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+The Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os meus amores
+ contos e balladas
+
+Author: Trindade Coelho
+
+Release Date: January 12, 2006 [EBook #17503]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***
+
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+
+
+Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited
+by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
+Digital--http://bnd.bn.pt). (This file was produced from
+images generously made available by National Library of
+Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+OS MEUS AMORES
+
+
+TRINDADE COELHO
+
+
+*OS MEUS AMORES*
+
+(Contos e Balladas)
+
+_2.^a edição_
+
+
+LISBOA
+
+Livraria de Antonio Maria Pereira
+
+50, 52--Rua Augusta--52, 54
+
+1894
+
+
+
+
+_LISBOA_
+
+Typographia e Stereotypia Moderna
+
+11--_Apostolos_--11
+
+
+
+
+Ao Doutor
+
+Antonio Xavier Perestrello
+
+
+
+
+«_Os Meus Amores_»
+
+
+_Folhas dispersas dos meus annos de oiro,
+Vivo enxame das minhas alvoradas,
+Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
+As Desdémonas sois de um outro moiro.
+
+As brancas horas que eu em sonhos doiro,
+Essas horas febris, illuminadas,
+Eil-as fugindo, em tristes debandadas...
+Levaes nas azas todo o meu thesoiro.
+
+Folhas: subi, voae ao céo tão alto,
+Que o ceo em estrellas vos converta e mude,
+Lá nas longinquas illusões que exalto;
+
+Como as frementes aguas d'um açude,
+Levae a Deus, no derradeiro salto,
+O derradeiro adeus da juventude_...
+
+_Luiz Osorio_.
+
+
+
+
+IDYLLIO RUSTICO
+
+_A Fialho d'Almeida_.
+
+
+Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atraz d'elle,
+era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
+conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
+insignificante ruido. Dormia-se a somno solto por todas aquellas casas.
+Apenas algum cão, subitamente acordado em sobresalto pelo chocalhar do
+rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde ficara de
+sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
+companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores entoavam
+matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios, n'alguma
+esturdia, a deshoras...
+
+Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a
+banda, n'uma grande pacificação de templo adormecido. Nem viv'alma pela
+ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céo
+azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a largura, a
+paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito mortiça que nem
+era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No emtanto a manhã era
+calma; nem rumores de briza pela rama das azinheiras velhas que faziam
+guarda ao corrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grillos nas
+hervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
+do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
+que se ia submissamente á mercê do pequeno pastor, parando se elle
+parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
+novo elle se punha a caminhar.
+
+Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro,
+que o echo levou para longe.
+
+--Não gastes polvora, Antonio!--recommendou o pastor.--Ouviste?
+
+E logo a voz do guardador:
+
+--Madrugas hoje, Gonçalo!
+
+--P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.
+
+--Está bem. Adeus!
+
+--Saudinha.
+
+A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na côr. Invadia
+a amplidão da cupula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrellas
+feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira d'além, entravam de fazer-se
+nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
+altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra... N'este assomo
+d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
+vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos levantavam-se
+repentinamente, em vôo perpendicular, e cortavam ares fóra, chilreantes
+e alegres, até se perderem de vista por de traz dos arvoredos e cabeços.
+De cauda em riste e orelhas immoveis, o rafeiro espreitava as hervagens
+seccas, onde algum reptil passasse vagaroso.
+
+--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo ás cobras.--Busca,
+valente!
+
+Á medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas ouvia-se,
+mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
+se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de
+paciencia,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
+interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre, á
+frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
+areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle céo ainda estrellado,
+o Gonçalo desabafou:
+
+--Uff! até que emfim!--E pensava aliviado:--Nada mais facil do que
+terem-me sahido os lobos!...
+
+Mas vista áquella hora, e no meio de tal silencio, a corrente liquida
+tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
+aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, n'uma
+lucta desesperada com as aguas, clamando em vão que lhes acudissem, em
+tamanho transe afflictivo. A margem de lá, especialmente, era toda
+accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quaes no
+inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que era
+um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, n'um
+descuido involuntario--simples remadela pouco a tempo, manobra menos
+segura de leme, ou impulso errado de vara.
+
+E então, cabeços enormes d'um lado e d'outro, projectando sobre o largo
+leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
+sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
+limitada a paizagem.
+
+A todo o comprimento da margem, o rebanho pôz-se então a beber manso e
+manso, e sem o minimo ruido.
+
+Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
+pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem.
+
+--Táte, Gonçalo! Aquella chocalhada...
+
+E immovel, remordendo o labio, com o ouvido á escuta, pensava:
+
+--Ora se será ella?...
+
+Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um
+clarão de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como elle, com
+quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
+
+--Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo.
+
+E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, pôz-se attentamente
+á escuta do tilintar dos chocalhos na margem opposta.
+
+«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser
+outro que não a Rosaria...»
+
+Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
+ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para deante o bornal, feito da
+pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
+flauta e pôz-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rustica.
+
+No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
+
+--Ehlà, Gonçalo, és?
+
+O pastor desatou a rir.
+
+--Uhlá, Rosaria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
+
+E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
+
+--Não te esqueceu a moda, rapaz!
+
+--Isso esquece ella!... Ouviste, Rosaria?--Se outra fosse que m'a
+tivesse ensinado...
+
+N'este meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
+ter com a Rosaria. Mas primeiro perguntou:
+
+--Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
+
+--Vem tu d'ahi. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Han?
+
+--Basta!
+
+E dando o signal da partida, o Gonçalo pôz-se em marcha. D'ahi a
+pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte moirisca, toda severa de
+construcção nos seus tres arcos lançados sem elegancia, atufados de
+parasitas seculares que a faziam pittoresca, heras, silvas, ortigas
+bravas.
+
+A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratorio ao Senhor
+Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
+coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
+com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
+era como um talisman precioso para livrar de maiores
+desgraças--naufragios no rio, e então maus encontros por aquelles
+caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animaes.
+
+D'ahi a pouco, as duas creanças estavam perto uma da outra, cada qual
+seguida do seu rebanho.
+
+--Ora viva a Rosaria!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da
+cachopa.
+
+--Bons dias, Gonçalo; então que ventos?
+
+Entre os dois travou-se então um longo dialogo em que se contaram tudo o
+que haviam feito desde aquelle dia em que ambos tinham voltado juntos da
+feira dos Caniços.
+
+--Por signal que nem rez se vendeu!--lembrou o Gonçalo.
+
+--Por signal!--disse com pena a Rosaria.
+
+Mas elle contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
+a encontrava. «Vêl-a agora, só por milagre de santo; quem o havia de
+sonhar! Nanja elle...»
+
+--Mas se eu estive tão doente!--volveu triste a Rosaria.
+
+E como o outro acudiu a informar-se, ella explicou:
+
+--Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
+mesmo lume desde manhã até ao escurecer... Uma assim!
+
+E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
+febre, sonhara com elle, que se encontravam os dois por montes e prados,
+como agora tinha acontecido, «tal e qual».
+
+--Assim te Deus salve, ó Rosaria?--atalhou rapido o pastor, a quem
+enchiam de orgulho os sonhos d'aquella pequena amiga.
+
+--Assim; pois que duvida?--tornou-lhe confiada a Rosaria.
+
+--Não!--disse agastado o Gonçalo.--Não has-de dizer assim... Diz certo,
+has-de jurar direito.
+
+--Pois assim me Deus salve...
+
+--Como é verdade...--Diz tudo, Rosaria!--supplicava o pastor.
+
+--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como é verdade que sonhava
+que nos encontravamos--concluiu por fim, muito risonha.
+
+E sem disfarçar o jubilo, prestes o Gonçalo a certificou de que tambem
+não a esquecera. «Tanto é que tirava da frauta as cantigas todas que
+ella lhe tinha ensinado.»
+
+--Lembras-te?
+
+A Rosaria faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na frauta de
+sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
+
+--Sahem d'aqui sem falhar uma.--E resoluto:--Vá feito, Rosaria, pede por
+bocca!
+
+A Rosaria pediu então a _Pastorinha_.
+
+--Eu é da que mais gosto,--explicou.--É a mais linda.
+
+--E é!--concordou o Gonçalo.--Ora escuta lá.
+
+E levando aos labios a avena, pôz-se a tocar a _Pastorinha_, emquanto a
+Rosaria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a lettra:
+
+Onde _vás_, ó Pastorinha,
+Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé...
+
+--Sabes essa! É mesmo assim!--disse-lhe a Rosaria a rir-se.
+
+--É como vês!--affirmou contente o Gonçalo.
+
+Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
+confundidos, andavam na pastagem.
+
+--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonçalo.
+
+--Tambem nós nos quedámos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As
+pobres dão-se bem, são amigas...--continuou com jubilo.
+
+--E nós tambem, ora tambem, Rosaria?
+
+--Tambem--respondeu afoita a pastora.
+
+E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denuncias.
+
+ * * * * *
+
+A esse tempo, no céo alto e lavado a estrella d'alva fenecera por fim, e
+o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céo em
+cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias extranhas que iam
+despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de
+perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena,
+tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de
+azas--passarada alegre que sahia agora dos ninhos e voava a matar a sêde
+á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
+reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convisinhos onde a vegetação
+era mais rica de seiva e mais facil a presa dos insectos, perdizes
+gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
+vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
+de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicóllos,
+viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
+taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
+nas povoações proximas sinos chamavam para a missa d'alva ou tocavam a
+Ave-Marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
+almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no céo
+immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
+para a labuta interminavel do dia. N'uma clareira elevada, dominando o
+rio e um trecho de paizagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
+e continuavam conversa.
+
+Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua côr
+trigueira levemente pallida desde que tivera as maleitas. Não se
+lembrava com que santa que elle tinha visto se lhe parecia agora a
+Rosaria...
+
+--Mas o cabello assim cortado...--disse com magua, mirando-lhe a cabeça
+nua, e passando a mão pela d'elle,--é que te não fica bem!
+
+«Melhor fôra que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
+mais, que era como elle gostava...»
+
+--Promessa da mãe se eu melhorasse--explicou a Rosaria--Lembranças... A
+gente quando está afflicta...
+
+--...Quando está afflicta...--repetiu como um echo o pequeno. E depois,
+amuado:--Se promette os olhos...
+
+A rapariga fitou-o, espantada.
+
+--...é porque t'os tirava!--concluiu convicto.
+
+Houve um momento de silencio, em que o Gonçalo se pôz a escavar o chão
+com uma pedra, e a Rosaria a torcer um fio saliente do seu vestido
+grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
+na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.
+
+--Não fallas, Rosaria?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para
+ella.
+
+--Tambem tu...--começou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a
+lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!--E depois
+animando-se:--Já foste á Senhora dos Remedios?
+
+O Gonçalo fez signal que não tinha ido.
+
+--Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. N'um prego ao lado
+do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.
+
+O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
+para acabar com ella:
+
+--Que emfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a
+girar.--Olha como dança...--E depois, mais pensativo, batendo com o
+bilro nos dentes:
+
+--Que ás vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem
+fez este bilro?
+
+--Foste tu, aposto.
+
+Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lh'o
+orgulhoso--«que visse os _torneados_.» Depois continuou:
+
+--Vae uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
+santos!--Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem resou e
+bem promessas fez, mas ella foi-se.
+
+E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
+
+--Aquella ovelha, a branca, não vês? A que se vae agora deitar... Pois
+era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.--E deitando-se para
+traz:--Lá anda ella a pastar!--concluiu desalentado.
+
+--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosaria,--que as promessas
+sempre fazem, lá isso...
+
+E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
+de que sempre valiam as promessas. No emtanto, deitado de costas, com a
+jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em angulo tocando-se com os
+joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
+subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
+se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosaria ia
+entretendo o pastor. Mas quando ella fazia pausa, logo o rapaz acudia,
+firme na sua objecção:
+
+--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!
+
+ * * * * *
+
+Á medida que o sol ia subindo, no céo glorioso e fulvo, iam os dois
+conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados, para se livrarem da
+estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia, que
+foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheiraes,
+depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
+conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
+passassem tão depressa. Ainda armaram aos passaros, mas foi o mesmo que
+nada, os demonios andavam espantados e já conheciam as esparrellas.
+
+--Olha lá não caiam,--tinha dito o Gonçalo, já cançado de estar á
+espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se elles
+fossem tolos...
+
+E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella
+então propoz que jogassem a pocinha.
+
+--E o fito, ó Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos de
+tarde, bato-me com qualquer, sabias?
+
+E generoso:--Mas a ti dou te partido: vinte e cinco ás quarenta...
+
+Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a
+bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia á mão, era elle que ia
+buscar o pausinho, quando zinia longe.
+
+--Turco, traz cá!
+
+ * * * * *
+
+No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céo esmorecia no seu
+azul suavissimo. Em todo o espaço o ar estava tranquillo e sereno, e já
+começava para poente a decoração phantastica do occaso. Parece que se
+ouvia mais distincto o marulhar das aguas no rio; já não faiscava assim
+tão viva a areia branca das margens.
+
+Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
+ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
+olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim:
+
+--Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste?
+
+«Ora que lhe custava a ella! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
+o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»
+
+--E o mais, ó Rosaria?--perguntou de novo com interesse.
+
+A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
+respondeu:
+
+--Tambem.--E sorriu-se.--Pois eu...
+
+Só depois d'esta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o signal
+de partida, assobiando aos cães.
+
+D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
+ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
+areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
+tremeluzia, tirando á agua a sua translucidez normal.
+
+--É bonito!--fez notar o pastor.
+
+A Rosaria explicou logo:
+
+--São as moiras a caçar com redes d'oiro, sabias?
+
+Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam á flôr da corrente
+as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
+serenamente, a mãe com o mais novito ao collo não os perdia de vista,
+emquanto o pae, em mangas de camisa, de pé n'um topo de fraga, lhes ia
+ensinando as _manobras_. Ao fundo, tres vitellas passavam o rio a vau,
+muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia d'agua
+serena, bebendo mansamente. Sobre o vitello das malhas brancas, o
+guardador cantarolava, acenando com o chapeu ao moleiro--«boas tardes!
+boas tardes!» Ao sahir da ponte, o rebanho teve de se affastar um pouco
+do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
+carregados, tilintando campainhas.
+
+--Adeus pequenos! cumprimentou.
+
+--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos.
+
+E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
+confraternisavam os cães como bons e leaes amigos. Á frente, o Gonçalo
+ia tocando na flauta o mesmo que a Rosaria cantava. O brando rumor dos
+chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a musica,
+fundindo-se n'uma nota subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada...
+
+Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
+então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, collocando na sua frente
+a Rosaria, e pondo-lhe á cara a flauta, na direcção em que devia olhar.
+
+--Vês além... n'este direito? Rez-vez do castanheiro, não enxergas?
+
+A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
+
+--Então é ali?
+
+--Ali mesmo--volveu-lhe já de marcha.
+
+E repoisando a mão direita sobre o hombro esquerdo da rapariga,
+repetiu-lhe muito contente:
+
+--É mesmo além.
+
+N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o espaço
+que as ovelhas tinham de occupar essa noite.
+
+--Falta pouco; a gente vae pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
+cavallo.
+
+E como elle ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quiz então
+saber:
+
+--Estás triste, ó Rosaria?
+
+--Triste... não. Já agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa.
+
+--Huum! Arrependeu-se...--volveu comsigo o pastor.
+
+ * * * * *
+
+Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
+dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle ainda trazia
+azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
+apontou para a cabana que ficava alli perto, e propoz que se deitassem:
+estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.
+
+Quando o Gonçalo e a Rosaria entraram na cabana e se deitaram sobre o
+colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
+os bornaes que faziam de travesseiro, cerrára de todo a noite, e
+formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida no azul
+indefinido do céo.
+
+--E os lobos?--perguntou a Rosaria com medo.
+
+--Não ha perigo--tranquilisou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães.
+
+ * * * * *
+
+Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos
+chocalhos. A ladrar, os cães faziam echo. O rebanho devia dormir
+profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada toda a
+Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
+n'um ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
+deixaram adormecer,--quando a historia das moiras encantadas ia no seu
+melhor episodio...
+
+E lá no alto céo, mesmo sobre a cabana, a estrella da tarde não era nem
+mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa d'aquellas duas
+creanças...
+
+Quando ao repontar da manhã se levantaram, e sahiram a vêr o céo...
+
+--Bonito dia, Gonçalo!
+
+--Bonito dia, Rosaria! Olha...
+
+...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
+voando...
+
+
+
+
+SULTÃO
+
+(Copiado do Natural)
+
+_Ao meu Henrique e a Beldemonio, seu amigo_.
+
+
+I
+
+
+Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa, cançado, esfalfado de
+andar um dia inteiro a mourejar no campo.
+
+--Meus peccados, boa tarde!--dizia elle para a mulher, com um sorriso a
+affectar seriedade.
+
+Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a benção.
+
+--Deus te abençoe.
+
+--Pae, olhe que o «Sultão»... ia a dizer o pequeno.
+
+--Bem sei! atalhava logo o Thomé.--O «Sultão» é um maroto e tu és outro.
+
+E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de
+_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze annos, e abria a
+gaveta do pão, o Thomé punha-se a fazer de interesseiro comsigo mesmo,
+resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:
+
+--É que por este caminho não tenho um dia descançado... Nem uma hora...
+
+Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.
+
+--...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim ha de chegar... A
+modos que vou já cançando...
+
+Mas o Thomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
+Pareciam-lhe longos, interminaveis, os aborrecidos domingos que passava
+sem ir campos fóra, madrugador como um melro.
+
+--Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thomé encolhendo os
+hombros, como quem está desgostoso com um genio assim.
+
+Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
+cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
+que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito á vontade.
+
+Costume velho do Thomé:--mal se sentava, mastigando o «boccado», dizia
+logo para o filho:
+
+--Ouves, Manuel? Bota cá fóra o «Sultão».
+
+O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
+nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
+contente, dizendo cá da rua:
+
+--«Sultão»! Sae cá p'ra fóra, «Sultão»!
+
+No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
+baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
+riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um movimento moroso de
+palpebras pestanudas...
+
+E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
+pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava,--um grande riso de
+alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».
+
+Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
+Thomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
+quadrupede de boa raça, alguem lhe poderia lêr no olhar, mole e
+impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o dono...
+
+Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
+então a fallar muito serio, entre resignado e cortez, para o pequeno e
+desdenhoso jumento--o pão e o queijo esquecidos n'uma das mãos, na outra
+a navalha de _meia-lua_:
+
+--Então, «Sultão», não vens?
+
+--Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
+envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia d'aquella
+immobilidade de estatua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
+na soleira, zap!
+
+--Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.--De mal comigo?
+
+E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á
+vontade...--que não fosse vel-o o «Sultão»... Mettia entre dentes um
+pedacito de queijo, logo uma codea de pão, e fazendo umas grandes rugas
+na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito serio:
+
+--Ficas ahi, «Sultão»? Já não és meu amigo?
+
+O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
+fazendo-se humilde...
+
+--Então se és, anda d'ahi. Olha...--E mostrava um pedacito de pão.--P'ra
+ti se vieres...
+
+O «Sultão» dava tres passos, e ficava fóra do cortelho. E por se vingar,
+o Thomé carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada, e erguendo o
+rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, affirmando que já lhe
+não dava o pão. E desfechando-lhe emfim a ameaça de o vender a um
+cigano, entrava a tratal-o por senhor--_sôr_ «Sultão»...
+
+Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
+baixas, pescoço cahido, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
+da arrelia.
+
+Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra banda, a rir
+como um perdido.
+
+--Diabo do gerico! diabo do ratão! Capaz é elle de fazer rir as pedras,
+o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na guela.
+
+No emtanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
+o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé sacudia-o:
+
+--Sae-te p'ra lá! dizia elle muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez
+que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vae-te!
+
+Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
+focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
+obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
+superior, a tremer, e roubava-lh'o da mão.
+
+Pazes feitas! Era então rir a perder, n'umas casquinadas agudas, muito
+estridulas.
+
+--Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.^a Josefa.--Até pareces
+doido!
+
+--Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
+o Thomé, n'uns grandes gestos.--Vamos que eu lhe não queria dar da
+merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque.
+
+Era precisamente o que o Thomé queria:--ver o «Sultão» a brincar.
+
+...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
+lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe
+consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes
+causticantes e chuvas torrenciaes.
+
+Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das
+«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Ás vezes, o pequeno jumento,
+ferido não sei por que vespa invisivel, despedia sem mais nem menos
+n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, agitando a
+cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a banda n'um alarido o
+rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
+cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Accudia gente aos
+postigos, ás portas, ás janellas, a ver a polvorosa; e subito se
+inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quasi nús, correndo
+atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o
+mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a propria
+rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
+todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, acclamado, na malta
+espavorida dos inimigos...
+
+--«Sultão»! eh lá! «Sultão»!
+
+Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
+volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga, não lhe
+desse na bôlha atacal-os... E abriam alas de repente, quando elle,
+tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se não
+deixar atropellar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
+já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
+estridulas, os rogos para que pozesse treguas, as supplicas para que se
+accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da escada, onde
+se deixava cair,--derrotado!
+
+--P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Thomé, oppondo-lhe os pés,
+desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para traz, a rir
+como um perdido.
+
+Então o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes rompia a
+girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as patas, cauda
+no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé solicito dava aos
+rapazes o aviso de se arredarem--«porque era doido, aquelle demonio»!...
+
+Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito
+cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um cão,
+certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
+saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes á surpresa da
+viandante.
+
+--Dê, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de lá o Thomé, com ares de
+zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
+verdasca:--«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.
+
+E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a elle,
+muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um cumprimento humilde
+de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
+preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» signaes de medo, e humilde
+proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
+passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada
+ganhava o terreno perdido--fitando impassivel o cão... O bruto formava
+então o salto, regougando forte, o pêllo eriçado; e ao investir para a
+primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
+por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
+coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:
+
+--Eh! valente! gritava-lhe então o Thomé.
+
+E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo
+ao correr a caravelha:
+
+--Não ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve!
+
+E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia para a cama sem
+primeiro descer a vêr o «Sultão»,--de candeia na mão esquerda, e na
+direita, contra o sovaco, a bella quarta do grão, acogulada.
+
+Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de candeia
+attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de cima, a sr.^a Josefa
+tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:
+
+--Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.
+
+E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que
+fallou,--historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto
+que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo
+desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:
+
+--Boas noites!
+
+ * * * * *
+
+Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao
+cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a
+mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
+enorme--gelada...
+
+--Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.--Ó Josefa!
+
+A mulher assomou á janella, sobresaltada.
+
+--Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!
+
+--Que te roubaram o quê? fez a sr.^a Josefa, muito attonita.
+
+--O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que m'o roubaram!
+
+E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, descalço, romperam todos
+tres na gritaria, defronte do cortelho vazio:
+
+--Á d'el-rei! Á d'el-rei! Á d'el-rei!
+
+Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na
+peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram.
+
+Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando
+ao peito abatido do Thomé a negra e vazia palavra:
+
+--Nada!...
+
+
+II
+
+
+Dois annos depois. Tarde d'agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
+eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e
+embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverisações doiradas da
+ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
+ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar,
+esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
+Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
+além, alegremente, a monotonia profunda do azul. N'um deslado, sob os
+castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
+igreja, as paredes caiadas da escola.
+
+A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava áquella hora o
+aspecto tranquillo e de paz de uma grande officina em repouso. Poucas
+«mêdas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
+estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
+«mêdas» altas, entre os utensilios da trilha e a creançada estridula que
+brincava, os da lavoura descançavam--vermelhos da soalheira intensa de
+todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nú, arregaçados
+os braços musculosos, n'uma prostração regalada de matilha que alfim tem
+a sua hora de socego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
+fadiga os proprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
+todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
+dando uma sensação agradavel de fartura, perfilam-se os altos saccos no
+meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
+ao redor de um grande montão de palha triturada, vae «limpando»--visto
+que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
+mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
+«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
+varrendo em roda n'um afan... Em certo ponto, carros vasios; um além, de
+altissimas «angarellas», vae-se enchendo de palha; emquanto outros,
+atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas mais baixas,
+estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
+gigantes.
+
+Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
+bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
+oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêllo. E lá vão
+encosta abaixo, roçando pelos troncos asperos dos castanheiros a enorme
+corpolencia, fartar o largo bandulho á serena agua das ribeiras,
+sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
+monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam,
+submissa...
+
+Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
+cantava alegremente, em côro. Acabara de ensacar-se o ultimo grão da
+farta colheita do Thomé da Eira.
+
+--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.--A primeira
+da aldeia!
+
+--Qual? isso sim! vão vocês vêr a tulha. Muita palha, é que vocês hão de
+dizer, muita palha e pouco grão...
+
+E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as
+mangas arregaçadas pelos cotovelos, O Thomé ia e vinha, dando ordens,
+repetindo avisos, distribuindo aqui e além as ultimas tarefas.
+
+--Ahi vae um sacco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
+grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por ahi
+alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
+Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vae no carro está
+bem.
+
+E era como um doido a metter-se no serviço de todos, muito expedito,
+loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
+dormir...
+
+--Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma,
+que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz ahi no chão esse
+«rasouro», ó coisa?--Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses saccos que
+fiquem bem atados.
+
+O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
+ar, se era preciso mais alguma coisa.
+
+--Não, pódes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
+Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
+deixa ir os animaes a passo. Vae-te.
+
+Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:
+
+--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
+bois para o lameiro.
+
+Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:--«seria preciso vir por
+elles?»
+
+--Não vale a pena, lá irão.
+
+E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os
+levava, aquelles dois saccos...
+
+--Com mil demonios! Apostar que vocês não adivinham?
+
+«Elles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois saccos, olhem agora!»
+
+--O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
+que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!
+
+Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a scisma do animal não lhe
+passava nem á mão de Deus Padre!»
+
+--A modos que isso é já mania, ó sr. Thomé?
+
+Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpreza. Voltaram-se
+todos--«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
+a cavallo.
+
+--Vocês não querem vêr, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
+pallido.--Aquelle burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por elle...
+
+Recordaram:--«estrella malhada na testa, a mão direita branca»...
+
+--É elle, com um milhão de diabos! não ha que vêr! E aquelle é o ladrão!
+
+E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
+d'um abanão, o cabo d'uma «espalhadoura» e botou a fugir direito á
+estrada.
+
+Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:
+
+--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
+a alma lhe deixa! Acudam!
+
+Os homens deitaram a correr atraz d'elle, affluia gente de todas as
+bandas da eira, os cães ladravam.
+
+--Então, sr. Thomé? olhe que se perde, sr. Thomé! diziam-lhe, já
+agarrados a elle.--Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
+sr. Thomé, largue vossemecê o cabo!
+
+--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas,
+mais a vocês, se me não largam! Arreda!
+
+E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a elle mais ao
+cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.
+
+--Vê, sr. Thomé?!
+
+«Não via nada, não queria ver cousa nenhuma! Arreda!» E n'um rompante de
+ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou á estrada, aos
+tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.
+
+--Abaixo! intimou.--Você é um ladrão!
+
+--Um quê?
+
+--Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matal-o aqui, seu patife!
+Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, como um cão!
+
+E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
+e na direita o minacissimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
+razo--«com seiscentos milhões de diabos!»
+
+Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.
+
+--Já lhe disse que você é um ladrão!
+
+--Ladrão será você!--tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
+cerrados.--E não m'o diga outra vez, que o racho!
+
+Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
+capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador entrava de
+tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
+bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
+pedaço de hombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
+agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas cabeças em desordem.
+
+Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--«tinha-o
+comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...»
+
+--Vê, sr. Thomé? acudiram logo uns poucos.--O homem não tem culpa.--E
+gritavam-lhe aos ouvidos:--Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
+Vês-ahi está!
+
+--Mente! objectava incredulo o Thomé, cada vez mais irado.--Mente!
+
+--Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.
+
+--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thomé.
+
+De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi á má
+cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Elle então,
+abrindo os braços como se fosse para nadar, socegou um pouco,
+amainou,--prometteu levar aquillo com paciencia, ás boas. Chegou quasi a
+pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
+camarinhas.--«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»
+
+Chegou-se por fim a um accordo. «Sim, senhores, accommodava-se, mas
+punha uma condição: largasse elle o burro, e o burro é que havia de
+resolver...»
+
+--Serve-lhe o contracto?
+
+--Qual contracto?
+
+--Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro ás soltas.
+Depois, é p'ra onde elle fôr. Se o burro larga p'ra traz, lá p'r'as
+bandas d'onde você vem... Você d'onde vem?
+
+--Dos Casaes.
+
+--Pois ahi está. Se o burro tomar p'r'os Casaes, o burro fica seu...
+
+--E tomando direito á aldeia, é do sr. Thomé,--concluiram alguns do
+grupo, conciliadores.
+
+--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.
+
+Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia historia que o
+burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe
+custara tiral-o de casa.
+
+--Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe então que vae pr'os
+Casaes...--affirmou.
+
+--Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vae. Você está pelo
+dito?--quiz saber o Thomé.
+
+--Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro
+n'um rompante. Olhe: uma, duas, tres; ás tres largo-lhe a arreata.
+
+Ia já a abrir a bocca para dizer--«uma!»
+
+--Alto! fez o Thomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
+festas ao animal.
+
+E pôz-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
+pouco a fital-o de frente, «para que o animal o conhecesse.»
+
+--«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!
+
+O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a
+lembrança porventura adormecida d'aquelle nome despertara subitamente...
+
+--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
+p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casaes nem p'r'o logar. Assim. Eh! Eh!
+
+E afastou-se para o lado, aguardando.
+
+Uma anciedade dominava n'aquelle momento os do grupo; o Thomé pôz-se a
+roer as unhas, nervoso...
+
+--Então você porque espera? perguntou.
+
+Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:
+
+--Á uma!...
+
+O Thomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
+esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da mão direita...
+
+--...ás duas!
+
+--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Thomé.
+
+E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.
+
+--...ás tres!
+
+Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
+gargalhadas! O Thomé vencera: corriam todos a abraçal-o, affirmando que
+o caso era para foguetes.
+
+--Viva o sr. Thomé! Viva o «Sultão»! Aquillo é que é burro!
+
+--Aquillo é que é amigo, hão-de vocês dizer!--emendava o Thomé a rir.
+Tenho-os com dois pés, que não valem metade...
+
+--Oh! sr. Thomé! protestavam alguns.
+
+--Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que
+não é com vocês.
+
+E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fóra, o «Sultão» corria
+que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
+fundo, na poeirada immensa da estrada, como que nimbado n'um resplendor
+de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
+agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casaes...
+
+Quando o Thomé chegou a casa, offegante, a suar, cheio de gestos e de
+palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava á
+porta do antigo cortelho, n'uma grande impaciencia, um «rap-rap»
+continuo na soleira.
+
+--Venham vêr! Venham cá vêr! berrava o Thomé para a vizinhança. Ó
+Antonio! Ó compadre! Ó Maria Engracia!
+
+Ás janellas assomava gente, perguntando se era fogo.
+
+--Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
+Josepha! Josepha! cá temos o burro, este demonio. Assoma.
+
+Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effusão do lavrador.
+Abraços? E até beijos. Aquillo era um thesoiro perdido que reapparecia
+alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
+homem teria endoidecido...
+
+--Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda d'ahi pelos saccos. São
+só dois. Ó Josepha! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
+avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.
+
+E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
+pulo.
+
+--Ah!
+
+A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafão.
+
+--Anda, mulher, põe aqui deante de mim. Avia-te.
+
+Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma observação, um conselho,
+qualquer coisa de tomo...
+
+--Adeus, minhas encommendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
+aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.
+
+--Nome do Padre...
+
+--Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!
+
+--Nome do Padre, nome do Filho...
+
+--A caneca! Venha de lá agora a caneca!
+
+--...nome do Espirito Santo!
+
+--Passa bem, ó mulher,--concluiu ás gargalhadas, entre as gargalhadas
+dos demais.--Ouves? Quando o Manoel vier dos ninhos, esse maroto,
+manda-m'o ás eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!
+
+E lá parte, veloz como uma setta. Já de longe volta-se do repente:
+
+--Josepha! ó Josepha! n'esse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
+«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
+não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.
+
+E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
+direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, elle lá vae n'uma
+corrida, sumido n'uma onda de poeira, até chegar ás primeiras «mêdas».
+
+--Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
+andarmos de mal ha 15 annos isso acabou-se!
+
+E o Thomé atravessou a eira sempre a cavallo no «Sultão», caneca de
+vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.
+
+ * * * * *
+
+Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manoel no meio
+dos saccos, e adeante do Manoel o bello garrafão--sem pinga...
+
+Pelo caminho, a todos o Thomé contava a historia, a rir como um perdido,
+n'um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas.
+
+--Colheita rica, sim senhores, um colheitão!
+
+E parando á porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
+remexendo o alguidar de barro:
+
+--Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo.
+
+...Ao mesmo tempo que o Thomé, abrindo os braços, respondia reclamando
+as sopas:
+
+--Amen!
+
+
+
+
+ULTIMA DADIVA
+
+_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.
+
+
+Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
+bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de fructas e hortaliças,
+fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, communicando
+com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
+pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a
+nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga magnolia
+gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
+janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que
+lhe pendiam dos beiraes enlaçadas com as trepadeiras.
+
+De modo que na primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
+melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnolia
+toda se toucava de flores fazendo docel á vivenda, aquelle pequeno canto
+d'horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e limpida, tomava a
+feição ingenua de uma delicadissima tela de paizagista, aquarella
+deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos na poesia rustica da sua
+simplicidade.
+
+No verão, ás horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
+paizagem adormecida e turva, e as arvores da estrada não davam sombra
+que aliviasse, aquella tranquillidade com que o José Cosme ressonava sob
+o alpendre, braços nús e peito nú, o chapeirão de palha grossa
+resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cançados
+e cheios de poeira, flagellados por aquella estiagem inclemente.
+
+--Ó tio José!--gritavam-lhe do caminho.--Tio José! Ó regalado!
+
+Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses
+deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.
+
+Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas
+não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
+cultura--tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
+de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com symetria agradavel,
+verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
+castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
+acaçapada no chão humido das regas, até ás trepadeiras das vagens que
+enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
+esmero, formando massiços de verdura sombria que os casulos esguios dos
+feijões crivavam de alto a baixo. Arvores, apenas as precisas para
+aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
+das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de fructas nas
+estações competentes--cerejas, peras, maçãs, pecegos mesmo.
+
+Poucas flôres: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
+lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
+cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
+por signal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
+goivos. Uma vez por anno, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
+ia leval-os em braçado á sepultura rasa das suas defunctas.
+
+Exactamente n'essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a funebre
+visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
+bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
+chorar. Estava nas suas horas tristes, n'essas horas em que as energias
+todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagello de uma
+dôr violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
+morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lagrimas. De modo
+que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades custavam o dobro a
+supportar. Abstracto, n'uma especie de entorpecimento idiota, percorria
+sem descanço todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, automato.
+Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma quietação attenta, logo um
+gesto brusco desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um fundo
+gemido, e punha-se de novo a andar.
+
+--Vens ou não vens?--perguntava elle, evocando com dorido esforço a
+imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando apparecia era como se
+fosse um relampago, apagava-se logo.
+
+N'esta lucta com a sua dôr as horas iam passando longas. Era já tarde,
+talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrellas, pois que o luar
+nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o largo silencio da noite,
+apenas cortado, ao longe, pela melopeia somnolenta do rio.
+
+Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
+viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se n'um recanto
+onde a sombra era mais densa.
+
+--Temos historia...--resmungou comsigo o rapaz.
+
+E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, á espreita. Não desconfiou
+que fosse o José Cosme: aquillo era mariola de larapio que vinha por ali
+fazer das suas. Agachou-se então, e poz-se a procurar uma pedra. Apanhou
+duas, para o caso de não acertar a primeira.
+
+--Cão do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
+pedra.--Espera que eu te arranjo...--E já ia arremessal-a na direcção do
+canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
+logar onde o rapaz estava.
+
+--Melhor! Mais a geito ficas...
+
+E debruçando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avançava,
+para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
+hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
+defronte d'elle, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
+O vulto parecia, com effeito, ser o d'elle; lembrava-se agora de ter
+ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
+filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aquelles carreiros
+por onde ellas tinham andado.
+
+Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
+deixou cair as pedras e perguntou:
+
+--Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luiz... Vossemecê que tem?
+
+O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:
+
+--Doe-lhe alguma coisa, ó tio José?
+
+--Não dóe, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
+Bem me bondam as minhas afflicções. Vae com Deus, vae.
+
+O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o José
+Cosme dera áquellas palavras, e retirou-se silencioso, quasi aterrado
+agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
+a pedrada.
+
+No emtanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruido que não
+fosse o das aguas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadario,
+ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou um somnambulo.
+Ás vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
+sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. N'isto, de uma vez que
+passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir passos.
+
+--Ó Thomaz!
+
+--Sr. José!--respondeu o que entrava, n'uma voz que era mesmo voz de
+barqueiro.
+
+O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
+beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontral-o a pé, elle
+então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.
+
+--Como tinha de madrugar...
+
+--Pois são horas de largar, sr. José; isto vae p'r'as duas. Não tarda
+que comece a amanhecer.--E como estavam á porta de casa:--Será bom
+acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vae.--Iam á vela
+se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.
+
+Mas á ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
+sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
+violentamente.
+
+O barqueiro tentou animal-o, constrangido.
+
+--Então, sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
+homem!--E tentava levantal-o, pol-o de pé.--Limpe lá essas lagrimas, que
+vae affligir o pequeno! Ou quer que elle vá a chorar todo o caminho?
+
+O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e poz-se a enxugar os
+olhos com a manga da camisa.
+
+--Pois então levante-se lá.--E segurou-o com força por baixo dos
+braços.--Assim! Lá porque o pequeno vae para o Brazil não fique
+vossemecê a pensar que o não torna a ver.
+
+Mas era isso mesmo o que elle pensava...
+
+--Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno--concluiu
+a chorar o José Cosme.
+
+--Scismas! lembranças que veem á gente quando está afflicta. Mas ha-de
+vel-o que o não ha-de conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno menos anno,
+apparece-lhe ahi rico...
+
+Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que desejava
+era que voltasse e que elle ainda fosse vivo só para o abraçar.
+
+Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o José Cosme que
+se animasse para animar o pequeno--recommendava o barqueiro.
+
+--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos lá com Deus! Com'assim..
+
+E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito á porta para chamar a
+pequeno. Não havia remedio, tinha nascido em má hora, havia de ser
+desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde
+cama o filho dormia profundamente. Que dôr, ter do o acordar! Vieram-lhe
+tentações de mandar embora o Thomaz e deixar dormir a creança. Quem sabe
+se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquillidade
+d'aquelle somno! Não tinha coragem para o acordar, fazel-o vestir: era
+quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o tecto
+paterno... O ultimo somno! o ultimo somno!
+
+--Ainda se o deixassemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste.
+
+Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas de
+pôr o barco a andar.
+
+O José Cosme accendeu então a candeia, reccioso de que a luz o
+acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe a respiração.
+Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
+baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o, sobresaltado como se fosse
+praticar um grande crime:
+
+--Filho, olha que são horas, meu filho...
+
+Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
+estonteamento do somno, cerrando os olhos áquella hostilidade viva da
+luz, o pae agarrou-se a elle n'um abraço, e ambos romperam a chorar.
+
+--Adeus, pae!
+
+--Adeus, filho!
+
+Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar á porta, avançou para desatar
+aquelle abraço.
+
+--Olhe que é tarde, sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!
+
+O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do
+alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto.
+
+--A andorinha, filho?--perguntou o José Cosme.--Deixa que eu hei-de
+olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado.
+
+Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era só um
+instante. Lá estava ella, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
+tocou com as pontas dos dedos...
+
+--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a.
+
+A esta palavra, o pae retrahiu os braços e tomando o filho no collo
+seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de pinho: toda
+a bagagem do Joaquim.
+
+Ao transpor o cancello o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
+soluçando:
+
+--Quando voltarás ao horto, meu filho?
+
+O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
+de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as
+arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim.
+
+Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
+sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
+humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pae desejava
+que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante d'elles, de
+modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
+divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
+fallavam alto.
+
+--Prompto?--perguntou ainda de longe o Thomaz.
+
+Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.
+
+Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os soluços dos
+dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
+angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o
+barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram á beira do rio,
+apressou-se a dizer para o pequeno:
+
+--Ora bem, Joaquimsinho, beija a mão a teu pae e dize-lhe adeus.
+
+Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
+o filho:
+
+--Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te
+veja ir.--E fez-lhe prometter que havia de resar sempre a Nossa Senhora,
+elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem fazia a
+gente feliz.
+
+--Não te esqueças d'ella mais da alminha de tua mãe e de tua irmã...
+
+Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pae,
+beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
+Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
+desvairado:
+
+--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia!
+
+E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na cabeça, nas
+mãos. Até que o Thomaz teve de intervir, era preciso despegar d'ali por
+uma vez.
+
+--Com'assim, sr. José, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com
+força puxou-o para elle. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
+Cosme que supplicava de mãos postas:
+
+--Só um instante, só um quasinadinha, Thomaz!--E o pobre pae caia de
+joelhos na areia, n'uma attitude de supplica.
+
+Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
+ao colo a creança.
+
+--Rema!--intimou em voz rapida.
+
+O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
+_plhau_! sobre a agua.
+
+Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violencia desesperada, ao
+ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.
+
+--Adeus, Joaquim, adeus!
+
+--Adeus, pae!
+
+--Adeus!
+
+Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
+direcção do barco:
+
+--Thomaz! ó Thomaz! por alma de teu pae faz lá alto um instante.
+
+Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resolução, mas já agora era melhor
+ficar sósinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
+arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O Thomaz
+que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
+velho nadador destemido, com meia duzia de braçadas ganhou-lhe de
+prompto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ancia de esperar o pae,
+de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o José Cosme entregou
+ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:
+
+--É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!...
+Reza-lhe, sim?!
+
+E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
+chegasse o pequeno para o ultimo beijo...
+
+Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a
+lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
+em região mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro da noite,
+apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar desalentado
+do triste nadador, á voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
+longe--longe como se fôra do Infinito! a voz lacrimosa do pae--com o seu
+funebre _adeus_! que elle bem sabia ser eterno...
+
+ * * * * *
+
+...Só quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na distancia,
+diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das aguas,
+fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar á
+praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
+tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudissimo do Polo,
+na direcção do horto silencioso...
+
+
+
+
+COMEDIA DA PROVINCIA
+
+_A Alberto Braga_.
+
+
+I
+
+PRELUDIOS DE FESTA
+
+
+Esse anno, a festa da senhora das Dôres devia ser coisa de estalo. A
+começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e
+decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
+festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
+de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
+representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
+entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
+tivesse tempo de o acabar.
+
+--Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de lêr a carta. E
+correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que «no seu anno» a _coisa_
+fosse de arromba! Depois, era um despique. No anno atraz, o José da
+Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
+uma peça que era um castello a dar tiros, assim: Fff! Pum!
+
+--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o
+Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
+arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
+apresentára. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na villa, ninguem
+fallava n'outra coisa.
+
+--Então você já sabe?
+
+--Já sei. A cegonha.
+
+--A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro...
+
+--O que eu quero vêr é o camello. Feio bicho, já viu?
+
+--Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adeante do _Valente Rei
+Arauto Fiel_.
+
+Enganava-se.
+
+O escrivão da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
+aferidor.
+
+--Até que emfim, amigo Alves. Até que emfim vou ter o gosto de o ver
+arder.
+
+O outro não percebeu. «Que se explicasse...»
+
+--Um urso, no arraial queima-se um urso.
+
+--Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Tambem se lá
+queima um burro.
+
+Ás duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
+ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
+predilecção.
+
+O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
+dentro.
+
+--Põe a tranca, se fôr preciso.
+
+Mas então era cá da rua:
+
+--Ó sr. Antonio!
+
+E na porta as pancadas ferviam:
+
+--Truz! truz! truz! Sr. Antonio!
+
+--Éna! c'um raio de diabos!--fazia lá de dentro o homem, furioso.
+
+--O senhor faz favor? É só uma palavrinha.
+
+Á janella assomava então o Antonio Fagote, com os oculos na ponta do
+nariz e a carta do foguetorio na mão.
+
+--O camello? perguntava zangado.--O urso?! Camellos me parecem vocês,
+ouviram? O que o homem diz é isto.
+
+E lia a carta, rematando:
+
+--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
+macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava
+os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra!
+
+E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
+fosse elle burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar
+animaes, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, ahi
+tinhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
+José da Loja.
+
+--Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com
+aquelle espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
+tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negocio...
+
+--Farofias! tinha dito o José da Loja. Farofias!
+
+--Pois se m'o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
+soube.
+
+E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
+rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
+proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
+Depois, bom olho para a caçadeira. D'uma occasião, que foi preciso dar
+montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi elle que deu voz de
+preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh'a deu? A phrase ficou
+lendaria:
+
+--Como-te a alma se te mexes!
+
+--E o outro não se mexeu, que elle comia-lhe a alma! commentavam
+convictos.
+
+Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
+figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava com
+60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora. Não era
+nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
+largura de hombros que era o principal indicio de força. Pescoço curto.
+Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremettia com força,
+conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n'aquelle movimento sacudido.
+
+--Safa! que isso ahi é de ferro! diziam os rapazes. D'uma canna, hein?
+
+Mas bom homem, d'uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para
+se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma
+testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu lá da cadeira,
+foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava sério quando
+promettia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:
+
+«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
+como o pintavam.»
+
+--Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
+Fagote. Do que elle é capaz sei eu.
+
+Mas n'esta occasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
+lembrava uma: ter sido juiz o anno atraz!
+
+Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz
+este anno.
+
+--Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa
+em casa foi elle. Elle é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
+«entrego-te a vara, sempre quero vêr como te arranjas...»
+
+--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das idéas do seu
+Antonio.»
+
+--Sejam idéas, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
+assim me Deus salve!
+
+--Mas quem t'o disse, homem? Quem foi que t'o disse?
+
+--Quem m'o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da mão direita.--Foi
+este mindinho. Não falha.
+
+E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
+levar á parede. Agora levava! A festa ha-de se fazer, e festa de
+arromba; _nanja_ como a d'elle que só levava seis anjos, e não sei
+quantos andores, acho que meia duzia!»
+
+--Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio d'um homem!
+Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
+corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
+olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos, compungida de
+ver assim o seu Antonio.
+
+E poz-se então a renovar ordens, recommendações que a mulher já estava
+farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
+atar das sangrias!»
+
+--Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel á cata d'elles por
+esses povos á roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos.
+
+A mulher contraveio:--«dois seriam bastantes...»
+
+--Mau que ahi principiamos nós!--E poz-se a assobiar e a rufar com o pé
+no soalho, arreliado.--Tres é que hão de ser. Não quero cá dois, porque
+dois eram os do _outro_, o anno passado.
+
+A esta razão, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do silencio da
+mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o _outro_.
+
+--Agora não fanfas tu... insistiu elle, risonho. É assim mesmo que eu
+gosto. Signal é que tens vergonha. A _outra_ tamem não é mais que a ti.
+
+A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.
+
+--Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada.
+
+--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
+de casarem...
+
+--E olha que depois de casada... insinuou a sr.^a Luiza, de venta no ar,
+enfiando a agulha. Cala-te bocca.
+
+Façamos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que não se calou.
+Mas n'este particular, o resto do dialogo convém que se omitta, mesmo
+porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal á mulher do José da
+Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas n'isto não lhe faço a
+vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem sabe que eu sou
+conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que por uma associação
+logica de idéas a conversa veio parar em vitellas...
+
+--É preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o Antonio
+Fagote. Sem vitella é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.
+
+Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio. De
+mais a mais sabia-se que o prégador dava o cavaco por um bom pedaço de
+vitella assada.
+
+--O prégador é que arrasta ahi muita gente, observou a sr.^a Luiza. Para
+um boccado de sentimento não ha como elle. Quando foi das missões, o que
+elle dizia d'aquelle pulpito abaixo! É quanto se póde!
+
+--A mim o devem, se cá vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
+queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha de ir a umas caldas, e
+14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle.
+
+--Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionario...
+
+Estavam n'isto, quando bateram á porta. O Fagote foi ver á janella.
+
+--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.
+
+Era a creada da mestra regia, foram abrir.
+
+--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a sr.^a
+Luiza, e este bilhetinho para o sr. Antonio.
+
+Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o Antonio Fagote foi
+accender uma luz.
+
+«Que conversassem, emquanto elle via se tinha resposta.»
+
+--Muito calor, começou a sr.^a Luiza.
+
+--E então a casa da sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
+a creada.
+
+E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.^a Luiza, ao ouvido, de que
+lhe queria uma palavrinha.
+
+Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n'uma
+serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.
+
+--Está se aqui bem! exclamou consolada a sr.^a Luiza.
+
+--Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
+um favor, disse atrapalhada a creada.
+
+--Se estiver na minha mão...
+
+A outra começou: «A sr.^a Luiza estava ao facto do que se dizia d'ella
+com o criado do inglez. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
+Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
+mentira.»--Estamos para casar! é o que estamos! «Elle já mandara vir os
+papeis lá da terra, não podiam tardar».--Está claro que eu tenho
+affeição ao rapaz...
+
+--Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.^a Luiza, para
+dizer alguma coisa.
+
+--Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas é ahi que eu quero
+chegar.
+
+--Que experimente o limão azedo, aconselhou a sr.^a Luiza. É milagroso
+nas quartans. Não se afflija, que isso não ha-de ser nada.--E
+dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
+para matar quartans, pensando que era o que ella queria, afinal.
+
+--Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recáia. Mas é por via
+d'isso que eu lhe quero pedir um favor.
+
+Chegou para ella o banco de cortiça e confidenciou:
+
+--Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
+qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja, n'aquelle
+estado! inda não ha nada que sahiu da cama.
+
+--Pelos modos, os rapazes vão este anno longe pelo pau, disse com pompa
+a sr.^a Luiza.--Muito longe!
+
+--Ouvi que á Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo com quem
+elles se vão metter, o Canellas! Se desconfia, vae-se para lá de clavina
+e faz alguma desgraça. Mais elle, que é atrevido!
+
+Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde elles iam pelo pau é
+que ella não sabia.
+
+--A outra noite é que para ahi estiveram a combinar, o meu Antonio mais
+os mordomos. Não ouvi.
+
+--Pois é lá! exclamou a creada. Mas o que eu queria, sr.^a Luiza, é que
+o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,--supplicou afflicta a
+rapariga.
+
+--Lá isso, esteja descançada, não vae! prometteu com grande auctoridade
+a sr.^a Luiza.--Digo-lhe eu que não vae. E se não quer mais nada...
+
+--Era só isto, muito agradecida á senhora.
+
+N'esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a
+testa.
+
+--Ora pois então aqui vae a resposta. Má letra, a sr.^a mestra que
+desculpe. Mas emfim que leia como podér.
+
+--Então muita massada co'a festa? inquiriu solicita a rapariga.
+
+--Muita. Faz lá ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
+os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquillo. Ahi está que já
+hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.
+
+--Chh! fez admirada a rapariga.
+
+--Pois é verdade. Fóra o mais! fóra o mais! Nicas! E depois d'uma
+pausa:--Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que ha muita coisa
+de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
+uma horta, além no prado.
+
+--Muita gente... disse a rapariga.
+
+--Muita! e depois de certa aquella... Á meza talvez vinte e quatro
+pessoas...
+
+A rapariga benzeu-se!
+
+--Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o Antonio
+Fagote.--Olhe: o prégador...
+
+--Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.
+
+--É. Não o ha melhor. Missionario...--explicou o juiz. Pois o prégador,
+um; com mais quatro padres, cinco; com quatro musicos, nove; o compadre,
+os pequenos, dois, doze.
+
+--A comadre não vem! que pena! fez do lado a sr.^a Luiza.
+
+--Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
+Antonio Capador, quatorze. O Telles, é verdade, Telles escrivão, quinze.
+(_Pausa_). Com mais alguem que venha, vinte e quatro. Póde-se contar com
+mais de vinte e quatro pessoas á mesa.--E a rir-se: Mas ha-de sobrar
+muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?
+
+--Isso então é uma praga! exclamou a sr.^a Luiza. Até parece que veem do
+chão assim... E collocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
+Assim...
+
+Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--«Adeusinho! o que havia de
+estimar é que tudo corresse como desejavam.»--E se fôr preciso qualquer
+coisa... offereceu-se. As minhas fracas posses...
+
+--Obrigada. Não faltarão occasiões. Muitos recadinhos á senhora
+mestra...
+
+--E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio
+Fagote.
+
+E então explicou á mulher: «Aquelle bilhete da mestra era a mandar-lhe
+perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».
+
+--Diz que o irmão, o brazileiro, assim que souber que ha macaco de fogo
+no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
+ponho ao pallio. Como tres e dois serem cinco.
+
+A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mandára.
+
+--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brazileiro. Sempre é
+homem que sabe dar o merecimento ás coisas... Mas o diabo agora é o
+macaco! ponderou muito apprehensivo. Está para ahi meio mundo á espera
+do macaco...
+
+A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
+bicho não viesse.
+
+--Táte! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--Dá cá
+d'ahi a minha vestia. Manda-se uma «parte» ao homem.
+
+--Tambem póde ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje é que não,
+aquillo já está fechado, o fio.
+
+--Vae ámanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
+accrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que accrescento, por via
+das duvidas.
+
+Então, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do homem:
+
+--Ouves? já se não póde ir ao lameiro do Canellas pelo pau.
+
+--Han? qual pau?
+
+--O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.
+
+Elle riu-se.
+
+--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
+
+E como ella ficasse estupefacta.
+
+--Nunca ouviste dizer que se põe o ramo n'uma porta e que se vende o
+vinho n'outra?
+
+--Ah!...
+
+--Mas são verdes. Pois ahi é que vae a historia, e cantarolou,
+satisfeito:
+
+O ladrão do negro melro
+Onde foi fazer o ninho
+
+ * * * * *
+
+Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãsinha o
+Antonio Fagote sentiu bater á porta, de rijo.
+
+--Vae lá ver o que será, ó Luiza!--disse da cama o Fagote sobresaltado.
+
+Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.
+
+--Vista-se, homem! Ande d'ahi depressa! Vista-se.
+
+--Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado.
+
+--Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.
+
+--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguem á morte?
+
+--Peor do que isso! resumiu o José Manco.
+
+--Peor do que isso, então não sei...
+
+--Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.
+
+O Antonio Fagote vestiu-se á toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
+de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
+chapeu.
+
+--Prompto! cá estou!
+
+--Venha comigo, avie-se. Abotôe as calças, se faz favor.
+
+E rodaram rua acima.
+
+--Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote.
+
+--Aguarde, que já vae saber. Não tarda.
+
+De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja.
+
+--Roubaram Nosso Pae, aposto?!
+
+--Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos
+e veja vossemecê isto, esta porcaria!
+
+E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
+na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Varios
+desenhos de animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas, aos
+coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farofia_!
+
+Por um pouco, Antonio Fagote, de mãos atraz das costas, amarasmou-se,
+com os olhos fitos no papel.
+
+E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n'uma
+escamação, aos labios do Antonio Fagote aflorou apenas um sorriso.
+
+--Hum! resmungou. Bem sei...
+
+--Não tem que saber,--fez o outro.
+
+--O patife do Jose da Loja...
+
+--Pois está visto.
+
+--Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande socego o
+Fagote.--Arranque lá isso, e venha você d'ahi, se quer ver.
+
+O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
+era melhor botar o patife ao desprezo.
+
+--Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e
+mettendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim!
+
+Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
+arrancados do codigo penal. «Que não fosse agora pagar por bom
+semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a offensa, com
+elle José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de
+burro não chegam ao céo».
+
+--Bem, levará só uma lambada, attendendo a que mais ninguem viu isto,
+disse n'um grande ar de condescendencia o Fagote.--E você vá lá regar a
+horta.
+
+Foi-se d'alli direito á casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
+Poz-se á cóca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
+d'aquella demora.
+
+--Grande cão! grande cão! monologava.
+
+Até que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
+casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo Antonio
+Fagote senão quando se viu ao pé d'elle, cara a cara entre o balcão e a
+porta.
+
+--Ó sr. José.
+
+--Dirá.
+
+--Venho aqui saber d'um caso.
+
+Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh'o pôr ao pé
+da cara:
+
+--Foi o sr. José que fez isto?
+
+O outro olhou-o, attonito.
+
+--Sim! se foi o sr. José que fez isto?
+
+--Nada, eu não senhor.
+
+--Jura pela boa sorte dos seus filhos?
+
+Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
+
+--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.
+
+O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
+
+--É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.
+
+--É outro, que outro?!--disse arrogante o José da Loja, n'um impeto,
+barriga panda sob o casacorio de lona.
+
+--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu
+tambem não digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em pedaços, e
+atirou-lhe com elles á cara aparvalhada.
+
+Sahiu d'alli e foi _matar o bicho_, tranquillamente, como quem vem de
+cumprir uma obra de misericordia.
+
+ * * * * *
+
+Na vespera da festa, um sabbado ás 10 horas da manhã, o fogueteiro
+passava emfim n'um deslado da villa direito á capella da Senhora das
+Dôres. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.
+
+--O fogueteiro! chegou o fogueteiro!
+
+Por toda a villa passou um longo fremito d'enthusiasmo quando se ouviu o
+foguete. Deshabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
+O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
+a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
+ordens já dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro ruido da
+festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saiam esbaforidas
+as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o sr.
+fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
+que queria para o jantar.
+
+Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa,
+perguntando a todo o mundo se o que estoirára tinha sido effectivamente
+um foguete.
+
+--Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim
+senhor! promettia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
+
+--P'ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E então isto? e punha-se a
+girar de volta com o braço--o que é fogo do chão?--Mas tinha-se visto em
+calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
+tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
+caso tinha estado sério!
+
+Mentia.
+
+--Hein? mas não o enganavam?
+
+--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia elle a atravessar as
+eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!
+
+O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou cá da
+rua:
+
+--Senhor abbade! ó senhor abbade!
+
+--Que é lá?
+
+--Chegue á janella, faz favor?
+
+--Mas está muito sol, entre você, se quer.
+
+--Só duas palavras:
+
+O abbade, um rapaz novo, assomou á janella.
+
+--Que é?
+
+--Chegou o homem!
+
+--O homem! que homem?
+
+--O fogueteiro, quem ha-de ser?
+
+--Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E você vae ter com elle?
+
+--De cara.
+
+--Faz-me então um favor?
+
+--Dirá.
+
+--Dê-lhe recados meus.
+
+E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no
+seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
+aquillo tinha sido o fogueteiro.
+
+--Grande homem! com seiscentos diabos!
+
+Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
+machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
+fogueteiro, com furia.
+
+--Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
+amigo, seu grande amigo».
+
+--Rapazes! gritou elle então. E tirou o chapeu da cabeça, muito
+solemne.--Viva o senhor fogueteiro!
+
+--Viva!
+
+...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
+que o Antonio Fagote--chorou!...
+
+
+II
+
+TYPOS DA TERRA
+
+
+Desembocaram n'um largo. Era o ponto mais central da terra,--«_a
+praça_.»--Aqui e alli, ao acaso, algumas arvores enfezadas, quasi tudo
+olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
+grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
+com casas em volta,--o que na villa havia de melhor em construcções.
+Ficava ao meio o pelourinho, exotico, mutilado, d'uma pedra grosseira e
+muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de
+ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva
+sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n'um
+grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
+tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
+_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estylo,
+sem gosto, sem cal. Algumas _pedras d'armas_ em velhas paredes
+decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam aristocracias
+remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a negrura
+chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem, fazia
+tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruinas.
+Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio,
+d'uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
+sete: aquelle--«_estafermo_»--é que não andava nunca direito. De dia
+ninguem o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando n'um mostrador
+sem lettras, d'uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
+alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrazado ora adeantado,
+dando meia noite quando eram quatro da tarde, e meio dia mal despontava
+o sol.
+
+Eram as sete. Áquella hora é que os--«_figuros_»--da terra, quasi tudo
+empregados publicos, vinham para o largo, á fresca. Alguns
+passeavam,--seu fraque, sua bengala de canna com castão, chapelinho á
+banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
+outros do mesmo feitio cavaqueavam,--colletes desabotoados, perna
+cruzada, chapeu para a nuca, ás tres pancadas. Um de pera comprida, no
+degrau superior, contava facecias. Os outros riam alarvemente,
+chamavam-lhe intrujão. Algumas--«_madamas_»--pelas janellas em volta,
+nostalgicas, anafadas, de claro. Á porta do estanco, em cima, havia
+outra roda,--uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
+cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quasi tudo maiores
+burocratas:--o Mello da Administração, o Antunes da Camara, o Escrivão
+de Fazenda, o Rodrigues do Real d'Agua. E outros. Á porta, perfilado e
+muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexivel, com a sua
+cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
+feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva, muito desempenado
+quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
+levantar vôo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia fallar deante d'elle
+n'um rato morto, n'uma carocha. Aquillo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
+ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:
+
+--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
+lanço fóra.»
+
+E se riam, elle exasperava-se: não comprehendia como podessem fallar em
+taes coisas... De resto, bom sujeito, finorio para o seu negocio,--um
+poucochinho beato,--diziam-lhe.
+
+--Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
+a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.
+
+E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados,
+um poucochinho sibiladas nos _ss_.
+
+--Cigarros, Ernestinho, um vintem d'elles. Querem-se dos de Lima,
+d'esses fortes.
+
+Declarou que tambem havia dos «especiaes.» Algum senhor queria? Tinham
+chegado tres massos, p'ra ver. Oito por um vintem.
+
+--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorisados com a idéa de dar um
+vintem por oito cigarros.--Guarde-os!
+
+«O senhor engenheiro, quando vinha á villa, perguntava-lhe sempre por
+elles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»
+
+--Olha o figurão!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre ha muito
+idiota! forte cavalgadura!
+
+O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. Á
+porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.
+
+--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
+outros.
+
+Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
+silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
+que n'um gesto acanhado, receoso, fazia menção de offerecer:--«alguem
+era servido?»
+
+Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licôr, e das botijas de
+genebra, Ernestinho sommava a conta. Era já taluda.--«E vão dois e dois
+quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
+receberia!»--E suspirava, arrumando os massos encetados, sob o olhar
+tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
+alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d'um caixote forrado
+a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados.
+Mas resignava-se, que não tinha outro remedio. Eram os ossos do
+officio...
+
+Cá fóra tinham dado fé, acotovellavam-se chamando asno ao
+Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não ha
+dinheiro, ha-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
+pagava-se. Mas não senhor! aquella besta mostrava sempre má cara, o
+alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o procuravam, que o
+preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia...
+
+O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o _Agua leva o
+regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
+sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros.
+
+--Estender as pernas,--disse. Quem vem d'ahi?
+
+Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra traz p'ra deante, n'aquella
+semsaboria da praça.
+
+--Até logo. Você apparece no _sitio_, á noite?
+
+--Appareço, vou á desforra.
+
+E cumprimentando em roda:
+
+--Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto.
+
+Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.
+
+--Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
+diga _bem-haja_...
+
+Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dividas nos outros estancos.--Em toda
+a parte.--Lá em casa a familia passava fomes.--Um batoteiro de marca.
+
+Houve agitação, alguns pozeram-se de pé, outros mudaram de logares. Ia a
+passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
+novo, muito ronceiro, roendo as unhas.
+
+--Com que então... _ponha lá ao pé dos outros_?--disseram-lhe, para o
+lisongear nos seus despeitos.--Bem bom freguez!
+
+Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n'um gesto
+de martyr resignado. E não disse palavra--p'ra fallar d'aquelle tinha de
+fallar tambem d'elles...
+
+Mandaram vir limonadas,--tres limonadas!
+
+--Ahi vão trinta réis!
+
+Diabo! era preciso animar aquillo. Assim não tinha geito. E pozeram-se a
+fallar do tempo, das moscas, d'aquelles idiotas que andavam na praça a
+dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar tres limonadas,--e
+sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.
+
+O Ernestinho deu dois passos fóra da porta, e chamou para a varanda,
+onde grandes mangericões floriam:
+
+--Ó Emilia! Emilinha!
+
+A mulher assomou, gorducha, muito molle.
+
+--Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa.
+
+As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil encontrar
+uma collecção d'asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
+grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
+agora para cantar. Lá andava elle. Volta meia volta,
+
+_Vai alta a lua na mansão da morte_
+
+com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
+antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
+tinha uma coisa boa--a caligraphia.--Um talhe de letra
+bonito,--confessavam.--E as calças, hein? reparem vocês n'aquellas
+calças, vae flammante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
+do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, affavel. Corresponderam todos,
+muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota,
+palerma, pechisbeque...
+
+Sósinho, n'uma lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céo, o
+Telles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Ás vezes
+quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo entre os dentes, um
+olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
+marcha, contrafeito.
+
+--Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Telles, aquelle
+telhudo? E isto:--e poz-se a imitar o escrivão.
+
+Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
+Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana ás turras a um logogripho
+em acrostico.
+
+--Isso é o Telles!--fez um que vinha da praça.--Aquillo é um intrujão.
+Na rua não é que se adivinham logogriphos. Ó Ernestinho, você ainda tem
+d'aquillo que _ferve_?
+
+O Ernestinho deixou descair o labio, não percebia...
+
+--Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas...
+
+--Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas...
+
+--Ora é isso mesmo, nem mais.
+
+--Bem sei.
+
+Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra que? Achavam caro um
+tostão...
+
+--Eram aos tres para beber uma garrafa...
+
+--Podera! Por um pataco, trinta réis levando o assucar, fazia o _Hervas_
+uma sóda,--objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.
+
+--E aquella porcaria, ó Ernestinho, e aquella porcaria amarella que
+sujava tudo de escuma?
+
+Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
+seiscentos diabos!
+
+--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
+toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.
+
+E com um sorriso de desdem, exclamou:
+
+--O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...
+
+Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a
+palavra--«_pulha_»--pronunciada com força. Sahiram em tropel, ficaram só
+tres.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de proposito!
+Ficava exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella
+sucia lhe chupava o refresco:
+
+--Tó Russa! já lá vae esse tempo.
+
+Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma bandeja:--Que
+provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas parecia-lhe que devia
+estar bom...
+
+Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para
+aquellas coisas.
+
+--Obrigado, ó Mello!
+
+--Obrigado, ó menino!
+
+E os dois sairam de rompante, chamando _pato_ ao Mello, rindo-se d'elle
+e limpando os beiços.
+
+Quando o Mello ia sahir,--a ver o que ia na praça,--o Ernestinho, muito
+cortez, objectou-lhe que faltavam trinta réis:--Se alli não tinha,
+depois. Isso era o mesmo...
+
+--Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?--perguntou desconfiado
+o Mello.
+
+--Do assucar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado
+acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Mello desculpe.
+
+Não tinha que desculpar; sómente notava que aquellas coisas diziam-se no
+principio.--E sahiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Tres
+vintens não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...
+
+Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
+grande roda, commentava-se. O Mello quiz informar-se:--que lhe
+contassem--«_o escandalo_».
+
+Ora! não fôra nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
+correspondencias na _Voz do Districto_ eram escriptas pelo Albano.
+Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
+é casmurro, teimou:--que não acreditava, ainda assim!--Vae o outro
+chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi está!
+
+--Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?--quiz saber o Mello. Aquillo
+ha-de ser escripto por alguem, está claro.
+
+Dez réis pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem sabiam
+elles...
+
+--Quem, então?
+
+Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
+dava a sua palavra de honra que tambem não era elle, jurava-o. Houve um
+que se lembrou se aquillo seria do padre Mendonça.
+
+--Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se mettesse
+n'isso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga...
+
+Mas o da idéa insistiu, renitente:--havia alli suas coisas que o faziam
+lembrar, certas facecias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
+_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.
+
+--Pois se é elle, que se regale, póde limpar as mãos á parede. Mente
+como um alarve, mente da primeira linha até á ultima!--disse firmemente
+o verdadeiro auctor das correspondencias. Olhem o que elle diz do juiz
+de direito, só calumnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
+pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.
+
+De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma
+infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma
+coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
+havia duas amizades leaes, que era tudo uma impostura...
+
+Houve um silencio significativo, talvez de approvação.
+
+--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
+as correspondencias com o pseudonymo de _Aramis_. Vejam vocês aquellas
+gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se lá fazer politica?!
+Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor, discuta-se o
+homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
+fundilhos das calças; ninguem quer saber se os creados lhe param em casa
+ou se não. E depois, aquellas allusões á família, aquellas piadas á D.
+Engracia, pobre velha...
+
+--A quem?--interrogaram uns poucos. Á Dona quê?
+
+--Á D. Engracia, está bem de ver. Aquella beata que fazia piugas de lã
+aos missionarios é ella. Presumo eu que é ella-—fazia o Nunes das
+correspondencias com um grande ar de supposição. Eu cá foi para onde
+deitei.
+
+Os outros não. E como o das correspondencias tinha promettido explorar a
+chronica beata, aguardariam mais informações. Suppunham, no emtanto, ser
+com a D. Joanna, a do--«_chá de herva cidreira_.»--Outra canalhice! A D.
+Joanna, para festejar os annos da filha, convidára tudo, _lazarões e
+penicheiros_, não fizera politica. Depois foi aquella tareia que se
+viu:--que o chá era herva cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
+que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora isto não se diz, a
+pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cór phrases inteiras da
+correspondencia. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu
+telegrammas de... amor_.--Uma facecia de mau gosto alludindo ao Proença
+telegraphista. Depois do que por ahi se diz, é forte... Que afinal, quem
+sabe lá? Entre os dois que diabo póde haver? Namoro?
+
+No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:
+
+--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amelia é uma rapariga séria...
+
+Riram ás gargalhadas, foi um barulho com a tosse.
+
+--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Accommodem-se lá com o _banzé_,
+vocês deixem fallar,--tornou o Nunes, formalisado. Quando digo uma
+rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a
+phrase, entalado,--por exemplo, que ella não é capaz de receber ninguem,
+alta noite, lá pelos quintaes, como o tal das correspondencias quer
+fazer suspeitar.
+
+Iam replicar-lhe, mas elle atalhou:
+
+--Chama-se áquillo ser canalha ás direitas, arre! Isto agora é fallar
+franco.
+
+Saltaram-lhe:
+
+--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o
+Alves dos Pesos e Medidas.
+
+Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
+via, pelo que se podia julgar...
+
+--Léria!--disseram todos.
+
+O Nunes parece que estava com os beiços com que mamára. Com que então,
+para elle era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
+uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!
+
+O Nunes observou modesto, quasi agradecido:
+
+--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente.
+Desconto sempre noventa por cento áquillo que vocês dizem, ahi é que
+está...
+
+--Vocês é um modo de fallar,--emendaram alguns.
+
+--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondencias,--explicou
+sophisticamente o Nunes.
+
+Calaram-se, disfarçaram. Proximo d'elles, a Amelia toda de verde, com
+guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solemnemente.
+Tiraram todos o chapeu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
+cumprimental-as, submisso.
+
+--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a
+mão:--Vosselencia como passou? A senhora D. Amelia? Obrigadissimo.
+Assim... assim...
+
+Então? que diziam áquelle calor?
+
+--Abafava-se, alli pelas duas. Que forno!
+
+--O Brazil tal e qual--reforçou o Nunes.
+
+Mas que fôra feito, que as não tornara a ver desde os annos? Uma noite
+de truz, aquillo sim!
+
+--Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi
+pena! O Abelsito andava constipado.
+
+A D. Amelia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquellas
+noitadas.--E em voz mais baixa, quasi dolente:
+
+--Depois, veio a _Voz do Districto_, aquillo chocou-a muito.
+
+--Não ha tal!--fez a mãe. Metteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a fallar,
+senhor Nunes.
+
+E por pouco que não chorava ao dizer isto.
+
+O Nunes affectou um sentimento profundo:--Era melhor não fallar n'isso,
+não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
+acabado de fallar na tal correspondencia, agora mesmo. Uma
+garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial:
+
+--Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e
+depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fôr soará. É preciso
+dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição!
+
+Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu
+desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janellas, perguntando se
+vinham d'ahi, um boccadinho até á capella, espairecer.
+
+As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho só. Ficava muito bem
+aquelle vestido á Amelia.
+
+Não podiam subir, talvez á volta.
+
+--Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quasi
+prompto, que trabalhão!
+
+Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
+risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
+Coisas de anjinhos:
+
+--Verás.
+
+Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
+vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,--homens com malhos, e
+mulheres de cestas á cabeça. A tarde descahia n'uma serenidade calma. No
+degrau de cima, o Paula, official da administração, com fama de typo de
+chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
+zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
+formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.
+
+--Tu has-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco
+Maria, um cabo que estava de licença. Tu has-de conhecer isto.
+
+O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e philosopho,
+affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas. Ao Paula
+valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
+tinha demittido, ás vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
+pedia a rir, boçalmente:
+
+--Ó Paula, aquella do _bate-bate_, canta lá.
+
+E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era
+preciso, o Fernandinho ia pelo violão.
+
+--É verdade, você que fez hoje que não me appareceu na repartição, ó
+Fernando?
+
+--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo ás vezes.
+Olhem que pergunta!
+
+Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.
+
+--Então, ó Paula...--supplicava o administrador.
+
+--Está fechado o realejo... Depois.
+
+Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sitio». Ou perder ou
+ganhar; tinha alli seis tostões que eram para um _mico_.
+
+--Mas eu não lhe dizia, sr. doutor? eu não lhe dizia hontem que a _dama_
+se negava? Eu estava mesmo a ver aquillo... Bem feito! «gramou» um
+entalão que se consolou.
+
+--Quatro corôas.--Na vespera tinha ganho um quartinho.
+
+N'esse momento passava o juiz, sósinho como sempre. Todos tiraram o
+chapeu, elle passou gravemente, cortejando.
+
+--Quem eu te quero á perna é o _Aramis_...--rosnou o Telles escrivão que
+embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda elle não
+sabe tudo...--insinuava perfidamente.
+
+--Pois o resto diga-lh'o você, diga-lh'o no _Almanach de Lembranças_, em
+verso--fez d'um lado o Rodrigues do Real d'agua.
+
+O Telles, com famas de litterato, redarguiu que não dava confiança a
+analphabetos.
+
+--E eu a brutos, sabe você?
+
+Mau! que elles lá começavam. Officiaes do mesmo officio... Ó senhores,
+lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
+o outro. Pelo contrario.
+
+O Telles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
+essa importancia, essa honra.
+
+O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão n'elle. Mas jurou que d'outra vez
+seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
+tesas.
+
+--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.
+
+Havia de dar-lh'as, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
+o gosto de dizer depois, n'um communicado, que desaffrontara as lettras
+portuguezas,--elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real d'Agua.
+
+Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se.
+
+--Não senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei
+que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
+verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
+não ha de ser aquelle _négalhé_ que o ha-de dizer. Não o julgo
+habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
+que mando para publico sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no
+peito com a larga mão espalmada, furioso, n'umas raivas, de orgulho
+triumphante.--Não roubo! nunca roubarei!--affirmou mais alto o
+Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois
+amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como
+elle!--E as palavras sahiam-lhe salivadas, violentas, por entre os
+labios espumantes, atiradas ao Telles como pedradas.
+
+Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
+Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria
+dizer.
+
+--As provas...--e metteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
+impeto:--as provas, vel-as aqui estão!
+
+Mostrou no ar a brochura verde do _Almanach de Lembranças_.--Era do anno
+que vem, tinha-lhe chegado hoje. Alli estava o Peres do correio que lh'o
+tinha entregado elle mesmo.
+
+--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem.
+
+O Rodrigues, então, affirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
+em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr. Telles, lembrara-se
+um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os annos--zás!
+versalhada para o _Lembranças_...
+
+--Era collaborador--disse o Antunes da Camara que admirava o talento de
+Telles.--Era collaborador.
+
+--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atraz da
+orelha.--Massador, massador é que elle era. Nunca lhe admittiram as
+asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondencia_ troçavam-no,
+chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
+chamava Deus para as lettras. Aquelle _Serei ousado_? é elle, sei que é
+elle. Nunca o admittiram.
+
+--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
+versos--insistiu o Antunes.
+
+O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Camara. Não lhe
+respondeu. Subiu os tres degraus do _pelourinho_, pausadamente, com
+pompa, e chamou a attenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanach de
+Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:--«Indignidade».
+
+--Em lettras bem graúdas, queiram inspeccionar.
+
+E colou ao peito o _Almanach_, voltando para fóra na pagina onde o seu
+dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto em
+epigraphe.
+
+Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que lêsse.
+
+«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanach de
+Lembranças_ do anno extincto, foram-nos remettidos pelo sr. José Maria
+Telles, escrivão.»
+
+--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Elle
+depois assignou--e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma
+complicada do Telles.
+
+Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou:
+
+«Publicámol-os na convicção de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois
+que elle os assignava.»
+
+--E então?--perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda.
+
+--«Pura illusão!»--continuou solemnemente o Rodrigues.--«Escreve-nos o
+mimoso e assaz conhecido poeta sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os
+versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu volume
+_Lyra Matutina_.»
+
+Foi uma estupefacção! O Rodrigues proseguiu mais alto, fugindo aos
+commentarios:
+
+«Averiguámos, e d'isso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a
+probidade do sr. Telles, a quem mais de uma vez tinhamos fechado a nossa
+porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara--por indigno.»
+
+E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
+porta na cara do Telles escrivão; tomou praça fóra, o livro debaixo do
+braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solemne,--vingado!
+
+Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
+porque além de sempre terem julgado o Telles muito superior ao
+Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...--tinham dado uma
+sorte de mil demonios, agora é que elles viam! distribuindo no theatro,
+por occasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que elles
+tinham mandado imprimir avulso--para lisongear o Telles que tivera o
+trabalho de os ensaiar no _Santo Antonio_. Hein? quem diabo havia de
+dizer que aquelles papelinhos de côr, uns verdes, outros amarellos,
+chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quasi
+disputados a murro, n'um alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma
+insidia,--um logro á boa-fé, á credulidade ingenua de toda a comarca!
+
+E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o Fernandinho
+vestido da menino do côro, batina vermelha e roquete de rendas,
+cobrindo-se de teias de aranha lá pelo fôrro do theatro, de gatinhas e
+com um «tôco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser
+elle a despejar do _oculo_ aquella papelada; o Mello da administração,
+vestido de Frei Antonio, sandalias e grande chinó de calva redonda,
+feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por entre os
+bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em habitos de
+frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Telles,
+ensaiador da rapaziada!
+
+Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujão! E quasi se regalavam
+da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora
+humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!
+
+O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fôra elle o da lembrança
+de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel
+Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os
+impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como especial favor. O
+homem--prompto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que
+se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que
+desembolsara elle só, afinal. Bem feito! ninguem o mandava ser burro.
+Arre! cavalgadura!
+
+E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopletico.
+
+--Mas a bem dizer, tudo isso é nada!--continuou commovido o Antunes.--Ó
+senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz n'aquelle
+intervallo do drama para a farça?...
+
+Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada
+uma! E relembravam:--levantara-se o panno quando os ouvintes menos o
+esperavam. Os que tinham sabido lá fora, ás doceiras, voltaram
+apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um
+reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam
+senhoras, gente fina, começavam a apparecer caras barbadas de sujeitos
+que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licôr, um
+docinho. Em cima, na galeria alta, creadas e raparigas do povo,
+debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, d'olhar attonito.
+
+--Elle que dianho é?--perguntavam.
+
+De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima:
+
+--Caluda, sua gentalha!
+
+No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da
+recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de cardeal, baculo
+em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de
+côro, todo lépido; a Anna Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olivia;
+a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Gloria_, em que
+ella subira n'um cesto vindimo á «região sidéra dos astros»; o pae de
+Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo pescoço, livido como
+saira do tumulo; aquella canalha da tropa--todos emfim!
+
+N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello
+vestido de Santo Antonio e do Proença telegraphista que fazia de Frei
+Ignacio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hymno da Carta
+á meia duzia de musicos que não entravam na peça. O hynmo rompeu com
+grande estampido de pratos, n'uma cadencia funebre. No palco, tudo
+immovel. Ninguem sabia o que era aquillo, não estava no cartaz.
+Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.
+
+Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de centurião,
+durindana e botas d'agua, irrompe furioso do buraco do ponto e préga um
+discurso na bochecha extatica do Telles:
+
+«Não era elle o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no
+encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter phrases, oratoria,
+porque emfim estava falando a um poeta...--collaborador do _Almanach de
+Lembranças_ para Portugal e Brazil--accrescentou voltado para o publico,
+esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo: dar-lhe um abraço
+em nome de todos...--e abraçou-o commovido, emquanto os espectadores
+berravam _apoiados_, dando palmas--«... e para isto»--accrescentou
+fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.
+
+Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanças gritavam--«ó
+Emilinha!» Era com effeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e
+Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo, tules
+verdes e muita lentejoula a brilhar.
+
+Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o
+Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da
+«melodia», elle fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu
+n'uns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com musica da _Muchagateira_
+original do Peres do correio.
+
+O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a
+Frei Ignacio:--Era de mais, era de mais, elle não merecia...--Ora essa!
+pareciam dizer-lhe os outros--seriamos ingratos se...
+
+A «cantoria» acabou, o theatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,
+um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir,
+cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas
+do tecto desabassem.
+
+Todos olhavam, curiosos. E n'aquella espectação viram de repente descer
+do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia
+vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da
+bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodão a arder que lá trazia
+dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanaz nos impetos da
+colera. O panno começou a descer, obliquo, esfarrapado d'uma banda. O
+Freixedas, suspenso, atirou fóra o algodão e gritou, furibundo:
+
+--Alto! suas bestas! Inda não!...
+
+Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a
+hombro dizia em caracteres amarellos--_C'est fini_! O panno desceu
+então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,
+não tinham percebido... Foi n'esse momento que o sr. Antoninho, que
+tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz alta:
+
+--_É findo_!
+
+
+
+
+V[AE] VICTORIBUS!
+
+_A Maria Lucilla_.
+
+
+Em dezembro, ás seis é noite cerrada. Mais boccado, menos boccado, a
+essa hora recolhia do monte o José Gaio, sósinho, sachola ao hombro, um
+pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima
+d'elle, o céo ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa negrura espessa
+de tempestade que infunde pavôr á gente, e da qual os proprios passaros
+teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,
+agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar
+não sei que extranha elegia... A um relampago mais vivo, o José Gaio
+apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou,
+depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude
+do céo. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento,
+encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não
+ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.
+
+--Vamo' lá com Deus! fazia elle animando se.
+
+Um clarão subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle surgiu de
+repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente illuminada.
+Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão,
+que elle instinctivamente parou e levou ao céo as mãos afflictas, n'um
+gesto de quem implora misericordia. N'aquella imminencia de perigo as
+proprias arvores lhe pareciam immobilisadas pelo terror, á beira do
+caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era como a voz
+implorativa da natureza, unindo-se á voz d'elle n'um longo côro de
+supplicas...
+
+O José Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente, sem saber
+d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente:
+
+--Ó José Gaio!
+
+O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os braços da cruz
+negra, que era o signal de alli terem matado o José Tendeiro, ha annos,
+apertou o passo e tomou por um atalho, direito á ponte. Mas então a
+mesma voz tornou-lhe mais de perto:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um
+relampago que illuminou a mil côres a paizagem. Elle cerrou os olhos com
+força, nervosamente, ferido por aquelle deslumbramento que por milagre o
+não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma immobilidade de
+estatua prendia o camponez á terra. Foi então que veio de novo aquella
+voz, como um prolongamento do trovão:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,
+galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma
+força violentissima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquelle rugir da
+agua que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monotono,
+infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão
+quando, estacou ouvindo a mesma voz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago côr de
+sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquella cruz preta de
+longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a
+tempestade...
+
+Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre
+exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
+olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em vão! que fôra tão vivo
+o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cerebro, que n'um fundo côr de
+sangue, como n'um transparente de magica, elle via nitidamente
+desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então
+deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o
+peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento, a voz tornou a chamar:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais intimo do seu ser. Um longo
+desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima fibra de energia,
+como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe tambem o
+cerebro: não formava um só raciocinio nem elaborava sequer uma idéa, a
+mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo elle tremer,
+abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez reviver n'elle
+a vida do espirito; sentiu um grande pavôr áquelle aspecto subito do
+campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado como se estivesse
+todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda
+casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos, definidos
+maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores despidas,
+sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de recorte que
+traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No
+meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e tetrico, o triste
+camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli chumbado á
+terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um só gesto
+implorativo, e nem uma só palavra de supplica lhe sahia dos labios
+crispados. Porque uma vez que tentára uma palavra, o mais formidavel
+trovão cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois, aquella voz não o
+largava, imperturbavel e monotona:
+
+--Ó José Gaio!
+
+E elle, não respondendo nem fallando, pensava esconjural-a, exorcismal-a
+como se fosse a voz d'um duende. E para esta evocação do sobrenatural
+muito concorria, como os senhores comprehendem, esse aspecto sereno da
+cruz negra, inabalavel sob a aza agitada da procella.
+
+N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua
+depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul
+furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer.
+Como todo elle ardia em febre, aquelle diluvio era quasi um celeste
+beneficio para a sua cabeça n'um vulcão. Mas quando os relampagos
+vieram, aquella reverberação da luz nas cordas d'agua fez-lhe um
+deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o caminho lamacento por
+onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
+sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como cahiu assim
+ficou--de bôrco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quasi
+tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relampago. Ella lá estava
+no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E
+pois que parara o diluvio, dos seus braços abertos as gottas da chuva
+cahiam, vermelhas á luz, como grossas lagrimas de sangue...
+
+Cobarde! Nenhuma comparação póde dar idéa do estado de prostração d'esse
+miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi inacção de besta morta.
+Dir-se-hia um immundo trapo alli cahido, abandonado alli na lama ignobil
+de um caminho, á espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E
+emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada
+prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastellamento phantastico
+das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com
+furia o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso
+espirito póde conceber de mais grandioso e de mais sublime, epico e
+tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente.
+
+Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões,
+aquella voz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o outro,
+o do medo. Parecia colado á lama, preso ao caminho como se fosse uma
+rocha. No emtanto, a espaços, tinha a comprehensão clara da sua posição
+e do seu estado. E então uma raiva subita galvanisava-o: queria
+erguer-se, fugir, desapparecer--erguer-se como aquella cruz, fugir como
+aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam rastro
+na treva...
+
+Taes rebates de coragem eram, porém, ephemeros, impotentes para lhe
+provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli,
+miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as
+quatro pernas. E esta idéa, que o instincto de viver lhe suggeriu,
+apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli! Mas que
+duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se não passava por alli viv'alma, a
+taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma noite medonha
+de tempestade, ao pé d'aquella cruz negra de longos braços
+hirtos--morrer alli!... Eram então já por elle as lagrimas que essa cruz
+parecia chorar?...
+
+Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia.
+Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de tropeçar
+n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve
+estaria de pé,--de pé como essa cruz que um relampago muito vivo acabava
+de lhe mostrar... No emtanto, a voz é que se não importava:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o
+calcassem, reuniu n'um supremo esforço as maximas energias, e rebolou-se
+para um lado, até ficar detraz d'umas urzes. Coisa notavel foi,
+senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se
+recolheu n'uma absoluta quietação, com medo que o surprehendessem... E
+quem quer que era passou, cabeça nua, deante da cruz gottejante... Aos
+ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de prece... Não ia só a
+rezar; ia tambem chorando, aquelle homem...
+
+...Quem seria?
+
+Um clarão branco de relampago fez irromper da treva, livido como um
+espectro, o filho do José Tendeiro...
+
+O desgraçado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia annos, por uma
+noite como aquella...
+
+Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquelle cobarde
+não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quasi arrumado á cruz.
+
+E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade,
+perdida n'um murmurio longiquo, lá na extrema fimbria do horizonte...
+Quando a lua rompeu, livida n'um céo de anil, nem a grande sombra da
+cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma benção, logrou
+reanimal-o. Tinha morrido, o estafermo!
+
+Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abbade foi
+depois, buscar o corpo. Os medicos nem lhe tinham mexido.
+
+--Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma
+congestão muito linda--dissera um a rir.
+
+--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indifferente.
+
+Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do
+abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convulsão agudissima de
+choro. E elevando ao céo as mãos mirradas--ao céo que um divino azul
+fazia diaphano--elle exclamou, soluçando:
+
+--Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa
+misericordia!
+
+...Segredo de confissão...--mas o abbade bem sabia quem tinha alli
+matado o José Tendeiro...
+
+
+
+
+BALLADAS
+
+_A Luiz Osorio_
+
+
+I
+
+MARICAS
+
+
+Vocês lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos muito
+castanhos, quasi louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A
+boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benevola e
+complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o dia e de
+toda a noite. E vocês bem sabem que taes ellas eram, as nossas
+balburdias e algazarras...
+
+Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
+encantadora--a de não mostrar jamais na sua amisade preferencia por
+algum de nós. Dir-se-hia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois
+que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e
+brando...
+
+Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ella vos
+perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela solicitude e
+interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao
+escriptorio.
+
+--Então esses cabulas? então esses marotinhos? Doente, algum?
+
+--Na esturdia, Maricas. Andam todos por lá...
+
+--Ora vejam!--fazia ella quasi escandalisada.
+
+Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos
+que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos
+outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um
+_tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quasi que
+chamando-lhe por tu e ella a nós!
+
+Como eu me lembro!
+
+Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
+perguntas que lhe faziamos, e então uma grande paciencia inexhaurivel.
+Nós, os estroinas, quasi que chegavamos a adorar aquella ingenuidade
+singela do seu coração de vinte annos. A boa da Maricas era adoravel,
+toda ella bondade e paciencia para os nossos disturbios e para as nossas
+algazarras de toda a hora e de todo o instante.
+
+Mas como se familiarisou ella comnosco e nós com ella, é que me não
+lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes,
+é que nós como que a consideravamos uma companheira de redacção, especie
+de directora com casa áparte e viver independente pois que se entravamos
+no escriptorio (parece mesmo que estou a ver aquella barafunda
+d'escriptorio!) e, assomando á janella, a não viamos na sua, diziamos
+quasi sem querer, mas invariavelmente:
+
+--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?
+
+E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, á
+formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde fóra, em casa
+da _freira_ de Quebra-Costas--d'essa lembram-se vocês... No emtanto,
+deveis recordar-vos que ella, no dia seguinte...--coitada!--...a
+primeira cousa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui,
+estive alli, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborisada e
+confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar alli a
+aturar-nos. Por pouco ella nos não pedia de mãos postas que lhe
+perdoassemos, a boa da rapariga.
+
+E nós então galhofeiros, brincalhões:
+
+--Sem mais _aquellas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora
+essa!...
+
+E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra:
+
+--Pois sim, mas é que ás vezes...
+
+--Ás vezes quê?...
+
+«Não! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella estivesse zangada
+comnosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...»
+
+--Pois não era verdade--perguntavamos-lhe--que ella adorava aquella
+_troupe_ de bohemios?
+
+--São todos muito bons rapazes--dizia já a sorrir.--Todos me tractam
+muito bem...
+
+E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se
+illuminava de prazer e sorria de intima gratidão. Mas porque
+sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas?
+
+Quando nos via em palestras interminaveis, nas libações do _congnac_ e
+do café, ouvia-se lá da janella um _pschiu_! muito sibilado.
+
+--Que manda a D. Maricas? É servida?
+
+E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada:
+
+--Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?
+
+O cuidado que lhe dava o jornal!
+
+--Ora faz favor de não fallar em coisas tristes? Olhem agora que
+lembrança, o jornal!
+
+Ella então, por unica resposta, dizia-nos ás vezes que na semana passada
+o typographo viera queixar-se de que havia falta de originaes, quantas
+vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.
+
+E por fallar em provas:--a Maricas sabia todos os signaes das emendas,
+todos.
+
+--Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais n'esta palavra.
+
+--Risco por cima, risco á margem, e um _d_ cortado; é facil.
+
+--Um _m_ de pernas para o ar, e esta?
+
+--Risca-se, e um tres cortado, á margem. Está farto de o saber...
+
+Quando via algum sentado á meza, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse
+mostrando as tiras, á medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava
+que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal
+escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a janella,
+acenando-lhe com o papel:
+
+--Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escripta d'alto a baixo.
+
+Á terceira que se lhe mostrava, ella saía-se de lá com um _bravo_! e
+recommendava, solicita, cinco minutos de folga, emquanto se fumava um
+cigarro.
+
+A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
+a gomma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bella gomma! Em
+paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi sempre nos sabbados á
+noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era estreita
+atirava-se-lhe da janella.
+
+--Maricas, ahi vae ainda fresquinho!
+
+--'stá bem, obrigada. Vou lêr, até ámanhã.
+
+Corriamos todos á janella, a dar as boas noites á nossa amiga.
+
+--Durma bem, ouviu?
+
+E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do
+artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que
+mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito
+bom, «escripto com muita graça e muito bem», como ella dizia.
+
+Nos serões que faziamos e que por via de regra não passavam de um
+interminavel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escandalos,
+desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da
+Maricas ninguem tinha que dizer senão bem; era a privilegiada n'aquellas
+sessões de má lingua. Quasi sempre a conversa degenerava em
+algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e
+gemia fados com acompanhamento de violão. E era de vêr o Santos Mello,
+d'olhos cerrados e cabeça á banda, como cantava a sua quadra predilecta:
+
+Sei cantigas mysteriosas,
+Cantigas de endoidecer,
+Que os lirios dizem ás rosas,
+Que as rosas me vêm dizer.
+
+Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava silencio.
+
+«Com mil demonios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...»
+
+Todavia...--ó suprema bondade!--...ella nunca se queixava quando no dia
+seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se
+tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes
+que as cadeiras tinham caido.
+
+«Ora viam?! Não a tinhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;
+palavra d'honra! d'óra ávante...»
+
+Ella então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:
+
+--Não, não, eu até gósto. Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora
+essa...
+
+ * * * * *
+
+Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocês não sabiam! E morreu
+tysica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a
+pensar n'aquella tossesinha muito secca em que ás vezes a
+surprehendiamos, n'aquelle branco pallido das suas faces, no bistre das
+suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas mãositas de
+marfim...
+
+Pobre Maricas!
+
+Haverá tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, onde
+continuei a vêl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ella
+tinha ido?!...
+
+Mal diria eu que estavas no cemiterio, tão longe e tão só! porventura na
+valla commum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura
+humilde,--onde n'este instante cáe chuva e chuva! Ainda se as noites
+fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio
+de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita resignação:
+
+--...«Entretem-me vêl-os alegres, até me faz bem»...
+
+Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era
+triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobresinha! que n'essa
+phrase singela ia a revelação do presentimento que tinhas da tua morte
+prematura?! Triste creança que nós não mais veremos!
+
+ * * * * *
+
+Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes--_bravo_!--ora
+não?...
+
+ * * * * *
+
+...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella
+rebentem flôres, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as
+seivas...
+
+
+II
+
+PARA A ESCOLA
+
+
+No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras
+lettras. A porta lá estava, amarella com fortes pinceladas vermelhas, ao
+cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subil-a.
+Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula
+quando a Helena entrou commigo pela mão. Fez-se um silencio nas
+bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua taboada,
+n'um rithmo cadenciado e monotono, cantarolando. E ouviu-se então a voz
+da Helena dizer para o senhor professor, um d'oculos e cara rapada,
+falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:
+
+--Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a
+encommendinha.
+
+Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez á escola. Ali
+estava a encommendinha!
+
+--Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
+
+E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
+enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia
+mettido nem eu sabia o quê. Meu pae é que lá sabia... E alli estava eu
+entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ n'uma das mãos e a
+saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A Helena, que sorria
+contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
+
+--Adeus, Josésinho, logo venho cá pelo menino.
+
+Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella.
+
+--Não, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui é a escola, é
+onde se aprende a ler.--E agachando-se, deante de mim:--Olhe tanto
+menino, vê?
+
+--Mas fica tu tambem--disse-lhe eu então.
+
+Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
+iracundo:
+
+--Caluda, sua canalha! Não veem que está gente de fóra? Caluda, que vae
+tudo razo com bolaria!
+
+Foi então que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles eram todos
+meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos.
+Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,
+cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estevão
+principalmente.
+
+--Isto é preciso muita paciencia, senhora Helena, muita somma de
+paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre
+as bancadas.)--Mas está bem, diga lá que a encommendinha cá fica. Em boa
+hora entrasse...
+
+--Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Josésinho?
+
+Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.
+
+--É verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino ha-de estudar
+as suas lições, não é assim?
+
+--Diga, sim senhor--ensinou-me então a Helena.--Hei-de estudar muito e
+ser socegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em
+casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?
+
+Elle riu, já sabia; as creanças são todas assim, emquanto estão no mimo
+das mães. Mas uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam um pouco. E
+piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou transida.
+
+--Faz milagres, sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz
+milagres.
+
+Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair
+quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que servia, a
+palmatoria...
+
+--Mas para o nosso Zézito não ha de ser precisa, ora não?
+
+--Diga assim: não senhor, porque eu hei de cumprir com as minhas
+obrigações, diga.
+
+--Ora ahi é que está--atalhou o professor.--Vê, sr.^a Helena? Aqui já os
+pequenos tem a sua obrigaçãosinha, os seus deveres a cumprir, as suas
+coisas...
+
+--Sim senhor, sim, emquanto que em casa...
+
+--Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu
+menino aquillo. Vão assim creados á lei da natureza, sabe vossemecê? É
+mau isso, pessimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?--E bateu
+n'um «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui está n'este
+livro: «_de pequenino_...
+
+--..._é que se torce o pepino_»--concluiu rapida a Helena, orgulhosa de
+saber o que estava no livro, coitada!
+
+--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma cousa que se cria
+na horta...
+
+Risota dos rapazes!
+
+--Ora vê isto, sr.^a Helena? vê estes brutinhos?--E com entono, de
+palmatoria alta, fazendo-se carrancudo:
+
+--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença á sr.^a Helena,
+começo n'uma ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o
+que se chama tudo!
+
+E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaça, os rapazes ficaram
+transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que elle
+podia pedir licença á sr.^a Helena, e mesmo deante d'ella _cascar_ de
+rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, socegaram; até o
+Estevão deixou de me fazer caretas.
+
+--É o que vê, sr.^a Helena--disse então victorioso, a sorrir-se, o bom
+do professor.--É o que vê! Um mestre sem palmatoria é um artista sem
+ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem
+feito muitos doutores.
+
+--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle
+pedaço de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito muitos doutores.
+
+--Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não
+faz ao caso.
+
+Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.
+Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes investigara com magua
+o motivo por que a sua palmatoria não fazia um unico doutor... Morreria
+sem ter essa «gloria,» decerto! Forte martyrio que a Helena veio
+recordar-lhe!...
+
+Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia
+para ir lá fóra.
+
+--_Licéte_!--foi como elle disse, arremedando o latim _licet_. Outros
+havia que diziam, por troça, _Aniceto_!
+
+--Ora já a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu não havias
+de pedir para ir lá fóra, tu...--E ficou-se a fital-o, meneando
+pausadamente a cabeça.--Ora vá você lá fóra.
+
+O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.
+
+--Olá?--chamou zangado o sr. professor.
+
+O outro assomou á porta, contrafeito.
+
+--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se
+percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça
+favor de esperar um pouco.
+
+Poz-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:
+
+--Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá!
+
+Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.
+
+--Canalha!--gritou-lhes então, batendo o pé.--Corja de atrevidos!
+Sentados, já!
+
+Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era elle,
+apontando para o peito.
+
+--Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.
+
+Mediu-o d'alto a baixo. Depois:
+
+--Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fóra com
+ella. Agora, sim senhor. Ora vês além aquelle sujeito? o tal das
+pressas?...
+
+--Vejo, sim senhor.
+
+--Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o
+palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra que. E sempre quero ver se tenho
+de vos ir lá buscar pelas orelhas.
+
+Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor:
+
+--Olá?
+
+Elles assomaram, outra vez, atrapalhados.
+
+--Então, seus cabeças d'avelã, torres de vento, então não falta nada?
+
+Os dois pozeram-se a coçar a cabeça, muito compromettidos. Faltava com
+effeito alguma coisa...
+
+--Então é ahi?
+
+Elles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.
+
+--Ora passa por esta vez, em attenção a estar aqui a sr.^a Helena.--E
+enrugando o sobr'olho, commandou em tom marcial:--Ordinario! marche!
+
+Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava
+o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir
+ordens suas:
+
+--Ordinario! marche!
+
+Sentou-me então no joelho e perguntou:
+
+--Olha lá, Josésinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o sr.
+capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?
+
+--Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o sr. prior, dizer
+missas.
+
+Riram-se. Quem sabia lá o que d'ali sairia? Mas o sr. professor fez
+notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendencia
+qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas
+bochechas.
+
+--Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.--E para a
+Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, sr.^a Helena, que respondem a
+pés junctos que não querem ser nada. Mau signal, pessimo, sr.^a Helena!
+Quando elles assim dizem, de ordinario assim fazem, depois. Nunca são
+gente.--E virando-se para mim:--Mas então, Josésinho, em que ficamos?
+Corneta ou prior?
+
+Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente
+em dias de festa, com aquella capa toda doirada...
+
+--Muito bem, escolheste bem. «_Telha de egreja_...
+
+--..._sempre gotteja_»--concluiu a Helena que ainda hoje é forte em
+adagios.
+
+O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.
+
+--Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josésinho,
+para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?
+
+--É.
+
+--Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor--emendou a Helena.
+
+O sr. professor teve um gesto de indulgencia.
+
+--Mas tu não sabes ainda, ora não?
+
+--Não senhor.
+
+Elle então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia
+na sacca era um livro.
+
+--Querem ver que é um livro?...
+
+--Diga--ensinou a Helena--é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá
+ao sr. professor, tome.
+
+Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
+meu livro.
+
+--Muito bem! muito bem!--applaudiu o sr. professor.--Mas este livro é
+mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que
+queria ser prior, ora já?
+
+Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquillo; mas como é que elle o
+sabia?
+
+--Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar,
+não queres?
+
+--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu
+quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.
+
+--Primeiro do que aquelles?--perguntou voltando-me para as bancadas.
+
+Então fui eu mesmo que respondi:--«Sim senhor!»--contente com a
+lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos
+aquelles. Até podia acontecer que o Estevão das caretas me ajudasse a
+alguma...
+
+--Ora então está muito bem, estamos entendidos.--E com intenção, ferindo
+muito as palavras, para m'as gravar no espirito:--A primeira coisa que é
+precisa para prior é saber bem isto, vês?--E punha-me deante dos olhos o
+livro aberto na primeira pagina.--Isto aqui é já missa, chama-se o _a b
+c_, e é aquillo que os priores dizem quando vão para o altar.
+
+--_Ito_?--inquiri curioso, furando a pagina com o dedo.
+
+--Sim, isto. E amanha já me has-de trazer sabido d'aqui até ali. Hein?
+valeu?
+
+--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.
+
+Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira
+lição!
+
+_A B C D E F_!
+
+A minha primeira lição!
+
+--Ora sabe vossemecê o que isto é, sr.^a Helena? isto que eu tenho
+estado a fazer?
+
+--Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é...
+
+--Não sabe, não admira,--disse complacente o sr. professor.--Puxar o
+gosto, sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o
+fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vae estudar com
+mais gosto, digo-lh'o eu; olé se vae!
+
+«Mas elle não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas
+obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»
+
+--Pois isso é verdade, sr. professor; mas não sei que é, custa-me a
+separar do menino...--disse a boa da Helena, quasi a chorar.
+
+--Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi é que está a coisa. Pois tenha
+paciencia. Aprender é tão preciso como mamar--concluiu n'uma prosa que é
+mesmo poesia.
+
+--Pois é preciso, é!...
+
+E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
+na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me
+ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:
+
+--Sr.^a Helena!
+
+--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental.
+
+--Já agora, espere mais um instante.
+
+Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
+Depois, intimou:
+
+--Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo
+um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora é alli,
+sr.^a Helena, alli é que é o logar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe
+não deve pesar.
+
+E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo,
+lagrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu
+logar...--o meu primeiro posto na arriscada milicia das lettras...
+
+Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por
+acenos com a pessoa que estava de fóra. Pequeno como era, percebi, no
+emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica:
+
+--Bolos?... Não?!... Perdoe a sr.^a Helena, mas isso, quando forem
+precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a
+mão?... Está bem... Descance... Mesmo com a mão...
+
+E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre
+lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...
+
+ * * * * *
+
+...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
+principiei n'esse dia. Não volto mais á escola! Venho hoje restituir-te,
+querida amiga, aquelle beijo--dulcissimo beijo aquelle!--que tu então me
+déste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse,
+acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
+que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?
+
+Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.
+
+
+
+
+TRAGEDIA RUSTICA
+
+
+I
+
+_Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, á
+porta do José Grillo_
+
+
+Truz! truz! truz!
+
+Os de casa acordaram, sobresaltados.
+
+--Schiu! nem pio!--fez o José Grillo para a mulher.--Moita!
+
+--Truz! truz! truz!
+
+Do seu cubiculo, a Anna, filha do José Grillo, poz-se a chamar pelo
+pae.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
+divertir...
+
+Mas logo outra vez na porta:
+
+--Truz! truz!
+
+--Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José
+Grillo, zangado. E pois que se poz á cóca, de orelha fita, olhos
+cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de
+alguem que fugia.
+
+--Eu não te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir--explicou elle
+para a mulher.
+
+Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
+cachorrinho, mesmo rente á porta. Veio-lhe logo á ideia que lhe tinham
+vindo pôr zôrro...
+
+--Ó mulher, queres tu ver que ha novidade?
+
+De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
+casebre.
+
+--Elle que demonio de embrulho...?
+
+Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creança, envolta em
+dois trapinhos muito velhos.
+
+--Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a creancinha.
+
+--Grandes cadellas!--E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
+gente da casa.
+
+--Andem! a pé! levantem-se! está aqui este innocentinho que vem dar os
+bons dias á gente!
+
+Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grillo
+mettera a creança na cama, visto que a pobresinha estava gelada...
+
+--Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha do Antonio das
+Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.
+
+Despediu immediatamente a filha, a Anna, á procura da Brites que
+chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
+que ia correndo:
+
+--Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquillo que fôr.
+
+Mas a mulher do José Grillo, a senhora Joanna, de pé no meio da casa, a
+saia amarella deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito
+embezerrada, permanecia sem dizer palavra.
+
+--Ó mulher, nada de afflicções, é tal e qual como se fosse nosso, faz de
+conta...--observou-lhe logo o José Grillo que percebia o ar taciturno da
+femea.
+
+Ella só redarguiu que _nosso_ era um modo de fallar. Seria d'elle, mais
+de qualquer desavergonhada...
+
+O José Grillo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e
+pregou-lhe uma gargalhada.
+
+--Ageita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E
+deixa-te de cantigas, que hoje é dia de entrudo.
+
+A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé
+da creança, affirmando-lhe ás risadas que sim, que o pequeno era filho
+d'elle.
+
+--O pequeno?... mas é que pode ser cachopa--disse o José Grillo para a
+mulher.--E certificando-se:--Nada! é rapaz.
+
+Seguiu-se uma altercação. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela
+sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.
+
+--Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, braços no ar, o
+balandrau da saia amarella enfiado pelo pescoço n'um geito de
+sobrepeliz.--Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim!
+
+--Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz--disse-lhe de lá o
+José Grillo, muito fleugmatico, debruçado sobre a creança.
+
+Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhaço, muito
+afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grillo virou-se para
+ella e disse-lhe muito solemne:
+
+--Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.
+
+Ao ouvir assim fallar o seu José, a senhora Joanna voltou-se logo para
+elle, olhos esbugalhados, muito suspensa.
+
+--Juras pelas cinco chagas, ó homem?
+
+--Juro pelas cinco chagas.
+
+--Assim te Deus dê saude, ó José?
+
+--Assim me Deus dê saude.
+
+--Preto sejas tu como o teu chapeu?
+
+--Preto seja eu como o meu chapeu.
+
+A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
+a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
+Conceição, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia.
+
+Depois desabafou, muito aliviada:
+
+--Ai!
+
+O José Grillo poz-se a rir.--«O demonio da Joanna, com ciumes!»
+
+--Mas ciumes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo
+tens tu ciumes?--perguntava muito casto o amigo José Grillo, serenissimo
+deante da mulher desconfiada.
+
+A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--«que o seu homem era um
+santinho...»--O José Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo,
+reguingou d'alto:
+
+--Sabes tu que mais? estafermos é o que mais ha. Olha a cadella que
+engeitou este...
+
+Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:
+
+--Mas quem seria a grande cadella?
+
+Poz-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem,
+murmurando phrases d'odio, moralistas:
+
+--Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo
+entranhas de lobo.
+
+O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do
+José Grillo.
+
+--É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar--disse
+contristado o lavrador.
+
+Foi-se logo á porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
+Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas.
+
+--Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demonio vens tu cá
+fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?--E deu um bofetão
+na filha, «para que soubesse dar o recado».
+
+A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é
+que a mandara para levar a creança, porque ella, adoentada, fazia-lhe
+mal sair de casa assim cedo...
+
+--Só se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o José Grillo, virado
+para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens.
+
+A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse:
+
+--Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.
+
+--Eu sei lá se não se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--Dá cá
+d'ahi o pequeno.
+
+Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao José Grillo. O
+lavrador depol-o nos braços da Dorotheia, com mil cuidados, e depois
+elle mesmo ajudou as mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse
+bem quente.
+
+--Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá appareço,
+p'ra ver isto do ajuste.
+
+A rapariga saiu. E como o lavrador désse fé que tinham alli ficado os
+farrapos, gritou para a rapariga:
+
+--Ó D'rotheia! espera que inda cá ficou isto.
+
+Então poz-lhe os farrapos ao hombro--uns pedaços miseraveis de velha
+chita--e a Dorotheia partiu onde á irmã.
+
+
+II
+
+_Quarta-feira anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de
+Antonio Palma, casado com Rufina Maria_
+
+
+O Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
+a Rufina, principiava a lavar a louça, quando á grade do quinchoso uma
+voz chamou:
+
+--Ó sr.^a Rufina!
+
+Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as mãos
+fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
+que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do caminho.
+
+--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.
+
+O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de
+cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma
+desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Thomaz negociante de
+gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os proprios pequenos
+olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande mulher gorda que elles
+não conheciam. Ella sentou-se logo n'um sacco, muito esfalfada, emquanto
+o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
+com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
+investiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o
+pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a mulher começou
+assim:
+
+--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
+Já veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
+filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá
+em casa de minha mãe aquillo é uma grande miseria, passam-se dias que
+não comemos. Não ha uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
+geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este estado, bem veem
+como eu ando...
+
+Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e
+a mulher diziam não sei que monosyllabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
+proseguiu:
+
+--Não é por mim, sabem? não é por mim. É este innocentinho que tem de
+nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me
+dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse...
+Coitadinho!
+
+Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o
+Palma e para a mulher.
+
+--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.
+
+O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de
+seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
+se havia de arranjar, que socegasse.
+
+--Que a fallar os pontos de verdade, sr.^a Fortunata, vossemecê é que
+tem a culpa d'esses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.
+
+Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.
+
+--Má sorte d'aquelle pobre José Thomaz, acabou-se! Quando elle casou com
+vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.
+
+Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta.
+
+--Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
+nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vae a uma feira.
+Pois olhe que era homem para junctar, videiro como poucos.
+
+Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois
+continuou:
+
+--Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo
+sacco...
+
+A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O
+Palma proseguiu:
+
+--Sente se vossemecê, mulher, o sacco não faz ao caso. Pois foi ahi
+mesmo que elle esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na
+camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal.
+Que a bem dizer elle quasi não conversa, anda a modos que amalucado,
+sempre a levar a mão á cabeça, como se lá dentro aquillo andasse azoado.
+E mais é que bem póde o rapaz dar em doido...
+
+A senhora Rufina foi de parecer que doido já elle andava. Passavam-se
+dias que não apparecia em casa do tio José Garção, que o levára logo
+para elle, mal a sr.^a Fortunata o deixára. Por onde andava? que fazia?
+Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo telheiro que os
+porcos. Que d'outra vez fôra ter com o vigario para que lhe baptisasse o
+filho, dizendo que já tinha nascido.
+
+--No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.--Anda com
+ella ferrada que o filho já nasceu.
+
+Aqui, a Fortunata, de pé junto á porta, rompeu n'uma choradeira, ouvindo
+fallar no filho. O Palma interveio, condoido, dizendo que se não
+affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.
+
+Ella ia ajoelhar, o Palma não deixou.
+
+--Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por
+vossemecê. Mas é que o innocentinho que ahi traz esse é que não tem
+culpa. Faço de conta que é o pae que me pede, o pobre José Thomaz.
+Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Thomaz. Diabo! a gente já
+diz _era_, já falla n'elle como se o pobre tivesse morrido...
+
+N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns
+bois que não eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
+quando já ia para sair, disse em resumo:
+
+--Fique vossemecê então, sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ella
+inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.
+
+Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo gordo, desentupiu
+e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
+feito uma caricia, quando por volta do meio dia a avó do pequeno alli
+chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
+aos cevados, ficou espantado:
+
+--Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, sr.^a Anna!
+
+Ella, sem mais rodeios, perguntou se a creança já tinha nascido.
+
+--Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha d'ahi.
+
+Mas iam ainda á porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe
+perguntou n'um sobresalto:
+
+--Vivo ou morto, sr. Antonio?
+
+O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a creança nascesse
+morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
+pontapés. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de colera, quando em presença
+do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
+fazer.
+
+O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella insistisse
+com a pergunta: «que se ha de agora fazer a isto?» elle redarguiu,
+irado;
+
+--Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se ha de
+fazer á creança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar...
+
+A velha ia fallar.
+
+--Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda
+nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu
+uma cadella quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer
+cadella vale mais que vocês duas.
+
+O Palma ia-se pondo amarello, a sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
+que saisse.
+
+--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de
+vespera até á feira.
+
+Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da egua.
+
+--Tanto faz ir ámanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mette-me
+qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a egua.
+
+D'ahi a meia hora, o Palma montava á porta, no meio do rancho dos
+cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:
+
+--Em estando capaz, rua!
+
+--D'aqui a tres dias, talvez...
+
+--Então até d'aqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
+esses estafermos sairem.
+
+Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fóra--com o
+embrulhinho do neto ao colo...
+
+Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado...
+
+Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? Não sei. Caso é que na
+madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino á porta do
+José Grillo.
+
+Madrugada de fevereiro, nevava...
+
+
+III
+
+
+Quando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar á irmã, tinha
+amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidissimo
+retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquella atmosphera de gelo.
+Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão
+triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto,
+faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella impressão de frio. O chão
+estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céo muito azul
+annunciava um dia de sol.
+
+A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda
+d'aquelle lado em contacto com o pequenino...
+
+Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
+perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da
+levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um engeitadinho.
+
+--Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.
+
+Mas o moleiro, que vinha chegando, espécou deante da mulher, e repetiu
+como um echo:
+
+--...Um engeitadinho.
+
+Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga.
+
+--Sim, um engeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E
+d'ahi... póde ser que não seja...
+
+A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.
+
+--Nada! pode ser que a historia seja outra--elucidou o moleiro.--Onde
+foi que isso foi posto?
+
+--Esta madrugada, á porta do José Grillo.
+
+--Olá! isso então pode ser coisa d'elle--observou a rir o moleiro.--Esse
+diabo não é seguro.
+
+Pozeram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôz-se a
+explicar á rapariga:
+
+--É que hontem á noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
+modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal. Assim ás primeiras,
+tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo...
+
+--Ó Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e
+senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobresinho ha-de ter fome.
+
+A Dorotheia passou a creança para os braços da moleira. Foi uma alegria
+ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os olhitos inda fechados.
+
+--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria
+a desavergonhada?...
+
+--Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro.
+
+--Depois, dormiu cá, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas dá-se o caso
+que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, n'um
+fallatorio pegado. «Que o filho era d'elle, que se a cabra da mãe
+teimasse em o engeitar, elle ia dar parte á justiça.» Um arrazoado
+assim, muito comprido.
+
+Espantada, a Dorotheia ia fallar.
+
+--Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia
+isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que
+onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar.
+
+Ficaram-se um instante a mirar consolados a creança.
+
+A pobresinha vagia, mamando com sofreguidão.
+
+--Mas então sempre elle sabe do filho, reatou com interesse a
+Dorotheia.--Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae,
+coitadinho!
+
+A sr.^a Luiza, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
+compungido:
+
+--Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir!
+
+Fez-se um silencio, mirando todos a creança. A taramella do moinho
+batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro explicou ainda
+que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
+obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe
+respondera:--«Para a feira. Vender um gado.»
+
+--Ora vá lá o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido
+a vender gado.
+
+Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Dorotheia, com pressa
+por causa da irmã, pegou outra vez na creança e abalou pela porta fóra,
+direita á casa do pae.
+
+--Olha os trapos, ó Dorotheia! olha que deixas cá isto.--E o Paulo
+correu a levar á rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
+todo o enxoval do triste pequenino...
+
+Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a
+creança não ia com fome. E para que tambem não fosse com frio, a boa da
+rapariga achegava ao peito o engeitadinho, n'uma solicitude toda
+materna.
+
+--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja
+capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um innocentinho,
+embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José
+Grillo não dava fé! Alli se morria de frio o anjinho, capaz de virem
+depois os cães e comel-o.
+
+E espreitando pela fenda estreita do chale:
+
+--Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua mãe, ora foi?
+
+--Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo.
+
+A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que já de
+longe a acompanhava, sem ella dar fé, corria tambem atraz d'ella, e não
+tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
+com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella
+conhecia gritou alli de perto:
+
+--Larga a rapariga, ó José Thomaz! Larga a cachopa!
+
+E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.
+
+--É o José Thomaz que está doido,--explicou o pastor.--Desde que a
+mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!
+
+Mas palavras não eram ditas, eis que o José Thomaz de novo se arremessa
+á rapariga.
+
+--Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!--rugiu elle com voz
+furiosa.
+
+E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
+lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas,
+impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...
+
+A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente.
+
+E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do
+engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
+rir-se...
+
+--Conheces? perguntou-lhe a rapariga.
+
+No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido não
+respondeu.
+
+--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.
+
+Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
+estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle então oppoz-se, caindo
+sobre os calcanhares.
+
+E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel
+farrapo, as lagrimas corriam, copiosas...
+
+Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
+percebendo. Os farrapos que embrulhavam a creança eram da saia da mãe. A
+mãe era a mulher do José Thomaz, e o pequenino era filho d'elle... A
+grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
+homem!
+
+--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vês ahi um
+estafermo que precisava que a matassem!
+
+O José Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma forte
+impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.
+
+--Ó Dorotheia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pae
+deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.
+
+Mas não foi preciso; que o José Thomaz, sempre de joelhos sobre a neve,
+foi para ella de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos
+labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio que se fez
+ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.
+
+Como se fôra uma chuva de petalas, do céo de madreperola a neve cahia
+mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
+no seio immenso de um orgão, o vento sul--gemia...
+
+
+
+
+ABYSSUS ABYSSUM...
+
+
+N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
+Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o
+rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
+ameaça, aquellas terriveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia
+que lhe appareceram em casa tarde e ás más horas.
+
+--Ouvistes?--ralhara-lhes a mãe.--Olhae se ouvistes: se voltaes ao rio,
+mato-vos com pancada. Andae lá...
+
+Ih! como ella dissera aquillo, Mãe Santissima! Colerica, ameaçadora, com
+a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver
+tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
+aquella ameaça terminante. E então, n'esse dia, elles não tinham ido ao
+rio. Aos passaros sim...--lá estavam as calças rotas do Manuel a
+dizel-o--...aos passaros é que elles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe
+que o soubesse...
+
+Ah, mas então não os deixassem dormir n'aquelle quarto. Logo de manhã,
+mal abriam as janellas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
+corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
+salgueiros. Lá estava a ponte velha, d'onde os rapazes se atiravam
+despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do
+fidalgo,--lindo barquinho!--sempre á espera que o fidalgo o desamarrasse
+para passar á grande quinta que tinha na margem de lá.
+
+De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois
+rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores, tão
+madrugadores como os melros, metterem-se dentro do barco, desprendel-o
+da praia, e deixal-o ir então por onde elle quizesse, comtanto que fosse
+sempre para deante... Quando fechavam as janellas para se deitar, a sua
+vista seguia, mesmo atravez da escuridão da noite, a linha que ia dar ao
+barco. Era o seu--«adeus até ámanhã!»--áquelle pequeno objecto que valia
+thesoiros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...
+
+Ah! tivessem elles assim um barquinho, que não queriam mais nada...
+
+--Mais nada?
+
+--Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.
+
+Mas n'essa manhã, bella manhã, na verdade! a mãe viera acordal-os mais
+cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para
+os campos, os solavancos dos carros no empedrado pessimo da rua, os
+patos da visinhança que saiam em rancho para a digressão pelos prados,
+grasnando ruidosamente, levantando-se em vôos curtos, espantados da
+aggressão accintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que alli perto
+se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador atarracando cravos na
+bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
+vagaroso, as chaves da egreja na mão esquerda e na direita a cabacita do
+vinho. E áquella hora, onde iria já a missa! A ultima beata, encapuchada
+e lenta, recolhera, trazendo comsigo a esteira em que ajoelhára na
+egreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua,
+dava com valentia n'um carro cujo eixo _ardera_ na vespera, e que era
+urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a
+loja, e subira á varanda a regar os mangericos. Começos da labuta
+diaria, emfim; os senhores sabem.
+
+Pois como lhes disse, a mãe viera n'essa manhã acordar mais cedo os dois
+pequenos.
+
+--Fóra, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal
+está! Ai, ai, dia claro ha que tempos, vem ahi o sol, e os morgadinhos
+na cama.--E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as janellas.--Persignar e
+vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem.
+
+E poz-lhes tudo sobre a cama.
+
+--Mãe, a benção!--balbuciaram os dois, tontos do somno ainda.
+
+--Deus os abençôe. Que Deus não abençôa mandriões, ouviram? Ora eu já
+volto. Queira Deus que não vos encontre cá fóra, tendes que ver.
+
+Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
+olhos áquella hostilidade viva da luz que invadira o quarto n'um jacto
+repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito
+que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria
+tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda
+tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego
+morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!
+
+Mas a mãe não tardava alli. Era preciso vestirem-se, que remedio! Foi
+então que o Manuel, mais esperto do somno, olhando para o campo o achou
+encantador, todo resplandecente de verduras.
+
+--Bonita manhã, não vês? As arvores parecem mais lindas, repara. Porque
+será?
+
+O outro encolheu os hombros, não sabia: só se fosse por não haver
+nuvens...
+
+Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva da
+manhã fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde encantador, muito
+suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das
+laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das baixas. Revestidos
+de folhagem, ascendiam ares fóra os olmos gigantescos. Pedaços d'horta
+estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas
+das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.
+
+Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa manhã
+deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante sob aquelle céo
+immaculado.
+
+--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece?
+Olha que é lindo, o rio; ora é, ó Antonio?
+
+--É, lá isso... Mas _tamem_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o
+irmão.--A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?--E
+mirando por sua vez a paizagem perguntou:--Já reparaste no barco, ó
+Manuel?
+
+--Tão bonito!
+
+Os dois riram.
+
+--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.
+
+--Podera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois
+radiante, gesticulando para o irmão:--Mas eu era capaz de o
+desamarrar...
+
+--Ai eras!--disse duvidoso o Antonio, para o incitar.
+
+Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, lá isso era. Ambos dentro
+d'elle, sósinhos, isso é que seria bom! E elles então que estavam mortos
+por ir ás azenhas, e pelo rio era um instante emquanto lá chegavam. O
+barco! Era tão bom andar no barco! E aquelle então era lindo, como não
+tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem lá não
+esquecessem!--aquellas tardes em que o fidalgo os levara dentro do
+barquinho, ensinando-lhes como se remava.
+
+O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito á janella.
+Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando.
+
+--Está um dia lindo, avia-te.
+
+--Olha avia-te! p'ra que?--perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o
+pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.
+
+O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A mãe
+não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada
+se desceis a ladeira.» Já se vê que depois d'isto...--E os dois
+suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!
+
+N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo!
+Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demonio de
+tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo
+o comprimento, uma faxa azul-clara destacava nitidamente, parece que
+apenas meio palmo acima do nivel da agua.
+
+--Táte, ó Manuel! E se fugissemos?
+
+--Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar...
+
+Ora ahi esta! isso é que era o peor! A mãe, depois, era capaz de fazer o
+que tinha promettido. E arregalando muito os olhos, imitando a colera da
+mãe:--«Se voltaes ao rio...» Ai, ai, a triste sorte!
+
+Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
+ao nascente, n'uma explosão violenta de luz, accendendo coloridos na
+largura muito ampla da paizagem.
+
+--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com
+alegria o Manuel.
+
+--Mas é que está, palavra que está. Agora é que ha-de ser bom andar
+dentro d'elle...
+
+Os dois riram-se muito áquella ideia encantadora de andarem no
+barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso,
+cobrando animo, o Antonio disse resoluto:
+
+--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela
+jaqueta:--Vamos lá, ó Manuel?
+
+O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não
+vinha, disse baixo ao irmão:
+
+--Á tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão facil dar pela
+nossa falta, alli á tardinha. A gente finge que vae para o adro.
+Levam-se os peões...
+
+--Ha-de ser mesmo assim! á tardinha!--concordou o Antonio.--Eh! eh! tu
+cá desatraco.
+
+--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava.
+
+--Ao leme vou eu: o leme é aquillo que regula--explicou.
+
+--Pois sim, mas á vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quizeres
+assim...
+
+--Pois está bem, quero! Assim mesmo é que ha-de ser!
+
+E recapitulando, para melhor ficarem combinados:
+
+--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?
+
+--Remas.
+
+--E tu regulas, ora regulas?
+
+--Regúlo.
+
+--Ao p'ra cima é ás avessas, ora é?
+
+--É.
+
+Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
+impozeram segredo...
+
+--Schiu!...
+
+--Schiu!
+
+ * * * * *
+
+A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do céo, penachos de nuvens
+alvejavam, immoveis.
+
+Accesas n'aquella explosão rubra do occaso, as arestas dos montes
+franjavam-se de purpura e oiro, na decoração magica dos poentes.
+Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquilla dos crepusculos,
+e uma quietação dulcissima e vagamente melancolica entrava de adormecer
+a natureza para o grande somno reparador de toda a noite.
+
+...E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida.
+
+N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando,
+os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
+immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
+cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella
+indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de silencio
+confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como spasmo
+amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que
+vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as
+coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as
+formas ás coisas...
+
+Muda de gorgeios, atravessando o espaço em vôos muito rapidos, a
+passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.
+Cahiam já pesadas sobre os valles as sombras das montanhas, e um
+fumosito subtilmente azulado nadava á flor das coisas, velando-as para o
+tranquillo somno em que iam adormecer.
+
+E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava
+mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas
+começavam de lampejar. Dentro d'elle, os dois irmãositos silenciosos
+iam-se deixando enlevar n'aquelle ruido suave dos remos abrindo fendo
+nas aguas... Não! era bem certo que elles não tinham jámais sentido uma
+tão poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes trasvasava do peito,
+fundindo-se em energia nos musculos e crystallisando-se nos labios em
+sorrisos.
+
+Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
+absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
+de admoestações alheias, sósinhos, independentes. E esta feliz convicção
+de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de
+alegria. Por certo elles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o
+seriam jámais?... No emtanto a noite accentuava-se. Espertava nas
+margens o marulho da agua nas raizes fundas dos salgueiros. No céo alto
+e sereno scintillavam as estrellas em cardumes.
+
+--Remas, Antonio?--perguntou o do leme.--Olha se a vês...--E apontava
+para Vesper, a estrella que mais brilhava.
+
+Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcançar a estrella cujo
+brilho diamantino os fascinava. Tão linda!
+
+--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a
+estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
+adeante, só por isso...
+
+--Olha o milagre! Ella está quêda!--fez o outro, convencido da
+facilidade da empreza.
+
+--Está quêda, está quêda, mas sempre na frente de nós; vae lá
+entendel-a. Olha como brilha, ó Antonio.
+
+--Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito d'aquella fraga é que
+ella está.
+
+Não era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de meia hora
+era certo alcançal-a.
+
+E engastada no azul escuro do céo, a estrella parecia brilhar mais,
+quanto mais a olhavam.
+
+--De que são feitas as estrellas?--perguntou o mais novito.
+
+--De prata, pois está visto.
+
+Então o outro, lançando um amplo olhar á vastidão infinita do céo,
+exclamou:
+
+--Eh! tanta prata!
+
+--O sol, esse é d'oiro--disse ainda o Manuel.
+
+--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmão.--Que eu, se me dessem á
+escolha, antes queria as estrellas. Olha que rebanho!
+
+--Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais
+grande.
+
+E emquanto fallavam, os dois não desfitavam olhos da estrella feiticeira
+que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo fenda na agua, com
+certo ruido muito doce... E lá no alto céo, dir-se-hia que de instante
+para instante a feiticeira estrella mais brilhava, incitando-os.
+
+--Vêl-a a fazer assim?--e poz-se a pestanejar, imitando a palpitação
+crebra e irregular da luz sideral.
+
+--É que tem somno--respondeu o outro.
+
+--Olha que não. Aquillo é a fazer-nos negaças, _tamem_ t'o digo.
+
+--Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo,
+bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh,
+_boieira_!
+
+N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul,
+sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram
+em tom de reza as palavras rituaes:
+
+Deus te guie bem guiada,
+Que no céo foste creada.
+
+--Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a
+apontar para ellas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.
+
+--A ti talharam-te o ar, ó Manuel.
+
+--Diz a mãe. Á meia noite levaram-me á fonte e esparrinharam-me agua
+para o corpo. E a agua havia-de estar fria... observou, encolhendo os
+hombros. Depois, viraram-me para as estrellas e disse então a mãe:
+
+Ar vejo,
+Lua vejo,
+Estrellas vejo:
+O mal do meu corpo
+Pr'a tráz das costas o despejo.
+
+Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da mãe, havia-de ser
+engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.
+
+--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por
+anno, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas
+estrellas que além estão, e rezar uma Ave-Maria.
+
+--Sempre, sempre?
+
+--Até que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com tres noites
+dentro de uma.
+
+--Ora! tornou-lhe incredulo o irmão.--Tu não cabes lá...
+
+--Não sei: assim é que anda nos livros.
+
+...Mas os braços doiam já dos remos, doiam muito...
+
+Devia ser tarde, e elles sem darem fé, enlevados como iam no desejo
+louco de alcançar a estrella.
+
+A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um
+silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a
+agua da corrente ia espumando na quilha, com certo ruido de uma brandura
+suavissima e doce.
+
+...Mas os braços cada vez doiam mais!...
+
+Agora, no céo, havia muitas estrellas brilhantes, muitas, mas nenhuma
+como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar
+menos para ella, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o
+peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.
+
+...E os braços sempre a doerem!...
+
+Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente,
+cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo do leme,
+sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do subito desleixo do outro.
+
+...E os braços já não doiam, nem ao de leve sequer...
+
+O pequeno barco vogava agora á mercê da corrente, sem impulso algum
+extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das respirações dos dois
+pequenos adormecidos...
+
+Algum tempo assim. Senão quando, um ruido surdo, e logo um movimento
+brusco de balanço, fez acordar o do leme.
+
+Na grande allucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou
+immediatamente:
+
+--Manuel! Ó Manuel!
+
+O remador acordou, sobresaltado.
+
+--A estrella? Ainda lá está, olha!--disse incoherente, estonteado pelo
+somno.
+
+--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!—-continuou
+afflicto o Antonio.
+
+--Então não lhe passamos adeante?--perguntou ingenuamente o Manuel,
+referindo-se ainda á estrella.
+
+Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o á realidade,
+de novo lhe gritou, com lagrimas na voz:
+
+--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!
+
+E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um
+choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel
+susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
+aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o
+psalmodear monotono e rouco de uma legião de espiritos maus,
+preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
+rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que
+n'um requinte de malvada indifferença houvessem jurado assistir
+impassiveis e mudos á escura tragedia da sua desgraça.
+
+E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem d'alli.
+Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguem
+viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os seus afflictivos
+gritos.
+
+Crudelissimo transe!...
+
+E então os braços continuavam a doer, doia-lhes agora o corpo todo, ao
+mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes opprimia o
+espirito, parece que embrutecendo-os.
+
+--Mas a estrella sempre além...--notou ainda o Manuel, balbuciante de
+medo, como se quizesse increpar a propria estrella da sua indifferença
+criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio em que por causa d'ella
+se haviam precipitado.--Se ella podesse acudir-nos...
+
+Até que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo se deixaram
+adormecer, era já alta noite.
+
+Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte não
+cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após
+tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as aguas se
+contorciam em remoinho, e entrou de girar com elle, violentamente.
+Quando a agua se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de
+subito acordados romperam em gritos lancinantes:
+
+--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!
+
+Tinha surgido a manhã, serena, tranquilla, cheia de gorgeios e de azul.
+Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual, n'um repelão
+mais violento o pobre barco esphacelado investiu de proa com o abysmo e
+lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo paroxismo da sua
+enorme dor desesperada, os dois irmãositos abraçados sumiram-se tambem
+com elle!...
+
+ * * * * *
+
+...N'esse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrella
+feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!...
+
+
+
+
+MÃE!
+
+_Ao dr. J.C. da Moita Prego_
+
+
+Bella cabra, a Russa!--posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada,
+luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva
+de porte quando á frente do rebanho parecia commandal-o, badalando
+cadencialmente o seu chocalho enorme--tlão! tlão! Era no rebanho a que
+mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilancias particulares no
+seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia arvore a que
+não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não
+triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
+
+E depois, alli onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas
+vezes illudira ella a attenção do pastor, e se ficara por hortas e
+quintalorios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.
+Por isso Alipio José, pastor, a quem doiam as denuncias, ao pescoço da
+Russa prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais facil
+rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito mais
+grave.
+
+Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia
+gosto vel-a trepar ás ultimas cumiadas, subir destemidamente ás arestas
+superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,
+pescoço alto, ajoelhando destemida a retouçar as hervas dos declives
+alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com
+abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e corregos,
+saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas excursões
+arriscadas de _touriste_.
+
+Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e
+então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de
+garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que
+encontrasse por essas paragens era para ella um desespero--tamanha a
+furia com que a perseguia, e a insistencia com que se ficava ás marradas
+na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o
+Alipio que dormia á sombra das azinheiras, de chapeu sobre a cara,
+levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu
+vozeirão que fazia echo:
+
+--Toma tento, Russa!
+
+E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos
+fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alipio José
+ficava-se a olhar a cabra, invejoso d'aquella facilidade em subir aos
+ultimos pinaculos, admirado dos saltos que ella fazia para salvar
+gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria
+infallivel. E por lá andava dias inteiros a Russa, n'aquella
+vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho,
+resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam
+ninho.
+
+ * * * * *
+
+Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por lá se
+deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia
+quiz ella descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem
+vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio José gritara cá debaixo, cada
+vez mais desesperado:
+
+--Volta ao rebanho, Russa!
+
+E, cuidando que mais lhe feria assim a attenção, punha-se a agitar com
+furia o mólho dos chocalhos, gritando sem cessar:
+
+--Russa! torna ao rebanho, Russa!
+
+Mas impossivel! que a não deixava a quebreira em que toda ella ficara do
+parto, nem o pequeno poderia--pobresinho!--descer por taes ladeiras, de
+pedregosas e asperas que eram.
+
+Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno
+congelava unindo-se á mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o
+aconchegava mais e mais para lhe transmittir o natural calor do seu
+corpo enfraquecido e doente.
+
+Por altas horas da noite, na solidão lugubre d'aquelle sitio,
+alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava
+lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido da mãe,
+traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao vagido fraco do
+filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
+instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.
+
+Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por taes frios e doenças,
+impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e
+mais n'um como abraço de eterna despedida--amigos que se iam apartar
+para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade,
+soluçando e gemendo, n'um adeus! que era infinito, como o infinito amor
+que os unia...
+
+E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
+lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fôra o signal
+para o transe derradeiro...
+
+Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abobada, as
+estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa indifferença por aquella
+dôr suprema de que eram as unicas testemunhas.
+
+E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céo a vida
+do filho, ao menos,--ora supplice em balidos de resignação que uma
+profundissima dôr ungia, ora desvairada e louca, em gritos que
+significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o céo que a
+não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe
+estrangular o filhinho que ella amava tanto.
+
+E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dôr--a ironia acerba da
+chocalhada longinqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra
+banda, deixando-a a ella sósinha com o filho, á espera da morte que era
+inevitavel.
+
+Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar
+fóra o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, n'um adeus! adeus!
+de despedida ás companheiras felizes que lá iam, n'um ruido longinquo de
+chocalhos...
+
+ * * * * *
+
+N'aquella solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol
+entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam
+e o sangue circulava.
+
+E o cabritinho sem poder ainda descer!...
+
+De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as
+escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e tremula, como
+que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas
+horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,
+lá baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio.
+
+Impossivel! impossivel!
+
+E sentia-se enfraquecer á mingua de sustento, pois a herva, por alli,
+estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres dias.
+
+N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes
+e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o
+chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que
+o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
+assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo...
+
+Impossivel! impossivel!
+
+Nada que signifique a dôr d'aquella mãe, e traduzir possa em linguagem
+toda a gamma de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se
+de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,
+estendido para alli, na prostração pesada do ultimo desalento; animava-o
+com caricias, aproximava-lhe da bocca os uberes já flaccidos e
+amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse levar
+ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe
+afflictivo...
+
+Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a ultima
+cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
+subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. Á medida que a treva
+se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte, accentuando-se
+cada vez mais a melopéa somnolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo
+ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos volateis de
+arminho, cortavam em vôos mansos a profundidade calma do céo, demandando
+os pombaes e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.
+Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um
+chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
+estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas rastejavam apressados os
+reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama...
+
+...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem
+passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda
+a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou alegremente o seu
+dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia ámanhã...
+
+Só a desgraçada cabra, alli, junto do filho tenro, não mais fizera
+passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração
+alanceado de mãe. Ahi vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o
+filho que já tremia a ella aconchegado--o triste pobresinho!
+
+Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
+n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céo era
+baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a espaços a abobada, irradiando
+uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em ultimos transes de
+creanças, em que a vida gradualmente se extinguisse, n'um latejar
+vagaroso de palpebras somnolentas...
+
+Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
+apparencia da atmosphera e do céo. Noite peor do que as outras, porém
+com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e
+nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancal-os do abraço em que
+se uniram, mal cerrara a noite!
+
+A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em
+rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos,
+accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade
+esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
+que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz sinistra
+na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retrahia-se n'um
+como pavôr medonho, concentrado de intimos terrores e silencios lobregos
+d'horas altas. Cerrava-se mais no céo a phalange muda das nuvens,
+densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas, sem
+scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem...
+
+E sempre, e constantemente immoveis na escuridão pesada, aquelles dois
+olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
+treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
+convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme dôr, a pobre mãe não
+ousava arriscar um unico movimento e mais e mais cerrava contra si o
+corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.
+
+Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes, quasi
+eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis angustias,
+vasias de esperança na vida do seu pequenino filho.
+
+De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
+novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distancia. Estremeceu a
+pobre de subita alegria,--e no abalo que soffreu o seu corpo, até então
+retrahido, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a
+desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleoptéros de azas
+phosphorescentes, os olhos até então immoveis do inimigo. E por alli
+levou a noite toda, farejando e uivando, até que cançado de perscrutar o
+insondavel, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
+que vinha, docemente, alumiando pincaros e arestas.
+
+ * * * * *
+
+Ao romper d'alva o céo era azul. Apenas de longe em longe pennachos de
+nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
+lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
+diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações
+imperceptiveis e suaves.
+
+Começavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina accusava já as
+differenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados
+de restolhos, tons pardos de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e
+pinheiraes cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céo no
+alto dos montados.
+
+Pelas ladeiras d'além, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao
+areal da margem. Em turbilhões de espuma alvissima precipitava-se a agua
+nos açudes, marulhando nos altos penedos marginaes, denegridos e
+informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto do moinho, lá
+em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se tranquillamente no ar
+sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma
+ambição ou como um sonho...
+
+ * * * * *
+
+Foi então que Alipio José, á frente do rebanho, de novo abordou áquellas
+paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.
+
+--Russa! torna ao rebanho, Russa!
+
+Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida
+sobre o cadaver do pobre filhinho morto!...
+
+E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos
+rochedos--passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a
+esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...
+
+
+
+
+ARRULHOS
+
+_A.M. da Silva Gayo_.
+
+
+Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orificios
+triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impeccavel do
+muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de distancia.
+
+--Pombal da Morgada! diziam.--Lá se vê além...--E um gesto muito longo
+levava a vista horizontes fóra, á cata do Pombal da Morgada, que
+alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
+como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e osso
+provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
+seriam encantadoras as tardes quentes de estio, á sombra de arvores
+seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda, pardalada sonora,
+gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa semceremonia--frangãos
+assados e boa vinhaça da terra.
+
+Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A
+Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e
+outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte
+desastrada do noivo--um trambulhão de um cavallo que o matara logo alli,
+sem mais pio, n'um ai.
+
+A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera na
+vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a
+castidade das suas intenções d'elle...
+
+Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procreou, vieram pombos
+novos--todos brancos uns, rajados outros, de um _gris_ delicadissimo
+alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos.
+
+Bellos pombos, na verdade!
+
+Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo começavam de esbater-se
+n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas
+entrava de se desfazer em imperceptiveis _nuances_ subtis, n'um
+_smorzando_ melancholico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
+caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida
+cessava no campo e começava no céo em scintillações argenteas de
+estrellas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
+estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
+espalhando no pavimento terreo, com solicitudes de _menagère_, as
+provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço--milho em
+abundancia e fartura de alpista.
+
+Assim todas as tardes, ia já em quatro annos, que não havia forças que
+levassem a Morgada para fóra do seu pequeno solar, onde vivia só,
+retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel a pedidos de amigas
+que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e que a queriam levar
+para que se distrahisse, para que se alegrasse--«era nova ainda, podia
+arranjar noivo, nada mais facil...»
+
+--E as pombas? objectava.--Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo.
+Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
+matassem, haviam-de até roubal-as, entrar de noite no pombal, leval-as
+todas.
+
+--Que não e que não! insistia renitente;--que tivessem paciencia, que se
+divertissem muito, ella ficava.
+
+--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que
+rebentou do trambolhão. Bem tola!
+
+E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
+ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da simplicidade
+habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um
+pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma préga, nem sequer um laço.
+
+Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não
+desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de hoje para ámanhã,
+desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortavel, muito
+abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram
+flaccidos--folhas de milho mudadas cada dois dias.
+
+Que bom, ser pombo da Morgada!
+
+A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, começava com o
+aclarar, muito cedo, depois do descanço do somno na placidez do ninho,
+quando as forças eram sãs e as azas pediam vôos.
+
+Hora dos amores!
+
+Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente,
+lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
+ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
+possuindo-as á força, a tremer, azas em concha, pennugem erriçada,
+arrulhando muito, arrulhando sempre, cahindo desfallecidos depois,
+hirtos, palpebras cerradas, trementes, frementes, em spasmos de luxuria
+e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de
+contentes, sacudindo as azas, pescoço levantado, orgulhosas talvez,
+muito felizes.
+
+Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
+quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, n'uma
+doçura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
+ás boas, não querendo violencias, detestando-as, bem se via,
+supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos, redobravam os
+carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de
+pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos--beijos
+com certeza.
+
+Isto todos os dias, nas manhãs ennevoadas especialmente. Imagine-se a
+vida do pombal áquellas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas
+mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
+queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava;
+e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
+sanguineo e quem era pachorrento.
+
+Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
+pousava, retomando vôo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
+direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, n'um
+ruido muito doce de bicos que sorviam.
+
+Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
+Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao
+balcão da sua janella, alegre de trepadeiras em flôr, pousar-lhe nos
+hombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não
+sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lagrimas, mas
+que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis:
+
+--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...
+
+D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios felisões, vida
+de concubinagem, n'uma promiscuidade sem limites e n'uma libertinagem de
+harem.
+
+Polygamia desenfreada!
+
+Excepção a ella, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba
+branca, de uma alvura impeccavel de neve, e então um pombo rajado, preto
+e cinzento, de _nuances_ azues-escuras, ares aguerridos de luctador
+vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.
+
+Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e
+spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de pescoço,
+nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a, sem arrulhos previos,
+sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
+entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe no ninho, disputando
+primazias á força de bicadas.
+
+E umas atraz de outras, e dias após dias, sempre assim!
+
+Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar logar
+a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado d'elle, paciente,
+resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
+meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o ufanava,
+incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
+outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
+entregar a outros, e de se affeiçoar á branca, a ella só, acarinhando-a
+muito, arrulhando com ella, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
+amores.
+
+Não imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da desordem, da
+perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instinctos commodos de
+polygamia, tão avesso a duetos d'aquella natureza, onde os pombos eram
+de todos e as pombas eram communs.
+
+E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
+inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava de
+egoista. E quando saíam não se juntavam com os outros--uma desfeita! uma
+offensa!--tomavam rumo differente: para a direita se os outros iam para
+a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
+contrario.
+
+Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os
+encontravam no pombal, em ninhos contiguos a principio, no mesmo ninho
+depois!
+
+Um escandalo! Um desaforo!
+
+E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.
+
+Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
+forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
+isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as azas,
+levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
+quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados...
+
+Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a pomba
+branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia depois,
+luctava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do
+pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além,
+entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido de azas, receiando
+acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido
+sob a aza veludinea.
+
+Dois mezes assim--dois mezes!--n'uma fidelidade conjugal ininterrupta,
+digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheço, que os
+senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
+esplendida de alegrias, passada em bellas digressões campos fóra,
+pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo
+de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...
+
+Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter desconfianças, suspeitas
+de inconstancias e receios de infidelidades, de noite, emquanto dormia.
+Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
+modos de enfadada ás vezes, certas perrices, resistencias mal
+disfarçadas. Ficava-se em casa se o rajado sahia, impassivel a
+supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e quebramentos
+de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o vôo, tomava para norte se o
+rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.
+
+Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam--rameira do
+rajado!--um dia levantou vôo e fez-se ao largo.
+
+ * * * * *
+
+Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao
+_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
+_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, á prova de
+rheumatismo e á prova de vintem, felizes na sua pobreza, amigos das
+creanças, bem humorados sempre, flôres de uma arvore que ora vae dando
+cardos. Perto do solar da Morgada, a tres kilometros só, havia um assim,
+o abbade das Donas, bom prégador n'outras eras, com famas de theologo
+ainda ao tempo.
+
+--Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!--era assim que
+muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins,
+sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos.
+
+--Theologia velha, diziam, a genuina!
+
+A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
+a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era
+terreo, rimas de lenha secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha,
+um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para
+um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
+estavam.
+
+Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas devoções, e n'essa tarde
+quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, oculos na
+ponta do nariz, breviario na mão direita, a dois palmos, a esquerda a
+segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solideo com borla
+resguardando-lhe a calvicie.
+
+A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações
+de desgosto, arremessos de breviario, e por fim levantando a voz:
+
+--Fome as pombas, sr.^a Luiza: não fazem senão saltar...
+
+--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,--mas têm lá
+visita, pomba que arribou.
+
+E depois informando:
+
+--Pomba guapa, toda branca. São agora tres ao todo, e então o pombo...
+
+--Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.--Percebo... percebo
+perfeitamente...--E foi metter-se no quarto, continuar a
+leitura.--Deixal-as! concluiu evangelico.
+
+Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar á reles
+pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um caixão velho, com
+grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'alli ao fundo da
+varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros, um nojo.
+
+Quando a mostrava á creada, o abbade dizia-lhe sempre:
+
+--A sua vergonha, sr.^a Luiza; a vergonha da sua cara. Como se os
+animaes não fossem tambem creaturas de Deus...
+
+As pombas eram magras e o pombo era esqueletico.
+
+Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a
+alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que ambos
+se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e bem
+tratada, flaccida de pennugens e de carnação consistente, apetitosa, o
+pombo não a largava--genio de libertino em corpo de tisico.
+
+Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se
+queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
+tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do
+rajado, o seu primeiro amor, quem sabe!
+
+E depois, o pombo sujo já não se importava com ella, desprezava-a,
+tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras, dando-lhe maus
+tratos,--á intrusa. Dôr incomparavel!
+
+Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar,
+descançando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando
+sempre, arrastando-se em vôos baixos, sentindo vertigens se subia mais
+alto. Para passar um ribeiro descançou uma hora, e quando cobrou alento
+e começou o vôo, viu-se na agua e estremeceu, molhou ainda as azas, viu
+um corvo na sua propria imagem, um corvo negro que a perseguia
+silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ella tinha
+sido e o que era!...
+
+Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do rajado... Oh! o
+rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a quereria, tinha pomba,
+decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um vôo valente e
+estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.
+
+Fez-se de vôo e partiu.
+
+ * * * * *
+
+A manhã era calma e o céo era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar
+que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva
+tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra cançada e
+adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado
+esplendido--decoração triumphal com que se orna aguardando a visita de
+quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando
+tudo--o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...
+
+N'aquelle repontar da manhã, o alto céo era de uma limpidez crystallina.
+Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcissima paz, e
+pelas ramagens verdejantes a volata suavissima dos ninhos começava, como
+uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras,
+florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa d'alva.
+
+Em manhãs placidas como aquella, quantas vezes a branca não fizera as
+suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do rajado,
+perdendo-se com elle atravez do horizonte áquella hora tranquillo e para
+toda a banda transparente!
+
+Como tudo isto lembrava, agora!
+
+Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam descançado muitas
+vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura ineffavel o amor
+extraordinario que os unia! Em toda a largura não se descobria um só
+campanario ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres,
+contentes, doidos! E ella sempre ufana, acompanhava o macho nos seus
+vôos ainda os mais arrojados, perdia-se com elle para além das serranias
+mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que
+empenharia a vida só para salvar a da amante.
+
+E que bella manhã, aquella! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras
+acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu vôo perpendicular e
+rapido!
+
+Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
+melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
+largura--nem uma aza de pomba palpitava. Ella só, desalentada e cheia de
+maguas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte...
+
+Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as azas
+contra o muro, arremettendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a
+coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos
+companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
+arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo
+muito as azas combinando ataque.
+
+E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a
+passagem.
+
+De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou vôo
+n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a
+desgraçada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue nos bicos e pennas
+voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam com furia. Por
+fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado,
+bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho guttural de
+vida que se esvae lentamente, gradualmente, com dôr. Um estremecimento
+de membros por fim, uma agitação geral repentina, e--morta!
+
+Ares além, os assassinos em bando voavam á busca talvez de um ribeiro
+onde lavassem os bicos ensanguentados...
+
+ * * * * *
+
+E o rajado?--hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e
+vel-o-hão sair da janella das trepadeiras, alegres, felizão, bohemio,
+depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um
+leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ella,
+arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando...
+
+
+
+
+BATALHAS DOMESTICAS
+
+
+
+
+BATALHAS DOMESTICAS[1]
+
+_A Luiz Trigueiros_.
+
+
+Para o meu proposito, é inutil narrar-lhes esse pequenino e perfumado
+idyllio, côr de roza, que foi na vida d'ambos, durante um anno, o seu
+mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim Seabra, maior,
+empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno uma furiosa
+vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda elle era fedelho: e
+passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma doença complicada
+levara-lhe tambem o pae--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas
+leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira,
+nas abas da serra da Estrella.
+
+Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lh'os. E
+quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo
+peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob a umbella branca de
+grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu o padre de que em
+podendo lhe desejava uma palavra.
+
+--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.
+
+Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente,
+junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho,
+entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo
+de lhe murmurar, designando vagamente o filho:
+
+--O pequeno, coitadinho!
+
+De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos,
+veio metter o orphão, como marçano, n'uma loja de ferragens da baixa,
+loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para
+uns saguões de predios contiguos. De marçano subiu com o tempo a
+caixeiro; e como era applicado, humilde, supportando com uma placidez
+resignada de beirão um trabalho por vezes superior ás suas forças, pulou
+um dia para a escrevaninha da casa, no andar de cima, vaga pela sahida
+para a cadeia do outro que commettera umas falcatruas.
+
+--Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera deante dos patrões o
+Joaquim.
+
+E a incisiva phrase que fôra, emquanto remexia a papelada, todo o seu
+commentario ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a
+involuntaria conquista do logar, como revelação, que era, das qualidades
+fundamentaes do seu caracter,--communs, de resto, ao typo beirão,
+profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no fundo generoso e bom.
+
+A vida começou então a ter para elle umas entreabertas mais risonhas,
+livre d'essa prisão estreita da escura loja, onde os seus instinctos
+hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma natureza
+barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos
+repelões de rebelião... Até que um dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo
+á escrevaninha o assaltavam, pensou em ir á terra onde não voltara desde
+pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E n'uma
+introversão de momentos, mirando atravez da janella o claro céo azul,
+alto n'aquella manhã serena de maio, o Seabra teve a remota visão do seu
+passado--das coisas da sua infancia, da sua pobre e humilde aldeia
+encravada n'um declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente
+de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo
+invertido, elle lá via além, muito longe para as suggestões do seu
+desejo, muito afastado para as debeis reminiscencias da sua memoria,
+tudo isso que elle dizia em tres palavras--«a minha terra!»--isto é,
+esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo
+do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja oblonga; a fita
+branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua mãe jaziam; a paizagem
+circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de prata
+serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a
+velha legião amiga das arvores--o zimbro ao alto dos môrros nús; depois,
+descendo, as urzes brancas; os piornos; os bellos carvalhos altivos; e
+já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agricola e horticola o
+verde e tenro parasol das suas soberbas folhas--o castanheiro, emfim.
+
+Atravez da sua vida de balcão, duramente moirejada a mover barras de
+ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com
+intermittencias raras de descanço, algum domingo, pelas hortas dos
+arredores, ou ás vezes n'um bote, pelo Tejo,--a sensação melancolica da
+sua paizagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cerebro, nem tão
+pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infancia, dos seus
+companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, á
+lição a casa do reitor, n'aquelle velho sotão da residencia, com paredes
+denegridas e tecto de madeira com manchas...
+
+E que seria feito d'elles? Talvez que os não conhecesse, que o não
+reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta desconfiança, dava ao
+seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua
+bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto
+subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim, a propor
+aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azues e
+toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso, espontaneamente,
+insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda
+solteira...
+
+...a Emilia!
+
+E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente á historia
+que lhes vou contando, a chronica preliminar d'esse consorcio, direi que
+a velha estola do reitor os uniu emfim uma manhã--manhã de julho, na
+velha e ampla igreja da freguezia, toda banhada de sol, toda rumorejante
+de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva alegre de
+pétalas, a saraivada metalica dos sinos, repicando... Até que passados
+dias, eil-os emfim em Lisboa, installados não sei em que beco da Baixa,
+perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o
+escriptorio.
+
+E aqui rompe a historia; e se é do agrado dos senhores, comecemos.
+
+ * * * * *
+
+Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa,
+toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no
+amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a
+mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por
+outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e
+trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a
+homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas
+naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas
+do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saude,
+explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de vontades que os
+dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro
+avesso nos seus desejos, sem a minima divergencia no seu modo de vêr e
+de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que nas suas
+naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio
+visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer nullo, sem
+consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo periodo passado
+em latitudes differentes:--ella, onde ambos tinham nascido, debaixo do
+mesmo céo, á luz do mesmo sol, á sombra das mesmas arvores; elle,
+sequestrado de tudo isso, mas n'um meio sem côr para elle definida,
+pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se
+conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente
+debaixo do luar melancolico...
+
+Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas
+superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao
+rythmo da mesma canção, essa forte, dulcissima corrente de ternura
+espiritualisada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e
+fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada
+efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia tambem no sangue
+d'ambos--bem como no seio de um diamante as iriações mordentes--as
+rubras, incandescentes faulhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se
+quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo,
+vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas
+classicas, por umas cabecitas loiras de creanças, frescas, ridentes, côr
+de rosa...
+
+D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado idyllio,
+côr de rosa, que fôra na vida de ambos, durante um anno, o seu mais vivo
+encanto...
+
+ * * * * *
+
+Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escriptorio, noite cerrada
+já, quando uma rapariguita que lhes servia de creada havia dois dias,
+vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no accento beirão:
+
+--A minha madrinha está muito mal.
+
+--Muito mal?
+
+--Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê.
+
+Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se á hombreira,
+para não cahir, sentiu passar-lhe pelo cerebro, como um tufão de peste,
+uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um presentimento... E cobrando
+alentos, confuso deante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz
+trémula, no tom de quem procura, compromettido e humilde, esconder um
+pensamento:
+
+--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio
+da Beira.
+
+--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como
+doida...
+
+--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso.
+
+E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do
+andar de baixo,--talvez alguem que o procurasse!--fechou a porta com
+força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto
+impondo silencio, com a mão sobre a bocca arquejante da rapariga.
+
+--Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo--Se te calares hei-de te
+dar dinheiro. Cala-te.
+
+A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um
+novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo o
+predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem
+nas ruas proximas, o Seabra tomou nos braços trémulos a pequena, e foi,
+cauteloso como um bandido, leval-a á cama.
+
+--Ouves, Luiza? Não faças bulha. Dorme.
+
+E fechando-lhe a porta á chave, respirou, hirto no meio do corredor em
+trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio, aquella
+escuridão impenetravel! E elle, como um cataleptico, alli encafuado
+vivo...--triturado pela magua, roido pela dôr, desfeito pela desgraça,
+como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem,
+implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua carne,
+sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas até da sua
+propria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no
+emtanto... morto: vivo para a sensação esphaceladora da sua atroz
+desgraça, do seu cruel, cruciantissimo martyrio; morto, aniquillado,
+desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças...--as suas
+esperanças! revoada alegre de pombas, candidas, serenas, immaculadas,
+que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e
+para sempre...
+
+E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma prostração de louco
+embriagado, dir-se-hia que o cerebro deixara de funccionar n'esse
+infeliz--como relogio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e
+que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava!
+era essa impressão anniquilladora do _Nada_, que o fundia na treva
+circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e
+tanto e tão intimamente, que elle proprio n'ella se sentia diluido, e no
+silencio...
+
+Subito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado alli de
+perto como um reptil, escoado alli de perto, como um verme,
+phosphorejante na treva á semelhança de um demonio, que agitasse um
+_pierrot_ de cascaveis,--uma centelha de vida animou esse corpo
+aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar, como luz de
+lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma de uma
+ideia... E teve então de si proprio a extranha, diabolica visão de um
+esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco immovel
+das orbitas, d'onde dois feixes de luz escorriam--aquelle trapo
+miserando alli cahido, informe, esqualido, repellente, montão de gelo, e
+lagrimas, e trevas...--que era elle tambem!...
+
+Entretanto, e como por força mesmo d'essa allucinação desvairada e
+tragica, o cerebro perdera n'elle a recta, serena faculdade do
+raciocinio, elle continuava absorto, incomprehendido, estupido, deante
+da «sua desgraça»--como deante de um grande mar de negrume, profundo e
+estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céo sem estrellas,
+torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um espectro... E
+assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos irracional,--mudo,
+aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo
+de um poço um bloco inanimado...
+
+ * * * * *
+
+No escuro do seu cubiculo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a
+propria treva soluçasse, esse chorar abafado da creança, espavorida das
+coisas que a cercavam, para ella mysteriosas e funebres. Era como se um
+alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido
+de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um vôo de acaso,
+na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de
+velho muro, abandonado algures...
+
+E porque viera? E para que viera? Não sabia. No emtanto, ao contrario do
+que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada de profunda
+nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, atravez do qual passavam
+os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois
+dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo!
+E não tornara mais a vêr passaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã,
+tocando á missa d'alva, tangendo á tarde a Ave-Marias, o seu querido e
+alegre sino d'aldeia...--além, n'aquella riba suave e pittoresca,
+prateada, beijada do luar áquella hora!... E o fio do seu pensamento,
+que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como pequenino
+arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas,
+torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido n'um
+veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fôra de lagrimas,
+occulto sob a folhagem pallida...
+
+ * * * * *
+
+A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto
+da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez
+dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como
+acontece ás tempestades da natureza, tambem a tempestade d'aquella alma
+de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente,
+gradualmente. Chorou. E como se fôra o véo das lagrimas que lhe não
+deixára vêr até então os pormenores do seu infortunio, d'este
+permittindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se
+fazer com a vasante mais lucido o raciocinio, mais precisa e mais
+esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro, como luz que pouco a
+pouco vae surgindo na lampada de um claustro, allumiando nitidamente,
+sob o docel frio das sombras, as arestas marmoreas de um sepulcro...
+
+Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas
+linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade
+rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde secca de maio. E foram
+então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina,
+por entre as maxillas ferradas, do fundo do peito em ancias. Então foi o
+arrancar convulsivo dos cabellos, ás guinadas, teimosamente, n'um duello
+de loucura com a dôr physica, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a
+beber o proprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes,
+lacerantes como se foram de abutre.
+
+--Ah! raios do céo, e não morro!
+
+E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao chão, como
+beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe então
+o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrivel de que se
+divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a
+conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e
+todo elle se sentia gelado até ao mais intimo da sua alma, suppondo-se
+na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando adherente ás costas,
+como um ferrete ou como um caustico o olhar de «toda a gente»... E com
+as unhas ferradas na testa, escondia da propria treva, com as mãos
+ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.
+
+--Diabos do inferno! levae-me!
+
+A este novo grito, porém, subito se recolheu n'um grande pavor
+religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce,
+harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um
+casal... E teve a doce visão de um arco-iris, bonançoso e rutilante,
+repontando luminoso no borel asperrimo da sua alma, onde uma clareira se
+abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas tranquillas,
+que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba alvinitente, que
+transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:
+
+--Deus!
+
+E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um
+como enlevo de visão, um ruflar de azas de pombas... á hora d'alva...
+sobre os campos... n'uma clara manhã de maio, perfumada...
+
+E como se mão invisivel o erguesse, de vagar, serenamente, enxugando-lhe
+da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta alli pela sua
+alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contiguo, onde
+sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi
+submissamente, como um cão duramente batido que volta aos affagos do
+dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos, pallidos,
+desbotados, ao claro luar vindo do céo, o triste uniu os seus labios
+frementes,--...n'um beijo suavissimo de perdão. Ao mesmo tempo que ella,
+n'um delirio, repetia a phrase cruel:
+
+--Mais vinho!
+
+
+
+
+NOTAS:
+
+[1] Sendo necessario completar o numero preestabelecido de paginas de
+cada volume d'esta _Collecção_, numero além do qual se não póde ir e
+aquem do qual se não deve ficar,--o editor pediu e obteve do auctor, em
+vez de novo conto, um excerpto do seu livro em preparação, livro
+provisoriamente baptisado com o titulo de _Batalhas domesticas_. O
+excerpto póde dizer-se que constitue só por si, como os leitores verão,
+um trabalho litterario, independente e uno, o que de certo modo lhe dá
+logar n'esta collecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além
+disso, a transição do espirito do auctor para uma nova phase, litteraria
+e artistica.
+
+N. do E.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+Idyllio rustico
+
+Sultão
+
+Ultima dadiva
+
+Preludios de festa
+
+Typos da terra
+
+V[ae] Victoribus
+
+Maricas
+
+Para a escola
+
+Tragedia rustica
+
+Abyssus abyssum
+
+Mãe
+
+Arrulhos
+
+Batalhas domesticas
+
+
+
+
+OS MEUS AMORES E A CRITICA
+
+
+Da Revista Illustrada (extracto da chronica):--«..._Os meus amores_, de
+Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições
+agradabilissimas ao paladar d'ambos os sexos, e com delicadas
+circumstancias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das
+preoccupações litterarias mais evidentes d'este escriptor primoroso é
+fazer jus á amisade das leitoras, e como dispõe de pericia no ferir de
+certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento,
+consegue-o.--_Alfredo Mesquita_.
+
+
+Jornal da Noite:--«Trindade Coelho--Este illustre escriptor, nosso
+talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo
+livro de contos _Os meus amores_.
+
+De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das
+lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distinctamente,
+e impõe-se á admiração dos que apreciam os talentos brilhantes
+privilegiados.
+
+Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e
+encantadora são dignos do maior apreço, pela elegancia da fórma,
+burilada a primor n'um estylo finissimo e scintillante, despertam os
+mais francos, sinceros e enthusiasticos encomios dos que os lêem.
+
+Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello
+caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos
+serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distincto collega.»
+
+
+Diario Popular:--«_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de
+graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo, que
+acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho.
+
+O escriptor, como verdadeiro artista que é, localisa todas as suas
+attenções, de ha muito, no trabalho de apprehender com fidelidade o
+viver campezino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi
+berço. Por isso o seu fabrico litterario se aprimora de dia para dia
+n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito: _Os meus
+amores_ o attestam, quando postos em parallelo com os primeiros contos
+publicados avulso.
+
+Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e
+consegue photographar com particular exactidão. Em vez dos descriptivos,
+quasi despresados, são trechos successivos de conversas d'uma
+encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de todas as
+suas producções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho
+pessoal da sua obra, que proporciona agradaveis e confortaveis momentos
+de leitura.»
+
+Diario Illustrado:--«Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um
+admiravel soneto de Luiz Osorio, que depômos nas mãos da leitora, como o
+perfumado ramo de cravos valencianos, a flôr actual das suas
+predilecções femininas: (_segue o soneto incial_.)
+
+E pelo braço do poeta da _Alma lyrica_ subimos ao doce convivio
+espiritual da alma de Trindade Coelho.
+
+O conto _Mãe_, uma rica joia engastada n'este livro, brilhando ahi por
+todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte
+de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para
+aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante
+estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e
+melodico, o diploma do seu notavel talento.
+
+É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade
+espontanea que estes contos nos captivam.
+
+O auctor diz-nos, sem preoccupações de escola e sem pretenções a abrir
+caminho pela deslocação do vocabulo ou pela selva escura do escandalo, o
+que viu, analysou, observou e sentiu.
+
+As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam
+suavemente, tocadas a espaços de uma inegualavel melancolia
+contemplativa que lhes duplica o encanto.
+
+Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade
+Coelho revela o superior poder evocativo da visão intima, que o
+singularisa.
+
+A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle,
+como para todos os artistas de raça, attitudes, expressões, côres e
+sons, que o auctor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora
+eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento, que só nos
+transmitte a simples leitura dos poetas.
+
+Ha rapidos traços de analyse emotiva ou de commoção reflexa que valem
+poemas.
+
+E não serão o _Idylio rustico_, a _Mãe_ e outros contos, soberbamente
+delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?
+
+Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo
+seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o
+seu primeiro triumpho.--_Gabriel Claudio_.»
+
+
+Jornal do Porto:--«_Os meus amores_.--A collecção Antonio Maria Pereira
+augmentou se d'um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e
+está escripto pelo nosso illustre collega e litterato distincto o sr.
+Trindade Coelhho.
+
+D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve
+achar grande acceitação no nosso publico, escreveremos em breve as
+palavras apreciadoras que elle merece.»
+
+
+Correio Elvense_:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
+escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a
+que deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
+Antonio Maria Pereira.
+
+Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
+capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
+em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
+tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
+estylista.
+
+Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor
+que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus
+triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons
+e sinceros amigos.
+
+N'um dos proximos numeros falaremos da impressão colhida em _Os meus
+amores_, agradecendo desde já as expressões affectuosissimas que
+acompanham a dedicatoria do livro, que o seu auctor nos offertou.»
+
+
+Correio do Norte:--«_Os meus amores_.--Contos e balladas.--Trindade
+Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escriptor, acaba de publicar um
+livro de contos com o titulo acima indicado. É esta uma bella novidade
+para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de ha muito soube
+conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello talento e
+poderosas qualidades de escriptor.
+
+Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do
+novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle.
+
+Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu
+offerecimento.»
+
+
+O Globo:--«_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de
+Antonio Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome
+de Trindade Coelho.
+
+Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser por certo
+trabalho de grande valor artistico, como invenção e como execução,
+porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra litteraria má. A
+sua educação litteraria está feita, e os seus numerosos trabalhos tão
+apreciados, tão portuguezmente escriptos, tão sentidos e tão espontaneos
+revelam qualidades de escriptor de raça. Elle tanto póde ser um
+jornalista eminente como é um contista original.
+
+_Os meus amores_ é uma collecção de contos e balladas. Conhecemos alguns
+capitulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para
+não errar na apreciação. Vamos lel-o com a convicção de que teremos de
+saborear um d'esses raros mimos litterarios que só os privilegiados de
+talento sabem offerecer aos seus leitores.»
+
+
+Diario de Noticias:--«_Os meus amores_.--_Contos e
+balladas_.--Anunciámos, em tempo, o proximo apparecimento d'este
+trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do _Portugal_, o
+sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collecção, já tão valiosa, das
+edições do sr. Antonio Maria Pereira.
+
+O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que
+desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do
+seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores.
+
+Com uma observação escrupulosa, e um pittoresco estylo, d'uma pujança e
+d'uma riqueza não vulgares, sem attentados contra o bom gosto, nem
+rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade Coelho são, a
+todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que ha-de entrar, sem
+hesitações, na acceitação do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a
+attestar, n'uma formosa prova, a riqueza de um espirito, superiormente
+educado, ductil e promptamente malleavel.
+
+Porque esses contos são a obra de um genuino artista, cuja _maneira_,
+simultaneamente facil e apuradissima, revelando a espontaneidade de uma
+fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma
+delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de
+seiva.
+
+Não póde entrar nos curtos limites de uma simples noticia, a mais
+desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na proprio nome do seu
+auctor, o melhor e o mais seguro titulo de recommendação para obter do
+publico a consagração de um largo e legitimo successo.
+
+Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz
+Osorio--preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle
+rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias litterarias.»
+
+
+A Actualidade:--«_Os meus amores_.--Este nome é o de um novo livro da
+collecção Antonio Maria Pereira. Pelo titulo presume-se um volume de
+versos; mas não é, o que não quer dizer que n'elle se não surprehenda
+legitima poesia. Trata-se de contos e balladas, originaes do sr.
+Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escriptores.
+
+Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso
+contista:
+
+Estylo correcto, elegante, vivo; descripções ricas de observação e
+attrahentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da fórma; despidos de
+grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita
+naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre
+tudo, pela propriedade.
+
+Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do sr. Trindade Coelho,
+deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as
+narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idylio rustico_,
+que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se
+encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notavel poder
+de observação e que deixam o espirito suavemente impressionado. Leiam, e
+verão que não exageramos na opinião que ahi deixamos rapidamente
+exposta.
+
+Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.»
+
+
+Correio da Manhã:--«Registar o apparecimento de um livro bom, linguagem
+elevada e singella, desartificioso e artistico, repositorio vasto de
+observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é
+sempre agradavel á chronica, n'este tempo sobretudo de litteratura
+gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica.
+
+_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos offerecer sr. Trindade
+Coelho é um livro d'esses. Collecção primorosa de contos e balladas, em
+que no mais despretencioso dos estylos nos conta recordações e idylios e
+nos mostra uma galeria rica de typos e de figuras cuidadosamente
+observados e primorosamente expostos.
+
+O ultimo conto _Para a escola_, que d'essa bella collecção acabamos de
+ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assimelha se
+notavelmente á maneira de Gustavo Droz.
+
+Não é o logar nem a accasião de fazermos a critica do livro e a
+apreciação d'este novo, d'este debutante, que ao primeiro assalto parece
+estar já senhor da batalha.
+
+É por isso que sinceramente o felicitamos.»
+
+
+Vanguarda:--«_Os meus amores_.--O nosso collega, o sr. Trindade Coelho,
+que quasi só conheciamos pelos seus libellos accusatorios, acaba de nos
+enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a feição carregada e
+sombria do agente do ministerio publico desapparece por completo, para
+nos deixar apreciar só o espirito finalmente delicado do homem de
+lettras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente
+sabedor do seu officio.
+
+Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o
+outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do
+ministerio publico, que parece lhe oblitera ás vezes as suas excellentes
+faculdades.»
+
+
+Primeiro de Janeiro:--«_Os meus amores_.--Acabamos de receber o
+formosissimo livro de contos «_Os meus amores_», de Trindade Coelho.
+
+Não é ainda a occasião de pôrmos em relevo todas as qualidades
+litterarias, complexas e brilhantissimas, que se evidenciam n'este
+livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assignalaveis entre os
+mais illustres cultores da prosa portugueza.
+
+Os contos por onde «_Os meus amores_» se repartem não são apenas
+maravilhas de linguagem, onde tão sómente se destaquem dextrezas e
+fulgurações do estylo: a acção que os anima constitue uma deliciosa
+galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em
+flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de observação e
+trasladados a uma fórma superiormente artistica, onde ha firmemente
+accentuados todos os caracteres de uma esplendida organisação
+litteraria.
+
+É um livro vibrante e magnifico--adoraveis paginas intensamente ou
+delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas, cuja leitura é um
+verdadeiro encanto.
+
+As nossas cordeaes felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a
+gentilissima offerta do seu livro.»
+
+
+Folha do Povo:--«_Os meus amores_.--Esta publicada em volume uma série
+de _contos e balladas_ com que o sr. Trindade Coelho, o brilhante
+collaborador do _Portugal_, vem enriquecer a litteratura _contista_
+entre nós, hoje tão querida do publico, depois que os trabalhos de
+Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um valor até então
+mesquinho.
+
+A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e balladas_ do sr.
+Trindade Coelho é um estylo muito seu, cheio de uma crystallina
+naturalidade, _affastando-se completamente d'essas excrescencias de mau
+gosto_, que ultimamente têm abastardado a lingua portugueza,--prova da
+superioridade intellectual do escriptor de que nos occupamos--, visto
+que não mira a uma falsa gloria, conquistada facilmenle pelas
+excentricidades de estylo, que são hoje uma verdadeira mania entre
+alguns escriptores da chamada geração moderna.
+
+O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo á espontaneidade
+das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista,
+porque nunca a phrase lhe sae banal, nem tão pouco envolvida em ouropeis
+de mau gosto litterario.
+
+E no entanto encanta-nos,--prova de que está alli um primoroso
+escriptor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da
+natureza por uma fórma de observação, que não é d'esta nem d'aquella
+escola. É simplesmeate sua, individual.
+
+Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque as
+suas primeiras producções litterarias ressentiam-se de uma tal ou qual
+preoccupação de _effeito_ no modo de construir a phrase. Hoje, o
+escriptor adquire a independencia da sua maneira, do seu processo, e
+feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia, visto que os seus
+quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reproducção do que o
+artista observa em volta de si.
+
+Certamente que o publico lerá com encanto o novo livro do sr. Trindade
+Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e--podemos mesmo dizer--a
+litteratura portugueza.--_Silva Lisboa_.»
+
+Diario Illustrado:--«De tempos a tempos chegava-nos do Atemtejo um
+periodico que não deixavamos nunca de lêr pelo fino gosto litterario,
+pittoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos,
+incluindo os politicos. Esse periodico era redigido por Tindade Coelho,
+cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade
+litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade
+verdadeiramente notavel.
+
+De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o
+_Diario Illustrado_ e, vindo establecer residencia em Lisboa, algumas
+vezes tivemos a honra de receber n'esta redacção a sua visita, sempre
+agradabillíssima para nós, porque a sua conversação scintillante
+aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho.
+
+Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume--que faz parte da
+collecção _Antonio Maria Pereira_--os seus deliciosos contos, cheios de
+observação, de verdade, de simplicidade artistisca, que é, a nosso vêr,
+suprema expressão de belleza n'este genero de composições litterarias.
+
+_Os meus amores_ são um bello livro, em que o estylo se não contorce
+atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da
+forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade. Tudo
+alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres e dos
+episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos períodos.
+
+N'uma palavra, _Os meus amores_ são a obra de um artista, de um homem
+que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem definida por
+traços profundos de verdadeira originalidade.»
+
+
+Voz Publica:--«_Os meus amores_.--Trindade Coelho, innegavelmente um
+talento de primeira agua, acaba de brindar a litteratura portugueza com
+um excellente livro de contos subordinado áquelle titulo e que constitue
+o duodecimo volume da elegantissima _Collecção Antonio Maria Pereira_.
+
+_Contos e balladas_ é o sub-titulo do livro, e muitos ao lêrem-n'o
+julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa
+vernacula, correcta e vibrante que estão escriptos os bellos contos de
+que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido.
+
+São todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e
+verdade dos seus typos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os
+formosos typos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo mallogrado
+auctor da _Morgadinha dos Canaviaes_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_.
+
+Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a lêr
+deixará de o fazer como nós; tão attrahente é a fórma por que Trindade
+Coelho conduz todos os ligeiros contos de que elle se compõe, que sem
+querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste
+d'elle ter acabado.
+
+Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem,
+foram os que se intitulam _Typos da terra_ uma galeria curiosa de typos,
+e _A mãe_, um conto de natureza, simples e commovente na sua
+simplicidade, e notavel pela sua originalidade.
+
+Recommendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos
+leitores.»
+
+
+Ordem do Dia:--«_Os meus amores_.--Este é o titulo do 12.^o volume da
+collecção Antonio Maria Pereira, innegavelmente a publicação mais
+elegante, mais barata e mais interessante do paiz.
+
+_Os meus amores_ são uma serie de contos e balladas, em prosa, devidos á
+penna d'um moço talentosissímo, de ha muito conhecido nas lides do
+jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançára ao mercado um
+livro; com este debuta o auctor, e é uma estreia auspiciosissima a sua.
+
+A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle é
+cultivado um genero--o de contos, alguns á maneira de Gustave Droz, que
+prendem e interessam o leitor em todo o sentido.
+
+Foi gratissima a impressão que elle nos deixou no espirito e esperamos
+que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas bellas
+producções, porque estamos certos de que quem lêr _Os meus amores_ será
+com sofreguidão que esperará novo volume do distincto escriptor, tal é o
+encanto da sua escriptura».
+
+
+O Sorvete, (com o retrato do auctor):--«Dr. Trindade Coelho.--Mais uma
+prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez justificada a alta
+competencia e finissimo espirito de escriptor disctinctissimo!
+
+O novo livro de Trindade Coelho,--_Os meus amores_--contos e
+balladas--editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, é, no
+dizer dos entendidos em litteratura,--uma verdadeira joia.»
+
+
+O Espozendense:--«_Os meus amores_ (contos e balladas) por Trindade
+Coelho.--Faz parte este volume da interessantissima collecção Antonio
+Maria Pereira, tão bem acceite do publico, pela superior escolha das
+obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus preços.
+
+_Os meus amores_ é um precioso agrupamento de contos, alguns ineditos,
+outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com applauso por
+differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em plena aldeia
+trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra, pois é natural de
+Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos, delegado do procurador regio
+n'uma cidade de provincia--os contos d'esta collecção tornam-se
+sobretudo notaveis pela propriedade e pela fidelidade da acção,
+verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da côr propria da paizagem,
+vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens e das
+cousas.
+
+Entre as nossas obras litterarias originaes, _Os meus amores_ merecem,
+pois, um logar á parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de
+Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam
+pela litteratura nacional, mas como a poderosa affirmação de um prosador
+elegante e de um contista distincto, no meio da grande maioria da chata
+vulgaridade indigena.
+
+_Os meus amores_ é, em summa, um livro de valor, bem cabido nas mais
+escolhidas bibliothecas.»
+
+
+O Portuguez:--«_Os meus amores_.--Delicioso titulo de um livro
+delicioso.
+
+O livro é uma collecção de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio
+Maria Pereira; e o auctor é o nosso collega do _Portugal_, sr. Trindade
+Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que é digno representante,
+cultiva as lettras com desvelado amor.
+
+Em Coimbra, estudante ainda, era já litterato apreciado, collaborando,
+com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que ha mais de dez
+annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu título
+de jornalista a invejavel nomeada de contista esmerado, e brinda as
+lettras portuguezas com um volume, que está tendo a mais justa e
+lisonjeira acolhida.
+
+O primeiro conto do livro, _Idylio rustico_, não obstante ser agora
+publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque
+appareceu manuscripto n'um concurso litterario da extinta _Associação
+dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagração de um jury, terá
+agora a consagração do publico.
+
+Depois do _Idylio rustico_, vem o _Sultão_, um quadro magnifico da vida
+campesina, notavel de simplicidade e graça; e a _Ultima dadiva_; e os
+_Preludios de festa_; e os _Typos da terra_; e as _Balladas_; e a
+_Tragedia rustica_; e a _Mãe_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas
+domesticas_: outros tantos primores, que ás vezes nos fazem lembrar as
+deleitosas e serenas paizagens de Daudet.
+
+Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por
+não haver ainda expirado entre nós a litteratura san, que, ou nos
+desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas, não nos deixa no espirito
+a impressão doentia das nevroses litterarias...»
+
+
+Jornal da Manhã, Porto:--«_Os meus amores_.--Mais um volume acaba de ser
+publicado da collecção Antonio Maria Pereira, por sem duvida a mais
+elegante, a mais escolhida e a mais economica bibliotheca que se publica
+em Portugal.
+
+É o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e
+balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir todos os
+seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos.
+
+Do primeiro ao ultimo, os contos que compõem _Os meus amores_ são
+specimens no genero, porque, além de constituirem uma esplendida galeria
+de quadros intimos, de retratos, de typos, são a confirmação d'uma
+verdade já por nós ha muito acceite: que o seu auctor tem todos os
+requisitos d'um escriptor de primeira ordem; estylista vibrante,
+correcto e sempre elegante.
+
+E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em serios
+embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua
+leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que mostrar
+predilecções por algum d'elles parece-nos que os melhores serão _A Mãe_
+e _Para a escola_, aquelle uma delicada e emocionante historia arrancada
+flagrantemente á natureza, e este saudosas recordações d'um passado que
+não volta.
+
+A edição, escusado é dizel-o, é nitidissima.»
+
+
+O Tempo:--«_Os meus amores_.--Este livro teria vindo melhor nas noites
+invernosas para serões ás lareiras crepítantes:--as faíscas d'ouro
+subindo no tecto, o vento zenindo fóra açoitando a chuva, e dentro, no
+conforto recolhido, gosar-se o contraste das paizagens alegrdas pelo
+sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios e trinados d'aves,
+paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delicia suave e
+subtil d'illudidor ameno. Mas não se póde aconselhar o leitor a que se
+prive de saboreal-o desde já, tanto mais que os tempos vão agoureiros
+para a arte de manancial, e os que a cultívam teem de separar-se dos
+estragadores d'Ella e das cabeças quasi vasias que expremem e segregam o
+pus nauseabundo do sadismo mediocre.
+
+Estes estão agora entretendo o publico arrebanhado para saborear com
+prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala--o vingador--ao
+imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos auctores das _Pimentinhas_
+e _Berbigões Ardentes_.
+
+Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o
+perfumador dos excrementicios e appareça em plena luz nas mesas e nas
+familias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador
+d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda á attenção um
+artista recolhido que sabe ter força nos traços tenues e meias tintas
+dos seus quadros, que capricha em suavisar idylicamente as dôres
+vulgares da vida acceite, da materialidade animal, dourando-as com
+recantos de natureza chilreante. Que me perdõem insistir na
+impertínencia: mas, o que no livro mais particularisa o talento de quem
+o assigna é a comprehensão das paizagens, o sabel-as colorir, animar,
+pôl-as ante os olhos que lêem.
+
+As grandes dôres obscuras e sinceras, as brandas affeições, amisades
+arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples
+sustentados por ingenuas crenças s suavisada fé, tudo o que a aldeia tem
+de ameno, d'attraente, de pittoresco, de consolador, os seus ridiculos
+mesmo, vestindo atitudes de parodia em theatrinho de curiosos, tudo
+reveste bem o sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom
+humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reaes, bem apanhadas, como se
+diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de ventaróla. O livro
+encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o auctor encerrou por
+annos a sua nostalgia--a peior de todas: nostalgia de
+delegado!--apertando os vôos do seu espírito d'artista que ama pairar
+com a fantasia para o longiquo, para o que se Imagina, para o Distante,
+o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se
+dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas
+noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de
+recordação e de saudade d'onde brotou o livro, escripto decerto nas
+horas feriadas do trabalho arido, com a documentação da natureza que
+vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se
+compraz na arte libertadora.
+
+Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar
+preferencia pessoal--e talvez peccadora--ao _Idylio rustico_, á _Ultima
+dadiva_, á _Mãe_, ás _Batalhas domesticas_, que fecham o livro e deixam
+entrever no auctor um desejo de animar os personagens tanto como anima a
+natureza onde elles sentiram. Ha contos nos _Meus amores_ que fazem
+lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da
+patada epica do que fez _Créte-Rouge_ e _Ompdrailles_.
+
+O sr. Trindade Coelho é um escriptor tão distincto quanto aclarado pelo
+jorro d'arte que vem de ha muito confundindo os convulsionarios do
+talento; os serenos no desdem; os enthusiastas; o que, despindo o
+metaphorico, quer significar que elle está em posição artistica onde
+decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar attenção e
+respeito.--_M. Caldas Cordeiro_.»
+
+
+Antonio Maria, (com o retrato do auctor, desenho de Raphael
+Bordallo):--«_Os meus amores_ por Trindade Coelho.--A livraria
+portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede, na ultima
+quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de
+memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho,
+com a amavel denominação de _Os meus amores_.
+
+Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... É originalissimo,
+agradabilissimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar,
+que usa o auctor d'este bello livro,--agradabilissimo contista,
+escriptor originalissimo, cujo nome a bibliographia regista hoje, tão
+notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara.
+
+A quem o lêr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas
+horas muito bem passadas, passeadas por aquellas paizagens e recantos
+provincianos que elle pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se
+estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão
+photographicos, tão nitidos, que é estar a gente a vêl-os, a ouvil-os, a
+falar-lhes...
+
+--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!»
+
+
+O Tempo:--«_Os meus amores_.--É como Trindade Coelho intitula a
+collecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela
+livraria do sr. Antonio Maria Pereira.
+
+Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de
+Trindade Coelho, desde quando lhe lêmos as suas producções litterarias
+n'um jornal de Coimbra, e que eram as primicias de trabalhos mais
+primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo.
+
+O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira á ultima
+pagina sem um momento de cansaço ou de fastio. O espirito do leitor
+delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma singeleza
+tão commovente, e que nos _Meus amores_ são descriptas n'uma forma em
+que se revelam todas as qualidades d'um distincto e notavel escriptor.
+Só póde apreciar bem o merito d'aquelles contos quem souber quanto
+cuidado ha no labôr paciente do artista para conseguir dar ao estylo o
+tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este genero de
+pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos.
+
+Não nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contém preciosas
+joias litterarias, e ao qual está, sem duvida, destinado um honroso
+logar na nossa litteratura contemporanea.»
+
+
+Correio Elvense:--«Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
+escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas que
+deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
+Antonio Maria Pereira.
+
+Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
+capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
+de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
+tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
+estylista.
+
+Não só nos seus escriptos passados, mas então, conhecemos o grande valor
+que indiscutivelmente possue. Não nos surprehendem pois os seus
+triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons
+e sinceros amigos.
+
+N'um dos proximos numeros fallaremos da impressão colhida em _Os meus
+amores_.»
+
+
+O Dia:--«_Os meus amores_.--Se fosse no seculo passado, os fazedores de
+proemios, prologos e conversações preambulares com os pios leitores, á
+falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo
+aproveitariam a occasião para sobre o nome do auctor glozarem varios
+elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e é ao mesmo tempo
+um poeta sincero, um escriptor de raça, e um observador attento,
+qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto nasceu uma
+obra formosissima, animada de verdadeira commoção, sentida nas suas mais
+pequenas minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.
+
+A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta reunião
+de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso,
+copiando do natural, e em que os personagens foram surprehendidos nos
+seus labores de cada dia ou nas suas intimas cogitações.
+
+Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na noticia d'este livro,
+e por isso nos limitamos a recommendal-o como leitura attrahente, como
+obra d'arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma egualdade
+nem com o mesmo folego, como uma grande licção litteraria aos fazedores
+de naturalismo brutal.
+
+Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para
+que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo meio o
+magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos provar
+que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não
+prejudica a indole do escripior.»
+
+
+Novidades,(entrevista com João de Deus ácerca dos
+_novos_):--«_Litteratura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos,
+porque não leio jornaes, e não os leio porque os litterarios occupam-se
+na propaganda da immoralidade, e os politicos na propaganda do suicidio,
+e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os engeitados da
+fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte, as agruras da
+sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre joga os trinta
+réis de tres quartos d'um pão.
+
+Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira
+alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que elle dispa a toga,
+que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha
+muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem
+lh'o ler.
+
+--Li já todo o livro.
+
+--E depois, meu amigo, nós andavamos precisados d'uma coisa casta, onde
+fossemos purificar o espirito d'essas taes observações physiologicas, e
+não sei que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O livro do
+Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem
+definir-lhe. Olhe: alli está aquelle quadro, em que os traços são
+correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma
+bella cabeça de rapariga, a physionomia dôce, o olhar abstracto: este
+tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus
+por ter graça. A graça na litteratura é tudo, mas é muito rara.»
+
+
+Novidades:--«_Novellas rusticas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_
+(contos e balladas.)--Lisboa, livraria de Antonio Maria Pereira--1891.
+
+No seu penultimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse
+sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas
+as doutrinas axiomaticas da critica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs
+pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que
+seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les
+gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou
+mauvais.»
+
+O conto moderno é como o romance, essencialmente analytico e
+psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a
+apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
+humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi
+invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixões e todas as
+energias depravadas do coração. A arte do sr. Trindade Coelho é muito
+differente d'isso, porém. O seu idylico livro de contos e balladas,
+aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da
+paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples, colhidos com
+intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem,
+decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta
+actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros
+dos escriptores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao
+emprehender a leitura dos _Meus amores_, duzentas paginas suaves e
+simples, sem pedantescas pretenções a passarem como tratado didactico de
+psychologia.
+
+Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e que
+as suas figuras só serviam para dar expressão e vida á paizagem.
+
+O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a sensação visual
+particularmente desenvolvida, e as suas descripções são tambem, como as
+do auctor das _Pupillas do sr. Reitor_, magicamente poetisadas, como que
+apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade.
+Chega-se ás vezes a ter a illusão de que o artista está alli, paginas a
+dentro do seu livro, fazendo reviver no pensamento a alacre impressão
+das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal,
+cuja lembrança, elle conserva sempre viva, como nos versos de Salvador
+Rueda:
+
+Por donde voy me sigue como memoria tierna
+tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;
+¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna
+el coro que tus árboles entonan á la mar!
+
+Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manhã aldeã,
+quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horisonte:
+
+A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim,
+e o horisonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o ceu em
+cupula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
+despertar tudo, a côr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de
+perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de verão, serena,
+tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de
+azas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
+á borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
+reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convísinhos onde a vegetação
+era mais rica de seivas e mais facil a presa dos insectos, perdizes
+gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
+vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
+de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos, viam-se
+os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e
+berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas
+povoações proximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
+Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os tectos, dizendo horas de
+almoço. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no ceu
+immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza accordada
+para a labuta interminavel do dia.»
+
+
+«No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr. Paulhan sobre a
+descripção pittoresca, então habilmente apreciados os elementos
+constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na
+qualidade e na intensidade.
+
+«Chama-se imaginação sensivel», diz o distincto observador, «o acto pelo
+qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação,
+como tem sido ha bastante tempo notada, não é,--principalmente se
+considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma copia
+enfraquecida d'uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar
+um momento, um quadro, uma estatua, qualquer coisa que imagino, se as
+minhas recordações são bastante nitidas, é uma especie de copia
+enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o
+quadro ou a estatua. A imaginação, tomada até no sentido restricto que
+lhe damos aqui, varia muito d'uma pessoa para outra, quer em
+intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas teem as
+imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais
+concretas; em uma palavra, as suas imagens approximam-se muito da
+sensação; outras, pelo contrario, são inclinadas para as idéas
+abstractas e teem necessidade d'um esforço para se representarem as
+sensações d'uma maneira um pouco nitidas. Tem-se reparado que a visão
+mental, nitidissima em geral nas creanças e nas mulheres, torna-se muito
+fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas sobretudo de
+ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual.
+Eis uma pequena experiencia indicada por Wundt, que, mostrando as
+analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo tambem as
+differenças individuaes com relação á intensidade com que a imagem
+concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo
+n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma superficie parda,
+vemos uma mancha corada da côr complementar da primeira. Se o objecto
+era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul
+indigo, a mancha será amarella, etc. Ora é possivel, mas isto não
+succede a toda a gente, perceber esta côr complementar não só depois de
+ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter
+imaginado. Póde-se, por exemplo, pensar n'uma cruz vermelha: lançando em
+seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se ha
+uma boa imaginação visual.»
+
+«Essa imaginação parece tel-a o sr. Trindade Coelho. A vivacidade,
+tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descriptivo,
+que nos dá conjunctamente a impressão da forma, da côr, do som, e até ás
+vezes do aroma, representa um phenomeno especial de evocação
+sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois d'esse, a
+intima satisfação que faz aflorar, aos labios do leitor inteligente, um
+sorriso de doce commoção, a cada singelo episodio das suas narrativas,
+todas frescas e sadias, e cujo menor merito não é, decerto, o de serem
+escriptas n'uma linguagem airosa e despreoccupada, mas tersa e
+legitimamente portugueza.
+
+O livro do sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas analyses
+introspectivas, o papel da critica perante _Os meus amores_ é bem facil,
+porque ella deve quasi cingir-se á affirmação do seu applauso
+incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escriptor, o que
+póde muito bem representar uma livre depravação de gosto.
+
+Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel
+recordação, para a oxygenada, a leitura d'essas bellas novellas
+rusticas, todas impregnadas d'uma ideal graça campesina, tilintando d'um
+ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre
+margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha
+sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o livro e o
+caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.»
+
+
+Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder d'observação e uma enorme justeza
+d'expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes qualidades
+litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de
+verdadeiro artista, aberta á comprehensão ampla da natureza, e fundindo
+os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um conjuncto nitido que se
+desata em descripções opulentas de vida e de calor, fulgurantes
+d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o melhor crystal de
+Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias
+possantes que prendem o espirito mais inculto e o obrigam, alli, a fixar
+e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar.
+
+E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que
+compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o
+delicado sentir do auctor transmittiu a cada scena onde o coração tem
+parte, ou seja o coração de qualquer d'aquelles dois pequenos do _Idylio
+rustico_, ou o da _Russa_, a bella cabra que no meio de mil angustias de
+mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a elle proprio,
+a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida,
+vejam o affecto que irradia d'aquelle _Para a escola_, quando falla da
+velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras.
+
+Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das descripções
+naturaes, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um
+pedaço caricaturando uns typos com tanta sobriedade de _charge_ que mais
+nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da
+villoria da _Comedia na provincia_, que entreteem a tarde na praça a
+dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos habitos.
+E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes, aquella _Vespera
+da festa_ exemplifica vantajosamente o que elle sabe fazer.
+
+No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das _Batalhas
+domesticas_, onde me pareceu descobrir uma novissima orientação do
+auctor, inspirada porventura n'uma atmosphera densa d'innovações que vae
+por ahi. Claro que o seu talento adapta-se mais essa fórma com a
+malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
+caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
+escriptos, não a sacrificaria a coisa alguma.
+
+O que o livro é, em summa, é um conjuncto de bellezas que tem sido
+largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e oxalá seja apenas a
+promessa de muitos outros, que pennas como aquella não devem
+calotear-nos na contribuição que nos devem.
+
+--Mas,--perguntou-me um dia d'estes alguem--porque _Os meus amores_, e
+não qualquer outro titulo?
+
+Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao
+livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que
+lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de rapaz que nenhuma
+lama d'este mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.»
+
+
+Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e balladas por
+Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca
+mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns
+contos singelos, attrahentes, delicadissimos, admiraveis de observação e
+de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admiravel simplicidade de
+colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade!
+
+Uma bella obra d'arte e uma altiva lição.
+
+Alli está como se póde chegar ao naturalismo na litteratura, sem
+estropear a lingua e sem chegar ás torpezas da pornographia. Para
+attrahir, para ser original, para impôr a supremacia do seu talento,
+para conquistar o applauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não
+precisou de escrever extravagancias, nem de escalavrar pustulas, nem de
+escancarar bordeis.
+
+Ahí fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar d'elle, se o
+tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu auctor.»
+
+
+Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias d'intervallo as
+lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de livraria.
+
+Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de analyse, de profunda
+observação, resentida do exaggero do naturalismo e do caracter quasi
+scientifico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem
+ser exclusivamente litterarios, mas que, não obstante este pequeno
+senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel
+Botelho creára com os seus livros anteriores, a critica tem de render
+respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo como aquelle
+e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu espirito,
+pela sua notavel orientação litteraria e pelo esplendor de fórma que
+caracteriza todos os seus escriptos, mesmo os mais despreoccupadamente
+feitos.
+
+Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traçar estas linhas.
+Momentos como este são mesmo os unicos oasis em que se reconfortam os
+que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina
+improductiva e ingloria do jornal.
+
+Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem
+intimas relações de confraternidade e sympathia e ao ter de formular o
+meu juizo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e
+applauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo d'um
+sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira d'uma
+admiração justamente sentida, solidamente baseada.
+
+O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo
+corresponde ao encanto d'este titulo.
+
+Com que saudade li as ultimas paginas!
+
+Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer
+que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar a naturalidade
+das descripções, a limpidez e o crystallino do estylo emocionante e
+simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais
+diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio,
+até á recordação saudosa e terna que o auctor sente do primeiro dia em
+que entrou na aula d'instrução primaria da sua modesta aldeia.
+
+Dando a impressão singela e despretenciosa que me cansaram _Os meus
+amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos
+pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na
+epoca actual quando os vicios da sociedade e a decadencia dos nossos
+dias nos gravam no espirito, a cada hora, um carimbo de desanimo e
+descrença, quando a litteratura, obedecendo á vertigem mais do que
+nervosa, allucinada, que caracterisa o _fin de siècle_, cria as escolas
+mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em
+apedrejar as normas mais impeccaveis e até agora consagradas da arte, e
+em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras
+e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo,
+desannuvia-se o espirito ao vêr que ainda ha alguem, a quem sobeja
+talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa sã, eminentemente
+sentida, deliciando-se na descripção das scenas mais simples e tocantes,
+na apotheose da natureza em toda a sua magnificencia e no convívio da
+vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das
+convenções e pretenciosidades que dão um tom falso e mentido aos
+sentimentos da sociedade em que vivemos.
+
+Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um
+dos contos e balladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este
+proposito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto
+amor o escreveu. Ao contrario, sinto que não posso, a não transformar
+este artigo n'um hymno laudatorio, referir-me especialmente a cada um
+d'aquelles contos e balladas. Mais do que este motivo domina-me o de não
+poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.
+
+Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as
+haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em differentes
+jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso estylista dos
+_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalisticos, já na bohemia coimbrã,
+já em pequenas folhas de provincia e ultimamente nos jornaes da capital,
+trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a correcção que nunca
+abandonam os verdadeiros artistas.
+
+Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formára a opinião de que
+elle se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de
+Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no meu parecer, são, em
+Portugal, os mais distinctos escriptores contemporaneos d'este genero,
+na apparencia tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difficil, a que
+se denomina: _Contos_.
+
+A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.
+
+Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos _typos_, pela naturalidade
+do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria sem o minimo
+esforço a todas as impressões que pretende transmittir, o auctor dos
+_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do genero de
+litteratura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na
+amizade a opinião dos que, não obstante elle terçar agora quasi as
+primeiras armas, o consideram já como um escriptor distinctissimo e n'um
+futuro muito proximo um mestre consagrado.
+
+O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim
+desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado ás
+bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com uma riqueza
+oriental.
+
+Não obstante o meu proposito de não me referir nomeadamente a nenhum dos
+pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que
+me causou a _Ultima dadiva_, um primor de sentimento, uma pagina emotiva
+arrancada em flagrante a uma das scenas em que tão variadamente se
+divide a tragedia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_,
+onde passa um folego de epopeia, em que o estylo attinge alturas quasi
+desconhecidas, casando se com uma verdade admiravel a grandiosa ideia em
+que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura
+cada um de nos sente accordar uma recordação muito querida de infancia
+descuidada e alegre, e por ultimo: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho
+ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo tão malleavel e
+tão justo.
+
+Além d'estes contos, que especialmente destaco pela admiração que me
+inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Preludios de
+festa_ e _Typos da terra_.
+
+Quem escreveu os _Preludios de festa_ e especialmente os _Typos da
+terra_, é porque estudou com muita attenção, com muito cuidado, os
+personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras
+pequenas. São typos tirados do natural, com uma perfeição photographica
+em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na
+descripção da natureza nos seus mais variados aspectos.
+
+Por ultimo, e para não se dizer que eu n'este paiz de má lingua realisei
+o cumulo de escrever um artigo só de palavras encomiasticas e sem a
+minima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_,
+lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas paginas d'um estylo
+formosissimo n'um assumpto que sem duvida é verdadeiro, mas que não
+commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a minima
+impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus
+recursos d'estylista, não precisava realmente do _Sultão_.
+
+O livro faz parte da edição mensal d'obras portuguezas, editada por
+Antonio Maria Pereira, um trabalhador incansavel a quem as lettras
+portuguezas devem assignalados serviços.
+
+Está impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado e esmero a
+que nem sempre estamos habituados.
+
+Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos
+para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas á
+semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos
+como este, para honra do seu nome de escriptor já tão justamente
+laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do seu livro, archivando a
+dedicatoria que elle contem como nova prova d'uma amisade a que somos
+profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço
+Cayola_.»
+
+
+Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Collecção
+Antonio Maria Pereira_, que sob aquelle titulo contém alguns contos do
+apreciado contista Trindade Coelho.
+
+Pela rapida leitura de dois d'elles--_O Sultão_ e _Typos da terra_,
+parece nos que a collecção é estimavel, e que os contos são joias de
+grande preço da nossa litteratura, pela linguagem pura genuínamente
+portugueza, e pela graça da contextura originalissima, nacional, sem
+laivos d'imitação estrangeira, em que se pintam scenas e episodios,
+cheios de verdade e de encantadoras descripções, da vida portugueza nas
+provincias.»
+
+
+O Seculo:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de
+contos, editado pela casa editorial do Antonio Maria Pereira, a
+publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso
+meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no fundo,
+sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de não ser
+rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem--diga-se a verdade.
+
+Parece uma contradicção; mas não é. Se o nosso bom publico fosse dado a
+esbanjamentos de emoção artistica, não o sobresaltaria tanto a
+pessoalidade, e o imprevisto.
+
+O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado
+severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de
+lettras, nas suas horas de remanso.
+
+É só, porém, como homem de lettras, que nos compete em tal logar
+aquilatar-lhe a esthésia, e as faculdades de emoção, ou de attenção
+artistica.
+
+Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A fórma
+adapta-se perfeitamento ao fundo, e é sempre fluente, vernacula,
+concisa, e precisa. É sóbrio no descriptivo, e não raras vezes
+enternece. Não commette a velharia de desenterrar obsoletos termos
+classicos, sem incisão, sem propriedade, e sem côr, muito parecidos com
+o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portuguezes, nem
+onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto. Nem perpetra tambem o
+mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na
+linguagem patria instrumentos magnificos d'expressão. Sabe a sua lingua,
+como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais
+completa, e mais delicada da prosa, e tambem a mais transcendente e
+lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado interpetre. Os contos
+_Sultão_, _Maricas_, _Typos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a
+escola_, não contam muitos rivaes na lingua portugueza nem nas
+estranhas.
+
+O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de
+centenas de romances em seiscentos volumes já ninguem rememorar o titulo
+sequer.--_Gomes Leal_.»
+
+
+Revista Illustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que
+deliciosa impressão me deixou aquelle livro, tão adoravelmente simples e
+sentido!
+
+Antes, porém, de começar a analysar, conto por conto, esse fino trabalho
+de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão
+porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de nome conheço só.
+
+Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre,
+notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito,
+distincto em todos os exames.
+
+Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de
+que--o delegado de Portalegre--era um excellente rapaz.
+
+E digo rapaz, porque todos nós temos o habito de considerar sempre muito
+novos aquelles que são da nossa edade... Depois, graças a uma amiga
+minha, escriptora de grande talento soube que Trindade Coalho era um
+grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admiração
+enthsiasta que elle descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que
+fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição
+publical-as!
+
+Traduzia elle então o «Pescador de Islandia»; tradução esplendida que a
+_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para elle era
+já uma suggestão, aquelle trabalho primoroso.
+
+E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a
+Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente alguem se comprazia
+em querer negar ao academico gentil.
+
+Em seguida li uma suavissima elegia escripta á memoria de Antonio
+Fogaça--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia duzia de palavras
+cortadas por soluços:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...
+
+Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os
+jornaes annunciaram que elle arrancára um preso á cadeia de Portalegre.
+Um preso que era um innocente, e que, como tantos outros, estava
+condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam tambem
+o effusivo telegramma em que Trindade Coelho agradecia ao nosso
+magnanimo rei o seu perdão.
+
+E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem põe a
+lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu coração ao serviço da
+humanidade que soffre...
+
+O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha
+alma.
+
+Eu só fixo o nome dos bons.
+
+E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe d'aquelle homem! Os
+filhos herdam, geralmente, o coração das mães...
+
+ * * * * *
+
+Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lêr. Pedi-o
+rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego.
+
+Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz
+Osorio--uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos
+filigranados e vibrantes...
+
+Segue se o _Idylio rustico_--um amor--atravez do qual nós vêmos subir
+lentamente a estrella d'alva que illuminava, coando a sua dôce luz pelo
+colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da
+outra...
+
+Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o
+Thomé nos communica a sua alegria contagiosa levada á loucura com a
+volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros!
+
+A _Ultima dadiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma
+sepultura onde lhe ficára preso o coração para sahir de lá no dia em que
+teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o
+Brazil.
+
+A _Comedia da provincia_, magnifica de côr local. Magnífica,
+principalmente para quem conhece typos semelhantes e já tem visto a
+_Morgadinha de Valflôr_--essa perola!--representada pelo Marques do
+correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valôr a esse esplendido
+estudo de costumes provincianos.
+
+_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada...
+_Maricas_, uma adoravel poesia escripta em prosa. _Para a escola_, um
+beijo de gratidão de uma singelesa adoravel. _Tragedia rustica_, um
+vibrantissimo estudo das miserias humanas.
+
+_Abyssus abyssum_, o agonisar de dois anjos, sob o olhar de uma
+estrella... _Mãe_, a flôr mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas
+as mães que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos...
+E, finalmente, as _Batalhas domesticas_.
+
+Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho,
+que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro
+honesto, que não fatiga os homens nem faz córar as mulheres. Por isso
+aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.»
+
+
+Portugal:--«_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilísissimo livro
+_Os meus amores_, do nosso querido amigo e illustre confrade, Trindade
+Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais
+legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais carinhoso triumpho.
+
+Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no
+trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos
+que na caça de sensações e effeitos novos hoje pavorosamente
+desarticulam o _meio_ litterario europeu, tem uma força de restringir-se
+a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquilla, a
+melodia emocionante, ingenua e simples do viver aldeão; e que por entre
+o estridulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasphemias, dôres,
+gemidos, que doloridamente rebôam pelas soturnas naves d'este immenso
+hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar,
+enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira
+nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do coração.
+
+Bem haja.
+
+Do côro unisono de quasi incondicional applauso com que a imprensa tem
+celebrado a apparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnifico
+artigo do _Correio Elvense_, devido à penna d'um dos mais lucidos e
+impetuosos engenhos da novissima geração.» (_Seguia-se a transcripção_.)
+
+
+Diario Illustrado:--«_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade
+Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espirito á proporção que
+envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram ás vezes de ouvir
+os velhos, e parece-me que teem razão, porque nem sempre o são juizo de
+uma experiencia larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo
+circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com
+singular scepticismo, este meu seculo, que está no fim, e com elle tenho
+vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias litterarias,
+revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de estylo,
+arrancou-se o chiró ás velhas phrases, e todo um mundo novo,
+extravagante e phantastico tem surgido,--mau grado as furias rabídas de
+escriptores paleontologicos, apparafusados á Arte e á Critica de ha 50
+annos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu
+seculo tem-me custado amarguras aterrantes, desequilibrios de espirito e
+um desfolhar de verdes illusões, que eu tenho visto irem-me fugindo n'um
+_marche-marche_ triumphal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca
+mais voltarem!...
+
+A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica, dá-me a
+impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida
+real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo ao pedaço de chumbo de uma
+capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas; Julio Machado,
+de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do
+filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros,
+bom Deus! Dir-se-hia que uma _má sina_ persegue os homens de
+lettras:--quando não é a navalha de barba, é o rewolver, é a consumpção,
+é a tisica, é o retrahimento amargo, é o abandono proprio e alheio! Por
+isso o meu visinho Gervasio todo se ufana, com certo profundo bom senso
+pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um _artista_
+pintor--de portas, e de fóra de portas...
+
+Na _troupe_ de escriptores em flôr do meu tempo,--parece-me que já lá
+vão 30 annos, e tudo isto é apenas de hontem!--havia, joeirados com
+singular amor de arte pura, uma duzia de rapazes de incontestavel valor
+litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e
+revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,
+miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de
+rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam
+triumphantes,--poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da
+vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que é quasi o mesmo,
+deram-se a callejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos
+incipientes, nas minas de oiro e de ferro da lucta pela vida. Dos
+_felizes_, dos que triumpharam,--como quem diz, dos vencidos da
+vida,--me sorria eu ás vezes em horas de bom humor, lembrando-me como
+elles com um livro de versos foram nomeados consules; com um tratado
+sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por
+acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com
+uma critica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliothecarios
+das bellas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos _perdidos_
+pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os philisteus do
+Pará, applicando-lhes aos figados hypertrophicos a vermelha caudal da
+sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em Paris pelo
+alçapão macabro da _correspondencia_ barata; Gualdino Gomes anda ahi
+amparando o seu rheumatismo a uma certa _maneira_ de má lingua e a uma
+bengala de canna; Leopoldino Gonçalves viaja como medico da armada; e
+Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alemtejo,
+onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e apparece ás vezes
+nedio, côr de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tedio os copinhos de
+cognac do _Leão_...
+
+De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias côr de rosa, o que me
+traz mais doces recordações é Trindade Coelho,--porque eu ligara á minha
+a alma d'elle, n'um tempo em que dos salgueiraes de Coimbra elle me
+fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas chronicas
+soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de affirmações de uma
+personalidade litteraria. A sua prosa, a um tempo humana e lyrica,
+dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como
+sabem, além de bachareis anonymos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É
+da tradição universitaria, fazerem os doutores as suas primeiras armas
+de litteratos e de poetas, na academia, a intervallos do pesado estudo
+do Lobão e do direito publico, esvurmado ás cavalleiras do nariz de
+Pedro Penedo... Toda a nossa legião distinctissima de poetas e
+prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia
+coimbrã:--Theophilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Anthero, etc. É a
+affirmação do bom Antonio Ferreira feita axioma:
+
+ _Não fazem mal as musas aos doutoures_.
+
+E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquerir a Junqueiro das bellezas do
+Codigo Civil, meio metaphysicamente original e meio copiado dos codigos
+de Napoleão! Ah, mas em compensação que appareça ahi o primeiro advogado
+a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em ferias_!
+
+Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descripções n'uma
+bella prosa colorida e transparente, trechos de psychologia trasmontana,
+e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_
+do proceder litterario d'este escriptor é deliciosa de côr e de verdade,
+sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem deslumbramentos de imagens na
+apparencia côr de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios
+ingenuos dos cordões de latão... Tem-se chegado ahi, no abuso da
+originalidade do estylo, a fazer uma prosa estrelicada, engommada,
+cabellinho á banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O
+burguez já conhece os processos da _chinoiserie_, e d'ahi não ha
+espantal-o com nephelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe
+elle que debaixo d'essas bellezas está a oleographia reles de porta de
+escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota
+a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em
+Alcantara...
+
+O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho,
+feito com honestidade e sem as preoccupações deploraveis que levam os
+corypheus da escola modernissima, mais que zolaista, á descripção e
+estudo de pathologias e casos sporadicos, ou não vivos, ou pouco
+vívidos. Este livro á quasi um parenthesis aberto como uma clareira
+consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos trabalhos
+apparecidos, do _sujet_ de um dos quaes, que é em todo o caso a
+monographia de um caracter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_
+dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_...
+
+A feição litteraria de Trindade Coelho parece-me que se define na parte
+do livro sub-titulada _Balladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma
+duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma
+elegia... tragica, _encadrée_ n'uma linguagem côr de opala, em que a
+gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma
+obra prima. Assim a _Tragedia rustica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco
+eu os _Preludios de festa_, _Idylio rustico_, os _Typos da terra_, onde
+ha paginas soberbamente observadas, suggestivas, _d'après nature_.
+Magnifico o assasino _José Gaio_.
+
+Trindade Coelho é inquestionavelmente um lyrico. E nem eu sei como elle
+chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de
+Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os
+diccionarios de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista
+encantador... sossobrado!--_Ignacio da Silva_.»
+
+
+Nova Alvorada:--«_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe você, amigo Trindade,
+que as palavras affectuosas que me endereçou no offerecimento do seu
+livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espirito um mundo de
+saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsamicas d'uma
+quadra primaveril que não volta mais--a vida coimbrã?
+
+Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa
+mas robusta, as _suas feições masculas e energicas_, e a sua _allure_ um
+pouco receiosa ao dobrar a soleira da legendaria Porta Ferrea.
+
+Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de
+grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando á direita e á
+esquerda, entrou você nos _Geraes_ resignado a um diluvio de troças,
+martyrios, horrores...
+
+Os segundannistas, de cuja respeitavel corporação eu fazia
+orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não
+encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a d'um Armelim, nem um
+rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom Raphael do
+Ranhados.
+
+Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados!
+
+Em uma medalha d'oiro que você trazia, á guiza de berloque, na corrente!
+
+O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escandalo_, de forma que a
+tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato.
+
+Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com accentuações de academico
+fallado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua
+individualidade a destacar-se, como se fôra um _urso_. E assim se
+fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feijó por causa dos versos,
+do Passaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel
+Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades
+pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.
+
+Você desencubou o seu nome, pol-o em evidencia--o Trindade--, mas foi por
+causa d'um excellente resumo das lições de direito romano, d'um bello
+discurso no centenario pombalino, e sobretudo das suas graciosas
+chronicas no _Diario Illustrado_.
+
+Ah! e lembra-se você d'aquelle anno em que formámos «republica» na rua
+da Trindade, tendo por creada a sr.^a Maria de qualquer coisa, que
+denominavamos a _Gorda_, matrona muito caroavel e de enxundiosas formas?
+
+Eramos uns poucos:
+
+O Souza, que já tem o galão branco dos tribunaes administrativos,
+espirito facil, perspicaz e alegre, nada para massadas, que tinha
+orientações definidas em politica partidaria e expedientes reservados de
+galopim graúdo contra os progressistas da Barca.
+
+O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o
+evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiunculas com aquelle por
+causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e jogador
+de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente dos
+theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada pela
+_Gorda_ n'um cantinho do fogão.
+
+E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe
+chamavamos o Pêgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario plano,
+rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito
+desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe diziamos que elle
+se applicava... 25 horas por dia!
+
+Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto _sournois_, olhos á bufo, que
+não fallava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e
+contumaz!
+
+Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje
+conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas,
+muito guitarrista e risonho, se bem que intelligente e applicado.
+
+Eramos mais--você e eu. Você que se mettia muito com a litteratura,
+fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por signal
+dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas de
+feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo
+condescendia em o acompanhar na guitarra.
+
+Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais
+tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribanaes de Lisboa e
+eu no berço da monarchia.
+
+Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus
+bellos contos em um elefante volume--_Os meus amores_.
+
+E bellos na verdade, como todos dizem.
+
+A _Mãe_, aquella cruciante tragedia da pobre _Russa_, morta de terror e
+de amor, é para mim o mais apreciavel e sentido conto da sua collecção.
+
+Costuma-se dizer d'uma mãe descaroavel, d'uma Francisca Fortunata--é uma
+cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando
+as calumniadas affeições dos pobres ruminantes.
+
+Quem ler as angustias da misera _Russa_, na espectactiva do filhito
+devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituirá áquelle
+inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a natural comprehensão
+das suas obrigações de mãe e protectora.
+
+E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra.
+Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal
+qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella producção
+vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_.
+
+Nos restantes contos, entre os quaes me não agradaram menos _V[ae]
+Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da
+sua educada phantasia, moderada por um largo peculio de observação; a
+sua poderosa intuição artistica; o seu dialogo curto, vibrante e
+natural; o seu estylo já caracteristico pela feição franca, _saccadèe_,
+de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos;
+a verdade das suas descripções e pinturas, que, ao contrario de muitos,
+não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, n'uma
+pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa
+similhante.
+
+Olhe, amigo. Eu careço de geito para a critica litteraria; mas, emquanto
+me é licito exprimir a minha humilima opinião, dir-lhe-hei que você
+alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de litterato
+distincto e de contista precioso; e que este conceito é merecido,
+attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua elegante
+brochura recem-editada.
+
+Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua
+fineza com um abraço de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.»
+
+
+Nova Alvorada:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a
+offerenda do novo livro de Trindade Coelho,--o sympathico e distincto
+escriptor que de ha tempos se vae honrosamente evidenciando no certamen
+das lettras patrias, onde já agora a sua individualidade tem uma
+reputação firmada.
+
+_Os meus amores_ é o titulo que o sr. Trindade Coelho escolheu para o
+seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama, segundo cremos,
+não é porque estas 200 paginas sejam um auto-historiographico dos
+idylios romanescos do auctor, n'quella aurea quadra da sua vida
+academica, ou um repositorio de alheias aventuras amorosas com
+acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario.
+
+Não. A razão do titulo parece-nos antes proceder da affectividade
+psychologica do auctor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto
+com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:
+
+_Folhas dispersas dos meus annos de oiro,
+Vivo enxame das minhas alvoradas,
+Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
+As Desdemonas sois de um outro moiro_.
+
+Se não fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade do
+aphorismo--o habito não faz o monge--, porque o _Idylio rustico_, com que
+abre esta bella collecção de contos, não seria bastante para justificar
+o titulo sob que se enfeixam.
+
+Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e a
+tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se que
+se ha na urdidura dos varios contos muitas situações que nos pintam o
+ridiculo, a desgraça ou o crime, poucas ha, entretanto, que nos prendam
+o espirito ao devaneio piégas d'um Romeu e d'uma Julieta.
+
+Mas, ou bem ou mal baptisado, o que é consoladoramente verdadeiro é que
+os contos do sr. Trindade Coelho constituem uma das mais bellas
+collecções que no genero conhecemos.
+
+Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores
+preceitos da arte.
+
+Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das
+situações e dos dialogos.
+
+Uns assumptos de felicissíma escolha, a reproduzirem fielmente costumes,
+a pôr em jogo com a maior verdade os vicios e as virtudes do povo.
+
+Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade
+Coelho são a fiel expressão da vida rustica do nosso povo, e facil é de
+comprehender a importancia moral que estes livros terão quando as
+gerações que nos succedam queiram inventariar nas suas tradições o modo
+de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, n'este
+periodo historico em que vamos.
+
+Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside
+como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade
+inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a toda a
+prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na narração e nos
+personagens.
+
+E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de François Copée e
+Theodore de Bauville, a artistica encenação que, sem desvirtuar-lhe a
+naturalidade da fórma e do fundo, lhes imprime o attractivo romanesco
+que falla à imaginação do leitor.
+
+O _Idylio rustico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa,
+e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora.
+
+A _Ultima dadiva_ é a expressão fiel de muitas scenas que a emigração
+multiplica cruelmente pelas nossas provincias do norte.
+
+A acção d'este conto é conduzida com uma tal uncção de sentimentalidade,
+que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a commoções, se poderá
+esquivar a partilhal-a.
+
+O conto--_Typos da terra_ é a descripção fiel, fidelissima, da mesquinha
+intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de
+provincia.
+
+_Os Preludios de festa_ são de um comico admiravel; _Maricas_ é de um
+sentimentalismo commovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade
+edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragedia Rustica_, tudo, tudo n'este
+livro é bom, e de util e agradabilissima leitura.
+
+A forma--já o dissemos--é correctamente vernacula e elegantemente
+rendilhada.
+
+A titulo de amostra, para aqui trasladámos do conto--_Sultão_--este
+bello _croquis_ de uma tarde de agosto:
+
+«Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as arestas dos
+montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as
+suaves e brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos
+vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro,
+destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de
+listrões de uma coloração leve de laranja.
+
+Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
+além, alegremente, a monotonia profunda do azul.»
+
+E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra á altura da boa reputação
+do auctor.
+
+A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu illustre collega
+por tão brilhante producção, e d'aqui lhe envia um cordealissimo aperto
+de mão.»
+
+
+A Independencia:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro
+de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações,
+modestamente, apenas com a consciencia tranquilla de quem escreve bem e
+com criterio,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,
+que acaba de dar á estampa, algumas producções litterarias que a sua
+vida de jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de
+revistas e diarios.
+
+Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogeneo o que se nos
+offerece para apreciar: são pequenas joias litterarias, buriladas por
+mão de artista e d'um fino sabor de naturalismo.
+
+Considerado assim, sem dependencia de escola e confrontação de
+originaes, o livro é bom.
+
+As suas descripções são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se
+acostumou, desde creança, a ler muita e a adivinhar mais na biblia
+riquissima e inexhaurivel da Natureza.
+
+Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as
+tintas proprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os
+olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos outros, deixam-nos
+uma impressão agradavel de realismo, e alta comprehensão. São typos
+exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que
+enjoam. Antonio Fagote é um especimen do juiz de festa das nossas
+aldeias, basofão e vingativo, prompto, olá! a gastar as ultimas moedas
+da venda do ultimo gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e
+a deliciosa ballada _Mãe_ é uma preciosidade litteraria, magnificamente
+pensada escripta, digna da penna dos nossos primeiros escriptores.
+
+Não encomíamos, pois, o valor do livro, dizendo que elle é digno de
+figurar ao pé das mais bellas producções dos nossos escriptores mais
+consagrados.»
+
+
+Correio de Portalegre:--«_Os meus amores_, contos e balladas por
+Trindade Coelho.
+
+Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois não?
+
+Eu creio bem isso, porque a verdade é que apezar da celeuma que Trindade
+Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento algumas
+antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os senhores
+jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. É por isso que escolhemos
+para encetar esta secção a producção brilhante do distincto litterato,
+editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor
+escrupulosissimo.
+
+Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a
+attenção do nosso cerebro, á contemplação da nossa alma; e essa leitura,
+feita n'umas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me
+d'_Os meus amores_ a agradabilissima impressão d'uma caricia, que
+persiste a sorrir consoladora.
+
+Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Commercio_ e da
+_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejavel de dar á ideia,--algumas
+vezes injusta, dirão alguns,--a mais correcta fórma, iriada sempre da
+limpidez mais viva; e isso, n'um trabalho feito agora para apparecer
+amanhã, à pressa sempre, n'uma fugida aos calhamaços manuscriptos que
+demandam a sua attenção de magistrado, e em que o periodo mais
+suggestivo é o do _Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo_.
+
+É-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do auctor desbasta,
+romodela, lima, muito tranquillamente, muito socegadamente, sob a
+vigilante direcção do seu delicado gosto artistico.
+
+_Os meus amores_ teem poesia, e teem verdade; e na maioria dos seus
+differentes quadros, adoravel descripção das scenas simples da vida do
+campo, da natureza singellamente formosa, o sentimento vibra
+intensissimo, e é encantadora a phrase, que um conhecimento profundo
+dictou, de que uma subtil observação resáe. Ha alli retratos d'um brilho
+sem limite, _typos_ que resumem um estudo fidelissimo.
+
+É um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa embaraçadissimo, se
+queremos escolher alguma,--tão valiosas são todas.
+
+Todavia,--e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,--_V[ae]
+victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estylo, _Para a
+escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de
+creança, e os admiraveis contos de fina graça e tão verdadeiros,
+_Preludios de festa_ e _Typos da terra_, são os meus eleitos, depois
+d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre tantos quadros da
+perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ captivam tambem a
+minha admiração.
+
+O livro é, como todos os sahidos na _Collecção Antonio Maria Pereira_,
+esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em
+percalina.
+
+N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'_Os meus
+amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradavel como
+sinceramente.»
+
+
+O Nordeste:--«Editado pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, em
+volume d'impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado
+o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pôr em
+relevo as complexas e brilhantissimas qualidades litterarias do auctor,
+um _novo_ que já hoje occupa, por direitos justamente adquiridos, um
+logar proeminente entre os nossos melhores escriptores.
+
+_Os meus amores_ teem obtido na imprensa do paiz uma acolhida
+enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso
+conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos
+leitores do _Nordeste_ não dessemos conta da apparição d'esse livro,
+juntando ao côro unisono d'applausos as nossas sinceras saudações.
+
+Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses
+contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro
+primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a
+espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas
+historias aldeãs, d'uma simplicidade campesina, repassadas por vezes
+d'um sentimentalismo suave, lyrico...
+
+A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima sympathia, um affecto
+antigo e vehemente, seguindo com interesse quaesquer particularidades da
+sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem
+glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado
+intelligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do
+procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lêr o seu livro,
+e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio nol-o
+trouxe. E, agradabilíssima coincidencia! succedeu-nos deparar com o
+conto _Para a escola_, quadro tocantissimo que marca distinctamente os
+dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a altura em que entra
+na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial,
+de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com
+as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de
+continuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e caracter
+diamantino.
+
+Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio,
+deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o
+confessâmos...--de lagrimas espontaneas nos marejarem os olhos, tão
+enternecedoras são essas paginas que evocam em nós as reminiscencias
+queridas d'um passado que não volta, e no espirito nos reproduzem, com
+uma precisão photographica, completa, scenas eguaes da nossa infancia,
+como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lêl-as
+e sentil-as...
+
+Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente,
+que _devorámos_ o livro, onde o auctor, n'um esbanjamento prodigo de
+verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras narrativas,
+descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e rhythmica,
+apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em flagrante, _d'après
+nature_, com uma extraordinaria lucidez d'observação, e um outro _caso_
+humano trasladado para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente
+artista, e que são uma eloquente affirmação da distincta personalidade
+de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados
+cultores da prosa portugueza.
+
+Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve
+noticia a uma critica a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar
+todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as
+impressões que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso caloroso para
+todo o livro, sem predilecções por este ou por aquelle conto; e d'aqui,
+d'esta columna de modesto jornal de provincia, enviamos ao nosso
+queridissimo Trindade Coelho, n'uma effusão d'acrisolada estima, com um
+aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não
+deixe de ser um cultor assiduo da litteratura nacional, e continue a
+honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons
+livros.--_José Pessanha_.»
+
+
+Da Revista do Minho:--«_Os meus amores_.--Poucos livros terão vindo á
+luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplendidos como aquelle
+cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as suas paginas
+se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e
+estimavel debaixo de todos os pontos de vista.
+
+Este volume pertence á formosissima collecção Antonio Maria Pereira, e é
+devido á brilhantissima penna de um dos nossos mais festejados
+escriptores--Trindade Coelho.
+
+Não precisâmos alongar-nos em chamar a attenção do publico para esta
+obra, pois é ella sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons
+livros.»
+
+
+Revista Illustrada:--«_Os meus amores_.--Ha tempo,--não ha
+muito,--começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando,
+umas cartas de provincia,--_Cartas alemtejanas_, nos parece,--assignadas
+pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a
+primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com
+verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de apparecer
+de todo.
+
+Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada
+jubilosa e cantante de um bom escriptor. Trindade Coelho entrava nas
+lettras portuguezas pela porta aurea dos victoriosos, apresentando
+natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira n'uma só
+peça o seu talento alliado com a sua observação e o seu estudo, sem
+esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que
+avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamellas de
+apaniguados e sequazes.
+
+Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas;
+escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli á mão, das
+scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua
+alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um
+ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar á solidão do seu
+eremiterio, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas.
+Era um talento e era um caracter.
+
+Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que
+deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua
+formatura. Bom signal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciencias
+do amor proprio, sacrificando ás altas occupações do seu curso os
+brilhos attrahentes da facil nomeada. O escriptor experimentara já o
+pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar.
+
+Eis que nos apparece um dia, subito, no fôro, honrando e glorificando
+n'um processo de rehabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe
+celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de lettras, que
+elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.
+
+Alguns mezes de collaboração diaria, n'um jornal bem lançado e bem
+redigido, avigoraram no conceito publico o renome conquistado, e
+Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da paiz, o logar a que
+tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem contestar.
+
+Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos apresentação
+mais prometedora e mais sympathica.
+
+
+_Os meus amores_ são uma collecção de esbocetos, alguns dos quaes, como
+o _Idylio rustico_, _Ultima dadiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus
+abyssum_, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros.
+Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o auctor os trabalhou,
+solicito na sua obra, no empenho de uma execução immaculada. Não porque
+se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem elle era impossivel
+conseguir tão completo effeito, tão seguro resultado.
+
+O estylo do prosador é, quasi sempre, firme, opulento, erudito, original
+e variado. Não tem reminiscencias d'este ou d'aquelle, e realisa uma das
+condições essenciaes que deve ter em mira todo o escriptor
+consciencioso: conservar uma feição propria e individual, sem se afastar
+da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso archaico, e
+contribuindo para a evolução progressiva d'ella.
+
+Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cançaremos de louvar, em
+vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria
+facil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estylistas,
+procurou modo de illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na
+fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas
+mais primitivas do povo campezino, enriquecendo n'esse manancial o
+thesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, scenas e
+quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e
+adoravel.
+
+É de indiscutível belleza a pastoral com que abre o volume.
+Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A descripção da
+madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e
+Rosaria,--Daphnis e Chloe,--teem um sabor antigo, como o de uma
+narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo
+tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias. É de um bom
+gosto supremo a fórma subtilmente delicada como o narrador, deixando
+primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma brutalidade
+instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da candura a uma
+situação divinamente sublime.
+
+E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce e
+prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espirito aquelles dois
+vultos de creança a esfumarem-se nas distancias do espaço e do tempo,
+longe, muito longe, n'uma paizagem ideal, vista nos dias da infancia,
+vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio ou Theocrito, talvez mais
+longe ainda, na Biblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida
+contemplação, longe, muito longe,
+
+«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.»
+
+Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, ha como que um mixto do
+tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christão. Não é vulgar
+a concepção do assumpto, nem vulgar, tambem, o desenvolvimento que o
+escriptor lhe deu, o scenario é horrivel e magnifico. Está bem
+descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro se annuncia, depois
+se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma convulsão
+pavorosa e enorme; bem descripto o terror angustioso e suppliciante do
+misero assassino, o qual vê, na chamma de cada relampago, projectada a
+cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende os pés ao
+chão, emquanto o seu ouvido, allucinado pelo terror, lhe dá a sensação
+de uma voz insistente, que detraz de cada arvore, da espessura de cada
+moita, de cima de cada pedra, da resonancia de cada trovão, o chama
+inexoravelmente pelo nome:--Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio!
+
+Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho
+fóros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe não engeitaria o
+assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria com muita maior perfeição.
+Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas tão engenhosas como as da _Genese
+de um Poema_, para alguma composição tão extraordinaria e tão
+transcendentalmente bella como _O corvo_ ou _Ulalume_.
+
+Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se
+quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade das
+suas aptidões litterarias, o prosador que recortou nos mais perfeitos
+moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras, detem-se na
+commovente e lacrimosa narrativa da _Ultima dadiva_ e nas ligeiras e
+facetas descripções dos _Typos da terra_, dos _Preludios de festa_, do
+_Sultão_, onde transparecem dotes de observação sarcastica, de ironia
+graciosa e de bem humorado espirito.
+
+Um livro de tantas promessas não póde ser, comtudo, e por isso mesmo, um
+livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se
+abalançar a empreza maior, estamos certos d'isso. Já no final do
+presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas
+domesticas_, se annuncia a transição da presente phase litteraria e
+artistica do auctor, para uma outra phase progressiva.
+
+Progressiva, dizemos nós, porque assim o crêmos. Qual ha-de ser, porém,
+a predominante caracteristica d'essa phase? Póde a critica conjectural-a
+desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazel-o. Porque, a
+verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que
+o seu temperamento litterario tem energias que lhe hão de abrir novos
+caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha já precedentes, que
+enormemente o obrigam.
+
+Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-ha
+ainda de um ou outro francezismo escusado, e ha-de adquirir novos dotes
+de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde
+procural-os. Não é em lexicons, nem em alfarrabios, nem em cartapacios.
+É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a
+falar o portuguez do povo, os seus typos populares.
+
+Não se póde ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som,
+da melodia. Uma das maneiras de adquirir pericia n'esta fórma de
+escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um
+exercicio util para chegar a fazer boa prosa. Não é, porem,
+indispensavel, bem entendido.
+
+Contudo, não admittimos que repute possuir as qualidades completas de
+escriptor, aquelle que só d'uma das duas fórmas da arte de escrever seja
+conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que
+praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima.
+
+Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza
+artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase e
+maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso,
+embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena
+empregar todos os esforços para attingir uma perfeição, que não está
+longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade
+continuamente o approximam.--_Fernandes Costa_.»
+
+
+Aurora do Lima:--«_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade
+Coelho. Quando prometti á _Aurora do Lima_ esta ligeira noticia
+bibliographica ácerca do livro do brilhante escriptor e meu querido
+amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a
+retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os
+ultimos da ultima fila, nas saudações enthusiasticas á obra e ao seu
+auctor.
+
+Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se começou a
+fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria, cruel, desoladora. Os
+que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida--e estes
+constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras
+consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação
+docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola,
+apezar do enorme _réclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da
+escola realista.
+
+Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras
+consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende
+pela emoção intima, que interessa pela simplicidade elegante com que
+está trabalhado, que impressiona pela correcção impecavel do seu estylo,
+malleavel e harmonico.
+
+Abre-se o livro e depara-se com o _Idylio rustico_, que é uma soberba
+tella, amoravelmente tratada, denunciando logo ás primeiras linhas um
+alto valor artistico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza
+suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.
+
+Segue-se-lhe o _Sultão_; e em boa verdade direi que me parece ser este
+um dos contos mais formosos do volume, em que pese ás opiniões
+contrarias e até ao proprio auctor, que não perde occasião de o
+depreciar.
+
+Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A descripção
+da eira, do labutar alegre, da paizagem e dos personagens d'este pequeno
+quadro, são um primor notabilissimo de execução artistica, de rigorosa e
+completa observação.
+
+_Ultima dadiva_, um episodio commovente, completa a primeira parte do
+livro, a que se segue a _Comedia da provincia_, onde ha preciosos
+estudos da vida provinciana; as _Balladas_, onde se depara com o formoso
+conto _Para a escola_, de um alto valor litterario; _Arrulhos_, uma
+esplendida phantasia, etc.
+
+Eis uma ligeira noticia do volume de contos _Os meus amores_, que
+tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia
+do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que
+lhe foram dispensados.
+
+Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a
+crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do paiz,
+especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudonymo de _Ch. A.
+Verde_, e na _Revista Illustrada_, do editor Antonio Maria Pereira. É um
+infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frivolo assumpto
+um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o espirito do
+leitor.--_Luiz Trigueiros_.»
+
+
+Os Gatos:--«Vem a proposito de historias, fallar, bem sei que tarde, dos
+_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro portuguez que
+mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em polyedros de
+multiplices aptidões. Os contos dos _Meus amores_ são pela maior parte
+uma bagagem de vida academica, assimilativa (Trindade Coelho, muito
+novo, findou ha quatro ou cinco annos o curso juridico) e como tal sahem
+da penna do escriptor ainda sem uma crystallisação homogenea de fórma e
+de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso d'um espirito
+buscando a perfeição com escrupulos d'eleito; de sorte que o volume até
+como auto-biographia se insinua, elle precisando as phases, notulas, e
+predilecções litterarias do contista, e emfim, depois de hesitações,
+emancipando-o n'um dos mais delicados microscopistas do coração, das
+nossas lettras. Como é provinciano, provinciano d'aldeia, e natureza
+contempladora inda por cima, Trindade Coelho captiva-se principalmente
+dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana, tempestades de
+campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o não faça por
+diletantismo de escriptor avocando de cór dramas lambidos, senão por
+esse estro de visão retrospectiva dos melancholicos despaizados em
+terras hostis, e que protestam contra o egoismo ambiente, recluinde-se
+no passado, como n'um sanctuario de mumias adoradas. É a tendencia geral
+dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes,
+especialmente dos campos, materia prima para seus contos e poemetos. Em
+poucos porém a predilecção se escóra na sinceridade e conhecimento
+pratico da vida rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma
+autopse sagaz da natureza psychica e moral do camponez. Grande parte dos
+que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos
+n'um scenario de convenção, e com o fazer fallar aos bonequinhos mancos
+que resultam, aravias mais ou menos inventadas d'um pictoresco sorna, em
+cuja trama não ha vislumbres d'alma regional, de caracter profissional,
+d'individualismo typico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra,
+mandem vir a collecção dos contistas rusticos portuguezes, e riam á
+larga das fantasias lorpas que lá virem. Em dialagos amorosos ha por
+exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam ás namoradas protestos
+de paixão, em linguagem que seria preciosa até na bocca d'um pisa-flôres
+do Martinho e da Havaneza. Ellas, de lhes retrucar em phrase
+equivalente, e de se mecherem em scena com os ademanes que a _Dama das
+Camelias_ consagrou na cachimonia dos auctores, como os mais proprios
+para mimar o amor que as enchaquéca.
+
+Em paizagens e descripções d'interior, a mesma ausencia de detalhe certo
+e de visão propria, que reduzem esses quadros, a méras caganifancias
+d'aguarellistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a
+quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das
+cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os
+seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal
+imitação da Rua do Ouro, e o camponez como uma arreglo grotesco do
+alfacinha.
+
+Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da
+paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade
+Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema,
+em fórma d'arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo á vista
+do leitor, que não mais lhe perderá de vista os vôos poeticos, e a
+singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em
+prolongadas estações nas duas mais typicas provincias de Portugal, o
+Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha assím nos _Meus amores_, a par d'algumas
+benignas composições representativas da transição critica do rapaz para
+o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes,
+sobrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da
+minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras primas.
+_Typos da terra_ e _Preludias de festa_, por exemplo, são duas narrações
+que mordem fundo a attenção de quem nas lê, e que por sua admiravel
+sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido
+que ficarão modelarmente apontadas aos collecionadores de litteratura
+typica.
+
+Qualquer das peças abrange apenas o folego d'uma ou duas duzias de
+paginas, deliciosas porém como factura, admiraveis de bonhomia, e d'uma
+saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o seu auctor.
+
+Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante
+rico em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais
+finas intenções. _Typos da terra_ é o quadro satyrico d'uma má lingua
+d'aldeia, tendo por club a porta da tenda, por scenario a praça publica,
+e por personagens o pessoal burocratico e elegante da terriola.
+_Preludios de festa_ é um estimulo de festeiros preoccupados de qual
+fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os typos
+rapidos, a descripção dita a correr, mas no conjuncto ha um tal
+equilibrio esthetico, a meia tinta é tão fluida, e as intenções ironicas
+sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista,
+Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os semsaborões que por
+ahi medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno
+romance portuguez.--_Fialho d'Almeida_.»
+
+
+Jornal de Santo Thyrso:--«_Os meus amores_.--Foi penhorante e commovente
+para nós a gentilissima offerta que Trindade Coelho nos fez do seu
+adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta singela
+noticia.
+
+O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o
+brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje,
+porém, apparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a
+primorosissima fórma se allia com o mais delicado criterio d'artista
+d'_élite_ e com a fina observação d'um talento verdadeiramente superior.
+
+O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e
+obscura penna não está--seja este o seu unico merito!--habituada a vir
+entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se
+prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as
+ondas d'esse barato incenso.
+
+Os nossos leitores melhor ajuisarão, em presença do trecho que lhes
+offerecemos como mimo de rara valia.»
+
+
+Diario Illustrado, (com o retrato do auctor):--«Trindade Coelho.--N'esta
+aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras que ninguem sonha,
+ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos é dado
+experimentar, accrescente-se.
+
+Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,--na
+elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestigio do
+talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de adivinhar,
+logo aos primeiros passos, a revelação de Alguem, que vae ser
+unanimemente admirado.
+
+Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na
+galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo.
+
+Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam;
+admirei-o, muito antes d'elle trazer á litteratura patria o livro _Os
+meus amores_, que foi como que a subita illuminação do seu nome.
+
+Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a
+sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso
+encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o
+temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do
+estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...
+
+O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de
+rapidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação,
+vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com
+um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a
+perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e
+do camponio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande critico Fialho
+d'Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu
+criterio do problema, em fórma de arte, e dos que mais progressivamente
+vão crescendo á vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os
+vôos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de
+genero, colhidos em prolongadas estações nas duas mais typicas
+provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes.»
+
+Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho começara a affirmar a sua
+poderosa, individualidade em uma secção do _Diario Illustrado_, _Cartas
+alemtejanas_, chronicas expedidas de Portalegre, em um arranque de
+talento, com exuberancia de fantasia, modos de ver e dizer,
+flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo á Vacherai, velados
+a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante
+originalidade.
+
+Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio
+das suas funcções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitaria de
+arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o
+condemnara.
+
+E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos
+vôos, fez-se um côro de bençãos, como que uma apotheose de amor, que
+deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma
+effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos, superiores a todas
+as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto.
+
+Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterisam e
+lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam, uma dualidade,
+verdadeiramente phenomenal.
+
+É que, sendo elle um artista, na rigorosa accepção titular da palavra,
+namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na
+extatica adoração de tudo quanto ella sobredoira do seu brilho immortal,
+é ao mesmo tempo um funccionario exemplar, um delegado do procurador
+regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte
+Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter e no
+correcto exercicio da sua profissão, toda a perstigiosa soberania da
+Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito, quando se
+trata de aquilatar o merito de um auctor:
+
+«Ahi está effectivamente revelado não só um talento plastico e bastante
+rico, em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das
+mais finas intenções.»
+
+Ás vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade
+nostalgica ou treme de frio... legal.
+
+É então que elle murmura, (perdoa a indiscreta allusão, meu caro
+Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o
+meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu
+ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz idéa, não!
+Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E là fóra, e lá em cima--que amplo
+céo azul para voar!»
+
+Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda o
+esperam, meu illustre amigo?--_Guiomar Torrezão_.»
+
+
+Revista de Portugal:--(Excerpto de um artigo critico ácerca do _Só_ de
+Antonio Nobre).--«Alma doente, o sr. Antonio Nobre soube extrahir da sua
+doença effeitos de Arte singulares e ás vezes intensos. Outros
+attingiram o mesmo objectivo pela descripção das emoções naturaes e pelo
+appello aos instinctos sãos do coração humano. Acabo de rêler o livro
+d'um escriptor tambem novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com
+casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser comprehendidos
+por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a affeição de dois
+pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida
+junto á cruz da sua victima, o amor materno de uma cabra que se deixa
+morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o narrador
+interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha atravez
+d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do suor dos
+lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade
+pessoal decisiva para a belleza das obras.--_Moniz Barreto_.»
+
+
+Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face,
+olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,--o que não seria difficil mesmo
+no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar
+no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples
+conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se elle de nós, porque já
+então a gente não se atreve a separar-se d'elle, tem-se adquirido a
+certeza de que aquillo é o que é, e chegado á mais solida convicção de
+que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um
+coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais
+insubmissas ao menor proposito do menor disfarce, do que na sua
+physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho intensíssimo do
+seu olhar muito limpido, muito penetrante, se expressam toda a
+sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso
+temperamento.
+
+E ao vel-o partir pela rua fóra, decidido e tezo, resoluto e rijo, a
+cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que
+dá gosto vel-o, não resistem os olhos ao desejo de acompanhal-o de
+longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou
+pensa:--«Demonio!... Com meia duzia assim, poderia fazer-se _alguma
+coisa_ ainda!...»
+
+Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas
+perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos
+quando com elles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando
+passam--só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este sólo e
+purificar esta atmosphera.
+
+Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem
+da sua vida,--o mundo litterario e o mundo judicial--affigura-se-me
+elle, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelevel
+cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos
+para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este
+agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio
+Publico contra os altos reus de certas causas celebres,--ora imprimindo
+n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da fórma é
+posta sempre ao serviço das emoções mais dôces e das mais penetrantes,
+esse outro cunho, d'essa outra individualidade que n'elle ha, e tão
+diversa é, tão original e tão rara, tão comtemplativa e tão terna.
+
+...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do
+seu impetuoso temperamento!
+
+No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas
+palavras se não limitam ao cumprimento do dever de officio, não tardará
+que á serena exposição dos primeiros articulados succeda a expressão
+calorosa, indomita, sempre crescente, da indignação, e da colera, que
+lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vae deduzindo a
+tremenda accusação contra o réo--...esse réo que alli está, alli!
+sentado n'aquelle banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés!
+Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração accelera-se, a face
+ruborisa-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito
+enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cerebro
+vigorisa-lhe os musculos, affirma-lhe a energia, parece transportal-o ao
+imperio da força, n'um arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas
+se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado
+a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta,
+quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem ferir de
+arripios a espinha dorsal do auditorio... Já não é para a justiça dos
+homens que elle appella; não lhe bastam, não o saciam as penas maximas
+dos Codigos! Quer o castigo do Céo, quer a justiça de Deus!
+
+...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem peor
+que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana
+havia condemnado por assassino e ladrão--o pobre Manuel Barradas. Muito
+commentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministerio
+Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos agoniados da sua vida
+em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a collecção
+desses jornaes, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no
+principio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um
+pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Elle, em
+premio da minha obediencia, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo
+do meu coração. Queres ouvil-o bater? Ausculta essas folhas... Bemdito
+seja Deus! serão ainda minhas as tuas lagrimas enternecidas, e, ainda
+depois de morto, viverei na tua commoção e na tua alegria, para a
+commoção e para a alegria da minha obra...»
+
+Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste
+nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto austero
+do magistrado, cedendo o logar á delicada individualidade do homem de
+lettras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa,
+muito á vontade e á fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a
+vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, d'essa muito
+viva e muito affectuosa ternura que á sua alma de artista dá, e que a
+sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que
+não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordação a
+que andam para sempre ligados, n'uma doce e meiga associação de ideias,
+certos logares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo
+olmo, que já lá estavam quando elle nasceu, que o embalaram nos
+primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao
+baptismo o levaram, e o conduziram á escola; alegrando-se com as suas
+alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas...
+
+N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da
+sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se
+pousar-lhe nos beiços e nas palpebras a serenidade meiga de um sorriso,
+como que o doce agradecimento á alma de sua mãe, que tivesse vindo,
+muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito,
+aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a amorosa
+caricia dos seus beijos...
+
+Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade
+essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos musculos e a
+effusão das lagrimas realisam o phenomeno das emoções reaes.
+
+Os seus escriptos obedecem sempre á logica influencia d'esta convicção
+em que elle está, quando me diz, bem medindo e pezando cada uma das suas
+palavras:
+
+--«Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais nada, que o
+escriptor preste na sua obra o culto que é devido á sua lingua. Depois,
+deseja que o commovam, que honesta e consoladoramente o emocionem,
+preferindo que o assumpto do quadro seja a exploração das coisas
+triviaes da vida, certamente porque reside no Simples a formula mais
+natural da Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lêem está
+fatigado d'essa confusão do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me,
+emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro dever, e como
+condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre
+de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e
+entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferencia, mesmo,
+ás faculdades intellectuaes...»
+
+Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos. É o primeiro d'elles,
+_Idylio rustico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarella, parece que
+feito sobre um esbatido de céo purissimo, côr de sovaco de andorinha e
+não sei com que singular sabor eucharistico de primeira communhão... É
+um sonho de absynto, que serve de aperitivo divino para a leitura
+soffrega de todo o livro. Dois pastoritos ingenuos, a Rosaria e o
+Gonçalo, encontram-se e approximam-se, n'uma indecisa alvorada de
+derriço, cheios de boas tenções e puros ideaes. Acontece, porém, que por
+viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada,
+imaginem os que como elles se amem a alegria que inunda aquellas duas
+almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias longas, quiz Deus que
+os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando
+seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como
+juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se
+põe, vagueam nas frescuras marginaes do rio, a par, e sós, elle
+dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com murmurios d'agua
+correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz d'alma idylica de
+illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe immenso a
+separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as
+ovelhas durmam em mistura e que passem elles a noitada sobre o mesmo
+colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instinctiva reluctancia,
+Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as
+mantas cobertor commum, e pousando as cabeças nos bornaes unidos,
+parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos
+desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo, e
+os bons dos namorados, n'uma placida orchestração final que se smorza,
+referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no somno e
+adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da
+maldade nossa.
+
+Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fóra, e que vamos
+bisando e saboreando a pequeninos gólos, durante algumas horas bem
+fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que
+elle nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivessemos; em
+companhia d'aquelles typos que elle retrata, tão photographicos, tão
+nitidos, que é estar a gente a vel-os, a ouvil-os, a falar-lhes, a
+deitar-lhes o braço pelo hombro...
+
+Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao
+serviço da moderna arte, o ineffavel goso de tão estranhas, tão novas,
+tão encantadoras surprezas! Quizera eu, inedita, bem fresca, pela
+primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante
+comparação:--dir-se-ia traçada com uma penna d'aguia... arrancada d'uma
+aza de pomba.
+
+Os seus livros ficarão pertencendo ao numero d'aquelles que parecem
+possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espirito de quem os lê.
+Relêr o que elle escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de
+quando se contempla pela centesima vez algum querido, precioso objecto,
+que noventa e nove vezes se contemplara já: privilegio esse de eterna
+seducção, que só disfructam as obras em que o artista deixou pedaços da
+sua alma.--_Alfredo Mesquita_.»
+
+
+Do Poema do Ideal:
+
+«_Os meus amores_! que livro
+Tão fragante e saboroso!
+Scentelhas aureas e vivas,
+D'um prosador luminoso!
+
+Brisas da serra!
+Trechos idylicos
+Da nossa terra!»
+
+_Fernandes Casta_.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***
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+Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited
+by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
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+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
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+ gbnewby@pglaf.org
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+Literary Archive Foundation
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+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+++ b/17503-h/17503-h.htm
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+ <title>Os Meus Amores</title>
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+ <meta content="Trindade Coelho" name="AUTHOR" />
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+</head>
+
+
+<body>
+
+<div><span style="font-family: monospace;">The
+Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho <br />
+
+<br />
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with <br />
+
+almost no restrictions whatsoever.&nbsp; You may copy it, give it
+away or <br />
+
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included <br />
+
+with this eBook or online at www.gutenberg.org <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Title: Os meus amores <br />
+
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; contos e
+balladas <br />
+
+<br />
+
+Author: Trindade Coelho <br />
+
+<br />
+
+Release Date: January 12, 2006 [EBook #17503] <br />
+
+<br />
+
+Language: Portuguese <br />
+
+<br />
+
+Character set encoding: ISO-8859-1 <br />
+
+<br />
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES *** <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited&nbsp;by
+Rita Farinha<br />
+
+(Biblioteca Nacional&nbsp;Digital--http://bnd.bn.pt). (This file
+was produced from <br />
+
+images generously made available by National Library
+of&nbsp;Portugal (Biblioteca Nacional<br />
+
+de Portugal).)</span><br />
+
+<br />
+
+<pre>NOTA: Este texto tem uma vers&atilde;o em l&iacute;ngua portuguesa moderna, a que pode ser aceder<br />clicando na liga&ccedil;&atilde;o:<big><b><br /><br /> <a href="modern/amores.txt">TEXT</a></b></big></pre>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>OS MEUS AMORES </h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h3>TRINDADE COELHO </h3>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h1>OS MEUS AMORES</h1>
+
+<h3>
+(Contos e Balladas) </h3>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<div style="text-align: center;"><em>2.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o</em></div>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 87px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+LISBOA<br />
+
+<span class="smallcaps">Livraria de Antonio Maria Pereira</span><br />
+
+50, 52&#8213;Rua Augusta&#8213;52, 54<br />
+
+1894 </h4>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<h4><em>LISBOA</em><br />
+
+Typographia e Stereotypia Moderna<br />
+
+11&#8213;<em>Apostolos</em>&#8213;11 </h4>
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">Ao
+Doutor</span><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Antonio Xavier PERESTRELLO</span><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>&laquo;<em>Os Meus Amores</em>&raquo; </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1"><em>Folhas dispersas dos meus
+annos de oiro, <br />
+
+Vivo enxame das minhas alvoradas, <br />
+
+Tenho zelos de v&oacute;s, folhas sagradas, <br />
+
+As Desd&eacute;monas sois de um outro moiro. <br />
+
+<br />
+
+As brancas horas que eu em sonhos doiro, <br />
+
+Essas horas febris, illuminadas, <br />
+
+Eil-as fugindo, em tristes debandadas... <br />
+
+Levaes nas azas todo o meu thesoiro. <br />
+
+<br />
+
+Folhas: subi, voae ao c&eacute;o t&atilde;o alto, <br />
+
+Que o ceo em estrellas vos converta e mude, <br />
+
+L&aacute; nas longinquas illus&otilde;es que exalto; <br />
+
+<br />
+
+Como as frementes aguas d'um a&ccedil;ude, <br />
+
+Levae a Deus, no derradeiro salto, <br />
+
+O derradeiro adeus da juventude</em>...</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature1 smallcaps"><em>Luiz Osorio</em>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[1]</span>
+<h3><a name="c1"></a>IDYLLIO RUSTICO </h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>A Fialho d'Almeida</em>.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Quando</span> atravessou a
+povoa&ccedil;&atilde;o, rua abaixo, com o
+rebanho atraz d'elle, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas
+tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e n&atilde;o vinha
+das
+habita&ccedil;&otilde;es o mais insignificante ruido. Dormia-se
+a somno solto por todas aquellas casas.
+Apenas algum c&atilde;o, subitamente acordado em sobresalto pelo
+chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde
+ficara de sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite
+fazendo companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores
+entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios,
+n'alguma esturdia, a deshoras... <br />
+
+<br />
+
+Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a
+banda, n'uma grande pacifica&ccedil;&atilde;o de templo
+adormecido. Nem viv'alma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho
+em zig-zags. Fulgiam no
+c&eacute;o
+<span class="pagenum">[2]</span>
+azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a
+largura, a paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito
+morti&ccedil;a que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da
+noite. No emtanto a
+manh&atilde; era calma; nem rumores de briza pela rama das
+azinheiras velhas que faziam guarda ao corrego por onde o rebanho
+tomara. Cigarras, grillos nas hervagens, r&atilde;s que coaxavam
+nas regueiras, era o mais que se
+ouvia acima do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em
+todo o
+rebanho que se ia submissamente &aacute; merc&ecirc; do pequeno
+pastor,
+parando se elle parava a colher as amoras frescas dos silvados,
+recome&ccedil;ando
+marcha se de novo elle se punha a caminhar. <br />
+
+<br />
+
+Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro,
+que o echo levou para longe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o gastes polvora, Antonio!&#8213;recommendou o
+pastor.&#8213;Ouviste? <br />
+
+<br />
+
+E logo a voz do guardador: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Madrugas hoje, Gon&ccedil;alo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;P'ra que saibas: c&aacute; um homem n&atilde;o tem medo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem. Adeus! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saudinha. <br />
+
+<br />
+
+A esse tempo ia-se j&aacute; definindo a manh&atilde;, na luz,
+no som, na c&ocirc;r. Invadia a amplid&atilde;o da cupula
+celeste uma tinta alvacenta, onde as
+estrellas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira
+d'al&eacute;m, entravam
+de fazer-se nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes
+rochedos tinham altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra...
+<span class="pagenum">[3]</span>
+N'este assomo d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a
+alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos
+levantavam-se repentinamente, em v&ocirc;o perpendicular, e
+cortavam ares
+f&oacute;ra, chilreantes e alegres, at&eacute; se perderem de
+vista por de traz dos
+arvoredos e cabe&ccedil;os. De cauda em riste e orelhas immoveis, o
+rafeiro espreitava as hervagens
+seccas, onde algum reptil passasse vagaroso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Busca, Turco!&#8213;fazia-lhe o Gon&ccedil;alo que tinha medo
+&aacute;s cobras.&#8213;Busca, valente! <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas
+ouvia-se, mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas
+primeiro que
+l&aacute; se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de
+passos e de paciencia,&#8213;reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte
+os interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre,
+&aacute; frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos
+come&ccedil;aram
+de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle
+c&eacute;o ainda
+estrellado, o Gon&ccedil;alo desabafou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uff! at&eacute; que emfim!&#8213;E pensava aliviado:&#8213;Nada mais facil
+do que terem-me sahido os lobos!... <br />
+
+<br />
+
+Mas vista &aacute;quella hora, e no meio de tal silencio, a
+corrente liquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava
+lembran&ccedil;as aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham
+morrido afogados, n'uma
+lucta desesperada com as aguas, clamando em v&atilde;o que lhes
+acudissem, em tamanho transe afflictivo. A margem de l&aacute;,
+especialmente,
+era toda accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre
+os quaes
+no inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que
+era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem
+<span class="pagenum">[4]</span>
+incautos, n'um
+descuido involuntario&#8213;simples remadela pouco a tempo, manobra menos
+segura de leme, ou impulso errado de vara. <br />
+
+<br />
+
+E ent&atilde;o, cabe&ccedil;os enormes d'um lado e d'outro,
+projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e
+desconforme, que mais triste fazia o
+sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente,
+fazendo limitada a paizagem. <br />
+
+<br />
+
+A todo o comprimento da margem, o rebanho p&ocirc;z-se
+ent&atilde;o a beber manso e manso, e sem o minimo ruido. <br />
+
+<br />
+
+Foi quando o Gon&ccedil;alo acabou de se convencer que na margem de
+l&aacute;, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&aacute;te, Gon&ccedil;alo! Aquella chocalhada... <br />
+
+<br />
+
+E immovel, remordendo o labio, com o ouvido &aacute; escuta,
+pensava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se ser&aacute; ella?... <br />
+
+<br />
+
+Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um
+clar&atilde;o de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como
+elle, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito
+n&atilde;o
+vira. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo. <br />
+
+<br />
+
+E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, p&ocirc;z-se
+attentamente &aacute; escuta do tilintar dos chocalhos na margem
+opposta. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[5]</span>
+&laquo;O rebanho parecia o mesmo, l&aacute; isso... Agora o
+pastor &eacute; que podia ser outro que n&atilde;o a
+Rosaria...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Sen&atilde;o quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de
+contente. Atirou ao ch&atilde;o a manta e o marmeleiro, e puxando
+para deante o
+bornal, feito da pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou
+de l&aacute;
+a sua flauta e p&ocirc;z-se a tocar apressadamente um trecho de
+cantiga
+rustica. <br />
+
+<br />
+
+No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ehl&agrave;, Gon&ccedil;alo, &eacute;s? <br />
+
+<br />
+
+O pastor desatou a rir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uhl&aacute;, Rosaria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona! <br />
+
+<br />
+
+E logo a voz fresca da rapariga lembrou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te esqueceu a moda, rapaz! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso esquece ella!... Ouviste, Rosaria?&#8213;Se outra fosse que m'a
+tivesse ensinado... <br />
+
+<br />
+
+N'este meio tempo j&aacute; o Gon&ccedil;alo retomara a manta e
+o marmeleiro para ir ter com a Rosaria. Mas primeiro perguntou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boto pela ponte, ou &eacute;s tu que vens, &oacute; cachopa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem tu d'ahi. Por c&aacute; sempre &eacute; outra coisa
+p'r'as ovelhas. Han? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[6]</span>
+E dando o signal da partida, o Gon&ccedil;alo p&ocirc;z-se em
+marcha. D'ahi a pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte
+moirisca, toda severa de
+construc&ccedil;&atilde;o nos seus tres arcos
+lan&ccedil;ados sem elegancia, atufados de parasitas seculares que
+a faziam pittoresca, heras, silvas, ortigas bravas. <br />
+
+<br />
+
+A meio da ponte, m&atilde;o piedosa fizera construir pequeno
+oratorio ao Senhor Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades
+de arame, diziam
+dar coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde
+nicho com respeito se descobrissem, e com devo&ccedil;&atilde;o
+rezassem uma velha prece que era como um talisman precioso para livrar
+de maiores desgra&ccedil;as&#8213;naufragios no rio, e ent&atilde;o
+maus
+encontros por aquelles caminhos escabrosos, que eram um perigo
+constante para homens e
+animaes. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco, as duas crean&ccedil;as estavam perto uma da outra,
+cada qual seguida do seu rebanho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora viva a Rosaria!&#8213;disse o pastor muito alegre, parando defronte da
+cachopa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, Gon&ccedil;alo; ent&atilde;o que ventos? <br />
+
+<br />
+
+Entre os dois travou-se ent&atilde;o um longo dialogo em que se
+contaram tudo o que haviam feito desde aquelle dia em que ambos tinham
+voltado juntos
+da feira dos Cani&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por signal que nem rez se vendeu!&#8213;lembrou o Gon&ccedil;alo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por signal!&#8213;disse com pena a Rosaria. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[7]</span>
+Mas elle contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na
+f&eacute; que a encontrava. &laquo;V&ecirc;l-a agora,
+s&oacute; por
+milagre de santo; quem o havia de sonhar! Nanja elle...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se eu estive t&atilde;o doente!&#8213;volveu triste a Rosaria. <br />
+
+<br />
+
+E como o outro acudiu a informar-se, ella explicou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Umas quart&atilde;s que me tiveram mondada! A peste as mate!
+Febre que era mesmo lume desde manh&atilde; at&eacute; ao
+escurecer... Uma
+assim! <br />
+
+<br />
+
+E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gon&ccedil;alo que muitas
+vezes, na febre, sonhara com elle, que se encontravam os dois por
+montes e
+prados, como agora tinha acontecido, &laquo;tal e qual&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim te Deus salve, &oacute; Rosaria?&#8213;atalhou rapido o pastor,
+a quem enchiam de orgulho os sonhos d'aquella pequena amiga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim; pois que duvida?&#8213;tornou-lhe confiada a Rosaria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o!&#8213;disse agastado o Gon&ccedil;alo.&#8213;N&atilde;o
+has-de dizer assim... Diz certo, has-de jurar direito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois assim me Deus salve... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute; verdade...&#8213;Diz tudo, Rosaria!&#8213;supplicava o
+pastor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, volveu-lhe paciente a companheira,&#8213;como &eacute; verdade
+que sonhava que nos encontravamos&#8213;concluiu por fim, muito risonha. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[8]</span>
+E sem disfar&ccedil;ar o jubilo, prestes o Gon&ccedil;alo a
+certificou de que tambem n&atilde;o a esquecera. &laquo;Tanto
+&eacute; que tirava da
+frauta as cantigas todas que ella lhe tinha ensinado.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembras-te? <br />
+
+<br />
+
+A Rosaria faz que sim com a cabe&ccedil;a. E logo, batendo na
+frauta de sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sahem d'aqui sem falhar uma.&#8213;E resoluto:&#8213;V&aacute; feito,
+Rosaria, pede por bocca! <br />
+
+<br />
+
+A Rosaria pediu ent&atilde;o a <em>Pastorinha</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu &eacute; da que mais gosto,&#8213;explicou.&#8213;&Eacute; a mais
+linda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute;!&#8213;concordou o Gon&ccedil;alo.&#8213;Ora escuta
+l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E levando aos labios a avena, p&ocirc;z-se a tocar a <em>Pastorinha</em>,
+emquanto a Rosaria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a
+lettra: <br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Onde <em>v&aacute;s</em>,
+&oacute;
+Pastorinha,<br />
+
+Ai-li, ai-li, ai-li,
+ai-l&eacute;... </div>
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes essa! &Eacute; mesmo assim!&#8213;disse-lhe a Rosaria a rir-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; como v&ecirc;s!&#8213;affirmou contente o
+Gon&ccedil;alo. <br />
+
+<br />
+
+Aos seus p&eacute;s tinham-se deitado os rafeiros, e j&aacute;
+os dois rebanhos, confundidos, andavam na pastagem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha as ovelhas juntas!&#8213;notou o Gon&ccedil;alo. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[9]</span> &#8213;Tambem n&oacute;s nos qued&aacute;mos juntos,&#8213;volveu-lhe a
+pequena, sorrindo.&#8213;As pobres d&atilde;o-se bem, s&atilde;o
+amigas...&#8213;continuou com
+jubilo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&oacute;s tambem, ora tambem, Rosaria? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem&#8213;respondeu afoita a pastora. <br />
+
+<br />
+
+E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denuncias.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A esse tempo, no c&eacute;o alto e lavado a estrella d'alva
+fenecera por fim, e o horisonte come&ccedil;ava de carminar-se ao
+de leve. Por todo o
+c&eacute;o em cupula, a luz fresca e viva da manh&atilde;
+vibrava harmonias
+extranhas que iam despertar tudo, a c&ocirc;r da paizagem e a
+musica dos ninhos,
+cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos.
+Manh&atilde; de
+ver&atilde;o, serena, tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um
+movimento extraordinario de azas&#8213;passarada alegre que sahia agora dos
+ninhos e voava a matar a
+s&ecirc;de &aacute; borda das ribeiras, andorinhas que deixavam
+as suas
+casinholas em reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convisinhos
+onde a
+vegeta&ccedil;&atilde;o era mais rica de seiva e mais facil a
+presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte,
+tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques
+verdejantes, gente em
+mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em
+torcic&oacute;llos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo
+machos carregados de taleigos, e berrando-lhes cada <em>ch&oacute;</em>!
+que se ouvia na outra
+ladeira. J&aacute; nas povoa&ccedil;&otilde;es proximas
+sinos chamavam para a
+missa d'alva ou tocavam a Ave-Marias. Nas quintas e casas fumegavam os
+tectos, dizendo
+<span class="pagenum">[10]</span>
+horas de almo&ccedil;o. De modo que o sol quando
+rompeu, solemne e
+triumphante no c&eacute;o immaculado, encontrou muita vida pelos
+campos, toda a natureza acordada
+para a labuta interminavel do dia. N'uma clareira elevada, dominando o
+rio e um trecho de paizagem para sul, tinham-se sentado os dois
+pastores e continuavam conversa. <br />
+
+<br />
+
+Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua
+c&ocirc;r trigueira levemente pallida desde que tivera as maleitas.
+N&atilde;o se lembrava com que santa que elle tinha visto se lhe
+parecia agora a Rosaria... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o cabello assim cortado...&#8213;disse com magua, mirando-lhe a
+cabe&ccedil;a nua, e passando a m&atilde;o pela
+d'elle,&#8213;&eacute; que te
+n&atilde;o fica bem! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Melhor f&ocirc;ra que lhe tivessem deixado as
+tran&ccedil;as. Negras, de mais a mais, que era como elle
+gostava...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Promessa da m&atilde;e se eu melhorasse&#8213;explicou a
+Rosaria&#8213;Lembran&ccedil;as... A gente quando est&aacute;
+afflicta... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...Quando est&aacute; afflicta...&#8213;repetiu como um echo o
+pequeno. E depois, amuado:&#8213;Se promette os olhos... <br />
+
+<br />
+
+A rapariga fitou-o, espantada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...&eacute; porque t'os tirava!&#8213;concluiu convicto. <br />
+
+<br />
+
+Houve um momento de silencio, em que o Gon&ccedil;alo se
+p&ocirc;z a escavar o ch&atilde;o com uma pedra, e a Rosaria a
+torcer um fio saliente do seu vestido grosseiro. Ouviam-se as ovelhas
+chocalhando nas pastagens, ia a passar na rodeira, longe, um carro que
+chiava, com uvas para algum lagar. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[11]</span> &#8213;N&atilde;o fallas, Rosaria?&#8213;perguntou o pastor sem levantar os
+olhos para ella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem tu...&#8213;come&ccedil;ou com medo a pequena,&#8213;logo te zangas!
+Olhem a lembran&ccedil;a dos olhos! Se a m&atilde;e fazia isso,
+credo!&#8213;E depois animando-se:&#8213;J&aacute; foste &aacute; Senhora
+dos Remedios? <br />
+
+<br />
+
+O Gon&ccedil;alo fez signal que n&atilde;o tinha ido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois foi l&aacute; que deix&aacute;mos as tran&ccedil;as,
+eu mais a m&atilde;e. N'um prego ao lado do altar, um lacinho verde
+nas pontas. Ficou lindo. <br />
+
+<br />
+
+O pastor teve um movimento de enfado, n&atilde;o lhe agradava a
+conversa. E para acabar com ella: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que emfim como melhoraste...&#8213;fez que concordava, pondo o bilro a
+girar.&#8213;Olha como dan&ccedil;a...&#8213;E depois, mais pensativo,
+batendo com o bilro nos dentes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &aacute;s vezes as promessas pouco fazem...&#8213;E
+interrompendo:&#8213;Sabes quem fez este bilro? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foste tu, aposto. <br />
+
+<br />
+
+Bateu no peito e fez com a cabe&ccedil;a que sim, mostrando-lh'o
+orgulhoso&#8213;&laquo;que visse os <em>torneados</em>.&raquo;
+Depois
+continuou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae uma pessoa andando e os santos n&atilde;o se importam. Ora,
+os santos!&#8213;Olha a minha Joaquina, tu n&atilde;o conheceste. A
+gente
+bem resou e bem promessas fez, mas ella foi-se. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+E pondo-se de joelhos, come&ccedil;ou a procurar pelo rebanho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquella ovelha, a branca, n&atilde;o v&ecirc;s? A que se vae
+agora deitar... Pois era p'ra Nossa Senhora, repara que &eacute; a
+melhor.&#8213;E
+deitando-se para traz:&#8213;L&aacute; anda ella a pastar!&#8213;concluiu
+desalentado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tinha de ser,&#8213;volveu-lhe triste a Rosaria,&#8213;que as promessas
+sempre fazem, l&aacute; isso... <br />
+
+<br />
+
+E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o
+Gon&ccedil;alo de que sempre valiam as promessas. No emtanto,
+deitado de costas, com a
+jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em angulo tocando-se com os
+joelhos, o Gon&ccedil;alo soprava pela palha o bugalhinho que
+constantemente ia subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do
+c&atilde;o
+que ali perto se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a
+Rosaria ia entretendo o pastor. Mas quando ella fazia pausa, logo o
+rapaz acudia, firme na sua objec&ccedil;&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que o sol ia subindo, no c&eacute;o glorioso e
+fulvo, iam os dois conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados,
+para se livrarem da
+estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia,
+que foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os
+pinheiraes, depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros
+levaram de conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado
+f&eacute; que as
+horas passassem t&atilde;o depressa.
+<span class="pagenum">[13]</span>
+Ainda armaram aos passaros,
+mas foi
+o mesmo que nada, os demonios andavam espantados e j&aacute;
+conheciam as
+esparrellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha l&aacute; n&atilde;o caiam,&#8213;tinha dito o
+Gon&ccedil;alo, j&aacute; can&ccedil;ado de estar
+&aacute; espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao
+dedo.&#8213;Se elles fossem tolos... <br />
+
+<br />
+
+E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella
+ent&atilde;o propoz que jogassem a pocinha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o fito, &oacute; Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos
+domingos de tarde, bato-me com qualquer, sabias? <br />
+
+<br />
+
+E generoso:&#8213;Mas a ti dou te partido: vinte e cinco &aacute;s
+quarenta... <br />
+
+<br />
+
+Como o tempo rendia, jogaram tudo&#8213;a pocinha, o fito, as necas, a
+bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia &aacute;
+m&atilde;o, era elle que ia buscar o pausinho, quando zinia longe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Turco, traz c&aacute;! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo c&eacute;o
+esmorecia no seu azul suavissimo. Em todo o espa&ccedil;o o ar
+estava tranquillo e
+sereno, e j&aacute; come&ccedil;ava para poente a
+decora&ccedil;&atilde;o
+phantastica do occaso. Parece que se ouvia mais distincto o marulhar
+das aguas no rio; j&aacute;
+n&atilde;o faiscava assim t&atilde;o viva a areia branca das
+margens. <br />
+
+<br />
+
+Foi quando o Gon&ccedil;alo lembrou que era melhor irem-se
+chegando, mais as ovelhas, para as terras onde tinham de
+<span class="pagenum">[14]</span>
+pernoitar. E
+fitando fixamente
+os olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste? <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ora que lhe custava a ella! J&aacute; que as ovelhas
+tinham andado juntas todo o santo dia, que mais era que dormissem no
+mesmo curral, essa
+noite?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o mais, &oacute; Rosaria?&#8213;perguntou de novo com interesse. <br />
+
+<br />
+
+A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor n&atilde;o cessava de a
+olhar, respondeu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem.&#8213;E sorriu-se.&#8213;Pois eu... <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; depois d'esta segunda promessa o Gon&ccedil;alo se
+levantou, e deu o signal de partida, assobiando aos c&atilde;es. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
+ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
+areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz
+alaranjada tremeluzia, tirando &aacute; agua a sua translucidez
+normal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bonito!&#8213;fez notar o pastor. <br />
+
+<br />
+
+A Rosaria explicou logo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o as moiras a ca&ccedil;ar com redes d'oiro, sabias?
+<br />
+
+<br />
+
+Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam &aacute;
+fl&ocirc;r da corrente as cabe&ccedil;as dos dois rapazotes do
+moleiro. Dentro da <em>chata</em>
+que vogava serenamente, a m&atilde;e
+<span class="pagenum">[15]</span>
+com o mais novito ao collo
+n&atilde;o
+os perdia de vista, emquanto o pae, em mangas de camisa, de
+p&eacute; n'um topo de
+fraga, lhes ia ensinando as <em>manobras</em>. Ao fundo,
+tres vitellas
+passavam o rio a vau, muito devagar, parando a espa&ccedil;os,
+alongando o
+pesco&ccedil;o para a veia d'agua serena, bebendo mansamente. Sobre
+o vitello das malhas brancas, o guardador cantarolava, acenando com o
+chapeu ao
+moleiro&#8213;&laquo;boas tardes! boas tardes!&raquo; Ao sahir da
+ponte, o rebanho teve de se
+affastar um pouco do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa
+fila de machos carregados, tilintando campainhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus pequenos! cumprimentou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venha com Deus!&#8213;tornaram-lhe ambos. <br />
+
+<br />
+
+E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
+confraternisavam os c&atilde;es como bons e leaes amigos.
+&Aacute; frente, o Gon&ccedil;alo ia tocando na flauta o mesmo
+que a Rosaria cantava. O brando rumor dos chocalhos, que se levantava
+de todo o rebanho, casava-se com a musica, fundindo-se n'uma nota
+subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada... <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal
+rasteiro, e ent&atilde;o, parando um momento, o Gon&ccedil;alo
+perguntou,
+collocando na sua frente a Rosaria, e pondo-lhe &aacute; cara a
+flauta, na
+direc&ccedil;&atilde;o em que devia olhar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;s al&eacute;m... n'este direito? Rez-vez do
+castanheiro, n&atilde;o enxergas? <br />
+
+<br />
+
+A outra fez que sim com um gesto, e interrogou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; ali? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span> &#8213;Ali mesmo&#8213;volveu-lhe j&aacute; de marcha. <br />
+
+<br />
+
+E repoisando a m&atilde;o direita sobre o hombro esquerdo da
+rapariga, repetiu-lhe muito contente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; mesmo al&eacute;m. <br />
+
+<br />
+
+N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o
+espa&ccedil;o que as ovelhas tinham de occupar essa noite. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falta pouco; a gente vae pelo atalho que &eacute; s&oacute;
+mau p'ra quem passa a cavallo. <br />
+
+<br />
+
+E como elle ia expansivo, e a companheira n&atilde;o dava palavra,
+quiz ent&atilde;o saber: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s triste, &oacute; Rosaria? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Triste... n&atilde;o. J&aacute; agora... tem de
+ser&#8213;volveu-lhe cabisbaixa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Huum! Arrependeu-se...&#8213;volveu comsigo o pastor. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes.
+Gado para dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle
+ainda trazia
+azeitonas, um naco de queijo, p&atilde;o. Mal acabaram de comer, o
+Gon&ccedil;alo apontou para a cabana que ficava alli perto, e
+propoz que se deitassem:
+estavam mo&iacute;dos da soalheira de todo o dia e da caminhada
+agora. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span>
+Quando o Gon&ccedil;alo e a Rosaria entraram na cabana e se
+deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a
+cabe&ccedil;a
+um do outro os bornaes que faziam de travesseiro, cerr&aacute;ra de
+todo a
+noite, e formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida
+no azul indefinido do c&eacute;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E os lobos?&#8213;perguntou a Rosaria com medo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha perigo&#8213;tranquilisou-a o Gon&ccedil;alo.&#8213;Isso
+&eacute; l&aacute; com os c&atilde;es. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos
+chocalhos. A ladrar, os c&atilde;es faziam echo. O rebanho devia
+dormir profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada
+toda a Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum
+tempo, n'um ciciar brando de vozes, at&eacute; que por fim,
+vencidos da
+fadiga, se deixaram adormecer,&#8213;quando a historia das moiras encantadas
+ia no seu melhor episodio... <br />
+
+<br />
+
+E l&aacute; no alto c&eacute;o, mesmo sobre a cabana, a
+estrella da tarde n&atilde;o era nem mais pura nem mais luminosa do
+que a alma simples e boa d'aquellas duas
+crean&ccedil;as... <br />
+
+<br />
+
+Quando ao repontar da manh&atilde; se levantaram, e sahiram a
+v&ecirc;r o c&eacute;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bonito dia, Gon&ccedil;alo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bonito dia, Rosaria! Olha... <br />
+
+<br />
+
+...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
+voando... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c2"></a>SULT&Atilde;O </h3>
+
+<h4>
+(Copiado do Natural) </h4>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Ao meu Henrique e a
+Beldemonio, seu amigo</em>.</div>
+
+<br />
+
+<h4>I </h4>
+
+<br />
+
+Ao cair da tarde, o Thom&eacute; da Eira entrava em casa,
+can&ccedil;ado, esfalfado de andar um dia inteiro a mourejar no
+campo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meus peccados, boa tarde!&#8213;dizia elle para a mulher, com um sorriso a
+affectar seriedade. <br />
+
+<br />
+
+Vinha logo o pequeno, o Manuel, de m&atilde;os postas pedindo-lhe a
+ben&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus te aben&ccedil;oe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pae, olhe que o &laquo;Sult&atilde;o&raquo;... ia a dizer
+o pequeno. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei! atalhava logo o Thom&eacute;.&#8213;O
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo; &eacute; um maroto e tu
+&eacute;s outro. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de
+<em>meia-lua</em>, que lhe custara um pinto havia bons
+quinze annos, e abria a
+gaveta do p&atilde;o, o Thom&eacute; punha-se a fazer de
+interesseiro comsigo mesmo, resmungando alto p'ra que a mulher o
+ouvisse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que por este caminho n&atilde;o tenho um dia
+descan&ccedil;ado... Nem uma hora... <br />
+
+<br />
+
+Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...Pois vamos j&aacute; que j&aacute; era tempo... Porque
+p'ra mim ha de chegar... A modos que vou j&aacute;
+can&ccedil;ando... <br />
+
+<br />
+
+Mas o Thom&eacute; n&atilde;o era homem que dissesse estas
+coisas de cora&ccedil;&atilde;o. Pareciam-lhe longos,
+interminaveis, os aborrecidos domingos que passava
+sem ir campos f&oacute;ra, madrugador como um melro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thom&eacute;
+encolhendo os hombros, como quem est&aacute; desgostoso com um
+genio assim. <br />
+
+<br />
+
+Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
+cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
+que dava para a rua, arrega&ccedil;ado, em mangas de camisa, muito
+&aacute; vontade. <br />
+
+<br />
+
+Costume velho do Thom&eacute;:&#8213;mal se sentava, mastigando o
+&laquo;boccado&raquo;, dizia logo para o filho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouves, Manuel? Bota c&aacute; f&oacute;ra o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
+nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roli&ccedil;os, e punha-se
+a pular de contente, dizendo c&aacute; da rua: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! Sae c&aacute; p'ra
+f&oacute;ra, &laquo;Sult&atilde;o&raquo;! <br />
+
+<br />
+
+No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
+baixa, destacava-se ent&atilde;o a cabecita parda de um jumento,
+orelhas em riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um
+movimento moroso de
+palpebras pestanudas... <br />
+
+<br />
+
+E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
+pernas delgadas, a olhar o Thom&eacute; que o chamava,&#8213;um grande
+riso de alegria nas fei&ccedil;&otilde;es amorenadas, contente
+de ver o
+seu &laquo;Sult&atilde;o&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+Mas o pequeno jumento n&atilde;o avan&ccedil;ava um passo,
+divertindo-se em arreliar o Thom&eacute;, fitando-o com um ar
+estagnado. Altivo na sua nobre
+linha de quadrupede de boa ra&ccedil;a, alguem lhe poderia
+l&ecirc;r no
+olhar, mole e impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o
+dono... <br />
+
+<br />
+
+Mas era &aacute;quillo mesmo que o bom do lavrador achava
+gra&ccedil;a. E punha-se ent&atilde;o a fallar muito serio,
+entre resignado e cortez, para o
+pequeno e desdenhoso jumento&#8213;o p&atilde;o e o queijo esquecidos
+n'uma das
+m&atilde;os, na outra a navalha de <em>meia-lua</em>: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, &laquo;Sult&atilde;o&raquo;,
+n&atilde;o vens? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! parecia responder-lhe o animal. E abstracto,
+continuava a envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia
+d'aquella immobilidade de estatua, apenas
+<span class="pagenum">[22]</span>
+de quando em quando uma
+pequenina
+patada na soleira, zap! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Zangado, &laquo;Sult&atilde;o&raquo;? perguntava o
+lavrador.&#8213;De mal comigo? <br />
+
+<br />
+
+E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir &aacute;
+vontade...&#8213;que n&atilde;o fosse vel-o o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;... Mettia entre dentes um
+pedacito de queijo, logo uma codea de p&atilde;o, e fazendo umas
+grandes rugas na testa, de quem come&ccedil;a a zangar-se,
+voltava-se
+ent&atilde;o muito serio: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ficas ahi, &laquo;Sult&atilde;o&raquo;? J&aacute;
+n&atilde;o &eacute;s meu amigo? <br />
+
+<br />
+
+O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pesco&ccedil;o,
+parece que fazendo-se humilde... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o se &eacute;s, anda d'ahi. Olha...&#8213;E mostrava um
+pedacito de p&atilde;o.&#8213;P'ra ti se vieres... <br />
+
+<br />
+
+O &laquo;Sult&atilde;o&raquo; dava tres passos, e ficava
+f&oacute;ra do cortelho. E por se vingar, o Thom&eacute;
+carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada,
+e erguendo o rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto,
+affirmando que
+j&aacute; lhe n&atilde;o dava o p&atilde;o. E
+desfechando-lhe emfim a
+amea&ccedil;a de o vender a um cigano, entrava a tratal-o por
+senhor&#8213;<em>s&ocirc;r</em>
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;... <br />
+
+<br />
+
+Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
+baixas, pesco&ccedil;o cahido, a modo de arrependido, parece que
+pedindo perd&atilde;o da arrelia. <br />
+
+<br />
+
+Nervoso, sapateando, o Thom&eacute; voltava a cara para a outra
+banda, a rir como um perdido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diabo do gerico! diabo do rat&atilde;o! Capaz &eacute; elle
+de
+<span class="pagenum">[23]</span>
+fazer rir as pedras, o mariola!&#8213;E tossia de engasgado, uma
+migalhita de queijo na guela. <br />
+
+<br />
+
+No emtanto, o &laquo;Sult&atilde;o&raquo; ia
+avan&ccedil;ando, muito ronceiro, at&eacute; que tocava com o
+focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thom&eacute;
+sacudia-o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sae-te p'ra l&aacute;! dizia elle muito amuado, sem se
+voltar.&#8213;Cuidas talvez que te n&atilde;o conhe&ccedil;o,
+cuidas? J&aacute; te
+n&atilde;o quero, vae-te! <br />
+
+<br />
+
+Mas como que irreflectidamente, fingindo n&atilde;o querer,
+chegava-lhe ao focinho um pedacito do p&atilde;o, o melhor da
+fatia.
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo; lan&ccedil;ava um olhar
+obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o
+bei&ccedil;o superior, a tremer, e roubava-lh'o da m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Pazes feitas! Era ent&atilde;o rir a perder, n'umas casquinadas
+agudas, muito estridulas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.<sup>a</sup>
+Josefa.&#8213;At&eacute; pareces doido! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; assim rouba seu dono? Diga! Voc&ecirc; assim rouba
+seu dono? perguntava o Thom&eacute;, n'uns grandes gestos.&#8213;Vamos
+que eu lhe
+n&atilde;o queria dar da merenda? Ladr&atilde;o, de mais a
+mais!... Ora bem! agora brinque. <br />
+
+<br />
+
+Era precisamente o que o Thom&eacute; queria:&#8213;ver o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo; a brincar. <br />
+
+<br />
+
+...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
+lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe
+consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes
+causticantes e chuvas torrenciaes. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[24]</span>
+Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das
+&laquo;partidas&raquo; e &laquo;diabruras&raquo; do
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! &Aacute;s vezes, o pequeno
+jumento, ferido n&atilde;o sei por que vespa invisivel, despedia
+sem mais
+nem menos n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras,
+agitando a cauda, por aquella rua f&oacute;ra. Rompia de toda a
+banda n'um
+alarido o rancho pacifico das galinhas, que j&aacute; no ar andavam
+como
+doidas, cacarejando, como se um p&eacute; de vento as levasse.
+Accudia
+gente aos postigos, &aacute;s portas, &aacute;s janellas, a ver
+a
+polvorosa; e subito se inundava a rua de rapazes, rotos,
+descal&ccedil;os, alguns quasi
+n&uacute;s, correndo atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe,
+espantando-o&#8213;como se o mesmo vento de folia os houvesse varrido a
+todos, varrendo a propria rua... E um l&aacute; ia a terra, e sobre
+esse passavam os outros,
+e sobre todos voava o &laquo;Sult&atilde;o&raquo;, apupado,
+perseguido, acclamado, na malta espavorida dos inimigos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! eh l&aacute;!
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! <br />
+
+<br />
+
+Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
+volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga,
+n&atilde;o lhe desse na b&ocirc;lha atacal-os... E abriam alas
+de repente, quando
+elle, tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se
+n&atilde;o deixar atropellar investia com o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo; de bra&ccedil;os abertos, o
+que era, j&aacute; se v&ecirc;, um modo de o
+abra&ccedil;ar,
+fingindo medo. E vinham as gargalhadas estridulas, os rogos para que
+pozesse treguas, as supplicas para que se
+accommodasse, recuando o lavrador at&eacute; ao ultimo degrau da
+escada, onde se deixava cair,&#8213;derrotado! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;P'ra l&aacute;, &laquo;Sult&atilde;o&raquo;! p'ra
+l&aacute;! fazia ent&atilde;o o Thom&eacute;, oppondo-lhe
+os p&eacute;s, desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito
+inclinado para traz, a
+rir como um perdido. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[25]</span>
+Ent&atilde;o o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes
+rompia a girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as
+patas,
+cauda no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thom&eacute;
+solicito
+dava aos rapazes o aviso de se arredarem&#8213;&laquo;porque era doido,
+aquelle
+demonio&raquo;!... <br />
+
+<br />
+
+Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito
+cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um
+c&atilde;o, certa mulher que passava. At&eacute; que
+l&aacute; ia uma
+focinhada, e logo ap&oacute;s os saltos do costume, respondendo com
+uma amea&ccedil;a de pinotes
+&aacute; surpresa da viandante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&ecirc;, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de l&aacute; o
+Thom&eacute;, com ares de zangado. E depois, batendo o
+p&eacute;, pedindo que lhe dessem uma
+verdasca:&#8213;&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! venha j&aacute;
+p'r'aqui! intimava. <br />
+
+<br />
+
+E se encontrava um c&atilde;o? Se encontrava um c&atilde;o, ia
+logo direito a elle, muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um
+cumprimento humilde de focinho. O c&atilde;o regougava,
+desconfiado, entreabrindo a
+dentu&ccedil;a, preparando a sua dentada. N&atilde;o dava o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo; signaes de medo, e humilde
+proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava
+um passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada
+ganhava o terreno perdido&#8213;fitando impassivel o c&atilde;o... O
+bruto formava ent&atilde;o o salto, regougando forte, o
+p&ecirc;llo
+eri&ccedil;ado; e ao investir para a primeira dentada, salvava-o de
+um pulo o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;, evitando-o, at&eacute; que
+por compaix&atilde;o lhe dava um pequenino coice, &laquo;mais
+feitio que outra coisa&raquo;, pondo em fuga o mastim, corrido,
+ganindo, vencido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh! valente! gritava-lhe ent&atilde;o o Thom&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[26]</span>
+E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo
+ao correr a caravelha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve! <br />
+
+<br />
+
+E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thom&eacute; da Eira ia
+para a cama sem primeiro descer a v&ecirc;r o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;,&#8213;de candeia na m&atilde;o
+esquerda, e na direita, contra o sovaco, a bella quarta do
+gr&atilde;o, acogulada.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thom&eacute; a vel-o comer, de
+candeia attenta, encostado &aacute; mangedoira, sorrindo: e, de
+cima, a
+sr.<sup>a</sup> Josefa tinha de intervir ent&atilde;o,
+gritando-lhe pelas
+frinchas do
+sobrado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Thom&eacute;, v&ecirc; se te vens deitar, meu pasmado! olha
+que s&atilde;o horas. <br />
+
+<br />
+
+E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que
+fallou,&#8213;historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto
+que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo
+desgosto que o &laquo;Sult&atilde;o&raquo; lhe
+n&atilde;o respondesse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boas noites! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao
+cortelho, de manh&atilde; cedo, e n&atilde;o encontrou o burro.
+Ficou parvo! Poz-se a mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme,
+e al&eacute;m de enorme&#8213;gelada... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[27]</span> &#8213;&Oacute; Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.&#8213;&Oacute;
+Josefa! <br />
+
+<br />
+
+A mulher assomou &aacute; janella, sobresaltada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres apostar que me roubaram o burro, &oacute; mulher?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que te roubaram o qu&ecirc;? fez a sr.<sup>a</sup>
+Josefa, muito attonita. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O burro, o &laquo;Sult&atilde;o&raquo;! Vem c&aacute;
+ver que m'o roubaram! <br />
+
+<br />
+
+E como ao tempo acudira j&aacute; o Manoel, em camisa,
+descal&ccedil;o, romperam todos tres na gritaria, defronte do
+cortelho vazio: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; d'el-rei! &Aacute; d'el-rei! &Aacute; d'el-rei! <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; que o regedor, que era compadre, intervindo
+estremunhado, poz na peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que
+compareceram. <br />
+
+<br />
+
+Mas em v&atilde;o! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e
+desfechando ao peito abatido do Thom&eacute; a negra e vazia
+palavra: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada!... <br />
+
+<br />
+
+<h4>II </h4>
+
+<br />
+
+Dois annos depois. Tarde d'agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
+eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e
+embaciavam
+<span class="pagenum">[28]</span>
+ainda o poente as suaves, brandas
+pulverisa&ccedil;&otilde;es doiradas da ultima luz do sol.
+Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao
+rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo,
+raiado de listr&otilde;es de uma
+colora&ccedil;&atilde;o leve de laranja. Pequenos
+algod&otilde;es transparentes, com alvuras de neve,
+cortavam aqui e al&eacute;m, alegremente, a monotonia profunda do
+azul. N'um
+deslado, sob os castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a
+torre branca da
+igreja, as paredes caiadas da escola. <br />
+
+<br />
+
+A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava
+&aacute;quella hora o aspecto tranquillo e de paz de uma grande
+officina em repouso. Poucas &laquo;m&ecirc;das&raquo;, iam
+no fim as colheitas: mais
+uma semana, duas quando muito, e estaria tudo recolhido. J&aacute;
+sobre a palha das
+&laquo;parvas&raquo; ou ao sop&eacute; das
+&laquo;m&ecirc;das&raquo; altas, entre os utensilios da
+trilha e a crean&ccedil;ada estridula que brincava, os da lavoura
+descan&ccedil;avam&#8213;vermelhos da soalheira
+intensa de todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito
+n&uacute;,
+arrega&ccedil;ados os bra&ccedil;os musculosos, n'uma
+prostra&ccedil;&atilde;o
+regalada de matilha que alfim tem a sua hora de socego, ap&oacute;s
+um dia de ca&ccedil;ada.
+Parecem prostrados da fadiga os proprios malhos, os trilhos, as
+p&aacute;s, os
+&laquo;baleios&raquo; que levaram todo o santo dia varrendo o
+ch&atilde;o em volta das
+&laquo;parvas&raquo;. E aqui e ali, dando uma
+sensa&ccedil;&atilde;o agradavel de fartura,
+perfilam-se os altos saccos no meio das rasas, extravasando de
+gr&atilde;o. Al&eacute;m, gente
+em mangas de camisa, ao redor de um grande mont&atilde;o de palha
+triturada, vae
+&laquo;limpando&raquo;&#8213;visto que sopra um
+&laquo;ventinho&raquo;. E sente-se sobre as
+p&aacute;s a chuva do gr&atilde;o, ao mesmo tempo que a palha,
+voando, faz monte da outra banda, e os &laquo;baleios&raquo;,
+em m&atilde;os de mulheres,
+n&atilde;o cessam de arrebanhar o gr&atilde;o, varrendo em roda
+n'um afan... Em certo ponto, carros vasios; um
+al&eacute;m, de altissimas &laquo;angarellas&raquo;, vae-se
+enchendo de palha;
+emquanto outros, atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas
+<span class="pagenum">[29]</span>
+mais
+baixas, estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos
+bois gigantes. <br />
+
+<br />
+
+Eiras al&eacute;m, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha,
+levas de bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes,
+caudas oscilantes afagando nas ancas espa&ccedil;osas o luzidio
+p&ecirc;llo. E l&aacute; v&atilde;o encosta abaixo,
+ro&ccedil;ando pelos troncos asperos dos
+castanheiros a enorme corpolencia, fartar o largo bandulho &aacute;
+serena agua das
+ribeiras, sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
+monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam,
+submissa... <br />
+
+<br />
+
+Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
+cantava alegremente, em c&ocirc;ro. Acabara de ensacar-se o ultimo
+gr&atilde;o da farta colheita do Thom&eacute; da Eira. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.&#8213;A primeira
+da aldeia! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual? isso sim! v&atilde;o voc&ecirc;s v&ecirc;r a tulha.
+Muita palha, &eacute; que voc&ecirc;s h&atilde;o de dizer,
+muita palha e pouco gr&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as
+mangas arrega&ccedil;adas pelos cotovelos, O Thom&eacute; ia e
+vinha, dando ordens, repetindo avisos, distribuindo aqui e
+al&eacute;m as ultimas
+tarefas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vae um sacco, &oacute; tu! &Eacute; p'r'as
+&laquo;rabeiras&raquo;. Que n&atilde;o fique nem um
+gr&atilde;o, ouviram? &Eacute; aviar, toca a aviar! Cautela que
+n&atilde;o fique por ahi alguma coisa esquecida: essas
+p&aacute;s, esses
+&laquo;baleios&raquo;, tudo isso. Margarida! &oacute;
+Margarida! qu'&eacute; da tua rasa? Deixa!
+se vae no carro est&aacute; bem. <br />
+
+<br />
+
+E era como um doido a metter-se no servi&ccedil;o de todos,
+<span class="pagenum">[30]</span>
+muito
+expedito, loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se
+n&atilde;o
+deixassem agora dormir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos l&aacute;! vamos l&aacute;! As p&aacute;s,
+&oacute; tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma, que eu depois te
+ensinarei, ouviste?&#8213;Que faz ahi no ch&atilde;o
+esse &laquo;rasouro&raquo;, &oacute; coisa?&#8213;Olha p'r'o que
+est&aacute;s a fazer, tu: esses saccos que fiquem bem atados. <br />
+
+<br />
+
+O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, j&aacute; de
+&laquo;aguilhada&raquo; no ar, se era preciso mais alguma
+coisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, p&oacute;des ir. Ouves? l&aacute; em casa que
+tenham a ceia a horas. Avia-te. Ouves, Francisco? N&atilde;o piques
+os bois, a carrada &eacute;
+valente. A passo, deixa ir os animaes a passo. Vae-te. <br />
+
+<br />
+
+Como o carro chiava, levantou a voz para dizer: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, n&atilde;o
+ouves? Os bois para o lameiro. <br />
+
+<br />
+
+Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:&#8213;&laquo;seria
+preciso vir por elles?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vale a pena, l&aacute; ir&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os
+levava, aquelles dois saccos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com mil demonios! Apostar que voc&ecirc;s n&atilde;o
+adivinham? <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Elles sabiam l&aacute;?... Quem quer podia levar os dois
+saccos, olhem agora!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[31]</span> &#8213;O &laquo;Sult&atilde;o&raquo;, sabem? o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! Esse &eacute; que os
+levava. E digo-vos ent&atilde;o que valia o dobro a colheita, assim
+me Deus salve! <br />
+
+<br />
+
+Alguns riram da lembran&ccedil;a. &laquo;Tinha gra&ccedil;a
+que a scisma do animal n&atilde;o lhe passava nem &aacute;
+m&atilde;o de Deus Padre!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A modos que isso &eacute; j&aacute; mania, &oacute; sr.
+Thom&eacute;? <br />
+
+<br />
+
+Nisto, por&eacute;m, o lavrador soltou um &laquo;oh!&raquo;
+de surpreza. Voltaram-se todos&#8213;&laquo;que era?&raquo; Na
+estrada que a eira dominava,
+um homem ia passando, a cavallo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc;s n&atilde;o querem v&ecirc;r, &oacute;
+rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se pallido.&#8213;Aquelle burro,
+hein? se n&atilde;o &eacute; o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo; &eacute; o diabo por
+elle... <br />
+
+<br />
+
+Recordaram:&#8213;&laquo;estrella malhada na testa, a m&atilde;o
+direita branca&raquo;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; elle, com um milh&atilde;o de diabos! n&atilde;o
+ha que v&ecirc;r! E aquelle &eacute; o ladr&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+E cuspindo nas m&atilde;os, e arrega&ccedil;ando mais as mangas
+da camisa, arrancou, d'um aban&atilde;o, o cabo d'uma
+&laquo;espalhadoura&raquo;
+e botou a fugir direito &aacute; estrada. <br />
+
+<br />
+
+Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que o mata! gritavam todas.&#8213;Ai que o mata! Acudam! Ai a
+desgra&ccedil;a! Nem a alma lhe deixa! Acudam! <br />
+
+<br />
+
+Os homens deitaram a correr atraz d'elle, affluia gente de todas as
+bandas da eira, os c&atilde;es ladravam. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[32]</span> &#8213;Ent&atilde;o, sr. Thom&eacute;? olhe que se perde, sr.
+Thom&eacute;! diziam-lhe, j&aacute; agarrados a elle.&#8213;Largue o
+cabo, que se desgra&ccedil;a! Tudo se
+faz a bem, sr. Thom&eacute;, largue vossemec&ecirc; o cabo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas,
+mais a voc&ecirc;s, se me n&atilde;o largam! Arreda! <br />
+
+<br />
+
+E esbracejava furioso, levando-os de rold&atilde;o, agarrados a
+elle mais ao cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por
+instantes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;, sr. Thom&eacute;?! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o via nada, n&atilde;o queria ver cousa
+nenhuma! Arreda!&raquo; E n'um rompante de ira, abrindo brecha com
+um &laquo;sarilho&raquo;, de um pulo
+saltou &aacute; estrada, aos trope&ccedil;&otilde;es nas
+pedras que encontrava, mal se
+equilibrando. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo! intimou.&#8213;Voc&ecirc; &eacute; um ladr&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um qu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um ladr&atilde;o! &Eacute; meu esse burro! Hei-de matal-o
+aqui, seu patife! Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido,
+como um
+c&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+E no meio da malta em alvoro&ccedil;o, com a arreata do burro na
+m&atilde;o esquerda, e na direita o minacissimo cacete, berrava que
+o deixassem, que ia tudo
+razo&#8213;&laquo;com seiscentos milh&otilde;es de
+diabos!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se alterca&ccedil;&atilde;o, vieram raz&otilde;es de
+parte a parte, insultos. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[33]</span> &#8213;J&aacute; lhe disse que voc&ecirc; &eacute; um
+ladr&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ladr&atilde;o ser&aacute; voc&ecirc;!&#8213;tornou-lhe o outro
+j&aacute; de p&eacute;, avan&ccedil;ando de punhos
+cerrados.&#8213;E n&atilde;o m'o diga outra vez, que o racho! <br />
+
+<br />
+
+Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de m&atilde;os postas,
+para a capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador
+entrava de
+tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito
+branca bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe
+j&aacute; um peda&ccedil;o de hombro. Tinham, alfim, conseguido
+arrancar-lhe o
+cacete, mas agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas
+cabe&ccedil;as em
+desordem. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute;, para uns certos do grupo, o homem do burro se
+desculpava:&#8213;&laquo;tinha-o comprado a uns ciganos, fossem
+l&aacute; adivinhar que o burro era
+roubado...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;, sr. Thom&eacute;? acudiram logo uns poucos.&#8213;O
+homem n&atilde;o tem culpa.&#8213;E gritavam-lhe aos
+ouvidos:&#8213;N&atilde;o tem culpa! Comprou o animal
+na boa f&eacute;. V&ecirc;s-ahi est&aacute;! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mente! objectava incredulo o Thom&eacute;, cada vez mais
+irado.&#8213;Mente! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mente?! perguntava o outro de l&aacute;, assanhado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thom&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi
+&aacute; m&aacute; cara, chamar-lhe homem de rixas,
+despropositado, bulhento. Elle
+ent&atilde;o, abrindo os bra&ccedil;os como se fosse para
+nadar, socegou um
+pouco, amainou,&#8213;prometteu levar aquillo com paciencia, &aacute;s
+boas.
+Chegou
+<span class="pagenum">[34]</span>
+quasi a pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
+camarinhas.&#8213;&laquo;Mas tinha perdido a cabe&ccedil;a, que lhe
+queriam?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Chegou-se por fim a um accordo. &laquo;Sim, senhores,
+accommodava-se, mas punha uma condi&ccedil;&atilde;o: largasse
+elle o burro, e o
+burro &eacute; que havia de resolver...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Serve-lhe o contracto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual contracto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! Larga-se o burro, voc&ecirc; entende? deixa se o burro
+&aacute;s soltas. Depois, &eacute; p'ra onde elle
+f&ocirc;r. Se o burro larga
+p'ra traz, l&aacute; p'r'as bandas d'onde voc&ecirc; vem...
+Voc&ecirc; d'onde vem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dos Casaes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ahi est&aacute;. Se o burro tomar p'r'os Casaes, o burro
+fica seu... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tomando direito &aacute; aldeia, &eacute; do sr.
+Thom&eacute;,&#8213;concluiram alguns do grupo, conciliadores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim. <br />
+
+<br />
+
+Por um desfastio, o outro concordou. Mas l&aacute; lhe parecia
+historia que o burro tomasse para a aldeia... Vinha de t&atilde;o
+m&aacute;
+vontade, que at&eacute; lhe custara tiral-o de casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe ent&atilde;o que vae pr'os
+Casaes...&#8213;affirmou. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[35]</span> &#8213;Melhor p'ra voc&ecirc;. Mas n&oacute;s veremos p'ra onde vae.
+Voc&ecirc; est&aacute; pelo dito?&#8213;quiz saber o
+Thom&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro
+n'um rompante. Olhe: uma, duas, tres; &aacute;s tres largo-lhe a
+arreata. <br />
+
+<br />
+
+Ia j&aacute; a abrir a bocca para dizer&#8213;&laquo;uma!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alto! fez o Thom&eacute;. Espere l&aacute; um pouco. Primeiro
+hei-de fazer duas festas ao animal. <br />
+
+<br />
+
+E p&ocirc;z-se a bater-lhe na anca, no pesco&ccedil;o, no
+peito, demorando-se um pouco a fital-o de frente, &laquo;para que o
+animal o
+conhecesse.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! gritou-lhe de repente. Eh!
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! <br />
+
+<br />
+
+O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a
+lembran&ccedil;a porventura adormecida d'aquelle nome despertara
+subitamente... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
+p'ra ali. Isso. Nem &eacute; p'r'os Casaes nem p'r'o logar. Assim.
+Eh! Eh! <br />
+
+<br />
+
+E afastou-se para o lado, aguardando. <br />
+
+<br />
+
+Uma anciedade dominava n'aquelle momento os do grupo; o
+Thom&eacute; p&ocirc;z-se a roer as unhas, nervoso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o voc&ecirc; porque espera? perguntou. <br />
+
+<br />
+
+Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; uma!... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+O Thom&eacute; sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de
+medo, o olhar de esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da
+m&atilde;o
+direita... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...&aacute;s duas! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ih! c'um raio!... dizia baixo o Thom&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com for&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...&aacute;s tres! <br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o um barulho de palmas, um berreiro atroador de
+vivas e gargalhadas! O Thom&eacute; vencera: corriam todos a
+abra&ccedil;al-o, affirmando que o caso era para foguetes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o sr. Thom&eacute;! Viva o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! Aquillo &eacute; que
+&eacute; burro! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquillo &eacute; que &eacute; amigo, h&atilde;o-de
+voc&ecirc;s dizer!&#8213;emendava o Thom&eacute; a rir. Tenho-os com
+dois p&eacute;s, que n&atilde;o valem metade... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! sr. Thom&eacute;! protestavam alguns. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto n&atilde;o &eacute; com voc&ecirc;s, mas
+&eacute; como quem se confessa... Est&aacute; visto que
+n&atilde;o &eacute; com voc&ecirc;s. <br />
+
+<br />
+
+E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada f&oacute;ra, o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo; corria que voava, cauda no ar,
+corda de rastos, perdendo-se por fim
+l&aacute; ao fundo, na poeirada immensa da estrada, como que
+nimbado n'um resplendor
+de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
+agora o lavrador, ap&oacute;s o fraternal abra&ccedil;o,
+pregado no dos Casaes... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+Quando o Thom&eacute; chegou a casa, offegante, a suar, cheio de
+gestos e de palavras entrecortadas de riso, j&aacute; o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;, relinchando, pateava
+&aacute; porta do antigo cortelho, n'uma grande impaciencia, um
+&laquo;rap-rap&raquo; continuo na soleira. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venham v&ecirc;r! Venham c&aacute; v&ecirc;r! berrava o
+Thom&eacute; para a vizinhan&ccedil;a. &Oacute; Antonio!
+&Oacute; compadre! &Oacute; Maria Engracia! <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s janellas assomava gente, perguntando se era fogo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual fogo, nem qual carapu&ccedil;a! &Eacute; o
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;, mas &eacute;! Este
+inimigo! &Oacute; Josepha! Josepha! c&aacute; temos o burro,
+este demonio. Assoma. <br />
+
+<br />
+
+Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effus&atilde;o do
+lavrador. Abra&ccedil;os? E at&eacute; beijos. Aquillo era um
+thesoiro
+perdido que reapparecia alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se,
+perguntando se o seu homem teria endoidecido... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Palavra de rei, &laquo;Sult&atilde;o&raquo;, palavra de
+rei! Anda d'ahi pelos saccos. S&atilde;o s&oacute; dois.
+&Oacute; Josepha! Ouves? p'ra c&aacute;
+esse garraf&atilde;o que est&aacute; ao p&eacute; da arca,
+avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior. <br />
+
+<br />
+
+E atirando as m&atilde;os ambas para a albarda, montou muito
+regalado, de um pulo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! <br />
+
+<br />
+
+A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garraf&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, mulher, p&otilde;e aqui deante de mim. Avia-te. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma
+observa&ccedil;&atilde;o, um conselho, qualquer coisa de
+tomo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, minhas encommendas! N&atilde;o me fanfes, mulher,
+n&atilde;o me fanfes. P&otilde;e aqui, que mando eu, avia-te.
+Assim. Est&aacute; bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nome do Padre... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nome do Padre, nome do Filho... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A caneca! Venha de l&aacute; agora a caneca! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...nome do Espirito Santo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Passa bem, &oacute; mulher,&#8213;concluiu &aacute;s gargalhadas,
+entre as gargalhadas dos demais.&#8213;Ouves? Quando o Manoel vier dos
+ninhos, esse maroto, manda-m'o &aacute;s eiras. A trote,
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;! Eh! valente! <br />
+
+<br />
+
+E l&aacute; parte, veloz como uma setta. J&aacute; de longe
+volta-se do repente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Josepha! &oacute; Josepha! n'esse alguidar do meio umas sopas de
+vinho p'r'o &laquo;Sult&atilde;o&raquo;, ouviste? No do
+meio. O grande
+&eacute; muito grande, e esse pequeno n&atilde;o presta. Ouves?
+mas quer-se coisa que farte, bem
+entendido. <br />
+
+<br />
+
+E de novo despediu como uma flecha, abra&ccedil;ado ao
+garraf&atilde;o. Arreata para a direita, arreata para a esquerda,
+pernas a dar a dar, elle
+l&aacute; vae n'uma corrida, sumido n'uma onda de poeira,
+at&eacute; chegar
+&aacute;s primeiras &laquo;m&ecirc;das&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vinho, rapaziada! &Oacute; Maria do Carmo, toma l&aacute; uma
+<span class="pagenum">[39]</span>
+pinga, mulher! L&aacute; por andarmos de mal ha 15 annos isso
+acabou-se! <br />
+
+<br />
+
+E o Thom&eacute; atravessou a eira sempre a cavallo no
+&laquo;Sult&atilde;o&raquo;, caneca de vinho para a
+direita, caneca de vinho para a esquerda. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Meia hora depois regressava, o &laquo;Sult&atilde;o&raquo;
+pela arreata, o Manoel no meio dos saccos, e adeante do Manoel o bello
+garraf&atilde;o&#8213;sem
+pinga... <br />
+
+<br />
+
+Pelo caminho, a todos o Thom&eacute; contava a historia, a rir como
+um perdido, n'um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Colheita rica, sim senhores, um colheit&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+E parando &aacute; porta, ainda a mulher se benzia do alto da
+escada, mexendo e remexendo o alguidar de barro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo. <br />
+
+<br />
+
+...Ao mesmo tempo que o Thom&eacute;, abrindo os bra&ccedil;os,
+respondia reclamando as sopas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amen! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c3"></a>ULTIMA DADIVA </h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Ao dr. A.A. da Fonseca
+Pinto.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Distante</span> do rio
+apenas um tiro de bala ficava o horto do
+Jos&eacute; Cosme, bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de
+fructas e
+hortali&ccedil;as, fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas
+em silvedo,
+communicando com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali
+quanto ao pobre homem restava dos seus antigos haveres:&#8213;o horto, a um
+canto a nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga
+magnolia gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma
+porta e duas
+janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que
+lhe pendiam dos beiraes enla&ccedil;adas com as trepadeiras. <br />
+
+<br />
+
+De modo que na primavera, quando as parasitas abriam
+<span class="pagenum">[42]</span>
+serenamente os
+seus melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a
+magnolia
+toda se toucava de flores fazendo docel &aacute; vivenda, aquelle
+pequeno canto d'horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e
+limpida, tomava a
+fei&ccedil;&atilde;o ingenua de uma delicadissima tela de
+paizagista, aquarella deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos
+na poesia rustica da
+sua simplicidade. <br />
+
+<br />
+
+No ver&atilde;o, &aacute;s horas de calor, quando o sol
+ca&iacute;a a pino sobre a larga paizagem adormecida e turva, e as
+arvores da estrada n&atilde;o
+davam sombra que aliviasse, aquella tranquillidade com que o
+Jos&eacute; Cosme
+ressonava sob o alpendre, bra&ccedil;os n&uacute;s e peito
+n&uacute;, o
+chapeir&atilde;o de palha grossa resguardando-lhe a cara, fazia
+inveja aos que por ali passavam,
+can&ccedil;ados e cheios de poeira, flagellados por aquella
+estiagem inclemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tio Jos&eacute;!&#8213;gritavam-lhe do caminho.&#8213;Tio
+Jos&eacute;! &Oacute; regalado! <br />
+
+<br />
+
+Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses
+deixavam dormir o Jos&eacute; Cosme e ficavam-se a admirar o horto.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas
+n&atilde;o havia outro que se lhe comparasse, t&atilde;o
+esmerada era a sua cultura&#8213;t&atilde;o esmerada e t&atilde;o
+completa, pois que de
+mais a mais nem palmo de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas
+com symetria agradavel, verdejavam cheios de vi&ccedil;o, frescos e
+medrados, legumes de
+todas as castas&#8213;desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras,
+toda aca&ccedil;apada no ch&atilde;o humido das regas,
+at&eacute; &aacute;s trepadeiras das vagens que enroscadas
+ascendiam pela basta &laquo;rodriga&raquo; de
+castanho aparada com todo o esmero, formando massi&ccedil;os de
+verdura
+<span class="pagenum">[43]</span>
+sombria que os casulos
+esguios dos feij&otilde;es crivavam de alto a baixo. Arvores,
+apenas as
+precisas para aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a
+vegeta&ccedil;&atilde;o franca das hortali&ccedil;as. Mas
+todas as que havia eram mimosas de
+fructas nas esta&ccedil;&otilde;es competentes&#8213;cerejas, peras,
+ma&ccedil;&atilde;s, pecegos mesmo. <br />
+
+<br />
+
+Poucas fl&ocirc;res: uma coisa que todos notavam com estranheza.
+Mas desde que lhe morrera a mulher mais a filha, o Jos&eacute;
+Cosme deixara-se
+de as cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos,
+que por signal vinham enfezados. S&oacute; teve o cuidado de
+n&atilde;o deixar morrer os goivos. Uma vez por anno, em fins de
+Maio, colhia-os todos de uma vez,
+e ia leval-os em bra&ccedil;ado &aacute; sepultura rasa das
+suas
+defunctas. <br />
+
+<br />
+
+Exactamente n'essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a funebre
+visita. Quando se recolheu era j&aacute; noite. Mal acabou de cear
+levantou-se bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande
+vontade de chorar. Estava nas suas horas tristes, n'essas horas em que
+as energias
+todas da sua alma e at&eacute; as do seu corpo vergavam sob o
+flagello de uma d&ocirc;r violenta, exacerbada agora pela saudade
+dos que lhe
+tinham morrido... E para maior desgra&ccedil;a fugira-lhe o bem das
+lagrimas. De modo que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades
+custavam o dobro a
+supportar. Abstracto, n'uma especie de entorpecimento idiota, percorria
+sem descan&ccedil;o todas as ruas do horto, cabisbaixo,
+acabrunhado, automato. Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma
+quieta&ccedil;&atilde;o attenta, logo um gesto brusco
+desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um
+fundo gemido, e punha-se de novo a andar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vens ou n&atilde;o vens?&#8213;perguntava elle, evocando com dorido
+esfor&ccedil;o a imagem da mulher ou da filha. N&atilde;o
+vinha;
+<span class="pagenum">[44]</span>
+e quando apparecia
+era como se fosse um relampago, apagava-se logo. <br />
+
+<br />
+
+N'esta lucta com a sua d&ocirc;r as horas iam passando longas. Era
+j&aacute; tarde, talvez a uma da noite. Luz, apenas a das
+estrellas, pois que o luar nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o
+largo silencio da noite, apenas cortado, ao longe, pela melopeia
+somnolenta do rio. <br />
+
+<br />
+
+Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do
+Jos&eacute; Cosmo e viu um vulto perpassar de repente e de repente
+sumir-se n'um recanto onde a sombra era mais densa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos historia...&#8213;resmungou comsigo o rapaz. <br />
+
+<br />
+
+E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado, &aacute; espreita.
+N&atilde;o desconfiou que fosse o Jos&eacute; Cosme: aquillo
+era mariola de larapio que
+vinha por ali fazer das suas. Agachou-se ent&atilde;o, e poz-se a
+procurar uma
+pedra. Apanhou duas, para o caso de n&atilde;o acertar a primeira. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;C&atilde;o do diabo!&#8213;exclamou baixo o rapaz, pondo-se em
+posi&ccedil;&atilde;o de jogar a pedra.&#8213;Espera que eu te
+arranjo...&#8213;E j&aacute; ia arremessal-a na
+direc&ccedil;&atilde;o do canto, quando o vulto saiu da sombra
+e tomou por um carreiro, direito
+ao logar onde o rapaz estava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Melhor! Mais a geito ficas... <br />
+
+<br />
+
+E debru&ccedil;ando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto
+que avan&ccedil;ava, para ver se o conhecia. Quem quer que era
+trazia a jaqueta sobre os hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A
+meio do carreiro, mesmo defronte d'elle, parou. Foi ent&atilde;o
+que o rapaz se lembrou do
+Jos&eacute; Cosme. O vulto parecia, com effeito, ser o
+<span class="pagenum">[45]</span>
+d'elle;
+lembrava-se agora de ter ouvido que o pobre homem, quando o ralavam
+saudades da mulher e da filha, levava noites em claro, a percorrer como
+doido aquelles
+carreiros por onde ellas tinham andado. <br />
+
+<br />
+
+Quando ouviu solu&ccedil;ar, acabou ent&atilde;o de se
+convencer. Insensivelmente, deixou cair as pedras e perguntou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Jos&eacute;! &Oacute; tio Jos&eacute;! Sou eu, o
+Luiz... Vossemec&ecirc; que tem? <br />
+
+<br />
+
+O lavrador n&atilde;o respondeu, parece que nem tinha ouvido. O
+rapaz insistiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Doe-lhe alguma coisa, &oacute; tio Jos&eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o d&oacute;e, n&atilde;o. Sabes que mais?
+pe&ccedil;o-te pelas alminhas que me deixes. Bem me bondam as
+minhas afflic&ccedil;&otilde;es. Vae com Deus,
+vae. <br />
+
+<br />
+
+O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o
+Jos&eacute; Cosme dera &aacute;quellas palavras, e retirou-se
+silencioso, quasi
+aterrado agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem,
+caso jogasse
+a pedrada. <br />
+
+<br />
+
+No emtanto a noite ia avan&ccedil;ando, grave, soturna, sem outro
+ruido que n&atilde;o fosse o das aguas do rio. E o Jos&eacute;
+Cosme, sem despegar do
+seu fadario, ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou
+um somnambulo.
+&Aacute;s vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar.
+Como n&atilde;o sentia nada, voltava de novo ao seu passeio.
+N'isto, de uma vez que passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir
+passos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Thomaz! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[46]</span> &#8213;Sr. Jos&eacute;!&#8213;respondeu o que entrava, n'uma voz que era
+mesmo voz de barqueiro. <br />
+
+<br />
+
+O Cosme sentiu ent&atilde;o uma grande vontade de chorar, mas
+remordendo os bei&ccedil;os dominou-a. Como o barqueiro estranhasse
+encontral-o a
+p&eacute;, elle ent&atilde;o redarguiu-lhe que nem se tinha
+deitado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como tinha de madrugar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois s&atilde;o horas de largar, sr. Jos&eacute;; isto vae
+p'r'as duas. N&atilde;o tarda que comece a amanhecer.&#8213;E como
+estavam &aacute; porta de
+casa:&#8213;Ser&aacute; bom acordar j&aacute; o pequeno: veste,
+n&atilde;o veste,
+&eacute; tempo que se vae.&#8213;Iam &aacute; vela se o tempo
+n&atilde;o mudasse. Era bom aviar, por isso. <br />
+
+<br />
+
+Mas &aacute; ideia de ter de acordar o pequeno, o Jos&eacute;
+Cosme deixou-se cair sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e
+desatou a chorar violentamente. <br />
+
+<br />
+
+O barqueiro tentou animal-o, constrangido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, sr. Jos&eacute;?... O chorar &eacute;
+l&aacute; para as mulheres. Olhem agora que homem!&#8213;E tentava
+levantal-o, pol-o de p&eacute;.&#8213;Limpe
+l&aacute; essas lagrimas, que vae affligir o pequeno! Ou quer que
+elle v&aacute; a chorar todo o
+caminho? <br />
+
+<br />
+
+O Cosme fez que n&atilde;o com a cabe&ccedil;a, violentamente,
+e poz-se a enxugar os olhos com a manga da camisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o levante-se l&aacute;.&#8213;E segurou-o com
+for&ccedil;a por baixo dos bra&ccedil;os.&#8213;Assim! L&aacute;
+porque o pequeno vae para o
+Brazil n&atilde;o fique vossemec&ecirc; a pensar que o
+n&atilde;o torna a ver. <br />
+
+<br />
+
+Mas era isso mesmo o que elle pensava... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span> &#8213;Porque n&atilde;o sei que me adivinha que n&atilde;o torno a
+ver o pequeno&#8213;concluiu a chorar o Jos&eacute; Cosme. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Scismas! lembran&ccedil;as que veem &aacute; gente quando
+est&aacute; afflicta. Mas ha-de vel-o que o n&atilde;o ha-de
+conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno
+menos anno, apparece-lhe ahi rico... <br />
+
+<br />
+
+Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que
+desejava era que voltasse e que elle ainda fosse vivo s&oacute;
+para o
+abra&ccedil;ar. <br />
+
+<br />
+
+Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o
+Jos&eacute; Cosme que se animasse para animar o
+pequeno&#8213;recommendava o barqueiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... sim...&#8213;tartamudeava o Cosme.&#8213;Vamos l&aacute; com Deus!
+Com'assim.. <br />
+
+<br />
+
+E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito &aacute; porta
+para chamar a pequeno. N&atilde;o havia remedio, tinha nascido em
+m&aacute;
+hora, havia de ser desgra&ccedil;ado at&eacute; que o levassem
+para a cova...
+Sobre a estreita e humilde cama o filho dormia profundamente. Que
+d&ocirc;r, ter do o acordar!
+Vieram-lhe tenta&ccedil;&otilde;es de mandar embora o Thomaz e
+deixar
+dormir a crean&ccedil;a. Quem sabe se a sua sorte futura, se toda a
+sua vida, valeria a boa tranquillidade
+d'aquelle somno! N&atilde;o tinha coragem para o acordar, fazel-o
+vestir: era quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o
+tecto paterno... O ultimo somno! o ultimo somno! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda se o deixassemos acordar...&#8213;aventurou-se a dizer o triste. <br />
+
+<br />
+
+Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas
+de p&ocirc;r o barco a andar. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[48]</span>
+O Jos&eacute; Cosme accendeu ent&atilde;o a candeia, reccioso
+de que a luz o acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe
+a
+respira&ccedil;&atilde;o. Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe
+a m&atilde;o sobre a
+cabe&ccedil;a e chamou baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o,
+sobresaltado como se fosse praticar um grande crime: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filho, olha que s&atilde;o horas, meu filho... <br />
+
+<br />
+
+Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
+estonteamento do somno, cerrando os olhos &aacute;quella
+hostilidade viva da luz, o pae agarrou-se a elle n'um
+abra&ccedil;o, e ambos romperam a
+chorar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, pae! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, filho! <br />
+
+<br />
+
+Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar &aacute; porta,
+avan&ccedil;ou para desatar aquelle abra&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe que &eacute; tarde, sr. Jos&eacute;. Perdoe, mas olhe
+que &eacute; tarde! <br />
+
+<br />
+
+O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do
+alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A andorinha, filho?&#8213;perguntou o Jos&eacute; Cosme.&#8213;Deixa que eu
+hei-de olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era
+s&oacute; um instante. L&aacute; estava ella, coitadinha!
+sentiu-a estremecer
+quando lhe tocou com as pontas dos dedos... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[49]</span> &#8213;Adeus!&#8213;disse-lhe o pequeno afagando-a. <br />
+
+<br />
+
+A esta palavra, o pae retrahiu os bra&ccedil;os e tomando o filho
+no collo seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de
+pinho:
+toda a bagagem do Joaquim. <br />
+
+<br />
+
+Ao transpor o cancello o Jos&eacute; Cosme deteve-se um pouco e
+perguntou solu&ccedil;ando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando voltar&aacute;s ao horto, meu filho? <br />
+
+<br />
+
+O pequeno n&atilde;o respondeu. Chorava constantemente de ver que o
+separavam de tudo o que adorava&#8213;a andorinha, depois da andorinha o
+horto, as arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim. <br />
+
+<br />
+
+Atravessaram ent&atilde;o a estrada e tomaram para a banda do rio.
+Quando o sentiram murmurar, aperraram mais o abra&ccedil;o,
+deram-se um
+longo beijo, humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o
+triste pae
+desejava que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante
+d'elles,
+de modo que nunca o alcan&ccedil;assem! Mas eis que a areia
+principiava, divisava-se j&aacute; perto o vulto escuro do barco
+onde os da
+tripula&ccedil;&atilde;o fallavam alto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto?&#8213;perguntou ainda de longe o Thomaz. <br />
+
+<br />
+
+Do barco responderam que era s&oacute; marchar, de mais a mais ia
+romper a lua. <br />
+
+<br />
+
+Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os
+solu&ccedil;os dos dois, parece que prolongados infinitamente, na
+sua express&atilde;o
+de angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o
+barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram &aacute;
+beira do rio, apressou-se a dizer para o pequeno: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[50]</span> &#8213;Ora bem, Joaquimsinho, beija a m&atilde;o a teu pae e dize-lhe
+adeus. <br />
+
+<br />
+
+Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre Jos&eacute; Cosme a
+querer animar o filho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, meu filho?... Deus te aben&ccedil;oe, meu
+amor... Nossa Senhora te veja ir.&#8213;E fez-lhe prometter que havia de
+resar sempre a Nossa
+Senhora, elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem
+fazia a gente feliz. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te esque&ccedil;as d'ella mais da alminha de tua
+m&atilde;e e de tua irm&atilde;... <br />
+
+<br />
+
+Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pesco&ccedil;o do
+pae, beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem for&ccedil;as para
+dizer palavra. Ent&atilde;o o Jos&eacute; Cosme, perdida a
+esperan&ccedil;a de animar o filho, s&oacute; exclamava
+desvairado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia! <br />
+
+<br />
+
+E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na
+cabe&ccedil;a, nas m&atilde;os. At&eacute; que o Thomaz
+teve de intervir, era
+preciso despegar d'ali por uma vez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com'assim, sr. Jos&eacute;, isto tem de ser...&#8213;E segurando o
+pequeno com for&ccedil;a puxou-o para elle. Quando j&aacute; o
+tinha nos
+bra&ccedil;os, ouviu-se o Jos&eacute; Cosme que supplicava de
+m&atilde;os postas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; um instante, s&oacute; um quasinadinha, Thomaz!&#8213;E
+o pobre pae caia de joelhos na areia, n'uma attitude de supplica. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span>
+Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
+ao colo a crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Rema!&#8213;intimou em voz rapida. <br />
+
+<br />
+
+O barco recuou ent&atilde;o subitamente, ao mesmo tempo que os
+remos fizeram <em>plhau</em>! sobre a agua. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o choro do Jos&eacute; Cosme tornou-se de uma
+violencia desesperada, ao ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe
+adeus l&aacute; do
+barco. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, Joaquim, adeus! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, pae! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus! <br />
+
+<br />
+
+Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o Jos&eacute; Cosme
+gritou na direc&ccedil;&atilde;o do barco: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Thomaz! &oacute; Thomaz! por alma de teu pae faz l&aacute;
+alto um instante. <br />
+
+<br />
+
+Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resolu&ccedil;&atilde;o,
+mas j&aacute; agora era melhor ficar s&oacute;sinho de todo. E
+segurando nos dentes um pequeno
+objecto, arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O
+Thomaz que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o
+Jos&eacute; Cosme, velho nadador destemido, com meia duzia de
+bra&ccedil;adas
+ganhou-lhe de prompto a quilha. O filho tinha-se debru&ccedil;ado,
+na ancia de
+esperar o pae, de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o
+Jos&eacute;
+Cosme entregou ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a
+chorar: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[52]</span> &#8213;&Eacute; a medalha, Joaquim; &eacute; a medalhinha de tua
+m&atilde;e, meu filho!... Reza-lhe, sim?! <br />
+
+<br />
+
+E chorando cada vez mais, o pobre Jos&eacute; Cosme pediu ao
+barqueiro que lhe chegasse o pequeno para o ultimo beijo... <br />
+
+<br />
+
+Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a
+lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
+em regi&atilde;o mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro
+da noite, apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar
+desalentado do triste nadador, &aacute; voz do filho que chamava
+respondia cada
+vez de mais longe&#8213;longe como se f&ocirc;ra do Infinito! a voz
+lacrimosa do
+pae&#8213;com o seu funebre <em>adeus</em>! que elle bem sabia
+ser eterno... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+...S&oacute; quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na
+distancia, diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das
+aguas, fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar
+&aacute; praia, &eacute; que o pobre abandonou o areal e se
+foi, sempre a
+chorar, tiritando ao frio da sua desgra&ccedil;a, como a um vento
+agudissimo do Polo, na direc&ccedil;&atilde;o do horto
+silencioso... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>COMEDIA<br />
+
+DA<br />
+
+PROVINCIA </h2>
+
+<br />
+
+<div class="signature1"><em>A Alberto Braga</em>.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+I<br />
+
+<br />
+
+</h4>
+
+<h3><a name="c4"></a>PRELUDIOS DE FESTA </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Esse</span> anno, a festa da
+senhora das D&ocirc;res devia ser coisa de
+estalo. A come&ccedil;ar pelo juiz, todos os da mesa eram de
+respeito&#8213;abonados e decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que
+afinal era o melhor da festa, vinha l&aacute; de Chaves, longe que
+nem seiscentos diabos.
+Mas era obra de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse
+coisa que representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava
+mesmo a entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um
+macaco,
+se tivesse tempo de o acabar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de l&ecirc;r a
+carta. E correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que &laquo;no
+seu
+anno&raquo; a <em>coisa</em> fosse de arromba! Depois,
+era um despique. No
+anno atraz, o
+Jos&eacute; da Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo,
+s&oacute;
+porque
+<span class="pagenum">[56]</span>
+vinha l&aacute; uma pe&ccedil;a que era um castello a
+dar tiros, assim: Fff! Pum! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus
+bot&otilde;es o Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar
+que na noite do arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas
+pelo fogo que apresent&aacute;ra. Espalhou-se a novidade. Uma hora
+depois, na
+villa, ninguem fallava n'outra coisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o voc&ecirc; j&aacute; sabe? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei. A cegonha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu quero v&ecirc;r &eacute; o camello. Feio bicho,
+j&aacute; viu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pintado. No Monteverde se me n&atilde;o engano. Logo adeante do
+<em>Valente Rei Arauto Fiel</em>. <br />
+
+<br />
+
+Enganava-se. <br />
+
+<br />
+
+O escriv&atilde;o da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua
+com o Alves aferidor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; que emfim, amigo Alves. At&eacute; que emfim vou
+ter o gosto de o ver arder. <br />
+
+<br />
+
+O outro n&atilde;o percebeu. &laquo;Que se
+explicasse...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um urso, no arraial queima-se um urso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ardemos ambos, redarguiu embezerrado o
+Alves.&#8213;Tambem se l&aacute; queima um burro. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[57]</span>
+&Aacute;s duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de
+gente. Quem n&atilde;o ia, mandava recado: todos queriam saber se
+vinha o animalejo da sua predilec&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O homem come&ccedil;ava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a
+porta, por dentro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&otilde;e a tranca, se f&ocirc;r preciso. <br />
+
+<br />
+
+Mas ent&atilde;o era c&aacute; da rua: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr. Antonio! <br />
+
+<br />
+
+E na porta as pancadas ferviam: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Truz! truz! truz! Sr. Antonio! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;na! c'um raio de diabos!&#8213;fazia l&aacute; de dentro o
+homem, furioso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor faz favor? &Eacute; s&oacute; uma palavrinha. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; janella assomava ent&atilde;o o Antonio Fagote, com os
+oculos na ponta do nariz e a carta do foguetorio na m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O camello? perguntava zangado.&#8213;O urso?! Camellos me parecem
+voc&ecirc;s, ouviram? O que o homem diz &eacute; isto. <br />
+
+<br />
+
+E lia a carta, rematando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe l&aacute; o que
+ser&atilde;o, e talvez o macaco, se houver tempo de o acabar. E
+agora, sabem que mais?... Tirava
+os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.&#8213;Irra! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[58]</span>
+E l&aacute; de si para si pensava que era melhor ter guardado
+segredo. N&atilde;o fosse elle burro... Mesmo porque cada um
+come&ccedil;ou logo a
+inventar animaes, e todos &eacute; que n&atilde;o podiam vir.
+Claro! E
+n&atilde;o vindo todos, ahi tinhamos n&oacute;s descontentes. E
+havendo descontentes, quem
+lucrava era o Jos&eacute; da Loja. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com
+aquelle espectro do Jos&eacute; da Loja, o seu rival! De mais a
+mais, j&aacute; lhe tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava
+mal do negocio... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Farofias! tinha dito o Jos&eacute; da Loja. Farofias! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se m'o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
+soube. <br />
+
+<br />
+
+E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
+rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
+proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de
+elei&ccedil;&otilde;es. Depois, bom olho para a
+ca&ccedil;adeira. D'uma
+occasi&atilde;o, que foi preciso dar montaria aos
+ladr&otilde;es, portou-se como um le&atilde;o, foi
+elle que deu voz de preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh'a
+deu? A phrase ficou lendaria: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como-te a alma se te mexes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o outro n&atilde;o se mexeu, que elle comia-lhe a alma!
+commentavam convictos. <br />
+
+<br />
+
+Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
+figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava
+com 60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora.
+N&atilde;o era nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada,
+olhos pequenos,
+<span class="pagenum">[59]</span>
+uma largura de hombros que era o principal indicio de for&ccedil;a.
+Pesco&ccedil;o curto. Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e
+arremettia com
+for&ccedil;a, conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n'aquelle
+movimento sacudido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Safa! que isso ahi &eacute; de ferro! diziam os rapazes. D'uma
+canna, hein? <br />
+
+<br />
+
+Mas bom homem, d'uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para
+se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma
+testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu l&aacute; da
+cadeira, foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava
+s&eacute;rio
+quando promettia arrebentar o Jos&eacute; da Loja. A mulher
+interveio
+pacificadora: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Que n&atilde;o desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem,
+que n&atilde;o era t&atilde;o mau como o pintavam.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; mulher! cala a caixa e n&atilde;o me defendas esse
+velhaco! redarguiu o Fagote. Do que elle &eacute; capaz sei eu. <br />
+
+<br />
+
+Mas n'esta occasi&atilde;o, de todas as velhacarias do
+Jos&eacute; da Loja, s&oacute; lhe lembrava uma: ter sido juiz
+o anno atraz! <br />
+
+<br />
+
+Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz
+este anno. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa
+em casa foi elle. Elle &eacute; que se lembrou de me escolher, como
+quem diz: &laquo;entrego-te a vara, sempre quero v&ecirc;r como
+te
+arranjas...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se &laquo;das
+id&eacute;as do seu Antonio.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span> &#8213;Sejam id&eacute;as, que n&atilde;o sejam! teimou o Fagote.
+Isto foi tal e qual, assim me Deus salve! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem t'o disse, homem? Quem foi que t'o disse? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem m'o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da m&atilde;o
+direita.&#8213;Foi este mindinho. N&atilde;o falha. <br />
+
+<br />
+
+E ent&atilde;o desabafou: &laquo;que n&atilde;o pensasse o
+Jos&eacute; da Loja, que o havia de levar &aacute; parede.
+Agora levava! A festa ha-de se fazer, e
+festa de arromba; <em>nanja</em> como a d'elle que
+s&oacute; levava seis
+anjos, e
+n&atilde;o sei quantos andores, acho que meia duzia!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; mulher, ent&atilde;o &eacute; para que saibas
+onde chega o brio d'um homem! Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo
+preciso at&eacute; vendia a
+camisa do corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do Jos&eacute;
+da Loja! E
+espipava olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos,
+compungida de ver assim o seu Antonio. <br />
+
+<br />
+
+E poz-se ent&atilde;o a renovar ordens,
+recommenda&ccedil;&otilde;es que a mulher j&aacute; estava
+farta de ouvir. &laquo;Mas com tempo &eacute; que as coisas se
+pensavam, n&atilde;o era ao atar das sangrias!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leit&otilde;es se os c&aacute; n&atilde;o houver,
+manda-se o Miguel &aacute; cata d'elles por esses povos
+&aacute; roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher contraveio:&#8213;&laquo;dois seriam bastantes...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau que ahi principiamos n&oacute;s!&#8213;E poz-se a assobiar e a
+rufar com o p&eacute; no soalho, arreliado.&#8213;Tres &eacute; que
+h&atilde;o de ser.
+N&atilde;o quero c&aacute; dois, porque dois eram os do
+<em>outro</em>, o anno passado. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[61]</span>
+A esta raz&atilde;o, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do
+silencio da mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o
+<em>outro</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora n&atilde;o fanfas tu... insistiu elle, risonho.
+&Eacute; assim mesmo que eu gosto. Signal &eacute; que tens
+vergonha. A <em>outra</em> tamem
+n&atilde;o &eacute; mais que a ti. <br />
+
+<br />
+
+A <em>outra</em> era a mulher do Jos&eacute; da Loja,
+est&aacute;
+visto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso mesmo! abundou o juiz da festa. N&atilde;o me lembrava agora
+que antes de casarem... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E olha que depois de casada... insinuou a sr.<sup>a</sup>
+Luiza, de venta no
+ar, enfiando a agulha. Cala-te bocca. <br />
+
+<br />
+
+Fa&ccedil;amos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que
+n&atilde;o se calou. Mas n'este particular, o resto do dialogo
+conv&eacute;m que se
+omitta, mesmo porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal
+&aacute; mulher
+do Jos&eacute; da Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas
+n'isto n&atilde;o lhe
+fa&ccedil;o a vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem
+sabe que eu sou conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que
+por uma
+associa&ccedil;&atilde;o logica de id&eacute;as a conversa
+veio parar em vitellas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o
+Antonio Fagote. Sem vitella &eacute; que se n&atilde;o faz
+nada. Uma
+perna sempre se gasta. <br />
+
+<br />
+
+Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio.
+De mais a mais sabia-se que o pr&eacute;gador dava o cavaco por um
+bom
+peda&ccedil;o de vitella assada. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[62]</span> &#8213;O pr&eacute;gador &eacute; que arrasta ahi muita gente,
+observou a sr.<sup>a</sup> Luiza. Para um boccado de
+sentimento n&atilde;o ha
+como elle. Quando foi das
+miss&otilde;es, o que elle dizia d'aquelle pulpito abaixo!
+&Eacute; quanto se
+p&oacute;de! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim o devem, se c&aacute; vem!&#8213;disse orgulhoso o Fagote. Que o
+homem n&atilde;o queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha
+de ir a umas caldas, e
+14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que &eacute; o
+missionario... <br />
+
+<br />
+
+Estavam n'isto, quando bateram &aacute; porta. O Fagote foi ver
+&aacute; janella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo. <br />
+
+<br />
+
+Era a creada da mestra regia, foram abrir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como est&aacute;
+a sr.<sup>a</sup> Luiza, e este bilhetinho para o sr.
+Antonio. <br />
+
+<br />
+
+Entraram todos na saleta. Como era j&aacute; tarde, o Antonio
+Fagote foi accender uma luz. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Que conversassem, emquanto elle via se tinha
+resposta.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito calor, come&ccedil;ou a sr.<sup>a</sup> Luiza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o a casa da sr.<sup>a</sup> mestra que
+&eacute; mesmo um
+forno, disse por demais a creada. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[63]</span>
+E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.<sup>a</sup>
+Luiza, ao ouvido, de que
+lhe queria uma palavrinha. <br />
+
+<br />
+
+Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n'uma
+serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; se aqui bem! exclamou consolada a sr.<sup>a</sup>
+Luiza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;. E ent&atilde;o bonitas vistas. Mas o que eu
+queria dizer era pedir-lhe um favor, disse atrapalhada a creada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se estiver na minha m&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+A outra come&ccedil;ou: &laquo;A sr.<sup>a</sup>
+Luiza estava ao facto do
+que se dizia d'ella com o criado do inglez. Decerto estava ao facto.
+Mas era mentira. Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era
+redonda mentira.&raquo;&#8213;Estamos para casar! &eacute; o que
+estamos!
+&laquo;Elle j&aacute; mandara vir os papeis l&aacute; da
+terra, n&atilde;o podiam
+tardar&raquo;.&#8213;Est&aacute; claro que eu tenho
+affei&ccedil;&atilde;o ao rapaz... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.<sup>a</sup>
+Luiza, para
+dizer alguma coisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas &eacute; ahi
+que eu quero chegar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que experimente o lim&atilde;o azedo, aconselhou a sr.<sup>a</sup>
+Luiza.
+&Eacute; milagroso nas quartans. N&atilde;o se afflija, que
+isso n&atilde;o ha-de
+ser nada.&#8213;E dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que
+sabia de bom para matar quartans, pensando que era o que ella queria,
+afinal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o senhora. O rapaz est&aacute; melhor. Caso
+&eacute; que n&atilde;o
+<span class="pagenum">[64]</span>
+rec&aacute;ia. Mas &eacute; por
+via d'isso que eu lhe quero pedir um favor. <br />
+
+<br />
+
+Chegou para ella o banco de corti&ccedil;a e confidenciou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a
+bandeira, qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja,
+n'aquelle estado! inda n&atilde;o ha nada que sahiu da cama. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelos modos, os rapazes v&atilde;o este anno longe pelo pau,
+disse com pompa a sr.<sup>a</sup> Luiza.&#8213;Muito longe! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouvi que &aacute; Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo
+com quem elles se v&atilde;o metter, o Canellas! Se desconfia,
+vae-se para
+l&aacute; de clavina e faz alguma desgra&ccedil;a. Mais elle,
+que &eacute; atrevido!
+<br />
+
+<br />
+
+Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que l&aacute; onde elles iam
+pelo pau &eacute; que ella n&atilde;o sabia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A outra noite &eacute; que para ahi estiveram a combinar, o meu
+Antonio mais os mordomos. N&atilde;o ouvi. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; l&aacute;! exclamou a creada. Mas o que eu
+queria, sr.<sup>a</sup> Luiza, &eacute; que o seu
+marido me n&atilde;o
+deixasse ir o rapaz na malta,&#8213;supplicou
+afflicta a rapariga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; isso, esteja descan&ccedil;ada, n&atilde;o vae!
+prometteu com grande auctoridade a sr.<sup>a</sup>
+Luiza.&#8213;Digo-lhe eu que
+n&atilde;o vae. E se n&atilde;o
+quer mais nada... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era s&oacute; isto, muito agradecida &aacute; senhora. <br />
+
+<br />
+
+N'esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a
+testa. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[65]</span> &#8213;Ora pois ent&atilde;o aqui vae a resposta. M&aacute; letra, a
+sr.<sup>a</sup> mestra que desculpe. Mas emfim que leia
+como pod&eacute;r. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o muita massada co'a festa? inquiriu solicita a
+rapariga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muita. Faz l&aacute; ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz
+despesa. Todos os dias s&atilde;o precisas coisas, mais isto, mais
+aquillo. Ahi
+est&aacute; que j&aacute; hoje mandei pedir para o Porto uma
+palheta para o clarinete do Alves. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chh! fez admirada a rapariga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; verdade. F&oacute;ra o mais! f&oacute;ra o
+mais! Nicas! E depois d'uma pausa:&#8213;S&oacute; com o que se gasta no
+jantar, e &eacute;
+verdade que ha muita coisa de casa, mas s&oacute; com o que se
+gasta no jantar, a bem dizer
+que se fazia uma horta, al&eacute;m no prado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muita gente... disse a rapariga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muita! e depois de certa aquella... &Aacute; meza talvez vinte e
+quatro pessoas... <br />
+
+<br />
+
+A rapariga benzeu-se! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vinte e quatro, p'ra mais que n&atilde;o p'ra menos, insistiu o
+Antonio Fagote.&#8213;Olhe: o pr&eacute;gador... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso dizem que &eacute; coisa asseada! interrompeu a rapariga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;. N&atilde;o o ha melhor. Missionario...&#8213;explicou o
+juiz. Pois o pr&eacute;gador, um; com mais quatro padres, cinco;
+com quatro musicos, nove; o
+compadre, os pequenos, dois, doze. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[66]</span> &#8213;A comadre n&atilde;o vem! que pena! fez do lado a sr.<sup>a</sup>
+Luiza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. O compadre e os pequenos j&aacute; disse. Doze. O
+Morgado da Fonte e o Antonio Capador, quatorze. O Telles, &eacute;
+verdade, Telles
+escriv&atilde;o, quinze. (<em>Pausa</em>). Com mais
+alguem que venha,
+vinte e quatro.
+P&oacute;de-se contar com mais de vinte e quatro pessoas
+&aacute; mesa.&#8213;E a rir-se: Mas
+ha-de sobrar muita coisa, gra&ccedil;as a Deus... E depois os
+pobres? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso ent&atilde;o &eacute; uma praga! exclamou a sr.<sup>a</sup>
+Luiza.
+At&eacute; parece que veem do ch&atilde;o assim... E collocava
+em pinha os dedos todos das
+m&atilde;os ambas. Assim... <br />
+
+<br />
+
+Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.&#8213;&laquo;Adeusinho! o
+que havia de estimar &eacute; que tudo corresse como
+desejavam.&raquo;&#8213;E se
+f&ocirc;r preciso qualquer coisa... offereceu-se. As minhas fracas
+posses... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigada. N&atilde;o faltar&atilde;o occasi&otilde;es.
+Muitos recadinhos &aacute; senhora mestra... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio
+Fagote. <br />
+
+<br />
+
+E ent&atilde;o explicou &aacute; mulher: &laquo;Aquelle
+bilhete da mestra era a mandar-lhe perguntar se sempre era certo vir o
+macaco de fogo&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz que o irm&atilde;o, o brazileiro, assim que souber que ha
+macaco de fogo no arraial, n&atilde;o tem m&atilde;o em si que
+n&atilde;o
+venha. E Deus o queira, porque o ponho ao pallio. Como tres e dois
+serem cinco. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[67]</span>
+A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mand&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero c&aacute; &eacute; o
+brazileiro. Sempre &eacute; homem que sabe dar o merecimento
+&aacute;s coisas... Mas o diabo
+agora &eacute; o macaco! ponderou muito apprehensivo.
+Est&aacute; para ahi meio
+mundo &aacute; espera do macaco... <br />
+
+<br />
+
+A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
+bicho n&atilde;o viesse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&aacute;te! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na
+testa.&#8213;D&aacute; c&aacute; d'ahi a minha vestia. Manda-se uma
+&laquo;parte&raquo; ao
+homem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem p&oacute;de ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje
+&eacute; que n&atilde;o, aquillo j&aacute; est&aacute;
+fechado, o fio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae &aacute;manh&atilde;. &laquo;Agrade&ccedil;o
+favores. Traga macaco sem falta&raquo;. Isto. Talvez accrescente:
+&laquo;N&atilde;o se olha a dinheiro&raquo;.
+Mas &eacute; que accrescento, por via das duvidas. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do
+homem: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouves? j&aacute; se n&atilde;o p&oacute;de ir ao lameiro
+do Canellas pelo pau. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Han? qual pau? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O da bandeira. Todo o mundo j&aacute; o sabe. <br />
+
+<br />
+
+Elle riu-se. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[68]</span> &#8213;Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!... <br />
+
+<br />
+
+E como ella ficasse estupefacta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca ouviste dizer que se p&otilde;e o ramo n'uma porta e que se
+vende o vinho n'outra? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas s&atilde;o verdes. Pois ahi &eacute; que vae a historia,
+e cantarolou, satisfeito: <br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">O ladr&atilde;o do negro melro<br />
+
+Onde foi fazer o ninho </div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de
+manh&atilde;sinha o Antonio Fagote sentiu bater &aacute; porta,
+de rijo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae l&aacute; ver o que ser&aacute;, &oacute;
+Luiza!&#8213;disse da cama o Fagote sobresaltado. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tardou nada que o Jos&eacute; Manco lhe entrasse de
+rompante pelo quarto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vista-se, homem! Ande d'ahi depressa! Vista-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vista-se! com dez milh&otilde;es de diabos! Insistiu o outro. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[69]</span> &#8213;Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguem &aacute; morte? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Peor do que isso! resumiu o Jos&eacute; Manco. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Peor do que isso, ent&atilde;o n&atilde;o sei... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tardar&aacute; que o saiba. Avie-se, que eu
+c&aacute; o espero na rua. <br />
+
+<br />
+
+O Antonio Fagote vestiu-se &aacute; toa, aparvalhado. Foi
+j&aacute; na rua que acabou de enfiar a jaqueta. As correias dos
+sapatos iam de rastos,
+n&atilde;o levava chapeu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto! c&aacute; estou! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venha comigo, avie-se. Abot&ocirc;e as cal&ccedil;as, se faz
+favor. <br />
+
+<br />
+
+E rodaram rua acima. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diabo! mas ent&atilde;o...? ia perguntando o Fagote. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aguarde, que j&aacute; vae saber. N&atilde;o tarda. <br />
+
+<br />
+
+De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Roubaram Nosso Pae, aposto?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos
+e veja vossemec&ecirc; isto, esta porcaria! <br />
+
+<br />
+
+E tragicamente, o Jos&eacute; Manco apontou para meia folha de
+papel, pregada na torre com miolo de p&atilde;o centeio mastigado.
+Era um pasquim!
+Varios desenhos de
+<span class="pagenum">[70]</span>
+animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas,
+aos coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:&#8213;<em>Farofia</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Por um pouco, Antonio Fagote, de m&atilde;os atraz das costas,
+amarasmou-se, com os olhos fitos no papel. <br />
+
+<br />
+
+E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n'uma
+escama&ccedil;&atilde;o, aos labios do Antonio Fagote aflorou
+apenas um sorriso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hum! resmungou. Bem sei... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem que saber,&#8213;fez o outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O patife do Jose da Loja... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; visto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, levar&aacute; quatro lambadas, epilogou com grande socego o
+Fagote.&#8213;Arranque l&aacute; isso, e venha voc&ecirc; d'ahi, se
+quer ver. <br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Manco n&atilde;o queria ver, fazia ideia. Mas
+opinou prudentemente que era melhor botar o patife ao desprezo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e
+mettendo-o na algibeira de dentro.&#8213;Pois sim! <br />
+
+<br />
+
+Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
+arrancados do codigo penal. &laquo;Que n&atilde;o fosse agora
+pagar por bom semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a
+offensa, com elle Jos&eacute; Manco. Mas fazia de conta... Como o
+outro que diz,
+vozes de burro n&atilde;o chegam ao c&eacute;o&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[71]</span> &#8213;Bem, levar&aacute; s&oacute; uma lambada, attendendo a que
+mais ninguem viu isto, disse n'um grande ar de condescendencia o
+Fagote.&#8213;E voc&ecirc;
+v&aacute; l&aacute; regar a horta. <br />
+
+<br />
+
+Foi-se d'alli direito &aacute; casa do Jos&eacute; da Loja.
+Estava ainda fechada. Poz-se &aacute; c&oacute;ca, de longe,
+com a ira muito
+exulcerada pela arrelia d'aquella demora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grande c&atilde;o! grande c&atilde;o! monologava. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro
+em pessoa, de casaco de lona e chinelos de tran&ccedil;a, muito
+fresco.
+N&atilde;o deu pelo Antonio Fagote sen&atilde;o quando se viu
+ao p&eacute; d'elle, cara a
+cara entre o balc&atilde;o e a porta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr. Jos&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dir&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho aqui saber d'um caso. <br />
+
+<br />
+
+Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh'o
+p&ocirc;r ao p&eacute; da cara: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi o sr. Jos&eacute; que fez isto? <br />
+
+<br />
+
+O outro olhou-o, attonito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim! se foi o sr. Jos&eacute; que fez isto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada, eu n&atilde;o senhor. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[72]</span> &#8213;Jura pela boa sorte dos seus filhos? <br />
+
+<br />
+
+Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote. <br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; da Loja, moita! Ent&atilde;o o juiz explicou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; porque se jura, muito bem. Se n&atilde;o jura o caso
+&eacute; outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; outro, que outro?!&#8213;disse arrogante o Jos&eacute; da
+Loja, n'um impeto, barriga panda sob o casacorio de lona. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto!&#8213;E foi-lhe uma bofetada para a cara.&#8213;E muito caladinho, que eu
+tambem n&atilde;o digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em
+peda&ccedil;os, e atirou-lhe com elles &aacute; cara
+aparvalhada. <br />
+
+<br />
+
+Sahiu d'alli e foi <em>matar o bicho</em>,
+tranquillamente, como quem vem de
+cumprir uma obra de misericordia. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na vespera da festa, um sabbado &aacute;s 10 horas da
+manh&atilde;, o fogueteiro passava emfim n'um deslado da villa
+direito &aacute; capella da
+Senhora das D&ocirc;res. Largou um foguete, que estrondeou no ar,
+galhardamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O fogueteiro! chegou o fogueteiro! <br />
+
+<br />
+
+Por toda a villa passou um longo fremito d'enthusiasmo quando se ouviu
+o foguete. Deshabituados, os c&atilde;es ladravam, em correria
+doida
+pelas ruas. O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do
+fogueteiro,
+<span class="pagenum">[73]</span>
+a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
+ordens j&aacute; dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro
+ruido da festa, n&atilde;o havia tempo a perder. De casa dos
+mordomos saiam
+esbaforidas as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria
+&laquo;o
+sr. fogueteiro&raquo;. Alguns mais previdentes mandaram
+almo&ccedil;o, e que dissesse o que queria para o jantar. <br />
+
+<br />
+
+Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa,
+perguntando a todo o mundo se o que estoir&aacute;ra tinha sido
+effectivamente um foguete. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim
+senhor! promettia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;P'ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E ent&atilde;o isto? e
+punha-se a girar de volta com o bra&ccedil;o&#8213;o que &eacute;
+fogo do
+ch&atilde;o?&#8213;Mas tinha-se visto em cal&ccedil;as pardas para
+que o homem n&atilde;o faltasse.
+Complica&ccedil;&otilde;es! Pelos modos tinham-no convidado
+para outra festa, com mais bagalho&ccedil;a,
+est&aacute; claro. O caso tinha estado s&eacute;rio! <br />
+
+<br />
+
+Mentia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hein? mas n&atilde;o o enganavam? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! era o fogueteiro sem tirar nem p&ocirc;r. L&aacute; ia
+elle a atravessar as eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas
+cargas de fogo! <br />
+
+<br />
+
+O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou
+c&aacute; da rua: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhor abbade! &oacute; senhor abbade! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span> &#8213;Que &eacute; l&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chegue &aacute; janella, faz favor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas est&aacute; muito sol, entre voc&ecirc;, se quer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; duas palavras: <br />
+
+<br />
+
+O abbade, um rapaz novo, assomou &aacute; janella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chegou o homem! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O homem! que homem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O fogueteiro, quem ha-de ser? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E voc&ecirc; vae ter
+com elle? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De cara. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz-me ent&atilde;o um favor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dir&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&ecirc;-lhe recados meus. <br />
+
+<br />
+
+E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no
+seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
+aquillo tinha sido o fogueteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grande homem! com seiscentos diabos! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
+machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
+fogueteiro, com furia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esses ossos! e abra&ccedil;ou-o arrebatado, enternecido,
+chamando-lhe &laquo;seu amigo, seu grande amigo&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Rapazes! gritou elle ent&atilde;o. E tirou o chapeu da
+cabe&ccedil;a, muito solemne.&#8213;Viva o senhor fogueteiro! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva! <br />
+
+<br />
+
+...Isso n&atilde;o juro, porque n&atilde;o reparei. Mas estou
+em dizer aos senhores que o Antonio Fagote&#8213;chorou!... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 140px; height: 134px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>I<br />
+
+<br />
+
+</h4>
+
+<h3><a name="c5"></a>TYPOS DA TERRA </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Desembocaram</span> n'um
+largo. Era o
+ponto mais central da
+terra,&#8213;&laquo;<em>a pra&ccedil;a</em>.&raquo;&#8213;Aqui
+e alli, ao
+acaso, algumas arvores
+enfezadas, quasi tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos
+protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro
+vasto, muito chato, com casas em volta,&#8213;o que na villa havia de melhor
+em
+construc&ccedil;&otilde;es. Ficava ao meio o pelourinho,
+exotico, mutilado, d'uma pedra grosseira e
+muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de
+ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva
+sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n'um
+grande <em>X</em> de pedra deitado horizontalmente. Um
+espig&atilde;o de
+ferro, de tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente
+do meio do
+<em>X</em>, perfurando o espa&ccedil;o. Em volta, a
+casaria era triste,
+sem estylo,
+<span class="pagenum">[78]</span>
+sem gosto, sem cal. Algumas <em>pedras d'armas</em>
+em velhas
+paredes decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam
+aristocracias remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a
+negrura chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem,
+fazia tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em
+ruinas.
+Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio,
+d'uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas
+as sete: aquelle&#8213;&laquo;<em>estafermo</em>&raquo;&#8213;&eacute;
+que
+n&atilde;o andava nunca direito. De dia ninguem o entendia, com o
+seu ponteiro de ferro girando n'um mostrador sem lettras, d'uma pedra
+azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoro&ccedil;ando a
+povoa&ccedil;&atilde;o como se fosse a
+fogo, ora atrazado ora adeantado, dando meia noite quando eram quatro
+da tarde, e meio dia mal despontava
+o sol. <br />
+
+<br />
+
+Eram as sete. &Aacute;quella hora &eacute; que
+os&#8213;&laquo;<em>figuros</em>&raquo;&#8213;da terra, quasi
+tudo empregados
+publicos, vinham para o largo, &aacute; fresca. Alguns
+passeavam,&#8213;seu fraque, sua bengala de canna com cast&atilde;o,
+chapelinho &aacute; banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas
+do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio cavaqueavam,&#8213;colletes
+desabotoados, perna cruzada, chapeu para a nuca, &aacute;s tres
+pancadas. Um de pera
+comprida, no degrau superior, contava facecias. Os outros riam
+alarvemente, chamavam-lhe intruj&atilde;o.
+Algumas&#8213;&laquo;<em>madamas</em>&raquo;&#8213;pelas
+janellas em volta,
+nostalgicas, anafadas, de claro. &Aacute; porta do estanco, em
+cima, havia outra roda,&#8213;uns de p&eacute;, outros sentados em
+caixas, alguns
+montando cadeiras de pinho. Era a&#8213;<em>roda mais forte</em>,&#8213;quasi
+tudo
+maiores burocratas:&#8213;o Mello da Administra&ccedil;&atilde;o, o
+Antunes
+da Camara, o Escriv&atilde;o de Fazenda, o Rodrigues do Real
+d'Agua. E outros. &Aacute; porta,
+perfilado e muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio,
+flexivel, com a sua
+cara rapada e o seu chin&oacute; castanho, eri&ccedil;ado e
+velho. Era de maneiras
+<span class="pagenum">[79]</span>
+feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva,
+muito desempenado quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de
+p&eacute;s
+como se fosse levantar v&ocirc;o. Chamavam-lhe Ernestinho.
+N&atilde;o se
+podia fallar deante d'elle n'um rato morto, n'uma carocha. Aquillo
+&laquo;fazia-lhe
+nervoso&raquo;, enojava-o, ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo
+constantemente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como
+n&atilde;o lan&ccedil;o f&oacute;ra.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+E se riam, elle exasperava-se: n&atilde;o comprehendia como
+podessem fallar em taes coisas... De resto, bom sujeito, finorio para o
+seu negocio,&#8213;um poucochinho beato,&#8213;diziam-lhe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu proveito. N&atilde;o que eu n&atilde;o quero a minha alma
+nas penas do inferno, a arder. Leiam a <em>Miss&atilde;o
+Abreviada</em>,
+leiam esse rico livro. <br />
+
+<br />
+
+E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados,
+um poucochinho sibiladas nos <em>ss</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cigarros, Ernestinho, um vintem d'elles. Querem-se dos de Lima,
+d'esses fortes. <br />
+
+<br />
+
+Declarou que tambem havia dos &laquo;especiaes.&raquo; Algum
+senhor queria? Tinham chegado tres massos, p'ra ver. Oito por um
+vintem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois guarde-os!&#8213;disseram alguns, horrorisados com a id&eacute;a
+de dar um vintem por oito cigarros.&#8213;Guarde-os! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;O senhor engenheiro, quando vinha &aacute; villa,
+perguntava-lhe sempre por elles. Dos de Lima nem o cheiro,
+n&atilde;o gostava.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[80]</span> &#8213;Olha o figur&atilde;o!&#8213;disseram a rir. Por esse mundo fora
+sempre ha muito idiota! forte cavalgadura! <br />
+
+<br />
+
+O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos.
+&Aacute; porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze.
+Estavam certos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto l&aacute; no caderno,
+ao p&eacute; dos outros. <br />
+
+<br />
+
+Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
+silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo
+tempo que n'um gesto acanhado, receoso, fazia
+men&ccedil;&atilde;o de
+offerecer:&#8213;&laquo;alguem era servido?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Dentro do balc&atilde;o, ao p&eacute; das garrafas com
+lic&ocirc;r, e das botijas de genebra, Ernestinho sommava a conta.
+Era j&aacute;
+taluda.&#8213;&laquo;E v&atilde;o dois e dois quatro e dois seis,
+seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os receberia!&raquo;&#8213;E
+suspirava, arrumando os massos encetados, sob
+o olhar tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que l&aacute;
+estava
+em cima, ao alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d'um
+caixote forrado
+a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados.
+Mas resignava-se, que n&atilde;o tinha outro remedio. Eram os ossos
+do officio... <br />
+
+<br />
+
+C&aacute; f&oacute;ra tinham dado f&eacute;,
+acotovellavam-se chamando asno ao Ernestinho,&#8213;um pulha a quem ajudavam
+a viver... Se hoje n&atilde;o
+ha dinheiro, ha-o amanh&atilde;, essa &eacute; boa! E
+pagava-se,
+c'os diabos! E pagava-se. Mas n&atilde;o senhor! aquella besta
+mostrava sempre
+m&aacute; cara, o alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o
+procuravam, que o preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[81]</span>
+O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o <em>Agua leva o
+regadinho</em>. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de
+enfado, um
+sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estender as pernas,&#8213;disse. Quem vem d'ahi? <br />
+
+<br />
+
+Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra traz p'ra deante, n'aquella
+semsaboria da pra&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; logo. Voc&ecirc; apparece no <em>sitio</em>,
+&aacute;
+noite? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Appare&ccedil;o, vou &aacute; desforra. <br />
+
+<br />
+
+E cumprimentando em roda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto. <br />
+
+<br />
+
+Foi-se, puxando para baixo as pernas da cal&ccedil;a, alisando as
+joelheiras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tal est&aacute; o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o
+Ernestinho lhe diga <em>bem-haja</em>... <br />
+
+<br />
+
+Era um parvo.&#8213;Era um tolo.&#8213;Tinha dividas nos outros estancos.&#8213;Em
+toda a parte.&#8213;L&aacute; em casa a familia passava fomes.&#8213;Um
+batoteiro
+de marca. <br />
+
+<br />
+
+Houve agita&ccedil;&atilde;o, alguns pozeram-se de
+p&eacute;, outros mudaram de logares. Ia a passar um grande carro
+de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
+novo, muito ronceiro, roendo as unhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com que ent&atilde;o... <em>ponha l&aacute; ao
+p&eacute; dos
+outros</em>?&#8213;disseram-lhe, para o lisongear nos seus
+despeitos.&#8213;Bem bom
+freguez! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[82]</span>
+Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n'um gesto
+de martyr resignado. E n&atilde;o disse palavra&#8213;p'ra fallar
+d'aquelle tinha de fallar tambem d'elles... <br />
+
+<br />
+
+Mandaram vir limonadas,&#8213;tres limonadas! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi v&atilde;o trinta r&eacute;is! <br />
+
+<br />
+
+Diabo! era preciso animar aquillo. Assim n&atilde;o tinha geito. E
+pozeram-se a fallar do tempo, das moscas, d'aquelles idiotas que
+andavam na
+pra&ccedil;a a dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam
+tomar tres
+limonadas,&#8213;e sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas. <br />
+
+<br />
+
+O Ernestinho deu dois passos f&oacute;ra da porta, e chamou para a
+varanda, onde grandes mangeric&otilde;es floriam: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Emilia! Emilinha! <br />
+
+<br />
+
+A mulher assomou, gorducha, muito molle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa. <br />
+
+<br />
+
+As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil
+encontrar uma collec&ccedil;&atilde;o d'asnos assim. Falavam
+dos que
+passeavam na pra&ccedil;a, aos grupos.&#8213;Deus os faz, Deus os
+ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
+agora para cantar. L&aacute; andava elle. Volta meia volta,<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Vai alta a lua
+na
+mans&atilde;o da morte</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
+antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques.
+S&oacute; tinha uma coisa boa&#8213;a
+<span class="pagenum">[83]</span>
+caligraphia.&#8213;Um talhe de letra
+bonito,&#8213;confessavam.&#8213;E as cal&ccedil;as, hein? reparem
+voc&ecirc;s n'aquellas cal&ccedil;as, vae flammante.
+Casualmente, Fernandinho olhou de
+longe para os do estanco, disse-lhes <em>adeus</em> com a
+m&atilde;o,
+affavel.
+Corresponderam todos, muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre
+os dentes:&#8213;idiota, palerma, pechisbeque... <br />
+
+<br />
+
+S&oacute;sinho, n'uma lentid&atilde;o moribunda, olhos nas
+botas, olhos no c&eacute;o, o Telles escriv&atilde;o passava ao
+largo, ruminando alguma poesia.
+&Aacute;s vezes quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo
+entre os dentes, um olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto
+e punha-se de novo
+em marcha, contrafeito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhores! mas n&atilde;o me dir&atilde;o em que
+anda a parafusar o Telles, aquelle telhudo? E isto:&#8213;e poz-se a imitar
+o escriv&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
+Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana &aacute;s turras a um
+logogripho em acrostico. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; o Telles!&#8213;fez um que vinha da
+pra&ccedil;a.&#8213;Aquillo &eacute; um intruj&atilde;o. Na rua
+n&atilde;o &eacute; que se adivinham logogriphos.
+&Oacute; Ernestinho, voc&ecirc; ainda tem d'aquillo que
+<em>ferve</em>? <br />
+
+<br />
+
+O Ernestinho deixou descair o labio, n&atilde;o percebia... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[84]</span> &#8213;Ora &eacute; isso mesmo, nem mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei. <br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o tinha j&aacute;. Nem mesmo queria mais, p'ra
+que? Achavam caro um tost&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eram aos tres para beber uma garrafa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Podera! Por um pataco, trinta r&eacute;is levando o assucar,
+fazia o <em>Hervas</em> uma s&oacute;da,&#8213;objectaram
+alguns. Ponha
+l&aacute; que em
+gosto &eacute; a mesma coisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E aquella porcaria, &oacute; Ernestinho, e aquella porcaria
+amarella que sujava tudo de escuma? <br />
+
+<br />
+
+Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
+seiscentos diabos! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cerveja!&#8213;disse o Ernestinho&#8213;cerveja! uma coisa que l&aacute;
+p'ra baixo toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo. <br />
+
+<br />
+
+E com um sorriso de desdem, exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do
+Filho... <br />
+
+<br />
+
+Mas na pra&ccedil;a um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a
+palavra&#8213;&laquo;<em>pulha</em>&raquo;&#8213;pronunciada
+com
+for&ccedil;a. Sahiram em tropel, ficaram s&oacute; tres.&#8213;O que
+pagava as limonadas exultou:&#8213;Homem! nem de proposito! Ficava
+exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella sucia lhe
+chupava o refresco: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&oacute; Russa! j&aacute; l&aacute; vae esse tempo. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[85]</span>
+Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma
+bandeja:&#8213;Que provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas
+parecia-lhe que devia estar bom... <br />
+
+<br />
+
+Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para
+aquellas coisas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, &oacute; Mello! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, &oacute; menino! <br />
+
+<br />
+
+E os dois sairam de rompante, chamando <em>pato</em> ao
+Mello, rindo-se d'elle
+e limpando os bei&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+Quando o Mello ia sahir,&#8213;a ver o que ia na pra&ccedil;a,&#8213;o
+Ernestinho, muito cortez, objectou-lhe que faltavam trinta
+r&eacute;is:&#8213;Se alli
+n&atilde;o tinha, depois. Isso era o mesmo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas trinta r&eacute;is?!... De que s&atilde;o os trinta
+r&eacute;is?&#8213;perguntou desconfiado o Mello. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do assucar, foi do refinado,&#8213;explicou o Ernestinho. O mascavado
+acabou-se. Amanh&atilde; ou depois j&aacute; devo ter mais. O
+senhor Mello desculpe. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tinha que desculpar; s&oacute;mente notava que
+aquellas coisas diziam-se no principio.&#8213;E sahiu sem dar mais palavra,
+furioso:&#8213;Uma ladroeira! Tres
+vintens n&atilde;o valiam os dois que lhe tinham chupado o
+refresco... <br />
+
+<br />
+
+Na pra&ccedil;a tinha cessado a alterca&ccedil;&atilde;o,
+os grupos, reunidos, formavam uma grande roda, commentava-se. O Mello
+quiz informar-se:&#8213;que lhe contassem&#8213;&laquo;<em>o
+escandalo</em>&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+Ora! n&atilde;o f&ocirc;ra nada: o Veiga que se tinha lembrado
+<span class="pagenum">[86]</span>
+que as correspondencias na <em>Voz do Districto</em> eram
+escriptas pelo
+Albano. Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O
+Veiga que
+&eacute; casmurro, teimou:&#8213;que n&atilde;o acreditava, ainda
+assim!&#8213;Vae o outro chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi
+est&aacute;! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?&#8213;quiz saber o Mello. Aquillo
+ha-de ser escripto por alguem, est&aacute; claro. <br />
+
+<br />
+
+Dez r&eacute;is pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem
+sabiam elles... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem, ent&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+Divergiam as opini&otilde;es. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano.
+Um ou outro dava a sua palavra de honra que tambem n&atilde;o era
+elle,
+jurava-o. Houve um que se lembrou se aquillo seria do padre
+Mendon&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! Do padre Mendon&ccedil;a n&atilde;o &eacute;. Fazia
+coisa melhor, se se mettesse n'isso. Olha o padre Mendon&ccedil;a,
+o da <em>gibreira</em> de Braga... <br />
+
+<br />
+
+Mas o da id&eacute;a insistiu, renitente:&#8213;havia alli suas coisas
+que o faziam lembrar, certas facecias, como a de chamar <em>Frei
+Asneira</em>
+ao Reitor e <em>Cabe&ccedil;a de Comarca</em> ao
+Felisberto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se &eacute; elle, que se regale, p&oacute;de limpar as
+m&atilde;os &aacute; parede. Mente como um alarve, mente da
+primeira linha at&eacute; &aacute;
+ultima!&#8213;disse firmemente o verdadeiro auctor das correspondencias.
+Olhem o que elle diz do juiz de direito, s&oacute; calumnias! O
+juiz! um homem teso! Tem
+l&aacute; o seu fraco pelas saias, mas isso, que diabo! isso
+n&atilde;o &eacute;
+defeito. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[87]</span>
+De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma
+infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma
+coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se l&aacute; que entre os
+rapazes n&atilde;o havia duas amizades leaes, que era tudo uma
+impostura... <br />
+
+<br />
+
+Houve um silencio significativo, talvez de
+approva&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; de pulha!&#8213;rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal
+que escrevia as correspondencias com o pseudonymo de <em>Aramis</em>.
+Vejam
+voc&ecirc;s
+aquellas gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se l&aacute;
+fazer
+politica?! Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor,
+discuta-se o homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a
+<em>marreca</em>, os fundilhos das cal&ccedil;as;
+ninguem quer saber se os
+creados lhe
+param em casa ou se n&atilde;o. E depois, aquellas
+allus&otilde;es
+&aacute; fam&iacute;lia, aquellas piadas &aacute; D.
+Engracia, pobre velha... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quem?&#8213;interrogaram uns poucos. &Aacute; Dona qu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; D. Engracia, est&aacute; bem de ver. Aquella beata
+que fazia piugas de l&atilde; aos missionarios &eacute; ella.
+Presumo eu que &eacute;
+ella&mdash;fazia o Nunes das correspondencias com um
+grande ar de
+supposi&ccedil;&atilde;o.
+Eu c&aacute; foi para onde deitei. <br />
+
+<br />
+
+Os outros n&atilde;o. E como o das correspondencias tinha
+promettido explorar a chronica beata, aguardariam mais
+informa&ccedil;&otilde;es.
+Suppunham, no emtanto, ser com a D. Joanna, a
+do&#8213;&laquo;<em>ch&aacute; de herva
+cidreira</em>.&raquo;&#8213;Outra canalhice! A D. Joanna, para
+festejar os
+annos da filha, convid&aacute;ra tudo,
+<em>lazar&otilde;es e penicheiros</em>, n&atilde;o
+fizera politica.
+Depois foi aquella tareia
+que se viu:&#8213;que o ch&aacute; era herva cidreira, que tinham bolor
+os
+doces de ovos, que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora
+isto
+n&atilde;o se diz, a pobre mulher doeu-se. Citavam-se de
+c&oacute;r phrases inteiras
+<span class="pagenum">[88]</span>
+da correspondencia. Por exemplo:&#8213;<em>A
+deusa da festa dizem que recebeu telegrammas de... amor</em>.&#8213;Uma
+facecia
+de mau gosto alludindo ao
+Proen&ccedil;a telegraphista. Depois do que por ahi se diz,
+&eacute; forte... Que
+afinal, quem sabe l&aacute;? Entre os dois que diabo
+p&oacute;de haver?
+Namoro? <br />
+
+<br />
+
+No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o senhores! Isto agora alto l&aacute;. A Amelia
+&eacute; uma rapariga s&eacute;ria... <br />
+
+<br />
+
+Riram &aacute;s gargalhadas, foi um barulho com a tosse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando digo uma rapariga s&eacute;ria... Mau! Accommodem-se
+l&aacute; com o <em>banz&eacute;</em>,
+voc&ecirc;s deixem
+fallar,&#8213;tornou o Nunes, formalisado. Quando
+digo uma rapariga s&eacute;ria, quero dizer... sim... quero
+dizer...&#8213;e
+procurava a phrase, entalado,&#8213;por exemplo, que ella n&atilde;o
+&eacute;
+capaz de receber ninguem, alta noite, l&aacute; pelos quintaes,
+como o tal das
+correspondencias quer fazer suspeitar. <br />
+
+<br />
+
+Iam replicar-lhe, mas elle atalhou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chama-se &aacute;quillo ser canalha &aacute;s direitas, arre!
+Isto agora &eacute; fallar franco. <br />
+
+<br />
+
+Saltaram-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; jura, &oacute; Nunes? voc&ecirc;
+jura?&#8213;perguntou, com gesto perfurante, o Alves dos Pesos e Medidas. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o... isso agora...Jurar, n&atilde;o jurava, mas, c'os
+diabos! pelo que se via, pelo que se podia julgar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&eacute;ria!&#8213;disseram todos. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[89]</span>
+O Nunes parece que estava com os bei&ccedil;os com que
+mam&aacute;ra. Com que ent&atilde;o, para elle era tudo uma
+r&eacute;cua de <em>santas</em>? Desenganasse-se,
+que era tudo uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de
+ingenuidade! <br />
+
+<br />
+
+O Nunes observou modesto, quasi agradecido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ingenuidade, eu te digo... N&atilde;o &eacute; bem isso... O
+que sou &eacute; prudente. Desconto sempre noventa por cento
+&aacute;quillo que
+voc&ecirc;s dizem, ahi &eacute; que est&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc;s &eacute; um modo de fallar,&#8213;emendaram alguns. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc;s, digo eu, voc&ecirc;s... quando escrevem
+correspondencias,&#8213;explicou sophisticamente o Nunes. <br />
+
+<br />
+
+Calaram-se, disfar&ccedil;aram. Proximo d'elles, a Amelia toda de
+verde, com guarni&ccedil;&otilde;es de fita preta, caminhava ao
+lado da
+m&atilde;e, solemnemente. Tiraram todos o chapeu, cortejando
+risonhos, respeitosos. O Nunes foi cumprimental-as, submisso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dar o seu passeio, n&atilde;o &eacute; verdade?&#8213;E
+apertando-lhes a m&atilde;o:&#8213;Vosselencia como passou? A senhora D.
+Amelia?
+Obrigadissimo. Assim... assim... <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o? que diziam &aacute;quelle calor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abafava-se, alli pelas duas. Que forno! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Brazil tal e qual&#8213;refor&ccedil;ou o Nunes. <br />
+
+<br />
+
+Mas que f&ocirc;ra feito, que as n&atilde;o tornara a ver desde
+os annos? Uma noite de truz, aquillo sim! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span> &#8213;Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta &eacute; que nem
+por isso, foi pena! O Abelsito andava constipado. <br />
+
+<br />
+
+A D. Amelia explicou. A m&atilde;e ficara doente, j&aacute;
+n&atilde;o era para aquellas noitadas.&#8213;E em voz mais baixa, quasi
+dolente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois, veio a <em>Voz do Districto</em>, aquillo
+chocou-a muito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha tal!&#8213;fez a m&atilde;e. Metteu-se-te isso na
+cabe&ccedil;a. Deixe-a fallar, senhor Nunes. <br />
+
+<br />
+
+E por pouco que n&atilde;o chorava ao dizer isto. <br />
+
+<br />
+
+O Nunes affectou um sentimento profundo:&#8213;Era melhor n&atilde;o
+fallar n'isso, n&atilde;o pensar em tal; todos as conheciam, todos
+lhes faziam
+justi&ccedil;a. Tinham acabado de fallar na tal correspondencia,
+agora mesmo. Uma garotada!&#8213;resumiu o Nunes.&#8213;E em tom confidencial: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e
+depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que f&ocirc;r
+soar&aacute;. &Eacute; preciso dar um exemplo,&#8213;concluiu
+terminantemente. Uma severa
+li&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes&#8213;&laquo;a parte que
+tomava no seu desgosto.&raquo;&#8213;E seguiram cumprimentando para as
+janellas,
+perguntando se vinham d'ahi, um boccadinho at&eacute; &aacute;
+capella,
+espairecer. <br />
+
+<br />
+
+As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho s&oacute;. Ficava
+muito bem aquelle vestido &aacute; Amelia. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o podiam subir, talvez &aacute; volta. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[91]</span> &#8213;Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio
+est&aacute; quasi prompto, que trabalh&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. N&atilde;o
+gostava. O risco era do Fernandinho. J&aacute; lhes fizera outro,
+talvez mais
+bonito. Coisas de anjinhos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ver&aacute;s. <br />
+
+<br />
+
+Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
+vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,&#8213;homens com malhos, e
+mulheres de cestas &aacute; cabe&ccedil;a. A tarde descahia
+n'uma serenidade calma. No degrau de cima, o Paula, official da
+administra&ccedil;&atilde;o, com fama de typo de
+chala&ccedil;a, cantava em surdina umas cantigas de caserna,
+obscenas, zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta,
+os outros formavam roda. Todos riam, pediam <em>bis</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu has-de conhecer isto, &oacute; Chico,&#8213;dizia o Paula para o
+Francisco Maria, um cabo que estava de licen&ccedil;a. Tu has-de
+conhecer
+isto. <br />
+
+<br />
+
+O administrador do concelho, um pobre diabo desmazelad&atilde;o e
+philosopho, affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas.
+Ao Paula valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda,
+sen&atilde;o j&aacute; o tinha demittido, &aacute;s vezes
+que lhe entrava borracho pela
+reparti&ccedil;&atilde;o. E pedia a rir, bo&ccedil;almente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Paula, aquella do <em>bate-bate</em>, canta
+l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.&#8213;Se era
+preciso, o Fernandinho ia pelo viol&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[92]</span> &#8213;&Eacute; verdade, voc&ecirc; que fez hoje que n&atilde;o
+me appareceu na reparti&ccedil;&atilde;o, &oacute;
+Fernando? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dormi, est&aacute; claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo
+&aacute;s vezes. Olhem que pergunta! <br />
+
+<br />
+
+Mas o Paula tinha-se calado, bocejava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, &oacute; Paula...&#8213;supplicava o administrador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; fechado o realejo... Depois. <br />
+
+<br />
+
+Quem lhe dera que fossem as nove para irem at&eacute; ao
+&laquo;sitio&raquo;. Ou perder ou ganhar; tinha alli seis
+tost&otilde;es que eram para um <em>mico</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o lhe dizia, sr. doutor? eu n&atilde;o lhe
+dizia hontem que a <em>dama</em> se negava? Eu estava
+mesmo a ver aquillo...
+Bem feito!
+&laquo;gramou&raquo; um ental&atilde;o que se consolou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quatro cor&ocirc;as.&#8213;Na vespera tinha ganho um quartinho. <br />
+
+<br />
+
+N'esse momento passava o juiz, s&oacute;sinho como sempre. Todos
+tiraram o chapeu, elle passou gravemente, cortejando. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem eu te quero &aacute; perna &eacute; o
+<em>Aramis</em>...&#8213;rosnou o Telles escriv&atilde;o que
+embirrava com o
+juiz desde que o suspendera uma vez.&#8213;E ainda elle
+n&atilde;o sabe tudo...&#8213;insinuava perfidamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois o resto diga-lh'o voc&ecirc;, diga-lh'o no <em>Almanach
+de
+Lembran&ccedil;as</em>, em verso&#8213;fez d'um lado o Rodrigues
+do Real
+d'agua. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[93]</span>
+O Telles, com famas de litterato, redarguiu que n&atilde;o dava
+confian&ccedil;a a analphabetos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu a brutos, sabe voc&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+Mau! que elles l&aacute; come&ccedil;avam. Officiaes do mesmo
+officio... &Oacute; senhores, l&aacute; porque ambos faziam
+versos n&atilde;o se seguia que
+devessem embirrar um com o outro. Pelo contrario. <br />
+
+<br />
+
+O Telles, furioso, disse que n&atilde;o embirrava com o outro, que
+nem lhe dava essa importancia, essa honra. <br />
+
+<br />
+
+O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram m&atilde;o n'elle. Mas jurou que
+d'outra vez seria, que fizesse de conta que j&aacute; l&aacute;
+tinha na
+cara quatro bofetadas tesas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tesas, hein? ol&aacute;! quatro bofetadas tesas. <br />
+
+<br />
+
+Havia de dar-lh'as, t&atilde;o certo como dois e dois serem quatro,
+s&oacute; para ter o gosto de dizer depois, n'um communicado, que
+desaffrontara as lettras
+portuguezas,&#8213;elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real
+d'Agua. <br />
+
+<br />
+
+Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes
+gestos.&#8213;Bem sei que n&atilde;o valho nada. Escrevi, &eacute;
+verdade que
+escrevi; fa&ccedil;o ainda o meu verso quando me d&aacute; na
+cabe&ccedil;a. Uma rapaziada!
+Est&atilde;o maus? Concordo. Mas n&atilde;o ha de ser aquelle
+<em>n&eacute;galh&eacute;</em> que o
+ha-de dizer. N&atilde;o o julgo habilitado. L&aacute; porque
+tem soletrado dois romances,
+n&atilde;o se segue. Mas o que mando para publico sim, o que
+entrego aos prelos&#8213;&eacute;
+meu!&#8213;E batia no peito com a larga m&atilde;o espalmada, furioso,
+n'umas raivas, de
+orgulho triumphante.&#8213;N&atilde;o roubo! nunca roubarei!&#8213;affirmou
+<span class="pagenum">[94]</span>
+mais alto
+o Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois
+amigos, conciliadores, o ouvisse.&#8213;Repito: n&atilde;o roubo,
+n&atilde;o fa&ccedil;o como elle!&#8213;E as palavras sahiam-lhe
+salivadas, violentas, por entre os labios espumantes, atiradas ao
+Telles como pedradas. <br />
+
+<br />
+
+Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar raz&atilde;o
+ao Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria
+dizer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As provas...&#8213;e metteu a m&atilde;o no bolso do seu casaco de
+lona, com impeto:&#8213;as provas, vel-as aqui est&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Mostrou no ar a brochura verde do <em>Almanach de
+Lembran&ccedil;as</em>.&#8213;Era do anno que vem, tinha-lhe
+chegado hoje.
+Alli estava o Peres do correio que
+lh'o tinha entregado elle mesmo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou testemunha&#8213;confirmou do lado n&atilde;o sei quem. <br />
+
+<br />
+
+O Rodrigues, ent&atilde;o, affirmou que era preciso historiar,
+contaria a coisa em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr.
+Telles, lembrara-se
+um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os
+annos&#8213;z&aacute;s! versalhada para o <em>Lembran&ccedil;as</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era collaborador&#8213;disse o Antunes da Camara que admirava o talento de
+Telles.&#8213;Era collaborador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era qu&ecirc;?&#8213;interrogou logo o Rodrigues, de m&atilde;o
+atraz da orelha.&#8213;Massador, massador &eacute; que elle era. Nunca
+lhe
+admittiram as asneiras, se me faz favor, nunca! Na <em>correspondencia</em>
+tro&ccedil;avam-no, chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna
+pelas tombas, que o
+n&atilde;o chamava Deus para as lettras. Aquelle <em>Serei
+ousado</em>?
+&eacute;
+elle, sei que &eacute; elle. Nunca o admittiram. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span> &#8213;Lembro-lhe a <em>Flor do Campo</em>, sr. Rodrigues,
+lembro-lhe esses
+versos&#8213;insistiu o Antunes. <br />
+
+<br />
+
+O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escriv&atilde;o da
+Camara. N&atilde;o lhe respondeu. Subiu os tres degraus do
+<em>pelourinho</em>, pausadamente, com pompa, e chamou a
+atten&ccedil;&atilde;o dos amigos. Ia ler.
+Abriu o <em>Almanach de Lembran&ccedil;as</em>, onde
+trazia um papel, e
+rompeu:&#8213;&laquo;Indignidade&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em lettras bem gra&uacute;das, queiram inspeccionar. <br />
+
+<br />
+
+E colou ao peito o <em>Almanach</em>, voltando para
+f&oacute;ra na pagina
+onde o seu dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto
+em epigraphe. <br />
+
+<br />
+
+Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que
+l&ecirc;sse. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Os versos intitulados <em>Flor do Campo</em>,
+que viram a luz no
+<em>Almanach de Lembran&ccedil;as</em> do anno
+extincto, foram-nos
+remettidos pelo sr.
+Jos&eacute; Maria Telles, escriv&atilde;o.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Copiados por mim, uma letra floreada&#8213;esclareceu o Fernandinho.&#8213;Elle
+depois assignou&#8213;e fez no ar, com o dedo, o tra&ccedil;o complicado
+da firma complicada do Telles. <br />
+
+<br />
+
+Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Public&aacute;mol-os na convic&ccedil;&atilde;o
+de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois que elle os
+assignava.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o?&#8213;perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Pura illus&atilde;o!&raquo;&#8213;continuou
+solemnemente o Rodrigues.&#8213;&laquo;Escreve-nos
+<span class="pagenum">[96]</span>
+o mimoso e assaz
+conhecido poeta sr. Alfredo Mendon&ccedil;a, dizendo
+que os versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu
+volume
+<em>Lyra Matutina</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Foi uma estupefac&ccedil;&atilde;o! O Rodrigues proseguiu mais
+alto, fugindo aos commentarios: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Averigu&aacute;mos, e d'isso alfim nos convencemos. Os
+leitores avaliar&atilde;o a probidade do sr. Telles, a quem mais de
+uma vez tinhamos fechado a
+nossa porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara&#8213;por
+indigno.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
+porta na cara do Telles escriv&atilde;o; tomou pra&ccedil;a
+f&oacute;ra, o livro debaixo do bra&ccedil;o, e foi-se para o
+estanco do Ernestinho, altivo,
+solemne,&#8213;vingado! <br />
+
+<br />
+
+Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
+porque al&eacute;m de sempre terem julgado o Telles muito superior
+ao Rodrigues&#8213;e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...&#8213;tinham dado uma
+sorte de mil demonios, agora &eacute; que elles viam! distribuindo
+no theatro, por occasi&atilde;o da festa de Santa Barbara, a <em>Flor
+do Campo</em>
+que elles tinham mandado imprimir avulso&#8213;para lisongear o Telles que
+tivera o trabalho de os ensaiar no <em>Santo Antonio</em>.
+Hein? quem diabo
+havia de dizer que aquelles papelinhos de c&ocirc;r, uns verdes,
+outros
+amarellos, chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto,
+e quasi disputados a murro, n'um alvoro&ccedil;o de seiscentos
+diabos,
+encerravam uma insidia,&#8213;um logro &aacute; boa-f&eacute;,
+&aacute;
+credulidade ingenua de toda a comarca! <br />
+
+<br />
+
+E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o
+Fernandinho vestido da menino do c&ocirc;ro, batina vermelha e
+roquete de
+rendas, cobrindo-se de teias de aranha
+<span class="pagenum">[97]</span>
+l&aacute; pelo
+f&ocirc;rro do
+theatro, de gatinhas e com um &laquo;t&ocirc;co&raquo; de
+vela na m&atilde;o,
+aos trope&ccedil;&otilde;es, s&oacute; para ter o gosto de
+ser elle a despejar do <em>oculo</em> aquella papelada; o
+Mello da
+administra&ccedil;&atilde;o, vestido de Frei Antonio, sandalias
+e grande chin&oacute; de calva
+redonda, feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por
+entre os bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em
+habitos de frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao <em>poeta</em>!
+ao
+grande Telles,
+ensaiador da rapaziada! <br />
+
+<br />
+
+Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intruj&atilde;o! E quasi
+se regalavam da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver
+agora humilhado, corrido, esbofeteado pelo rid&iacute;culo. Bem
+feito! <br />
+
+<br />
+
+O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. F&ocirc;ra elle o
+da lembran&ccedil;a de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera
+para Coimbra ao Manuel Caetano, ao Manuel Caetano da Silva,
+Pra&ccedil;a Velha n.&ordm; 11,
+que mandava os impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como
+especial favor. O homem&#8213;prompto. Duzentos exemplares, quinze
+tost&otilde;es. Quinze
+tost&otilde;es que se tinha combinado dividir por todos, contas do
+Porto, mas que desembolsara elle s&oacute;, afinal. Bem feito!
+ninguem o mandava
+ser burro. Arre! cavalgadura! <br />
+
+<br />
+
+E dava patadas no ch&atilde;o, cada vez mais furioso, apopletico. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a bem dizer, tudo isso &eacute; nada!&#8213;continuou commovido o
+Antunes.&#8213;&Oacute; senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura
+que eu fiz n'aquelle intervallo do drama para a far&ccedil;a?... <br />
+
+<br />
+
+Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada
+uma! E relembravam:&#8213;levantara-se
+<span class="pagenum">[98]</span>
+o panno quando os ouvintes menos o
+esperavam. Os que tinham sabido l&aacute; fora, &aacute;s
+doceiras, voltaram apressadamente com os cartuchos na m&atilde;o,
+ensacando os
+rebu&ccedil;ados. Ia um reboli&ccedil;o pela plateia. Na
+&laquo;galeria dos
+camarotes&raquo; para onde s&oacute; iam senhoras, gente fina,
+come&ccedil;avam a apparecer caras barbadas
+de sujeitos que iam saber &laquo;que tal&raquo;, perguntar se
+ia uma
+pinguinha de lic&ocirc;r, um docinho. Em cima, na galeria alta,
+creadas e raparigas do povo, debru&ccedil;adas no parapeito,
+apontavam para o palco, d'olhar
+attonito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle que dianho &eacute;?&#8213;perguntavam. <br />
+
+<br />
+
+De baixo, da plateia, todos faziam <em>chut</em>! voltados
+l&aacute; para
+cima: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Caluda, sua gentalha! <br />
+
+<br />
+
+No palco estavam todos perfilados, trajando como na pe&ccedil;a. O
+Freitas da recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de
+cardeal, baculo
+em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de
+c&ocirc;ro, todo l&eacute;pido; a Anna Pisca muito acanhada no
+seu fatinho de Olivia; a Margarida que tinha feito de anjo no quadro
+final da <em>Gloria</em>, em que
+ella subira n'um cesto vindimo &aacute;
+&laquo;regi&atilde;o sid&eacute;ra dos astros&raquo;; o
+pae de Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo
+pesco&ccedil;o,
+livido como saira do tumulo; aquella canalha da tropa&#8213;todos emfim! <br />
+
+<br />
+
+N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello
+vestido de Santo Antonio e do Proen&ccedil;a telegraphista que
+fazia de Frei Ignacio. Avan&ccedil;aram. Em baixo, o Felisberto
+mandou tocar o
+Hymno da Carta &aacute; meia duzia de musicos que n&atilde;o
+entravam na
+pe&ccedil;a. O hynmo rompeu com grande estampido de pratos, n'uma
+<span class="pagenum">[99]</span>
+cadencia funebre. No palco, tudo immovel. Ninguem sabia o que era
+aquillo, n&atilde;o estava no
+cartaz. Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam. <br />
+
+<br />
+
+Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de
+centuri&atilde;o, durindana e botas d'agua, irrompe furioso do
+buraco do ponto e
+pr&eacute;ga um discurso na bochecha extatica do Telles: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o era elle o mais competente, de certo, o
+mais... etc. Mas tinham-no encarregado, obedecia... e tal.
+S&oacute; sentia n&atilde;o ter
+phrases, oratoria, porque emfim estava falando a um
+poeta...&#8213;collaborador do <em>Almanach de
+Lembran&ccedil;as</em> para Portugal e Brazil&#8213;accrescentou
+voltado
+para o publico, esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo:
+dar-lhe um
+abra&ccedil;o em nome de todos...&#8213;e abra&ccedil;ou-o
+commovido, emquanto os
+espectadores berravam <em>apoiados</em>, dando
+palmas&#8213;&laquo;... e para
+isto&raquo;&#8213;accrescentou fazendo com a m&atilde;o que se
+calassem, que se calassem depressa.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um sussuro de applauso, dos camarotes crean&ccedil;as
+gritavam&#8213;&laquo;&oacute; Emilinha!&raquo; Era com effeito
+a Emilinha, a filha do Alves dos
+Pesos e Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo,
+tules verdes e muita lentejoula a brilhar. <br />
+
+<br />
+
+Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o
+Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da
+&laquo;melodia&raquo;, elle fez-lhe com a cabe&ccedil;a
+&laquo;que entrasse&raquo;, e a Emilinha rompeu n'uns guinchos,
+cantando a <em>Flor do Campo</em>, com musica da
+<em>Muchagateira</em> original do Peres do correio. <br />
+
+<br />
+
+O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a
+Frei Ignacio:&#8213;Era de mais, era de
+<span class="pagenum">[100]</span>
+mais, elle n&atilde;o
+merecia...&#8213;Ora essa! pareciam dizer-lhe os outros&#8213;seriamos ingratos
+se... <br />
+
+<br />
+
+A &laquo;cantoria&raquo; acabou, o theatro parecia desabar com
+palmas, tudo berrava, um ou outro c&atilde;o latia. Se
+n&atilde;o quando, os do palco
+desataram a rir, cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de
+que as bambolinas
+do tecto desabassem. <br />
+
+<br />
+
+Todos olhavam, curiosos. E n'aquella especta&ccedil;&atilde;o
+viram de repente descer do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o
+Freixedas da Mercearia vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos.
+Cuidaram de estoirar a rir.
+Da bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algod&atilde;o a
+arder
+que l&aacute; trazia dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando
+Satanaz nos impetos da colera. O panno come&ccedil;ou a descer,
+obliquo, esfarrapado d'uma
+banda. O Freixedas, suspenso, atirou f&oacute;ra o
+algod&atilde;o e
+gritou, furibundo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alto! suas bestas! Inda n&atilde;o!... <br />
+
+<br />
+
+Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a
+hombro dizia em caracteres amarellos&#8213;<em>C'est fini</em>!
+O panno desceu
+ent&atilde;o, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para
+os outros, n&atilde;o tinham percebido... Foi n'esse momento que o
+sr.
+Antoninho, que tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz
+alta: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>&Eacute; findo</em>! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c6"></a>VAE VICTORIBUS! </h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>A Maria Lucilla</em>.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Em</span> dezembro,
+&aacute;s seis &eacute; noite cerrada. Mais
+boccado, menos boccado, a essa hora recolhia do monte o Jos&eacute;
+Gaio, s&oacute;sinho,
+sachola ao hombro, um pouco atarantado com a trovoada que rugia ao
+longe, em surdina. Por
+cima d'elle, o c&eacute;o ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa
+negrura espessa de tempestade que infunde pav&ocirc;r &aacute;
+gente, e da qual
+os proprios passaros teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul
+principiava agora, agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros,
+fazendo-os
+murmurar n&atilde;o sei que extranha elegia... A um relampago mais
+vivo, o
+Jos&eacute;
+<span class="pagenum">[102]</span>
+Gaio apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a
+<em>Magnificat</em>. O
+trov&atilde;o chegou, depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em
+rold&otilde;es na
+larga amplitude do c&eacute;o. Debaixo dos p&eacute;s, o
+Jos&eacute; Gaio
+sentia o caminho lamacento, encharcado das enxurradas valentes de todo
+o dia. Mas a ponte
+j&aacute; n&atilde;o ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio
+da ladeira a casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamo' l&aacute; com Deus! fazia elle animando se. <br />
+
+<br />
+
+Um clar&atilde;o subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle
+surgiu de repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente
+illuminada.
+Deitou ent&atilde;o a correr, aterrado; mas t&atilde;o forte
+veio em seguida o trov&atilde;o, que elle instinctivamente parou e
+levou ao c&eacute;o as
+m&atilde;os afflictas, n'um gesto de quem implora misericordia.
+N'aquella imminencia de perigo as proprias arvores lhe pareciam
+immobilisadas pelo terror, &aacute;
+beira do caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era
+como a
+voz implorativa da natureza, unindo-se &aacute; voz d'elle n'um
+longo
+c&ocirc;ro de supplicas... <br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente,
+sem saber d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os
+bra&ccedil;os da cruz negra, que era o signal de alli terem matado
+o Jos&eacute;
+Tendeiro, ha annos, apertou o passo e tomou por um atalho, direito
+&aacute; ponte. Mas
+ent&atilde;o a mesma voz tornou-lhe mais de perto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um
+relampago que illuminou a mil c&ocirc;res a paizagem. Elle cerrou
+os olhos com for&ccedil;a, nervosamente, ferido por aquelle
+deslumbramento que
+por milagre
+<span class="pagenum">[103]</span>
+o n&atilde;o prostrou. E quando o trov&atilde;o
+bramiu,
+rudemente, uma immobilidade de estatua prendia o camponez &aacute;
+terra. Foi ent&atilde;o que
+veio de novo aquella voz, como um prolongamento do trov&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+Ia avan&ccedil;ar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez
+transposta, galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente,
+cedendo a uma for&ccedil;a violentissima, entrou de retroceder,
+cambaleando.
+Aquelle rugir da agua que logo abaixo da ponte fazia cach&atilde;o,
+rugir violento
+mas monotono, infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se
+retroceder...
+Sen&atilde;o quando, estacou ouvindo a mesma voz: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago
+c&ocirc;r de sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos
+aquella cruz preta de longos bra&ccedil;os, sempre abertos e sempre
+firmes, que pareciam
+desafiar a tempestade... <br />
+
+<br />
+
+Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre
+exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
+olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em v&atilde;o! que
+f&ocirc;ra t&atilde;o vivo o deslumbramento, e tanto lhe ferira
+o cerebro, que n'um fundo
+c&ocirc;r de sangue, como n'um transparente de magica, elle via
+nitidamente desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o
+estonteara.
+Ent&atilde;o deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem
+parecia dilatar-lhe o peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento,
+a voz tornou a chamar:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[104]</span> &#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+Sentiu-se alquebrado, transido at&eacute; ao mais intimo do seu
+ser. Um longo desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima
+fibra de
+energia, como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe
+tambem o cerebro: n&atilde;o formava um s&oacute; raciocinio
+nem
+elaborava sequer uma id&eacute;a, a mais simples. E foi preciso um
+grande trov&atilde;o para todo elle
+tremer, abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez
+reviver
+n'elle a vida do espirito; sentiu um grande pav&ocirc;r
+&aacute;quelle
+aspecto subito do campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado
+como se estivesse
+todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida al&eacute;m, para toda
+a banda casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos,
+definidos maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores
+despidas, sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de
+recorte
+que tra&ccedil;ava na luz as sinuosidades mais delicadas dos
+troncos e
+ramarias. No meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e
+tetrico, o
+triste camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli
+chumbado
+&aacute; terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um
+s&oacute; gesto
+implorativo, e nem uma s&oacute; palavra de supplica lhe sahia dos
+labios crispados. Porque uma vez que tent&aacute;ra uma palavra, o
+mais
+formidavel trov&atilde;o cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois,
+aquella voz
+n&atilde;o o largava, imperturbavel e monotona: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+E elle, n&atilde;o respondendo nem fallando, pensava esconjural-a,
+exorcismal-a como se fosse a voz d'um duende. E para esta
+evoca&ccedil;&atilde;o do sobrenatural muito concorria, como os
+senhores comprehendem, esse aspecto sereno da cruz negra, inabalavel
+sob a aza agitada da procella. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[105]</span>
+N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua
+depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul
+furioso. N&atilde;o deu um passo para procurar um abrigo,
+n&atilde;o se mexeu sequer. Como todo elle ardia em febre, aquelle
+diluvio era quasi um celeste beneficio para a sua cabe&ccedil;a
+n'um vulc&atilde;o. Mas
+quando os relampagos vieram, aquella reverbera&ccedil;&atilde;o
+da luz nas cordas
+d'agua fez-lhe um deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o
+caminho lamacento por
+onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
+sobrelevando o trov&atilde;o, repetia do lado da cruz: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+Cobarde, sujo como um sapo, encharcado at&eacute; aos ossos, como
+cahiu assim ficou&#8213;de b&ocirc;rco. Depois, quando abriu os olhos,
+na larga
+po&ccedil;a onde quasi tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a
+cada relampago. Ella
+l&aacute; estava no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta
+como um exemplo... E pois que parara o diluvio, dos seus
+bra&ccedil;os abertos as gottas
+da chuva cahiam, vermelhas &aacute; luz, como grossas lagrimas de
+sangue... <br />
+
+<br />
+
+Cobarde! Nenhuma compara&ccedil;&atilde;o p&oacute;de dar
+id&eacute;a do estado de prostra&ccedil;&atilde;o d'esse
+miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi
+inac&ccedil;&atilde;o de besta morta. Dir-se-hia um immundo
+trapo alli cahido, abandonado alli na lama
+ignobil de um caminho, &aacute; espera da enxurrada que o
+levasse... Era
+abjecto!... E emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que
+uma malhoada prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o
+encastellamento
+phantastico das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo,
+metralhando com
+furia o largo espa&ccedil;o, aos quatro ventos, era tudo quanto o
+nosso espirito p&oacute;de conceber
+<span class="pagenum">[106]</span>
+de mais grandioso e de mais
+sublime,
+epico e tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente. <br />
+
+<br />
+
+Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos
+trov&otilde;es, aquella voz: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o
+outro, o do medo. Parecia colado &aacute; lama, preso ao caminho
+como se
+fosse uma rocha. No emtanto, a espa&ccedil;os, tinha a
+comprehens&atilde;o clara da sua posi&ccedil;&atilde;o e do
+seu estado. E ent&atilde;o uma raiva subita galvanisava-o:
+queria erguer-se, fugir, desapparecer&#8213;erguer-se como aquella cruz,
+fugir como
+aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam
+rastro na treva... <br />
+
+<br />
+
+Taes rebates de coragem eram, por&eacute;m, ephemeros, impotentes
+para lhe provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli,
+miseravelmente, ignobilmente, como um c&atilde;o a que houvessem
+amputado as quatro pernas. E esta id&eacute;a, que o instincto de
+viver lhe
+suggeriu, apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli!
+Mas que duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se n&atilde;o passava
+por alli
+viv'alma, a taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma
+noite medonha
+de tempestade, ao p&eacute; d'aquella cruz negra de longos
+bra&ccedil;os hirtos&#8213;morrer alli!... Eram ent&atilde;o
+j&aacute; por elle as
+lagrimas que essa cruz parecia chorar?... <br />
+
+<br />
+
+Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia.
+Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de
+trope&ccedil;ar n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver.
+Estava salvo. Em breve estaria de p&eacute;,&#8213;de p&eacute; como
+essa cruz que um
+relampago muito vivo
+<span class="pagenum">[107]</span>
+acabava de lhe mostrar... No emtanto, a voz
+&eacute; que se n&atilde;o
+importava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+Mas os passos vinham-se chegando; e ent&atilde;o, como se receasse
+que o calcassem, reuniu n'um supremo esfor&ccedil;o as maximas
+energias,
+e rebolou-se para um lado, at&eacute; ficar detraz d'umas urzes.
+Coisa notavel
+foi, senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se
+recolheu n'uma absoluta quieta&ccedil;&atilde;o, com medo que o
+surprehendessem... E quem quer que era passou, cabe&ccedil;a nua,
+deante da cruz
+gottejante... Aos ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de
+prece... N&atilde;o
+ia s&oacute; a rezar; ia tambem chorando, aquelle homem... <br />
+
+<br />
+
+...Quem seria? <br />
+
+<br />
+
+Um clar&atilde;o branco de relampago fez irromper da treva, livido
+como um espectro, o filho do Jos&eacute; Tendeiro... <br />
+
+<br />
+
+O desgra&ccedil;ado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia
+annos, por uma noite como aquella... <br />
+
+<br />
+
+Passou, ladeira abaixo, na direc&ccedil;&atilde;o da velha
+ponte. S&oacute; aquelle cobarde n&atilde;o se mexeu, prostrado
+sobre as urzes, quasi arrumado
+&aacute; cruz. <br />
+
+<br />
+
+E assim esteve horas e horas, at&eacute; que, noite velha, cessou a
+tempestade, perdida n'um murmurio longiquo, l&aacute; na extrema
+fimbria do
+horizonte... Quando a lua rompeu, livida n'um c&eacute;o de anil,
+nem a grande
+sombra da cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma
+ben&ccedil;&atilde;o, logrou reanimal-o. Tinha morrido, o
+estafermo! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[108]</span>
+Ao outro dia, est&aacute; claro, foram l&aacute; os da
+justi&ccedil;a. O velho abbade foi depois, buscar o corpo. Os
+medicos nem lhe tinham mexido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma
+congest&atilde;o muito linda&#8213;dissera um a rir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E muito mal empregada&#8213;fizera o outro do lado, indifferente. <br />
+
+<br />
+
+Mas quando os da maca disseram a um tempo&#8213;<em>Upa</em>!&#8213;esse
+bom velho do
+abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convuls&atilde;o
+agudissima de choro. E elevando ao c&eacute;o as m&atilde;os
+mirradas&#8213;ao
+c&eacute;o que um divino azul fazia diaphano&#8213;elle exclamou,
+solu&ccedil;ando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhor! Senhor! a vossa justi&ccedil;a &eacute; tremenda,
+como &eacute; infinita a vossa misericordia! <br />
+
+<br />
+
+...Segredo de confiss&atilde;o...&#8213;mas o abbade bem sabia quem
+tinha alli matado o Jos&eacute; Tendeiro... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 120px; height: 78px;" alt="" src="images/fig03.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>BALLADAS </h2>
+
+<br />
+
+<div class="signature1"><em>A Luiz Osorio</em>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>I<br />
+
+<br />
+
+</h4>
+
+<h3><a name="c7"></a>MARICAS </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Voc&ecirc;s</span>
+lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos
+muito castanhos, quasi louros, que morava defronte da
+redac&ccedil;&atilde;o, lembram-se? A boa da rapariga era nossa
+amiga, pois n&atilde;o era? Sempre
+benevola e complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o
+dia e de toda a noite. E voc&ecirc;s bem sabem que taes ellas eram,
+as
+nossas balburdias e algazarras... <br />
+
+<br />
+
+Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
+encantadora&#8213;a de n&atilde;o mostrar jamais na sua amisade
+preferencia por algum de n&oacute;s. Dir-se-hia que era nossa
+irm&atilde;, ou
+mesmo nossa m&atilde;e, pois que nos queria a todos por igual, a
+pobre Maricas de olhar azul e brando... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[112]</span>
+N&atilde;o sei se j&aacute; vos disse: adivinho o interesse com
+que ella vos perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela
+solicitude e interesse com que me perguntava por voc&ecirc;s,
+quando faziam
+gazeta ao escriptorio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o esses cabulas? ent&atilde;o esses marotinhos?
+Doente, algum? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na esturdia, Maricas. Andam todos por l&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vejam!&#8213;fazia ella quasi escandalisada. <br />
+
+<br />
+
+Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos
+que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos
+outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um
+<em>t&ecirc;te-&agrave;-t&ecirc;te</em> que
+durava horas, muito
+familiares, muito dados, quasi que chamando-lhe por tu e ella a
+n&oacute;s! <br />
+
+<br />
+
+Como eu me lembro! <br />
+
+<br />
+
+Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
+perguntas que lhe faziamos, e ent&atilde;o uma grande paciencia
+inexhaurivel. N&oacute;s, os estroinas, quasi que chegavamos a
+adorar aquella
+ingenuidade singela do seu cora&ccedil;&atilde;o de vinte
+annos. A boa da
+Maricas era adoravel, toda ella bondade e paciencia para os nossos
+disturbios e para as
+nossas algazarras de toda a hora e de todo o instante. <br />
+
+<br />
+
+Mas como se familiarisou ella comnosco e n&oacute;s com ella,
+&eacute; que me n&atilde;o lembra, e porventura a nenhum de
+voc&ecirc;s, acho eu. O que
+&eacute; certo, rapazes, &eacute; que n&oacute;s como que a
+consideravamos uma
+companheira de redac&ccedil;&atilde;o, especie de directora com
+casa &aacute;parte e viver independente pois que
+se entravamos no escriptorio (parece mesmo
+<span class="pagenum">[113]</span>
+que estou a ver aquella
+barafunda d'escriptorio!) e, assomando &aacute; janella, a
+n&atilde;o
+viamos na sua, diziamos quasi sem querer, mas invariavelmente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas? <br />
+
+<br />
+
+E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo,
+&aacute; formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde
+f&oacute;ra, em casa da <em>freira</em> de
+Quebra-Costas&#8213;d'essa
+lembram-se voc&ecirc;s... No
+emtanto, deveis recordar-vos que ella, no dia
+seguinte...&#8213;coitada!&#8213;...a primeira cousa que fazia era justificar a
+sua falta, &laquo;estive
+aqui, estive alli, fui a umas compras com a mam&atilde;&raquo;,
+um
+pouco ruborisada e confusa, como se na realidade a sua
+obriga&ccedil;&atilde;o
+fosse estar alli a aturar-nos. Por pouco ella nos n&atilde;o pedia
+de m&atilde;os
+postas que lhe perdoassemos, a boa da rapariga. <br />
+
+<br />
+
+E n&oacute;s ent&atilde;o galhofeiros, brincalh&otilde;es: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem mais <em>aquellas</em>, D. Maricas! A
+congrega&ccedil;&atilde;o
+risca-lhe a falta, ora essa!... <br />
+
+<br />
+
+E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas &eacute; que &aacute;s vezes... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes qu&ecirc;?... <br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella
+estivesse zangada comnosco. Sa&iacute;ra, porque tinha de sair,
+essa &eacute;
+boa...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o era verdade&#8213;perguntavamos-lhe&#8213;que ella adorava
+aquella <em>troupe</em> de bohemios? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[114]</span> &#8213;S&atilde;o todos muito bons rapazes&#8213;dizia j&aacute; a
+sorrir.&#8213;Todos me tractam muito bem... <br />
+
+<br />
+
+E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se
+illuminava de prazer e sorria de intima gratid&atilde;o. Mas porque
+sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas? <br />
+
+<br />
+
+Quando nos via em palestras interminaveis, nas
+liba&ccedil;&otilde;es do <em>congnac</em> e do
+caf&eacute;,
+ouvia-se l&aacute; da janella um <em>pschiu</em>!
+muito sibilado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que manda a D. Maricas? &Eacute; servida? <br />
+
+<br />
+
+E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mando que escrevam, que trabalhem! J&aacute; fizeram o jornal? <br />
+
+<br />
+
+O cuidado que lhe dava o jornal! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora faz favor de n&atilde;o fallar em coisas tristes? Olhem agora
+que lembran&ccedil;a, o jornal! <br />
+
+<br />
+
+Ella ent&atilde;o, por unica resposta, dizia-nos &aacute;s
+vezes que na semana passada o typographo viera queixar-se de que havia
+falta de originaes, quantas vezes o garoto da imprensa viera pedir as
+provas emendadas. <br />
+
+<br />
+
+E por fallar em provas:&#8213;a Maricas sabia todos os signaes das emendas,
+todos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe l&aacute;, Maricas, est&aacute; aqui uma letra a mais
+n'esta palavra. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[115]</span> &#8213;Risco por cima, risco &aacute; margem, e um <em>d</em>
+cortado;
+&eacute; facil. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um <em>m</em> de pernas para o ar, e esta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Risca-se, e um tres cortado, &aacute; margem. Est&aacute;
+farto de o saber... <br />
+
+<br />
+
+Quando via algum sentado &aacute; meza, a rabiscar, pedia sempre
+que lhe fosse mostrando as tiras, &aacute; medida que as
+escrevesse, talvez
+porque adivinhava que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe
+ent&atilde;o a vontade,
+e mal escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a
+janella,
+acenando-lhe com o papel: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Maricas, c&aacute; est&aacute; uma, v&aacute; contando.
+Veja: escripta d'alto a baixo. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; terceira que se lhe mostrava, ella sa&iacute;a-se de
+l&aacute; com um <em>bravo</em>! e recommendava,
+solicita, cinco minutos
+de folga, emquanto se fumava um cigarro. <br />
+
+<br />
+
+A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
+a gomma nos dias de expedi&ccedil;&atilde;o. Que ricas cintas e
+que bella gomma! Em paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi
+sempre nos sabbados
+&aacute; noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era
+estreita atirava-se-lhe da janella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Maricas, ahi vae ainda fresquinho! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;'st&aacute; bem, obrigada. Vou l&ecirc;r, at&eacute;
+&aacute;manh&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+Corriamos todos &aacute; janella, a dar as boas noites &aacute;
+nossa amiga. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[116]</span> &#8213;Durma bem, ouviu? <br />
+
+<br />
+
+E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do
+artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que
+mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito
+bom, &laquo;escripto com muita gra&ccedil;a e muito
+bem&raquo;, como ella dizia. <br />
+
+<br />
+
+Nos ser&otilde;es que faziamos e que por via de regra
+n&atilde;o passavam de um interminavel cavaco, dizia-se mal das
+mulheres, discutiam-se
+escandalos, desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as
+redac&ccedil;&otilde;es... Mas da Maricas ninguem tinha que
+dizer sen&atilde;o bem; era a
+privilegiada n'aquellas sess&otilde;es de m&aacute; lingua.
+Quasi sempre a conversa
+degenerava em algazarra&#8213;um que se lembrava de cantar, outro que ia
+pela guitarra e gemia fados com acompanhamento de viol&atilde;o. E
+era de
+v&ecirc;r o Santos Mello, d'olhos cerrados e cabe&ccedil;a
+&aacute; banda, como cantava a
+sua quadra predilecta: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Sei cantigas mysteriosas,<br />
+
+Cantigas de endoidecer,<br />
+
+Que os lirios dizem
+&aacute;s rosas,<br />
+
+Que as rosas me v&ecirc;m dizer. </div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava
+silencio. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Com mil demonios! n&atilde;o viam que a Maricas
+n&atilde;o podia pregar olho...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Todavia...&#8213;&oacute; suprema bondade!&#8213;...ella nunca se queixava
+quando no dia seguinte nos vinha dizer at&eacute; que horas durara
+a estroinice,
+o que se tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e,
+at&eacute;, as vezes que as cadeiras tinham caido. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+&laquo;Ora viam?! N&atilde;o a tinhamos deixado dormir! A
+Maricas que desculpasse; palavra d'honra! d'&oacute;ra
+&aacute;vante...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Ella ent&atilde;o acudia logo, como a remediar uma grande
+desgra&ccedil;a: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o, eu at&eacute; g&oacute;sto.
+Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora essa... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pois, meus amigos, a boa da Maricas&#8213;morreu! voc&ecirc;s
+n&atilde;o sabiam! E morreu tysica, a desgra&ccedil;ada
+Maricas! S&oacute; depois que o
+soube, &eacute; que eu comecei a pensar n'aquella tossesinha muito
+secca em que &aacute;s vezes a surprehendiamos, n'aquelle branco
+pallido das suas faces, no bistre das
+suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas
+m&atilde;ositas de marfim... <br />
+
+<br />
+
+Pobre Maricas! <br />
+
+<br />
+
+Haver&aacute; tres mezes que ella me desappareceu da sua janella,
+onde continuei a v&ecirc;l-a depois que o jornal acabou. Eu sabia
+l&aacute; para onde ella tinha ido?!... <br />
+
+<br />
+
+Mal diria eu que estavas no cemiterio, t&atilde;o longe e
+t&atilde;o s&oacute;! porventura na valla commum, sem umas
+folhas de rosa sobre a tua sepultura humilde,&#8213;onde n'este instante
+c&aacute;e chuva e chuva! Ainda se
+as noites fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora
+relembro
+cheio de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita
+resigna&ccedil;&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[118]</span> &#8213;...&laquo;Entretem-me v&ecirc;l-os alegres, at&eacute; me
+faz bem&raquo;... <br />
+
+<br />
+
+Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, j&aacute; que a
+tua alma era triste... Mas porque foi que nos n&atilde;o disseste,
+pobresinha!
+que n'essa phrase singela ia a revela&ccedil;&atilde;o do
+presentimento
+que tinhas da tua morte prematura?! Triste crean&ccedil;a que
+n&oacute;s n&atilde;o
+mais veremos! <br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. J&aacute; me n&atilde;o
+dizes&#8213;<em>bravo</em>!&#8213;ora n&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella
+rebentem fl&ocirc;res, s&atilde;o talvez precisos estes corpos
+a avigorar-lhe as seivas... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 90px; height: 100px;" alt="" src="images/fig04.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>II <br />
+
+<br />
+
+</h4>
+
+<h3><a name="c8"></a>PARA A ESCOLA </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">No</span> velho
+casar&atilde;o do convento &eacute; que era a aula.
+Aula de primeiras lettras. A porta l&aacute; estava, amarella com
+fortes pinceladas
+vermelhas, ao cima da grande escadaria de pedra, t&atilde;o suave
+que era um
+regalo subil-a. Obra de frades, os senhores calculam... J&aacute;
+tinha principiado
+a aula quando a Helena entrou commigo pela m&atilde;o. Fez-se um
+silencio
+nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas
+li&ccedil;&otilde;es e a sua taboada, n'um rithmo cadenciado e
+monotono, cantarolando. E ouviu-se
+ent&atilde;o a voz da Helena dizer para o senhor professor, um
+d'oculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do len&ccedil;o
+vermelho, atado em
+n&oacute; sobre a testa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bons dias. L&aacute; de casa mandam dizer que aqui
+est&aacute; a encommendinha. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[120]</span>
+Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez &aacute;
+escola. Ali estava a encommendinha! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem, que fica entregue. E l&aacute; em casa como
+v&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
+enfiava-me no bra&ccedil;o o cord&atilde;o da saquinha
+vermelha, com borlas, onde ia mettido nem eu sabia o qu&ecirc;. Meu
+pae &eacute; que
+l&aacute; sabia... E alli estava eu entre os joelhos do senhor
+professor, com o <em>bonnet</em> n'uma das
+m&atilde;os e a saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A
+Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e
+disse-me adeus. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, Jos&eacute;sinho, logo venho c&aacute; pelo menino. <br />
+
+<br />
+
+Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, agora o menino fica&#8213;disse-me a Helena.&#8213;Isto aqui
+&eacute; a escola, &eacute; onde se aprende a ler.&#8213;E
+agachando-se, deante de mim:&#8213;Olhe tanto menino, v&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas fica tu tambem&#8213;disse-lhe eu ent&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
+iracundo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Caluda, sua canalha! N&atilde;o veem que est&aacute; gente de
+f&oacute;ra? Caluda, que vae tudo razo com bolaria! <br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles
+eram todos meus conhecidos! Vivam l&aacute; voc&ecirc;s! E
+estavam todos
+alegres, p'los modos. Reanimei-me. Ent&atilde;o j&aacute; eu
+podia ficar, estavam ali
+os meus amigalhotes, cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam
+alguns, o
+Estev&atilde;o principalmente. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[121]</span> &#8213;Isto &eacute; preciso muita paciencia, senhora Helena, muita
+somma de paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.&#8213;(Pausa. Olho
+duro sobre as bancadas.)&#8213;Mas est&aacute; bem, diga l&aacute;
+que a
+encommendinha c&aacute; fica. Em boa hora entrasse... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Jos&eacute;sinho? <br />
+
+<br />
+
+Das bancadas alguns acenavam-me que n&atilde;o, arregalando muito
+os olhos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade,&#8213;insistiu por sua vez o professor&#8213;o menino
+ha-de estudar as suas li&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o
+&eacute;
+assim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga, sim senhor&#8213;ensinou-me ent&atilde;o a Helena.&#8213;Hei-de
+estudar muito e ser socegadinho na aula, diga.&#8213;E a meia voz para o
+professor:&#8213;isto em
+casa &eacute; o vivo mafarrico; faz l&aacute; ideia? <br />
+
+<br />
+
+Elle riu, j&aacute; sabia; as crean&ccedil;as s&atilde;o
+todas assim, emquanto est&atilde;o no mimo das m&atilde;es. Mas
+uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam
+um pouco. E piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou
+transida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz milagres, sr.<sup>a</sup> Helena. Digam l&aacute;
+o que disserem, olhe
+que faz milagres. <br />
+
+<br />
+
+Eu tinha percebido. Come&ccedil;ava de novo a <em>embezerrar</em>,
+com
+vontade de sair quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que
+servia, a palmatoria... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas para o nosso Z&eacute;zito n&atilde;o ha de ser precisa,
+ora n&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga assim: n&atilde;o senhor, porque eu hei de cumprir com as
+minhas obriga&ccedil;&otilde;es, diga. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[122]</span> &#8213;Ora ahi &eacute; que est&aacute;&#8213;atalhou o
+professor.&#8213;V&ecirc;, sr.<sup>a</sup> Helena? Aqui
+j&aacute; os pequenos
+tem a sua obriga&ccedil;&atilde;osinha, os seus
+deveres a cumprir, as suas coisas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim senhor, sim, emquanto que em casa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em casa &eacute; o que n&oacute;s sabemos. Tudo
+s&atilde;o mimos, meu menino isto, meu menino aquillo.
+V&atilde;o assim creados &aacute; lei da
+natureza, sabe vossemec&ecirc;? &Eacute; mau isso, pessimo!
+Porque &eacute; que os rapazes s&atilde;o
+todos teimosos?&#8213;E bateu n'um &laquo;Monteverde&raquo; pousado
+sobre a mesa,
+dizendo:&#8213;Olhe, aqui est&aacute; n'este livro: &laquo;<em>de
+pequenino</em>... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...<em>&eacute; que se torce o pepino</em>&raquo;&#8213;concluiu
+rapida a
+Helena, orgulhosa de saber o que estava no livro, coitada! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino &eacute; uma cousa
+que se cria na horta... <br />
+
+<br />
+
+Risota dos rapazes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora v&ecirc; isto, sr.<sup>a</sup> Helena?
+v&ecirc; estes brutinhos?&#8213;E
+com entono, de palmatoria alta, fazendo-se carrancudo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se pe&ccedil;o
+licen&ccedil;a &aacute; sr.<sup>a</sup> Helena,
+come&ccedil;o n'uma
+ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos,
+tudo, mas o que se chama tudo! <br />
+
+<br />
+
+E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella amea&ccedil;a, os
+rapazes ficaram transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros.
+&Eacute; verdade
+que elle podia pedir licen&ccedil;a &aacute; sr.<sup>a</sup>
+Helena, e
+mesmo
+deante d'ella <em>cascar</em> de rijo... Uma sombra de
+terror passou por toda
+a sala, socegaram;
+at&eacute; o Estev&atilde;o deixou de me fazer caretas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que v&ecirc;, sr.<sup>a</sup>
+Helena&#8213;disse ent&atilde;o
+victorioso, a
+<span class="pagenum">[123]</span>
+sorrir-se, o bom do professor.&#8213;&Eacute; o que
+v&ecirc;! Um mestre sem
+palmatoria &eacute; um artista sem ferramenta, n&atilde;o faz
+nada. <em>Santa Luzia</em> milagrosa! Aqui onde
+a v&ecirc; tem feito muitos doutores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa?&#8213;perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle
+peda&ccedil;o de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito
+muitos doutores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, mulher, se n&atilde;o foi esta, outras como esta,
+essa &eacute; boa! Isso n&atilde;o faz ao caso. <br />
+
+<br />
+
+Pela resposta bem se v&ecirc; que foi indiscreta a pergunta da
+pobre Helena. Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes
+investigara com
+magua o motivo por que a sua palmatoria n&atilde;o fazia um unico
+doutor... Morreria sem ter essa &laquo;gloria,&raquo; decerto!
+Forte martyrio que
+a Helena veio recordar-lhe!... <br />
+
+<br />
+
+Houve uma interrup&ccedil;&atilde;o, um rapaz que se levantou e
+de bra&ccedil;o no ar pedia para ir l&aacute; f&oacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Lic&eacute;te</em>!&#8213;foi como elle disse,
+arremedando o latim
+<em>licet</em>. Outros havia que diziam, por
+tro&ccedil;a, <em>Aniceto</em>! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora j&aacute; a mim me admirava,&#8213;tornou-lhe o professor.&#8213;Se tu
+n&atilde;o havias de pedir para ir l&aacute; f&oacute;ra,
+tu...&#8213;E ficou-se a
+fital-o, meneando pausadamente a cabe&ccedil;a.&#8213;Ora v&aacute;
+voc&ecirc;
+l&aacute; f&oacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de p&eacute;s. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;?&#8213;chamou zangado o sr. professor. <br />
+
+<br />
+
+O outro assomou &aacute; porta, contrafeito. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span> &#8213;Para a outra vez faz-se menos barulho com esses p&eacute;s,
+ouviu? N&atilde;o sei se percebes... Ora j&aacute; que tem
+tanta pressa, eu n&atilde;o
+tenho nenhuma; fa&ccedil;a favor de esperar um pouco. <br />
+
+<br />
+
+Poz-se ent&atilde;o a correr a vista pelas bancadas, resmungando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu n&atilde;o... tu n&atilde;o... tu n&atilde;o... Tu,
+ol&aacute;, venha c&aacute;! <br />
+
+<br />
+
+Levantaram-se uns poucos, foi um barulho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Canalha!&#8213;gritou-lhes ent&atilde;o, batendo o
+p&eacute;.&#8213;Corja de atrevidos! Sentados, j&aacute;! <br />
+
+<br />
+
+Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de l&aacute;, humilde,
+se era elle, apontando para o peito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, &eacute;s tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Mediu-o d'alto a baixo. Depois: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso mesmo. Essa m&atilde;o no bolso &eacute; que
+n&atilde;o &eacute; do <em>regulamento</em>,
+f&oacute;ra com ella.
+Agora, sim senhor. Ora v&ecirc;s al&eacute;m aquelle
+sujeito? o tal das pressas?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo, sim senhor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei que v&ecirc;s, se o n&atilde;o vissem &eacute;
+porque eras cego; que tal est&aacute; o palerma? Ora acompanhe-o,
+j&aacute; sabe p'ra que. E sempre quero
+ver se tenho de vos ir l&aacute; buscar pelas orelhas. <br />
+
+<br />
+
+Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[125]</span> &#8213;Ol&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+Elles assomaram, outra vez, atrapalhados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, seus cabe&ccedil;as d'avel&atilde;, torres
+de vento, ent&atilde;o n&atilde;o falta nada? <br />
+
+<br />
+
+Os dois pozeram-se a co&ccedil;ar a cabe&ccedil;a, muito
+compromettidos. Faltava com effeito alguma coisa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; ahi? <br />
+
+<br />
+
+Elles avan&ccedil;aram at&eacute; ao meio da sala,
+trope&ccedil;ando um no outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora passa por esta vez, em atten&ccedil;&atilde;o a estar
+aqui a sr.<sup>a</sup> Helena.&#8213;E enrugando o sobr'olho,
+commandou em tom
+marcial:&#8213;Ordinario! marche! <br />
+
+<br />
+
+Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava
+o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir
+ordens suas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ordinario! marche! <br />
+
+<br />
+
+Sentou-me ent&atilde;o no joelho e perguntou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha l&aacute;, Jos&eacute;sinho, tu queres ser militar,
+queres? Assim como o sr. capit&atilde;o do destacamento, que
+l&aacute; est&aacute;
+aboletado em casa, queres? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Corneta, mais queria ser corneta. Ou ent&atilde;o como o sr.
+prior, dizer missas. <br />
+
+<br />
+
+Riram-se. Quem sabia l&aacute; o que d'ali sairia? Mas o sr.
+professor fez notar que era bom que os pequenos tivessem
+<span class="pagenum">[126]</span>
+j&aacute;
+assim uma
+tendencia qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas
+nas bochechas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Corneta ou prior, hein? Pois isso &eacute; que &eacute;
+preciso escolher.&#8213;E para a Helena:&#8213;Pois olhe que os tenho conhecido,
+sr.<sup>a</sup> Helena, que respondem
+a p&eacute;s junctos que n&atilde;o querem ser nada. Mau
+signal,
+pessimo, sr.<sup>a</sup> Helena! Quando elles assim dizem,
+de ordinario assim
+fazem, depois. Nunca
+s&atilde;o gente.&#8213;E virando-se para mim:&#8213;Mas ent&atilde;o,
+Jos&eacute;sinho, em que ficamos? Corneta ou prior? <br />
+
+<br />
+
+Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito,
+especialmente em dias de festa, com aquella capa toda doirada... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem, escolheste bem. &laquo;<em>Telha de egreja</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;...<em>sempre gotteja</em>&raquo;&#8213;concluiu a Helena
+que ainda hoje
+&eacute; forte em adagios. <br />
+
+<br />
+
+O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prior, ent&atilde;o! Est&aacute; muito bem, seu reverendo.
+Pois olha, Jos&eacute;sinho, para ser prior &eacute; preciso
+estudar, saber ler no missal, ora
+&eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... N&atilde;o &eacute; assim que se diz. &Eacute;,
+sim senhor&#8213;emendou a Helena. <br />
+
+<br />
+
+O sr. professor teve um gesto de indulgencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tu n&atilde;o sabes ainda, ora n&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[127]</span> &#8213;N&atilde;o senhor. <br />
+
+<br />
+
+Elle ent&atilde;o, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que
+eu trazia na sacca era um livro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querem ver que &eacute; um livro?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga&#8213;ensinou a Helena&#8213;&eacute; o meu livro para aprender a ler.
+Mostre-o l&aacute; ao sr. professor, tome. <br />
+
+<br />
+
+Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
+meu livro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem! muito bem!&#8213;applaudiu o sr. professor.&#8213;Mas este livro
+&eacute; mesmo para aprender a prior... O menino j&aacute;
+tinha dito
+l&aacute; em casa que queria ser prior, ora j&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+Fiz que sim com a cabe&ccedil;a. Era verdade aquillo; mas como
+&eacute; que elle o sabia? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem se v&ecirc; por este livro. &Eacute; livro para prior.
+Queres ent&atilde;o principiar, n&atilde;o queres? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero, sim senhor,&#8213;ensinou ainda a Helena e eu repeti.&#8213;O que eu
+quero &eacute; dizer missa quanto mais cedo melhor, diga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primeiro do que aquelles?&#8213;perguntou voltando-me para as bancadas. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o fui eu mesmo que respondi:&#8213;&laquo;Sim
+senhor!&raquo;&#8213;contente com a lembran&ccedil;a de vir a dizer
+missa, e de a vir a dizer primeiro
+do que todos aquelles. At&eacute; podia acontecer que o
+Estev&atilde;o das
+caretas me ajudasse a alguma... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[128]</span> &#8213;Ora ent&atilde;o est&aacute; muito bem, estamos
+entendidos.&#8213;E com inten&ccedil;&atilde;o, ferindo muito as
+palavras, para m'as gravar no espirito:&#8213;A primeira coisa que
+&eacute; precisa para prior &eacute; saber bem isto,
+v&ecirc;s?&#8213;E
+punha-me deante dos olhos o livro aberto na primeira pagina.&#8213;Isto aqui
+&eacute; j&aacute;
+missa, chama-se o <em>a b c</em>, e &eacute; aquillo
+que os priores dizem
+quando v&atilde;o
+para o altar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Ito</em>?&#8213;inquiri curioso, furando a pagina com o
+dedo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, isto. E amanha j&aacute; me has-de trazer sabido d'aqui
+at&eacute; ali. Hein? valeu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor. <br />
+
+<br />
+
+Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira
+li&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+<em>A B C D E F</em>! <br />
+
+<br />
+
+A minha primeira li&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora sabe vossemec&ecirc; o que isto &eacute;, sr.<sup>a</sup>
+Helena?
+isto que eu tenho estado a fazer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim senhor, sei... &eacute; assim... como quem diz...
+&eacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabe, n&atilde;o admira,&#8213;disse complacente o sr.
+professor.&#8213;Puxar o gosto, sr.<sup>a</sup> Helena, puxar o
+gosto &eacute; que
+isto &eacute;.
+Nem todos os mestres o fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim,
+at&eacute;
+j&aacute; vae estudar com mais gosto, digo-lh'o eu; ol&eacute;
+se vae! <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas elle n&atilde;o a queria demorar mais, tinha
+l&aacute; em casa as suas obriga&ccedil;&otilde;es, as suas
+voltas, e deviam ser
+horas.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[129]</span> &#8213;Pois isso &eacute; verdade, sr. professor; mas n&atilde;o sei
+que &eacute;, custa-me a separar do menino...&#8213;disse a boa da
+Helena, quasi a chorar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi &eacute; que est&aacute; a
+coisa. Pois tenha paciencia. Aprender &eacute; t&atilde;o
+preciso como
+mamar&#8213;concluiu n'uma prosa que &eacute; mesmo poesia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; preciso, &eacute;!... <br />
+
+<br />
+
+E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
+na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me
+ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;sr.<sup>a</sup> Helena! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu senhor!&#8213;respondeu, levando aos olhos o avental. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; agora, espere mais um instante. <br />
+
+<br />
+
+Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
+Depois, intimou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, Francisco, ol&aacute;, chega acima. E tu do lado, como te
+chamas, abaixo um pouco.&#8213;E virando-se para a pobre mulher
+lacrimosa:&#8213;Ora
+&eacute; alli, sr.<sup>a</sup> Helena, alli
+&eacute; que &eacute; o
+logar do pequeno.
+Leve-o l&aacute;, ande, que lhe n&atilde;o deve pesar. <br />
+
+<br />
+
+E dos bra&ccedil;os do meu professor passei para os
+bra&ccedil;os da ama. Novo beijo, lagrimas mais quentes, e saiu a
+boa da Helena, deixando-me no meu logar...&#8213;o meu primeiro posto na
+arriscada milicia das lettras... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[130]</span>
+Depois, s&oacute; vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a
+conversar por acenos com a pessoa que estava de f&oacute;ra.
+Pequeno como era,
+percebi, no emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bolos?... N&atilde;o?!... Perdoe a sr.<sup>a</sup>
+Helena, mas isso, quando
+forem precisos... Pois sim... l&aacute; isso sim... pequeninos...
+Han?
+mesmo com a m&atilde;o?... Est&aacute; bem... Descance... Mesmo
+com a
+m&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre
+lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
+principiei n'esse dia. N&atilde;o volto mais &aacute; escola!
+Venho hoje restituir-te, querida amiga, aquelle beijo&#8213;dulcissimo beijo
+aquelle!&#8213;que tu
+ent&atilde;o me d&eacute;ste. E afinal n&atilde;o fui
+prior, ora
+v&ecirc;!... Mas ainda bem. Se o fosse, acho que parecia mal
+beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
+que n&atilde;o fui prior, ainda bem... N&atilde;o &eacute;
+verdade, Helena? <br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1 tinyl">Em Coimbra,</div>
+
+no dia do meu acto de formatura. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c9"></a>TRAGEDIA RUSTICA </h3>
+
+<h4>
+I </h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Madrugada de
+segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo,
+&aacute; porta do Jos&eacute; Grillo</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Truz! truz! truz! <br />
+
+<br />
+
+Os de casa acordaram, sobresaltados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Schiu! nem pio!&#8213;fez o Jos&eacute; Grillo para a mulher.&#8213;Moita! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Truz! truz! truz! <br />
+
+<br />
+
+Do seu cubiculo, a Anna, filha do Jos&eacute; Grillo, poz-se a
+chamar pelo pae.&#8213;Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se
+queria divertir... <br />
+
+<br />
+
+Mas logo outra vez na porta: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Truz! truz! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arre que &eacute; bruto! v&aacute; bater ao inferno, quem
+&eacute;! gritou
+<span class="pagenum">[132]</span>
+de dentro o Jos&eacute; Grillo, zangado. E
+pois que se poz &aacute; c&oacute;ca, de
+orelha fita, olhos cravados na telha-van do casebre, sentiu
+distinctamente os passos de alguem que fugia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o te disse? aquillo foi bruto que se quiz
+divertir&#8213;explicou elle para a mulher. <br />
+
+<br />
+
+Mas palavras n&atilde;o eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
+cachorrinho, mesmo rente &aacute; porta. Veio-lhe logo &aacute;
+ideia que lhe tinham vindo p&ocirc;r z&ocirc;rro... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; mulher, queres tu ver que ha novidade? <br />
+
+<br />
+
+De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
+casebre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle que demonio de embrulho...? <br />
+
+<br />
+
+Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma crean&ccedil;a,
+envolta em dois trapinhos muito velhos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitadinho! fez o ganh&atilde;o achegando ao peito a creancinha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grandes cadellas!&#8213;E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
+gente da casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Andem! a p&eacute;! levantem-se! est&aacute; aqui este
+innocentinho que vem dar os bons dias &aacute; gente! <br />
+
+<br />
+
+Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, j&aacute; o bom do
+Jos&eacute; Grillo mettera a crean&ccedil;a na cama, visto que
+a pobresinha estava
+gelada... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha
+<span class="pagenum">[133]</span>
+do Antonio das
+Varedas, &eacute; verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo. <br />
+
+<br />
+
+Despediu immediatamente a filha, a Anna, &aacute; procura da Brites
+que chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a
+rapariga que ia correndo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que se n&atilde;o demore, ouves? que se lhe paga aquillo que
+f&ocirc;r. <br />
+
+<br />
+
+Mas a mulher do Jos&eacute; Grillo, a senhora Joanna, de
+p&eacute; no meio da casa, a saia amarella deitada pela
+cabe&ccedil;a, de bra&ccedil;os
+cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; mulher, nada de afflic&ccedil;&otilde;es,
+&eacute; tal e qual como se fosse nosso, faz de
+conta...&#8213;observou-lhe logo o Jos&eacute; Grillo que percebia o ar
+taciturno da femea. <br />
+
+<br />
+
+Ella s&oacute; redarguiu que <em>nosso</em> era um
+modo de fallar. Seria
+d'elle, mais de qualquer desavergonhada... <br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Grillo, que estava a enfiar as cal&ccedil;as,
+parou no servi&ccedil;o e pregou-lhe uma gargalhada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ageita-me o pequeno, ouves? V&ecirc; l&aacute; que talvez
+esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje &eacute; dia de
+entrudo. <br />
+
+<br />
+
+A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um bra&ccedil;o,
+levou-a ao p&eacute; da crean&ccedil;a, affirmando-lhe
+&aacute;s risadas que sim,
+que o pequeno era filho d'elle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O pequeno?... mas &eacute; que pode ser cachopa&#8213;disse o
+Jos&eacute; Grillo para a mulher.&#8213;E certificando-se:&#8213;Nada!
+&eacute; rapaz. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+Seguiu-se uma alterca&ccedil;&atilde;o. A senhora Joanna, a
+chorar, ia jurando pela sua salva&ccedil;&atilde;o que
+&laquo;o
+crian&ccedil;o&raquo; era filho do seu homem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica,
+bra&ccedil;os no ar, o balandrau da saia amarella enfiado pelo
+pesco&ccedil;o n'um geito
+de sobrepeliz.&#8213;M&aacute; hora em que me eu casei! ai Jesus que vae
+ser de mim! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que &eacute; rapaz, ouves? anda c&aacute; ver que
+&eacute; rapaz&#8213;disse-lhe de l&aacute; o Jos&eacute;
+Grillo, muito fleugmatico, debru&ccedil;ado sobre a
+crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalha&ccedil;o,
+muito afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o Jos&eacute;
+Grillo
+virou-se para ella e disse-lhe muito solemne: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois assim me Deus salve como n&atilde;o &eacute; meu o
+rapaz. <br />
+
+<br />
+
+Ao ouvir assim fallar o seu Jos&eacute;, a senhora Joanna voltou-se
+logo para elle, olhos esbugalhados, muito suspensa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juras pelas cinco chagas, &oacute; homem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro pelas cinco chagas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim te Deus d&ecirc; saude, &oacute; Jos&eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim me Deus d&ecirc; saude. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Preto sejas tu como o teu chapeu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Preto seja eu como o meu chapeu. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[135]</span>
+A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e
+abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa
+Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o, pegada na face interna da
+tampa, com
+boccadinhos d'hostia. <br />
+
+<br />
+
+Depois desabafou, muito aliviada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai! <br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Grillo poz-se a rir.&#8213;&laquo;O demonio da Joanna,
+com ciumes!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ciumes de qu&ecirc;, &oacute; mulher? n&atilde;o
+far&aacute;s favor de me dizer de que diabo tens tu
+ciumes?&#8213;perguntava muito casto o amigo Jos&eacute; Grillo,
+serenissimo deante da mulher desconfiada. <br />
+
+<br />
+
+A outra, muito delambida, redarguiu com ironia&#8213;&laquo;que o seu
+homem era um santinho...&raquo;&#8213;O Jos&eacute; Grillo ia
+defender-se. Mas
+ella, atalhando logo, reguingou d'alto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes tu que mais? estafermos &eacute; o que mais ha. Olha a
+cadella que engeitou este... <br />
+
+<br />
+
+Aqui, fez uma suspens&atilde;o; depois perguntou, muito lampeira: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem seria a grande cadella? <br />
+
+<br />
+
+Poz-se ent&atilde;o a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares
+de alguem, murmurando phrases d'odio, moralistas: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Precisava ser enforcada, a tua m&atilde;e; quem quer que
+&eacute; tem mesmo entranhas de lobo. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[136]</span>
+O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do
+Jos&eacute; Grillo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; fome, coitadinho! o infeliz inda n&atilde;o sabe que
+coisa &eacute; mamar&#8213;disse contristado o lavrador. <br />
+
+<br />
+
+Foi-se logo &aacute; porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem
+vinha com a Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tua irm&atilde;, tua irm&atilde; &eacute; que se
+c&aacute; precisava. Que demonio vens tu c&aacute; fazer?
+Ouves? n&atilde;o me dir&aacute;s que diabo vens tu
+c&aacute; fazer?&#8213;E deu um bofet&atilde;o na filha,
+&laquo;para que soubesse dar o recado&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga n&atilde;o tinha
+culpa. A irm&atilde; &eacute; que a mandara para levar a
+crean&ccedil;a, porque ella, adoentada,
+fazia-lhe mal sair de casa assim cedo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; se lhe queres tu dar de mamar&#8213;insistiu ainda o
+Jos&eacute; Grillo, virado para a Dorotheia, irreverente pelos seus
+dezenove annos inda virgens. <br />
+
+<br />
+
+A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Credo, homem! essas coisas n&atilde;o se dizem, nem por
+gra&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei l&aacute; se n&atilde;o se dizem?&#8213;observou o
+lavrador, muito zangado.&#8213;D&aacute; c&aacute; d'ahi o pequeno. <br />
+
+<br />
+
+Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao
+Jos&eacute; Grillo. O lavrador depol-o nos bra&ccedil;os da
+Dorotheia, com mil cuidados,
+e depois elle mesmo ajudou
+<span class="pagenum">[137]</span>
+as mulheres a ageitar o pequenino, em termos
+que
+fosse bem quente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Roda forte, ouves? E diz l&aacute; a tua m&atilde;e que eu de
+tarde por l&aacute; appare&ccedil;o, p'ra ver isto do ajuste. <br />
+
+<br />
+
+A rapariga saiu. E como o lavrador d&eacute;sse f&eacute; que
+tinham alli ficado os farrapos, gritou para a rapariga: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; D'rotheia! espera que inda c&aacute; ficou isto. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o poz-lhe os farrapos ao hombro&#8213;uns peda&ccedil;os
+miseraveis de velha chita&#8213;e a Dorotheia partiu onde &aacute;
+irm&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>II </h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Quarta-feira
+anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de
+Antonio Palma, casado com Rufina Maria</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A
+mulher, a Rufina, principiava a lavar a lou&ccedil;a, quando
+&aacute;
+grade do quinchoso uma voz chamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr.<sup>a</sup> Rufina! <br />
+
+<br />
+
+Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as
+m&atilde;os fumegantes. Foi preciso fazer calar o <em>Farrusco</em>
+para
+se poder ouvir o que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do
+caminho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem. <br />
+
+<br />
+
+O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de
+cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre al&ccedil;ado, uma
+desavergonhada que tinha fugido ao marido, o Jos&eacute; Thomaz
+negociante de gado. Entrou, fizeram-lhe uma
+recep&ccedil;&atilde;o fria. Os
+proprios pequenos olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande
+mulher gorda que
+elles n&atilde;o conheciam. Ella sentou-se
+<span class="pagenum">[139]</span>
+logo n'um sacco, muito
+esfalfada, emquanto o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um
+banco, acotovelando-se,
+com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O <em>Farrusco</em>
+investiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o
+pontap&eacute; do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a
+mulher come&ccedil;ou assim: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
+J&aacute; veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que
+tenha o meu filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e
+vou-me embora.
+L&aacute; em casa de minha m&atilde;e aquillo &eacute; uma
+grande
+miseria, passam-se dias que n&atilde;o comemos. N&atilde;o ha
+uma cama, a gente dorme sobre
+umas palhas, sem geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este
+estado, bem veem como eu ando... <br />
+
+<br />
+
+Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e
+a mulher diziam n&atilde;o sei que monosyllabos, o <em>Farrusco</em>
+rosnava. A outra proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; por mim, sabem? n&atilde;o
+&eacute; por mim. &Eacute; este innocentinho que tem de nascer
+no ch&atilde;o, como os c&atilde;es... Bem sabem que
+isto custa. Pouco se me dava de morrer, afinal, mas queria que o meu
+filho vivesse... Coitadinho! <br />
+
+<br />
+
+Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, m&atilde;os erguidas
+para o Palma e para a mulher. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou. <br />
+
+<br />
+
+O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de
+seu lado, ajudaram-na a levantar-se,
+<span class="pagenum">[140]</span>
+dizendo-lhe submissamente que tudo
+se havia de arranjar, que socegasse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que a fallar os pontos de verdade, sr.<sup>a</sup>
+Fortunata,
+vossemec&ecirc; &eacute; que tem a culpa d'esses trabalhos,
+disse-lhe logo o Palma. <br />
+
+<br />
+
+Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a m&atilde;o que
+se calasse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;M&aacute; sorte d'aquelle pobre Jos&eacute; Thomaz,
+acabou-se! Quando elle casou com vossemec&ecirc; antes tivesse
+quebrado uma perna. <br />
+
+<br />
+
+Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
+nem o diabo. Des'que vossemec&ecirc; alvorou que o rapaz
+n&atilde;o vae a uma feira. Pois olhe que era homem para junctar,
+videiro como poucos. <br />
+
+<br />
+
+Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois
+continuou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo
+sacco... <br />
+
+<br />
+
+A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O
+Palma proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sente se vossemec&ecirc;, mulher, o sacco n&atilde;o faz ao
+caso. Pois foi ahi mesmo que elle esteve, at&eacute; parecia um
+pobre de pedir. Nem
+bot&otilde;es na camisa, coitado! Mas pela conversa bem se
+v&ecirc; que inda lhe
+n&atilde;o quer mal. Que a bem dizer elle quasi n&atilde;o
+conversa, anda a modos que
+amalucado, sempre a levar a m&atilde;o &aacute;
+cabe&ccedil;a, como se
+l&aacute;
+<span class="pagenum">[141]</span>
+dentro aquillo andasse azoado. E mais &eacute; que
+bem p&oacute;de o rapaz dar em doido... <br />
+
+<br />
+
+A senhora Rufina foi de parecer que doido j&aacute; elle andava.
+Passavam-se dias que n&atilde;o apparecia em casa do tio
+Jos&eacute;
+Gar&ccedil;&atilde;o, que o lev&aacute;ra logo para elle,
+mal a sr.<sup>a</sup> Fortunata o deix&aacute;ra. Por
+onde andava?
+que fazia? Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo
+telheiro que
+os porcos. Que d'outra vez f&ocirc;ra ter com o vigario para que
+lhe
+baptisasse o filho, dizendo que j&aacute; tinha nascido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.&#8213;Anda com
+ella ferrada que o filho j&aacute; nasceu. <br />
+
+<br />
+
+Aqui, a Fortunata, de p&eacute; junto &aacute; porta, rompeu
+n'uma choradeira, ouvindo fallar no filho. O Palma interveio, condoido,
+dizendo que se
+n&atilde;o affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde
+nascesse. <br />
+
+<br />
+
+Ella ia ajoelhar, o Palma n&atilde;o deixou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; por vossemec&ecirc;, mulher, assim me
+Deus salve como n&atilde;o &eacute; por vossemec&ecirc;.
+Mas &eacute; que o innocentinho que ahi traz
+esse &eacute; que n&atilde;o tem culpa. Fa&ccedil;o de
+conta que &eacute; o pae que me pede, o
+pobre Jos&eacute; Thomaz. Vossemec&ecirc; bem sabe que eu era
+amigo do Jos&eacute;
+Thomaz. Diabo! a gente j&aacute; diz <em>era</em>,
+j&aacute; falla
+n'elle como se o pobre tivesse
+morrido... <br />
+
+<br />
+
+N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns
+bois que n&atilde;o eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e
+depois, quando j&aacute; ia para sair, disse em resumo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fique vossemec&ecirc; ent&atilde;o, sr.<sup>a</sup>
+Fortunata. Ouves,
+Rufina?
+<span class="pagenum">[142]</span>
+Talvez que ella inda n&atilde;o jantasse. Faz-lhe a cama
+l&aacute; dentro, e o
+resto arranjem-se. <br />
+
+<br />
+
+Caso &eacute; que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo
+gordo, desentupiu e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda
+beijado, nem lhe tinha feito uma caricia, quando por volta do meio dia
+a av&oacute; do
+pequeno alli chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a
+dar a bolota
+aos cevados, ficou espantado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois senhores! havia de jurar que voc&ecirc; adivinha, sr.<sup>a</sup>
+Anna! <br />
+
+<br />
+
+Ella, sem mais rodeios, perguntou se a crean&ccedil;a j&aacute;
+tinha nascido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; nasceu, sim senhora, v&aacute; l&aacute; dentro
+se a quer ver. Venha d'ahi. <br />
+
+<br />
+
+Mas iam ainda &aacute; porta, quando a velha, filando o
+bra&ccedil;o do Palma, lhe perguntou n'um sobresalto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vivo ou morto, sr. Antonio? <br />
+
+<br />
+
+O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a crean&ccedil;a
+nascesse morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a
+mulher a pontap&eacute;s. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de
+colera, quando
+em presen&ccedil;a do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o
+que se lhe havia de fazer. <br />
+
+<br />
+
+O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella
+insistisse com a pergunta: &laquo;que se ha de agora fazer a
+isto?&raquo;
+elle redarguiu, irado; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dar-lhe de mamar, est&aacute; bem visto. Inda voc&ecirc;
+pergunta
+<span class="pagenum">[143]</span>
+o que se ha de fazer &aacute; crean&ccedil;a. Talvez
+voc&ecirc; queira que
+o pequeno v&aacute; j&aacute; cavar... <br />
+
+<br />
+
+A velha ia fallar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem pio, seu estafermo! Que tal &eacute; o amor que
+voc&ecirc; lhe tem, que inda nem sequer a beijou. Nem a
+m&atilde;e o beijou ainda, coitadinho!
+Voc&ecirc; j&aacute; viu uma cadella quando tem os filhos,
+j&aacute; viu? Com mil diabos,
+qualquer cadella vale mais que voc&ecirc;s duas. <br />
+
+<br />
+
+O Palma ia-se pondo amarello, a sr.<sup>a</sup> Rufina
+interveio, aconselhando-o
+a que saisse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de
+vespera at&eacute; &aacute; feira. <br />
+
+<br />
+
+Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, al&eacute;m o
+freio da egua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto faz ir &aacute;manh&atilde; cedo, como ir j&aacute;
+agora. &Eacute; j&aacute; de cara. Mette-me qualquer coisa nos
+alforges, que vou j&aacute; aparelhar a egua. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a meia hora, o Palma montava &aacute; porta, no meio do
+rancho dos cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com m&aacute;
+cara: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em estando capaz, rua! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'aqui a tres dias, talvez... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o at&eacute; d'aqui a quatro. Ouves? E olha se
+defumas a casa, quando esses estafermos sairem. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[144]</span>
+Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta
+f&oacute;ra&#8213;com o embrulhinho do neto ao colo... <br />
+
+<br />
+
+Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado... <br />
+
+<br />
+
+Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? N&atilde;o sei.
+Caso &eacute; que na madrugada seguinte, a desavergonhada
+abandonava o pequenino
+&aacute; porta do Jos&eacute; Grillo. <br />
+
+<br />
+
+Madrugada de fevereiro, nevava... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>III </h4>
+
+<br />
+
+Quando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar &aacute;
+irm&atilde;, tinha amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um
+nordeste frigidissimo retalhava a cara da rapariga, encolhida sob
+aquella atmosphera de gelo.
+Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera t&atilde;o comprido
+e t&atilde;o triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de
+neve at&eacute;
+ao alto, faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella
+impress&atilde;o de
+frio. O ch&atilde;o estava coberto de neve; e l&aacute; em
+cima, muito alto, o
+c&eacute;o muito azul annunciava um dia de sol. <br />
+
+<br />
+
+A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda
+d'aquelle lado em contacto com o pequenino... <br />
+
+<br />
+
+Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
+perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da
+levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um
+engeitadinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um qu&ecirc;, mulher? que dizes tu? insistiu a outra. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[146]</span>
+Mas o moleiro, que vinha chegando, esp&eacute;cou deante da mulher,
+e repetiu como um echo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;...Um engeitadinho. <br />
+
+<br />
+
+Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, um engeitadinho, deve ser isso...&#8213;continuou o moleiro.&#8213;E
+d'ahi... p&oacute;de ser que n&atilde;o seja... <br />
+
+<br />
+
+A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada! pode ser que a historia seja outra&#8213;elucidou o moleiro.&#8213;Onde
+foi que isso foi posto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta madrugada, &aacute; porta do Jos&eacute; Grillo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;! isso ent&atilde;o pode ser coisa d'elle&#8213;observou
+a rir o moleiro.&#8213;Esse diabo n&atilde;o &eacute; seguro. <br />
+
+<br />
+
+Pozeram-se a rir da lembran&ccedil;a. J&aacute; dentro do
+moinho, o homem p&ocirc;z-se a explicar &aacute; rapariga: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que hontem &aacute; noite veio aqui um homem pedir
+pousada, um homem a modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal.
+Assim &aacute;s
+primeiras, tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro,
+d&aacute; c&aacute; o menino e senta-te. Vou-lhe dar de mamar,
+que o pobresinho ha-de ter fome. <br />
+
+<br />
+
+A Dorotheia passou a crean&ccedil;a para os bra&ccedil;os da
+moleira. Foi uma alegria ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os
+olhitos inda fechados. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[147]</span> &#8213;Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgra&ccedil;adinho
+tem! Quem seria a desavergonhada?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois, dormiu c&aacute;, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas
+d&aacute;-se o caso que o homem n&atilde;o pregou olho em toda
+a noite, sempre a
+malucar, n'um fallatorio pegado. &laquo;Que o filho era d'elle, que
+se a cabra da
+m&atilde;e teimasse em o engeitar, elle ia dar parte &aacute;
+justi&ccedil;a.&raquo; Um arrazoado assim, muito comprido. <br />
+
+<br />
+
+Espantada, a Dorotheia ia fallar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas espera, que o melhor da festa &eacute; que o homem
+t&atilde;o depressa dizia isto, como dizia que o filho
+j&aacute; tinha nascido, que era muito
+lindo, que onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar. <br />
+
+<br />
+
+Ficaram-se um instante a mirar consolados a crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+A pobresinha vagia, mamando com sofreguid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o sempre elle sabe do filho, reatou com interesse
+a Dorotheia.&#8213;Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae,
+coitadinho! <br />
+
+<br />
+
+A sr.<sup>a</sup> Luiza, que n&atilde;o gostara que se
+recolhesse o homem,
+resumiu com ar compungido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir! <br />
+
+<br />
+
+Fez-se um silencio, mirando todos a crean&ccedil;a. A taramella do
+moinho batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro
+explicou ainda
+que o homem alvorara
+<span class="pagenum">[148]</span>
+muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
+obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe
+respondera:&#8213;&laquo;Para a feira. Vender um gado.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora v&aacute; l&aacute; o diabo entender isto!&#8213;rematou por
+fim o moleiro. Um doido a vender gado. <br />
+
+<br />
+
+Conversaram sobre o caso, algum tempo. At&eacute; que a Dorotheia,
+com pressa por causa da irm&atilde;, pegou outra vez na
+crean&ccedil;a e
+abalou pela porta f&oacute;ra, direita &aacute; casa do pae. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha os trapos, &oacute; Dorotheia! olha que deixas c&aacute;
+isto.&#8213;E o Paulo correu a levar &aacute; rapariga os trapos segunda
+vez esquecidos,
+e que eram todo o enxoval do triste pequenino... <br />
+
+<br />
+
+Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a
+crean&ccedil;a n&atilde;o ia com fome. E para que tambem
+n&atilde;o fosse com frio, a boa da rapariga achegava ao peito o
+engeitadinho, n'uma solicitude toda materna. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haver&aacute;
+gente que seja capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um
+innocentinho, embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta!
+Vamos que o
+Jos&eacute; Grillo n&atilde;o dava f&eacute;! Alli se
+morria de frio o
+anjinho, capaz de virem depois os c&atilde;es e comel-o. <br />
+
+<br />
+
+E espreitando pela fenda estreita do chale: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua m&atilde;e, ora foi? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que
+j&aacute; de longe a acompanhava, sem ella dar f&eacute;,
+corria tambem atraz
+d'ella, e n&atilde;o tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga
+soltou um grito, ia cair
+com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella
+conhecia gritou alli de perto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Larga a rapariga, &oacute; Jos&eacute; Thomaz! Larga a
+cachopa! <br />
+
+<br />
+
+E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o Jos&eacute; Thomaz que est&aacute;
+doido,&#8213;explicou o pastor.&#8213;Desde que a mulher lhe fugiu, que o pobre
+anda assim, coitado! <br />
+
+<br />
+
+Mas palavras n&atilde;o eram ditas, eis que o Jos&eacute;
+Thomaz de novo se arremessa &aacute; rapariga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!&#8213;rugiu elle com voz
+furiosa. <br />
+
+<br />
+
+E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
+lan&ccedil;ou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as
+m&atilde;os erguidas, impetrando a chorar que lhe dessem o seu
+filho... <br />
+
+<br />
+
+A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente. <br />
+
+<br />
+
+E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do
+engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
+rir-se... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conheces? perguntou-lhe a rapariga. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[150]</span>
+No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido
+n&atilde;o respondeu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos. <br />
+
+<br />
+
+Nem palavra. Nada a n&atilde;o ser um riso nervoso que o sacudia
+todo. Como estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle
+ent&atilde;o
+oppoz-se, caindo sobre os calcanhares. <br />
+
+<br />
+
+E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel
+farrapo, as lagrimas corriam, copiosas... <br />
+
+<br />
+
+Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
+percebendo. Os farrapos que embrulhavam a crean&ccedil;a eram da
+saia da m&atilde;e. A m&atilde;e era a mulher do
+Jos&eacute; Thomaz, e o pequenino
+era filho d'elle... A grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois
+de ter fugido ao homem! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.&#8213;Ora v&ecirc;s
+ahi um estafermo que precisava que a matassem! <br />
+
+<br />
+
+O Jos&eacute; Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma
+forte impress&atilde;o de piedade estampava-se em todos os rostos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Dorotheia! chamou ent&atilde;o um dos do grupo. Traz
+aqui o menino. Um pae deve sempre beijar o seu filho. Traz
+c&aacute; o pequeno,
+&oacute; rapariga. <br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o foi preciso; que o Jos&eacute; Thomaz, sempre de
+joelhos sobre a neve, foi para ella de m&atilde;os postas humilde
+<span class="pagenum">[151]</span>
+como um rafeiro... E
+como aos labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio
+que se fez ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o
+filho. <br />
+
+<br />
+
+Como se f&ocirc;ra uma chuva de petalas, do c&eacute;o de
+madreperola a neve cahia mais densa...&#8213;ao mesmo tempo que nos ramos
+altos dos castanheiros,
+como no seio immenso de um org&atilde;o, o vento sul&#8213;gemia... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 80px; height: 86px;" alt="" src="images/fig05.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c10"></a>ABYSSUS ABYSSUM... </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
+Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que
+tenta&ccedil;&atilde;o para ambos, o rio! Ainda lhes soavam aos
+ouvidos, com todo o seu entono vibrante de amea&ccedil;a, aquellas
+terriveis palavras com que a m&atilde;e
+os intimidara, um dia que lhe appareceram em casa tarde e &aacute;s
+m&aacute;s horas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouvistes?&#8213;ralhara-lhes a m&atilde;e.&#8213;Olhae se ouvistes: se
+voltaes ao rio, mato-vos com pancada. Andae l&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+Ih! como ella dissera aquillo, M&atilde;e Santissima! Colerica,
+amea&ccedil;adora, com a m&atilde;o em gume sobre as suas
+cabecitas loiras... Lembravam-se
+de haver tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes
+sob aquella amea&ccedil;a terminante. E ent&atilde;o, n'esse
+dia,
+elles n&atilde;o tinham ido ao rio. Aos passaros
+sim...&#8213;l&aacute; estavam as cal&ccedil;as
+rotas do Manuel a dizel-o&#8213;...aos passaros &eacute;
+<span class="pagenum">[154]</span>
+que elles
+tinham ido. Ao rio era
+bom! a m&atilde;e que o soubesse... <br />
+
+<br />
+
+Ah, mas ent&atilde;o n&atilde;o os deixassem dormir n'aquelle
+quarto. Logo de manh&atilde;, mal abriam as janellas, a primeira
+coisa que viam era o rio, uma corrente muito lisa e esverdeada,
+serpeando entre os renques baixos dos
+salgueiros. L&aacute; estava a ponte velha, d'onde os rapazes se
+atiravam despidos, de cabe&ccedil;a para baixo, e ent&atilde;o
+o
+barquinho branco do fidalgo,&#8213;lindo barquinho!&#8213;sempre &aacute;
+espera que o fidalgo o
+desamarrasse para passar &aacute; grande quinta que tinha na margem
+de
+l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+De modo que o primeiro desejo que logo pela manh&atilde; assaltava
+os dois rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores,
+t&atilde;o madrugadores como os melros, metterem-se dentro do
+barco, desprendel-o da praia, e deixal-o ir ent&atilde;o por onde
+elle quizesse,
+comtanto que fosse sempre para deante... Quando fechavam as janellas
+para se deitar, a sua
+vista seguia, mesmo atravez da escurid&atilde;o da noite, a linha
+que ia dar ao barco. Era o seu&#8213;&laquo;adeus at&eacute;
+&aacute;manh&atilde;!&raquo;&#8213;&aacute;quelle pequeno
+objecto que valia thesoiros, que para os dois valia mais que tudo,
+tudo... <br />
+
+<br />
+
+Ah! tivessem elles assim um barquinho, que n&atilde;o queriam mais
+nada... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais nada? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o... mais alguma coisa. E a m&atilde;e que
+n&atilde;o ralhasse, est&aacute; visto. <br />
+
+<br />
+
+Mas n'essa manh&atilde;, bella manh&atilde;, na verdade! a
+m&atilde;e viera acordal-os mais cedo. Ia j&aacute; pela aldeia
+um claro rumor de vida&#8213;gente que
+passava para os campos, os
+<span class="pagenum">[155]</span>
+solavancos dos carros no empedrado pessimo
+da rua, os patos da visinhan&ccedil;a que saiam em rancho para a
+digress&atilde;o pelos prados, grasnando ruidosamente,
+levantando-se em v&ocirc;os curtos,
+espantados da aggress&atilde;o accintosa dos rapazes. Havia mais de
+uma hora que
+alli perto se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador
+atarracando cravos na
+bigorna. J&aacute; o reitor passara para a missa, em batina, muito
+hirto e vagaroso, as chaves da egreja na m&atilde;o esquerda e na
+direita a
+cabacita do vinho. E &aacute;quella hora, onde iria j&aacute; a
+missa! A
+ultima beata, encapuchada e lenta, recolhera, trazendo comsigo a
+esteira em que
+ajoelh&aacute;ra na egreja. Havia mais de meia hora que o
+Jo&atilde;o carpinteiro, no
+meio da rua, dava com valentia n'um carro cujo eixo <em>ardera</em>
+na
+vespera, e que era urgente compor, p'los modos. At&eacute; o
+Ernestinho do estanco
+abrira j&aacute; a loja, e subira &aacute; varanda a regar os
+mangericos.
+Come&ccedil;os da labuta diaria, emfim; os senhores sabem. <br />
+
+<br />
+
+Pois como lhes disse, a m&atilde;e viera n'essa manh&atilde;
+acordar mais cedo os dois pequenos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;F&oacute;ra, mandri&otilde;es, vamos! &Eacute; preciso
+afazerem-se a madrugar, que tal est&aacute;! Ai, ai, dia claro ha
+que tempos, vem ahi o sol, e os
+morgadinhos na cama.&#8213;E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as
+janellas.&#8213;Persignar e
+vestir, vamos! Cal&ccedil;as... colete... os
+jaquet&otilde;es... tomem. <br />
+
+<br />
+
+E poz-lhes tudo sobre a cama. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;M&atilde;e, a ben&ccedil;&atilde;o!&#8213;balbuciaram os dois,
+tontos do somno ainda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus os aben&ccedil;&ocirc;e. Que Deus n&atilde;o
+aben&ccedil;&ocirc;a mandri&otilde;es, ouviram? Ora eu
+j&aacute; volto. Queira Deus que n&atilde;o vos encontre
+c&aacute;
+f&oacute;ra, tendes que ver. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[156]</span>
+Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
+olhos &aacute;quella hostilidade viva da luz que invadira o quarto
+n'um jacto repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa
+assomava-lhes o peito
+que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria
+t&atilde;o bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais
+novito ainda tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar
+j&aacute;
+o aconchego morno da cama, onde se estava t&atilde;o bem! onde os
+sonhos eram
+t&atilde;o lindos! <br />
+
+<br />
+
+Mas a m&atilde;e n&atilde;o tardava alli. Era preciso
+vestirem-se, que remedio! Foi ent&atilde;o que o Manuel, mais
+esperto do somno, olhando para o
+campo o achou encantador, todo resplandecente de verduras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bonita manh&atilde;, n&atilde;o v&ecirc;s? As arvores
+parecem mais lindas, repara. Porque ser&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+O outro encolheu os hombros, n&atilde;o sabia: s&oacute; se
+fosse por n&atilde;o haver nuvens... <br />
+
+<br />
+
+Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva
+da manh&atilde; fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde
+encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com
+a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das
+baixas.
+Revestidos de folhagem, ascendiam ares f&oacute;ra os olmos
+gigantescos.
+Peda&ccedil;os d'horta estavam em toda a pompa do seu
+vi&ccedil;o e da sua frescura.
+Viam-se as rodas das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as
+merendas. <br />
+
+<br />
+
+Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa
+manh&atilde; deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante
+sob aquelle
+c&eacute;o immaculado. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span> &#8213;Ah! ah!...&#8213;riu-se o Manuel, contemplando-o.&#8213;O rio! Que te parece?
+Olha que &eacute; lindo, o rio; ora &eacute;, &oacute;
+Antonio? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;, l&aacute; isso... Mas <em>tamem</em>
+de que
+vale?&#8213;tornou-lhe com desalento o irm&atilde;o.&#8213;A gente
+n&atilde;o pode l&aacute; ir... Olha
+se a m&atilde;e o soubesse, han?&#8213;E mirando por sua vez a paizagem
+perguntou:&#8213;J&aacute; reparaste no
+barco, &oacute; Manuel? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&atilde;o bonito! <br />
+
+<br />
+
+Os dois riram. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Podera!...&#8213;explicou o Manuel&#8213;...amarrado com uma corda...&#8213;E depois
+radiante, gesticulando para o irm&atilde;o:&#8213;Mas eu era capaz de o
+desamarrar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai eras!&#8213;disse duvidoso o Antonio, para o incitar. <br />
+
+<br />
+
+Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, l&aacute; isso era. Ambos
+dentro d'elle, s&oacute;sinhos, isso &eacute; que seria bom! E
+elles
+ent&atilde;o que estavam mortos por ir &aacute;s azenhas, e
+pelo rio era um instante emquanto
+l&aacute; chegavam. O barco! Era t&atilde;o bom andar no barco!
+E aquelle
+ent&atilde;o era lindo, como n&atilde;o tinham ainda visto
+outro. Nunca lhes haviam esquecido&#8213;olhem
+l&aacute; n&atilde;o esquecessem!&#8213;aquellas tardes em que o
+fidalgo os levara dentro do barquinho, ensinando-lhes como se remava. <br />
+
+<br />
+
+O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito &aacute;
+janella. Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[158]</span> &#8213;Est&aacute; um dia lindo, avia-te. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha avia-te! p'ra que?&#8213;perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o
+p&eacute; para enfiar o sapato, apoiado com as m&atilde;os
+ambas na borda da cama. <br />
+
+<br />
+
+O Manuel sorriu-se, triste.&#8213;Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A
+m&atilde;e n&atilde;o os deixava ir ao rio... E se
+n&atilde;o que fossem!
+&laquo;Mato-vos com pancada se desceis a ladeira.&raquo;
+J&aacute; se v&ecirc; que
+depois d'isto...&#8213;E os dois suspiravam, desgostosos. Que pena serem
+pequenos! <br />
+
+<br />
+
+N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo!
+Mas os olhos dos dois n&atilde;o se desfitavam do barco,
+fascinados. Demonio de tenta&ccedil;&atilde;o! E para mais,
+tinham-no pintado de novo:
+sobre o branco, a todo o comprimento, uma faxa azul-clara destacava
+nitidamente, parece que apenas meio palmo acima do nivel da agua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&aacute;te, &oacute; Manuel! E se fugissemos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar... <br />
+
+<br />
+
+Ora ahi esta! isso &eacute; que era o peor! A m&atilde;e,
+depois, era capaz de fazer o que tinha promettido. E arregalando muito
+os olhos, imitando a colera
+da m&atilde;e:&#8213;&laquo;Se voltaes ao rio...&raquo; Ai, ai,
+a
+triste sorte! <br />
+
+<br />
+
+Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
+ao nascente, n'uma explos&atilde;o violenta de luz, accendendo
+coloridos na largura muito ampla da paizagem. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[159]</span> &#8213;Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com
+alegria o Manuel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; que est&aacute;, palavra que est&aacute;.
+Agora &eacute; que ha-de ser bom andar dentro d'elle... <br />
+
+<br />
+
+Os dois riram-se muito &aacute;quella ideia encantadora de andarem
+no barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque n&atilde;o?
+Por
+isso, cobrando animo, o Antonio disse resoluto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha agora o medo! Seguro que nos mata.&#8213;E puxando-o pela
+jaqueta:&#8213;Vamos l&aacute;, &oacute; Manuel? <br />
+
+<br />
+
+O Manuel fez que n&atilde;o com a cabe&ccedil;a, e espreitou se
+vinha a m&atilde;e. Como n&atilde;o vinha, disse baixo ao
+irm&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; tardinha, hein? dois pulos e estamos l&aacute;.
+N&atilde;o &eacute; t&atilde;o facil dar pela nossa falta,
+alli &aacute; tardinha. A gente finge que vae para o
+adro. Levam-se os pe&otilde;es... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha-de ser mesmo assim! &aacute; tardinha!&#8213;concordou o
+Antonio.&#8213;Eh! eh! tu c&aacute; desatraco. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu remo,&#8213;disse logo o Manuel com gesto de quem remava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao leme vou eu: o leme &eacute; aquillo que regula&#8213;explicou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas &aacute; vinda pertence-me a mim, remas tu. Se
+quizeres assim... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; bem, quero! Assim mesmo &eacute; que ha-de
+ser! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[160]</span>
+E recapitulando, para melhor ficarem combinados: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao p'ra baixo remo eu, ora remo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Remas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu regulas, ora regulas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Reg&uacute;lo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao p'ra cima &eacute; &aacute;s avessas, ora &eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;. <br />
+
+<br />
+
+Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
+impozeram segredo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Schiu!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Schiu! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do c&eacute;o, penachos
+de nuvens alvejavam, immoveis. <br />
+
+<br />
+
+Accesas n'aquella explos&atilde;o rubra do occaso, as arestas dos
+montes franjavam-se de purpura e oiro, na
+decora&ccedil;&atilde;o
+magica dos poentes. Come&ccedil;ava de cair sobre os campos a larga
+paz tranquilla dos
+crepusculos, e uma quieta&ccedil;&atilde;o dulcissima e
+vagamente
+melancolica entrava de adormecer a natureza para o grande somno
+reparador de toda a noite. <br />
+
+<br />
+
+...E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[161]</span>
+N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando,
+os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
+immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
+cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella
+indecis&atilde;o vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de
+silencio confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como
+spasmo amedrontador e sinistro que dentro de n&oacute;s evoca a
+essa hora
+n&atilde;o sei que vagos receios ou medos inconscientes que fazem
+com que na
+imagina&ccedil;&atilde;o as coisas criem vulto, e no mundo
+exterior obrigam a retina a exagerar as formas &aacute;s coisas... <br />
+
+<br />
+
+Muda de gorgeios, atravessando o espa&ccedil;o em v&ocirc;os
+muito rapidos, a passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do
+frio que acordava. Cahiam j&aacute; pesadas sobre os valles as
+sombras das montanhas,
+e um fumosito subtilmente azulado nadava &aacute; flor das coisas,
+velando-as para o tranquillo somno em que iam adormecer. <br />
+
+<br />
+
+E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava
+mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas
+come&ccedil;avam de lampejar. Dentro d'elle, os dois
+irm&atilde;ositos silenciosos iam-se deixando enlevar n'aquelle
+ruido suave dos remos abrindo fendo nas aguas... N&atilde;o! era
+bem certo que elles n&atilde;o
+tinham j&aacute;mais sentido uma t&atilde;o poderosa e viva
+alegria&#8213;alegria doida que lhes
+trasvasava do peito, fundindo-se em energia nos musculos e
+crystallisando-se nos labios em sorrisos. <br />
+
+<br />
+
+Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
+absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
+de admoesta&ccedil;&otilde;es alheias, s&oacute;sinhos,
+independentes. E esta feliz convic&ccedil;&atilde;o de
+liberdade
+<span class="pagenum">[162]</span>
+alcan&ccedil;ada, fazia-os agora orgulhosos,
+al&eacute;m de os encher de alegria. Por certo elles nunca tinham
+sido t&atilde;o felizes, e
+quem sabe se o seriam j&aacute;mais?... No emtanto a noite
+accentuava-se.
+Espertava nas margens o marulho da agua nas raizes fundas dos
+salgueiros. No
+c&eacute;o alto e sereno scintillavam as estrellas em cardumes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Remas, Antonio?&#8213;perguntou o do leme.&#8213;Olha se a v&ecirc;s...&#8213;E
+apontava para Vesper, a estrella que mais brilhava. <br />
+
+<br />
+
+Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcan&ccedil;ar a
+estrella cujo brilho diamantino os fascinava. T&atilde;o linda! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda-me tu com o leme!&#8213;tornou-lhe com intimativa o Manuel.&#8213;Ai a
+estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
+adeante, s&oacute; por isso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha o milagre! Ella est&aacute; qu&ecirc;da!&#8213;fez o outro,
+convencido da facilidade da empreza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; qu&ecirc;da, est&aacute; qu&ecirc;da, mas
+sempre na frente de n&oacute;s; vae l&aacute; entendel-a. Olha
+como brilha, &oacute; Antonio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas rema que eu c&aacute; vou, falta pouco. Ao direito d'aquella
+fraga &eacute; que ella est&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de
+meia hora era certo alcan&ccedil;al-a. <br />
+
+<br />
+
+E engastada no azul escuro do c&eacute;o, a estrella parecia
+brilhar mais, quanto mais a olhavam. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De que s&atilde;o feitas as estrellas?&#8213;perguntou o mais novito. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[163]</span> &#8213;De prata, pois est&aacute; visto. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o outro, lan&ccedil;ando um amplo olhar
+&aacute; vastid&atilde;o infinita do c&eacute;o, exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh! tanta prata! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sol, esse &eacute; d'oiro&#8213;disse ainda o Manuel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem de ver!&#8213;volveu-lhe convencido o irm&atilde;o.&#8213;Que eu, se me
+dessem &aacute; escolha, antes queria as estrellas. Olha que
+rebanho! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu antes queria o sol. Com licen&ccedil;a do teu querer,
+sempre &eacute; mais grande. <br />
+
+<br />
+
+E emquanto fallavam, os dois n&atilde;o desfitavam olhos da
+estrella feiticeira que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo
+fenda na agua, com certo ruido muito doce... E l&aacute; no alto
+c&eacute;o,
+dir-se-hia que de instante para instante a feiticeira estrella mais
+brilhava, incitando-os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;l-a a fazer assim?&#8213;e poz-se a pestanejar, imitando a
+palpita&ccedil;&atilde;o crebra e irregular da luz sideral. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que tem somno&#8213;respondeu o outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que n&atilde;o. Aquillo &eacute; a fazer-nos
+nega&ccedil;as, <em>tamem</em> t'o digo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai &eacute;?! Pois que fa&ccedil;a as nega&ccedil;as e
+que se descuide: se malha c&aacute; baixo, bem se afoga...&#8213;E
+apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:&#8213;Eh, <em>boieira</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul,
+sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram
+<span class="pagenum">[164]</span>
+com medo e ambos murmuraram
+em tom de reza as palavras rituaes: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Deus te guie bem guiada,<br />
+
+Que no c&eacute;o foste creada. </div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;s? disse o Manuel que era dos dois o mais
+supersticioso.&#8213;Torna a apontar para ellas... Eu c&aacute;
+n&atilde;o aponto, que
+nascem &laquo;cravos&raquo; nas m&atilde;os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ti talharam-te o ar, &oacute; Manuel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz a m&atilde;e. &Aacute; meia noite levaram-me &aacute;
+fonte e esparrinharam-me agua para o corpo. E a agua havia-de estar
+fria... observou, encolhendo os hombros. Depois, viraram-me para as
+estrellas e disse ent&atilde;o
+a m&atilde;e: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Ar vejo,<br />
+
+Lua vejo,<br />
+
+Estrellas vejo:<br />
+
+O mal do meu corpo<br />
+
+Pr'a
+tr&aacute;z das costas o despejo. </div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da m&atilde;e,
+havia-de ser engra&ccedil;ado. E ent&atilde;o todos de volta, a
+ver quando o
+ar se talhava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por
+anno, tenho de olhar pelos ralos do len&ccedil;o p'r'as <em>cinco
+chagas</em>, umas estrellas que al&eacute;m est&atilde;o,
+e rezar
+uma Ave-Maria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre, sempre? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com
+tres noites dentro de uma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! tornou-lhe incredulo o irm&atilde;o.&#8213;Tu n&atilde;o
+cabes l&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[165]</span> &#8213;N&atilde;o sei: assim &eacute; que anda nos livros. <br />
+
+<br />
+
+...Mas os bra&ccedil;os doiam j&aacute; dos remos, doiam
+muito... <br />
+
+<br />
+
+Devia ser tarde, e elles sem darem f&eacute;, enlevados como iam no
+desejo louco de alcan&ccedil;ar a estrella. <br />
+
+<br />
+
+A noite estava calma, n&atilde;o bulia nas ramagens ramo verde de
+salgueiro, um silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora
+e
+m&uacute;rmura, a agua da corrente ia espumando na quilha, com
+certo ruido de uma
+brandura suavissima e doce. <br />
+
+<br />
+
+...Mas os bra&ccedil;os cada vez doiam mais!... <br />
+
+<br />
+
+Agora, no c&eacute;o, havia muitas estrellas brilhantes, muitas,
+mas nenhuma como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos
+entraram de
+olhar menos para ella, pois que irresistivelmente a cabe&ccedil;a
+lhes
+pendia para o peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de
+todo o
+esfor&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+...E os bra&ccedil;os sempre a doerem!... <br />
+
+<br />
+
+Por algum tempo, os remos foram com a p&aacute; mergulhada na
+corrente, cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo
+do leme, sem que nenhum dos dois irm&atilde;os desse f&eacute;
+do subito
+desleixo do outro. <br />
+
+<br />
+
+...E os bra&ccedil;os j&aacute; n&atilde;o doiam, nem ao de
+leve sequer... <br />
+
+<br />
+
+O pequeno barco vogava agora &aacute; merc&ecirc; da corrente,
+sem impulso algum extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das
+respira&ccedil;&otilde;es dos dois pequenos adormecidos... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[166]</span>
+Algum tempo assim. Sen&atilde;o quando, um ruido surdo, e logo um
+movimento brusco de balan&ccedil;o, fez acordar o do leme. <br />
+
+<br />
+
+Na grande allucina&ccedil;&atilde;o do perigo, desvairado pelo
+medo, gritou immediatamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manuel! &Oacute; Manuel! <br />
+
+<br />
+
+O remador acordou, sobresaltado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A estrella? Ainda l&aacute; est&aacute;, olha!&#8213;disse
+incoherente, estonteado pelo somno. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? &Eacute; j&aacute; muito
+tarde!&Acirc;&mdash;-continuou afflicto o Antonio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o lhe passamos adeante?&#8213;perguntou
+ingenuamente o Manuel, referindo-se ainda &aacute; estrella. <br />
+
+<br />
+
+Mas o irm&atilde;o, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o
+&aacute; realidade, de novo lhe gritou, com lagrimas na voz: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel! <br />
+
+<br />
+
+E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um
+choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel
+susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
+aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o
+psalmodear monotono e rouco de uma legi&atilde;o de espiritos maus,
+preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
+rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que
+n'um requinte
+<span class="pagenum">[167]</span>
+de malvada indifferen&ccedil;a houvessem jurado
+assistir impassiveis e mudos &aacute; escura tragedia da sua
+desgra&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+E o barco sempre encalhado, n&atilde;o havia for&ccedil;as que
+o arrancassem d'alli. Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que
+amanhecesse e alguem viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os
+seus afflictivos gritos. <br />
+
+<br />
+
+Crudelissimo transe!... <br />
+
+<br />
+
+E ent&atilde;o os bra&ccedil;os continuavam a doer, doia-lhes
+agora o corpo todo, ao mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada
+lhes opprimia o espirito, parece que embrutecendo-os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a estrella sempre al&eacute;m...&#8213;notou ainda o Manuel,
+balbuciante de medo, como se quizesse increpar a propria estrella da
+sua
+indifferen&ccedil;a criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio
+em que por causa d'ella se haviam precipitado.&#8213;Se ella podesse
+acudir-nos... <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo
+se deixaram adormecer, era j&aacute; alta noite. <br />
+
+<br />
+
+Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte
+n&atilde;o cessava de bater contra as pedras o pobre barco
+indefeso.
+At&eacute; que ap&oacute;s tamanho lidar, o rio safou-o de
+repente para um lado onde as aguas se contorciam em remoinho, e entrou
+de girar com elle, violentamente. Quando a agua se precipitou para
+dentro, os dois pequenos assim de subito acordados romperam em gritos
+lancinantes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+Tinha surgido a manh&atilde;, serena, tranquilla, cheia de gorgeios
+e de azul. Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual,
+n'um
+repel&atilde;o mais violento o pobre barco esphacelado investiu de
+proa com o abysmo e
+l&aacute; se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo
+paroxismo da sua enorme dor desesperada, os dois irm&atilde;ositos
+abra&ccedil;ados sumiram-se tambem com elle!... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+...N'esse mesmo instante...&#8213;e mais longe do que nunca&#8213;...a estrella
+feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 66px; height: 78px;" alt="" src="images/fig06.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c11"></a>M&Atilde;E! </h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Ao dr. J.C. da Moita Prego</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Bella</span> cabra, a
+Russa!&#8213;posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada,
+luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva
+de porte quando &aacute; frente do rebanho parecia commandal-o,
+badalando cadencialmente o seu chocalho enorme&#8213;tl&atilde;o!
+tl&atilde;o!
+Era no rebanho a que mais dava que fazer ao pastor, requerendo
+vigilancias particulares no seu atrevimento, pois que se a deixassem
+livre n&atilde;o havia
+arvore a que n&atilde;o trepasse, oliveira especialmente, nem
+rebento novo que
+n&atilde;o triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora. <br />
+
+<br />
+
+E depois, alli onde a viam, estava cara s&oacute; pelas coimas, que
+muitas vezes illudira ella a atten&ccedil;&atilde;o do pastor,
+e se
+ficara por hortas e quintalorios, causando estragos que os louvados
+depois avaliavam caro. Por isso Alipio Jos&eacute;, pastor, a quem
+doiam as denuncias, ao
+pesco&ccedil;o da Russa prendera o chocalh&atilde;o, para dar
+do atrevido
+<span class="pagenum">[170]</span>
+animal mais
+facil rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito
+mais grave. <br />
+
+<br />
+
+Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia
+gosto vel-a trepar &aacute;s ultimas cumiadas, subir destemidamente
+&aacute;s arestas superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas
+suas pernas delgadas,
+pesco&ccedil;o alto, ajoelhando destemida a retou&ccedil;ar as
+hervas dos declives alcantilados e escorregadios, n&atilde;o
+medindo perigos nem se
+importando com abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas
+encostas e corregos,
+saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas
+excurs&otilde;es arriscadas de <em>touriste</em>. <br />
+
+<br />
+
+Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e
+ent&atilde;o cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em
+rochedo ou de garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos.
+Cobra que encontrasse por essas paragens era para ella um
+desespero&#8213;tamanha a furia com que a perseguia, e a insistencia com que
+se ficava
+&aacute;s marradas na lura onde se lhe acoitava. O chocalho
+ent&atilde;o badalava com
+for&ccedil;a, e o Alipio que dormia &aacute; sombra das
+azinheiras, de chapeu sobre a
+cara, levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu
+vozeir&atilde;o que fazia echo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Toma tento, Russa! <br />
+
+<br />
+
+E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos
+fincados no ch&atilde;o, os queixos entre as m&atilde;os
+espalmadas, Alipio Jos&eacute; ficava-se a olhar a cabra, invejoso
+d'aquella facilidade em subir aos ultimos pinaculos, admirado dos
+saltos que ella fazia para salvar gargantas pedregosas e
+perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria infallivel. E por
+l&aacute; andava dias inteiros a Russa,
+<span class="pagenum">[171]</span>
+n'aquella
+vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho,
+resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam
+ninho. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por
+l&aacute; se deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite
+velando. Ao outro dia quiz ella descer, e vir para o rebanho que a
+aguardava. Mais de cem vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio
+Jos&eacute; gritara
+c&aacute; debaixo, cada vez mais desesperado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Volta ao rebanho, Russa! <br />
+
+<br />
+
+E, cuidando que mais lhe feria assim a atten&ccedil;&atilde;o,
+punha-se a agitar com furia o m&oacute;lho dos chocalhos, gritando
+sem cessar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Russa! torna ao rebanho, Russa! <br />
+
+<br />
+
+Mas impossivel! que a n&atilde;o deixava a quebreira em que toda
+ella ficara do parto, nem o pequeno poderia&#8213;pobresinho!&#8213;descer por
+taes ladeiras, de
+pedregosas e asperas que eram. <br />
+
+<br />
+
+Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno
+congelava unindo-se &aacute; m&atilde;e que o bafejava para o
+aquecer, e a si o aconchegava mais e mais para lhe transmittir o
+natural calor do seu corpo enfraquecido e doente. <br />
+
+<br />
+
+Por altas horas da noite, na solid&atilde;o lugubre d'aquelle
+sitio, alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas
+<span class="pagenum">[172]</span>
+onde o vento
+sibilava lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido
+da
+m&atilde;e, traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao
+vagido fraco do
+filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
+instante, inteiri&ccedil;ando-se-lhe com o frio os membros
+delicados e tenros. <br />
+
+<br />
+
+Eram assim as noitadas dos desgra&ccedil;ados. Por taes frios e
+doen&ccedil;as, impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam,
+achegando-se mais e mais n'um como abra&ccedil;o de eterna
+despedida&#8213;amigos que se iam
+apartar para uma longa viagem de trevas, com o
+cora&ccedil;&atilde;o
+alanceado pela saudade, solu&ccedil;ando e gemendo, n'um adeus! que
+era infinito, como o
+infinito amor que os unia... <br />
+
+<br />
+
+E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
+lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle f&ocirc;ra
+o signal para o transe derradeiro... <br />
+
+<br />
+
+Para maior desgra&ccedil;a, as noites eram sem lua. Encravadas na
+abobada, as estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa
+indifferen&ccedil;a
+por aquella d&ocirc;r suprema de que eram as unicas testemunhas. <br />
+
+<br />
+
+E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao
+c&eacute;o a vida do filho, ao menos,&#8213;ora supplice em balidos de
+resigna&ccedil;&atilde;o que uma profundissima d&ocirc;r
+ungia, ora desvairada e louca, em gritos
+que significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o
+c&eacute;o que a n&atilde;o ouvia, e contra a morte que bem
+sentia aproximar-se para
+lhe estrangular o filhinho que ella amava tanto. <br />
+
+<br />
+
+E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme d&ocirc;r&#8213;a ironia
+acerba da chocalhada longinqua das companheiras,
+<span class="pagenum">[173]</span>
+que se iam pelos
+montes da outra
+banda, deixando-a a ella s&oacute;sinha com o filho, &aacute;
+espera da morte que era inevitavel. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o
+pesco&ccedil;o, e pelo ar f&oacute;ra o som triste do chocalho
+espraiou-se lentamente, n'um
+adeus! adeus! de despedida &aacute;s companheiras felizes que
+l&aacute; iam,
+n'um ruido longinquo de chocalhos... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'aquella solid&atilde;o os dias eram melhores. Com os primeiros
+raios do sol entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros
+desentorpeciam e o sangue circulava. <br />
+
+<br />
+
+E o cabritinho sem poder ainda descer!... <br />
+
+<br />
+
+De p&eacute;, ao lado do filho, a pobre cabra lan&ccedil;ava
+olhos compungidos para as escarpas da ladeira, ia para um lado e outro,
+desvairada e tremula,
+como que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram
+todas horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois
+o rio,
+l&aacute; baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio. <br />
+
+<br />
+
+Impossivel! impossivel! <br />
+
+<br />
+
+E sentia-se enfraquecer &aacute; mingua de sustento, pois a herva,
+por alli, estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres
+dias. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[174]</span>
+N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais
+dolentes e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os
+dentes o chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do
+lado em
+que o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
+assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo... <br />
+
+<br />
+
+Impossivel! impossivel! <br />
+
+<br />
+
+Nada que signifique a d&ocirc;r d'aquella m&atilde;e, e
+traduzir possa em linguagem toda a gamma de sentimentos e
+emo&ccedil;&otilde;es no seu
+balar expressos. Atirou-se de joelhos sobre o corpinho do filho que
+hirto chorava e tremia, estendido para alli, na
+prostra&ccedil;&atilde;o pesada do
+ultimo desalento; animava-o com caricias, aproximava-lhe da bocca os
+uberes j&aacute; flaccidos
+e amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse
+levar ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe
+afflictivo... <br />
+
+<br />
+
+Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se j&aacute; apagado a
+ultima cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
+subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues. &Aacute; medida
+que a treva se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte,
+accentuando-se
+cada vez mais a melop&eacute;a somnolenta do rio nos
+a&ccedil;udes. Perpassavam pelo ar as aves para os ninhos. Bandos
+de pombas, como flocos volateis de arminho, cortavam em v&ocirc;os
+mansos a profundidade calma do
+c&eacute;o, demandando os pombaes e os povoados, onde se acolhessem
+da noite que vinha caindo.
+Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um
+chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
+estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas
+<span class="pagenum">[175]</span>
+rastejavam apressados os
+reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama... <br />
+
+<br />
+
+...E tudo tinha ninho&#8213;pombas que voavam e perdizada sonora, quem
+passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sard&otilde;es,
+cobras, toda a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou
+alegremente o seu dia, e se ia recolher agora para recome&ccedil;ar
+dia
+&aacute;manh&atilde;... <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; a desgra&ccedil;ada cabra, alli, junto do filho
+tenro, n&atilde;o mais fizera passo. Com as brumas da noite, as
+brumas da tristeza para o seu
+cora&ccedil;&atilde;o alanceado de m&atilde;e. Ahi vinha o
+frio inclemente flagelar-lhe o
+filho...&#8213;o filho que j&aacute; tremia a ella aconchegado&#8213;o triste
+pobresinho!
+<br />
+
+<br />
+
+Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
+n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O
+c&eacute;o era baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a
+espa&ccedil;os a abobada,
+irradiando uma luz morti&ccedil;a e alvadia, que levava a pensar em
+ultimos
+transes de crean&ccedil;as, em que a vida gradualmente se
+extinguisse, n'um
+latejar vagaroso de palpebras somnolentas... <br />
+
+<br />
+
+Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
+apparencia da atmosphera e do c&eacute;o. Noite peor do que as
+outras, por&eacute;m com menos balidos, pois que m&atilde;e e
+filho estavam extenuados
+de for&ccedil;as e nem gemer podiam. E a morte que n&atilde;o
+vinha arrancal-os do
+abra&ccedil;o em que se uniram, mal cerrara a noite! <br />
+
+<br />
+
+A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em
+rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos,
+accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade
+esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de
+<span class="pagenum">[176]</span>
+lobo, a
+que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz
+sinistra na direc&ccedil;&atilde;o do grupo que velava. A
+natureza
+inteira retrahia-se n'um como pav&ocirc;r medonho, concentrado de
+intimos terrores e
+silencios lobregos d'horas altas. Cerrava-se mais no c&eacute;o a
+phalange muda das
+nuvens, densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas,
+sem scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem... <br />
+
+<br />
+
+E sempre, e constantemente immoveis na escurid&atilde;o pesada,
+aquelles dois olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes,
+perscrutando a treva da direc&ccedil;&atilde;o mais exacta do
+grupo. Transida
+de susto, arquejando convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme
+d&ocirc;r, a pobre
+m&atilde;e n&atilde;o ousava arriscar um unico movimento e mais
+e mais cerrava contra si o corpo inanimado do filhito que parecia
+adormecido. <br />
+
+<br />
+
+Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes,
+quasi eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis
+angustias,
+vasias de esperan&ccedil;a na vida do seu pequenino filho. <br />
+
+<br />
+
+De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
+novo os viu brilhar a cabra, mas j&aacute; a maior distancia.
+Estremeceu a pobre de subita alegria,&#8213;e no abalo que soffreu o seu
+corpo,
+at&eacute; ent&atilde;o retrahido, o chocalho badalou. Voltou a
+correr o lobo, e
+ent&atilde;o a desgra&ccedil;ada viu errarem na treva, como
+dois grandes
+coleopt&eacute;ros de azas phosphorescentes, os olhos
+at&eacute; ent&atilde;o immoveis do
+inimigo. E por alli levou a noite toda, farejando e uivando,
+at&eacute; que
+can&ccedil;ado de perscrutar o insondavel, se foi ladeira abaixo,
+aos primeiros assomos da madrugada que vinha, docemente, alumiando
+pincaros e arestas. <br />
+
+<span class="pagenum">[177]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao romper d'alva o c&eacute;o era azul. Apenas de longe em longe
+pennachos de nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se
+esfarpavam lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia
+desmaiando, diluindo-se na luz esbranqui&ccedil;ada que vinha do
+alto em
+grada&ccedil;&otilde;es imperceptiveis e suaves. <br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;avam de animar-se os longes da paizagem, e a retina
+accusava j&aacute; as differen&ccedil;as mais salientes dos
+campos e herdades,
+peda&ccedil;os esbranqui&ccedil;ados de restolhos, tons pardos
+de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e pinheiraes cerrados galgando
+desfiladeiros e investindo com o
+c&eacute;o no alto dos montados. <br />
+
+<br />
+
+Pelas ladeiras d'al&eacute;m, caminhos e atalhos corriam em
+torcicolos at&eacute; ao areal da margem. Em turbilh&otilde;es
+de espuma alvissima
+precipitava-se a agua nos a&ccedil;udes, marulhando nos altos
+penedos marginaes,
+denegridos e informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto
+do moinho,
+l&aacute; em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se
+tranquillamente no ar sereno e doce, at&eacute; se desfazer no
+espa&ccedil;o amplo e
+benigno, como uma ambi&ccedil;&atilde;o ou como um sonho... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que Alipio Jos&eacute;, &aacute; frente do
+rebanho, de novo abordou &aacute;quellas paragens, no intuito de
+procurar a cabra tresmalhada. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[178]</span> &#8213;Russa! torna ao rebanho, Russa! <br />
+
+<br />
+
+Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida
+sobre o cadaver do pobre filhinho morto!... <br />
+
+<br />
+
+E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos
+rochedos&#8213;passava na direc&ccedil;&atilde;o da montanha,
+crocitando lugubremente, a esfaimada legi&atilde;o dos
+amaldi&ccedil;oados corvos... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 190px; height: 152px;" alt="" src="images/fig07.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c12"></a>ARRULHOS </h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>A.M. da Silva Gayo</em>.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Ao</span> fundo do jardim
+ficava o pombal&#8213;uma casinhola redonda, com
+orificios triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura
+impeccavel do muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de
+distancia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pombal da Morgada! diziam.&#8213;L&aacute; se v&ecirc;
+al&eacute;m...&#8213;E um gesto muito longo levava a vista horizontes
+f&oacute;ra, &aacute; cata do Pombal
+da Morgada, que alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos
+montes sobranceiros,
+como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e
+osso provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
+seriam encantadoras as tardes quentes de estio, &aacute; sombra de
+arvores seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda,
+pardalada
+sonora, gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa
+semceremonia&#8213;frang&atilde;os assados e boa vinha&ccedil;a da
+terra. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[180]</span>
+Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A
+Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e
+outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte
+desastrada do noivo&#8213;um trambulh&atilde;o de um cavallo que o
+matara logo alli, sem mais pio, n'um ai. <br />
+
+<br />
+
+A recordar esse amor&#8213;um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera
+na vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a
+castidade das suas inten&ccedil;&otilde;es d'elle... <br />
+
+<br />
+
+Muito bem. Fez-se ent&atilde;o o pombal, o casal procreou, vieram
+pombos novos&#8213;todos brancos uns, rajados outros, de um <em>gris</em>
+delicadissimo alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos. <br />
+
+<br />
+
+Bellos pombos, na verdade! <br />
+
+<br />
+
+Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo come&ccedil;avam de
+esbater-se n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a
+percep&ccedil;&atilde;o clara das coisas entrava de se desfazer
+em imperceptiveis <em>nuances</em> subtis, n'um <em>smorzando</em>
+melancholico onde
+palpitavam vagos terrores de noite que
+vem caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida
+cessava no campo e come&ccedil;ava no c&eacute;o em
+scintilla&ccedil;&otilde;es argenteas de estrellas&#8213;todas as
+tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a estreita porta do pombal,
+e uma mulher nova, vestida de preto, espalhando no pavimento terreo,
+com solicitudes de
+<em>menag&egrave;re</em>, as provis&otilde;es de um
+pequeno cabaz que
+lhe pendia do
+bra&ccedil;o&#8213;milho em abundancia e fartura de alpista. <br />
+
+<br />
+
+Assim todas as tardes, ia j&aacute; em quatro annos, que
+n&atilde;o havia for&ccedil;as que levassem a Morgada para
+f&oacute;ra do seu
+<span class="pagenum">[181]</span>
+pequeno solar, onde
+vivia s&oacute;, retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel
+a pedidos de amigas que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e
+que a queriam levar
+para que se distrahisse, para que se alegrasse&#8213;&laquo;era nova
+ainda, podia arranjar noivo, nada mais facil...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E as pombas? objectava.&#8213;Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo.
+Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
+matassem, haviam-de at&eacute; roubal-as, entrar de noite no
+pombal, leval-as todas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que n&atilde;o e que n&atilde;o! insistia renitente;&#8213;que
+tivessem paciencia, que se divertissem muito, ella ficava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Platonismos! gargalhavam depois as amigas.&#8213;Saudades do outro que
+rebentou do trambolh&atilde;o. Bem tola! <br />
+
+<br />
+
+E partiam s&oacute;s, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas,
+achando-a ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da
+simplicidade habitual da sua <em>toilette</em>&#8213;vestido
+preto todo liso, muito
+afogado, um pequeno <em>ruche</em> no pesco&ccedil;o e
+mangas, nem uma
+pr&eacute;ga, nem sequer um la&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Ca&ccedil;ador que as
+visse n&atilde;o desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de
+hoje para
+&aacute;manh&atilde;, desenvolvia a
+propaga&ccedil;&atilde;o o bom tracto, a
+habita&ccedil;&atilde;o confortavel, muito abrigada de ventos,
+onde a chuva n&atilde;o entrava e os ninhos
+eram flaccidos&#8213;folhas de milho mudadas cada dois dias. <br />
+
+<br />
+
+Que bom, ser pombo da Morgada! <br />
+
+<br />
+
+A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, come&ccedil;ava
+com o aclarar, muito cedo, depois do descan&ccedil;o
+<span class="pagenum">[182]</span>
+do somno na
+placidez
+do ninho, quando as for&ccedil;as eram s&atilde;s e as azas
+pediam
+v&ocirc;os. <br />
+
+<br />
+
+Hora dos amores! <br />
+
+<br />
+
+Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente,
+lan&ccedil;avam-se sobre as pombas, for&ccedil;avam-nas,
+perseguiam-nas se voejavam, amea&ccedil;ando-as de bicadas
+primeiro, picando-as nas cabecitas
+se resistiam, possuindo-as &aacute; for&ccedil;a, a tremer,
+azas em concha,
+pennugem erri&ccedil;ada, arrulhando muito, arrulhando sempre,
+cahindo desfallecidos depois, hirtos, palpebras cerradas, trementes,
+frementes, em spasmos de luxuria
+e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de
+contentes, sacudindo as azas, pesco&ccedil;o levantado, orgulhosas
+talvez, muito felizes. <br />
+
+<br />
+
+Outros ent&atilde;o, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos
+por certo, quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua
+eleita, n'uma
+do&ccedil;ura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos,
+mas pedindo &aacute;s boas, n&atilde;o querendo violencias,
+detestando-as,
+bem se via, supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos,
+redobravam os
+carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de
+pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos&#8213;beijos
+com certeza. <br />
+
+<br />
+
+Isto todos os dias, nas manh&atilde;s ennevoadas especialmente.
+Imagine-se a vida do pombal &aacute;quellas horas:&#8213;pombas que
+voejavam
+assustadas, esquivas mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que
+condescendiam e pombas
+que queriam arrulhos: quem n&atilde;o voasse arrulhava, quem
+n&atilde;o arrulhasse voava; e tudo gozava&#8213;quem era feliz e quem
+estava para o ser, quem era sanguineo e quem era pachorrento. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
+pousava, retomando v&ocirc;o se um voava, sempre juntos, sempre na
+mesma direc&ccedil;&atilde;o, a beber no mesmo ribeiro, em
+linha,
+todos a um tempo, n'um ruido muito doce de bicos que sorviam. <br />
+
+<br />
+
+Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
+Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao
+balc&atilde;o da sua janella, alegre de trepadeiras em
+fl&ocirc;r, pousar-lhe nos hombros, na cabe&ccedil;a as mais
+ousadas ou as mais amigas,
+segredando-lhe n&atilde;o sei que arrulhos que ora a faziam sorrir,
+ora lhe traziam lagrimas, mas
+que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida... <br />
+
+<br />
+
+D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios
+felis&otilde;es, vida de concubinagem, n'uma promiscuidade sem
+limites e n'uma libertinagem
+de harem. <br />
+
+<br />
+
+Polygamia desenfreada! <br />
+
+<br />
+
+Excep&ccedil;&atilde;o a ella, apenas um casal&#8213;a melhor pomba
+da manada, pomba branca, de uma alvura impeccavel de neve, e
+ent&atilde;o um pombo
+rajado, preto e cinzento, de <em>nuances</em>
+azues-escuras, ares aguerridos
+de luctador vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador. <br />
+
+<br />
+
+Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e
+spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de
+pesco&ccedil;o, nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a,
+sem arrulhos
+previos, sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque
+muitas se
+lhe entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe
+<span class="pagenum">[184]</span>
+no ninho, disputando
+primazias &aacute; for&ccedil;a de bicadas. <br />
+
+<br />
+
+E umas atraz de outras, e dias ap&oacute;s dias, sempre assim! <br />
+
+<br />
+
+Mas todas fugiam em seguida, n&atilde;o sei se de esfalfadas, se
+para dar logar a outras; uma s&oacute;, a pomba branca, se quedava
+ao lado d'elle,
+paciente, resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de
+ternuras, muito meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o
+ufanava, incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de
+aborrecer
+as outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
+entregar a outros, e de se affei&ccedil;oar &aacute; branca, a
+ella s&oacute;, acarinhando-a muito, arrulhando com ella,
+alternadamente, ora um ora outro, gemendo amores. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da
+desordem, da perturba&ccedil;&atilde;o que isso levou ao rancho
+t&atilde;o dado a instinctos commodos de polygamia, t&atilde;o
+avesso a duetos d'aquella natureza, onde os
+pombos eram de todos e as pombas eram communs. <br />
+
+<br />
+
+E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
+inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava
+de egoista. E quando sa&iacute;am n&atilde;o se juntavam com os
+outros&#8213;uma desfeita! uma offensa!&#8213;tomavam rumo differente: para a
+direita se os outros iam para
+a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
+contrario. <br />
+
+<br />
+
+Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham,
+j&aacute; os encontravam no pombal, em ninhos contiguos a
+principio, no mesmo ninho depois! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[185]</span>
+Um escandalo! Um desaforo! <br />
+
+<br />
+
+E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas. <br />
+
+<br />
+
+Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
+forte, tro&ccedil;a talvez, desespero decerto, todos juntos,
+combinados. E se isto n&atilde;o bastava, come&ccedil;avam
+todos a voar, batendo
+muito as azas, levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o
+casal, fingindo quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou
+ent&atilde;o os mais
+despeitados... <br />
+
+<br />
+
+Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a
+pomba branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia
+depois,
+luctava por fim, levando-os n&atilde;o raro de vencida,
+obrigando-os a fugir do pombal em vergonhoso tropel, muito assustados,
+vencidos. E noite
+al&eacute;m, entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido
+de azas, receiando
+acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente,
+pesco&ccedil;o escondido sob a aza veludinea. <br />
+
+<br />
+
+Dois mezes assim&#8213;dois mezes!&#8213;n'uma fidelidade conjugal ininterrupta,
+digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conhe&ccedil;o,
+que os senhores conhecem, n&atilde;o?... Vida boa, na verdade,
+perfumada
+de arrulhos e esplendida de alegrias, passada em bellas
+digress&otilde;es campos
+f&oacute;ra, pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma
+po&ccedil;a, dormindo no
+mesmo palmo de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez... <br />
+
+<br />
+
+Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter
+desconfian&ccedil;as, suspeitas de inconstancias e receios de
+infidelidades, de noite, emquanto dormia.
+Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
+modos
+<span class="pagenum">[186]</span>
+de enfadada &aacute;s vezes, certas perrices, resistencias
+mal disfar&ccedil;adas. Ficava-se em casa se o rajado sahia,
+impassivel
+a supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e
+quebramentos de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o
+v&ocirc;o, tomava para
+norte se o rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se
+s&oacute;, para lhe
+fugir. <br />
+
+<br />
+
+Estava farta, v&ecirc;-se. E como os outros a n&atilde;o
+queriam&#8213;rameira do rajado!&#8213;um dia levantou v&ocirc;o e fez-se ao
+largo. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao
+<em>vinagrinho</em> de Xabregas, muito nacional e muito
+fino, bons velhos de
+<em>quinzena</em> e cal&ccedil;a de
+al&ccedil;ap&atilde;o, feros,
+muito rijos, &aacute; prova de rheumatismo e &aacute; prova de
+vintem, felizes na sua pobreza,
+amigos das crean&ccedil;as, bem humorados sempre, fl&ocirc;res
+de uma
+arvore que ora vae dando cardos. Perto do solar da Morgada, a tres
+kilometros s&oacute;,
+havia um assim, o abbade das Donas, bom pr&eacute;gador n'outras
+eras, com famas de
+theologo ainda ao tempo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!&#8213;era assim que
+muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins,
+sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Theologia velha, diziam, a genuina! <br />
+
+<br />
+
+A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
+a desabar,&#8213;uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era
+terreo, rimas de lenha
+<span class="pagenum">[187]</span>
+secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha,
+um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para
+um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
+estavam. <br />
+
+<br />
+
+Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas
+devo&ccedil;&otilde;es, e n'essa tarde quem quer o poderia ver
+passeando-a a todo o comprimento, oculos na ponta do nariz, breviario
+na m&atilde;o direita, a dois palmos, a
+esquerda a segurar a aba da <em>quinzena</em>, e um
+pequeno solideo com borla
+resguardando-lhe a calvicie. <br />
+
+<br />
+
+A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas
+exclama&ccedil;&otilde;es de desgosto, arremessos de breviario,
+e por fim levantando a voz: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fome as pombas, sr.<sup>a</sup> Luiza: n&atilde;o
+fazem sen&atilde;o
+saltar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem fartas!&#8213;retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,&#8213;mas
+t&ecirc;m l&aacute; visita, pomba que arribou. <br />
+
+<br />
+
+E depois informando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pomba guapa, toda branca. S&atilde;o agora tres ao todo, e
+ent&atilde;o o pombo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.&#8213;Percebo...
+percebo perfeitamente...&#8213;E foi metter-se no quarto, continuar a
+leitura.&#8213;Deixal-as! concluiu evangelico. <br />
+
+<br />
+
+Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar &aacute;
+reles pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um
+caix&atilde;o
+velho, com grades s&oacute; na frente, muito suja sempre, arrumada
+p'r'alli ao
+fundo da varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros,
+um nojo. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[188]</span>
+Quando a mostrava &aacute; creada, o abbade dizia-lhe sempre: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A sua vergonha, sr.<sup>a</sup> Luiza; a vergonha da sua
+cara. Como se os
+animaes n&atilde;o fossem tambem creaturas de Deus... <br />
+
+<br />
+
+As pombas eram magras e o pombo era esqueletico. <br />
+
+<br />
+
+Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a
+alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que
+ambos se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e
+bem tratada, flaccida de pennugens e de carna&ccedil;&atilde;o
+consistente, apetitosa, o pombo n&atilde;o a largava&#8213;genio de
+libertino em corpo de tisico. <br />
+
+<br />
+
+Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem for&ccedil;as
+para voar se queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola,
+encolhida, tristonha, arrependida talvez de ter deixado o
+pombal,&#8213;saudosa do rajado, o seu primeiro amor, quem sabe! <br />
+
+<br />
+
+E depois, o pombo sujo j&aacute; n&atilde;o se importava com
+ella, desprezava-a, tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras,
+dando-lhe maus tratos,&#8213;&aacute; intrusa. D&ocirc;r
+incomparavel! <br />
+
+<br />
+
+Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar,
+descan&ccedil;ando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as
+for&ccedil;as, arquejando sempre, arrastando-se em v&ocirc;os
+baixos, sentindo vertigens se
+subia mais alto. Para passar um ribeiro descan&ccedil;ou uma hora,
+e quando
+cobrou alento e come&ccedil;ou o v&ocirc;o, viu-se na agua e
+estremeceu,
+molhou ainda as azas, viu um corvo na sua propria imagem, um corvo
+negro que a perseguia silencioso, trai&ccedil;oeiramente,
+<span class="pagenum">[189]</span>
+que a ia
+talvez devorar... O
+que ella tinha sido e o que era!... <br />
+
+<br />
+
+Lembrou-se ent&atilde;o do pombal, do seu primeiro ninho, do
+rajado... Oh! o rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a
+quereria, tinha pomba,
+decerto... Iria?... N&atilde;o iria?... O pombal ficava perto, um
+v&ocirc;o valente e estava l&aacute;, acharia tudo em casa, era
+cedo ainda. <br />
+
+<br />
+
+Fez-se de v&ocirc;o e partiu. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A manh&atilde; era calma e o c&eacute;o era azul.
+Can&ccedil;&otilde;es de cotovias vibravam pelo ar que as
+balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva tinha
+os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra
+can&ccedil;ada e adormecer no azul; e o oriente come&ccedil;ava
+de animar-se de um
+alaranjado esplendido&#8213;decora&ccedil;&atilde;o triumphal com
+que se orna
+aguardando a visita de quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o
+hemispherio e fecundando tudo&#8213;o cardo que rasteja e o cedro que
+v&ecirc; longe... <br />
+
+<br />
+
+N'aquelle repontar da manh&atilde;, o alto c&eacute;o era de
+uma limpidez crystallina. Evolava-se de toda a banda um perfume
+virginal de dulcissima paz, e pelas ramagens verdejantes a volata
+suavissima dos ninhos
+come&ccedil;ava, como uma sauda&ccedil;&atilde;o ao dia que
+vinha rompendo. No altar
+das laranjeiras, florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a
+missa d'alva. <br />
+
+<br />
+
+Em manh&atilde;s placidas como aquella, quantas vezes a branca
+n&atilde;o fizera as suas excurs&otilde;es alegres de
+<em>touriste</em>, na companhia do
+rajado, perdendo-se com elle atravez
+<span class="pagenum">[190]</span>
+do horizonte &aacute;quella
+hora
+tranquillo e para toda a banda transparente! <br />
+
+<br />
+
+Como tudo isto lembrava, agora! <br />
+
+<br />
+
+Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam
+descan&ccedil;ado muitas vezes, muitas, expandindo em arrulhos de
+uma ternura ineffavel o amor extraordinario que os unia! Em toda a
+largura n&atilde;o se
+descobria um s&oacute; campanario ou um s&oacute; telhado onde
+n&atilde;o tivessem
+pousado ambos, alegres, contentes, doidos! E ella sempre ufana,
+acompanhava o macho nos seus v&ocirc;os ainda os mais arrojados,
+perdia-se com elle para
+al&eacute;m das serranias mais distantes, destemida com a companhia
+que levava&#8213;um amigo que empenharia a vida s&oacute; para salvar a
+da amante. <br />
+
+<br />
+
+E que bella manh&atilde;, aquella! Tudo t&atilde;o alegre! Era
+ver como as calhandras acordavam contentes, e se atiravam ares
+al&eacute;m no seu
+v&ocirc;o perpendicular e rapido! <br />
+
+<br />
+
+Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
+melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
+largura&#8213;nem uma aza de pomba palpitava. Ella s&oacute;,
+desalentada e cheia de maguas, ia para onde a levava o destino,&#8213;quem
+sabe se para a morte... <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o chegou a branca ao pombal e voejou em torno
+espadanando as azas contra o muro, arremettendo os buracos, desejando
+entrar, faltando-lhe
+a coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos
+companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
+arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo
+muito as azas combinando ataque. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[191]</span>
+E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a
+passagem. <br />
+
+<br />
+
+De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou
+v&ocirc;o n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba,
+com a desgra&ccedil;ada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue
+nos
+bicos e pennas voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam
+com furia. Por
+fim um baque, a pomba caiu no ch&atilde;o, toda sangrenta, um olho
+arrebentado, bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho
+guttural de vida que se esvae lentamente, gradualmente, com
+d&ocirc;r. Um
+estremecimento de membros por fim, uma agita&ccedil;&atilde;o
+geral repentina,
+e&#8213;morta! <br />
+
+<br />
+
+Ares al&eacute;m, os assassinos em bando voavam &aacute; busca
+talvez de um ribeiro onde lavassem os bicos ensanguentados... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E o rajado?&#8213;h&atilde;o-de os senhores perguntar. Demorem-se um
+pouco e vel-o-h&atilde;o sair da janella das trepadeiras, alegres,
+feliz&atilde;o, bohemio, depois de uma noite passada na meia sombra
+dos cortinados leves de um leito, a rir, a amar, beijando o colo da
+Morgada, arrulhando com ella, arrulhando, ora um ora
+outro,&#8213;debicando... debicando... debicando... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>BATALHAS DOMESTICAS </h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c13"></a>BATALHAS DOMESTICAS<sup><a href="#1">[1]</a></sup></h3>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>A Luiz Trigueiros</em>.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Para</span> o meu proposito,
+&eacute; inutil narrar-lhes esse pequenino e
+perfumado idyllio, c&ocirc;r de roza, que foi na vida d'ambos,
+durante um
+anno, o seu mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim
+Seabra, maior, empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno
+uma furiosa vida de trabalho. A m&atilde;e tinha-lhe morrido, ainda
+elle era
+fedelho: e passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma
+doen&ccedil;a complicada levara-lhe tambem o pae&#8213;homem
+<span class="pagenum">[196]</span>
+de lavoura,
+pobre mas honrado, bronco
+mas leal, que nascera e levara a vida n&atilde;o me lembra em que
+aldeia da Beira, nas abas da serra da Estrella. <br />
+
+<br />
+
+Sentindo-se morrer, o Jo&atilde;o Seabra pediu os sacramentos.
+Deram-lh'os. E quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido,
+aconchegando ao largo peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob
+a umbella branca de grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu
+o padre de que em podendo lhe desejava uma palavra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Volto por aqui de caminho, dissera o reitor. <br />
+
+<br />
+
+Assim fez. Mas caso &eacute; que ao abeirar-se de novo do catre do
+doente, junto do qual estava o Joaquim, descal&ccedil;o, mal
+remendado, o
+velho, entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera
+tempo de lhe murmurar, designando vagamente o filho: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O pequeno, coitadinho! <br />
+
+<br />
+
+De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos,
+veio metter o orph&atilde;o, como mar&ccedil;ano, n'uma loja de
+ferragens da baixa, loja escura, funda, com uma ventana de
+vidra&ccedil;as, combalida,
+dando para uns sagu&otilde;es de predios contiguos. De
+mar&ccedil;ano
+subiu com o tempo a caixeiro; e como era applicado, humilde,
+supportando com uma placidez resignada de beir&atilde;o um trabalho
+por vezes superior
+&aacute;s suas for&ccedil;as, pulou um dia para a escrevaninha
+da casa, no andar de cima, vaga pela sahida para a cadeia do outro que
+commettera umas falcatruas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Precisava um tiro nos miolos, esse c&atilde;o! dissera deante dos
+patr&otilde;es o Joaquim. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[197]</span>
+E a incisiva phrase que f&ocirc;ra, emquanto remexia a papelada,
+todo o seu commentario ao procedimento irregular do companheiro,
+valera-lhe a involuntaria conquista do logar, como
+revela&ccedil;&atilde;o,
+que era, das qualidades fundamentaes do seu caracter,&#8213;communs, de
+resto, ao typo
+beir&atilde;o, profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no
+fundo generoso e
+bom. <br />
+
+<br />
+
+A vida come&ccedil;ou ent&atilde;o a ter para elle umas
+entreabertas mais risonhas, livre d'essa pris&atilde;o estreita da
+escura loja, onde os seus
+instinctos hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma
+natureza barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos,
+violentos repel&otilde;es de rebeli&atilde;o... At&eacute;
+que um
+dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo &aacute; escrevaninha o
+assaltavam, pensou em ir &aacute; terra
+onde n&atilde;o voltara desde pequeno. Ainda l&aacute; tinha
+uns tios, vivia ainda o reitor. E
+n'uma introvers&atilde;o de momentos, mirando atravez da janella o
+claro
+c&eacute;o azul, alto n'aquella manh&atilde; serena de maio, o
+Seabra teve a remota
+vis&atilde;o do seu passado&#8213;das coisas da sua infancia, da sua
+pobre e humilde aldeia encravada n'um declive de serrania que ao longe
+elevava o dorso,
+nitente de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo
+invertido, elle l&aacute; via al&eacute;m, muito longe para as
+suggest&otilde;es do seu desejo, muito afastado para as debeis
+reminiscencias da sua memoria, tudo isso que elle dizia em tres
+palavras&#8213;&laquo;a minha
+terra!&raquo;&#8213;isto &eacute;, esse mont&atilde;o informe de
+velhos tectos chamuscados onde havia
+um debaixo do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja
+oblonga; a fita branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua
+m&atilde;e jaziam; a
+paizagem circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de
+prata serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e
+ent&atilde;o a velha legi&atilde;o amiga das arvores&#8213;o zimbro
+ao alto dos
+m&ocirc;rros n&uacute;s; depois, descendo, as urzes brancas; os
+piornos; os bellos carvalhos
+<span class="pagenum">[198]</span>
+altivos; e j&aacute; a meio da
+encosta, estendendo sobre a zona agricola e
+horticola o verde e tenro parasol das suas soberbas folhas&#8213;o
+castanheiro, emfim. <br />
+
+<br />
+
+Atravez da sua vida de balc&atilde;o, duramente moirejada a mover
+barras de ferro, feixes pesados de vergas, ceir&otilde;es informes
+de
+pregaria, com intermittencias raras de descan&ccedil;o, algum
+domingo, pelas
+hortas dos arredores, ou &aacute;s vezes n'um bote, pelo Tejo,&#8213;a
+sensa&ccedil;&atilde;o melancolica da sua paizagem nativa
+n&atilde;o chegara a obliterar-se-lhe no
+cerebro, nem t&atilde;o pouco a lembran&ccedil;a dos seus
+velhos conhecimentos de infancia,
+dos seus companheiros de escola que iam todos os dias, de
+manh&atilde; e de
+tarde, &aacute; li&ccedil;&atilde;o a casa do reitor,
+n'aquelle velho
+sot&atilde;o da residencia, com paredes denegridas e tecto de
+madeira com manchas... <br />
+
+<br />
+
+E que seria feito d'elles? Talvez que os n&atilde;o conhecesse, que
+o n&atilde;o reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta
+desconfian&ccedil;a, dava ao seu desejo de os ver, de se lhes
+mostrar,&#8213;com o seu fraque, a sua bengala, a sua cadeia de oiro
+escorrendo sobre o colete claro&#8213;o
+encanto subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim,
+a propor
+aos patr&otilde;es essa viagem, certa imagem de rapariga loira,
+olhos azues e toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso,
+espontaneamente, insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se
+conservava ainda solteira... <br />
+
+<br />
+
+...a Emilia! <br />
+
+<br />
+
+E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente
+&aacute; historia que lhes vou contando, a chronica preliminar
+d'esse consorcio, direi
+que a velha estola do reitor os uniu emfim uma
+manh&atilde;&#8213;manh&atilde; de julho, na velha e ampla igreja da
+freguezia, toda banhada de sol,
+<span class="pagenum">[199]</span>
+toda
+rumorejante de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva
+alegre de p&eacute;talas, a saraivada metalica dos sinos,
+repicando...
+At&eacute; que passados dias, eil-os emfim em Lisboa, installados
+n&atilde;o sei em que
+beco da Baixa, perto da
+&laquo;obriga&ccedil;&atilde;o&raquo; do
+Joaquim, que era, como lhes disse, o escriptorio. <br />
+
+<br />
+
+E aqui rompe a historia; e se &eacute; do agrado dos senhores,
+comecemos. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa,
+toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no
+amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a
+mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por
+outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e
+trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a
+homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas
+naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma ra&ccedil;a,
+temperadas do mesmo sangue, ricas das mesmas
+infiltra&ccedil;&otilde;es de
+seiva e de saude, explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de
+vontades que os dois levavam na vida, sem um choque nas suas
+aspira&ccedil;&otilde;es, sem um encontro avesso nos seus
+desejos, sem a minima divergencia no seu modo de
+v&ecirc;r e de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que
+nas suas naturezas havia de fundamental, e at&eacute; de
+intensamente
+uniforme no raio visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer
+nullo, sem consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo
+periodo passado em latitudes differentes:&#8213;ella, onde ambos tinham
+nascido, debaixo do mesmo c&eacute;o,
+<span class="pagenum">[200]</span>
+&aacute; luz do mesmo
+sol, &aacute;
+sombra das mesmas arvores; elle, sequestrado de tudo isso, mas n'um
+meio sem c&ocirc;r para elle
+definida, pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua
+natureza se conservara estagnada,&#8213;estagnada como uma pequena lagoa,
+dormente debaixo do luar melancolico... <br />
+
+<br />
+
+Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas
+supersti&ccedil;&otilde;es, povoadas das mesmas imagens,
+embaladas, ao nascerem, ao rythmo da mesma
+can&ccedil;&atilde;o, essa forte, dulcissima
+corrente de ternura espiritualisada que era o motor primeiro dos seus
+abra&ccedil;os, o
+mais vivo e fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena
+e orvalhada efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia
+tambem no
+sangue d'ambos&#8213;bem como no seio de um diamante as
+iria&ccedil;&otilde;es mordentes&#8213;as rubras, incandescentes
+faulhas de uma animalidade impetuosa,
+adivinha-se quanto seria intensa nos dois a vida sexual,&#8213;casta a
+despeito de tudo,
+vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas
+classicas, por umas cabecitas loiras de crean&ccedil;as, frescas,
+ridentes, c&ocirc;r de rosa... <br />
+
+<br />
+
+D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado
+idyllio, c&ocirc;r de rosa, que f&ocirc;ra na vida de ambos,
+durante um
+anno, o seu mais vivo encanto... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Em certo dia, por&eacute;m, regressava o Joaquim do escriptorio,
+noite cerrada j&aacute;, quando uma rapariguita que lhes servia de
+creada havia
+dois dias, vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no
+accento
+beir&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha madrinha est&aacute; muito mal. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[201]</span> &#8213;Muito mal? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, parece que lhe deu pela cabe&ccedil;a n&atilde;o sei
+qu&ecirc;. <br />
+
+<br />
+
+Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se
+&aacute; hombreira, para n&atilde;o cahir, sentiu passar-lhe
+pelo cerebro, como um
+tuf&atilde;o de peste, uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um
+presentimento... E cobrando alentos, confuso deante da rapariguita que
+o olhava, disse-lhe com a
+voz tr&eacute;mula, no tom de quem procura, compromettido e
+humilde,
+esconder um pensamento: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio
+da Beira. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.&#8213;Fica-se como
+doida... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... &Eacute; isso. <br />
+
+<br />
+
+E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do
+andar de baixo,&#8213;talvez alguem que o procurasse!&#8213;fechou a porta com
+for&ccedil;a; e apagando a luz, com um sopro tr&eacute;mulo,
+coseu-se a um canto impondo silencio, com a m&atilde;o sobre a
+bocca arquejante da
+rapariga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo&#8213;Se te calares hei-de te
+dar dinheiro. Cala-te. <br />
+
+<br />
+
+A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um
+novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo
+o predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem
+nas ruas proximas, o Seabra tomou nos bra&ccedil;os
+tr&eacute;mulos
+<span class="pagenum">[202]</span>
+a pequena, e foi, cauteloso como um bandido,
+leval-a &aacute; cama. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouves, Luiza? N&atilde;o fa&ccedil;as bulha. Dorme. <br />
+
+<br />
+
+E fechando-lhe a porta &aacute; chave, respirou, hirto no meio do
+corredor em trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio,
+aquella escurid&atilde;o impenetravel! E elle, como um cataleptico,
+alli
+encafuado vivo...&#8213;triturado pela magua, roido pela d&ocirc;r,
+desfeito pela
+desgra&ccedil;a, como se milh&otilde;es de larvas o
+triturassem, roessem,
+desfizessem, implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua
+carne, sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas
+at&eacute; da sua propria alma... Vivo, &oacute; Deus cruel!
+&oacute; Deus
+desapiedado! Vivo e no emtanto... morto: vivo para a
+sensa&ccedil;&atilde;o
+esphaceladora da sua atroz desgra&ccedil;a, do seu cruel,
+cruciantissimo martyrio; morto,
+aniquillado, desfeito, para a vis&atilde;o auroreal das suas
+esperan&ccedil;as...&#8213;as suas esperan&ccedil;as! revoada alegre
+de pombas, candidas, serenas,
+immaculadas, que um tuf&atilde;o de desgra&ccedil;a varrera do
+ninho do seu
+peito, para longe e para sempre... <br />
+
+<br />
+
+E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma
+prostra&ccedil;&atilde;o de louco embriagado, dir-se-hia que o
+cerebro deixara de funccionar n'esse infeliz&#8213;como relogio subitamente
+parado, marcando um momento fatal!&#8213;e
+que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava!
+era essa impress&atilde;o anniquilladora do <em>Nada</em>,
+que o fundia na
+treva circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o,
+confundindo-o, e tanto e t&atilde;o intimamente, que elle proprio
+n'ella se sentia
+diluido, e no silencio... <br />
+
+<br />
+
+Subito, por&eacute;m, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado
+alli de perto como um reptil, escoado alli de
+<span class="pagenum">[203]</span>
+perto, como um verme,
+phosphorejante na treva &aacute; semelhan&ccedil;a de um
+demonio, que agitasse um <em>pierrot</em> de
+cascaveis,&#8213;uma centelha de vida
+animou esse corpo aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar,
+como luz de lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma
+de uma ideia... E teve ent&atilde;o de si proprio a extranha,
+diabolica
+vis&atilde;o de um esqueleto carcomido, desossado, alquebrado,
+mirando pelo arco immovel das orbitas, d'onde dois feixes de luz
+escorriam&#8213;aquelle trapo miserando alli cahido, informe, esqualido,
+repellente,
+mont&atilde;o de gelo, e lagrimas, e trevas...&#8213;que era elle
+tambem!... <br />
+
+<br />
+
+Entretanto, e como por for&ccedil;a mesmo d'essa
+allucina&ccedil;&atilde;o desvairada e tragica, o cerebro
+perdera n'elle a recta, serena faculdade do raciocinio, elle continuava
+absorto, incomprehendido, estupido, deante da &laquo;sua
+desgra&ccedil;a&raquo;&#8213;como deante de um
+grande mar de negrume, profundo e estagnado, por uma noite sem lua e
+debaixo de um c&eacute;o sem
+estrellas, torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um
+espectro... E assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos
+irracional,&#8213;mudo,
+aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo
+de um po&ccedil;o um bloco inanimado... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No escuro do seu cubiculo, a pequena solu&ccedil;ava a
+espa&ccedil;os. E era como se a propria treva solu&ccedil;asse,
+esse chorar abafado da
+crean&ccedil;a, espavorida das coisas que a cercavam, para ella
+mysteriosas e funebres. Era como se um
+alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo
+florido de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um
+v&ocirc;o de acaso, na mansarda
+<span class="pagenum">[204]</span>
+tristonha de um morcego, em
+qualquer frincha desabrigada de
+velho muro, abandonado algures... <br />
+
+<br />
+
+E porque viera? E para que viera? N&atilde;o sabia. No emtanto, ao
+contrario do que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada
+de profunda nostalgia, da telha v&atilde; do seu humilde casebre,
+atravez do
+qual passavam os primeiros alvores da manh&atilde;, como um
+perfumado beijo de
+frescura! Dois dias, apenas! Entretanto, j&aacute; dois dias! Tanto
+tempo em
+t&atilde;o pouco tempo! E n&atilde;o tornara mais a
+v&ecirc;r passaros! e
+n&atilde;o mais tornara a ouvir, de manh&atilde;, tocando
+&aacute; missa d'alva, tangendo &aacute; tarde a
+Ave-Marias, o seu querido e alegre sino d'aldeia...&#8213;al&eacute;m,
+n'aquella riba suave e
+pittoresca, prateada, beijada do luar &aacute;quella hora!... E o
+fio do seu
+pensamento, que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como
+pequenino arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas,
+torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido
+n'um veio torvo, lodoso e borbulhante, solu&ccedil;ando, como se
+f&ocirc;ra de lagrimas, occulto sob a folhagem pallida... <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto
+da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez
+dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no ch&atilde;o talvez...
+Mas como acontece &aacute;s tempestades da natureza, tambem a
+tempestade
+d'aquella alma de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco,
+serenamente, gradualmente. Chorou. E como se f&ocirc;ra o
+v&eacute;o das
+lagrimas que lhe n&atilde;o deix&aacute;ra v&ecirc;r
+at&eacute; ent&atilde;o os
+pormenores do seu infortunio, d'este permittindo-lhe apenas uma
+sensa&ccedil;&atilde;o que diremos
+<span class="pagenum">[205]</span>
+informe, entrou de se fazer com a vasante mais lucido o raciocinio,
+mais precisa e mais esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro,
+como luz que pouco a pouco vae surgindo na lampada de um claustro,
+allumiando nitidamente, sob o docel frio das sombras, as arestas
+marmoreas de um sepulcro... <br />
+
+<br />
+
+Ah! mas ent&atilde;o, sob a impress&atilde;o raciocinada e fria
+da sua tragedia, cujas linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma
+nova tempestade rebentou,&#8213;como uma trovoada enorme em tarde secca de
+maio. E foram ent&atilde;o as impreca&ccedil;&otilde;es, os
+gritos
+estrangulados irrompendo, em surdina, por entre as maxillas ferradas,
+do fundo do peito em ancias.
+Ent&atilde;o foi o arrancar convulsivo dos cabellos, &aacute;s
+guinadas, teimosamente,
+n'um duello de loucura com a d&ocirc;r physica, desafiando-a,
+espica&ccedil;ando-a, dando-lhe a beber o proprio sangue do peito,
+rasgado pelas dez unhas crispantes, lacerantes como se foram de abutre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! raios do c&eacute;o, e n&atilde;o morro! <br />
+
+<br />
+
+E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao ch&atilde;o,
+como beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe
+ent&atilde;o o pudor melindroso da sua desgra&ccedil;a, o medo
+horrivel de que
+se divulgasse, de que os outros a soubessem,&#8213;de que a pequenita,
+mesmo, a
+conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e
+todo elle se sentia gelado at&eacute; ao mais intimo da sua alma,
+suppondo-se na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando
+adherente
+&aacute;s costas, como um ferrete ou como um caustico o olhar de
+&laquo;toda a
+gente&raquo;... E com as unhas ferradas na testa, escondia da
+propria treva, com as
+m&atilde;os ambas, o rosto cobarde e arrepanhado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diabos do inferno! levae-me! <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[206]</span>
+A este novo grito, por&eacute;m, subito se recolheu n'um grande
+pavor religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena,
+doce,
+harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um
+casal... E teve a doce vis&atilde;o de um arco-iris,
+bonan&ccedil;oso e rutilante, repontando luminoso no borel
+asperrimo da sua alma, onde uma clareira
+se abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas
+tranquillas, que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba
+alvinitente, que transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta
+palavra de amor: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus! <br />
+
+<br />
+
+E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um
+como enlevo de vis&atilde;o, um ruflar de azas de pombas...
+&aacute; hora d'alva... sobre os campos... n'uma clara
+manh&atilde; de maio, perfumada... <br />
+
+<br />
+
+E como se m&atilde;o invisivel o erguesse, de vagar, serenamente,
+enxugando-lhe da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta
+alli pela sua alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto
+contiguo,
+onde sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi
+submissamente, como um c&atilde;o duramente batido que volta aos
+affagos do dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos,
+pallidos, desbotados, ao claro luar vindo do c&eacute;o, o triste
+uniu os
+seus labios frementes,&#8213;...n'um beijo suavissimo de perd&atilde;o.
+Ao mesmo
+tempo que ella, n'um delirio, repetia a phrase cruel: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais vinho! <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>NOTAS:</b><br />
+
+<br />
+
+<a name="1"></a><sup>[1]</sup> Sendo
+necessario completar o numero preestabelecido de paginas de
+cada volume d'esta <em>Collec&ccedil;&atilde;o</em>,
+numero
+al&eacute;m do qual se n&atilde;o p&oacute;de ir e aquem do
+qual se n&atilde;o deve ficar,&#8213;o editor pediu e obteve do
+auctor, em vez de novo conto, um excerpto do seu livro em
+prepara&ccedil;&atilde;o, livro provisoriamente baptisado com o
+titulo de <em>Batalhas domesticas</em>. O excerpto
+p&oacute;de dizer-se
+que constitue s&oacute; por si,
+como os leitores ver&atilde;o, um trabalho litterario, independente
+e uno, o que de certo modo lhe
+d&aacute; logar n'esta collec&ccedil;&atilde;o, ao lado dos
+precedentes,
+estabelecendo, al&eacute;m disso, a transi&ccedil;&atilde;o
+do espirito do auctor para uma
+nova phase, litteraria e artistica. <br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">N. do E.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>INDICE </h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>Idyllio rustico</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c1">1</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sult&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c2">18</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ultima dadiva</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c3">41</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Preludios de festa </td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c4">55</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Typos da terra </td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">73</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vae Victoribus</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c6">101</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Maricas</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c7">111</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Para a escola </td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c8">119</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tragedia rustica </td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c9">131</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Abyssus abyssum</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c10">153</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>M&atilde;e</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c11">169</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Arrulhos</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c12">179</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Batalhas domesticas</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c13">195</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>OS MEUS AMORES E A CRITICA </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Da Revista Illustrada (extracto da chronica):&#8213;&laquo;...<em>Os
+meus
+amores</em>, de Trindade Coelho, &eacute; um volume de contos
+para toda
+a gente, em
+condi&ccedil;&otilde;es agradabilissimas ao paladar d'ambos os
+sexos, e com delicadas circumstancias a prazerem, principalmente, ao
+feminino. Porque uma das preoccupa&ccedil;&otilde;es
+litterarias mais evidentes d'este
+escriptor primoroso &eacute; fazer jus &aacute; amisade das
+leitoras, e como disp&otilde;e
+de pericia no ferir de certas notas emoventes e no tocar certas
+fragilidades de sentimento, consegue-o.&#8213;<em>Alfredo Mesquita</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jornal da Noite:&#8213;&laquo;Trindade Coelho&#8213;Este illustre escriptor,
+nosso talentoso colega do &laquo;Portugal&raquo;, brindou-nos
+com um
+exemplar do seu novo livro de contos <em>Os meus amores</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das
+lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se
+distinctamente, e imp&otilde;e-se &aacute;
+admira&ccedil;&atilde;o dos
+que apreciam os talentos brilhantes privilegiados. <br />
+
+<br />
+
+Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e
+encantadora s&atilde;o dignos do maior apre&ccedil;o, pela
+elegancia da f&oacute;rma, burilada a primor n'um estylo finissimo
+e scintillante, despertam os mais francos, sinceros e enthusiasticos
+encomios dos que os
+l&ecirc;em. <br />
+
+<br />
+
+Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello
+caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus
+caracter&iacute;sticos ser&atilde;o traduzidos no novo livro de
+contos do nosso distincto
+collega.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Diario Popular:&#8213;&laquo;<em>Os meus amores</em>.&#8213;Assim
+se chama um livro
+de graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo,
+que acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho. <br />
+
+<br />
+
+O escriptor, como verdadeiro artista que &eacute;, localisa todas
+as suas atten&ccedil;&otilde;es, de ha muito, no trabalho de
+apprehender com fidelidade o viver campezino, sobretudo da vasta
+regi&atilde;o transmontana, a
+qual lhe foi ber&ccedil;o. Por isso o seu fabrico litterario se
+aprimora de dia
+para dia n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito: <em>Os
+meus amores</em> o attestam, quando postos em parallelo com os
+primeiros
+contos publicados avulso. <br />
+
+<br />
+
+Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e
+consegue photographar com particular exactid&atilde;o. Em vez dos
+descriptivos, quasi despresados, s&atilde;o trechos successivos de
+conversas
+d'uma encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de
+todas as suas produc&ccedil;&otilde;es. Isto e a felicidade com
+que sabe
+observar, d&atilde;o o cunho pessoal da sua obra, que proporciona
+agradaveis e confortaveis momentos
+de leitura.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Diario Illustrado:&#8213;&laquo;Abrem <em>Os meus amores</em>,
+de Trindade
+Coelho, com um admiravel soneto de Luiz Osorio, que dep&ocirc;mos
+nas
+m&atilde;os da leitora, como o perfumado ramo de cravos
+valencianos, a fl&ocirc;r actual das suas
+predilec&ccedil;&otilde;es femininas: (<em>segue o soneto
+incial</em>.) <br />
+
+<br />
+
+E pelo bra&ccedil;o do poeta da <em>Alma lyrica</em>
+subimos ao doce
+convivio espiritual da alma de Trindade Coelho. <br />
+
+<br />
+
+O conto <em>M&atilde;e</em>, uma rica joia engastada
+n'este livro,
+brilhando ahi por todas as suas facetas cortadas em diamante, e
+buriladas com a fina arte
+de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para
+aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante
+estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e
+melodico, o diploma do seu notavel talento. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; principalmente pela sinceridade intuitiva e pela
+naturalidade espontanea que estes contos nos captivam. <br />
+
+<br />
+
+O auctor diz-nos, sem preoccupa&ccedil;&otilde;es de escola e
+sem preten&ccedil;&otilde;es a abrir caminho pela
+desloca&ccedil;&atilde;o do vocabulo ou pela selva
+escura do escandalo, o que viu, analysou, observou e sentiu. <br />
+
+<br />
+
+As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam
+suavemente, tocadas a espa&ccedil;os de uma inegualavel melancolia
+contemplativa que lhes duplica o encanto. <br />
+
+<br />
+
+Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade
+Coelho revela o superior poder evocativo da vis&atilde;o intima,
+que o singularisa. <br />
+
+<br />
+
+A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle,
+como para todos os artistas de ra&ccedil;a, attitudes,
+express&otilde;es, c&ocirc;res e sons, que o auctor
+v&ecirc;, adivinha, sente e traduz com a
+fascinadora eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento,
+que
+s&oacute; nos transmitte a simples leitura dos poetas. <br />
+
+<br />
+
+Ha rapidos tra&ccedil;os de analyse emotiva ou de
+commo&ccedil;&atilde;o reflexa que valem poemas. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[III]</span>
+E n&atilde;o ser&atilde;o o <em>Idylio rustico</em>,
+a
+<em>M&atilde;e</em> e outros contos, soberbamente
+delineados e intimamente
+vividos, verdadeiros poemas em prosa? <br />
+
+<br />
+
+Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo
+seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, n&atilde;o
+&eacute; de certo o seu primeiro triumpho.&#8213;<em>Gabriel
+Claudio</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jornal do Porto:&#8213;&laquo;<em>Os meus amores</em>.&#8213;A
+collec&ccedil;&atilde;o Antonio Maria Pereira augmentou se d'um
+novo volume original. Intitula-se <em>Os meus amores</em>
+e est&aacute;
+escripto pelo nosso illustre collega e litterato
+distincto o sr. Trindade Coelhho. <br />
+
+<br />
+
+D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve
+achar grande acceita&ccedil;&atilde;o no nosso publico,
+escreveremos em breve as palavras apreciadoras que elle
+merece.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Correio Elvense</span>:&#8213;Trindade
+Coelho.&#8213;Este nosso amigo e festejado
+escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a
+que deu o titulo: <em>Os meus amores</em>, editado pela
+acreditada livraria de
+Antonio Maria Pereira. <br />
+
+<br />
+
+Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
+capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
+em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
+tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
+estylista. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o s&oacute; nos seus escriptos passados, mas
+ent&atilde;o, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente
+possue. N&atilde;o nos surprehendem pois os
+seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade
+de
+bons e sinceros amigos. <br />
+
+<br />
+
+N'um dos proximos numeros falaremos da impress&atilde;o colhida em
+<em>Os meus amores</em>, agradecendo desde j&aacute; as
+express&otilde;es
+affectuosissimas que acompanham a dedicatoria do livro, que o seu
+auctor nos
+offertou.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Correio do Norte:&#8213;&laquo;<em>Os meus amores</em>.&#8213;Contos
+e
+balladas.&#8213;Trindade Coelho, o j&aacute; conhecido e
+apreciad&iacute;ssimo
+escriptor, acaba de publicar um livro de contos com o titulo acima
+indicado. &Eacute; esta uma
+bella novidade para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de
+ha muito soube conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello
+talento e poderosas qualidades de escriptor. <br />
+
+<br />
+
+Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do
+novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle. <br />
+
+<br />
+
+Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu
+offerecimento.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Globo:&#8213;&laquo;<em>Os meus amores</em>.&#8213;Mais um
+livro editado pela
+livraria de Antonio Maria Pereira. Intitula-se <em>Os meus amores</em>
+e
+subscreve-o o
+nome de Trindade Coelho. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[IV]</span>
+N&atilde;o o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser
+por certo trabalho de grande valor artistico, como
+inven&ccedil;&atilde;o
+e como execu&ccedil;&atilde;o, porque Trindade Coelho
+&eacute; incapaz de produzir uma obra
+litteraria m&aacute;. A sua educa&ccedil;&atilde;o
+litteraria est&aacute; feita, e
+os seus numerosos trabalhos t&atilde;o apreciados, t&atilde;o
+portuguezmente escriptos, t&atilde;o
+sentidos e t&atilde;o espontaneos revelam qualidades de escriptor
+de ra&ccedil;a. Elle tanto
+p&oacute;de ser um jornalista eminente como &eacute; um
+contista original. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> &eacute; uma
+collec&ccedil;&atilde;o de
+contos e balladas. Conhecemos alguns capitulos, que s&atilde;o
+primorosos, mas carecemos de ler todo o
+livro para n&atilde;o errar na aprecia&ccedil;&atilde;o.
+Vamos lel-o
+com a convic&ccedil;&atilde;o de que teremos de saborear um
+d'esses raros mimos litterarios que s&oacute; os
+privilegiados de talento sabem offerecer aos seus leitores.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Diario de Noticias</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;<em>Contos
+e
+balladas</em>.&#8213;Anunci&aacute;mos, em tempo, o proximo
+apparecimento
+d'este trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do
+<em>Portugal</em>, o
+sr. Trindade Coelho, ia augmentar a collec&ccedil;&atilde;o,
+j&aacute; t&atilde;o valiosa, das edi&ccedil;&otilde;es
+do sr. Antonio Maria Pereira. <br />
+
+<br />
+
+O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que
+desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do
+seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores.
+<br />
+
+<br />
+
+Com uma observa&ccedil;&atilde;o escrupulosa, e um pittoresco
+estylo, d'uma pujan&ccedil;a e d'uma riqueza n&atilde;o
+vulgares, sem attentados contra o bom
+gosto, nem rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade
+Coelho
+s&atilde;o, a todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra
+que ha-de entrar,
+sem hesita&ccedil;&otilde;es, na
+acceita&ccedil;&atilde;o
+do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a attestar, n'uma formosa
+prova, a riqueza de um espirito, superiormente educado, ductil e
+promptamente malleavel. <br />
+
+<br />
+
+Porque esses contos s&atilde;o a obra de um genuino artista, cuja
+<em>maneira</em>, simultaneamente facil e apuradissima,
+revelando a
+espontaneidade de uma
+fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma
+delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e
+de seiva. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&oacute;de entrar nos curtos limites de uma simples
+noticia, a mais desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na
+proprio nome do seu auctor, o melhor e o mais seguro titulo de
+recommenda&ccedil;&atilde;o para obter do publico a
+consagra&ccedil;&atilde;o de um largo e legitimo
+successo. <br />
+
+<br />
+
+Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz
+Osorio&#8213;preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle
+rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias
+litterarias.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A Actualidade:&#8213;&laquo;<em>Os meus amores</em>.&#8213;Este
+nome &eacute; o
+de um novo livro da collec&ccedil;&atilde;o Antonio Maria
+Pereira. Pelo titulo
+presume-se um volume de versos; mas n&atilde;o &eacute;, o que
+n&atilde;o quer
+dizer que n'elle se n&atilde;o surprehenda
+<span class="pagenum">[V]</span>
+legitima poesia.
+Trata-se de contos e balladas, originaes do sr. Trindade Coelho, um dos
+nossos mais apreciados e brilhantes
+escriptores. <br />
+
+<br />
+
+Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso
+contista: <br />
+
+<br />
+
+Estylo correcto, elegante, vivo; descrip&ccedil;&otilde;es
+ricas de observa&ccedil;&atilde;o e attrahentes tanto pelo
+colorido como pelo esmerado da f&oacute;rma;
+despidos de grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita
+naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre
+tudo, pela propriedade. <br />
+
+<br />
+
+Com estes predicados o livro <em>Os meus amores</em>, do
+sr. Trindade Coelho,
+deve incontestavelmente ser de valor. E &eacute;. S&atilde;o
+encantadoras todas as narrativas que cont&eacute;m. Logo ao abrir
+depara-se-nos um
+<em>Idylio rustico</em>, que embriaga e
+predisp&otilde;e para a leitura de
+todo o volume,
+onde se encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um
+notavel
+poder de observa&ccedil;&atilde;o e que deixam o espirito
+suavemente
+impressionado. Leiam, e ver&atilde;o que n&atilde;o exageramos
+na opini&atilde;o
+que ahi deixamos rapidamente exposta. <br />
+
+<br />
+
+Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Correio da Manh&atilde;</span>:&#8213;&laquo;Registar
+o apparecimento de um
+livro bom, linguagem elevada e singella, desartificioso e artistico,
+repositorio vasto de observa&ccedil;&atilde;o, vibrado por uma
+grande
+impress&atilde;o pessoal e subjectiva, &eacute; sempre
+agradavel &aacute; chronica, n'este tempo sobretudo de
+litteratura gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> que amavelmente acaba de nos
+offerecer sr. Trindade
+Coelho &eacute; um livro d'esses. Collec&ccedil;&atilde;o
+primorosa de contos e balladas, em que no mais despretencioso dos
+estylos nos conta
+recorda&ccedil;&otilde;es e idylios e nos mostra uma galeria
+rica de typos e de figuras cuidadosamente observados e primorosamente
+expostos. <br />
+
+<br />
+
+O ultimo conto <em>Para a escola</em>, que d'essa bella
+collec&ccedil;&atilde;o acabamos de ler, &eacute;
+encantador de verdade, de singeleza, de arte, e
+assimelha se notavelmente &aacute; maneira de Gustavo Droz. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; o logar nem a accasi&atilde;o de
+fazermos a critica do livro e a aprecia&ccedil;&atilde;o d'este
+novo, d'este debutante, que ao
+primeiro assalto parece estar j&aacute; senhor da batalha. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por isso que sinceramente o felicitamos.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vanguarda</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;O nosso collega, o sr.
+Trindade Coelho, que quasi s&oacute; conheciamos pelos seus
+libellos accusatorios,
+acaba de nos enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a
+fei&ccedil;&atilde;o carregada e sombria do agente do
+ministerio publico desapparece por completo, para nos deixar apreciar
+s&oacute; o espirito finalmente delicado do
+homem de lettras conhecedor dos melhores processos de arte e
+verdadeiramente sabedor do seu officio. <br />
+
+<br />
+
+Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho,
+<span class="pagenum">[VI]</span>
+que
+o outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente
+do ministerio publico, que parece lhe oblitera &aacute;s vezes as
+suas
+excellentes faculdades.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Primeiro de Janeiro</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Acabamos de receber
+o formosissimo livro de contos &laquo;<em>Os meus amores</em>&raquo;,
+de
+Trindade Coelho. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; ainda a occasi&atilde;o de
+p&ocirc;rmos em relevo todas as qualidades litterarias, complexas e
+brilhantissimas, que se evidenciam n'este livro, demonstrando um dos
+talentos mais vivos e assignalaveis entre os
+mais illustres cultores da prosa portugueza. <br />
+
+<br />
+
+Os contos por onde &laquo;<em>Os meus amores</em>&raquo;
+se repartem
+n&atilde;o s&atilde;o apenas maravilhas de linguagem, onde
+t&atilde;o s&oacute;mente se
+destaquem dextrezas e fulgura&ccedil;&otilde;es do estylo: a
+ac&ccedil;&atilde;o que os anima constitue uma deliciosa
+galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em
+flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de
+observa&ccedil;&atilde;o e trasladados a uma f&oacute;rma
+superiormente artistica, onde ha
+firmemente accentuados todos os caracteres de uma esplendida
+organisa&ccedil;&atilde;o litteraria. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um livro vibrante e magnifico&#8213;adoraveis paginas
+intensamente ou delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas,
+cuja leitura
+&eacute; um verdadeiro encanto. <br />
+
+<br />
+
+As nossas cordeaes felicita&ccedil;&otilde;es a Trindade
+Coelho, a quem agradecemos a gentilissima offerta do seu
+livro.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Folha do Povo</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Esta publicada em volume
+uma s&eacute;rie de <em>contos e balladas</em> com que
+o sr. Trindade
+Coelho, o brilhante collaborador do <em>Portugal</em>, vem
+enriquecer a
+litteratura <em>contista</em> entre n&oacute;s, hoje
+t&atilde;o
+querida do publico, depois
+que os trabalhos de Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um
+valor at&eacute;
+ent&atilde;o mesquinho. <br />
+
+<br />
+
+A primeira qualidade que notamos logo nos <em>contos e balladas</em>
+do sr.
+Trindade Coelho &eacute; um estylo muito seu, cheio de uma
+crystallina naturalidade, <em>affastando-se completamente
+d'essas
+excrescencias de mau
+gosto</em>, que ultimamente t&ecirc;m abastardado a lingua
+portugueza,&#8213;prova da superioridade intellectual do escriptor de que
+nos occupamos&#8213;, visto que n&atilde;o mira a uma falsa gloria,
+conquistada facilmenle
+pelas excentricidades de estylo, que s&atilde;o hoje uma verdadeira
+mania
+entre alguns escriptores da chamada gera&ccedil;&atilde;o
+moderna. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo &aacute;
+espontaneidade das suas impress&otilde;es, ao seu sentir, sem
+deixar de se revelar
+um artista, porque nunca a phrase lhe sae banal, nem t&atilde;o
+pouco envolvida
+em ouropeis de mau gosto litterario. <br />
+
+<br />
+
+E no entanto encanta-nos,&#8213;prova de que est&aacute; alli um
+primoroso escriptor, um esp&iacute;rito delicado, reproduzindo
+todos os
+cambiantes da natureza por uma f&oacute;rma de
+observa&ccedil;&atilde;o,
+que n&atilde;o &eacute; d'esta nem d'aquella escola.
+&Eacute; simplesmeate sua, individual. <br />
+
+<br />
+
+Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque
+<span class="pagenum">[VII]</span>
+as
+suas primeiras produc&ccedil;&otilde;es litterarias
+ressentiam-se de uma tal ou qual preoccupa&ccedil;&atilde;o de
+<em>effeito</em> no modo de construir a
+phrase. Hoje, o escriptor adquire a independencia da sua maneira, do
+seu processo, e feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia,
+visto que os
+seus quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel
+reproduc&ccedil;&atilde;o do que o artista observa em volta de
+si. <br />
+
+<br />
+
+Certamente que o publico ler&aacute; com encanto o novo livro do
+sr. Trindade Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e&#8213;podemos mesmo
+dizer&#8213;a litteratura portugueza.&#8213;<em>Silva Lisboa</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Diario Illustrado</span>:&#8213;&laquo;De
+tempos a tempos chegava-nos do
+Atemtejo um periodico que n&atilde;o deixavamos nunca de
+l&ecirc;r pelo
+fino gosto litterario, pittoresco e moderno, que se revelava em todos
+os seus artigos, incluindo os politicos. Esse periodico era redigido
+por Tindade Coelho,
+cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade
+litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade
+verdadeiramente notavel. <br />
+
+<br />
+
+De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para
+o <em>Diario Illustrado</em> e, vindo establecer
+residencia em Lisboa, algumas
+vezes tivemos a honra de receber n'esta redac&ccedil;&atilde;o
+a sua visita, sempre agradabill&iacute;ssima para n&oacute;s,
+porque a sua
+conversa&ccedil;&atilde;o scintillante aligeirava as nossas
+pesadas horas de trabalho. <br />
+
+<br />
+
+Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume&#8213;que faz parte da
+collec&ccedil;&atilde;o <em>Antonio Maria Pereira</em>&#8213;os
+seus
+deliciosos contos, cheios de observa&ccedil;&atilde;o, de
+verdade, de simplicidade
+artistisca, que &eacute;, a nosso v&ecirc;r, suprema
+express&atilde;o de belleza n'este genero de
+composi&ccedil;&otilde;es litterarias. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> s&atilde;o um bello livro, em
+que o estylo se
+n&atilde;o contorce atormentado, como em tantos outros, em que os
+rebuscados esplendores da
+forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade.
+Tudo alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres
+e
+dos episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos
+per&iacute;odos. <br />
+
+<br />
+
+N'uma palavra, <em>Os meus amores</em> s&atilde;o a
+obra de um artista, de
+um homem que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem
+definida por
+tra&ccedil;os profundos de verdadeira originalidade.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Voz Publica</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Trindade Coelho,
+innegavelmente um talento de primeira agua, acaba de brindar a
+litteratura portugueza com
+um excellente livro de contos subordinado &aacute;quelle titulo e
+que constitue o duodecimo volume da elegantissima
+<em>Collec&ccedil;&atilde;o
+Antonio Maria Pereira</em>. <br />
+
+<br />
+
+<em>Contos e balladas</em> &eacute; o sub-titulo do
+livro, e muitos ao
+l&ecirc;rem-n'o julgar&atilde;o que se trata de versos; mas
+n&atilde;o,
+&eacute; em prosa, em prosa vernacula, correcta e vibrante que
+est&atilde;o escriptos os bellos
+contos de que se comp&otilde;e este livro, digno a todos os
+respeitos de ser
+lido. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[VIII]</span>
+S&atilde;o todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela
+espontaneidade e verdade dos seus typos e das suas
+situa&ccedil;&otilde;es,
+lembrando um tudo-nada os formosos typos de aldeia, t&atilde;o
+magistralmente desenhados pelo
+mallogrado auctor da <em>Morgadinha dos Canaviaes</em> e
+dos <em>Fidalgos da Casa
+Mourisca</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a
+l&ecirc;r deixar&aacute; de o fazer como n&oacute;s;
+t&atilde;o
+attrahente &eacute; a f&oacute;rma por que Trindade Coelho
+conduz todos os ligeiros contos de que elle se
+comp&otilde;e, que sem querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim
+e fica-se como triste d'elle ter acabado. <br />
+
+<br />
+
+Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem,
+foram os que se intitulam <em>Typos da terra</em> uma
+galeria curiosa de
+typos, e <em>A m&atilde;e</em>, um conto de natureza,
+simples e commovente
+na sua
+simplicidade, e notavel pela sua originalidade. <br />
+
+<br />
+
+Recommendar o livro de Trindade Coelho &eacute; prestar um
+servi&ccedil;o aos nossos leitores.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Ordem do Dia</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Este &eacute; o titulo
+do 12.&ordm; volume da collec&ccedil;&atilde;o Antonio
+Maria
+Pereira, innegavelmente a
+publica&ccedil;&atilde;o mais elegante, mais barata e mais
+interessante do paiz. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> s&atilde;o uma serie de contos
+e balladas, em
+prosa, devidos &aacute; penna d'um mo&ccedil;o
+talentosiss&iacute;mo, de ha muito
+conhecido nas lides do jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda
+n&atilde;o
+lan&ccedil;&aacute;ra ao mercado um livro; com este debuta o
+auctor, e &eacute; uma estreia
+auspiciosissima a sua. <br />
+
+<br />
+
+A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle
+&eacute; cultivado um genero&#8213;o de contos, alguns &aacute;
+maneira de
+Gustave Droz, que prendem e interessam o leitor em todo o sentido. <br />
+
+<br />
+
+Foi gratissima a impress&atilde;o que elle nos deixou no espirito e
+esperamos que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas
+bellas produc&ccedil;&otilde;es, porque estamos certos de que
+quem
+l&ecirc;r <em>Os meus amores</em> ser&aacute; com
+sofreguid&atilde;o que esperar&aacute; novo volume do
+distincto escriptor, tal &eacute; o encanto da sua
+escriptura&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">O Sorvete</span>, (com o
+retrato do auctor):&#8213;&laquo;Dr. Trindade
+Coelho.&#8213;Mais uma prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez
+justificada a alta competencia e finissimo espirito de escriptor
+disctinctissimo! <br />
+
+<br />
+
+O novo livro de Trindade Coelho,&#8213;<em>Os meus amores</em>&#8213;contos
+e
+balladas&#8213;editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa,
+&eacute;, no dizer dos entendidos em litteratura,&#8213;uma verdadeira
+joia.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">O Espozendense</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em> (contos e balladas) por
+Trindade Coelho.&#8213;Faz parte este volume da interessantissima
+collec&ccedil;&atilde;o Antonio Maria Pereira, t&atilde;o
+bem acceite do publico, pela superior
+escolha das obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus
+pre&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[IX]</span>
+<em>Os meus amores</em> &eacute; um precioso
+agrupamento de contos, alguns
+ineditos, outros j&aacute; conhecidos, e que Trindade Coelho
+espalhara com
+applauso por differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em
+plena aldeia trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra,
+pois
+&eacute; natural de Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos,
+delegado do procurador
+regio n'uma cidade de provincia&#8213;os contos d'esta
+collec&ccedil;&atilde;o tornam-se sobretudo notaveis pela
+propriedade e pela fidelidade da
+ac&ccedil;&atilde;o, verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da
+c&ocirc;r propria da
+paizagem, vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens
+e das cousas. <br />
+
+<br />
+
+Entre as nossas obras litterarias originaes, <em>Os meus amores</em>
+merecem,
+pois, um logar &aacute; parte, n&atilde;o como uma estreia
+auspiciosa, que o nome de Trindade Coelho &eacute; j&aacute;
+demasiado conhecido de todos
+quantos se interessam pela litteratura nacional, mas como a poderosa
+affirma&ccedil;&atilde;o de um prosador elegante e de um
+contista distincto, no meio da grande maioria da chata
+vulgaridade indigena. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> &eacute;, em summa, um livro de
+valor, bem cabido
+nas mais escolhidas bibliothecas.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">O Portuguez</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Delicioso titulo de um
+livro delicioso. <br />
+
+<br />
+
+O livro &eacute; uma collec&ccedil;&atilde;o de graciosos
+contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor
+&eacute; o nosso collega do O livro &eacute; uma
+collec&ccedil;&atilde;o de graciosos
+contos, editorada pelo sr. Antonio Maria Pereira; e o auctor
+&eacute; o nosso collega do <em>Portugal</em>,
+sr. Trindade Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que
+&eacute; digno
+representante, cultiva as lettras com desvelado amor. <br />
+
+<br />
+
+Em Coimbra, estudante ainda, era j&aacute; litterato apreciado,
+collaborando, com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que
+ha mais de dez
+annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu
+t&iacute;tulo de jornalista a invejavel nomeada de contista
+esmerado, e brinda as lettras portuguezas com um volume, que
+est&aacute; tendo a mais
+justa e lisonjeira acolhida. <br />
+
+<br />
+
+O primeiro conto do livro, <em>Idylio rustico</em>,
+n&atilde;o obstante
+ser agora publicado pela primeira vez, cremos n&oacute;s,
+&eacute;
+j&aacute; nosso conhecido, porque appareceu manuscripto n'um
+concurso litterario da extinta
+<em>Associa&ccedil;&atilde;o dos jornalistas</em>,
+sendo premiado.
+Depois da
+consagra&ccedil;&atilde;o de um jury, ter&aacute; agora a
+consagra&ccedil;&atilde;o do publico. <br />
+
+<br />
+
+Depois do <em>Idylio rustico</em>, vem o <em>Sult&atilde;o</em>,
+um quadro
+magnifico da vida campesina, notavel de simplicidade e
+gra&ccedil;a; e a <em>Ultima
+dadiva</em>; e os <em>Preludios de festa</em>; e os <em>Typos
+da terra</em>;
+e as
+<em>Balladas</em>; e a <em>Tragedia rustica</em>;
+e a <em>M&atilde;e</em>; e os
+<em>Arrulhos</em>; e as
+<em>Batalhas domesticas</em>: outros tantos primores, que
+&aacute;s vezes
+nos fazem
+lembrar as deleitosas e serenas paizagens de Daudet. <br />
+
+<br />
+
+Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por
+n&atilde;o haver ainda expirado entre n&oacute;s a litteratura
+san, que, ou nos desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas,
+n&atilde;o nos deixa
+no espirito a impress&atilde;o doentia das nevroses
+litterarias...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[X]</span>
+<span class="smallcaps">Jornal da Manh&atilde;</span>,
+Porto:&#8213;&laquo;<em>Os meus amores</em>.&#8213;Mais
+um volume acaba de ser publicado da collec&ccedil;&atilde;o
+Antonio Maria Pereira, por
+sem duvida a mais elegante, a mais escolhida e a mais economica
+bibliotheca que se
+publica em Portugal. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o primeiro livro de Trindade Coelho, <em>Os meus
+amores</em>,
+contos e balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir
+todos os seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos. <br />
+
+<br />
+
+Do primeiro ao ultimo, os contos que comp&otilde;em <em>Os
+meus
+amores</em> s&atilde;o specimens no genero, porque,
+al&eacute;m de
+constituirem uma
+esplendida galeria de quadros intimos, de retratos, de typos,
+s&atilde;o a
+confirma&ccedil;&atilde;o d'uma verdade j&aacute; por
+n&oacute;s ha muito acceite: que o seu
+auctor tem todos os requisitos d'um escriptor de primeira ordem;
+estylista vibrante, correcto e sempre elegante. <br />
+
+<br />
+
+E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em
+serios embara&ccedil;os, porque s&atilde;o todos por igual
+deliciosos,
+constituindo a sua leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que
+mostrar predilec&ccedil;&otilde;es por algum d'elles parece-nos
+que os
+melhores ser&atilde;o <em>A M&atilde;e</em> e <em>Para
+a escola</em>, aquelle
+uma delicada e emocionante historia
+arrancada flagrantemente &aacute; natureza, e este saudosas
+recorda&ccedil;&otilde;es d'um passado que n&atilde;o
+volta. <br />
+
+<br />
+
+A edi&ccedil;&atilde;o, escusado &eacute; dizel-o,
+&eacute; nitidissima.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">O Tempo</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Este livro teria vindo melhor
+nas noites invernosas para ser&otilde;es &aacute;s lareiras
+crep&iacute;tantes:&#8213;as fa&iacute;scas d'ouro subindo no tecto,
+o vento zenindo f&oacute;ra a&ccedil;oitando
+a chuva, e dentro, no conforto recolhido, gosar-se o contraste das
+paizagens alegrdas pelo sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios
+e trinados d'aves, paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar
+com a delicia suave e
+subtil d'illudidor ameno. Mas n&atilde;o se p&oacute;de
+aconselhar o leitor a que se prive de saboreal-o desde j&aacute;,
+tanto mais que os tempos
+v&atilde;o agoureiros para a arte de manancial, e os que a
+cult&iacute;vam teem de
+separar-se dos estragadores d'Ella e das cabe&ccedil;as quasi
+vasias que expremem
+e segregam o pus nauseabundo do sadismo mediocre. <br />
+
+<br />
+
+Estes est&atilde;o agora entretendo o publico arrebanhado para
+saborear com prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala&#8213;o
+vingador&#8213;ao imbecil que escreveu o <em>Senhor Dupont</em>
+e aos auctores das
+<em>Pimentinhas</em>
+e <em>Berbig&otilde;es Ardentes</em>. <br />
+
+<br />
+
+Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o
+perfumador dos excrementicios e appare&ccedil;a em plena luz nas
+mesas e nas familias dos que compravam os outros, &eacute; o voto
+que faz o
+alinhavador d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda
+&aacute;
+atten&ccedil;&atilde;o um artista recolhido que sabe ter
+for&ccedil;a nos tra&ccedil;os
+tenues e meias tintas dos seus quadros, que capricha em suavisar
+idylicamente as
+d&ocirc;res vulgares da vida acceite, da materialidade animal,
+dourando-as com recantos de natureza chilreante. Que me
+perd&otilde;em insistir na impert&iacute;nencia: mas, o que no
+livro
+<span class="pagenum">[XI]</span>
+mais particularisa o
+talento de quem o assigna &eacute; a comprehens&atilde;o das
+paizagens, o
+sabel-as colorir, animar, p&ocirc;l-as ante os olhos que
+l&ecirc;em. <br />
+
+<br />
+
+As grandes d&ocirc;res obscuras e sinceras, as brandas
+affei&ccedil;&otilde;es, amisades arreigadas, a placidez do
+recanto habitado, os amores simples sustentados por ingenuas
+cren&ccedil;as s suavisada f&eacute;,
+tudo o que a aldeia tem de ameno, d'attraente, de pittoresco, de
+consolador, os seus ridiculos mesmo, vestindo atitudes de parodia em
+theatrinho de curiosos, tudo reveste bem o sr. Trindade Coelho, e
+aligeira com um optimismo de bom humor, sublinhando aqui e
+acol&aacute; umas notas reaes, bem
+apanhadas, como se diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de
+ventar&oacute;la. O livro encanta porque traz todo o aroma da
+aldeia onde o auctor encerrou por annos a sua nostalgia&#8213;a peior de
+todas: nostalgia de delegado!&#8213;apertando os v&ocirc;os do seu
+esp&iacute;rito
+d'artista que ama pairar com a fantasia para o longiquo, para o que se
+Imagina, para o Distante,
+o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se
+dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria
+nas noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes
+de recorda&ccedil;&atilde;o e de saudade d'onde brotou o livro,
+escripto decerto nas horas feriadas do trabalho arido, com a
+documenta&ccedil;&atilde;o da natureza que vivifica, com a
+elabora&ccedil;&atilde;o pachorrenta de quem
+n&atilde;o tem pressa e se compraz na arte libertadora. <br />
+
+<br />
+
+Especificar um ou outro conto n&atilde;o &eacute; depreciar os
+n&atilde;o citados, mas dar preferencia pessoal&#8213;e talvez
+peccadora&#8213;ao <em>Idylio rustico</em>,
+&aacute; <em>Ultima dadiva</em>, &aacute; <em>M&atilde;e</em>,
+&aacute;s <em>Batalhas
+domesticas</em>, que fecham o livro e deixam entrever no auctor
+um desejo
+de animar os personagens tanto como anima
+a natureza onde elles sentiram. Ha contos nos <em>Meus amores</em>
+que fazem
+lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem
+l&ecirc; da patada epica do que fez <em>Cr&eacute;te-Rouge</em>
+e
+<em>Ompdrailles</em>. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Trindade Coelho &eacute; um escriptor t&atilde;o
+distincto quanto aclarado pelo jorro d'arte que vem de ha muito
+confundindo os convulsionarios do talento; os serenos no desdem; os
+enthusiastas; o que, despindo o metaphorico, quer significar que elle
+est&aacute; em
+posi&ccedil;&atilde;o artistica onde decerto o seu talento e o
+seu trabalho continuar&atilde;o a chamar
+atten&ccedil;&atilde;o e respeito.&#8213;<em>M. Caldas
+Cordeiro</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Antonio Maria</span>, (com o
+retrato do auctor, desenho de Raphael
+Bordallo):&#8213;&laquo;<em>Os meus amores</em> por Trindade
+Coelho.&#8213;A
+livraria portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede,
+na ultima
+quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de
+memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho,
+com a amavel denomina&ccedil;&atilde;o de <em>Os meus
+amores</em>. <br />
+
+<br />
+
+Aqui o temos, j&aacute; todo aberto, j&aacute; todo lido...
+&Eacute; originalissimo, agradabilissimo o modo de escrever, de
+descrever, de dizer, de contar, que usa o auctor d'este bello
+livro,&#8213;agradabilissimo contista, escriptor originalissimo, cujo nome a
+bibliographia regista hoje,
+t&atilde;o notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XII]</span>
+A quem o l&ecirc;r, garantimos, sob a palavra de honra do nosso
+gosto, algumas horas muito bem passadas, passeadas por aquellas
+paizagens e recantos provincianos que elle pinta, t&atilde;o real e
+verdadeiramente como
+se l&aacute; se estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle
+retrata,
+t&atilde;o photographicos, t&atilde;o nitidos, que &eacute;
+estar a gente
+a v&ecirc;l-os, a ouvil-os, a falar-lhes... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Os meus amores</em>, meus amores, que
+encanto!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">O Tempo</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;&Eacute;
+como Trindade
+Coelho intitula a collec&ccedil;&atilde;o de formosos contos,
+publicados em
+volume, editado pela livraria do sr. Antonio Maria Pereira. <br />
+
+<br />
+
+Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de
+Trindade Coelho, desde quando lhe l&ecirc;mos as suas
+produc&ccedil;&otilde;es litterarias n'um jornal de Coimbra, e
+que eram as primicias de trabalhos mais primorosos, como s&atilde;o
+hoje os contos a que nos vimos
+referindo. <br />
+
+<br />
+
+O livro de Trindade Coelho &eacute; dos raros que se l&ecirc;em
+da primeira &aacute; ultima pagina sem um momento de
+cansa&ccedil;o ou de fastio. O espirito do
+leitor delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma
+singeleza t&atilde;o commovente, e que nos <em>Meus amores</em>
+s&atilde;o
+descriptas n'uma forma em que se revelam todas as qualidades d'um
+distincto e notavel escriptor. S&oacute; p&oacute;de apreciar
+bem o merito d'aquelles contos
+quem souber quanto cuidado ha no lab&ocirc;r paciente do artista
+para conseguir dar ao
+estylo o tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este
+genero de
+pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos demoraremos a falar dos <em>Meus amores</em>,
+que
+cont&eacute;m preciosas joias litterarias, e ao qual
+est&aacute;, sem duvida, destinado um
+honroso logar na nossa litteratura contemporanea.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Correio Elvense</span>:&#8213;&laquo;Trindade
+Coelho.&#8213;Este nosso amigo e
+festejado escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e
+balladas que deu o titulo: <em>Os meus amores</em>,
+editado pela acreditada
+livraria de Antonio Maria Pereira. <br />
+
+<br />
+
+Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
+capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
+de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
+tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
+estylista. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o s&oacute; nos seus escriptos passados, mas
+ent&atilde;o, conhecemos o grande valor que indiscutivelmente
+possue. N&atilde;o nos surprehendem pois os
+seus triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade
+de
+bons e sinceros amigos. <br />
+
+<br />
+
+N'um dos proximos numeros fallaremos da impress&atilde;o colhida em
+<em>Os meus amores</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XIII]</span>
+<span class="smallcaps">O Dia</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Se fosse no
+seculo passado, os
+fazedores de proemios, prologos e conversa&ccedil;&otilde;es
+preambulares
+com os pios leitores, &aacute; falta de jornalistas que noticiassem
+ou criticassem, por certo aproveitariam a occasi&atilde;o para
+sobre o nome do auctor
+glozarem varios elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e
+&eacute; ao
+mesmo tempo um poeta sincero, um escriptor de ra&ccedil;a, e um
+observador
+attento, qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto
+nasceu uma
+obra formosissima, animada de verdadeira
+commo&ccedil;&atilde;o, sentida nas suas mais pequenas
+minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista. <br />
+
+<br />
+
+A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta
+reuni&atilde;o de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um
+cuidado
+meticuloso, copiando do natural, e em que os personagens foram
+surprehendidos nos seus labores de cada dia ou nas suas intimas
+cogita&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o temos espa&ccedil;o nem tempo para nos alongarmos na
+noticia d'este livro, e por isso nos limitamos a recommendal-o como
+leitura attrahente, como obra d'arte tratada com esmero, embora nem
+sempre com a mesma egualdade
+nem com o mesmo folego, como uma grande lic&ccedil;&atilde;o
+litteraria aos fazedores de naturalismo brutal. <br />
+
+<br />
+
+Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos
+para que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo
+meio o magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos
+provar que quando se &eacute; artista l&aacute; de dentro, o
+contacto
+dos escriv&atilde;es n&atilde;o prejudica a indole do
+escripior.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Novidades</span>,(entrevista
+com Jo&atilde;o de Deus &aacute;cerca dos
+<em>novos</em>):&#8213;&laquo;<em>Litteratura nova</em>.&#8213;Eu
+conhe&ccedil;o
+limitadamente os novos, porque n&atilde;o leio jornaes, e
+n&atilde;o os leio porque os
+litterarios occupam-se na propaganda da immoralidade, e os politicos na
+propaganda do
+suicidio, e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os
+engeitados da fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte,
+as agruras da sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre
+joga os trinta r&eacute;is de tres quartos d'um p&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mas aqui est&aacute; o livro do Trindade Coelho, que me encheu de
+verdadeira alegria! &Eacute; um rapaz de talento! O que
+&eacute; preciso
+&eacute; que elle dispa a toga, que lhe impede os movimentos.
+N&atilde;o o conhe&ccedil;o, mas
+dizem-me que trabalha muito. J&aacute; leu o <em>Sult&atilde;o</em>?
+Se ainda n&atilde;o
+leu, n&atilde;o o deixo sair de c&aacute; sem lh'o ler. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Li j&aacute; todo o livro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois, meu amigo, n&oacute;s andavamos precisados d'uma coisa
+casta, onde fossemos purificar o espirito d'essas taes
+observa&ccedil;&otilde;es physiologicas, e n&atilde;o sei
+que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O
+livro do Trindade Coelho tem o que eu chamo gra&ccedil;a, e que
+n&atilde;o posso bem definir-lhe. Olhe: alli est&aacute;
+aquelle quadro, em que os
+tra&ccedil;os s&atilde;o correctos e a
+execu&ccedil;&atilde;o perfeita, mas
+n&atilde;o tem gra&ccedil;a; e aqui, este, uma bella
+cabe&ccedil;a de rapariga, a physionomia d&ocirc;ce, o
+olhar abstracto: este tem gra&ccedil;a. At&eacute; a
+<span class="pagenum">[XIV]</span>
+Virgem
+Maria se chama cheia de
+gra&ccedil;a, e foi m&atilde;e de Deus por ter
+gra&ccedil;a. A gra&ccedil;a na litteratura
+&eacute; tudo, mas &eacute; muito rara.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Novidades</span>:&#8213;&laquo;<em>Novellas
+rusticas</em>.&#8213;Trindade Coelho.&#8213;<em>Os meus
+amores</em> (contos e balladas.)&#8213;Lisboa, livraria de Antonio
+Maria
+Pereira&#8213;1891. <br />
+
+<br />
+
+No seu penultimo artigo do <em>Temps</em>, dizia M.
+Anatole France, esse
+sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas
+as doutrinas axiomaticas da critica: &laquo;Il y a beaucoup moins
+de lecteurs pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison
+suffisante que
+seuls les d&eacute;licats savent go&ucirc;ter une nouvelle
+exquise, tandis que les gloutons d&eacute;vorent indistinctement
+les romans bons,
+m&eacute;diocres ou mauvais.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+O conto moderno &eacute; como o romance, essencialmente analytico e
+psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a
+apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
+humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi
+invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paix&otilde;es
+e todas as energias depravadas do cora&ccedil;&atilde;o. A arte
+do sr.
+Trindade Coelho &eacute; muito differente d'isso, por&eacute;m.
+O seu idylico livro de contos e
+balladas, aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente
+evocado da paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples,
+colhidos com intencional singeleza no meio do seu viver provinciano,
+n&atilde;o
+tem, decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a
+etiqueta actualmente em moda. &Eacute; natural at&eacute; que o
+leitor,
+habituado aos livros dos escriptores realistas, sinta uma profunda
+sensa&ccedil;&atilde;o de espanto ao emprehender a leitura dos
+<em>Meus amores</em>, duzentas paginas suaves e simples,
+sem pedantescas
+preten&ccedil;&otilde;es a passarem
+como tratado didactico de psychologia. <br />
+
+<br />
+
+Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e
+que as suas figuras s&oacute; serviam para dar express&atilde;o
+e
+vida &aacute; paizagem. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a
+sensa&ccedil;&atilde;o visual particularmente desenvolvida, e
+as suas
+descrip&ccedil;&otilde;es s&atilde;o tambem, como as do
+auctor das <em>Pupillas do sr. Reitor</em>, magicamente
+poetisadas, como
+que apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade.
+Chega-se &aacute;s vezes a ter a illus&atilde;o de que o
+artista est&aacute; alli, paginas a dentro do seu livro, fazendo
+reviver no pensamento a alacre
+impress&atilde;o das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados
+da sua aldeia natal,
+cuja lembran&ccedil;a, elle conserva sempre viva, como nos versos
+de Salvador Rueda: <br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Por donde voy me sigue como memoria
+tierna <br />
+
+tu imagen que en mi pecho
+conduzco en un altar;<br />
+
+&iexcl;y mi cerebro canta como una estrofa
+eterna<br />
+
+el coro que tus &aacute;rboles entonan &aacute; la mar! </div>
+
+<br />
+
+Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manh&atilde;
+alde&atilde;, quando o sol come&ccedil;a a subir na linha ainda
+indecisa do
+horisonte: <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XV]</span>
+A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim,
+e o horisonte come&ccedil;ava de carminar-se ao de leve. Por todo o
+ceu em cupula, a luz fresca e viva da manh&atilde; vibrava
+harmonias
+estranhas que iam despertar tudo, a c&ocirc;r da paizagem e a
+musica dos ninhos,
+cantigas de perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos.
+Manh&atilde; de
+ver&atilde;o, serena, tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um
+movimento extraordinario de azas&#8213;passarada alegre que sa&iacute;a
+agora dos ninhos e voava a
+matar a sede &aacute; borda das ribeiras, andorinhas que deixavam
+as suas
+casinholas em reconcavos de rocha e tomavam para hortejos
+conv&iacute;sinhos onde
+a vegeta&ccedil;&atilde;o era mais rica de seivas e mais facil
+a presa dos insectos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte,
+tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques
+verdejantes, gente em
+mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos,
+viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
+taleigos, e berrando-lhes cada <em>cho</em>! que se ouvia
+na outra ladeira.
+J&aacute;
+nas povoa&ccedil;&otilde;es proximas, sinos chamavam para a
+missa
+de alva ou tocavam a Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os
+tectos, dizendo horas de almo&ccedil;o. De modo que o sol quando
+rompeu, solemne e
+triumphante no ceu immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda
+a Natureza
+accordada para a labuta interminavel do dia.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr.
+Paulhan sobre a descrip&ccedil;&atilde;o pittoresca,
+ent&atilde;o
+habilmente apreciados os elementos constitutivos da pintura do meio, em
+todas as suas maneiras diversas na
+qualidade e na intensidade. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Chama-se imagina&ccedil;&atilde;o
+sensivel&raquo;, diz o distincto observador, &laquo;o acto pelo
+qual n&oacute;s nos representamos um objecto ausente, e esta
+representa&ccedil;&atilde;o, como tem sido ha bastante tempo
+notada, n&atilde;o
+&eacute;,&#8213;principalmente se considerarmos s&oacute; certas
+classes de
+imagens,&#8213;sen&atilde;o uma copia enfraquecida d'uma
+sensa&ccedil;&atilde;o. Por exemplo, se eu
+trato de me representar um momento, um quadro, uma estatua, qualquer
+coisa que imagino, se as minhas recorda&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o bastante
+nitidas, &eacute; uma especie de copia enfraquecida da
+sensa&ccedil;&atilde;o que eu terei, se vi
+realmente o monumento, o quadro ou a estatua. A
+imagina&ccedil;&atilde;o, tomada
+at&eacute; no sentido restricto que lhe damos aqui, varia muito
+d'uma pessoa para outra, quer em intensidade, quer em qualidade. Por um
+lado, certas pessoas teem as imagens, as
+representa&ccedil;&otilde;es muito mais
+enfraquecidas, mais vivas, mais concretas; em uma palavra, as suas
+imagens approximam-se muito da sensa&ccedil;&atilde;o; outras,
+pelo contrario, s&atilde;o
+inclinadas para as id&eacute;as abstractas e teem necessidade d'um
+esfor&ccedil;o para se
+representarem as sensa&ccedil;&otilde;es d'uma maneira um pouco
+nitidas. Tem-se
+reparado que a vis&atilde;o mental, nitidissima em geral nas
+crean&ccedil;as e nas mulheres,
+torna-se muito fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas
+sobretudo de ideias abstractas, ou habituadas a n&atilde;o exercer
+a sua
+imagina&ccedil;&atilde;o visual. Eis uma pequena experiencia
+indicada por Wundt, que, mostrando as analogias entre a imagem e a
+sensa&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[XVI]</span>
+parece
+p&ocirc;r em relevo tambem as differen&ccedil;as individuaes
+com rela&ccedil;&atilde;o
+&aacute; intensidade com que a imagem concreta &eacute;
+percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por
+algum tempo n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma
+superficie parda, vemos uma mancha corada da c&ocirc;r complementar
+da primeira. Se o
+objecto era vermelho, a mancha ser&aacute; verde, e reciprocamente;
+se o
+objecto azul indigo, a mancha ser&aacute; amarella, etc. Ora
+&eacute;
+possivel, mas isto n&atilde;o succede a toda a gente, perceber esta
+c&ocirc;r complementar
+n&atilde;o s&oacute; depois de ter fixado um objecto corado,
+mas simplesmente depois de o ter imaginado. P&oacute;de-se, por
+exemplo, pensar n'uma cruz vermelha:
+lan&ccedil;ando em seguida os olhos para um papel pardo, deve-se
+ver uma cruz verde, se ha
+uma boa imagina&ccedil;&atilde;o visual.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Essa imagina&ccedil;&atilde;o parece tel-a o sr.
+Trindade Coelho. A vivacidade, tonificada qui&ccedil;&aacute;
+por um poucochinho de nostalgia,
+do seu descriptivo, que nos d&aacute; conjunctamente a
+impress&atilde;o da forma,
+da c&ocirc;r, do som, e at&eacute; &aacute;s vezes do
+aroma, representa um phenomeno especial de
+evoca&ccedil;&atilde;o sensacional. E o maior encanto da sua
+obra &eacute; esse, e, depois
+d'esse, a intima satisfa&ccedil;&atilde;o que faz aflorar, aos
+labios do
+leitor inteligente, um sorriso de doce commo&ccedil;&atilde;o,
+a cada singelo episodio
+das suas narrativas, todas frescas e sadias, e cujo menor merito
+n&atilde;o
+&eacute;, decerto, o de serem escriptas n'uma linguagem airosa e
+despreoccupada, mas tersa e legitimamente portugueza. <br />
+
+<br />
+
+O livro do sr. Trindade Coelho n&atilde;o &eacute; para ser
+sujeito a longas analyses introspectivas, o papel da critica perante
+<em>Os meus amores</em>
+&eacute; bem facil, porque ella deve quasi cingir-se &aacute;
+affirma&ccedil;&atilde;o do seu applauso incondicional, ou ao
+registo da repuls&atilde;o do processo do
+escriptor, o que p&oacute;de muito bem representar uma livre
+deprava&ccedil;&atilde;o de gosto. <br />
+
+<br />
+
+Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel
+recorda&ccedil;&atilde;o, para a oxygenada, a leitura d'essas
+bellas novellas rusticas, todas impregnadas d'uma ideal
+gra&ccedil;a campesina,
+tilintando d'um ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre
+mansamente por entre margens baixas, bordadas de s&eacute;cias e
+papoilas: e, para a
+minha sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o
+livro e o caso do <em>Sult&atilde;o</em>.&#8213;<em>Armando
+da Silva</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Tim Tim Por Tim Tim</span>:&#8213;&laquo;Um
+grande poder
+d'observa&ccedil;&atilde;o e uma enorme justeza
+d'express&atilde;o, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes
+qualidades litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma
+de verdadeiro artista, aberta &aacute; comprehens&atilde;o
+ampla
+da natureza, e fundindo os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um
+conjuncto nitido que se desata em descrip&ccedil;&otilde;es
+opulentas de vida e de
+calor, fulgurantes d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o
+melhor crystal de Veneza n&atilde;o teria reflectido t&atilde;o
+bem, avigoradas
+em onomatopeias possantes que prendem o espirito mais inculto e o
+obrigam, alli, a
+fixar e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar. <br />
+
+<br />
+
+E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que
+<span class="pagenum">[XVII]</span>
+comp&otilde;em <em>Os meus amores</em>,
+real&ccedil;adas ainda pela
+fina emotividade que o delicado sentir do auctor transmittiu a cada
+scena onde o
+cora&ccedil;&atilde;o tem parte, ou seja o
+cora&ccedil;&atilde;o de qualquer d'aquelles
+dois pequenos do <em>Idylio rustico</em>, ou o da <em>Russa</em>,
+a bella cabra que
+no meio de mil angustias
+de m&atilde;e morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a
+elle proprio, a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta,
+viva e sentida,
+vejam o affecto que irradia d'aquelle <em>Para a escola</em>,
+quando falla da
+velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras. <br />
+
+<br />
+
+Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das
+descrip&ccedil;&otilde;es naturaes, que mais o apaixonam,
+Trindade Coelho desce a brincar um peda&ccedil;o caricaturando uns
+typos com tanta sobriedade de
+<em>charge</em> que mais nos parece estar fazendo retratos,
+saem-nos
+ent&atilde;o
+figur&otilde;es como os da villoria da <em>Comedia na
+provincia</em>, que
+entreteem a tarde na
+pra&ccedil;a a dizer mal uns dos outros. T&atilde;o verdadeiro
+nos <em>croquis</em> como
+nos habitos. E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes,
+aquella <em>Vespera da festa</em> exemplifica
+vantajosamente o que elle sabe
+fazer. <br />
+
+<br />
+
+No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das <em>Batalhas
+domesticas</em>, onde me pareceu descobrir uma novissima
+orienta&ccedil;&atilde;o do auctor, inspirada porventura n'uma
+atmosphera densa
+d'innova&ccedil;&otilde;es que vae por ahi. Claro que o seu
+talento adapta-se mais essa f&oacute;rma
+com a malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
+caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
+escriptos, n&atilde;o a sacrificaria a coisa alguma. <br />
+
+<br />
+
+O que o livro &eacute;, em summa, &eacute; um conjuncto de
+bellezas que tem sido largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e
+oxal&aacute; seja
+apenas a promessa de muitos outros, que pennas como aquella
+n&atilde;o devem
+calotear-nos na contribui&ccedil;&atilde;o que nos devem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas,&#8213;perguntou-me um dia d'estes alguem&#8213;porque <em>Os meus
+amores</em>, e
+n&atilde;o qualquer outro titulo? <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho
+esse nome ao livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe
+s&atilde;o
+saudosos e em que lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de
+rapaz que nenhuma lama d'este mundo &eacute; capaz de
+conspurcar.&#8213;<em>Santos
+Gon&ccedil;alves</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Revolu&ccedil;&atilde;o de
+Setembro</span>:&#8213;&laquo;<em>Os meus
+amores</em>, contos e balladas por Trindade Coelho.&#8213;Um livro
+peregrino,
+que se l&ecirc; com encanto e
+que nunca mais se esquece. &Eacute; um talento e &eacute; um
+artista quem
+escreve assim. Uns contos singelos, attrahentes, delicadissimos,
+admiraveis de
+observa&ccedil;&atilde;o e de honesto realismo. Esbocetos
+apenas; mas que admiravel simplicidade
+de colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade! <br />
+
+<br />
+
+Uma bella obra d'arte e uma altiva li&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Alli est&aacute; como se p&oacute;de chegar ao naturalismo na
+litteratura, sem estropear a lingua e sem chegar &aacute;s torpezas
+da pornographia.
+Para attrahir, para ser original, para imp&ocirc;r a supremacia do
+seu
+talento, para conquistar o applauso sincero dos que l&ecirc;em,
+Trindade
+Coelho n&atilde;o precisou de escrever
+<span class="pagenum">[XVIII]</span>
+extravagancias, nem de
+escalavrar pustulas, nem de
+escancarar bordeis. <br />
+
+<br />
+
+Ah&iacute; fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar
+d'elle, se o tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao
+seu
+auctor.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Correio Elvense</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Com
+poucos dias
+d'intervallo as lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de
+livraria. <br />
+
+<br />
+
+Depois de apreciar o <em>Bar&atilde;o de Lavos</em>,
+obra de analyse, de
+profunda observa&ccedil;&atilde;o, resentida do exaggero do
+naturalismo
+e do caracter quasi scientifico que actualmente se pretende imprimir
+aos livros, que devem ser exclusivamente litterarios, mas que,
+n&atilde;o obstante este
+pequeno sen&atilde;o, confirmou plenamente todas as
+esperan&ccedil;as
+que o nome de Abel Botelho cre&aacute;ra com os seus livros
+anteriores, a critica tem
+de render respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo
+como aquelle
+e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu
+espirito, pela sua notavel orienta&ccedil;&atilde;o litteraria
+e pelo
+esplendor de f&oacute;rma que caracteriza todos os seus escriptos,
+mesmo os mais despreoccupadamente feitos. <br />
+
+<br />
+
+Sinto um delicioso prazer de consciencia ao tra&ccedil;ar estas
+linhas. Momentos como este s&atilde;o mesmo os unicos oasis em que
+se
+reconfortam os que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na
+faina improductiva e ingloria do jornal. <br />
+
+<br />
+
+Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem
+intimas rela&ccedil;&otilde;es de confraternidade e sympathia e
+ao ter de formular o meu juizo conhe&ccedil;o que posso manifestar
+o mais incondicional
+louvor e applauso sem que se suspeite que as minhas palavras
+s&atilde;o
+reflexo d'um sentimento pessoal, mas sim a express&atilde;o exacta
+e verdadeira
+d'uma admira&ccedil;&atilde;o justamente sentida, solidamente
+baseada. <br />
+
+<br />
+
+O livro a que me refiro intitula-se: <em>Os meus amores</em>.
+E em tudo
+corresponde ao encanto d'este titulo. <br />
+
+<br />
+
+Com que saudade li as ultimas paginas! <br />
+
+<br />
+
+Por vezes desejava espa&ccedil;ar essa leitura para demorar o
+delicado prazer que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar
+a naturalidade das descrip&ccedil;&otilde;es, a limpidez e o
+crystallino do
+estylo emocionante e simples, t&atilde;o delicado e ao mesmo tempo
+t&atilde;o
+poderoso que d&aacute; vida aos mais diversos sentimentos desde o
+pavor do remorso do assassino
+Jos&eacute; Gaio, at&eacute; &aacute;
+recorda&ccedil;&atilde;o saudosa e
+terna que o auctor sente do primeiro dia em que entrou na aula
+d'instru&ccedil;&atilde;o primaria da sua
+modesta aldeia. <br />
+
+<br />
+
+Dando a impress&atilde;o singela e despretenciosa que me cansaram
+<em>Os meus amores</em>, n&atilde;o vou referir-me
+demorada e
+especialmente a cada
+um dos pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente
+consolador. Na epoca actual quando os vicios da sociedade e a
+decadencia dos nossos dias nos gravam no espirito, a cada hora, um
+carimbo de desanimo e descren&ccedil;a, quando a litteratura,
+obedecendo &aacute;
+vertigem mais do que nervosa,
+<span class="pagenum">[XIX]</span>
+allucinada, que caracterisa o <em>fin de
+si&egrave;cle</em>, cria
+as escolas mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as
+ideias, em apedrejar as normas mais impeccaveis e at&eacute; agora
+consagradas
+da arte, e em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas
+mais escuras
+e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo,
+desannuvia-se o espirito ao v&ecirc;r que ainda ha alguem, a quem
+sobeja talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa
+s&atilde;,
+eminentemente sentida, deliciando-se na
+descrip&ccedil;&atilde;o das scenas
+mais simples e tocantes, na apotheose da natureza em toda a sua
+magnificencia e no
+conv&iacute;vio da vida campesina, t&atilde;o cheia de
+sinceridade e de encantos,
+t&atilde;o livre das conven&ccedil;&otilde;es e
+pretenciosidades que d&atilde;o
+um tom falso e mentido aos sentimentos da sociedade em que vivemos. <br />
+
+<br />
+
+Disse em cima que n&atilde;o me alongaria no esmiu&ccedil;ar de
+perfei&ccedil;&otilde;es de cada um dos contos e balladas que
+formam <em>Os meus amores</em>. N&atilde;o
+representa este proposito ideia de menos
+considera&ccedil;&atilde;o pelo livro
+ou por quem com tanto amor o escreveu. Ao contrario, sinto que
+n&atilde;o posso, a
+n&atilde;o transformar este artigo n'um hymno laudatorio,
+referir-me especialmente a cada um d'aquelles contos e balladas. Mais
+do que este motivo domina-me o de
+n&atilde;o poder alongar demasiadamente a
+aprecia&ccedil;&atilde;o que
+estou fazendo. <br />
+
+<br />
+
+Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro
+j&aacute; as haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas
+em differentes jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso
+estylista dos <em>Meus amores</em> pelos seus trabalhos
+jornalisticos,
+j&aacute; na
+bohemia coimbr&atilde;, j&aacute; em pequenas folhas de
+provincia e ultimamente nos jornaes
+da capital, trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a
+correc&ccedil;&atilde;o que nunca abandonam os verdadeiros
+artistas. <br />
+
+<br />
+
+Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que form&aacute;ra a
+opini&atilde;o de que elle se podia alistar sem desdouro ao lado do
+Conde de Ficalho, de Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no
+meu parecer,
+s&atilde;o, em Portugal, os mais distinctos escriptores
+contemporaneos d'este genero, na apparencia t&atilde;o ligeiro, mas
+no fundo t&atilde;o
+complexo e difficil, a que se denomina: <em>Contos</em>. <br />
+
+<br />
+
+A leitura do recente livro enraizou-me mais a opini&atilde;o
+formada. <br />
+
+<br />
+
+Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos <em>typos</em>,
+pela
+naturalidade do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria
+sem o minimo esfor&ccedil;o a todas as impress&otilde;es que
+pretende
+transmittir, o auctor dos <em>Meus amores</em> prova que
+n&atilde;o
+desconhece nenhum dos segredos
+do genero de litteratura que t&atilde;o brilhantemente cultiva, e
+que
+n&atilde;o &eacute; inspirada na amizade a opini&atilde;o
+dos que, n&atilde;o obstante elle
+ter&ccedil;ar agora quasi as primeiras armas, o consideram
+j&aacute; como um escriptor
+distinctissimo e n'um futuro muito proximo um mestre consagrado. <br />
+
+<br />
+
+O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim
+desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado
+&aacute;s bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com
+uma riqueza oriental. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XX]</span>
+N&atilde;o obstante o meu proposito de n&atilde;o me referir
+nomeadamente a nenhum dos pequenos quadros, n&atilde;o posso deixar
+de dizer rapidamente da
+impress&atilde;o que me causou a <em>Ultima dadiva</em>,
+um primor de
+sentimento, uma pagina
+emotiva arrancada em flagrante a uma das scenas em que t&atilde;o
+variadamente se divide a tragedia em que se debate a humanidade; o
+<em>Vae victoribus</em>, onde passa um folego de epopeia,
+em que o estylo
+attinge alturas quasi desconhecidas, casando se com uma verdade
+admiravel a grandiosa ideia
+em que se inspira o conto; <em>Para a escola</em>, quadro
+delicioso a cuja
+leitura cada um de nos sente accordar uma
+recorda&ccedil;&atilde;o
+muito querida de infancia descuidada e alegre, e por ultimo: os
+<em>Arrulhos</em>, em que Trindade
+Coelho ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo
+t&atilde;o
+malleavel e t&atilde;o justo. <br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'estes contos, que especialmente destaco pela
+admira&ccedil;&atilde;o que me inspiraram, s&atilde;o
+modelos de humorismo e de verdade os dois
+<em>Preludios de festa</em> e <em>Typos da terra</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem escreveu os <em>Preludios de festa</em> e
+especialmente os <em>Typos da
+terra</em>, &eacute; porque estudou com muita
+atten&ccedil;&atilde;o, com muito cuidado, os personagens que
+mais avultam na vida das nossas aldeias e terras pequenas.
+S&atilde;o typos tirados do natural, com uma
+perfei&ccedil;&atilde;o photographica em que Trindade Coelho
+denota o mesmo rigor de
+execu&ccedil;&atilde;o que demonstra na
+descrip&ccedil;&atilde;o da natureza nos seus mais variados
+aspectos. <br />
+
+<br />
+
+Por ultimo, e para n&atilde;o se dizer que eu n'este paiz de
+m&aacute; lingua realisei o cumulo de escrever um artigo
+s&oacute; de palavras encomiasticas
+e sem a minima censura ou reparo, devo dizer que n&atilde;o gostei
+do
+<em>Sult&atilde;o</em>, lastimando que
+Trindade Coelho gastasse tantas
+paginas d'um estylo formosissimo n'um assumpto que sem duvida
+&eacute; verdadeiro, mas
+que n&atilde;o commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim
+o julgamos, a
+minima impress&atilde;o duradoura. Para Trindade Coelho manifestar
+todos
+os seus recursos d'estylista, n&atilde;o precisava realmente do
+<em>Sult&atilde;o</em>. <br />
+
+<br />
+
+O livro faz parte da edi&ccedil;&atilde;o mensal d'obras
+portuguezas, editada por Antonio Maria Pereira, um trabalhador
+incansavel a quem as lettras portuguezas devem assignalados
+servi&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado
+e esmero a que nem sempre estamos habituados. <br />
+
+<br />
+
+Terminando estas linhas t&atilde;o despretensiosas como sinceras,
+fazemos votos para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas
+horas
+&aacute; semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros,
+t&atilde;o
+perfeitos como este, para honra do seu nome de escriptor j&aacute;
+t&atilde;o justamente laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do
+seu livro, archivando a dedicatoria que elle contem como nova prova
+d'uma amisade a que somos profundamente gratos, e devotadamente
+retribuidores.&#8213;<em>Louren&ccedil;o Cayola</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Tribuno Popular</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Recebemos
+o volume da
+<em>Collec&ccedil;&atilde;o Antonio Maria Pereira</em>,
+que sob
+aquelle titulo cont&eacute;m alguns
+contos do apreciado contista Trindade Coelho. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XXI]</span>
+Pela rapida leitura de dois d'elles&#8213;<em>O Sult&atilde;o</em>
+e <em>Typos da
+terra</em>, parece nos que a collec&ccedil;&atilde;o
+&eacute;
+estimavel, e que os contos s&atilde;o joias de grande
+pre&ccedil;o da nossa litteratura, pela linguagem pura
+genu&iacute;namente portugueza, e pela gra&ccedil;a da
+contextura originalissima,
+nacional, sem laivos d'imita&ccedil;&atilde;o estrangeira, em
+que se pintam
+scenas e episodios, cheios de verdade e de encantadoras
+descrip&ccedil;&otilde;es,
+da vida portugueza nas provincias.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">O Seculo</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>, por Trindade
+Coelho.&#8213;&Eacute; um livro de contos, editado pela casa editorial
+do Antonio Maria Pereira, a publica&ccedil;&atilde;o recente
+que mais tem emocionado, com
+justo motivo, o nosso meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no
+fundo, sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de
+n&atilde;o
+ser rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem&#8213;diga-se a
+verdade. <br />
+
+<br />
+
+Parece uma contradic&ccedil;&atilde;o; mas n&atilde;o
+&eacute;. Se o nosso bom publico fosse dado a esbanjamentos de
+emo&ccedil;&atilde;o artistica, n&atilde;o
+o sobresaltaria tanto a pessoalidade, e o imprevisto. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado
+severo, a profiss&atilde;o, ou antes o desenfastio espiritual de
+ser homem de lettras, nas suas horas de remanso. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; s&oacute;, por&eacute;m, como homem de lettras,
+que nos compete em tal logar aquilatar-lhe a esth&eacute;sia, e as
+faculdades de
+emo&ccedil;&atilde;o, ou de atten&ccedil;&atilde;o
+artistica. <br />
+
+<br />
+
+Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A
+f&oacute;rma adapta-se perfeitamento ao fundo, e &eacute;
+sempre fluente,
+vernacula, concisa, e precisa. &Eacute; s&oacute;brio no
+descriptivo, e
+n&atilde;o raras vezes enternece. N&atilde;o commette a
+velharia de desenterrar obsoletos
+termos classicos, sem incis&atilde;o, sem propriedade, e sem
+c&ocirc;r, muito parecidos com o latim, mas que no fundo
+n&atilde;o s&atilde;o nem latinos,
+nem portuguezes, nem onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto.
+Nem perpetra tambem
+o mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na
+linguagem patria instrumentos magnificos d'express&atilde;o. Sabe a
+sua lingua, como raros: e o conto, que &eacute;, quanto a
+n&oacute;s, a
+forma mais perfeita, mais completa, e mais delicada da prosa, e tambem
+a mais transcendente e lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado
+interpetre. Os contos <em>Sult&atilde;o</em>,
+<em>Maricas</em>, <em>Typos da terra</em>,
+<em>M&atilde;e</em> e
+sobretudo <em>Para a escola</em>, n&atilde;o contam
+muitos rivaes na
+lingua portugueza nem
+nas estranhas. <br />
+
+<br />
+
+O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de
+centenas de romances em seiscentos volumes j&aacute; ninguem
+rememorar o titulo sequer.&#8213;<em>Gomes Leal</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Revista Illustrada</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>, de
+Trindade
+Coelho.&#8213;Que deliciosa impress&atilde;o me deixou aquelle livro,
+t&atilde;o
+adoravelmente simples e sentido! <br />
+
+<br />
+
+Antes, por&eacute;m, de come&ccedil;ar a analysar, conto por
+conto, esse fino trabalho
+<span class="pagenum">[XXII]</span>
+de Trindade Coelho, preciso dizer duas
+palavras explicando a
+raz&atilde;o porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de
+nome
+conhe&ccedil;o s&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre,
+notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito,
+distincto em todos os exames. <br />
+
+<br />
+
+Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de
+que&#8213;o delegado de Portalegre&#8213;era um excellente rapaz. <br />
+
+<br />
+
+E digo rapaz, porque todos n&oacute;s temos o habito de considerar
+sempre muito novos aquelles que s&atilde;o da nossa edade...
+Depois,
+gra&ccedil;as a uma amiga minha, escriptora de grande talento soube
+que Trindade Coalho era um grande admirador de Loti&#8213;o meu preferido
+romancista!&#8213;admira&ccedil;&atilde;o enthsiasta que elle
+descrevia em cartas deliciosas de uma
+vibra&ccedil;&atilde;o que fazia pena n&atilde;o ser
+repercutida mais longe... Fazia pena ser
+indiscri&ccedil;&atilde;o publical-as! <br />
+
+<br />
+
+Traduzia elle ent&atilde;o o &laquo;Pescador de
+Islandia&raquo;; tradu&ccedil;&atilde;o esplendida que a
+<em>Gazeta de Portalegre</em> publicou e que o trazia <em>empoign&eacute;</em>.
+Para elle era j&aacute; uma suggest&atilde;o, aquelle trabalho
+primoroso. <br />
+
+<br />
+
+E desde ent&atilde;o, Trindade Coelho ficou sendo para mim um
+artista. Dava a Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente
+alguem se comprazia em querer negar ao academico gentil. <br />
+
+<br />
+
+Em seguida li uma suavissima elegia escripta &aacute; memoria de
+Antonio Foga&ccedil;a&#8213;uma flor ceifada ao desabrochar!&#8213;Eram meia
+duzia de
+palavras cortadas por solu&ccedil;os:&#8213;eu sei, infelizmente, quando
+se
+escreve assim!... <br />
+
+<br />
+
+Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os
+jornaes annunciaram que elle arranc&aacute;ra um preso &aacute;
+cadeia de Portalegre. Um preso que era um innocente, e que, como tantos
+outros, estava condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da
+justi&ccedil;a...
+Publicavam tambem o effusivo telegramma em que Trindade Coelho
+agradecia ao nosso magnanimo rei o seu perd&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem
+p&otilde;e a lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu
+cora&ccedil;&atilde;o ao servi&ccedil;o da humanidade que
+soffre... <br />
+
+<br />
+
+O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se ent&atilde;o indelevelmente
+na minha alma. <br />
+
+<br />
+
+Eu s&oacute; fixo o nome dos bons. <br />
+
+<br />
+
+E pensei em que devia ser uma grande mulher a m&atilde;e d'aquelle
+homem! Os filhos herdam, geralmente, o cora&ccedil;&atilde;o
+das
+m&atilde;es... <br />
+
+<br />
+
+<div class="dots">
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de l&ecirc;r.
+Pedi-o rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego. <br />
+
+<br />
+
+Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz
+Osorio&#8213;uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos
+filigranados e vibrantes... <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XXIII]</span>
+Segue se o <em>Idylio rustico</em>&#8213;um amor&#8213;atravez do
+qual n&oacute;s
+v&ecirc;mos subir lentamente a estrella d'alva que illuminava,
+coando a sua
+d&ocirc;ce luz pelo colmo da cabana, duas cabecinhas gentis,
+adormecidas junto uma da outra... <br />
+
+<br />
+
+Depois o <em>Sult&atilde;o</em> um
+conto singel&iacute;ssimo cheio de
+naturalidade, em que o Thom&eacute; nos communica a sua alegria
+contagiosa levada
+&aacute; loucura com a volta do... amigo&#8213;bem mais fiel do que
+muitos outros! <br />
+
+<br />
+
+A <em>Ultima dadiva</em>, um bra&ccedil;ado de goivos
+atirados por
+&laquo;um simples&raquo; a uma sepultura onde lhe
+fic&aacute;ra preso o
+cora&ccedil;&atilde;o para sahir de l&aacute; no dia em que
+teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o
+Brazil. <br />
+
+<br />
+
+A <em>Comedia da provincia</em>, magnifica de
+c&ocirc;r local.
+Magn&iacute;fica, principalmente para quem conhece typos
+semelhantes e j&aacute; tem
+visto a <em>Morgadinha de Valfl&ocirc;r</em>&#8213;essa
+perola!&#8213;representada
+pelo
+Marques do correio... vestido de saias! Para quem d&aacute; todo o
+val&ocirc;r a esse esplendido estudo de costumes provincianos. <br />
+
+<br />
+
+<em>Vae victoribus</em>, uma sugest&atilde;o de remorso
+primorosamente
+tra&ccedil;ada... <em>Maricas</em>, uma adoravel
+poesia escripta em prosa.
+<em>Para a escola</em>, um beijo de gratid&atilde;o de
+uma singelesa
+adoravel. <em>Tragedia
+rustica</em>, um vibrantissimo estudo das miserias humanas. <br />
+
+<br />
+
+<em>Abyssus abyssum</em>, o agonisar de dois anjos, sob o
+olhar de uma
+estrella... <em>M&atilde;e</em>, a fl&ocirc;r mais
+linda do ramo,
+enlevo e agonia de todas as m&atilde;es que eram capazes de morrer
+assim&#8213;sem abandonarem os
+filhos... E, finalmente, as <em>Batalhas domesticas</em>. <br />
+
+<br />
+
+Repito, deixou-me uma impress&atilde;o deliciosa o livro de
+Trindade Coelho, que &eacute;, a par de um primor de delicadeza,
+sentimento e arte,
+um livro honesto, que n&atilde;o fatiga os homens nem faz
+c&oacute;rar
+as mulheres. Por isso aconselho a todos que o leiam.&#8213;<em>Margarida
+de
+Sequeira</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Portugal:&#8213;&laquo;<em>Livros Novos</em>.&#8213;A acolhida
+feita ao
+notabil&iacute;sissimo livro <em>Os meus amores</em>,
+do nosso querido
+amigo e illustre confrade, Trindade Coelho, tem sido a que em tempo lhe
+vaticin&aacute;mos: em toda a
+linha o mais legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais
+carinhoso
+triumpho. <br />
+
+<br />
+
+Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no
+trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos
+que na ca&ccedil;a de sensa&ccedil;&otilde;es e effeitos
+novos hoje pavorosamente desarticulam o <em>meio</em>
+litterario europeu, tem
+uma for&ccedil;a de
+restringir-se a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e
+tranquilla, a melodia emocionante, ingenua e simples do viver
+alde&atilde;o; e
+que por entre o estridulo <em>hallali</em> de
+obscenidades,
+impreca&ccedil;&otilde;es, blasphemias, d&ocirc;res,
+gemidos, que doloridamente reb&ocirc;am pelas soturnas naves d'este
+immenso hospital, que &eacute; o mundo, ainda encontra a suprema
+arte de
+fazer escutar, enternecedoramente, um doce <em>trillo</em>
+sentimental, uma ou
+outra ligeira nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do
+cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XXIV]</span>
+Bem haja. <br />
+
+<br />
+
+Do c&ocirc;ro unisono de quasi incondicional applauso com que a
+imprensa tem celebrado a appari&ccedil;&atilde;o d'<em>Os
+meus
+amores</em>
+transcrevemos hoje um magnifico artigo do <em>Correio Elvense</em>,
+devido
+&agrave; penna d'um dos mais
+lucidos e impetuosos engenhos da novissima
+gera&ccedil;&atilde;o.&raquo; (<em>Seguia-se a
+transcrip&ccedil;&atilde;o</em>.) <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Diario Illustrado</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>,
+contos e balladas, por
+Trindade Coelho.&#8213;A forja do tempo caldeia-nos o espirito &aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o que envelhecemos. &Eacute; por isso
+que os rapazes se desdoiram
+&aacute;s vezes de ouvir os velhos, e parece-me que teem
+raz&atilde;o, porque nem sempre o
+s&atilde;o juizo de uma experiencia larga, sabe limar as arestas da
+caturrice no estudo circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando
+e um pouco a rir com
+singular scepticismo, este meu seculo, que est&aacute; no fim, e
+com elle tenho vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias
+litterarias, revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de
+estylo, arrancou-se o chir&oacute; &aacute;s velhas phrases, e
+todo um
+mundo novo, extravagante e phantastico tem surgido,&#8213;mau grado as
+furias
+rab&iacute;das de escriptores paleontologicos, apparafusados
+&aacute; Arte e
+&aacute; Critica de ha 50 annos e cheios de amor e melancolia...
+Ora essa aprendizagem do meu seculo tem-me custado amarguras
+aterrantes, desequilibrios de espirito
+e um desfolhar de verdes illus&otilde;es, que eu tenho visto
+irem-me
+fugindo n'um <em>marche-marche</em> triumphal, para nunca
+mais voltarem,&#8213;ai!
+para nunca mais voltarem!... <br />
+
+<br />
+
+A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica,
+d&aacute;-me a impress&atilde;o tenebrosa dos contos de Poe,
+postos
+palpitantemente na vida real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo
+ao peda&ccedil;o de
+chumbo de uma capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas;
+Julio
+Machado, de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem
+amado do filho,&#8213;a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos
+outros, bom Deus! Dir-se-hia que uma <em>m&aacute; sina</em>
+persegue os
+homens de
+lettras:&#8213;quando n&atilde;o &eacute; a navalha de barba,
+&eacute; o rewolver, &eacute; a
+consump&ccedil;&atilde;o, &eacute; a tisica, &eacute; o
+retrahimento amargo, &eacute;
+o abandono proprio e alheio! Por isso o meu visinho Gervasio todo se
+ufana, com certo profundo bom senso
+pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um <em>artista</em>
+pintor&#8213;de portas, e de f&oacute;ra de portas... <br />
+
+<br />
+
+Na <em>troupe</em> de escriptores em fl&ocirc;r do meu
+tempo,&#8213;parece-me
+que j&aacute; l&aacute; v&atilde;o 30 annos, e tudo isto
+&eacute; apenas de
+hontem!&#8213;havia, joeirados com singular amor de arte pura, uma duzia de
+rapazes de incontestavel valor
+litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e
+revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,
+miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de
+rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam
+triumphantes,&#8213;poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da
+vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que &eacute; quasi
+o mesmo, deram-se a callejar as m&atilde;os, dissolvendo as suas
+aptid&otilde;es de plumitivos incipientes, nas minas
+<span class="pagenum">[XXV]</span>
+de oiro e de
+ferro da lucta pela vida. Dos <em>felizes</em>, dos que
+triumpharam,&#8213;como
+quem diz, dos vencidos da vida,&#8213;me sorria eu &aacute;s vezes em
+horas de bom humor,
+lembrando-me como elles com um livro de versos foram nomeados consules;
+com um tratado sobre a cultura do repolho abriram o <em>Banco
+Mineral do
+Douro</em>, por ac&ccedil;&otilde;es; com um drama em <em>D.
+Maria</em>
+foram eleitos
+deputados; ou como com uma critica do <em>Salon</em> de S.
+Francisco, se
+guindaram a bibliothecarios das bellas artes e hortali&ccedil;as
+correlativas... Dos outros,
+dos <em>perdidos</em> pouco me lembra! Eduardo Salamonde
+foi-se a espantar os
+philisteus do Par&aacute;, applicando-lhes aos figados
+hypertrophicos a vermelha
+caudal da sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em
+Paris pelo al&ccedil;ap&atilde;o macabro da <em>correspondencia</em>
+barata;
+Gualdino Gomes anda ahi amparando o seu rheumatismo a uma certa
+<em>maneira</em> de m&aacute;
+lingua e a uma bengala de canna; Leopoldino Gon&ccedil;alves viaja
+como medico da
+armada; e Fortunato, quando as saudades lhe s&atilde;o mais
+amargas, abandona
+o Alemtejo, onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e
+apparece
+&aacute;s vezes nedio, c&ocirc;r de fiambre, cheio de barbas, a
+olhar com tedio os
+copinhos de cognac do <em>Le&atilde;o</em>... <br />
+
+<br />
+
+De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias c&ocirc;r de rosa,
+o que me traz mais doces recorda&ccedil;&otilde;es &eacute;
+Trindade
+Coelho,&#8213;porque eu ligara &aacute; minha a alma d'elle, n'um tempo
+em que dos salgueiraes de Coimbra elle me fazia para uma folha alegre
+de que eu era director, umas chronicas soberbas, vivas, rendilhadas,
+cheias de colorido e de
+affirma&ccedil;&otilde;es de uma personalidade litteraria. A
+sua prosa, a um tempo humana e lyrica, dava-me a impress&atilde;o
+de um romantismo degenerado... De
+Coimbra, como sabem, al&eacute;m de bachareis anonymos, tem-nos
+vindo a <em>elite</em>
+das letras. &Eacute; da tradi&ccedil;&atilde;o
+universitaria, fazerem os doutores as
+suas primeiras armas de litteratos e de poetas, na academia, a
+intervallos do pesado estudo do Lob&atilde;o e do direito publico,
+esvurmado &aacute;s
+cavalleiras do nariz de Pedro Penedo... Toda a nossa legi&atilde;o
+distinctissima de poetas
+e prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia
+coimbr&atilde;:&#8213;Theophilo, E&ccedil;a, Junqueiro,
+Jo&atilde;o de Deus, Anthero, etc. &Eacute; a
+affirma&ccedil;&atilde;o do bom Antonio Ferreira feita axioma: <br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>N&atilde;o
+fazem mal as
+musas aos doutoures</em>. <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+E n&atilde;o fazem. Tem-se visto. V&atilde;o l&aacute;
+inquerir a Junqueiro das bellezas do Codigo Civil, meio
+metaphysicamente original e meio copiado dos codigos
+de Napole&atilde;o! Ah, mas em compensa&ccedil;&atilde;o
+que appare&ccedil;a ahi o primeiro advogado a escrever a <em>Morte
+de
+D. Jo&atilde;o</em> e a <em>Musa em ferias</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Os cantos de Trindade Coelho s&atilde;o narrativas ligeiras,
+descrip&ccedil;&otilde;es n'uma bella prosa colorida e
+transparente, trechos de psychologia
+trasmontana, e um ou outro caso humano superiormente observado.
+Sobretudo a
+<em>maneira</em> do proceder litterario d'este escriptor
+&eacute;
+deliciosa de
+c&ocirc;r
+<span class="pagenum">[XXVI]</span>
+e de verdade, sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem
+deslumbramentos de imagens
+na apparencia c&ocirc;r de oiro, que, em regra, n&atilde;o
+fascinam sen&atilde;o os saloios ingenuos dos cord&otilde;es de
+lat&atilde;o... Tem-se chegado
+ahi, no abuso da originalidade do estylo, a fazer uma prosa
+estrelicada, engommada, cabellinho &aacute; banda, com risca, como
+os caixeiros de modas ao
+domingo! O burguez j&aacute; conhece os processos da <em>chinoiserie</em>,
+e d'ahi
+n&atilde;o ha espantal-o com nephelibatismos doentios, de
+importa&ccedil;&atilde;o barata; bem sabe elle que debaixo
+d'essas bellezas est&aacute; a oleographia reles
+de porta de escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do
+frade que enxota
+a mosca do nariz,&#8213;muito de apreciar nos covis da municipal em
+Alcantara... <br />
+
+<br />
+
+O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho,
+feito com honestidade e sem as preoccupa&ccedil;&otilde;es
+deploraveis que levam os corypheus da escola modernissima, mais que
+zolaista, &aacute;
+descrip&ccedil;&atilde;o e estudo de pathologias e casos
+sporadicos, ou n&atilde;o vivos, ou
+pouco v&iacute;vidos. Este livro &aacute; quasi um parenthesis
+aberto
+como uma clareira consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos
+trabalhos apparecidos, do <em>sujet</em> de um dos quaes,
+que &eacute; em
+todo o
+caso a monographia de um caracter, assombrosamente executada, o <em>Gil
+Blas</em> dizia,&#8213;<em>qu'on ne peut lui serrer la main que
+par
+derri&egrave;re</em>... <br />
+
+<br />
+
+A fei&ccedil;&atilde;o litteraria de Trindade Coelho parece-me
+que se define na parte do livro sub-titulada <em>Balladas</em>.
+Os <em>Arrulhos</em>,
+principalmente,
+s&atilde;o uma duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e
+Daudet. &Eacute;
+uma elegia... tragica, <em>encadr&eacute;e</em> n'uma
+linguagem
+c&ocirc;r
+de opala, em que a gente parece estar vendo Hoffman bra&ccedil;o
+dado a...
+Jo&atilde;o de Deus! &Eacute; uma obra prima. Assim a <em>Tragedia
+rustica</em> e a <em>M&atilde;e</em>. Dos
+<em>contos</em> destaco eu os <em>Preludios de festa</em>,
+<em>Idylio
+rustico</em>,
+os
+<em>Typos da terra</em>, onde
+ha paginas soberbamente observadas, suggestivas, <em>d'apr&egrave;s
+nature</em>. Magnifico o assasino <em>Jos&eacute; Gaio</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Trindade Coelho &eacute; inquestionavelmente um lyrico. E nem eu
+sei como elle chegou at&eacute; aqui sem trazer na mala um volume
+de
+versos&#8213;<em>Florinhas de Luar</em>, por exemplo!
+Devemos-lhe o grande favor de
+n&atilde;o
+conhecer os diccionarios de rimas, sen&atilde;o a estas horas era
+uma vez um
+contista encantador... sossobrado!&#8213;<em>Ignacio da Silva</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Nova Alvorada</span>:&#8213;&laquo;<em>Meu
+caro Trindade Coelho</em>.&#8213;Sabe
+voc&ecirc;, amigo Trindade, que as palavras affectuosas que me
+endere&ccedil;ou no
+offerecimento do seu livro <em>Os meus amores</em>,
+vislumbraram no meu
+espirito um mundo de saudosas recorda&ccedil;&otilde;es, como
+se foram fugazes
+emana&ccedil;&otilde;es balsamicas d'uma quadra primaveril que
+n&atilde;o volta mais&#8213;a vida
+coimbr&atilde;? <br />
+
+<br />
+
+Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco
+baixa mas robusta, as <em>suas fei&ccedil;&otilde;es
+masculas e
+energicas</em>, e a sua <em>allure</em> um pouco
+receiosa ao dobrar a soleira da
+legendaria Porta Ferrea. <br />
+
+<br />
+
+Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de
+grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando &aacute;
+direita e &aacute; esquerda,
+<span class="pagenum">[XXVII]</span>
+entrou voc&ecirc; nos <em>Geraes</em>
+resignado a um diluvio de
+tro&ccedil;as, martyrios, horrores... <br />
+
+<br />
+
+Os segundannistas, de cuja respeitavel corpora&ccedil;&atilde;o
+eu fazia orgulhosamente parte, n&atilde;o o arreliaram logo, talvez
+porque
+lhe n&atilde;o encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a
+d'um Armelim, nem
+um rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom
+Raphael
+do Ranhados. <br />
+
+<br />
+
+Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados! <br />
+
+<br />
+
+Em uma medalha d'oiro que voc&ecirc; trazia, &aacute; guiza de
+berloque, na corrente! <br />
+
+<br />
+
+O amigo arrancou pressuroso a <em>pedra de escandalo</em>,
+de forma que a
+tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato. <br />
+
+<br />
+
+Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com
+accentua&ccedil;&otilde;es de academico fallado, o seu nome a
+salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua
+individualidade a destacar-se, como se f&ocirc;ra um <em>urso</em>.
+E
+assim se fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feij&oacute;
+por causa
+dos versos, do Passaro pela fina chala&ccedil;a, do Saraiva pela
+for&ccedil;a, do Miguel Baptista&#8213;pobre amigo!&#8213;pelo talento e
+pelas
+abstrac&ccedil;&otilde;es, do Banalidades pela gralhadora
+loquacidade, e tutti-quanti. <br />
+
+<br />
+
+Voc&ecirc; desencubou o seu nome, pol-o em evidencia&#8213;o Trindade&#8213;,
+mas foi por causa d'um excellente resumo das
+li&ccedil;&otilde;es de
+direito romano, d'um bello discurso no centenario pombalino, e
+sobretudo das suas graciosas chronicas no <em>Diario Illustrado</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Ah! e lembra-se voc&ecirc; d'aquelle anno em que
+form&aacute;mos &laquo;republica&raquo; na rua da Trindade,
+tendo por creada a sr.<sup>a</sup> Maria de qualquer coisa,
+que denominavamos a
+<em>Gorda</em>, matrona muito caroavel e de enxundiosas
+formas? <br />
+
+<br />
+
+Eramos uns poucos: <br />
+
+<br />
+
+O Souza, que j&aacute; tem o gal&atilde;o branco dos tribunaes
+administrativos, espirito facil, perspicaz e alegre, nada para
+massadas, que tinha orienta&ccedil;&otilde;es definidas em
+politica partidaria e
+expedientes reservados de galopim gra&uacute;do contra os
+progressistas da Barca. <br />
+
+<br />
+
+O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o
+evangelho do <em>Correio da Noite</em>, sempre em
+questiunculas com aquelle
+por causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e
+jogador
+de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente
+dos theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada
+pela <em>Gorda</em> n'um cantinho do fog&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe
+chamavamos o P&ecirc;gas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario
+plano, rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade?
+Muito desconfiado e estudioso, s&oacute; n&atilde;o encavacava
+quando
+lhe diziamos que elle se applicava... 25 horas por dia! <br />
+
+<br />
+
+Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto <em>sournois</em>,
+olhos
+&aacute; bufo,
+<span class="pagenum">[XXVIII]</span>
+que n&atilde;o fallava ainda que o esmurrassem,
+pobre caloiro
+silencioso e contumaz! <br />
+
+<br />
+
+Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje
+conservador algures, com cara de cera, esbo&ccedil;ada, sem
+fei&ccedil;&otilde;es lavradas, muito guitarrista e risonho, se
+bem que intelligente e applicado. <br />
+
+<br />
+
+Eramos mais&#8213;voc&ecirc; e eu. Voc&ecirc; que se mettia muito
+com a litteratura, fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...;
+e eu, que por
+signal dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas
+de feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo
+condescendia em o acompanhar na guitarra. <br />
+
+<br />
+
+Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais
+tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje est&aacute; nos tribanaes
+de Lisboa e eu no ber&ccedil;o da monarchia. <br />
+
+<br />
+
+Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus
+bellos contos em um elefante volume&#8213;<em>Os meus amores</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E bellos na verdade, como todos dizem. <br />
+
+<br />
+
+A <em>M&atilde;e</em>, aquella cruciante tragedia da
+pobre <em>Russa</em>,
+morta
+de terror e de amor, &eacute; para mim o mais apreciavel e sentido
+conto da sua
+collec&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Costuma-se dizer d'uma m&atilde;e descaroavel, d'uma Francisca
+Fortunata&#8213;&eacute; uma cabra!&#8213;; mas o amigo teve artes de
+desmentir o erro grosseiro,
+vingando as calumniadas affei&ccedil;&otilde;es dos pobres
+ruminantes. <br />
+
+<br />
+
+Quem ler as angustias da misera <em>Russa</em>, na
+espectactiva do filhito
+devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituir&aacute;
+&aacute;quelle inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a
+natural
+comprehens&atilde;o das suas obriga&ccedil;&otilde;es de
+m&atilde;e e
+protectora. <br />
+
+<br />
+
+E os <em>Arrulhos</em>? Se me n&atilde;o engano
+voc&ecirc; escreveu
+esse conto em Coimbra. Creio at&eacute; que um dia, estando a
+jantar, o amigo recebeu um
+jornal qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella
+produc&ccedil;&atilde;o vinha traduzida no idioma de Cervantes
+com o titulo de <em>Palomas</em>. <br />
+
+<br />
+
+Nos restantes contos, entre os quaes me n&atilde;o agradaram menos
+<em>Vae Victoribus</em>, o <em>Abyssus abyssum</em>
+e o <em>Sult&atilde;o</em>,
+revela
+o
+amigo a for&ccedil;a da sua educada phantasia, moderada por um
+largo peculio de
+observa&ccedil;&atilde;o; a sua poderosa
+intui&ccedil;&atilde;o artistica; o seu dialogo
+curto, vibrante e natural; o seu estylo j&aacute; caracteristico
+pela
+fei&ccedil;&atilde;o franca, <em>saccad&egrave;e</em>,
+de dizer e
+narrar; a propriedade das locu&ccedil;&otilde;es; o
+bom emprego dos termos; a verdade das suas
+descrip&ccedil;&otilde;es e pinturas, que,
+ao contrario de muitos, n&atilde;o repete, tinta para aqui, tinta
+para acol&aacute; e
+vice-versa, n'uma pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos
+virados ou coisa similhante. <br />
+
+<br />
+
+Olhe, amigo. Eu care&ccedil;o de geito para a critica litteraria;
+mas, emquanto me &eacute; licito exprimir a minha humilima
+opini&atilde;o,
+dir-lhe-hei que voc&ecirc; alarga cada vez mais e com mais rapidez
+a sua
+reputa&ccedil;&atilde;o de litterato distincto e de contista
+precioso; e que este conceito &eacute;
+merecido, attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua
+elegante brochura recem-editada. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XXIX]</span>
+Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a
+sua fineza com um abra&ccedil;o de&#8213;Velho amigo&#8213;<em>Eduardo
+Carvalho</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Nova Alvorada</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Acabamos
+de ser
+distinguidos com a offerenda do novo livro de Trindade Coelho,&#8213;o
+sympathico e distincto escriptor que de ha tempos se vae honrosamente
+evidenciando no certamen
+das lettras patrias, onde j&aacute; agora a sua individualidade tem
+uma reputa&ccedil;&atilde;o firmada. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> &eacute; o titulo que o sr.
+Trindade Coelho
+escolheu para o seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama,
+segundo cremos, n&atilde;o &eacute; porque estas 200 paginas
+sejam um
+auto-historiographico dos idylios romanescos do auctor, n'quella aurea
+quadra da sua vida academica, ou um repositorio de alheias aventuras
+amorosas com acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o. A raz&atilde;o do titulo parece-nos antes proceder
+da affectividade psychologica do auctor para com a sua obra, e
+induzimos isto do soneto com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja
+primeira quadra diz: <br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1"><em>Folhas dispersas dos meus
+annos de oiro,<br />
+
+Vivo enxame das minhas
+alvoradas,<br />
+
+Tenho zelos de v&oacute;s, folhas sagradas,<br />
+
+As
+Desdemonas sois de um outro moiro</em>. </div>
+
+<br />
+
+Se n&atilde;o fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade
+do aphorismo&#8213;o habito n&atilde;o faz o monge&#8213;, porque o <em>Idylio
+rustico</em>, com que abre esta bella
+collec&ccedil;&atilde;o de
+contos,
+n&atilde;o seria bastante para justificar o titulo sob que se
+enfeixam. <br />
+
+<br />
+
+Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e
+a tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se
+que se ha na urdidura dos varios contos muitas
+situa&ccedil;&otilde;es que nos pintam o ridiculo, a
+desgra&ccedil;a ou o crime, poucas ha, entretanto, que
+nos prendam o espirito ao devaneio pi&eacute;gas d'um Romeu e d'uma
+Julieta. <br />
+
+<br />
+
+Mas, ou bem ou mal baptisado, o que &eacute; consoladoramente
+verdadeiro &eacute; que os contos do sr. Trindade Coelho constituem
+uma das mais bellas collec&ccedil;&otilde;es que no genero
+conhecemos. <br />
+
+<br />
+
+Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores
+preceitos da arte. <br />
+
+<br />
+
+Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada &agrave;
+naturalidade das situa&ccedil;&otilde;es e dos dialogos. <br />
+
+<br />
+
+Uns assumptos de feliciss&iacute;ma escolha, a reproduzirem
+fielmente costumes, a p&ocirc;r em jogo com a maior verdade os
+vicios e as virtudes do
+povo. <br />
+
+<br />
+
+Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade
+Coelho s&atilde;o a fiel express&atilde;o da vida rustica do
+nosso povo, e facil &eacute; de comprehender a importancia moral
+que estes livros ter&atilde;o
+quando as gera&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[XXX]</span>
+que nos succedam queiram
+inventariar nas
+suas tradi&ccedil;&otilde;es o modo de viver, de sentir e de
+pensar das popula&ccedil;&otilde;es
+sertanejas, n'este periodo historico em que vamos. <br />
+
+<br />
+
+Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside
+como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma
+verdade inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a
+toda a prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na
+narra&ccedil;&atilde;o e nos personagens. <br />
+
+<br />
+
+E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de Fran&ccedil;ois
+Cop&eacute;e e Theodore de Bauville, a artistica
+encena&ccedil;&atilde;o que,
+sem desvirtuar-lhe a naturalidade da f&oacute;rma e do fundo, lhes
+imprime o attractivo
+romanesco que falla &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o do
+leitor. <br />
+
+<br />
+
+O <em>Idylio rustico</em>, com que o livro abre,
+&eacute; de uma suavidade
+deliciosa, e de uma naturalidade t&atilde;o justa quanto
+encantadora. <br />
+
+<br />
+
+A <em>Ultima dadiva</em> &eacute; a
+express&atilde;o fiel de muitas
+scenas que a emigra&ccedil;&atilde;o multiplica cruelmente
+pelas nossas provincias do norte. <br />
+
+<br />
+
+A ac&ccedil;&atilde;o d'este conto &eacute; conduzida com
+uma tal unc&ccedil;&atilde;o de sentimentalidade, que nenhum
+leitor, por mais rebelde que seja a
+commo&ccedil;&otilde;es, se poder&aacute; esquivar a
+partilhal-a. <br />
+
+<br />
+
+O conto&#8213;<em>Typos da terra</em> &eacute; a
+descrip&ccedil;&atilde;o fiel, fidelissima, da mesquinha
+intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de
+provincia. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os Preludios de festa</em> s&atilde;o de um comico
+admiravel;
+<em>Maricas</em> &eacute; de um sentimentalismo
+commovente; <em>Vae
+Victoribus</em> de uma moralidade edificante; <em>Arrulhos</em>,
+<em>M&atilde;e</em>,
+<em>Tragedia Rustica</em>, tudo,
+tudo n'este livro &eacute; bom, e de util e agradabilissima
+leitura. <br />
+
+<br />
+
+A forma&#8213;j&aacute; o dissemos&#8213;&eacute; correctamente vernacula
+e elegantemente rendilhada. <br />
+
+<br />
+
+A titulo de amostra, para aqui traslad&aacute;mos do
+conto&#8213;<em>Sult&atilde;o</em>&#8213;este
+bello <em>croquis</em> de uma tarde de
+agosto: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as
+arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda
+o poente as suaves e brandas pulverisa&ccedil;&otilde;es
+doiradas da ultima
+luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro
+levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e
+meigo, raiado de listr&otilde;es de uma
+colora&ccedil;&atilde;o leve de
+laranja. <br />
+
+<br />
+
+Pequenos algod&otilde;es transparentes, com alvuras de neve,
+cortavam aqui e al&eacute;m, alegremente, a monotonia profunda do
+azul.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra &aacute; altura da boa
+reputa&ccedil;&atilde;o do auctor. <br />
+
+<br />
+
+A redac&ccedil;&atilde;o da <em>Nova Alvorada</em>
+congratula-se com o
+seu illustre collega por t&atilde;o brilhante
+produc&ccedil;&atilde;o, e d'aqui
+lhe envia um cordealissimo aperto de m&atilde;o.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XXXI]</span>
+<span class="smallcaps">A Independencia</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Acabamos
+de ler o
+primoroso livro de Trindade Coelho, <em>Os meus amores</em>.
+Sem largas
+aspira&ccedil;&otilde;es, modestamente, apenas com a
+consciencia tranquilla de quem escreve bem e
+com criterio,&#8213;Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,
+que acaba de dar &aacute; estampa, algumas
+produc&ccedil;&otilde;es litterarias que a sua vida de
+jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de revistas e
+diarios. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute;, pois, um trabalho completo, inteiro e
+homogeneo o que se nos offerece para apreciar: s&atilde;o pequenas
+joias litterarias,
+buriladas por m&atilde;o de artista e d'um fino sabor de
+naturalismo. <br />
+
+<br />
+
+Considerado assim, sem dependencia de escola e
+confronta&ccedil;&atilde;o de originaes, o livro &eacute;
+bom. <br />
+
+<br />
+
+As suas descrip&ccedil;&otilde;es s&atilde;o perfeitas,
+correctas, desenhadas por quem se acostumou, desde crean&ccedil;a,
+a ler muita e a adivinhar mais na
+biblia riquissima e inexhaurivel da Natureza. <br />
+
+<br />
+
+Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as
+tintas proprias, e os diversos personagens que nos v&atilde;o
+passando sob os olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos
+outros,
+deixam-nos uma impress&atilde;o agradavel de realismo, e alta
+comprehens&atilde;o. S&atilde;o typos exactos, sem os grandes
+enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que
+enjoam. Antonio Fagote &eacute; um especimen do juiz de festa das
+nossas aldeias, basof&atilde;o e vingativo, prompto,
+ol&aacute;! a
+gastar as ultimas moedas da venda do ultimo gado e a deixar fulo e
+arreliado o seu antecessor; e
+a deliciosa ballada <em>M&atilde;e</em> &eacute;
+uma preciosidade
+litteraria, magnificamente pensada escripta, digna da penna dos nossos
+primeiros escriptores. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o encom&iacute;amos, pois, o valor do livro, dizendo
+que elle &eacute; digno de figurar ao p&eacute; das mais bellas
+produc&ccedil;&otilde;es dos nossos escriptores mais
+consagrados.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Correio de Portalegre</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>,
+contos e balladas
+por Trindade Coelho. <br />
+
+<br />
+
+Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois
+n&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+Eu creio bem isso, porque a verdade &eacute; que apezar da celeuma
+que Trindade Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento
+algumas antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os
+senhores jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico. &Eacute;
+por isso
+que escolhemos para encetar esta sec&ccedil;&atilde;o a
+produc&ccedil;&atilde;o brilhante do distincto litterato,
+editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor
+escrupulosissimo. <br />
+
+<br />
+
+Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a
+atten&ccedil;&atilde;o do nosso cerebro, &aacute;
+contempla&ccedil;&atilde;o da nossa alma; e essa leitura, feita
+n'umas horas que um encanto enorme fez parecer t&atilde;o
+breves, deu-me d'<em>Os meus amores</em> a agradabilissima
+impress&atilde;o d'uma
+caricia, que persiste a sorrir consoladora. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XXXII]</span>
+Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do <em>Commercio</em>
+e
+da <em>Gazeta</em>, tem, como viram, o poder invejavel de
+dar &aacute;
+ideia,&#8213;algumas vezes injusta, dir&atilde;o alguns,&#8213;a mais
+correcta
+f&oacute;rma, iriada sempre da limpidez mais viva; e isso, n'um
+trabalho feito agora para apparecer amanh&atilde;, &agrave;
+pressa sempre, n'uma fugida aos
+calhama&ccedil;os manuscriptos que demandam a sua
+atten&ccedil;&atilde;o de magistrado, e em que o
+periodo mais suggestivo &eacute; o do <em>Anno do Nascimento
+de Nosso
+Senhor Jesus
+Christo</em>. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute;-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do
+auctor desbasta, romodela, lima, muito tranquillamente, muito
+socegadamente, sob a vigilante direc&ccedil;&atilde;o do seu
+delicado gosto
+artistico. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> teem poesia, e teem verdade; e na
+maioria dos seus
+differentes quadros, adoravel descrip&ccedil;&atilde;o das
+scenas simples da vida do campo, da natureza singellamente formosa, o
+sentimento vibra intensissimo, e &eacute; encantadora a phrase, que
+um conhecimento
+profundo dictou, de que uma subtil observa&ccedil;&atilde;o
+res&aacute;e. Ha alli retratos d'um brilho sem limite, <em>typos</em>
+que
+resumem um estudo fidelissimo. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa
+embara&ccedil;adissimo, se queremos escolher
+alguma,&#8213;t&atilde;o valiosas s&atilde;o
+todas. <br />
+
+<br />
+
+Todavia,&#8213;e isto &eacute; uma modesta opini&atilde;o
+perfeitamente pessoal,&#8213;<em>Vae victoribus</em>, de
+t&atilde;o grandiosa
+ideia, e de t&atilde;o
+elevado estylo, <em>Para a escola</em>, t&atilde;o
+grata, a evocar uma
+saudosa
+recorda&ccedil;&atilde;o dos bons tempos de crean&ccedil;a,
+e os admiraveis contos de fina gra&ccedil;a e
+t&atilde;o verdadeiros, <em>Preludios de festa</em> e <em>Typos
+da
+terra</em>,
+s&atilde;o os meus
+eleitos, depois d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre
+tantos quadros da perfei&ccedil;&atilde;o mais rara, e onde a
+<em>Maricas</em> e
+<em>Arrulhos</em> captivam tambem a minha
+admira&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O livro &eacute;, como todos os sahidos na
+<em>Collec&ccedil;&atilde;o Antonio Maria Pereira</em>,
+esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em
+percalina. <br />
+
+<br />
+
+N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'<em>Os
+meus
+amores</em> receber o preito da nossa homenagem, prestada
+t&atilde;o
+agradavel como sinceramente.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">O Nordeste</span>:&#8213;&laquo;Editado
+pela casa Antonio Maria Pereira, de
+Lisboa, em volume d'impress&atilde;o nitid&iacute;ssima,
+escrupulosa, foi
+recentemente publicado o primeiro livro de Trindade Coelho&#8213;<em>Os
+meus
+amores</em>, que vieram
+p&ocirc;r em relevo as complexas e brilhantissimas qualidades
+litterarias do auctor,
+um <em>novo</em> que j&aacute; hoje occupa, por
+direitos justamente
+adquiridos, um logar proeminente entre os nossos melhores escriptores. <br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> teem obtido na imprensa do paiz uma
+acolhida
+enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso
+conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos
+leitores do <em>Nordeste</em> n&atilde;o dessemos
+conta da
+appari&ccedil;&atilde;o d'esse livro, juntando ao
+c&ocirc;ro unisono d'applausos as nossas sinceras
+sauda&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses
+contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro
+<span class="pagenum">[XXXIII]</span>
+primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a
+espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas
+historias alde&atilde;s, d'uma simplicidade campesina, repassadas
+por vezes d'um sentimentalismo suave, lyrico... <br />
+
+<br />
+
+A n&oacute;s, que temos por Trindade Coelho uma
+viv&iacute;ssima sympathia, um affecto antigo e vehemente, seguindo
+com interesse quaesquer particularidades
+da sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem
+glorificado o seu nome e com a sua merecida
+reputa&ccedil;&atilde;o de magistrado intelligente e
+trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do
+procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de l&ecirc;r o
+seu livro, e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o
+correio nol-o trouxe. E, agradabil&iacute;ssima coincidencia!
+succedeu-nos
+deparar com o conto <em>Para a escola</em>, quadro
+tocantissimo que marca
+distinctamente os dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a
+altura em que entra
+na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial,
+de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com
+as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de
+continuo evidenciar&aacute; as suas superiores qualidades de
+talento e caracter diamantino. <br />
+
+<br />
+
+Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio,
+deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto&#8213;sem pejo o
+confess&acirc;mos...&#8213;de lagrimas espontaneas nos marejarem os
+olhos, t&atilde;o enternecedoras s&atilde;o essas paginas que
+evocam em
+n&oacute;s as reminiscencias queridas d'um passado que
+n&atilde;o volta, e no espirito nos
+reproduzem, com uma precis&atilde;o photographica, completa, scenas
+eguaes da nossa
+infancia, como de certo acontecer&aacute; a todos quantos lograrem
+a
+felicidade de l&ecirc;l-as e sentil-as... <br />
+
+<br />
+
+Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente,
+que <em>devor&aacute;mos</em> o livro, onde o auctor,
+n'um esbanjamento
+prodigo de verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras
+narrativas, descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e
+rhythmica, apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em
+flagrante,
+<em>d'apr&egrave;s nature</em>, com uma extraordinaria
+lucidez
+d'observa&ccedil;&atilde;o, e um outro <em>caso</em>
+humano trasladado
+para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente artista, e que
+s&atilde;o uma eloquente
+affirma&ccedil;&atilde;o da distincta personalidade de Trindade
+Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados cultores da
+prosa portugueza. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o querendo, e n&atilde;o nos sobejando
+espa&ccedil;o para tanto, ampliar esta breve noticia a uma critica
+a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar
+todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as
+impress&otilde;es que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso
+caloroso para todo o livro, sem predilec&ccedil;&otilde;es por
+este ou por
+aquelle conto; e d'aqui, d'esta columna de modesto jornal de provincia,
+enviamos ao nosso queridissimo Trindade Coelho, n'uma
+effus&atilde;o d'acrisolada
+estima, com um aperto de m&atilde;o, as
+felicita&ccedil;&otilde;es que
+merece, fazendo votos para que n&atilde;o
+<span class="pagenum">[XXXIV]</span>
+deixe de ser um cultor
+assiduo da litteratura nacional, e continue a honrar o seu nome,
+j&aacute; laureado, com a
+publica&ccedil;&atilde;o de novos e bons
+livros.&#8213;<em>Jos&eacute; Pessanha</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Da Revista do Minho</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Poucos
+livros
+ter&atilde;o vindo &aacute; luz da publicidade ultimamente em
+Portugal t&atilde;o esplendidos
+como aquelle cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as
+suas paginas
+se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e
+estimavel debaixo de todos os pontos de vista. <br />
+
+<br />
+
+Este volume pertence &aacute; formosissima
+collec&ccedil;&atilde;o Antonio Maria Pereira, e &eacute;
+devido &aacute; brilhantissima penna de um dos nossos mais
+festejados escriptores&#8213;Trindade Coelho. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o precis&acirc;mos alongar-nos em chamar a
+atten&ccedil;&atilde;o do publico para esta obra, pois
+&eacute; ella sobejamente j&aacute; bem conhecida
+dos amadores de bons livros.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Revista Illustrada</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Ha
+tempo,&#8213;n&atilde;o ha muito,&#8213;come&ccedil;ou um jornal de
+Lisboa a publicar, de quando em
+quando, umas cartas de provincia,&#8213;<em>Cartas alemtejanas</em>,
+nos
+parece,&#8213;assignadas pelo nome, ent&atilde;o desconhecido, de
+Trindade Coelho. Lida por
+n&oacute;s a primeira, nunca mais nos descuid&aacute;mos de
+procurar as outras,
+e foi com verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, at&eacute;
+deixarem
+de apparecer de todo. <br />
+
+<br />
+
+Essas cartas eram a revela&ccedil;&atilde;o de um formoso
+talento; eram a alvorada jubilosa e cantante de um bom escriptor.
+Trindade Coelho entrava nas lettras portuguezas pela porta aurea dos
+victoriosos, apresentando natural e simplesmente a sua individualidade,
+como a fundira n'uma
+s&oacute; pe&ccedil;a o seu talento alliado com a sua
+observa&ccedil;&atilde;o e o seu estudo, sem esgrimir com os
+que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que
+avan&ccedil;avam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem
+charamellas de apaniguados e sequazes. <br />
+
+<br />
+
+Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas;
+escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli &aacute;
+m&atilde;o, das scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do
+sentimento que a sua
+alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um
+ou outro livro, que m&atilde;o amiga lhe fazia chegar &aacute;
+solid&atilde;o do seu eremiterio, sempre com acerto, propenso ao
+louvor, despido de invejas. Era um talento e era um caracter. <br />
+
+<br />
+
+Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que
+deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua
+formatura. Bom signal. O estudioso s&eacute;rio sabia reprimir as
+impaciencias do amor proprio, sacrificando &aacute;s altas
+occupa&ccedil;&otilde;es do seu curso os brilhos attrahentes da
+facil nomeada. O escriptor experimentara
+j&aacute; o pulso; agora conhecia a sua for&ccedil;a e sabia e
+podia esperar. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XXXV]</span>
+Eis que nos apparece um dia, subito, no f&ocirc;ro, honrando e
+glorificando n'um processo de rehabilita&ccedil;&atilde;o a sua
+toga de
+magistrado. O caso deu-lhe celebridade, e ensejo para ser recordado o
+nome de homem de lettras,
+que elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros
+trabalhos. <br />
+
+<br />
+
+Alguns mezes de collabora&ccedil;&atilde;o diaria, n'um jornal
+bem lan&ccedil;ado e bem redigido, avigoraram no conceito publico o
+renome conquistado, e Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da
+paiz, o logar a que tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem
+contestar. <br />
+
+<br />
+
+Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos
+apresenta&ccedil;&atilde;o mais prometedora e mais sympathica. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Os meus amores</em> s&atilde;o uma
+collec&ccedil;&atilde;o de
+esbocetos, alguns dos quaes, como o <em>Idylio rustico</em>,
+<em>Ultima dadiva</em>,
+<em>Vae victoribus</em>!, <em>Abyssus abyssum</em>,
+chegam a
+ter a
+perfei&ccedil;&atilde;o, o acabamento
+de verdadeiros quadros. Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o
+auctor os trabalhou, solicito na sua obra, no empenho de uma
+execu&ccedil;&atilde;o
+immaculada. N&atilde;o porque se conhe&ccedil;a o
+esfor&ccedil;o; mas sim porque se sabe que
+sem elle era impossivel conseguir t&atilde;o completo effeito,
+t&atilde;o seguro
+resultado. <br />
+
+<br />
+
+O estylo do prosador &eacute;, quasi sempre, firme, opulento,
+erudito, original e variado. N&atilde;o tem reminiscencias d'este
+ou d'aquelle, e
+realisa uma das condi&ccedil;&otilde;es essenciaes que deve ter
+em mira todo o
+escriptor consciencioso: conservar uma fei&ccedil;&atilde;o
+propria e
+individual, sem se afastar da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo
+o retrocesso archaico, e contribuindo para a
+evolu&ccedil;&atilde;o progressiva d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Trindade Coelho, por uma intui&ccedil;&atilde;o que nos
+n&atilde;o can&ccedil;aremos de louvar, em vez de se cingir a
+modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria facil assimilar, em
+vez de decorar mestres e de compulsar estylistas, procurou modo de
+illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na fonte natural de
+todas as inspira&ccedil;&otilde;es. Penetrou,
+para isso, nas camadas mais primitivas do povo campezino, enriquecendo
+n'esse manancial o thesouro das locu&ccedil;&otilde;es, e
+trazendo de
+l&aacute;, simultaneamente, scenas e quadros do um sentimento
+encantador, e de uma singeleza nativa e adoravel. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; de indiscut&iacute;vel belleza a pastoral com que abre
+o volume. Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A
+descrip&ccedil;&atilde;o da madrugada na aldeia, o encontro dos
+dois pastores, Gon&ccedil;alo e
+Rosaria,&#8213;Daphnis e Chloe,&#8213;teem um sabor antigo, como o de uma
+narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo
+tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias.
+&Eacute; de um bom gosto supremo a f&oacute;rma subtilmente
+delicada como o narrador,
+deixando primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma
+brutalidade instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da
+candura a
+uma situa&ccedil;&atilde;o divinamente sublime. <br />
+
+<br />
+
+E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce
+e prolongada abstrac&ccedil;&atilde;o, seguindo com os olhos do
+espirito aquelles dois
+<span class="pagenum">[XXXVI]</span>
+vultos de crean&ccedil;a a esfumarem-se nas
+distancias do
+espa&ccedil;o e do tempo, longe, muito longe, n'uma paizagem ideal,
+vista nos dias da infancia, vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio
+ou Theocrito, talvez mais longe ainda, na Biblia...&#8213;seguindo, com os
+olhos da alma, em esquecida
+contempla&ccedil;&atilde;o, longe, muito longe, <br />
+
+<br />
+
+&laquo;...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas,
+voando, voando.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Em <em>Vae victoribus</em>!, outro quadro de mestre, ha
+como que um mixto do
+tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christ&atilde;o.
+N&atilde;o &eacute; vulgar a concep&ccedil;&atilde;o do
+assumpto, nem vulgar, tambem, o
+desenvolvimento que o escriptor lhe deu, o scenario &eacute;
+horrivel e magnifico.
+Est&aacute; bem descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro
+se annuncia, depois
+se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma
+convuls&atilde;o pavorosa e enorme; bem descripto o terror
+angustioso e suppliciante do misero assassino, o qual v&ecirc;, na
+chamma de cada relampago,
+projectada a cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende
+os
+p&eacute;s ao ch&atilde;o, emquanto o seu ouvido, allucinado
+pelo terror, lhe
+d&aacute; a sensa&ccedil;&atilde;o de uma voz insistente,
+que detraz de cada arvore, da espessura de cada moita, de cima de cada
+pedra, da resonancia de cada trov&atilde;o,
+o chama inexoravelmente pelo nome:&#8213;&Oacute; Jos&eacute; Gaio!
+&Oacute; Jos&eacute; Gaio! &Oacute; Jos&eacute; Gaio! <br />
+
+<br />
+
+Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho
+f&oacute;ros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe
+n&atilde;o engeitaria o assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria
+com muita maior
+perfei&ccedil;&atilde;o. Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas
+t&atilde;o engenhosas como
+as da <em>Genese de um Poema</em>, para alguma
+composi&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o extraordinaria e t&atilde;o transcendentalmente
+bella como <em>O corvo</em> ou <em>Ulalume</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se
+quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade
+das suas aptid&otilde;es litterarias, o prosador que recortou nos
+mais
+perfeitos moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras,
+detem-se na commovente e lacrimosa narrativa da <em>Ultima dadiva</em>
+e nas
+ligeiras e facetas descrip&ccedil;&otilde;es dos <em>Typos da
+terra</em>, dos
+<em>Preludios de festa</em>, do <em>Sult&atilde;o</em>,
+onde transparecem dotes
+de
+observa&ccedil;&atilde;o sarcastica, de ironia graciosa e de
+bem humorado espirito. <br />
+
+<br />
+
+Um livro de tantas promessas n&atilde;o p&oacute;de ser,
+comtudo, e por isso mesmo, um livro definitivo. Trindade Coelho
+experimenta apenas a m&atilde;o
+para se abalan&ccedil;ar a empreza maior, estamos certos d'isso.
+J&aacute; no final do presente volume, em nota do editor a um
+trecho intitulado: <em>Batalhas domesticas</em>, se annuncia a
+transi&ccedil;&atilde;o da presente
+phase litteraria e artistica do auctor, para uma outra phase
+progressiva. <br />
+
+<br />
+
+Progressiva, dizemos n&oacute;s, porque assim o cr&ecirc;mos.
+Qual ha-de ser, por&eacute;m, a predominante caracteristica d'essa
+phase? P&oacute;de a critica
+conjectural-a
+<span class="pagenum">[XXXVII]</span>
+desde j&aacute;? Talvez o pudesse; mas seria
+arriscado fazel-o.
+Porque, a verdade &eacute; que o seu talento tem recursos com que
+lhe
+&eacute; dado contar, que o seu temperamento litterario tem
+energias que lhe h&atilde;o de
+abrir novos caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha
+j&aacute;
+precedentes, que enormemente o obrigam. <br />
+
+<br />
+
+Temos confian&ccedil;a em que a sua prosa, j&aacute; segura e
+elegante, despir-se-ha ainda de um ou outro francezismo escusado, e
+ha-de adquirir novos dotes
+de clareza, concis&atilde;o e vernaculidade. Trindade Coelho sabe
+onde procural-os. N&atilde;o &eacute; em lexicons, nem em
+alfarrabios, nem em cartapacios. &Eacute; na escola, aberta sempre
+a todos os investigadores, onde
+aprenderam a falar o portuguez do povo, os seus typos populares. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se p&oacute;de ser bom prosador, sem se ter o
+sentimento profundo do som, da melodia. Uma das maneiras de adquirir
+pericia n'esta
+f&oacute;rma de escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer
+bons versos
+&eacute; um exercicio util para chegar a fazer boa prosa.
+N&atilde;o
+&eacute;, porem, indispensavel, bem entendido. <br />
+
+<br />
+
+Contudo, n&atilde;o admittimos que repute possuir as qualidades
+completas de escriptor, aquelle que s&oacute; d'uma das duas
+f&oacute;rmas
+da arte de escrever seja conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da
+prosa, s&atilde;o os
+que praticaram largamente no manejo da
+metrifica&ccedil;&atilde;o e
+da rima. <br />
+
+<br />
+
+Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza
+artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase
+e maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso,
+embora como simples exerc&iacute;cio. E esteja certo de que lhe
+vale a pena empregar todos os esfor&ccedil;os para attingir uma
+perfei&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o est&aacute;
+longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade
+continuamente o approximam.&#8213;<em>Fernandes Costa</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Aurora do Lima</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>, contos
+e balladas, por
+Trindade Coelho. Quando prometti &aacute; <em>Aurora do Lima</em>
+esta
+ligeira
+noticia bibliographica &aacute;cerca do livro do brilhante
+escriptor e meu
+querido amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doen&ccedil;a
+me
+obrigasse a retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me
+encontrar entre os ultimos da ultima fila, nas
+sauda&ccedil;&otilde;es
+enthusiasticas &aacute; obra e ao seu auctor. <br />
+
+<br />
+
+Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se
+come&ccedil;ou a fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria,
+cruel, desoladora. Os
+que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida&#8213;e estes
+constituem a maior parte dos que l&ecirc;em e estudam, preferem as
+obras consoladoras, de cuja leitura fica uma
+sensa&ccedil;&atilde;o
+delicada, uma recorda&ccedil;&atilde;o docemente suave. Assim,
+Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola, apezar do enorme
+<em>r&eacute;clame</em> que antecede sempre a obra do
+velho mestre da escola realista. <br />
+
+<br />
+
+Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras
+consoladoras, de serenidade e de paz. &Eacute; um livro sincero,
+que prende pela emo&ccedil;&atilde;o intima, que interessa pela
+simplicidade elegante com
+<span class="pagenum">[XXXVIII]</span>
+que est&aacute; trabalhado, que
+impressiona pela
+correc&ccedil;&atilde;o impecavel do seu estylo, malleavel e
+harmonico. <br />
+
+<br />
+
+Abre-se o livro e depara-se com o <em>Idylio rustico</em>,
+que &eacute;
+uma soberba tella, amoravelmente tratada, denunciando logo
+&aacute;s primeiras
+linhas um alto valor artistico, na verdade rigorosa da
+observa&ccedil;&atilde;o, na delicadeza suave do colorido, na
+simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.
+<br />
+
+<br />
+
+Segue-se-lhe o <em>Sult&atilde;o</em>;
+e em boa verdade direi que me
+parece ser este um dos contos mais formosos do volume, em que pese
+&aacute;s
+opini&otilde;es contrarias e at&eacute; ao proprio auctor, que
+n&atilde;o perde
+occasi&atilde;o de o depreciar. <br />
+
+<br />
+
+Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A
+descrip&ccedil;&atilde;o da eira, do labutar alegre, da
+paizagem e dos personagens d'este
+pequeno quadro, s&atilde;o um primor notabilissimo de
+execu&ccedil;&atilde;o artistica, de rigorosa e completa
+observa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+<em>Ultima dadiva</em>, um episodio commovente, completa a
+primeira parte do
+livro, a que se segue a <em>Comedia da provincia</em>,
+onde ha preciosos
+estudos da vida provinciana; as <em>Balladas</em>, onde se
+depara com o
+formoso conto <em>Para a escola</em>, de um alto valor
+litterario; <em>Arrulhos</em>,
+uma esplendida phantasia, etc. <br />
+
+<br />
+
+Eis uma ligeira noticia do volume de contos <em>Os meus amores</em>,
+que
+tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia
+do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que
+lhe foram dispensados. <br />
+
+<br />
+
+Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a
+cr&iacute;tica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do
+paiz, especialmente no <em>Portugal</em>, onde escreve
+como o pseudonymo de
+<em>Ch. A. Verde</em>, e na <em>Revista Illustrada</em>,
+do editor Antonio Maria
+Pereira.
+&Eacute; um infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais
+frivolo
+assumpto um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o
+espirito do leitor.&#8213;<em>Luiz Trigueiros</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Os Gatos</span>:&#8213;&laquo;Vem
+a proposito de historias, fallar, bem sei que
+tarde, dos <em>Meus amores</em> de Trindade Coelho, como
+do moderno livro
+portuguez que mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em
+polyedros de multiplices aptid&otilde;es. Os contos dos <em>Meus
+amores</em>
+s&atilde;o pela maior parte uma bagagem de vida academica,
+assimilativa (Trindade Coelho, muito novo, findou ha quatro ou cinco
+annos o curso juridico) e como tal
+sahem da penna do escriptor ainda sem uma
+crystallisa&ccedil;&atilde;o homogenea de f&oacute;rma e de
+processo. Por&eacute;m na sua factura ondeante l&ecirc;-se o
+ascenso d'um espirito buscando a perfei&ccedil;&atilde;o com
+escrupulos d'eleito; de
+sorte que o volume at&eacute; como auto-biographia se insinua, elle
+precisando as phases, notulas, e predilec&ccedil;&otilde;es
+litterarias do contista, e emfim,
+depois de hesita&ccedil;&otilde;es, emancipando-o n'um dos mais
+delicados microscopistas do
+cora&ccedil;&atilde;o, das nossas lettras. Como &eacute;
+provinciano, provinciano d'aldeia, e
+natureza contempladora
+<span class="pagenum">[XXXIX]</span>
+inda por cima, Trindade Coelho captiva-se
+principalmente dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana,
+tempestades de campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o
+n&atilde;o
+fa&ccedil;a por diletantismo de escriptor avocando de
+c&oacute;r dramas lambidos,
+sen&atilde;o por esse estro de vis&atilde;o retrospectiva dos
+melancholicos
+despaizados em terras hostis, e que protestam contra o egoismo
+ambiente, recluinde-se no passado, como n'um sanctuario de mumias
+adoradas. &Eacute; a
+tendencia geral dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida
+dos humildes, especialmente dos campos, materia prima para seus contos
+e poemetos. Em
+poucos por&eacute;m a predilec&ccedil;&atilde;o se
+esc&oacute;ra na sinceridade e conhecimento pratico da vida
+rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma autopse sagaz da
+natureza psychica e moral do camponez. Grande parte
+dos que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os
+andrajos n'um scenario de conven&ccedil;&atilde;o, e com o
+fazer fallar
+aos bonequinhos mancos que resultam, aravias mais ou menos inventadas
+d'um pictoresco sorna,
+em cuja trama n&atilde;o ha vislumbres d'alma regional, de caracter
+profissional, d'individualismo typico, ou de paix&atilde;o. Se
+alguma vez tiverem
+pachorra, mandem vir a collec&ccedil;&atilde;o dos contistas
+rusticos
+portuguezes, e riam &aacute; larga das fantasias lorpas que
+l&aacute; virem. Em dialagos
+amorosos ha por exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam
+&aacute;s
+namoradas protestos de paix&atilde;o, em linguagem que seria
+preciosa at&eacute; na
+bocca d'um pisa-fl&ocirc;res do Martinho e da Havaneza. Ellas, de
+lhes retrucar em phrase equivalente, e de se mecherem em scena com os
+ademanes que a <em>Dama das Camelias</em> consagrou na cachimonia dos
+auctores, como os mais proprios para mimar o amor que as
+enchaqu&eacute;ca. <br />
+
+<br />
+
+Em paizagens e descrip&ccedil;&otilde;es d'interior, a mesma
+ausencia de detalhe certo e de vis&atilde;o propria, que reduzem
+esses quadros, a
+m&eacute;ras caganifancias d'aguarellistas amadores. De tal maneira
+que o grupo de <em>campestres</em> a quem a arte confia a
+miss&atilde;o de
+leccionar aos desregrados
+habitantes das cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de
+persuadirem os
+seus leitores, o mais que fazem &eacute; pintar-lhes o campo como
+uma banal imita&ccedil;&atilde;o da Rua do Ouro, e o camponez
+como uma
+arreglo grotesco do alfacinha. <br />
+
+<br />
+
+Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da
+paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade
+Coelho &eacute; dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do
+problema, em f&oacute;rma d'arte, e dos que mais progressivamente
+v&atilde;o crescendo &aacute; vista do leitor, que
+n&atilde;o mais lhe perder&aacute; de vista os
+v&ocirc;os poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus
+quadrinhos de genero, colhidos em
+prolongadas esta&ccedil;&otilde;es nas duas mais typicas
+provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha
+ass&iacute;m nos <em>Meus amores</em>, a par
+d'algumas benignas composi&ccedil;&otilde;es representativas da
+transi&ccedil;&atilde;o critica do rapaz para o homem, e do
+debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes, sobrias,
+seguras, que n&atilde;o hesito em as apontar como modelos,
+e dentro da minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras
+<span class="pagenum">[XL]</span>
+obras primas. <em>Typos da terra</em> e <em>Preludias
+de festa</em>,
+por exemplo,
+s&atilde;o
+duas narra&ccedil;&otilde;es que mordem fundo a
+atten&ccedil;&atilde;o de quem nas
+l&ecirc;, e que por sua admiravel sobriedade, intuito pictural, e
+observa&ccedil;&atilde;o
+ridente sobre o vivo, cuido que ficar&atilde;o modelarmente
+apontadas aos collecionadores de
+litteratura typica. <br />
+
+<br />
+
+Qualquer das pe&ccedil;as abrange apenas o folego d'uma ou duas
+duzias de paginas, deliciosas por&eacute;m como factura, admiraveis
+de
+bonhomia, e d'uma saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o
+seu auctor. <br />
+
+<br />
+
+Ahi est&aacute; effectivamente revelado n&atilde;o
+s&oacute; um talento plastico e bastante rico em cambiantes, como
+tambem a pura agua d'um caracter cheio das
+mais finas inten&ccedil;&otilde;es. <em>Typos da terra</em>
+&eacute; o
+quadro satyrico d'uma m&aacute; lingua d'aldeia, tendo por club a
+porta da tenda, por scenario a
+pra&ccedil;a publica, e por personagens o pessoal burocratico e
+elegante da terriola. <em>Preludios de festa</em>
+&eacute; um estimulo de
+festeiros preoccupados
+de qual far&aacute; a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons
+s&atilde;o leves, os typos rapidos, a
+descrip&ccedil;&atilde;o dita a correr, mas no
+conjuncto ha um tal equilibrio esthetico, a meia tinta &eacute;
+t&atilde;o fluida,
+e as inten&ccedil;&otilde;es ironicas sublinhadas
+t&atilde;o de manso, que se adivinha logo um mestre
+miniaturista, Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os
+semsabor&otilde;es que por ahi medram, e certamente fadado a uma
+supremacia qualquer no moderno romance portuguez.&#8213;<em>Fialho
+d'Almeida</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Jornal de Santo Thyrso</span>:&#8213;&laquo;<em>Os
+meus amores</em>.&#8213;Foi
+penhorante e
+commovente para n&oacute;s a gentilissima offerta que Trindade
+Coelho nos fez
+do seu adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta
+singela
+noticia. <br />
+
+<br />
+
+O nome de Trindade Coelho era j&aacute; gloriosamente festejado
+quando o brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade;
+hoje, por&eacute;m, apparece mais radiantemente no seu precioso
+livro,
+onde a primorosissima f&oacute;rma se allia com o mais delicado
+criterio
+d'artista d'<em>&eacute;lite</em> e com a fina
+observa&ccedil;&atilde;o d'um
+talento verdadeiramente superior. <br />
+
+<br />
+
+O que deixamos dito &eacute; profundamente sentido, que a nossa
+humilde e obscura penna n&atilde;o est&aacute;&#8213;seja este o seu
+unico
+merito!&#8213;habituada a vir entregar ao sagrado lume da imprensa os
+elogios sandeus que cada dia se
+prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as
+ondas d'esse barato incenso. <br />
+
+<br />
+
+Os nossos leitores melhor ajuisar&atilde;o, em presen&ccedil;a
+do trecho que lhes offerecemos como mimo de rara valia.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Diario Illustrado</span>,
+(com o retrato do auctor):&#8213;&laquo;Trindade
+Coelho.&#8213;N'esta aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras
+que ninguem sonha,
+ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,&#8213;que nem a todos
+&eacute; dado experimentar, accrescente-se. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XLI]</span>
+Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,&#8213;na
+elevada faculdade de admirar o que se imp&otilde;e pelo dominador
+prestigio do talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de
+adivinhar, logo aos primeiros passos, a revela&ccedil;&atilde;o
+de Alguem,
+que vae ser unanimemente admirado. <br />
+
+<br />
+
+Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na
+galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo. <br />
+
+<br />
+
+Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam;
+admirei-o, muito antes d'elle trazer &aacute; litteratura patria o
+livro <em>Os meus amores</em>, que foi como que a subita
+illumina&ccedil;&atilde;o do seu nome. <br />
+
+<br />
+
+Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a
+sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso
+encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o
+temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do
+estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!... <br />
+
+<br />
+
+O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de
+rapidas excurs&otilde;es alpestres, sem o menor vislumbre de
+identifica&ccedil;&atilde;o, vive no livro de Trindade Coelho,
+com um singular relevo de verdade,
+com um profundo sentimento do natural. &laquo;Entre os poucos
+argutos
+dedicados a perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do
+provinciano e
+do camponio, escreve dos <em>Meus amores</em> o nosso
+grande critico Fialho
+d'Almeida, Trindade Coelho &eacute; dos que mais lucidamente
+traduzem o seu criterio do problema, em f&oacute;rma de arte, e dos
+que mais
+progressivamente v&atilde;o crescendo &aacute; vista do leitor,
+que
+n&atilde;o mais lhe perder&aacute; de vista os v&ocirc;os
+poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus
+quadrinhos de genero, colhidos em prolongadas
+esta&ccedil;&otilde;es nas duas
+mais typicas provincias de Portugal, o Alemtejo e
+Traz-os-Montes.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Antes dos <em>Meus amores</em>, Trindade Coelho
+come&ccedil;ara a affirmar
+a sua poderosa, individualidade em uma sec&ccedil;&atilde;o do
+<em>Diario Illustrado</em>, <em>Cartas alemtejanas</em>,
+chronicas expedidas de
+Portalegre, em um arranque de talento, com exuberancia de fantasia,
+modos de ver e dizer, flagrantemente modernos, tra&ccedil;os de
+soberbo humorismo
+&aacute; Vacherai, velados a espa&ccedil;os de um ligeiro fumo
+de melancolia, que lhe avivava
+a frisante originalidade. <br />
+
+<br />
+
+Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio
+das suas func&ccedil;&otilde;es de delegado, em Portalegre, a
+tarefa humanitaria de arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que
+injustamente o condemnara. <br />
+
+<br />
+
+E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos
+v&ocirc;os, fez-se um c&ocirc;ro de
+ben&ccedil;&atilde;os, como que uma apotheose de amor, que
+dever&aacute; ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da
+sua alma effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos,
+superiores a todas
+as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto. <br />
+
+<br />
+
+D&aacute;-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o
+caracterisam e lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam,
+uma dualidade,
+verdadeiramente phenomenal. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XLII]</span>
+&Eacute; que, sendo elle um artista, na rigorosa
+accep&ccedil;&atilde;o titular da palavra, namorado do ideal,
+amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na extatica
+adora&ccedil;&atilde;o de tudo quanto ella sobredoira
+do seu brilho immortal, &eacute; ao mesmo tempo um funccionario
+exemplar, um delegado do
+procurador regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de
+tal sorte Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter
+e no correcto exercicio da sua profiss&atilde;o, toda a perstigiosa
+soberania da Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito,
+quando se trata de aquilatar o merito de um auctor: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ahi est&aacute; effectivamente revelado n&atilde;o
+s&oacute; um talento plastico e bastante rico, em cambiantes, como
+tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais finas
+inten&ccedil;&otilde;es.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de
+saudade nostalgica ou treme de frio... legal. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; ent&atilde;o que elle murmura, (perdoa a indiscreta
+allus&atilde;o, meu caro Trindade Coelho?) &laquo;Ah! que
+apertada gaiola esta, em que vejo
+fechado, o meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque &eacute; o
+meu dever.
+Mas como eu ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo!
+N&atilde;o faz
+id&eacute;a, n&atilde;o! Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E
+l&agrave; f&oacute;ra, e
+l&aacute; em cima&#8213;que amplo c&eacute;o azul para
+voar!&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda
+o esperam, meu illustre amigo?&#8213;<em>Guiomar
+Torrez&atilde;o</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Revista de Portugal</span>:&#8213;(Excerpto
+de um artigo critico &aacute;cerca
+do <em>S&oacute;</em> de Antonio
+Nobre).&#8213;&laquo;Alma doente, o sr.
+Antonio Nobre soube
+extrahir da sua doen&ccedil;a effeitos de Arte singulares e
+&aacute;s vezes
+intensos. Outros attingiram o mesmo objectivo pela
+descrip&ccedil;&atilde;o das
+emo&ccedil;&otilde;es naturaes e pelo appello aos instinctos
+s&atilde;os do cora&ccedil;&atilde;o
+humano. Acabo de r&ecirc;ler o livro d'um escriptor tambem novo:
+<em>Os meus amores</em> de Trindade Coelho. Com casos da
+vida corrente e com
+sentimentos que podem ser comprehendidos por qualquer dos seus
+leitores, uma despedida, a
+affei&ccedil;&atilde;o de dois pastorinhos perdidos na
+solid&atilde;o do campo, os remorsos de um
+homicida junto &aacute; cruz da sua victima, o amor materno de uma
+cabra que
+se deixa morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o
+narrador interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha
+atravez d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do
+suor dos lavradores. Demonstra&ccedil;&atilde;o cabal de que a
+Arte
+&eacute; vasta e a capacidade pessoal decisiva para a belleza das
+obras.&#8213;<em>Moniz Barreto</em>.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Da Vid'Airada</span>:
+&laquo;Trindade Coelho.&#8213;Uma vez na sua frente, face
+a face, olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,&#8213;o que n&atilde;o
+seria
+difficil mesmo no caso de que a medida dos homens se tirasse a
+palmos&#8213;fixando o olhar
+no seu olhar, e n&atilde;o perdendo uma s&oacute; das suas
+palavras na mais simples conversa de algum quarto de hora,&#8213;ao
+separar-se elle de
+n&oacute;s, porque
+<span class="pagenum">[XLIII]</span>
+j&aacute; ent&atilde;o a gente
+n&atilde;o se atreve a separar-se d'elle,
+tem-se adquirido a certeza de que aquillo &eacute; o que
+&eacute;, e chegado
+&aacute; mais solida convic&ccedil;&atilde;o de que toda a
+verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um
+cora&ccedil;&atilde;o de homem, nunca se manifestaram mais
+expressivamente, mais insubmissas ao menor proposito do menor disfarce,
+do que na sua physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho
+intens&iacute;ssimo do seu olhar muito limpido, muito penetrante,
+se expressam toda a sinceridade, toda a verdade do seu grande
+cora&ccedil;&atilde;o
+e do seu impetuoso temperamento. <br />
+
+<br />
+
+E ao vel-o partir pela rua f&oacute;ra, decidido e tezo, resoluto e
+rijo, a cabe&ccedil;a alta, assentando com firmeza o p&eacute;
+pequeno,
+despejando caminho que d&aacute; gosto vel-o, n&atilde;o
+resistem os olhos ao desejo
+de acompanhal-o de longe, at&eacute; que o percam na dobra da
+primeira esquina, e a
+gente diz ou pensa:&#8213;&laquo;Demonio!... Com meia duzia assim,
+poderia fazer-se
+<em>alguma coisa</em> ainda!...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas
+pervers&otilde;es v&atilde;o espalhando em redor de si, fazendo
+estremecer os honestos quando com elles se cruzam, e tentando para o
+mal os fracos quando passam&#8213;s&oacute; a presen&ccedil;a de
+homens bons e
+s&atilde;os poder&aacute; melhorar este s&oacute;lo e
+purificar esta atmosphera. <br />
+
+<br />
+
+Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem
+da sua vida,&#8213;o mundo litterario e o mundo judicial&#8213;affigura-se-me
+elle, talvez, como um ant&iacute;poda de si mesmo, ora imprimindo o
+indelevel cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos
+documentos
+para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este
+agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio
+Publico contra os altos reus de certas causas celebres,&#8213;ora imprimindo
+n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da
+f&oacute;rma &eacute; posta sempre ao servi&ccedil;o das
+emo&ccedil;&otilde;es
+mais d&ocirc;ces e das mais penetrantes, esse outro cunho, d'essa
+outra individualidade que n'elle ha, e
+t&atilde;o diversa &eacute;, t&atilde;o original e
+t&atilde;o rara,
+t&atilde;o comtemplativa e t&atilde;o terna. <br />
+
+<br />
+
+...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande
+cora&ccedil;&atilde;o e do seu impetuoso temperamento! <br />
+
+<br />
+
+No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas
+palavras se n&atilde;o limitam ao cumprimento do dever de officio,
+n&atilde;o tardar&aacute; que &aacute; serena
+exposi&ccedil;&atilde;o dos primeiros
+articulados succeda a express&atilde;o calorosa, indomita, sempre
+crescente, da
+indigna&ccedil;&atilde;o, e da colera, que lhe provocam e
+a&ccedil;ulam os factos e as raz&otilde;es de
+que vae deduzindo a tremenda accusa&ccedil;&atilde;o contra o
+r&eacute;o&#8213;...esse r&eacute;o que alli est&aacute;, alli!
+sentado n'aquelle banco, sentenciado j&aacute;, e de grilheta aos
+p&eacute;s! Agita-se-lhe a circula&ccedil;&atilde;o do
+sangue, a
+respira&ccedil;&atilde;o accelera-se, a face ruborisa-se, todas
+as veias do pesco&ccedil;o e fronte se
+distendem, o peito enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A
+excita&ccedil;&atilde;o do cerebro vigorisa-lhe os musculos,
+affirma-lhe a energia, parece transportal-o
+ao imperio da for&ccedil;a,
+<span class="pagenum">[XLIV]</span>
+n'um arrebatamento em que os dentes
+rangem, e as unhas se crispam, punhos cerrados, bra&ccedil;os
+erguidos, completamente
+desordenado a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe
+na garganta, quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem
+ferir de arripios a espinha dorsal do auditorio... J&aacute;
+n&atilde;o
+&eacute; para a justi&ccedil;a dos homens que elle appella;
+n&atilde;o lhe bastam, n&atilde;o o
+saciam as penas maximas dos Codigos! Quer o castigo do C&eacute;o,
+quer a
+justi&ccedil;a de Deus! <br />
+
+<br />
+
+...O que n&atilde;o tira, ainda assim, que resgatasse da morte
+civil, bem peor que a morte natural, um desgra&ccedil;ado que a
+cegueira da
+justi&ccedil;a humana havia condemnado por assassino e
+ladr&atilde;o&#8213;o pobre Manuel
+Barradas. Muito commentou a imprensa o facto, espantada de que um
+agente do Ministerio Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos
+agoniados da sua
+vida em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a
+collec&ccedil;&atilde;o desses jornaes, e legou-a em vida ao
+filho, ao Henrique, pondo-lhe no principio estas palavras:
+&laquo;Meu filho, pela lei de Deus, a
+vida &eacute; s&oacute; um pretexto para boas obras. Observei
+um dia a lei do Senhor, e Elle, em premio da minha obediencia,
+concedeu-me o poder legar-te um
+peda&ccedil;o vivo do meu cora&ccedil;&atilde;o. Queres
+ouvil-o bater? Ausculta
+essas folhas... Bemdito seja Deus! ser&atilde;o ainda minhas as
+tuas lagrimas enternecidas,
+e, ainda depois de morto, viverei na tua commo&ccedil;&atilde;o
+e na tua
+alegria, para a commo&ccedil;&atilde;o e para a alegria da
+minha
+obra...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste
+nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto
+austero do magistrado, cedendo o logar &aacute; delicada
+individualidade do
+homem de lettras, o desembara&ccedil;a da toga e o deixa que
+v&aacute;,
+em mangas de camisa, muito &aacute; vontade e &aacute; fresca,
+pelas tardes serenas
+do seu bom humor, a vaguear pelos campos do seu sonho&#8213;sonho feito de
+saudade, d'essa muito
+viva e muito affectuosa ternura que &aacute; sua alma de artista
+d&aacute;, e que a sua prosa t&atilde;o sentidamente traduz, a
+recorda&ccedil;&atilde;o de felizes tempos que n&atilde;o
+voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais
+esquecem,&#8213;recorda&ccedil;&atilde;o a que andam para sempre
+ligados, n'uma doce e meiga
+associa&ccedil;&atilde;o de ideias, certos logares, certas
+pessoas, certas ora&ccedil;&otilde;es,
+certa ermidinha e certo olmo, que j&aacute; l&aacute; estavam
+quando elle nasceu, que o
+embalaram nos primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos;
+que ao baptismo o levaram, e o conduziram &aacute; escola;
+alegrando-se
+com as suas alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas... <br />
+
+<br />
+
+N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da
+sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte,
+v&ecirc;-se pousar-lhe nos bei&ccedil;os e nas palpebras a
+serenidade meiga de
+um sorriso, como que o doce agradecimento &aacute; alma de sua
+m&atilde;e,
+que tivesse vindo, muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o
+leito, aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a
+amorosa caricia dos seus beijos... <br />
+
+<br />
+
+Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade
+<span class="pagenum">[XLV]</span>
+essas emo&ccedil;&otilde;es e excita&ccedil;&otilde;es
+violentas, em que a tremura dos musculos e a effus&atilde;o das
+lagrimas realisam o phenomeno das
+emo&ccedil;&otilde;es reaes. <br />
+
+<br />
+
+Os seus escriptos obedecem sempre &aacute; logica influencia d'esta
+convic&ccedil;&atilde;o em que elle est&aacute;, quando me
+diz, bem medindo e pezando cada
+uma das suas palavras: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais
+nada, que o escriptor preste na sua obra o culto que &eacute;
+devido
+&aacute; sua lingua. Depois, deseja que o commovam, que honesta e
+consoladoramente o emocionem, preferindo que o assumpto do quadro seja
+a
+explora&ccedil;&atilde;o das coisas triviaes da vida,
+certamente porque reside no Simples a formula mais natural da
+Verdade... Comprehendo que o espirito dos que l&ecirc;em
+est&aacute; fatigado d'essa confus&atilde;o do <em>romance</em> com o
+<em>estudo</em>, e
+convenci-me, emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro
+dever, e como
+condi&ccedil;&atilde;o primeira de agrado, de ser consoladora e
+suave, tocada sempre de uma pontinha ligeira de poesia que
+v&aacute; direita ao
+cora&ccedil;&atilde;o e entretenha, em quem l&ecirc;, as
+faculdades emotivas, de
+preferencia, mesmo, &aacute;s faculdades
+intellectuaes...&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Releio <em>Os meus amores</em>, o livro dos seus contos.
+&Eacute; o
+primeiro d'elles, <em>Idylio rustico</em>, de uma
+deliciosa simplicidade de
+aguarella, parece
+que feito sobre um esbatido de c&eacute;o purissimo, c&ocirc;r
+de
+sovaco de andorinha e n&atilde;o sei com que singular sabor
+eucharistico de primeira
+communh&atilde;o... &Eacute; um sonho de absynto, que serve de
+aperitivo divino para a leitura soffrega de todo o livro. Dois
+pastoritos ingenuos, a Rosaria e o Gon&ccedil;alo, encontram-se e
+approximam-se, n'uma indecisa
+alvorada de derri&ccedil;o, cheios de boas
+ten&ccedil;&otilde;es e
+puros ideaes. Acontece, por&eacute;m, que por viverem longe, raras
+vezes se falam, e quando essa ventura lhes
+&eacute; dada, imaginem os que como elles se amem a alegria que
+inunda aquellas duas almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias
+longas, quiz Deus
+que os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam
+levando
+seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como
+juntos os cora&ccedil;&otilde;es traziam, e desde que nasce o
+sol at&eacute; que o sol se p&otilde;e, vagueam nas frescuras
+marginaes do rio, a par, e
+s&oacute;s, elle dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com
+murmurios d'agua correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz
+d'alma idylica de illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe
+immenso a separa&ccedil;&atilde;o, o Gon&ccedil;alo a
+convida a
+continuarem juntos, deixando que as ovelhas durmam em mistura e que
+passem elles a noitada sobre o mesmo colmo, ao abrigo da mesma cabana.
+N&atilde;o sem certa instinctiva
+reluctancia, Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro,
+tornando as mantas cobertor commum, e pousando as cabe&ccedil;as
+nos bornaes
+unidos, parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos
+desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo,
+e os bons dos namorados, n'uma placida
+orchestra&ccedil;&atilde;o
+final que se smorza, referem-se casos de moiras encantadas, e assim
+pegam no somno e adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar:
+sente a tristeza
+da maldade nossa. <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XLVI]</span>
+Depois, depois os outros, que seguem pelo livro f&oacute;ra, e que
+vamos bisando e saboreando a pequeninos g&oacute;los, durante
+algumas
+horas bem fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos
+provincianos que elle nos pinta, t&atilde;o real e verdadeiramente
+como se
+l&aacute; estivessemos; em companhia d'aquelles typos que elle
+retrata, t&atilde;o
+photographicos, t&atilde;o nitidos, que &eacute; estar a gente
+a vel-os, a ouvil-os, a
+falar-lhes, a deitar-lhes o bra&ccedil;o pelo hombro... <br />
+
+<br />
+
+Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao
+servi&ccedil;o da moderna arte, o ineffavel goso de t&atilde;o
+estranhas, t&atilde;o novas, t&atilde;o encantadoras surprezas!
+Quizera eu, inedita, bem fresca,
+pela primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante
+compara&ccedil;&atilde;o:&#8213;dir-se-ia tra&ccedil;ada com uma
+penna d'aguia... arrancada d'uma aza de pomba. <br />
+
+<br />
+
+Os seus livros ficar&atilde;o pertencendo ao numero d'aquelles que
+parecem possuir o raro cond&atilde;o de nunca envelhecerem no
+espirito de
+quem os l&ecirc;. Rel&ecirc;r o que elle escreve &eacute;
+sentir o mesmo prazer,
+sempre renovado, de quando se contempla pela centesima vez algum
+querido, precioso objecto,
+que noventa e nove vezes se contemplara j&aacute;: privilegio esse
+de eterna seduc&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; disfructam
+as obras
+em que o artista deixou peda&ccedil;os da sua alma.&#8213;<em>Alfredo
+Mesquita</em>.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Do Poema do Ideal</span>: <br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Os meus amores</em>!
+que livro</div>
+
+<div class="poetry1">T&atilde;o fragante e
+saboroso!<br />
+
+Scentelhas aureas e vivas,<br />
+
+D'um prosador luminoso! </div>
+
+<br />
+
+<div class="poetry3">Brisas da serra!</div>
+
+<div class="poetry2">Trechos idylicos<br />
+
+Da nossa terra!&raquo; </div>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Fernandes Casta</em>.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 146px; height: 70px;" alt="" src="images/fig08.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<pre>End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho<br /><br /><br /><br />*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***<br /><br /><br /><br />***** This file should be named 17503-8.txt or 17503-8.zip *****<br />This and all associated files of various formats will be found in:<br />http://www.gutenberg.org/1/7/5/0/17503/<br /><br /><br /><br />Produced by Carla Martins Ramos and Ricardo Diogo. Edited<br />by Rita Farinha (Biblioteca Nacional<br />Digital--http://bnd.bn.pt). 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@@ -0,0 +1,8566 @@
+The Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os meus amores
+ Contos e baladas
+
+Author: Trindade Coelho
+
+Release Date: August 30, 2007 [Formerly #22463, now included with #17503]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of
+the original version, already available at Project
+Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão
+original, já disponível no Project Gutenberg.)
+
+
+
+
+
+OS MEUS AMORES
+
+
+TRINDADE COELHO
+
+
+*OS MEUS AMORES*
+
+(Contos e Baladas)
+
+_2.^a edição_
+
+
+LISBOA
+
+Livraria de António Maria Pereira
+
+50, 52--Rua Augusta--52, 54
+
+1894
+
+
+
+
+_LISBOA_
+
+Tipografia e Estereotipia Moderna
+
+11--_Apóstolos_--11
+
+
+
+
+Ao Doutor
+
+António Xavier Perestrelo
+
+
+
+
+«_Os Meus Amores_»
+
+
+_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
+Vivo enxame das minhas alvoradas,
+Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
+As Desdémonas sois de um outro mouro.
+
+As brancas horas que eu em sonhos douro,
+Essas horas febris, iluminadas,
+Ei-las fugindo, em tristes debandadas...
+Levais nas asas todo o meu tesouro.
+
+Folhas: subi, voai ao céu tão alto,
+Que o céu em estrelas vos converta e mude,
+Lá nas longínquas ilusões que exalto;
+
+Como as frementes águas de um açude,
+Levai a Deus, no derradeiro salto,
+O derradeiro adeus da juventude_...
+
+_Luís Osório_.
+
+
+
+
+IDÍLIO RÚSTICO
+
+_A Fialho de Almeida_.
+
+
+Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele,
+era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
+conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
+insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
+Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
+rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de
+sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
+companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
+matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma
+estúrdia, a desoras...
+
+Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a
+banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela
+ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu
+azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
+paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem
+era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era
+calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
+guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
+ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
+do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
+que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele
+parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
+novo ele se punha a caminhar.
+
+Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro,
+que o eco levou para longe.
+
+--Não gastes pólvora, António!--recomendou o pastor.--Ouviste?
+
+E logo a voz do guardador:
+
+--Madrugas hoje, Gonçalo!
+
+--P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.
+
+--Está bem. Adeus!
+
+--Saudinha.
+
+A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia
+a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
+feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se
+nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
+altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra... Neste assomo
+de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
+vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
+repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
+e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços.
+De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens
+secas, onde algum réptil passasse vagaroso.
+
+--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.--Busca,
+valente!
+
+À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se,
+mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
+se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de
+paciência,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
+intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à
+frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
+areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado,
+o Gonçalo desabafou:
+
+--Uff! até que enfim!--E pensava aliviado:--Nada mais fácil do que
+terem-me saído os lobos!...
+
+Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida
+tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
+aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
+luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em
+tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda
+acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
+Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era
+um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
+descuido involuntário--simples remadela pouco a tempo, manobra menos
+segura de leme, ou impulso errado de vara.
+
+E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
+leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
+sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
+limitada a paisagem.
+
+A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e
+manso, e sem o mínimo ruído.
+
+Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
+pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.
+
+--Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada...
+
+E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:
+
+--Ora se será ela?...
+
+Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um
+clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
+quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
+
+--Ai, se fosse a Rosária!... dizia consigo.
+
+E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente
+à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.
+
+«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser
+outro que não a Rosária...»
+
+Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
+ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
+pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
+flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.
+
+No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:
+
+--Eh lá, Gonçalo, és?
+
+O pastor desatou a rir.
+
+--Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!
+
+E logo a voz fresca da rapariga lembrou:
+
+--Não te esqueceu a moda, rapaz!
+
+--Isso esquece ela!... Ouviste, Rosária?--Se outra fosse que ma
+tivesse ensinado...
+
+Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
+ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:
+
+--Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?
+
+--Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã?
+
+--Basta!
+
+E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a
+pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
+construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de
+parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
+bravas.
+
+A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor
+Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
+coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
+com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
+era como um talismã precioso para livrar de maiores
+desgraças--naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles
+caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.
+
+Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual
+seguida do seu rebanho.
+
+--Ora viva a Rosária!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da
+cachopa.
+
+--Bons dias, Gonçalo; então que ventos?
+
+Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o
+que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
+feira dos Caniços.
+
+--Por sinal que nem rês se vendeu!--lembrou o Gonçalo.
+
+--Por sinal!--disse com pena a Rosária.
+
+Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
+a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de
+sonhar! Nanja ele...»
+
+--Mas se eu estive tão doente!--volveu triste a Rosária.
+
+E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:
+
+--Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
+mesmo lume desde manhã até ao escurecer... Uma assim!
+
+E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
+febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
+como agora tinha acontecido, «tal e qual».
+
+--Assim te Deus salve, ó Rosária?--atalhou rápido o pastor, a quem
+enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.
+
+--Assim; pois que dúvida?--tornou-lhe confiada a Rosária.
+
+--Não!--disse agastado o Gonçalo.--Não hás-de dizer assim... Diz certo,
+hás-de jurar direito.
+
+--Pois assim me Deus salve...
+
+--Como é verdade...--Diz tudo, Rosária!--suplicava o pastor.
+
+--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como é verdade que sonhava
+que nos encontrávamos--concluiu por fim, muito risonha.
+
+E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também
+não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que
+ela lhe tinha ensinado.»
+
+--Lembras-te?
+
+A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de
+sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:
+
+--Saem daqui sem falhar uma.--E resoluto:--Vá feito, Rosária, pede por
+boca!
+
+A Rosária pediu então a _Pastorinha_.
+
+--Eu é da que mais gosto,--explicou.--É a mais linda.
+
+--E é!--concordou o Gonçalo.--Ora escuta lá.
+
+E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
+Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:
+
+Onde _vás_, ó Pastorinha,
+Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé...
+
+--Sabes essa! É mesmo assim!--disse-lhe a Rosária a rir-se.
+
+--É como vês!--afirmou contente o Gonçalo.
+
+Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
+confundidos, andavam na pastagem.
+
+--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonçalo.
+
+--Também nós nos quedámos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As
+pobres dão-se bem, são amigas...--continuou com júbilo.
+
+--E nós também, ora também, Rosária?
+
+--Também--respondeu afoita a pastora.
+
+E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.
+
+ * * * * *
+
+A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
+o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
+cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
+despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
+perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
+tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
+asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
+à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
+recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
+era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
+gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
+vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
+de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
+viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
+taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
+nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
+ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
+almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
+imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
+para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o
+rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
+e continuavam conversa.
+
+Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
+trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se
+lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
+Rosária...
+
+--Mas o cabelo assim cortado...--disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça
+nua, e passando a mão pela dele,--é que te não fica bem!
+
+«Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
+mais, que era como ele gostava...»
+
+--Promessa da mãe se eu melhorasse--explicou a Rosária--Lembranças... A
+gente quando está aflita...
+
+--...Quando está aflita...--repetiu como um eco o pequeno. E depois,
+amuado:--Se promete os olhos...
+
+A rapariga fitou-o, espantada.
+
+--...é porque tos tirava!--concluiu convicto.
+
+Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão
+com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido
+grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
+na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.
+
+--Não falas, Rosária?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para
+ela.
+
+--Também tu...--começou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a
+lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!--E depois
+animando-se:--Já foste à Senhora dos Remédios?
+
+O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.
+
+--Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado
+do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.
+
+O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
+para acabar com ela:
+
+--Que enfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a
+girar.--Olha como dança...--E depois, mais pensativo, batendo com o
+bilro nos dentes:
+
+--Que às vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem
+fez este bilro?
+
+--Foste tu, aposto.
+
+Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho
+orgulhoso--«que visse os _torneados_.» Depois continuou:
+
+--Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
+santos!--Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e
+bem promessas fez, mas ela foi-se.
+
+E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.
+
+--Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar... Pois
+era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.--E deitando-se para
+trás:--Lá anda ela a pastar!--concluiu desalentado.
+
+--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosária,--que as promessas
+sempre fazem, lá isso...
+
+E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
+de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
+jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os
+joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
+subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
+se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia
+entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
+firme na sua objecção:
+
+--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!
+
+ * * * * *
+
+À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois
+conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da
+estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
+foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
+depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
+conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
+passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que
+nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.
+
+--Olha lá não caiam,--tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à
+espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se eles
+fossem tolos...
+
+E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela
+então propôs que jogassem a pocinha.
+
+--E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
+tarde, bato-me com qualquer, sabias?
+
+E generoso:--Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta...
+
+Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a
+bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia
+buscar o pauzinho, quando zinia longe.
+
+--Turco, traz cá!
+
+ * * * * *
+
+No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu
+azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já
+começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se
+ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim
+tão viva a areia branca das margens.
+
+Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
+ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
+olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:
+
+--Mas olha o que prometeste... Inda vais feita no que disseste?
+
+«Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
+o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»
+
+--E o mais, ó Rosária?--perguntou de novo com interesse.
+
+A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
+respondeu:
+
+--Também.--E sorriu-se.--Pois eu...
+
+Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal
+de partida, assobiando aos cães.
+
+Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
+ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
+areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
+tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.
+
+--É bonito!--fez notar o pastor.
+
+A Rosária explicou logo:
+
+--São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias?
+
+Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente
+as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
+serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista,
+enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia
+ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau,
+muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água
+serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
+guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro--«boas tardes!
+boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
+do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
+carregados, tilintando campainhas.
+
+--Adeus pequenos! cumprimentou.
+
+--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos.
+
+E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
+confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo
+ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos
+chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música,
+fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada...
+
+Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
+então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente
+a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar.
+
+--Vês além... neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?
+
+A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:
+
+--Então é ali?
+
+--Ali mesmo--volveu-lhe já de marcha.
+
+E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
+repetiu-lhe muito contente:
+
+--É mesmo além.
+
+Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço
+que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.
+
+--Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
+cavalo.
+
+E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então
+saber:
+
+--Estás triste, ó Rosária?
+
+--Triste... não. Já agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa.
+
+--Huum! Arrependeu-se...--volveu consigo o pastor.
+
+ * * * * *
+
+Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
+dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
+azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
+apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem:
+estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.
+
+Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o
+colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
+os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
+formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
+indefinido do céu.
+
+--E os lobos?--perguntou a Rosária com medo.
+
+--Não há perigo--tranquilizou-a o Gonçalo.--Isso é lá com os cães.
+
+ * * * * *
+
+Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos
+chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir
+profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
+Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
+num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
+deixaram adormecer,--quando a história das moiras encantadas ia no seu
+melhor episódio...
+
+E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem
+mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
+crianças...
+
+Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu...
+
+--Bonito dia, Gonçalo!
+
+--Bonito dia, Rosária! Olha...
+
+...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
+voando...
+
+
+
+
+SULTÃO
+
+(Copiado do Natural)
+
+_Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_.
+
+
+I
+
+
+Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
+andar um dia inteiro a mourejar no campo.
+
+--Meus pecados, boa tarde!--dizia ele para a mulher, com um sorriso a
+afectar seriedade.
+
+Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.
+
+--Deus te abençoe.
+
+--Pai, olhe que o «Sultão»... ia a dizer o pequeno.
+
+--Bem sei! atalhava logo o Tomé.--O «Sultão» é um maroto e tu és outro.
+
+E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
+_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
+gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
+resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:
+
+--É que por este caminho não tenho um dia descansado... Nem uma hora...
+
+Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.
+
+--...Pois vamos já que já era tempo... Porque p'ra mim há-de chegar... A
+modos que vou já cansando...
+
+Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
+Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava
+sem ir campos fora, madrugador como um melro.
+
+--Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os
+ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.
+
+Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
+cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
+que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.
+
+Costume velho do Tomé:--mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia
+logo para o filho:
+
+--Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão».
+
+O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
+nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
+contente, dizendo cá da rua:
+
+--«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»!
+
+No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
+baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
+riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de
+pálpebras pestanudas...
+
+E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
+pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,--um grande riso de
+alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».
+
+Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
+Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
+quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e
+impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono...
+
+Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
+então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e
+desdenhoso jumento--o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra
+a navalha de _meia-lua_:
+
+--Então, «Sultão», não vens?
+
+--Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
+envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
+imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
+na soleira, zap!
+
+--Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.--De mal comigo?
+
+E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à
+vontade...--que não fosse vê-lo o «Sultão»... Metia entre dentes um
+pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas
+na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:
+
+--Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo?
+
+O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
+fazendo-se humilde...
+
+--Então se és, anda daí. Olha...--E mostrava um pedacito de pão.--P'ra
+ti se vieres...
+
+O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
+o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
+rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe
+não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um
+cigano, entrava a tratá-lo por senhor--_sôr_ «Sultão»...
+
+Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
+baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
+da arrelia.
+
+Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir
+como um perdido.
+
+--Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras,
+o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.
+
+No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
+o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o:
+
+--Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez
+que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te!
+
+Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
+focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
+oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
+superior, a tremer, e roubava-lho da mão.
+
+Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
+estrídulas.
+
+--Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.--Até pareces
+doido!
+
+--Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
+o Tomé, nuns grandes gestos.--Vamos que eu lhe não queria dar da
+merenda? Ladrão, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque.
+
+Era precisamente o que o Tomé queria:--ver o «Sultão» a brincar.
+
+...Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
+lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
+consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis
+causticantes e chuvas torrenciais.
+
+Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
+«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento,
+ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos
+numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
+cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
+rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
+cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos
+postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se
+inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo
+atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o
+mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria
+rua... E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
+todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta
+espavorida dos inimigos...
+
+--«Sultão»! eh lá! «Sultão»!
+
+Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
+volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe
+desse na bolha atacá-los... E abriam alas de repente, quando ele,
+tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não
+deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
+já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
+estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se
+acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde
+se deixava cair,--derrotado!
+
+--P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés,
+desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir
+como um perdido.
+
+Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
+girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda
+no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos
+rapazes o aviso de se arredarem--«porque era doido, aquele demónio»!...
+
+Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito
+cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão,
+certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
+saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da
+viandante.
+
+--Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de
+zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
+verdasca:--«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.
+
+E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele,
+muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde
+de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
+preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde
+prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
+passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada
+ganhava o terreno perdido--fitando impassível o cão... O bruto formava
+então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a
+primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
+por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
+coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:
+
+--Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé.
+
+E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
+ao correr a caravelha:
+
+--Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve!
+
+E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem
+primeiro descer a ver o «Sultão»,--de candeia na mão esquerda, e na
+direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada.
+
+Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia
+atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
+tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:
+
+--Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.
+
+E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que
+falou,--história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
+que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
+desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:
+
+--Boas noites!
+
+ * * * * *
+
+Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao
+cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a
+mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
+enorme--gelada...
+
+--Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.--Ó Josefa!
+
+A mulher assomou à janela, sobressaltada.
+
+--Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!
+
+--Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita.
+
+--O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram!
+
+E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos
+três na gritaria, defronte do cortelho vazio:
+
+--À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei!
+
+Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na
+peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.
+
+Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
+ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:
+
+--Nada!...
+
+
+II
+
+
+Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
+eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
+embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da
+última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
+ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar,
+esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
+Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
+além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
+castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
+igreja, as paredes caiadas da escola.
+
+A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o
+aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
+«medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
+estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
+«medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que
+brincava, os da lavoura descansavam--vermelhos da soalheira intensa de
+todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados
+os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem
+a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
+fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
+todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
+dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no
+meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
+ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»--visto
+que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
+mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
+«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
+varrendo em roda num afã... Em certo ponto, carros vazios; um além, de
+altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
+atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
+estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
+gigantes.
+
+Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
+bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
+oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão
+encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme
+corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras,
+sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
+monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam,
+submissa...
+
+Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
+cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da
+farta colheita do Tomé da Eira.
+
+--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.--A primeira
+da aldeia!
+
+--Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de
+dizer, muita palha e pouco grão...
+
+E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as
+mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens,
+repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.
+
+--Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
+grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí
+alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
+Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está
+bem.
+
+E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito,
+loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
+dormir...
+
+--Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma,
+que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz aí no chão esse
+«rasouro», ó coisa?--Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que
+fiquem bem atados.
+
+O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
+ar, se era preciso mais alguma coisa.
+
+--Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
+Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
+deixa ir os animais a passo. Vai-te.
+
+Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:
+
+--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
+bois para o lameiro.
+
+Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:--«seria preciso vir por
+eles?»
+
+--Não vale a pena, lá irão.
+
+E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
+levava, aqueles dois sacos...
+
+--Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?
+
+«Eles sabiam lá?... Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»
+
+--O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
+que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!
+
+Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe
+passava nem à mão de Deus Padre!»
+
+--A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé?
+
+Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se
+todos--«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
+a cavalo.
+
+--Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
+pálido.--Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele...
+
+Recordaram:--«estrela malhada na testa, a mão direita branca»...
+
+--É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão!
+
+E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
+de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à
+estrada.
+
+Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:
+
+--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
+a alma lhe deixa! Acudam!
+
+Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as
+bandas da eira, os cães ladravam.
+
+--Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já
+agarrados a ele.--Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
+Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo!
+
+--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
+mais a vocês, se me não largam! Arreda!
+
+E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao
+cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.
+
+--Vê, Sr. Tomé?!
+
+«Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de
+ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos
+tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.
+
+--Abaixo! intimou.--Você é um ladrão!
+
+--Um quê?
+
+--Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife!
+Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!
+
+E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
+e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
+raso--«com seiscentos milhões de diabos!»
+
+Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.
+
+--Já lhe disse que você é um ladrão!
+
+--Ladrão será você!--tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
+cerrados.--E não mo diga outra vez, que o racho!
+
+Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
+capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
+tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
+bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
+pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
+agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.
+
+Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--«tinha-o
+comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado...»
+
+--Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.--O homem não tem culpa.--E
+gritavam-lhe aos ouvidos:--Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
+Vês--aí está!
+
+--Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.--Mente!
+
+--Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.
+
+--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé.
+
+De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má
+cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então,
+abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
+amainou,--prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a
+pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
+camarinhas.--«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»
+
+Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas
+punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de
+resolver...»
+
+--Serve-lhe o contrato?
+
+--Qual contrato?
+
+--Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas.
+Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as
+bandas donde você vem... Você donde vem?
+
+--Dos Casais.
+
+--Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu...
+
+--E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,--concluíram alguns do
+grupo, conciliadores.
+
+--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.
+
+Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o
+burro tomasse para a aldeia... Vinha de tão má vontade, que até lhe
+custara tirá-lo de casa.
+
+--Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os
+Casais...--afirmou.
+
+--Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo
+dito?--quis saber o Tomé.
+
+--Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro
+num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.
+
+Ia já a abrir a boca para dizer--«uma!»
+
+--Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
+festas ao animal.
+
+E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
+pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.»
+
+--«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!
+
+O burro estremeceu... Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a
+lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente...
+
+--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
+p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!
+
+E afastou-se para o lado, aguardando.
+
+Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a
+roer as unhas, nervoso...
+
+--Então você porque espera? perguntou.
+
+Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:
+
+--À uma!...
+
+O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
+esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita...
+
+--...às duas!
+
+--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Tomé.
+
+E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.
+
+--...às três!
+
+Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
+gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que
+o caso era para foguetes.
+
+--Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro!
+
+--Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!--emendava o Tomé a rir.
+Tenho-os com dois pés, que não valem metade...
+
+--Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns.
+
+--Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa... Está visto que
+não é com vocês.
+
+E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria
+que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
+fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
+de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
+agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais...
+
+Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
+palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à
+porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap»
+contínuo na soleira.
+
+--Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó
+António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!
+
+Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo.
+
+--Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
+Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma.
+
+Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador.
+Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
+alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
+homem teria endoidecido...
+
+--Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São
+só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
+avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.
+
+E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
+pulo.
+
+--Ah!
+
+A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão.
+
+--Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te.
+
+Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho,
+qualquer coisa de tomo...
+
+--Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
+aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.
+
+--Nome do Padre...
+
+--Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!
+
+--Nome do Padre, nome do Filho...
+
+--A caneca! Venha de lá agora a caneca!
+
+--...nome do Espírito Santo!
+
+--Passa bem, ó mulher,--concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas
+dos demais.--Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
+manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!
+
+E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente:
+
+--Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
+«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
+não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.
+
+E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
+direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa
+corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».
+
+--Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
+andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se!
+
+E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de
+vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.
+
+ * * * * *
+
+Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio
+dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão--sem pinga...
+
+Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido,
+num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas.
+
+--Colheita rica, sim senhores, um colheitão!
+
+E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
+remexendo o alguidar de barro:
+
+--Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.
+
+...Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando
+as sopas:
+
+--Ámen!
+
+
+
+
+ÚLTIMA DÁDIVA
+
+_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.
+
+
+Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
+belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças,
+fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
+com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
+pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a
+nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia
+gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
+janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
+lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.
+
+De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
+melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia
+toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto
+de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a
+feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela
+deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua
+simplicidade.
+
+No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
+paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra
+que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob
+o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa
+resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
+e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.
+
+--Ó tio José!--gritavam-lhe do caminho.--Tio José! Ó regalado!
+
+Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses
+deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.
+
+Ora na verdade!... Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
+não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
+cultura--tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
+de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável,
+verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
+castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
+acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que
+enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
+esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos
+feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para
+aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
+das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
+estações competentes--cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.
+
+Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
+lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
+cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
+por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
+goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
+ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.
+
+Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre
+visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
+bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
+chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias
+todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma
+dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
+morrido... E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo
+que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a
+suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria
+sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato.
+Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um
+gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo
+gemido, e punha-se de novo a andar.
+
+--Vens ou não vens?--perguntava ele, evocando com dorido esforço a
+imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se
+fosse um relâmpago, apagava-se logo.
+
+Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde,
+talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar
+nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite,
+apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.
+
+Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
+viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto
+onde a sombra era mais densa.
+
+--Temos história...--resmungou consigo o rapaz.
+
+E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou
+que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali
+fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou
+duas, para o caso de não acertar a primeira.
+
+--Cão do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
+pedra.--Espera que eu te arranjo...--E já ia arremessá-la na direcção do
+canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
+lugar onde o rapaz estava.
+
+--Melhor! Mais a jeito ficas...
+
+E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava,
+para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
+ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
+defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
+O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter
+ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
+filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros
+por onde elas tinham andado.
+
+Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
+deixou cair as pedras e perguntou:
+
+--Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís... Vossemecê que tem?
+
+O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:
+
+--Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?
+
+--Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
+Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai.
+
+O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José
+Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado
+agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
+a pedrada.
+
+No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não
+fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário,
+ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo.
+Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
+sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que
+passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.
+
+--Ó Tomás!
+
+--Sr. José!--respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de
+barqueiro.
+
+O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
+beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele
+então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.
+
+--Como tinha de madrugar...
+
+--Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda
+que comece a amanhecer.--E como estavam à porta de casa:--Será bom
+acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.--Iam à vela
+se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.
+
+Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
+sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
+violentamente.
+
+O barqueiro tentou animá-lo, constrangido.
+
+--Então, Sr. José?... O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
+homem!--E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.--Limpe lá essas lágrimas, que
+vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?
+
+O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os
+olhos com a manga da camisa.
+
+--Pois então levante-se lá.--E segurou-o com força por baixo dos
+braços.--Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique
+vossemecê a pensar que o não torna a ver.
+
+Mas era isso mesmo o que ele pensava...
+
+--Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno--concluiu
+a chorar o José Cosme.
+
+--Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de
+vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,
+aparece-lhe aí rico...
+
+Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava
+era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.
+
+Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que
+se animasse para animar o pequeno--recomendava o barqueiro.
+
+--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026.
+
+E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a
+pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser
+desgraçado até que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde
+cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe
+tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe
+se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade
+daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era
+quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto
+paterno... O último sono! o último sono!
+
+--Ainda se o deixássemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste.
+
+Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de
+pôr o barco a andar.
+
+O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o
+acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração.
+Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
+baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse
+praticar um grande crime:
+
+--Filho, olha que são horas, meu filho...
+
+Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
+estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da
+luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.
+
+--Adeus, pai!
+
+--Adeus, filho!
+
+Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar
+aquele abraço.
+
+--Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!
+
+O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do
+alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.
+
+--A andorinha, filho?--perguntou o José Cosme.--Deixa que eu hei-de
+olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.
+
+Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um
+instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
+tocou com as pontas dos dedos...
+
+--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a.
+
+A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo
+seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda
+a bagagem do Joaquim.
+
+Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
+soluçando:
+
+--Quando voltarás ao horto, meu filho?
+
+O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
+de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as
+árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.
+
+Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
+sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
+húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava
+que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de
+modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
+divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
+falavam alto.
+
+--Pronto?--perguntou ainda de longe o Tomás.
+
+Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.
+
+Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos
+dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
+angústia, pelo deslizar monótono das águas... Aquilo confrangia o
+barqueiro, ele também era pai... Por isso, mal chegaram à beira do rio,
+apressou-se a dizer para o pequeno:
+
+--Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus.
+
+Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
+o filho:
+
+--Então, meu filho?... Deus te abençoe, meu amor... Nossa Senhora te
+veja ir.--E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,
+ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a
+gente feliz.
+
+--Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã...
+
+Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai,
+beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
+Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
+desvairado:
+
+--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!
+
+E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas
+mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por
+uma vez.
+
+--Com'assim, Sr. José, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com
+força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
+Cosme que suplicava de mãos postas:
+
+--Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!--E o pobre pai caía de
+joelhos na areia, numa atitude de súplica.
+
+Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
+ao colo a criança.
+
+--Rema!--intimou em voz rápida.
+
+O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
+_plhau_! sobre a água.
+
+Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao
+ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.
+
+--Adeus, Joaquim, adeus!
+
+--Adeus, pai!
+
+--Adeus!
+
+Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
+direcção do barco:
+
+--Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante.
+
+Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor
+ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
+arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás
+que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
+velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de
+pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai,
+de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou
+ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:
+
+--É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!...
+Reza-lhe, sim?!
+
+E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
+chegasse o pequeno para o último beijo...
+
+Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a
+lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
+em região misteriosa de lágrimas... E no silêncio agoireiro da noite,
+apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado
+do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
+longe--longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai--com o seu
+fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno...
+
+ * * * * *
+
+...Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância,
+diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas,
+fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à
+praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
+tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo,
+na direcção do horto silencioso...
+
+
+
+
+COMÉDIA DA PROVÍNCIA
+
+_A Alberto Braga_.
+
+
+I
+
+PRELÚDIOS DE FESTA
+
+
+Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A
+começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e
+decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
+festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
+de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
+representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
+entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
+tivesse tempo de o acabar.
+
+--Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E
+correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_
+fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da
+Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
+uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!
+
+--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botões o
+António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
+arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
+apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém
+falava noutra coisa.
+
+--Então você já sabe?
+
+--Já sei. A cegonha.
+
+--A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro...
+
+--O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?
+
+--Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei
+Arauto Fiel_.
+
+Enganava-se.
+
+O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
+aferidor.
+
+--Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver
+arder.
+
+O outro não percebeu. «Que se explicasse...»
+
+--Um urso, no arraial queima-se um urso.
+
+--Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Também se lá
+queima um burro.
+
+Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
+ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
+predilecção.
+
+O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
+dentro.
+
+--Põe a tranca, se for preciso.
+
+Mas então era cá da rua:
+
+--Ó Sr. António!
+
+E na porta as pancadas ferviam:
+
+--Truz! truz! truz! Sr. António!
+
+--Éna! c'um raio de diabos!--fazia lá de dentro o homem, furioso.
+
+--O senhor faz favor? É só uma palavrinha.
+
+À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do
+nariz e a carta do foguetório na mão.
+
+--O camelo? perguntava zangado.--O urso?! Camelos me parecem vocês,
+ouviram? O que o homem diz é isto.
+
+E lia a carta, rematando:
+
+--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
+macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava
+os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra!
+
+E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
+fosse ele burro... Mesmo porque cada um começou logo a inventar
+animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí
+tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
+José da Loja.
+
+--Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com
+aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
+tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio...
+
+--Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!
+
+--Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
+soube.
+
+E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
+rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
+proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
+Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar
+montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de
+preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou
+lendária:
+
+--Como-te a alma se te mexes!
+
+--E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam
+convictos.
+
+Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
+figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com
+60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era
+nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
+largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto.
+Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força,
+conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.
+
+--Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?
+
+Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para
+se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma
+testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira,
+foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando
+prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:
+
+«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
+como o pintavam.»
+
+--Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
+Fagote. Do que ele é capaz sei eu.
+
+Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
+lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!
+
+Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz
+este ano.
+
+--Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa
+em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
+«entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas...»
+
+--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se «das ideias do seu
+António.»
+
+--Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
+assim me Deus salve!
+
+--Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?
+
+--Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.--Foi
+este mindinho. Não falha.
+
+E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
+levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de
+arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei
+quantos andores, acho que meia dúzia!»
+
+--Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem!
+Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
+corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
+olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de
+ver assim o seu António.
+
+E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava
+farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
+atar das sangrias!»
+
+--Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por
+esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.
+
+A mulher contraveio:--«dois seriam bastantes...»
+
+--Mau que aí principiamos nós!--E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé
+no soalho, arreliado.--Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque
+dois eram os do _outro_, o ano passado.
+
+A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da
+mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.
+
+--Agora não fanfas tu... insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu
+gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti.
+
+A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.
+
+--Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.
+
+--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
+de casarem...
+
+--E olha que depois de casada... insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar,
+enfiando a agulha. Cala-te boca.
+
+Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou.
+Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo
+porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da
+Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a
+vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou
+conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação
+lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas...
+
+--É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António
+Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.
+
+Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De
+mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de
+vitela assada.
+
+--O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para
+um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que
+ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!
+
+--A mim o devem, se cá vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
+queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e
+14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.
+
+--Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário...
+
+Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.
+
+--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.
+
+Era a criada da mestra régia, foram abrir.
+
+--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a
+Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.
+
+Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi
+acender uma luz.
+
+«Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.»
+
+--Muito calor, começou a Sr.^a Luísa.
+
+--E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
+a criada.
+
+E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que
+lhe queria uma palavrinha.
+
+Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa
+serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.
+
+--Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa.
+
+--Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
+um favor, disse atrapalhada a criada.
+
+--Se estiver na minha mão...
+
+A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela
+com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
+Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
+mentira.»--Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os
+papéis lá da terra, não podiam tardar».--Está claro que eu tenho
+afeição ao rapaz...
+
+--Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para
+dizer alguma coisa.
+
+--Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero
+chegar.
+
+--Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso
+nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.--E
+dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
+para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.
+
+--Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via
+disso que eu lhe quero pedir um favor.
+
+Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:
+
+--Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
+qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele
+estado! inda não há nada que saiu da cama.
+
+--Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa
+a Sr.^a Luísa.--Muito longe!
+
+--Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem
+eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina
+e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!
+
+Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é
+que ela não sabia.
+
+--A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais
+os mordomos. Não ouvi.
+
+--Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que
+o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,--suplicou aflita a
+rapariga.
+
+--Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade
+a Sr.^a Luísa.--Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada...
+
+--Era só isto, muito agradecida à senhora.
+
+Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a
+testa.
+
+--Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que
+desculpe. Mas enfim que leia como puder.
+
+--Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga.
+
+--Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
+os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já
+hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.
+
+--Chh! fez admirada a rapariga.
+
+--Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma
+pausa:--Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa
+de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
+uma horta, além no prado.
+
+--Muita gente... disse a rapariga.
+
+--Muita! e depois de certa aquela... À mesa talvez vinte e quatro
+pessoas...
+
+A rapariga benzeu-se!
+
+--Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António
+Fagote.--Olhe: o pregador...
+
+--Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.
+
+--É. Não o há melhor. Missionário...--explicou o juiz. Pois o pregador,
+um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre,
+os pequenos, dois, doze.
+
+--A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa.
+
+--Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
+António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze.
+(_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
+mais de vinte e quatro pessoas à mesa.--E a rir-se: Mas há-de sobrar
+muita coisa, graças a Deus... E depois os pobres?
+
+--Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do
+chão assim... E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
+Assim...
+
+Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--«Adeusinho! o que havia de
+estimar é que tudo corresse como desejavam.»--E se for preciso qualquer
+coisa... ofereceu-se. As minhas fracas posses...
+
+--Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora
+mestra...
+
+--E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António
+Fagote.
+
+E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
+perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».
+
+--Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo
+no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
+ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.
+
+A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.
+
+--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é
+homem que sabe dar o merecimento às coisas... Mas o diabo agora é o
+macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera
+do macaco...
+
+A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
+bicho não viesse.
+
+--Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--Dá cá
+daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.
+
+--Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não,
+aquilo já está fechado, o fio.
+
+--Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
+acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via
+das dúvidas.
+
+Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:
+
+--Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.
+
+--Hã? qual pau?
+
+--O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.
+
+Ele riu-se.
+
+--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...
+
+E como ela ficasse estupefacta.
+
+--Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o
+vinho noutra?
+
+--Ah!...
+
+--Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou,
+satisfeito:
+
+O ladrão do negro melro
+Onde foi fazer o ninho
+
+ * * * * *
+
+Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o
+António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.
+
+--Vai lá ver o que será, ó Luísa!--disse da cama o Fagote sobressaltado.
+
+Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.
+
+--Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.
+
+--Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.
+
+--Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.
+
+--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?
+
+--Pior do que isso! resumiu o José Manco.
+
+--Pior do que isso, então não sei...
+
+--Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.
+
+O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
+de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
+chapéu.
+
+--Pronto! cá estou!
+
+--Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.
+
+E rodaram rua acima.
+
+--Diabo! mas então...? ia perguntando o Fagote.
+
+--Aguarde, que já vai saber. Não tarda.
+
+De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.
+
+--Roubaram Nosso Pai, aposto?!
+
+--Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos
+e veja vossemecê isto, esta porcaria!
+
+E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
+na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários
+desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
+coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farófia_!
+
+Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se,
+com os olhos fitos no papel.
+
+E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
+escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.
+
+--Hum! resmungou. Bem sei...
+
+--Não tem que saber,--fez o outro.
+
+--O patife do José da Loja...
+
+--Pois está visto.
+
+--Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
+Fagote.--Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.
+
+O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
+era melhor botar o patife ao desprezo.
+
+--Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e
+metendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim!
+
+Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
+arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom
+semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com
+ele José Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de
+burro não chegam ao céu».
+
+--Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto,
+disse num grande ar de condescendência o Fagote.--E você vá lá regar a
+horta.
+
+Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
+Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
+daquela demora.
+
+--Grande cão! grande cão! monologava.
+
+Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
+casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António
+Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a
+porta.
+
+--Ó Sr. José.
+
+--Dirá.
+
+--Venho aqui saber de um caso.
+
+Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé
+da cara:
+
+--Foi o Sr. José que fez isto?
+
+O outro olhou-o, atónito.
+
+--Sim! se foi o Sr. José que fez isto?
+
+--Nada, eu não senhor.
+
+--Jura pela boa sorte dos seus filhos?
+
+Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.
+
+--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.
+
+O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:
+
+--É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.
+
+--É outro, que outro?!--disse arrogante o José da Loja, num ímpeto,
+barriga panda sob o casacório de lona.
+
+--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu
+também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e
+atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.
+
+Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
+cumprir uma obra de misericórdia.
+
+ * * * * *
+
+Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro
+passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das
+Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.
+
+--O fogueteiro! chegou o fogueteiro!
+
+Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o
+foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
+O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
+a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
+ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da
+festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas
+as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr.
+fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
+que queria para o jantar.
+
+Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
+perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
+um foguete.
+
+--Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
+senhor! prometia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!
+
+--P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a
+girar de volta com o braço--o que é fogo do chão?--Mas tinha-se visto em
+calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
+tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
+caso tinha estado sério!
+
+Mentia.
+
+--Hein? mas não o enganavam?
+
+--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as
+eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!
+
+O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da
+rua:
+
+--Senhor abade! ó senhor abade!
+
+--Que é lá?
+
+--Chegue à janela, faz favor?
+
+--Mas está muito sol, entre você, se quer.
+
+--Só duas palavras:
+
+O abade, um rapaz novo, assomou à janela.
+
+--Que é?
+
+--Chegou o homem!
+
+--O homem! que homem?
+
+--O fogueteiro, quem há-de ser?
+
+--Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?
+
+--De cara.
+
+--Faz-me então um favor?
+
+--Dirá.
+
+--Dê-lhe recados meus.
+
+E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no
+seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
+aquilo tinha sido o fogueteiro.
+
+--Grande homem! com seiscentos diabos!
+
+Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
+machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
+fogueteiro, com fúria.
+
+--Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
+amigo, seu grande amigo».
+
+--Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito
+solene.--Viva o senhor fogueteiro!
+
+--Viva!
+
+...Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
+que o António Fagote--chorou!...
+
+
+II
+
+TIPOS DA TERRA
+
+
+Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,--«_a
+praça_.»--Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo
+olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
+grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
+com casas em volta,--o que na vila havia de melhor em construções.
+Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e
+muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
+ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
+sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num
+grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
+três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
+_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
+sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
+decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias
+remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
+chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
+tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas.
+Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio,
+de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
+sete: aquele--«_estafermo_»--é que não andava nunca direito. De dia
+ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
+sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
+alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
+dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
+o sol.
+
+Eram as sete. Àquela hora é que os--«_figuros_»--da terra, quase tudo
+empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns
+passeavam,--seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à
+banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
+outros do mesmo feitio cavaqueavam,--coletes desabotoados, perna
+cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no
+degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente,
+chamavam-lhe intrujão. Algumas--«_madamas_»--pelas janelas em volta,
+nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia
+outra roda,--uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
+cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quase tudo maiores
+burocratas:--o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão
+de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e
+muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua
+cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
+feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado
+quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
+levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele
+num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
+ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:
+
+--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
+lanço fora.»
+
+E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em
+tais coisas... De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,--um
+poucochinho beato,--diziam-lhe.
+
+--Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
+a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.
+
+E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados,
+um poucochinho sibiladas nos _ss_.
+
+--Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima,
+desses fortes.
+
+Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham
+chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém.
+
+--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
+vintém por oito cigarros.--Guarde-os!
+
+«O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por
+eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»
+
+--Olha o figurão!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito
+idiota! forte cavalgadura!
+
+O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À
+porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.
+
+--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
+outros.
+
+Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
+silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
+que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:--«alguém
+era servido?»
+
+Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de
+genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.--«E vão dois e dois
+quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
+receberia!»--E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar
+tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
+alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
+a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
+Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do
+ofício...
+
+Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao
+Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje não há
+dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
+pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o
+alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
+preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia...
+
+O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o
+regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
+sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.
+
+--Estender as pernas,--disse. Quem vem daí?
+
+Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela
+sensaboria da praça.
+
+--Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite?
+
+--Apareço, vou à desforra.
+
+E cumprimentando em roda:
+
+--Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.
+
+Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.
+
+--Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
+diga _bem-haja_...
+
+Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dívidas nos outros estancos.--Em toda
+a parte.--Lá em casa a família passava fomes.--Um batoteiro de marca.
+
+Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a
+passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
+novo, muito ronceiro, roendo as unhas.
+
+--Com que então... _ponha lá ao pé dos outros_?--disseram-lhe, para o
+lisonjear nos seus despeitos.--Bem bom freguês!
+
+Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
+de mártir resignado. E não disse palavra--p'ra falar daquele tinha de
+falar também deles...
+
+Mandaram vir limonadas,--três limonadas!
+
+--Aí vão trinta réis!
+
+Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a
+falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a
+dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,--e
+sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.
+
+O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
+onde grandes manjericões floriam:
+
+--Ó Emília! Emilinha!
+
+A mulher assomou, gorducha, muito mole.
+
+--Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.
+
+As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar
+uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
+grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
+agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,
+
+_Vai alta a lua na mansão da morte_
+
+com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
+antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
+tinha uma coisa boa--a caligrafia.--Um talhe de letra
+bonito,--confessavam.--E as calças, hein? reparem vocês naquelas
+calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
+do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos,
+muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota,
+palerma, pechisbeque...
+
+Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o
+Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes
+quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
+olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
+marcha, contrafeito.
+
+--Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele
+telhudo? E isto:--e pôs-se a imitar o escrivão.
+
+Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
+Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo
+em acróstico.
+
+--Isso é o Teles!--fez um que vinha da praça.--Aquilo é um intrujão.
+Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem
+daquilo que _ferve_?
+
+O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia...
+
+--Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas...
+
+--Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas...
+
+--Ora é isso mesmo, nem mais.
+
+--Bem sei.
+
+Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um
+tostão...
+
+--Eram aos três para beber uma garrafa...
+
+--Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_
+uma soda,--objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.
+
+--E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
+sujava tudo de escuma?
+
+Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
+seiscentos diabos!
+
+--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
+toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.
+
+E com um sorriso de desdém, exclamou:
+
+--O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...
+
+Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
+palavra--«_pulha_»--pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só
+três.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de propósito!
+Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
+súcia lhe chupava o refresco:
+
+--Tó Ruça! já lá vai esse tempo.
+
+Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:--Que
+provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia
+estar bom...
+
+Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para
+aquelas coisas.
+
+--Obrigado, ó Melo!
+
+--Obrigado, ó menino!
+
+E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
+e limpando os beiços.
+
+Quando o Melo ia sair,--a ver o que ia na praça,--o Ernestinho, muito
+cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:--Se ali não tinha,
+depois. Isso era o mesmo...
+
+--Mas trinta réis?!... De que são os trinta réis?--perguntou desconfiado
+o Melo.
+
+--Do açúcar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado
+acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.
+
+Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
+princípio.--E saiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Três
+vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...
+
+Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
+grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:--que lhe
+contassem--«_o escândalo_».
+
+Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
+correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
+Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
+é casmurro, teimou:--que não acreditava, ainda assim!--Vai o outro
+chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!
+
+--Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?--quis saber o Melo. Aquilo
+há-de ser escrito por alguém, está claro.
+
+Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam
+eles...
+
+--Quem, então?
+
+Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
+dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um
+que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.
+
+--Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse
+nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga...
+
+Mas o da ideia insistiu, renitente:--havia ali suas coisas que o faziam
+lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
+_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.
+
+--Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente
+como um alarve, mente da primeira linha até à última!--disse firmemente
+o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz
+de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
+pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.
+
+De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma
+infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
+coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
+havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura...
+
+Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.
+
+--Só de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
+as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas
+galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?!
+Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o
+homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
+fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa
+ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D.
+Engrácia, pobre velha...
+
+--A quem?--interrogaram uns poucos. À Dona quê?
+
+--À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã
+aos missionários é ela. Presumo eu que é ela--fazia o Nunes das
+correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde
+deitei.
+
+Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a
+crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser
+com a D. Joana, a do--«_chá de erva-cidreira_.»--Outra canalhice! A D.
+Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e
+penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se
+viu:--que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
+que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a
+pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
+correspondência. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu
+telegramas de... amor_.--Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença
+telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte... Que afinal, quem
+sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?
+
+No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:
+
+--Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria...
+
+Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.
+
+--Quando digo uma rapariga séria... Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_,
+vocês deixem falar,--tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma
+rapariga séria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a
+frase, entalado,--por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém,
+alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer
+fazer suspeitar.
+
+Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:
+
+--Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar
+franco.
+
+Saltaram-lhe:
+
+--E você jura, ó Nunes? você jura?--perguntou, com gesto perfurante, o
+Alves dos Pesos e Medidas.
+
+Não... isso agora...Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
+via, pelo que se podia julgar...
+
+--Léria!--disseram todos.
+
+O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então,
+para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
+uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!
+
+O Nunes observou modesto, quase agradecido:
+
+--Ingenuidade, eu te digo... Não é bem isso... O que sou é prudente.
+Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que
+está...
+
+--Vocês é um modo de falar,--emendaram alguns.
+
+--Vocês, digo eu, vocês... quando escrevem correspondências,--explicou
+sofisticamente o Nunes.
+
+Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com
+guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente.
+Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
+cumprimentá-las, submisso.
+
+--Dar o seu passeio, não é verdade?--E apertando-lhes a
+mão:--Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo.
+Assim... assim...
+
+Então? que diziam àquele calor?
+
+--Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!
+
+--O Brasil tal e qual--reforçou o Nunes.
+
+Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite
+de truz, aquilo sim!
+
+--Olhe, senhora D. Amélia, a flauta... a flauta é que nem por isso, foi
+pena! O Abelzito andava constipado.
+
+A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas
+noitadas.--E em voz mais baixa, quase dolente:
+
+--Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.
+
+--Não há tal!--fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar,
+senhor Nunes.
+
+E por pouco que não chorava ao dizer isto.
+
+O Nunes afectou um sentimento profundo:--Era melhor não falar nisso,
+não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
+acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma
+garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial:
+
+--Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois... e
+depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso
+dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lição!
+
+Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes--«a parte que tomava no seu
+desgosto.»--E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se
+vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.
+
+As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem
+aquele vestido à Amélia.
+
+Não podiam subir, talvez à volta.
+
+--Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase
+pronto, que trabalhão!
+
+Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
+risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
+Coisas de anjinhos:
+
+--Verás.
+
+Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
+vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,--homens com malhos, e
+mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No
+degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de
+chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
+zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
+formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.
+
+--Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,--dizia o Paula para o Francisco
+Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.
+
+O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo,
+afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula
+valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
+tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
+pedia a rir, boçalmente:
+
+--Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.
+
+E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era
+preciso, o Fernandinho ia pelo violão.
+
+--É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó
+Fernando?
+
+--Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes.
+Olhem que pergunta!
+
+Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.
+
+--Então, ó Paula...--suplicava o administrador.
+
+--Está fechado o realejo... Depois.
+
+Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou
+ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.
+
+--Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_
+se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo... Bem feito! «gramou» um
+entalão que se consolou.
+
+--Quatro coroas.--Na véspera tinha ganho um quartinho.
+
+Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o
+chapéu, ele passou gravemente, cortejando.
+
+--Quem eu te quero à perna é o _Aramis_...--rosnou o Teles escrivão que
+embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda ele não
+sabe tudo...--insinuava perfidamente.
+
+--Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em
+verso--fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.
+
+O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a
+analfabetos.
+
+--E eu a brutos, sabe você?
+
+Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício... Ó senhores,
+lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
+o outro. Pelo contrário.
+
+O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
+essa importância, essa honra.
+
+O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez
+seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
+tesas.
+
+--Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.
+
+Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
+o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras
+portuguesas,--ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.
+
+Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.
+
+--Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei
+que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
+verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
+não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo
+habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
+que mando para público sim, o que entrego aos prelos--é meu!--E batia no
+peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho
+triunfante.--Não roubo! nunca roubarei!--afirmou mais alto o
+Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois
+amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: não roubo, não faço como
+ele!--E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os
+lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.
+
+Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
+Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria
+dizer.
+
+--As provas...--e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
+ímpeto:--as provas, vê-las aqui estão!
+
+Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.--Era do ano
+que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho
+tinha entregado ele mesmo.
+
+--Sou testemunha--confirmou do lado não sei quem.
+
+O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
+em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se
+um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos--zás!
+versalhada para o _Lembranças_...
+
+--Era colaborador--disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de
+Teles.--Era colaborador.
+
+--Era quê?--interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da
+orelha.--Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as
+asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no,
+chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
+chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é
+ele. Nunca o admitiram.
+
+--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
+versos--insistiu o Antunes.
+
+O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Câmara. Não lhe
+respondeu. Subiu os três degraus do _pelourinho_, pausadamente, com
+pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanaque de
+Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:--«Indignidade».
+
+--Em letras bem graúdas, queiram inspeccionar.
+
+E colou ao peito o _Almanaque_, voltando para fora na página onde o seu
+dedo reboludo apontava a terrível palavra, escrita ao alto em
+epígrafe.
+
+Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse.
+
+«Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanaque de
+Lembranças_ do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria
+Teles, escrivão.»
+
+--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Ele
+depois assinou--e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma
+complicada do Teles.
+
+Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou:
+
+«Publicámo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois
+que ele os assinava.»
+
+--E então?--perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.
+
+--«Pura ilusão!»--continuou solenemente o Rodrigues.--«Escreve-nos o
+mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os
+versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume
+_Lira Matutina_.»
+
+Foi uma estupefacção! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos
+comentários:
+
+«Averiguámos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a
+probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa
+porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara--por indigno.»
+
+E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
+porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do
+braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene,--vingado!
+
+Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
+porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao
+Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!...--tinham dado uma
+sorte de mil demónios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro,
+por ocasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que eles
+tinham mandado imprimir avulso--para lisonjear o Teles que tivera o
+trabalho de os ensaiar no _Santo António_. Hein? quem diabo havia de
+dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos,
+chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase
+disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma
+insídia,--um logro à boa-fé, à credulidade ingénua de toda a comarca!
+
+E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho
+vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas,
+cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e
+com um «toco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser
+ele a despejar do _óculo_ aquela papelada; o Melo da administração,
+vestido de Frei António, sandálias e grande chinó de calva redonda,
+feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os
+bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hábitos de
+frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Teles,
+ensaiador da rapaziada!
+
+Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam
+da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora
+humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!
+
+O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança
+de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel
+Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os
+impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O
+homem--pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que
+se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que
+desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro.
+Arre! cavalgadura!
+
+E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico.
+
+--Mas a bem dizer, tudo isso é nada!--continuou comovido o Antunes.--Ó
+senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz naquele
+intervalo do drama para a farsa?...
+
+Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Ele sempre acontece cada
+uma! E relembravam:--levantara-se o pano quando os ouvintes menos o
+esperavam. Os que tinham sabido lá fora, às doceiras, voltaram
+apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um
+reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam
+senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos
+que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licor, um
+docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo,
+debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atónito.
+
+--Ele que dianho é?--perguntavam.
+
+De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima:
+
+--Caluda, sua gentalha!
+
+No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da
+recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo
+em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de
+coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia;
+a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Glória_, em que
+ela subira num cesto vindimo à «região sidérea dos astros»; o pai de
+Santo António, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como
+saíra do túmulo; aquela canalha da tropa--todos enfim!
+
+Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo
+vestido de Santo António e do Proença telegrafista que fazia de Frei
+Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta
+à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com
+grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo
+imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz.
+Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.
+
+Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião,
+durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um
+discurso na bochecha extática do Teles:
+
+«Não era ele o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no
+encarregado, obedecia... e tal. Só sentia não ter frases, oratória,
+porque enfim estava falando a um poeta...--colaborador do _Almanaque de
+Lembranças_ para Portugal e Brasil--acrescentou voltado para o público,
+esclarecendo. Enfim, finalmente... vinha para aquilo: dar-lhe um abraço
+em nome de todos...--e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores
+berravam _apoiados_, dando palmas--«... e para isto»--acrescentou
+fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.
+
+Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças gritavam--«ó
+Emilinha!» Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e
+Medidas, que saía também do buraco do ponto, vestida de anjo, tules
+verdes e muita lantejoula a brilhar.
+
+Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o
+Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da
+«melodia», ele fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu
+nuns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com música da _Muchagateira_
+original do Peres do correio.
+
+O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo António e a
+Frei Inácio:--Era de mais, era de mais, ele não merecia...--Ora essa!
+pareciam dizer-lhe os outros--seríamos ingratos se...
+
+A «cantoria» acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,
+um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir,
+cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas
+do tecto desabassem.
+
+Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer
+do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia
+vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da
+boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia
+dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos da
+cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O
+Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo:
+
+--Alto! suas bestas! Inda não!...
+
+Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a
+ombro dizia em caracteres amarelos--_C'est fini_! O pano desceu
+então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,
+não tinham percebido... Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que
+tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:
+
+--_É findo_!
+
+
+
+
+V[AE] VICTORIBUS!
+
+_A Maria Lucila_.
+
+
+Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a
+essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um
+pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima
+dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa
+de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros
+têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,
+agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar
+não sei que estranha elegia... A um relâmpago mais vivo, o José Gaio
+apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou,
+depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude
+do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento,
+encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não
+ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.
+
+--Vamo' lá com Deus! fazia ele animando-se.
+
+Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o. Diante dele surgiu de
+repente a paisagem, e de repente desapareceu, feericamente iluminada.
+Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão,
+que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num
+gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigo as
+próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do
+caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz
+implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de
+suplicas...
+
+O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber
+donde, alguém chamou por ele, lugubremente:
+
+--Ó José Gaio!
+
+O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz
+negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos,
+apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a
+mesma voz tornou-lhe mais de perto:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um
+relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com
+força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o
+não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de
+estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela
+voz, como um prolongamento do trovão:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,
+galgaria a ladeira num instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma
+força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da
+água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono,
+infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Senão
+quando, estacou ouvindo a mesma voz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de
+sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de
+longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a
+tempestade...
+
+Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre
+exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
+olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo
+o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de
+sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente
+desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então
+deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o
+peito impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo
+desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia,
+como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o
+cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a
+mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer,
+abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele
+a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do
+campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse
+todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda
+Casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos
+maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas,
+sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que
+traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No
+meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste
+camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à
+terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto
+implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios
+crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável
+trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o
+largava, imperturbável e monótona:
+
+--Ó José Gaio!
+
+E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la
+como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural
+muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da
+cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.
+
+Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água
+depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul
+furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer.
+Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste
+benefício para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos
+vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um
+deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por
+onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
+sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim
+ficou--de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase
+tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava
+no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E
+pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva
+caíam, vermelhas à luz, como grossas lágrimas de sangue...
+
+Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse
+miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta.
+Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil
+de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E
+enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada
+prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico
+das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com
+fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso
+espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e
+trágico a um tempo, soberbo, majestoso, imponente.
+
+Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões,
+aquela voz:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro,
+o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma
+rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição
+e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria
+erguer-se, fugir, desaparecer--erguer-se como aquela cruz, fugir como
+aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro
+na treva...
+
+Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe
+provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali,
+miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as
+quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu,
+apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que
+dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a
+tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha
+de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços
+hirtos--morrer ali!... Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz
+parecia chorar?...
+
+Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos à distância.
+Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar
+nele, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve
+estaria de pé,--de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava
+de lhe mostrar... No entanto, a voz é que se não importava:
+
+--Ó José Gaio!
+
+Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o
+calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se
+para um lado, até ficar detrás dumas urzes. Coisa notável foi,
+senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se
+recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem... E
+quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante... Aos
+ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece... Não ia só a
+rezar; ia também chorando, aquele homem...
+
+...Quem seria?
+
+Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um
+espectro, o filho do José Tendeiro...
+
+O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma
+noite como aquela...
+
+Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde
+não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz.
+
+E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade,
+perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte...
+Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da
+cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou
+reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo!
+
+Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi
+depois, buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido.
+
+--Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma
+congestão muito linda--dissera um a rir.
+
+--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indiferente.
+
+Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do
+abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de
+choro. E elevando ao céu as mãos mirradas--ao céu que um divino azul
+fazia diáfano--ele exclamou, soluçando:
+
+--Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa
+misericórdia!
+
+...Segredo de confissão...--mas o abade bem sabia quem tinha ali
+matado o José Tendeiro...
+
+
+
+
+BALADAS
+
+_A Luís Osório_
+
+
+I
+
+MARICAS
+
+
+Vocês lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito
+castanhos, quase louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A
+boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benévola e
+complacente para as nossas balbúrdias e algazarras de todo o dia e de
+toda a noite. E vocês bem sabem que tais elas eram, as nossas
+balbúrdias e algazarras...
+
+Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
+encantadora--a de não mostrar jamais na sua amizade preferência por
+algum de nós. Dir-se-ia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois
+que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e
+brando...
+
+Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ela vos
+perguntaria por mim, nos meus dias de cábula, pela solicitude e
+interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao
+escritório.
+
+--Então esses cábulas? então esses marotinhos? Doente, algum?
+
+--Na estúrdia, Maricas. Andam todos por lá...
+
+--Ora vejam!--fazia ela quase escandalizada.
+
+Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos
+que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos ombros uns dos
+outros, palreiros conversávamos com ela de janela para janela, num
+_tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que
+chamando-lhe por tu e ela a nós!
+
+Como eu me lembro!
+
+Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
+perguntas que lhe fazíamos, e então uma grande paciência inexaurível.
+Nós, os estroinas, quase que chegávamos a adorar aquela ingenuidade
+singela do seu coração de vinte anos. A boa da Maricas era adorável,
+toda ela bondade e paciência para os nossos distúrbios e para as nossas
+algazarras de toda a hora e de todo o instante.
+
+Mas como se familiarizou ela connosco e nós com ela, é que me não
+lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes,
+é que nós como que a considerávamos uma companheira de redacção, espécie
+de directora com casa à parte e viver independente pois que se entrávamos
+no escritório (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda
+de escritório!) e, assomando à janela, a não víamos na sua, dizíamos
+quase sem querer, mas invariavelmente:
+
+--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?
+
+E passados instantes debandávamos todos, um agora, outro logo, à
+formiga, mal nos convencíamos de que ela passava a tarde fora, em casa
+da _freira_ de Quebra-Costas--dessa lembram-se vocês... No entanto,
+deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte...--coitada!--...a
+primeira coisa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui,
+estive ali, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborizada e
+confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar ali a
+aturar-nos. Por pouco ela nos não pedia de mãos postas que lhe
+perdoássemos, a boa da rapariga.
+
+E nós então galhofeiros, brincalhões:
+
+--Sem mais _aquelas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora
+essa!...
+
+E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzito de cobra:
+
+--Pois sim, mas é que às vezes...
+
+--Às vezes quê?...
+
+«Não! ora adeus! Ninguém desconfiava que ela estivesse zangada
+connosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa...»
+
+--Pois não era verdade--perguntávamos-lhe--que ela adorava aquela
+_trupe_ de boémios?
+
+--São todos muito bons rapazes--dizia já a sorrir.--Todos me tratam
+muito bem...
+
+E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pálido todo se
+iluminava de prazer e sorria de íntima gratidão. Mas porque
+simpatizava ela connosco, a pobre Maricas?
+
+Quando nos via em palestras intermináveis, nas libações do _congnac_ e
+do café, ouvia-se lá da janela um _pschiu_! muito sibilado.
+
+--Que manda a D. Maricas? É servida?
+
+E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada:
+
+--Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?
+
+O cuidado que lhe dava o jornal!
+
+--Ora faz favor de não falar em coisas tristes? Olhem agora que
+lembrança, o jornal!
+
+Ela então, por única resposta, dizia-nos às vezes que na semana passada
+o tipógrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas
+vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.
+
+E por falar em provas:--a Maricas sabia todos os sinais das emendas,
+todos.
+
+--Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais nesta palavra.
+
+--Risco por cima, risco à margem, e um _d_ cortado; é fácil.
+
+--Um _m_ de pernas para o ar, e esta?
+
+--Risca-se, e um três cortado, à margem. Está farto de o saber...
+
+Quando via algum sentado à mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse
+mostrando as tiras, à medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava
+que isso era um estímulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal
+escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela,
+acenando-lhe com o papel:
+
+--Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escrita de alto a baixo.
+
+À terceira que se lhe mostrava, ela saía-se de lá com um _bravo_! e
+recomendava, solícita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um
+cigarro.
+
+A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
+a goma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bela goma! Em
+paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sábados à
+noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita
+atirava-se-lhe da janela.
+
+--Maricas, aí vai ainda fresquinho!
+
+--'stá bem, obrigada. Vou ler, até amanhã.
+
+Corríamos todos à janela, a dar as boas-noites à nossa amiga.
+
+--Durma bem, ouviu?
+
+E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do
+artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que
+mudássemos de pseudónimo. De resto, sempre benévola: achava tudo muito
+bom, «escrito com muita graça e muito bem», como ela dizia.
+
+Nos serões que fazíamos e que por via de regra não passavam de um
+interminável cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escândalos,
+desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções... Mas da
+Maricas ninguém tinha que dizer senão bem; era a privilegiada naquelas
+sessões de má língua. Quase sempre a conversa degenerava em
+algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e
+gemia fados com acompanhamento de violão. E era de ver o Santos Melo,
+de olhos cerrados e cabeça à banda, como cantava a sua quadra predilecta:
+
+Sei cantigas misteriosas,
+Cantigas de endoidecer,
+Que os lírios dizem às rosas,
+Que as rosas me vêm dizer.
+
+Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomendava silêncio.
+
+«Com mil demónios! não viam que a Maricas não podia pregar olho...»
+
+Todavia...--ó suprema bondade!--...ela nunca se queixava quando no dia
+seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se
+tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes
+que as cadeiras tinham caído.
+
+«Ora viam?! Não a tínhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;
+palavra de honra! doravante...»
+
+Ela então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:
+
+--Não, não, eu até gosto. Entretém-me vê-los alegres, faz-me bem, ora
+essa...
+
+ * * * * *
+
+Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocês não sabiam! E morreu
+tísica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a
+pensar naquela tossezinha muito seca em que às vezes a
+surpreendíamos, naquele branco pálido das suas faces, no bistre das
+suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mãozitas de
+marfim...
+
+Pobre Maricas!
+
+Haverá três meses que ela me desapareceu da sua janela, onde
+continuei a vê-la depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ela
+tinha ido?!...
+
+Mal diria eu que estavas no cemitério, tão longe e tão só! porventura na
+vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura
+humilde,--onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites
+fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio
+de mágoa a tua frase de infinita bondade e de infinita resignação:
+
+--...«Entretém-me vê-los alegres, até me faz bem»...
+
+Compreendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era
+triste... Mas porque foi que nos não disseste, pobrezinha! que nessa
+frase singela ia a revelação do pressentimento que tinhas da tua morte
+prematura?! Triste criança que nós não mais veremos!
+
+ * * * * *
+
+Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes--_bravo_!--ora
+não?...
+
+ * * * * *
+
+...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e dela
+rebentem flores, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as
+seivas...
+
+
+II
+
+PARA A ESCOLA
+
+
+No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras
+letras. A porta lá estava, amarela com fortes pinceladas vermelhas, ao
+cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la.
+Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula
+quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas
+bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada,
+num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz
+da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada,
+falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:
+
+--Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a
+encomendinha.
+
+Oh! oh! a encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali
+estava a encomendinha!
+
+--Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?
+
+E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
+enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia
+metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu
+entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ numa das mãos e a
+saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria
+contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.
+
+--Adeus, Josezinho, logo venho cá pelo menino.
+
+Choraminguei, quis sair na companhia dela.
+
+--Não, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui é a escola, é
+onde se aprende a ler.--E agachando-se, diante de mim:--Olhe tanto
+menino, vê?
+
+--Mas fica tu também--disse-lhe eu então.
+
+Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
+iracundo:
+
+--Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai
+tudo raso com bolaria!
+
+Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos
+meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos.
+Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,
+cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão
+principalmente.
+
+--Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de
+paciência. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre
+as bancadas.)--Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa
+hora entrasse...
+
+--Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josezinho?
+
+Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.
+
+--É verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino há-de estudar
+as suas lições, não é assim?
+
+--Diga, sim senhor--ensinou-me então a Helena.--Hei-de estudar muito e
+ser sossegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em
+casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?
+
+Ele riu, já sabia; as crianças são todas assim, enquanto estão no mimo
+das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E
+piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida.
+
+--Faz milagres, Sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz
+milagres.
+
+Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair
+quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a
+palmatória...
+
+--Mas para o nosso Zezito não há-de ser precisa, ora não?
+
+--Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas
+obrigações, diga.
+
+--Ora aí é que está--atalhou o professor.--Vê, Sr.^a Helena? Aqui já os
+pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas
+coisas...
+
+--Sim senhor, sim, enquanto que em casa...
+
+--Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu
+menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É
+mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?--E bateu
+num «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui está neste
+livro: «_de pequenino_...
+
+--..._é que se torce o pepino_»--concluiu rápida a Helena, orgulhosa de
+saber o que estava no livro, coitada!
+
+--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria
+na horta...
+
+Risota dos rapazes!
+
+--Ora vê isto, Sr.^a Helena? vê estes brutinhos?--E com entono, de
+palmatória alta, fazendo-se carrancudo:
+
+--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à Sr.^a Helena,
+começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o
+que se chama tudo!
+
+E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapazes ficaram
+transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele
+podia pedir licença à Sr.^a Helena, e mesmo diante dela _cascar_ de
+rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o
+Estêvão deixou de me fazer caretas.
+
+--É o que vê, Sr.^a Helena--disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom
+do professor.--É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem
+ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem
+feito muitos doutores.
+
+--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele
+pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.
+
+--Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não
+faz ao caso.
+
+Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.
+Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investigara com mágoa
+o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor... Morreria
+sem ter essa «glória,» decerto! Forte martírio que a Helena veio
+recordar-lhe!...
+
+Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia
+para ir lá fora.
+
+--_Licéte_!--foi como ele disse, arremedando o latim _licet_. Outros
+havia que diziam, por troça, _Aniceto_!
+
+--Ora já a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu não havias
+de pedir para ir lá fora, tu...--E ficou-se a fitá-lo, meneando
+pausadamente a cabeça.--Ora vá você lá fora.
+
+O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.
+
+--Olá?--chamou zangado o Sr. professor.
+
+O outro assomou à porta, contrafeito.
+
+--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se
+percebes... Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça
+favor de esperar um pouco.
+
+Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:
+
+--Tu não... tu não... tu não... Tu, olá, venha cá!
+
+Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.
+
+--Canalha!--gritou-lhes então, batendo o pé.--Corja de atrevidos!
+Sentados, já!
+
+Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele,
+apontando para o peito.
+
+--Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.
+
+Mediu-o de alto a baixo. Depois:
+
+--Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fora com
+ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das
+pressas?...
+
+--Vejo, sim senhor.
+
+--Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o
+palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra quê. E sempre quero ver se tenho
+de vos ir lá buscar pelas orelhas.
+
+Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o Sr. professor:
+
+--Olá?
+
+Eles assomaram, outra vez, atrapalhados.
+
+--Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada?
+
+Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com
+efeito alguma coisa...
+
+--Então é aí?
+
+Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.
+
+--Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a Sr.^a Helena.--E
+enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial:--Ordinário! marche!
+
+Faltava aquilo. Em obediência aos seus velhos hábitos de militar, dava
+o Sr. professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir
+ordens suas:
+
+--Ordinário! marche!
+
+Sentou-me então no joelho e perguntou:
+
+--Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o Sr.
+capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?
+
+--Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o Sr. prior, dizer
+missas.
+
+Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o Sr. professor fez
+notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência
+qualquer. E pôs-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas
+bochechas.
+
+--Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.--E para a
+Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, Sr.^a Helena, que respondem a
+pés juntos que não querem ser nada. Mau sinal, péssimo, Sr.^a Helena!
+Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são
+gente.--E virando-se para mim:--Mas então, Josezinho, em que ficamos?
+Corneta ou prior?
+
+Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente
+em dias de festa, com aquela capa toda doirada...
+
+--Muito bem, escolheste bem. «_Telha de igreja_...
+
+--..._sempre goteja_»--concluiu a Helena que ainda hoje é forte em
+adágios.
+
+O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.
+
+--Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josezinho,
+para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?
+
+--É.
+
+--Ah!... Não é assim que se diz. É, sim senhor--emendou a Helena.
+
+O Sr. professor teve um gesto de indulgência.
+
+--Mas tu não sabes ainda, ora não?
+
+--Não senhor.
+
+Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia
+na saca era um livro.
+
+--Querem ver que é um livro?...
+
+--Diga--ensinou a Helena--é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá
+ao Sr. professor, tome.
+
+Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
+meu livro.
+
+--Muito bem! muito bem!--aplaudiu o Sr. professor.--Mas este livro é
+mesmo para aprender a prior... O menino já tinha dito lá em casa que
+queria ser prior, ora já?
+
+Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o
+sabia?
+
+--Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar,
+não queres?
+
+--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu
+quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.
+
+--Primeiro do que aqueles?--perguntou voltando-me para as bancadas.
+
+Então fui eu mesmo que respondi:--«Sim senhor!»--contente com a
+lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos
+aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a
+alguma...
+
+--Ora então está muito bem, estamos entendidos.--E com intenção, ferindo
+muito as palavras, para mas gravar no espírito:--A primeira coisa que é
+precisa para prior é saber bem isto, vês?--E punha-me diante dos olhos o
+livro aberto na primeira página.--Isto aqui é já missa, chama-se o _a b
+c_, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar.
+
+--_Ito_?--inquiri curioso, furando a página com o dedo.
+
+--Sim, isto. E amanha já me hás-de trazer sabido daqui até ali. Hein?
+valeu?
+
+--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.
+
+Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira
+lição!
+
+_A B C D E F_!
+
+A minha primeira lição!
+
+--Ora sabe vossemecê o que isto é, Sr.^a Helena? isto que eu tenho
+estado a fazer?
+
+--Sim senhor, sei... é assim... como quem diz... é...
+
+--Não sabe, não admira,--disse complacente o Sr. professor.--Puxar o
+gosto, Sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o
+fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com
+mais gosto, digo-lho eu; olé se vai!
+
+«Mas ele não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas
+obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»
+
+--Pois isso é verdade, Sr. professor; mas não sei que é, custa-me a
+separar do menino...--disse a boa da Helena, quase a chorar.
+
+--Foi ama, deu-lhe o seu leite, aí é que está a coisa. Pois tenha
+paciência. Aprender é tão preciso como mamar--concluiu numa prosa que é
+mesmo poesia.
+
+--Pois é preciso, é!...
+
+E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
+na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me
+ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:
+
+--Sr.^a Helena!
+
+--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental.
+
+--Já agora, espere mais um instante.
+
+Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
+Depois, intimou:
+
+--Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo
+um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora é ali,
+Sr.^a Helena, ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe
+não deve pesar.
+
+E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo,
+lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu
+lugar...--o meu primeiro posto na arriscada milícia das letras...
+
+Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por
+acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no
+entanto. O mestre vinha a dizer na sua mímica:
+
+--Bolos?... Não?!... Perdoe a Sr.^a Helena, mas isso, quando forem
+precisos... Pois sim... lá isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a
+mão?... Está bem... Descanse... Mesmo com a mão...
+
+E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre
+lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...
+
+ * * * * *
+
+...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
+principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te,
+querida amiga, aquele beijo--dulcíssimo beijo aquele!--que tu então me
+deste. E afinal não fui prior, ora vê!... Mas ainda bem. Se o fosse,
+acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
+que não fui prior, ainda bem... Não é verdade, Helena?
+
+Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.
+
+
+
+
+TRAGÉDIA RÚSTICA
+
+
+I
+
+_Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, à
+porta do José Grilo_
+
+
+Truz! truz! truz!
+
+Os de casa acordaram, sobressaltados.
+
+--Schiu! nem pio!--fez o José Grilo para a mulher.--Moita!
+
+--Truz! truz! truz!
+
+Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se a chamar pelo
+pai.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
+divertir...
+
+Mas logo outra vez na porta:
+
+--Truz! truz!
+
+--Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José
+Grilo, zangado. E pois que se pôs à coca, de orelha fita, olhos
+cravados na telha-vã do casebre, sentiu distintamente os passos de
+alguém que fugia.
+
+--Eu não te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir--explicou ele
+para a mulher.
+
+Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
+cachorrinho, mesmo rente à porta. Veio-lhe logo à ideia que lhe tinham
+vindo pôr zorro...
+
+--Ó mulher, queres tu ver que há novidade?
+
+De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
+casebre.
+
+--Ele que demónio de embrulho...?
+
+Pegou-lhe com muito jeito. Era efectivamente uma criança, envolta em
+dois trapinhos muito velhos.
+
+--Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a criancinha.
+
+--Grandes cadelas!--E pôs-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
+gente da casa.
+
+--Andem! a pé! levantem-se! está aqui este inocentinho que vem dar os
+Bons-dias à gente!
+
+Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grilo
+metera a criança na cama, visto que a pobrezinha estava gelada...
+
+--Ele quem diabo há por aí que tenha leite? A filha do António das
+Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.
+
+Despediu imediatamente a filha, a Ana, à procura da Brites que
+chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
+que ia correndo:
+
+--Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for.
+
+Mas a mulher do José Grilo, a senhora Joana, de pé no meio da casa, a
+saia amarela deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito
+embezerrada, permanecia sem dizer palavra.
+
+--Ó mulher, nada de aflições, é tal e qual como se fosse nosso, faz de
+conta...--observou-lhe logo o José Grilo que percebia o ar taciturno da
+fêmea.
+
+Ela só redarguiu que _nosso_ era um modo de falar. Seria dele, mais
+de qualquer desavergonhada...
+
+O José Grilo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e
+pregou-lhe uma gargalhada.
+
+--Ajeita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E
+deixa-te de cantigas, que hoje é dia de Entrudo.
+
+A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé
+da criança, afirmando-lhe às risadas que sim, que o pequeno era filho
+dele.
+
+--O pequeno?... mas é que pode ser cachopa--disse o José Grilo para a
+mulher.--E certificando-se:--Nada! é rapaz.
+
+Seguiu-se uma altercação. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela
+sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.
+
+--Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cómica, braços no ar, o
+balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoço num jeito de
+sobrepeliz.--Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim!
+
+--Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz--disse-lhe de lá o
+José Grilo, muito fleumático, debruçado sobre a criança.
+
+Mas como visse que a mulher continuava num estardalhaço, muito
+aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grilo virou-se para
+ela e disse-lhe muito solene:
+
+--Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.
+
+Ao ouvir assim falar o seu José, a senhora Joana voltou-se logo para
+ele, olhos esbugalhados, muito suspensa.
+
+--Juras pelas cinco chagas, ó homem?
+
+--Juro pelas cinco chagas.
+
+--Assim te Deus dê saúde, ó José?
+
+--Assim me Deus dê saúde.
+
+--Preto sejas tu como o teu chapéu?
+
+--Preto seja eu como o meu chapéu.
+
+A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
+a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
+Conceição, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hóstia.
+
+Depois desabafou, muito aliviada:
+
+--Ai!
+
+O José Grilo pôs-se a rir.--«O demónio da Joana, com ciúmes!»
+
+--Mas ciúmes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo
+tens tu ciúmes?--perguntava muito casto o amigo José Grilo, sereníssimo
+diante da mulher desconfiada.
+
+A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--«que o seu homem era um
+santinho...»--O José Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo,
+reguingou de alto:
+
+--Sabes tu que mais? estafermos é o que mais há. Olha a cadela que
+enjeitou este...
+
+Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:
+
+--Mas quem seria a grande cadela?
+
+Pôs-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguém,
+murmurando frases de ódio, moralistas:
+
+--Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo
+entranhas de lobo.
+
+O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do
+José Grilo.
+
+--É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar--disse
+contristado o lavrador.
+
+Foi-se logo à porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
+Ana era a outra, a Doroteia do António das Veredas.
+
+--Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demónio vens tu cá
+fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?--E deu um bofetão
+na filha, «para que soubesse dar o recado».
+
+A Doroteia pôs-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é
+que a mandara para levar a criança, porque ela, adoentada, fazia-lhe
+mal sair de casa assim cedo...
+
+--Só se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o José Grilo, virado
+para a Doroteia, irreverente pelos seus dezanove anos inda virgens.
+
+A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse:
+
+--Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.
+
+--Eu sei lá se não se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--Dá cá
+daí o pequeno.
+
+Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao José Grilo. O
+lavrador depô-lo nos braços da Doroteia, com mil cuidados, e depois
+ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse
+bem quente.
+
+--Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá apareço,
+p'ra ver isto do ajuste.
+
+A rapariga saiu. E como o lavrador desse fé que tinham ali ficado os
+farrapos, gritou para a rapariga:
+
+--Ó D'roteia! espera que inda cá ficou isto.
+
+Então pôs-lhe os farrapos ao ombro--uns pedaços miseráveis de velha
+chita--e a Doroteia partiu onde à irmã.
+
+
+II
+
+_Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosário. Em casa de
+António Palma, casado com Rufina Maria_
+
+
+O António Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
+a Rufina, principiava a lavar a loiça, quando à grade do quinchoso uma
+voz chamou:
+
+--Ó Sr.^a Rufina!
+
+Vieram os pequenos, veio o António Palma, a mulher com as mãos
+fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
+que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho.
+
+--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.
+
+O Palma foi abrir o cancelório. E foi com grande desgosto que deu de
+cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma
+desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Tomás negociante de
+gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os próprios pequenos
+olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles
+não conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto
+o Palma e a mulher afectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
+com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
+investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o
+pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silêncio, e a mulher começou
+assim:
+
+--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
+Já vêem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
+filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá
+em casa de minha mãe aquilo é uma grande miséria, passam-se dias que
+não comemos. Não há uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
+jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem vêem
+como eu ando...
+
+Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miserável. O Palma e
+a mulher diziam não sei que monossílabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
+prosseguiu:
+
+--Não é por mim, sabem? não é por mim. É este inocentinho que tem de
+nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me
+dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse...
+Coitadinho!
+
+Ergueu-se num ímpeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o
+Palma e para a mulher.
+
+--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.
+
+O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lástima. Cada um de
+seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
+se havia de arranjar, que sossegasse.
+
+--Que a falar os pontos de verdade, Sr.^a Fortunata, vossemecê é que
+tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.
+
+Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.
+
+--Má sorte daquele pobre José Tomás, acabou-se! Quando ele casou com
+vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.
+
+Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita.
+
+--Agora aí o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
+nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vai a uma feira.
+Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos.
+
+Pôs-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atónitos. Depois
+continuou:
+
+--Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo
+saco...
+
+A Fortunata levantou-se num ímpeto, como se o saco a repelisse. O
+Palma prosseguiu:
+
+--Sente-se vossemecê, mulher, o saco não faz ao caso. Pois foi aí
+mesmo que ele esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na
+camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal.
+Que a bem dizer ele quase não conversa, anda a modos que amalucado,
+sempre a levar a mão à cabeça, como se lá dentro aquilo andasse azoado.
+E mais é que bem pode o rapaz dar em doido...
+
+A senhora Rufina foi de parecer que doido já ele andava. Passavam-se
+dias que não aparecia em casa do tio José Garção, que o levara logo
+para ele, mal a Sr.^a Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia?
+Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os
+porcos. Que doutra vez fora ter com o vigário para que lhe baptizasse o
+filho, dizendo que já tinha nascido.
+
+--No filho inda ele aqui se pôs a falar, lembrou o Palma.--Anda com
+ela ferrada que o filho já nasceu.
+
+Aqui, a Fortunata, de pé junto à porta, rompeu numa choradeira, ouvindo
+falar no filho. O Palma interveio, condoído, dizendo que se não
+afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.
+
+Ela ia ajoelhar, o Palma não deixou.
+
+--Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por
+vossemecê. Mas é que o inocentinho que aí traz esse é que não tem
+culpa. Faço de conta que é o pai que me pede, o pobre José Tomás.
+Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Tomás. Diabo! a gente já
+diz _era_, já fala nele como se o pobre tivesse morrido...
+
+Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns
+bois que não eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
+quando já ia para sair, disse em resumo:
+
+--Fique vossemecê então, Sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela
+inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.
+
+Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu
+e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
+feito uma carícia, quando por volta do meio-dia a avó do pequeno ali
+chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
+aos cevados, ficou espantado:
+
+--Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, Sr.^a Ana!
+
+Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criança já tinha nascido.
+
+--Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha daí.
+
+Mas iam ainda à porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe
+perguntou num sobressalto:
+
+--Vivo ou morto, Sr. António?
+
+O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criança nascesse
+morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
+pontapés. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de cólera, quando em presença
+do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
+fazer.
+
+O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse
+com a pergunta: «que se há-de agora fazer a isto?» ele redarguiu,
+irado;
+
+--Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se há-de
+fazer à criança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar...
+
+A velha ia falar.
+
+--Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda
+nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu
+uma cadela quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer
+cadela vale mais que vocês duas.
+
+O Palma ia-se pondo amarelo, a Sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
+que saísse.
+
+--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a égua e vou-me de
+véspera até à feira.
+
+Pôs-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da égua.
+
+--Tanto faz ir amanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mete-me
+qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a égua.
+
+Daí a meia hora, o Palma montava à porta, no meio do rancho dos
+cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:
+
+--Em estando capaz, rua!
+
+--Daqui a três dias, talvez...
+
+--Então até daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
+esses estafermos saírem.
+
+Ora o António Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora--com o
+embrulhinho do neto ao colo...
+
+Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado...
+
+Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? Não sei. Caso é que na
+madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino à porta do
+José Grilo.
+
+Madrugada de Fevereiro, nevava...
+
+
+III
+
+
+Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar à irmã, tinha
+amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidíssimo
+retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo.
+Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão
+triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto,
+faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impressão de frio. O chão
+estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céu muito azul
+anunciava um dia de sol.
+
+A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda
+daquele lado em contacto com o pequenino...
+
+Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
+perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o ruído forte da
+levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho.
+
+--Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.
+
+Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu
+como um eco:
+
+--...Um enjeitadinho.
+
+Entreolharam-se os três, numa incerteza vaga.
+
+--Sim, um enjeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E
+daí... pode ser que não seja...
+
+A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.
+
+--Nada! pode ser que a história seja outra--elucidou o moleiro.--Onde
+foi que isso foi posto?
+
+--Esta madrugada, à porta do José Grilo.
+
+--Olá! isso então pode ser coisa dele--observou a rir o moleiro.--Esse
+diabo não é seguro.
+
+Puseram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôs-se a
+explicar à rapariga:
+
+--É que ontem à noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
+modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim às primeiras,
+tanto eu como a Luísa tivemos o nosso medo...
+
+--Ó Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e
+senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho há-de ter fome.
+
+A Doroteia passou a criança para os braços da moleira. Foi uma alegria
+ao verem-no sugar no peito, minúsculo, com os olhitos inda fechados.
+
+--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria
+a desavergonhada?...
+
+--Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro.
+
+--Depois, dormiu cá, aí lhe demos da ceia e aí ficou. Mas dá-se o caso
+que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num
+falatório pegado. «Que o filho era dele, que se a cabra da mãe
+teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte à justiça.» Um arrazoado
+assim, muito comprido.
+
+Espantada, a Doroteia ia falar.
+
+--Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia
+isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que
+onde ele o tinha escondido ninguém lho ia roubar.
+
+Ficaram-se um instante a mirar consolados a criança.
+
+A pobrezinha vagia, mamando com sofreguidão.
+
+--Mas então sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a
+Doroteia.--Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai,
+coitadinho!
+
+A Sr.^a Luísa, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
+compungido:
+
+--Um doido, o pobre de Cristo! Deixá-lo ir!
+
+Fez-se um silêncio, mirando todos a criança. A taramela do moinho
+batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda
+que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
+obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe
+respondera:--«Para a feira. Vender um gado.»
+
+--Ora vá lá o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido
+a vender gado.
+
+Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Doroteia, com pressa
+por causa da irmã, pegou outra vez na criança e abalou pela porta fora,
+direita à casa do pai.
+
+--Olha os trapos, ó Doroteia! olha que deixas cá isto.--E o Paulo
+correu a levar à rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
+todo o enxoval do triste pequenino...
+
+Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a
+criança não ia com fome. E para que também não fosse com frio, a boa da
+rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda
+materna.
+
+--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja
+capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho,
+embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José
+Grilo não dava fé! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem
+depois os cães e comê-lo.
+
+E espreitando pela fenda estreita do xaile:
+
+--Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua mãe, ora foi?
+
+--Foi! rugiu uma voz detrás dela, como um eco.
+
+A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que já de
+longe a acompanhava, sem ela dar fé, corria também atrás dela, e não
+tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
+com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela
+conhecia gritou ali de perto:
+
+--Larga a rapariga, ó José Tomás! Larga a cachopa!
+
+E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.
+
+--É o José Tomás que está doido,--explicou o pastor.--Desde que a
+mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!
+
+Mas palavras não eram ditas, eis que o José Tomás de novo se arremessa
+à rapariga.
+
+--Tu que levas aí? Tu levas aí o meu filho!--rugiu ele com voz
+furiosa.
+
+E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
+lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas,
+impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...
+
+A Doroteia cobrou ânimo, ao ver-se rodeada de gente.
+
+E fez-se luz no seu espírito, quando reparou que os trapos do
+enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
+rir-se...
+
+--Conheces? perguntou-lhe a rapariga.
+
+No êxtase em que caíra, mirando e remirando os farrapos, o doido não
+respondeu.
+
+--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.
+
+Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
+estava de joelhos, quiseram levantá-lo; mas ele então opôs-se, caindo
+sobre os calcanhares.
+
+E ria... ria... enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miserável
+farrapo, as lágrimas corriam, copiosas...
+
+Mas daí a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
+percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criança eram da saia da mãe. A
+mãe era a mulher do José Tomás, e o pequenino era filho dele... A
+grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
+homem!
+
+--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vês aí um
+estafermo que precisava que a matassem!
+
+O José Tomás pôs-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte
+impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.
+
+--Ó Doroteia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai
+deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.
+
+Mas não foi preciso; que o José Tomás, sempre de joelhos sobre a neve,
+foi para ela de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos
+lábios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silêncio que se fez
+ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.
+
+Como se fora uma chuva de pétalas, do céu de madrepérola a neve caía
+mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
+no seio imenso de um órgão, o vento sul--gemia...
+
+
+
+
+ABYSSUS ABYSSUM...
+
+
+Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
+Assim eles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentação para ambos, o
+rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
+ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia
+que lhe apareceram em casa tarde e às más horas.
+
+--Ouvistes?--ralhara-lhes a mãe.--Olhai se ouvistes: se voltais ao rio,
+mato-vos com pancada. Andai lá...
+
+Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com
+a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver
+tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
+aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao
+rio. Aos pássaros sim...--lá estavam as calças rotas do Manuel a
+dizê-lo--...aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe
+que o soubesse...
+
+Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto. Logo de manhã,
+mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
+corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
+salgueiros. Lá estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam
+despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do
+fidalgo,--lindo barquinho!--sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse
+para passar à grande quinta que tinha na margem de lá.
+
+De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois
+rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão
+madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo
+da praia, e deixá-lo ir então por onde ele quisesse, contanto que fosse
+sempre para diante... Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua
+vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao
+barco. Era o seu--«adeus até amanhã!»--àquele pequeno objecto que valia
+tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...
+
+Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada...
+
+--Mais nada?
+
+--Isso não... mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.
+
+Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais
+cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para
+os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os
+patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados,
+grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da
+agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto
+se ouvia o retimtim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na
+bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
+vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do
+vinho. E àquela hora, onde iria já a missa! A última beata, encapuçada
+e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na
+igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua,
+dava com valentia num carro cujo eixo _ardera_ na véspera, e que era
+urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a
+loja, e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta
+diária, enfim; os senhores sabem.
+
+Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois
+pequenos.
+
+--Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal
+está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos
+na cama.--E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas.--Persignar e
+vestir, vamos! Calças... colete... os jaquetões... tomem.
+
+E pôs-lhes tudo sobre a cama.
+
+--Mãe, a bênção!--balbuciaram os dois, tontos do sono ainda.
+
+--Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora eu já
+volto. Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver.
+
+Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
+olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto
+repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito
+que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria
+tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda
+tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego
+morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!
+
+Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi
+então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou
+encantador, todo resplandecente de verduras.
+
+--Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque
+será?
+
+O outro encolheu os ombros, não sabia: só se fosse por não haver
+nuvens...
+
+Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da
+manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito
+suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das
+laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos
+de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta
+estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas
+das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.
+
+Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manhã
+deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu
+imaculado.
+
+--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece?
+Olha que é lindo, o rio; ora é, ó António?
+
+--É, lá isso... Mas _tamém_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o
+irmão.--A gente não pode lá ir... Olha se a mãe o soubesse, han?--E
+mirando por sua vez a paisagem perguntou:--Já reparaste no barco, ó
+Manuel?
+
+--Tão bonito!
+
+Os dois riram.
+
+--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.
+
+--Pudera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois
+radiante, gesticulando para o irmão:--Mas eu era capaz de o
+desamarrar...
+
+--Ai eras!--disse duvidoso o António, para o incitar.
+
+Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era. Ambos dentro
+dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos
+por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O
+barco! Era tão bom andar no barco! E aquele então era lindo, como não
+tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem lá não
+esquecessem!--aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do
+barquinho, ensinando-lhes como se remava.
+
+O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela.
+Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.
+
+--Está um dia lindo, avia-te.
+
+--Olha avia-te! p'ra quê?--perguntou o António torcendo e retorcendo o
+pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.
+
+O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra quê? A mãe
+não os deixava ir ao rio... E se não que fossem! «Mato-vos com pancada
+se desceis a ladeira.» Já se vê que depois disto...--E os dois
+suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!
+
+Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo!
+Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de
+tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo
+o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que
+apenas meio palmo acima do nível da água.
+
+--Tate, ó Manuel! E se fugíssemos?
+
+--Ora! se fugíssemos!... E depois? A gente tínhamos de voltar...
+
+Ora aí esta! isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o
+que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da
+mãe:--«Se voltais ao rio...» Ai, ai, a triste sorte!
+
+Recaíram em silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
+ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na
+largura muito ampla da paisagem.
+
+--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com
+alegria o Manuel.
+
+--Mas é que está, palavra que está. Agora é que há-de ser bom andar
+dentro dele...
+
+Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no
+barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso,
+cobrando ânimo, o António disse resoluto:
+
+--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela
+jaqueta:--Vamos lá, ó Manuel?
+
+O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não
+vinha, disse baixo ao irmão:
+
+--À tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela
+nossa falta, ali à tardinha. A gente finge que vai para o adro.
+Levam-se os peões...
+
+--Há-de ser mesmo assim! à tardinha!--concordou o António.--Eh! eh! eu
+cá desatraco.
+
+--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava.
+
+--Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula--explicou.
+
+--Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quiseres
+assim...
+
+--Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser!
+
+E recapitulando, para melhor ficarem combinados:
+
+--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?
+
+--Remas.
+
+--E tu regulas, ora regulas?
+
+--Regulo.
+
+--Ao p'ra cima é às avessas, ora é?
+
+--É.
+
+Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
+impuseram segredo...
+
+--Schiu!...
+
+--Schiu!
+
+ * * * * *
+
+A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens
+alvejavam, imóveis.
+
+Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes
+franjavam-se de púrpura e oiro, na decoração mágica dos poentes.
+Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos,
+e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer
+a natureza para o grande sono reparador de toda a noite.
+
+...E a tarde ia descaindo, cada vez mais límpida.
+
+Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando,
+os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
+imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
+cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela
+indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio
+confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo
+amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que
+vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as
+coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as
+formas às coisas...
+
+Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a
+passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.
+Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um
+fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o
+tranquilo sono em que iam adormecer.
+
+E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava
+mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas
+começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos
+iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendo
+nas águas... Não! era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma
+tão poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes transvazava do peito,
+fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em
+sorrisos.
+
+Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
+absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
+de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção
+de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de
+alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o
+seriam jamais?... No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas
+margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto
+e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.
+
+--Remas, António?--perguntou o do leme.--Olha se a vês...--E apontava
+para Vésper, a estrela que mais brilhava.
+
+Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo
+brilho diamantino os fascinava. Tão linda!
+
+--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a
+estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
+adiante, só por isso...
+
+--Olha o milagre! Ela está queda!--fez o outro, convencido da
+facilidade da empresa.
+
+--Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós; vai lá
+entendê-la. Olha como brilha, ó António.
+
+--Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito daquela fraga é que
+ela está.
+
+Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Era menos de meia hora
+era certo alcançá-la.
+
+E engastada no azul escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais,
+quanto mais a olhavam.
+
+--De que são feitas as estrelas?--perguntou o mais novito.
+
+--De prata, pois está visto.
+
+Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu,
+exclamou:
+
+--Eh! tanta prata!
+
+--O sol, esse é de oiro--disse ainda o Manuel.
+
+--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmão.--Que eu, se me dessem à
+escolha, antes queria as estrelas. Olha que rebanho!
+
+--Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais
+grande.
+
+E enquanto falavam, os dois não desfitavam olhos da estrela feiticeira
+que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com
+certo ruído muito doce... E lá no alto céu, dir-se-ia que de instante
+para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.
+
+--Vê-la a fazer assim?--e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação
+crebra e irregular da luz sideral.
+
+--É que tem sono--respondeu o outro.
+
+--Olha que não. Aquilo é a fazer-nos negaças, _tamém_ to digo.
+
+--Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo,
+bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh,
+_boieira_!
+
+Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul,
+sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram
+em tom de reza as palavras rituais:
+
+Deus te guie bem guiada,
+Que no céu foste criada.
+
+--Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a
+apontar para elas... Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.
+
+--A ti talharam-te o ar, ó Manuel.
+
+--Diz a mãe. À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água
+para o corpo. E a água havia de estar fria... observou, encolhendo os
+ombros. Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe:
+
+Ar vejo,
+Lua vejo,
+Estrelas vejo:
+O mal do meu corpo
+Pr'a trás das costas o despejo.
+
+Riram muito. O Manuel, despidinho, couracho ao colo da mãe, havia de ser
+engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.
+
+--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por ano, ao menos uma vez por
+ano, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas
+estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria.
+
+--Sempre, sempre?
+
+--Até que morra. Depois de morrer vou morar três dias com três noites
+dentro de uma.
+
+--Ora! tornou-lhe incrédulo o irmão.--Tu não cabes lá...
+
+--Não sei: assim é que anda nos livros.
+
+...Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito...
+
+Devia ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo
+louco de alcançar a estrela.
+
+A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um
+silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a
+água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído de uma brandura
+suavíssima e doce.
+
+...Mas os braços cada vez doíam mais!...
+
+Agora, no céu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma
+como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar
+menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o
+peito, e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.
+
+...E os braços sempre a doerem!...
+
+Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente,
+cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme,
+sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro.
+
+...E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer...
+
+O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum
+estranho. Dentro dele... a música levíssima das respirações dos dois
+pequenos adormecidos...
+
+Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento
+brusco de balanço, fez acordar o do leme.
+
+Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou
+imediatamente:
+
+--Manuel! Ó Manuel!
+
+O remador acordou, sobressaltado.
+
+--A estrela? Ainda lá está, olha!--disse incoerente, estonteado pelo
+sono.
+
+--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!--continuou
+aflito o António.
+
+--Então não lhe passamos adiante?--perguntou ingenuamente o Manuel,
+referindo-se ainda à estrela.
+
+Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade,
+de novo lhe gritou, com lágrimas na voz:
+
+--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!
+
+E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num
+choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrível
+susto que a hora e o lugar aumentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
+aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o
+psalmodiar monótono e rouco de uma legião de espíritos maus,
+preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
+rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que
+num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir
+impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça.
+
+E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali.
+Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém
+viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus aflitivos
+gritos.
+
+Crudelíssimo transe!...
+
+E então os braços continuavam a doer, doía-lhes agora o corpo todo, ao
+mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes oprimia o
+espírito, parece que embrutecendo-os.
+
+--Mas a estrela sempre além...--notou ainda o Manuel, balbuciante de
+medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença
+criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela
+se haviam precipitado.--Se ela pudesse acudir-nos...
+
+Até que por fim, prostrados da fadiga e das lágrimas de novo se deixaram
+adormecer, era já alta noite.
+
+Mas na sua fúria constante, a corrente que ali era muito forte não
+cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após
+tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se
+contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente.
+Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de
+súbito acordados romperam em gritos lancinantes:
+
+--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!
+
+Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul.
+Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão
+mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e
+lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paroxismo da sua
+enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também
+com ele!...
+
+ * * * * *
+
+...Nesse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrela
+feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!...
+
+
+
+
+MÃE!
+
+_Ao Dr. J.C. da Moita Prego_
+
+
+Bela cabra, a Ruça!--posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada,
+luzida, de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva
+de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando
+cadencialmente o seu chocalho enorme--tlão! tlão! Era no rebanho a que
+mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no
+seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que
+não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não
+triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.
+
+E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas
+vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e
+quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.
+Por isso Alípio José, pastor, a quem doíam as denúncias, ao pescoço da
+Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais fácil
+rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais
+grave.
+
+Em pastagens pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia
+gosto vê-la trepar às últimas cumeadas, subir destemidamente às arestas
+superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,
+pescoço alto, ajoelhando destemida a retoiçar as ervas dos declives
+alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com
+abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos,
+saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões
+arriscadas de _touriste_.
+
+Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audácias, e
+então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de
+garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que
+encontrasse por essas paragens era para ela um desespero--tamanha a
+fúria com que a perseguia, e a insistência com que se ficava às marradas
+na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o
+Alípio que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara,
+levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu
+vozeirão que fazia eco:
+
+--Toma tento, Ruça!
+
+E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos
+fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José
+ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos
+últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar
+gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria
+infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela
+vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho,
+resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam
+ninho.
+
+ * * * * *
+
+Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, e por lá se
+deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia
+quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem
+vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá debaixo, cada
+vez mais desesperado:
+
+--Volta ao rebanho, Ruça!
+
+E, cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com
+fúria o molho dos chocalhos, gritando sem cessar:
+
+--Ruça! torna ao rebanho, Ruça!
+
+Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do
+parto, nem o pequeno poderia--pobrezinho!--descer por tais ladeiras, de
+pedregosas e ásperas que eram.
+
+Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o pequeno
+congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o
+aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu
+corpo enfraquecido e doente.
+
+Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sítio,
+alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava
+lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe,
+traduzindo angústias e desesperos íntimos, respondia ao vagido fraco do
+filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
+instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.
+
+Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças,
+impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e
+mais num como abraço de eterna despedida--amigos que se iam apartar
+para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade,
+soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor
+que os unia...
+
+E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
+lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal
+para o transe derradeiro...
+
+Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as
+estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela
+dor suprema de que eram as únicas testemunhas.
+
+E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida
+do filho, ao menos,--ora súplice em balidos de resignação que uma
+profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que
+significavam blasfémias, blasfémias de desespero contra o céu que a
+não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe
+estrangular o filhinho que ela amava tanto.
+
+E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dor--a ironia acerba da
+chocalhada longínqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra
+banda, deixando-a a ela sozinha com o filho, à espera da morte que era
+inevitável.
+
+Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar
+fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num adeus! adeus!
+de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de
+chocalhos...
+
+ * * * * *
+
+Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol
+entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam
+e o sangue circulava.
+
+E o cabritinho sem poder ainda descer!...
+
+De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as
+escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e trémula, como
+que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas
+horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,
+lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio.
+
+Impossível! impossível!
+
+E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali,
+estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias.
+
+Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes
+e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o
+chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que
+o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
+assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo...
+
+Impossível! impossível!
+
+Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem
+toda a gama de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se
+de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,
+estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o
+com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e
+amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar
+ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe
+aflitivo...
+
+Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última
+cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
+subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva
+se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se
+cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo
+ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos voláteis de
+arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando
+os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.
+Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num
+chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
+estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os
+répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama...
+
+...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem
+passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda
+a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu
+dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã...
+
+Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera
+passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração
+alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o
+filho que já tremia a ela aconchegado--o triste pobrezinho!
+
+Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
+naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era
+baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando
+uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de
+crianças, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar
+vagaroso de pálpebras sonolentas...
+
+Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
+aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém
+com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e
+nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que
+se uniram, mal cerrara a noite!
+
+A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em
+rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos,
+acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade
+esverdeada rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
+que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra
+na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num
+como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos
+de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens,
+densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem
+cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem...
+
+E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois
+olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
+treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
+convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não
+ousava arriscar um único movimento e mais e mais cerrava contra si o
+corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.
+
+Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase
+eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias,
+vazias de esperança na vida do seu pequenino filho.
+
+De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
+novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a
+pobre de súbita alegria,--e no abalo que sofreu o seu corpo, até então
+retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a
+desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas
+fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali
+levou a noite toda, farejando e uivando, até que cansado de perscrutar o
+insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
+que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas.
+
+ * * * * *
+
+Ao romper da alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de
+nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
+lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
+diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações
+imperceptíveis e suaves.
+
+Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as
+diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados
+de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e
+pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu no
+alto dos montados.
+
+Pelas ladeiras dalém, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao
+areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água
+nos açudes, marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e
+informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá
+em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar
+sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma
+ambição ou como um sonho...
+
+ * * * * *
+
+Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas
+paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.
+
+--Ruça! torna ao rebanho, Ruça!
+
+Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida
+sobre o cadáver do pobre filhinho morto!...
+
+E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos
+rochedos--passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a
+esfaimada legião dos amaldiçoados corvos...
+
+
+
+
+ARRULHOS
+
+_A M. da Silva Gaio_.
+
+
+Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orifícios
+triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecável do
+muro que falava ao longe, muito ao longe, a léguas de distância.
+
+--Pombal da Morgada! diziam.--Lá se vê além...--E um gesto muito longo
+levava a vista horizontes fora, à cata do Pombal da Morgada, que
+alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
+como um pequenino ermitério cheio de lendas, onde santos de carne e osso
+provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
+seriam encantadoras as tardes quentes de estio, à sombra de árvores
+seculares em cuja ramagem trinassem pássaros em barda, pardalada sonora,
+gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimónia--frangãos
+assados e boa vinhaça da terra.
+
+Pombal da Morgada porquê? História singular que vou contar-lhes. A
+Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e
+outras tantas quintas, viúva antes de casar, pesarosa da morte
+desastrada do noivo--um trambolhão de um cavalo que o matara logo ali,
+sem mais pio, num ai.
+
+A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na
+véspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a
+castidade das suas intenções dele...
+
+Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procriou, vieram pombos
+novos--todos brancos uns, raiados outros, de um _gris_ delicadíssimo
+alguns, todos encantadores, veludíneos, muito mansos.
+
+Belos pombos, na verdade!
+
+Todas as tardes, quando as tintas do crepúsculo começavam de esbater-se
+numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas
+entrava de se desfazer em imperceptíveis _nuances_ subtis, num
+_smorzando_ melancólico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
+caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida
+cessava no campo e começava no céu em cintilações argênteas de
+estrelas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
+estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
+espalhando no pavimento térreo, com solicitudes de _menagère_, as
+provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço--milho em
+abundância e fartura de alpista.
+
+Assim todas as tardes, ia já em quatro anos, que não havia forças que
+levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia só,
+retirada de tudo, a tudo indiferente, impassível a pedidos de amigas
+que saíam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar
+para que se distraísse, para que se alegrasse--«era nova ainda, podia
+arranjar noivo, nada mais fácil...»
+
+--E as pombas? objectava.--Mas era pecado deixá-las, dizia consigo.
+Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
+matassem, haviam de até roubá-las, entrar de noite no pombal, levá-las
+todas.
+
+--Que não e que não! insistia renitente;--que tivessem paciência, que se
+divertissem muito, ela ficava.
+
+--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que
+rebentou do trambolhão. Bem tola!
+
+E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
+ridícula com aquele seu luto perpétuo, escarnecendo da simplicidade
+habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um
+pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma prega, nem sequer um laço.
+
+Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não
+desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanhã,
+desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortável, muito
+abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram
+flácidos--folhas de milho mudadas cada dois dias.
+
+Que bom, ser pombo da Morgada!
+
+A música dos arrulhos, uma volata muito lânguida, começava com o
+aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho,
+quando as forças eram sãs e as asas pediam vos.
+
+Hora dos amores!
+
+Pombos atrevidos, sanguíneos, de íris rutilante e índole impaciente,
+lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
+ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
+possuindo-as à força, a tremer, asas em concha, penugem eriçada,
+arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois,
+hirtos, pálpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxúria
+e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de
+contentes, sacudindo as asas, pescoço levantado, orgulhosas talvez,
+muito felizes.
+
+Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
+quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa
+doçura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
+às boas, não querendo violências, detestando-as, bem se via,
+suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os
+carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de
+penugens, arrulhos mais doces e toques delicadíssimos de bicos--beijos
+com certeza.
+
+Isto todos os dias, nas manhãs enevoadas especialmente. Imagine-se a
+vida do pombal àquelas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas
+mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
+queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava;
+e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
+sanguíneo e quem era pachorrento.
+
+Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
+pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
+direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num
+ruído muito doce de bicos que sorviam.
+
+Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
+Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimentá-la ao
+balcão da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos
+ombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não
+sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lágrimas, mas
+que sempre provocavam novos afagos, afagos intermináveis:
+
+--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...
+
+Dali para o pombal, continuar aquela vida de boémios felizões, vida
+de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de
+harém.
+
+Poligamia desenfreada!
+
+Excepção a ela, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba
+branca, de uma alvura impecável de neve, e então um pombo raiado, preto
+e cinzento, de _nuances_ azuis-escuras, ares aguerridos de lutador
+vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.
+
+Era o pombo mais atrevido do pombal, o de génio mais insofrido e
+espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contínua de pescoço,
+nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuía-a, sem arrulhos prévios,
+sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
+entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando
+primazias à força de bicadas.
+
+E umas atrás de outras, e dias após dias, sempre assim!
+
+Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar lugar
+a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente,
+resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
+meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava,
+incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
+outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
+entregar a outros, e de se afeiçoar à branca, a ela só, acarinhando-a
+muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
+amores.
+
+Não imaginam os senhores nem há nada que possa dar ideia da desordem, da
+perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instintos cómodos de
+poligamia, tão avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram
+de todos e as pombas eram comuns.
+
+E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
+inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de
+egoísta. E quando saíam não se juntavam com os outros--uma desfeita! uma
+ofensa!--tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para
+a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
+contrário.
+
+Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os
+encontravam no pombal, em ninhos contíguos a princípio, no mesmo ninho
+depois!
+
+Um escândalo! Um desaforo!
+
+E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.
+
+Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
+forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
+isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as asas,
+levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
+quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados...
+
+Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba
+branca e tímida que o susto transia, inquieto, colérico; reagia depois,
+lutava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do
+pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além,
+entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruído de asas, receando
+acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido
+sob a asa veludínea.
+
+Dois meses assim--dois meses!--numa fidelidade conjugal ininterrupta,
+digna de servir de exemplo a outros bípedes que eu conheço, que os
+senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
+esplêndida de alegrias, passada em belas digressões campos fora,
+pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo
+de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...
+
+Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianças, suspeitas
+de inconstâncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia.
+Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
+modos de enfadada às vezes, certas perrices, resistências mal
+disfarçadas. Ficava-se em casa se o raiado saía, impassível a
+súplicas, muito mona, com elanguescimentos de pálpebras e quebramentos
+de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o
+raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.
+
+Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam--rameira do
+raiado!--um dia levantou voo e fez-se ao largo.
+
+ * * * * *
+
+Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao
+_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
+_quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, à prova de
+reumatismo e à prova de vintém, felizes na sua pobreza, amigos das
+crianças, bem humorados sempre, flores de uma árvore que ora vai dando
+cardos. Perto do solar da Morgada, a três quilómetros só, havia um assim,
+o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de teólogo
+ainda ao tempo.
+
+--Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas!--era assim que
+muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vários latins,
+sobre textos da Bíblia e passagens dos apóstolos.
+
+--Teologia velha, diziam, a genuína!
+
+A casa da residência era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
+a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pátio da entrada era
+térreo, rimas de lenha seca de um lado e doutro, seguia-se a cozinha,
+um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruínas que dava para
+um quintalório, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
+estavam.
+
+Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoções, e nessa tarde
+quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, óculos na
+ponta do nariz, breviário na mão direita, a dois palmos, a esquerda a
+segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solidéu com borla
+resguardando-lhe a calvície.
+
+A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações
+de desgosto, arremessos de breviário, e por fim levantando a voz:
+
+--Fome as pombas, Sr.^a Luísa: não fazem senão saltar...
+
+--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cozinha,--mas têm lá
+visita, pomba que arribou.
+
+E depois informando:
+
+--Pomba guapa, toda branca. São agora três ao todo, e então o pombo...
+
+--Huum!... resmungou o abade em voz de reticências.--Percebo... percebo
+perfeitamente...--E foi meter-se no quarto, continuar a
+leitura.U+2014.Deixá-las! concluiu evangélico.
+
+Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar à reles
+pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixão velho, com
+grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'ali ao fundo da
+varanda, húmida de águas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo.
+
+Quando a mostrava à criada, o abade dizia-lhe sempre:
+
+--A sua vergonha, Sr.^a Luísa; a vergonha da sua cara. Como se os
+animais não fossem também criaturas de Deus...
+
+As pombas eram magras e o pombo era esquelético.
+
+Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hábitos canalhas, manchando a
+alvura imaculada das penas na imundície fétida da gaiola em que ambos
+se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem
+tratada, flácida de penugens e de carnação consistente, apetitosa, o
+pombo não a largava--génio de libertino em corpo de tísico.
+
+Em breve período entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se
+queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
+tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do
+raiado, o seu primeiro amor, quem sabe!
+
+E depois, o pombo sujo já não se importava com ela, desprezava-a,
+tentara mesmo expulsá-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus
+tratos,--à intrusa. Dor incomparável!
+
+Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar,
+descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando
+sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais
+alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento
+e começou o voo, viu-se na água e estremeceu, molhou ainda as asas, viu
+um corvo na sua própria imagem, um corvo negro que a perseguia
+silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ela tinha
+sido e o que era!...
+
+Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do raiado... Oh! o
+raiado!... Receou primeiro, quem sabe se ele a quereria, tinha pomba,
+decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um voo valente e
+estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.
+
+Fez-se de voo e partiu.
+
+ * * * * *
+
+A manhã era calma e o céu era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar
+que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrela da alva
+tinha os últimos bocejos para fechar de todo a pálpebra cansada e
+adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado
+esplêndido--decoração triunfal com que se orna aguardando a visita de
+quem tem de rolar pela eclíptica, alumiando o hemisfério e fecundando
+tudo--o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...
+
+Naquele repontar da manhã, o alto céu era de uma limpidez cristalina.
+Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcíssima paz, e
+pelas ramagens verdejantes a volata suavíssima dos ninhos começava, como
+uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras,
+florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa de alva.
+
+Em manhãs plácidas como aquela, quantas vezes a branca não fizera as
+suas excursões alegres de _touriste_, na companhia do raiado,
+perdendo-se com ele através do horizonte àquela hora tranquilo e para
+toda a banda transparente!
+
+Como tudo isto lembrava, agora!
+
+Em todos esses pinheirais, ao largo, os dois haviam descansado muitas
+vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura inefável o amor
+extraordinário que os unia! Em toda a largura não se descobria um só
+campanário ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres,
+contentes, doidos! E ela sempre ufana, acompanhava o macho nos seus
+voos ainda os mais arrojados, perdia-se com ele para além das serranias
+mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que
+empenharia a vida só para salvar a da amante.
+
+E que bela manhã, aquela! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras
+acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu voo perpendicular e
+rápido!
+
+Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
+melros ensaiavam solícitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
+largura--nem uma asa de pomba palpitava. Ela só, desalentada e cheia de
+mágoas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte...
+
+Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as asas
+contra o muro, arremetendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a
+coragem, voejando de novo para arremeter em seguida. Os seus antigos
+companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
+arrulhando forte, saíram em tropel e foram pousar no telhado, batendo
+muito as asas combinando ataque.
+
+E como a pomba teimava em entrar, corriam a opor-se, vedando-lhe a
+passagem.
+
+De repente, um pombo negro abriu muito as asas, agitando-as, tenteou voo
+nuns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a
+desgraçada pomba, e os mais após ele. Havia sangue nos bicos e penas
+voando em elipsóides, um barulho de asas que se chocavam com fúria. Por
+fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado,
+bico aberto, num arquejar convulso, cortado de um arrulho gutural de
+vida que se esvai lentamente, gradualmente, com dor. Um estremecimento
+de membros por fim, uma agitação geral repentina, e--morta!
+
+Ares além, os assassinos em bando voavam à busca talvez de um ribeiro
+onde lavassem os bicos ensanguentados...
+
+ * * * * *
+
+E o raiado?--hão-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e
+vê-lo-ão sair da janela das trepadeiras, alegre, felizão, boémio,
+depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um
+leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ela,
+arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando...
+
+
+
+
+BATALHAS DOMÉSTICAS
+
+
+
+
+BATALHAS DOMÉSTICAS[1]
+
+_A Luís Trigueiros_.
+
+
+Para o meu propósito, é inútil narrar-lhes esse pequenino e perfumado
+idílio, cor-de-rosa, que foi na vida de ambos, durante um ano, o seu
+mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde ele, Joaquim Seabra, maior,
+empregado de escritório comercial, vivia desde pequeno uma furiosa
+vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda ele era fedelho: e
+passados poucos meses, tinha o Joaquim sete anos, uma doença complicada
+levara-lhe também o pai--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas
+leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira,
+nas abas da Serra da Estrela.
+
+Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lhos. E
+quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo
+peito o vaso sagrado das partículas, solene sob a umbela branca de
+grandes ramagens amarelas, o pobre homem preveniu o padre de que em
+podendo lhe desejava uma palavra.
+
+--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.
+
+Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente,
+junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho,
+entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo
+de lhe murmurar, designando vagamente o filho:
+
+--O pequeno, coitadinho!
+
+De modo que foi o próprio reitor em pessoa, quem, passados dois anos,
+veio meter o órfão, como marçano, numa loja de ferragens da baixa,
+loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para
+uns saguões de prédios contíguos. De marçano subiu com o tempo a
+caixeiro; e como era aplicado, humilde, suportando com uma placidez
+resignada de beirão um trabalho por vezes superior às suas forças, pulou
+um dia para a escrivaninha da casa, no andar de cima, vaga pela saída
+para a cadeia do outro que cometera umas falcatruas.
+
+--Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera diante dos patrões o
+Joaquim.
+
+E a incisiva frase que fora, enquanto remexia a papelada, todo o seu
+comentário ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a
+involuntária conquista do lugar, como revelação, que era, das qualidades
+fundamentais do seu carácter,--comuns, de resto, ao tipo beirão,
+profundamente animal, audaz, sóbrio, musculoso, no fundo generoso e bom.
+
+A vida começou então a ter para ele umas entreabertas mais risonhas,
+livre dessa prisão estreita da escura loja, onde os seus instintos
+hereditários de independência, acordados no fundo de uma natureza
+bárbara de hermínio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos
+repelões de rebelião... Até que um dia, numa dessas guinadas que mesmo
+à escrivaninha o assaltavam, pensou em ir à terra onde não voltara desde
+pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E numa
+introversão de momentos, mirando através da janela o claro céu azul,
+alto naquela manhã serena de Maio, o Seabra teve a remota visão do seu
+passado--das coisas da sua infância, da sua pobre e humilde aldeia
+encravada num declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente
+de neves eternas. E como se mirasse tudo através de um binóculo
+invertido, ele lá via além, muito longe para as sugestões do seu
+desejo, muito afastado para as débeis reminiscências da sua memória,
+tudo isso que ele dizia em três palavras--«a minha terra!»--isto é,
+esse montão informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo
+do qual nascera; o campanário alto e esguio; a igreja oblonga; a fita
+branca do muro do cemitério onde seu pai e sua mãe jaziam; a paisagem
+circundante cortada de canais e regueiras, que parecem fios de prata
+serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a
+velha legião amiga das árvores--o zimbro ao alto dos morros nus; depois,
+descendo, as urzes brancas; os piornos; os belos carvalhos altivos; e
+já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agrícola e hortícola o
+verde e tenro pára-sol das suas soberbas folhas--o castanheiro, enfim.
+
+Através da sua vida de balcão, duramente mourejada a mover barras de
+ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com
+intermitências raras de descanso, algum Domingo, pelas hortas dos
+arredores, ou às vezes num bote, pelo Tejo,--a sensação melancólica da
+sua paisagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cérebro, nem tão
+pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infância, dos seus
+companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, à
+lição a casa do reitor, naquele velho sótão da residência, com paredes
+denegridas e tecto de madeira com manchas...
+
+E que seria feito deles? Talvez que os não conhecesse, que o não
+reconhecessem, agora. Talvez. E esta dúvida, esta desconfiança, dava ao
+seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua
+bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto
+subtil e ingénuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, enfim, a propor
+aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azuis e
+toda rosada de cútis, que ele, sem quase dar por isso, espontaneamente,
+insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda
+solteira...
+
+...a Emília!
+
+E porque seja estranho ao meu propósito, e quase indiferente à história
+que lhes vou contando, a crónica preliminar desse consórcio, direi que
+a velha estola do reitor os uniu enfim uma manhã--manhã de Julho, na
+velha e ampla igreja da freguesia, toda banhada de sol, toda rumorejante
+de vozes, e sobre a qual caía sem despejar, como uma chuva alegre de
+pétalas, a saraivada metálica dos sinos, repicando... Até que passados
+dias, ei-los enfim em Lisboa, instalados não sei em que beco da Baixa,
+perto da «obrigação» do Joaquim, que era, como lhes disse, o
+escritório.
+
+E aqui rompe a história; e se é do agrado dos senhores, comecemos.
+
+ * * * * *
+
+Bem, aquele primeiro ano. Por uma banda a Emília a cuidar da casa,
+toda se desvelando nos mínimos pormenores do interior, na cozinha, no
+amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a
+mobília, comprada de novo, tornava alegres e confortáveis. Ele, por
+outra banda, trazendo-lhe nos fins dos meses intacto o seu ordenado, e
+trazendo-lhe, cada dia, uma carícia mais fresca e mais suave. E dada a
+homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniência comum das suas
+naturezas, originárias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas
+do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saúde,
+explica-se logicamente esse paralelismo absoluto de vontades que os
+dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro
+avesso nos seus desejos, sem a mínima divergência no seu modo de ver e
+de pensar. Educados em meios diferentes, embora! o que nas suas
+naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio
+visual das suas inteligências, tornara podemos dizer nulo, sem
+consequências no fio comum das suas vidas, esse largo período passado
+em latitudes diferentes:--ela, onde ambos tinham nascido, debaixo do
+mesmo céu, à luz do mesmo sol, à sombra das mesmas árvores; ele,
+sequestrado de tudo isso, mas num meio sem cor para ele definida,
+pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se
+conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente
+debaixo do luar melancólico...
+
+Vinha daí, e do fundo ingénuo das suas almas, estreladas das mesmas
+superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao
+ritmo da mesma canção, essa forte, dulcíssima corrente de ternura
+espiritualizada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e
+fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada
+eflorescência do seu profundo amor... E pois que havia também no sangue
+de ambos--bem como no seio de um diamante as iriações mordentes--as
+rubras, incandescentes faúlhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se
+quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo,
+vivente como um largo pâmpano, nimbada, enfim, como certas telas
+clássicas, por umas cabecitas loiras de crianças, frescas, ridentes, cor-de-rosa...
+
+Daí, como lhes disse no princípio, esse pequenino e perfumado idílio,
+cor-de-rosa, que fora na vida de ambos, durante um ano, o seu mais vivo
+encanto...
+
+ * * * * *
+
+Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escritório, noite cerrada
+já, quando uma rapariguita que lhes servia de criada havia dois dias,
+vindo abrir a cancela, lhe desfechou estas palavras no acento beirão:
+
+--A minha madrinha está muito mal.
+
+--Muito mal?
+
+--Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê.
+
+Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se à umbreira,
+para não cair, sentiu passar-lhe pelo cérebro, como um tufão de peste,
+uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um pressentimento... E cobrando
+alentos, confuso diante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz
+trémula, no tom de quem procura, comprometido e humilde, esconder um
+pensamento:
+
+--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio
+da Beira.
+
+--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como
+doida...
+
+--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso.
+
+E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do
+andar de baixo,--talvez alguém que o procurasse!--fechou a porta com
+força; e apagando a luz, com um sopro trémulo, coseu-se a um canto
+impondo silêncio, com a mão sobre a boca arquejante da rapariga.
+
+--Cala-te, ouviste? disse-lhe quase com o bafo--Se te calares hei-de-te
+dar dinheiro. Cala-te.
+
+A rapariga calou-se, aniquilada, toda enroscada a um canto, como um
+novelo. E passados instantes, quando um grande silêncio envolvia todo o
+prédio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem
+nas ruas próximas, o Seabra tomou nos braços trémulos a pequena, e foi,
+cauteloso como um bandido, levá-la à cama.
+
+--Ouves, Luísa? Não faças bulha. Dorme.
+
+E fechando-lhe a porta à chave, respirou, hirto no meio do corredor em
+trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquele silêncio, aquela
+escuridão impenetrável! E ele, como um cataléptico, ali encafuado
+vivo...--triturado pela mágoa, roído pela dor, desfeito pela desgraça,
+como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem,
+implacáveis e cruéis, famélicas da última partícula da sua carne,
+sedentas da última gota do seu sangue, famélicas e sedentas até da sua
+própria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no
+entanto... morto: vivo para a sensação esfaceladora da sua atroz
+desgraça, do seu cruel, cruciantíssimo martírio; morto, aniquilado,
+desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças...--as suas
+esperanças! revoada alegre de pombas, cândidas, serenas, imaculadas,
+que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e
+para sempre...
+
+E humilde como um rafeiro ou como um trapo, numa prostração de louco
+embriagado, dir-se-ia que o cérebro deixara de funcionar nesse
+infeliz--como relógio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e
+que tudo quanto ele sentia, e que tudo, oh Deus! quanto ele gozava!
+era essa impressão aniquiladora do _Nada_, que o fundia na treva
+circundante, com ela identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e
+tanto e tão intimamente, que ele próprio nela se sentia diluído, e no
+silêncio...
+
+Súbito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado ali de
+perto como um réptil, escoado ali de perto, como um verme,
+fosforejante na treva à semelhança de um demónio, que agitasse um
+_pierrot_ de cascavéis,--uma centelha de vida animou esse corpo
+aniquilado, e dentro daquele cérebro fez repontar, como luz de
+lâmpada funérea alumiando um cenóbio silencioso, a chama de uma
+ideia... E teve então de si próprio a estranha, diabólica visão de um
+esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco imóvel
+das órbitas, donde dois feixes de luz escorriam--aquele trapo
+miserando ali caído, informe, esquálido, repelente, montão de gelo, e
+lágrimas, e trevas...--que era ele também!...
+
+Entretanto, e como por força mesmo dessa alucinação desvairada e
+trágica, o cérebro perdera nele a recta, serena faculdade do
+raciocínio, ele continuava absorto, incompreendido, estúpido, diante
+da «sua desgraça»--como diante de um grande mar de negrume, profundo e
+estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céu sem estrelas,
+torvo de um burel cerradíssimo de nuvens, a sombra de um espectro... E
+assim em breve, retombou nessa altitude que diremos irracional,--mudo,
+aniquilado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo
+de um poço um bloco inanimado...
+
+ * * * * *
+
+No escuro do seu cubículo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a
+própria treva soluçasse, esse chorar abafado da criança, espavorida das
+coisas que a cercavam, para ela misteriosas e fúnebres. Era como se um
+alegre pintassilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido
+de amendoeira, por uma tarde serena de Abril, pousar, num voo de acaso,
+na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de
+velho muro, abandonado algures...
+
+E porque viera? E para que viera? Não sabia. No entanto, ao contrário do
+que lhe tinham prometido, que saudade infinita, repassada de profunda
+nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, através do qual passavam
+os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois
+dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo!
+E não tornara mais a ver pássaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã,
+tocando à missa de alva, tangendo à tarde a ave-marias, o seu querido e
+alegre sino de aldeia...--além, naquela riba suave e pitoresca,
+prateada, beijada do luar àquela hora!... E o fio do seu pensamento,
+que outrora derivava límpido, sereno, cristalino, como pequenino
+arroio murmurante que vai entre duas alas de flores singelas,
+torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido num
+veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fora de lágrimas,
+oculto sob a folhagem pálida...
+
+ * * * * *
+
+A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto
+da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez
+dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como
+acontece às tempestades da natureza, também a tempestade daquela alma
+de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente,
+gradualmente. Chorou. E como se fora o véu das lágrimas que lhe não
+deixara ver até então os pormenores do seu infortúnio, deste
+permitindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se
+fazer com a vazante mais lúcido o raciocínio, mais precisa e mais
+esperta a ideia que se lhe acendeu no cérebro, como luz que pouco a
+pouco vai surgindo na lâmpada de um claustro, alumiando nitidamente,
+sob o docel frio das sombras, as arestas marmóreas de um sepulcro...
+
+Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragedia, cujas
+linhas contornais pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade
+rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde seca de Maio. E foram
+então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina,
+por entre as maxilas ferradas, do fundo do peito em ânsias. Então foi o
+arrancar convulsivo dos cabelos, às guinadas, teimosamente, num duelo
+de loucura com a dor física, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a
+beber o próprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes,
+lacerantes como se foram de abutre.
+
+--Ah! raios do céu, e não morro!
+
+E como o grito lhe saiu mais alto, prestes levou ao chão, como
+beijando-o, os lábios estranhamente rasgados pela cólera. Veio-lhe então
+o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrível de que se
+divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a
+conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo ele se encolhia, e
+todo ele se sentia gelado até ao mais íntimo da sua alma, supondo-se
+na rua, como outrora, ao vivo e claro sol, levando aderente às costas,
+como um ferrete ou como um cáustico o olhar de «toda a gente»... E com
+as unhas ferradas na testa, escondia da própria treva, com as mãos
+ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.
+
+--Diabos do Inferno! levai-me!
+
+A este novo grito, porém, súbito se recolheu num grande pavor
+religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce,
+harmoniosa, como na paz tranquila do campo o fumo azul-claro de um
+casal... E teve a doce visão de um arco-íris, bonançoso e rutilante,
+repontando luminoso no burel aspérrimo da sua alma, onde uma clareira se
+abria. E foi quase a sorrir, chorando as primeiras lágrimas tranquilas,
+que dos seus lábios quase serenos voou como uma pomba alvinitente, que
+transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:
+
+--Deus!
+
+E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida num
+como enlevo de visão, um ruflar de asas de pombas... à hora da alva...
+sobre os campos... numa clara manhã de Maio, perfumada...
+
+E como se mão invisível o erguesse, devagar, serenamente, enxugando-lhe
+da orla das pálpebras a última lágrima de sangue deposta ali pela sua
+alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contíguo, onde
+sua mulher estava, o seu anjo, o seu tesoiro, a sua vida... E foi
+submissamente, como um cão duramente batido que volta aos afagos do
+dono, que sobre os lábios da adormecida esposa, secos, pálidos,
+desbotados, ao claro luar vindo do céu, o triste uniu os seus lábios
+frementes,--...num beijo suavíssimo de perdão. Ao mesmo tempo que ela,
+num delírio, repetia a frase cruel:
+
+--Mais vinho!
+
+
+
+
+NOTAS:
+
+[1] Sendo necessário completar o número preestabelecido de páginas de
+cada volume desta _Colecção_, número além do qual se não pode ir e
+aquém do qual se não deve ficar,--o editor pediu e obteve do autor, em
+vez de novo conto, um excerto do seu livro em preparação, livro
+provisoriamente baptizado com o título de _Batalhas domésticas_. O
+excerto pode dizer-se que constitui só por si, como os leitores verão,
+um trabalho literário, independente e uno, o que de certo modo lhe dá
+lugar nesta colecção, ao lado dos precedentes, estabelecendo, além
+disso, a transição do espírito do autor para uma nova fase, literária
+e artística.
+
+N. do E.
+
+
+
+
+ÍNDICE
+
+
+Idílio rústico
+
+Sultão
+
+Última dádiva
+
+Prelúdios de festa
+
+Tipos da terra
+
+V[ae] Victoribus
+
+Maricas
+
+Para a escola
+
+Tragédia rústica
+
+Abyssus abyssum
+
+Mãe
+
+Arrulhos
+
+Batalhas domésticas
+
+
+
+
+OS MEUS AMORES E A CRÍTICA
+
+
+Da Revista Ilustrada (extracto da crónica):--«..._Os meus amores_, de
+Trindade Coelho, é um volume de contos para toda a gente, em condições
+agradabilíssimas ao paladar de ambos os sexos, e com delicadas
+circunstâncias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das
+preocupações literárias mais evidentes deste escritor primoroso é
+fazer jus à amizade das leitoras, e como dispõe de perícia no ferir de
+certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento,
+consegue-o.--_Alfredo Mesquita_.
+
+
+Jornal da Noite:--«Trindade Coelho--Este ilustre escritor, nosso
+talentoso colega do «Portugal», brindou-nos com um exemplar do seu novo
+livro de contos _Os meus amores_.
+
+De entre a plêiade de prosadores, que por aí mourejam no mundo das
+letras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distintamente,
+e impõe-se à admiração dos que apreciam os talentos brilhantes
+privilegiados.
+
+Os trabalhos do ilustre escritor, se pela estrutura original e
+encantadora são dignos do maior apreço, pela elegância da forma,
+burilada a primor num estilo finíssimo e cintilante, despertam os
+mais francos, sinceros e entusiásticos encómios dos que os lêem.
+
+Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu belo
+carácter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus característicos
+serão traduzidos no novo livro de contos do nosso distinto colega.»
+
+
+Diário Popular:--«_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de
+graciosos contos, retratando aspectos da vida da aldeia e do campo, que
+acaba de aparecer, firmado por Trindade Coelho.
+
+O escritor, como verdadeiro artista que é, localiza todas as suas
+atenções, de há muito, no trabalho de apreender com fidelidade o
+viver campesino, sobretudo da vasta região transmontana, a qual lhe foi
+berço. Por isso o seu fabrico literário se aprimora de dia para dia
+numa escala crescente de sinceridade, e por tanto mérito: _Os meus
+amores_ o atestam, quando postos em paralelo com os primeiros contos
+publicados avulso.
+
+Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o diálogo que busca e
+consegue fotografar com particular exactidão. Em vez dos descritivos,
+quase desprezados, são trechos sucessivos de conversas de uma
+encantadora rudeza ingénua que formam o estofo principal de todas as
+suas produções. Isto e a felicidade com que sabe observar, dão o cunho
+pessoal da sua obra, que proporciona agradáveis e confortáveis momentos
+de leitura.»
+
+Diário Ilustrado:--«Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um
+admirável soneto de Luís Osório, que depomos nas mãos da leitora, como o
+perfumado ramo de cravos valencianos, a flor actual das suas
+predilecções femininas: (_segue o soneto inicial._)
+
+E pelo braço do poeta da _Alma lírica_ subimos ao doce convívio
+espiritual da alma de Trindade Coelho.
+
+O conto _Mãe_, uma rica jóia engastada neste livro, brilhando aí por
+todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte
+de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para
+aferir os dotes mentais de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante
+estilo moderno, fluente e sóbrio, incisivo e profundo, vibrátil e
+melódico, o diploma do seu notável talento.
+
+É principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade
+espontânea que estes contos nos cativam.
+
+O autor diz-nos, sem preocupações de escola e sem pretensões a abrir
+caminho pela deslocação do vocábulo ou pela selva escura do escândalo, o
+que viu, analisou, observou e sentiu.
+
+As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslizam
+suavemente, tocadas a espaços de uma inigualável melancolia
+contemplativa que lhes duplica o encanto.
+
+Mas nesses singelos contos, artisticamente concretizados, Trindade
+Coelho revela o superior poder evocativo da visão íntima, que o
+singulariza.
+
+A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para ele,
+como para todos os artistas de raça, atitudes, expressões, cores e
+sons, que o autor vê, adivinha, sente e traduz com a fascinadora
+eloquência dos iniciados, e o misterioso enternecimento, que só nos
+transmite a simples leitura dos poetas.
+
+Há rápidos traços de análise emotiva ou de comoção reflexa que valem
+poemas.
+
+E não serão o _Idílio rústico_, a _Mãe_ e outros contos, soberbamente
+delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?
+
+Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo
+seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, não é de certo o
+seu primeiro triunfo.--_Gabriel Cláudio_.»
+
+
+Jornal do Porto:--«_Os meus amores_.--A colecção António Maria Pereira
+aumentou-se de um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e
+está escrito pelo nosso ilustre colega e literato distinto o Sr.
+Trindade Coelho.
+
+Deste livro que, pelas suas destacadas qualidades literárias, deve
+achar grande aceitação no nosso público, escreveremos em breve as
+palavras apreciadoras que ele merece.»
+
+
+Correio Elvense:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
+escritor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas a
+que deu o título: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
+António Maria Pereira.
+
+Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da
+capital, fez ainda há pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
+em Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que
+tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto
+estilista.
+
+Não só nos seus escritos passados, mas então, conhecemos o grande valor
+que indiscutivelmente possui. Não nos surpreendem pois os seus
+triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons
+e sinceros amigos.
+
+Num dos próximos números falaremos da impressão colhida em _Os meus
+amores_, agradecendo desde já as expressões afectuosíssimas que
+acompanham a dedicatória do livro, que o seu autor nos ofertou.»
+
+
+Correio do Norte:--«_Os meus amores_.--Contos e baladas.--Trindade
+Coelho, o já conhecido e apreciadíssimo escritor, acaba de publicar um
+livro de contos com o título acima indicado. É esta uma bela novidade
+para o nosso mundo literário, onde Trindade Coelho de há muito soube
+conquistar um lugar dos mais distintos, pelo seu belo talento e
+poderosas qualidades de escritor.
+
+Limitamo-nos por agora a dar esta simples notícia do aparecimento do
+novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre ele.
+
+Agradecemos ao nosso prezadíssimo amigo a delicadeza do seu
+oferecimento.»
+
+
+O Globo:--«_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de
+António Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome
+de Trindade Coelho.
+
+Não o lemos ainda porque o recebemos agora; mas há-de ser por certo
+trabalho de grande valor artístico, como invenção e como execução,
+porque Trindade Coelho é incapaz de produzir uma obra literária má. A
+sua educação literária está feita, e os seus numerosos trabalhos tão
+apreciados, tão portuguesmente escritos, tão sentidos e tão espontâneos
+revelam qualidades de escritor de raça. Ele tanto pode ser um
+jornalista eminente como é um contista original.
+
+_Os meus amores_ é uma colecção de contos e baladas. Conhecemos alguns
+capítulos, que são primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para
+não errar na apreciação. Vamos lê-lo com a convicção de que teremos de
+saborear um desses raros mimos literários que só os privilegiados de
+talento sabem oferecer aos seus leitores.»
+
+
+Diário de Notícias:--«_Os meus amores_.--_Contos e
+baladas_.--Anunciámos, em tempo, o próximo aparecimento deste
+trabalho, com que o brilhante contista e nosso colega do _Portugal_, o
+Sr. Trindade Coelho, ia aumentar a colecção, já tão valiosa, das
+edições do Sr. António Maria Pereira.
+
+O livro acha-se, enfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que
+desde logo nos autorizaram a emitir os elevados méritos literários do
+seu autor, tantas vezes comprovados em numerosos escritos anteriores.
+
+Com uma observação escrupulosa, e um pitoresco estilo, de uma pujança e
+de uma riqueza não vulgares, sem atentados contra o bom gosto, nem
+rebeldias contra o bom senso, os contos do Sr. Trindade Coelho são, a
+todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que há-de entrar, sem
+hesitações, na aceitação do público, e que há-de ficar longo tempo, a
+atestar, numa formosa prova, a riqueza de um espírito, superiormente
+educado, dúctil e prontamente maleável.
+
+Porque esses contos são a obra de um genuíno artista, cuja _maneira_,
+simultaneamente fácil e apuradíssima, revelando a espontaneidade de uma
+fecunda fantasia, traduz e afirma a fina sensibilidade de uma alma
+delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de
+seiva.
+
+Não pode entrar nos curtos limites de uma simples notícia, a mais
+desenvolvida crítica desse trabalho, que tem, na próprio nome do seu
+autor, o melhor e o mais seguro título de recomendação para obter do
+público a consagração de um largo e legítimo sucesso.
+
+Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luís
+Osório--preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquele
+rico e primoroso escrínio de verdadeiras e puras jóias literárias.»
+
+
+A Actualidade:--«_Os meus amores_.--Este nome é o de um novo livro da
+colecção António Maria Pereira. Pelo título presume-se um volume de
+versos; mas não é, o que não quer dizer que nele se não surpreenda
+legítima poesia. Trata-se de contos e baladas, originais do Sr.
+Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escritores.
+
+Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso
+contista:
+
+Estilo correcto, elegante, vivo; descrições ricas de observação e
+atraentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da forma; despidos de
+grandes artifícios os entrechos, mas subjugantes pela muita
+naturalidade; o diálogo, em suma, admirável pela singeleza e, sobretudo,
+pela propriedade.
+
+Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do Sr. Trindade Coelho,
+deve incontestavelmente ser de valor. E é. São encantadoras todas as
+narrativas que contém. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idílio rústico_,
+que embriaga e predispõe para a leitura de todo o volume, onde se
+encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notável poder
+de observação e que deixam o espírito suavemente impressionado. Leiam, e
+verão que não exageramos na opinião que aí deixamos rapidamente
+exposta.
+
+Ao autor o nosso reconhecimento pelo mimo da oferenda.»
+
+
+Correio da Manhã:--«Registar o aparecimento de um livro bom, linguagem
+elevada e singela, desartificioso e artístico, repositório vasto de
+observação, vibrado por uma grande impressão pessoal e subjectiva, é
+sempre agradável à crónica, neste tempo sobretudo de literatura
+gafada, ou de arte ainda literária quase pornográfica.
+
+_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos oferecer Sr. Trindade
+Coelho é um livro desses. Colecção primorosa de contos e baladas, em
+que no mais despretensioso dos estilos nos conta recordações e idílios e
+nos mostra uma galeria rica de tipos e de figuras cuidadosamente
+observados e primorosamente expostos.
+
+O último conto _Para a escola_, que dessa bela colecção acabamos de
+ler, é encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assemelha-se
+notavelmente à maneira de Gustavo Droz.
+
+Não é o lugar nem a acasião de fazermos a crítica do livro e a
+apreciação deste novo, deste debutante, que ao primeiro assalto parece
+estar já senhor da batalha.
+
+É por isso que sinceramente o felicitamos.»
+
+
+Vanguarda:--«_Os meus amores_.--O nosso colega, o Sr. Trindade Coelho,
+que quase só conhecíamos pelos seus libelos acusatórios, acaba de nos
+enviar um livro primoroso com este título, no qual a feição carregada e
+sombria do agente do ministério público desaparece por completo, para
+nos deixar apreciar só o espírito finalmente delicado do homem de
+letras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente
+sabedor do seu ofício.
+
+Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o
+outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do
+ministério público, que parece lhe oblitera às vezes as suas excelentes
+faculdades.»
+
+
+Primeiro de Janeiro:--«_Os meus amores_.--Acabamos de receber o
+formosíssimo livro de contos «_Os meus amores_», de Trindade Coelho.
+
+Não é ainda a ocasião de pormos em relevo todas as qualidades
+literárias, complexas e brilhantíssimas, que se evidenciam neste
+livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assinaláveis entre os
+mais ilustres cultores da prosa portuguesa.
+
+Os contos por onde «_Os meus amores_» se repartem não são apenas
+maravilhas de linguagem, onde tão somente se destaquem destrezas e
+fulgurações do estilo: a acção que os anima constitui uma deliciosa
+galeria de quadros, aspectos íntimos e exteriores da vida, colhidos em
+flagrante com uma extraordinária subtileza e lucidez de observação e
+trasladados a uma forma superiormente artística, onde há firmemente
+acentuados todos os caracteres de uma esplêndida organização
+literária.
+
+É um livro vibrante e magnífico--adoráveis páginas intensamente ou
+delicadamente emocionadas e primorosamente escritas, cuja leitura é um
+verdadeiro encanto.
+
+As nossas cordiais felicitações a Trindade Coelho, a quem agradecemos a
+gentilíssima oferta do seu livro.»
+
+
+Folha do Povo:--«_Os meus amores_.--Está publicada em volume uma série
+de _contos e baladas_ com que o Sr. Trindade Coelho, o brilhante
+colaborador do _Portugal_, vem enriquecer a literatura _contista_
+entre nós, hoje tão querida do público, depois que os trabalhos de
+Fialho de Almeida deram a esse género literário um valor até então
+mesquinho.
+
+A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e baladas_ do Sr.
+Trindade Coelho é um estilo muito seu, cheio de uma cristalina
+naturalidade, _afastando-se completamente dessas excrescências de mau
+gosto_, que ultimamente têm abastardado a língua portuguesa,--prova da
+superioridade intelectual do escritor de que nos ocupamos--, visto
+que não mira a uma falsa glória, conquistada facilmente pelas
+excentricidades de estilo, que são hoje uma verdadeira mania entre
+alguns escritores da chamada geração moderna.
+
+O Sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo à espontaneidade
+das suas impressões, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista,
+porque nunca a frase lhe sai banal, nem tão-pouco envolvida em ouropéis
+de mau gosto literário.
+
+E no entanto encanta-nos,--prova de que está ali um primoroso
+escritor, um espírito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da
+natureza por uma forma de observação, que não é desta nem daquela
+escola. É simplesmente sua, individual.
+
+Notamos mesmo um progresso no livro do Sr. Trindade Coelho; porque as
+suas primeiras produções literárias ressentiam-se de uma tal ou qual
+preocupação de _efeito_ no modo de construir a frase. Hoje, o
+escritor adquire a independência da sua maneira, do seu processo, e
+feito a tirar decorre fatalmente dessa independência, visto que os seus
+quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reprodução do que o
+artista observa em volta de si.
+
+Certamente que o público lerá com encanto o novo livro do Sr. Trindade
+Coelho, pelo que felicitamos o autor, e--podemos mesmo dizer--a
+literatura portuguesa.--_Silva Lisboa_.»
+
+Diário Ilustrado:--«De tempos a tempos chegava-nos do Alentejo um
+periódico que não deixávamos nunca de ler pelo fino gosto literário,
+pitoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos,
+incluindo os políticos. Esse periódico era redigido por Trindade Coelho,
+cujo talento conhecíamos desde Coimbra, e cuja individualidade
+literária víamos agora acentuar-se com um vigor de originalidade
+verdadeiramente notável.
+
+De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o
+_Diário Ilustrado_ e, vindo estabelecer residência em Lisboa, algumas
+vezes tivemos a honra de receber nesta redacção a sua visita, sempre
+agradabilíssima para nós, porque a sua conversação cintilante
+aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho.
+
+Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir num volume--que faz parte da
+colecção _António Maria Pereira_--os seus deliciosos contos, cheios de
+observação, de verdade, de simplicidade artística, que é, a nosso ver,
+suprema expressão de beleza neste género de composições literárias.
+
+_Os meus amores_ são um belo livro, em que o estilo se não contorce
+atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da
+forma literária denunciam uma carência absoluta de espontaneidade. Tudo
+ali deriva naturalmente, tanto na sequência lógica dos caracteres e dos
+episódios, como na contextura fácil, mas colorida, dos períodos.
+
+Numa palavra, _Os meus amores_ são a obra de um artista, de um homem
+que sabe do seu ofício, e que tem uma individualidade bem definida por
+traços profundos de verdadeira originalidade.»
+
+
+Voz Pública:--«_Os meus amores_.--Trindade Coelho, inegavelmente um
+talento de primeira água, acaba de brindar a literatura portuguesa com
+um excelente livro de contos subordinado àquele título e que constitui
+o duodécimo volume da elegantíssima _Colecção António Maria Pereira_.
+
+_Contos e baladas_ é o subtítulo do livro, e muitos ao lerem-no
+julgarão que se trata de versos; mas não, é em prosa, em prosa
+vernácula, correcta e vibrante que estão escritos os belos contos de
+que se compõe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido.
+
+São todos eles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e
+verdade dos seus tipos e das suas situações, lembrando um tudo-nada os
+formosos tipos de aldeia, tão magistralmente desenhados pelo malogrado
+autor da _Morgadinha dos Canaviais_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_.
+
+Lemos de um fôlego o magnífico livro, e ninguém que o comece a ler
+deixará de o fazer como nós; tão atraente é a forma por que Trindade
+Coelho conduz todos os ligeiros contos de que ele se compõe, que sem
+querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste
+dele ter acabado.
+
+Todos magníficos, dizemos, mas se alguns há que mais nos prendessem,
+foram os que se intitulam _Tipos da terra_ uma galeria curiosa de tipos,
+e _A mãe_, um conto de natureza, simples e comovente na sua
+simplicidade, e notável pela sua originalidade.
+
+Recomendar o livro de Trindade Coelho é prestar um serviço aos nossos
+leitores.»
+
+
+Ordem do Dia:--«_Os meus amores_.--Este é o titulo do 12.^o volume da
+colecção António Maria Pereira, inegavelmente a publicação mais
+elegante, mais barata e mais interessante do país.
+
+_Os meus amores_ são uma série de contos e baladas, em prosa, devidos à
+pena de um moço talentosíssimo, de há muito conhecido nas lides do
+jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda não lançara ao mercado um
+livro; com este debuta o autor, e é uma estreia auspiciosíssima a sua.
+
+A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e nele é
+cultivado um género--o de contos, alguns à maneira de Gustave Droz, que
+prendem e interessam o leitor em todo o sentido.
+
+Foi gratíssima a impressão que ele nos deixou no espírito e esperamos
+que Trindade Coelho continue a brindar o público com as suas belas
+produções, porque estamos certos de que quem ler _Os meus amores_ será
+com sofreguidão que esperará novo volume do distinto escritor, tal é o
+encanto da sua escritura».
+
+
+O Sorvete, (com o retrato do autor):--«Dr. Trindade Coelho.--Mais uma
+prova do seu brilhantíssimo talento! Mais uma vez justificada a alta
+competência e finíssimo espírito de escritor distintíssimo!
+
+O novo livro de Trindade Coelho,--_Os meus amores_--contos e
+baladas--editada pela casa António Maria Pereira, de Lisboa, é, no
+dizer dos entendidos em literatura,--uma verdadeira jóia.»
+
+
+O Esposendense:--«_Os meus amores_ (contos e baladas) por Trindade
+Coelho.--Faz parte este volume da interessantíssima colecção António
+Maria Pereira, tão bem aceite do público, pela superior escolha das
+obras publicadas e pela modicidade extraordinária dos seus preços.
+
+_Os meus amores_ é um precioso agrupamento de contos, alguns inéditos,
+outros já conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com aplauso por
+diferentes jornais do país. Decorridos quase todos em plena aldeia
+trasmontana, cujos costumes o autor conhece de sobra, pois é natural de
+Trás-os-Montes, e foi durante alguns anos, delegado do procurador régio
+numa cidade de província--os contos desta colecção tornam-se
+sobretudo notáveis pela propriedade e pela fidelidade da acção,
+verdadeiros, nítidos, reais, palpitando da cor própria da paisagem,
+vivendo da vida natural, íntima e intrínseca, dos personagens e das
+coisas.
+
+Entre as nossas obras literárias originais, _Os meus amores_ merecem,
+pois, um lugar à parte, não como uma estreia auspiciosa, que o nome de
+Trindade Coelho é já demasiado conhecido de todos quantos se interessam
+pela literatura nacional, mas como a poderosa afirmação de um prosador
+elegante e de um contista distinto, no meio da grande maioria da chata
+vulgaridade indígena.
+
+_Os meus amores_ é, em suma, um livro de valor, bem cabido nas mais
+escolhidas bibliotecas.»
+
+
+O Português:--«_Os meus amores_.--Delicioso título de um livro
+delicioso.
+
+O livro é uma colecção de graciosos contos, editorada pelo Sr. António
+Maria Pereira; e o autor é o nosso colega do _Portugal_, Sr. Trindade
+Coelho, que, nos ócios da magistratura, de que é digno representante,
+cultiva as letras com desvelado amor.
+
+Em Coimbra, estudante ainda, era já literato apreciado, colaborando,
+com aplauso dos mais doutos, em jornais e revistas, que há mais de dez
+anos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reúne ao seu título
+de jornalista a invejável nomeada de contista esmerado, e brinda as
+letras portuguesas com um volume, que está tendo a mais justa e
+lisonjeira acolhida.
+
+O primeiro conto do livro, _Idílio rústico_, não obstante ser agora
+publicado pela primeira vez, cremos nós, é já nosso conhecido, porque
+apareceu manuscrito num concurso literário da extinta _Associação
+dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagração de um júri, terá
+agora a consagração do público.
+
+Depois do _Idílio rústico_, vem o _Sultão_, um quadro magnífico da vida
+campesina, notável de simplicidade e graça; e a _Última dádiva_; e os
+_Prelúdios de festa_; e os _Tipos da terra_; e as _Baladas_; e a
+_Tragédia rústica_; e a _Mãe_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas
+domésticas_: outros tantos primores, que às vezes nos fazem lembrar as
+deleitosas e serenas paisagens de Daudet.
+
+Agradecendo ao autor a gentileza da sua oferta, congratulamo-nos por
+não haver ainda expirado entre nós a literatura sã, que, ou nos
+desperte o sorriso ou nos obrigue a lágrimas, não nos deixa no espírito
+a impressão doentia das nevroses literárias...»
+
+
+Jornal da Manhã, Porto:--«_Os meus amores_.--Mais um volume acaba de ser
+publicado da colecção António Maria Pereira, por sem dúvida a mais
+elegante, a mais escolhida e a mais económica biblioteca que se publica
+em Portugal.
+
+É o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e
+baladas, em que o talentosíssimo escritor acaba de reunir todos os
+seus contos dispersos por vários jornais, e alguns inéditos.
+
+Do primeiro ao último, os contos que compõem _Os meus amores_ são
+espécimes no género, porque, além de constituírem uma esplêndida galeria
+de quadros íntimos, de retratos, de tipos, são a confirmação de uma
+verdade já por nós há muito aceite: que o seu autor tem todos os
+requisitos de um escritor de primeira ordem; estilista vibrante,
+correcto e sempre elegante.
+
+E se formos a escolher o melhor desses contos, ver-nos-emos em sérios
+embaraços, porque são todos por igual deliciosos, constituindo a sua
+leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se há que mostrar
+predilecções por algum deles parece-nos que os melhores serão _A Mãe_
+e _Para a escola_, aquele uma delicada e emocionante história arrancada
+flagrantemente à natureza, e este saudosas recordações de um passado que
+não volta.
+
+A edição, escusado é dizê-lo, é nitidíssima.»
+
+
+O Tempo:--«_Os meus amores_.--Este livro teria vindo melhor nas noites
+invernosas para serões às lareiras crepitantes:--as faíscas de ouro
+subindo no tecto, o vento zunindo fora açoitando a chuva, e dentro, no
+conforto recolhido, gozar-se o contraste das paisagens alegradas pelo
+sol, espelhadas na água rumorosa, com gorjeios e trinados de aves,
+paisagens que o Sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delícia suave e
+subtil de iludidor ameno. Mas não se pode aconselhar o leitor a que se
+prive de saboreá-lo desde já, tanto mais que os tempos vão agoireiros
+para a arte de manancial, e os que a cultivam têm de separar-se dos
+estragadores d'Ela e das cabeças quase vazias que espremem e segregam o
+pus nauseabundo do sadismo medíocre.
+
+Estes estão agora entretendo o público arrebanhado para saborear com
+prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os iguala--o vingador--ao
+imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos autores das _Pimentinhas_
+e _Berbigões Ardentes_.
+
+Que o livro de glorificadora arte do Sr. Trindade Coelho seja o
+perfumador dos excrementícios e apareça em plena luz nas mesas e nas
+famílias dos que compravam os outros, é o voto que faz o alinhavador
+destas linhas corredias, na certeza de que recomenda à atenção um
+artista recolhido que sabe ter força nos traços ténues e meias-tintas
+dos seus quadros, que capricha em suavizar idilicamente as dores
+vulgares da vida aceite, da materialidade animal, dourando-as com
+recantos de natureza chilreante. Que me perdoem insistir na
+impertinência: mas, o que no livro mais particulariza o talento de quem
+o assina é a compreensão das paisagens, o sabê-las colorir, animar,
+pô-las ante os olhos que lêem.
+
+As grandes dores obscuras e sinceras, as brandas afeições, amizades
+arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples
+sustentados por ingénuas crenças e suavizada fé, tudo o que a aldeia tem
+de ameno, de atraente, de pitoresco, de consolador, os seus ridículos
+mesmo, vestindo atitudes de paródia em teatrinho de curiosos, tudo
+reveste bem o Sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom
+humor, sublinhando aqui e acolá umas notas reais, bem apanhadas, como se
+diz, e que refrescam o rosto num aberto sorriso de ventarola. O livro
+encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o autor encerrou por
+anos a sua nostalgia--a pior de todas: nostalgia de
+delegado!--apertando os voos do seu espírito de artista que ama pairar
+com a fantasia para o longínquo, para o que se Imagina, para o Distante,
+o Inacessível, o Insaciável. Sonhos e fantasias que morreram e se
+dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas
+noites uivantes do Inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de
+recordação e de saudade donde brotou o livro, escrito decerto nas
+horas feriadas do trabalho árido, com a documentação da natureza que
+vivifica, com a elaboração pachorrenta de quem não tem pressa e se
+compraz na arte libertadora.
+
+Especificar um ou outro conto não é depreciar os não citados, mas dar
+preferência pessoal--e talvez pecadora--ao _Idílio rústico_, à _Última
+dádiva_, à _Mãe_, às _Batalhas domésticas_, que fecham o livro e deixam
+entrever no autor um desejo de animar os personagens tanto como anima a
+natureza onde eles sentiram. Há contos nos _Meus amores_ que fazem
+lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem lê da
+patada épica do que fez _Créte-Rouge_ e _Ompdrailles_.
+
+O Sr. Trindade Coelho é um escritor tão distinto quanto aclarado pelo
+jorro de arte que vem de há muito confundindo os convulsionários do
+talento; os serenos no desdém; os entusiastas; o que, despindo o
+metafórico, quer significar que ele está em posição artística onde
+decerto o seu talento e o seu trabalho continuarão a chamar atenção e
+respeito.--_M. Caldas Cordeiro_.»
+
+
+António Maria, (com o retrato do autor, desenho de Rafael
+Bordalo):--«_Os meus amores_ por Trindade Coelho.--A livraria
+portuguesa tem tido uma enchente, como raramente lhe sucede, na última
+quinzena. Depois do êxito do romance de Abel Botelho e do livro de
+memórias de Luís Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho,
+com a amável denominação de _Os meus amores_.
+
+Aqui o temos, já todo aberto, já todo lido... É originalíssimo,
+agradabilíssimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar,
+que usa o autor deste belo livro,--agradabilíssimo contista,
+escritor originalíssimo, cujo nome a bibliografia regista hoje, tão
+notavelmente, como o jornalismo de há muito o registara.
+
+A quem o ler, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas
+horas muito bem passadas, passeadas por aquelas paisagens e recantos
+provincianos que ele pinta, tão real e verdadeiramente como se lá se
+estivesse; em companhia daqueles tipos que ele retrata, tão
+fotográficos, tão nítidos, que é estar a gente a vê-los, a ouvi-los, a
+falar-lhes...
+
+--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!»
+
+
+O Tempo:--«_Os meus amores_.--É como Trindade Coelho intitula a
+colecção de formosos contos, publicados em volume, editado pela
+livraria do Sr. António Maria Pereira.
+
+Há muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escritor de
+Trindade Coelho, desde quando lhe lemos as suas produções literárias
+num jornal de Coimbra, e que eram as primícias de trabalhos mais
+primorosos, como são hoje os contos a que nos vimos referindo.
+
+O livro de Trindade Coelho é dos raros que se lêem da primeira à última
+página sem um momento de cansaço ou de fastio. O espírito do leitor
+delicia-se seguindo todas aquelas cenas campesinas, de uma singeleza
+tão comovente, e que nos _Meus amores_ são descritas numa forma em
+que se revelam todas as qualidades de um distinto e notável escritor.
+Só pode apreciar bem o mérito daqueles contos quem souber quanto
+cuidado há no labor paciente do artista para conseguir dar ao estilo o
+tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer neste género de
+pequenas novelas, talvez o mais difícil de todos.
+
+Não nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contém preciosas
+jóias literárias, e ao qual está, sem dúvida, destinado um honroso
+lugar na nossa literatura contemporânea.»
+
+
+Correio Elvense:--«Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
+escritor publicou agora o seu primeiro livro de contos e baladas que
+deu o título: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
+António Maria Pereira.
+
+Trindade Coelho, que hoje ocupa um proeminente lugar no jornalismo da
+capital, fez ainda há pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
+de Portalegre, onde criou dois jornais, um dos quais ainda vive, que
+tiveram vida gloriosa enquanto os animou o trabalho do distinto
+estilista.
+
+Não só nos seus escritos passados, mas então, conhecemos o grande valor
+que indiscutivelmente possui. Não nos surpreendem pois os seus
+triunfos e rejubilamo-nos com eles com a alegria e sinceridade de bons
+e sinceros amigos.
+
+Num dos próximos números falaremos da impressão colhida em _Os meus
+amores_.»
+
+
+O Dia:--«_Os meus amores_.--Se fosse no século passado, os fazedores de
+proémios, prólogos e conversações preambulares com os pios leitores, à
+falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo
+aproveitariam a ocasião para sobre o nome do autor glosarem vários
+elogios ao livro, visto que aquele se chama Trindade e é ao mesmo tempo
+um poeta sincero, um escritor de raça, e um observador atento,
+qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjunto nasceu uma
+obra formosíssima, animada de verdadeira comoção, sentida nas suas mais
+pequenas minúcias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.
+
+A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo nesta reunião
+de contos, que o Sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso,
+copiando do natural, e em que os personagens foram surpreendidos nos
+seus labores de cada dia ou nas suas íntimas cogitações.
+
+Não temos espaço nem tempo para nos alongarmos na notícia deste livro,
+e por isso nos limitamos a recomendá-lo como leitura atraente, como
+obra de arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma igualdade
+nem com o mesmo fôlego, como uma grande lição literária aos fazedores
+de naturalismo brutal.
+
+Ao autor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para
+que eles sejam tantos, que afoguem os autos e libelos em cujo meio o
+magistrado tem de viver, e donde sai amiudadas vezes para nos provar
+que quando se é artista lá de dentro, o contacto dos escrivães não
+prejudica a índole do escritor.»
+
+
+Novidades,(entrevista com João de Deus acerca dos
+_novos_):--«_Literatura nova_.--Eu conheço limitadamente os novos,
+porque não leio jornais, e não os leio porque os literários ocupam-se
+na propaganda da imoralidade, e os políticos na propaganda do suicídio,
+e na do jogo das lotarias, que seduz principalmente os enjeitados da
+fortuna, mais sequiosos de domarem, num acaso da sorte, as agruras da
+sua vida. E enquanto o rico joga o supérfluo, o pobre joga os trinta
+réis de três quartos de um pão.
+
+Mas aqui está o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira
+alegria! É um rapaz de talento! O que é preciso é que ele dispa a toga,
+que lhe impede os movimentos. Não o conheço, mas dizem-me que trabalha
+muito. Já leu o _Sultão_? Se ainda não leu, não o deixo sair de cá sem
+lho ler.
+
+--Li já todo o livro.
+
+--E depois, meu amigo, nós andávamos precisados de uma coisa casta, onde
+fossemos purificar o espírito dessas tais observações fisiológicas, e
+não sei que mais, que por aí aparecem todos os dias. O livro do
+Trindade Coelho tem o que eu chamo graça, e que não posso bem
+definir-lhe. Olhe: ali está aquele quadro, em que os traços são
+correctos e a execução perfeita, mas não tem graça; e aqui, este, uma
+bela cabeça de rapariga, a fisionomia doce, o olhar abstracto: este
+tem graça. Até a Virgem Maria se chama cheia de graça, e foi mãe de Deus
+por ter graça. A graça na literatura é tudo, mas é muito rara.»
+
+
+Novidades:--«_Novelas rústicas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_
+(contos e baladas.)--Lisboa, livraria de António Maria Pereira--1891.
+
+No seu penúltimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse
+céptico amável e pirrónico, que tem sido o terrível sapador de todas
+as doutrinas axiomáticas da crítica: «Il y a beaucoup moins de lecteurs
+pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que
+seuls les délicats savent goûter une nouvelle exquise, tandis que les
+gloutons dévorent indistinctement les romans bons, médiocres ou
+mauvais.»
+
+O conto moderno é como o romance, essencialmente analítico e
+psicológico, escrito em estilo técnico, e destinado sobretudo a
+apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
+humana. A literatura contemporânea tem procurado, quase
+invariavelmente, os seus temas entre os vícios, as paixões e todas as
+energias depravadas do coração. A arte do Sr. Trindade Coelho é muito
+diferente disso, porém. O seu idílico livro de contos e baladas,
+aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da
+paisagem trasmontana, e habitado por heróis simples, colhidos com
+intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, não tem,
+decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta
+actualmente em moda. É natural até que o leitor, habituado aos livros
+dos escritores realistas, sinta uma profunda sensação de espanto ao
+empreender a leitura dos _Meus amores_, duzentas páginas suaves e
+simples, sem pedantescas pretensões a passarem como tratado didáctico de
+psicologia.
+
+Disse-se de Júlio Dinis que ele era principalmente um paisagista, e que
+as suas figuras só serviam para dar expressão e vida à paisagem.
+
+O Sr. Trindade Coelho possui, igualmente, a sensação visual
+particularmente desenvolvida, e as suas descrições são também, como as
+do autor das _Pupilas do Sr. Reitor_, magicamente poetizadas, como que
+apercebidas de longe num esbatido vago de sentimento e de saudade.
+Chega-se às vezes a ter a ilusão de que o artista está ali, páginas a dentro
+do seu livro, fazendo reviver no pensamento a álacre impressão
+das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal,
+cuja lembrança, ele conserva sempre viva, como nos versos de Salvador
+Rueda:
+
+Por donde voy me sigue como memoria tierna
+tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;
+¡y mi cerebro canta como una estrofa eterna
+el coro que tus árboles entonan á la mar!
+
+Aí têm, para prova, esse trecho de um descritivo de manhã aldeã,
+quando o sol começa a subir na linha ainda indecisa do horizonte:
+
+«A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim,
+e o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
+cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
+despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
+perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
+tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
+asas--passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
+à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
+recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
+era mais rica de seivas e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
+gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
+vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
+de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicolos, viam-se
+os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e
+berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. Já nas
+povoações próximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
+ave-marias. Nas quintas Casais fumegavam os tectos, dizendo horas de
+almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
+imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza acordada
+para a labuta interminável do dia.»
+
+
+No notável estudo de psicologia literária de M. Fr. Paulhan sobre a
+descrição pitoresca, então habilmente apreciados os elementos
+constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na
+qualidade e na intensidade.
+
+«Chama-se imaginação sensível», diz o distinto observador, «o acto pelo
+qual nós nos representamos um objecto ausente, e esta representação,
+como tem sido há bastante tempo notada, não é,--principalmente se
+considerarmos só certas classes de imagens,--senão uma cópia
+enfraquecida de uma sensação. Por exemplo, se eu trato de me representar
+um momento, um quadro, uma estátua, qualquer coisa que imagino, se as
+minhas recordações são bastante nítidas, é uma espécie de cópia
+enfraquecida da sensação que eu terei, se vi realmente o monumento, o
+quadro ou a estátua. A imaginação, tomada até no sentido restrito que
+lhe damos aqui, varia muito de uma pessoa para outra, quer em
+intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas têm as
+imagens, as representações muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais
+concretas; em uma palavra, as suas imagens aproximam-se muito da
+sensação; outras, pelo contrário, são inclinadas para as ideias
+abstractas e têm necessidade de um esforço para se representarem as
+sensações de uma maneira um pouco nítidas. Tem-se reparado que a visão
+mental, nitidíssima em geral nas crianças e nas mulheres, torna-se muito
+fraca e por vezes desaparece nas pessoas preocupadas sobretudo de
+ideias abstractas, ou habituadas a não exercer a sua imaginação visual.
+Eis uma pequena experiência indicada por Wundt, que, mostrando as
+analogias entre a imagem e a sensação, parece pôr em relevo também as
+diferenças individuais com relação à intensidade com que a imagem
+concreta é percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo
+num objecto corado, se voltamos os olhos para uma superfície parda,
+vemos uma mancha corada da cor complementar da primeira. Se o objecto
+era vermelho, a mancha será verde, e reciprocamente; se o objecto azul-índigo,
+a mancha será amarela, etc. Ora é possível, mas isto não
+sucede a toda a gente, perceber esta cor complementar não só depois de
+ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter
+imaginado. Pode-se, por exemplo, pensar numa cruz vermelha: lançando em
+seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se há
+uma boa imaginação visual.»
+
+Essa imaginação parece tê-la o Sr. Trindade Coelho. A vivacidade,
+tonificada quiçá por um poucochinho de nostalgia, do seu descritivo,
+que nos dá conjuntamente a impressão da forma, da cor, do som, e até às
+vezes do aroma, representa um fenómeno especial de evocação
+sensacional. E o maior encanto da sua obra é esse, e, depois desse, a
+íntima satisfação que faz aflorar, aos lábios do leitor inteligente, um
+sorriso de doce comoção, a cada singelo episódio das suas narrativas,
+todas frescas e sadias, e cujo menor mérito não é, decerto, o de serem
+escritas numa linguagem airosa e despreocupada, mas tersa e
+legitimamente portuguesa.
+
+O livro do Sr. Trindade Coelho não é para ser sujeito a longas análises
+introspectivas, o papel da crítica perante _Os meus amores_ é bem fácil,
+porque ela deve quase cingir-se à afirmação do seu aplauso
+incondicional, ou ao registo da repulsão do processo do escritor, o que
+pode muito bem representar uma livre depravação de gosto.
+
+Por mim confesso sinceramente que me deixou no espírito a mais amável
+recordação, pura e oxigenada, a leitura dessas belas novelas
+rústicas, todas impregnadas de uma ideal graça campesina, tilintando de um
+eco amorável de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre
+margens baixas, bordadas de sécias e papoilas: e, para a minha
+simpatia, desejo mencionar especialmente o conto que abre o livro e o
+caso do _Sultão_.--_Armando da Silva_.»
+
+
+Tim Tim Por Tim Tim:--«Um grande poder de observação e uma enorme justeza
+de expressão, constituem, quanto a mim, as duas essenciais qualidades
+literárias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de
+verdadeiro artista, aberta à compreensão ampla da natureza, e fundindo
+os fenómenos, as coisas e as criaturas num conjunto nítido que se
+desata em descrições opulentas de vida e de calor, fulgurantes
+de energias dominadoras, pródigas de imagens que o melhor cristal de
+Veneza não teria reflectido tão bem, avigoradas em onomatopeias
+possantes que prendem o espírito mais inculto e o obrigam, ali, a fixar
+e a compreender o objecto que o autor quis frisar.
+
+E essas qualidades ressaltam brilhantemente de todos os contos que
+compõem _Os meus amores_, realçadas ainda pela fina emotividade que o
+delicado sentir do autor transmitiu a cada cena onde o coração tem
+parte, ou seja o coração de qualquer daqueles dois pequenos do _Idílio
+rústico_, ou o da _Ruça_, a bela cabra que no meio de mil angustias de
+mãe morre junto ao filhinho. E se o querem surpreender a ele próprio,
+a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida,
+vejam o afecto que irradia daquele _Para a escola_, quando fala da
+velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras letras.
+
+Se das coisas afectivas, que mais o namoram, e das descrições
+naturais, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um
+pedaço caricaturando uns tipos com tanta sobriedade de _charge_ que mais
+nos parece estar fazendo retratos, saem-nos então figurões como os da
+vilória da _Comédia na província_, que entretêm a tarde na praça a
+dizer mal uns dos outros. Tão verdadeiro nos _croquis_ como nos hábitos.
+E quando aos tipos pode juntar um estudo de costumes, aquela _Véspera
+da festa_ exemplifica vantajosamente o que ele sabe fazer.
+
+No fim do livro, foi para mim surpresa aquele excerto das _Batalhas
+domésticas_, onde me pareceu descobrir uma novíssima orientação do
+autor, inspirada porventura numa atmosfera densa de inovações que vai
+por aí. Claro que o seu talento adapta-se mais essa forma com a
+maleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
+característica literária de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
+escritos, não a sacrificaria a coisa alguma.
+
+O que o livro é, em suma, é um conjunto de belezas que tem sido
+largamente apreciado pelos fanáticos da Arte; e oxalá seja apenas a
+promessa de muitos outros, que penas como aquela não devem
+calotear-nos na contribuição que nos devem.
+
+--Mas,--perguntou-me um dia destes alguém--porquê _Os meus amores_, e
+não qualquer outro título?
+
+Não respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao
+livro onde há tantos trabalhos de tempos que lhe são saudosos e em que
+lhe foi grande parte da alma, da sua bela alma de rapaz que nenhuma
+lama deste mundo é capaz de conspurcar.--_Santos Gonçalves_.»
+
+
+Revolução de Setembro:--«_Os meus amores_, contos e baladas por
+Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se lê com encanto e que nunca
+mais se esquece. É um talento e é um artista quem escreve assim. Uns
+contos singelos, atraentes, delicadíssimos, admiráveis de observação e
+de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admirável simplicidade de
+colorido em alguns deles e que tons inapagáveis de verdade!
+
+Uma bela obra de arte e uma altiva lição.
+
+Ali está como se pode chegar ao naturalismo na literatura, sem
+estropear a língua e sem chegar às torpezas da pornografia. Para
+atrair, para ser original, para impor a supremacia do seu talento,
+para conquistar o aplauso sincero dos que lêem, Trindade Coelho não
+precisou de escrever extravagâncias, nem de escalavrar pústulas, nem de
+escancarar bordéis.
+
+Aí fica uma rápida notícia do livro. Voltaremos a falar dele, se o
+tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu autor.»
+
+
+Correio Elvense:--«_Os meus amores_.--Com poucos dias de intervalo as
+letras portuguesas contaram dois ruidosos sucessos de livraria.
+
+Depois de apreciar o _Barão de Lavos_, obra de análise, de profunda
+observação, ressentida do exagero do naturalismo e do carácter quase
+científico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem
+ser exclusivamente literários, mas que, não obstante este pequeno
+senão, confirmou plenamente todas as esperanças que o nome de Abel
+Botelho criara com os seus livros anteriores, a crítica tem de render
+respeitosa homenagem ao trabalho de um outro escritor novo como aquele
+e como ele igualmente distinto pelos brilhantes dotes do seu espírito,
+pela sua notável orientação literária e pelo esplendor de forma que
+caracteriza todos os seus escritos, mesmo os mais despreocupadamente
+feitos.
+
+Sinto um delicioso prazer de consciência ao traçar estas linhas.
+Momentos como este são mesmo os únicos oásis em que se reconfortam os
+que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina
+improdutiva e inglória do jornal.
+
+Trato de apreciar o trabalho de um amigo, de alguém a quem me unem
+íntimas relações de confraternidade e simpatia e ao ter de formular o
+meu juízo conheço que posso manifestar o mais incondicional louvor e
+aplauso sem que se suspeite que as minhas palavras são reflexo de um
+sentimento pessoal, mas sim a expressão exacta e verdadeira de uma
+admiração justamente sentida, solidamente baseada.
+
+O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo
+corresponde ao encanto deste título.
+
+Com que saudade li as últimas páginas!
+
+Por vezes desejava espaçar essa leitura para demorar o delicado prazer
+que sentia, noutras precipitava-a sôfrego de admirar a naturalidade
+das descrições, a limpidez e o cristalino do estilo emocionante e
+simples, tão delicado e ao mesmo tempo tão poderoso que dá vida aos mais
+diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino José Gaio,
+até à recordação saudosa e terna que o autor sente do primeiro dia em
+que entrou na aula de instrução primária da sua modesta aldeia.
+
+Dando a impressão singela e despretensiosa que me causaram _Os meus
+amores_, não vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos
+pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na
+época actual quando os vícios da sociedade e a decadência dos nossos
+dias nos gravam no espírito, a cada hora, um carimbo de desânimo e
+descrença, quando a literatura, obedecendo à vertigem mais do que
+nervosa, alucinada, que caracteriza o _fin de siècle_, cria as escolas
+mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em
+apedrejar as normas mais impecáveis e até agora consagradas da arte, e
+em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras
+e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se ânimo,
+desanuvia-se o espírito ao ver que ainda há alguém, a quem sobeja
+talento e tenacidade, que escreve 200 páginas de prosa sã, eminentemente
+sentida, deliciando-se na descrição das cenas mais simples e tocantes,
+na apoteose da natureza em toda a sua magnificência e no convívio da
+vida campesina, tão cheia de sinceridade e de encantos, tão livre das
+convenções e pretensiosidades que dão um tom falso e mentido aos
+sentimentos da sociedade em que vivemos.
+
+Disse em cima que não me alongaria no esmiuçar de perfeições de cada um
+dos contos e baladas que formam _Os meus amoes_. Não representa este
+propósito ideia de menos consideração pelo livro ou por quem com tanto
+amor o escreveu. Ao contrário, sinto que não posso, a não transformar
+este artigo num hino laudatório, referir-me especialmente a cada um
+daqueles contos e baladas. Mais do que este motivo domina-me o de não
+poder alongar demasiadamente a apreciação que estou fazendo.
+
+Muitas das páginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro já as
+havíamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em diferentes
+jornais. Como escritor conhecíamos também o primoroso estilista dos
+_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalísticos, já na boémia coimbrã,
+já em pequenas folhas de província e ultimamente nos jornais da capital,
+trabalhos em que ele empregava o escrúpulo e a correcção que nunca
+abandonam os verdadeiros artistas.
+
+Pelos seus trabalhos literários há muito que formara a opinião de que
+ele se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de
+Fialho de Almeida e de Teixeira de Queirós que, no meu parecer, são, em
+Portugal, os mais distintos escritores contemporâneos deste género,
+na aparência tão ligeiro, mas no fundo tão complexo e difícil, a que
+se denomina: _Contos_.
+
+A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinião formada.
+
+Pelo sentimento descritivo, pela verdade dos _tipos_, pela naturalidade
+do diálogo, e pela modalidade do estilo que se apropria sem o mínimo
+esforço a todas as impressões que pretende transmitir, o autor dos
+_Meus amores_ prova que não desconhece nenhum dos segredos do género de
+literatura que tão brilhantemente cultiva, e que não é inspirada na
+amizade a opinião dos que, não obstante ele terçar agora quase as
+primeiras armas, o consideram já como um escritor distintíssimo e num
+futuro muito próximo um mestre consagrado.
+
+O livro abre com um soneto formosíssimo e nem podia deixar de ser assim
+desde que se saiba que o firma Luís Osório. Pórtico apropriado às
+belezas que nas páginas que se seguem se acumulam com uma riqueza
+oriental.
+
+Não obstante o meu propósito de não me referir nomeadamente a nenhum dos
+pequenos quadros, não posso deixar de dizer rapidamente da impressão que
+me causou a _Última dádiva_, um primor de sentimento, uma página emotiva
+arrancada em flagrante a uma das cenas em que tão variadamente se
+divide a tragédia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_,
+onde passa um fôlego de epopeia, em que o estilo atinge alturas quase
+desconhecidas, casando-se com uma verdade admirável a grandiosa ideia em
+que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura
+cada um de nós sente acordar uma recordação muito querida de infância
+descuidada e alegre, e por últimos: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho
+ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estilo tão maleável e
+tão justo.
+
+Além destes contos, que especialmente destaco pela admiração que me
+inspiraram, são modelos de humorismo e de verdade os dois _Prelúdios de
+festa_ e _Tipos da terra_.
+
+Quem escreveu os _Prelúdios de festa_ e especialmente os _Tipos da
+terra_, é porque estudou com muita atenção, com muito cuidado, os
+personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras
+pequenas. São tipos tirados do natural, com uma perfeição fotográfica
+em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execução que demonstra na
+descrição da natureza nos seus mais variados aspectos.
+
+Por últimos, e para não se dizer que eu neste país de má língua realizei
+o cúmulo de escrever um artigo só de palavras encomiásticas e sem a
+mínima censura ou reparo, devo dizer que não gostei do _Sultão_,
+lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas páginas de um estilo
+formosíssimo num assunto que sem dúvida é verdadeiro, mas que não
+comove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a mínima
+impressão duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus
+recursos de estilista, não precisava realmente do _Sultão_.
+
+O livro faz parte da edição mensal de obras portuguesas, editada por
+António Maria Pereira, um trabalhador incansável a quem as letras
+portuguesas devem assinalados serviços.
+
+Está impresso com o maior escrúpulo e revisto com um cuidado e esmero a
+que nem sempre estamos habituados.
+
+Terminando estas linhas tão despretensiosas como sinceras, fazemos votos
+para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas à
+sensaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, tão perfeitos
+como este, para honra do seu nome de escritor já tão justamente
+laureado, e agradecemos ao amigo a oferta do seu livro, arquivando a
+dedicatória que ele contém como nova prova de uma amizade a que somos
+profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Lourenço
+Caiola_.»
+
+
+Tribuno Popular:--«_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Colecção
+António Maria Pereira_, que sob aquele título contém alguns contos do
+apreciado contista Trindade Coelho.
+
+Pela rápida leitura de dois deles--_O Sultão_ e _Tipos da terra_,
+parece-nos que a colecção é estimável, e que os contos são jóias de
+grande preço da nossa literatura, pela linguagem pura genuinamente
+portuguesa, e pela graça da contextura originalíssima, nacional, sem
+laivos de imitação estrangeira, em que se pintam cenas e episódios,
+cheios de verdade e de encantadoras descrições, da vida portuguesa nas
+províncias.»
+
+
+O Século:--«_Os meus amores_, por Trindade Coelho.--É um livro de
+contos, editado pela casa editorial do António Maria Pereira, a
+publicação recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso
+meio literário, bem pouco acaroável e mazorro no fundo,
+sobressaltando-se com tudo quanto perpetra o escândalo de não ser
+rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionável também--diga-se a verdade.
+
+Parece uma contradição; mas não é. Se o nosso bom público fosse dado a
+esbanjamentos de emoção artística, não o sobressaltaria tanto a
+pessoalidade, e o imprevisto.
+
+O Sr. Trindade Coelho acumula com o seu cargo oficial de magistrado
+severo, a profissão, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de
+letras, nas suas horas de remanso.
+
+É só, porém, como homem de letras, que nos compete em tal lugar
+aquilatar-lhe a estesia, e as faculdades de emoção, ou de atenção
+artística.
+
+Ambas estas possui o Sr. Trindade Coelho, em subido grau. A forma
+adapta-se perfeitamente ao fundo, e é sempre fluente, vernácula,
+concisa, e precisa. É sóbrio no descritivo, e não raras vezes
+enternece. Não comete a velharia de desenterrar obsoletos termos
+clássicos, sem incisão, sem propriedade, e sem cor, muito parecidos com
+o latim, mas que no fundo não são nem latinos, nem portugueses, nem
+onomatopaicos, e que fizeram a delícia de Filinto. Nem perpetra também o
+mau gosto de empregar neologismos inúteis, e risíveis, possuindo na
+linguagem pátria instrumentos magníficos de expressão. Sabe a sua língua,
+como raros: e o conto, que é, quanto a nós, a forma mais perfeita, mais
+completa, e mais delicada da prosa, e também a mais transcendente e
+lapidar, achou nele um hábil e equilibrado intérprete. Os contos
+_Sultão_, _Maricas_, _Tipos da terra_, _Mãe_ e sobretudo _Para a
+escola_, não contam muitos rivais na língua portuguesa nem nas
+estranhas.
+
+O seu pequeno livro há-de ficar na literatura nacional, quando de
+centenas de romances em seiscentos volumes já ninguém rememorar o título
+sequer.--_Gomes Leal_.»
+
+
+Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que
+deliciosa impressão me deixou aquele livro, tão adoravelmente simples e
+sentido!
+
+Antes, porém, de começar a analisar, conto por conto, esse fino trabalho
+de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razão
+porque me merece tanta simpatia o seu autor, que de nome conheço só.
+
+Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondências de Portalegre,
+notavelmente bem feitas, e em que ele elogiava muito um pequenito,
+distinto em todos os exames.
+
+Aqueles adjectivos de amigo bom e entusiasta fizeram-me convencer de
+que--o delegado de Portalegre--era um excelente rapaz.
+
+E digo rapaz, porque todos nós temos o hábito de considerar sempre muito
+novos aqueles que são da nossa idade... Depois, graças a uma amiga
+minha, escritora de grande talento soube que Trindade Coalho era um
+grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admiração
+entusiasta que ele descrevia em cartas deliciosas de uma vibração que
+fazia pena não ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrição
+publicá-las!
+
+Traduzia ele então o «Pescador de Islândia»; tradução esplêndida que a
+_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoigné_. Para ele era
+já uma sugestão, aquele trabalho primoroso.
+
+E desde então, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a
+Loti todo o valor que ele tinha e que ultimamente alguém se comprazia
+em querer negar ao académico gentil.
+
+Em seguida li uma suavíssima elegia escrita à memória de António
+Fogaça--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia dúzia de palavras
+cortadas por soluços:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...
+
+Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os
+jornais anunciaram que ele arrancara um preso à cadeia de Portalegre.
+Um preso que era um inocente, e que, como tantos outros, estava
+condenado a ouvir soar, em vida, a hora da justiça... Publicavam também
+o efusivo telegrama em que Trindade Coelho agradecia ao nosso
+magnânimo rei o seu perdão.
+
+E eu dessa vez chorei! Como me sucede sempre que um homem põe a
+lucidez do seu talento e o entusiasmo do seu coração ao serviço da
+humanidade que sofre...
+
+O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se então indelevelmente na minha
+alma.
+
+Eu só fixo o nome dos bons.
+
+E pensei em que devia ser uma grande mulher a mãe daquele homem! Os
+filhos herdam, geralmente, o coração das mães...
+
+ * * * * *
+
+Ultimamente a imprensa anunciou o livro que acabei de ler. Pedi-o
+rapidamente para Lisboa, e li-o de um fôlego.
+
+Abre com um soneto delicioso, escrito pelo espírito gentil de Luís
+Osório--uma alma luminosa, que brilha na transparência dos seus versos
+filigranados e vibrantes...
+
+Segue-se o _Idílio rústico_--um amor--através do qual nós vemos subir
+lentamente a estrela da alva que iluminava, coando a sua doce luz pelo
+colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da
+outra...
+
+Depois o _Sultão_ um conto singelíssimo cheio de naturalidade, em que o
+Tomé nos comunica a sua alegria contagiosa levada à loucura com a
+volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros!
+
+A _Última dádiva_, um braçado de goivos atirados por «um simples» a uma
+sepultura onde lhe ficara preso o coração para sair de lá no dia em que
+teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o
+Brasil.
+
+A _Comédia da província_, magnifica de cor local. Magnífica,
+principalmente para quem conhece tipos semelhantes e já tem visto a
+_Morgadinha de Valflor_--essa pérola!--representada pelo Marques do
+correio... vestido de saias! Para quem dá todo o valor a esse esplêndido
+estudo de costumes provincianos.
+
+_V[ae] victoribus_, uma sugestão de remorso primorosamente traçada...
+_Maricas_, uma adorável poesia escrita em prosa. _Para a escola_, um
+beijo de gratidão de uma singeleza adorável. _Tragédia rústica_, um
+vibrantíssimo estudo das misérias humanas.
+
+_Abyssus abyssum_, o agonizar de dois anjos, sob o olhar de uma
+estrela... _Mãe_, a flor mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas
+as mães que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos...
+E, finalmente, as _Batalhas domésticas_.
+
+Repito, deixou-me uma impressão deliciosa o livro de Trindade Coelho,
+que é, a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro
+honesto, que não fatiga os homens nem faz corar as mulheres. Por isso
+aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.»
+
+
+Portugal:--«_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilíssimo livro
+_Os meus amores_, do nosso querido amigo e ilustre confrade, Trindade
+Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinámos: em toda a linha o mais
+legítimo, o mais espontâneo, o mais unânime e o mais carinhoso triunfo.
+
+Bem o merece o cristalino talento, e a inelutável tenacidade no
+trabalho, do brilhante escritor, que em meio dos violentos paroxismos
+que na caça de sensações e efeitos novos hoje pavorosamente
+desarticulam o _meio_ literário europeu, tem uma força de restringir-se
+a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquila, a
+melodia emocionante, ingénua e simples do viver aldeão; e que por entre
+o estrídulo _hallali_ de obscenidades, imprecações, blasfémias, dores,
+gemidos, que doloridamente reboam pelas soturnas naves deste imenso
+hospital, que é o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar,
+enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira
+nota afectiva, algum limpo e cativante movimento do coração.
+
+Bem-haja.
+
+Do coro uníssono de quase incondicional aplauso com que a imprensa tem
+celebrado a aparição d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnífico
+artigo do _Correio Elvense_, devido à pena de um dos mais lúcidos e
+impetuosos engenhos da novíssima geração.» (_Seguia-se a transcrição._)
+
+
+Diário Ilustrado:--«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade
+Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espírito à proporção que
+envelhecemos. É por isso que os rapazes se desdoiram às vezes de ouvir
+os velhos, e parece-me que têm razão, porque nem sempre o são juízo de
+uma experiência larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo
+circunspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com
+singular cepticismo, este meu século, que está no fim, e com ele tenho
+vindo estudando e aprendendo. Ruíram as teocracias literárias,
+revoluteou-se a filosofia, criaram-se novos processos de estilo,
+arrancou-se o chiró às velhas frases, e todo um mundo novo,
+extravagante e fantástico tem surgido,--mau grado as fúrias rábidas de
+escritores paleontológicos, aparafusados à Arte e à Crítica de há 50
+anos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu
+século tem-me custado amarguras aterrantes, desequilíbrios de espírito e
+um desfolhar de verdes ilusões, que eu tenho visto irem-me fugindo num
+_marche-marche_ triunfal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca
+mais voltarem!...
+
+A vida do escritor moderno, toda torturante e nevrótica, dá-me a
+impressão tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida
+real de nossos dias. E lembro Camilo pedindo ao pedaço de chumbo de uma
+cápsula o ponto final redentor de agonias crudelíssimas; Júlio Machado,
+de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do
+filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros,
+bom Deus! Dir-se-ia que uma _má sina_ persegue os homens de
+letras:--quando não é a navalha de barba, é o revólver, é a consumpção,
+é a tísica, é o retraimento amargo, é o abandono próprio e alheio! Por
+isso o meu vizinho Gervásio todo se ufana, com certo profundo bom-senso
+prático, da insistência com que quer fazer do filho um _artista_
+pintor--de portas, e de fora de portas...
+
+Na _troupe_ de escritores em flor do meu tempo,--parece-me que já lá
+vão 30 anos, e tudo isto é apenas de ontem!--havia, joeirados com
+singular amor de arte pura, uma dúzia de rapazes de incontestável valor
+literário, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e
+revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,
+miniaturistas da poesia, do romance e da crónica, dessa plêiade de
+rapazes, um tanto insubmissos e um tanto boémios, alguns treparam
+triunfantes,--poucos; outros, quase o resto, ou foram ainda verdes da
+vida para os cemitérios das suas aldeias, ou, o que é quase o mesmo,
+deram-se a calejar as mãos, dissolvendo as suas aptidões de plumitivos
+incipientes, nas minas de oiro e de ferro da luta pela vida. Dos
+_felizes_, dos que triunfaram,--como quem diz, dos vencidos da
+vida,--me sorria eu às vezes em horas de bom humor, lembrando-me como
+eles com um livro de versos foram nomeados cônsules; com um tratado
+sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por
+acções; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com
+uma crítica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliotecários
+das belas artes e hortaliças correlativas... Dos outros, dos _perdidos_
+pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os filisteus do
+Pará, aplicando-lhes aos fígados hipertróficos a vermelha caudal da
+sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desapareceu em Paris pelo
+alçapão macabro da _correspondência_ barata; Gualdino Gomes anda aí
+amparando o seu reumatismo a uma certa _maneira_ de má língua e a uma
+bengala de cana; Leopoldino Gonçalves viaja como médico da armada; e
+Fortunato, quando as saudades lhe são mais amargas, abandona o Alentejo,
+onde toma pulsos a doentes pela tabela da Câmara, e aparece às vezes
+nédio, cor de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tédio os copinhos de
+cognac do _Leão_...
+
+De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias cor-de-rosa, o que me
+traz mais doces recordações é Trindade Coelho,--porque eu ligara à minha
+a alma dele, num tempo em que dos salgueirais de Coimbra ele me
+fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas crónicas
+soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de afirmações de uma
+personalidade literária. A sua prosa, a um tempo humana e lírica,
+dava-me a impressão de um romantismo degenerado... De Coimbra, como
+sabem, além de bacharéis anónimos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. É
+da tradição universitária, fazerem os doutores as suas primeiras armas
+de literatos e de poetas, na academia, a intervalos do pesado estudo
+do Lobão e do direito público, esvurmado às cavaleiras do nariz de
+Pedro Penedo... Toda a nossa legião distintíssima de poetas e
+prosadores modernos deriva literariamente da boémia
+coimbrã:--Teófilo, Eça, Junqueiro, João de Deus, Antero, etc. É a
+afirmação do bom António Ferreira feita axioma:
+
+ _Não fazem mal as musas aos doutores_.
+
+E não fazem. Tem-se visto. Vão lá inquirir a Junqueiro das belezas do
+Código Civil, meio metafisicamente original e meio copiado dos códigos
+de Napoleão! Ah, mas em compensação que apareça aí o primeiro advogado
+a escrever a _Morte de D. João_ e a _Musa em férias_!
+
+Os cantos de Trindade Coelho são narrativas ligeiras, descrições numa
+bela prosa colorida e transparente, trechos de psicologia trasmontana,
+e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_
+do proceder literário deste escritor é deliciosa de cor e de verdade,
+sem grandes esmerilhamentos de frase, nem deslumbramentos de imagens na
+aparência cor de oiro, que, em regra, não fascinam senão os saloios
+ingénuos dos cordões de latão... Tem-se chegado aí, no abuso da
+originalidade do estilo, a fazer uma prosa estrelicada, engomada,
+cabelinho à banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O
+burguês já conhece os processos da _chinoiserie_, e daí não há
+espantá-lo com nefelibatismos doentios, de importação barata; bem sabe
+ele que debaixo dessas belezas está a oleografia reles de porta de
+escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota
+a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em
+Alcântara...
+
+O livro de Trindade Coelho tem um certo ressaibo de saudável trabalho,
+feito com honestidade e sem as preocupações deploráveis que levam os
+corifeus da escola moderníssima, mais que zolaísta, à descrição e
+estudo de patologias e casos esporádicos, ou não vivos, ou pouco
+vívidos. Este livro é quase um parêntesis aberto como uma clareira
+consoladora na torrente ultra-realista dos últimos trabalhos
+aparecidos, do _sujet_ de um dos quais, que é em todo o caso a
+monografia de um carácter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_
+dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrière_...
+
+A feição literária de Trindade Coelho parece-me que se define na parte
+do livro subtitulada _Baladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, são uma
+dúzia de páginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet. É uma
+elegia... trágica, _encadrée_ numa linguagem cor de opala, em que a
+gente parece estar vendo Hoffman braço dado a... João de Deus! É uma
+obra-prima. Assim a _Tragedia rústica_ e a _Mãe_. Dos _contos_ destaco
+eu os _Prelúdios de festa_, _Idílio rústico_, os _Tipos da terra_, onde
+há páginas soberbamente observadas, sugestivas, _d'après nature_.
+Magnífico o assassino _José Gaio_.
+
+Trindade Coelho é inquestionavelmente um lírico. E nem eu sei como ele
+chegou até aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de
+Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de não conhecer os
+dicionários de rimas, senão a estas horas era uma vez um contista
+encantador... soçobrado!--_Inácio da Silva_.»
+
+
+Nova Alvorada:--«_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe você, amigo Trindade,
+que as palavras afectuosas que me endereçou no oferecimento do seu
+livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espírito um mundo de
+saudosas recordações, como se foram fugazes emanações balsâmicas de uma
+quadra primaveril que não volta mais--a vida coimbrã?
+
+Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa
+mas robusta, as _suas feições másculas e enérgicas_, e a sua _allure_ um
+pouco receosa ao dobrar a soleira da legendária Porta Férrea.
+
+Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de
+grau apurado, sob a pasta de um quintanista, mirando à direita e à
+esquerda, entrou você nos _Gerais_ resignado a um dilúvio de troças,
+martírios, horrores...
+
+Os segundanistas, de cuja respeitável corporação eu fazia
+orgulhosamente parte, não o arreliaram logo, talvez porque lhe não
+encontrassem uma fisionomia de chuchadeira, como a de um Armelim, nem um
+rosto gretado, empedernido, de homem terciário, como o do bom Rafael do
+Ranhados.
+
+Mas em que diabo foram eles depois embicar, os malvados!
+
+Em uma medalha de oiro que você trazia, à guisa de berloque, na corrente!
+
+O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escândalo_, de forma que a
+tempestade de piada desanuviou-se a tempo no seu horizonte de novato.
+
+Depois, um ou dois anos, aparece o amigo com acentuações de académico
+falado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolásticas, a sua
+individualidade a destacar-se, como se fora um _urso_. E assim se
+falava do Trindade, como do Luís Osório ou Feijó por causa dos versos,
+do Pássaro pela fina chalaça, do Saraiva pela força, do Miguel
+Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstracções, do Banalidades
+pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.
+
+Você desencubou o seu nome, pô-lo em evidência--o Trindade--, mas foi por
+causa de um excelente resumo das lições de direito romano, de um belo
+discurso no centenário pombalino, e sobretudo das suas graciosas
+crónicas no _Diário Ilustrado_.
+
+Ah! e lembra-se você daquele ano em que formámos «república» na Rua
+da Trindade, tendo por criada a Sr.^a Maria de qualquer coisa, que
+denominávamos a _Gorda_, matrona muito caroável e de enxundiosas formas?
+
+Éramos uns poucos:
+
+O Sousa, que já tem o galão branco dos tribunais administrativos,
+espírito fácil, perspicaz e alegre, nada para maçadas, que tinha
+orientações definidas em política partidária e expedientes reservados de
+galopim graúdo contra os progressistas da Barca.
+
+O Manuel Nunes, hoje em Barcelos, muito lucianista, devorando o
+evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiúnculas com aquele por
+causa dos seus ideais políticos encontrados, grande passeador e jogador
+de manilha, um tanto lambaz porque saía mais cedo e sorrateiramente dos
+teatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatários, guardada pela
+_Gorda_ num cantinho do fogão.
+
+E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe
+chamávamos o Pegas, o Covarruvias, e lhe líamos um imaginário plano,
+rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito
+desconfiado e estudioso, só não encavacava quando lhe dizíamos que ele
+se aplicava... 25 horas por dia!
+
+Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, de aspecto _sournois_, olhos à bufo, que
+não falava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e
+contumaz!
+
+Em seguida o Sérgio Carneiro, o Grilo, seu comprovinciano e hoje
+conservador algures, com cara de cera, esboçada, sem feições lavradas,
+muito guitarrista e risonho, se bem que inteligente e aplicado.
+
+Éramos mais--você e eu. Você que se metia muito com a literatura,
+fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por sinal
+dediquei um fado aos membros da república, o qual nas vésperas de
+feriado se cantava, em algazarra tonitruante, quando o Grilo
+condescendia em o acompanhar na guitarra.
+
+Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais
+tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje está nos tribunais de Lisboa e
+eu no berço da monarquia.
+
+Agora vejo-o, literato conhecido e conceituado, a publicar os seus
+belos contos em um elefante volume--_Os meus amores_.
+
+E belos na verdade, como todos dizem.
+
+A _Mãe_, aquela cruciante tragédia da pobre _Ruça_, morta de terror e
+de amor, é para mim o mais apreciável e sentido conto da sua colecção.
+
+Costuma-se dizer de uma mãe descaroável, de uma Francisca Fortunata--é uma
+cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando
+as caluniadas afeições dos pobres ruminantes.
+
+Quem ler as angústias da mísera _Ruça_, na expectativa do filhito
+devorado pelo esfaimado lobo circunvagante, restituirá àquele
+inofensivo animal o sentimento de amor maternal, a natural compreensão
+das suas obrigações de mãe e protectora.
+
+E os _Arrulhos_? Se me não engano você escreveu esse conto em Coimbra.
+Creio até que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal
+qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bela produção
+vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_.
+
+Nos restantes contos, entre os quais me não agradaram menos _V[ae]
+Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sultão_, revela o amigo a força da
+sua educada fantasia, moderada por um largo pecúlio de observação; a
+sua poderosa intuição artística; o seu diálogo curto, vibrante e
+natural; o seu estilo já característico pela feição franca, _saccadèe_,
+de dizer e narrar; a propriedade das locuções; o bom emprego dos termos;
+a verdade das suas descrições e pinturas, que, ao contrário de muitos,
+não repete, tinta para aqui, tinta para acolá e vice-versa, numa
+pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa
+semelhante.
+
+Olhe, amigo. Eu careço de jeito para a crítica literária; mas, enquanto
+me é licito exprimir a minha humílima opinião, dir-lhe-ei que você
+alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputação de literato
+distinto e de contista precioso; e que este conceito é merecido,
+atestam-no os seus valiosos escritos dispersos e a sua elegante
+brochura recém-editada.
+
+Resta-me felicitá-lo cordialmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua
+fineza com um abraço de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.»
+
+
+Nova Alvorada:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a
+oferenda do novo livro de Trindade Coelho,--o simpático e distinto
+escritor que de há tempos se vai honrosamente evidenciando no certame
+das letras pátrias, onde já agora a sua individualidade tem uma
+reputação firmada.
+
+_Os meus amores_ é o título que o Sr. Trindade Coelho escolheu para o
+seu livro de contos e baladas, e se assim lhe chama, segundo cremos,
+não é porque estas 200 páginas sejam um auto-historiográfico dos
+idílios romanescos do autor, naquela áurea quadra da sua vida
+académica, ou um repositório de alheias aventuras amorosas com
+acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendário.
+
+Não. A razão do título parece-nos antes proceder da afectividade
+psicológica do autor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto
+com que Luís Osório prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:
+
+_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
+Vivo enxame das minhas alvoradas,
+Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
+As Desdémonas sois de um outro mouro_.
+
+Se não fosse assim, afirmar-se-ia mais uma vez a verdade do
+aforismo--o hábito não faz o monge--, porque o _Idílio rústico_, com que
+abre esta bela colecção de contos, não seria bastante para justificar
+o título sob que se enfeixam.
+
+Mais que o idílio, preponderam no correr do livro a comédia, o drama e a
+tragédia: e basta percorrê-lo em rápida leitura, para averiguar-se que
+se há na urdidura dos vários contos muitas situações que nos pintam o
+ridículo, a desgraça ou o crime, poucas há, entretanto, que nos prendam
+o espírito ao devaneio piegas de um Romeu e de uma Julieta.
+
+Mas, ou bem ou mal baptizado, o que é consoladoramente verdadeiro é que
+os contos do Sr. Trindade Coelho constituem uma das mais belas
+colecções que no género conhecemos.
+
+Uma urdidura fácil e clara, movimentada em harmonia com os melhores
+preceitos da arte.
+
+Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada à naturalidade das
+situações e dos diálogos.
+
+Uns assuntos de felicíssima escolha, a reproduzirem fielmente costumes,
+a pôr em jogo com a maior verdade os vícios e as virtudes do povo.
+
+Como os contos magníficos de Bento Moreno, os contos do Sr. Trindade
+Coelho são a fiel expressão da vida rústica do nosso povo, e fácil é de
+compreender a importância moral que estes livros terão quando as
+gerações que nos sucedam queiram inventariar nas suas tradições o modo
+de viver, de sentir e de pensar das populações sertanejas, neste
+período histórico em que vamos.
+
+Sem descer aos excessos da escola ultra-realista, a que Zola preside
+como Sumo Pontífice, o Sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade
+inexcedível, de um realismo incontestável, de um naturalismo a toda a
+prova, que por igual se evidenciam no assunto, na narração e nos
+personagens.
+
+E, sobretudo isto, há nos seus contos, como nos de François Copée e
+Theodore de Bauville, a artística encenação que, sem desvirtuar-lhe a
+naturalidade da forma e do fundo, lhes imprime o atractivo romanesco
+que fala à imaginação do leitor.
+
+O _Idílio rústico_, com que o livro abre, é de uma suavidade deliciosa,
+e de uma naturalidade tão justa quanto encantadora.
+
+A _Última dádiva_ é a expressão fiel de muitas cenas que a emigração
+multiplica cruelmente pelas nossas províncias do norte.
+
+A acção deste conto é conduzida com uma tal unção de sentimentalidade,
+que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a comoções, se poderá
+esquivar a partilhá-la.
+
+O conto--_Tipos da terra_ é a descrição fiel, fidelíssima, da mesquinha
+intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de
+província.
+
+_Os Prelúdios de festa_ são de um cómico admirável; _Maricas_ é de um
+sentimentalismo comovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade
+edificante; _Arrulhos_, _Mãe_, _Tragédia Rústica_, tudo, tudo neste
+livro é bom, e de útil e agradabilíssima leitura.
+
+A forma--já o dissemos--é correctamente vernácula e elegantemente
+rendilhada.
+
+A título de amostra, para aqui trasladámos do conto--_Sultão_--este
+belo _croquis_ de uma tarde de Agosto:
+
+«Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos
+montes quebravam-se numa sombra igual, e embaciavam ainda o poente as
+suaves e brandas pulverizações doiradas da última luz do sol. Riscos
+vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro,
+destacavam imóveis num fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de
+listrões de uma coloração leve de laranja.
+
+Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
+além, alegremente, a monotonia profunda do azul.»
+
+E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra à altura da boa reputação
+do autor.
+
+A redacção da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu ilustre colega
+por tão brilhante produção, e daqui lhe envia um cordialíssimo aperto
+de mão.»
+
+
+A Independência:--«_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro
+de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspirações,
+modestamente, apenas com a consciência tranquila de quem escreve bem e
+com critério,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,
+que acaba de dar à estampa, algumas produções literárias que a sua
+vida de jornalista tinha atirado para a vala comum das páginas de
+revistas e diários.
+
+Não é, pois, um trabalho completo, inteiro e homogéneo o que se nos
+oferece para apreciar: são pequenas jóias literárias, buriladas por
+mão de artista e de um fino sabor de naturalismo.
+
+Considerado assim, sem dependência de escola e confrontação de
+originais, o livro é bom.
+
+As suas descrições são perfeitas, correctas, desenhadas por quem se
+acostumou, desde criança, a ler muita e a adivinhar mais na bíblia
+riquíssima e inexaurível da Natureza.
+
+Há vida e colorido em tudo. As telas dos céus pincelaram-se com as
+tintas próprias, e os diversos personagens que nos vão passando sob os
+olhos, romanescos e sérios uns, grotescos e ridículos outros, deixam-nos
+uma impressão agradável de realismo, e alta compreensão. São tipos
+exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem frases banais que
+enjoam. António Fagote é um espécime do juiz de festa das nossas
+aldeias, basofão e vingativo, pronto, olá! a gastar as últimas moedas
+da venda do últimos gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e
+a deliciosa balada _Mãe_ é uma preciosidade literária, magnificamente
+pensada escrita, digna da pena dos nossos primeiros escritores.
+
+Não encomiamos, pois, o valor do livro, dizendo que ele é digno de
+figurar ao pé das mais belas produções dos nossos escritores mais
+consagrados.»
+
+
+Correio de Portalegre:--«_Os meus amores_, contos e baladas por
+Trindade Coelho.
+
+Acorda-lhes no espírito um eco de simpatia o nome do autor, pois não?
+
+Eu creio bem isso, porque a verdade é que apesar da celeuma que Trindade
+Coelho aí levantou, granjeando com o seu génio turbulento algumas
+antipatias nenhuma delas alvejou o seu talento, que os senhores
+jamais negaram, e lhes ficou sendo simpático. É por isso que escolhemos
+para encetar esta secção a produção brilhante do distinto literato,
+editada há pouco por António Maria Pereira, um incansável editor
+escrupulosíssimo.
+
+Li o livro que o talento do autor recomenda, impondo-o, quase, a
+atenção do nosso cérebro, à contemplação da nossa alma; e essa leitura,
+feita numas horas que um encanto enorme fez parecer tão breves, deu-me
+d'_Os meus amores_ a agradabilíssima impressão de uma carícia, que
+persiste a sorrir consoladora.
+
+Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Comércio_ e da
+_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejável de dar à ideia,--algumas
+vezes injusta, dirão alguns,--a mais correcta forma, iriada sempre da
+limpidez mais viva; e isso, num trabalho feito agora para aparecer
+amanhã, à pressa sempre, numa fugida aos calhamaços manuscritos que
+demandam a sua atenção de magistrado, e em que o período mais
+sugestivo é o do _Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo_.
+
+É-lhes fácil por isso pressupor o livro, que o vagar do autor desbasta,
+remodela, lima, muito tranquilamente, muito sossegadamente, sob a
+vigilante direcção do seu delicado gosto artístico.
+
+_Os meus amores_ têm poesia, e têm verdade; e na maioria dos seus
+diferentes quadros, adorável descrição das cenas simples da vida do
+campo, da natureza singelamente formosa, o sentimento vibra
+intensíssimo, e é encantadora a frase, que um conhecimento profundo
+ditou, de que uma subtil observação ressai. Há ali retratos de um brilho
+sem limite, _tipos_ que resumem um estudo fidelíssimo.
+
+É um cofre de belas jóias, o livro, que nos deixa embaraçadíssimo, se
+queremos escolher alguma,--tão valiosas são todas.
+
+Todavia,--e isto é uma modesta opinião perfeitamente pessoal,--_V[ae]
+victoribus_, de tão grandiosa ideia, e de tão elevado estilo, _Para a
+escola_, tão grata, a evocar uma saudosa recordação dos bons tempos de
+criança, e os admiráveis contos de fina graça e tão verdadeiros,
+_Prelúdios de festa_ e _Tipos da terra_, são os meus eleitos, depois
+de uma dificuldade enormíssima de escolha, de entre tantos quadros da
+perfeição mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ cativam também a
+minha admiração.
+
+O livro é, como todos os saídos na _Colecção António Maria Pereira_,
+esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em
+percalina.
+
+Nesta notícia breve, digne-se o distintíssimo autor d'_Os meus
+amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada tão agradável como
+sinceramente.»
+
+
+O Nordeste:--«Editado pela casa António Maria Pereira, de Lisboa, em
+volume de impressão nitidíssima, escrupulosa, foi recentemente publicado
+o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pôr em
+relevo as complexas e brilhantíssimas qualidades literárias do autor,
+um _novo_ que já hoje ocupa, por direitos justamente adquiridos, um
+lugar proeminente entre os nossos melhores escritores.
+
+_Os meus amores_ têm obtido na imprensa do país uma acolhida
+entusiástica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso
+conterrâneo quase, cometeríamos uma flagrante descortesia se nos
+leitores do _Nordeste_ não déssemos conta da aparição desse livro,
+juntando ao coro uníssono de aplausos as nossas sinceras saudações.
+
+Escritos em prosa vibrante, fluente e musical, correctíssima, esses
+contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro
+primoroso, constituem um verdadeiro encanto, cativando-nos com a
+espontânea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha dumas
+histórias aldeãs, de uma simplicidade campesina, repassadas por vezes
+de um sentimentalismo suave, lírico...
+
+A nós, que temos por Trindade Coelho uma vivíssima simpatia, um afecto
+antigo e veemente, seguindo com interesse quaisquer particularidades da
+sua vida, consolando-nos com os triunfos literários que têm
+glorificado o seu nome e com a sua merecida reputação de magistrado
+inteligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do
+procurador régio, estava-nos impacientando o desejo de ler o seu livro,
+e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio no-lo
+trouxe. E, agradabilíssima coincidência! sucedeu-nos deparar com o
+conto _Para a escola_, quadro tocantíssimo que marca distintamente os
+dois mais notáveis estádios da vida do escritor: a altura em que entra
+na escola primária, regida por um mísero professor, bondoso e marcial,
+de vilota sertaneja, e aquela em que sai de uma outra, habilitado com
+as suas cartas de formatura a encetar a carreira pública, na qual de
+contínuo evidenciará as suas superiores qualidades de talento e carácter
+diamantino.
+
+Essa história, exposta num estilo formosíssimo, maleável e correntio,
+deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o
+confessamos...--de lágrimas espontâneas nos marejarem os olhos, tão
+enternecedoras são essas páginas que evocam em nós as reminiscências
+queridas de um passado que não volta, e no espírito nos reproduzem, com
+uma precisão fotográfica, completa, cenas iguais da nossa infância,
+como de certo acontecerá a todos quantos lograrem a felicidade de lê-las
+e senti-las...
+
+Terminado esse conto, foi de um fôlego, a bem dizer ininterruptamente,
+que _devorámos_ o livro, onde o autor, num esbanjamento pródigo de
+verdadeiras pérolas literárias, se expande em ligeiras narrativas,
+descritas numa prosa colorida e vibrátil, cintilante e rítmica,
+apresentando-nos uma série de quadros, colhidos em flagrante, _d'après
+nature_, com uma extraordinária lucidez de observação, e um outro _caso_
+humano trasladado para páginas de uma forma impecável, acentuadamente
+artista, e que são uma eloquente afirmação da distinta personalidade
+de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assinaláveis e esmerados
+cultores da prosa portuguesa.
+
+Não querendo, e não nos sobejando espaço para tanto, ampliar esta breve
+notícia a uma crítica a todo o livro, impossível se nos torna enumerar
+todos os contos em que ele se reparte, emitindo detalhadamente as
+impressões que nos sugeriram. Por isso o nosso aplauso caloroso para
+todo o livro, sem predilecções por este ou por aquele conto; e daqui,
+desta coluna de modesto jornal de província, enviamos ao nosso
+queridíssimo Trindade Coelho, numa efusão de acrisolada estima, com um
+aperto de mão, as felicitações que merece, fazendo votos para que não
+deixe de ser um cultor assíduo da literatura nacional, e continue a
+honrar o seu nome, já laureado, com a publicação de novos e bons
+livros.--_José Pessanha_.»
+
+
+Da Revista do Minho:--«_Os meus amores_.--Poucos livros terão vindo à
+luz da publicidade ultimamente em Portugal tão esplêndidos como aquele
+cujo título serve da epígrafe a esta notícia. Em todas as suas páginas
+se reúne o belo e o agradável, tornando esta obra de sólido mérito, e
+estimável debaixo de todos os pontos de vista.
+
+Este volume pertence à formosíssima colecção António Maria Pereira, e é
+devido à brilhantíssima pena de um dos nossos mais festejados
+escritores--Trindade Coelho.
+
+Não precisamos alongar-nos em chamar a atenção do público para esta
+obra, pois é ela sobejamente já bem conhecida dos amadores de bons
+livros.»
+
+
+Revista Ilustrada:--«_Os meus amores_.--Há tempo,--não há
+muito,--começou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando,
+umas cartas de província,--_Cartas alentejanas_, nos parece,--assinadas
+pelo nome, então desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por nós a
+primeira, nunca mais nos descuidámos de procurar as outras, e foi com
+verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, até deixarem de aparecer
+de todo.
+
+Essas cartas eram a revelação de um formoso talento; eram a alvorada
+jubilosa e cantante de um bom escritor. Trindade Coelho entrava nas
+letras portuguesas pela porta áurea dos vitoriosos, apresentando
+natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira numa só
+peça o seu talento aliado com a sua observação e o seu estudo, sem
+esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovelar os que
+avançavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamelas de
+apaniguados e sequazes.
+
+Escrevia de um canto da província, da sua terra, em horas desocupadas;
+escrevia de assuntos comezinhos, de coisas que tinha ali à mão, das
+cenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua
+alma encontrava no tracto simpático da natureza inteira. Falava de um
+ou outro livro, que mão amiga lhe fazia chegar à solidão do seu
+eremitério, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas.
+Era um talento e era um carácter.
+
+Depois, houve na sua vida literária um momento de eclipse. Cremos que
+deve ter correspondido ao período ocupado e trabalhoso da sua
+formatura. Bom sinal. O estudioso sério sabia reprimir as impaciências
+do amor próprio, sacrificando às altas ocupações do seu curso os
+brilhos atraentes da fácil nomeada. O escritor experimentara já o
+pulso; agora conhecia a sua força e sabia e podia esperar.
+
+Eis que nos aparece um dia, súbito, no foro, honrando e glorificando
+num processo de reabilitação a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe
+celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de letras, que
+ele soubera fazer distinto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.
+
+Alguns meses de colaboração diária, num jornal bem lançado e bem
+redigido, avigoraram no conceito público o renome conquistado, e
+Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa do país, o lugar a que
+tinha direito, sem ninguém lho discutir nem contestar.
+
+Estreia-se agora no livro, e dificilmente imaginaríamos apresentação
+mais prometedora e mais simpática.
+
+
+_Os meus amores_ são uma colecção de esbocetos, alguns dos quais, como
+o _Idílio rústico_, _Última dádiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus
+abyssum_, chegam a ter a perfeição, o acabamento de verdadeiros quadros.
+Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o autor os trabalhou,
+solícito na sua obra, no empenho de uma execução imaculada. Não porque
+se conheça o esforço; mas sim porque se sabe que sem ele era impossível
+conseguir tão completo efeito, tão seguro resultado.
+
+O estilo do prosador é, quase sempre, firme, opulento, erudito, original
+e variado. Não tem reminiscências deste ou daquele, e realiza uma das
+condições essenciais que deve ter em mira todo o escritor
+consciencioso: conservar uma feição própria e individual, sem se afastar
+da pureza da língua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso arcaico, e
+contribuindo para a evolução progressiva dela.
+
+Trindade Coelho, por uma intuição que nos não cansaremos de louvar, em
+vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria
+fácil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estilistas,
+procurou modo de iluminar a sua frase e de colorir a sua palavra, na
+fonte natural de todas as inspirações. Penetrou, para isso, nas camadas
+mais primitivas do povo campesino, enriquecendo nesse manancial o
+tesouro das locuções, e trazendo de lá, simultaneamente, cenas e
+quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e
+adorável.
+
+É de indiscutível beleza a pastoral com que abre o volume.
+Afigura-se-nos estar lendo algumas páginas de Longo. A descrição da
+madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonçalo e
+Rosária,--Daphnis e Chloe,--têm um sabor antigo, como o de uma
+narrativa idílica, passada nos tempos legendários da Grécia, e ao mesmo
+tempo toda a verdade de uma cena campestre dos nossos dias. É de um bom
+gosto supremo a forma subtilmente delicada como o narrador, deixando
+primeiro recear a queda dos seus personagens numa brutalidade
+instintiva, os conduz por fim nas asas da inocência e da candura a uma
+situação divinamente sublime.
+
+E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, numa doce e
+prolongada abstracção, seguindo com os olhos do espírito aqueles dois
+vultos de criança a esfumarem-se nas distâncias do espaço e do tempo,
+longe, muito longe, numa paisagem ideal, vista nos dias da infância,
+vista talvez em sonhos, talvez em Virgílio ou Teócrito, talvez mais
+longe ainda, na Bíblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida
+contemplação, longe, muito longe,
+
+«...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.»
+
+Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, há como que um misto do
+trágico fatalismo grego e do supersticioso horror cristão. Não é vulgar
+a concepção do assunto, nem vulgar, também, o desenvolvimento que o
+escritor lhe deu, o cenário é horrível e magnífico. Está bem
+descrito; bem descrita a tempestade, que primeiro se anuncia, depois
+se aproxima, depois finalmente cresce e se desencadeia numa convulsão
+pavorosa e enorme; bem descrito o terror angustioso e supliciante do
+mísero assassino, o qual vê, na chama de cada relâmpago, projectada a
+cruz negra que marca o lugar do seu crime e que lhe prende os pés ao
+chão, enquanto o seu ouvido, alucinado pelo terror, lhe dá a sensação
+de uma voz insistente, que detrás de cada árvore, da espessura de cada
+moita, de cima de cada pedra, da ressonância de cada trovão, o chama
+inexoravelmente pelo nome:--Ó José Gaio! Ó José Gaio! Ó José Gaio!
+
+Bastava simplesmente esta narrativa para granjear a Trindade Coelho
+foros de distinto e primoroso escritor. Edgar Poe não enjeitaria o
+assunto, se lhe ocorresse, nem o trataria com muita maior perfeição.
+Dar-lhe-ia pasto para algumas páginas tão engenhosas como as da _Génese
+de um Poema_, para alguma composição tão extraordinária e tão
+transcendentalmente bela como _O corvo_ ou _Ulalume_.
+
+Mas como se quisesse mostrar a maleabilidade da sua pena, ou como se
+quisesse certificar-se a si próprio da multiplicidade e da variedade das
+suas aptidões literárias, o prosador que recortou nos mais perfeitos
+moldes aquelas páginas clássicas ou estas sinistras, detém-se na
+comovente e lacrimosa narrativa da _Última dádiva_ e nas ligeiras e
+facetas descrições dos _Tipos da terra_, dos _Prelúdios de festa_, do
+_Sultão_, onde transparecem dotes de observação sarcástica, de ironia
+graciosa e de bem humorado espírito.
+
+Um livro de tantas promessas não pode ser, contudo, e por isso mesmo, um
+livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mão para se
+abalançar a empresa maior, estamos certos disso. Já no final do
+presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas
+domésticas_, se anuncia a transição da presente fase literária e
+artística do autor, para uma outra fase progressiva.
+
+Progressiva, dizemos nós, porque assim o cremos. Qual há-de ser, porém,
+a predominante característica dessa fase? Pode a crítica conjecturá-la
+desde já? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazê-lo. Porque, a
+verdade é que o seu talento tem recursos com que lhe é dado contar, que
+o seu temperamento literário tem energias que lhe hão-de abrir novos
+caminhos, e que, na sua vida de homem de letras, há já precedentes, que
+enormemente o obrigam.
+
+Temos confiança em que a sua prosa, já segura e elegante, despir-se-á
+ainda de um ou outro francesismo escusado, e há-de adquirir novos dotes
+de clareza, concisão e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde
+procurá-los. Não é em léxicos, nem em alfarrábios, nem em cartapácios.
+É na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a
+falar o português do povo, os seus tipos populares.
+
+Não se pode ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som,
+da melodia. Uma das maneiras de adquirir perícia nesta forma de
+escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos é um
+exercício útil para chegar a fazer boa prosa. Não é, porém,
+indispensável, bem entendido.
+
+Contudo, não admitimos que repute possuir as qualidades completas de
+escritor, aquele que só de uma das duas formas da arte de escrever seja
+conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, são os que
+praticaram largamente no manejo da metrificação e da rima.
+
+Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza
+artística, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na frase e
+maior cadência no período, se praticasse um pouco a arte do verso,
+embora como simples exercício. E esteja certo de que lhe vale a pena
+empregar todos os esforços para atingir uma perfeição, que não está
+longe, e de que o seu talento próprio e a sua estudiosa boa vontade
+continuamente o aproximam.--_Fernandes Costa_.»
+
+
+Aurora do Lima:--«_Os meus amores_, contos e baladas, por Trindade
+Coelho. Quando prometi à _Aurora do Lima_ esta ligeira notícia
+bibliográfica acerca do livro do brilhante escritor e meu querido
+amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doença me obrigasse a
+retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os
+últimos da última fila, nas saudações entusiásticas à obra e ao seu
+autor.
+
+Tenho para mim como certeza indiscutível que o público se começou a
+fatigar dessas obras torturantes de análise fria, cruel, desoladora. Os
+que se encontram feridos das aspérrimas lutas da vida--e estes
+constituem a maior parte dos que lêem e estudam, preferem as obras
+consoladoras, de cuja leitura fica uma sensação delicada, uma recordação
+docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triunfa sobre Zola,
+apesar do enorme _réclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da
+escola realista.
+
+Ora o livro do Sr. Trindade Coelho pertence ao número dessas obras
+consoladoras, de serenidade e de paz. É um livro sincero, que prende
+pela emoção íntima, que interessa pela simplicidade elegante com que
+está trabalhado, que impressiona pela correcção impecável do seu estilo,
+maleável e harmónico.
+
+Abre-se o livro e depara-se com o _Idílio rústico_, que é uma soberba
+tela, amoravelmente tratada, denunciando logo às primeiras linhas um
+alto valor artístico, na verdade rigorosa da observação, na delicadeza
+suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.
+
+Segue-se-lhe o _Sultão_; e em boa verdade direi que me parece ser este
+um dos contos mais formosos do volume, em que pese às opiniões
+contrárias e até ao próprio autor, que não perde ocasião de o
+depreciar.
+
+Assunto simples, esse, e todavia absolutamente verosímil. A descrição
+da eira, do labutar alegre, da paisagem e dos personagens deste pequeno
+quadro, são um primor notabilíssimo de execução artística, de rigorosa e
+completa observação.
+
+_Última dádiva_, um episódio comovente, completa a primeira parte do
+livro, a que se segue a _Comédia da província_, onde há preciosos
+estudos da vida provinciana; as _Baladas_, onde se depara com o formoso
+conto _Para a escola_, de um alto valor literário; _Arrulhos_, uma
+esplêndida fantasia, etc.
+
+Eis uma ligeira notícia do volume de contos _Os meus amores_, que
+tamanho êxito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia
+do nosso acanhado meio literário, com os merecidíssimos aplausos que
+lhe foram dispensados.
+
+Dos méritos literários de Trindade Coelho falam mais alto do que a
+crítica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornais do país,
+especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudónimo de _Ch. A.
+Verde_, e na _Revista Ilustrada_, do editor António Maria Pereira. É um
+infatigável e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frívolo assunto
+um delicioso relevo literário, que prende e interessa o espírito do
+leitor.--_Luís Trigueiros_.»
+
+
+Os Gatos:--«Vem a propósito de histórias, falar, bem sei que tarde, dos
+_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro português que
+mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em poliedros de
+multíplices aptidões. Os contos dos _Meus amores_ são pela maior parte
+uma bagagem de vida académica, assimilativa (Trindade Coelho, muito
+novo, findou há quatro ou cinco anos o curso jurídico) e como tal saem
+da pena do escritor ainda sem uma cristalização homogénea de forma e
+de processo. Porém na sua factura ondeante lê-se o ascenso de um espírito
+buscando a perfeição com escrúpulos de eleito; de sorte que o volume até
+como autobiografia se insinua, ele precisando as fases, nótulas, e
+predilecções literárias do contista, e enfim, depois de hesitações,
+emancipando-o num dos mais delicados microscopistas do coração, das
+nossas letras. Como é provinciano, provinciano de aldeia, e natureza
+contempladora inda por cima, Trindade Coelho cativa-se principalmente
+dos assuntos bucólicos, pequenas cenas de cabana, tempestades de
+campanário, pastorais, vida de povo, e sente-se que o não faça por
+diletantismo de escritor avocando de cor dramas lambidos, senão por
+esse estro de visão retrospectiva dos melancólicos despaísados em
+terras hostis, e que protestam contra o egoísmo ambiente, recluindo-se
+no passado, como num santuário de múmias adoradas. É a tendência geral
+dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes,
+especialmente dos campos, matéria-prima para seus contos e poemetos. Em
+poucos porém a predilecção se escora na sinceridade e conhecimento
+prático da vida rústica, e em menos ainda há perspicácias para uma
+autópsia sagaz da natureza psíquica e moral do camponês. Grande parte dos
+que têm posto o povo em cena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos
+num cenário de convenção, e com o fazer falar aos bonequinhos mancos
+que resultam, aravias mais ou menos inventadas de um pitoresco sorna, em
+cuja trama não há vislumbres de alma regional, de carácter profissional,
+de individualismo típico, ou de paixão. Se alguma vez tiverem pachorra,
+mandem vir a colecção dos contistas rústicos portugueses, e riam à
+larga das fantasias lorpas que lá virem. Em diálogos amorosos há por
+exemplo coisas únicas! Cavadores de aldeia debitam às namoradas protestos
+de paixão, em linguagem que seria preciosa até na boca de um pisa-flores
+do Martinho e da Havanesa. Elas, de lhes retrucar em frase
+equivalente, e de se mexerem em cena com os ademanes que a _Dama das
+Camélias_ consagrou na cachimónia dos autores, como os mais próprios
+para mimar o amor que as enxaqueca.
+
+Em paisagens e descrições de interior, a mesma ausência de detalhe certo
+e de visão própria, que reduzem esses quadros, a meras caganifâncias
+de aguarelistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a
+quem a arte confia a missão de leccionar aos desregrados habitantes das
+cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os
+seus leitores, o mais que fazem é pintar-lhes o campo como uma banal
+imitação da Rua do Ouro, e o camponês como uma arreglo grotesco do
+alfacinha.
+
+Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essência da
+paisagem provincial, e a alma do provinciano e do campónio, Trindade
+Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu critério do problema,
+em forma de arte, e dos que mais progressivamente vão crescendo à vista
+do leitor, que não mais lhe perderá de vista os voos poéticos, e a
+singular gracilidade irónica dos seus quadrinhos de género, colhidos em
+prolongadas estações nas duas mais típicas províncias de Portugal, o
+Alentejo e Trás-os-Montes. Há assim nos _Meus amores_, a par dalgumas
+benignas composições representativas da transição crítica do rapaz para
+o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guisa iguais,
+sóbrias, seguras, que não hesito em as apontar como modelos, e dentro da
+minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras-primas.
+_Tipos da terra_ e _Prelúdios de festa_, por exemplo, são duas narrações
+que mordem fundo a atenção de quem nas lê, e que por sua admirável
+sobriedade, intuito pictural, e observação ridente sobre o vivo, cuido
+que ficarão modelarmente apontadas aos coleccionadores de literatura
+típica.
+
+Qualquer das peças abrange apenas o fôlego de uma ou duas dúzias de
+páginas, deliciosas porém como factura, admiráveis de bonomia, e de uma
+saúde moral que faz desejos de estimar pessoalmente o seu autor.
+
+Aí está efectivamente revelado não só um talento plástico e bastante
+rico em cambiantes, como também a pura água de um carácter cheio das mais
+finas intenções. _Tipos da terra_ é o quadro satírico de uma má língua
+de aldeia, tendo por clube a porta da tenda, por cenário a praça pública,
+e por personagens o pessoal burocrático e elegante da terriola.
+_Prelúdios de festa_ é um estímulo de festeiros preocupados de qual
+fará a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons são leves, os tipos
+rápidos, a descrição dita a correr, mas no conjunto há um tal
+equilíbrio estético, a meia-tinta é tão fluida, e as intenções irónicas
+sublinhadas tão de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista,
+Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os sensaborões que por
+aí medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno
+romance português.--_Fialho de Almeida_.»
+
+
+Jornal de Santo Tirso:--«_Os meus amores_.--Foi penhorante e comovente
+para nós a gentilíssima oferta que Trindade Coelho nos fez do seu
+adorável livro de contos, que tem por título a epígrafe desta singela
+notícia.
+
+O nome de Trindade Coelho era já gloriosamente festejado quando o
+brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje,
+porém, aparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a
+primorosíssima forma se alia com o mais delicado critério de artista
+d'_élite_ e com a fina observação de um talento verdadeiramente superior.
+
+O que deixamos dito é profundamente sentido, que a nossa humilde e
+obscura pena não está--seja este o seu único mérito!--habituada a vir
+entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se
+prodigalizam aos medíocres e aos banais, que se desvanecem entre as
+ondas desse barato incenso.
+
+Os nossos leitores melhor ajuizarão, em presença do trecho que lhes
+oferecemos como mimo de rara valia.»
+
+
+Diário Ilustrado, (com o retrato do autor):--«Trindade Coelho.--Nesta
+áspera vida das letras, cortada de tantas amarguras que ninguém sonha,
+há, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos é dado
+experimentar, acrescente-se.
+
+Essa alegria, sentem-na os poucos susceptíveis de compreendê-la,--na
+elevada faculdade de admirar o que se impõe pelo dominador prestígio do
+talento ao culto mental, e sobretudo no íntimo orgulho de adivinhar,
+logo aos primeiros passos, a revelação de Alguém, que vai ser
+unanimemente admirado.
+
+Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na
+galeria do nosso jornal, este incomparável júbilo.
+
+Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam;
+admirei-o, muito antes dele trazer à literatura pátria o livro _Os
+meus amores_, que foi como que a súbita iluminação do seu nome.
+
+Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos aparece em toda a
+sua inconfundível originalidade de narrador, em todo o desartificioso
+encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o
+temperamento de artista, impressionável e vibrante, na fluidez do
+estilo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...
+
+O campo, que a maioria dos escritores conhecem superficialmente, de
+rápidas excursões alpestres, sem o menor vislumbre de identificação,
+vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com
+um profundo sentimento do natural. «Entre os poucos argutos dedicados a
+perscrutar a essência da paisagem provincial, e a alma do provinciano e
+do campónio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande crítico Fialho
+de Almeida, Trindade Coelho é dos que mais lucidamente traduzem o seu
+critério do problema, em forma de arte, e dos que mais progressivamente
+vão crescendo à vista do leitor, que não mais lhe perderá de vista os
+voos poéticos, e a singular gracilidade irónica dos seus quadrinhos de
+género, colhidos em prolongadas estações nas duas mais típicas
+províncias de Portugal, o Alentejo e Trás-os-Montes.»
+
+Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho começara a afirmar a sua
+poderosa individualidade em uma secção do _Diário Ilustrado_, _Cartas
+alentejanas_, crónicas expedidas de Portalegre, em um arranque de
+talento, com exuberância de fantasia, modos de ver e dizer,
+flagrantemente modernos, traços de soberbo humorismo à Vacherai, velados
+a espaços de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante
+originalidade.
+
+Por esse tempo, o nosso brilhante cronista empreendeu, no exercício
+das suas funções de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitária de
+arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o
+condenara.
+
+E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos
+voos, fez-se um coro de bênçãos, como que uma apoteose de amor, que
+deverá ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma
+efusiva e entusiasta, um destes supremos júbilos, superiores a todas
+as desditas e inacessíveis a qualquer desencanto.
+
+Dá-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterizam e
+lhe assinalam o ponto culminante em que se evidenciam, uma dualidade,
+verdadeiramente fenomenal.
+
+É que, sendo ele um artista, na rigorosa acepção titular da palavra,
+namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na
+extática adoração de tudo quanto ela sobredoira do seu brilho imortal,
+é ao mesmo tempo um funcionário exemplar, um delegado do procurador
+régio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte
+Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu carácter e no
+correcto exercício da sua profissão, toda a prestigiosa soberania da
+Lei. Diz ainda Fialho de Almeida, inteiramente insuspeito, quando se
+trata de aquilatar o mérito de um autor:
+
+«Aí está efectivamente revelado não só um talento plástico e bastante
+rico, em cambiantes, como também a pura água de um carácter cheio das
+mais finas intenções.»
+
+Às vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade
+nostálgica ou treme de frio... legal.
+
+É então que ele murmura, (perdoa a indiscreta alusão, meu caro
+Trindade Coelho?) «Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o
+meu espírito! O meu trabalho, amo-o porque é o meu dever. Mas como eu
+ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! Não faz ideia, não!
+Dentro desta jaula de ferro, veja! E lá fora, e lá em cima--que amplo
+céu azul para voar!»
+
+Mas nesse azul para onde lhe foge o espírito, quantos triunfos ainda o
+esperam, meu ilustre amigo?--_Guiomar Torrezão_.»
+
+
+Revista de Portugal:--(Excerto de um artigo crítico acerca do _Só_ de
+António Nobre).--«Alma doente, o Sr. António Nobre soube extrair da sua
+doença efeitos de Arte singulares e às vezes intensos. Outros
+atingiram o mesmo objectivo pela descrição das emoções naturais e pelo
+apelo aos instintos sãos do coração humano. Acabo de reler o livro
+de um escritor também novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com
+casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser compreendidos
+por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a afeição de dois
+pastorinhos perdidos na solidão do campo, os remorsos de um homicida
+junto à cruz da sua vítima, o amor materno de uma cabra que se deixa
+morrer sobre o cadáver do filho recém-nascido, consegue o narrador
+interessar e comover vivamente o espírito de quem o acompanha através
+dessas duzentas páginas impregnadas dos sucos da terra e do suor dos
+lavradores. Demonstração cabal de que a Arte é vasta e a capacidade
+pessoal decisiva para a beleza das obras.--_Moniz Barreto_.»
+
+
+Da Vid'Airada: «Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face,
+olhando-o bem, medindo-o de alto a baixo,--o que não seria difícil mesmo
+no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar
+no seu olhar, e não perdendo uma só das suas palavras na mais simples
+conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se ele de nós, porque já
+então a gente não se atreve a separar-se dele, tem-se adquirido a
+certeza de que aquilo é o que é, e chegado à mais sólida convicção de
+que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um
+coração de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais
+insubmissas ao menor propósito do menor disfarce, do que na sua
+fisionomia bem aberta, iluminada em cheio pelo brilho intensíssimo do
+seu olhar muito límpido, muito penetrante, se expressam toda a
+sinceridade, toda a verdade do seu grande coração e do seu impetuoso
+temperamento.
+
+E ao vê-lo partir pela rua fora, decidido e teso, resoluto e rijo, a
+cabeça alta, assentando com firmeza o pé pequeno, despejando caminho que
+dá gosto vê-lo, não resistem os olhos ao desejo de acompanhá-lo de
+longe, até que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou
+pensa:--«Demónio!... Com meia dúzia assim, poderia fazer-se _alguma
+coisa_ ainda!...»
+
+Porque no meio desta espécie de contágio, que os perversos e as suas
+perversões vão espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos
+quando com eles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando
+passam--só a presença de homens bons e sãos poderá melhorar este solo e
+purificar esta atmosfera.
+
+Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem
+da sua vida,--o mundo literário e o mundo judicial--afigura-se-me
+ele, talvez, como um antípoda de si mesmo, ora imprimindo o indelével
+cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos
+para a dilacerante historia patológica da sociedade portuguesa neste
+agonizar de século, quando aponta o implacável índex do Ministério
+Público contra os altos réus de certas causas célebres,--ora imprimindo
+nalgumas obras de pura arte literária, em que a elegância da forma é
+posta sempre ao serviço das emoções mais doces e das mais penetrantes,
+esse outro cunho, dessa outra individualidade que nele há, e tão
+diversa é, tão original e tão rara, tão contemplativa e tão terna.
+
+...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande coração e do
+seu impetuoso temperamento!
+
+No tribunal, quando articule algum libelo acusatório em que as suas
+palavras se não limitam ao cumprimento do dever de ofício, não tardará
+que à serena exposição dos primeiros articulados suceda a expressão
+calorosa, indómita, sempre crescente, da indignação, e da cólera, que
+lhe provocam e açulam os factos e as razões de que vai deduzindo a
+tremenda acusação contra o réu--...esse réu que ali está, ali!
+sentado naquele banco, sentenciado já, e de grilheta aos pés!
+Agita-se-lhe a circulação do sangue, a respiração acelera-se, a face
+ruboriza-se, todas as veias do pescoço e fronte se distendem, o peito
+enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitação do cérebro
+vigoriza-lhe os músculos, afirma-lhe a energia, parece transportá-lo ao
+império da força, num arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas
+se crispam, punhos cerrados, braços erguidos, completamente desordenado
+a frenético!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta,
+quase ronca, vociferando, em discordâncias agudas que vêem ferir de
+arrepios a espinha dorsal do auditório... Já não é para a justiça dos
+homens que ele apela; não lhe bastam, não o saciam as penas máximas
+dos Códigos! Quer o castigo do Céu, quer a justiça de Deus!
+
+...O que não tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem pior
+que a morte natural, um desgraçado que a cegueira da justiça humana
+havia condenado por assassino e ladrão--o pobre Manuel Barradas. Muito
+comentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministério
+Público, um feroz acusador, empenhasse dois anos agoniados da sua vida
+em apurar uma inocência... Trindade conserva, encadernada, a colecção
+desses jornais, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no
+princípio estas palavras: «Meu filho, pela lei de Deus, a vida é só um
+pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Ele, em
+prémio da minha obediência, concedeu-me o poder legar-te um pedaço vivo
+do meu coração. Queres ouvi-lo bater? Ausculta essas folhas... Bendito
+seja Deus! serão ainda minhas as tuas lágrimas enternecidas, e, ainda
+depois de morto, viverei na tua comoção e na tua alegria, para a
+comoção e para a alegria da minha obra...»
+
+Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste
+nos oferece a outra fase desse mesmo espírito, quando o vulto austero
+do magistrado, cedendo o lugar à delicada individualidade do homem de
+letras, o desembaraça da toga e o deixa que vá, em mangas de camisa,
+muito à vontade e à fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a
+vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, dessa muito
+viva e muito afectuosa ternura que à sua alma de artista dá, e que a
+sua prosa tão sentidamente traduz, a recordação de felizes tempos que
+não voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordação a
+que andam para sempre ligados, numa doce e meiga associação de ideias,
+certos lugares, certas pessoas, certas orações, certa ermidinha e certo
+olmo, que já lá estavam quando ele nasceu, que o embalaram nos
+primeiros sonos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao
+baptismo o levaram, e o conduziram à escola; alegrando-se com as suas
+alegrias, entristecendo-se com as suas lágrimas...
+
+Nesses momentos, sob o domínio desse lindo sonho, inundado do luar da
+sua terra, desanuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, vê-se
+pousar-lhe nos beiços e nas pálpebras a serenidade meiga de um sorriso,
+como que o doce agradecimento à alma de sua mãe, que tivesse vindo,
+muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito,
+aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos lábios a amorosa
+carícia dos seus beijos...
+
+Por isso, a música do seu estilo produz sobre a nossa sensibilidade
+essas emoções e excitações violentas, em que a tremura dos músculos e a
+efusão das lágrimas realizam o fenómeno das emoções reais.
+
+Os seus escritos obedecem sempre à lógica influência desta convicção
+em que ele está, quando me diz, bem medindo e pesando cada uma das suas
+palavras:
+
+--«Positivamente, meu amigo, o público deseja, antes de mais nada, que o
+escritor preste na sua obra o culto que é devido à sua língua. Depois,
+deseja que o comovam, que honesta e consoladoramente o emocionem,
+preferindo que o assunto do quadro seja a exploração das coisas
+triviais da vida, certamente porque reside no Simples a fórmula mais
+natural da Verdade... Compreendo que o espírito dos que lêem está
+fatigado dessa confusão do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me,
+enfim, de que a obra de arte literária tem, como primeiro dever, e como
+condição primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre
+de uma pontinha ligeira de poesia que vá direita ao coração e
+entretenha, em quem lê, as faculdades emotivas, de preferência, mesmo,
+às faculdades intelectuais...»
+
+Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos. É o primeiro deles,
+_Idílio rústico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarela, parece que
+feito sobre um esbatido de céu puríssimo, cor de sovaco de andorinha e
+não sei com que singular sabor eucarístico de primeira comunhão... É
+um sonho de absinto, que serve de aperitivo divino para a leitura
+sôfrega de todo o livro. Dois pastoritos ingénuos, a Rosária e o
+Gonçalo, encontram-se e aproximam-se, numa indecisa alvorada de
+derriço, cheios de boas tenções e puros ideais. Acontece, porém, que por
+viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes é dada,
+imaginem os que como eles se amem a alegria que inunda aquelas duas
+almas! Duma vez, passada alguma dessas ausências longas, quis Deus que
+os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando
+seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como
+juntos os corações traziam, e desde que nasce o sol até que o sol se
+põe, vagueiam nas frescuras marginais do rio, a par, e sós, ele
+dedilhando a flauta, ela recordando cantigas, com murmúrios de água
+correndo, e balidos suaves dos lanígeros, numa paz de alma idílica de
+iluminura. E quando a noite chega, porque lhes custe imenso a
+separação, o Gonçalo a convida a continuarem juntos, deixando que as
+ovelhas durmam em mistura e que passem eles a noitada sobre o mesmo
+colmo, ao abrigo da mesma cabana. Não sem certa instintiva relutância,
+Rosária aceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as
+mantas cobertor comum, e pousando as cabeças nos bornais unidos,
+parecer-vos-á, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos
+desmedidos... Nada disso, perversos! A pouco e pouco vai escurecendo, e
+os bons dos namorados, numa plácida orquestração final que se smorza,
+referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no sono e
+adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da
+maldade nossa.
+
+Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fora, e que vamos
+bisando e saboreando a pequeninos golos, durante algumas horas bem
+fugidas, passeadas por aquelas paisagens e recantos provincianos que
+ele nos pinta, tão real e verdadeiramente como se lá estivéssemos; em
+companhia daqueles tipos que ele retrata, tão fotográficos, tão
+nítidos, que é estar a gente a vê-los, a ouvi-los, a falar-lhes, a
+deitar-lhes o braço pelo ombro...
+
+Antes dos seus contos nunca a prosa portuguesa me havia dado, posta ao
+serviço da moderna arte, o inefável gozo de tão estranhas, tão novas,
+tão encantadoras surpresas! Quisera eu, inédita, bem fresca, pela
+primeira vez usada a respeito da sua escrita, esta flagrante
+comparação:--dir-se-ia traçada com uma pena de águia... arrancada de uma
+asa de pomba.
+
+Os seus livros ficarão pertencendo ao número daqueles que parecem
+possuir o raro condão de nunca envelhecerem no espírito de quem os lê.
+Reler o que ele escreve é sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de
+quando se contempla pela centésima vez algum querido, precioso objecto,
+que noventa e nove vezes se contemplara já: privilégio esse de eterna
+sedução, que só desfrutam as obras em que o artista deixou pedaços da
+sua alma.--_Alfredo Mesquita_.»
+
+
+Do Poema do Ideal:
+
+«_Os meus amores_! que livro
+Tão fragante e saboroso!
+Centelhas áureas e vivas,
+Dum prosador luminoso!
+
+Brisas da serra!
+Trechos idílicos
+Da nossa terra!»
+
+_Fernandes Casta_.
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***
+
+Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of
+the original version, already available at Project
+Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão
+original, já disponível no Project Gutenberg.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+
+*** START: FULL LICENSE ***
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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--- /dev/null
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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index 0000000..a515517
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+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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