedores de proemios, prologos e conversações +preambulares +com os pios leitores, á falta de jornalistas que noticiassem +ou criticassem, por certo aproveitariam a occasião para +sobre o nome do auctor +glozarem varios elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e +é ao +mesmo tempo um poeta sincero, um escriptor de raça, e um +observador +attento, qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto +nasceu uma +obra formosissima, animada de verdadeira +commoção, sentida nas suas mais pequenas +minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista. <br /> + +<br /> + +A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta +reunião de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um +cuidado +meticuloso, copiando do natural, e em que os personagens foram +surprehendidos nos seus labores de cada dia ou nas suas intimas +cogitações. <br /> + +<br /> + +Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na +noticia d'este livro, e por isso nos limitamos a recommendal-o como +leitura attrahente, como obra d'arte tratada com esmero, embora nem +sempre com a mesma egualdade +nem com o mesmo folego, como uma grande licção +litteraria aos fazedores de naturalismo brutal. <br /> + +<br /> + +Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos +para que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo +meio o magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos +provar que quando se é artista lá de dentro, o +contacto +dos escrivães não prejudica a indole do +escripior.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Novidades</span>,(entrevista +com João de Deus ácerca dos +<em>novos</em>):―«<em>Litteratura nova</em>.―Eu +conheço +limitadamente os novos, porque não leio jornaes, e +não os leio porque os +litterarios occupam-se na propaganda da immoralidade, e os politicos na +propaganda do +suicidio, e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os +engeitados da fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte, +as agruras da sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre +joga os trinta réis de tres quartos d'um pão. <br /> + +<br /> + +Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de +verdadeira alegria! É um rapaz de talento! O que +é preciso +é que elle dispa a toga, que lhe impede os movimentos. +Não o conheço, mas +dizem-me que trabalha muito. Já leu o <em>Sultão</em>? +Se ainda não +leu, não o deixo sair de cá sem lh'o ler. <br /> + +<br /> + +―Li já todo o livro. <br /> + +<br /> + +―E depois, meu amigo, nós andavamos precisados d'uma coisa +casta, onde fossemos purificar o espirito d'essas taes +observações physiologicas, e não sei +que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O +livro do Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que +não posso bem definir-lhe. Olhe: alli está +aquelle quadro, em que os +traços são correctos e a +execução perfeita, mas +não tem graça; e aqui, este, uma bella +cabeça de rapariga, a physionomia dôce, o +olhar abstracto: este tem graça. Até a +<span class="pagenum">[XIV]</span> +Virgem +Maria se chama cheia de +graça, e foi mãe de Deus por ter +graça. A graça na litteratura +é tudo, mas é muito rara.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Novidades</span>:―«<em>Novellas +rusticas</em>.―Trindade Coelho.―<em>Os meus +amores</em> (contos e balladas.)―Lisboa, livraria de Antonio +Maria +Pereira―1891. <br /> + +<br /> + +No seu penultimo artigo do <em>Temps</em>, dizia M. +Anatole France, esse +sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas +as doutrinas axiomaticas da critica: «Il y a beaucoup moins +de lecteurs pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison +suffisante que +seuls les délicats savent goûter une nouvelle +exquise, tandis que les gloutons dévorent indistinctement +les romans bons, +médiocres ou mauvais.» <br /> + +<br /> + +O conto moderno é como o romance, essencialmente analytico e +psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a +apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma +humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi +invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixões +e todas as energias depravadas do coração. A arte +do sr. +Trindade Coelho é muito differente d'isso, porém. +O seu idylico livro de contos e +balladas, aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente +evocado da paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples, +colhidos com intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, +não +tem, decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a +etiqueta actualmente em moda. É natural até que o +leitor, +habituado aos livros dos escriptores realistas, sinta uma profunda +sensação de espanto ao emprehender a leitura dos +<em>Meus amores</em>, duzentas paginas suaves e simples, +sem pedantescas +pretenções a passarem +como tratado didactico de psychologia. <br /> + +<br /> + +Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e +que as suas figuras só serviam para dar expressão +e +vida á paizagem. <br /> + +<br /> + +O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a +sensação visual particularmente desenvolvida, e +as suas +descripções são tambem, como as do +auctor das <em>Pupillas do sr. Reitor</em>, magicamente +poetisadas, como +que apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade. +Chega-se ás vezes a ter a illusão de que o +artista está alli, paginas a dentro do seu livro, fazendo +reviver no pensamento a alacre +impressão das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados +da sua aldeia natal, +cuja lembrança, elle conserva sempre viva, como nos versos +de Salvador Rueda: <br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Por donde voy me sigue como memoria +tierna <br /> + +tu imagen que en mi pecho +conduzco en un altar;<br /> + +¡y mi cerebro canta como una estrofa +eterna<br /> + +el coro que tus árboles entonan á la mar! </div> + +<br /> + +Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manhã +aldeã, quando o sol começa a subir na linha ainda +indecisa do +horisonte: <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XV]</span> +A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim, +e o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o +ceu em cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava +harmonias +estranhas que iam despertar tudo, a côr da paizagem e a +musica dos ninhos, +cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. +Manhã de +verão, serena, tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um +movimento extraordinario de azas―passarada alegre que saía +agora dos ninhos e voava a +matar a sede á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam +as suas +casinholas em reconcavos de rocha e tomavam para hortejos +convísinhos onde +a vegetação era mais rica de seivas e mais facil +a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, +tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques +verdejantes, gente em +mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos, +viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de +taleigos, e berrando-lhes cada <em>cho</em>! que se ouvia +na outra ladeira. +Já +nas povoações proximas, sinos chamavam para a +missa +de alva ou tocavam a Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os +tectos, dizendo horas de almoço. De modo que o sol quando +rompeu, solemne e +triumphante no ceu immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda +a Natureza +accordada para a labuta interminavel do dia.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +«No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr. +Paulhan sobre a descripção pittoresca, +então +habilmente apreciados os elementos constitutivos da pintura do meio, em +todas as suas maneiras diversas na +qualidade e na intensidade. <br /> + +<br /> + +«Chama-se imaginação +sensivel», diz o distincto observador, «o acto pelo +qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta +representação, como tem sido ha bastante tempo +notada, não +é,―principalmente se considerarmos só certas +classes de +imagens,―senão uma copia enfraquecida d'uma +sensação. Por exemplo, se eu +trato de me representar um momento, um quadro, uma estatua, qualquer +coisa que imagino, se as minhas recordações +são bastante +nitidas, é uma especie de copia enfraquecida da +sensação que eu terei, se vi +realmente o monumento, o quadro ou a estatua. A +imaginação, tomada +até no sentido restricto que lhe damos aqui, varia muito +d'uma pessoa para outra, quer em intensidade, quer em qualidade. Por um +lado, certas pessoas teem as imagens, as +representações muito mais +enfraquecidas, mais vivas, mais concretas; em uma palavra, as suas +imagens approximam-se muito da sensação; outras, +pelo contrario, são +inclinadas para as idéas abstractas e teem necessidade d'um +esforço para se +representarem as sensações d'uma maneira um pouco +nitidas. Tem-se +reparado que a visão mental, nitidissima em geral nas +creanças e nas mulheres, +torna-se muito fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas +sobretudo de ideias abstractas, ou habituadas a não exercer +a sua +imaginação visual. Eis uma pequena experiencia +indicada por Wundt, que, mostrando as analogias entre a imagem e a +sensação, +<span class="pagenum">[XVI]</span> +parece +pôr em relevo tambem as differenças individuaes +com relação +á intensidade com que a imagem concreta é +percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por +algum tempo n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma +superficie parda, vemos uma mancha corada da côr complementar +da primeira. Se o +objecto era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; +se o +objecto azul indigo, a mancha será amarella, etc. Ora +é +possivel, mas isto não succede a toda a gente, perceber esta +côr complementar +não só depois de ter fixado um objecto corado, +mas simplesmente depois de o ter imaginado. Póde-se, por +exemplo, pensar n'uma cruz vermelha: +lançando em seguida os olhos para um papel pardo, deve-se +ver uma cruz verde, se ha +uma boa imaginação visual.» <br /> + +<br /> + +«Essa imaginação parece tel-a o sr. +Trindade Coelho. A vivacidade, tonificada quiçá +por um poucochinho de nostalgia, +do seu descriptivo, que nos dá conjunctamente a +impressão da forma, +da côr, do som, e até ás vezes do +aroma, representa um phenomeno especial de +evocação sensacional. E o maior encanto da sua +obra é esse, e, depois +d'esse, a intima satisfação que faz aflorar, aos +labios do +leitor inteligente, um sorriso de doce commoção, +a cada singelo episodio +das suas narrativas, todas frescas e sadias, e cujo menor merito +não +é, decerto, o de serem escriptas n'uma linguagem airosa e +despreoccupada, mas tersa e legitimamente portugueza. <br /> + +<br /> + +O livro do sr. Trindade Coelho não é para ser +sujeito a longas analyses introspectivas, o papel da critica perante +<em>Os meus amores</em> +é bem facil, porque ella deve quasi cingir-se á +affirmação do seu applauso incondicional, ou ao +registo da repulsão do processo do +escriptor, o que póde muito bem representar uma livre +depravação de gosto. <br /> + +<br /> + +Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel +recordação, para a oxygenada, a leitura d'essas +bellas novellas rusticas, todas impregnadas d'uma ideal +graça campesina, +tilintando d'um ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre +mansamente por entre margens baixas, bordadas de sécias e +papoilas: e, para a +minha sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o +livro e o caso do <em>Sultão</em>.―<em>Armando +da Silva</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Tim Tim Por Tim Tim</span>:―«Um +grande poder +d'observação e uma enorme justeza +d'expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes +qualidades litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma +de verdadeiro artista, aberta á comprehensão +ampla +da natureza, e fundindo os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um +conjuncto nitido que se desata em descripções +opulentas de vida e de +calor, fulgurantes d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o +melhor crystal de Veneza não teria reflectido tão +bem, avigoradas +em onomatopeias possantes que prendem o espirito mais inculto e o +obrigam, alli, a +fixar e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar. <br /> + +<br /> + +E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que +<span class="pagenum">[XVII]</span> +compõem <em>Os meus amores</em>, +realçadas ainda pela +fina emotividade que o delicado sentir do auctor transmittiu a cada +scena onde o +coração tem parte, ou seja o +coração de qualquer d'aquelles +dois pequenos do <em>Idylio rustico</em>, ou o da <em>Russa</em>, +a bella cabra que +no meio de mil angustias +de mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a +elle proprio, a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, +viva e sentida, +vejam o affecto que irradia d'aquelle <em>Para a escola</em>, +quando falla da +velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras. <br /> + +<br /> + +Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das +descripções naturaes, que mais o apaixonam, +Trindade Coelho desce a brincar um pedaço caricaturando uns +typos com tanta sobriedade de +<em>charge</em> que mais nos parece estar fazendo retratos, +saem-nos +então +figurões como os da villoria da <em>Comedia na +provincia</em>, que +entreteem a tarde na +praça a dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro +nos <em>croquis</em> como +nos habitos. E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes, +aquella <em>Vespera da festa</em> exemplifica +vantajosamente o que elle sabe +fazer. <br /> + +<br /> + +No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das <em>Batalhas +domesticas</em>, onde me pareceu descobrir uma novissima +orientação do auctor, inspirada porventura n'uma +atmosphera densa +d'innovações que vae por ahi. Claro que o seu +talento adapta-se mais essa fórma +com a malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a +caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos +escriptos, não a sacrificaria a coisa alguma. <br /> + +<br /> + +O que o livro é, em summa, é um conjuncto de +bellezas que tem sido largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e +oxalá seja +apenas a promessa de muitos outros, que pennas como aquella +não devem +calotear-nos na contribuição que nos devem. <br /> + +<br /> + +―Mas,―perguntou-me um dia d'estes alguem―porque <em>Os meus +amores</em>, e +não qualquer outro titulo? <br /> + +<br /> + +Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho +esse nome ao livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe +são +saudosos e em que lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de +rapaz que nenhuma lama d'este mundo é capaz de +conspurcar.―<em>Santos +Gonçalves</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Revolução de +Setembro</span>:―«<em>Os meus +amores</em>, contos e balladas por Trindade Coelho.―Um livro +peregrino, +que se lê com encanto e +que nunca mais se esquece. É um talento e é um +artista quem +escreve assim. Uns contos singelos, attrahentes, delicadissimos, +admiraveis de +observação e de honesto realismo. Esbocetos +apenas; mas que admiravel simplicidade +de colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade! <br /> + +<br /> + +Uma bella obra d'arte e uma altiva lição. <br /> + +<br /> + +Alli está como se póde chegar ao naturalismo na +litteratura, sem estropear a lingua e sem chegar ás torpezas +da pornographia. +Para attrahir, para ser original, para impôr a supremacia do +seu +talento, para conquistar o applauso sincero dos que lêem, +Trindade +Coelho não precisou de escrever +<span class="pagenum">[XVIII]</span> +extravagancias, nem de +escalavrar pustulas, nem de +escancarar bordeis. <br /> + +<br /> + +Ahí fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar +d'elle, se o tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao +seu +auctor.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Correio Elvense</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Com +poucos dias +d'intervallo as lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de +livraria. <br /> + +<br /> + +Depois de apreciar o <em>Barão de Lavos</em>, +obra de analyse, de +profunda observação, resentida do exaggero do +naturalismo +e do caracter quasi scientifico que actualmente se pretende imprimir +aos livros, que devem ser exclusivamente litterarios, mas que, +não obstante este +pequeno senão, confirmou plenamente todas as +esperanças +que o nome de Abel Botelho creára com os seus livros +anteriores, a critica tem +de render respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo +como aquelle +e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu +espirito, pela sua notavel orientação litteraria +e pelo +esplendor de fórma que caracteriza todos os seus escriptos, +mesmo os mais despreoccupadamente feitos. <br /> + +<br /> + +Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traçar estas +linhas. Momentos como este são mesmo os unicos oasis em que +se +reconfortam os que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na +faina improductiva e ingloria do jornal. <br /> + +<br /> + +Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem +intimas relações de confraternidade e sympathia e +ao ter de formular o meu juizo conheço que posso manifestar +o mais incondicional +louvor e applauso sem que se suspeite que as minhas palavras +são +reflexo d'um sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta +e verdadeira +d'uma admiração justamente sentida, solidamente +baseada. <br /> + +<br /> + +O livro a que me refiro intitula-se: <em>Os meus amores</em>. +E em tudo +corresponde ao encanto d'este titulo. <br /> + +<br /> + +Com que saudade li as ultimas paginas! <br /> + +<br /> + +Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o +delicado prazer que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar +a naturalidade das descripções, a limpidez e o +crystallino do +estylo emocionante e simples, tão delicado e ao mesmo tempo +tão +poderoso que dá vida aos mais diversos sentimentos desde o +pavor do remorso do assassino +José Gaio, até á +recordação saudosa e +terna que o auctor sente do primeiro dia em que entrou na aula +d'instrução primaria da sua +modesta aldeia. <br /> + +<br /> + +Dando a impressão singela e despretenciosa que me cansaram +<em>Os meus amores</em>, não vou referir-me +demorada e +especialmente a cada +um dos pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente +consolador. Na epoca actual quando os vicios da sociedade e a +decadencia dos nossos dias nos gravam no espirito, a cada hora, um +carimbo de desanimo e descrença, quando a litteratura, +obedecendo á +vertigem mais do que nervosa, +<span class="pagenum">[XIX]</span> +allucinada, que caracterisa o <em>fin de +siècle</em>, cria +as escolas mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as +ideias, em apedrejar as normas mais impeccaveis e até agora +consagradas +da arte, e em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas +mais escuras +e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo, +desannuvia-se o espirito ao vêr que ainda ha alguem, a quem +sobeja talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa +sã, +eminentemente sentida, deliciando-se na +descripção das scenas +mais simples e tocantes, na apotheose da natureza em toda a sua +magnificencia e no +convívio da vida campesina, tão cheia de +sinceridade e de encantos, +tão livre das convenções e +pretenciosidades que dão +um tom falso e mentido aos sentimentos da sociedade em que vivemos. <br /> + +<br /> + +Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de +perfeições de cada um dos contos e balladas que +formam <em>Os meus amores</em>. Não +representa este proposito ideia de menos +consideração pelo livro +ou por quem com tanto amor o escreveu. Ao contrario, sinto que +não posso, a +não transformar este artigo n'um hymno laudatorio, +referir-me especialmente a cada um d'aquelles contos e balladas. Mais +do que este motivo domina-me o de +não poder alongar demasiadamente a +apreciação que +estou fazendo. <br /> + +<br /> + +Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro +já as haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas +em differentes jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso +estylista dos <em>Meus amores</em> pelos seus trabalhos +jornalisticos, +já na +bohemia coimbrã, já em pequenas folhas de +provincia e ultimamente nos jornaes +da capital, trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a +correcção que nunca abandonam os verdadeiros +artistas. <br /> + +<br /> + +Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formára a +opinião de que elle se podia alistar sem desdouro ao lado do +Conde de Ficalho, de Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no +meu parecer, +são, em Portugal, os mais distinctos escriptores +contemporaneos d'este genero, na apparencia tão ligeiro, mas +no fundo tão +complexo e difficil, a que se denomina: <em>Contos</em>. <br /> + +<br /> + +A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião +formada. <br /> + +<br /> + +Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos <em>typos</em>, +pela +naturalidade do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria +sem o minimo esforço a todas as impressões que +pretende +transmittir, o auctor dos <em>Meus amores</em> prova que +não +desconhece nenhum dos segredos +do genero de litteratura que tão brilhantemente cultiva, e +que +não é inspirada na amizade a opinião +dos que, não obstante elle +terçar agora quasi as primeiras armas, o consideram +já como um escriptor +distinctissimo e n'um futuro muito proximo um mestre consagrado. <br /> + +<br /> + +O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim +desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado +ás bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com +uma riqueza oriental. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XX]</span> +Não obstante o meu proposito de não me referir +nomeadamente a nenhum dos pequenos quadros, não posso deixar +de dizer rapidamente da +impressão que me causou a <em>Ultima dadiva</em>, +um primor de +sentimento, uma pagina +emotiva arrancada em flagrante a uma das scenas em que tão +variadamente se divide a tragedia em que se debate a humanidade; o +<em>Vae victoribus</em>, onde passa um folego de epopeia, +em que o estylo +attinge alturas quasi desconhecidas, casando se com uma verdade +admiravel a grandiosa ideia +em que se inspira o conto; <em>Para a escola</em>, quadro +delicioso a cuja +leitura cada um de nos sente accordar uma +recordação +muito querida de infancia descuidada e alegre, e por ultimo: os +<em>Arrulhos</em>, em que Trindade +Coelho ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo +tão +malleavel e tão justo. <br /> + +<br /> + +Além d'estes contos, que especialmente destaco pela +admiração que me inspiraram, são +modelos de humorismo e de verdade os dois +<em>Preludios de festa</em> e <em>Typos da terra</em>. +<br /> + +<br /> + +Quem escreveu os <em>Preludios de festa</em> e +especialmente os <em>Typos da +terra</em>, é porque estudou com muita +attenção, com muito cuidado, os personagens que +mais avultam na vida das nossas aldeias e terras pequenas. +São typos tirados do natural, com uma +perfeição photographica em que Trindade Coelho +denota o mesmo rigor de +execução que demonstra na +descripção da natureza nos seus mais variados +aspectos. <br /> + +<br /> + +Por ultimo, e para não se dizer que eu n'este paiz de +má lingua realisei o cumulo de escrever um artigo +só de palavras encomiasticas +e sem a minima censura ou reparo, devo dizer que não gostei +do +<em>Sultão</em>, lastimando que +Trindade Coelho gastasse tantas +paginas d'um estylo formosissimo n'um assumpto que sem duvida +é verdadeiro, mas +que não commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim +o julgamos, a +minima impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar +todos +os seus recursos d'estylista, não precisava realmente do +<em>Sultão</em>. <br /> + +<br /> + +O livro faz parte da edição mensal d'obras +portuguezas, editada por Antonio Maria Pereira, um trabalhador +incansavel a quem as lettras portuguezas devem assignalados +serviços. <br /> + +<br /> + +Está impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado +e esmero a que nem sempre estamos habituados. <br /> + +<br /> + +Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, +fazemos votos para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas +horas +á semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, +tão +perfeitos como este, para honra do seu nome de escriptor já +tão justamente laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do +seu livro, archivando a dedicatoria que elle contem como nova prova +d'uma amisade a que somos profundamente gratos, e devotadamente +retribuidores.―<em>Lourenço Cayola</em>.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Tribuno Popular</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Recebemos +o volume da +<em>Collecção Antonio Maria Pereira</em>, +que sob +aquelle titulo contém alguns +contos do apreciado contista Trindade Coelho. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XXI]</span> +Pela rapida leitura de dois d'elles―<em>O Sultão</em> +e <em>Typos da +terra</em>, parece nos que a collecção +é +estimavel, e que os contos são joias de grande +preço da nossa litteratura, pela linguagem pura +genuínamente portugueza, e pela graça da +contextura originalissima, +nacional, sem laivos d'imitação estrangeira, em +que se pintam +scenas e episodios, cheios de verdade e de encantadoras +descripções, +da vida portugueza nas provincias.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Seculo</span>:―«<em>Os +meus amores</em>, por Trindade +Coelho.―É um livro de contos, editado pela casa editorial +do Antonio Maria Pereira, a publicação recente +que mais tem emocionado, com +justo motivo, o nosso meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no +fundo, sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de +não +ser rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem―diga-se a +verdade. <br /> + +<br /> + +Parece uma contradicção; mas não +é. Se o nosso bom publico fosse dado a esbanjamentos de +emoção artistica, não +o sobresaltaria tanto a pessoalidade, e o imprevisto. <br /> + +<br /> + +O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado +severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de +ser homem de lettras, nas suas horas de remanso. <br /> + +<br /> + +É só, porém, como homem de lettras, +que nos compete em tal logar aquilatar-lhe a esthésia, e as +faculdades de +emoção, ou de attenção +artistica. <br /> + +<br /> + +Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A +fórma adapta-se perfeitamento ao fundo, e é +sempre fluente, +vernacula, concisa, e precisa. É sóbrio no +descriptivo, e +não raras vezes enternece. Não commette a +velharia de desenterrar obsoletos +termos classicos, sem incisão, sem propriedade, e sem +côr, muito parecidos com o latim, mas que no fundo +não são nem latinos, +nem portuguezes, nem onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto. +Nem perpetra tambem +o mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na +linguagem patria instrumentos magnificos d'expressão. Sabe a +sua lingua, como raros: e o conto, que é, quanto a +nós, a +forma mais perfeita, mais completa, e mais delicada da prosa, e tambem +a mais transcendente e lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado +interpetre. Os contos <em>Sultão</em>, +<em>Maricas</em>, <em>Typos da terra</em>, +<em>Mãe</em> e +sobretudo <em>Para a escola</em>, não contam +muitos rivaes na +lingua portugueza nem +nas estranhas. <br /> + +<br /> + +O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de +centenas de romances em seiscentos volumes já ninguem +rememorar o titulo sequer.―<em>Gomes Leal</em>.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Revista Illustrada</span>:―«<em>Os +meus amores</em>, de +Trindade +Coelho.―Que deliciosa impressão me deixou aquelle livro, +tão +adoravelmente simples e sentido! <br /> + +<br /> + +Antes, porém, de começar a analysar, conto por +conto, esse fino trabalho +<span class="pagenum">[XXII]</span> +de Trindade Coelho, preciso dizer duas +palavras explicando a +razão porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de +nome +conheço só. <br /> + +<br /> + +Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre, +notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito, +distincto em todos os exames. <br /> + +<br /> + +Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de +que―o delegado de Portalegre―era um excellente rapaz. <br /> + +<br /> + +E digo rapaz, porque todos nós temos o habito de considerar +sempre muito novos aquelles que são da nossa edade... +Depois, +graças a uma amiga minha, escriptora de grande talento soube +que Trindade Coalho era um grande admirador de Loti―o meu preferido +romancista!―admiração enthsiasta que elle +descrevia em cartas deliciosas de uma +vibração que fazia pena não ser +repercutida mais longe... Fazia pena ser +indiscrição publical-as! <br /> + +<br /> + +Traduzia elle então o «Pescador de +Islandia»; tradução esplendida que a +<em>Gazeta de Portalegre</em> publicou e que o trazia <em>empoigné</em>. +Para elle era já uma suggestão, aquelle trabalho +primoroso. <br /> + +<br /> + +E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um +artista. Dava a Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente +alguem se comprazia em querer negar ao academico gentil. <br /> + +<br /> + +Em seguida li uma suavissima elegia escripta á memoria de +Antonio Fogaça―uma flor ceifada ao desabrochar!―Eram meia +duzia de +palavras cortadas por soluços:―eu sei, infelizmente, quando +se +escreve assim!... <br /> + +<br /> + +Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os +jornaes annunciaram que elle arrancára um preso á +cadeia de Portalegre. Um preso que era um innocente, e que, como tantos +outros, estava condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da +justiça... +Publicavam tambem o effusivo telegramma em que Trindade Coelho +agradecia ao nosso magnanimo rei o seu perdão. <br /> + +<br /> + +E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem +põe a lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu +coração ao serviço da humanidade que +soffre... <br /> + +<br /> + +O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente +na minha alma. <br /> + +<br /> + +Eu só fixo o nome dos bons. <br /> + +<br /> + +E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe d'aquelle +homem! Os filhos herdam, geralmente, o coração +das +mães... <br /> + +<br /> + +<div class="dots"> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lêr. +Pedi-o rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego. <br /> + +<br /> + +Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz +Osorio―uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos +filigranados e vibrantes... <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XXIII]</span> +Segue se o <em>Idylio rustico</em>―um amor―atravez do +qual nós +vêmos subir lentamente a estrella d'alva que illuminava, +coando a sua +dôce luz pelo colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, +adormecidas junto uma da outra... <br /> + +<br /> + +Depois o <em>Sultão</em> um +conto singelíssimo cheio de +naturalidade, em que o Thomé nos communica a sua alegria +contagiosa levada +á loucura com a volta do... amigo―bem mais fiel do que +muitos outros! <br /> + +<br /> + +A <em>Ultima dadiva</em>, um braçado de goivos +atirados por +«um simples» a uma sepultura onde lhe +ficára preso o +coração para sahir de lá no dia em que +teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o +Brazil. <br /> + +<br /> + +A <em>Comedia da provincia</em>, magnifica de +côr local. +Magnífica, principalmente para quem conhece typos +semelhantes e já tem +visto a <em>Morgadinha de Valflôr</em>―essa +perola!―representada +pelo +Marques do correio... vestido de saias! Para quem dá todo o +valôr a esse esplendido estudo de costumes provincianos. <br /> + +<br /> + +<em>Vae victoribus</em>, uma sugestão de remorso +primorosamente +traçada... <em>Maricas</em>, uma adoravel +poesia escripta em prosa. +<em>Para a escola</em>, um beijo de gratidão de +uma singelesa +adoravel. <em>Tragedia +rustica</em>, um vibrantissimo estudo das miserias humanas. <br /> + +<br /> + +<em>Abyssus abyssum</em>, o agonisar de dois anjos, sob o +olhar de uma +estrella... <em>Mãe</em>, a flôr mais +linda do ramo, +enlevo e agonia de todas as mães que eram capazes de morrer +assim―sem abandonarem os +filhos... E, finalmente, as <em>Batalhas domesticas</em>. <br /> + +<br /> + +Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de +Trindade Coelho, que é, a par de um primor de delicadeza, +sentimento e arte, +um livro honesto, que não fatiga os homens nem faz +córar +as mulheres. Por isso aconselho a todos que o leiam.―<em>Margarida +de +Sequeira</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +Portugal:―«<em>Livros Novos</em>.―A acolhida +feita ao +notabilísissimo livro <em>Os meus amores</em>, +do nosso querido +amigo e illustre confrade, Trindade Coelho, tem sido a que em tempo lhe +vaticinámos: em toda a +linha o mais legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais +carinhoso +triumpho. <br /> + +<br /> + +Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no +trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos +que na caça de sensações e effeitos +novos hoje pavorosamente desarticulam o <em>meio</em> +litterario europeu, tem +uma força de +restringir-se a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e +tranquilla, a melodia emocionante, ingenua e simples do viver +aldeão; e +que por entre o estridulo <em>hallali</em> de +obscenidades, +imprecações, blasphemias, dôres, +gemidos, que doloridamente rebôam pelas soturnas naves d'este +immenso hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema +arte de +fazer escutar, enternecedoramente, um doce <em>trillo</em> +sentimental, uma ou +outra ligeira nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do +coração. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XXIV]</span> +Bem haja. <br /> + +<br /> + +Do côro unisono de quasi incondicional applauso com que a +imprensa tem celebrado a apparição d'<em>Os +meus +amores</em> +transcrevemos hoje um magnifico artigo do <em>Correio Elvense</em>, +devido +à penna d'um dos mais +lucidos e impetuosos engenhos da novissima +geração.» (<em>Seguia-se a +transcripção</em>.) <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Diario Illustrado</span>:―«<em>Os +meus amores</em>, +contos e balladas, por +Trindade Coelho.―A forja do tempo caldeia-nos o espirito á +proporção que envelhecemos. É por isso +que os rapazes se desdoiram +ás vezes de ouvir os velhos, e parece-me que teem +razão, porque nem sempre o +são juizo de uma experiencia larga, sabe limar as arestas da +caturrice no estudo circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando +e um pouco a rir com +singular scepticismo, este meu seculo, que está no fim, e +com elle tenho vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias +litterarias, revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de +estylo, arrancou-se o chiró ás velhas phrases, e +todo um +mundo novo, extravagante e phantastico tem surgido,―mau grado as +furias +rabídas de escriptores paleontologicos, apparafusados +á Arte e +á Critica de ha 50 annos e cheios de amor e melancolia... +Ora essa aprendizagem do meu seculo tem-me custado amarguras +aterrantes, desequilibrios de espirito +e um desfolhar de verdes illusões, que eu tenho visto +irem-me +fugindo n'um <em>marche-marche</em> triumphal, para nunca +mais voltarem,―ai! +para nunca mais voltarem!... <br /> + +<br /> + +A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica, +dá-me a impressão tenebrosa dos contos de Poe, +postos +palpitantemente na vida real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo +ao pedaço de +chumbo de uma capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas; +Julio +Machado, de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem +amado do filho,―a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos +outros, bom Deus! Dir-se-hia que uma <em>má sina</em> +persegue os +homens de +lettras:―quando não é a navalha de barba, +é o rewolver, é a +consumpção, é a tisica, é o +retrahimento amargo, é +o abandono proprio e alheio! Por isso o meu visinho Gervasio todo se +ufana, com certo profundo bom senso +pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um <em>artista</em> +pintor―de portas, e de fóra de portas... <br /> + +<br /> + +Na <em>troupe</em> de escriptores em flôr do meu +tempo,―parece-me +que já lá vão 30 annos, e tudo isto +é apenas de +hontem!―havia, joeirados com singular amor de arte pura, uma duzia de +rapazes de incontestavel valor +litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e +revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos, +miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de +rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam +triumphantes,―poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da +vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que é quasi +o mesmo, deram-se a callejar as mãos, dissolvendo as suas +aptidões de plumitivos incipientes, nas minas +<span class="pagenum">[XXV]</span> +de oiro e de +ferro da lucta pela vida. Dos <em>felizes</em>, dos que +triumpharam,―como +quem diz, dos vencidos da vida,―me sorria eu ás vezes em +horas de bom humor, +lembrando-me como elles com um livro de versos foram nomeados consules; +com um tratado sobre a cultura do repolho abriram o <em>Banco +Mineral do +Douro</em>, por acções; com um drama em <em>D. +Maria</em> +foram eleitos +deputados; ou como com uma critica do <em>Salon</em> de S. +Francisco, se +guindaram a bibliothecarios das bellas artes e hortaliças +correlativas... Dos outros, +dos <em>perdidos</em> pouco me lembra! Eduardo Salamonde +foi-se a espantar os +philisteus do Pará, applicando-lhes aos figados +hypertrophicos a vermelha +caudal da sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em +Paris pelo alçapão macabro da <em>correspondencia</em> +barata; +Gualdino Gomes anda ahi amparando o seu rheumatismo a uma certa +<em>maneira</em> de má +lingua e a uma bengala de canna; Leopoldino Gonçalves viaja +como medico da +armada; e Fortunato, quando as saudades lhe são mais +amargas, abandona +o Alemtejo, onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e +apparece +ás vezes nedio, côr de fiambre, cheio de barbas, a +olhar com tedio os +copinhos de cognac do <em>Leão</em>... <br /> + +<br /> + +De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias côr de rosa, +o que me traz mais doces recordações é +Trindade +Coelho,―porque eu ligara á minha a alma d'elle, n'um tempo +em que dos salgueiraes de Coimbra elle me fazia para uma folha alegre +de que eu era director, umas chronicas soberbas, vivas, rendilhadas, +cheias de colorido e de +affirmações de uma personalidade litteraria. A +sua prosa, a um tempo humana e lyrica, dava-me a impressão +de um romantismo degenerado... De +Coimbra, como sabem, além de bachareis anonymos, tem-nos +vindo a <em>elite</em> +das letras. É da tradição +universitaria, fazerem os doutores as +suas primeiras armas de litteratos e de poetas, na academia, a +intervallos do pesado estudo do Lobão e do direito publico, +esvurmado ás +cavalleiras do nariz de Pedro Penedo... Toda a nossa legião +distinctissima de poetas +e prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia +coimbrã:―Theophilo, Eça, Junqueiro, +João de Deus, Anthero, etc. É a +affirmação do bom Antonio Ferreira feita axioma: <br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Não +fazem mal as +musas aos doutoures</em>. <br /> + +</div> + +<br /> + +E não fazem. Tem-se visto. Vão lá +inquerir a Junqueiro das bellezas do Codigo Civil, meio +metaphysicamente original e meio copiado dos codigos +de Napoleão! Ah, mas em compensação +que appareça ahi o primeiro advogado a escrever a <em>Morte +de +D. João</em> e a <em>Musa em ferias</em>! +<br /> + +<br /> + +Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, +descripções n'uma bella prosa colorida e +transparente, trechos de psychologia +trasmontana, e um ou outro caso humano superiormente observado. +Sobretudo a +<em>maneira</em> do proceder litterario d'este escriptor +é +deliciosa de +côr +<span class="pagenum">[XXVI]</span> +e de verdade, sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem +deslumbramentos de imagens +na apparencia côr de oiro, que, em regra, não +fascinam senão os saloios ingenuos dos cordões de +latão... Tem-se chegado +ahi, no abuso da originalidade do estylo, a fazer uma prosa +estrelicada, engommada, cabellinho á banda, com risca, como +os caixeiros de modas ao +domingo! O burguez já conhece os processos da <em>chinoiserie</em>, +e d'ahi +não ha espantal-o com nephelibatismos doentios, de +importação barata; bem sabe elle que debaixo +d'essas bellezas está a oleographia reles +de porta de escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do +frade que enxota +a mosca do nariz,―muito de apreciar nos covis da municipal em +Alcantara... <br /> + +<br /> + +O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho, +feito com honestidade e sem as preoccupações +deploraveis que levam os corypheus da escola modernissima, mais que +zolaista, á +descripção e estudo de pathologias e casos +sporadicos, ou não vivos, ou +pouco vívidos. Este livro á quasi um parenthesis +aberto +como uma clareira consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos +trabalhos apparecidos, do <em>sujet</em> de um dos quaes, +que é em +todo o +caso a monographia de um caracter, assombrosamente executada, o <em>Gil +Blas</em> dizia,―<em>qu'on ne peut lui serrer la main que +par +derrière</em>... <br /> + +<br /> + +A feição litteraria de Trindade Coelho parece-me +que se define na parte do livro sub-titulada <em>Balladas</em>. +Os <em>Arrulhos</em>, +principalmente, +são uma duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e +Daudet. É +uma elegia... tragica, <em>encadrée</em> n'uma +linguagem +côr +de opala, em que a gente parece estar vendo Hoffman braço +dado a... +João de Deus! É uma obra prima. Assim a <em>Tragedia +rustica</em> e a <em>Mãe</em>. Dos +<em>contos</em> destaco eu os <em>Preludios de festa</em>, +<em>Idylio +rustico</em>, +os +<em>Typos da terra</em>, onde +ha paginas soberbamente observadas, suggestivas, <em>d'après +nature</em>. Magnifico o assasino <em>José Gaio</em>. +<br /> + +<br /> + +Trindade Coelho é inquestionavelmente um lyrico. E nem eu +sei como elle chegou até aqui sem trazer na mala um volume +de +versos―<em>Florinhas de Luar</em>, por exemplo! +Devemos-lhe o grande favor de +não +conhecer os diccionarios de rimas, senão a estas horas era +uma vez um +contista encantador... sossobrado!―<em>Ignacio da Silva</em>.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Nova Alvorada</span>:―«<em>Meu +caro Trindade Coelho</em>.―Sabe +você, amigo Trindade, que as palavras affectuosas que me +endereçou no +offerecimento do seu livro <em>Os meus amores</em>, +vislumbraram no meu +espirito um mundo de saudosas recordações, como +se foram fugazes +emanações balsamicas d'uma quadra primaveril que +não volta mais―a vida +coimbrã? <br /> + +<br /> + +Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco +baixa mas robusta, as <em>suas feições +masculas e +energicas</em>, e a sua <em>allure</em> um pouco +receiosa ao dobrar a soleira da +legendaria Porta Ferrea. <br /> + +<br /> + +Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de +grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando á +direita e á esquerda, +<span class="pagenum">[XXVII]</span> +entrou você nos <em>Geraes</em> +resignado a um diluvio de +troças, martyrios, horrores... <br /> + +<br /> + +Os segundannistas, de cuja respeitavel corporação +eu fazia orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez +porque +lhe não encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a +d'um Armelim, nem +um rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom +Raphael +do Ranhados. <br /> + +<br /> + +Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados! <br /> + +<br /> + +Em uma medalha d'oiro que você trazia, á guiza de +berloque, na corrente! <br /> + +<br /> + +O amigo arrancou pressuroso a <em>pedra de escandalo</em>, +de forma que a +tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato. <br /> + +<br /> + +Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com +accentuações de academico fallado, o seu nome a +salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua +individualidade a destacar-se, como se fôra um <em>urso</em>. +E +assim se fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feijó +por causa +dos versos, do Passaro pela fina chalaça, do Saraiva pela +força, do Miguel Baptista―pobre amigo!―pelo talento e +pelas +abstracções, do Banalidades pela gralhadora +loquacidade, e tutti-quanti. <br /> + +<br /> + +Você desencubou o seu nome, pol-o em evidencia―o Trindade―, +mas foi por causa d'um excellente resumo das +lições de +direito romano, d'um bello discurso no centenario pombalino, e +sobretudo das suas graciosas chronicas no <em>Diario Illustrado</em>. +<br /> + +<br /> + +Ah! e lembra-se você d'aquelle anno em que +formámos «republica» na rua da Trindade, +tendo por creada a sr.<sup>a</sup> Maria de qualquer coisa, +que denominavamos a +<em>Gorda</em>, matrona muito caroavel e de enxundiosas +formas? <br /> + +<br /> + +Eramos uns poucos: <br /> + +<br /> + +O Souza, que já tem o galão branco dos tribunaes +administrativos, espirito facil, perspicaz e alegre, nada para +massadas, que tinha orientações definidas em +politica partidaria e +expedientes reservados de galopim graúdo contra os +progressistas da Barca. <br /> + +<br /> + +O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o +evangelho do <em>Correio da Noite</em>, sempre em +questiunculas com aquelle +por causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e +jogador +de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente +dos theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada +pela <em>Gorda</em> n'um cantinho do fogão. <br /> + +<br /> + +E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe +chamavamos o Pêgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario +plano, rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? +Muito desconfiado e estudioso, só não encavacava +quando +lhe diziamos que elle se applicava... 25 horas por dia! <br /> + +<br /> + +Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto <em>sournois</em>, +olhos +á bufo, +<span class="pagenum">[XXVIII]</span> +que não fallava ainda que o esmurrassem, +pobre caloiro +silencioso e contumaz! <br /> + +<br /> + +Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje +conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem +feições lavradas, muito guitarrista e risonho, se +bem que intelligente e applicado. <br /> + +<br /> + +Eramos mais―você e eu. Você que se mettia muito +com a litteratura, fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; +e eu, que por +signal dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas +de feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo +condescendia em o acompanhar na guitarra. <br /> + +<br /> + +Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais +tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribanaes +de Lisboa e eu no berço da monarchia. <br /> + +<br /> + +Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus +bellos contos em um elefante volume―<em>Os meus amores</em>. +<br /> + +<br /> + +E bellos na verdade, como todos dizem. <br /> + +<br /> + +A <em>Mãe</em>, aquella cruciante tragedia da +pobre <em>Russa</em>, +morta +de terror e de amor, é para mim o mais apreciavel e sentido +conto da sua +collecção. <br /> + +<br /> + +Costuma-se dizer d'uma mãe descaroavel, d'uma Francisca +Fortunata―é uma cabra!―; mas o amigo teve artes de +desmentir o erro grosseiro, +vingando as calumniadas affeições dos pobres +ruminantes. <br /> + +<br /> + +Quem ler as angustias da misera <em>Russa</em>, na +espectactiva do filhito +devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituirá +áquelle inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a +natural +comprehensão das suas obrigações de +mãe e +protectora. <br /> + +<br /> + +E os <em>Arrulhos</em>? Se me não engano +você escreveu +esse conto em Coimbra. Creio até que um dia, estando a +jantar, o amigo recebeu um +jornal qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella +producção vinha traduzida no idioma de Cervantes +com o titulo de <em>Palomas</em>. <br /> + +<br /> + +Nos restantes contos, entre os quaes me não agradaram menos +<em>Vae Victoribus</em>, o <em>Abyssus abyssum</em> +e o <em>Sultão</em>, +revela +o +amigo a força da sua educada phantasia, moderada por um +largo peculio de +observação; a sua poderosa +intuição artistica; o seu dialogo +curto, vibrante e natural; o seu estylo já caracteristico +pela +feição franca, <em>saccadèe</em>, +de dizer e +narrar; a propriedade das locuções; o +bom emprego dos termos; a verdade das suas +descripções e pinturas, que, +ao contrario de muitos, não repete, tinta para aqui, tinta +para acolá e +vice-versa, n'uma pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos +virados ou coisa similhante. <br /> + +<br /> + +Olhe, amigo. Eu careço de geito para a critica litteraria; +mas, emquanto me é licito exprimir a minha humilima +opinião, +dir-lhe-hei que você alarga cada vez mais e com mais rapidez +a sua +reputação de litterato distincto e de contista +precioso; e que este conceito é +merecido, attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua +elegante brochura recem-editada. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XXIX]</span> +Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a +sua fineza com um abraço de―Velho amigo―<em>Eduardo +Carvalho</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Nova Alvorada</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Acabamos +de ser +distinguidos com a offerenda do novo livro de Trindade Coelho,―o +sympathico e distincto escriptor que de ha tempos se vae honrosamente +evidenciando no certamen +das lettras patrias, onde já agora a sua individualidade tem +uma reputação firmada. <br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> é o titulo que o sr. +Trindade Coelho +escolheu para o seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama, +segundo cremos, não é porque estas 200 paginas +sejam um +auto-historiographico dos idylios romanescos do auctor, n'quella aurea +quadra da sua vida academica, ou um repositorio de alheias aventuras +amorosas com acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario. <br /> + +<br /> + +Não. A razão do titulo parece-nos antes proceder +da affectividade psychologica do auctor para com a sua obra, e +induzimos isto do soneto com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja +primeira quadra diz: <br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"><em>Folhas dispersas dos meus +annos de oiro,<br /> + +Vivo enxame das minhas +alvoradas,<br /> + +Tenho zelos de vós, folhas sagradas,<br /> + +As +Desdemonas sois de um outro moiro</em>. </div> + +<br /> + +Se não fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade +do aphorismo―o habito não faz o monge―, porque o <em>Idylio +rustico</em>, com que abre esta bella +collecção de +contos, +não seria bastante para justificar o titulo sob que se +enfeixam. <br /> + +<br /> + +Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e +a tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se +que se ha na urdidura dos varios contos muitas +situações que nos pintam o ridiculo, a +desgraça ou o crime, poucas ha, entretanto, que +nos prendam o espirito ao devaneio piégas d'um Romeu e d'uma +Julieta. <br /> + +<br /> + +Mas, ou bem ou mal baptisado, o que é consoladoramente +verdadeiro é que os contos do sr. Trindade Coelho constituem +uma das mais bellas collecções que no genero +conhecemos. <br /> + +<br /> + +Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores +preceitos da arte. <br /> + +<br /> + +Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à +naturalidade das situações e dos dialogos. <br /> + +<br /> + +Uns assumptos de felicissíma escolha, a reproduzirem +fielmente costumes, a pôr em jogo com a maior verdade os +vicios e as virtudes do +povo. <br /> + +<br /> + +Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade +Coelho são a fiel expressão da vida rustica do +nosso povo, e facil é de comprehender a importancia moral +que estes livros terão +quando as gerações +<span class="pagenum">[XXX]</span> +que nos succedam queiram +inventariar nas +suas tradições o modo de viver, de sentir e de +pensar das populações +sertanejas, n'este periodo historico em que vamos. <br /> + +<br /> + +Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside +como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma +verdade inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a +toda a prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na +narração e nos personagens. <br /> + +<br /> + +E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de François +Copée e Theodore de Bauville, a artistica +encenação que, +sem desvirtuar-lhe a naturalidade da fórma e do fundo, lhes +imprime o attractivo +romanesco que falla à imaginação do +leitor. <br /> + +<br /> + +O <em>Idylio rustico</em>, com que o livro abre, +é de uma suavidade +deliciosa, e de uma naturalidade tão justa quanto +encantadora. <br /> + +<br /> + +A <em>Ultima dadiva</em> é a +expressão fiel de muitas +scenas que a emigração multiplica cruelmente +pelas nossas provincias do norte. <br /> + +<br /> + +A acção d'este conto é conduzida com +uma tal uncção de sentimentalidade, que nenhum +leitor, por mais rebelde que seja a +commoções, se poderá esquivar a +partilhal-a. <br /> + +<br /> + +O conto―<em>Typos da terra</em> é a +descripção fiel, fidelissima, da mesquinha +intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de +provincia. <br /> + +<br /> + +<em>Os Preludios de festa</em> são de um comico +admiravel; +<em>Maricas</em> é de um sentimentalismo +commovente; <em>Vae +Victoribus</em> de uma moralidade edificante; <em>Arrulhos</em>, +<em>Mãe</em>, +<em>Tragedia Rustica</em>, tudo, +tudo n'este livro é bom, e de util e agradabilissima +leitura. <br /> + +<br /> + +A forma―já o dissemos―é correctamente vernacula +e elegantemente rendilhada. <br /> + +<br /> + +A titulo de amostra, para aqui trasladámos do +conto―<em>Sultão</em>―este +bello <em>croquis</em> de uma tarde de +agosto: <br /> + +<br /> + +«Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as +arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda +o poente as suaves e brandas pulverisações +doiradas da ultima +luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro +levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e +meigo, raiado de listrões de uma +coloração leve de +laranja. <br /> + +<br /> + +Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, +cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do +azul.» <br /> + +<br /> + +E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra á altura da boa +reputação do auctor. <br /> + +<br /> + +A redacção da <em>Nova Alvorada</em> +congratula-se com o +seu illustre collega por tão brilhante +producção, e d'aqui +lhe envia um cordealissimo aperto de mão.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XXXI]</span> +<span class="smallcaps">A Independencia</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Acabamos +de ler o +primoroso livro de Trindade Coelho, <em>Os meus amores</em>. +Sem largas +aspirações, modestamente, apenas com a +consciencia tranquilla de quem escreve bem e +com criterio,―Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume, +que acaba de dar á estampa, algumas +producções litterarias que a sua vida de +jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de revistas e +diarios. <br /> + +<br /> + +Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e +homogeneo o que se nos offerece para apreciar: são pequenas +joias litterarias, +buriladas por mão de artista e d'um fino sabor de +naturalismo. <br /> + +<br /> + +Considerado assim, sem dependencia de escola e +confrontação de originaes, o livro é +bom. <br /> + +<br /> + +As suas descripções são perfeitas, +correctas, desenhadas por quem se acostumou, desde creança, +a ler muita e a adivinhar mais na +biblia riquissima e inexhaurivel da Natureza. <br /> + +<br /> + +Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as +tintas proprias, e os diversos personagens que nos vão +passando sob os olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos +outros, +deixam-nos uma impressão agradavel de realismo, e alta +comprehensão. São typos exactos, sem os grandes +enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que +enjoam. Antonio Fagote é um especimen do juiz de festa das +nossas aldeias, basofão e vingativo, prompto, +olá! a +gastar as ultimas moedas da venda do ultimo gado e a deixar fulo e +arreliado o seu antecessor; e +a deliciosa ballada <em>Mãe</em> é +uma preciosidade +litteraria, magnificamente pensada escripta, digna da penna dos nossos +primeiros escriptores. <br /> + +<br /> + +Não encomíamos, pois, o valor do livro, dizendo +que elle é digno de figurar ao pé das mais bellas +producções dos nossos escriptores mais +consagrados.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Correio de Portalegre</span>:―«<em>Os +meus amores</em>, +contos e balladas +por Trindade Coelho. <br /> + +<br /> + +Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois +não? <br /> + +<br /> + +Eu creio bem isso, porque a verdade é que apezar da celeuma +que Trindade Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento +algumas antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os +senhores jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. É +por isso +que escolhemos para encetar esta secção a +producção brilhante do distincto litterato, +editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor +escrupulosissimo. <br /> + +<br /> + +Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a +attenção do nosso cerebro, á +contemplação da nossa alma; e essa leitura, feita +n'umas horas que um encanto enorme fez parecer tão +breves, deu-me d'<em>Os meus amores</em> a agradabilissima +impressão d'uma +caricia, que persiste a sorrir consoladora. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XXXII]</span> +Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do <em>Commercio</em> +e +da <em>Gazeta</em>, tem, como viram, o poder invejavel de +dar á +ideia,―algumas vezes injusta, dirão alguns,―a mais +correcta +fórma, iriada sempre da limpidez mais viva; e isso, n'um +trabalho feito agora para apparecer amanhã, à +pressa sempre, n'uma fugida aos +calhamaços manuscriptos que demandam a sua +attenção de magistrado, e em que o +periodo mais suggestivo é o do <em>Anno do Nascimento +de Nosso +Senhor Jesus +Christo</em>. <br /> + +<br /> + +É-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do +auctor desbasta, romodela, lima, muito tranquillamente, muito +socegadamente, sob a vigilante direcção do seu +delicado gosto +artistico. <br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> teem poesia, e teem verdade; e na +maioria dos seus +differentes quadros, adoravel descripção das +scenas simples da vida do campo, da natureza singellamente formosa, o +sentimento vibra intensissimo, e é encantadora a phrase, que +um conhecimento +profundo dictou, de que uma subtil observação +resáe. Ha alli retratos d'um brilho sem limite, <em>typos</em> +que +resumem um estudo fidelissimo. <br /> + +<br /> + +É um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa +embaraçadissimo, se queremos escolher +alguma,―tão valiosas são +todas. <br /> + +<br /> + +Todavia,―e isto é uma modesta opinião +perfeitamente pessoal,―<em>Vae victoribus</em>, de +tão grandiosa +ideia, e de tão +elevado estylo, <em>Para a escola</em>, tão +grata, a evocar uma +saudosa +recordação dos bons tempos de creança, +e os admiraveis contos de fina graça e +tão verdadeiros, <em>Preludios de festa</em> e <em>Typos +da +terra</em>, +são os meus +eleitos, depois d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre +tantos quadros da perfeição mais rara, e onde a +<em>Maricas</em> e +<em>Arrulhos</em> captivam tambem a minha +admiração. <br /> + +<br /> + +O livro é, como todos os sahidos na +<em>Collecção Antonio Maria Pereira</em>, +esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em +percalina. <br /> + +<br /> + +N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'<em>Os +meus +amores</em> receber o preito da nossa homenagem, prestada +tão +agradavel como sinceramente.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">O Nordeste</span>:―«Editado +pela casa Antonio Maria Pereira, de +Lisboa, em volume d'impressão nitidíssima, +escrupulosa, foi +recentemente publicado o primeiro livro de Trindade Coelho―<em>Os +meus +amores</em>, que vieram +pôr em relevo as complexas e brilhantissimas qualidades +litterarias do auctor, +um <em>novo</em> que já hoje occupa, por +direitos justamente +adquiridos, um logar proeminente entre os nossos melhores escriptores. <br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> teem obtido na imprensa do paiz uma +acolhida +enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso +conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos +leitores do <em>Nordeste</em> não dessemos +conta da +apparição d'esse livro, juntando ao +côro unisono d'applausos as nossas sinceras +saudações. <br /> + +<br /> + +Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses +contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro +<span class="pagenum">[XXXIII]</span> +primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a +espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas +historias aldeãs, d'uma simplicidade campesina, repassadas +por vezes d'um sentimentalismo suave, lyrico... <br /> + +<br /> + +A nós, que temos por Trindade Coelho uma +vivíssima sympathia, um affecto antigo e vehemente, seguindo +com interesse quaesquer particularidades +da sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem +glorificado o seu nome e com a sua merecida +reputação de magistrado intelligente e +trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do +procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lêr o +seu livro, e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o +correio nol-o trouxe. E, agradabilíssima coincidencia! +succedeu-nos +deparar com o conto <em>Para a escola</em>, quadro +tocantissimo que marca +distinctamente os dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a +altura em que entra +na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial, +de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com +as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de +continuo evidenciará as suas superiores qualidades de +talento e caracter diamantino. <br /> + +<br /> + +Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio, +deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto―sem pejo o +confessâmos...―de lagrimas espontaneas nos marejarem os +olhos, tão enternecedoras são essas paginas que +evocam em +nós as reminiscencias queridas d'um passado que +não volta, e no espirito nos +reproduzem, com uma precisão photographica, completa, scenas +eguaes da nossa +infancia, como de certo acontecerá a todos quantos lograrem +a +felicidade de lêl-as e sentil-as... <br /> + +<br /> + +Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente, +que <em>devorámos</em> o livro, onde o auctor, +n'um esbanjamento +prodigo de verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras +narrativas, descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e +rhythmica, apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em +flagrante, +<em>d'après nature</em>, com uma extraordinaria +lucidez +d'observação, e um outro <em>caso</em> +humano trasladado +para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente artista, e que +são uma eloquente +affirmação da distincta personalidade de Trindade +Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados cultores da +prosa portugueza. <br /> + +<br /> + +Não querendo, e não nos sobejando +espaço para tanto, ampliar esta breve noticia a uma critica +a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar +todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as +impressões que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso +caloroso para todo o livro, sem predilecções por +este ou por +aquelle conto; e d'aqui, d'esta columna de modesto jornal de provincia, +enviamos ao nosso queridissimo Trindade Coelho, n'uma +effusão d'acrisolada +estima, com um aperto de mão, as +felicitações que +merece, fazendo votos para que não +<span class="pagenum">[XXXIV]</span> +deixe de ser um cultor +assiduo da litteratura nacional, e continue a honrar o seu nome, +já laureado, com a +publicação de novos e bons +livros.―<em>José Pessanha</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Da Revista do Minho</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Poucos +livros +terão vindo á luz da publicidade ultimamente em +Portugal tão esplendidos +como aquelle cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as +suas paginas +se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e +estimavel debaixo de todos os pontos de vista. <br /> + +<br /> + +Este volume pertence á formosissima +collecção Antonio Maria Pereira, e é +devido á brilhantissima penna de um dos nossos mais +festejados escriptores―Trindade Coelho. <br /> + +<br /> + +Não precisâmos alongar-nos em chamar a +attenção do publico para esta obra, pois +é ella sobejamente já bem conhecida +dos amadores de bons livros.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Revista Illustrada</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Ha +tempo,―não ha muito,―começou um jornal de +Lisboa a publicar, de quando em +quando, umas cartas de provincia,―<em>Cartas alemtejanas</em>, +nos +parece,―assignadas pelo nome, então desconhecido, de +Trindade Coelho. Lida por +nós a primeira, nunca mais nos descuidámos de +procurar as outras, +e foi com verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até +deixarem +de apparecer de todo. <br /> + +<br /> + +Essas cartas eram a revelação de um formoso +talento; eram a alvorada jubilosa e cantante de um bom escriptor. +Trindade Coelho entrava nas lettras portuguezas pela porta aurea dos +victoriosos, apresentando natural e simplesmente a sua individualidade, +como a fundira n'uma +só peça o seu talento alliado com a sua +observação e o seu estudo, sem esgrimir com os +que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que +avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem +charamellas de apaniguados e sequazes. <br /> + +<br /> + +Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas; +escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli á +mão, das scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do +sentimento que a sua +alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um +ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar á +solidão do seu eremiterio, sempre com acerto, propenso ao +louvor, despido de invejas. Era um talento e era um caracter. <br /> + +<br /> + +Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que +deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua +formatura. Bom signal. O estudioso sério sabia reprimir as +impaciencias do amor proprio, sacrificando ás altas +occupações do seu curso os brilhos attrahentes da +facil nomeada. O escriptor experimentara +já o pulso; agora conhecia a sua força e sabia e +podia esperar. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XXXV]</span> +Eis que nos apparece um dia, subito, no fôro, honrando e +glorificando n'um processo de rehabilitação a sua +toga de +magistrado. O caso deu-lhe celebridade, e ensejo para ser recordado o +nome de homem de lettras, +que elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros +trabalhos. <br /> + +<br /> + +Alguns mezes de collaboração diaria, n'um jornal +bem lançado e bem redigido, avigoraram no conceito publico o +renome conquistado, e Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da +paiz, o logar a que tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem +contestar. <br /> + +<br /> + +Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos +apresentação mais prometedora e mais sympathica. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<em>Os meus amores</em> são uma +collecção de +esbocetos, alguns dos quaes, como o <em>Idylio rustico</em>, +<em>Ultima dadiva</em>, +<em>Vae victoribus</em>!, <em>Abyssus abyssum</em>, +chegam a +ter a +perfeição, o acabamento +de verdadeiros quadros. Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o +auctor os trabalhou, solicito na sua obra, no empenho de uma +execução +immaculada. Não porque se conheça o +esforço; mas sim porque se sabe que +sem elle era impossivel conseguir tão completo effeito, +tão seguro +resultado. <br /> + +<br /> + +O estylo do prosador é, quasi sempre, firme, opulento, +erudito, original e variado. Não tem reminiscencias d'este +ou d'aquelle, e +realisa uma das condições essenciaes que deve ter +em mira todo o +escriptor consciencioso: conservar uma feição +propria e +individual, sem se afastar da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo +o retrocesso archaico, e contribuindo para a +evolução progressiva d'ella. <br /> + +<br /> + +Trindade Coelho, por uma intuição que nos +não cançaremos de louvar, em vez de se cingir a +modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria facil assimilar, em +vez de decorar mestres e de compulsar estylistas, procurou modo de +illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na fonte natural de +todas as inspirações. Penetrou, +para isso, nas camadas mais primitivas do povo campezino, enriquecendo +n'esse manancial o thesouro das locuções, e +trazendo de +lá, simultaneamente, scenas e quadros do um sentimento +encantador, e de uma singeleza nativa e adoravel. <br /> + +<br /> + +É de indiscutível belleza a pastoral com que abre +o volume. Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A +descripção da madrugada na aldeia, o encontro dos +dois pastores, Gonçalo e +Rosaria,―Daphnis e Chloe,―teem um sabor antigo, como o de uma +narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo +tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias. +É de um bom gosto supremo a fórma subtilmente +delicada como o narrador, +deixando primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma +brutalidade instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da +candura a +uma situação divinamente sublime. <br /> + +<br /> + +E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce +e prolongada abstracção, seguindo com os olhos do +espirito aquelles dois +<span class="pagenum">[XXXVI]</span> +vultos de creança a esfumarem-se nas +distancias do +espaço e do tempo, longe, muito longe, n'uma paizagem ideal, +vista nos dias da infancia, vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio +ou Theocrito, talvez mais longe ainda, na Biblia...―seguindo, com os +olhos da alma, em esquecida +contemplação, longe, muito longe, <br /> + +<br /> + +«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, +voando, voando.» <br /> + +<br /> + +Em <em>Vae victoribus</em>!, outro quadro de mestre, ha +como que um mixto do +tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christão. +Não é vulgar a concepção do +assumpto, nem vulgar, tambem, o +desenvolvimento que o escriptor lhe deu, o scenario é +horrivel e magnifico. +Está bem descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro +se annuncia, depois +se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma +convulsão pavorosa e enorme; bem descripto o terror +angustioso e suppliciante do misero assassino, o qual vê, na +chamma de cada relampago, +projectada a cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende +os +pés ao chão, emquanto o seu ouvido, allucinado +pelo terror, lhe +dá a sensação de uma voz insistente, +que detraz de cada arvore, da espessura de cada moita, de cima de cada +pedra, da resonancia de cada trovão, +o chama inexoravelmente pelo nome:―Ó José Gaio! +Ó José Gaio! Ó José Gaio! <br /> + +<br /> + +Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho +fóros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe +não engeitaria o assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria +com muita maior +perfeição. Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas +tão engenhosas como +as da <em>Genese de um Poema</em>, para alguma +composição +tão extraordinaria e tão transcendentalmente +bella como <em>O corvo</em> ou <em>Ulalume</em>. +<br /> + +<br /> + +Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se +quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade +das suas aptidões litterarias, o prosador que recortou nos +mais +perfeitos moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras, +detem-se na commovente e lacrimosa narrativa da <em>Ultima dadiva</em> +e nas +ligeiras e facetas descripções dos <em>Typos da +terra</em>, dos +<em>Preludios de festa</em>, do <em>Sultão</em>, +onde transparecem dotes +de +observação sarcastica, de ironia graciosa e de +bem humorado espirito. <br /> + +<br /> + +Um livro de tantas promessas não póde ser, +comtudo, e por isso mesmo, um livro definitivo. Trindade Coelho +experimenta apenas a mão +para se abalançar a empreza maior, estamos certos d'isso. +Já no final do presente volume, em nota do editor a um +trecho intitulado: <em>Batalhas domesticas</em>, se annuncia a +transição da presente +phase litteraria e artistica do auctor, para uma outra phase +progressiva. <br /> + +<br /> + +Progressiva, dizemos nós, porque assim o crêmos. +Qual ha-de ser, porém, a predominante caracteristica d'essa +phase? Póde a critica +conjectural-a +<span class="pagenum">[XXXVII]</span> +desde já? Talvez o pudesse; mas seria +arriscado fazel-o. +Porque, a verdade é que o seu talento tem recursos com que +lhe +é dado contar, que o seu temperamento litterario tem +energias que lhe hão de +abrir novos caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha +já +precedentes, que enormemente o obrigam. <br /> + +<br /> + +Temos confiança em que a sua prosa, já segura e +elegante, despir-se-ha ainda de um ou outro francezismo escusado, e +ha-de adquirir novos dotes +de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe +onde procural-os. Não é em lexicons, nem em +alfarrabios, nem em cartapacios. É na escola, aberta sempre +a todos os investigadores, onde +aprenderam a falar o portuguez do povo, os seus typos populares. <br /> + +<br /> + +Não se póde ser bom prosador, sem se ter o +sentimento profundo do som, da melodia. Uma das maneiras de adquirir +pericia n'esta +fórma de escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer +bons versos +é um exercicio util para chegar a fazer boa prosa. +Não +é, porem, indispensavel, bem entendido. <br /> + +<br /> + +Contudo, não admittimos que repute possuir as qualidades +completas de escriptor, aquelle que só d'uma das duas +fórmas +da arte de escrever seja conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da +prosa, são os +que praticaram largamente no manejo da +metrificação e +da rima. <br /> + +<br /> + +Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza +artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase +e maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso, +embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe +vale a pena empregar todos os esforços para attingir uma +perfeição, que não está +longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade +continuamente o approximam.―<em>Fernandes Costa</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Aurora do Lima</span>:―«<em>Os +meus amores</em>, contos +e balladas, por +Trindade Coelho. Quando prometti á <em>Aurora do Lima</em> +esta +ligeira +noticia bibliographica ácerca do livro do brilhante +escriptor e meu +querido amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença +me +obrigasse a retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me +encontrar entre os ultimos da ultima fila, nas +saudações +enthusiasticas á obra e ao seu auctor. <br /> + +<br /> + +Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se +começou a fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria, +cruel, desoladora. Os +que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida―e estes +constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as +obras consoladoras, de cuja leitura fica uma +sensação +delicada, uma recordação docemente suave. Assim, +Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola, apezar do enorme +<em>réclame</em> que antecede sempre a obra do +velho mestre da escola realista. <br /> + +<br /> + +Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras +consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, +que prende pela emoção intima, que interessa pela +simplicidade elegante com +<span class="pagenum">[XXXVIII]</span> +que está trabalhado, que +impressiona pela +correcção impecavel do seu estylo, malleavel e +harmonico. <br /> + +<br /> + +Abre-se o livro e depara-se com o <em>Idylio rustico</em>, +que é +uma soberba tella, amoravelmente tratada, denunciando logo +ás primeiras +linhas um alto valor artistico, na verdade rigorosa da +observação, na delicadeza suave do colorido, na +simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores. +<br /> + +<br /> + +Segue-se-lhe o <em>Sultão</em>; +e em boa verdade direi que me +parece ser este um dos contos mais formosos do volume, em que pese +ás +opiniões contrarias e até ao proprio auctor, que +não perde +occasião de o depreciar. <br /> + +<br /> + +Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A +descripção da eira, do labutar alegre, da +paizagem e dos personagens d'este +pequeno quadro, são um primor notabilissimo de +execução artistica, de rigorosa e completa +observação. <br /> + +<br /> + +<em>Ultima dadiva</em>, um episodio commovente, completa a +primeira parte do +livro, a que se segue a <em>Comedia da provincia</em>, +onde ha preciosos +estudos da vida provinciana; as <em>Balladas</em>, onde se +depara com o +formoso conto <em>Para a escola</em>, de um alto valor +litterario; <em>Arrulhos</em>, +uma esplendida phantasia, etc. <br /> + +<br /> + +Eis uma ligeira noticia do volume de contos <em>Os meus amores</em>, +que +tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia +do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que +lhe foram dispensados. <br /> + +<br /> + +Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a +crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do +paiz, especialmente no <em>Portugal</em>, onde escreve +como o pseudonymo de +<em>Ch. A. Verde</em>, e na <em>Revista Illustrada</em>, +do editor Antonio Maria +Pereira. +É um infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais +frivolo +assumpto um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o +espirito do leitor.―<em>Luiz Trigueiros</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Os Gatos</span>:―«Vem +a proposito de historias, fallar, bem sei que +tarde, dos <em>Meus amores</em> de Trindade Coelho, como +do moderno livro +portuguez que mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em +polyedros de multiplices aptidões. Os contos dos <em>Meus +amores</em> +são pela maior parte uma bagagem de vida academica, +assimilativa (Trindade Coelho, muito novo, findou ha quatro ou cinco +annos o curso juridico) e como tal +sahem da penna do escriptor ainda sem uma +crystallisação homogenea de fórma e de +processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o +ascenso d'um espirito buscando a perfeição com +escrupulos d'eleito; de +sorte que o volume até como auto-biographia se insinua, elle +precisando as phases, notulas, e predilecções +litterarias do contista, e emfim, +depois de hesitações, emancipando-o n'um dos mais +delicados microscopistas do +coração, das nossas lettras. Como é +provinciano, provinciano d'aldeia, e +natureza contempladora +<span class="pagenum">[XXXIX]</span> +inda por cima, Trindade Coelho captiva-se +principalmente dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana, +tempestades de campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o +não +faça por diletantismo de escriptor avocando de +cór dramas lambidos, +senão por esse estro de visão retrospectiva dos +melancholicos +despaizados em terras hostis, e que protestam contra o egoismo +ambiente, recluinde-se no passado, como n'um sanctuario de mumias +adoradas. É a +tendencia geral dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida +dos humildes, especialmente dos campos, materia prima para seus contos +e poemetos. Em +poucos porém a predilecção se +escóra na sinceridade e conhecimento pratico da vida +rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma autopse sagaz da +natureza psychica e moral do camponez. Grande parte +dos que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os +andrajos n'um scenario de convenção, e com o +fazer fallar +aos bonequinhos mancos que resultam, aravias mais ou menos inventadas +d'um pictoresco sorna, +em cuja trama não ha vislumbres d'alma regional, de caracter +profissional, d'individualismo typico, ou de paixão. Se +alguma vez tiverem +pachorra, mandem vir a collecção dos contistas +rusticos +portuguezes, e riam á larga das fantasias lorpas que +lá virem. Em dialagos +amorosos ha por exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam +ás +namoradas protestos de paixão, em linguagem que seria +preciosa até na +bocca d'um pisa-flôres do Martinho e da Havaneza. Ellas, de +lhes retrucar em phrase equivalente, e de se mecherem em scena com os +ademanes que a <em>Dama das Camelias</em> consagrou na cachimonia dos +auctores, como os mais proprios para mimar o amor que as +enchaquéca. <br /> + +<br /> + +Em paizagens e descripções d'interior, a mesma +ausencia de detalhe certo e de visão propria, que reduzem +esses quadros, a +méras caganifancias d'aguarellistas amadores. De tal maneira +que o grupo de <em>campestres</em> a quem a arte confia a +missão de +leccionar aos desregrados +habitantes das cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de +persuadirem os +seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como +uma banal imitação da Rua do Ouro, e o camponez +como uma +arreglo grotesco do alfacinha. <br /> + +<br /> + +Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da +paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade +Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do +problema, em fórma d'arte, e dos que mais progressivamente +vão crescendo á vista do leitor, que +não mais lhe perderá de vista os +vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus +quadrinhos de genero, colhidos em +prolongadas estações nas duas mais typicas +provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha +assím nos <em>Meus amores</em>, a par +d'algumas benignas composições representativas da +transição critica do rapaz para o homem, e do +debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes, sobrias, +seguras, que não hesito em as apontar como modelos, +e dentro da minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras +<span class="pagenum">[XL]</span> +obras primas. <em>Typos da terra</em> e <em>Preludias +de festa</em>, +por exemplo, +são +duas narrações que mordem fundo a +attenção de quem nas +lê, e que por sua admiravel sobriedade, intuito pictural, e +observação +ridente sobre o vivo, cuido que ficarão modelarmente +apontadas aos collecionadores de +litteratura typica. <br /> + +<br /> + +Qualquer das peças abrange apenas o folego d'uma ou duas +duzias de paginas, deliciosas porém como factura, admiraveis +de +bonhomia, e d'uma saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o +seu auctor. <br /> + +<br /> + +Ahi está effectivamente revelado não +só um talento plastico e bastante rico em cambiantes, como +tambem a pura agua d'um caracter cheio das +mais finas intenções. <em>Typos da terra</em> +é o +quadro satyrico d'uma má lingua d'aldeia, tendo por club a +porta da tenda, por scenario a +praça publica, e por personagens o pessoal burocratico e +elegante da terriola. <em>Preludios de festa</em> +é um estimulo de +festeiros preoccupados +de qual fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons +são leves, os typos rapidos, a +descripção dita a correr, mas no +conjuncto ha um tal equilibrio esthetico, a meia tinta é +tão fluida, +e as intenções ironicas sublinhadas +tão de manso, que se adivinha logo um mestre +miniaturista, Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os +semsaborões que por ahi medram, e certamente fadado a uma +supremacia qualquer no moderno romance portuguez.―<em>Fialho +d'Almeida</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Jornal de Santo Thyrso</span>:―«<em>Os +meus amores</em>.―Foi +penhorante e +commovente para nós a gentilissima offerta que Trindade +Coelho nos fez +do seu adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta +singela +noticia. <br /> + +<br /> + +O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado +quando o brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; +hoje, porém, apparece mais radiantemente no seu precioso +livro, +onde a primorosissima fórma se allia com o mais delicado +criterio +d'artista d'<em>élite</em> e com a fina +observação d'um +talento verdadeiramente superior. <br /> + +<br /> + +O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa +humilde e obscura penna não está―seja este o seu +unico +merito!―habituada a vir entregar ao sagrado lume da imprensa os +elogios sandeus que cada dia se +prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as +ondas d'esse barato incenso. <br /> + +<br /> + +Os nossos leitores melhor ajuisarão, em presença +do trecho que lhes offerecemos como mimo de rara valia.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Diario Illustrado</span>, +(com o retrato do auctor):―«Trindade +Coelho.―N'esta aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras +que ninguem sonha, +ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,―que nem a todos +é dado experimentar, accrescente-se. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XLI]</span> +Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,―na +elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador +prestigio do talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de +adivinhar, logo aos primeiros passos, a revelação +de Alguem, +que vae ser unanimemente admirado. <br /> + +<br /> + +Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na +galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo. <br /> + +<br /> + +Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam; +admirei-o, muito antes d'elle trazer á litteratura patria o +livro <em>Os meus amores</em>, que foi como que a subita +illuminação do seu nome. <br /> + +<br /> + +Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a +sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso +encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o +temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do +estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!... <br /> + +<br /> + +O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de +rapidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de +identificação, vive no livro de Trindade Coelho, +com um singular relevo de verdade, +com um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos +argutos +dedicados a perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do +provinciano e +do camponio, escreve dos <em>Meus amores</em> o nosso +grande critico Fialho +d'Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente +traduzem o seu criterio do problema, em fórma de arte, e dos +que mais +progressivamente vão crescendo á vista do leitor, +que +não mais lhe perderá de vista os vôos +poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus +quadrinhos de genero, colhidos em prolongadas +estações nas duas +mais typicas provincias de Portugal, o Alemtejo e +Traz-os-Montes.» <br /> + +<br /> + +Antes dos <em>Meus amores</em>, Trindade Coelho +começara a affirmar +a sua poderosa, individualidade em uma secção do +<em>Diario Illustrado</em>, <em>Cartas alemtejanas</em>, +chronicas expedidas de +Portalegre, em um arranque de talento, com exuberancia de fantasia, +modos de ver e dizer, flagrantemente modernos, traços de +soberbo humorismo +á Vacherai, velados a espaços de um ligeiro fumo +de melancolia, que lhe avivava +a frisante originalidade. <br /> + +<br /> + +Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio +das suas funcções de delegado, em Portalegre, a +tarefa humanitaria de arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que +injustamente o condemnara. <br /> + +<br /> + +E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos +vôos, fez-se um côro de +bençãos, como que uma apotheose de amor, que +deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da +sua alma effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos, +superiores a todas +as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto. <br /> + +<br /> + +Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o +caracterisam e lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam, +uma dualidade, +verdadeiramente phenomenal. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XLII]</span> +É que, sendo elle um artista, na rigorosa +accepção titular da palavra, namorado do ideal, +amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na extatica +adoração de tudo quanto ella sobredoira +do seu brilho immortal, é ao mesmo tempo um funccionario +exemplar, um delegado do +procurador regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de +tal sorte Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter +e no correcto exercicio da sua profissão, toda a perstigiosa +soberania da Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito, +quando se trata de aquilatar o merito de um auctor: <br /> + +<br /> + +«Ahi está effectivamente revelado não +só um talento plastico e bastante rico, em cambiantes, como +tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais finas +intenções.» <br /> + +<br /> + +Ás vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de +saudade nostalgica ou treme de frio... legal. <br /> + +<br /> + +É então que elle murmura, (perdoa a indiscreta +allusão, meu caro Trindade Coelho?) «Ah! que +apertada gaiola esta, em que vejo +fechado, o meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque é o +meu dever. +Mas como eu ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! +Não faz +idéa, não! Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E +là fóra, e +lá em cima―que amplo céo azul para +voar!» <br /> + +<br /> + +Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda +o esperam, meu illustre amigo?―<em>Guiomar +Torrezão</em>.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Revista de Portugal</span>:―(Excerpto +de um artigo critico ácerca +do <em>Só</em> de Antonio +Nobre).―«Alma doente, o sr. +Antonio Nobre soube +extrahir da sua doença effeitos de Arte singulares e +ás vezes +intensos. Outros attingiram o mesmo objectivo pela +descripção das +emoções naturaes e pelo appello aos instinctos +sãos do coração +humano. Acabo de rêler o livro d'um escriptor tambem novo: +<em>Os meus amores</em> de Trindade Coelho. Com casos da +vida corrente e com +sentimentos que podem ser comprehendidos por qualquer dos seus +leitores, uma despedida, a +affeição de dois pastorinhos perdidos na +solidão do campo, os remorsos de um +homicida junto á cruz da sua victima, o amor materno de uma +cabra que +se deixa morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o +narrador interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha +atravez d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do +suor dos lavradores. Demonstração cabal de que a +Arte +é vasta e a capacidade pessoal decisiva para a belleza das +obras.―<em>Moniz Barreto</em>.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Da Vid'Airada</span>: +«Trindade Coelho.―Uma vez na sua frente, face +a face, olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,―o que não +seria +difficil mesmo no caso de que a medida dos homens se tirasse a +palmos―fixando o olhar +no seu olhar, e não perdendo uma só das suas +palavras na mais simples conversa de algum quarto de hora,―ao +separar-se elle de +nós, porque +<span class="pagenum">[XLIII]</span> +já então a gente +não se atreve a separar-se d'elle, +tem-se adquirido a certeza de que aquillo é o que +é, e chegado +á mais solida convicção de que toda a +verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um +coração de homem, nunca se manifestaram mais +expressivamente, mais insubmissas ao menor proposito do menor disfarce, +do que na sua physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho +intensíssimo do seu olhar muito limpido, muito penetrante, +se expressam toda a sinceridade, toda a verdade do seu grande +coração +e do seu impetuoso temperamento. <br /> + +<br /> + +E ao vel-o partir pela rua fóra, decidido e tezo, resoluto e +rijo, a cabeça alta, assentando com firmeza o pé +pequeno, +despejando caminho que dá gosto vel-o, não +resistem os olhos ao desejo +de acompanhal-o de longe, até que o percam na dobra da +primeira esquina, e a +gente diz ou pensa:―«Demonio!... Com meia duzia assim, +poderia fazer-se +<em>alguma coisa</em> ainda!...» <br /> + +<br /> + +Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas +perversões vão espalhando em redor de si, fazendo +estremecer os honestos quando com elles se cruzam, e tentando para o +mal os fracos quando passam―só a presença de +homens bons e +sãos poderá melhorar este sólo e +purificar esta atmosphera. <br /> + +<br /> + +Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem +da sua vida,―o mundo litterario e o mundo judicial―affigura-se-me +elle, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o +indelevel cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos +documentos +para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este +agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio +Publico contra os altos reus de certas causas celebres,―ora imprimindo +n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da +fórma é posta sempre ao serviço das +emoções +mais dôces e das mais penetrantes, esse outro cunho, d'essa +outra individualidade que n'elle ha, e +tão diversa é, tão original e +tão rara, +tão comtemplativa e tão terna. <br /> + +<br /> + +...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande +coração e do seu impetuoso temperamento! <br /> + +<br /> + +No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas +palavras se não limitam ao cumprimento do dever de officio, +não tardará que á serena +exposição dos primeiros +articulados succeda a expressão calorosa, indomita, sempre +crescente, da +indignação, e da colera, que lhe provocam e +açulam os factos e as razões de +que vae deduzindo a tremenda accusação contra o +réo―...esse réo que alli está, alli! +sentado n'aquelle banco, sentenciado já, e de grilheta aos +pés! Agita-se-lhe a circulação do +sangue, a +respiração accelera-se, a face ruborisa-se, todas +as veias do pescoço e fronte se +distendem, o peito enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A +excitação do cerebro vigorisa-lhe os musculos, +affirma-lhe a energia, parece transportal-o +ao imperio da força, +<span class="pagenum">[XLIV]</span> +n'um arrebatamento em que os dentes +rangem, e as unhas se crispam, punhos cerrados, braços +erguidos, completamente +desordenado a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe +na garganta, quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem +ferir de arripios a espinha dorsal do auditorio... Já +não +é para a justiça dos homens que elle appella; +não lhe bastam, não o +saciam as penas maximas dos Codigos! Quer o castigo do Céo, +quer a +justiça de Deus! <br /> + +<br /> + +...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte +civil, bem peor que a morte natural, um desgraçado que a +cegueira da +justiça humana havia condemnado por assassino e +ladrão―o pobre Manuel +Barradas. Muito commentou a imprensa o facto, espantada de que um +agente do Ministerio Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos +agoniados da sua +vida em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a +collecção desses jornaes, e legou-a em vida ao +filho, ao Henrique, pondo-lhe no principio estas palavras: +«Meu filho, pela lei de Deus, a +vida é só um pretexto para boas obras. Observei +um dia a lei do Senhor, e Elle, em premio da minha obediencia, +concedeu-me o poder legar-te um +pedaço vivo do meu coração. Queres +ouvil-o bater? Ausculta +essas folhas... Bemdito seja Deus! serão ainda minhas as +tuas lagrimas enternecidas, +e, ainda depois de morto, viverei na tua commoção +e na tua +alegria, para a commoção e para a alegria da +minha +obra...» <br /> + +<br /> + +Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste +nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto +austero do magistrado, cedendo o logar á delicada +individualidade do +homem de lettras, o desembaraça da toga e o deixa que +vá, +em mangas de camisa, muito á vontade e á fresca, +pelas tardes serenas +do seu bom humor, a vaguear pelos campos do seu sonho―sonho feito de +saudade, d'essa muito +viva e muito affectuosa ternura que á sua alma de artista +dá, e que a sua prosa tão sentidamente traduz, a +recordação de felizes tempos que não +voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais +esquecem,―recordação a que andam para sempre +ligados, n'uma doce e meiga +associação de ideias, certos logares, certas +pessoas, certas orações, +certa ermidinha e certo olmo, que já lá estavam +quando elle nasceu, que o +embalaram nos primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos; +que ao baptismo o levaram, e o conduziram á escola; +alegrando-se +com as suas alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas... <br /> + +<br /> + +N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da +sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, +vê-se pousar-lhe nos beiços e nas palpebras a +serenidade meiga de +um sorriso, como que o doce agradecimento á alma de sua +mãe, +que tivesse vindo, muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o +leito, aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a +amorosa caricia dos seus beijos... <br /> + +<br /> + +Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade +<span class="pagenum">[XLV]</span> +essas emoções e excitações +violentas, em que a tremura dos musculos e a effusão das +lagrimas realisam o phenomeno das +emoções reaes. <br /> + +<br /> + +Os seus escriptos obedecem sempre á logica influencia d'esta +convicção em que elle está, quando me +diz, bem medindo e pezando cada +uma das suas palavras: <br /> + +<br /> + +―«Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais +nada, que o escriptor preste na sua obra o culto que é +devido +á sua lingua. Depois, deseja que o commovam, que honesta e +consoladoramente o emocionem, preferindo que o assumpto do quadro seja +a +exploração das coisas triviaes da vida, +certamente porque reside no Simples a formula mais natural da +Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lêem +está fatigado d'essa confusão do <em>romance</em> com o +<em>estudo</em>, e +convenci-me, emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro +dever, e como +condição primeira de agrado, de ser consoladora e +suave, tocada sempre de uma pontinha ligeira de poesia que +vá direita ao +coração e entretenha, em quem lê, as +faculdades emotivas, de +preferencia, mesmo, ás faculdades +intellectuaes...» <br /> + +<br /> + +Releio <em>Os meus amores</em>, o livro dos seus contos. +É o +primeiro d'elles, <em>Idylio rustico</em>, de uma +deliciosa simplicidade de +aguarella, parece +que feito sobre um esbatido de céo purissimo, côr +de +sovaco de andorinha e não sei com que singular sabor +eucharistico de primeira +communhão... É um sonho de absynto, que serve de +aperitivo divino para a leitura soffrega de todo o livro. Dois +pastoritos ingenuos, a Rosaria e o Gonçalo, encontram-se e +approximam-se, n'uma indecisa +alvorada de derriço, cheios de boas +tenções e +puros ideaes. Acontece, porém, que por viverem longe, raras +vezes se falam, e quando essa ventura lhes +é dada, imaginem os que como elles se amem a alegria que +inunda aquellas duas almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias +longas, quiz Deus +que os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam +levando +seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como +juntos os corações traziam, e desde que nasce o +sol até que o sol se põe, vagueam nas frescuras +marginaes do rio, a par, e +sós, elle dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com +murmurios d'agua correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz +d'alma idylica de illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe +immenso a separação, o Gonçalo a +convida a +continuarem juntos, deixando que as ovelhas durmam em mistura e que +passem elles a noitada sobre o mesmo colmo, ao abrigo da mesma cabana. +Não sem certa instinctiva +reluctancia, Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro, +tornando as mantas cobertor commum, e pousando as cabeças +nos bornaes +unidos, parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos +desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo, +e os bons dos namorados, n'uma placida +orchestração +final que se smorza, referem-se casos de moiras encantadas, e assim +pegam no somno e adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: +sente a tristeza +da maldade nossa. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[XLVI]</span> +Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fóra, e que +vamos bisando e saboreando a pequeninos gólos, durante +algumas +horas bem fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos +provincianos que elle nos pinta, tão real e verdadeiramente +como se +lá estivessemos; em companhia d'aquelles typos que elle +retrata, tão +photographicos, tão nitidos, que é estar a gente +a vel-os, a ouvil-os, a +falar-lhes, a deitar-lhes o braço pelo hombro... <br /> + +<br /> + +Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao +serviço da moderna arte, o ineffavel goso de tão +estranhas, tão novas, tão encantadoras surprezas! +Quizera eu, inedita, bem fresca, +pela primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante +comparação:―dir-se-ia traçada com uma +penna d'aguia... arrancada d'uma aza de pomba. <br /> + +<br /> + +Os seus livros ficarão pertencendo ao numero d'aquelles que +parecem possuir o raro condão de nunca envelhecerem no +espirito de +quem os lê. Relêr o que elle escreve é +sentir o mesmo prazer, +sempre renovado, de quando se contempla pela centesima vez algum +querido, precioso objecto, +que noventa e nove vezes se contemplara já: privilegio esse +de eterna seducção, que só disfructam +as obras +em que o artista deixou pedaços da sua alma.―<em>Alfredo +Mesquita</em>.» <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Do Poema do Ideal</span>: <br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Os meus amores</em>! +que livro</div> + +<div class="poetry1">Tão fragante e +saboroso!<br /> + +Scentelhas aureas e vivas,<br /> + +D'um prosador luminoso! </div> + +<br /> + +<div class="poetry3">Brisas da serra!</div> + +<div class="poetry2">Trechos idylicos<br /> + +Da nossa terra!» </div> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Fernandes Casta</em>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 146px; height: 70px;" alt="" src="images/fig08.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<pre>End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho<br /><br /><br /><br />*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***<br /><br /><br /><br />***** This file should be named 17503-8.txt or 17503-8.zip *****<br />This and all associated files of various formats will be found in:<br />http://www.gutenberg.org/1/7/5/0/17503/<br /><br /><br /><br />Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited<br />by Rita Farinha (Biblioteca Nacional<br />Digital--http://bnd.bn.pt). (This file was produced from<br />images generously made available by National Library of<br />Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)<br /><br /><br /><br /><br />Updated editions will replace the previous one―the old editions<br />will be renamed.<br /><br /><br /><br />Creating the works from public domain print editions means that no<br />one owns a United States copyright in these works, so the Foundation<br />(and you!) can copy and distribute it in the United States without<br />permission and without paying copyright royalties. Special rules,<br />set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to<br />copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to<br />protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project<br />Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you<br />charge for the eBooks, unless you receive specific permission. 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Contributions to the Project Gutenberg<br />Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent<br />permitted by U.S. federal laws and your state's laws.<br /><br /><br /><br />The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.<br />Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered<br />throughout numerous locations. Its business office is located at<br />809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email<br />business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact<br />information can be found at the Foundation's web site and official<br />page at http://pglaf.org<br /><br /><br /><br />For additional contact information:<br />Dr. Gregory B. Newby<br />Chief Executive and Director<br />gbnewby@pglaf.org<br /><br /><br /><br /><br />Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg<br />Literary Archive Foundation<br /><br /><br /><br />Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide<br />spread public support and donations to carry out its mission of<br />increasing the number of public domain and licensed works that can be<br />freely distributed in machine readable form accessible by the widest<br />array of equipment including outdated equipment. Many small donations<br />($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt<br />status with the IRS.<br /><br /><br /><br />The Foundation is committed to complying with the laws regulating<br />charities and charitable donations in all 50 states of the United<br />States. Compliance requirements are not uniform and it takes a<br />considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up<br />with these requirements. We do not solicit donations in locations<br />where we have not received written confirmation of compliance. To<br />SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any<br />particular state visit http://pglaf.org<br /><br /><br /><br />While we cannot and do not solicit contributions from states where we<br />have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition<br />against accepting unsolicited donations from donors in such states who<br />approach us with offers to donate.<br /><br /><br /><br />International donations are gratefully accepted, but we cannot make<br />any statements concerning tax treatment of donations received from<br />outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.<br /><br /><br /><br />Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation<br />methods and addresses. 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Thus, we do not necessarily<br />keep eBooks in compliance with any particular paper edition.<br /><br /><br /><br /><br />Most people start at our Web site which has the main PG search facility:<br /><br /><br /><br />http://www.gutenberg.org<br /><br /><br /><br />This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,<br />including how to make donations to the Project Gutenberg Literary<br />Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to<br />subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.<br /></pre> + +<br /> + +</div> + +</body> +</html> diff --git a/17503-h/images/fig01.png b/17503-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..1170a6d --- /dev/null +++ b/17503-h/images/fig01.png diff --git a/17503-h/images/fig02.png b/17503-h/images/fig02.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..9949d22 --- /dev/null +++ b/17503-h/images/fig02.png diff --git a/17503-h/images/fig03.png b/17503-h/images/fig03.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..7d670aa --- /dev/null +++ b/17503-h/images/fig03.png diff --git a/17503-h/images/fig04.png b/17503-h/images/fig04.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..7105adc --- /dev/null +++ b/17503-h/images/fig04.png diff --git a/17503-h/images/fig05.png b/17503-h/images/fig05.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..59ad84a --- /dev/null +++ b/17503-h/images/fig05.png diff --git a/17503-h/images/fig06.png b/17503-h/images/fig06.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..101205c --- /dev/null +++ b/17503-h/images/fig06.png diff --git a/17503-h/images/fig07.png b/17503-h/images/fig07.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..53e2335 --- /dev/null +++ b/17503-h/images/fig07.png diff --git a/17503-h/images/fig08.png b/17503-h/images/fig08.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..953119b --- /dev/null +++ b/17503-h/images/fig08.png diff --git a/17503-h/modern/amores.txt b/17503-h/modern/amores.txt new file mode 100644 index 0000000..f4df124 --- /dev/null +++ b/17503-h/modern/amores.txt @@ -0,0 +1,8566 @@ +The Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os meus amores + Contos e baladas + +Author: Trindade Coelho + +Release Date: August 30, 2007 [Formerly #22463, now included with #17503] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of +the original version, already available at Project +Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão +original, já disponível no Project Gutenberg.) + + + + + +OS MEUS AMORES + + +TRINDADE COELHO + + +*OS MEUS AMORES* + +(Contos e Baladas) + +_2.^a edição_ + + +LISBOA + +Livraria de António Maria Pereira + +50, 52--Rua Augusta--52, 54 + +1894 + + + + +_LISBOA_ + +Tipografia e Estereotipia Moderna + +11--_Apóstolos_--11 + + + + +Ao Doutor + +António Xavier Perestrelo + + + + +«_Os Meus Amores_» + + +_Folhas dispersas dos meus anos de ouro, +Vivo enxame das minhas alvoradas, +Tenho zelos de vós, folhas sagradas, +As Desdémonas sois de um outro mouro. + +As brancas horas que eu em sonhos douro, +Essas horas febris, iluminadas, +Ei-las fugindo, em tristes debandadas... +Levais nas asas todo o meu tesouro. + +Folhas: subi, voai ao céu tão alto, +Que o céu em estrelas vos converta e mude, +Lá nas longínquas ilusões que exalto; + +Como as frementes águas de um açude, +Levai a Deus, no derradeiro salto, +O derradeiro adeus da juventude_... + +_Luís Osório_. + + + + +IDÍLIO RÚSTICO + +_A Fialho de Almeida_. + + +Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele, +era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas +conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais +insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas. +Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do +rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de +sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo +companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam +matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma +estúrdia, a desoras... + +Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a +banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela +ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu +azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a +paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem +era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era +calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam +guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas +ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima +do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho +que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele +parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de +novo ele se punha a caminhar. + +Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro, +que o eco levou para longe. + +--Não gastes pólvora, António!--recomendou o pastor.--Ouviste? + +E logo a voz do guardador: + +--Madrugas hoje, Gonçalo! + +--P'ra que saibas: cá um homem não tem medo. + +--Está bem. Adeus! + +--Saudinha. + +A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia +a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas +feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se +nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham +altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo +de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade +vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se +repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes +e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços. +De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens +secas, onde algum réptil passasse vagaroso. + +--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.--Busca, +valente! + +À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se, +mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá +se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de +paciência,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os +intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à +frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar +areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado, +o Gonçalo desabafou: + +--Uff! até que enfim!--E pensava aliviado:--Nada mais fácil do que +terem-me saído os lobos!... + +Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida +tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças +aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa +luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em +tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda +acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no +Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era +um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num +descuido involuntário--simples remadela pouco a tempo, manobra menos +segura de leme, ou impulso errado de vara. + +E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo +leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o +sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo +limitada a paisagem. + +A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e +manso, e sem o mínimo ruído. + +Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um +pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também. + +--Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada... + +E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava: + +--Ora se será ela?... + +Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um +clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com +quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira. + +--Ai, se fosse a Rosária!... dizia consigo. + +E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente +à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta. + +«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser +outro que não a Rosária...» + +Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou +ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da +pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua +flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica. + +No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe: + +--Eh lá, Gonçalo, és? + +O pastor desatou a rir. + +--Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona! + +E logo a voz fresca da rapariga lembrou: + +--Não te esqueceu a moda, rapaz! + +--Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária?--Se outra fosse que ma +tivesse ensinado... + +Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir +ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou: + +--Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa? + +--Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã? + +--Basta! + +E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a +pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de +construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de +parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas +bravas. + +A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor +Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar +coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho +com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que +era como um talismã precioso para livrar de maiores +desgraças--naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles +caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais. + +Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual +seguida do seu rebanho. + +--Ora viva a Rosária!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da +cachopa. + +--Bons dias, Gonçalo; então que ventos? + +Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o +que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da +feira dos Caniços. + +--Por sinal que nem rês se vendeu!--lembrou o Gonçalo. + +--Por sinal!--disse com pena a Rosária. + +Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que +a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de +sonhar! Nanja ele...» + +--Mas se eu estive tão doente!--volveu triste a Rosária. + +E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou: + +--Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era +mesmo lume desde manhã até ao escurecer... Uma assim! + +E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na +febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados, +como agora tinha acontecido, «tal e qual». + +--Assim te Deus salve, ó Rosária?--atalhou rápido o pastor, a quem +enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga. + +--Assim; pois que dúvida?--tornou-lhe confiada a Rosária. + +--Não!--disse agastado o Gonçalo.--Não hás-de dizer assim... Diz certo, +hás-de jurar direito. + +--Pois assim me Deus salve... + +--Como é verdade...--Diz tudo, Rosária!--suplicava o pastor. + +--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como é verdade que sonhava +que nos encontrávamos--concluiu por fim, muito risonha. + +E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também +não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que +ela lhe tinha ensinado.» + +--Lembras-te? + +A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de +sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar: + +--Saem daqui sem falhar uma.--E resoluto:--Vá feito, Rosária, pede por +boca! + +A Rosária pediu então a _Pastorinha_. + +--Eu é da que mais gosto,--explicou.--É a mais linda. + +--E é!--concordou o Gonçalo.--Ora escuta lá. + +E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a +Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra: + +Onde _vás_, ó Pastorinha, +Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé... + +--Sabes essa! É mesmo assim!--disse-lhe a Rosária a rir-se. + +--É como vês!--afirmou contente o Gonçalo. + +Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos, +confundidos, andavam na pastagem. + +--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonçalo. + +--Também nós nos quedámos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As +pobres dão-se bem, são amigas...--continuou com júbilo. + +--E nós também, ora também, Rosária? + +--Também--respondeu afoita a pastora. + +E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias. + + * * * * * + +A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e +o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em +cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam +despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de +perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena, +tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de +asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede +à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em +recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação +era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes +gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos +vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas +de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos, +viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de +taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já +nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a +ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de +almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu +imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada +para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o +rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores +e continuavam conversa. + +Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor +trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se +lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a +Rosária... + +--Mas o cabelo assim cortado...--disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça +nua, e passando a mão pela dele,--é que te não fica bem! + +«Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a +mais, que era como ele gostava...» + +--Promessa da mãe se eu melhorasse--explicou a Rosária--Lembranças... A +gente quando está aflita... + +--...Quando está aflita...--repetiu como um eco o pequeno. E depois, +amuado:--Se promete os olhos... + +A rapariga fitou-o, espantada. + +--...é porque tos tirava!--concluiu convicto. + +Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão +com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido +grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar +na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar. + +--Não falas, Rosária?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para +ela. + +--Também tu...--começou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a +lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!--E depois +animando-se:--Já foste à Senhora dos Remédios? + +O Gonçalo fez sinal que não tinha ido. + +--Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado +do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo. + +O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E +para acabar com ela: + +--Que enfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a +girar.--Olha como dança...--E depois, mais pensativo, batendo com o +bilro nos dentes: + +--Que às vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem +fez este bilro? + +--Foste tu, aposto. + +Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho +orgulhoso--«que visse os _torneados_.» Depois continuou: + +--Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os +santos!--Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e +bem promessas fez, mas ela foi-se. + +E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho. + +--Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar... Pois +era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.--E deitando-se para +trás:--Lá anda ela a pastar!--concluiu desalentado. + +--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosária,--que as promessas +sempre fazem, lá isso... + +E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo +de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a +jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os +joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia +subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto +se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia +entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia, +firme na sua objecção: + +--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina! + + * * * * * + +À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois +conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da +estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que +foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais, +depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de +conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas +passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que +nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas. + +--Olha lá não caiam,--tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à +espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se eles +fossem tolos... + +E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela +então propôs que jogassem a pocinha. + +--E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de +tarde, bato-me com qualquer, sabias? + +E generoso:--Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta... + +Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a +bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia +buscar o pauzinho, quando zinia longe. + +--Turco, traz cá! + + * * * * * + +No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu +azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já +começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se +ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim +tão viva a areia branca das margens. + +Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as +ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os +olhos negros da Rosária, disse-lhe assim: + +--Mas olha o que prometeste... Inda vais feita no que disseste? + +«Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo +o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?» + +--E o mais, ó Rosária?--perguntou de novo com interesse. + +A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar, +respondeu: + +--Também.--E sorriu-se.--Pois eu... + +Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal +de partida, assobiando aos cães. + +Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha +ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo +areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada +tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal. + +--É bonito!--fez notar o pastor. + +A Rosária explicou logo: + +--São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias? + +Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente +as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava +serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista, +enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia +ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau, +muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água +serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o +guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro--«boas tardes! +boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco +do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos +carregados, tilintando campainhas. + +--Adeus pequenos! cumprimentou. + +--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos. + +E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas, +confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo +ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos +chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música, +fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada... + +Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e +então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente +a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar. + +--Vês além... neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas? + +A outra fez que sim com um gesto, e interrogou: + +--Então é ali? + +--Ali mesmo--volveu-lhe já de marcha. + +E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga, +repetiu-lhe muito contente: + +--É mesmo além. + +Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço +que as ovelhas tinham de ocupar essa noite. + +--Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a +cavalo. + +E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então +saber: + +--Estás triste, ó Rosária? + +--Triste... não. Já agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa. + +--Huum! Arrependeu-se...--volveu consigo o pastor. + + * * * * * + +Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para +dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia +azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo +apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem: +estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora. + +Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o +colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro +os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e +formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul +indefinido do céu. + +--E os lobos?--perguntou a Rosária com medo. + +--Não há perigo--tranquilizou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães. + + * * * * * + +Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos +chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir +profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a +Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo, +num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se +deixaram adormecer,--quando a história das moiras encantadas ia no seu +melhor episódio... + +E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem +mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas +crianças... + +Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu... + +--Bonito dia, Gonçalo! + +--Bonito dia, Rosária! Olha... + +...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando... +voando... + + + + +SULTÃO + +(Copiado do Natural) + +_Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_. + + +I + + +Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de +andar um dia inteiro a mourejar no campo. + +--Meus pecados, boa tarde!--dizia ele para a mulher, com um sorriso a +afectar seriedade. + +Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção. + +--Deus te abençoe. + +--Pai, olhe que o «Sultão»... ia a dizer o pequeno. + +--Bem sei! atalhava logo o Tomé.--O «Sultão» é um maroto e tu és outro. + +E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de +_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a +gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo, +resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse: + +--É que por este caminho não tenho um dia descansado... Nem uma hora... + +Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra. + +--...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim há-de chegar... A +modos que vou já cansando... + +Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração. +Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava +sem ir campos fora, madrugador como um melro. + +--Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os +ombros, como quem está desgostoso com um génio assim. + +Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua +cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra +que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade. + +Costume velho do Tomé:--mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia +logo para o filho: + +--Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão». + +O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia +nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de +contente, dizendo cá da rua: + +--«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»! + +No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta +baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em +riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de +pálpebras pestanudas... + +E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas +pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,--um grande riso de +alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão». + +Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o +Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de +quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e +impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono... + +Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se +então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e +desdenhoso jumento--o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra +a navalha de _meia-lua_: + +--Então, «Sultão», não vens? + +--Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a +envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela +imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada +na soleira, zap! + +--Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.--De mal comigo? + +E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à +vontade...--que não fosse vê-lo o «Sultão»... Metia entre dentes um +pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas +na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério: + +--Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo? + +O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que +fazendo-se humilde... + +--Então se és, anda daí. Olha...--E mostrava um pedacito de pão.--P'ra +ti se vieres... + +O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar, +o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o +rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe +não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um +cigano, entrava a tratá-lo por senhor--_sôr_ «Sultão»... + +Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas +baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão +da arrelia. + +Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir +como um perdido. + +--Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras, +o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela. + +No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com +o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o: + +--Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez +que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te! + +Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao +focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar +oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço +superior, a tremer, e roubava-lho da mão. + +Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito +estrídulas. + +--Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.--Até pareces +doido! + +--Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava +o Tomé, nuns grandes gestos.--Vamos que eu lhe não queria dar da +merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque. + +Era precisamente o que o Tomé queria:--ver o «Sultão» a brincar. + +...Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do +lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe +consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis +causticantes e chuvas torrenciais. + +Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das +«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento, +ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos +numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a +cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o +rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas, +cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos +postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se +inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo +atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o +mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria +rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre +todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta +espavorida dos inimigos... + +--«Sultão»! eh lá! «Sultão»! + +Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de +volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe +desse na bolha atacá-los... E abriam alas de repente, quando ele, +tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não +deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era, +já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas +estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se +acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde +se deixava cair,--derrotado! + +--P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés, +desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir +como um perdido. + +Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a +girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda +no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos +rapazes o aviso de se arredarem--«porque era doido, aquele demónio»!... + +Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito +cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão, +certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os +saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da +viandante. + +--Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de +zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma +verdasca:--«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava. + +E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele, +muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde +de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça, +preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde +prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um +passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada +ganhava o terreno perdido--fitando impassível o cão... O bruto formava +então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a +primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que +por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra +coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido: + +--Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé. + +E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo +ao correr a caravelha: + +--Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve! + +E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem +primeiro descer a ver o «Sultão»,--de candeia na mão esquerda, e na +direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada. + +Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia +atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa +tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado: + +--Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas. + +E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que +falou,--história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto +que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo +desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse: + +--Boas noites! + + * * * * * + +Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao +cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a +mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de +enorme--gelada... + +--Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.--Ó Josefa! + +A mulher assomou à janela, sobressaltada. + +--Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?! + +--Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita. + +--O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram! + +E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos +três na gritaria, defronte do cortelho vazio: + +--À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei! + +Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na +peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram. + +Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando +ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra: + +--Nada!... + + +II + + +Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a +eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e +embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da +última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de +ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar, +esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja. +Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e +além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os +castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da +igreja, as paredes caiadas da escola. + +A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o +aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas +«medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e +estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das +«medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que +brincava, os da lavoura descansavam--vermelhos da soalheira intensa de +todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados +os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem +a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da +fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram +todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali, +dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no +meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa, +ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»--visto +que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao +mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os +«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão, +varrendo em roda num afã... Em certo ponto, carros vazios; um além, de +altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros, +atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas, +estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois +gigantes. + +Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de +bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas +oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão +encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme +corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras, +sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, +monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam, +submissa... + +Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres +cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da +farta colheita do Tomé da Eira. + +--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.--A primeira +da aldeia! + +--Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de +dizer, muita palha e pouco grão... + +E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as +mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens, +repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas. + +--Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um +grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí +alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso. +Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está +bem. + +E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito, +loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora +dormir... + +--Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma, +que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz aí no chão esse +«rasouro», ó coisa?--Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que +fiquem bem atados. + +O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no +ar, se era preciso mais alguma coisa. + +--Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te. +Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo, +deixa ir os animais a passo. Vai-te. + +Como o carro chiava, levantou a voz para dizer: + +--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os +bois para o lameiro. + +Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:--«seria preciso vir por +eles?» + +--Não vale a pena, lá irão. + +E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os +levava, aqueles dois sacos... + +--Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham? + +«Eles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!» + +--O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então +que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve! + +Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe +passava nem à mão de Deus Padre!» + +--A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé? + +Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se +todos--«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando, +a cavalo. + +--Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se +pálido.--Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele... + +Recordaram:--«estrela malhada na testa, a mão direita branca»... + +--É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão! + +E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou, +de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à +estrada. + +Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido: + +--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem +a alma lhe deixa! Acudam! + +Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as +bandas da eira, os cães ladravam. + +--Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já +agarrados a ele.--Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem, +Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo! + +--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas, +mais a vocês, se me não largam! Arreda! + +E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao +cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes. + +--Vê, Sr. Tomé?! + +«Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de +ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos +tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando. + +--Abaixo! intimou.--Você é um ladrão! + +--Um quê? + +--Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife! +Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão! + +E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda, +e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo +raso--«com seiscentos milhões de diabos!» + +Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos. + +--Já lhe disse que você é um ladrão! + +--Ladrão será você!--tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos +cerrados.--E não mo diga outra vez, que o racho! + +Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a +capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de +tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca +bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um +pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas +agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem. + +Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--«tinha-o +comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...» + +--Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.--O homem não tem culpa.--E +gritavam-lhe aos ouvidos:--Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé. +Vês--aí está! + +--Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.--Mente! + +--Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado. + +--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé. + +De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má +cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então, +abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco, +amainou,--prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a +pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das +camarinhas.--«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?» + +Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas +punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de +resolver...» + +--Serve-lhe o contrato? + +--Qual contrato? + +--Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas. +Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as +bandas donde você vem... Você donde vem? + +--Dos Casais. + +--Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu... + +--E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,--concluíram alguns do +grupo, conciliadores. + +--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim. + +Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o +burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe +custara tirá-lo de casa. + +--Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os +Casais...--afirmou. + +--Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo +dito?--quis saber o Tomé. + +--Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro +num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata. + +Ia já a abrir a boca para dizer--«uma!» + +--Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas +festas ao animal. + +E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um +pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.» + +--«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»! + +O burro estremeceu... Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a +lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente... + +--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se +p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh! + +E afastou-se para o lado, aguardando. + +Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a +roer as unhas, nervoso... + +--Então você porque espera? perguntou. + +Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo: + +--À uma!... + +O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de +esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita... + +--...às duas! + +--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Tomé. + +E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força. + +--...às três! + +Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e +gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que +o caso era para foguetes. + +--Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro! + +--Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!--emendava o Tomé a rir. +Tenho-os com dois pés, que não valem metade... + +--Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns. + +--Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que +não é com vocês. + +E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria +que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao +fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor +de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia +agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais... + +Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de +palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à +porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap» +contínuo na soleira. + +--Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó +António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia! + +Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo. + +--Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó +Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma. + +Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador. +Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia +alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu +homem teria endoidecido... + +--Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São +só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca, +avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior. + +E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um +pulo. + +--Ah! + +A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão. + +--Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te. + +Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho, +qualquer coisa de tomo... + +--Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe +aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem. + +--Nome do Padre... + +--Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui! + +--Nome do Padre, nome do Filho... + +--A caneca! Venha de lá agora a caneca! + +--...nome do Espírito Santo! + +--Passa bem, ó mulher,--concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas +dos demais.--Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto, +manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente! + +E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente: + +--Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o +«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno +não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido. + +E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a +direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa +corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas». + +--Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por +andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se! + +E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de +vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda. + + * * * * * + +Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio +dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão--sem pinga... + +Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido, +num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas. + +--Colheita rica, sim senhores, um colheitão! + +E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e +remexendo o alguidar de barro: + +--Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo. + +...Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando +as sopas: + +--Ámen! + + + + +ÚLTIMA DÁDIVA + +_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_. + + +Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, +belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças, +fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando +com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao +pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a +nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia +gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas +janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que +lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras. + +De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus +melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia +toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto +de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a +feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela +deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua +simplicidade. + +No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga +paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra +que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob +o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa +resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados +e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente. + +--Ó tio José!--gritavam-lhe do caminho.--Tio José! Ó regalado! + +Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses +deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto. + +Ora na verdade!... Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas +não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua +cultura--tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo +de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável, +verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as +castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda +acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que +enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o +esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos +feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para +aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca +das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas +estações competentes--cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo. + +Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que +lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as +cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que +por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os +goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e +ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas. + +Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre +visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se +bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de +chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias +todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma +dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham +morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo +que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a +suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria +sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato. +Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um +gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo +gemido, e punha-se de novo a andar. + +--Vens ou não vens?--perguntava ele, evocando com dorido esforço a +imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se +fosse um relâmpago, apagava-se logo. + +Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde, +talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar +nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite, +apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio. + +Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e +viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto +onde a sombra era mais densa. + +--Temos história...--resmungou consigo o rapaz. + +E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou +que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali +fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou +duas, para o caso de não acertar a primeira. + +--Cão do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a +pedra.--Espera que eu te arranjo...--E já ia arremessá-la na direcção do +canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao +lugar onde o rapaz estava. + +--Melhor! Mais a jeito ficas... + +E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava, +para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os +ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo +defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme. +O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter +ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da +filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros +por onde elas tinham andado. + +Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente, +deixou cair as pedras e perguntou: + +--Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís... Vossemecê que tem? + +O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu: + +--Dói-lhe alguma coisa, ó tio José? + +--Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes. +Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai. + +O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José +Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado +agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse +a pedrada. + +No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não +fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário, +ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo. +Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não +sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que +passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos. + +--Ó Tomás! + +--Sr. José!--respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de +barqueiro. + +O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os +beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele +então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado. + +--Como tinha de madrugar... + +--Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda +que comece a amanhecer.--E como estavam à porta de casa:--Será bom +acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.--Iam à vela +se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso. + +Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair +sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar +violentamente. + +O barqueiro tentou animá-lo, constrangido. + +--Então, Sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que +homem!--E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.--Limpe lá essas lágrimas, que +vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho? + +O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os +olhos com a manga da camisa. + +--Pois então levante-se lá.--E segurou-o com força por baixo dos +braços.--Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique +vossemecê a pensar que o não torna a ver. + +Mas era isso mesmo o que ele pensava... + +--Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno--concluiu +a chorar o José Cosme. + +--Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de +vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano, +aparece-lhe aí rico... + +Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava +era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar. + +Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que +se animasse para animar o pequeno--recomendava o barqueiro. + +--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026. + +E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a +pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser +desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde +cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe +tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe +se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade +daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era +quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto +paterno... O último sono! o último sono! + +--Ainda se o deixássemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste. + +Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de +pôr o barco a andar. + +O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o +acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração. +Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou +baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse +praticar um grande crime: + +--Filho, olha que são horas, meu filho... + +Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o +estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da +luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar. + +--Adeus, pai! + +--Adeus, filho! + +Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar +aquele abraço. + +--Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde! + +O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do +alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto. + +--A andorinha, filho?--perguntou o José Cosme.--Deixa que eu hei-de +olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado. + +Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um +instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe +tocou com as pontas dos dedos... + +--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a. + +A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo +seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda +a bagagem do Joaquim. + +Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou +soluçando: + +--Quando voltarás ao horto, meu filho? + +O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam +de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as +árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim. + +Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o +sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo, +húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava +que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de +modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava, +divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação +falavam alto. + +--Pronto?--perguntou ainda de longe o Tomás. + +Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua. + +Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos +dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de +angústia, pelo deslizar monótono das águas... Aquilo confrangia o +barqueiro, ele também era pai... Por isso, mal chegaram à beira do rio, +apressou-se a dizer para o pequeno: + +--Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus. + +Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar +o filho: + +--Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te +veja ir.--E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora, +ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a +gente feliz. + +--Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã... + +Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai, +beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra. +Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava +desvairado: + +--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia! + +E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas +mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por +uma vez. + +--Com'assim, Sr. José, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com +força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José +Cosme que suplicava de mãos postas: + +--Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!--E o pobre pai caía de +joelhos na areia, numa atitude de súplica. + +Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando +ao colo a criança. + +--Rema!--intimou em voz rápida. + +O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram +_plhau_! sobre a água. + +Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao +ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco. + +--Adeus, Joaquim, adeus! + +--Adeus, pai! + +--Adeus! + +Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na +direcção do barco: + +--Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante. + +Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor +ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto, +arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás +que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme, +velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de +pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai, +de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou +ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar: + +--É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!... +Reza-lhe, sim?! + +E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe +chegasse o pequeno para o último beijo... + +Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a +lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue +em região misteriosa de lágrimas... E no silêncio agoireiro da noite, +apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado +do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais +longe--longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai--com o seu +fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno... + + * * * * * + +...Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância, +diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas, +fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à +praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar, +tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo, +na direcção do horto silencioso... + + + + +COMÉDIA DA PROVÍNCIA + +_A Alberto Braga_. + + +I + +PRELÚDIOS DE FESTA + + +Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A +começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e +decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da +festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra +de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que +representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a +entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se +tivesse tempo de o acabar. + +--Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E +correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_ +fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da +Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá +uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum! + +--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o +António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do +arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que +apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém +falava noutra coisa. + +--Então você já sabe? + +--Já sei. A cegonha. + +--A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro... + +--O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu? + +--Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei +Arauto Fiel_. + +Enganava-se. + +O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves +aferidor. + +--Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver +arder. + +O outro não percebeu. «Que se explicasse...» + +--Um urso, no arraial queima-se um urso. + +--Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Também se lá +queima um burro. + +Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não +ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua +predilecção. + +O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por +dentro. + +--Põe a tranca, se for preciso. + +Mas então era cá da rua: + +--Ó Sr. António! + +E na porta as pancadas ferviam: + +--Truz! truz! truz! Sr. António! + +--Éna! c'um raio de diabos!--fazia lá de dentro o homem, furioso. + +--O senhor faz favor? É só uma palavrinha. + +À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do +nariz e a carta do foguetório na mão. + +--O camelo? perguntava zangado.--O urso?! Camelos me parecem vocês, +ouviram? O que o homem diz é isto. + +E lia a carta, rematando: + +--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o +macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava +os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra! + +E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não +fosse ele burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar +animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí +tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o +José da Loja. + +--Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com +aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe +tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio... + +--Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias! + +--Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal +soube. + +E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde +rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se +proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições. +Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar +montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de +preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou +lendária: + +--Como-te a alma se te mexes! + +--E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam +convictos. + +Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua +figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com +60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era +nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma +largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto. +Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força, +conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido. + +--Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein? + +Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para +se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma +testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira, +foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando +prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora: + +«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau +como o pintavam.» + +--Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o +Fagote. Do que ele é capaz sei eu. + +Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe +lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás! + +Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz +este ano. + +--Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa +em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz: +«entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...» + +--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das ideias do seu +António.» + +--Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual, +assim me Deus salve! + +--Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse? + +--Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.--Foi +este mindinho. Não falha. + +E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de +levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de +arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei +quantos andores, acho que meia dúzia!» + +--Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem! +Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do +corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava +olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de +ver assim o seu António. + +E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava +farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao +atar das sangrias!» + +--Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por +esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos. + +A mulher contraveio:--«dois seriam bastantes...» + +--Mau que aí principiamos nós!--E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé +no soalho, arreliado.--Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque +dois eram os do _outro_, o ano passado. + +A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da +mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_. + +--Agora não fanfas tu... insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu +gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti. + +A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto. + +--Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada. + +--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes +de casarem... + +--E olha que depois de casada... insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar, +enfiando a agulha. Cala-te boca. + +Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou. +Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo +porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da +Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a +vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou +conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação +lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas... + +--É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António +Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta. + +Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De +mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de +vitela assada. + +--O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para +um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que +ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode! + +--A mim o devem, se cá vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não +queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e +14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele. + +--Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário... + +Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela. + +--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo. + +Era a criada da mestra régia, foram abrir. + +--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a +Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António. + +Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi +acender uma luz. + +«Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.» + +--Muito calor, começou a Sr.^a Luísa. + +--E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais +a criada. + +E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que +lhe queria uma palavrinha. + +Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa +serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares. + +--Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa. + +--Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe +um favor, disse atrapalhada a criada. + +--Se estiver na minha mão... + +A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela +com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira. +Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda +mentira.»--Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os +papéis lá da terra, não podiam tardar».--Está claro que eu tenho +afeição ao rapaz... + +--Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para +dizer alguma coisa. + +--Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero +chegar. + +--Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso +nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.--E +dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom +para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal. + +--Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via +disso que eu lhe quero pedir um favor. + +Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou: + +--Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira, +qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele +estado! inda não há nada que saiu da cama. + +--Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa +a Sr.^a Luísa.--Muito longe! + +--Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem +eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina +e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido! + +Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é +que ela não sabia. + +--A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais +os mordomos. Não ouvi. + +--Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que +o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,--suplicou aflita a +rapariga. + +--Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade +a Sr.^a Luísa.--Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada... + +--Era só isto, muito agradecida à senhora. + +Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a +testa. + +--Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que +desculpe. Mas enfim que leia como puder. + +--Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga. + +--Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos +os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já +hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves. + +--Chh! fez admirada a rapariga. + +--Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma +pausa:--Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa +de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia +uma horta, além no prado. + +--Muita gente... disse a rapariga. + +--Muita! e depois de certa aquela... À mesa talvez vinte e quatro +pessoas... + +A rapariga benzeu-se! + +--Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António +Fagote.--Olhe: o pregador... + +--Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga. + +--É. Não o há melhor. Missionário...--explicou o juiz. Pois o pregador, +um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre, +os pequenos, dois, doze. + +--A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa. + +--Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o +António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze. +(_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com +mais de vinte e quatro pessoas à mesa.--E a rir-se: Mas há-de sobrar +muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres? + +--Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do +chão assim... E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas. +Assim... + +Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--«Adeusinho! o que havia de +estimar é que tudo corresse como desejavam.»--E se for preciso qualquer +coisa... ofereceu-se. As minhas fracas posses... + +--Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora +mestra... + +--E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António +Fagote. + +E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe +perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo». + +--Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo +no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o +ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco. + +A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara. + +--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é +homem que sabe dar o merecimento às coisas... Mas o diabo agora é o +macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera +do macaco... + +A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o +bicho não viesse. + +--Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--Dá cá +daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem. + +--Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não, +aquilo já está fechado, o fio. + +--Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez +acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via +das dúvidas. + +Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem: + +--Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau. + +--Hã? qual pau? + +--O da bandeira. Todo o mundo já o sabe. + +Ele riu-se. + +--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!... + +E como ela ficasse estupefacta. + +--Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o +vinho noutra? + +--Ah!... + +--Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou, +satisfeito: + +O ladrão do negro melro +Onde foi fazer o ninho + + * * * * * + +Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o +António Fagote sentiu bater à porta, de rijo. + +--Vai lá ver o que será, ó Luísa!--disse da cama o Fagote sobressaltado. + +Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto. + +--Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se. + +--Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado. + +--Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro. + +--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte? + +--Pior do que isso! resumiu o José Manco. + +--Pior do que isso, então não sei... + +--Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua. + +O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou +de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava +chapéu. + +--Pronto! cá estou! + +--Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor. + +E rodaram rua acima. + +--Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote. + +--Aguarde, que já vai saber. Não tarda. + +De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja. + +--Roubaram Nosso Pai, aposto?! + +--Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos +e veja vossemecê isto, esta porcaria! + +E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada +na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários +desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos +coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farófia_! + +Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se, +com os olhos fitos no papel. + +E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa +escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso. + +--Hum! resmungou. Bem sei... + +--Não tem que saber,--fez o outro. + +--O patife do José da Loja... + +--Pois está visto. + +--Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o +Fagote.--Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver. + +O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que +era melhor botar o patife ao desprezo. + +--Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e +metendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim! + +Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos +arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom +semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com +ele José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de +burro não chegam ao céu». + +--Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto, +disse num grande ar de condescendência o Fagote.--E você vá lá regar a +horta. + +Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada. +Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia +daquela demora. + +--Grande cão! grande cão! monologava. + +Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de +casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António +Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a +porta. + +--Ó Sr. José. + +--Dirá. + +--Venho aqui saber de um caso. + +Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé +da cara: + +--Foi o Sr. José que fez isto? + +O outro olhou-o, atónito. + +--Sim! se foi o Sr. José que fez isto? + +--Nada, eu não senhor. + +--Jura pela boa sorte dos seus filhos? + +Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado. + +--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote. + +O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe: + +--É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro. + +--É outro, que outro?!--disse arrogante o José da Loja, num ímpeto, +barriga panda sob o casacório de lona. + +--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu +também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e +atirou-lhe com eles à cara aparvalhada. + +Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de +cumprir uma obra de misericórdia. + + * * * * * + +Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro +passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das +Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente. + +--O fogueteiro! chegou o fogueteiro! + +Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o +foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas. +O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro, +a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se +ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da +festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas +as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr. +fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o +que queria para o jantar. + +Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila, +perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente +um foguete. + +--Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim +senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum! + +--P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a +girar de volta com o braço--o que é fogo do chão?--Mas tinha-se visto em +calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos +tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O +caso tinha estado sério! + +Mentia. + +--Hein? mas não o enganavam? + +--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as +eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo! + +O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da +rua: + +--Senhor abade! ó senhor abade! + +--Que é lá? + +--Chegue à janela, faz favor? + +--Mas está muito sol, entre você, se quer. + +--Só duas palavras: + +O abade, um rapaz novo, assomou à janela. + +--Que é? + +--Chegou o homem! + +--O homem! que homem? + +--O fogueteiro, quem há-de ser? + +--Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele? + +--De cara. + +--Faz-me então um favor? + +--Dirá. + +--Dê-lhe recados meus. + +E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no +seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se +aquilo tinha sido o fogueteiro. + +--Grande homem! com seiscentos diabos! + +Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois +machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao +fogueteiro, com fúria. + +--Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu +amigo, seu grande amigo». + +--Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito +solene.--Viva o senhor fogueteiro! + +--Viva! + +...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores +que o António Fagote--chorou!... + + +II + +TIPOS DA TERRA + + +Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,--«_a +praça_.»--Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo +olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas +grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, +com casas em volta,--o que na vila havia de melhor em construções. +Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e +muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de +ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva +sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num +grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de +três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do +_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo, +sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes +decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias +remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura +chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia +tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas. +Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio, +de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as +sete: aquele--«_estafermo_»--é que não andava nunca direito. De dia +ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador +sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, +alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado, +dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava +o sol. + +Eram as sete. Àquela hora é que os--«_figuros_»--da terra, quase tudo +empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns +passeavam,--seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à +banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados, +outros do mesmo feitio cavaqueavam,--coletes desabotoados, perna +cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no +degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente, +chamavam-lhe intrujão. Algumas--«_madamas_»--pelas janelas em volta, +nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia +outra roda,--uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando +cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quase tudo maiores +burocratas:--o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão +de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e +muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua +cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras +feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado +quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse +levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele +num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o, +ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente: + +--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não +lanço fora.» + +E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em +tais coisas... De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,--um +poucochinho beato,--diziam-lhe. + +--Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno, +a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro. + +E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados, +um poucochinho sibiladas nos _ss_. + +--Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima, +desses fortes. + +Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham +chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém. + +--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um +vintém por oito cigarros.--Guarde-os! + +«O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por +eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.» + +--Olha o figurão!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito +idiota! forte cavalgadura! + +O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À +porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos. + +--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos +outros. + +Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um +silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo +que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:--«alguém +era servido?» + +Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de +genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.--«E vão dois e dois +quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os +receberia!»--E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar +tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao +alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado +a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados. +Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do +ofício... + +Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao +Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não há +dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E +pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o +alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o +preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia... + +O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o +regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um +sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros. + +--Estender as pernas,--disse. Quem vem daí? + +Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela +sensaboria da praça. + +--Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite? + +--Apareço, vou à desforra. + +E cumprimentando em roda: + +--Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto. + +Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras. + +--Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe +diga _bem-haja_... + +Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dívidas nos outros estancos.--Em toda +a parte.--Lá em casa a família passava fomes.--Um batoteiro de marca. + +Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a +passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de +novo, muito ronceiro, roendo as unhas. + +--Com que então... _ponha lá ao pé dos outros_?--disseram-lhe, para o +lisonjear nos seus despeitos.--Bem bom freguês! + +Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto +de mártir resignado. E não disse palavra--p'ra falar daquele tinha de +falar também deles... + +Mandaram vir limonadas,--três limonadas! + +--Aí vão trinta réis! + +Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a +falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a +dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,--e +sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas. + +O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda, +onde grandes manjericões floriam: + +--Ó Emília! Emilinha! + +A mulher assomou, gorducha, muito mole. + +--Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa. + +As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar +uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos +grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe +agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta, + +_Vai alta a lua na mansão da morte_ + +com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava +antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só +tinha uma coisa boa--a caligrafia.--Um talhe de letra +bonito,--confessavam.--E as calças, hein? reparem vocês naquelas +calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os +do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos, +muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota, +palerma, pechisbeque... + +Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o +Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes +quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um +olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em +marcha, contrafeito. + +--Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele +telhudo? E isto:--e pôs-se a imitar o escrivão. + +Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente. +Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo +em acróstico. + +--Isso é o Teles!--fez um que vinha da praça.--Aquilo é um intrujão. +Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem +daquilo que _ferve_? + +O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia... + +--Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas... + +--Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas... + +--Ora é isso mesmo, nem mais. + +--Bem sei. + +Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um +tostão... + +--Eram aos três para beber uma garrafa... + +--Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_ +uma soda,--objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa. + +--E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que +sujava tudo de escuma? + +Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com +seiscentos diabos! + +--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo +toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo. + +E com um sorriso de desdém, exclamou: + +--O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho... + +Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a +palavra--«_pulha_»--pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só +três.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de propósito! +Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela +súcia lhe chupava o refresco: + +--Tó Ruça! já lá vai esse tempo. + +Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:--Que +provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia +estar bom... + +Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para +aquelas coisas. + +--Obrigado, ó Melo! + +--Obrigado, ó menino! + +E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele +e limpando os beiços. + +Quando o Melo ia sair,--a ver o que ia na praça,--o Ernestinho, muito +cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:--Se ali não tinha, +depois. Isso era o mesmo... + +--Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?--perguntou desconfiado +o Melo. + +--Do açúcar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado +acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe. + +Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no +princípio.--E saiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Três +vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco... + +Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma +grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:--que lhe +contassem--«_o escândalo_». + +Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as +correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano. +Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que +é casmurro, teimou:--que não acreditava, ainda assim!--Vai o outro +chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está! + +--Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?--quis saber o Melo. Aquilo +há-de ser escrito por alguém, está claro. + +Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam +eles... + +--Quem, então? + +Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro +dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um +que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça. + +--Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse +nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga... + +Mas o da ideia insistiu, renitente:--havia ali suas coisas que o faziam +lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e +_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto. + +--Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente +como um alarve, mente da primeira linha até à última!--disse firmemente +o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz +de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco +pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito. + +De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma +infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma +coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não +havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura... + +Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação. + +--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia +as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas +galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?! +Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o +homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os +fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa +ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D. +Engrácia, pobre velha... + +--A quem?--interrogaram uns poucos. À Dona quê? + +--À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã +aos missionários é ela. Presumo eu que é ela--fazia o Nunes das +correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde +deitei. + +Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a +crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser +com a D. Joana, a do--«_chá de erva-cidreira_.»--Outra canalhice! A D. +Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e +penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se +viu:--que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos, +que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a +pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da +correspondência. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu +telegramas de... amor_.--Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença +telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte... Que afinal, quem +sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro? + +No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio: + +--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria... + +Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse. + +--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_, +vocês deixem falar,--tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma +rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a +frase, entalado,--por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém, +alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer +fazer suspeitar. + +Iam replicar-lhe, mas ele atalhou: + +--Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar +franco. + +Saltaram-lhe: + +--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o +Alves dos Pesos e Medidas. + +Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se +via, pelo que se podia julgar... + +--Léria!--disseram todos. + +O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então, +para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo +uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade! + +O Nunes observou modesto, quase agradecido: + +--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente. +Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que +está... + +--Vocês é um modo de falar,--emendaram alguns. + +--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondências,--explicou +sofisticamente o Nunes. + +Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com +guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente. +Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi +cumprimentá-las, submisso. + +--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a +mão:--Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo. +Assim... assim... + +Então? que diziam àquele calor? + +--Abafava-se, ali pelas duas. Que forno! + +--O Brasil tal e qual--reforçou o Nunes. + +Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite +de truz, aquilo sim! + +--Olhe, senhora D. Amélia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi +pena! O Abelzito andava constipado. + +A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas +noitadas.--E em voz mais baixa, quase dolente: + +--Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito. + +--Não há tal!--fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar, +senhor Nunes. + +E por pouco que não chorava ao dizer isto. + +O Nunes afectou um sentimento profundo:--Era melhor não falar nisso, +não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham +acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma +garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial: + +--Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois... e +depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso +dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição! + +Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu +desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se +vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer. + +As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem +aquele vestido à Amélia. + +Não podiam subir, talvez à volta. + +--Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase +pronto, que trabalhão! + +Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O +risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito. +Coisas de anjinhos: + +--Verás. + +Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que +vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,--homens com malhos, e +mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No +degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de +chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas, +zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros +formavam roda. Todos riam, pediam _bis_. + +--Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco +Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto. + +O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo, +afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula +valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o +tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E +pedia a rir, boçalmente: + +--Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá. + +E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era +preciso, o Fernandinho ia pelo violão. + +--É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó +Fernando? + +--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes. +Olhem que pergunta! + +Mas o Paula tinha-se calado, bocejava. + +--Então, ó Paula...--suplicava o administrador. + +--Está fechado o realejo... Depois. + +Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou +ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_. + +--Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_ +se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo... Bem feito! «gramou» um +entalão que se consolou. + +--Quatro coroas.--Na véspera tinha ganho um quartinho. + +Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o +chapéu, ele passou gravemente, cortejando. + +--Quem eu te quero à perna é o _Aramis_...--rosnou o Teles escrivão que +embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda ele não +sabe tudo...--insinuava perfidamente. + +--Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em +verso--fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água. + +O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a +analfabetos. + +--E eu a brutos, sabe você? + +Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício... Ó senhores, +lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com +o outro. Pelo contrário. + +O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava +essa importância, essa honra. + +O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez +seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas +tesas. + +--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas. + +Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter +o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras +portuguesas,--ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água. + +Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se. + +--Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei +que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu +verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas +não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo +habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o +que mando para público sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no +peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho +triunfante.--Não roubo! nunca roubarei!--afirmou mais alto o +Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois +amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como +ele!--E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os +lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas. + +Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao +Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria +dizer. + +--As provas...--e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com +ímpeto:--as provas, vê-las aqui estão! + +Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.--Era do ano +que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho +tinha entregado ele mesmo. + +--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem. + +O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa +em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se +um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos--zás! +versalhada para o _Lembranças_... + +--Era colaborador--disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de +Teles.--Era colaborador. + +--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da +orelha.--Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as +asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no, +chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não +chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é +ele. Nunca o admitiram. + +--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses +versos--insistiu o Antunes. + +O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Câmara. Não lhe +respondeu. Subiu os três degraus do _pelourinho_, pausadamente, com +pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanaque de +Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:--«Indignidade». + +--Em letras bem graúdas, queiram inspeccionar. + +E colou ao peito o _Almanaque_, voltando para fora na página onde o seu +dedo reboludo apontava a terrível palavra, escrita ao alto em +epígrafe. + +Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse. + +«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanaque de +Lembranças_ do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria +Teles, escrivão.» + +--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Ele +depois assinou--e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma +complicada do Teles. + +Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou: + +«Publicámo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois +que ele os assinava.» + +--E então?--perguntaram uns poucos, sem compreender ainda. + +--«Pura ilusão!»--continuou solenemente o Rodrigues.--«Escreve-nos o +mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os +versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume +_Lira Matutina_.» + +Foi uma estupefacção! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos +comentários: + +«Averiguámos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a +probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa +porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara--por indigno.» + +E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a +porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do +braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene,--vingado! + +Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, +porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao +Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!...--tinham dado uma +sorte de mil demónios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro, +por ocasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que eles +tinham mandado imprimir avulso--para lisonjear o Teles que tivera o +trabalho de os ensaiar no _Santo António_. Hein? quem diabo havia de +dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos, +chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase +disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma +insídia,--um logro à boa-fé, à credulidade ingénua de toda a comarca! + +E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho +vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas, +cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e +com um «toco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser +ele a despejar do _óculo_ aquela papelada; o Melo da administração, +vestido de Frei António, sandálias e grande chinó de calva redonda, +feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os +bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hábitos de +frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Teles, +ensaiador da rapaziada! + +Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam +da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora +humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito! + +O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança +de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel +Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os +impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O +homem--pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que +se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que +desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro. +Arre! cavalgadura! + +E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico. + +--Mas a bem dizer, tudo isso é nada!--continuou comovido o Antunes.--Ó +senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz naquele +intervalo do drama para a farsa?... + +Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Ele sempre acontece cada +uma! E relembravam:--levantara-se o pano quando os ouvintes menos o +esperavam. Os que tinham sabido lá fora, às doceiras, voltaram +apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um +reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam +senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos +que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licor, um +docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo, +debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atónito. + +--Ele que dianho é?--perguntavam. + +De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima: + +--Caluda, sua gentalha! + +No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da +recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo +em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de +coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia; +a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Glória_, em que +ela subira num cesto vindimo à «região sidérea dos astros»; o pai de +Santo António, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como +saíra do túmulo; aquela canalha da tropa--todos enfim! + +Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo +vestido de Santo António e do Proença telegrafista que fazia de Frei +Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta +à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com +grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo +imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz. +Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam. + +Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião, +durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um +discurso na bochecha extática do Teles: + +«Não era ele o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no +encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter frases, oratória, +porque enfim estava falando a um poeta...--colaborador do _Almanaque de +Lembranças_ para Portugal e Brasil--acrescentou voltado para o público, +esclarecendo. Enfim, finalmente... vinha para aquilo: dar-lhe um abraço +em nome de todos...--e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores +berravam _apoiados_, dando palmas--«... e para isto»--acrescentou +fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa. + +Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças gritavam--«ó +Emilinha!» Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e +Medidas, que saía também do buraco do ponto, vestida de anjo, tules +verdes e muita lantejoula a brilhar. + +Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o +Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da +«melodia», ele fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu +nuns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com música da _Muchagateira_ +original do Peres do correio. + +O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo António e a +Frei Inácio:--Era de mais, era de mais, ele não merecia...--Ora essa! +pareciam dizer-lhe os outros--seríamos ingratos se... + +A «cantoria» acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava, +um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir, +cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas +do tecto desabassem. + +Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer +do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia +vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da +boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia +dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos da +cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O +Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo: + +--Alto! suas bestas! Inda não!... + +Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a +ombro dizia em caracteres amarelos--_C'est fini_! O pano desceu +então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros, +não tinham percebido... Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que +tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta: + +--_É findo_! + + + + +V[AE] VICTORIBUS! + +_A Maria Lucila_. + + +Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a +essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um +pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima +dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa +de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros +têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora, +agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar +não sei que estranha elegia... A um relâmpago mais vivo, o José Gaio +apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou, +depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude +do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento, +encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não +ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa. + +--Vamo' lá com Deus! fazia ele animando-se. + +Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o. Diante dele surgiu de +repente a paisagem, e de repente desapareceu, feericamente iluminada. +Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão, +que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num +gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigo as +próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do +caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz +implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de +suplicas... + +O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber +donde, alguém chamou por ele, lugubremente: + +--Ó José Gaio! + +O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz +negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos, +apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a +mesma voz tornou-lhe mais de perto: + +--Ó José Gaio! + +Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um +relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com +força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o +não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de +estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela +voz, como um prolongamento do trovão: + +--Ó José Gaio! + +Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta, +galgaria a ladeira num instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma +força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da +água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono, +infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão +quando, estacou ouvindo a mesma voz: + +--Ó José Gaio! + +E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de +sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de +longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a +tempestade... + +Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre +exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os +olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo +o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de +sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente +desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então +deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o +peito impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar: + +--Ó José Gaio! + +Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo +desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia, +como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o +cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a +mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer, +abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele +a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do +campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse +todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda +Casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos +maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas, +sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que +traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No +meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste +camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à +terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto +implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios +crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável +trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o +largava, imperturbável e monótona: + +--Ó José Gaio! + +E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la +como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural +muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da +cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela. + +Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água +depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul +furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer. +Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste +benefício para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos +vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um +deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por +onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume, +sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz: + +--Ó José Gaio! + +Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim +ficou--de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase +tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava +no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E +pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva +caíam, vermelhas à luz, como grossas lágrimas de sangue... + +Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse +miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta. +Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil +de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E +enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada +prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico +das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com +fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso +espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e +trágico a um tempo, soberbo, majestoso, imponente. + +Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões, +aquela voz: + +--Ó José Gaio! + +Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro, +o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma +rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição +e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria +erguer-se, fugir, desaparecer--erguer-se como aquela cruz, fugir como +aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro +na treva... + +Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe +provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali, +miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as +quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu, +apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que +dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a +tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha +de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços +hirtos--morrer ali!... Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz +parecia chorar?... + +Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos à distância. +Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar +nele, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve +estaria de pé,--de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava +de lhe mostrar... No entanto, a voz é que se não importava: + +--Ó José Gaio! + +Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o +calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se +para um lado, até ficar detrás dumas urzes. Coisa notável foi, +senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se +recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem... E +quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante... Aos +ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece... Não ia só a +rezar; ia também chorando, aquele homem... + +...Quem seria? + +Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um +espectro, o filho do José Tendeiro... + +O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma +noite como aquela... + +Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde +não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz. + +E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade, +perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte... +Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da +cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou +reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo! + +Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi +depois, buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido. + +--Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma +congestão muito linda--dissera um a rir. + +--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indiferente. + +Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do +abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de +choro. E elevando ao céu as mãos mirradas--ao céu que um divino azul +fazia diáfano--ele exclamou, soluçando: + +--Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa +misericórdia! + +...Segredo de confissão...--mas o abade bem sabia quem tinha ali +matado o José Tendeiro... + + + + +BALADAS + +_A Luís Osório_ + + +I + +MARICAS + + +Vocês lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito +castanhos, quase louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A +boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benévola e +complacente para as nossas balbúrdias e algazarras de todo o dia e de +toda a noite. E vocês bem sabem que tais elas eram, as nossas +balbúrdias e algazarras... + +Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e +encantadora--a de não mostrar jamais na sua amizade preferência por +algum de nós. Dir-se-ia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois +que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e +brando... + +Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ela vos +perguntaria por mim, nos meus dias de cábula, pela solicitude e +interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao +escritório. + +--Então esses cábulas? então esses marotinhos? Doente, algum? + +--Na estúrdia, Maricas. Andam todos por lá... + +--Ora vejam!--fazia ela quase escandalizada. + +Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos +que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos ombros uns dos +outros, palreiros conversávamos com ela de janela para janela, num +_tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que +chamando-lhe por tu e ela a nós! + +Como eu me lembro! + +Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil +perguntas que lhe fazíamos, e então uma grande paciência inexaurível. +Nós, os estroinas, quase que chegávamos a adorar aquela ingenuidade +singela do seu coração de vinte anos. A boa da Maricas era adorável, +toda ela bondade e paciência para os nossos distúrbios e para as nossas +algazarras de toda a hora e de todo o instante. + +Mas como se familiarizou ela connosco e nós com ela, é que me não +lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes, +é que nós como que a considerávamos uma companheira de redacção, espécie +de directora com casa à parte e viver independente pois que se entrávamos +no escritório (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda +de escritório!) e, assomando à janela, a não víamos na sua, dizíamos +quase sem querer, mas invariavelmente: + +--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas? + +E passados instantes debandávamos todos, um agora, outro logo, à +formiga, mal nos convencíamos de que ela passava a tarde fora, em casa +da _freira_ de Quebra-Costas--dessa lembram-se vocês... No entanto, +deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte...--coitada!--...a +primeira coisa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui, +estive ali, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborizada e +confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar ali a +aturar-nos. Por pouco ela nos não pedia de mãos postas que lhe +perdoássemos, a boa da rapariga. + +E nós então galhofeiros, brincalhões: + +--Sem mais _aquelas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora +essa!... + +E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzito de cobra: + +--Pois sim, mas é que às vezes... + +--Às vezes quê?... + +«Não! ora adeus! Ninguém desconfiava que ela estivesse zangada +connosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...» + +--Pois não era verdade--perguntávamos-lhe--que ela adorava aquela +_trupe_ de boémios? + +--São todos muito bons rapazes--dizia já a sorrir.--Todos me tratam +muito bem... + +E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pálido todo se +iluminava de prazer e sorria de íntima gratidão. Mas porque +simpatizava ela connosco, a pobre Maricas? + +Quando nos via em palestras intermináveis, nas libações do _congnac_ e +do café, ouvia-se lá da janela um _pschiu_! muito sibilado. + +--Que manda a D. Maricas? É servida? + +E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada: + +--Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal? + +O cuidado que lhe dava o jornal! + +--Ora faz favor de não falar em coisas tristes? Olhem agora que +lembrança, o jornal! + +Ela então, por única resposta, dizia-nos às vezes que na semana passada +o tipógrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas +vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas. + +E por falar em provas:--a Maricas sabia todos os sinais das emendas, +todos. + +--Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais nesta palavra. + +--Risco por cima, risco à margem, e um _d_ cortado; é fácil. + +--Um _m_ de pernas para o ar, e esta? + +--Risca-se, e um três cortado, à margem. Está farto de o saber... + +Quando via algum sentado à mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse +mostrando as tiras, à medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava +que isso era um estímulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal +escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela, +acenando-lhe com o papel: + +--Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escrita de alto a baixo. + +À terceira que se lhe mostrava, ela saía-se de lá com um _bravo_! e +recomendava, solícita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um +cigarro. + +A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia +a goma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bela goma! Em +paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sábados à +noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita +atirava-se-lhe da janela. + +--Maricas, aí vai ainda fresquinho! + +--'stá bem, obrigada. Vou ler, até amanhã. + +Corríamos todos à janela, a dar as boas-noites à nossa amiga. + +--Durma bem, ouviu? + +E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do +artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que +mudássemos de pseudónimo. De resto, sempre benévola: achava tudo muito +bom, «escrito com muita graça e muito bem», como ela dizia. + +Nos serões que fazíamos e que por via de regra não passavam de um +interminável cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escândalos, +desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da +Maricas ninguém tinha que dizer senão bem; era a privilegiada naquelas +sessões de má língua. Quase sempre a conversa degenerava em +algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e +gemia fados com acompanhamento de violão. E era de ver o Santos Melo, +de olhos cerrados e cabeça à banda, como cantava a sua quadra predilecta: + +Sei cantigas misteriosas, +Cantigas de endoidecer, +Que os lírios dizem às rosas, +Que as rosas me vêm dizer. + +Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomendava silêncio. + +«Com mil demónios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...» + +Todavia...--ó suprema bondade!--...ela nunca se queixava quando no dia +seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se +tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes +que as cadeiras tinham caído. + +«Ora viam?! Não a tínhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse; +palavra de honra! doravante...» + +Ela então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça: + +--Não, não, eu até gosto. Entretém-me vê-los alegres, faz-me bem, ora +essa... + + * * * * * + +Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocês não sabiam! E morreu +tísica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a +pensar naquela tossezinha muito seca em que às vezes a +surpreendíamos, naquele branco pálido das suas faces, no bistre das +suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mãozitas de +marfim... + +Pobre Maricas! + +Haverá três meses que ela me desapareceu da sua janela, onde +continuei a vê-la depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ela +tinha ido?!... + +Mal diria eu que estavas no cemitério, tão longe e tão só! porventura na +vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura +humilde,--onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites +fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio +de mágoa a tua frase de infinita bondade e de infinita resignação: + +--...«Entretém-me vê-los alegres, até me faz bem»... + +Compreendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era +triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobrezinha! que nessa +frase singela ia a revelação do pressentimento que tinhas da tua morte +prematura?! Triste criança que nós não mais veremos! + + * * * * * + +Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes--_bravo_!--ora +não?... + + * * * * * + +...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e dela +rebentem flores, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as +seivas... + + +II + +PARA A ESCOLA + + +No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras +letras. A porta lá estava, amarela com fortes pinceladas vermelhas, ao +cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. +Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula +quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas +bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, +num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz +da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada, +falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa: + +--Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a +encomendinha. + +Oh! oh! a encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali +estava a encomendinha! + +--Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão? + +E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena +enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia +metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu +entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ numa das mãos e a +saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria +contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus. + +--Adeus, Josezinho, logo venho cá pelo menino. + +Choraminguei, quis sair na companhia dela. + +--Não, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui é a escola, é +onde se aprende a ler.--E agachando-se, diante de mim:--Olhe tanto +menino, vê? + +--Mas fica tu também--disse-lhe eu então. + +Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, +iracundo: + +--Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai +tudo raso com bolaria! + +Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos +meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos. +Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes, +cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão +principalmente. + +--Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de +paciência. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre +as bancadas.)--Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa +hora entrasse... + +--Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josezinho? + +Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos. + +--É verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino há-de estudar +as suas lições, não é assim? + +--Diga, sim senhor--ensinou-me então a Helena.--Hei-de estudar muito e +ser sossegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em +casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia? + +Ele riu, já sabia; as crianças são todas assim, enquanto estão no mimo +das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E +piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida. + +--Faz milagres, Sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz +milagres. + +Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair +quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a +palmatória... + +--Mas para o nosso Zezito não há-de ser precisa, ora não? + +--Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas +obrigações, diga. + +--Ora aí é que está--atalhou o professor.--Vê, Sr.^a Helena? Aqui já os +pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas +coisas... + +--Sim senhor, sim, enquanto que em casa... + +--Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu +menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É +mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?--E bateu +num «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui está neste +livro: «_de pequenino_... + +--..._é que se torce o pepino_»--concluiu rápida a Helena, orgulhosa de +saber o que estava no livro, coitada! + +--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria +na horta... + +Risota dos rapazes! + +--Ora vê isto, Sr.^a Helena? vê estes brutinhos?--E com entono, de +palmatória alta, fazendo-se carrancudo: + +--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à Sr.^a Helena, +começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o +que se chama tudo! + +E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapazes ficaram +transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele +podia pedir licença à Sr.^a Helena, e mesmo diante dela _cascar_ de +rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o +Estêvão deixou de me fazer caretas. + +--É o que vê, Sr.^a Helena--disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom +do professor.--É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem +ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem +feito muitos doutores. + +--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele +pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores. + +--Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não +faz ao caso. + +Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena. +Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investigara com mágoa +o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor... Morreria +sem ter essa «glória,» decerto! Forte martírio que a Helena veio +recordar-lhe!... + +Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia +para ir lá fora. + +--_Licéte_!--foi como ele disse, arremedando o latim _licet_. Outros +havia que diziam, por troça, _Aniceto_! + +--Ora já a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu não havias +de pedir para ir lá fora, tu...--E ficou-se a fitá-lo, meneando +pausadamente a cabeça.--Ora vá você lá fora. + +O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés. + +--Olá?--chamou zangado o Sr. professor. + +O outro assomou à porta, contrafeito. + +--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se +percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça +favor de esperar um pouco. + +Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando: + +--Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá! + +Levantaram-se uns poucos, foi um barulho. + +--Canalha!--gritou-lhes então, batendo o pé.--Corja de atrevidos! +Sentados, já! + +Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele, +apontando para o peito. + +--Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se. + +Mediu-o de alto a baixo. Depois: + +--Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fora com +ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das +pressas?... + +--Vejo, sim senhor. + +--Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o +palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra quê. E sempre quero ver se tenho +de vos ir lá buscar pelas orelhas. + +Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o Sr. professor: + +--Olá? + +Eles assomaram, outra vez, atrapalhados. + +--Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada? + +Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com +efeito alguma coisa... + +--Então é aí? + +Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro. + +--Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a Sr.^a Helena.--E +enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial:--Ordinário! marche! + +Faltava aquilo. Em obediência aos seus velhos hábitos de militar, dava +o Sr. professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir +ordens suas: + +--Ordinário! marche! + +Sentou-me então no joelho e perguntou: + +--Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o Sr. +capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres? + +--Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o Sr. prior, dizer +missas. + +Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o Sr. professor fez +notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência +qualquer. E pôs-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas +bochechas. + +--Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.--E para a +Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, Sr.^a Helena, que respondem a +pés juntos que não querem ser nada. Mau sinal, péssimo, Sr.^a Helena! +Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são +gente.--E virando-se para mim:--Mas então, Josezinho, em que ficamos? +Corneta ou prior? + +Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente +em dias de festa, com aquela capa toda doirada... + +--Muito bem, escolheste bem. «_Telha de igreja_... + +--..._sempre goteja_»--concluiu a Helena que ainda hoje é forte em +adágios. + +O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria. + +--Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josezinho, +para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é? + +--É. + +--Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor--emendou a Helena. + +O Sr. professor teve um gesto de indulgência. + +--Mas tu não sabes ainda, ora não? + +--Não senhor. + +Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia +na saca era um livro. + +--Querem ver que é um livro?... + +--Diga--ensinou a Helena--é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá +ao Sr. professor, tome. + +Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do +meu livro. + +--Muito bem! muito bem!--aplaudiu o Sr. professor.--Mas este livro é +mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que +queria ser prior, ora já? + +Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o +sabia? + +--Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar, +não queres? + +--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu +quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga. + +--Primeiro do que aqueles?--perguntou voltando-me para as bancadas. + +Então fui eu mesmo que respondi:--«Sim senhor!»--contente com a +lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos +aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a +alguma... + +--Ora então está muito bem, estamos entendidos.--E com intenção, ferindo +muito as palavras, para mas gravar no espírito:--A primeira coisa que é +precisa para prior é saber bem isto, vês?--E punha-me diante dos olhos o +livro aberto na primeira página.--Isto aqui é já missa, chama-se o _a b +c_, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar. + +--_Ito_?--inquiri curioso, furando a página com o dedo. + +--Sim, isto. E amanha já me hás-de trazer sabido daqui até ali. Hein? +valeu? + +--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor. + +Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira +lição! + +_A B C D E F_! + +A minha primeira lição! + +--Ora sabe vossemecê o que isto é, Sr.^a Helena? isto que eu tenho +estado a fazer? + +--Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é... + +--Não sabe, não admira,--disse complacente o Sr. professor.--Puxar o +gosto, Sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o +fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com +mais gosto, digo-lho eu; olé se vai! + +«Mas ele não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas +obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.» + +--Pois isso é verdade, Sr. professor; mas não sei que é, custa-me a +separar do menino...--disse a boa da Helena, quase a chorar. + +--Foi ama, deu-lhe o seu leite, aí é que está a coisa. Pois tenha +paciência. Aprender é tão preciso como mamar--concluiu numa prosa que é +mesmo poesia. + +--Pois é preciso, é!... + +E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti +na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me +ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou: + +--Sr.^a Helena! + +--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental. + +--Já agora, espere mais um instante. + +Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula. +Depois, intimou: + +--Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo +um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora é ali, +Sr.^a Helena, ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe +não deve pesar. + +E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo, +lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu +lugar...--o meu primeiro posto na arriscada milícia das letras... + +Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por +acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no +entanto. O mestre vinha a dizer na sua mímica: + +--Bolos?... Não?!... Perdoe a Sr.^a Helena, mas isso, quando forem +precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a +mão?... Está bem... Descanse... Mesmo com a mão... + +E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre +lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus... + + * * * * * + +...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que +principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te, +querida amiga, aquele beijo--dulcíssimo beijo aquele!--que tu então me +deste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse, +acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem +que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena? + +Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura. + + + + +TRAGÉDIA RÚSTICA + + +I + +_Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, à +porta do José Grilo_ + + +Truz! truz! truz! + +Os de casa acordaram, sobressaltados. + +--Schiu! nem pio!--fez o José Grilo para a mulher.--Moita! + +--Truz! truz! truz! + +Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se a chamar pelo +pai.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria +divertir... + +Mas logo outra vez na porta: + +--Truz! truz! + +--Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José +Grilo, zangado. E pois que se pôs à coca, de orelha fita, olhos +cravados na telha-vã do casebre, sentiu distintamente os passos de +alguém que fugia. + +--Eu não te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir--explicou ele +para a mulher. + +Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um +cachorrinho, mesmo rente à porta. Veio-lhe logo à ideia que lhe tinham +vindo pôr zorro... + +--Ó mulher, queres tu ver que há novidade? + +De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do +casebre. + +--Ele que demónio de embrulho...? + +Pegou-lhe com muito jeito. Era efectivamente uma criança, envolta em +dois trapinhos muito velhos. + +--Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a criancinha. + +--Grandes cadelas!--E pôs-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a +gente da casa. + +--Andem! a pé! levantem-se! está aqui este inocentinho que vem dar os +Bons-dias à gente! + +Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grilo +metera a criança na cama, visto que a pobrezinha estava gelada... + +--Ele quem diabo há por aí que tenha leite? A filha do António das +Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo. + +Despediu imediatamente a filha, a Ana, à procura da Brites que +chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga +que ia correndo: + +--Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for. + +Mas a mulher do José Grilo, a senhora Joana, de pé no meio da casa, a +saia amarela deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito +embezerrada, permanecia sem dizer palavra. + +--Ó mulher, nada de aflições, é tal e qual como se fosse nosso, faz de +conta...--observou-lhe logo o José Grilo que percebia o ar taciturno da +fêmea. + +Ela só redarguiu que _nosso_ era um modo de falar. Seria dele, mais +de qualquer desavergonhada... + +O José Grilo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e +pregou-lhe uma gargalhada. + +--Ajeita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E +deixa-te de cantigas, que hoje é dia de Entrudo. + +A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé +da criança, afirmando-lhe às risadas que sim, que o pequeno era filho +dele. + +--O pequeno?... mas é que pode ser cachopa--disse o José Grilo para a +mulher.--E certificando-se:--Nada! é rapaz. + +Seguiu-se uma altercação. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela +sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem. + +--Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cómica, braços no ar, o +balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoço num jeito de +sobrepeliz.--Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim! + +--Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz--disse-lhe de lá o +José Grilo, muito fleumático, debruçado sobre a criança. + +Mas como visse que a mulher continuava num estardalhaço, muito +aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grilo virou-se para +ela e disse-lhe muito solene: + +--Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz. + +Ao ouvir assim falar o seu José, a senhora Joana voltou-se logo para +ele, olhos esbugalhados, muito suspensa. + +--Juras pelas cinco chagas, ó homem? + +--Juro pelas cinco chagas. + +--Assim te Deus dê saúde, ó José? + +--Assim me Deus dê saúde. + +--Preto sejas tu como o teu chapéu? + +--Preto seja eu como o meu chapéu. + +A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo +a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da +Conceição, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hóstia. + +Depois desabafou, muito aliviada: + +--Ai! + +O José Grilo pôs-se a rir.--«O demónio da Joana, com ciúmes!» + +--Mas ciúmes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo +tens tu ciúmes?--perguntava muito casto o amigo José Grilo, sereníssimo +diante da mulher desconfiada. + +A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--«que o seu homem era um +santinho...»--O José Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo, +reguingou de alto: + +--Sabes tu que mais? estafermos é o que mais há. Olha a cadela que +enjeitou este... + +Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira: + +--Mas quem seria a grande cadela? + +Pôs-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguém, +murmurando frases de ódio, moralistas: + +--Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo +entranhas de lobo. + +O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do +José Grilo. + +--É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar--disse +contristado o lavrador. + +Foi-se logo à porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a +Ana era a outra, a Doroteia do António das Veredas. + +--Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demónio vens tu cá +fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?--E deu um bofetão +na filha, «para que soubesse dar o recado». + +A Doroteia pôs-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é +que a mandara para levar a criança, porque ela, adoentada, fazia-lhe +mal sair de casa assim cedo... + +--Só se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o José Grilo, virado +para a Doroteia, irreverente pelos seus dezanove anos inda virgens. + +A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse: + +--Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça. + +--Eu sei lá se não se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--Dá cá +daí o pequeno. + +Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao José Grilo. O +lavrador depô-lo nos braços da Doroteia, com mil cuidados, e depois +ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse +bem quente. + +--Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá apareço, +p'ra ver isto do ajuste. + +A rapariga saiu. E como o lavrador desse fé que tinham ali ficado os +farrapos, gritou para a rapariga: + +--Ó D'roteia! espera que inda cá ficou isto. + +Então pôs-lhe os farrapos ao ombro--uns pedaços miseráveis de velha +chita--e a Doroteia partiu onde à irmã. + + +II + +_Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosário. Em casa de +António Palma, casado com Rufina Maria_ + + +O António Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher, +a Rufina, principiava a lavar a loiça, quando à grade do quinchoso uma +voz chamou: + +--Ó Sr.^a Rufina! + +Vieram os pequenos, veio o António Palma, a mulher com as mãos +fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o +que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho. + +--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem. + +O Palma foi abrir o cancelório. E foi com grande desgosto que deu de +cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma +desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Tomás negociante de +gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os próprios pequenos +olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles +não conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto +o Palma e a mulher afectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se, +com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_ +investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o +pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silêncio, e a mulher começou +assim: + +--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias. +Já vêem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu +filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá +em casa de minha mãe aquilo é uma grande miséria, passam-se dias que +não comemos. Não há uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem +jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem vêem +como eu ando... + +Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miserável. O Palma e +a mulher diziam não sei que monossílabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra +prosseguiu: + +--Não é por mim, sabem? não é por mim. É este inocentinho que tem de +nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me +dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse... +Coitadinho! + +Ergueu-se num ímpeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o +Palma e para a mulher. + +--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou. + +O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lástima. Cada um de +seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo +se havia de arranjar, que sossegasse. + +--Que a falar os pontos de verdade, Sr.^a Fortunata, vossemecê é que +tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma. + +Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse. + +--Má sorte daquele pobre José Tomás, acabou-se! Quando ele casou com +vossemecê antes tivesse quebrado uma perna. + +Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita. + +--Agora aí o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado, +nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vai a uma feira. +Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos. + +Pôs-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atónitos. Depois +continuou: + +--Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo +saco... + +A Fortunata levantou-se num ímpeto, como se o saco a repelisse. O +Palma prosseguiu: + +--Sente-se vossemecê, mulher, o saco não faz ao caso. Pois foi aí +mesmo que ele esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na +camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal. +Que a bem dizer ele quase não conversa, anda a modos que amalucado, +sempre a levar a mão à cabeça, como se lá dentro aquilo andasse azoado. +E mais é que bem pode o rapaz dar em doido... + +A senhora Rufina foi de parecer que doido já ele andava. Passavam-se +dias que não aparecia em casa do tio José Garção, que o levara logo +para ele, mal a Sr.^a Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia? +Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os +porcos. Que doutra vez fora ter com o vigário para que lhe baptizasse o +filho, dizendo que já tinha nascido. + +--No filho inda ele aqui se pôs a falar, lembrou o Palma.--Anda com +ela ferrada que o filho já nasceu. + +Aqui, a Fortunata, de pé junto à porta, rompeu numa choradeira, ouvindo +falar no filho. O Palma interveio, condoído, dizendo que se não +afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse. + +Ela ia ajoelhar, o Palma não deixou. + +--Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por +vossemecê. Mas é que o inocentinho que aí traz esse é que não tem +culpa. Faço de conta que é o pai que me pede, o pobre José Tomás. +Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Tomás. Diabo! a gente já +diz _era_, já fala nele como se o pobre tivesse morrido... + +Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns +bois que não eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois, +quando já ia para sair, disse em resumo: + +--Fique vossemecê então, Sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela +inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se. + +Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu +e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha +feito uma carícia, quando por volta do meio-dia a avó do pequeno ali +chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota +aos cevados, ficou espantado: + +--Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, Sr.^a Ana! + +Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criança já tinha nascido. + +--Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha daí. + +Mas iam ainda à porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe +perguntou num sobressalto: + +--Vivo ou morto, Sr. António? + +O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criança nascesse +morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a +pontapés. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de cólera, quando em presença +do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de +fazer. + +O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse +com a pergunta: «que se há-de agora fazer a isto?» ele redarguiu, +irado; + +--Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se há-de +fazer à criança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar... + +A velha ia falar. + +--Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda +nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu +uma cadela quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer +cadela vale mais que vocês duas. + +O Palma ia-se pondo amarelo, a Sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a +que saísse. + +--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a égua e vou-me de +véspera até à feira. + +Pôs-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da égua. + +--Tanto faz ir amanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mete-me +qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a égua. + +Daí a meia hora, o Palma montava à porta, no meio do rancho dos +cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara: + +--Em estando capaz, rua! + +--Daqui a três dias, talvez... + +--Então até daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando +esses estafermos saírem. + +Ora o António Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora--com o +embrulhinho do neto ao colo... + +Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado... + +Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? Não sei. Caso é que na +madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino à porta do +José Grilo. + +Madrugada de Fevereiro, nevava... + + +III + + +Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar à irmã, tinha +amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidíssimo +retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo. +Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão +triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto, +faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impressão de frio. O chão +estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céu muito azul +anunciava um dia de sol. + +A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda +daquele lado em contacto com o pequenino... + +Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe +perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o ruído forte da +levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho. + +--Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra. + +Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu +como um eco: + +--...Um enjeitadinho. + +Entreolharam-se os três, numa incerteza vaga. + +--Sim, um enjeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E +daí... pode ser que não seja... + +A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa. + +--Nada! pode ser que a história seja outra--elucidou o moleiro.--Onde +foi que isso foi posto? + +--Esta madrugada, à porta do José Grilo. + +--Olá! isso então pode ser coisa dele--observou a rir o moleiro.--Esse +diabo não é seguro. + +Puseram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôs-se a +explicar à rapariga: + +--É que ontem à noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a +modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim às primeiras, +tanto eu como a Luísa tivemos o nosso medo... + +--Ó Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e +senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho há-de ter fome. + +A Doroteia passou a criança para os braços da moleira. Foi uma alegria +ao verem-no sugar no peito, minúsculo, com os olhitos inda fechados. + +--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria +a desavergonhada?... + +--Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro. + +--Depois, dormiu cá, aí lhe demos da ceia e aí ficou. Mas dá-se o caso +que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num +falatório pegado. «Que o filho era dele, que se a cabra da mãe +teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte à justiça.» Um arrazoado +assim, muito comprido. + +Espantada, a Doroteia ia falar. + +--Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia +isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que +onde ele o tinha escondido ninguém lho ia roubar. + +Ficaram-se um instante a mirar consolados a criança. + +A pobrezinha vagia, mamando com sofreguidão. + +--Mas então sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a +Doroteia.--Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai, +coitadinho! + +A Sr.^a Luísa, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar +compungido: + +--Um doido, o pobre de Cristo! Deixá-lo ir! + +Fez-se um silêncio, mirando todos a criança. A taramela do moinho +batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda +que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer +obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe +respondera:--«Para a feira. Vender um gado.» + +--Ora vá lá o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido +a vender gado. + +Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Doroteia, com pressa +por causa da irmã, pegou outra vez na criança e abalou pela porta fora, +direita à casa do pai. + +--Olha os trapos, ó Doroteia! olha que deixas cá isto.--E o Paulo +correu a levar à rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram +todo o enxoval do triste pequenino... + +Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a +criança não ia com fome. E para que também não fosse com frio, a boa da +rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda +materna. + +--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja +capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho, +embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José +Grilo não dava fé! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem +depois os cães e comê-lo. + +E espreitando pela fenda estreita do xaile: + +--Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua mãe, ora foi? + +--Foi! rugiu uma voz detrás dela, como um eco. + +A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que já de +longe a acompanhava, sem ela dar fé, corria também atrás dela, e não +tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair +com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela +conhecia gritou ali de perto: + +--Larga a rapariga, ó José Tomás! Larga a cachopa! + +E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os. + +--É o José Tomás que está doido,--explicou o pastor.--Desde que a +mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado! + +Mas palavras não eram ditas, eis que o José Tomás de novo se arremessa +à rapariga. + +--Tu que levas aí? Tu levas aí o meu filho!--rugiu ele com voz +furiosa. + +E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre +lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas, +impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho... + +A Doroteia cobrou ânimo, ao ver-se rodeada de gente. + +E fez-se luz no seu espírito, quando reparou que os trapos do +enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a +rir-se... + +--Conheces? perguntou-lhe a rapariga. + +No êxtase em que caíra, mirando e remirando os farrapos, o doido não +respondeu. + +--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos. + +Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como +estava de joelhos, quiseram levantá-lo; mas ele então opôs-se, caindo +sobre os calcanhares. + +E ria... ria... enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miserável +farrapo, as lágrimas corriam, copiosas... + +Mas daí a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram +percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criança eram da saia da mãe. A +mãe era a mulher do José Tomás, e o pequenino era filho dele... A +grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao +homem! + +--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vês aí um +estafermo que precisava que a matassem! + +O José Tomás pôs-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte +impressão de piedade estampava-se em todos os rostos. + +--Ó Doroteia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai +deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga. + +Mas não foi preciso; que o José Tomás, sempre de joelhos sobre a neve, +foi para ela de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos +lábios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silêncio que se fez +ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho. + +Como se fora uma chuva de pétalas, do céu de madrepérola a neve caía +mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como +no seio imenso de um órgão, o vento sul--gemia... + + + + +ABYSSUS ABYSSUM... + + +Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio. +Assim eles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o +rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de +ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia +que lhe apareceram em casa tarde e às más horas. + +--Ouvistes?--ralhara-lhes a mãe.--Olhai se ouvistes: se voltais ao rio, +mato-vos com pancada. Andai lá... + +Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com +a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver +tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob +aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao +rio. Aos pássaros sim...--lá estavam as calças rotas do Manuel a +dizê-lo--...aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe +que o soubesse... + +Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto. Logo de manhã, +mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma +corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos +salgueiros. Lá estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam +despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do +fidalgo,--lindo barquinho!--sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse +para passar à grande quinta que tinha na margem de lá. + +De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois +rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão +madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo +da praia, e deixá-lo ir então por onde ele quisesse, contanto que fosse +sempre para diante... Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua +vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao +barco. Era o seu--«adeus até amanhã!»--àquele pequeno objecto que valia +tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo... + +Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada... + +--Mais nada? + +--Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto. + +Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais +cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para +os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os +patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados, +grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da +agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto +se ouvia o retimtim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na +bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e +vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do +vinho. E àquela hora, onde iria já a missa! A última beata, encapuçada +e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na +igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua, +dava com valentia num carro cujo eixo _ardera_ na véspera, e que era +urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a +loja, e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta +diária, enfim; os senhores sabem. + +Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois +pequenos. + +--Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal +está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos +na cama.--E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas.--Persignar e +vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem. + +E pôs-lhes tudo sobre a cama. + +--Mãe, a bênção!--balbuciaram os dois, tontos do sono ainda. + +--Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora eu já +volto. Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver. + +Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os +olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto +repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito +que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria +tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda +tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego +morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos! + +Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi +então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou +encantador, todo resplandecente de verduras. + +--Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque +será? + +O outro encolheu os ombros, não sabia: só se fosse por não haver +nuvens... + +Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da +manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito +suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das +laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos +de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta +estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas +das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas. + +Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manhã +deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu +imaculado. + +--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece? +Olha que é lindo, o rio; ora é, ó António? + +--É, lá isso... Mas _tamém_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o +irmão.--A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?--E +mirando por sua vez a paisagem perguntou:--Já reparaste no barco, ó +Manuel? + +--Tão bonito! + +Os dois riram. + +--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara. + +--Pudera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois +radiante, gesticulando para o irmão:--Mas eu era capaz de o +desamarrar... + +--Ai eras!--disse duvidoso o António, para o incitar. + +Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era. Ambos dentro +dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos +por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O +barco! Era tão bom andar no barco! E aquele então era lindo, como não +tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem lá não +esquecessem!--aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do +barquinho, ensinando-lhes como se remava. + +O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela. +Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando. + +--Está um dia lindo, avia-te. + +--Olha avia-te! p'ra quê?--perguntou o António torcendo e retorcendo o +pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama. + +O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra quê? A mãe +não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada +se desceis a ladeira.» Já se vê que depois disto...--E os dois +suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos! + +Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo! +Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de +tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo +o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que +apenas meio palmo acima do nível da água. + +--Tate, ó Manuel! E se fugíssemos? + +--Ora! se fugíssemos!... E depois? A gente tínhamos de voltar... + +Ora aí esta! isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o +que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da +mãe:--«Se voltais ao rio...» Ai, ai, a triste sorte! + +Recaíram em silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia +ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na +largura muito ampla da paisagem. + +--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com +alegria o Manuel. + +--Mas é que está, palavra que está. Agora é que há-de ser bom andar +dentro dele... + +Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no +barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso, +cobrando ânimo, o António disse resoluto: + +--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela +jaqueta:--Vamos lá, ó Manuel? + +O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não +vinha, disse baixo ao irmão: + +--À tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela +nossa falta, ali à tardinha. A gente finge que vai para o adro. +Levam-se os peões... + +--Há-de ser mesmo assim! à tardinha!--concordou o António.--Eh! eh! eu +cá desatraco. + +--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava. + +--Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula--explicou. + +--Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quiseres +assim... + +--Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser! + +E recapitulando, para melhor ficarem combinados: + +--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo? + +--Remas. + +--E tu regulas, ora regulas? + +--Regulo. + +--Ao p'ra cima é às avessas, ora é? + +--É. + +Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se +impuseram segredo... + +--Schiu!... + +--Schiu! + + * * * * * + +A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens +alvejavam, imóveis. + +Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes +franjavam-se de púrpura e oiro, na decoração mágica dos poentes. +Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos, +e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer +a natureza para o grande sono reparador de toda a noite. + +...E a tarde ia descaindo, cada vez mais límpida. + +Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando, +os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas, +imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os +cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela +indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio +confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo +amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que +vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as +coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as +formas às coisas... + +Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a +passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava. +Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um +fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o +tranquilo sono em que iam adormecer. + +E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava +mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas +começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos +iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendo +nas águas... Não! era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma +tão poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes transvazava do peito, +fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em +sorrisos. + +Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores +absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres +de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção +de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de +alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o +seriam jamais?... No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas +margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto +e sereno cintilavam as estrelas em cardumes. + +--Remas, António?--perguntou o do leme.--Olha se a vês...--E apontava +para Vésper, a estrela que mais brilhava. + +Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo +brilho diamantino os fascinava. Tão linda! + +--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a +estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe +adiante, só por isso... + +--Olha o milagre! Ela está queda!--fez o outro, convencido da +facilidade da empresa. + +--Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós; vai lá +entendê-la. Olha como brilha, ó António. + +--Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito daquela fraga é que +ela está. + +Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Era menos de meia hora +era certo alcançá-la. + +E engastada no azul escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais, +quanto mais a olhavam. + +--De que são feitas as estrelas?--perguntou o mais novito. + +--De prata, pois está visto. + +Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu, +exclamou: + +--Eh! tanta prata! + +--O sol, esse é de oiro--disse ainda o Manuel. + +--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmão.--Que eu, se me dessem à +escolha, antes queria as estrelas. Olha que rebanho! + +--Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais +grande. + +E enquanto falavam, os dois não desfitavam olhos da estrela feiticeira +que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com +certo ruído muito doce... E lá no alto céu, dir-se-ia que de instante +para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os. + +--Vê-la a fazer assim?--e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação +crebra e irregular da luz sideral. + +--É que tem sono--respondeu o outro. + +--Olha que não. Aquilo é a fazer-nos negaças, _tamém_ to digo. + +--Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo, +bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh, +_boieira_! + +Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul, +sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram +em tom de reza as palavras rituais: + +Deus te guie bem guiada, +Que no céu foste criada. + +--Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a +apontar para elas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos. + +--A ti talharam-te o ar, ó Manuel. + +--Diz a mãe. À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água +para o corpo. E a água havia de estar fria... observou, encolhendo os +ombros. Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe: + +Ar vejo, +Lua vejo, +Estrelas vejo: +O mal do meu corpo +Pr'a trás das costas o despejo. + +Riram muito. O Manuel, despidinho, couracho ao colo da mãe, havia de ser +engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava. + +--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por ano, ao menos uma vez por +ano, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas +estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria. + +--Sempre, sempre? + +--Até que morra. Depois de morrer vou morar três dias com três noites +dentro de uma. + +--Ora! tornou-lhe incrédulo o irmão.--Tu não cabes lá... + +--Não sei: assim é que anda nos livros. + +...Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito... + +Devia ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo +louco de alcançar a estrela. + +A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um +silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a +água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído de uma brandura +suavíssima e doce. + +...Mas os braços cada vez doíam mais!... + +Agora, no céu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma +como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar +menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o +peito, e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço. + +...E os braços sempre a doerem!... + +Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente, +cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme, +sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro. + +...E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer... + +O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum +estranho. Dentro dele... a música levíssima das respirações dos dois +pequenos adormecidos... + +Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento +brusco de balanço, fez acordar o do leme. + +Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou +imediatamente: + +--Manuel! Ó Manuel! + +O remador acordou, sobressaltado. + +--A estrela? Ainda lá está, olha!--disse incoerente, estonteado pelo +sono. + +--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!--continuou +aflito o António. + +--Então não lhe passamos adiante?--perguntou ingenuamente o Manuel, +referindo-se ainda à estrela. + +Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade, +de novo lhe gritou, com lágrimas na voz: + +--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel! + +E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num +choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrível +susto que a hora e o lugar aumentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho +aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o +psalmodiar monótono e rouco de uma legião de espíritos maus, +preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os +rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que +num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir +impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça. + +E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali. +Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém +viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus aflitivos +gritos. + +Crudelíssimo transe!... + +E então os braços continuavam a doer, doía-lhes agora o corpo todo, ao +mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes oprimia o +espírito, parece que embrutecendo-os. + +--Mas a estrela sempre além...--notou ainda o Manuel, balbuciante de +medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença +criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela +se haviam precipitado.--Se ela pudesse acudir-nos... + +Até que por fim, prostrados da fadiga e das lágrimas de novo se deixaram +adormecer, era já alta noite. + +Mas na sua fúria constante, a corrente que ali era muito forte não +cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após +tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se +contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente. +Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de +súbito acordados romperam em gritos lancinantes: + +--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale! + +Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul. +Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão +mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e +lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paroxismo da sua +enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também +com ele!... + + * * * * * + +...Nesse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrela +feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!... + + + + +MÃE! + +_Ao Dr. J.C. da Moita Prego_ + + +Bela cabra, a Ruça!--posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada, +luzida, de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva +de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando +cadencialmente o seu chocalho enorme--tlão! tlão! Era no rebanho a que +mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no +seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que +não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não +triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora. + +E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas +vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e +quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro. +Por isso Alípio José, pastor, a quem doíam as denúncias, ao pescoço da +Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais fácil +rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais +grave. + +Em pastagens pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia +gosto vê-la trepar às últimas cumeadas, subir destemidamente às arestas +superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas, +pescoço alto, ajoelhando destemida a retoiçar as ervas dos declives +alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com +abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos, +saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões +arriscadas de _touriste_. + +Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audácias, e +então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de +garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que +encontrasse por essas paragens era para ela um desespero--tamanha a +fúria com que a perseguia, e a insistência com que se ficava às marradas +na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o +Alípio que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara, +levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu +vozeirão que fazia eco: + +--Toma tento, Ruça! + +E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos +fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José +ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos +últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar +gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria +infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela +vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho, +resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam +ninho. + + * * * * * + +Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, e por lá se +deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia +quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem +vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá debaixo, cada +vez mais desesperado: + +--Volta ao rebanho, Ruça! + +E, cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com +fúria o molho dos chocalhos, gritando sem cessar: + +--Ruça! torna ao rebanho, Ruça! + +Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do +parto, nem o pequeno poderia--pobrezinho!--descer por tais ladeiras, de +pedregosas e ásperas que eram. + +Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o pequeno +congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o +aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu +corpo enfraquecido e doente. + +Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sítio, +alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava +lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe, +traduzindo angústias e desesperos íntimos, respondia ao vagido fraco do +filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a +instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros. + +Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças, +impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e +mais num como abraço de eterna despedida--amigos que se iam apartar +para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade, +soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor +que os unia... + +E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava +lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal +para o transe derradeiro... + +Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as +estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela +dor suprema de que eram as únicas testemunhas. + +E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida +do filho, ao menos,--ora súplice em balidos de resignação que uma +profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que +significavam blasfémias, blasfémias de desespero contra o céu que a +não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe +estrangular o filhinho que ela amava tanto. + +E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dor--a ironia acerba da +chocalhada longínqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra +banda, deixando-a a ela sozinha com o filho, à espera da morte que era +inevitável. + +Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar +fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num adeus! adeus! +de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de +chocalhos... + + * * * * * + +Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol +entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam +e o sangue circulava. + +E o cabritinho sem poder ainda descer!... + +De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as +escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e trémula, como +que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas +horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio, +lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio. + +Impossível! impossível! + +E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali, +estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias. + +Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes +e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o +chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que +o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito, +assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo... + +Impossível! impossível! + +Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem +toda a gama de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se +de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia, +estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o +com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e +amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar +ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe +aflitivo... + +Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última +cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam +subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva +se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se +cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo +ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos voláteis de +arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando +os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo. +Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num +chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos +estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os +répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama... + +...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem +passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda +a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu +dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã... + +Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera +passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração +alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o +filho que já tremia a ela aconchegado--o triste pobrezinho! + +Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante +naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era +baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando +uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de +crianças, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar +vagaroso de pálpebras sonolentas... + +Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva +aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém +com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e +nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que +se uniram, mal cerrara a noite! + +A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em +rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos, +acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade +esverdeada rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a +que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra +na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num +como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos +de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens, +densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem +cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem... + +E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois +olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a +treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando +convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não +ousava arriscar um único movimento e mais e mais cerrava contra si o +corpo inanimado do filhito que parecia adormecido. + +Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase +eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias, +vazias de esperança na vida do seu pequenino filho. + +De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de +novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a +pobre de súbita alegria,--e no abalo que sofreu o seu corpo, até então +retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a +desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas +fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali +levou a noite toda, farejando e uivando, até que cansado de perscrutar o +insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada +que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas. + + * * * * * + +Ao romper da alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de +nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam +lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando, +diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações +imperceptíveis e suaves. + +Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as +diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados +de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e +pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu no +alto dos montados. + +Pelas ladeiras dalém, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao +areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água +nos açudes, marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e +informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá +em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar +sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma +ambição ou como um sonho... + + * * * * * + +Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas +paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada. + +--Ruça! torna ao rebanho, Ruça! + +Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida +sobre o cadáver do pobre filhinho morto!... + +E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos +rochedos--passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a +esfaimada legião dos amaldiçoados corvos... + + + + +ARRULHOS + +_A M. da Silva Gaio_. + + +Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orifícios +triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecável do +muro que falava ao longe, muito ao longe, a léguas de distância. + +--Pombal da Morgada! diziam.--Lá se vê além...--E um gesto muito longo +levava a vista horizontes fora, à cata do Pombal da Morgada, que +alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros, +como um pequenino ermitério cheio de lendas, onde santos de carne e osso +provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde +seriam encantadoras as tardes quentes de estio, à sombra de árvores +seculares em cuja ramagem trinassem pássaros em barda, pardalada sonora, +gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimónia--frangãos +assados e boa vinhaça da terra. + +Pombal da Morgada porquê? História singular que vou contar-lhes. A +Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e +outras tantas quintas, viúva antes de casar, pesarosa da morte +desastrada do noivo--um trambolhão de um cavalo que o matara logo ali, +sem mais pio, num ai. + +A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na +véspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a +castidade das suas intenções dele... + +Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procriou, vieram pombos +novos--todos brancos uns, raiados outros, de um _gris_ delicadíssimo +alguns, todos encantadores, veludíneos, muito mansos. + +Belos pombos, na verdade! + +Todas as tardes, quando as tintas do crepúsculo começavam de esbater-se +numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas +entrava de se desfazer em imperceptíveis _nuances_ subtis, num +_smorzando_ melancólico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem +caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida +cessava no campo e começava no céu em cintilações argênteas de +estrelas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a +estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto, +espalhando no pavimento térreo, com solicitudes de _menagère_, as +provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço--milho em +abundância e fartura de alpista. + +Assim todas as tardes, ia já em quatro anos, que não havia forças que +levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia só, +retirada de tudo, a tudo indiferente, impassível a pedidos de amigas +que saíam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar +para que se distraísse, para que se alegrasse--«era nova ainda, podia +arranjar noivo, nada mais fácil...» + +--E as pombas? objectava.--Mas era pecado deixá-las, dizia consigo. +Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que +matassem, haviam de até roubá-las, entrar de noite no pombal, levá-las +todas. + +--Que não e que não! insistia renitente;--que tivessem paciência, que se +divertissem muito, ela ficava. + +--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que +rebentou do trambolhão. Bem tola! + +E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a +ridícula com aquele seu luto perpétuo, escarnecendo da simplicidade +habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um +pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma prega, nem sequer um laço. + +Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não +desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanhã, +desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortável, muito +abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram +flácidos--folhas de milho mudadas cada dois dias. + +Que bom, ser pombo da Morgada! + +A música dos arrulhos, uma volata muito lânguida, começava com o +aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho, +quando as forças eram sãs e as asas pediam vos. + +Hora dos amores! + +Pombos atrevidos, sanguíneos, de íris rutilante e índole impaciente, +lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam, +ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam, +possuindo-as à força, a tremer, asas em concha, penugem eriçada, +arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois, +hirtos, pálpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxúria +e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de +contentes, sacudindo as asas, pescoço levantado, orgulhosas talvez, +muito felizes. + +Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo, +quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa +doçura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo +às boas, não querendo violências, detestando-as, bem se via, +suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os +carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de +penugens, arrulhos mais doces e toques delicadíssimos de bicos--beijos +com certeza. + +Isto todos os dias, nas manhãs enevoadas especialmente. Imagine-se a +vida do pombal àquelas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas +mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que +queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava; +e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era +sanguíneo e quem era pachorrento. + +Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um +pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma +direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num +ruído muito doce de bicos que sorviam. + +Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a +Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimentá-la ao +balcão da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos +ombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não +sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lágrimas, mas +que sempre provocavam novos afagos, afagos intermináveis: + +--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida... + +Dali para o pombal, continuar aquela vida de boémios felizões, vida +de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de +harém. + +Poligamia desenfreada! + +Excepção a ela, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba +branca, de uma alvura impecável de neve, e então um pombo raiado, preto +e cinzento, de _nuances_ azuis-escuras, ares aguerridos de lutador +vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador. + +Era o pombo mais atrevido do pombal, o de génio mais insofrido e +espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contínua de pescoço, +nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuía-a, sem arrulhos prévios, +sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe +entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando +primazias à força de bicadas. + +E umas atrás de outras, e dias após dias, sempre assim! + +Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar lugar +a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente, +resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito +meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava, +incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as +outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam +entregar a outros, e de se afeiçoar à branca, a ela só, acarinhando-a +muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo +amores. + +Não imaginam os senhores nem há nada que possa dar ideia da desordem, da +perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instintos cómodos de +poligamia, tão avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram +de todos e as pombas eram comuns. + +E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias +inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de +egoísta. E quando saíam não se juntavam com os outros--uma desfeita! uma +ofensa!--tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para +a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao +contrário. + +Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os +encontravam no pombal, em ninhos contíguos a princípio, no mesmo ninho +depois! + +Um escândalo! Um desaforo! + +E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas. + +Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar +forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se +isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as asas, +levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo +quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados... + +Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba +branca e tímida que o susto transia, inquieto, colérico; reagia depois, +lutava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do +pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além, +entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruído de asas, receando +acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido +sob a asa veludínea. + +Dois meses assim--dois meses!--numa fidelidade conjugal ininterrupta, +digna de servir de exemplo a outros bípedes que eu conheço, que os +senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e +esplêndida de alegrias, passada em belas digressões campos fora, +pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo +de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez... + +Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianças, suspeitas +de inconstâncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia. +Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos, +modos de enfadada às vezes, certas perrices, resistências mal +disfarçadas. Ficava-se em casa se o raiado saía, impassível a +súplicas, muito mona, com elanguescimentos de pálpebras e quebramentos +de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o +raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir. + +Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam--rameira do +raiado!--um dia levantou voo e fez-se ao largo. + + * * * * * + +Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao +_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de +_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, à prova de +reumatismo e à prova de vintém, felizes na sua pobreza, amigos das +crianças, bem humorados sempre, flores de uma árvore que ora vai dando +cardos. Perto do solar da Morgada, a três quilómetros só, havia um assim, +o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de teólogo +ainda ao tempo. + +--Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas!--era assim que +muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vários latins, +sobre textos da Bíblia e passagens dos apóstolos. + +--Teologia velha, diziam, a genuína! + +A casa da residência era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes +a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pátio da entrada era +térreo, rimas de lenha seca de um lado e doutro, seguia-se a cozinha, +um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruínas que dava para +um quintalório, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que +estavam. + +Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoções, e nessa tarde +quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, óculos na +ponta do nariz, breviário na mão direita, a dois palmos, a esquerda a +segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solidéu com borla +resguardando-lhe a calvície. + +A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações +de desgosto, arremessos de breviário, e por fim levantando a voz: + +--Fome as pombas, Sr.^a Luísa: não fazem senão saltar... + +--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cozinha,--mas têm lá +visita, pomba que arribou. + +E depois informando: + +--Pomba guapa, toda branca. São agora três ao todo, e então o pombo... + +--Huum!... resmungou o abade em voz de reticências.--Percebo... percebo +perfeitamente...--E foi meter-se no quarto, continuar a +leitura.U+2014.Deixá-las! concluiu evangélico. + +Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar à reles +pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixão velho, com +grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'ali ao fundo da +varanda, húmida de águas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo. + +Quando a mostrava à criada, o abade dizia-lhe sempre: + +--A sua vergonha, Sr.^a Luísa; a vergonha da sua cara. Como se os +animais não fossem também criaturas de Deus... + +As pombas eram magras e o pombo era esquelético. + +Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hábitos canalhas, manchando a +alvura imaculada das penas na imundície fétida da gaiola em que ambos +se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem +tratada, flácida de penugens e de carnação consistente, apetitosa, o +pombo não a largava--génio de libertino em corpo de tísico. + +Em breve período entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se +queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida, +tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do +raiado, o seu primeiro amor, quem sabe! + +E depois, o pombo sujo já não se importava com ela, desprezava-a, +tentara mesmo expulsá-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus +tratos,--à intrusa. Dor incomparável! + +Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar, +descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando +sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais +alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento +e começou o voo, viu-se na água e estremeceu, molhou ainda as asas, viu +um corvo na sua própria imagem, um corvo negro que a perseguia +silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ela tinha +sido e o que era!... + +Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do raiado... Oh! o +raiado!... Receou primeiro, quem sabe se ele a quereria, tinha pomba, +decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um voo valente e +estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda. + +Fez-se de voo e partiu. + + * * * * * + +A manhã era calma e o céu era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar +que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrela da alva +tinha os últimos bocejos para fechar de todo a pálpebra cansada e +adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado +esplêndido--decoração triunfal com que se orna aguardando a visita de +quem tem de rolar pela eclíptica, alumiando o hemisfério e fecundando +tudo--o cardo que rasteja e o cedro que vê longe... + +Naquele repontar da manhã, o alto céu era de uma limpidez cristalina. +Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcíssima paz, e +pelas ramagens verdejantes a volata suavíssima dos ninhos começava, como +uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras, +florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa de alva. + +Em manhãs plácidas como aquela, quantas vezes a branca não fizera as +suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do raiado, +perdendo-se com ele através do horizonte àquela hora tranquilo e para +toda a banda transparente! + +Como tudo isto lembrava, agora! + +Em todos esses pinheirais, ao largo, os dois haviam descansado muitas +vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura inefável o amor +extraordinário que os unia! Em toda a largura não se descobria um só +campanário ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres, +contentes, doidos! E ela sempre ufana, acompanhava o macho nos seus +voos ainda os mais arrojados, perdia-se com ele para além das serranias +mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que +empenharia a vida só para salvar a da amante. + +E que bela manhã, aquela! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras +acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu voo perpendicular e +rápido! + +Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos; +melros ensaiavam solícitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a +largura--nem uma asa de pomba palpitava. Ela só, desalentada e cheia de +mágoas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte... + +Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as asas +contra o muro, arremetendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a +coragem, voejando de novo para arremeter em seguida. Os seus antigos +companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e +arrulhando forte, saíram em tropel e foram pousar no telhado, batendo +muito as asas combinando ataque. + +E como a pomba teimava em entrar, corriam a opor-se, vedando-lhe a +passagem. + +De repente, um pombo negro abriu muito as asas, agitando-as, tenteou voo +nuns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a +desgraçada pomba, e os mais após ele. Havia sangue nos bicos e penas +voando em elipsóides, um barulho de asas que se chocavam com fúria. Por +fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado, +bico aberto, num arquejar convulso, cortado de um arrulho gutural de +vida que se esvai lentamente, gradualmente, com dor. Um estremecimento +de membros por fim, uma agitação geral repentina, e--morta! + +Ares além, os assassinos em bando voavam à busca talvez de um ribeiro +onde lavassem os bicos ensanguentados... + + * * * * * + +E o raiado?--hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e +vê-lo-ão sair da janela das trepadeiras, alegre, felizão, boémio, +depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um +leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ela, +arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando... + + + + +BATALHAS DOMÉSTICAS + + + + +BATALHAS DOMÉSTICAS[1] + +_A Luís Trigueiros_. + + +Para o meu propósito, é inútil narrar-lhes esse pequenino e perfumado +idílio, cor-de-rosa, que foi na vida de ambos, durante um ano, o seu +mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde ele, Joaquim Seabra, maior, +empregado de escritório comercial, vivia desde pequeno uma furiosa +vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda ele era fedelho: e +passados poucos meses, tinha o Joaquim sete anos, uma doença complicada +levara-lhe também o pai--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas +leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira, +nas abas da Serra da Estrela. + +Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lhos. E +quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo +peito o vaso sagrado das partículas, solene sob a umbela branca de +grandes ramagens amarelas, o pobre homem preveniu o padre de que em +podendo lhe desejava uma palavra. + +--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor. + +Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente, +junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho, +entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo +de lhe murmurar, designando vagamente o filho: + +--O pequeno, coitadinho! + +De modo que foi o próprio reitor em pessoa, quem, passados dois anos, +veio meter o órfão, como marçano, numa loja de ferragens da baixa, +loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para +uns saguões de prédios contíguos. De marçano subiu com o tempo a +caixeiro; e como era aplicado, humilde, suportando com uma placidez +resignada de beirão um trabalho por vezes superior às suas forças, pulou +um dia para a escrivaninha da casa, no andar de cima, vaga pela saída +para a cadeia do outro que cometera umas falcatruas. + +--Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera diante dos patrões o +Joaquim. + +E a incisiva frase que fora, enquanto remexia a papelada, todo o seu +comentário ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a +involuntária conquista do lugar, como revelação, que era, das qualidades +fundamentais do seu carácter,--comuns, de resto, ao tipo beirão, +profundamente animal, audaz, sóbrio, musculoso, no fundo generoso e bom. + +A vida começou então a ter para ele umas entreabertas mais risonhas, +livre dessa prisão estreita da escura loja, onde os seus instintos +hereditários de independência, acordados no fundo de uma natureza +bárbara de hermínio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos +repelões de rebelião... Até que um dia, numa dessas guinadas que mesmo +à escrivaninha o assaltavam, pensou em ir à terra onde não voltara desde +pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E numa +introversão de momentos, mirando através da janela o claro céu azul, +alto naquela manhã serena de Maio, o Seabra teve a remota visão do seu +passado--das coisas da sua infância, da sua pobre e humilde aldeia +encravada num declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente +de neves eternas. E como se mirasse tudo através de um binóculo +invertido, ele lá via além, muito longe para as sugestões do seu +desejo, muito afastado para as débeis reminiscências da sua memória, +tudo isso que ele dizia em três palavras--«a minha terra!»--isto é, +esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo +do qual nascera; o campanário alto e esguio; a igreja oblonga; a fita +branca do muro do cemitério onde seu pai e sua mãe jaziam; a paisagem +circundante cortada de canais e regueiras, que parecem fios de prata +serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a +velha legião amiga das árvores--o zimbro ao alto dos morros nus; depois, +descendo, as urzes brancas; os piornos; os belos carvalhos altivos; e +já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agrícola e hortícola o +verde e tenro pára-sol das suas soberbas folhas--o castanheiro, enfim. + +Através da sua vida de balcão, duramente mourejada a mover barras de +ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com +intermitências raras de descanso, algum Domingo, pelas hortas dos +arredores, ou às vezes num bote, pelo Tejo,--a sensação melancólica da +sua paisagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cérebro, nem tão +pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infância, dos seus +companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, à +lição a casa do reitor, naquele velho sótão da residência, com paredes +denegridas e tecto de madeira com manchas... + +E que seria feito deles? Talvez que os não conhecesse, que o não +reconhecessem, agora. Talvez. E esta dúvida, esta desconfiança, dava ao +seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua +bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto +subtil e ingénuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, enfim, a propor +aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azuis e +toda rosada de cútis, que ele, sem quase dar por isso, espontaneamente, +insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda +solteira... + +...a Emília! + +E porque seja estranho ao meu propósito, e quase indiferente à história +que lhes vou contando, a crónica preliminar desse consórcio, direi que +a velha estola do reitor os uniu enfim uma manhã--manhã de Julho, na +velha e ampla igreja da freguesia, toda banhada de sol, toda rumorejante +de vozes, e sobre a qual caía sem despejar, como uma chuva alegre de +pétalas, a saraivada metálica dos sinos, repicando... Até que passados +dias, ei-los enfim em Lisboa, instalados não sei em que beco da Baixa, +perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o +escritório. + +E aqui rompe a história; e se é do agrado dos senhores, comecemos. + + * * * * * + +Bem, aquele primeiro ano. Por uma banda a Emília a cuidar da casa, +toda se desvelando nos mínimos pormenores do interior, na cozinha, no +amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a +mobília, comprada de novo, tornava alegres e confortáveis. Ele, por +outra banda, trazendo-lhe nos fins dos meses intacto o seu ordenado, e +trazendo-lhe, cada dia, uma carícia mais fresca e mais suave. E dada a +homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniência comum das suas +naturezas, originárias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas +do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saúde, +explica-se logicamente esse paralelismo absoluto de vontades que os +dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro +avesso nos seus desejos, sem a mínima divergência no seu modo de ver e +de pensar. Educados em meios diferentes, embora! o que nas suas +naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio +visual das suas inteligências, tornara podemos dizer nulo, sem +consequências no fio comum das suas vidas, esse largo período passado +em latitudes diferentes:--ela, onde ambos tinham nascido, debaixo do +mesmo céu, à luz do mesmo sol, à sombra das mesmas árvores; ele, +sequestrado de tudo isso, mas num meio sem cor para ele definida, +pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se +conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente +debaixo do luar melancólico... + +Vinha daí, e do fundo ingénuo das suas almas, estreladas das mesmas +superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao +ritmo da mesma canção, essa forte, dulcíssima corrente de ternura +espiritualizada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e +fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada +eflorescência do seu profundo amor... E pois que havia também no sangue +de ambos--bem como no seio de um diamante as iriações mordentes--as +rubras, incandescentes faúlhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se +quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo, +vivente como um largo pâmpano, nimbada, enfim, como certas telas +clássicas, por umas cabecitas loiras de crianças, frescas, ridentes, cor-de-rosa... + +Daí, como lhes disse no princípio, esse pequenino e perfumado idílio, +cor-de-rosa, que fora na vida de ambos, durante um ano, o seu mais vivo +encanto... + + * * * * * + +Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escritório, noite cerrada +já, quando uma rapariguita que lhes servia de criada havia dois dias, +vindo abrir a cancela, lhe desfechou estas palavras no acento beirão: + +--A minha madrinha está muito mal. + +--Muito mal? + +--Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê. + +Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se à umbreira, +para não cair, sentiu passar-lhe pelo cérebro, como um tufão de peste, +uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um pressentimento... E cobrando +alentos, confuso diante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz +trémula, no tom de quem procura, comprometido e humilde, esconder um +pensamento: + +--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio +da Beira. + +--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como +doida... + +--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso. + +E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do +andar de baixo,--talvez alguém que o procurasse!--fechou a porta com +força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto +impondo silêncio, com a mão sobre a boca arquejante da rapariga. + +--Cala-te, ouviste? disse-lhe quase com o bafo--Se te calares hei-de-te +dar dinheiro. Cala-te. + +A rapariga calou-se, aniquilada, toda enroscada a um canto, como um +novelo. E passados instantes, quando um grande silêncio envolvia todo o +prédio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem +nas ruas próximas, o Seabra tomou nos braços trémulos a pequena, e foi, +cauteloso como um bandido, levá-la à cama. + +--Ouves, Luísa? Não faças bulha. Dorme. + +E fechando-lhe a porta à chave, respirou, hirto no meio do corredor em +trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquele silêncio, aquela +escuridão impenetrável! E ele, como um cataléptico, ali encafuado +vivo...--triturado pela mágoa, roído pela dor, desfeito pela desgraça, +como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem, +implacáveis e cruéis, famélicas da última partícula da sua carne, +sedentas da última gota do seu sangue, famélicas e sedentas até da sua +própria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no +entanto... morto: vivo para a sensação esfaceladora da sua atroz +desgraça, do seu cruel, cruciantíssimo martírio; morto, aniquilado, +desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças...--as suas +esperanças! revoada alegre de pombas, cândidas, serenas, imaculadas, +que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e +para sempre... + +E humilde como um rafeiro ou como um trapo, numa prostração de louco +embriagado, dir-se-ia que o cérebro deixara de funcionar nesse +infeliz--como relógio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e +que tudo quanto ele sentia, e que tudo, oh Deus! quanto ele gozava! +era essa impressão aniquiladora do _Nada_, que o fundia na treva +circundante, com ela identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e +tanto e tão intimamente, que ele próprio nela se sentia diluído, e no +silêncio... + +Súbito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado ali de +perto como um réptil, escoado ali de perto, como um verme, +fosforejante na treva à semelhança de um demónio, que agitasse um +_pierrot_ de cascavéis,--uma centelha de vida animou esse corpo +aniquilado, e dentro daquele cérebro fez repontar, como luz de +lâmpada funérea alumiando um cenóbio silencioso, a chama de uma +ideia... E teve então de si próprio a estranha, diabólica visão de um +esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco imóvel +das órbitas, donde dois feixes de luz escorriam--aquele trapo +miserando ali caído, informe, esquálido, repelente, montão de gelo, e +lágrimas, e trevas...--que era ele também!... + +Entretanto, e como por força mesmo dessa alucinação desvairada e +trágica, o cérebro perdera nele a recta, serena faculdade do +raciocínio, ele continuava absorto, incompreendido, estúpido, diante +da «sua desgraça»--como diante de um grande mar de negrume, profundo e +estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céu sem estrelas, +torvo de um burel cerradíssimo de nuvens, a sombra de um espectro... E +assim em breve, retombou nessa altitude que diremos irracional,--mudo, +aniquilado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo +de um poço um bloco inanimado... + + * * * * * + +No escuro do seu cubículo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a +própria treva soluçasse, esse chorar abafado da criança, espavorida das +coisas que a cercavam, para ela misteriosas e fúnebres. Era como se um +alegre pintassilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido +de amendoeira, por uma tarde serena de Abril, pousar, num voo de acaso, +na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de +velho muro, abandonado algures... + +E porque viera? E para que viera? Não sabia. No entanto, ao contrário do +que lhe tinham prometido, que saudade infinita, repassada de profunda +nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, através do qual passavam +os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois +dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo! +E não tornara mais a ver pássaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã, +tocando à missa de alva, tangendo à tarde a ave-marias, o seu querido e +alegre sino de aldeia...--além, naquela riba suave e pitoresca, +prateada, beijada do luar àquela hora!... E o fio do seu pensamento, +que outrora derivava límpido, sereno, cristalino, como pequenino +arroio murmurante que vai entre duas alas de flores singelas, +torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido num +veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fora de lágrimas, +oculto sob a folhagem pálida... + + * * * * * + +A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto +da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez +dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como +acontece às tempestades da natureza, também a tempestade daquela alma +de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente, +gradualmente. Chorou. E como se fora o véu das lágrimas que lhe não +deixara ver até então os pormenores do seu infortúnio, deste +permitindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se +fazer com a vazante mais lúcido o raciocínio, mais precisa e mais +esperta a ideia que se lhe acendeu no cérebro, como luz que pouco a +pouco vai surgindo na lâmpada de um claustro, alumiando nitidamente, +sob o docel frio das sombras, as arestas marmóreas de um sepulcro... + +Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas +linhas contornais pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade +rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde seca de Maio. E foram +então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina, +por entre as maxilas ferradas, do fundo do peito em ânsias. Então foi o +arrancar convulsivo dos cabelos, às guinadas, teimosamente, num duelo +de loucura com a dor física, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a +beber o próprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes, +lacerantes como se foram de abutre. + +--Ah! raios do céu, e não morro! + +E como o grito lhe saiu mais alto, prestes levou ao chão, como +beijando-o, os lábios estranhamente rasgados pela cólera. Veio-lhe então +o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrível de que se +divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a +conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo ele se encolhia, e +todo ele se sentia gelado até ao mais íntimo da sua alma, supondo-se +na rua, como outrora, ao vivo e claro sol, levando aderente às costas, +como um ferrete ou como um cáustico o olhar de «toda a gente»... E com +as unhas ferradas na testa, escondia da própria treva, com as mãos +ambas, o rosto cobarde e arrepanhado. + +--Diabos do Inferno! levai-me! + +A este novo grito, porém, súbito se recolheu num grande pavor +religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce, +harmoniosa, como na paz tranquila do campo o fumo azul-claro de um +casal... E teve a doce visão de um arco-íris, bonançoso e rutilante, +repontando luminoso no burel aspérrimo da sua alma, onde uma clareira se +abria. E foi quase a sorrir, chorando as primeiras lágrimas tranquilas, +que dos seus lábios quase serenos voou como uma pomba alvinitente, que +transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor: + +--Deus! + +E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida num +como enlevo de visão, um ruflar de asas de pombas... à hora da alva... +sobre os campos... numa clara manhã de Maio, perfumada... + +E como se mão invisível o erguesse, devagar, serenamente, enxugando-lhe +da orla das pálpebras a última lágrima de sangue deposta ali pela sua +alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contíguo, onde +sua mulher estava, o seu anjo, o seu tesoiro, a sua vida... E foi +submissamente, como um cão duramente batido que volta aos afagos do +dono, que sobre os lábios da adormecida esposa, secos, pálidos, +desbotados, ao claro luar vindo do céu, o triste uniu os seus lábios +frementes,--...num beijo suavíssimo de perdão. Ao mesmo tempo que ela, +num delírio, repetia a frase cruel: + +--Mais vinho! + + + + +NOTAS: + +[1] Sendo necessário completar o número preestabelecido de páginas de +cada volume desta _Colecção_, número além do qual se não pode ir e +aquém do qual se não deve ficar,--o editor pediu e obteve do autor, em +vez de novo conto, um excerto do seu livro em preparação, livro +provisoriamente baptizado com o título de _Batalhas domésticas_. O +excerto pode dizer-se que constitui só por si, como os leitores verão, +um trabalho literário, independente e uno, o que de certo modo lhe dá +lugar nesta colecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além +disso, a transição do espírito do autor para uma nova fase, literária +e artística. + +N. do E. + + + + +ÍNDICE + + +Idílio rústico + +Sultão + +Última dádiva + +Prelúdios de festa + +Tipos da terra + +V[ae] Victoribus + +Maricas + +Para a escola + +Tragédia rústica + +Abyssus abyssum + +Mãe + +Arrulhos + +Batalhas domésticas + + + + +OS MEUS AMORES E A CRÍTICA + + +Da Revista Ilustrada (extracto da crónica):--«..._Os meus amores_, de +Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições +agradabilíssimas ao paladar de ambos os sexos, e com delicadas +circunstâncias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das +preocupações literárias mais evidentes deste escritor primoroso é +fazer jus à amizade das leitoras, e como dispõe de perícia no ferir de +certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento, +consegue-o.--_Alfredo Mesquita_. + + +Jornal da Noite:--«Trindade Coelho--Este ilustre escritor, nosso +talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo +livro de contos _Os meus amores_. + +De entre a plêiade de prosadores, que por aí mourejam no mundo das +letras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distintamente, +e impõe-se à admiração dos que apreciam os talentos brilhantes +privilegiados. + +Os trabalhos do ilustre escritor, se pela estrutura original e +encantadora são dignos do maior apreço, pela elegância da forma, +burilada a primor num estilo finíssimo e cintilante, despertam os +mais francos, sinceros e entusiásticos encómios dos que os lêem. + +Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu belo +carácter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos +serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distinto colega.» + + +Diário Popular:--«_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de +graciosos contos, retratando aspectos da vida da aldeia e do campo, que +acaba de aparecer, firmado por Trindade Coelho. + +O escritor, como verdadeiro artista que é, localiza todas as suas +atenções, de há muito, no trabalho de apreender com fidelidade o +viver campesino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi +berço. Por isso o seu fabrico literário se aprimora de dia para dia +numa escala crescente de sinceridade, e por tanto mérito: _Os meus +amores_ o atestam, quando postos em paralelo com os primeiros contos +publicados avulso. + +Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o diálogo que busca e +consegue fotografar com particular exactidão. Em vez dos descritivos, +quase desprezados, são trechos sucessivos de conversas de uma +encantadora rudeza ingénua que formam o estofo principal de todas as +suas produções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho +pessoal da sua obra, que proporciona agradáveis e confortáveis momentos +de leitura.» + +Diário Ilustrado:--«Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um +admirável soneto de Luís Osório, que depomos nas mãos da leitora, como o +perfumado ramo de cravos valencianos, a flor actual das suas +predilecções femininas: (_segue o soneto inicial._) + +E pelo braço do poeta da _Alma lírica_ subimos ao doce convívio +espiritual da alma de Trindade Coelho. + +O conto _Mãe_, uma rica jóia engastada neste livro, brilhando aí por +todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte +de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para +aferir os dotes mentais de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante +estilo moderno, fluente e sóbrio, incisivo e profundo, vibrátil e +melódico, o diploma do seu notável talento. + +É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade +espontânea que estes contos nos cativam. + +O autor diz-nos, sem preocupações de escola e sem pretensões a abrir +caminho pela deslocação do vocábulo ou pela selva escura do escândalo, o +que viu, analisou, observou e sentiu. + +As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslizam +suavemente, tocadas a espaços de uma inigualável melancolia +contemplativa que lhes duplica o encanto. + +Mas nesses singelos contos, artisticamente concretizados, Trindade +Coelho revela o superior poder evocativo da visão íntima, que o +singulariza. + +A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para ele, +como para todos os artistas de raça, atitudes, expressões, cores e +sons, que o autor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora +eloquência dos iniciados, e o misterioso enternecimento, que só nos +transmite a simples leitura dos poetas. + +Há rápidos traços de análise emotiva ou de comoção reflexa que valem +poemas. + +E não serão o _Idílio rústico_, a _Mãe_ e outros contos, soberbamente +delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa? + +Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo +seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o +seu primeiro triunfo.--_Gabriel Cláudio_.» + + +Jornal do Porto:--«_Os meus amores_.--A colecção António Maria Pereira +aumentou-se de um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e +está escrito pelo nosso ilustre colega e literato distinto o Sr. +Trindade Coelho. + +Deste livro que, pelas suas destacadas qualidades literárias, deve +achar grande aceitação no nosso público, escreveremos em breve as +palavras apreciadoras que ele merece.» + + +Correio Elvense:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado +escritor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas a +que deu o título: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de +António Maria Pereira. + +Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da +capital, fez ainda há pouco algumas das suas melhores armas na imprensa +em Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que +tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto +estilista. + +Não só nos seus escritos passados, mas então, conhecemos o grande valor +que indiscutivelmente possui. Não nos surpreendem pois os seus +triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons +e sinceros amigos. + +Num dos próximos números falaremos da impressão colhida em _Os meus +amores_, agradecendo desde já as expressões afectuosíssimas que +acompanham a dedicatória do livro, que o seu autor nos ofertou.» + + +Correio do Norte:--«_Os meus amores_.--Contos e baladas.--Trindade +Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escritor, acaba de publicar um +livro de contos com o título acima indicado. É esta uma bela novidade +para o nosso mundo literário, onde Trindade Coelho de há muito soube +conquistar um lugar dos mais distintos, pelo seu belo talento e +poderosas qualidades de escritor. + +Limitamo-nos por agora a dar esta simples notícia do aparecimento do +novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre ele. + +Agradecemos ao nosso prezadíssimo amigo a delicadeza do seu +oferecimento.» + + +O Globo:--«_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de +António Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome +de Trindade Coelho. + +Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas há-de ser por certo +trabalho de grande valor artístico, como invenção e como execução, +porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra literária má. A +sua educação literária está feita, e os seus numerosos trabalhos tão +apreciados, tão portuguesmente escritos, tão sentidos e tão espontâneos +revelam qualidades de escritor de raça. Ele tanto pode ser um +jornalista eminente como é um contista original. + +_Os meus amores_ é uma colecção de contos e baladas. Conhecemos alguns +capítulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para +não errar na apreciação. Vamos lê-lo com a convicção de que teremos de +saborear um desses raros mimos literários que só os privilegiados de +talento sabem oferecer aos seus leitores.» + + +Diário de Notícias:--«_Os meus amores_.--_Contos e +baladas_.--Anunciámos, em tempo, o próximo aparecimento deste +trabalho, com que o brilhante contista e nosso colega do _Portugal_, o +Sr. Trindade Coelho, ia aumentar a colecção, já tão valiosa, das +edições do Sr. António Maria Pereira. + +O livro acha-se, enfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que +desde logo nos autorizaram a emitir os elevados méritos literários do +seu autor, tantas vezes comprovados em numerosos escritos anteriores. + +Com uma observação escrupulosa, e um pitoresco estilo, de uma pujança e +de uma riqueza não vulgares, sem atentados contra o bom gosto, nem +rebeldias contra o bom senso, os contos do Sr. Trindade Coelho são, a +todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que há-de entrar, sem +hesitações, na aceitação do público, e que há-de ficar longo tempo, a +atestar, numa formosa prova, a riqueza de um espírito, superiormente +educado, dúctil e prontamente maleável. + +Porque esses contos são a obra de um genuíno artista, cuja _maneira_, +simultaneamente fácil e apuradíssima, revelando a espontaneidade de uma +fecunda fantasia, traduz e afirma a fina sensibilidade de uma alma +delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de +seiva. + +Não pode entrar nos curtos limites de uma simples notícia, a mais +desenvolvida crítica desse trabalho, que tem, na próprio nome do seu +autor, o melhor e o mais seguro título de recomendação para obter do +público a consagração de um largo e legítimo sucesso. + +Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luís +Osório--preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquele +rico e primoroso escrínio de verdadeiras e puras jóias literárias.» + + +A Actualidade:--«_Os meus amores_.--Este nome é o de um novo livro da +colecção António Maria Pereira. Pelo título presume-se um volume de +versos; mas não é, o que não quer dizer que nele se não surpreenda +legítima poesia. Trata-se de contos e baladas, originais do Sr. +Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escritores. + +Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso +contista: + +Estilo correcto, elegante, vivo; descrições ricas de observação e +atraentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da forma; despidos de +grandes artifícios os entrechos, mas subjugantes pela muita +naturalidade; o diálogo, em suma, admirável pela singeleza e, sobretudo, +pela propriedade. + +Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do Sr. Trindade Coelho, +deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as +narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idílio rústico_, +que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se +encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notável poder +de observação e que deixam o espírito suavemente impressionado. Leiam, e +verão que não exageramos na opinião que aí deixamos rapidamente +exposta. + +Ao autor o nosso reconhecimento pelo mimo da oferenda.» + + +Correio da Manhã:--«Registar o aparecimento de um livro bom, linguagem +elevada e singela, desartificioso e artístico, repositório vasto de +observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é +sempre agradável à crónica, neste tempo sobretudo de literatura +gafada, ou de arte ainda literária quase pornográfica. + +_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos oferecer Sr. Trindade +Coelho é um livro desses. Colecção primorosa de contos e baladas, em +que no mais despretensioso dos estilos nos conta recordações e idílios e +nos mostra uma galeria rica de tipos e de figuras cuidadosamente +observados e primorosamente expostos. + +O último conto _Para a escola_, que dessa bela colecção acabamos de +ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assemelha-se +notavelmente à maneira de Gustavo Droz. + +Não é o lugar nem a acasião de fazermos a crítica do livro e a +apreciação deste novo, deste debutante, que ao primeiro assalto parece +estar já senhor da batalha. + +É por isso que sinceramente o felicitamos.» + + +Vanguarda:--«_Os meus amores_.--O nosso colega, o Sr. Trindade Coelho, +que quase só conhecíamos pelos seus libelos acusatórios, acaba de nos +enviar um livro primoroso com este título, no qual a feição carregada e +sombria do agente do ministério público desaparece por completo, para +nos deixar apreciar só o espírito finalmente delicado do homem de +letras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente +sabedor do seu ofício. + +Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o +outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do +ministério público, que parece lhe oblitera às vezes as suas excelentes +faculdades.» + + +Primeiro de Janeiro:--«_Os meus amores_.--Acabamos de receber o +formosíssimo livro de contos «_Os meus amores_», de Trindade Coelho. + +Não é ainda a ocasião de pormos em relevo todas as qualidades +literárias, complexas e brilhantíssimas, que se evidenciam neste +livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assinaláveis entre os +mais ilustres cultores da prosa portuguesa. + +Os contos por onde «_Os meus amores_» se repartem não são apenas +maravilhas de linguagem, onde tão somente se destaquem destrezas e +fulgurações do estilo: a acção que os anima constitui uma deliciosa +galeria de quadros, aspectos íntimos e exteriores da vida, colhidos em +flagrante com uma extraordinária subtileza e lucidez de observação e +trasladados a uma forma superiormente artística, onde há firmemente +acentuados todos os caracteres de uma esplêndida organização +literária. + +É um livro vibrante e magnífico--adoráveis páginas intensamente ou +delicadamente emocionadas e primorosamente escritas, cuja leitura é um +verdadeiro encanto. + +As nossas cordiais felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a +gentilíssima oferta do seu livro.» + + +Folha do Povo:--«_Os meus amores_.--Está publicada em volume uma série +de _contos e baladas_ com que o Sr. Trindade Coelho, o brilhante +colaborador do _Portugal_, vem enriquecer a literatura _contista_ +entre nós, hoje tão querida do público, depois que os trabalhos de +Fialho de Almeida deram a esse género literário um valor até então +mesquinho. + +A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e baladas_ do Sr. +Trindade Coelho é um estilo muito seu, cheio de uma cristalina +naturalidade, _afastando-se completamente dessas excrescências de mau +gosto_, que ultimamente têm abastardado a língua portuguesa,--prova da +superioridade intelectual do escritor de que nos ocupamos--, visto +que não mira a uma falsa glória, conquistada facilmente pelas +excentricidades de estilo, que são hoje uma verdadeira mania entre +alguns escritores da chamada geração moderna. + +O Sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo à espontaneidade +das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista, +porque nunca a frase lhe sai banal, nem tão-pouco envolvida em ouropéis +de mau gosto literário. + +E no entanto encanta-nos,--prova de que está ali um primoroso +escritor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da +natureza por uma forma de observação, que não é desta nem daquela +escola. É simplesmente sua, individual. + +Notamos mesmo um progresso no livro do Sr. Trindade Coelho; porque as +suas primeiras produções literárias ressentiam-se de uma tal ou qual +preocupação de _efeito_ no modo de construir a frase. Hoje, o +escritor adquire a independência da sua maneira, do seu processo, e +feito a tirar decorre fatalmente dessa independência, visto que os seus +quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reprodução do que o +artista observa em volta de si. + +Certamente que o público lerá com encanto o novo livro do Sr. Trindade +Coelho, pelo que felicitamos o autor, e--podemos mesmo dizer--a +literatura portuguesa.--_Silva Lisboa_.» + +Diário Ilustrado:--«De tempos a tempos chegava-nos do Alentejo um +periódico que não deixávamos nunca de ler pelo fino gosto literário, +pitoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos, +incluindo os políticos. Esse periódico era redigido por Trindade Coelho, +cujo talento conhecíamos desde Coimbra, e cuja individualidade +literária víamos agora acentuar-se com um vigor de originalidade +verdadeiramente notável. + +De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o +_Diário Ilustrado_ e, vindo estabelecer residência em Lisboa, algumas +vezes tivemos a honra de receber nesta redacção a sua visita, sempre +agradabilíssima para nós, porque a sua conversação cintilante +aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho. + +Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir num volume--que faz parte da +colecção _António Maria Pereira_--os seus deliciosos contos, cheios de +observação, de verdade, de simplicidade artística, que é, a nosso ver, +suprema expressão de beleza neste género de composições literárias. + +_Os meus amores_ são um belo livro, em que o estilo se não contorce +atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da +forma literária denunciam uma carência absoluta de espontaneidade. Tudo +ali deriva naturalmente, tanto na sequência lógica dos caracteres e dos +episódios, como na contextura fácil, mas colorida, dos períodos. + +Numa palavra, _Os meus amores_ são a obra de um artista, de um homem +que sabe do seu ofício, e que tem uma individualidade bem definida por +traços profundos de verdadeira originalidade.» + + +Voz Pública:--«_Os meus amores_.--Trindade Coelho, inegavelmente um +talento de primeira água, acaba de brindar a literatura portuguesa com +um excelente livro de contos subordinado àquele título e que constitui +o duodécimo volume da elegantíssima _Colecção António Maria Pereira_. + +_Contos e baladas_ é o subtítulo do livro, e muitos ao lerem-no +julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa +vernácula, correcta e vibrante que estão escritos os belos contos de +que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido. + +São todos eles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e +verdade dos seus tipos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os +formosos tipos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo malogrado +autor da _Morgadinha dos Canaviais_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_. + +Lemos de um fôlego o magnífico livro, e ninguém que o comece a ler +deixará de o fazer como nós; tão atraente é a forma por que Trindade +Coelho conduz todos os ligeiros contos de que ele se compõe, que sem +querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste +dele ter acabado. + +Todos magníficos, dizemos, mas se alguns há que mais nos prendessem, +foram os que se intitulam _Tipos da terra_ uma galeria curiosa de tipos, +e _A mãe_, um conto de natureza, simples e comovente na sua +simplicidade, e notável pela sua originalidade. + +Recomendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos +leitores.» + + +Ordem do Dia:--«_Os meus amores_.--Este é o titulo do 12.^o volume da +colecção António Maria Pereira, inegavelmente a publicação mais +elegante, mais barata e mais interessante do país. + +_Os meus amores_ são uma série de contos e baladas, em prosa, devidos à +pena de um moço talentosíssimo, de há muito conhecido nas lides do +jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançara ao mercado um +livro; com este debuta o autor, e é uma estreia auspiciosíssima a sua. + +A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e nele é +cultivado um género--o de contos, alguns à maneira de Gustave Droz, que +prendem e interessam o leitor em todo o sentido. + +Foi gratíssima a impressão que ele nos deixou no espírito e esperamos +que Trindade Coelho continue a brindar o público com as suas belas +produções, porque estamos certos de que quem ler _Os meus amores_ será +com sofreguidão que esperará novo volume do distinto escritor, tal é o +encanto da sua escritura». + + +O Sorvete, (com o retrato do autor):--«Dr. Trindade Coelho.--Mais uma +prova do seu brilhantíssimo talento! Mais uma vez justificada a alta +competência e finíssimo espírito de escritor distintíssimo! + +O novo livro de Trindade Coelho,--_Os meus amores_--contos e +baladas--editada pela casa António Maria Pereira, de Lisboa, é, no +dizer dos entendidos em literatura,--uma verdadeira jóia.» + + +O Esposendense:--«_Os meus amores_ (contos e baladas) por Trindade +Coelho.--Faz parte este volume da interessantíssima colecção António +Maria Pereira, tão bem aceite do público, pela superior escolha das +obras publicadas e pela modicidade extraordinária dos seus preços. + +_Os meus amores_ é um precioso agrupamento de contos, alguns inéditos, +outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com aplauso por +diferentes jornais do país. Decorridos quase todos em plena aldeia +trasmontana, cujos costumes o autor conhece de sobra, pois é natural de +Trás-os-Montes, e foi durante alguns anos, delegado do procurador régio +numa cidade de província--os contos desta colecção tornam-se +sobretudo notáveis pela propriedade e pela fidelidade da acção, +verdadeiros, nítidos, reais, palpitando da cor própria da paisagem, +vivendo da vida natural, íntima e intrínseca, dos personagens e das +coisas. + +Entre as nossas obras literárias originais, _Os meus amores_ merecem, +pois, um lugar à parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de +Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam +pela literatura nacional, mas como a poderosa afirmação de um prosador +elegante e de um contista distinto, no meio da grande maioria da chata +vulgaridade indígena. + +_Os meus amores_ é, em suma, um livro de valor, bem cabido nas mais +escolhidas bibliotecas.» + + +O Português:--«_Os meus amores_.--Delicioso título de um livro +delicioso. + +O livro é uma colecção de graciosos contos, editorada pelo Sr. António +Maria Pereira; e o autor é o nosso colega do _Portugal_, Sr. Trindade +Coelho, que, nos ócios da magistratura, de que é digno representante, +cultiva as letras com desvelado amor. + +Em Coimbra, estudante ainda, era já literato apreciado, colaborando, +com aplauso dos mais doutos, em jornais e revistas, que há mais de dez +anos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reúne ao seu título +de jornalista a invejável nomeada de contista esmerado, e brinda as +letras portuguesas com um volume, que está tendo a mais justa e +lisonjeira acolhida. + +O primeiro conto do livro, _Idílio rústico_, não obstante ser agora +publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque +apareceu manuscrito num concurso literário da extinta _Associação +dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagração de um júri, terá +agora a consagração do público. + +Depois do _Idílio rústico_, vem o _Sultão_, um quadro magnífico da vida +campesina, notável de simplicidade e graça; e a _Última dádiva_; e os +_Prelúdios de festa_; e os _Tipos da terra_; e as _Baladas_; e a +_Tragédia rústica_; e a _Mãe_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas +domésticas_: outros tantos primores, que às vezes nos fazem lembrar as +deleitosas e serenas paisagens de Daudet. + +Agradecendo ao autor a gentileza da sua oferta, congratulamo-nos por +não haver ainda expirado entre nós a literatura sã, que, ou nos +desperte o sorriso ou nos obrigue a lágrimas, não nos deixa no espírito +a impressão doentia das nevroses literárias...» + + +Jornal da Manhã, Porto:--«_Os meus amores_.--Mais um volume acaba de ser +publicado da colecção António Maria Pereira, por sem dúvida a mais +elegante, a mais escolhida e a mais económica biblioteca que se publica +em Portugal. + +É o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e +baladas, em que o talentosíssimo escritor acaba de reunir todos os +seus contos dispersos por vários jornais, e alguns inéditos. + +Do primeiro ao último, os contos que compõem _Os meus amores_ são +espécimes no género, porque, além de constituírem uma esplêndida galeria +de quadros íntimos, de retratos, de tipos, são a confirmação de uma +verdade já por nós há muito aceite: que o seu autor tem todos os +requisitos de um escritor de primeira ordem; estilista vibrante, +correcto e sempre elegante. + +E se formos a escolher o melhor desses contos, ver-nos-emos em sérios +embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua +leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se há que mostrar +predilecções por algum deles parece-nos que os melhores serão _A Mãe_ +e _Para a escola_, aquele uma delicada e emocionante história arrancada +flagrantemente à natureza, e este saudosas recordações de um passado que +não volta. + +A edição, escusado é dizê-lo, é nitidíssima.» + + +O Tempo:--«_Os meus amores_.--Este livro teria vindo melhor nas noites +invernosas para serões às lareiras crepitantes:--as faíscas de ouro +subindo no tecto, o vento zunindo fora açoitando a chuva, e dentro, no +conforto recolhido, gozar-se o contraste das paisagens alegradas pelo +sol, espelhadas na água rumorosa, com gorjeios e trinados de aves, +paisagens que o Sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delícia suave e +subtil de iludidor ameno. Mas não se pode aconselhar o leitor a que se +prive de saboreá-lo desde já, tanto mais que os tempos vão agoireiros +para a arte de manancial, e os que a cultivam têm de separar-se dos +estragadores d'Ela e das cabeças quase vazias que espremem e segregam o +pus nauseabundo do sadismo medíocre. + +Estes estão agora entretendo o público arrebanhado para saborear com +prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os iguala--o vingador--ao +imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos autores das _Pimentinhas_ +e _Berbigões Ardentes_. + +Que o livro de glorificadora arte do Sr. Trindade Coelho seja o +perfumador dos excrementícios e apareça em plena luz nas mesas e nas +famílias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador +destas linhas corredias, na certeza de que recomenda à atenção um +artista recolhido que sabe ter força nos traços ténues e meias-tintas +dos seus quadros, que capricha em suavizar idilicamente as dores +vulgares da vida aceite, da materialidade animal, dourando-as com +recantos de natureza chilreante. Que me perdoem insistir na +impertinência: mas, o que no livro mais particulariza o talento de quem +o assina é a compreensão das paisagens, o sabê-las colorir, animar, +pô-las ante os olhos que lêem. + +As grandes dores obscuras e sinceras, as brandas afeições, amizades +arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples +sustentados por ingénuas crenças e suavizada fé, tudo o que a aldeia tem +de ameno, de atraente, de pitoresco, de consolador, os seus ridículos +mesmo, vestindo atitudes de paródia em teatrinho de curiosos, tudo +reveste bem o Sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom +humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reais, bem apanhadas, como se +diz, e que refrescam o rosto num aberto sorriso de ventarola. O livro +encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o autor encerrou por +anos a sua nostalgia--a pior de todas: nostalgia de +delegado!--apertando os voos do seu espírito de artista que ama pairar +com a fantasia para o longínquo, para o que se Imagina, para o Distante, +o Inacessível, o Insaciável. Sonhos e fantasias que morreram e se +dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas +noites uivantes do Inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de +recordação e de saudade donde brotou o livro, escrito decerto nas +horas feriadas do trabalho árido, com a documentação da natureza que +vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se +compraz na arte libertadora. + +Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar +preferência pessoal--e talvez pecadora--ao _Idílio rústico_, à _Última +dádiva_, à _Mãe_, às _Batalhas domésticas_, que fecham o livro e deixam +entrever no autor um desejo de animar os personagens tanto como anima a +natureza onde eles sentiram. Há contos nos _Meus amores_ que fazem +lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da +patada épica do que fez _Créte-Rouge_ e _Ompdrailles_. + +O Sr. Trindade Coelho é um escritor tão distinto quanto aclarado pelo +jorro de arte que vem de há muito confundindo os convulsionários do +talento; os serenos no desdém; os entusiastas; o que, despindo o +metafórico, quer significar que ele está em posição artística onde +decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar atenção e +respeito.--_M. Caldas Cordeiro_.» + + +António Maria, (com o retrato do autor, desenho de Rafael +Bordalo):--«_Os meus amores_ por Trindade Coelho.--A livraria +portuguesa tem tido uma enchente, como raramente lhe sucede, na última +quinzena. Depois do êxito do romance de Abel Botelho e do livro de +memórias de Luís Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho, +com a amável denominação de _Os meus amores_. + +Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... É originalíssimo, +agradabilíssimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar, +que usa o autor deste belo livro,--agradabilíssimo contista, +escritor originalíssimo, cujo nome a bibliografia regista hoje, tão +notavelmente, como o jornalismo de há muito o registara. + +A quem o ler, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas +horas muito bem passadas, passeadas por aquelas paisagens e recantos +provincianos que ele pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se +estivesse; em companhia daqueles tipos que ele retrata, tão +fotográficos, tão nítidos, que é estar a gente a vê-los, a ouvi-los, a +falar-lhes... + +--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!» + + +O Tempo:--«_Os meus amores_.--É como Trindade Coelho intitula a +colecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela +livraria do Sr. António Maria Pereira. + +Há muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escritor de +Trindade Coelho, desde quando lhe lemos as suas produções literárias +num jornal de Coimbra, e que eram as primícias de trabalhos mais +primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo. + +O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira à última +página sem um momento de cansaço ou de fastio. O espírito do leitor +delicia-se seguindo todas aquelas cenas campesinas, de uma singeleza +tão comovente, e que nos _Meus amores_ são descritas numa forma em +que se revelam todas as qualidades de um distinto e notável escritor. +Só pode apreciar bem o mérito daqueles contos quem souber quanto +cuidado há no labor paciente do artista para conseguir dar ao estilo o +tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer neste género de +pequenas novelas, talvez o mais difícil de todos. + +Não nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contém preciosas +jóias literárias, e ao qual está, sem dúvida, destinado um honroso +lugar na nossa literatura contemporânea.» + + +Correio Elvense:--«Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado +escritor publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas que +deu o título: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de +António Maria Pereira. + +Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da +capital, fez ainda há pouco algumas das suas melhores armas na imprensa +de Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que +tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto +estilista. + +Não só nos seus escritos passados, mas então, conhecemos o grande valor +que indiscutivelmente possui. Não nos surpreendem pois os seus +triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons +e sinceros amigos. + +Num dos próximos números falaremos da impressão colhida em _Os meus +amores_.» + + +O Dia:--«_Os meus amores_.--Se fosse no século passado, os fazedores de +proémios, prólogos e conversações preambulares com os pios leitores, à +falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo +aproveitariam a ocasião para sobre o nome do autor glosarem vários +elogios ao livro, visto que aquele se chama Trindade e é ao mesmo tempo +um poeta sincero, um escritor de raça, e um observador atento, +qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjunto nasceu uma +obra formosíssima, animada de verdadeira comoção, sentida nas suas mais +pequenas minúcias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista. + +A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo nesta reunião +de contos, que o Sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso, +copiando do natural, e em que os personagens foram surpreendidos nos +seus labores de cada dia ou nas suas íntimas cogitações. + +Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na notícia deste livro, +e por isso nos limitamos a recomendá-lo como leitura atraente, como +obra de arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma igualdade +nem com o mesmo fôlego, como uma grande lição literária aos fazedores +de naturalismo brutal. + +Ao autor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para +que eles sejam tantos, que afoguem os autos e libelos em cujo meio o +magistrado tem de viver, e donde sai amiudadas vezes para nos provar +que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não +prejudica a índole do escritor.» + + +Novidades,(entrevista com João de Deus acerca dos +_novos_):--«_Literatura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos, +porque não leio jornais, e não os leio porque os literários ocupam-se +na propaganda da imoralidade, e os políticos na propaganda do suicídio, +e na do jogo das lotarias, que seduz principalmente os enjeitados da +fortuna, mais sequiosos de domarem, num acaso da sorte, as agruras da +sua vida. E enquanto o rico joga o supérfluo, o pobre joga os trinta +réis de três quartos de um pão. + +Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira +alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que ele dispa a toga, +que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha +muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem +lho ler. + +--Li já todo o livro. + +--E depois, meu amigo, nós andávamos precisados de uma coisa casta, onde +fossemos purificar o espírito dessas tais observações fisiológicas, e +não sei que mais, que por aí aparecem todos os dias. O livro do +Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem +definir-lhe. Olhe: ali está aquele quadro, em que os traços são +correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma +bela cabeça de rapariga, a fisionomia doce, o olhar abstracto: este +tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus +por ter graça. A graça na literatura é tudo, mas é muito rara.» + + +Novidades:--«_Novelas rústicas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_ +(contos e baladas.)--Lisboa, livraria de António Maria Pereira--1891. + +No seu penúltimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse +céptico amável e pirrónico, que tem sido o terrível sapador de todas +as doutrinas axiomáticas da crítica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs +pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que +seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les +gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou +mauvais.» + +O conto moderno é como o romance, essencialmente analítico e +psicológico, escrito em estilo técnico, e destinado sobretudo a +apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma +humana. A literatura contemporânea tem procurado, quase +invariavelmente, os seus temas entre os vícios, as paixões e todas as +energias depravadas do coração. A arte do Sr. Trindade Coelho é muito +diferente disso, porém. O seu idílico livro de contos e baladas, +aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da +paisagem trasmontana, e habitado por heróis simples, colhidos com +intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem, +decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta +actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros +dos escritores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao +empreender a leitura dos _Meus amores_, duzentas páginas suaves e +simples, sem pedantescas pretensões a passarem como tratado didáctico de +psicologia. + +Disse-se de Júlio Dinis que ele era principalmente um paisagista, e que +as suas figuras só serviam para dar expressão e vida à paisagem. + +O Sr. Trindade Coelho possui, igualmente, a sensação visual +particularmente desenvolvida, e as suas descrições são também, como as +do autor das _Pupilas do Sr. Reitor_, magicamente poetizadas, como que +apercebidas de longe num esbatido vago de sentimento e de saudade. +Chega-se às vezes a ter a ilusão de que o artista está ali, páginas a dentro +do seu livro, fazendo reviver no pensamento a álacre impressão +das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal, +cuja lembrança, ele conserva sempre viva, como nos versos de Salvador +Rueda: + +Por donde voy me sigue como memoria tierna +tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar; +¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna +el coro que tus árboles entonan á la mar! + +Aí têm, para prova, esse trecho de um descritivo de manhã aldeã, +quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horizonte: + +«A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, +e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em +cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam +despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de +perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena, +tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de +asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede +à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em +recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação +era mais rica de seivas e mais fácil a presa dos insectos, perdizes +gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos +vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas +de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicolos, viam-se +os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e +berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas +povoações próximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a +ave-marias. Nas quintas Casais fumegavam os tectos, dizendo horas de +almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu +imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza acordada +para a labuta interminável do dia.» + + +No notável estudo de psicologia literária de M. Fr. Paulhan sobre a +descrição pitoresca, então habilmente apreciados os elementos +constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na +qualidade e na intensidade. + +«Chama-se imaginação sensível», diz o distinto observador, «o acto pelo +qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação, +como tem sido há bastante tempo notada, não é,--principalmente se +considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma cópia +enfraquecida de uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar +um momento, um quadro, uma estátua, qualquer coisa que imagino, se as +minhas recordações são bastante nítidas, é uma espécie de cópia +enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o +quadro ou a estátua. A imaginação, tomada até no sentido restrito que +lhe damos aqui, varia muito de uma pessoa para outra, quer em +intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas têm as +imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais +concretas; em uma palavra, as suas imagens aproximam-se muito da +sensação; outras, pelo contrário, são inclinadas para as ideias +abstractas e têm necessidade de um esforço para se representarem as +sensações de uma maneira um pouco nítidas. Tem-se reparado que a visão +mental, nitidíssima em geral nas crianças e nas mulheres, torna-se muito +fraca e por vezes desaparece nas pessoas preocupadas sobretudo de +ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual. +Eis uma pequena experiência indicada por Wundt, que, mostrando as +analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo também as +diferenças individuais com relação à intensidade com que a imagem +concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo +num objecto corado, se voltamos os olhos para uma superfície parda, +vemos uma mancha corada da cor complementar da primeira. Se o objecto +era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul-índigo, +a mancha será amarela, etc. Ora é possível, mas isto não +sucede a toda a gente, perceber esta cor complementar não só depois de +ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter +imaginado. Pode-se, por exemplo, pensar numa cruz vermelha: lançando em +seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se há +uma boa imaginação visual.» + +Essa imaginação parece tê-la o Sr. Trindade Coelho. A vivacidade, +tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descritivo, +que nos dá conjuntamente a impressão da forma, da cor, do som, e até às +vezes do aroma, representa um fenómeno especial de evocação +sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois desse, a +íntima satisfação que faz aflorar, aos lábios do leitor inteligente, um +sorriso de doce comoção, a cada singelo episódio das suas narrativas, +todas frescas e sadias, e cujo menor mérito não é, decerto, o de serem +escritas numa linguagem airosa e despreocupada, mas tersa e +legitimamente portuguesa. + +O livro do Sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas análises +introspectivas, o papel da crítica perante _Os meus amores_ é bem fácil, +porque ela deve quase cingir-se à afirmação do seu aplauso +incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escritor, o que +pode muito bem representar uma livre depravação de gosto. + +Por mim confesso sinceramente que me deixou no espírito a mais amável +recordação, pura e oxigenada, a leitura dessas belas novelas +rústicas, todas impregnadas de uma ideal graça campesina, tilintando de um +eco amorável de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre +margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha +simpatia, desejo mencionar especialmente o conto que abre o livro e o +caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.» + + +Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder de observação e uma enorme justeza +de expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciais qualidades +literárias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de +verdadeiro artista, aberta à compreensão ampla da natureza, e fundindo +os fenómenos, as coisas e as criaturas num conjunto nítido que se +desata em descrições opulentas de vida e de calor, fulgurantes +de energias dominadoras, pródigas de imagens que o melhor cristal de +Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias +possantes que prendem o espírito mais inculto e o obrigam, ali, a fixar +e a compreender o objecto que o autor quis frisar. + +E essas qualidades ressaltam brilhantemente de todos os contos que +compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o +delicado sentir do autor transmitiu a cada cena onde o coração tem +parte, ou seja o coração de qualquer daqueles dois pequenos do _Idílio +rústico_, ou o da _Ruça_, a bela cabra que no meio de mil angustias de +mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surpreender a ele próprio, +a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida, +vejam o afecto que irradia daquele _Para a escola_, quando fala da +velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras letras. + +Se das coisas afectivas, que mais o namoram, e das descrições +naturais, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um +pedaço caricaturando uns tipos com tanta sobriedade de _charge_ que mais +nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da +vilória da _Comédia na província_, que entretêm a tarde na praça a +dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos hábitos. +E quando aos tipos pode juntar um estudo de costumes, aquela _Véspera +da festa_ exemplifica vantajosamente o que ele sabe fazer. + +No fim do livro, foi para mim surpresa aquele excerto das _Batalhas +domésticas_, onde me pareceu descobrir uma novíssima orientação do +autor, inspirada porventura numa atmosfera densa de inovações que vai +por aí. Claro que o seu talento adapta-se mais essa forma com a +maleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a +característica literária de Trindade Coelho, evidenciada em tantos +escritos, não a sacrificaria a coisa alguma. + +O que o livro é, em suma, é um conjunto de belezas que tem sido +largamente apreciado pelos fanáticos da Arte; e oxalá seja apenas a +promessa de muitos outros, que penas como aquela não devem +calotear-nos na contribuição que nos devem. + +--Mas,--perguntou-me um dia destes alguém--porquê _Os meus amores_, e +não qualquer outro título? + +Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao +livro onde há tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que +lhe foi grande parte da alma, da sua bela alma de rapaz que nenhuma +lama deste mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.» + + +Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e baladas por +Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca +mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns +contos singelos, atraentes, delicadíssimos, admiráveis de observação e +de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admirável simplicidade de +colorido em alguns deles e que tons inapagáveis de verdade! + +Uma bela obra de arte e uma altiva lição. + +Ali está como se pode chegar ao naturalismo na literatura, sem +estropear a língua e sem chegar às torpezas da pornografia. Para +atrair, para ser original, para impor a supremacia do seu talento, +para conquistar o aplauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não +precisou de escrever extravagâncias, nem de escalavrar pústulas, nem de +escancarar bordéis. + +Aí fica uma rápida notícia do livro. Voltaremos a falar dele, se o +tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu autor.» + + +Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias de intervalo as +letras portuguesas contaram dois ruidosos sucessos de livraria. + +Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de análise, de profunda +observação, ressentida do exagero do naturalismo e do carácter quase +científico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem +ser exclusivamente literários, mas que, não obstante este pequeno +senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel +Botelho criara com os seus livros anteriores, a crítica tem de render +respeitosa homenagem ao trabalho de um outro escritor novo como aquele +e como ele igualmente distinto pelos brilhantes dotes do seu espírito, +pela sua notável orientação literária e pelo esplendor de forma que +caracteriza todos os seus escritos, mesmo os mais despreocupadamente +feitos. + +Sinto um delicioso prazer de consciência ao traçar estas linhas. +Momentos como este são mesmo os únicos oásis em que se reconfortam os +que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina +improdutiva e inglória do jornal. + +Trato de apreciar o trabalho de um amigo, de alguém a quem me unem +íntimas relações de confraternidade e simpatia e ao ter de formular o +meu juízo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e +aplauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo de um +sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira de uma +admiração justamente sentida, solidamente baseada. + +O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo +corresponde ao encanto deste título. + +Com que saudade li as últimas páginas! + +Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer +que sentia, noutras precipitava-a sôfrego de admirar a naturalidade +das descrições, a limpidez e o cristalino do estilo emocionante e +simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais +diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio, +até à recordação saudosa e terna que o autor sente do primeiro dia em +que entrou na aula de instrução primária da sua modesta aldeia. + +Dando a impressão singela e despretensiosa que me causaram _Os meus +amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos +pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na +época actual quando os vícios da sociedade e a decadência dos nossos +dias nos gravam no espírito, a cada hora, um carimbo de desânimo e +descrença, quando a literatura, obedecendo à vertigem mais do que +nervosa, alucinada, que caracteriza o _fin de siècle_, cria as escolas +mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em +apedrejar as normas mais impecáveis e até agora consagradas da arte, e +em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras +e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se ânimo, +desanuvia-se o espírito ao ver que ainda há alguém, a quem sobeja +talento e tenacidade, que escreve 200 páginas de prosa sã, eminentemente +sentida, deliciando-se na descrição das cenas mais simples e tocantes, +na apoteose da natureza em toda a sua magnificência e no convívio da +vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das +convenções e pretensiosidades que dão um tom falso e mentido aos +sentimentos da sociedade em que vivemos. + +Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um +dos contos e baladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este +propósito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto +amor o escreveu. Ao contrário, sinto que não posso, a não transformar +este artigo num hino laudatório, referir-me especialmente a cada um +daqueles contos e baladas. Mais do que este motivo domina-me o de não +poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo. + +Muitas das páginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as +havíamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em diferentes +jornais. Como escritor conhecíamos também o primoroso estilista dos +_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalísticos, já na boémia coimbrã, +já em pequenas folhas de província e ultimamente nos jornais da capital, +trabalhos em que ele empregava o escrúpulo e a correcção que nunca +abandonam os verdadeiros artistas. + +Pelos seus trabalhos literários há muito que formara a opinião de que +ele se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de +Fialho de Almeida e de Teixeira de Queirós que, no meu parecer, são, em +Portugal, os mais distintos escritores contemporâneos deste género, +na aparência tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difícil, a que +se denomina: _Contos_. + +A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada. + +Pelo sentimento descritivo, pela verdade dos _tipos_, pela naturalidade +do diálogo, e pela modalidade do estilo que se apropria sem o mínimo +esforço a todas as impressões que pretende transmitir, o autor dos +_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do género de +literatura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na +amizade a opinião dos que, não obstante ele terçar agora quase as +primeiras armas, o consideram já como um escritor distintíssimo e num +futuro muito próximo um mestre consagrado. + +O livro abre com um soneto formosíssimo e nem podia deixar de ser assim +desde que se saiba que o firma Luís Osório. Pórtico apropriado às +belezas que nas páginas que se seguem se acumulam com uma riqueza +oriental. + +Não obstante o meu propósito de não me referir nomeadamente a nenhum dos +pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que +me causou a _Última dádiva_, um primor de sentimento, uma página emotiva +arrancada em flagrante a uma das cenas em que tão variadamente se +divide a tragédia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_, +onde passa um fôlego de epopeia, em que o estilo atinge alturas quase +desconhecidas, casando-se com uma verdade admirável a grandiosa ideia em +que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura +cada um de nós sente acordar uma recordação muito querida de infância +descuidada e alegre, e por últimos: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho +ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estilo tão maleável e +tão justo. + +Além destes contos, que especialmente destaco pela admiração que me +inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Prelúdios de +festa_ e _Tipos da terra_. + +Quem escreveu os _Prelúdios de festa_ e especialmente os _Tipos da +terra_, é porque estudou com muita atenção, com muito cuidado, os +personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras +pequenas. São tipos tirados do natural, com uma perfeição fotográfica +em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na +descrição da natureza nos seus mais variados aspectos. + +Por últimos, e para não se dizer que eu neste país de má língua realizei +o cúmulo de escrever um artigo só de palavras encomiásticas e sem a +mínima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_, +lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas páginas de um estilo +formosíssimo num assunto que sem dúvida é verdadeiro, mas que não +comove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a mínima +impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus +recursos de estilista, não precisava realmente do _Sultão_. + +O livro faz parte da edição mensal de obras portuguesas, editada por +António Maria Pereira, um trabalhador incansável a quem as letras +portuguesas devem assinalados serviços. + +Está impresso com o maior escrúpulo e revisto com um cuidado e esmero a +que nem sempre estamos habituados. + +Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos +para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas à +sensaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos +como este, para honra do seu nome de escritor já tão justamente +laureado, e agradecemos ao amigo a oferta do seu livro, arquivando a +dedicatória que ele contém como nova prova de uma amizade a que somos +profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço +Caiola_.» + + +Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Colecção +António Maria Pereira_, que sob aquele título contém alguns contos do +apreciado contista Trindade Coelho. + +Pela rápida leitura de dois deles--_O Sultão_ e _Tipos da terra_, +parece-nos que a colecção é estimável, e que os contos são jóias de +grande preço da nossa literatura, pela linguagem pura genuinamente +portuguesa, e pela graça da contextura originalíssima, nacional, sem +laivos de imitação estrangeira, em que se pintam cenas e episódios, +cheios de verdade e de encantadoras descrições, da vida portuguesa nas +províncias.» + + +O Século:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de +contos, editado pela casa editorial do António Maria Pereira, a +publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso +meio literário, bem pouco acaroável e mazorro no fundo, +sobressaltando-se com tudo quanto perpetra o escândalo de não ser +rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionável também--diga-se a verdade. + +Parece uma contradição; mas não é. Se o nosso bom público fosse dado a +esbanjamentos de emoção artística, não o sobressaltaria tanto a +pessoalidade, e o imprevisto. + +O Sr. Trindade Coelho acumula com o seu cargo oficial de magistrado +severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de +letras, nas suas horas de remanso. + +É só, porém, como homem de letras, que nos compete em tal lugar +aquilatar-lhe a estesia, e as faculdades de emoção, ou de atenção +artística. + +Ambas estas possui o Sr. Trindade Coelho, em subido grau. A forma +adapta-se perfeitamente ao fundo, e é sempre fluente, vernácula, +concisa, e precisa. É sóbrio no descritivo, e não raras vezes +enternece. Não comete a velharia de desenterrar obsoletos termos +clássicos, sem incisão, sem propriedade, e sem cor, muito parecidos com +o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portugueses, nem +onomatopaicos, e que fizeram a delícia de Filinto. Nem perpetra também o +mau gosto de empregar neologismos inúteis, e risíveis, possuindo na +linguagem pátria instrumentos magníficos de expressão. Sabe a sua língua, +como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais +completa, e mais delicada da prosa, e também a mais transcendente e +lapidar, achou nele um hábil e equilibrado intérprete. Os contos +_Sultão_, _Maricas_, _Tipos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a +escola_, não contam muitos rivais na língua portuguesa nem nas +estranhas. + +O seu pequeno livro há-de ficar na literatura nacional, quando de +centenas de romances em seiscentos volumes já ninguém rememorar o título +sequer.--_Gomes Leal_.» + + +Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que +deliciosa impressão me deixou aquele livro, tão adoravelmente simples e +sentido! + +Antes, porém, de começar a analisar, conto por conto, esse fino trabalho +de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão +porque me merece tanta simpatia o seu autor, que de nome conheço só. + +Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondências de Portalegre, +notavelmente bem feitas, e em que ele elogiava muito um pequenito, +distinto em todos os exames. + +Aqueles adjectivos de amigo bom e entusiasta fizeram-me convencer de +que--o delegado de Portalegre--era um excelente rapaz. + +E digo rapaz, porque todos nós temos o hábito de considerar sempre muito +novos aqueles que são da nossa idade... Depois, graças a uma amiga +minha, escritora de grande talento soube que Trindade Coalho era um +grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admiração +entusiasta que ele descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que +fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição +publicá-las! + +Traduzia ele então o «Pescador de Islândia»; tradução esplêndida que a +_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para ele era +já uma sugestão, aquele trabalho primoroso. + +E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a +Loti todo o valor que ele tinha e que ultimamente alguém se comprazia +em querer negar ao académico gentil. + +Em seguida li uma suavíssima elegia escrita à memória de António +Fogaça--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia dúzia de palavras +cortadas por soluços:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!... + +Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os +jornais anunciaram que ele arrancara um preso à cadeia de Portalegre. +Um preso que era um inocente, e que, como tantos outros, estava +condenado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam também +o efusivo telegrama em que Trindade Coelho agradecia ao nosso +magnânimo rei o seu perdão. + +E eu dessa vez chorei! Como me sucede sempre que um homem põe a +lucidez do seu talento e o entusiasmo do seu coração ao serviço da +humanidade que sofre... + +O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha +alma. + +Eu só fixo o nome dos bons. + +E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe daquele homem! Os +filhos herdam, geralmente, o coração das mães... + + * * * * * + +Ultimamente a imprensa anunciou o livro que acabei de ler. Pedi-o +rapidamente para Lisboa, e li-o de um fôlego. + +Abre com um soneto delicioso, escrito pelo espírito gentil de Luís +Osório--uma alma luminosa, que brilha na transparência dos seus versos +filigranados e vibrantes... + +Segue-se o _Idílio rústico_--um amor--através do qual nós vemos subir +lentamente a estrela da alva que iluminava, coando a sua doce luz pelo +colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da +outra... + +Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o +Tomé nos comunica a sua alegria contagiosa levada à loucura com a +volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros! + +A _Última dádiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma +sepultura onde lhe ficara preso o coração para sair de lá no dia em que +teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o +Brasil. + +A _Comédia da província_, magnifica de cor local. Magnífica, +principalmente para quem conhece tipos semelhantes e já tem visto a +_Morgadinha de Valflor_--essa pérola!--representada pelo Marques do +correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valor a esse esplêndido +estudo de costumes provincianos. + +_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada... +_Maricas_, uma adorável poesia escrita em prosa. _Para a escola_, um +beijo de gratidão de uma singeleza adorável. _Tragédia rústica_, um +vibrantíssimo estudo das misérias humanas. + +_Abyssus abyssum_, o agonizar de dois anjos, sob o olhar de uma +estrela... _Mãe_, a flor mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas +as mães que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos... +E, finalmente, as _Batalhas domésticas_. + +Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho, +que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro +honesto, que não fatiga os homens nem faz corar as mulheres. Por isso +aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.» + + +Portugal:--«_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilíssimo livro +_Os meus amores_, do nosso querido amigo e ilustre confrade, Trindade +Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais +legítimo, o mais espontâneo, o mais unânime e o mais carinhoso triunfo. + +Bem o merece o cristalino talento, e a inelutável tenacidade no +trabalho, do brilhante escritor, que em meio dos violentos paroxismos +que na caça de sensações e efeitos novos hoje pavorosamente +desarticulam o _meio_ literário europeu, tem uma força de restringir-se +a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquila, a +melodia emocionante, ingénua e simples do viver aldeão; e que por entre +o estrídulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasfémias, dores, +gemidos, que doloridamente reboam pelas soturnas naves deste imenso +hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar, +enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira +nota afectiva, algum limpo e cativante movimento do coração. + +Bem-haja. + +Do coro uníssono de quase incondicional aplauso com que a imprensa tem +celebrado a aparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnífico +artigo do _Correio Elvense_, devido à pena de um dos mais lúcidos e +impetuosos engenhos da novíssima geração.» (_Seguia-se a transcrição._) + + +Diário Ilustrado:--«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade +Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espírito à proporção que +envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram às vezes de ouvir +os velhos, e parece-me que têm razão, porque nem sempre o são juízo de +uma experiência larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo +circunspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com +singular cepticismo, este meu século, que está no fim, e com ele tenho +vindo estudando e aprendendo. Ruíram as teocracias literárias, +revoluteou-se a filosofia, criaram-se novos processos de estilo, +arrancou-se o chiró às velhas frases, e todo um mundo novo, +extravagante e fantástico tem surgido,--mau grado as fúrias rábidas de +escritores paleontológicos, aparafusados à Arte e à Crítica de há 50 +anos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu +século tem-me custado amarguras aterrantes, desequilíbrios de espírito e +um desfolhar de verdes ilusões, que eu tenho visto irem-me fugindo num +_marche-marche_ triunfal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca +mais voltarem!... + +A vida do escritor moderno, toda torturante e nevrótica, dá-me a +impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida +real de nossos dias. E lembro Camilo pedindo ao pedaço de chumbo de uma +cápsula o ponto final redentor de agonias crudelíssimas; Júlio Machado, +de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do +filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros, +bom Deus! Dir-se-ia que uma _má sina_ persegue os homens de +letras:--quando não é a navalha de barba, é o revólver, é a consumpção, +é a tísica, é o retraimento amargo, é o abandono próprio e alheio! Por +isso o meu vizinho Gervásio todo se ufana, com certo profundo bom-senso +prático, da insistência com que quer fazer do filho um _artista_ +pintor--de portas, e de fora de portas... + +Na _troupe_ de escritores em flor do meu tempo,--parece-me que já lá +vão 30 anos, e tudo isto é apenas de ontem!--havia, joeirados com +singular amor de arte pura, uma dúzia de rapazes de incontestável valor +literário, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e +revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos, +miniaturistas da poesia, do romance e da crónica, dessa plêiade de +rapazes, um tanto insubmissos e um tanto boémios, alguns treparam +triunfantes,--poucos; outros, quase o resto, ou foram ainda verdes da +vida para os cemitérios das suas aldeias, ou, o que é quase o mesmo, +deram-se a calejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos +incipientes, nas minas de oiro e de ferro da luta pela vida. Dos +_felizes_, dos que triunfaram,--como quem diz, dos vencidos da +vida,--me sorria eu às vezes em horas de bom humor, lembrando-me como +eles com um livro de versos foram nomeados cônsules; com um tratado +sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por +acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com +uma crítica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliotecários +das belas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos _perdidos_ +pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os filisteus do +Pará, aplicando-lhes aos fígados hipertróficos a vermelha caudal da +sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desapareceu em Paris pelo +alçapão macabro da _correspondência_ barata; Gualdino Gomes anda aí +amparando o seu reumatismo a uma certa _maneira_ de má língua e a uma +bengala de cana; Leopoldino Gonçalves viaja como médico da armada; e +Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alentejo, +onde toma pulsos a doentes pela tabela da Câmara, e aparece às vezes +nédio, cor de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tédio os copinhos de +cognac do _Leão_... + +De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias cor-de-rosa, o que me +traz mais doces recordações é Trindade Coelho,--porque eu ligara à minha +a alma dele, num tempo em que dos salgueirais de Coimbra ele me +fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas crónicas +soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de afirmações de uma +personalidade literária. A sua prosa, a um tempo humana e lírica, +dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como +sabem, além de bacharéis anónimos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É +da tradição universitária, fazerem os doutores as suas primeiras armas +de literatos e de poetas, na academia, a intervalos do pesado estudo +do Lobão e do direito público, esvurmado às cavaleiras do nariz de +Pedro Penedo... Toda a nossa legião distintíssima de poetas e +prosadores modernos deriva literariamente da boémia +coimbrã:--Teófilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Antero, etc. É a +afirmação do bom António Ferreira feita axioma: + + _Não fazem mal as musas aos doutores_. + +E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquirir a Junqueiro das belezas do +Código Civil, meio metafisicamente original e meio copiado dos códigos +de Napoleão! Ah, mas em compensação que apareça aí o primeiro advogado +a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em férias_! + +Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descrições numa +bela prosa colorida e transparente, trechos de psicologia trasmontana, +e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_ +do proceder literário deste escritor é deliciosa de cor e de verdade, +sem grandes esmerilhamentos de frase, nem deslumbramentos de imagens na +aparência cor de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios +ingénuos dos cordões de latão... Tem-se chegado aí, no abuso da +originalidade do estilo, a fazer uma prosa estrelicada, engomada, +cabelinho à banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O +burguês já conhece os processos da _chinoiserie_, e daí não há +espantá-lo com nefelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe +ele que debaixo dessas belezas está a oleografia reles de porta de +escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota +a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em +Alcântara... + +O livro de Trindade Coelho tem um certo ressaibo de saudável trabalho, +feito com honestidade e sem as preocupações deploráveis que levam os +corifeus da escola moderníssima, mais que zolaísta, à descrição e +estudo de patologias e casos esporádicos, ou não vivos, ou pouco +vívidos. Este livro é quase um parêntesis aberto como uma clareira +consoladora na torrente ultra-realista dos últimos trabalhos +aparecidos, do _sujet_ de um dos quais, que é em todo o caso a +monografia de um carácter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_ +dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_... + +A feição literária de Trindade Coelho parece-me que se define na parte +do livro subtitulada _Baladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma +dúzia de páginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma +elegia... trágica, _encadrée_ numa linguagem cor de opala, em que a +gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma +obra-prima. Assim a _Tragedia rústica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco +eu os _Prelúdios de festa_, _Idílio rústico_, os _Tipos da terra_, onde +há páginas soberbamente observadas, sugestivas, _d'après nature_. +Magnífico o assassino _José Gaio_. + +Trindade Coelho é inquestionavelmente um lírico. E nem eu sei como ele +chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de +Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os +dicionários de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista +encantador... soçobrado!--_Inácio da Silva_.» + + +Nova Alvorada:--«_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe você, amigo Trindade, +que as palavras afectuosas que me endereçou no oferecimento do seu +livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espírito um mundo de +saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsâmicas de uma +quadra primaveril que não volta mais--a vida coimbrã? + +Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa +mas robusta, as _suas feições másculas e enérgicas_, e a sua _allure_ um +pouco receosa ao dobrar a soleira da legendária Porta Férrea. + +Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de +grau apurado, sob a pasta de um quintanista, mirando à direita e à +esquerda, entrou você nos _Gerais_ resignado a um dilúvio de troças, +martírios, horrores... + +Os segundanistas, de cuja respeitável corporação eu fazia +orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não +encontrassem uma fisionomia de chuchadeira, como a de um Armelim, nem um +rosto gretado, empedernido, de homem terciário, como o do bom Rafael do +Ranhados. + +Mas em que diabo foram eles depois embicar, os malvados! + +Em uma medalha de oiro que você trazia, à guisa de berloque, na corrente! + +O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escândalo_, de forma que a +tempestade de piada desanuviou-se a tempo no seu horizonte de novato. + +Depois, um ou dois anos, aparece o amigo com acentuações de académico +falado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolásticas, a sua +individualidade a destacar-se, como se fora um _urso_. E assim se +falava do Trindade, como do Luís Osório ou Feijó por causa dos versos, +do Pássaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel +Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades +pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti. + +Você desencubou o seu nome, pô-lo em evidência--o Trindade--, mas foi por +causa de um excelente resumo das lições de direito romano, de um belo +discurso no centenário pombalino, e sobretudo das suas graciosas +crónicas no _Diário Ilustrado_. + +Ah! e lembra-se você daquele ano em que formámos «república» na Rua +da Trindade, tendo por criada a Sr.^a Maria de qualquer coisa, que +denominávamos a _Gorda_, matrona muito caroável e de enxundiosas formas? + +Éramos uns poucos: + +O Sousa, que já tem o galão branco dos tribunais administrativos, +espírito fácil, perspicaz e alegre, nada para maçadas, que tinha +orientações definidas em política partidária e expedientes reservados de +galopim graúdo contra os progressistas da Barca. + +O Manuel Nunes, hoje em Barcelos, muito lucianista, devorando o +evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiúnculas com aquele por +causa dos seus ideais políticos encontrados, grande passeador e jogador +de manilha, um tanto lambaz porque saía mais cedo e sorrateiramente dos +teatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatários, guardada pela +_Gorda_ num cantinho do fogão. + +E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe +chamávamos o Pegas, o Covarruvias, e lhe líamos um imaginário plano, +rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito +desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe dizíamos que ele +se aplicava... 25 horas por dia! + +Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, de aspecto _sournois_, olhos à bufo, que +não falava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e +contumaz! + +Em seguida o Sérgio Carneiro, o Grilo, seu comprovinciano e hoje +conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas, +muito guitarrista e risonho, se bem que inteligente e aplicado. + +Éramos mais--você e eu. Você que se metia muito com a literatura, +fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por sinal +dediquei um fado aos membros da república, o qual nas vésperas de +feriado se cantava, em algazarra tonitruante, quando o Grilo +condescendia em o acompanhar na guitarra. + +Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais +tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribunais de Lisboa e +eu no berço da monarquia. + +Agora vejo-o, literato conhecido e conceituado, a publicar os seus +belos contos em um elefante volume--_Os meus amores_. + +E belos na verdade, como todos dizem. + +A _Mãe_, aquela cruciante tragédia da pobre _Ruça_, morta de terror e +de amor, é para mim o mais apreciável e sentido conto da sua colecção. + +Costuma-se dizer de uma mãe descaroável, de uma Francisca Fortunata--é uma +cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando +as caluniadas afeições dos pobres ruminantes. + +Quem ler as angústias da mísera _Ruça_, na expectativa do filhito +devorado pelo esfaimado lobo circunvagante, restituirá àquele +inofensivo animal o sentimento de amor maternal, a natural compreensão +das suas obrigações de mãe e protectora. + +E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra. +Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal +qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bela produção +vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_. + +Nos restantes contos, entre os quais me não agradaram menos _V[ae] +Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da +sua educada fantasia, moderada por um largo pecúlio de observação; a +sua poderosa intuição artística; o seu diálogo curto, vibrante e +natural; o seu estilo já característico pela feição franca, _saccadèe_, +de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos; +a verdade das suas descrições e pinturas, que, ao contrário de muitos, +não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, numa +pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa +semelhante. + +Olhe, amigo. Eu careço de jeito para a crítica literária; mas, enquanto +me é licito exprimir a minha humílima opinião, dir-lhe-ei que você +alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de literato +distinto e de contista precioso; e que este conceito é merecido, +atestam-no os seus valiosos escritos dispersos e a sua elegante +brochura recém-editada. + +Resta-me felicitá-lo cordialmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua +fineza com um abraço de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.» + + +Nova Alvorada:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a +oferenda do novo livro de Trindade Coelho,--o simpático e distinto +escritor que de há tempos se vai honrosamente evidenciando no certame +das letras pátrias, onde já agora a sua individualidade tem uma +reputação firmada. + +_Os meus amores_ é o título que o Sr. Trindade Coelho escolheu para o +seu livro de contos e baladas, e se assim lhe chama, segundo cremos, +não é porque estas 200 páginas sejam um auto-historiográfico dos +idílios romanescos do autor, naquela áurea quadra da sua vida +académica, ou um repositório de alheias aventuras amorosas com +acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendário. + +Não. A razão do título parece-nos antes proceder da afectividade +psicológica do autor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto +com que Luís Osório prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz: + +_Folhas dispersas dos meus anos de ouro, +Vivo enxame das minhas alvoradas, +Tenho zelos de vós, folhas sagradas, +As Desdémonas sois de um outro mouro_. + +Se não fosse assim, afirmar-se-ia mais uma vez a verdade do +aforismo--o hábito não faz o monge--, porque o _Idílio rústico_, com que +abre esta bela colecção de contos, não seria bastante para justificar +o título sob que se enfeixam. + +Mais que o idílio, preponderam no correr do livro a comédia, o drama e a +tragédia: e basta percorrê-lo em rápida leitura, para averiguar-se que +se há na urdidura dos vários contos muitas situações que nos pintam o +ridículo, a desgraça ou o crime, poucas há, entretanto, que nos prendam +o espírito ao devaneio piegas de um Romeu e de uma Julieta. + +Mas, ou bem ou mal baptizado, o que é consoladoramente verdadeiro é que +os contos do Sr. Trindade Coelho constituem uma das mais belas +colecções que no género conhecemos. + +Uma urdidura fácil e clara, movimentada em harmonia com os melhores +preceitos da arte. + +Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das +situações e dos diálogos. + +Uns assuntos de felicíssima escolha, a reproduzirem fielmente costumes, +a pôr em jogo com a maior verdade os vícios e as virtudes do povo. + +Como os contos magníficos de Bento Moreno, os contos do Sr. Trindade +Coelho são a fiel expressão da vida rústica do nosso povo, e fácil é de +compreender a importância moral que estes livros terão quando as +gerações que nos sucedam queiram inventariar nas suas tradições o modo +de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, neste +período histórico em que vamos. + +Sem descer aos excessos da escola ultra-realista, a que Zola preside +como Sumo Pontífice, o Sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade +inexcedível, de um realismo incontestável, de um naturalismo a toda a +prova, que por igual se evidenciam no assunto, na narração e nos +personagens. + +E, sobretudo isto, há nos seus contos, como nos de François Copée e +Theodore de Bauville, a artística encenação que, sem desvirtuar-lhe a +naturalidade da forma e do fundo, lhes imprime o atractivo romanesco +que fala à imaginação do leitor. + +O _Idílio rústico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa, +e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora. + +A _Última dádiva_ é a expressão fiel de muitas cenas que a emigração +multiplica cruelmente pelas nossas províncias do norte. + +A acção deste conto é conduzida com uma tal unção de sentimentalidade, +que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a comoções, se poderá +esquivar a partilhá-la. + +O conto--_Tipos da terra_ é a descrição fiel, fidelíssima, da mesquinha +intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de +província. + +_Os Prelúdios de festa_ são de um cómico admirável; _Maricas_ é de um +sentimentalismo comovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade +edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragédia Rústica_, tudo, tudo neste +livro é bom, e de útil e agradabilíssima leitura. + +A forma--já o dissemos--é correctamente vernácula e elegantemente +rendilhada. + +A título de amostra, para aqui trasladámos do conto--_Sultão_--este +belo _croquis_ de uma tarde de Agosto: + +«Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos +montes quebravam-se numa sombra igual, e embaciavam ainda o poente as +suaves e brandas pulverizações doiradas da última luz do sol. Riscos +vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, +destacavam imóveis num fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de +listrões de uma coloração leve de laranja. + +Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e +além, alegremente, a monotonia profunda do azul.» + +E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra à altura da boa reputação +do autor. + +A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu ilustre colega +por tão brilhante produção, e daqui lhe envia um cordialíssimo aperto +de mão.» + + +A Independência:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro +de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações, +modestamente, apenas com a consciência tranquila de quem escreve bem e +com critério,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume, +que acaba de dar à estampa, algumas produções literárias que a sua +vida de jornalista tinha atirado para a vala comum das páginas de +revistas e diários. + +Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogéneo o que se nos +oferece para apreciar: são pequenas jóias literárias, buriladas por +mão de artista e de um fino sabor de naturalismo. + +Considerado assim, sem dependência de escola e confrontação de +originais, o livro é bom. + +As suas descrições são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se +acostumou, desde criança, a ler muita e a adivinhar mais na bíblia +riquíssima e inexaurível da Natureza. + +Há vida e colorido em tudo. As telas dos céus pincelaram-se com as +tintas próprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os +olhos, romanescos e sérios uns, grotescos e ridículos outros, deixam-nos +uma impressão agradável de realismo, e alta compreensão. São tipos +exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem frases banais que +enjoam. António Fagote é um espécime do juiz de festa das nossas +aldeias, basofão e vingativo, pronto, olá! a gastar as últimas moedas +da venda do últimos gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e +a deliciosa balada _Mãe_ é uma preciosidade literária, magnificamente +pensada escrita, digna da pena dos nossos primeiros escritores. + +Não encomiamos, pois, o valor do livro, dizendo que ele é digno de +figurar ao pé das mais belas produções dos nossos escritores mais +consagrados.» + + +Correio de Portalegre:--«_Os meus amores_, contos e baladas por +Trindade Coelho. + +Acorda-lhes no espírito um eco de simpatia o nome do autor, pois não? + +Eu creio bem isso, porque a verdade é que apesar da celeuma que Trindade +Coelho aí levantou, granjeando com o seu génio turbulento algumas +antipatias nenhuma delas alvejou o seu talento, que os senhores +jamais negaram, e lhes ficou sendo simpático. É por isso que escolhemos +para encetar esta secção a produção brilhante do distinto literato, +editada há pouco por António Maria Pereira, um incansável editor +escrupulosíssimo. + +Li o livro que o talento do autor recomenda, impondo-o, quase, a +atenção do nosso cérebro, à contemplação da nossa alma; e essa leitura, +feita numas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me +d'_Os meus amores_ a agradabilíssima impressão de uma carícia, que +persiste a sorrir consoladora. + +Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Comércio_ e da +_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejável de dar à ideia,--algumas +vezes injusta, dirão alguns,--a mais correcta forma, iriada sempre da +limpidez mais viva; e isso, num trabalho feito agora para aparecer +amanhã, à pressa sempre, numa fugida aos calhamaços manuscritos que +demandam a sua atenção de magistrado, e em que o período mais +sugestivo é o do _Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo_. + +É-lhes fácil por isso pressupor o livro, que o vagar do autor desbasta, +remodela, lima, muito tranquilamente, muito sossegadamente, sob a +vigilante direcção do seu delicado gosto artístico. + +_Os meus amores_ têm poesia, e têm verdade; e na maioria dos seus +diferentes quadros, adorável descrição das cenas simples da vida do +campo, da natureza singelamente formosa, o sentimento vibra +intensíssimo, e é encantadora a frase, que um conhecimento profundo +ditou, de que uma subtil observação ressai. Há ali retratos de um brilho +sem limite, _tipos_ que resumem um estudo fidelíssimo. + +É um cofre de belas jóias, o livro, que nos deixa embaraçadíssimo, se +queremos escolher alguma,--tão valiosas são todas. + +Todavia,--e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,--_V[ae] +victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estilo, _Para a +escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de +criança, e os admiráveis contos de fina graça e tão verdadeiros, +_Prelúdios de festa_ e _Tipos da terra_, são os meus eleitos, depois +de uma dificuldade enormíssima de escolha, de entre tantos quadros da +perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ cativam também a +minha admiração. + +O livro é, como todos os saídos na _Colecção António Maria Pereira_, +esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em +percalina. + +Nesta notícia breve, digne-se o distintíssimo autor d'_Os meus +amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradável como +sinceramente.» + + +O Nordeste:--«Editado pela casa António Maria Pereira, de Lisboa, em +volume de impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado +o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pôr em +relevo as complexas e brilhantíssimas qualidades literárias do autor, +um _novo_ que já hoje ocupa, por direitos justamente adquiridos, um +lugar proeminente entre os nossos melhores escritores. + +_Os meus amores_ têm obtido na imprensa do país uma acolhida +entusiástica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso +conterrâneo quase, cometeríamos uma flagrante descortesia se nos +leitores do _Nordeste_ não déssemos conta da aparição desse livro, +juntando ao coro uníssono de aplausos as nossas sinceras saudações. + +Escritos em prosa vibrante, fluente e musical, correctíssima, esses +contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro +primoroso, constituem um verdadeiro encanto, cativando-nos com a +espontânea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha dumas +histórias aldeãs, de uma simplicidade campesina, repassadas por vezes +de um sentimentalismo suave, lírico... + +A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima simpatia, um afecto +antigo e veemente, seguindo com interesse quaisquer particularidades da +sua vida, consolando-nos com os triunfos literários que têm +glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado +inteligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do +procurador régio, estava-nos impacientando o desejo de ler o seu livro, +e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio no-lo +trouxe. E, agradabilíssima coincidência! sucedeu-nos deparar com o +conto _Para a escola_, quadro tocantíssimo que marca distintamente os +dois mais notáveis estádios da vida do escritor: a altura em que entra +na escola primária, regida por um mísero professor, bondoso e marcial, +de vilota sertaneja, e aquela em que sai de uma outra, habilitado com +as suas cartas de formatura a encetar a carreira pública, na qual de +contínuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e carácter +diamantino. + +Essa história, exposta num estilo formosíssimo, maleável e correntio, +deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o +confessamos...--de lágrimas espontâneas nos marejarem os olhos, tão +enternecedoras são essas páginas que evocam em nós as reminiscências +queridas de um passado que não volta, e no espírito nos reproduzem, com +uma precisão fotográfica, completa, cenas iguais da nossa infância, +como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lê-las +e senti-las... + +Terminado esse conto, foi de um fôlego, a bem dizer ininterruptamente, +que _devorámos_ o livro, onde o autor, num esbanjamento pródigo de +verdadeiras pérolas literárias, se expande em ligeiras narrativas, +descritas numa prosa colorida e vibrátil, cintilante e rítmica, +apresentando-nos uma série de quadros, colhidos em flagrante, _d'après +nature_, com uma extraordinária lucidez de observação, e um outro _caso_ +humano trasladado para páginas de uma forma impecável, acentuadamente +artista, e que são uma eloquente afirmação da distinta personalidade +de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assinaláveis e esmerados +cultores da prosa portuguesa. + +Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve +notícia a uma crítica a todo o livro, impossível se nos torna enumerar +todos os contos em que ele se reparte, emitindo detalhadamente as +impressões que nos sugeriram. Por isso o nosso aplauso caloroso para +todo o livro, sem predilecções por este ou por aquele conto; e daqui, +desta coluna de modesto jornal de província, enviamos ao nosso +queridíssimo Trindade Coelho, numa efusão de acrisolada estima, com um +aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não +deixe de ser um cultor assíduo da literatura nacional, e continue a +honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons +livros.--_José Pessanha_.» + + +Da Revista do Minho:--«_Os meus amores_.--Poucos livros terão vindo à +luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplêndidos como aquele +cujo título serve da epígrafe a esta notícia. Em todas as suas páginas +se reúne o belo e o agradável, tornando esta obra de sólido mérito, e +estimável debaixo de todos os pontos de vista. + +Este volume pertence à formosíssima colecção António Maria Pereira, e é +devido à brilhantíssima pena de um dos nossos mais festejados +escritores--Trindade Coelho. + +Não precisamos alongar-nos em chamar a atenção do público para esta +obra, pois é ela sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons +livros.» + + +Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_.--Há tempo,--não há +muito,--começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando, +umas cartas de província,--_Cartas alentejanas_, nos parece,--assinadas +pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a +primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com +verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de aparecer +de todo. + +Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada +jubilosa e cantante de um bom escritor. Trindade Coelho entrava nas +letras portuguesas pela porta áurea dos vitoriosos, apresentando +natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira numa só +peça o seu talento aliado com a sua observação e o seu estudo, sem +esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovelar os que +avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamelas de +apaniguados e sequazes. + +Escrevia de um canto da província, da sua terra, em horas desocupadas; +escrevia de assuntos comezinhos, de coisas que tinha ali à mão, das +cenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua +alma encontrava no tracto simpático da natureza inteira. Falava de um +ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar à solidão do seu +eremitério, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas. +Era um talento e era um carácter. + +Depois, houve na sua vida literária um momento de eclipse. Cremos que +deve ter correspondido ao período ocupado e trabalhoso da sua +formatura. Bom sinal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciências +do amor próprio, sacrificando às altas ocupações do seu curso os +brilhos atraentes da fácil nomeada. O escritor experimentara já o +pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar. + +Eis que nos aparece um dia, súbito, no foro, honrando e glorificando +num processo de reabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe +celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de letras, que +ele soubera fazer distinto e conhecido logo aos primeiros trabalhos. + +Alguns meses de colaboração diária, num jornal bem lançado e bem +redigido, avigoraram no conceito público o renome conquistado, e +Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa do país, o lugar a que +tinha direito, sem ninguém lho discutir nem contestar. + +Estreia-se agora no livro, e dificilmente imaginaríamos apresentação +mais prometedora e mais simpática. + + +_Os meus amores_ são uma colecção de esbocetos, alguns dos quais, como +o _Idílio rústico_, _Última dádiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus +abyssum_, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros. +Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o autor os trabalhou, +solícito na sua obra, no empenho de uma execução imaculada. Não porque +se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem ele era impossível +conseguir tão completo efeito, tão seguro resultado. + +O estilo do prosador é, quase sempre, firme, opulento, erudito, original +e variado. Não tem reminiscências deste ou daquele, e realiza uma das +condições essenciais que deve ter em mira todo o escritor +consciencioso: conservar uma feição própria e individual, sem se afastar +da pureza da língua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso arcaico, e +contribuindo para a evolução progressiva dela. + +Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cansaremos de louvar, em +vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria +fácil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estilistas, +procurou modo de iluminar a sua frase e de colorir a sua palavra, na +fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas +mais primitivas do povo campesino, enriquecendo nesse manancial o +tesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, cenas e +quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e +adorável. + +É de indiscutível beleza a pastoral com que abre o volume. +Afigura-se-nos estar lendo algumas páginas de Longo. A descrição da +madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e +Rosária,--Daphnis e Chloe,--têm um sabor antigo, como o de uma +narrativa idílica, passada nos tempos legendários da Grécia, e ao mesmo +tempo toda a verdade de uma cena campestre dos nossos dias. É de um bom +gosto supremo a forma subtilmente delicada como o narrador, deixando +primeiro recear a queda dos seus personagens numa brutalidade +instintiva, os conduz por fim nas asas da inocência e da candura a uma +situação divinamente sublime. + +E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, numa doce e +prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espírito aqueles dois +vultos de criança a esfumarem-se nas distâncias do espaço e do tempo, +longe, muito longe, numa paisagem ideal, vista nos dias da infância, +vista talvez em sonhos, talvez em Virgílio ou Teócrito, talvez mais +longe ainda, na Bíblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida +contemplação, longe, muito longe, + +«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.» + +Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, há como que um misto do +trágico fatalismo grego e do supersticioso horror cristão. Não é vulgar +a concepção do assunto, nem vulgar, também, o desenvolvimento que o +escritor lhe deu, o cenário é horrível e magnífico. Está bem +descrito; bem descrita a tempestade, que primeiro se anuncia, depois +se aproxima, depois finalmente cresce e se desencadeia numa convulsão +pavorosa e enorme; bem descrito o terror angustioso e supliciante do +mísero assassino, o qual vê, na chama de cada relâmpago, projectada a +cruz negra que marca o lugar do seu crime e que lhe prende os pés ao +chão, enquanto o seu ouvido, alucinado pelo terror, lhe dá a sensação +de uma voz insistente, que detrás de cada árvore, da espessura de cada +moita, de cima de cada pedra, da ressonância de cada trovão, o chama +inexoravelmente pelo nome:--Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio! + +Bastava simplesmente esta narrativa para granjear a Trindade Coelho +foros de distinto e primoroso escritor. Edgar Poe não enjeitaria o +assunto, se lhe ocorresse, nem o trataria com muita maior perfeição. +Dar-lhe-ia pasto para algumas páginas tão engenhosas como as da _Génese +de um Poema_, para alguma composição tão extraordinária e tão +transcendentalmente bela como _O corvo_ ou _Ulalume_. + +Mas como se quisesse mostrar a maleabilidade da sua pena, ou como se +quisesse certificar-se a si próprio da multiplicidade e da variedade das +suas aptidões literárias, o prosador que recortou nos mais perfeitos +moldes aquelas páginas clássicas ou estas sinistras, detém-se na +comovente e lacrimosa narrativa da _Última dádiva_ e nas ligeiras e +facetas descrições dos _Tipos da terra_, dos _Prelúdios de festa_, do +_Sultão_, onde transparecem dotes de observação sarcástica, de ironia +graciosa e de bem humorado espírito. + +Um livro de tantas promessas não pode ser, contudo, e por isso mesmo, um +livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se +abalançar a empresa maior, estamos certos disso. Já no final do +presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas +domésticas_, se anuncia a transição da presente fase literária e +artística do autor, para uma outra fase progressiva. + +Progressiva, dizemos nós, porque assim o cremos. Qual há-de ser, porém, +a predominante característica dessa fase? Pode a crítica conjecturá-la +desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazê-lo. Porque, a +verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que +o seu temperamento literário tem energias que lhe hão-de abrir novos +caminhos, e que, na sua vida de homem de letras, há já precedentes, que +enormemente o obrigam. + +Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-á +ainda de um ou outro francesismo escusado, e há-de adquirir novos dotes +de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde +procurá-los. Não é em léxicos, nem em alfarrábios, nem em cartapácios. +É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a +falar o português do povo, os seus tipos populares. + +Não se pode ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som, +da melodia. Uma das maneiras de adquirir perícia nesta forma de +escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um +exercício útil para chegar a fazer boa prosa. Não é, porém, +indispensável, bem entendido. + +Contudo, não admitimos que repute possuir as qualidades completas de +escritor, aquele que só de uma das duas formas da arte de escrever seja +conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que +praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima. + +Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza +artística, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na frase e +maior cadência no período, se praticasse um pouco a arte do verso, +embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena +empregar todos os esforços para atingir uma perfeição, que não está +longe, e de que o seu talento próprio e a sua estudiosa boa vontade +continuamente o aproximam.--_Fernandes Costa_.» + + +Aurora do Lima:--«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade +Coelho. Quando prometi à _Aurora do Lima_ esta ligeira notícia +bibliográfica acerca do livro do brilhante escritor e meu querido +amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a +retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os +últimos da última fila, nas saudações entusiásticas à obra e ao seu +autor. + +Tenho para mim como certeza indiscutível que o público se começou a +fatigar dessas obras torturantes de análise fria, cruel, desoladora. Os +que se encontram feridos das aspérrimas lutas da vida--e estes +constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras +consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação +docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triunfa sobre Zola, +apesar do enorme _réclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da +escola realista. + +Ora o livro do Sr. Trindade Coelho pertence ao número dessas obras +consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende +pela emoção íntima, que interessa pela simplicidade elegante com que +está trabalhado, que impressiona pela correcção impecável do seu estilo, +maleável e harmónico. + +Abre-se o livro e depara-se com o _Idílio rústico_, que é uma soberba +tela, amoravelmente tratada, denunciando logo às primeiras linhas um +alto valor artístico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza +suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores. + +Segue-se-lhe o _Sultão_; e em boa verdade direi que me parece ser este +um dos contos mais formosos do volume, em que pese às opiniões +contrárias e até ao próprio autor, que não perde ocasião de o +depreciar. + +Assunto simples, esse, e todavia absolutamente verosímil. A descrição +da eira, do labutar alegre, da paisagem e dos personagens deste pequeno +quadro, são um primor notabilíssimo de execução artística, de rigorosa e +completa observação. + +_Última dádiva_, um episódio comovente, completa a primeira parte do +livro, a que se segue a _Comédia da província_, onde há preciosos +estudos da vida provinciana; as _Baladas_, onde se depara com o formoso +conto _Para a escola_, de um alto valor literário; _Arrulhos_, uma +esplêndida fantasia, etc. + +Eis uma ligeira notícia do volume de contos _Os meus amores_, que +tamanho êxito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia +do nosso acanhado meio literário, com os merecidíssimos aplausos que +lhe foram dispensados. + +Dos méritos literários de Trindade Coelho falam mais alto do que a +crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornais do país, +especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudónimo de _Ch. A. +Verde_, e na _Revista Ilustrada_, do editor António Maria Pereira. É um +infatigável e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frívolo assunto +um delicioso relevo literário, que prende e interessa o espírito do +leitor.--_Luís Trigueiros_.» + + +Os Gatos:--«Vem a propósito de histórias, falar, bem sei que tarde, dos +_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro português que +mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em poliedros de +multíplices aptidões. Os contos dos _Meus amores_ são pela maior parte +uma bagagem de vida académica, assimilativa (Trindade Coelho, muito +novo, findou há quatro ou cinco anos o curso jurídico) e como tal saem +da pena do escritor ainda sem uma cristalização homogénea de forma e +de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso de um espírito +buscando a perfeição com escrúpulos de eleito; de sorte que o volume até +como autobiografia se insinua, ele precisando as fases, nótulas, e +predilecções literárias do contista, e enfim, depois de hesitações, +emancipando-o num dos mais delicados microscopistas do coração, das +nossas letras. Como é provinciano, provinciano de aldeia, e natureza +contempladora inda por cima, Trindade Coelho cativa-se principalmente +dos assuntos bucólicos, pequenas cenas de cabana, tempestades de +campanário, pastorais, vida de povo, e sente-se que o não faça por +diletantismo de escritor avocando de cor dramas lambidos, senão por +esse estro de visão retrospectiva dos melancólicos despaísados em +terras hostis, e que protestam contra o egoísmo ambiente, recluindo-se +no passado, como num santuário de múmias adoradas. É a tendência geral +dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes, +especialmente dos campos, matéria-prima para seus contos e poemetos. Em +poucos porém a predilecção se escora na sinceridade e conhecimento +prático da vida rústica, e em menos ainda há perspicácias para uma +autópsia sagaz da natureza psíquica e moral do camponês. Grande parte dos +que têm posto o povo em cena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos +num cenário de convenção, e com o fazer falar aos bonequinhos mancos +que resultam, aravias mais ou menos inventadas de um pitoresco sorna, em +cuja trama não há vislumbres de alma regional, de carácter profissional, +de individualismo típico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra, +mandem vir a colecção dos contistas rústicos portugueses, e riam à +larga das fantasias lorpas que lá virem. Em diálogos amorosos há por +exemplo coisas únicas! Cavadores de aldeia debitam às namoradas protestos +de paixão, em linguagem que seria preciosa até na boca de um pisa-flores +do Martinho e da Havanesa. Elas, de lhes retrucar em frase +equivalente, e de se mexerem em cena com os ademanes que a _Dama das +Camélias_ consagrou na cachimónia dos autores, como os mais próprios +para mimar o amor que as enxaqueca. + +Em paisagens e descrições de interior, a mesma ausência de detalhe certo +e de visão própria, que reduzem esses quadros, a meras caganifâncias +de aguarelistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a +quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das +cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os +seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal +imitação da Rua do Ouro, e o camponês como uma arreglo grotesco do +alfacinha. + +Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essência da +paisagem provincial, e a alma do provinciano e do campónio, Trindade +Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu critério do problema, +em forma de arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo à vista +do leitor, que não mais lhe perderá de vista os voos poéticos, e a +singular gracilidade irónica dos seus quadrinhos de género, colhidos em +prolongadas estações nas duas mais típicas províncias de Portugal, o +Alentejo e Trás-os-Montes. Há assim nos _Meus amores_, a par dalgumas +benignas composições representativas da transição crítica do rapaz para +o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guisa iguais, +sóbrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da +minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras-primas. +_Tipos da terra_ e _Prelúdios de festa_, por exemplo, são duas narrações +que mordem fundo a atenção de quem nas lê, e que por sua admirável +sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido +que ficarão modelarmente apontadas aos coleccionadores de literatura +típica. + +Qualquer das peças abrange apenas o fôlego de uma ou duas dúzias de +páginas, deliciosas porém como factura, admiráveis de bonomia, e de uma +saúde moral que faz desejos de estimar pessoalmente o seu autor. + +Aí está efectivamente revelado não só um talento plástico e bastante +rico em cambiantes, como também a pura água de um carácter cheio das mais +finas intenções. _Tipos da terra_ é o quadro satírico de uma má língua +de aldeia, tendo por clube a porta da tenda, por cenário a praça pública, +e por personagens o pessoal burocrático e elegante da terriola. +_Prelúdios de festa_ é um estímulo de festeiros preocupados de qual +fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os tipos +rápidos, a descrição dita a correr, mas no conjunto há um tal +equilíbrio estético, a meia-tinta é tão fluida, e as intenções irónicas +sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista, +Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os sensaborões que por +aí medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno +romance português.--_Fialho de Almeida_.» + + +Jornal de Santo Tirso:--«_Os meus amores_.--Foi penhorante e comovente +para nós a gentilíssima oferta que Trindade Coelho nos fez do seu +adorável livro de contos, que tem por título a epígrafe desta singela +notícia. + +O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o +brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje, +porém, aparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a +primorosíssima forma se alia com o mais delicado critério de artista +d'_élite_ e com a fina observação de um talento verdadeiramente superior. + +O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e +obscura pena não está--seja este o seu único mérito!--habituada a vir +entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se +prodigalizam aos medíocres e aos banais, que se desvanecem entre as +ondas desse barato incenso. + +Os nossos leitores melhor ajuizarão, em presença do trecho que lhes +oferecemos como mimo de rara valia.» + + +Diário Ilustrado, (com o retrato do autor):--«Trindade Coelho.--Nesta +áspera vida das letras, cortada de tantas amarguras que ninguém sonha, +há, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos é dado +experimentar, acrescente-se. + +Essa alegria, sentem-na os poucos susceptíveis de compreendê-la,--na +elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestígio do +talento ao culto mental, e sobretudo no íntimo orgulho de adivinhar, +logo aos primeiros passos, a revelação de Alguém, que vai ser +unanimemente admirado. + +Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na +galeria do nosso jornal, este incomparável júbilo. + +Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam; +admirei-o, muito antes dele trazer à literatura pátria o livro _Os +meus amores_, que foi como que a súbita iluminação do seu nome. + +Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos aparece em toda a +sua inconfundível originalidade de narrador, em todo o desartificioso +encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o +temperamento de artista, impressionável e vibrante, na fluidez do +estilo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!... + +O campo, que a maioria dos escritores conhecem superficialmente, de +rápidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação, +vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com +um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a +perscrutar a essência da paisagem provincial, e a alma do provinciano e +do campónio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande crítico Fialho +de Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu +critério do problema, em forma de arte, e dos que mais progressivamente +vão crescendo à vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os +voos poéticos, e a singular gracilidade irónica dos seus quadrinhos de +género, colhidos em prolongadas estações nas duas mais típicas +províncias de Portugal, o Alentejo e Trás-os-Montes.» + +Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho começara a afirmar a sua +poderosa individualidade em uma secção do _Diário Ilustrado_, _Cartas +alentejanas_, crónicas expedidas de Portalegre, em um arranque de +talento, com exuberância de fantasia, modos de ver e dizer, +flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo à Vacherai, velados +a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante +originalidade. + +Por esse tempo, o nosso brilhante cronista empreendeu, no exercício +das suas funções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitária de +arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o +condenara. + +E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos +voos, fez-se um coro de bênçãos, como que uma apoteose de amor, que +deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma +efusiva e entusiasta, um destes supremos júbilos, superiores a todas +as desditas e inacessíveis a qualquer desencanto. + +Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterizam e +lhe assinalam o ponto culminante em que se evidenciam, uma dualidade, +verdadeiramente fenomenal. + +É que, sendo ele um artista, na rigorosa acepção titular da palavra, +namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na +extática adoração de tudo quanto ela sobredoira do seu brilho imortal, +é ao mesmo tempo um funcionário exemplar, um delegado do procurador +régio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte +Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu carácter e no +correcto exercício da sua profissão, toda a prestigiosa soberania da +Lei. Diz ainda Fialho de Almeida, inteiramente insuspeito, quando se +trata de aquilatar o mérito de um autor: + +«Aí está efectivamente revelado não só um talento plástico e bastante +rico, em cambiantes, como também a pura água de um carácter cheio das +mais finas intenções.» + +Às vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade +nostálgica ou treme de frio... legal. + +É então que ele murmura, (perdoa a indiscreta alusão, meu caro +Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o +meu espírito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu +ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz ideia, não! +Dentro desta jaula de ferro, veja! E lá fora, e lá em cima--que amplo +céu azul para voar!» + +Mas nesse azul para onde lhe foge o espírito, quantos triunfos ainda o +esperam, meu ilustre amigo?--_Guiomar Torrezão_.» + + +Revista de Portugal:--(Excerto de um artigo crítico acerca do _Só_ de +António Nobre).--«Alma doente, o Sr. António Nobre soube extrair da sua +doença efeitos de Arte singulares e às vezes intensos. Outros +atingiram o mesmo objectivo pela descrição das emoções naturais e pelo +apelo aos instintos sãos do coração humano. Acabo de reler o livro +de um escritor também novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com +casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser compreendidos +por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a afeição de dois +pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida +junto à cruz da sua vítima, o amor materno de uma cabra que se deixa +morrer sobre o cadáver do filho recém-nascido, consegue o narrador +interessar e comover vivamente o espírito de quem o acompanha através +dessas duzentas páginas impregnadas dos sucos da terra e do suor dos +lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade +pessoal decisiva para a beleza das obras.--_Moniz Barreto_.» + + +Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face, +olhando-o bem, medindo-o de alto a baixo,--o que não seria difícil mesmo +no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar +no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples +conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se ele de nós, porque já +então a gente não se atreve a separar-se dele, tem-se adquirido a +certeza de que aquilo é o que é, e chegado à mais sólida convicção de +que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um +coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais +insubmissas ao menor propósito do menor disfarce, do que na sua +fisionomia bem aberta, iluminada em cheio pelo brilho intensíssimo do +seu olhar muito límpido, muito penetrante, se expressam toda a +sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso +temperamento. + +E ao vê-lo partir pela rua fora, decidido e teso, resoluto e rijo, a +cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que +dá gosto vê-lo, não resistem os olhos ao desejo de acompanhá-lo de +longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou +pensa:--«Demónio!... Com meia dúzia assim, poderia fazer-se _alguma +coisa_ ainda!...» + +Porque no meio desta espécie de contágio, que os perversos e as suas +perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos +quando com eles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando +passam--só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este solo e +purificar esta atmosfera. + +Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem +da sua vida,--o mundo literário e o mundo judicial--afigura-se-me +ele, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelével +cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos +para a dilacerante historia patológica da sociedade portuguesa neste +agonizar de século, quando aponta o implacável índex do Ministério +Público contra os altos réus de certas causas célebres,--ora imprimindo +nalgumas obras de pura arte literária, em que a elegância da forma é +posta sempre ao serviço das emoções mais doces e das mais penetrantes, +esse outro cunho, dessa outra individualidade que nele há, e tão +diversa é, tão original e tão rara, tão contemplativa e tão terna. + +...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do +seu impetuoso temperamento! + +No tribunal, quando articule algum libelo acusatório em que as suas +palavras se não limitam ao cumprimento do dever de ofício, não tardará +que à serena exposição dos primeiros articulados suceda a expressão +calorosa, indómita, sempre crescente, da indignação, e da cólera, que +lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vai deduzindo a +tremenda acusação contra o réu--...esse réu que ali está, ali! +sentado naquele banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés! +Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração acelera-se, a face +ruboriza-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito +enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cérebro +vigoriza-lhe os músculos, afirma-lhe a energia, parece transportá-lo ao +império da força, num arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas +se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado +a frenético!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta, +quase ronca, vociferando, em discordâncias agudas que vêem ferir de +arrepios a espinha dorsal do auditório... Já não é para a justiça dos +homens que ele apela; não lhe bastam, não o saciam as penas máximas +dos Códigos! Quer o castigo do Céu, quer a justiça de Deus! + +...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem pior +que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana +havia condenado por assassino e ladrão--o pobre Manuel Barradas. Muito +comentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministério +Público, um feroz acusador, empenhasse dois anos agoniados da sua vida +em apurar uma inocência... Trindade conserva, encadernada, a colecção +desses jornais, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no +princípio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um +pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Ele, em +prémio da minha obediência, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo +do meu coração. Queres ouvi-lo bater? Ausculta essas folhas... Bendito +seja Deus! serão ainda minhas as tuas lágrimas enternecidas, e, ainda +depois de morto, viverei na tua comoção e na tua alegria, para a +comoção e para a alegria da minha obra...» + +Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste +nos oferece a outra fase desse mesmo espírito, quando o vulto austero +do magistrado, cedendo o lugar à delicada individualidade do homem de +letras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa, +muito à vontade e à fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a +vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, dessa muito +viva e muito afectuosa ternura que à sua alma de artista dá, e que a +sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que +não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordação a +que andam para sempre ligados, numa doce e meiga associação de ideias, +certos lugares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo +olmo, que já lá estavam quando ele nasceu, que o embalaram nos +primeiros sonos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao +baptismo o levaram, e o conduziram à escola; alegrando-se com as suas +alegrias, entristecendo-se com as suas lágrimas... + +Nesses momentos, sob o domínio desse lindo sonho, inundado do luar da +sua terra, desanuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se +pousar-lhe nos beiços e nas pálpebras a serenidade meiga de um sorriso, +como que o doce agradecimento à alma de sua mãe, que tivesse vindo, +muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito, +aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos lábios a amorosa +carícia dos seus beijos... + +Por isso, a música do seu estilo produz sobre a nossa sensibilidade +essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos músculos e a +efusão das lágrimas realizam o fenómeno das emoções reais. + +Os seus escritos obedecem sempre à lógica influência desta convicção +em que ele está, quando me diz, bem medindo e pesando cada uma das suas +palavras: + +--«Positivamente, meu amigo, o público deseja, antes de mais nada, que o +escritor preste na sua obra o culto que é devido à sua língua. Depois, +deseja que o comovam, que honesta e consoladoramente o emocionem, +preferindo que o assunto do quadro seja a exploração das coisas +triviais da vida, certamente porque reside no Simples a fórmula mais +natural da Verdade... Compreendo que o espírito dos que lêem está +fatigado dessa confusão do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me, +enfim, de que a obra de arte literária tem, como primeiro dever, e como +condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre +de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e +entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferência, mesmo, +às faculdades intelectuais...» + +Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos. É o primeiro deles, +_Idílio rústico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarela, parece que +feito sobre um esbatido de céu puríssimo, cor de sovaco de andorinha e +não sei com que singular sabor eucarístico de primeira comunhão... É +um sonho de absinto, que serve de aperitivo divino para a leitura +sôfrega de todo o livro. Dois pastoritos ingénuos, a Rosária e o +Gonçalo, encontram-se e aproximam-se, numa indecisa alvorada de +derriço, cheios de boas tenções e puros ideais. Acontece, porém, que por +viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada, +imaginem os que como eles se amem a alegria que inunda aquelas duas +almas! Duma vez, passada alguma dessas ausências longas, quis Deus que +os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando +seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como +juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se +põe, vagueiam nas frescuras marginais do rio, a par, e sós, ele +dedilhando a flauta, ela recordando cantigas, com murmúrios de água +correndo, e balidos suaves dos lanígeros, numa paz de alma idílica de +iluminura. E quando a noite chega, porque lhes custe imenso a +separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as +ovelhas durmam em mistura e que passem eles a noitada sobre o mesmo +colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instintiva relutância, +Rosária aceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as +mantas cobertor comum, e pousando as cabeças nos bornais unidos, +parecer-vos-á, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos +desmedidos... Nada disso, perversos! A pouco e pouco vai escurecendo, e +os bons dos namorados, numa plácida orquestração final que se smorza, +referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no sono e +adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da +maldade nossa. + +Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fora, e que vamos +bisando e saboreando a pequeninos golos, durante algumas horas bem +fugidas, passeadas por aquelas paisagens e recantos provincianos que +ele nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivéssemos; em +companhia daqueles tipos que ele retrata, tão fotográficos, tão +nítidos, que é estar a gente a vê-los, a ouvi-los, a falar-lhes, a +deitar-lhes o braço pelo ombro... + +Antes dos seus contos nunca a prosa portuguesa me havia dado, posta ao +serviço da moderna arte, o inefável gozo de tão estranhas, tão novas, +tão encantadoras surpresas! Quisera eu, inédita, bem fresca, pela +primeira vez usada a respeito da sua escrita, esta flagrante +comparação:--dir-se-ia traçada com uma pena de águia... arrancada de uma +asa de pomba. + +Os seus livros ficarão pertencendo ao número daqueles que parecem +possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espírito de quem os lê. +Reler o que ele escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de +quando se contempla pela centésima vez algum querido, precioso objecto, +que noventa e nove vezes se contemplara já: privilégio esse de eterna +sedução, que só desfrutam as obras em que o artista deixou pedaços da +sua alma.--_Alfredo Mesquita_.» + + +Do Poema do Ideal: + +«_Os meus amores_! que livro +Tão fragante e saboroso! +Centelhas áureas e vivas, +Dum prosador luminoso! + +Brisas da serra! +Trechos idílicos +Da nossa terra!» + +_Fernandes Casta_. + + + + + + + + + + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES *** + +Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of +the original version, already available at Project +Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão +original, já disponível no Project Gutenberg.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. 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