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+The Project Gutenberg EBook of Amor de Perdição, by Camillo Castello Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Amor de Perdição
+ Memorias d'uma familia
+
+Author: Camillo Castello Branco
+
+Release Date: August 3, 2005 [EBook #16425]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR DE PERDIÇÃO ***
+
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+
+Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
+Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
+at https://www.pgdp.net
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+AMOR DE PERDIÇÃO.
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+AMOR DE PERDIÇÃO
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+(MEMORIAS D'UMA FAMILIA).
+
+
+ROMANCE
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+POR
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO.
+
+ * * * * *
+
+Quem viu jámais vida amorosa, que não a visse afogada nas lagrimas do
+desastre ou do arrependimento?
+
+D. Francisco Manoel, (_Epanaphora amorosa_).
+
+ * * * * *
+
+PORTO
+
+EM CASA DE N. MORÉ--EDITOR,
+
+PRAÇA DE D. PEDRO.
+
+A mesma casa em Coimbra, Rua da Calçada.
+
+Casa de Commissões em Paris, 2 bis, Rua d'Arcole.
+
+1862.
+
+
+
+
+PORTO: 1862--TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA.
+
+Rua do Almada, 641.
+
+
+
+
+AO ILLUSTRISSIMO E EXCELENTISSIMO SENHOR
+
+
+*ANTONIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELLO*
+
+DEDICA
+
+O Author.
+
+
+
+
+_Ill.^mo e Ex.^mo Snr.
+
+Ha de pensar muita gente que V. Ex.^a não dá valor algum a este livro,
+que a minha gratidão lhe dedica, porque muita gente está persuadida que
+ministros do estado não lêem novellas. É um engano. Uma vez ouvi eu um
+collega de V. Ex.^a discorrer no parlamento ácerca de caminhos de ferro.
+Com tanto engenho o fazia, de tantas flôres matizára aquella árida
+materia, que me deleitou ouvil-o. Na noite d'esse dia encontrei o
+collega de V. Ex.^a a lêr a Fanny, aquella Fanny, que sabia tanto de
+caminhos de ferro como eu.
+
+Que V. Ex.^a tem romances na sua bibliotheca, é convicção minha. Que lá
+tem alguns, que não leu porque o tempo lhe falece, e outros porque não
+merecem tempo, também o creio. Dê V. Ex.^a, no lote dos segundos, um
+logar a este livro, e terá assim V. Ex.^a significado que o recebe e
+aprecia, por levar em si o nome do mais agradecido e respeitador criado
+de V. Ex.^a
+
+Na cadêa da Relação do Porto,
+
+aos 26 de Setembro de 1861.
+
+Camillo Castello Branco_.
+
+
+
+
+PREFACIO.
+
+
+Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartorio das cadêas da
+Relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a
+folhas 232, o seguinte:
+
+ _Simão Antonio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e
+ estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa,
+ e assistente na occasião de sua prisão na cidade de Vizeu, idade de
+ dezoito annos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita
+ Preciosa Caldeirão Castello-Branco, estatura ordinaria, cara
+ redonda, olhos castanhos, cabello e barba preta, vestido com
+ jaqueta de baetão azul, collête de fustão pintado e calça de panno
+ pedrez. E fiz este assento, que assignei.
+
+ Filippe Moreira Dias_.
+
+Á margem esquerda d'este assento está escripto:
+
+ _Foi para a India em 17 de Março de 1807_.
+
+Não será fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o
+degredo de um moço de dezoito annos lhe havia de fazer dó.
+
+Dezoito annos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As
+louçanias do coração que ainda não sonha em fructos, e todo se embalsama
+no perfume das flôres! Dezoito annos! O amor d'aquella idade! A passagem
+do seio da familia, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as
+caricias mais dôces da virgem, que se lhe abre ao lado como flôr da
+mesma sazão e dos mesmos aromas, e á mesma hora da vida! Dezoito
+annos!... E degradado da patria, do amor, e da familia! Nunca mais o ceo
+de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem rehabilitação, nem
+dignidade, nem um amigo!... É triste!
+
+O leitor de certo se compungia; e a leitora se lhe dissessem, em menos
+de uma linha, a historia d'aquelles dezoito annos, choraria! Pois não? A
+olhos enchutos poderia ouvil-a a mulher, a creatura mais bem formada das
+branduras da piedade, a que por vezes traz comsigo do ceo um reflexo da
+divina misericordia, essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos
+os infelizes não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdêra
+honra, rehabilitação, patria, liberdade, irmãs, mãe, tudo, por amor da
+primeira mulher que o despertou do seu dormir de innocentes desejos?!
+
+Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobresalto que
+me causaram aquellas linhas, de proposito procuradas, e lidas com
+amargura e respeito e, ao mesmo tempo, odio. Odio, sim... A tempo verão
+se é perdoavel o odio, ou se antes me não fôra melhor abrir mão desde já
+de uma historia que me póde acarear enojos dos frios julgadores do
+coração, e das sentenças que eu aqui lavrar contra a falsa virtude de
+homens, feitos barbaros, em nome de sua honra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+AMOR DE PERDIÇÃO.
+
+
+PRIMEIRA PARTE.
+
+
+
+
+I.
+
+
+Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Menezes, fidalgo de
+linhagem, e um dos mais antigos solarengos de Villa Real de
+Traz-os-Montes, era, em 1779, juiz de fóra de Cascaes, e n'esse mesmo
+anno casara com uma dama do paço, D. Rita Thereza Margarida Preciosa da
+Veiga Caldeirão Castello-Branco, filha d'um capitão de cavallos, e neta
+de outro, Antonio de Azevedo Castello-Branco Pereira da Silva, tão
+notavel por sua jerarchia, como por um, n'aquelle tempo, precioso livro
+ácerca da Arte da Guerra.
+
+Dez annos de enamorado mal succedido consumira em Lisboa o bacharel
+provinciano. Para se fazer amar da formosa dama de D. Maria I
+minguavam-lhe dotes physicos: Domingos Botelho era extremamente feio.
+Para se inculcar como partido conveniente a uma filha segunda,
+faltavam-lhe bens de fortuna: os haveres d'elle não excediam a trinta
+mil cruzados em propriedades no Douro. Os dotes de espirito não o
+recommendavam tambem: era alcançadissimo de intelligencia, e grangeara
+entre os seus condiscipulos da universidade o epitheto de «brocas» com
+que ainda hoje os seus descendentes em Villa Real são conhecidos. Bem ou
+mal derivado, o epitheto _brocas_ vem de _brôa_. Entenderam os
+academicos que a rudeza do seu condiscipulo procedia do muito pão de
+milho que elle digeria na sua terra.
+
+Domingos Botelho devia ter uma vocação qualquer; e tinha: era excellenle
+flautista; foi a primeira flauta do seu tempo; e a tocar flauta se
+sustentou dois annos em Coimbra, durante os quaes seu pae lhe suspendeu
+as mesadas, porque os rendimentos da casa não bastavam a livrar outro
+filho de um crime de morte[1].
+
+Formara-se Domingos Botelho em 1767, e fôra para Lisboa lêr no
+desembargo do paço, iniciação banal dos que aspiravam á carreira da
+magistratura. Já Fernão Botelho, pae do bacharel, fôra bem acceite em
+Lisboa, e mórmente ao duque de Aveiro, cuja estima lhe teve a cabeça em
+risco, na tentativa regicida de 1758. O provinciano sahiu das masmorras
+da Junqueira illibado da infamante nodoa, e bem-quisto mesmo do conde de
+Oeiras, porque tomara parte na prova que este fizera do primor de sua
+genealogia sobre a dos Pintos Coelhos do Bomjardim do Porto: pleito
+ridiculo, mas estrondoso, movido pela recusa que o fidalgo portuense
+fizera de sua filha ao filho de Sebastião José de Carvalho.
+
+As artes com que o bacharel flautista vingou insinuar-se na estima de D.
+Maria I e Pedro III não as sei eu. É tradição que o homem fazia rir a
+rainha com as suas facecias, e por ventura com os tregeitos de que
+tirava o melhor do seu espirito. O certo é que Domingos Botelho
+frequentava o paço, e recebia do bolsinho da soberana uma farta pensão,
+com a qual o aspirante a juiz de fóra se esqueceu de si, do futuro, e do
+ministro da justiça, que muito rogado fiara das suas letras o encargo de
+juiz de fóra de Cascaes.
+
+Já está dito que elle se atreveu aos amores do paço, não poetando como
+Luiz de Camões ou Bernardim Ribeiro; mas namorando na sua prosa
+provinciana, e captando a bem-querença da rainha para amollecer as
+durezas da dama. Devia de ser, a final, feliz o «doutor bexiga»--que
+assim era na côrte conhecido--para se não desconcertar a discordia em
+que andam rixados o talento e a felicidade. Domingos Botelho casou com
+D. Rita Preciosa. Rita era uma formosura que ainda aos cincoenta annos
+se podia presar de o ser. E não tinha outro dote, se não é dote uma
+serie de avoengos, uns bispos, outros generaes, e entre estes o que
+morrêra frigido em caldeirão de não sei que terra da mourisma; gloria,
+na verdade, um pouco ardente; mas de tal monta que os descendentes do
+general frito se assignaram _Caldeirões_.
+
+A dama do paço não foi ditosa com o marido. Molestavam-na saudades da
+côrte, das pompas das camaras reaes, e dos amores de sua feição e molde,
+que immolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, porém, não
+impeceu a reproduzirem-se em dois filhos e quatro meninas. O mais velho
+era Manoel, o segundo Simão; das meninas uma era Maria, a segunda Anna,
+e a ultima tinha o nome de sua mãe, e alguns traços da belleza d'ella.
+
+O juiz de fóra de Cascaes, solicitando logar de mais graduado banco,
+demorava em Lisboa, na freguezia da Ajuda em 1784. N'este anno é que
+nasceu Simão, o penultimo de seus filhos. Conseguiu elle, sempre
+blandiciado da fortuna, transferencia para Villa Real, sua ambição
+suprema.
+
+A distancia de uma legua de Villa Real estava a nobreza da villa
+esperando o seu conterraneo. Cada familia tinha a sua liteira com o
+brasão da casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no
+feitio, e as librés dos criados as mais surradas e traçadas que
+figuravam na comitiva.
+
+D. Rita, avistando o prestito das liteiras, ajustou ao olho direito a
+sua grande luneta de oiro, e disse:
+
+--Ó Menezes, aquillo que é?!
+
+--São os nossos amigos e parentes que veem esperar-nos.
+
+--Em que seculo estamos nós n'esta montanha?--tornou a dama do paço.
+
+--Em que seculo?! o seculo tanto é dezoito aqui como em Lisboa.
+
+--Ah! sim? Cuidei que o tempo parára aqui no seculo doze.
+
+O marido achou que devia rir-se do chiste, que o não lisonjeára
+grandemente.
+
+Fernão Botelho, pae do juiz de fóra, sahiu á frente do prestito para dar
+a mão á nora, que apeava da liteira, e conduzil-a á de casa. D. Rita,
+antes de vêr a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as
+fivelas de aço, e a bolsa do rabicho. Dizia ella depois que os fidalgos
+de Villa Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes
+de entrar na liteira avoenga de seu marido, perguntou, com a mais
+refalsada seriedade, se não haveria risco em ir dentro d'aquella
+antiguidade. Fernão Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira não
+tinha ainda cem annos, e que os machos não excediam a trinta.
+
+O modo altivo como ella recebeu as cortezias da nobreza--velha nobreza
+que para alli viera em tempo de D. Diniz, fundador da villa--fez que o
+mais novo do prestito, que ainda vivia ha doze annos, me dissesse a mim:
+«Sabiamos que ella era dama da Senhora D. Maria I; porém, da soberba com
+que nos tractou, ficamos pensando que seria ella a propria rainha.»
+Repicaram os sinos da terra quando a comitiva assomou á Senhora de
+Almudena. D. Rita disse ao marido que a recepção dos sinos era a mais
+estrondosa e barata.
+
+Apearam á porta da velha casa de Fernão Botelho. A aia do paço relanceou
+os olhos pela fachada do edificio, e disse de si para si: «É uma bonita
+vivenda para quem foi criada em Mafra e Cintra, na Bemposta e Queluz.»
+
+Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha mêdo de ser
+devorada das ratasanas; que aquella casa era um covil de feras; que os
+tectos estavam a desabar; que as paredes não resistiriam ao inverno; que
+os preceitos de uniformidade conjugal não obrigavam a morrer de frio uma
+esposa delicada e affeita ás almofadas do palacio dos reis.
+
+Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte, e começou a
+fabrica de um palacete. Escassamente lhe chegavam os recursos para os
+alicerces: escreveu á rainha, e obteve generoso subsidio com que ultimou
+a casa. As varandas das janellas foram a ultima dadiva que a real viuva
+fez á sua dama. Quer-nos parecer que a dadiva é um testemunho até agora
+inedito da demencia de D. Maria I.
+
+Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas; D. Rita,
+porém, teimara que no escudo se abrisse um emblema das suas; mas era
+tarde, porque já a obra tinha vindo do esculptor, e o magistrado não
+podia com segunda despeza, nem queria desgostar seu pae, orgulhoso de
+seu brasão. Resultou d'aqui ficar a casa sem armas, e D. Rita
+victoriosa[2].
+
+O juiz de fóra tinha alli parentella illustre. O aprumo da fidalga
+dobrou-se até aos grandes da provincia, ou antes houve por bem
+levantal-os até ella. D. Rita tinha uma côrte de primos, uns que se
+contentavam de serem primos, outros que invejavam a sorte do marido. O
+mais audacioso não ousava fital-a de rosto, quando o ella remirava com a
+luneta em geito de tanta altivez e zombaria, que não será estranha
+figura dizer que a luneta de Rita Preciosa era a mais vigilante
+sentinella da sua virtude.
+
+Domingos Botelho desconfiava da efficacia dos merecimentos proprios para
+cabalmente encher o coração de sua mulher. Inquietava-o o ciume; mas
+suffocava os suspiros, receando que Rita se désse por injuriada da
+suspeita. E razão era que se offendesse. A neta do general frigido no
+caldeirão sarraceno ria dos primos, que, por amor d'ella, arriçavam e
+empoavam as cabelleiras com um desgracioso esmero, ou cavalleavam
+estrepitosamente na calçada os seus ginetes, fingindo que os picadores
+da provincia não desconheciam as graças hippicas do marquez de Marialva.
+
+Não o cuidava assim, porém, o juiz de fóra. O intriguista que lhe trazia
+o espirito em ancias era o seu espelho. Via-se sinceramente feio, e
+conhecia Rita cada vez mais em flôr, e mais enfadada no trato intimo.
+Nenhum exemplo da historia antiga, exemplo de amor sem quebra entre o
+esposo deforme e a esposa linda, lhe occorria. Um só lhe mortificava a
+memoria, e esse, com quanto fosse da fabula, era-lhe avêsso, e vinha a
+ser o casamento de Venus e Vulcano. Lembravam-lhe as rêdes que o
+ferreiro coixo fabricára para apanhar os deuses adulteros, e
+assombrava-se da paciencia d'aquelle marido. Entre si, dizia elle, que,
+erguido o véo da perfidia, nem se queixaria a Jupiter, nem armaria
+ratoeiras aos primos. A par do bacamarte de Luiz Botelho, que varára em
+terra o alferes, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz de fóra
+era entendido com muito superior intelligencia á que revelava na
+comprehensão do Digesto e das Ordenações do Reino.
+
+Este viver de sobresaltos durou seis annos, ou mais seria. O juiz de
+fóra empenhára os seus amigos na transferencia, e conseguiu mais do que
+ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou
+saudades em Villa Real, e duradoura memoria da sua soberba, formosura e
+graças de espirito. O marido tambem deixou anecdotas que ainda agora se
+repetem. Duas contarei sómente para não enfadar. Acontecèra um lavrador
+mandar-lhe o presenle de uma vitella, e mandar com ella a vacca para se
+não desgarrar a filha. Domingos Botelho mandou recolher á loja a vitella
+e a vacca, dizendo que quem dava a filha dava a mãe. Outra vez, deu-se o
+caso de lhe mandarem um presente de pasteis em rica salva de prata. O
+juiz de fóra repartiu os pasteis pelos meninos, e mandou guardar a
+salva, dizendo que receberia como escarneo um presente de dôces, que
+valiam dez patacões, sendo que naturalmente os pasteis tinham vindo como
+ornato da bandeja. E assim é que ainda hoje, em Villa Real, quando se dá
+um caso analogo de ficar alguem com o conteúdo e continente, diz a gente
+da terra: «Aquelle é como o doutor brocas.»
+
+Não tenho assumpto de tradição com que possa deter-me em miudezas da
+vida do provedor em Lamego. Escassamente sei que D. Rita aborrecia a
+comarca, e ameaçava o marido de ir com os seus cinco filhos para Lisboa,
+se elle não sahisse d'aquella intratavel terra. Parece que a fidalguia
+de Lamego, em todo o tempo orgulhosa d'uma antiguidade, que principia na
+acclamação de Almacave, desdenhou a philaucia da dama do paço, e
+esmerilhou certas vergonteas pôdres do tronco dos Botelhos Correias de
+Mesquita, desprimorando-lhe as sãs com o facto de elle ter vivido dois
+annos em Coimbra tocando flauta.
+
+Em 1801 achamos Domingos José Correia Botelho de Mesquita corregedor em
+Vizeu.
+
+Manoel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois annos, e frequenta
+o segundo anno juridico. Simão, que tem quinze, estuda humanidades em
+Coimbra. As tres meninas são o prazer e a vida toda do coração de sua
+mãe.
+
+O filho mais velho escreveu a seu pae queixando-se de não poder viver
+com seu irmão, temeroso do genio sanguinario d'elle. Conta que a cada
+passo se vê ameaçado na vida, porque Simão emprega em pistolas o
+dinheiro dos livros, e convive com os mais famosos perturbadores da
+academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e
+provocando-os á luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de seu
+filho Simão, e diz á consternada mãe que o rapaz é a figura e o genio de
+seu bisavô Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que déra
+Traz-os-Montes.
+
+Manoel, cada vez mais aterrado das arremettidas de Simão, sáe de Coimbra
+antes de ferias, e vai a Vizeu queixar-se, e pedir que lhe dê seu pae
+outro destino. D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavallaria. De
+Vizeu parte para Bragança Manoel Botelho, e justifica-se nobre dos
+quatro costados para ser cadete.
+
+No entanto Simão recolhe a Vizeu com os seus exames feitos e approvados.
+O pae maravilha-se do talento do filho, e desculpa-o da extravagancia
+por amor do talento. Pede-lhe explicações do seu mau viver com Manoel, e
+elle responde que seu irmão o quer forçar a viver monasticamente.
+
+Os quinze annos de Simão tem apparencias de vinte. É forte de
+compleição; bello homem com as feições de sua mãe, e a corpolencia
+d'ella; mas de todo avêsso em genio. Na plebe de Vizeu é que elle
+escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleição
+que faz, Simão zomba das genealogias, e mórmente do general Caldeirão
+que morreu frito. Isto bastou para elle grangear a mal-querença de sua
+mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte
+no desgosto d'ella, e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante
+Rita, a mais nova, com quem elle brincava puerilmente, e a quem
+obedecia, se lhe ella pedia, com meiguices de criança, que não andasse
+com pessoas mecanicas.
+
+Finalisavam as ferias, quando o corregedor teve um grave dissabor. Um de
+seus criados tinha ido levar a beber os machos, e por descuido ou
+proposito deixou quebrar algumas vasilhas que estavam á vez no parapeito
+do chafariz. Os donos das vazilhas conjuraram contra o criado, e
+espancaram-no. Simão passava n'esse ensejo; e, armado d'um fueiro que
+descravou d'um carro, partiu muitas cabeças, e rematou o tragico
+espectaculo pela farça de quebrar todos os cantaros. O povoleu intacto
+fugira espavorido, que ninguem se atrevia ao filho do corregedor; os
+feridos, porém, incorporaram-se e foram clamar justiça á porta do
+magistrado.
+
+Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho geral que
+o prendesse á sua ordem. D. Rita, não menos irritada, mas irritada como
+mãe, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem
+detença, fugisse para Coimbra, e esperasse lá o perdão do pae.
+
+O corregedor, quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se
+zangado, e prometteu fazel-o capturar em Coimbra. Como, porém, D. Rita
+lhe chamasse brutal nas suas vinganças, e estupido juiz d'uma rapaziada,
+o magistrado desenrugou a severidade postiça da testa, e confessou
+tacitamente que era brutal e estupido juiz.
+
+
+
+
+II.
+
+
+Simão Botelho levou de Vizeu para Coimbra as arrogantes convicções da
+sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que
+pozera trinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada
+d'este, o levantar-se d'aquelle ensanguentado, a bordoada que abrangia
+tres a um tempo, a que afocinhava dois, a gritaria de todos, e o
+estrepito dos cantaros a final, Simão deliciava-se n'estas lembranças,
+como ainda não vi n'algum drama, em que o veterano de cem batalhas
+relembra os lourós de cada uma, e esmorece, a final, estafado de
+espantar, quando não é de estafar, os ouvintes.
+
+O academico, porém, com os seus enthusiasmos era incomparavelmente muito
+mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragedia. As
+recordações esporeavam-no a façanhas novas, e n'aquelle tempo a academia
+dava azo a ellas. A mocidade estudiosa, em grande parte, sympathisava
+com as balbuciantes theorias da liberdade, mais por presentimento que
+por estudo. Os apostolos da revolução franceza não tinham podido fazer
+reboar o trovão dos seus clamores n'este canto do mundo; mas os livros
+dos encyclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebêra a peçonha
+que sahiu no sangue de noventa e tres, não eram de todo ignorados. As
+doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns timidos
+sectarios em Portugal, e esses de vêr é que deviam pertencer á geração
+nova. Além de que, o rancor a Inglaterra lavrava nas entranhas das
+classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de
+estranhos, apertado, desde o principio do seculo anterior, com as sôgas
+de ruinosos e perfidos tractados, estava no animo de muitos e bons
+portuguezes que se queriam antes alliançados com a França, Estes eram os
+pensadores reflexivos; os sectarios da academia, porém, exprimiam mais a
+paixão da novidade que as doutrinas do raciocinio.
+
+No anno anterior de 1800 sahira Antonio de Araujo de Azevedo, depois
+conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de Portugal.
+Rejeitaram-lhe as potencias alliadas as propostas, tendo-lhe em conta de
+nada os dezeseis milhões que o diplomata offerecia ao primeiro consul.
+Sem delongas, foi o territorio portuguez infestado pelos exercitos de
+Hespanha e França. As nossas tropas, commandadas pelo duque de Lafões,
+não chegaram a travar a lucta desigual, porque, a esse tempo, Luiz Pinto
+de Sousa, mais tarde visconde de Balsemão, negociara ignominiosa paz em
+Badajoz, com cedencia de Olivença á Hespanha, exclusão de inglezes dos
+nossos portos, e indemnisação de alguns milhões á França.
+
+Estes successos tinham irritado contra Napoleão os animos d'aquelles que
+odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se do
+rompimento com Inglaterra. Entre os d'esta parcialidade, na convulsiva e
+irriquieta academia, era voto de grande monta Simão Botelho, apesar dos
+seus imberbes dezeseis annos. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins,
+e muitos outros algozes e martyres do grande açougue, eram nomes de
+soada musical aos ouvidos de Simão. Diffamal-os na sua presença era
+affrontarem-no a elle, e bofetada certa, e pistolas engatilhadas á cara
+do diffamador. O filho do corregedor de Vizeu defendia que Portugal
+devia regenerar-se n'um baptismo de sangue, para que a hydra dos
+tyrannos não erguesse mais uma das suas mil cabeças sob a clava do
+Hercules popular.
+
+Estes discursos, arremêdo d'alguma clandestina objurgatoria de
+Saint-Just, afugentavam da sua communhão aquelles mesmos que o tinham
+applaudido em mais racionaes principios de liberdade. Simão Botelho
+tornou-se odioso aos condiscipulos que, para se salvarem pela infamia, o
+delataram ao bispo-conde, reitor da universidade.
+
+Um dia proclamava o demagogo academico na praça de Sansão aos poucos
+ouvintes que lhe restaram fieis, uns por mêdo, outros por analogia de
+boças. O discurso ia no mais acrisolado da ideia regicida, quando uma
+escolta de verdeaes lhe aguou a escandecencia. Quiz o orador resistir,
+aperrando as pistolas, mas de sobra sabiam os braços musculosos da
+cohorte do bispo-conde com quem as haviam. O jacobino, desarmado e
+cerrado entre a escolta dos archeiros, foi levado ao carcere academico,
+d'onde sahiu, seis mezes depois, a grandes instancias dos amigos de seu
+pae e dos parentes de D. Rita Preciosa.
+
+Perdido o anno lectivo, foi para Vizeu Simão. O corregedor repelliu-o da
+sua presença com ameaças de o expulsar de casa. A mãe, mais levada do
+dever que do coração, intercedeu pelo filho, e conseguiu sental-o á mesa
+commum.
+
+No espaço de tres mezes fez-se maravilhosa mudança nos costumes de
+Simão. As companhias da ralé despresou-as. Sahia de casa raras vezes, ou
+só, ou com a irmã mais nova, sua predilecta. O campo, as arvores, e os
+sitios mais sombrios e êrmos eram o seu recreio. Nas dôces noites de
+estio demorava-se por fora até ao repontar da alva; e aquelles que assim
+o viam admiravam-lhe o ar scismador e o recolhimento que o sequestrava
+da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e sahia quando o
+chamavam para a mesa.
+
+D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido d'ella, ao
+fim de cinco mezes consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.
+
+Simão Botelho amava. Ahi está uma palavra unica, explicando o que
+parecia absurda reforma aos dezesete annos.
+
+Amava Simão uma sua visinha, menina de quinze annos, rica herdeira,
+regularmente bonita e bem nascida. Da janella do seu quarto é que elle a
+vira a primeira vez para amal-a sempre. Não ficara ella incolume da
+ferida que fizera no coração do visinho: amou-o tambem, e com mais
+seriedade que a usual nos seus annos.
+
+Os poetas cansam-nos a paciencia a fallarem do amor da mulher aos quinze
+annos, como paixão perigosa, unica, e inflexivel. Alguns prosadores de
+romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze annos é uma
+brincadeira; é a ultima manifestação do amor ás bonecas; é a tentativa
+da avesinha que ensaia o vôo fóra do ninho, sempre com os olhos fitos na
+ave mãe que a está da fronde proxima chamando: tanto sabe a primeira o
+que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.
+
+Thereza de Albuquerque devia ser, por ventura, uma excepção no seu amor.
+
+O magistrado e sua familia eram odiosos ao pae de Thereza, por motivos
+de litigios em que Domingos Botelho lhe deu sentenças contra. Afóra
+isso, ainda no anno anterior dois criados de Thadeu de Albuquerque
+tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. Salta aos olhos
+que o amor de Thereza, declinando de si o dever de obtemperar e
+sacrificar-se ao justo azedume de seu pae, era verdadeiro e forte.
+
+E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e
+fallaram-se tres mezes, sem darem rebate á visinhança, e nem sequer
+suspeitas ás duas familias. O destino, que ambos se promettiam, era o
+mais honesto: elle ia formar-se para poder sustental-a, se não tivessem
+outros recursos; ella esperava que seu velho pae fallecesse para,
+senhora sua, lhe dar com o coração o seu grande patrimonio. Espanta
+discrição tamanha na indole de Simão Botelho, e na presumivel ignorancia
+de Thereza em coisas materiaes da vida, como são um patrimonio!
+
+Na vespera da sua ida para Coimbra, estava Simão Botelho despedindo-se
+da suspirosa menina, quando subitamente ella foi arrancada da janella. O
+allucinado moço ouviu gemidos d'aquella voz que, um momento antes,
+soluçava commovida por lagrimas de saudade. Subiu-lhe o sangue á cabeça;
+contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexiveis da
+jaula. Teve tentações de se matar, na impotencia de soccorrêl-a. As
+restantes horas d'aquella noite passou-as em raivas e projectos de
+vingança. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperança
+com os calculos.
+
+Quando o chamaram para partir para Coimbra, lançou-se do leito de tal
+modo desfigurado, que sua mãe, avisada do rosto amargurado d'elle, foi
+ao quarto interrogal-o e despersuadil-o de ir era quanto assim estivesse
+febril. Simão, porém, entre mil projectos, achara melhor o de ir para
+Coimbra, e esperar lá noticias de Thereza, e vir a Vizeu occultamente
+fallar com ella. Ajuizadamente discorrêra elle, que a sua demora
+aggravaria a situação de Thereza.
+
+Descêra o academico ao páteo, depois de abraçar a mãe e irmãs, e beijar
+a mão do pae, que para esta hora reservara uma admoestação severa, a
+ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se elle recahisse em
+novas extravagancias. Quando mettia o pé no estribo, viu a seu lado uma
+velha mendiga, estendendo-lhe a mão aberta, como quem pede esmola, e, na
+palma da mão, um pequeno papel. Sobresaltou-se o moço; e, a poucos
+passos distante de sua casa, leu estas linhas:
+
+«Meu pae diz que me vai encerrar n'um convento, por tua causa. Soffrerei
+tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-has no convento, ou
+no ceo, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá
+irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome has de
+responder á tua pobre Thereza.»
+
+A mudança do estudante maravilhou a academia. Se o não viam nas aulas,
+em parte nenhuma o viam. Das antigas relações restavam-lhe apenas as dos
+condiscipulos sensatos que o aconselhavam para bem, e o visitaram no
+carcere de seis mezes, dando-lhe alentos e recursos, que seu pae lhe não
+dava, e sua mãe escassamente suppria. Estudava com fervor, como quem já
+d'alli formava as bases do futuro renome e da posição por elle merecida,
+bastante a sustentar dignamente a esposa. A ninguem confiava o seu
+segredo, senão ás cartas que enviava a Thereza, longas cartas em que
+folgava o espirito da canceira da sciencia. A apaixonada menina
+escrevia-lhe a miudo, e já dizia que a ameaça do convento fôra mero
+terror de que já não tinha mêdo, porque seu pae não podia viver sem
+ella.
+
+Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Simão, chamado em pontos
+difficeis das materias do primeiro anno, tal conta deu de si, que os
+lentes e os condiscipulos o houveram como primeiro premiado.
+
+A este tempo, Manoel Botelho, cadete em Bragança, destacado no Porto,
+licenciou-se para estudar na universidade as mathematicas. Animou-o a
+noticia do reviramento que se déra em seu irmão. Foi viver com elle;
+achou-o quieto; mas alheado n'uma ideia que o tornava misanthropo e
+intratavel n'outro genero. Pouco tempo conviveram, sendo a causa da
+separação um desgraçado amor de Manoel Botelho a uma açoriana casada com
+um academico. A esposa apaixonada perdeu-se nas illusões do cego amante.
+Deixou o marido, e fugiu com elle para Lisboa, e d'ahi para Hespanha. Em
+outro relanço d'esta narrativa darei conta do remate d'este episodio.
+
+No mez de Fevereiro de 1803 recebeu Simão Botelho uma carta de Thereza.
+No seguinte capitulo se diz minuciosamente a peripecia que forçára a
+filha de Thadeu de Albuquerque a escrever aquella carta de pungentissima
+surpreza para o academico, convertido aos deveres, á honra, á sociedade
+e a Deus pelo amor.
+
+
+
+
+III.
+
+
+O pae de Thereza não embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o
+ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o odio de
+um e o desprêso do outro. O magistrado mofava do rancor do seu visinho,
+e o visinho malsinava de venalidade a reputação do magistrado. Este
+sabia da injuriosa vingança em que o outro se ia despicando; fingia-se
+invulneravel á detracção; mas de dia para dia se lhe azedava a bilis; e
+é de crêr que, se o não contivessem considerações de familia, soffreria
+menos, desabafando pela bôca d'um bacamarte, arma da predilecção dos
+Botelhos Correias de Mesquita. Era obra sobrehumana o reconciliarem-se.
+Rita, a filha mais nova, estava um dia na janella do quarto de Simão, e
+viu a visinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mãos. Sabia
+Thereza que era aquella menina a mais querida irmã de Simão, e a que
+mais semelhança de parecer tinha com elle. Sahiu da sua artificial
+indifferença, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mão um
+gesto e sorrindo para ella. A filha do corregedor sorriu tambem, mas
+fugiu logo da janella, porque sua mãe tinha prohibido ás filhas de
+trocarem vistas com pessoa d'aquella casa.
+
+No dia seguinte á mesma hora, levada da sympathia que lhe causára
+aquelle sorriso e aceno, tornou Rita á janella, e lá viu Thereza com os
+olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com
+resguardo, afastando-se, a um tempo, do peitoril das janellas; e assim,
+ambas de pé, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como a
+rua era estreita, podiam ouvir-se fallando baixo. Thereza, mais pelo
+movimento dos labios que por palavras, perguntou a Rita se era sua
+amiga. A menina respondeu com um gesto affirmativo, e fugiu,
+acenando-lhe um adeus. Estes rapidos instantes de se vêrem repetiram-se
+successivos dias, até que, perdido o maior mêdo de ambas, ousaram
+demorar-se em palestras a meia voz. Thereza fallava de Simão, contava á
+menina de onze annos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ella havia
+de ser ainda sua irmã, recommendando-lhe muito que não dissesse nada á
+sua familia.
+
+N'uma d'essas conversações, Rita descuidara-se, e levantou de modo a voz
+que foi ouvida d'uma irmã, que a foi logo accusar ao pae. O corregedor
+chamou Rita, e forçou-a pelo terror a contar tudo que ouvira á visinha.
+Tanta foi sua cólera, que, sem attender ás razões da esposa, que viera
+espavorida dos gritos d'elle, correu ao quarto de Simão, e viu ainda
+Thereza á janella.
+
+Ólé!--disse elle á pállida menina--Não tenha a confiança de pôr olhos em
+pessoa de minha casa. Se quer casar, case com um sapateiro, que é um
+digno genro de seu pae.
+
+Thereza não ouviu o remate da brutal apostrophe: tinha fugido aturdida e
+envergonhada. Porém, como o desabrido ministro ficasse bramindo no
+quarto, e Thadeu de Albuquerque sahisse a uma janella, a cólera
+d'aquelle redobrou, e a torrente das injurias, longo tempo represada,
+bateu no rosto do visinho, que não ousou replicar-lhe.
+
+Thadeu interrogou sua fllha, e acreditou que foi causa á sanha de
+Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando innocentemente, por
+tregeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de
+Thereza, admoestando-a a que não voltasse áquella janella.
+
+Esta mansidão do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicação
+no projecto de casar em breve a filha com seu primo Balthazar Coutinho,
+de Castro-d'Aire, senhor de casa, e egualmenle nobre da mesma prosapia.
+Cuidava o velho, presumpçoso conhecedor do coração das mulheres, que a
+brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao
+esquecimento d'aquelle pueril amor a Simão. Era maxima sua que o amor,
+aos quinze annos, carece de consistencia para sobreviver a uma ausencia
+de seis mezes. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As
+excepções tem sido o ludibrio dos mais assizados pensadores, tanto no
+especulativo como na sciencia positiva. Não era muito que Thadeu de
+Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas
+variantes são tantas e tão caprichosas, que eu não sei se alguma maxima
+póde ser-nos guia, a não ser esta: «Em cada mulher, quatro mulheres
+incomprehensiveis, pensando alternadamente como se hão de desmentir umas
+ás outras.» Isto é o mais seguro; mas não é infallivel. Ahi está Thereza
+que parece ser unica em si. Dir-se-ha que as tres da conta, que diz a
+sentença, não podem coexistir com a quarta, aos quinze annos? Tambem o
+penso assim, posto que a fixidez, a constancia d'aquelle amor, funda em
+causa independente do coração: é porque Thereza não vai á sociedade, não
+tem um altar em cada noite na sala, não provou o incenso d'outros
+galans, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida
+pela ausencia, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor
+nas palavras que a convencem de que ha um coração para cada homem, e uma
+só mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Thereza teria em si
+as quatro mulheres da maxima, se o vapor de quatro incensorios lhe
+estonteasse o espirito? Não é facil, nem preciso decidir; e vamos ao
+conto.
+
+Ácerca de Simão Botelho, nunca diante de sua filha Thadeu de Albuquerque
+proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que
+elle fez logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro d'Aire, e
+prevenil-o do seu designio, para que elle em face de Thereza procedesse
+como convinha a um enamorado de feição, que mutuamente se apaixonassem e
+promettessem auspicioso futuro ao casamento.
+
+Por parte de Balthazar Coutinho a paixão inflammou-se tão depressa,
+quanto o coração de Thereza se congelou de terror e repugnancia. O
+morgado de Castro-d'Aire, attribuindo a frieza de sua prima a modestia,
+a innocencia e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre d'aquella
+alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista.
+Verdade é que Balthazar nunca se explicara de modo que Thereza lhe désse
+resposta decisiva; um dia, porém, instigado por seu tio, affoitou-se o
+ditoso noivo a fallar assim á melancólica menina:
+
+--É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a
+ouvir-me?
+
+---Eu estou sempre bem disposta a ouvil-o, primo Balthazar.
+
+A desplicencia enfadosa d'esta resposta abalou algum tanto as convicções
+do fidalgo, respeito á innocencia, modestia e acanhamento de sua prima.
+Ainda assim quiz elle no momento persuadir-se que a boa vontade não
+poderia exprimir-se d'outro modo, e continuou:
+
+--Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as
+nossas casas se unam.
+
+Thereza impallideceu, e baixou os olhos.
+
+--Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradavel?!--proseguiu Balthazar,
+rebatido pela desfiguração de Thereza.
+
+--Disse-me o que é impossível fazer-se--respondeu ella sem turvação--O
+primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua
+amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo
+pensava em tal.
+
+--Quer dizer que me aborrece, prima Thereza?--atalhou corrido o morgado.
+
+--Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não
+devo ser esposa d'um amigo a quem não posso amar. A infelicidade não
+seria só minha...
+
+--Muito bem... Posso eu saber--tornou com refalsado sorriso o
+primo--quem é que me disputa o coração de minha prima?
+
+--Que lucra em o saber?
+
+--Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... é
+exacto?
+
+--É.
+
+--E com tamanha paixão que desobedece a seu pae?
+
+--Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade de uma
+filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pae; mas eu não
+disse ao primo Balthazar que casava; disse-lhe unicamente que amava.
+
+--Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de dizer!... quem
+pensaria que os seus dezeseis annos estavam tão abundantes de
+palavras!...
+
+--Não são só palavras, primo--retorquiu Thereza com gravidade--são
+sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe eu
+mentisse ficaria mais bem vista de meu primo?
+
+--Não, prima Thereza; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo.
+Ora, olhe, não duvída declarar quem é o ditoso mortal da sua
+preferencia?
+
+--Que lhe faz saber isso?
+
+--Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me
+vêr vencido por quem tivesse merecimentos que eu não tenho aos seus
+olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo
+Balthazar, se o tivesse em conta do seu amigo intimo?
+
+--N'essa conta é que eu o não posso já ter...--respondeu Thereza,
+sorrindo e contando, como elle, as syllabas das palavras.
+
+--Pois nem para amigo me quer?!
+
+--O primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em
+diante meu inimigo.
+
+--Pelo contrario...--tornou elle com mal rebuçada ironia--muito pelo
+contrario... Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir
+casada com algum miseravel indigno de si.
+
+--Casada!...--interrompeu ella; mas Balthazar cortou-lhe logo a réplica
+d'este modo:
+
+--Casada com algum famoso ébrio ou jogador de páo, valentão de
+aguadeiros, e distincto cavalheiro que passa os annos lectivos
+encarcerado nas cadêas de Coimbra...
+
+Visivel é que Balthazar Coutinho estava senhor do segredo de Thereza.
+Seu tio, naturalmente, lhe communicara a criancice da prima, talvez
+antes de destinar-lh'a esposa.
+
+Ouvira Thereza o tom sarcastico d'aquellas palavras, e erguêra-se
+respondendo assim com altivez:
+
+--Não tem mais que me diga, primo Balthazar?
+
+--Tenho, prima: queira sentar-se algum tempo mais. Não cuide agora que
+está fallando com o namorado infeliz: convença-se de que falla com o seu
+mais proximo parente e mais sincero amigo, e mais decidido guarda da sua
+dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade
+de seu pae, uma ou outra vez conversára da janella com o filho do
+corregedor. Não dei valor ao successo, e tomei-o como criancice. Como eu
+frequentasse o meu ultimo anno em Coimbra, ha dois annos conheci de
+sobra Simão Botelho. Quando vim e me contaram a sua affeição ao
+academico, pasmei da boa fé da priminha; depois entendi que a sua mesma
+innocencia devia ser o seu anjo custodio. Agora, como seu amigo,
+cumpunjo-me de a vêr ainda fascinada pela perversidade do seu visinho.
+Não se recorda de ter visto Simão Botelho sociando com a infima
+vilanagem d'esta terra? Não viu os seus criados com as cabeças quebradas
+pelo tal varredor de feiras? Não lhe constou que elle, em Coimbra,
+abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador de
+estradas, proclamando á canalha a guerra aos nobres, e aos reis, e á
+religião de nossos paes? A prima ignoraria isto por ventura?
+
+--Ignorava parte d'isso, e não me afflige o sabêl-o. Desde que conheci
+Simão, não me consta que elle tenha dado o menor desgosto á sua familia,
+nem ouço fallar mal d'elle.
+
+--E está por isso persuadida de que Simão deve ao seu amor a reforma de
+costumes?
+
+--Não sei, nem penso n'isso--replicou com enfado Thereza.
+
+--Não se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas ultimas palavras: eu hei
+de, em quanto viver, trabalhar para salval-a das garras de Simão
+Botelho. Se seu pae lhe faltar, fico eu. Se as leis a não defenderem dos
+ataques do seu demonio, eu farei vêr ao valentão que a victoria sobre os
+aguadeiros não o poupa ao desgosto de ser levado a pontapés para fóra da
+casa de meu tio Thadeu d'Albuquerque.
+
+--Então o primo quer-me governar?--atalhou ella com desabrida irritação.
+
+--Quero-a dirigir em quanto a sua razão precisar de auxilio. Tenha
+juizo, e eu serei indifferente ao seu destino. Não a enfado mais, prima
+Thereza.
+
+Balthazar Coutinho foi d'ali procurar seu tio, e contou-lhe o essencial
+do dialogo. Thadeu, atonito da coragem da filha, e ferido no coração e
+direitos paternaes, correu ao quarto d'ella, disposto a espancal-a.
+Reteve-o Balthazar, reflexionando-lhe que a violencia prejudicaria muito
+a crise, sendo coisa de esperar que Thereza fugisse de casa. Refreou o
+pae a sua ira, e meditou. Horas depois chamou sua filha, mandou-a sentar
+ao pé de si, e em termos serenos e gesto bem composto, lhe disse que era
+sua vontade casal-a com o primo; porém que elle já sabia que a vontade
+de sua filha não era essa. Ajuntou que a não violentaria; mas tambem não
+consentiria que ella, sovando aos pés o pundonor de seu pae, se désse de
+coração ao filho do seu maior inimigo. Disse mais que estava a resvalar
+na sepultura, e mais depressa desceria a ella, perdendo o amor da filha,
+que elle já considerava morta. Terminou perguntando a Thereza, se ella
+duvidava entrar n'um convento, e ahi esperar que seu pae morresse, para
+depois ser desgraçada á sua vontade.
+
+Thereza respondeu, chorando, que entraria n'um convento, se essa era a
+vontade de seu pae; porém que se não privasse elle de a ter em sua
+companhia, nem a privasse a ella dos seus affectos, por mèdo de que sua
+filha praticasse alguma acção indigna, ou lhe desobedecesse no que era
+virtude obedecer. Prometteu-lhe julgar-se morta para todos os homens,
+menos para seu pae.
+
+Thadeu ouviu-a, e não lhe replicou.
+
+
+
+
+IV.
+
+
+O coração de Thereza estava mentindo. Vão lá pedir sinceridade ao
+coração!
+
+Para finos entendedores, o dialogo do anterior capitulo definiu a filha
+de Thadeu de Albuquerque. É mulher varonil, tem força de caracter,
+orgulho fortalecido pelo amor, despêgo das vulgares apprehensões, se são
+apprehensões a renuncia que uma filha faz de sua vontade ás
+imprevidentes e caprichosas vontades de seu pae. Diz boa gente que não,
+e eu abundo sempre no voto da gente boa. Não será aleive attribuir-lhe
+uma pouca de astucia, ou hypocrisia, se quizerem; perspicacia seria mais
+correcto dizer. Thereza adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na
+estrada real da vida, e que os melhores fins se attingem por atalhos
+onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na
+idade inexperta de Thereza; mas a mulher do romance quasi nunca é
+trivial, e esta, de que resam os meus apontamentos, não o era. A mim me
+basta para crêr em sua distincção a celebridade que ella veio a ganhar á
+conta da desgraça.
+
+Da carta que ella escreveu a Simão Botelho, contando as scenas
+descriptas, a critica deduz que a menina de Vizeu contemporisava com o
+pae, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem
+romper com o velho em manifesta desobediencia. Na narrativa que fez ao
+academico omittiu ella as ameaças do primo Balthazar, clausula que, a
+ser transmittida, arrebataria de Coimbra o moço, em que sobejavam brios
+e ferocidade para mantêl-os.
+
+Mas não é esta ainda a carta que surprendeu Simão Botelho.
+
+Parecia bonançoso o ceo de Thereza. Seu pae não fallava em claustro, nem
+em casamento. Balthazar Coutinho voltára ao seu solar de Castro-d'Aire.
+A tranquilla menina dava semanalmente estas boas novas a Simão, e este,
+alliando ás venturas do coração as riquezas do espirito, estudava
+incessantemente, e desvelava as noites arquitectando o seu edifício de
+futura gloria.
+
+Ao romper d'alva, d'um domingo de Junho de 1803, foi Thereza chamada
+para ir com seu pae á primeira missa da igreja parochial. Vestiu-se a
+menina assustada, e encontrou o velho na ante-camara a recebêl-a com
+muito agrado, perguntando-lhe se ella se erguia de bons humores para dar
+ao author de seus dias um resto de velhice feliz. O silencio de Thereza
+era interrogador.
+
+--Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Ballhazar, minha filha. É
+preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pae. Logo que
+déres este passo difficil, conhecerás que a tua felicidade é d'aquellas
+que precisam ser impostas pela violencia. Mas repara, minha querida
+filha, que a violencia de um pae é sempre amor. Amor tem sido a minha
+condescendencia e brandura para comtigo. Outro teria subjugado a tua
+desobediencia com maus tractos, com os rigores do convento, e talvez com
+o desfalque do teu grande patrimonio. Eu, não. Esperei que o tempo te
+aclarasse a razão, e felicito-me de te julgar desassombrada do diabolico
+prestigio do maldito, que acordou o teu innocente coração. Não te
+consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexão
+fizesse mal ao fervor de boa filha com que tu vais abraçar teu pae, e
+agradecer-lhe a sisudez com que elle respeitou o teu genio, velando
+sempre a hora de te encontrar digna do seu amor.
+
+Thereza não desfitou os olhos do pae; mas tão abstrahida estava, que
+escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das ultimas.
+
+--Não me respondes, Thereza?!- tornou Thadeu, tomando-lhe caridosamente
+as mãos.
+
+--Que hei-de eu responder-lhe, meu pae?--balbuciou ella.
+
+--Dás-me o que te peço? enches de contentamento os poucos dias que me
+restam?
+
+--E será o pae feliz com o meu sacrificio?
+
+--Não digas sacrificio, Thereza... A'manhã a estas horas verás que
+transfiguração se fez na tua alma. Teu primo é um composto de todas as
+virtudes; nem a qualidade de ser um gentil moço lhe falta, como se a
+riqueza, a sciencia e as virtudes não bastassem a formar um marido
+excellente.
+
+--E elle quer-me, depois de eu me ter negado?--disse ella com amargura
+ironica.
+
+--Se elle está apaixonado, filha!... e tem bastante confiança em si para
+crêr que tu has de amal-o muito!...
+
+--E não será mais certo odial-o eu sempre!? Eu agora mesmo o abomino
+como nunca pensei que se podesse abominar! Meu pae...--continuou ella,
+chorando, com as mãos erguidas--mate-me; mas não me force a casar com
+meu primo! E' escusada a violencia, porque eu não caso!..
+
+Thadeu mudou de aspecto, e disse irado:
+
+--Hás de casar! Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás
+para sempre, Thereza! Morrerás n'um convento! Esta casa irá para teu
+primo! Nenhum infame ha de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós. Se
+és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar
+appellidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pae
+d'esse miseravel que tu amas! Maldita sejas! Entra n'esse quarto, e
+espera que d'ahi te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol.
+
+Thereza ergueu-se sem lagrimas, e entrou serenamente no seu quarto.
+Thadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe:
+
+--Não te posso dar minha filha, porque já não tenho filha. A miseravel,
+a quem dei este nome, perdeu-se para nós e para ella.
+
+Balthazar, que, a juizo de seu tio, era um composto de excellencias,
+tinha apenas uma quebra: a absoluta carencia de brios. Malograda a
+tentativa do seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de
+Thereza, dizendo ao velho que elle o livraria do assedio em que Simão
+Botelho lhe tinha o coração da filha. Não approvou a reclusão no
+convento, discorrendo sobre as hypotheses infamantes que a opinião
+publica inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse
+que o filho do corregedor viesse de Coimbra.
+
+Ponderaram no animo do velho as razões de Balthazar. Thereza
+maravilhou-se da quietação inesperada de seu pae, e desconfiou da
+incoherencia. Escreveu a Simão. Nada lhe escondeu do succedido; nem as
+ameaças de Balthazar por delicadeza supprimiu. Rematava communicando-lhe
+as suas suspeitas de alguma nova traça de violencia melhor agourada.
+
+O academico, chegando ao periodo das ameaças, já não tinha clara luz nos
+olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezões, e as artérias
+frontaes arfavam-lhe entumecidas. Não era sobresalto do coração
+apaixonado: era a indole soberba que lhe escaldava o sangue. Ir d'ali a
+Castro-d'Aire, e apunhalar o primo de Thereza na sua propria casa, foi o
+primeiro conselho, que lhe segredou a furia do odio. N'este proposito
+sahiu, alugou cavallo, e recolheu a vestir-se de jornada. Já preparado,
+a cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavallo demorou-se
+meia hora, e o seu bom anjo, n'este espaço, vestido com as galas com que
+elle vestia na imaginação Thereza, deu-lhe rebates de saudade d'aquelles
+tempos e ainda das horas d'aquelle mesmo dia, em que scismava na
+felicidade que o amor lhe promettia, se a elle procurasse no caminho do
+trabalho e da honra. Contemplou os seus livros com tanto affecto, como
+se em cada um estivesse uma pagina da historia do seu coração. Nenhuma
+d'aquellas paginas tinha elle lido, sem que a imagem de Thereza lhe
+apparecesse a fortalecêl-o para vencer os tédios da continuada
+applicaçao, e os impetos d'um natural inquieto e ancioso de commoções
+desusadas. «E ha de tudo acabar assim?»--pensava elle, com a face entre
+as mãos, encostado á sua banca de estudo.--«Ainda ha pouco eu era tão
+feliz!...»--«Feliz!»--repetiu elle erguendo-se de golpe--«quem póde ser
+feliz com a deshonra d'uma ameaça impune!... Mas eu perco-a! Nunca mais
+hei de vêl-a... Fugirei como um assassino, e meu pae será o meu primeiro
+inimigo, e ella mesma ha de horrorisar-se da minha vingança... A ameaça
+só ella a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de Thereza,
+pelos insultos do miseravel, talvez que ella os não repetisse...»
+
+Simão Botelho releu a carta duas vezes, e á terceira leitura achou menos
+affrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finaes desmentiam
+formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu orgulho o
+atormentava: eram expressões ternas, supplicas ao seu amor como
+recompensa dos passados e futuros desgostos, visões encantadoras do
+futuro, novos juramentos de constancia, e sentidas phrases de saudade.
+
+Quando o arreeiro bateu á porta, Simão Botelho já não pensava em matar o
+homem de Castro-d'Aire; mas resolvêra ir a Vizeu, entrar de noite,
+esconder-se e vêr Thereza. Faltava-lhe, porém, casa de confiança onde se
+occultasse. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arreeiro
+se conhecia alguma casa em Vizeu onde elle podesse estar escondido uma
+noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arreeiro respondeu que
+tinha a um quarto de legua de Vizeu um primo ferrador; e não conhecia em
+Vizeu senão os estalajadeiros. Simão achou de aproveitar o parentesco do
+homem, e logo d'alli o presenteou com uma jaqueta de pelles e uma faxa
+de sêda escarlate, á conta de maiores valores promettidos, se elle o bem
+servisse n'uma empreza amorosa.
+
+No dia seguinte chegou o academico a casa do ferrador. O arreeiro deu
+conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante.
+
+Foi Simão Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no mesmo
+ponto para Vizeu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no
+mais impraticavel bêcco da terra. A mendiga informou-se miudamente da
+pessoa que enviava a carta, e sahiu, mandando esperar o caminheiro.
+Pouco depois, voltou ella com a resposta, e o arreeiro partiu a galope.
+
+Era a resposta um grito de alegria. Thereza não reflectiu, respondendo a
+Simão, que n'aquella noite se festejavam os annos de seu pae, e se
+reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que ás onze horas em ponto ella
+iria ao quintal, e lhe abriria a porta.
+
+Não esperava tanto o academico. O que elle pedia era fallar-lhe da rua
+para a janella do seu quarto, e receava impossivel este prazer, que elle
+avaliava o maximo. Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o halito, abraçal-a
+talvez, commetter a ousadia de um beijo, estas esperanças, tão além de
+suas modestas e honestas ambições, egualmente o enlevavam e assustavam.
+Enlevo e susto em corações que se estreiam na comedia humana, são
+sentimentos congeniaes.
+
+Á hora da partida, Simão tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez,
+sem saber que os encantos da vida, os mais angelicos momentos da alma,
+são esses lances de mysterioso alvoroço que aos mais ricos de coração
+succedem em todas as sasões da vida, e a todos os homens, uma vez ao
+menos.
+
+Ás onze horas em ponto estava Simão encostado á porta do quintal, e a
+distancia convencionada o arreeiro com o cavallo á rédea. A toada da
+musica, que vinha das salas remotas alvoroçava-o, porque a festa em casa
+de Thadeu de Albuquerque o surprendêra. No longo termo de tres annos
+nunca elle ouvira musica n'aquella casa. Se elle soubesse o dia
+natalicio de Thereza, espantára-se menos da estranha alegria d'aquellas
+salas, sempre fechadas, como em dias de mortuorio. Simão imaginou
+desvairadaraente as chimeras que voejam, ora negras, ora translucidas em
+redor da phantasia apaixonada. Não ha balisa racional para as bellas,
+nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa. Simão Botelho,
+com o ouvido collado á fechadura, ouvia apenas o som das flautas, e as
+pancadas do coração sobresaltado.
+
+
+
+
+V
+
+
+Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indifferença por
+sua prima. As irmãs do fidalgo e a de mais parentela da casa não
+deixavam respirar Thereza. Moças e velhas, todas á uma, se repetiam,
+aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pae a alegria
+que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos.
+Replicava Thereza que não queria mal a seu primo, nem sequer eslava
+sentida d'elle; que era sua amiga, e sêl-o-ia sempre em quanto lhe elle
+deixasse livre o coração.
+
+O velho esperava muito d'aquella noitada de festa. Alguns parentes,
+presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a
+filha com os prazeres congruentes á sua idade, dando-lhe ensejo a que
+ella repartisse o espirito, concentrado n'um só ponto, por diversões em
+que a natural vaidade se preoccupa, e a força do amor contrariado se vai
+a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reuniões amiudadas, já
+em sua casa, já na dos seus parentes, para d'este modo Thereza se
+mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinião de menos
+valia o unico homem com quem fallava, e a quem julgava superior a todos.
+O fidalgo accedeu, mas com difficuldade; porque tinha lá um systema seu
+de ajuizar das mulheres, e porque vivêra trinta annos de vida libertina
+e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na quietação.
+Os annos de Thereza eram pela primeira vez festejados com estrondo. A
+morgada viu então o que era o minuete da côrte, e certos jogos de
+prendas com que os intervallos n'aquelles tempos, se aligeiravam em
+delicias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral.
+
+Mas, de agitada que estava, Thereza não compartia do gôso dos seus
+hospedes. Desde que soaram as dez horas d'aquella noite, a rainha da
+festa parecia tão alheada das finezas com que senhoras e homens á
+competência a lisonjeavam, que Balthazar Coutinho deu fé do dessocêgo de
+sua prima, e teve a modestia de imaginar que ella se offendêra da
+indifferença d'elle. Generoso até ao perdão, o morgado de Castro-d'Aire,
+compondo o rosto com gesto grave e melancolico, dirigiu-se a Thereza, e
+pediu-lhe desculpa da frieza que elle disse ser como a das montanhas,
+que tem vulcões por dentro e neve por fóra. Thereza teve a sinceridade
+de responder que não tinha reparado na frieza de seu primo, e chamou
+para junto d'ella uma menina, para evitar que a montanha se abrisse em
+vulcões. Pouco depois ergueu-se, e sahiu da sala.
+
+Eram dez horas e tres quartos. Thereza corrêra ao fundo do quintal,
+abrira a porta, e, como não visse alguem, tornou de corrida para a sala.
+No momento, porém, de subir a escada que ligava o jardim á casa,
+Balthazar Coutinho, que a espiava desde que ella sahiu da sala, chegou a
+uma das janellas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via.
+Retirou-se, e entrou com Thereza na sala, ao mesmo tempo, por diversas
+portas. Decorridos alguns minutos, a menina sahiu outra vez, e o primo
+tambem. Thereza ouviu, a distancia, o estrepito d'um cavallo, quando
+passou ao patamar da escada. Balthazar tambem o ouviu, e notou que sua
+prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido, levava
+uma capa ou chaile que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez pé atraz
+para não ser visto. Thereza, porém, n'um relance de olhar temeroso,
+ainda víra um vulto retirar-se. Teve mêdo, e retrocedeu a largar a capa,
+e entrou na sala, offegante de cansaço e pallida de mêdo.
+
+--Que tens, minha filha?--disse-lhe o pae--Já duas vezes sahisteda sala,
+e vens tão alvoroçada! Tens algum incommodo, Thereza?
+
+--Tenho uma dôr: preciso de ir respirar de vez em quando... Nada é, meu
+pae.
+
+Thadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha uma dôr;
+só o não disse a seu sobrinho, porque o não encontrou, e soube que elle
+tinha sahido.
+
+Tambem Thereza dera pela ausencia do primo, e fingiu que o ia procurar,
+resolução de que o velho gostou muito. Desceu ella ao jardim, correu á
+porta, onde a esperava Simão, abriu-a, e com a voz cortada pela
+anciedade, apenas disse:
+
+--Vai-te embora: vem ámanhã ás mesmas horas... Vai, vai!
+
+Simão, quando isto ouvia, tinha os olhos, fitos n'um vulto, que se
+approximava d'elle, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que
+primeiro o vira, dera um signal, e entalara as rédeas do cavallo entre
+umas pedras, para ficar desembaraçado, se o estudante se não podésse
+haver com o inimigo.
+
+Simão Botelho não se moveu do local, e Balthazar Coutinho parou na
+distancia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avançado a meio
+caminho do patrão, quando lhe este disse que não se aproximasse. E,
+caminhando para o vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe:
+
+--Isto aqui não é caminho. Que quer?
+
+O fidalgo não respondeu.
+
+--Parece-me que lhe abro a bôca com uma bala!--tornou Simão.
+
+--Que lhe importa o senhor quem está?!--disse Balthazar--Se eu tiver um
+segredo, como o senhor parece que tem o seu n'estes sitios, sou obrigado
+a confessar-lh'o?!
+
+Simão reflectiu, e replicou:
+
+--Este muro pertence a uma casa onde mora uma só família, e uma só
+mulher.
+
+--Estão n'essa casa mais de quarenta mulheres esta noite--redarguiu o
+primo de Thereza--Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra.
+
+--Quem é o senhor?--tornou com arrogancia o filho do corregedor.
+
+--Não conheço a pessoa que me interroga, nem quero conhecer. Fiquemos
+cada um com o nosso incognito. Boas noites.
+
+Balthazar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si: «que partido tem uma
+espada contra dois homens e duas pistolas?»
+
+Simão Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro ferrador.
+
+O sobrinho de Thadeu de Albuquerque entrou na sala, sem denunciar
+levemente alteração de animo. Viu que Thereza o observava de revez, e
+soube dissimular-se de modo que a socegou. A pobre menina, cansada de
+commoções, viu com prazer erguer-se para sahir a primeira familia, que
+deu rebate ás outras, menos ao de Castro-d'Aire e suas irmãs, que
+ficaram hospedados em casa de seu tio, com tenção de se demorarem oito
+dias em Vizeu.
+
+Velou Thereza o restante da noite, escrevendo a Simao a detida historia
+dos seus terrores, e pedindo-lhe perdão de o ella não ter advertido do
+baile, por fcar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano de
+se encontrarem na seguinte noite não havia alteração na carta. Isto
+espantou o academico. A seu vêr, o vulto era Balthazar Coutinho, e o pae
+de Thereza devia ser avisado n'aquella mesma noite.
+
+Respondeu elle contando a historia do incidente com o encapelado;
+receando, porém, assustar Thereza e gorar a entrevista, escreveu nova
+carta, em que não transluzia mêdo de ser atacado, nem sequer receio de
+marear-lhe a fama. Quiz parecer a Simão Botelho que este era o digno
+porte de um amante corajoso.
+
+Passou o estudante aquelíe dia contando as longas horas, e meditando
+instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temeraria ida, se
+Balthazar Coutinho era aquelle homem, que reservára para melhor relance
+a vingança da provocação insolente. Mas de si para si tinha elle que
+pensar em tal era mais covardia que prudencia.
+
+O ferrador tinha uma filha, moça de vinte e quatro annos, e formas
+bonitas, e um rosto bello e triste. Notou Simão os reparos em que ella
+se demorava a contemplal-o, e perguntou-lhe a causa d'aquelle olhar
+melancolico com que ella o fitava. Marianna corou, abriu um sorriso
+triste, o respondeu:
+
+--Não sei o que me adivinha o coração a respeito de v. s.^a Alguma
+desgraça está para lhe succeder.
+
+--A menina não dizia isso--replicou Simão--sem saber alguma coisa da
+minha vida.
+
+--Alguma coisa sei...--tornou ella.
+
+--Ouviu contar ao arreeiro?
+
+--Não, senhor. E' que meu pae conhece o paesinho de v. s.^a, e tambem
+conhece o senhor. E ha bocadinho que eu ouvi estar meu pae a dizer a meu
+tio, que é o arreeiro que veio com v. s.^a, que tinha suas razões para
+saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer...
+
+--Porque?
+
+--Pr'amor d'uma fidalga de Vizeu, que tem um primo em Castro-d'Aire.
+
+Simão espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores
+do que elle julgava mysterio entre duas familias, quando o mestre
+ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente dialogo se
+passára. A môça, como ouvisse os passos do pae, sahira lestamente por
+outra porta.
+
+--Com sua licença--disse mestre João.
+
+Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma arca.
+
+--Ora, meu fidalgo--continuou elle, descendo as mangas arregaçadas da
+camiza, e apertando-as com difficuldade nos grossos pulsos, como quem
+sabe as exigencias da ceremonia--ha de desculpar que eu viesse assim em
+mangas de camiza; mas não dei com a jaqueta...
+
+--Está muito bem, senhor João--atalhou o academico.
+
+--Pois, senhor, eu devo um favor a seu pae, e um favor d'aquella casta.
+Uma vez armou-se aqui á minha porta uma desordem, a trôco d'um couce que
+um macho d'um almocreve deu n'uma egua, que eu estava ferrando, e em tão
+hoa hora foi, que lhe partiu rente o jarrête por aqui, salvo tal logar.
+
+João da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fôra fracturada a da
+egua, e continuou:
+
+--Eu tinha alli á mão o martello, e não me tive que não pregasse com
+elle na cabeça do macho, que foi logo para a terra. O recoveiro de
+Carção, que era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia
+entre uma carga, e desfechou comigo, sem mais tirte, nem garte. O' alma
+damnada!--disse-lhe eu--pois tu vês que o teu macho me aleijou esta
+egua, que custou vinte peças a seu dono, e que eu tenho de pagar, e
+dás-me um tiro por eu te atordoar o macho!?
+
+--E o tiro acertou-lhe?--atalhou Simão.
+
+--Acertou; mas saberá v. s.^a que me não matou; deu-me aqui por este
+braço esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou á
+cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lh'a na táboa do
+peito. O almocreve cahiu como um tôrdo, e não tugiu nem mugiu.
+Prenderam-me, e fui para Vizeu e já lá estava ha tres annos, no anno em
+que o paesinho de v. s.^a veio corregedor. Andava muita gente a
+trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca.
+Estava lá na enxovia comigo um prêso a cumprir sentença, e disse-me elle
+que o senhor corregedor tinha muita devoção com as sete dôres de Nossa
+Senhora. Uma vez que elle ia passando com a familia para a missa,
+disse-lhe eu «senhor Corregedor, peço a v. s.^a pelas sete dôres de
+Maria Santissima, que me mande ir á sua presença, para eu explicar a
+minha culpa a v.s.^a». O paesinho de v. s.^a chamou o meirinho geral, e
+mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor Corregedor,
+e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do braço. Seu pae
+ouviu-me, e disse-me. «Vai-te embora, que eu farei o que podér.» O caso
+é, meu fidalgo, que eu sahi absolvido, quando muita gente dizia que eu
+havia de ser inforcado á minha porta. Faz favor de me dizer se eu não
+devo andar com a cara onde o seu paesinho põe os pés!?
+
+--Tem o senhor João motivo para lhe ser grato, não ha duvida nenhuma.
+
+--Agora faz favor de ouvir o mais. Eu antes de ser ferrador, fui criado
+de farda em casa do fidalgo de Castro-d'Aire, que é o senhor Balthazar.
+Conhece-o v. s.^a? Ora, se conhece!...
+
+--Conheço de nome.
+
+--Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas
+paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou
+chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe
+fizesse um serviço. «O que v. s.^a quizer, fidalgo.» E vai elle disse-me
+que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu cá por dentro
+comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um apêrto
+não é um matador de officio, acho eu, não é assim?
+
+--De certo...--respondeu Simão, adivinhando o remate da historia--quem
+era o homem que elle queria morto?
+
+--Era v. s.^a... Ó homem!--disse o ferrador com espanto--O senhor nem
+sequer mudou de côr!
+
+--Eu não mudo nunca de côr, senhor João--disse o academico.
+
+--Estou pasmado!
+
+--E vm.^ce não acceitou a incumbencia, pelo que vejo--tornou Simão.
+
+--Não, senhor; e então logo que elle me disse quem era, a minha vontade
+era pregar-lhe com a cabeça n'uma esquina.
+
+--E elle disse-lhe a razão porque me mandava matar?
+
+--Não, meu fidalgo; eu lhe conto. Na semana adiante, quando soube que o
+senhor Balthazar (raios o partam!) tinha sabido de Vizeu, fui fallar com
+o senhor Corregedor, e contei-lhe tudo o que se passára. O senhor
+corregedor esteve a scismar um pouquinho, e disse-me, e v. s.^a ha de
+perdoar por eu lhe dizer o que seu pae me disse tal e qual.
+
+--Diga.
+
+--Seu pae começou a esfregar o nariz, e disse-me: «Eu sei o que é isso.
+Se aquelle bréjeiro de meu filho Simão tivesse honra, não olharia para a
+prima d'esse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se
+ligasse a uma filha de Thadeu de Albuquerque!..» Ainda disse mais coisas
+que me não lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que
+houve. Agora, appareceu-me aqui v. s.^a, e a noite passada foi a Vizeu.
+Perdoará a minha confiança; mas v. s.^a foi fallar com a tal menina: e
+eu estive vai não vai a seguil-o; mas como ia meu cunhado, que é homem
+para tres, fiquei descançado. Elle contou-me um encontro que v. s.^a
+teve á porta do quintal da menina. Se lá torna, senhor Simão, vá
+preparado para alguma coisa de maior. Eu bem sei que v. s.^a não é
+medroso; mas d'uma traição ninguem se livra. Se quer que eu vá também,
+estou ás suas ordens; e a clavina que deu policia ao almocreve ainda
+alli está, e dá fogo debaixo d'agua, como diz o outro. Mas, se v. s.^a
+dá licença que eu lhe diga a minha opinião, o melhor é não andar n'essas
+encamizadas. Se quer casar com ella, vá pedir a seu pae licença, e deixe
+o resto cá por minha conta; ponto é que ella queira, que eu, n'um abrir
+e fechar d'olhos, atiro com ella para cima d'uma égua de chupêta, que
+alli tenho, e o pae e mais o primo ficam a vêr navios.
+
+--Obrigado, meu amigo--disse Simão--Aproveitarei os seus bons serviços,
+quando me forem necessarios. Á noite hei de ir, como fui a noite
+passada, a Vizeu. Se houver novidade, então veremos o que se ha de
+fazer. Conto comsigo, e creia que tem em mim um amigo.
+
+Mestre João da Cruz não replicou. D'alli foi examinar miudamente a
+fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas
+necessarias, em quanto descarregava a arma, e a carregava de novo com
+uns balotes especiaes que elle denominava «amendoas de pimpões».
+
+N'este intervallo, Marianna, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e
+disse com meiguice a Simão Botelho:
+
+--Então sempre é certo ir?
+
+--Vou, porque não hei de ir?
+
+--Pois Nossa Senhora vá na sua companhia--tornou ella, sahindo logo para
+esconder as lagrimas.
+
+
+
+
+VI.
+
+
+Ás dez horas e meia da noite d'aquelle dia, tres vultos convergiram para
+o local, raro frequentado, em que se abria a porta do quintal de Thadeu
+de Albuquerque. Alli se detiveram alguns minutos discutindo e
+gesticulando. Dos tres havia um, cujas palavras eram ouvidas em silencio
+e sem replica pelos outros: Dizia elle a um dos dois:
+
+--Não convém que estejas perto d'esta porta. Se o homem apparecesse aqui
+morto, as suspeitas cahiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se um do
+outro, e tenham o ouvido applicado ao tropel do cavallo. Depois apressem
+o passo, até o encontrarem de modo que os tiros sejam dados longe
+d'aqui.
+
+--Mas...--atalhou um--quem nos diz que elle veio hontem a cavallo, e
+hoje vem a pé?
+
+--E' verdade! - accrescentou o outro.
+
+--Se elle vier a pé, eu lhes darei aviso para o seguirem depois até o
+terem a geito de tiro, mas longe d'aqui, percebem vocês?--disse
+Balthazar Coutinho.
+
+--Sim, senhor; mas se elle sáe de casa do pae, e entra sem nos dar
+tempo?
+
+--Tenho a certeza de que não está em casa do pae, já lh'o disse. Basta
+de palavriado. Vão esconder-se atraz da igreja, e não adormeçam.
+
+Debandou o grupo, e Balthazar ficou alguns momentos encostado ao muro.
+Soaram os tres quartos depois das dez. O de Castro-d'Aire collou o
+ouvido á porta, e retirou-se acceleradamente, ouvindo o rumor da
+folhagem sêcca que Thereza vinha pizando.
+
+Apenas Balthazar, cosido com o muro, desapparecêra, um vulto assomou do
+outro lado a passo rapido. Não parou: foi direito a todos os pontos onde
+uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja que estava a duzentos
+passos de distancia. Viu os dois vultos direitos com o recanto que
+formava a juncção da capella mór, e sobre o qual cabiam as sombras da
+torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; não os conheceu; mas elles
+disseram entre si, depois que elle desapparecêra:
+
+--É o João da Cruz, ferrador, ou o diabo por elle!...
+
+--Que fará a esta hora por aqui?!
+
+--Eu sei!
+
+--Não desconfias que elle entre n'isto?
+
+--Ágora! Se entrasse, era por nós. Não sabes que elle foi mochila do
+nosso amo?
+
+--E tambem sei que pôz a loja com dinheiro do nosso amo.
+
+--Pois então que mêdo tens?
+
+--Não ha mêdo; mas tambem sei que foi o corregedor que o livrou da
+forca...
+
+--Isso que tem! O corregedor não se importa com isto, nem sabe que o
+filho cá está...
+
+--Assim será; mas não estou muito contente... Elle é homem dos diabos...
+
+--Deixal-o ser... tanto entram as balas n'elle como n'outro...
+
+A discussão continuou sobre varias conjecturas. De tudo o que elles
+disseram uma coisa era certissima: ser o vulto o João da Cruz, ferrador.
+
+Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Balthazar ouviram
+o remoto tropel de cavalgadura. Ao tempo que elles sahiam do seu
+escondrijo, sabia João da Cruz á frente do cavalleiro. Simão aperrou as
+pistolas, e o arreeiro uma clavina.
+
+--Não ha novidade--disse o ferrador--mas saiba v. s.^a que já podia
+estar em baixo do cavallo com quatro zagalotes no peito.
+
+O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse:
+
+--És tu, João?
+
+--Sou eu. Vim primeiro que tu.
+
+Simão estendeu a mão ao ferrador, e disse commovido:
+
+---Dê cá a sua mão; quero sentir na minha a mão de urn homem honrado.
+
+--Nas occasiões é que se conhecem os homens--redarguiu o ferrador.--Ora
+vamos... não ha tempo para fallatorio. O senhor doutor tem uma espera.
+
+--Tenho?--disse Simão.
+
+--Atraz da igreja estão dois homens que eu não pude conhecer; mas não se
+me dava de jurar que são criados do senhor Balthazar. Salte abaixo do
+cavallo, que ha de haver mostarda. Eu disse-lhe que não viesse; mas v.
+s.^a veio, e agora é andar com a cara para a frente.
+
+--Olhe que eu não tremo, mestre João--disse o filho do corregedor.
+
+--Bem sei que não; mas, á vista do inimigo, veremos.
+
+Simão tinha apeado. O ferrador tomou as rédeas do cavallo, recuou alguns
+passos na rua, e foi prendêl-o á argola da parede de uma estalagem.
+
+Voltou, e disse a Simão que o seguisse a elle e ao cunhado na distancia
+de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de
+Albuquerque, não passasse do ponto d'onde os visse.
+
+Quiz o academico protestar contra um plano, que o humilhava como
+protegido pela defeza dos dois homens; o ferrador, porém, não admittiu a
+réplica.
+
+--Faça o que eu lhe digo, fidalgo--disse elle com energia.
+
+João da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram de fronte
+do quintal de Thereza, e viram um vulto a sumir-se no angulo da parede.
+
+--Vamos sobre elles--disse o ferrador--que lá passaram para o adro da
+igreja; n'este entrementes, o doutor chega á porta do quintal e entra;
+depois voltaremos para lhe guardar a sahida.
+
+N'este proposito, moveram-se apressados, e Simão Botelho caminhou com as
+pistolas aperradas na direcção da porta.
+
+Em frente do muro do jardim de Thereza havia uma cascalheira escarpada,
+que se esplainava depois n'uma alamêda sombria.
+
+Os dois criados de Balthazar, quando o tropel do cavallo parou,
+recordaram as ordens do amo, no caso de vir a pé Simão. Buscaram sitio
+azado para o espreitarem na sahida, e entraram na alamêda quando o
+academico chegava á porta do quintal.
+
+--Agora está seguro--disse um.
+
+--Se lá não ficar dentro....--respondeu o outro, vendo-o entrar, e
+fechar-se a porta.
+
+--Mas além vem dois homens...--disse o mais assustado, olhando para a
+outra entrada da alamêda.
+
+--E vem direitos a nós... aperra lá a clavina...
+
+O melhor é retirarmos. Nós estamos á espera de outro, e não d'estes.
+Vamos embora d'aqui...
+
+Este não esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do
+cascalho. O mais intrepido teve tambem a prudencia de todos os
+assassinos assalariados: seguiu o assustadiço, e deu-lhe razão, quando
+ouviu após de si os passos velozes dos perseguidores. Sahiu-lhes o amo
+de frente, quando dobravam a esquina do quintal, e disse-lhes:
+
+--Vocês a que fogem, seus poltrões?
+
+Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes.
+
+João da Cruz e o arreeiro appareceram, e Balthazar caminhou para elles,
+bradando:
+
+--Alto ahi!
+
+O ferrador disse ao cunhado:
+
+--Falla-lhe tu, que eu não quero que elle me conheça.
+
+--Quem manda fazer alto?--disse o arreeiro.
+
+--São tres clavinas--respondeu Balthazar.
+
+--Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saia--disse João da Cruz
+ao ouvido do arreeiro.
+
+--Pois nós cá estamos parados--replicou o criado de Simão.--Que nos
+querem vocês?
+
+--Quero saber o que tem que fazer n'este sitio.
+
+--E vocês que fazem por cá?
+
+--Não admitto perguntas--disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns
+passos vacilantes para a frente.--Quero saber quem são.
+
+Mestre João disse ao ouvido do cunhado:
+
+--Diz-lhe que se dá mais um passo que o arrebentas.
+
+O arreeiro repetiu a clausula, e Balthazar parou.
+
+Um dos criados d'este chamou-o ao lado para lhe dizer que aquelle dos
+dois, que não fallava, parecia ser o João da Cruz. O morgado duvidou, e
+quiz esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse
+ao cunhado:
+
+--Vem comigo, que elles conhecem-me.
+
+Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de
+Thadeu de Albuquerque. Os criados de Balthazar, gloriosos da retirada,
+como de uma derrota certa, apressaram o passo na cola dos suppostos
+fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os não seguissem; mas elles,
+momentos antes covardes, queriam desforrar-se agora, correndo após o
+inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes.
+
+Simão Botelho ouvira os passos ligeiros dos seus homens, e, compellido
+pelo susto de Thereza, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem
+elles fossem. João da Cruz, com ar galhofeiro, já quando os
+perseguidores se viam, disse ao filho do corregedor, se estava ajustado
+o casamento, que não havia panno para mangas.
+
+Simão entendeu o perigo, apertou convulsamente a mão de Thereza, e
+retirou-se. Queria elle reconhecer os dois vultos parados a distancia;
+mas João da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga á submissão, disse
+ao filho do corregedor:
+
+--Vá por onde veio, e não olhe para traz.
+
+Simão foi indo até encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois
+inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o
+subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de
+alguma espera fóra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia
+levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão,
+dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado lá iriam
+ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que
+o não tivessem em tão vil preço. E acintemente soffreou as rédeas, para
+não forçar os homens a aligeirar o passo.
+
+--Vá como quizer--disse mestre João--que nós vamos por fóra do caminho.
+
+E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por
+moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com
+a estrada.
+
+--O atalho vai acolá onde a serra faz aquelle cotovêllo--disse o
+ferrador ao cunhado--hão de alli passar, ou já passaram. A estrada vai
+mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens é d'alli que lhe vão
+atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa...
+
+E um pouco descobertos, e outro curvados á sombra das devêzas, chegaram
+a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o
+pontilhão de um córrego.
+
+--Já não vamos a tempo--disse afflicto o João da Cruz--os homens vão
+atirar-lhe, porque o cavallo trupa cá muito atraz.
+
+E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado
+o outeiro, em cujo valle corria a estrada.
+
+--Os homens vão atirar-lhe...--disse o ferrador.
+
+--Gritemos d'aqui ao doutor que não vá p'ra diante.
+
+--Já não é tempo... Ou o matem ou não matem, quando voltarem são nossos.
+
+Tinham já passado o pontilhão, e subiam a ladeira, quando ouviram dois
+tiros.
+
+--Arriba!--exclamou João da Cruz--que não vão elles metter-se á estrada,
+se mataram o fidalgo.
+
+Tinham vencido a chã, esbofados e anciados, com as clavinas aperradas.
+Os criados de Balthazar, ao invez da conjectura do ferrador, retrocediam
+pelo mesmo atalho, suppondo que os companheiros de Simão iam adiante
+batendo os pontos azados á emboscada, ou se tinham retardado.
+
+--Elles ahi vem!--disse o arreeiro.
+
+--Nós cá estamos--respondeu o ferrador, sentando-se, a coberto de um
+cômoro.--Senta-te também que eu não estou p'ra correr atraz d'elles.
+
+Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vultos,
+e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os sucalcos de uma
+vinha, o outro atirando-se a uns silveiraes.
+
+--Atira ao da esquerda!--disse João da Cruz.
+
+Foram simultaneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um
+cadaver. Os balotes do arreeiro não estremaram o outro entre o carrascal
+onde se embrenhára.
+
+A este tempo assomava Simão no tezo d'onde lhe tinham atirado, e corria
+ao ponto onde ouvira os segundos tiros.
+
+--É v. s.^a, fidalgo?--bradou o ferrador.
+
+--Sou.
+
+--Não o mataram?
+
+--Creio que não--respondeu Simão.
+
+--Este desalmado deixou fugir o melro--tornou João da Cruz--mas o meu lá
+está a pernear na vinha. Sempre lhe quero vêr as trombas...
+
+O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o
+cadaver, dizendo:
+
+--Alma de cantaro, se eu tivesse duas clavinas não ias sósinho para o
+inferno!
+
+--Anda d'ahi!--disse o arreeiro--deixa lá esse diabo, que o senhor
+doutor está ferido n'um hombro. Vamos depressa, que está o sangue a
+escorrer-lhe.
+
+--Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima de uma ribanceira, e
+cuidei que eram vocês--disse Simão, em quanto o ferrador, com a destreza
+de habil cirurgião, lho enfaixava o braço ferido com lenços.--Parei o
+cavallo, e disse: «Ólé! ha novidade?» Logo que me não responderam,
+saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram
+fogo. Quiz saltar á ribanceira, mas não pude romper o matto. Dei uma
+volta grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar
+ferido...
+
+--Isto é uma arranhadura--disse João da Cruz--olhe que eu sei d'isto,
+fidalgo! Estou affeito a curar muitas feridas.
+
+--Nos burros, mestre João?--disse o ferido, sorrindo.
+
+--E nos christãos tambem, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um
+rei que não queria outro medico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o
+meu corpo que está uma rêde de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com
+ceroto e vinagre sou capaz de ir resuscitar aquelle alma do diabo que
+alli está a escutar a cavallaria.
+
+N'isto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha
+saltado o companheiro do morto.
+
+João da Cruz, como galgo de fino olfacto, fitou a orelha e resmungou:
+
+--Querem vocês vêr que ellas se armam!... Dar-se-ha caso que o outro
+ainda esteja por alli a tremer maleitas!...
+
+O rumor continuou, e logo um bando de passaros rompeu d'entre a folhagem
+chilreando.
+
+--O homem está alli!--tornou o ferrador.--Passe-me cá uma pistola,
+senhor Simão!
+
+Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande rostilhada se fez entre
+as moitas de codêços e urzes.
+
+--Elle estrinça lenha como um porco do monte!--exclamou o ferrador.--Ó
+cunhado, bate este matto com alguns penedos; quero vêr sahir o javali da
+moita!...
+
+Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a
+sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra d'um agueiro.
+
+--Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me!--bradou Simão ao
+ferrador.
+
+--Pois o fidalgo já ahi anda!?. Então está fechado o cêrco. Eu cá vou
+fazer de furão. Se este nos escapa, não ha nada seguro n'este mundo!
+
+Não se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirára
+desamparado á brenha, desnocára um joelho, e cahira atordoado. O
+arreeiro não examinou o effeito do tiro, porque atirara á ventura, e
+achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do
+aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente até encontrar um
+cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os
+melros cacarejassem esvoaçando, o criado de Balthazar retrocedeu para o
+mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus
+em todas as direcções, e alguns acertavam mais que as balas do seu
+bacamarte. João da Cruz tirou do bolço da jaqueta um podão, e começou a
+cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em
+redor do escondrijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco luzimento do
+trabalho, disse ao arreeiro:
+
+--Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho sêcco, e
+vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão ha de morrer assado.
+
+O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para
+fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo
+de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simão esperava o
+desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre
+elle. O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos
+erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigára áquella
+desgraça. Já a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito,
+quando Simão lhe reteve o braço.
+
+--Não se bate assim n'um homem!--disse o moço--Levanta-te, rapaz!
+
+--Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para
+a minha vida.
+
+N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou:
+
+--Pois este tratante ainda está vivo!
+
+E correu sobre elle com o podão.
+
+--Não mate o homem, senhor João!--disse o filho do corregedor.
+
+--Que o não mate! essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo
+quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar... eim?
+
+--Com a forca!?--atalhou Simão.
+
+--Podéra não! Quer que este homem fique para ir contar a historia? Acha
+bonito? Lá v. s.^a, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu,
+que sou ferrador, posso contar que d'esta vez tenho o baraço no pescoço.
+Não me faz geito o negocio. Deixe-me cá com o homem...
+
+--Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha
+não nos póde fazer mal.
+
+--O quê?--redarguiu o ferrador--v. s.^a saberá muito, mas de justiça não
+sabe nada, e ha de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha
+para guiar a justiça na devassa. Ás duas por tres, uma testemunha de
+vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castro-d'Aire a mexer
+os pausinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro.
+
+--Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para
+Castro-d'Aire--exclamou o homem.
+
+--Deixe-o ficar, João da Cruz... vamos embora...
+
+--Isso!--acudiu o ferrador--chame-me João da Cruz, para este maroto
+ficar bem certo de que sou o João da Cruz!... Com effeito, não sei o que
+me parece v. s.^a querer deixar com vida um alma do diabo que lhe deu um
+tiro para o matar!
+
+--Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseraveis que me
+não resistem.
+
+--E se elle o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor
+doutor!
+
+--Vamos embora--tornou Simão--deixemos para ahi esse miseravel.
+
+Mestre João scismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com
+descontentamento:
+
+--Vamos lá... Quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre.
+
+Tinham já sahido do plaino e saltado a tapada, e iam descendo para a
+estrada, quando o ferrador exclamou:
+
+--Lá me ficou a minha clavina encostada á sebe. Vão indo, que eu venho
+já.
+
+O arreeiro conduzia o cavallo, que pacificamente estivera tozando a
+relva das paredes marginaes da estrada, quando Simão ouviu gritos.
+Conjecturou com certeza o que era.
+
+--O João lá está a fazer justiça!--disse o arreeiro. Deixál-o lá, meu
+amo, que elle é homem que sabe o que faz.
+
+João da Cruz appareceu d'ahi a pouco, limpando com fentos o podão
+ensanguentado.
+
+--Você é cruel, senhor João!--disse o academico.
+
+--Não sou cruel--disse o ferrador--o fidalgo está enganado comigo; é que
+diz lá o dictado, morrer por morrer, morra meu pae que é mais velho.
+Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto
+faz amassar um alqueire como tres. As obras devem ser acabadas, ou então
+o melhor é não se metter a gente n'ellas. Agora, levo a minha
+consciencia socegada.
+
+A justiça que prove, se quizer; mas não ha de ser por que lh'o digam
+aquelles dois que eu mandei de presente ao diabo.
+
+Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se
+ter ligado com tal homem.
+
+
+
+
+VII.
+
+
+O ferimento de Simão Botelho era melindroso de mais para obedecer
+promptamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aphorismos de
+alveitaria. A bala passára-lhe de revez a porção muscular do braço
+esquerdo; mas algum vaso importante rompêra, que não bastavam compressas
+a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o academico deitou-se
+febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu para
+Coimbra, encarregado de espalhar a noticia de ter ficado no Porto Simão
+Botelho.
+
+Mais que as dôres e os receios da amputação, o mortificava a ancia de
+saber novas de Thereza. João da Cruz estava sempre de sobre-rolda,
+precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas d'elle. As
+pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens
+tinham apparecido mortos, e constava serem criados d'um fidalgo de
+Gastro-d'Aire. Ninguem, porém, ouvira imputar o assassinio a
+determinadas pessoas.
+
+Na tarde d'esse dia recebeu Simão a seguinte carta de Thereza:
+
+«Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa d'essa boa gente. Eu
+não sei o que se passa, mas ha coisa mysteriosa que eu não posso
+adivinhar. Meu pae tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim
+não me deixa sahir do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu
+felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quiz que a pobre
+viesse pedir esmola debaixo da janella do meu quarto; senão eu nem tinha
+modo de lhe dar signal para ella esperar esta carta. Não sei o que ella
+me disse. Fallou-me em criados mortos; mas eu não pude entender... Tua
+mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do teu quarto...
+
+Disse-me tua mana que os moços de meu primo tinham apparecido mortos
+perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu ahi
+estás; mas não me deram tempo. Meu pae de hora a hora dá passeios no
+corredor, e solta uns ais muito altos.
+
+Ó meu querido Simão, que será feito de ti?... Estarás tu ferido? Serei
+eu a causa da tua morte?
+
+Diz-me o que souberes. Eu já não peço a Deus senão a tua vida. Foge
+d'esses sitios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa
+situação.
+
+Tem confiança n'esta desgraçada, que é digna da tua dedicação.... Chega
+a pobre: não quero demoral-a mais... Perguntei-lhe se se dizia de ti
+alguma coisa, e ella respondeu que não. Deus o queira.»
+
+Respondeu Simão a querer tranquillisar o animo de Thereza. Do seu
+ferimento fallava tão de passagem, que dava a suppôr que nem o curativo
+era necessario. Promettia partir para Coimbra logo que o podesse fazer
+sem receio de Thereza soffrer na sua ausencia. Animava-a a chamal-o,
+assim que as ameaças de convento passassem a ser realisadas.
+
+Entretanto Balthazar Coutinho, chamado ás authoridades judiciarias para
+esclarecer a devassa instaurada, respondeu que effectivamente os homens
+mortos eram seus criados, de quem elle e sua familia se acompanhára de
+Castro-d'Aire. Accrescentou que não sabia que elles tivessem inimigos em
+Vizeu, nem tinha contra alguem as mais leves presumpções.
+
+Os mais proximos visinhos da localidade, onde os cadaveres tinham
+apparecido, apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao
+mesmo tempo, e outro, pouco depois. Um apenas adiantava coisa que não
+podia alumiar a justiça, e vinha a ser que o mato, nas visinhanças do
+local, fôra chapotado. N'esta escuridade a justiça não podia dar passo
+algum.
+
+Thadeu de Albuquerque era connivente no attentado contra a vida de Simão
+Botelho. Fôra seu o alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa das
+sahidas frequentes de Thereza, na noite do baile. Tanto ao velho como ao
+morgado convinha apagar algum indicio que podesse envolvêl-os no
+mysterio d'aquellas duas mortes. Os criados não mereciam a pena d'um
+desforço que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simão
+Botelho não podiam adduzil-as. Áquella hora o suppunham elles a caminho
+de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pae. Restava-lhes ainda a
+esperança de que elle tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local
+em que o tinham assaltado.
+
+Em quanto a Thereza, resolveu Albuquerque encerral-a n'um convento do
+Porto, e escolheu Monchique, onde era prioreza uma sua proxima parenta.
+Escreveu á prelada para lhe preparar aposentos, e ao seu procurador para
+negociar as licenças ecclesiasticas para a entrada. Todavia, receando o
+velho algum incidente no espaço de tempo que medeava até se conseguirem
+as licenças, resolveu não ter comsigo Thereza, e solicitou a retenção
+temporaria d'ella n'um convento de Vizeu.
+
+Acabára Thereza de lêr e esconder no seio a resposta de Simão Botelho,
+que a pobre lhe enviára ao escurecer, pendente de uma linha, quando o
+pae entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu,
+tomando uma capa e um lenço.
+
+--Vista-se como quem é: lembre-se que ainda tem os meus
+appellidos--disse com severidade o velho.
+
+--Cuidei que não era preciso vestir-me melhor para sahir á
+noite...--disse Thereza.
+
+--E a senhora sabe para onde vai?
+
+--Não sei... meu pae.
+
+--Então vista-se, e não me dê leis.
+
+--Mas, meu pae, attenda-me um momento.
+
+--Diga.
+
+--Se a sua ideia é obrigar-me a casar com meu primo...
+
+--E d'ahi?
+
+--De certo não caso; morro, e morro contente; mas não caso.
+
+--Nem elle a quer. A senhora é indigna de Balthazar Coutinho. Um homem
+do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que falla de noite aos
+amantes nos quintaes. Vista-se depressa, que vai para um convento.
+
+--Promptamente, meu pae. Esse destino lh'o pedi eu muitas vezes.
+
+--Não quero reflexões. D'aqui a pouco appareça-me vestida. Suas primas
+esperam-a para a acompanharem.
+
+Quando se viu sósinha, Thereza debulhou-se em lagrimas, e quiz escrever
+a Simão. Áquella hora quem lhe levaria a carta? Appellou para o retabulo
+da Virgem, que ella fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos
+que a protegesse, e désse forças a Simão para resistir ao golpe, e
+guardar-lhe constancia através dos trabalhos que succedessem. Depois
+vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o
+tinteiro, o papel, e o massête das cartas de Simão. Sahiu do seu quarto,
+relanceando os olhos lagrimosos para o painel da Virgem, e encontrando o
+pae, pediu-lhe licença para levar comsigo aquella devota imagem.
+
+--Lá irá ter--respondeu elle.--Se tivesse tanta vergonha como devoção,
+seria mais feliz do que ha de ser.
+
+Uma das primas, irmãs de Balthazar, chamou-a de parte, e segredou-lhe:
+
+--Ó menina! estava ainda na tua mão dares remedio á desordem d'esta
+casa...
+
+--Qual remedio?!--perguntou Thereza com artificial seriedade.
+
+--Diz a teu pae que não duvidas casar com o mano Balthazar.
+
+--O primo Balthazar não me quer--replicou ella, sorrindo.
+
+--Quem te disse isso, Therezinha?
+
+--Disse-m'o meu pae.
+
+--Deixa fallar teu pae, que está desatinado com o amor que te tem.
+Queres tu que eu lhe falle?
+
+--Para que?
+
+--Para se remediar d'este modo a desgraça de todos nós.
+
+--Estás a brincar, prima!--redarguiu Thereza.--Eu hei de ser tua
+cunhada, quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo
+outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por
+elle, abençoarei todos os meus algozes. Pódes dizer isto ao primo
+Balthazar, e diz-lh'o antes que te esqueça.
+
+--Então, vamos?!--disse o velho.
+
+--Estou prompta, meu pae.
+
+Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou
+a mão de seu pae, que elle não ousou recusar-lhe na presença das
+freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se
+a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:
+
+--Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo.
+
+As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra «coração»
+uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor.
+
+--Que diz a menina?!--perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos
+oculos, e apanhando no lenço escarlate a distillação do esturrinho.
+
+--Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.
+
+--Não diga minha senhora--atalhou a escrivã.
+
+--Como hei de dizer?
+
+--Diga «nossa madre prioreza.»
+
+--Pois sim, nossa madre prioreza, disse eu que me sentia aqui muito bem.
+
+--Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir
+bem--tornou a nossa madre prioreza.
+
+--Não?!--disse Thereza com sincera admiração.
+
+--Quem para aqui vem, menina, ha de mortificar o espirito, e deixar lá
+fóra as paixões mundanas. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de
+noviças, a quem compete encaminhal-a e dirigil-a.
+
+Thereza não redarguiu: fez um gesto de respeito á mestra de noviças, e
+seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.
+
+A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Thereza que era sua
+hospeda em quanto alli estivesse; e ajuntou que não sabia se seu pae
+escolheria aquelle convento ou outro.
+
+--Que importa que seja um ou outro?--disse Thereza.
+
+--É conforme. Seu pae póde querer que a menina professe em ordem rica
+das bentas ou bernardas.
+
+--Professe!--exclamou Thereza.--Eu não quero ser freira aqui, nem
+n'outra parte.
+
+--A senhora ha de ser o que seu pae quizer que seja.
+
+--Freira!? a isso não póde ninguem obrigar-me!--recalcitrou Thereza.
+
+--Isso assim é--retorquiu a prioreza--mas como a menina tem de noviciado
+um anno, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e verá que não ha
+vida mais descansada para o corpo, nem mais saudavel para a alma.
+
+--Mas a nossa madre--tornou Thereza, sorrindo, como se a ironia lhe
+fosse habitual--já disse que a estas casas ninguem vem para se sentir
+bem...
+
+--É um modo de fallar, menina. Todos temos as nossas mortificações e
+obrigações de côro e de serviços para que nem sempre o espirito está bem
+disposto. Ora vês-a-hi. Mas em comparação do que lá vai pelo mundo, o
+convento é um paraizo. Aqui não ha paixões nem cuidados que tirem o
+somno, nem a vontade de comer, bemdito seja o Senhor! Vivemos umas com
+as outras, como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Más
+linguas é coisa que a menina não ha de achar aqui, nem intriguistas, nem
+murmurações de soalheiro. Emfim, Deus fará o que fôr servido. Eu vou á
+cosinha buscar a ceia da menina, e já volto. Aqui a deixo com a senhora
+madre organista, que é uma pomba, e com a nossa mestra de noviças, que
+sabe dizer melhor que eu o que é a virtude n'estas santas casas.
+
+Apenas a prioreza voltou costas, disse a organista á mestra de noviças:
+
+--Que grande impostora!
+
+--E que estupida!--acudiu a outra.--A menina não se fie n'esta
+trapalhona, e veja se seu pae lhe dá outra companhia em quanto cá
+estiver, que a prioreza é a maior intriguista do convento. Depois que
+fez sessenta annos, falla das paixões do mundo como quem as conhece por
+dentro e por fóra. Em quanto foi nova, era a freira que mais escandalos
+dava na casa; depois de velha era a mais ridicula, porque ainda queria
+amar e ser amada; agora, que está decrepita, anda sempre este mostrengo
+a fazer missões, e a curar indigestões.
+
+Thereza, apesar de sua dôr, não pôde reprimir uma risada, lembrando-se
+da _vida de Deus com anjos_ que as esposas do Senhor alli viviam, no
+dizer da madre prioreza.
+
+Pouco depois entrou a prelada com a ceia, e sahiram as duas freiras.
+
+--Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?--disse
+ella a Thereza.
+
+--Pareceram-me muito bem.
+
+A velha distendeu os beiços matizados de meandros de esturrinho liquido,
+e regougou:
+
+--_Hum!_... está feito, está feito!... Ainda não são das peores; mas, se
+fossem melhores, não se perdia nada... Ora vamos a isto, menina; aqui
+tem duas pernas de gallinha, e um caldo que o podem comer os anjos.
+
+--Eu não cômo nada, minha senhora--disse Thereza.
+
+--Ora essa! não come nada!? Ha de comer; sem comer ninguem resiste.
+Paixões!... que as leve o porco-sujo!... As mulheres é que ficam
+logradas, e elles não tem que perder!... Que eu cá de mim, até ao
+presente, Deus louvado, não sei o que sejam paixões; mas quem tem
+cincoenta e cinco annos de convento, tem muita experiencia do que vê
+penar ás outras doidibanas. E para não ir mais longe, estas duas, que
+d'aqui sahiram, tem pagado bem o seu tributo á asneira, Deus me perdôe
+se pécco. A organista tem já os seus quarenta bons, e ainda vai ao
+locutorio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de
+noviças á falta d'outra que quizesse sêl-o, se eu lhe não andasse com o
+olho em cima, estragava-me as raparigas...
+
+Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escrivã
+que vinha, palitando os dentes, pedir á prelada um copinho de certo
+vinho estomacal com que todas as noites era brindada.
+
+--Estava eu a dizer a esta menina as peças que são a organista e a
+mestra--disse a prioreza.
+
+--Oh! são para o que lhe eu prestar! Lá foram ambas para a cella da
+porteira. A esta hora está a menina a ser cortada por aquellas linguas,
+que não perdoam a ninguem.
+
+--Vaes tu vêr se ouves alguma coisa, minha flôr?--disse a prelada.
+
+A escrivã, contente da missão, foi imperceptivelmente ao longo dos
+dormitorios até parar a uma porta que não vedava o ruido estridente das
+risadas.
+
+No entanto dizia a prelada a Thereza:
+
+--Esta escrivã não é má rapariga: só tem o defeito de se tomar da
+pinguleta; depois não ha quem a ature. Tem uma boa tença, mas gasta tudo
+em vinho, e tem occasiões de entrar no côro a fazer _ss_, que é mesmo
+uma desgraça. Não tem outro defeito; é uma alma lavada, e amiga da sua
+amiga. É verdade que ás vezes... (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos
+dormitorios, e fechou por dentro a porta) é verdade que, ás vezes,
+quando anda azuratada, dá por paus e por pedras, e descobre os defeitos
+das suas amigas. A mim já ella me assacou um aleive, dizendo que eu,
+quando sahia a ares, não ia só a ares, e andava por lá a fazer o que
+fazem as outras. Forte pouca vergonha! Lá que outra fallasse, vá; mas
+ella, que tem sempre uns namorados pandilhas que bebem com ella na
+grade, isso lá me custa; mas, emfim, não ha ninguem perfeito!... Boa
+rapariga é ella... Se não fosse aquelle maldito vicio...
+
+Como tocasse ao côro n'esta occasião, a veneranda prioreza bebeu o
+segundo calice do vinho estomacal, e disse a Thereza que a esperasse um
+quarto de hora, que ella ia ao côro, e pouco se demoraria. Tinha ella
+sahido, quando a escrivã entrou a tempo que Thereza, com as mãos abertas
+sobre a face, dizia em si: «Um convento, meu Deus! isto é que é um
+convento!»
+
+--Está sósinha?--disse a escrivã.
+
+--Estou, minha senhora.
+
+--Pois aquella grosseira vai-se embora, e deixa uma hospeda sósinha? Bem
+se vê que é filha de funileiro!... Pois tinha tempo de ter prática do
+mundo, que tem andado por lá que farte... Pois eu havia de ir ao côro;
+mas não vou para lhe fazer companhia, menina.
+
+--Vá, vá, minha senhora, que eu fico bem sósinha--disse Thereza, com a
+esperança de poder desafogar em lagrimas a sua afflicção.
+
+--Não vou, não!... A menina aqui estarrecia de mêdo; mas a prelada não
+tarda ahi. Ella, se póde escapar-se do côro, não pára lá muito tempo. A
+apostar que ella lhe esteve a fallar mal de mim?
+
+--Não, minha senhora, pelo contrario...
+
+--Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha não falla bem de
+ninguem. Para ella tudo são libertinas e bebadas.
+
+--Nada, não, minha senhora; nada me disse a respeito d'alguma freira.
+
+--E se disse, deixal-a dizer. Ella o vinho não o bebe, suga-o, é uma
+esponja viva. Em quanto a libertinagem, tomára eu tantos mil cruzados
+como de amantes ella tem tido! Faz lá uma pequena ideia, menina!...
+
+A escrivã bebeu um calice de vinho da sua prelada, e continuou:
+
+--Faz lá uma pequena ideia! Ella é velhissima como a sé. Quando eu
+professei já ella era velha como agora, com pouca differença. Ora, eu
+sou freira ha vinte e seis annos; calcule a menina quantas arrobas de
+esturrinho ella tem atulhado n'aquelles narizes! Pois olhe, quer me
+creia, quer não, tenho-lhe conhecido mais de uma duzia de chichisbeos,
+não fallando no padre capellão, que esse ainda agora lhe fornece a
+garrafeira, á nossa custa, entende-se. É uma dissipadora dos rendimentos
+da casa. Eu, que sou escrivã, é que sei o que ella rouba. Eu tenho
+immensa pena de vêr a menina hospedada em casa d'esta hypocrita. Não se
+deixe levar das imposturices d'ella, meu anjinho. Eu sei que seu pae lhe
+mandou fallar, e a encarregou de a não deixar escrever, nem receber
+cartas; mas olhe, minha filha, se quizer escrever, eu dou-lhe tinteiro,
+papel, obreias e o meu quarto, se para lá quizer ir escrever. Se tem
+alguem que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu
+chamo-me Dionizia da Immaculada Conceição.
+
+--Muito agradecida, minha senhora--disse Thereza, animada pelo
+offerecimento.--Quem me déra poder mandar um recado a uma pobre que mora
+no bêcco do...
+
+--O que quizer, menina. Eu mando lá logo que fôr dia. Esteja descansada.
+Não se fie de alguem, senão de mim. Olhe que a mestra de noviças e a
+organista são duas falsas. Não lhe dê trela, que, se as admitte á sua
+confiança, está perdida. Ahi vem a lêsma... Fallemos n'outra coisa...
+
+A prelada vinha entrando, e a escrivã proseguiu assim:
+
+--Não ha, não ha nada mais agradavel que a vida do convento, quando se
+tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa... Ai! eras tu, menina?
+Olha, se estivessemos a fallar mal de ti!
+
+--Eu sei que tu nunca fallas mal de mim--disse a prelada, piscando o
+olho a Thereza.--Ahi está essa menina que diga o que eu lhe estive a
+dizer das tuas boas qualidades...
+
+--Pois o que eu disse de ti--respondeu soror Dionizia da Immaculada
+Conceição--não precisas de perguntar, porque felizmente ouviste o que eu
+estava dizendo. Oxalá que se podesse dizer o mesmo das outras que
+deshonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado n'uma meada, que é mesmo
+coisa de peccado.
+
+--Então não vaes ao côro, nini?--tornou a prioreza.
+
+--Já agora é tarde... Tu absolves-me da falta, sim?
+
+--Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitencia beberes um copinho...
+
+--Do estomacal?
+
+--Podéra...
+
+Dionizia cumpriu a penitencia, e sahiu para, dizia ella, deixar a
+prelada na sua hora de oração.
+
+Não delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do
+convento, onde Thadeu de Albuquerque mandára sua filha a respirar o
+purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais
+depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique.
+
+Encheu-se o coração de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas
+de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira
+fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das
+esperanças immorredoiras. Algumas cartas lêra de sua tia, prelada em
+Monchique, e por ellas formára conceito do que devia ser uma santa.
+D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer ás
+velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e
+até milagres. Que desillusão tão triste e ao mesmo tempo que ancia de
+fugir d'alli!
+
+A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova
+separada, com cortinas de cassa.
+
+Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a
+menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia
+seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha
+não escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o não prohibiria, se
+tivesse tinteiro e papel na cella.
+
+Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a
+corôa a meia voz. Se o murmurio da oração infadasse a hospeda, não teria
+ella muita razão de queixa, por que a devota monja ao segundo
+_Padre-Nosso_ cabeceava de modo que já não atinou com a primeira
+_Áve-Maria_. Levantou-se, cambaleando uma mesura ás imagens do
+sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar.
+
+Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre
+o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel.
+
+A lampada do oratorio lançava um froixo raio sobre a cadeira, em que
+Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao pé da
+cadeira, e escreveu a Simão, relatando-lhe miudamente os successos
+d'aquelle dia. A carta rematava assim:
+
+«Não receies nada por mim, Simão. Todos estes trabalhos me parecem
+leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraça
+não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. São
+alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolução que meu
+pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podér. A falta das minhas
+noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim
+desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam
+de amor e de conforto. Vou vêr se posso esquecer-me dormindo. Como isto
+é triste, meu querido amigo!... Adeus.»
+
+
+
+
+VIII.
+
+
+Marianna, a filha de João da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do
+braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da
+fraqueza da moça, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher
+affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as
+feiras e romarias.
+
+--Não ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabeça, quando eu
+fui á Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou
+o casco á navalha--disse o ferrador.--Pelo que vejo o sangue do fidalgo
+deu volta ao estomago da rapariga!... Estamos então bem aviados! Eu
+tenho cá a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu
+doente.... És ou não és, rapariga?--disse elle á filha, quando ella
+abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza.
+
+--Serei com muito gosto, se o pae quizer.
+
+--Pois então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para
+a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida;
+vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa.
+Conversa com elle, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que
+não é bom quando se está fraco do miôlo. E v. s.^a não tenha aquellas de
+ceremonia, nem me diga a Marianna--a menina isto, a menina aquillo.
+É--rapariga dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as
+compressas--e nada de politicas. Ella está aqui como sua criada, porque
+eu já lhe disse que, se não fosse o pae de v. s.^a, já ella ha muito
+tempo que andava por ahi ás esmolas, ou peor ainda. É verdade que eu
+podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez
+annos, afóra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha mãe, que Deus
+haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse á forca ou pela barra fóra,
+vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas.
+
+--Se vocemecê tem uma casinha soffrivel--atalhou Simão--póde, querendo,
+casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira.
+
+--Assim ella quizesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da igreja a
+queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda vale
+quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e
+eu, a fallar a verdade, sou só e mais ella, e tambem não tenho grande
+vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se
+não fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou ás
+feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo
+sósinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe
+ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me
+fóra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella
+não me deixa ir, e eu acho graça á obediencia com que me deixo guiar
+pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ella me
+pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguezia sou.
+
+Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de
+linho. Simão estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas
+sublime de poesia e naturalidade.
+
+João da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes
+termos:
+
+--Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como
+quem é, e como se fosse teu irmão ou marido.
+
+O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu,
+natural como todas, da bôca de seu pae.
+
+A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão.
+
+--Não foi nada boa esta praga que lhe cahiu em casa, Marianna!--disse o
+academico--Fazerem-na enfermeira d'um doente, e privarem-na talvez de ir
+costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam....
+
+--Que se me dá a mim d'isso!--respondeu ella, sacudindo o avental, e
+baixando o coz ao logar da cintura com infantil graça.
+
+--Sente-se, Marianna; seu pae disse-lhe que se sentasse... Vá buscar a
+sua costura, e dê-me d'alli uma folha de papel e um lapis que está na
+carteira.
+
+--Mas o pae tambem me disse que o não deixasse escrever...--replicou
+ella, sorrindo.
+
+--Pouco, não faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.
+
+--Veja lá o que faz...--tornou ella, dando-lhe o papel e o lapis--Olhe
+se alguma carta se perde, e se descobre tudo...
+
+--Tudo, o quê, Marianna? Pois sabe alguma coisa?!
+
+--Era preciso que eu fosse tola. Eu não lhe disse já que sabia da sua
+amizade a uma menina fidalga da cidade?
+
+--Disse; mas que tem isso?
+
+--Aconteceu o que eu receava. V. s.^a está ahi ferido, e toda a gente
+falla n'uns homens que appareceram mortos.
+
+--Que tenho eu com os homens que appareceram mortos?
+
+--Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens
+eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de
+mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomára que ninguem
+soubesse, para que meu pae e o senhor Simão não tenham alguns maiores
+trabalhos...
+
+--Tem razão, Marianna, eu não devia esconder de si o mau encontro que
+tivemos...
+
+--E Deus queira que seja o ultimo!... Tanto tenho pedido ao Senhor dos
+Passos que lhe dê remedio a essa paixão!... O peor futuro eu que ainda
+está por passar...
+
+--Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja
+bom, e a menina da cidade fica em sua casa.
+
+--Se assim fôr, já prometti dois arrateis de cêra ao Senhor dos Passos;
+mas não me diz o coração que v. s.^a faça o que diz...
+
+-Muito agradecido lhe estou-disse Simão commovido--pelo bem que me
+deseja. Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.
+
+--Basta vêr o que seu paesinho fez pelo meu--disse ella, limpando as
+lagrimas.--O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse á forca
+como toda a gente dizia!... Eu era ainda muito nova quando elle estava
+na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço,
+se elle fosse condemnado á morte. Se o degradassem, então ia com elle,
+ia morrer onde elle fosse morrer. Não ha dia nenhum que eu não peça a
+Deus que dê a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de
+proposito á cidade para beijar os pés a sua mãesinha, e vi suas manas, e
+uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli
+tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia á feira, dava
+uma grande volta para vêr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha
+á janella; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu
+estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu
+muita pancada nos criados, que era mesmo um reboliço que parecia o fim
+do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle até cahiu ao chão a dar risadas
+como um doido... Depois nunca mais o vi senão quando v. s.^a entrou com
+o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça, porque
+tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar,
+porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito
+funda...
+
+--Isso são sonhos, Marianna...
+
+--São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando
+meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro
+n'outro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ella,
+e mais ainda viveu dois mezes... A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas
+Deus sabe o que isto é... Ahi vem meu pae... Senhor dos Passos! não vá
+ser alguma má nova!...
+
+João da Cruz entrou com uma carta que recebêra da pobre do costume. Em
+quanto Simão leu a carta escripta do convento, Marianna fitou os seus
+grandes olhos azues no rosto do academico, e a cada contracção da fronte
+d'elle, angustiava-se-lhe a ella o coração. Não teve mão da sua ancia, e
+perguntou:
+
+--É noticia má!
+
+--Tu és muito atrevida, rapariga!--disse João da Cruz.
+
+--Não é, não--atalhou o estudante.--Não é má a noticia, Marianna. Senhor
+João, deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraçados é que
+sabem avaliar os amigos.
+
+--Isso é verdade; mas eu não me atrevia a perguntar o que a carta diz.
+
+--Nem eu perguntei, meu pae; foi porque me pareceu que o senhor Simão
+estava afflicto quando lia.
+
+--E não se enganou--tornou o doente, voltando-se para o ferrador.--O pae
+arrastou Thereza ao convento.
+
+--Sempre é patife d'uma vez!--disse o ferrador, fazendo com os braços
+instinctivamente um movimento de quem aperta entre as mãos um pescoço.
+N'este lance um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Marianna
+um clarão de innocente alegria.
+
+Simão sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Thereza
+espontaneamente lhe chegou, dizendo:
+
+--Em quanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que está a ferver.
+
+«É necessário arrancar-te d'ahi--dizia a carta de Simão.--Esse convento
+ha de ter uma evasiva. Procura-a, e diz-me a noite e a hora em que devo
+esperar-te. Se não podéres fugir, essas portas hão de abrir-se diante da
+minha cólera. Se d'ahi te mandarem para outro convento mais longe,
+avisa-me, que eu irei sósinho, ou acompanhado, roubar-te ao caminho. É
+indispensavel que te refaças de animo para te não assustarem os arrojos
+da minha paixão. És minha; não sei de que me serve a vida se a não
+sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Thereza, creio. Ser-me-has fiel na
+vida e na morte. Não soffras com paciencia; lucta com heroismo. A
+submissão é uma ignominia, quando o poder paternal é uma affronta.
+Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quasi bom. Diz-me uma
+palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminue as
+forças do coração.»
+
+Simão pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador,
+e recommendou-lhe que o entregasse á pobre com a carta.
+
+Depois ficou relendo a de Thereza, e recordando-se da resposta que déra.
+
+Mestre João foi á cosinha, e disse a Marianna:
+
+--Desconfio d'uma coisa, rapariga.
+
+--Que é, meu pae?
+
+--O nosso doente está sem dinheiro.
+
+--Porquê? o pae como sabe isso?
+
+--É que elle pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ella pezava
+tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto bole-me cá por
+dentro! Queria offerecer-lhe dinheiro, e não sei como ha de ser...
+
+--Eu pensarei n'isso, meu pae--disse Marianna reflectindo.
+
+--Pois sim; cogita lá tu, que tens melhores ideias que eu.
+
+--E se o pae não quizer bolir nos seus quatrocentos, eu tenho aquelle
+dinheiro dos meus bezerros; são onze moedas d'ouro menos um quarto.
+
+--Pois fallaremos: pensa tu no modo de elle aceitar sem _remorsos_.
+
+Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre João, era synonimo de
+_escrupulos_ ou _repugnancia_.
+
+Foi Marianna levar o caldo a Simão, que lh'o rejeitou como distrahido em
+profundo scismar.
+
+--Pois não toma o caldinho?--disse ella com tristeza.
+
+--Não posso, não tenho vontade, menina; será logo. Deixe-me sósinho
+algum tempo; vá, vá; não passe o seu tempo ao pé d'um doente aborrecido.
+
+--Não me quer aqui? irei, e voltarei quando v. s.^a chamar.
+
+Dissera isto Marianna com os olhos a reverem lagrimas.
+
+Simão notou as lagrimas, e pensou um momento na dedicação da môça; mas
+não lhe disse palavra alguma.
+
+E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de occorrer-lhe
+ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus
+heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da
+falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia é baixa e
+plebea. O estylo vai de má vontade para coisas razas. Balzac falla muito
+em dinheiro; mas dinheiro a milhões: não conheço, nos cincoenta livros
+que tenho d'elle, um galã n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no
+modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se
+desembarace das rêdes que um usurario lhe lança, desde a casa do juiz de
+paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta
+por cento. D'isto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem
+sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe
+se encolhe nas proporções d'estes heroesinhos de botequim, de quem o
+leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque não
+tem que fazer com elle. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu
+coração o confesso. Não é bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu
+heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que
+escreveu á mulher estremecida uma carta, como aquella de Simão Botelho.
+Quem a lêsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estações
+das estradas do paiz, carroças e folgadas parelhas de mulas, para
+transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bella fugitiva! As
+estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas não tenho a
+certeza de que houvessem estradas para o Japão. Agora creio que ha,
+porque me dizem que ha tudo.
+
+Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela bôca de mestre João, que o
+filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em
+dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado.
+
+A meu vêr, deviam attribulal-o estes pensamentos:
+
+Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz?
+
+Com que agradeceria os desvelos de Marianna?
+
+Se Thereza fugisse, com que recursos proveria á subsistencia de ambos!
+
+Ora, Simão Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que não era
+grande, e quasi lh'a absorvêra o aluguel da cavalgadura, e a groseta
+generosa que déra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante
+ferrador.
+
+As reliquias d'esse dinheiro déra-as elle á portadora da carta n'aquelle
+dia. Má situação!
+
+Lembrou-se de escrever á mãe. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua
+residencia n'aquella casa? D'este modo não iria elle dar indicios da
+morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho?
+
+Além de que, sobejamente sabia elle que sua mãe o não amava; e, a
+mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario
+para a jornada até Coimbra. Péssima situação!
+
+Cansado de pensar, favoreceu-o a providencia dos infelizes com um somno
+profundo.
+
+E Marianna entrára pé ante pé na sala, e ouvindo-lhe a respiração alta,
+aventurou-se a entrar na alcova. Lançou-lhe um lenço de cassa sobre o
+rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre
+uma banqueta que adornava o quarto, pegou d'ella, e sahiu pé ante pé.
+Abriu a carteira, viu papeis, que não soube lêr, e n'um dos
+repartimentos duas moedas de seis vintens. Foi restituir a carteira ao
+seu logar, e tomou d'um cabide as calças, collête, e jaqueta á
+hespanhola, do hospede. Examinou os bolsos, e não encontrou um ceitil.
+
+Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia hora
+assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se de
+golpe, e conversou longo tempo com o pae. João da Cruz escutou-a,
+contrariou-a; mas ia de vencida sempre pelas replicas da filha; até que,
+a final, disse:
+
+--Farei o que dizes, Marianna. Dá-me cá o teu dinheiro, que não vou
+agora levantar a pedra da lareira para bolir no caixote dos quatrocentos
+mil reis. Tanto faz um como outro: teu é elle todo.
+
+Marianna deu-se pressa em ir á arca, d'onde tirou uma bolsa de linho com
+dinheiro em prata, e alguns cordões, anneis e arrecadas. Guardou o seu
+oiro n'uma boceta, e deu a bolsa ao pae.
+
+João da Cruz apparelhou a egoa, e sahiu. Marianna foi para a sala do
+doente.
+
+Acordou Simão.
+
+--Não sabe!?--exclamou ella com semblante entre alegre e assustado,
+perfeitamente contrafeito.
+
+--Que é, Marianna?
+
+--Sua mãesinha sabe que v. s.^a aqui está.
+
+--Sabe?! isso é impossivel! quem lh'o disse?
+
+--Não sei; o que sei é que ella mandou chamar meu pae.
+
+--Isso espanta-me!... E não me escreveu?
+
+--Não, senhor!... Agora me lembro que talvez ella soubesse que o senhor
+aqui esteve, e cuide que já não está, e por isso lhe não escreveu...
+Poderá ser?
+
+--Poderá; mas quem lh'o diria!? Se isto se sabe, então podem suspeitar
+da morte dos homens.
+
+--Póde ser que não; e ainda que desconfiem, não ha testemunhas. O pae
+disse que não tinha mêdo nenhum. O que fôr, soará. Não esteja agora a
+scismar n'isso... Vou-lhe buscar o caldinho, sim?
+
+--Vá, se quer, Marianna. O ceu deparou-me em si a amizade de uma irmã.
+
+Não achou a moça na sua alegre alma palavras em resposta á doçura que o
+rosto do mancebo exprimira.
+
+Veio com o «caldinho» diminuitivo que a rhetorica d'uma linguagem meiga
+approva; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, a
+par da travessa com meia gallinha loira de gorda.
+
+--Tanta coisa!--exclamou, sorrindo, Simão.
+
+--Coma o que podér--disse ella córando.--Eu bem sei que os senhores da
+cidade não comem em malgas tamanhas, mas eu não tinha outra mais
+pequena, e coma sem nojo, que esta nunca serviu, que a fui eu comprar á
+loja, por pensar que v. s.^a não quizera hontem comer por se atrigar da
+outra.
+
+--Não, Marianna, não seja injusta, eu não comi hontem pela mesma razão
+que não cômo agora: não tinha, nem tenho vontade.
+
+--Mas coma por eu lhe pedir... Perdôe o meu atrevimento... Faça de conta
+que é uma sua irmã que lhe pede. Ainda agora me disse...
+
+--Que o ceu me dava em si a amizade d'uma irmã...
+
+--Pois ahi está...
+
+Simão achou tão necessario á sua conservação o sacrificio, como ao
+contentamento da carinhosa Marianna. Passou-lhe na mente, sem sombra de
+vaidade, a conjectura de que era amado d'aquella dôce creatura. Entre si
+disse que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal affeição, quando
+não tinha alma para lh'a premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem
+longe de se affligir, lisongeavam-o os desvelos da gentil moça. Ninguem
+sente em si o pêso do amor que inspira e não comparte. Nas maximas
+afflicções, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda
+sentir-se amado quem já não póde achar no amor diversão das penas, nem
+soldar o ultimo fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do
+coração humano, seja o que fôr, no amor, que nos dão, é que nós
+graduamos o que valemos em nossa consciencia.
+
+Não desprazia, portanto, o amor de Marianna ao amante apaixonado de
+Thereza. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se
+me deixam ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza,
+que é toda galas no ceu, no mar, e na terra, é toda incoherencias,
+absurdezas, e vicios no homem, rei da creação chamado!
+
+
+
+
+IX.
+
+
+Duas horas se detivera João da Cruz fóra de casa. Chegou quando a
+curiosidade do estudante era já soffrimento.
+
+--Estará seu pae prêso?!--dissera elle a Marianna.
+
+--Não m'o diz o coração, e o meu coração nunca me engana--respondêra
+ella.
+
+E Simão replicára:
+
+--E que lhe diz o coração a meu respeito, Marianna? Os meus trabalhos
+ficarão aqui?
+
+--Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simão... mas não digo...
+
+--Diga, que lh'o peço, porque tenho fé no bom anjo que falla em sua
+alma. Diga...
+
+--Pois sim... O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no
+comêço...
+
+Simão ouviu-a attentamente, e não respondeu. Assombrou-lhe o animo esta
+ideia torva, e affrontosa á singela rapariga:--«Pensará ella em me
+desviar de Thereza para se fazer amar?»
+
+Pensava assim, quando chegou o ferrador.
+
+--Aqui estou de volta--disse elle com semblante festivo--Sua mãe
+mandou-me chamar...
+
+--Já sei... E como soube ella que eu estava aqui?
+
+--Ella sabia que o fidalgo estivera cá; mas cuidava que v. s.^a já tinha
+ido para Coimbra. Quem lh'o disse não sei, nem perguntei; porque a uma
+pessoa de respeito não se fazem perguntas, dizia meu pae. Dizia ella que
+sabia o fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa;
+mas eu, cá como pude, accommodei-a, e não ha novidade. Perguntou-me o
+que estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fôra para o
+convento. Disse-lhe que v. s.^a estava adoentado d'uma quéda que dera do
+cavallo abaixo. Tornou ella a perguntar se o senhor tinha dinheiro; e eu
+disse que não sabia. E vai ella foi dentro, e voltou d'ahi a pouco com
+este embrulho, para eu lhe entregar. Ahi o tem tal e qual; não sei
+quanto é.
+
+--E não me escreveu?
+
+--Disse que não podia ir á escrivaninha, porque estava lá o senhor
+corregedor--respondeu com firmeza mestre João--e tambem me recommendou
+que não lhe escrevesse v. s.^a, senão de Coimbra, porque, se seu pae
+soubesse que o menino cá estava, ia tudo razo lá em casa. Ora ahi está.
+
+--E não lhe fallou nos criados de Balthazar?
+
+--Nem um pio!.. Lá na cidade ninguem já fallava n'isso hoje.
+
+--E que lhe disse da senhora D. Thereza?
+
+--Nada, senão que ella fôra para o convento. Agora, deixe-me ir amantar
+a egua, que está a escorrer em fio. Ó rapariga, traz-me cá a manta.
+
+Em quanto Simão contava onze moedas menos um quartinho, maravilhado da
+estranha liberalidade, Marianna, abraçando o pae no repartimento visinho
+da casa, exclamava:
+
+--Arranjou muito bem a mentira!...
+
+--Ó rapariga, quem mentiu foste tu! Aquillo lá o arranjaste tu com essa
+tua cabecinha! Mas a coisa sahiu ao pintar, heim? Elle comeu-a que nem
+confeitos! Anda lá, que ficaste sem os bezerros; mas lá virá tempo em
+que elle te dê bois a troco dos bezerros.
+
+--Eu não fiz isto por interesse, meu pae...--atalhou ella resentida.
+
+--Olha o milagre! isso sei eu; mas, como diz lá o dictado, quem semeia
+colhe.
+
+Marianna quedou pensativa, e dizendo entre si:--Ainda bem, que elle não
+póde pensar de mim o que meu pae pensa. Deus sabe que não tenho
+esperanças nenhumas interesseiras no que fiz.
+
+Simão chamou o ferrador, e disse-lhe:
+
+--Meu caro João, se eu não tivesse dinheiro, aceitava sem repugnancia os
+seus favores, e creio que vocemecê m'os faria sem esperança de ganhar
+com elles; mas como recebi esta quantia, ha de consentir que eu lhe dê
+parte d'ella para os meus alimentos. Motivos de gratidão a dividas, que
+se não pagam, ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de si, e da
+sua boa filha. Tome este dinheiro.
+
+--As contas fazem-se no fim--respondeu o ferrador, retirando a mão--e
+ninguem nos ha de ouvir, se Deus quizer. Precisando eu de dinheiro cá
+venho. Por ora, ainda está a capoeira cheia de gallinhas, e o pão
+coze-se todas as semanas.
+
+--Mas aceite--instou Simão--e dê-lhe a applicação que quizer.
+
+--Em minha casa ninguem dá leis senão eu--replicou o mestre João, com
+simulado enfadamento--Guarde lá o seu dinheiro, fidalgo, e não fallemos
+mais n'isso, se quer que o negocio vá direito até ao fim. _E
+victo-serio_!
+
+Nos cinco subsequentes dias recebeu Simão regularmente cartas de
+Thereza, umas resignadas e confortadoras, outras escriptas na violencia
+exasperada da saudade. Em uma dizia:
+
+«Meu pae deve saber que estás ahi, e em quanto ahi estiveres, de certo
+me não tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e
+deixassemos esquecer a meu pae os ultimos acontecimentos. Senão, meu
+querido esposo, nem elle me dá liberdade, nem eu sei como hei de fugir
+d'este inferno. Não fazes ideia do que é um convento! Se eu podesse
+fazer do meu coração sacrificio a Deus, teria de procurar uma atmosphera
+menos viciosa que esta. Creio que em toda a parte se póde orar e ser
+virtuosa, menos n'este convento.»
+
+N'outra carta exprimia-se assim: «Não me desampares, Simão, não vás para
+Coimbra. Eu receio que meu pae me queira mudar d'este convento para
+outro mais rigoroso. Uma freira me disse que eu não ficava aqui; outra
+positivamente me affirmou que o pae diligenceia a minha ida para um
+convento do Porto. Sobre tudo, o que me aterra, mas não me dobra, é
+saber eu que o intento do pae é fazer-me professar. Por mais que imagine
+violencias e tyrannias, nenhuma vejo capaz de me arrancar os votos. Eu
+não posso professar sem ser noviça um anno, e ir a perguntas tres vezes;
+hei de responder sempre que não. Se eu podesse fugir d'aqui!... Hontem
+fui á cêrca, e vi lá uma porta de carro que dá para o caminho. Soube que
+algumas vezes aquella porta se abre para entrarem carros de lenha; mas
+infelizmente não se torna a abrir até ao principio do inverno. Se não
+poder antes, meu Simão, fugirei n'esse tempo.»
+
+Tiveram entretanto bom e prompto exito as diligencias de Thadeu de
+Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de summas virtudes,
+cuidando que a filha de seu primo muito de sua devoção e amor a Deus, se
+recolhia ao mosteiro, preparou-lhe casa e congratulou-se com a sobrinha
+de tão piedosa resolução. A carta congratulatoria não a recebeu Thereza,
+porque viera á mão de seu pae. Continha ella reflexões tendentes a
+desvanecêl-a do proposito, se algum desgosto passageiro a impellia á
+imprudencia de procurar um refugio onde as paixões se exacerbavam mais.
+
+Tomadas todas as precauções, Thadeu de Albuquerque fez avisar sua filha
+de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum tempo, e
+que a partida teria logar na madrugada do seguinte dia.
+
+Thereza, quando recebeu a surprendente nova, já tinha enviado a carta
+d'aquelle dia a Simão. Em sua afflictiva perplexidade, resolveu fazer-se
+doente, e tão febril estava das commoções, que dispensava o artificio. O
+velho não queria transigir com a doença; mas o medico do mosteiro reagiu
+contra a deshumanidade do pae e da prioreza interessada na violencia.
+Quiz Thereza n'essa noite escrever a Simão; mas a criada da prelada,
+obedecendo ás suspeitas da ama, não desamparou a cabeceira do leito da
+enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escrivã, n'nma hora de
+má digestão d'aquelle vinho estomacal, que Thereza passava as noites em
+oração mental, e tinha correspondencia com um anjo do céu por
+intervenção d'uma mendiga. Algumas religiosas tinham visto a mendiga no
+páteo do convento esperando a esmola de Thereza; mas cuidaram que era
+aquella pobre uma devoção da menina. As palavras ironicas da escrivã
+foram commentadas, e a mendiga recebeu ordem de sahir da portaria.
+Thereza, n'um impeto de angustia, quando tal soube, correu a uma
+janella, e chamou a pobre, que se retirava assustada, e lançou-lhe ao
+pateo um bilhete com estas palavras: «É impossivel a nossa
+correspondencia. Vou ser tirada d'aqui para outro convento. Espera em
+Coimbra noticias minhas.» Isto foi rapidamente ao conhecimento da
+prioreza, e logo, ás ordens d'ella, partiu o hortelão no encalço da
+pobre. O hortelão seguiu-a até fóra de portas, espancou-a, tirou-lhe o
+bilhete, e foi do convento apresental-o a Thadeu de Albuquerque. A
+mendiga não retrocedeu; caminhou a casa do ferrador, e contou a Simão o
+acontecido.
+
+Simão lançou-se fóra do leito, e chamou João da Cruz. N'aquelle aperto
+queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem, que lhe
+estendesse mão capaz de apertar o cabo d'um punhal. O ferrador ouviu a
+historia, e deu o seu voto: «esperar até vêr». Simão repelliu a
+prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Vizeu
+immediatamente.
+
+Marianna estava alli; ouvira a confidencia, e achára acertada a opinião
+de seu pae. Vendo, porém, a impaciencia do hospede, pediu licença para
+fallar onde não era chamada, e disse:
+
+--Se o senhor Simão quer, eu vou á cidade, e procuro no convento a
+Brito, que é uma rapariga minha conhecida, moça d'uma freira, e dou-lhe
+uma carta sua para entregar á fidalga.
+
+--Isso é possivel, Marianna?!--exclamou Simão, a ponto de abraçar a
+moça.
+
+--Pois então!--disse o ferrador--o que póde fazer-se, faz-se. Vai-te
+vestir, rapariga, que eu vou botar o albardão á égua.
+
+Simão sentou-se a escrever. Tão embaralhadas lhe acudiam as ideias, que
+não atinava a formar o designio mais proveitoso á situação de ambos. Ao
+cabo de longa vacillação, disse a Thereza que fugisse á hora do dia,
+quando a porta estivesse aberta, ou violentasse a porteira a abrir-lh'a.
+Dizia-lhe que marcasse ella a hora do dia seguinte em que elle a devia
+esperar, com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo, promettia
+assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendial-o para se abrirem
+as portas. Este programma era o mais parecido com o espirito do
+academico: em vivo fogo estava aquella pobre cabeça! Fechada a carta,
+começou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados
+impulsos. Encravava as unhas na cabeça, e arrancava os cabellos n'ellas.
+Marrava como cego contra as paredes, e sentava-se um momento para
+erguer-se de mais furioso impeto. Machinalmente aferrava das pistolas, e
+sacudia os braços vertiginosos. Abria a carta para relêl-a, e estava a
+ponto de rasgal-a, cuidando que iria tarde, ou não lhe chegaria ás mãos.
+N'este conflicto de contrarios projectos, entrou Marianna, e muito
+allucinado devia de estar Simão para lhe não dar fé das lagrimas.
+
+O que tu soffrias, nobre coração de mulher pura! Se o que fazes por esse
+moço é gratidão ao homem que salvou a vida de teu pae, que rara virtude
+a tua! Se o amas, se por lhe dar allivio ás dôres, tu mesma lhe
+desempeces o caminho por onde te elle ha de fugir para sempre, que nome
+darei á tua virtude! que anjo te fadou o coração para a santidade d'um
+obscuro martyrio!
+
+--Estou prompta, disse Marianna.
+
+--Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faça muito por não vir sem
+resposta--disse Simão, dando-lhe com a carta um embrulho de dinheiro.
+
+--E o dinheiro também é para a senhora?--disse ella.
+
+--Não, é para si, Marianna: compre um annel.
+
+Marianna tomou a carta, e voltou rapidamente as costas, para que Simão
+lhe não visse o gesto de despeito, se não desprêso.
+
+O academico não ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida para o
+quinteiro, onde o ferrador enfreava a egua.
+
+--Não lhe chegues muito com a vara--disse João da Cruz a Marianna, que,
+d'um pulo, se assentou no albardão, coberto d'uma colxa escarlate.--Tu
+vaes amarella como cidra, moça!--exclamou elle reparando na pallidez da
+moça--Tu que tens?
+
+--Nada; que hei de eu ter?! dê-me cá a vara, meu pae.
+
+A egua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada, a rever-se na
+filha e na egua, dizia em soliloquio, que Simão ouvira:
+
+--Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Vizeu! Pela mais
+pintada não dava eu a minha egua; e, se cá viesse o Mira-Molim de
+Marrocos pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lh'a dava! Isto é
+que são mulheres, e o mais é uma historia!
+
+
+
+
+X.
+
+
+Apeou Marianna defronte do mosteiro, e foi á portaria chamar a sua amiga
+Brito.
+
+--Que boa moça!--disse o padre capellão, que estava no raro lateral da
+porta, praticando com a prioreza, ácerca da salvação das almas, e d'umas
+ancoretas de vinho do Pinhão, que elle recebêra n'aquelle dia, e do qual
+já tinha engarrafado um almude para tonisar o estomago da prelada.
+
+--Que boa moça!--tornou elle, com um olho n'ella e outro no raro, onde a
+ciumosa prioreza se estava remordendo.
+
+--Deixe lá a moça, e diga quando ha de ir a servente buscar o vinho.
+
+--Quando quizer, senhora prioreza; mas repare bem nos olhos, no feitio,
+n'aquelle todo da rapariga!
+
+--Pois repare o senhor padre João--replicou a freira--que eu tenho mais
+que fazer.
+
+E retirou-se com o coração mal-ferido, e o queixo superior escorrendo
+lagrimas... de simonte.
+
+--D'onde é vocemecê?--disse brandamente o padre capellão.
+
+--Sou da aldeia--respondeu Marianna.
+
+--Isso vejo eu; mas de que aldeia é?
+
+--Não me confesso agora.
+
+--Mas não faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou padre.
+
+--Bem vejo.
+
+--Que mau genio tem!...
+
+--É isto que vê.
+
+--Quem procura cá no convento?
+
+--Já disse lá para dentro quem procuro.
+
+--Marianna! és tu?! Anda cá!
+
+A moça fez uma cortezia de cabeça ao padre capellão, e foi ao locutorio
+d'onde vinha aquella voz.
+
+--Eu queria fallar comtigo em particular, Joaquina--disse Marianna.
+
+--Eu vou vêr se arranjo uma grade: espera ahi.
+
+O padre tinha sahido do pateo, e Marianna, em quanto esperava, examinou,
+uma a uma, as janellas do mosteiro. N'uma das janellas, através das
+rexas de ferro, viu ella uma senhora sem habito.
+
+--Será aquella?--perguntou Marianna ao seu coração, que palpitava--Se eu
+fosse amada como ella!...
+
+--Sobe aquellas escadinhas, Marianna, e entra na primeira porta do
+corredor, que eu lá vou--disse Joaquina.
+
+Marianna deu alguns passos, olhou novamente para a janella onde vira a
+senhora sem habito, e repetiu ainda:
+
+--Se eu fosse amada como ella!...
+
+Mal entrou na grade, disse á sua amiga:
+
+--Olha lá, Joaquina, quem é uma menina muito branca, alva como leite,
+que estava alli agora n'uma janella?
+
+--Seria alguma noviça, que ha duas cá muito lindas.
+
+--Mas ella não tinha vestimenta nenhuma de freira.
+
+--Ah! já sei: é a D. Therezinha Albuquerque.
+
+--Então não me enganei--disse Marianna, pensativa.
+
+--Pois tu conhecel-a?
+
+--Não; mas por amor d'ella é que eu cá vim fallar comtigo.
+
+--Então que é?! Que tens tu com a fidalga?
+
+--Eu, cá por mim, nada; mas conheço uma pessoa que lhe quer muito.
+
+--O filho do corregedor?
+
+--Esse mesmo.
+
+--Mas esse está em Coimbra.
+
+--Não sei se está, nem se não. Fazes-me tu um favor?
+
+--Se eu poder...
+
+--Pódes... Eu queria fallar com ella.
+
+--Ó dianho! isso não sei se poderá ser, porque a trazem as freiras
+debaixo d'olho, e ella vai-se embora ámanhã.
+
+--Para onde vai?
+
+--Vai para outro convento, não sei se de Lisboa, se do Porto. Os bahus
+já estão preparados, e ella está morta por sahir. E tu que lhe queres?
+
+--Não t'o posso dizer, porque não sei... Queria dar-lhe um papel... Faz
+com que ella cá venha, que eu dou-te chita para um vestido.
+
+--Como tu estás rica, Marianna!...--atalhou, rindo, Joaquina--Eu não
+quero a tua chita, rapariga. Se eu podér dizer-lhe que venha, sem que
+alguem me ouça, digo-lh'o. E agora é boa maré, porque tocou ao côro....
+Deixa-me lá ir.
+
+Joaquina sahiu-se bem da difficil commissão. Thereza estava sósinha,
+absorvida a scismar com os olhos fitos no ponto onde vira Marianna.
+
+--A menina faz favor de vir comigo depressinha?--disse-lhe a criada.
+
+Seguiu-a Thereza, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:
+
+--O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se
+perguntarem por v. ex.^a, digo-lhe que a menina está no mirante.
+
+A voz de Marianna tremia, quando D. Thereza lhe perguntou quem era.
+
+--Sou uma portadora d'esta carta para v. ex.^a
+
+--É de Simão!--exclamou Thereza.
+
+--Sim, minha senhora.
+
+--A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:
+
+--Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguem
+me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de
+Monchique do Porto. Que se não afflija, porque eu sou sempre a mesma.
+Que não venha cá, porque seria inutil, e muito perigoso. Que vá vêr-me
+ao Porto, que eu hei de arranjar modo de lhe fallar. Diga-lhe isto, sim?
+
+--Sim, minha senhora.
+
+--Não se esqueça, não? Vir cá por modo nenhum. É impossivel fugir, e vou
+muito acompanhada. Vai o primo Balthazar e as minhas primas, e meu pae,
+e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho
+é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?
+
+Joaquina disse fóra da porta:
+
+--Menina! olhe que a prioreza anda lá por dentro a procural-a.
+
+--Adeus, adeus--disse Thereza sobresaltada.--Tome lá esta lembrança como
+prova da minha gratidão.
+
+E tirou do dedo um annel de ouro, que offereceu a Marianna.
+
+--Não aceito, minha senhora.
+
+--Porque não aceita?
+
+--Porque não fiz algum favor a v. ex.^a. A receber alguma paga ha de ser
+de quem me cá mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá que seja
+feliz.
+
+Sahiu Thereza, e Joaquina entrou na grade.
+
+--Já te vaes embora, Marianna?
+
+--Vou, que é pressa; um dia virei conversar comtigo muito. Adeus,
+Joaquina.
+
+--Pois não me contas o que isto é? O amor da fidalga está perto d'aqui?
+Conta, que eu não digo nada, rapariga!...
+
+--Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquininha.
+
+Marianna, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga,
+e, se alguma vez se distrahia d'este exercicio de memoria, era para
+pensar nas feições da amada do seu hospede, e dizer, como em segredo, ao
+seu coração: «Não lhe bastava ser fidalga e rica; e, além de tudo, linda
+como nunca vi outra!» E o coração da pobre moça, avergando ao que a
+consciencia lhe ia dizendo, chorava.
+
+Simão, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do
+caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.
+
+Ao descobrir Marianna, desceu ao quinteiro, despresando cautelas, e
+esquecido já do ferimento cuja crise de perigo peorára n'aquelle dia,
+que era o oitavo depois do tiro.
+
+A filha do ferrador deu o recado, sem alteração de palavra. Simão
+escutára-a placidamente até ao ponto em que lhe ella disse que o primo
+Balthazar a acompanhava ao Porto.
+
+--O primo Balthazar!...--murmurou elle com um sorriso sinistro--sempre
+este primo Balthazar cavando a sua sepultura e a minha!...
+
+--A sua, fidalgo?!--exclamou João da Cruz--morra elle, que o levem
+trinta milhões de diabos! mas v. s.^a ha de viver em quanto eu fôr João.
+Deixe-a ir para o Porto, que não tem perigo no convento. D'hora a hora
+Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, está por lá algum tempo,
+e ás duas por tres, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha
+engrampa-o, e é sua como dois e dois serem quatro.
+
+--Eu hei de vêl-a antes de partir para Coimbra--disse Simão.
+
+--Olhe que ella recommendou-me muito que não fosse lá--acudiu Marianna.
+
+--Por causa do primo?--tornou o academico ironicamente.
+
+--Acho que sim, e por talvez não servir de nada lá ir v. s.^a--respondeu
+timidamente a moça.
+
+--Lá se quer--bradou mestre João--a mulher vai-se-lhe tirar ao caminho.
+Não tem mais que dizer.
+
+--Meu pae! não metta este senhor em maiores trabalhos!--disse Marianna.
+
+--Não tem duvida, menina--atalhou Simão--eu é que não quero metter
+ninguem em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ella seja, hei
+de eu luctar sósinho.
+
+João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se
+ennobrecia, disse:
+
+--Senhor Simão, v. s.^a não sabe nada do mundo. Não metta sósinho a
+cabeça aos trabalhos, que elles, como o outro que diz, quando pegam de
+ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rustico;
+mas, a bem dizer, estou n'aquella d'aquelle que dizia que o mal dos seus
+burrinhos o fizera alveitar. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem
+com ellas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ella seja filha do
+rei, não se ha de um homem botar a perder. Mulheres ha tantas como a
+praga, e são como as rãs no charco, que mergulha uma, e apparecem quatro
+á tona d'agua. Um homem rico e fidalgo como v. s.^a, onde quer topa uma
+com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o olho. Deixe-a
+ir com Deus ou com a breca, que ella, se tiver de ser sua, á mão lhe ha
+de vir dar, e tanto faz andar p'ra traz como p'ra diante, é dictado dos
+antigos. Olhe que isto não é mêdo, fidalgo; tome sentido, que João da
+Cruz sabe o que é pôr dois homens d'uma feita a olhar o sete-estrello,
+mas não sabe o que é mêdo. Se o senhor quer sahir á estrada e tirar a
+tal pessoa ao pae, ao primo, e a um regimento, se fôr necessario, eu vou
+montar na egua, e d'aqui a tres horas estou de volta com quatro homens,
+que são quatro dragões.
+
+Simão fitára os olhos chammejantes nos do ferrador, e Marianna
+exclamára, ajuntando as mãos sobre o seio:
+
+--Meu pae! não lhe dê esses conselhos!...
+
+--Cala-te ahí, rapariga!--disse mestre João--vai tirar o albardão á
+egua, amanta-a, e bota-lhe sêcco. Não és aqui chamada.
+
+--Não vá afflicta, senhora Marianna--disse Simão á moça, que se retirava
+amargurada.--Eu não aproveito algum dos conselhos de seu pae. Ouço-o com
+boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a
+honra e o coração me aconselhar.
+
+Ao anoitecer, Simão, como estivesse sósinho, escreveu uma longa carta,
+da qual extractamos os seguintes periodos:
+
+«Considero-te perdida, Thereza. O sol de ámanhã póde ser que eu o não
+veja. Tudo, em volta de mim, tem uma côr de morte. Parece que o frio da
+minha sepultura me está passando o sangue e os ossos.
+
+Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se
+conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as
+contrariedades me não privavam de ti. Só o receio de perder-te me mata.
+O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de
+mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ella.
+
+Poderia viver com a paixão infeliz; mas este rancor sem vingança é um
+inferno. Não hei de dar barata a vida, não. Ficarás sem mim, Thereza;
+mas não haverá ahi um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho
+ciumes de todas as tuas horas. Has de pensar com muita saudade no teu
+esposo do ceu, e nunca tirarás de mim os olhos da tua alma para vêres ao
+pé de ti o miseravel que nos matou a realidade de tantas esperanças
+formosas.
+
+Tu verás esta carta quando eu já estiver n'um outro mundo, esperando as
+orações das tuas lagrimas. As orações! Admiro-me d'esta faisca de fé que
+me alumia nas minhas trévas!... Tu déras-me com o amor a religião,
+Thereza. Ainda creio; não se apaga a luz que é tua; mas a providencia
+divina desamparou-me.
+
+Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a
+uma sombra, a razão por que me attrahiste a um abysmo. Escutarás com
+gloria a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.
+
+Á hora em que leres esta carta............»
+
+Não o deixaram continuar as lagrimas, nem depois a presença de Marianna.
+Vinha ella pôr a mesa para a ceia, e quando desdobrava a toalha, disse
+em voz abafada, como se a si mesma sómente o dissesse:
+
+--É a ultima vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa!
+
+--Porque diz isso, Marianna?
+
+--Porque m'o diz o coração.
+
+D'esta vez o academico ponderou supersticiosamente os dictames do
+coração da moça, e com o silencio meditativo deu-lhe a ella a evidencia
+anticipada do vaticinio.
+
+Quando voltou com a travessa da gallinha, vinha chorando a filha de João
+da Cruz.
+
+--Chora com pena de mim, Marianna?--disse Simão enternecido.
+
+--Choro, porque me parece que o não tornarei a vêr; ou, se o vir, será
+de modo que oxalá que eu morresse antes de o vêr.
+
+--Não será, talvez, assim, minha amiga...
+
+--V. s.^a não me faz-uma coisa que eu lhe peço?...
+
+--Veremos o que pede, menina.
+
+--Não saia esta noite, nem ámanhã.
+
+--Pede o impossivel, Marianna. Hei de sahir, porque me mataria se não
+sahisse.
+
+--Então perdôe a minha ousadia. Deus o tenha de sua mão.
+
+A rapariga foi contar ao pae as intenções do academico. Acudiu logo
+mestre João combatendo a ideia da sahida, com encarecer os perigos do
+ferimento. Depois, como não conseguisse dissuadil-o, resolveu
+acompanhal-o. Simão agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com decisão. O
+ferrador não cedia do proposito, e estava já preparando a clavina, e
+arreçoando com medida dobrada a egua--para o que désse e viesse--dizia
+elle, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado, resolvêra não ir
+a Vizeu, e seguir Thereza ao Porto, passados os dias da convalescença.
+Facilmente o acreditou João da Cruz; mas Marianna, submissa sempre ao
+que o seu coração lhe bacorejava, duvidou da mudança, e disse ao pae que
+vigiasse o fidalgo.
+
+Ás onze horas da noite ergueu-se o academico, e escutou o movimento
+interior da casa: não ouviu o mais ligeiro ruido, a não ser o rangido da
+egua na manjedoura. Escorvou de polvora nova as duas pistolas. Escreveu
+um bilhete subscriptado a João da Cruz, e ajuntou-o á carta que
+escrevêra a Thereza. Abriu as portadas da janella do seu quarto, e
+passou d'alli para a varanda de pau, da qual o salto á estrada era sem
+risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral á
+porta da varanda, se abriu, e a voz de Marianna lhe disse:
+
+--Então adeus, senhor Simão. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na
+sua companhia.
+
+O academico parou, e ouviu voz intima que lhe dizia: «O teu anjo da
+guarda falla pela bôca d'aquella mulher, que não tem mais intelligencia
+que a do coração alumiado pelo seu amor.»
+
+--Dê um abraço em seu pae, Marianna--disse-lhe Simão--e adeus... até
+logo, ou....
+
+--Até ao juizo final...--atalhou ella.
+
+--O destino ha de cumprir-se... Seja o que o ceu quizer.
+
+Tinha Simão desapparecido nas trevas, quando Marianna accendeu a lampada
+do sanctuario, e ajoelhou orando com o fervor das lagrimas.
+
+Era uma hora, e estava Simão defronte do convento, contemplando uma a
+uma as janellas. Em nenhuma vira clarão de luz; luz só a do lampadario
+do Sacramento se coava baça e pallida na vidraça d'uma fresta do templo.
+Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu, ali immovel, as quatro
+horas. Das mil visões, que lhe relancearam no atribulado espirito, a que
+mais a miudo se repetia era a de Marianna supplicante com as mãos
+postas; mas, ao mesmo tempo, cria elle ouvir os gemidos de Thereza,
+torturada pela saudade, pedindo ao ceu que a salvasse das mãos de seus
+algozes. O vulto de Thadeu de Albuquerque, arrastando a filha a um
+convento, não lhe afogueava a sêde de vingança; mas cada vez que lhe
+acudia á mente a imagem odiosa de Balthazar Coutinho, instinctivamente
+as mãos do academico se asseguravam da existencia das pistolas.
+
+Ás quatro horas e um quarto acordou a natureza toda em hymnos e
+acclamações ao radiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do
+mosteiro melodias interrompidas pelo toque solemne das Ave-Marias na
+torre. O horisonte passára, de escarlate a alvacento. A purpura da
+aurora, como lavareda enorme, desfizera-se em particulas de luz, que
+ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas planicies e nas
+varzeas, como se o anjo do Senhor, á voz de Deus, viesse desenrolando
+aos olhos da creatura as maravilhas do repontar d'um dia estivo.
+
+E nenhuma d'estas galas do ceu e da terra enlevava os olhos do moço
+poeta!
+
+Ás quatro horas e meia ouviu Simão o tinido de liteiras, dirigindo-se
+áquelle ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira
+ao convento.
+
+Pararam as liteiras vasias na portaria, e logo depois chegaram tres
+senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irmãs de Balthazar,
+acompanhadas de dois mochilas com as mulas á rédea. As damas foram
+sentar-se nos bancos de pedra, lateraes á portaria. Em seguida abriu-se
+a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as tres senhoras entraram.
+
+Momentos depois viu Simão chegar á portaria Thadeu de Albuquerque
+encostado ao braço de Balthazar Coutinho. O velho denotava quebranto e
+desfallecimento a espaços. O de Castro-d'Aire, bem composto de figura e
+caprichosamente vestido á castelhana, gesticulava com o aprumo de quem
+dá as suas irrefutaveis razões, e consola tomando a riso a dôr alheia.
+
+--Nada de lamurias, meu tio!--dizia elle--Desgraça seria vêl-a casada!
+Eu prometto-lhe antes de um anno restituir-lh'a curada. Um anno de
+convento é um optimo vomitorio do coração. Não ha nada como isso para
+limpar o sarro do vicio em corações de meninas creadas á discrição. Se
+meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediencia cega, têl-a-ia agora
+submissa, e ella não se julgaria authorisada a escolher marido.
+
+--Era uma filha unica, Balthazar!--dizia o velho, soluçando.
+
+--Pois por isso mesmo--replicou o sobrinho--Se tivesse outra, ser-lhe-ia
+menos sensivel a perda, e menos funesta a desobediencia. Faria a sua
+casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licença regia
+para desherdar a primogenita. Assim, agora não lhe vejo outro remedio
+senão empregar o cauterio á chaga; com emplastros é que não se faz nada.
+
+Abriu-se novamente a portaria, e sahiram as tres senhoras, e após ellas
+Thereza.
+
+Thadeu enchugou as lagrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que
+não ergueu do chão os olhos.
+
+--Thereza...--disse o velho.
+
+--Aqui estou, senhor--respondeu a filha, sem o encarar.
+
+--Ainda é tempo--tornou Albuquerque.
+
+--Tempo de quê?
+
+--Tempo de seres boa filha.
+
+--Não me accusa a consciencia de o não ser.
+
+--Ainda mais?!... Queres ir para tua casa, e esqueceres o maldito que
+nos faz a todos desgraçados?
+
+--Não, meu pae. O meu destino é o convento. Esquecêl-o nem por morte.
+Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.
+
+Thereza, circumvagando os olhos, viu Balthazar, e estremeceu,
+exclamando:
+
+--Nem aqui!
+
+--Falla comigo, prima Thereza?--disse Balthazar, risonho.
+
+--Comsigo fallo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presença?
+
+--Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha
+eu ha dias, dignos de acompanharem a minha prima; mas esses houve ahi um
+assassino que m'os matou. Á falta d'elles, sou eu que me offereço.
+
+--Dispenso-o da delicadeza--atalhou Thereza com vehemencia.
+
+--Eu é que me não dispenso de a servir, á falta dos meus dois fieis
+criados, que um scelerado me matou.
+
+--Assim devia ser--tornou ella tambem ironica--porque os covardes
+escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.
+
+--Ainda se não fizeram as contas finaes..., minha querida
+prima--redarguiu o morgado.
+
+Este dialogo correu rapidamente, em quanto Thadeu de Albuquerque
+cortejava a prioreza e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas
+de Balthazar, tinham sahido do atrio do convento, e deram de rosto em
+Simão Botelho, encostado á esquina da rua fronteira.
+
+Thereza viu-o.... adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:
+
+--Simão!...
+
+O filho do corregedor não se moveu.
+
+Balthazar, espavorido do encontro, fitando os olhos n'elle, duvidava
+ainda.
+
+--É crivel que esse infame aqui viesse!--exclamou o de Castro-d'Aire.
+
+Simão deu alguns passos, e disse placidamente:
+
+--_Infame..._ eu! e porquê?
+
+--Infame, e infame assassino!--replicou Balthazar--Já fóra da minha
+presença!
+
+--É parvo este homem!--disse o academico--Eu não discuto com s. s.^a...
+Minha senhora--disse elle a Thereza com a voz commovida e o semblante
+alterado unicamente dos affectos do coração--Soffra com resignação, da
+qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a
+violencia, e bem póde ser que a meio caminho do seu calvario a
+misericordia divina lhe redobre as forças.
+
+--Que diz este patife?!--exclamou Thadeu.
+
+--Vem aqui insultal-o, meu tio!--respondeu Balthazar--Tem a petulancia
+de se apresentar a sua filha a confortal-a na sua malvadez! Isto é de
+mais! Olhe que eu esmago-o aqui, su villão!
+
+--Villão é o desgraçado, que me ameaça, sem ousar avançar para mim um
+passo--redarguiu o filho do corregedor.
+
+--Eu não o tenho feito--exclamou enfurecidamente Balthazar--por entender
+que me avilto, castigando-o, na presença de criados de meu tio, que tu
+pódes suppôr meus defensores, canalha!
+
+--Se assim é--tornou Simão, sorrindo--espero nunca me encontrar de rosto
+com s. s.^a. Reputo-o tão covarde, tão sem dignidade, que o hei de
+mandar azorragar pelo primeiro ganha-pão das esquinas.
+
+Balthazar Coutinho lançou-se de impeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a
+garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as
+damas chegaram a interpôr-se entre os dois, Balthazar tinha o alto do
+craneo aberto por uma bala, que lhe entrára na fronte. Vacillou um
+segundo, e cahiu desamparado aos pés de Thereza.
+
+Thadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados
+rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola.
+Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao
+homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara,
+correu da rua fronteira, e se collocou, de bacamarte aperrado, á beira
+de Simão. Estacaram os homens.
+
+--Fuja, que a égua está ao cabo da rua--disse o ferrador ao seu hospede.
+
+--Não fujo... Salve-se, e depressa--respondeu Simão.
+
+--Fuja, que se ajunta o povo, e não tardam ahi soldados.
+
+--Já lhe disse que não fujo--replicou o amante de Thereza, com os olhos
+postos n'ella, que cahira desfallecida sobre as escadas da igreja.
+
+--Está perdido!--tornou João da Cruz.
+
+--Já o estava. Vá-se embora, meu amigo, por sua filha lh'o rogo. Olhe
+que póde ser-me util; fuja...
+
+Abriam-se todas as portas e janellas, quando o ferrador se lançou na
+fuga, até cavalgar a egua.
+
+Um dos visinhos do mosteiro, que, em razão de seu officio, primeiro
+sahiu á rua, era o meirinho geral.
+
+--Prendam-no, prendam-no, que é um matador!--exclamava Thadeu de
+Albuquerque.
+
+--Qual?--perguntou o meirinho geral.
+
+--Sou eu--respondeu o filho do corregedor.
+
+--V. s.^a!--disse o meirinho espantado; e, approximando-se, accrescentou
+a meia voz--venha, que eu deixo-o fugir.
+
+--Eu não fujo--tornou Simão.--Estou prêso. Aqui tem as minhas armas.
+
+E entregou as pistolas.
+
+Thadeu de Albuquerque, quando se recobrou do spasmo, fez transportar a
+filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao
+Porto.
+
+As irmãs de Balthazar seguiram o cadaver de seu irmão para casa do tio.
+
+
+
+
+SEGUNDA PARTE.
+
+
+
+
+I.
+
+
+O corregedor acordara com o grande reboliço que ia na casa, e perguntou
+á esposa, que elle suppunha tambem desperta na camara immediata, que
+bulha era aquella. Como ninguem lhe respondesse, sacudiu freneticamente
+a campainha, e berrou ao mesmo tempo, aterrado pela hypothese de
+incendio na casa. Quando D. Rita acudiu, já elle estava enfiando os
+calções ás avessas.
+
+--Que estrondo é este? quem é que grita?--exclamou Domingos Botelho.
+
+--Quem grita mais é o senhor--respondeu D. Rita.
+
+--Sou eu!? Mas quem é que chora?
+
+--São suas filhas.
+
+--E porquê? Diga n'uma palavra.
+
+--Pois sim, direi: o Simão matou um homem.
+
+--Em Coimbra?... E fazem tanta bulha por isso!
+
+--Não foi em Coimbra, foi em Vizeu--tornou D. Rita.
+
+--A senhora manga comigo?! Pois o rapaz está em Coimbra, e mata em
+Vizeu! Ahi está um caso para que as ordenações do reino não
+providenciaram.
+
+--Parece que brinca, Menezes! Seu filho matou na madrugada de hoje
+Balthazar Coutinho, sobrinho do Thadeu de Albuquerque.
+
+Domingos Botelho mudou inteiramente de aspecto.
+
+--Foi prêso?--perguntou o corregedor.
+
+--Está em casa do juiz de fóra.
+
+--Mande-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e porque foi essa
+morte?!... Mande-me chamar o meirinho, sem demora.
+
+--Porque se não veste o senhor, e vai a casa do juiz?
+
+--Que vou eu fazer a casa do juiz?
+
+--Saber de seu filho como isto foi.
+
+--Eu não sou pae: sou corregedor. Não me incumbe a mim interrogal-o,
+Senhora D. Rita, eu não quero ouvir choradeiras; diga ás meninas que se
+calem, ou que vão chorar no quintal.
+
+O meirinho chamado relatou miudamente o que sabia, e disse ter-se
+verificado que o amor á filha do Albuquerque fôra causa d'aquelle
+desastre.
+
+Domingos Botelho, ouvida a historia, disse ao meirinho:
+
+--O juiz de fóra que cumpra as leis. Se elle não fôr rigoroso, eu o
+obrigarei a sêl-o.
+
+Ausente o meirinho, disse D. Rita Preciosa ao marido:
+
+--Que significa esse modo de fallar de seu filho?
+
+--Significa que sou corregedor d'esta comarca, e que não protejo
+assassinos por ciumes, e ciumes da filha de um homem, que eu detesto. Eu
+antes queria vêr mil vezes morto Simão, que ligado a essa familia.
+Escrevi-lhe muitas vezes dizendo-lhe que o expulsava de minha casa, se
+alguem me désse a certeza de que elle tinha correspondencia com tal
+mulher. Não ha de querer a senhora que eu vá sacrificar a minha
+integridade a um filho desobediente, e de mais a mais homicida.
+
+D. Rita, algum tanto por affecto maternal e bastante por espirito de
+contradicção, contendeu largo espaço; mas desistiu, obrigada pela
+insolita pertinacia e cólera do marido. Tão iracundo e aspero em
+palavras nunca o ella vira. Quando lhe elle disse: «Senhora, em coisas
+de pouca monta o seu dominio era toleravel; em questões de honra, o seu
+dominio acabou: Deixe-me!»--D. Rita, quando tal ouviu, e reparou na
+physionomia de Domingos Botelho, sentiu-se mulher, e retirou-se.
+
+A ponto foi isto de entrar o juiz de fóra na sala de espera. O
+corregedor foi recebel-o, não com o semblante affectuoso de quem vai
+agradecer a delicadeza e implorar indulgencia, senão que de carrancudo
+que ia, mais parecêra ir elle reprehender o juiz por vir n'aquella
+visita dar a crer que a balança da justiça na sua mão tremia algumas
+vezes.
+
+--Começo por dar a v. s.^a os pezames--disse o juiz de fóra--da desgraça
+de seu filho.
+
+--Obrigado a v. s.^a Sei tudo. Está instaurado o processo?
+
+--Não podia deixar eu de acceitar a querella.
+
+--Se a não acceitasse, obrigal-o-ia eu ao cumprimento dos seus deveres.
+
+--A situação do senhor Simão Botelho é pessima. Confessa tudo. Diz que
+matou o algoz da mulher que elle amava...
+
+--Fez muito bem--interrompeu o corregedor, soltando uma casquinada secca
+e rouca.
+
+--Perguntei-lhe se foi em defeza, e fiz-lhe signal que respondesse
+affirmativamente. Respondeu que não; que, a defender-se, o faria com a
+ponta da bota, e não com um tiro. Busquei todos os modos honestos de o
+levar a dar algumas respostas, que denotassem allucinação ou demencia;
+elle, porém, responde e replíca com tanta egualdade e presença de
+espirito, que é impossivel suppor que o assassinio não foi perpetrado
+muito intencionalmente e de claro juizo. Aqui tem v. s.^a uma
+especialissima e triste posição. Queria valer-lhe, e não posso.
+
+--E eu não posso nem quero, senhor doutor juiz de fóra. Está na cadêa?
+
+--Ainda não: está em minha casa. Venho saber se v. s.^a determina que
+lhe seja preparada com decencia a prisão.
+
+--Eu não determino nada. Faça de conta que o prêso Simão não tem aqui
+parente algum.
+
+--Mas, senhor doutor corregedor--disse o juiz de fóra com tristeza e
+compuncção--v. s.^a é pae.
+
+--Sou um magistrado.
+
+--É demasiada a severidade, perdôe-me a reflexão que é amiga. Lá está a
+lei para o castigar; não o castigue v. ex.^a com o seu odio. A desgraça
+quebranta o odio de estranhos, quanto mais o affectuoso resentimento de
+um pae!
+
+--Eu não odeio, senhor doutor; desconheço esse homem em que me falla.
+Cumpra os seus deveres, que lh'o ordena o corregedor, e o amigo mais
+tarde lhe agradecerá a delicadeza.
+
+Sahiu o juiz de fóra, e foi encontrar Simão na mesma serenidade em que o
+deixára.
+
+--Venho de fallar com seu pae;--disse o juiz--encontrei-o mais irado do
+que era natural calcular. Penso que por em quanto naaa póde esperar da
+influencia ou patrocinio d'elle.
+
+--Isso que importa?--respondeu socegadamente Simão.
+
+--Importa muito, senhor Botelho. Se seu pae quizesse, haveria meios de
+mais tarde lhe adoçar a sentença.
+
+--Que me importa a mim a sentença?--replicou o filho do corregedor.
+
+--Pelo que vejo não lhe importa ao senhor ir a uma forca?
+
+--Não, senhor.
+
+--Que diz, senhor Simão!--redarguiu espantado o interrogador.
+
+--Digo que o meu coração é indifferente ao destino da minha cabeça.
+
+--E sabe que seu pae não lhe dá mesmo protecção, a protecção das
+primeiras necessidades na cadêa?
+
+--Não sabia; que tem isso? Que importa morrer de fome, ou morrer no
+patibulo?
+
+--Porque não escreve a sua mãe? Peça-lhe que...
+
+--Que hei de eu pedir a minha mãe?--atalhou Simão.
+
+--Peca-lhe, que amacie a cólera de seu pae, senão o senhor Botelho não
+tem quem o alimente.
+
+--V. s.^a está-me julgando um miseravel, a quem dá cuidado saber onde ha
+de almoçar hoje. Penso que não incumbem ao senhor juiz de fóra essas
+miudezas de estomago.
+
+--De certo não--redarguiu irritado o juiz---Faça o que quizer.
+
+E, chamando o meirinho geral, entregou-lhe o réo, dispensando o aguazil
+de pedir força para acompanhal-o.
+
+O carcereiro recebeu respeitosamente o prêso, e alojou-o n'um dos
+quartos melhores do carcere; mas nú e desprovido de tudo o carcere.
+
+Um outro prêso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Simão sentou-se, cruzou
+os braços, e meditou.
+
+Pouco depois, um criado de seu pae conduziu-lhe o almoço, dizendo-lhe
+que sua mãe lh'o mandava a occultas, e entregando-lhe uma carta d'ella,
+cujo conteúdo importa saber. Simão, antes de tocar no almoço, cujo cabaz
+estava-no pavimento, leu o seguinte:
+
+«Desgraçado, que estás perdido!
+
+Eu não te posso valer, porque teu pae está inexoravel. A occultas d'elle
+é que te mando o almoço, e não sei se poderei mandar-te o jantar!
+
+Que destino o teu! Oxalá que tivesses morrido ao nascer!
+
+Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não quiz
+largar a victima [3].
+
+Para que sahiste de Coimbra? a que vieste, infeliz? Agora sei que tens
+vivido fóra de Coimbra ha quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que
+dissesses a tua mãe!...»
+
+Simão suspendeu a leitura, e disse entre si:
+
+--Como se intende isto?! Pois minha mãe não mandou chamar João da Cruz!
+E não foi ella quem me mandou o dinheiro?
+
+--Olhe que o almoço arrefece, menino!--disse o criado.
+
+Simão continuou a ler, sem ouvir o criado:
+
+«Deves estar sem dinheiro; e eu desgraçadamente não posso hoje enviar-te
+um pinto. Teu irmão Manoel, desde que fugiu para Hespanha, absorve-me
+todas as economias. Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer; mas
+receio bem que teu pae saia de Vizeu, e nos leve para Villa Real, para
+abandonar de todo o teu julgamento á severidade das leis.
+
+Meu pobre Simão! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo é
+que teu pae teve carta d'um lente, participando-lhe a tua falta nas
+aulas, e sahida para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te
+acompanhou.
+
+Não posso mais. Teu pae já espancou a Ritinha, por ella querer ir á
+cadêa.
+
+Conta com o pouco valor de tua pobre mãe ao pé d'um homem infurecido
+como está teu pae.»
+
+Simão Botelho reflectiu alguns minutos, e convenceu-se de que o dinheiro
+recebido era de João da Cruz. Quando sahiu com o espirito d'esta
+meditação, tinha os olhos marejados de lagrimas.
+
+--Não chore, menino;--disse o criado--os trabalhos são para os homens, e
+Deus ha de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simão.
+
+--Leva o almoço--disse elle.
+
+--Pois não quer almoçar?!
+
+--Não. Nem voltes aqui. Eu não tenho familia. Não quero absolutamente
+nada da casa de meus paes. Diz a minha mãe que eu estou socegado, bem
+alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora já.
+
+O criado sahiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava
+doudo. D. Rita achou provavel a suspeita do servo e viu a evidencia da
+loucura nas palavras do filho.
+
+Quando o o carcereiro voltou ao quarto de Simão, entrou acompanhado
+d'uma rapariga camponeza: era Marianna. A filha de João da Cruz que, até
+áquelle momento não apertava sequer a mão do hospede, correu a elle com
+os braços abertos, e o rosto banhado de lagrimas. O carcereiro
+retirou-se, dizendo comsigo: «Esta é bem mais bonita que a fidalga!»
+
+--Não quero ver lagrimas, Marianna--disse Simão--Aqui, se alguem deve
+chorar sou eu; mas lagrimas dignas de mim, lagrimas de gratidão aos
+favores que tenho recebido de si e de seu pae. Acabo de saber que minha
+mãe nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pae aquelle dinheiro, que
+recebi.
+
+Marianna escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.
+
+--Seu pae teve algum perigo?--tornou Simão em voz só perceptivel d'ella.
+
+--Não, senhor.
+
+--Está em casa?
+
+--Está; e parece furioso. Queria vir aqui; mas eu não o deixei.
+
+--Perseguiu-o alguem?
+
+--Não, senhor.
+
+--Diga-lhe que não se assuste, e vá depressa socegal-o.
+
+--Eu não posso ir sem fazer o que elle me disse. Eu vou sahir, e volto
+d'aqui a pouco.
+
+--Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e papel--disse
+Simão, dando-lhe dinheiro.
+
+--Ha de vir logo tudo; já cá podia estar; mas o pae disse-me que não
+comprasse nada sem saber se sua familia lhe mandava o necessario.
+
+--Eu não tenho familia, Marianna. Tome o dinheiro.
+
+--Não recebo dinheiro, sem licença de meu pae. Para essas compras trouxe
+eu de mais. E a sua ferida como estará?
+
+--Ainda agora me lembro que tenho uma ferida!--disse Simão,
+sorrindo--Deve estar boa, que não me dóe.... Soube alguma coisa da D.
+Thereza?
+
+--Soube que foi para o Porto. Estavam alli a contar que o pae a mandára
+metter sem sentidos na liteira, e está muito povo á porta do fidalgo.
+
+--Está bom, Marianna... Não ha desgraçado sem amparo. Vá, pense no seu
+hospede, seja o seu anjo de misericordia.
+
+Saltaram de novo as lagrimas dos olhos da moça; e por entre soluços,
+estas palavras:
+
+--Tenha paciencia. Não ha de morrer ao desamparo. Faça de conta que lhe
+appareceu hoje uma irmã.
+
+E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoutos e uma
+garrafa de licor de canella, que depôz sobre a cadeira.
+
+--Mau almoço é; mas não achei outra coisa prompta--disse ella, e sahiu
+apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratidão.
+
+
+
+
+II.
+
+
+O corregedor, n'esse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e
+filhas para no dia immediato sahirem de Vizeu, com tudo que podesse ser
+transportado em cavalgaduras.
+
+Vou transcrever a singela e dorida reminiscencia d'uma senhora d'aquella
+familia, como a tenho em carta, recebida ha mezes:
+
+«Já lá vão cincoenta e sete annos, e ainda me lembro, como se fossem
+hontem passados os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei
+como é que tenho hoje mais clara a memoria das coisas da infancia.
+Parece-me que, há trinta annos, me não lembravam com tantas
+circumstancias e promenores.
+
+Quando a mãe disse a mim e a minhas irmãs que preparassemos os nossos
+bahus, rompemos todas n'um chôro, que irritou a ira do pae. As manas,
+como mais velhas ou mais affeitas ao castigo, calaram-se logo: eu,
+porém, que só uma vez e unicamente por causa de Simão, tinha sido
+castigada, continuei a chorar, e tive o innocente valor de pedir ao pae
+que me deixasse ir vêr o mano á cadêa antes de sahirmos de Vizeu.
+
+Então fui castigada pela segunda vez e asperamente.
+
+O criado, que levou o jantar á cadêa, voltou com elle e contou-nos que
+Simão já tinha alguns moveis no seu quarto, e estava jantando com
+exterior socegado. Áquella hora todos os sinos de Vizeu estavam dobrando
+a finados por alma de Balthazar.
+
+Ao pé d'elle, disse o criado que estava uma formosa rapariga da aldeia,
+triste e coberta de lagrimas. Apontando-a ao criado que a observava,
+disse Simão:--A minha família é esta.
+
+No dia seguinte, ao romper da manhã, partimos para Villa Real. A mãe
+chorava sempre; o pae, encolerisado por isso, sahiu da liteira em que
+vinha com ella, fez que eu passasse para o seu logar, e fez toda a
+jornada na minha cavalgadura.
+
+Logo que chegamos a Villa Real, eram tão frequentes as desordens em
+casa, á conta do Simão, que meu pae abandonou a familia, e foi sósinho
+para a quinta de Montezellos. A mãe quiz tambem abandonar-nos, e ir para
+os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pae,
+que fizera uma espantosa mudança de genio, quando tal soube, ameaçou
+minha mãe de a obrigar judicialmente a não sahir da casa de seu marido e
+filhas.
+
+Escrevia a mãe a Simão, e não recebia resposta. Pensava ella que o filho
+não respondia: annos depois vimos entre os papeis de meu pae todas as
+cartas que ella escrevêra. Ja se vê que o pae as fazia tirar no correio.
+
+Uma senhora de Vizeu escreveu á mãe, louvando-a pelo muito amor e
+caridade com que ella acudia ás necessidades de seu infeliz filho. Esta
+carta foi-lhe entregue por um almocreve, senão teria o destino das
+outras. Espantou-se minha mãe do conceito em que a tinha a sua amiga, e
+confessou lhe que não o tinha soccorrido, porque o filho rejeitára o
+pouco que ella quizera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de
+Vizeu que uma rapariga, filha d'um ferrador, estava vivendo nas
+visinhanças da cadêa, e cuidava do prêso com abundancia e limpeza, e a
+todos dizia que ali estava por ordem e á custa da senhora D. Rita
+Preciosa. Accrescentava a amiga de minha mãe, que algumas vezes mandára
+chamar a bella moça e lhe quizera dar alguns cosinhados mais exquisitos
+para Simão, os quaes ella rejeitava, dizendo que o senhor Simão não
+aceitava nada.
+
+De tempos a tempos recebiamos estas novas, sempre tristes, porque, na
+ausencia de meu pae, conspiraram, como era de esperar, quasi todas as
+pessoas distinctas de Vizeu contra o meu desgraçado irmão.
+
+A mãe escrevia aos seus parentes da capital, implorando graça regia para
+o filho; mas aquellas cartas não sahiam do correio, e iam dar todas á
+mão de meu pae.
+
+E que fazia este, entretanto, na quinta, sem familia, sem gloria, nem
+recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava
+aquelle grande montado, onde ainda hoje por entre os tojos e urzes que
+voltaram com o abandono, se podem vêr reliquias das cêpas plantadas por
+elle. A mãe escrevia-lhe lastimando o filho; meu pae apenas respondia
+que a justiça não era uma brincadeira, e que na antiguidade os proprios
+paes condemnavam os filhos criminosos.
+
+Teve minha mãe a affoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licença
+para ir a Vizeu. Meu inexoravel pae negou-lh'a, e invectivou-a
+furiosamente.
+
+Passados sete mezes, soubemos que Simão tinha sido condemnado a morrer
+na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as
+janellas por oito dias; vestimos todas de lucto, e minha mãe cahiu
+doente.
+
+Quando se isto soube em Villa Real, todas as pessoas illustres da terra
+foram a Montezellos, a fim de obrigarem brandamente o pae a empregar o
+seu valimento na salvação do filho condemnado. De Lisboa vieram alguns
+parentes protestar contra a infamia que tamanha ignominia faria recahir
+sobre a familia. Meu pae a todos respondia com estas palavras: «A forca
+não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A
+ignominia das familias são as más acções. A justiça não infama senão
+aquelle que castiga.»
+
+Tinhamos nós um tio-avô muito velho e venerando, chamado Antonio da
+Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se a meu pae
+e disse-lhe: Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e tres annos.
+Poderei viver mais dous ou tres? Isto nem já é vida; mas foi-o, e
+honrada, e sem mancha até agora, e já agora ha de assim acabar; meus
+olhos não hão de vêr a deshonra de sua familia. Domingos Botelho, ou tu
+me promettes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me
+mato.--E dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pae
+teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado.
+
+No dia seguinte, foi meu pae para o Porto, onde tinha muitos amigos na
+Relação, e de lá para Lisboa[4].
+
+Em principio de Março de 1805 soube minha mãe com grande prazer que
+Simão fôra removido para as cadêas da Relação do Porto, vencendo os
+grandes obstaculos que oppozera a essa mudança dos queixosos, que eram
+Thadeu de Albuquerque, e as irmãs do morto.
+
+Depois......»
+
+Suspendemos aqui o extracto da carta, para não anticiparmos a narrativa
+de successos, que importa, em respeito á arte, atar no fio cortado.
+
+Simão Botelho vira imperturbavel chegar o dia do julgamento. Sentou-se
+no banco dos homicidas sem patrono, nem testemunhas de defeza. Ás
+perguntas respondeu com o mesmo animo frio d'aquellas respostas ao
+interrogatorio do juiz. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com
+toda a lealdade sem articular o nome de Thereza Clementina de
+Albuquerque. Quando o advogado da accusação proferiu aquelle nome, Simão
+Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:
+
+--Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infamia e
+sangue? Que miseravel accusador está ahi, que não sabe com a confissão
+do réo provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputação d'uma
+mulher? A minha accusação está feita: eu a fiz: agora a lei que falle, e
+cale-se o villão que não sabe accusar sem infamar.
+
+O juiz impôz-lhe silencio. Simão sentou-se, murmurando:
+
+--Miseraveis todos!
+
+Ouviu o réo a sentença de morte natural para sempre na forca arvorada no
+local do delicto. E ao mesmo tempo sahiram d'entre a multidão uns gritos
+dilacerantes. Simão voltou a face para as turbas, e disse:
+
+--Ides ter um bello espectaculo, senhores! A forca é a unica festa do
+povo! Levai d'ahi essa pobre mulher que chora: essa é a creatura unica
+para quem o meu supplicio não será um passatempo.
+
+Marianna foi transportada em braços á sua casinha, na visinhança da
+cadêa. Os robustos braços que a levaram eram os de seu pae.
+
+Simão Botelho, quando, em toda a agilidade e força dos dezoito annos, ia
+do tribunal ao carcere, ouviu algumas vozes que se alternavam d'este
+modo:
+
+--Quando vai elle a padecer?
+
+--É bem feito! vai pagar pelos innocentes que o pae mandou enforcar.
+
+--Queria apanhar a morgada á força de balas!
+
+--Não que estes fidalgos cuidam que não é mais senão matar!...
+
+--Matasse elle um pobre, e tu verias como elle estava em casa!
+
+--Tambem é verdade!
+
+--E como elle vai de cara no ar!
+
+--Deixa ir, que não tarda quem lh'a faça cahir ao chão!...
+
+--Dizem que o carrasco já vem pelo caminho.
+
+--Já chegou de noite, e trazia dous cutélos n'uma coifa.
+
+--Tu viste-o?
+
+--Não; mas disse a minha comadre que lh'o dissera a visinha do cunhado
+da irmã, e que o carrasco está escondido n'uma enxovia.
+
+--Tu has de levar os teus pequenos a vêr o padecente?
+
+--Podéra não! Estes exemplos não se devem perder.
+
+--Eu cá de mim já vi enforcar tres, que me lembre, todos por matadores.
+
+--Por isso tu ha dois annos não atiraste com a vida do Amaro Lampreia a
+casa do diabo!...
+
+--Assim foi; mas, se eu o não matasse, matava-me elle.
+
+--Então de que voga o exemplo?!
+
+--Eu sei cá de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos é que préga aos
+paes que levem os filhos a vêrem os enforcados.
+
+--Isso ha de ser para o não esfolarem a elle, quando elle nos esfola com
+os peditorios.
+
+Tão desassombrado ia o espirito de Simão, que algumas vezes lhe esvoaçou
+nos labios ura sorriso, desafiado pela philosophia do povo, ácerca da
+forca.
+
+Recolhido ao seu quarto, foi intimado para appellar dentro do prazo
+legal. Respondeu que não appellava, que estava contente da sua sorte, e
+de boas avenças com a justiça.
+
+Perguntou por Marianna, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar.
+Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a
+via delirante a fallar em forca, e a pedir que a matassem primeiro.
+Agudissima foi então a dôr do academico ao comprehender, como se
+instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Marianna o amava até
+morrer. Por momentos se lhe esvaiu do coração a imagem de Thereza, se é
+possivel assim pensal-o. Vêl-a-ia por ventura como um anjo redemido em
+serena contemplação do seu creador; e veria Marianna como o symbolo da
+tortura, morrendo a pedaços, sem instantes de amor remunerado que lhe
+dessem a gloria do martyrio. Uma, morrendo amada; outra, agonisando, sem
+ter ouvido a palavra «amor» dos labios que escassamente balbuciavam
+frias palavras de gratidão.
+
+E chorou então aquelle homem de ferro. Chorou lagrimas que valiam bem as
+amarguras de Marianna.
+
+--Cuide de sua filha, senhor Cruz!--disse Simão com fervente supplica ao
+ferrador.--Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. Vá consolar essa
+creatura, que nasceu debaixo da minha má estrella. Tire-a de Vizeu:
+leve-a para sua casa. Salve-a, para que n'este mundo fiquem duas irmãs
+que me chorem. Os favores que me tem feito, já agora dispensa-os a
+brevidade da minha vida. D'aqui a dias mandam-me recolher ao oratorio:
+bom será que sua filha ignore.
+
+De volta, João da Cruz achou a filha prostrada no pavimento, ferida no
+rosto, chorando e rindo, demente em summa. Levou-a amarrada para sua
+casa, e deixou a cargo d'outra pessoa a sustentação do condemnado.
+
+Terribilissimas foram então as horas solitarias do infeliz. Até áquelle
+dia, Marianna, bem quista do carcereiro e protegida pela amiga de D.
+Rita Preciosa, tinha franca entrada no carcere a toda a hora do dia, e
+raras horas deixava sósinho o prêso. Costurava, em quanto elle escrevia,
+ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simão estava no leito
+doente ou prostrado, Marianna, que tivera alguns principios de escripta,
+sentava-se á banca, e escrevia cem vezes o nome _Simão_, que muitas
+vezes as lagrimas diliam. E isto assim, durante sete mezes, sem nunca
+proferir nem ouvir a palavra amor. Isto assim, depois das vigilias
+nocturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa,
+onde ia visitar o pae a deshoras.
+
+Nunca mais o prêso, na perspectiva da forca, viu entrar aquella doce
+creatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar medido e
+calculado para que as honras da asphyxia as gozasse o cordel do
+patibulo. Nunca mais!
+
+E, quando elle avocava a imagem de Thereza, um capricho dos olhos
+quebrantados lhe affigurava a visão de Marianna ao par da outra. E
+lagrimosas via as duas. Saltava então do leito, fincava os dedos nos
+espêssos ferros da janella, e pensava em partir o craneo contra as
+grades.
+
+Não o sostinha a esperança na terra nem no ceu. Raio de luz divina
+jámais penetrou no seu ergastulo. O anjo da piedade incarnára n'aquella
+creatura celestial, que enlouquecêra, ou voltara para o ceu com o
+espirito d'ella. O que o salvava do suicidio não era, pois, esperança em
+Deus, nem nos homens: era este pensamento: «A final, _covarde_! Que
+bravura é morrer quando não ha esperança de vida!? A forca é um
+triumpho, quando se encontra ao cabo do caminho da honra!»
+
+
+
+
+III.
+
+
+E Thereza?
+
+
+Perguntam a tempo, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me
+arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.
+
+Esquecido, não. Muito ha que me reluz e voeja, alada como o ideal
+cherubim dos santos, n'esta minha quasi escuridade[5], aquella ave do
+ceu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que
+ella deixou na terra. Mais lagrimas que sangue deixaste, ó filha da
+amargura! Flores são tuas lagrimas, e do ceu me diz se os perfumes
+d'ellas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita
+devota, que morre canonisada, e cujo cheiro de santidade não passa do
+olfacto hypocrita ou estupido dos mortaes.
+
+Thereza Clementina bem a viram transportada da escadaria do templo, onde
+cabira, á liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu
+defronte de si uma criada, que lhe dizia banaes e frias expressões de
+allivio. Se alguma criada de seu pae lhe era amiga, de certo não
+aquella, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para
+a expansão em gritos restava á affligida menina.
+
+Perguntava-se a si mesma Thereza se aquella horrorosa situação, seria um
+sonho! Sentia-se de novo fallecer de forças, e voltava á vida, sacudida
+pela consciencia da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a
+respirar, chorando com ella, e dizendo-lhe:
+
+--Póde fallar, menina, que ninguem nos segue.
+
+--Ninguem?!
+
+--As suas primas ficaram: apenas vem os dois lacaios.
+
+--E meu pae não?
+
+--Não, fidalga... Póde chorar e fallar á sua vontade.
+
+--E eu vou para o Porto?
+
+--Vamos, sim, minha senhora.
+
+--E tu viste tudo como foi, Constança?
+
+--Desgraçadamente vi....
+
+--Como foi? conta-me tudo.
+
+--A menina bem sabe que seu primo morreu.
+
+--Morreu?! Vi-o cahir quasi aos meus pés; mas....
+
+--Morreu logo, e depois quizeram os criados, á voz de seu pae, prender o
+senhor Simão; mas elle com outra pistola....
+
+--E fugiu?--atalhou Thereza com vehemencia e alegria.
+
+--A final foi elle que se deu á prisão.
+
+--Está prêso?!
+
+E suffocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras
+confortadoras de Constança.
+
+Serenado algum tanto o violento accesso de gemidos e choro, Thereza
+suggeriu á criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem
+onde pousassem, para ella ir a Vizeu dar o ultimo adeus a Simão.
+
+A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos
+perigos que ia accumular á desgraça do seu amante, e animando-a com a
+esperança de livrar-se Simão do crime, com a influencia do pae, apesar
+da perseguição do fidalgo.
+
+Calaram lentamente estas razões no espirito de Thereza, apesar dos
+estorvos do coração.
+
+Chorosa, doente, a revezes desfallecida, foi Thereza vencendo a
+distancia que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de
+jornada.
+
+A prelada já estava sabedora dos successos, por emissarios que se
+adiantaram ao moroso caminhar da liteira.
+
+Foi Thereza recebida com brandura por sua tia, posto que as
+recommendações de Thadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa, e
+absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse.
+
+Ouviu a prelada da bôca de sua sobrinha a fiel historia dos
+acontecimentos, e mostrou-lhe uma a uma as cartas de Simão Botelho.
+Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lagrimas de mulher ao
+fogo da austeridade religiosa, fallou e aconselhou como freira, e freira
+que ciliciava o corpo com as rozetas, e o coração com as privações
+tormentosas de quarenta annos.
+
+Thereza carecia de forças para a rebellião. Deixou a sua tia a santa
+vaidade de exorcismar o demonio das paixões, e deu um sorriso ao anjo da
+morte, que, de permeio ao seu amor e á esperança, lhe interpunha a aza
+negra, que tão de luz refulgente rebrilha ás vezes em corações
+infelizes.
+
+Quiz Thereza escrever.
+
+--A quem, minha filha?--perguntou a prelada.
+
+Não respondeu Thereza.
+
+--Escrever-lhe para que?--tornou a religiosa--Cuidas tu, menina, que as
+tuas cartas lhe chegam á mão? Que vaes tu fazer senão redobrar a ira de
+teu pae contra ti e contra o infeliz prêso! Se o amas, como creio,
+apesar de tudo, cuida em salval-o. Se não ouves a minha razão, finge-te
+esquecida. Se pódes violentar a tua dôr, dissimula, faz muito por que a
+teu pae chegue a noticia de que lhe serás obediente em tudo, se elle
+tiver piedade do teu pobre amigo.
+
+Não recalcitrou Thereza. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe
+que a envolvesse a ella, e ao seu amor, e á sua esperança, de todo, na
+negrura de suas azas.
+
+De mez a mez recebia a abbadessa de Monchique uma carta de seu primo.
+Eram estas cartas um respiradouro da vingança. Em todas dizia o velho
+que o assassino iria ao patibulo irremediavelmente. A sobrinha não via
+as cartas; mas reparava nas lagrimas da compassiva freira.
+
+A debil compleição de Thereza deprecia acceleradamente. A sciencia
+condemnou-a a morte breve. D'isto foi informado Thadeu de Albuquerque, e
+respondeu: «Que a não desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria
+mais tranquillo, e com a sua honra sem mancha.» Era assim immaculada a
+honra do fidalgo de Vizeu!... a HONRA, que dizem proceder em linha recta
+da virtude de Socrates, da virtude de Jesus Christo, e da virtude de
+milhões de martyres, que se deram ás garras das feras, quando predicavam
+a caridade e o perdão aos homens!
+
+Quantas caricias inventou a sympathia e a piedade, todos, por ministerio
+das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o
+ardor, que consumia rapidamente a reclusa. Inutil tudo. Thereza
+reconhecia com lagrimas a compaixão, e ao mesmo tempo alegrava-se,
+tirando das caricias a certeza de que os médicos a julgavam incuravel.
+
+Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento
+dos Remedios de Lamego lhe dissera que Simão tinha sido condemnado á
+morte.
+
+Thereza estremeceu e murmurou, sem forças já para a exclamação:
+
+--E eu vivo ainda!
+
+Depois orou, e chorou; mas os habitos da sua vida em paroxismos
+continuaram inalteraveis.
+
+Perguntou á senhora, que lhe dera a noticia, se a sua amiga do convento
+dos Remedios lhe faria a esmola de fazer chegar ás mãos de Simão uma
+carta. Promptificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada.
+Entendeu esta religiosa que o derradeiro colloquio entre dous moribundos
+não podia damnifical-os na vida temporal nem na vida eterna.
+
+Esta é a carta, que leu Simão, quinze dias depois do seu julgamento:
+
+«Simão, meu esposo. Sei tudo... Está comnosco a morte. Olha que te
+escrevo sem lagrimas. A minha agonia começou ha sete mezes. Deus é bom,
+que me poupou ao crime. Ouvi a noticia da tua proxima morte, e então
+soube por que estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim,
+Simão!.. Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos
+de felicidade, e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nossos
+innocentes desejos!... Porque não merecemos nós o que tanta gente
+tem!... Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crêl-o! A eternidade
+apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz, que me guiava
+de ti para a fé. Mas não póde findar assim o nosso destino. Vê se podes
+segurar o ultimo fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-hemos
+n'um outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu
+rezo, supplíco; mas desfalleço na fé, quando me lembram as ultimas
+agonias do teu martyrio. As minhas são suaves, quasi que as não sinto.
+Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranquillo. O peor é a
+saudade, saudade d'aquellas esperanças que tu achavas no meu coração
+adivinhando as tuas. Não importa, se nada ha além d'esta vida. Ao menos,
+morrer é esquecer. Se tu podesses viver agora, de que te serviria? Eu
+tambem estou condemnada, e sem remedio. Segue-me, Simão! não tenhas
+saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser
+feliz se me não tivesses encontrado no caminho por onde te levei á
+morte... E que morte, meu Deus!... Aceita-a! não te arrependas. Se houve
+crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angustias que tens de soffrer
+no carcere... e nos ultimos dias, e na presença da...»
+
+Thereza ia escrever uma palavra, quando a penna lhe cahiu da mão, e uma
+convulsão lhe vibrou todo o corpo por largo espaço. Não escreveu a
+palavra; mas a ideia de _forca_ parou-lhe a vida. A freira entrou na
+cella a pedir-lhe a carta, porque o correio ia partir. Thereza,
+indicando-lh'a, disse:
+
+--Leia, se quizer, e feche-a, por caridade, que eu não posso.
+
+Nos tres dias seguintes Thereza não sahiu do leito. A cada hora, as
+religiosas assistentes esperavam que ella fechasse os olhos.
+
+--Custa muito morrer!--dizia algumas vezes a enferma.
+
+Não faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o espírito do mundo.
+
+Thereza ouvia-os, e dizia com ancia:
+
+--Mas a esperança do ceu, sem elle!... que é o ceu, meu Deus?
+
+E o apostolico capellão do mosteiro não sabia dizer se os bens do ceu
+tinham commum com os do mundo as delicias que falsamente na terra se
+chamam assim.
+
+Aquellas subtilezas espirituaes, que vem com algumas especies de tisica,
+assim á maneira dos ultimos lampejos da vital flamma, tinha-as a
+enferma, quando acontecia fallarem-lhe as religiosas na bemaventurança.
+Ás vezes, se o capellão, convidado pela lucidez de Thereza, entrava os
+dominios da philosophia, tratando como problema a immortalidade da alma,
+a inculta senhora argumentava em breves termos, mas com razões tão
+claras a favor da união eterna das almas, já d'este mundo esposas, que o
+padre ficava em duvida se seria heretico contestar uma clausula não
+inscripta em algum dos quatro evangelhos.
+
+Maravilhava-se já a medicina da pertinacia d'aquella vida. Tinha a
+abbadessa escripto a seu primo Thadeu, apressurando-o a ir vêr o anjo ao
+despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade, e por ventura de amor
+paternal, deliberou tirar do convento a filha na esperança de salval-a
+ainda. Uma forte razão accrescia áquella: era a mudança do condemnado
+para os carceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao
+Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava á
+doente esta carta de Simão:
+
+«Não me fujas ainda, Thereza. Já não vejo a forca, nem a morte. Meu pae
+protege-me, e a salvação é possivel. Prende ao coração os ultimos fios
+da tua vida. Prolonga a tua agonia, em quanto eu te disser que espero.
+Ámanhã vou para as cadêas do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou
+commutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda
+a parte ha ceu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a
+pedra do sepulcro é que nunca se levanta. Vive, Thereza, vive! Ha dias
+lembrava-me que as tuas lagrimas lavariam da minha face as nódoas do
+sangue do enforcado. Esse pesadêlo atroz passou. Agora, n'este inferno
+respira-se; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta.
+Já fito os olhos no ceu, e reconheço a providencia dos infelizes. Hontem
+vi as nossas estrellas, aquellas dos nossos segredos nas noites da
+ausencia. Volvi á vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não
+morras, filha da minha alma!»
+
+Ia alta a noite, quando Thereza, sentada no seu leito, leu esta carta.
+Chamou a criada para ajudal-a a vestir. Mandou abrir a janella do seu
+quarto, e encostou a face ás rexas de ferro. Esta janella olhava para o
+mar; e o mar era n'essa noite uma immensa flamma de prata; e a lua
+esplendidissima eclipsava o fulgor d'umas estrellas, que Thereza
+procurava no ceu.
+
+--São aquellas!--exclamou ella.
+
+--Aquellas quê, minha senhora?--disse Constança.
+
+--As minhas estrellas!... pallidas como eu... A vida! ai! a
+vida!--clamou ella, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos
+cadavericas--Quero viver! Deixai-me viver, ó Senhor!
+
+--Ha de viver, menina! ha de viver, que Deus é piedoso!--disse a
+criada--mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande
+mal.
+
+--Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver... Não vejo o ceu ha tanto
+tempo! Sinto-me resuscitar aqui, Constança! Porque não tenho eu
+respirado todas as noites este ar?! Eu poderei viver alguns annos?
+poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito á minha Virgem Santissima!
+Vamos orar ambas!... Vamos, que o Simão não morre... O meu Simão vive e
+quer que eu viva. Está no Porto amanhã; e talvez já esteja...
+
+--Quem, minha senhora?!
+
+--Simão, o Simão vem para o Porto.
+
+A criada julgou que sua ama delirava; mas não a contrariou.
+
+--Teve carta d'elle a fidalga?--tornou ella, cuidando que assim lhe
+alimentava aquelle instante de febril contentamento.
+
+--Tive... queres ouvir?... eu leio...
+
+E leu a carta, com grande pasmo de Constança, que se convenceu.
+
+Agora vamos rezar, sim?... Tu não és inimiga d'elle, não? Olha,
+Constança, se eu casar com elle, tu vaes para a nossa companhia. Verás
+como és feliz. Queres ir, não queres?
+
+--Sim, minha senhora, vou; mas elle conseguirá livrar-se da morte?
+
+--Livra; tu verás que livra; o pae d'elle ha de livral-o... e a Virgem
+Santissima é que nos ha de unir. Mas se eu morro... se eu morro, meu
+Deus!
+
+E com as mãos convuísamente enlaçadas sobre o seio, Thereza archejava em
+pranto.
+
+--Se eu não tenho já forças!... todos dizem que eu morro, e o medico já
+nem me receita!... Então melhor me fôra ter acabado antes d'esta hora!
+Morrer com esperanças, ó mãe de Deus!...
+
+E ajoelhou ante o retabulo devoto, que trouxera do seu quarto de Vizeu,
+ao qual sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os
+olhos das duas senhoras moribundas tinham fixado os seus ultimos raios
+de luz.
+
+
+
+
+IV.
+
+
+Annunciára-se Thadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia
+seguinte dos anteriores successos.
+
+Sua prima, primeira senhora que lhe sahiu ao locutorio, vinha enxugando
+lagrimas de alegria.
+
+--Não cuide que eu choro de afflicta, meu primo--disse ella--O nosso
+anjo, se Deus quizer, pode salvar-se. Logo de manhã a vi a passear por
+seu pé nos dormitorios. Que differença de semblante ella tem hoje! Isto,
+meu primo, é milagre de duas santas, que temos inteiras na claustra, e
+com as quaes algumas perfeitas creaturas d'esta casa se apegaram. Se as
+melhoras continuarem assim, temos Thereza; o ceu consente que esteja
+entre nós aquelle anjo mais alguns annos...
+
+--Muito folgo com o que me diz, minha boa prima--atalhou o fidalgo--A
+minha resolução é leval-a já para Vizeu, e lá se restabelecerá com os
+ares patrios, que são muito mais sadios que os do Porto.
+
+--É ainda cêdo para tão longa e custosa jornada, meu primo. Não vá o
+senhor cuidar que ella está capaz de se metter ao caminho. Lembre-se que
+ainda hontem pensamos em encontral-a hoje morta. Deixe-a estar mais
+alguns mezes; e depois não digo que a não leve; mas por em quanto não
+consinto semelhante imprudencia.
+
+--Maior imprudencia--replicou o velho--é conserval-a no Porto, onde a
+estas horas deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez não
+saiba a prima?... Pois é verdade: o patife do corregedor sahiu a campo
+em defeza d'elle, e conseguiu que o tribunal da Relação lhe aceitasse a
+appellação da sentença, passado o prazo da lei; e, não contente com
+isto, fez que o filho fosse removido para as cadêas do Porto. Eu agora
+trabalho para que a sentença seja confirmada, e espero conseguil-o; mas,
+em quanto o assassino aqui estiver, não quero que minha filha esteja no
+Porto.
+
+--O primo é pae, e eu sou apenas uma parenta---disse a
+abbadessa--cumpra-se a sua vontade. Quer vêr a menina, não é assim?
+
+--Quero, se é possível.
+
+--Pois bem, em quanto eu vou chamal-a, queira entrar na primeira grade á
+sua mão direita, que Thereza lá vai ter.
+
+Avisada Thereza de que seu pae a esperava, instantaneamente a côr sadia,
+que alegrava as senhoras religiosas, se demudou na lividez costumada.
+Quiz a tia, vendo-a assim, que ella não sahisse do seu quarto, e
+encarregava-se de espaçar a visita do pae.
+
+--Tem de ser--disse Thereza--Eu vou, minha tia.
+
+O pae, ao vêl-a, estremeceu e enfiou. Esperava mudança, mas não tamanha.
+Pensou que a não conheceria, sem o prevenirem de que ia vêr sua filha.
+
+--Como eu te encontro, Thereza!--exclamou elle commovido--Por que me não
+disseste ha mais tempo o teu estado?
+
+Thereza sorriu-se, e disse:
+
+--Eu não estou tão mal como as minhas amigas imaginam.
+
+--Terás tu forças para ir comigo para Vizeu?
+
+--Não, meu pae; não tenho mesmo forças para lhe dizer em poucas palavras
+que não torno a Vizeu.
+
+--Porque não?! Se a tua saude depender d'isso!...
+
+--A minha saude depende do contrario. Aqui viverei ou morrerei.
+
+--Não é tanto assim, Thereza--replicou Thadeu com simulada brandura--Se
+eu entender que estes ares são nocivos á tua saude, has de ir, porque é
+obrigação minha conduzir e corrigir a tua má sina.
+
+--Está corrigida, meu pae. A morte emenda todos os erros da vida.
+
+--Bem sei: mas eu quero-te viva, e portanto recobra forças para o
+caminho. Logo que tiveres meio dia de jornada, verás como a saude volta
+como por milagre.
+
+--Não vou, meu pae.
+
+--Não vaes?!--exclamou irritado o velho, lançando ás grades as mãos
+trementes de ira.
+
+--Separam-nos esses ferros a que meu pae se encosta, e para sempre nos
+separam.
+
+--E as leis? cuidas tu que eu não tenho direitos legitimos para te
+obrigar a sahir do convento? Não sabes que tens apenas dezoito annos?
+
+--Sei que tenho dezoito annos; as leis não sei quaes são, nem me
+incommoda a minha ignorancia. Se póde ser que mão violenta venha
+arrancar-me d'aqui, convença-se meu pae de que essa mão ha de encontrar
+um cadaver. Depois o que quizerem de mim. Em quanto, porém, eu podér
+dizer que não vou, juro-lhe que não vou, meu pae.
+
+--Sei o que é!--bramiu o velho--Já sabes que o assassino está no Porto?
+
+--Sei, sim, senhor.
+
+--Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda...
+
+--Meu pae--interrompeu Thereza--não posso continuar a ouvil-o, porque me
+sinto mal. Dê-me licença... e vingue-se como podér. A minha gloria
+n'este longo martyrio seria uma forca levantada a par da do assassino.
+
+Thereza sahiu da grade, deu alguns passos na direcção da sua cella, e
+encostou-se esvaída á parede. Correram a amparal-a sua tia e criada; mas
+ella, afastando-as suavemente de si, murmurou:
+
+--Não é preciso... Estou boa... Estes golpes dão vida, minha tia.
+
+E caminhou sósinha a passos vacillantes.
+
+Thadeu batia á porta do mosteiro com irrisorio enfurecimento pancadas,
+umas após outras, com grande mêdo da porteira e outras madres,
+espantadas do insolito desproposito.
+
+--Que é isso, primo?--disse a prelada com severidade.
+
+--Quero cá fóra Thereza.
+
+--Como fóra? Quem ha de lançal-a fóra?!
+
+--A senhora, que não póde aqui reter uma filha contra a vontade de seu
+pae.
+
+--Isso assim é; mas tenha prudencia, primo.
+
+--Não ha prudencia, nem meia prudencia. Quero minha filha cá fóra.
+
+--Pois ella não quer ir?
+
+--Não, senhora.
+
+--Então espere que por bons modos a convençamos a sahir, porque não
+havemos trazer-lh'a a rastos.
+
+--Eu vou buscal-a, sendo preciso--redarguiu em crescente
+furia.--Abram-me estas portas, que eu a trarei!
+
+--Estas portas não se abrem assim, meu primo, sem licença superior. A
+Regra do mosteiro não póde ser quebrantada para servir uma paixão
+rancorosa. Tranquillise-se, senhor! Vá descançar d'esse frenesi, e venha
+n'outra hora combinar comigo o que fôr digno de todos nós.
+
+--Tenho entendido!--exclamou o velho, gesticulando contra o ralo do
+locutorio--Conspiram todas contra mim! Ora descancem, que eu lhes darei
+uma boa lição. Fique a senhora abbadessa sabendo que eu não quero que
+minha filha receba mais cartas do matador, percebeu?
+
+--Eu creio que Thereza nunca recebeu cartas de matadores, nem supponho
+que as receba d'ora em diante.
+
+--Não sei se sabe, nem senão. Eu vigiarei o convento. A criada, que está
+com ella, ponham-na fóra, percebeu?
+
+--Porquê?--redarguiu a prelada com enfado.
+
+--Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ella nada me tem contado.
+
+--Se não tinha que lhe dizer, senhor!
+
+--Não me conte historias, prima! A criada quero vêl-a sahir do convento,
+e já!
+
+--Eu não lhe posso fazer a vontade, porque não faço injustiças. Se v.
+s.^a quizer que sua filha tenha outra criada, mande-lh'a; mas a que ella
+tem, logo que deixe de a servir, ha muitas senhoras n'esta casa que a
+desejam, e ella mesma deseja aqui ficar.
+
+--Tenho entendido!---bradou elle--querem-me matar! Pois não matam;
+primeiro ha de o diabo dar um estoiro!
+
+Thadeu de Albuquerque sahiu em corcovos do atrio do mosteiro. Era
+hedionda aquella raiva que lhe contrahia as faces incorreadas, revendo
+suor e sangue aos olhos acovados.
+
+Apresentou-se ao intendente da policia, pedindo providencias para que se
+lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que não solicitava
+competentemente taes providencias. Instou para que o carcereiro da cadêa
+não deixasse sahir alguma carta de um assassino, vindo da comarca de
+Vizeu, por nome Simão Botelho. O intendente disse que não podia, sem
+motivos concernentes a devassas, obstar a que o prêso escrevesse a quem
+quer que fosse.
+
+Reduplicada a furia, foi d'ali ao corregedor do Porto, com os mesmos
+requerimentos em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de
+Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a
+velhice sem juizo era coisa tão de riso como de lastima. Esteve então a
+pique de perder-se a cabeça de Thadeu de Albuquerque. Andava e desandava
+as ruas do Porto, sem atinar com uma sahida digna da sua prosapia e
+vingança. No dia seguinte bateu á porta d'alguns desembargadores, e
+achava-os mais inclinados á clemencia, que á justiça, a respeito de
+Simão Botelho. Um d'elles, amigo de infancia de D. Rita Preciosa, e
+implorado por ella, fallou assim ao sanhudo fidalgo:
+
+--Em pouco está o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas mortes teria
+v. s.^a hoje feito, se alguns adversarios se oppozessem á sua cólera?
+Esse infeliz moço, contra quem o senhor solicita desvariadas violencias,
+conserva a honra na altura da sua immensa desgraça. Abandonou-o o pae,
+deixando-o condemnar á forca; e elle da sua extrema degradação nunca fez
+sahir um grito supplicante de misericordia. Um estranho lhe esmolou a
+subsistencia de oito mezes de carcere, e elle aceitou a esmola, que era
+honra para si e para quem lh'a dava. Hoje fui eu vêr esse desgraçado
+filho de uma senhora que conheci no paço, sentada ao lado dos reis.
+Achei-o vestido de baetão e panno pedrez. Perguntei-lhe se assim estava
+desprovido de fato. Respondeu-me que se vestira á proporção dos seus
+meios, e que devia á caridade d'um ferrador aquellas calças e jaqueta.
+Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu pae para o vestir decentemente.
+Disse-me que não pedia nada a quem consentiu que os delictos de seu
+coração e da sua dignidade e do pundonor do seu nome fossem expiados
+n'um patibulo. Ha grandeza n'este homem de dezoito annos, senhor
+Albuquerque. Se v. s.^a tivesse consentido que sua filha amasse Simão
+Botelho Castello-Branco, teria poupado a vida ao homem sem honra que se
+lhe atravessou com insultos e offensas corporaes de tal affronta, que
+deshonrado ficaria Simão se as não repellisse como homem de alma e
+brios. Se v. s.^a se não tivesse opposto ás honestissimas e innocentes
+affeições de sua filha, a justiça não teria mandado arvorar uma forca,
+nem a vida de seu sobrinho teria sido immolada aos seus caprichos de mau
+pae. E se sua filha casasse com o filho do corregedor de Vizeu, pensa
+acaso v. s.^a que os seus brasões soffriam desdouro? Não sei de que
+seculo data a nobreza do senhor Thadeu de Albuquerque; mas do brasão de
+D. Rita Thereza Margarida Preciosa Caldeirão Castello-Branco posso
+dar-lhe informações sobre as paginas das mais veridicas e illustres
+genealogias do reino. Por parte de seu pae, Simão Botelho tem do melhor
+sangue de Traz-os-Montes, e não se temerá de entrar em competencias com
+o dos Albuquerques de Vizeu, que não é de certo o dos _Albuquerques
+terriveis_ de que resa Luiz de Camões...
+
+Offendido até ao amago pela derradeira ironia, Thadeu ergueu-se de
+impeto, tomou o chapéo e a enorme bengala de castão d'ouro, e fez a
+cortezia da despedida.
+
+--São amargas as verdades, não é assim?--disse-lhe, sorrindo, o
+desembargador Mourão Mosqueira.
+
+--V. ex.^a lá sabe o que diz, e eu cá sei no que hei de ficar--respondeu
+com tom ironico o fidalgo, alanceado na sua honra, e na dos seus quinze
+avós.
+
+O desembargador retorquiu:
+
+--Fique no que quizer; mas vá na certeza, se isso lhe serve d'alguma
+coisa, que Simão Botelho não vai á forca.
+
+--Veremos...--resmoneou o velho.
+
+
+
+
+V.
+
+
+São treze dias corridos do mez de Março de 1805.
+
+Está Simão n'um quarto de malta das cadêas da Relação. Um catre de
+táboas, um colchão de embarque, uma banca e cadeira de pinho, e um
+pequeno pacote de roupa, collocado no logar do travesseiro, são a sua
+mobilia. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contém as cartas
+de Thereza, ramilhetes sêccos, os seus manuscriptos do carcere de Vizeu,
+e um avental de Marianna, o ultimo com que ella enxugára lagrimas, e
+arrancára de si no primeiro instante de demencia.
+
+Simão relê as cartas de Thereza, abre os envoltorios de papel que
+encerram as flôres resequidas, contempla o avental de linho, procurando
+os visiveis vestigios das lagrimas. Depois encosta a face e o peito aos
+ferros da sua janella, e avista os horisontes boleados pelas serras de
+Vallongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pittorescas de Gaya, do
+Candal, de Oliveira, e do mosteiro da serra do Pilar. É um dia lindo.
+Reflectem-se do azul do ceu os mil matizes da primavera. Tem aromas o
+ar, e a viração, fugitiva dos jardins, derrama no ether as urnas que
+roubou aos canteiros. Aquella indefinida alegria, que parece reluzir nas
+legiões de espiritos, que se geram ao sol de Março, rejubila a natureza,
+que toda pompas de luz e flôres se está namorando do calor que a vai
+fecundando.
+
+Dia de amor e de esperanças era aquelle que o Senhor mandava á choça
+encravada na garganta da serra, ao palacio esplendoroso que reverberava
+ao sol os seus espiraculos, ao opulento que passeava as suas molles
+equipagens, bafejado pelo respiro acre das çarças, e ao mendigo que
+desentorpecia os membros encostado ás columnas dos templos.
+
+E Simão Botelho, fugindo a claridade da luz, e o voejar das aves,
+meditando, chorava e escrevia assim as suas meditações:
+
+«O pão do trabalho de cada dia, e o teu seio para repousar uma hora a
+face, pura de manchas. Não pedi mais ao ceu.
+
+Achei-me homem aos dezeseis annos. Vi a virtude á luz do teu amor.
+Cuidei que era santa a paixão que absorvia todas as outras, ou as
+depurava com o seu fogo sagrado.
+
+Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo, que eu não
+possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Thereza, se os meus
+labios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quiz
+eu fazer do meu amor o teu opprobrio.
+
+Nunca, Thereza! Nunca, ó mundo que me condemnas!
+
+Se teu pae quizesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer,
+beijar-lh'os-ia. Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser
+feliz com outro homem, morreria, Thereza!
+
+Mas tu eras sósinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz não devia
+sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insania do crime
+aturde a consciencia; não a minha, que se não temia das escadas da
+forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da
+suffocação.
+
+Eu esperava a cada hora o chamamento para o oratorio, e dizia comigo:
+Fallarei a Jesus Christo.
+
+Sem pavor, premeditava nas setenta horas d'essa agonia moral, e antevia
+consolações que o crime não ousa esperar sem injuria da justiça de Deus.
+
+Mas chorava por ti, Thereza! O travor do meu calix tinha sobre a sua
+amargura as mil amarguras das tuas lagrimas.
+
+Gemias aos meus ouvidos, martyr! Vêr-me-ias sacudido nas convulsões da
+morte, em teus delirios. A mesma morte tem terror da suprema desgraça.
+Tarde morrerias. A minha imagem, em vez de te acenar com a sua palma de
+martyrio, te seria um fantasma levantado das táboas d'um cadafalso.
+
+Que morte a tua, ó minha santa amiga!»
+
+E proseguiu até ao momento em que João da Cruz, com ordem do intendente
+geral da policia, entrou no quarto.
+
+--Aqui!--exclamou Simão, abraçando-o--E Marianna? deixou-a sósinha?!
+morta, talvez?!
+
+--Nem sósinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre está atraz da
+porta... Marianna voltou ao seu juizo.
+
+--Falla a verdade, senhor João?
+
+--Podéra mentir!... Aquillo foi coisa de bruxaria em quanto a mim...
+Sangrias, sedenhos, agua fria na cabeça, e exorcismos do missionario,
+não lhe digo nada, a rapariga está escorreita, e assim que tiver um
+todonada de forças bota-se ao caminho.
+
+--Bemdito seja Deus!--exclamou Simão.
+
+--_Amen_--accrescentou o ferrador--Então que arranjo é este de casa? Que
+breca de tarimba é esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e alguma coisa
+em que um christão se possa sentar.
+
+--Isto assim está excellente.
+
+--Bem vejo... E de barriga? como vamos nós de barriga?
+
+--Ainda tenho dinheiro, meu amigo.
+
+--Ha de ter muito, não tem duvida: mas eu tenho mais, e v. s.^a tem
+ordem franca. Veja lá esse papel.
+
+Simão leu uma carta de D. Rita Preciosa, escripta ao ferrador, em que o
+authorisava a soccorrer seu filho com as necessarias despezas,
+promptificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas
+com a sua assignatura.
+
+--É justo--disse Simão, restituindo a carta--porque eu devo ter uma
+legitima.
+
+--Então já vê que não tem mais que pedir por bôca. Eu vou comprar-lhe
+arranjos...
+
+--Abra-me o seu nobre coração para outro serviço mais valioso--atalhou o
+prêso.
+
+--Diga lá, fidalgo.
+
+Simão pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Thereza de
+Albuquerque.
+
+--O berzabum parece-me que as arma!--disse o ferrador--Venha de lá a
+carta. O pae d'ella está cá, já sabia?
+
+--Não.
+
+--Pois está; e, se o diabo o traz á minha beira, não sei se lhe darei
+com a cabeça n'uma esquina. Já me lembrou de o esperar no caminho, e
+pendural-o pelo gasnete no galho d'um sobreiro... A carta tem resposta?
+
+--Se lh'a derem, meu bom amigo.
+
+Chegou o ferrador a Monehique, a tempo que um official de justiça, dois
+medicos, e Thadeu de Albuquerque entravam no páteo do convento.
+
+Fallou o aguazil á prelada, exigindo em nome do juiz de fóra, que dois
+medicos entrassem no convento a examinar a doente D. Thereza Clementina
+de Albuquerque, a requerimento de seu pae.
+
+Perguntou a prelada aos medicos se elles tinham a necessaria licença
+ecclesiastica para entrarem em Monchique. Á resposta negativa redarguiu
+a abbadessa que as portas do convento não se abriam. Disseram os medicos
+de Thadeu de Albuquerque que era aquelle o estylo dos mosteiros, e não
+houve que redarguir á rigorosa prelada.
+
+Sahiram, e o ferrador só então reflectiu no modo de entregar a carta, A
+primeira ideia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:
+
+--Ó senhora freira!
+
+--Que quer vocemecê?--disse a prelada.
+
+--A senhora faz favor de dizer á senhora D. Therezinha de Vizeu, que
+está aqui o pae d'aquella rapariga da aldeia, que ella sabe?
+
+--E quem é vocemecê?
+
+--Sou o pae da tal rapariga que ella sabe.
+
+--Já sei!--exclamou de dentro a voz de Thereza, correndo ao locutorio.
+
+A prelada retirou-se a um lado, e disse:
+
+--Vê lá o que fazes, minha filha...
+
+--A sua filha escreveu-me?--disse Thereza a João da Cruz.
+
+--Sim, senhora, aqui está a carta.
+
+E depositou na roda a carta, em que a abbadessa reparou, e disse
+sorrindo:
+
+--Muito engenhoso é o amor, Therezinha... Permitta Deus que as noticias
+da rapariga da aldeia te alegrem o coração; mas olha, filhinha, não
+cuides que a tua velha tia é menos esperta que o _pae da rapariga da
+aldeia_.
+
+Thereza respondeu com beijos ás jovialidades carinhosas da santa
+senhora, e sumiu-se a lêr a carta, e a responder-lhe. Entregando a
+resposta, disse ella ao ferrador:
+
+--Não vê ahi sentada n'aquella escadinha uma pobre?
+
+--Vejo, sim, senhora, e conheço-a. Como diabo veio aqui parar esta
+mulher? Cuidei que depois da esfrega, que lhe deu o hortelão, a
+pobresita não tinha pernas que a cá trouxessem! A mulher pelos modos tem
+fibras d'aquella casta!
+
+--Falle baixo--tornou Thereza--Pois olhe... quando trouxer as cartas,
+entregue-lh'as a ella, sim? Eu já a mandei á cadêa; mas não a deixaram
+lá entrar.
+
+--Bem está, e o arranjo não é mau assim. Fique com Deus, menina.
+
+Esta boa nova alegrou Simão. A Providencia divina apiedára-se d'elle
+n'aquelle dia. O restaurar-se o juizo de Marianna, e a possibilidade de
+corresponder-se com Thereza, eram as maximas alegrias, que podiam baixar
+do ceu ao seu cerrado infortunio.
+
+Exaltára-se Simão em graças a Deus, na presença de João da Cruz, que
+arrumava no quarto uns moveis que comprára em segunda mão, quando este,
+suspendendo o trabalho, exclamou:
+
+--Então vou-lhe dizer outra coisa, que não tinha tenção de lhe dizer,
+para o apanhar de _súpeto_.
+
+--Que é?
+
+--A minha Marianna veio comigo, e ficou na estalagem, porque não se
+podia bolir com dôres; mas ámanhã ella cá está para lhe fazer a cozinha
+e varrer a casa.
+
+Simão, reconcentrando o indefinivel sentimento que esta noticia lhe
+causára, disse com melancolica pausa:
+
+--É pois certo que a minha má estrella arrasta a sua desgraçada filha a
+todos os meus abysmos! Pobre anjo de caridade, que digna tu és do ceu!
+
+--Que está o senhor ahi a prégar?--interrompeu o ferrador--Parece que
+ficou a modo de tristonho com a noticia!...
+
+--Senhor João--tornou solemnemente o prêso--não deixe aqui a sua querida
+filha, Deixe-m'a vêr, traga-a comsigo uma vez a esta casa; mas não a
+deixe cá, porque eu não posso tolher o destino de Marianna. Como ha de
+ella viver no Porto, sósinha, sem conhecer ninguem, bella como ella é, e
+perseguida como tem de ser!?...
+
+--Perseguida! _Tó carocha_! Não que ella é mesmo de se lhe dar de que a
+persigam!... Que vão para lá, mas que deixem as ventas em casa. Meu
+amigo, as mulheres são como as pêras verdes; um homem apalpa-as, e, se o
+dedo acha duro, deixa-as, e não as come. É como é. A rapariga sáe á mãe.
+Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentando, dei-lhe um
+dia um beliscão n'uma perna. E vai ella põe-se direita comigo, e deu-me
+dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Marianna!...
+aquillo é da pelle de satanaz! Pergunte o senhor, se algum dia fallar
+com aquelle fidalguinho Mendes de Vizeu, a troçada que elle levou com as
+rédeas da egua, só por lhe bolir na chinela, quando ella estava em cima
+da burra!
+
+Simão sorriu ao rasgado panegyrico da bravura da moça, e orgulhou-se
+secretamente dos brandos affagos com que o ella desvelára em oito mezes
+de quasi continuada convivencia.
+
+--E vocemecê ha de privar-se da companhia de sua filha?--insistiu o
+prêso.
+
+--Eu lá me arranjarei como podér. Tenho um cunhada velha, e levo-a para
+mim para me arranjar o caldo. E v. s.^a pouco tempo aqui estará.... O
+senhor corregedor lá anda a tratar de o pôr na rua, e que o senhor sáe
+cá para mim são favas contadas. E assim com'assim, vou dizer-lhe tudo
+d'uma feita: a rapariga, se eu a não deixasse vir para o Porto, dava um
+estoiro como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ella
+tem paixão d'alma por v. s.^a isso é tão certo como eu ser; João. É a
+sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixál-a, que pelo senhor Simão não
+lhe ha de vir mal, ou então já não ha honra n'este mundo.
+
+Simão lançou-se aos braços do ferrador, exclamando:
+
+--Podésse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!
+
+--Qual marido!...--disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras
+lagrimas que Simão lhe vira--Eu nunca me lembrei d'isso, nem ella!... Eu
+sei que sou um ferrador, e ella sabe que póde ser sua criada, e mais
+nada, senhor Simão; mas, sabe que mais, eu não desejo que os meus amigos
+sejam desgraçados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre
+rapariga! Não fallemos n'isto, que eu por milagre choro; mas quando pego
+a chorar sou um chafariz... Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a
+commoda ali; duas cadeiras d'este lado, e duas d'aquelle. A barra acolá.
+O bahu debaixo da cama. A bacia e a bilha da agua sobre esta coisa, que
+não sei como se chama. Os lençoes e o mais bragal tem-os lá a rapariga.
+Ámanhã é que o quarto ha de ficar que nem uma capella. Olhe que a
+Marianna já me disse que comprasse duas aquellas... como se chamam
+aquellas invasilhas de pôr ramos?
+
+--Jarras.
+
+--É como diz, duas jarras para flôres; mas eu não sei onde se vende
+isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça ha de cuidar que me não
+deixam sahir da cadêa. Ainda lhe não disse que não me deixaram cá entrar
+hontem á tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua mãe para um
+senhor desembargador, fui onde a elle, e hoje de manhã já lá tinha na
+estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. Até logo.
+
+
+
+
+VI.
+
+
+Um incidente agora me occorre, não muito concertado com o seguimento da
+historia, mas a proposito vindo para demonstrar uma face da indole do
+ex-corregedor de Vizeu, já então exonerado do cargo.
+
+Sabido é que Manoel Botelho, o primogenito, voltando a frequentar
+mathematicas em Coimbra, fugira d'ali para Hespanha com uma dama desleal
+a seu marido, estudante açoriano que cursava medicina.
+
+Um anno demorára na Corunha Manoel Botelho com a fugitiva,
+alimentando-se dos recursos que sua mãe, extremosa por elle, lhe
+remettia vendendo a pouco e pouco as suas joias, e privando as filhas
+dos adornos proprios dos annos e da qualidade.
+
+Seccaram-se estas fontes, e não restavam outras. D. Rita disse a final
+ao filho que deixára de soccorrer Simão por não ter meios; e agora das
+escassas economias que fazia, nada podia enviar-lhe, porque estava em
+obrigação de pagar os alimentos de Simão á pessoa que por compaixão
+lh'os déra em Vizeu, e lh'os estava dando no Porto. Ajuntava ella, para
+consolação do filho, que viesse elle para Villa Real, e trouxesse
+comsigo a infeliz senhora; que fosse elle para casa, e a deixasse a ella
+n'uma estalagem até se lhe arranjar habitação; que o ensejo era
+opportuno, por estar na quinta de Montezellos o pae, quasi divorciado da
+familia.
+
+Voltou pelo Minho Manoel Botelho, e chegou com a dama ao Porto quinze
+dias depois que Simão entrára no carcere.
+
+Já n'outro ponto deixamos dito que nunca os dois irmãos se deram nem
+estimaram; mas o infortunio de Simão remia as culpas do genio fatal que
+o orphanára de pae e mãe, e só da irmã Rita lhe deixára uma lembrança
+saudosa.
+
+Foi Manoel á cadêa, e abrindo os braços ao irmão, teve um glacial
+acolhimento.
+
+Perguntou-lhe Manoel a historia do seu desastre.
+
+--Consta do processo--respondeu Simão.
+
+--E tem esperanças de liberdade?--replicou Manoel.
+
+--Não penso n'isso.
+
+--Eu pouco posso offerecer-lhe, porque vou para casa forçado pela falta
+de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei comsigo da minha.
+
+--Não preciso nada. Esmolas só as recebo d'aquella mulher.
+
+Já Manoel tinha reparado em Marianna, e da belleza da moça inferira
+conclusões para formar falsos juizos.
+
+--E quem é esta menina?--tornou Manoel.
+
+--É um anjo... Não lhe sei dizer mais nada.
+
+Marianna sorriu-se, e disse:
+
+--Sou uma criada do senhor Simão, e de v. s.^a
+
+--É cá do Porto?
+
+--Não, meu senhor, sou dos arrabaldes de Vizeu.
+
+--E tem feito sempre companhia a meu mano?
+
+Simão atalhou assim á resposta balbuciante de Marianna:
+
+--A sua curiosidade incommoda-me, mano Manoel.
+
+--Cuidei que não era offensiva--replicou o outro, tomando o
+chapéo.--Quer alguma coisa para a mãe?
+
+--Nada.
+
+Estando Manoel Botelho, na tarde d'esse dia, fechando as malas para
+seguir jornada para Villa Real, foi visitado pelo desembargador Mourão
+Mosqueira, e pelo corregedor do crime.
+
+--Devemos á espionagem da policia--disse o corregedor--a novidade de
+estar n'esta estalagem; um filho do meu antigo amigo, condiscipulo e
+collega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abraço, e
+offerecer o nosso prestimo. Esta senhora é sua esposa?--continuou o
+magistrado, reparando na açoriana.
+
+--Não é minha esposa...--balbuciou Manoel--é... minha irmã.
+
+--Sua irmã!...--disse Mosqueira--qual das tres? Ha cinco annos que as vi
+em Vizeu, e grande mudança fez esta senhora, que não me recordo das suas
+feições absolutamente coisa nenhuma! É a senhora D. Anna Amalia?
+
+--Justamente--disse Manoel.
+
+--Bella, lhe affirmo eu que está, minha senhora; mas fez-se um rosto
+muito outro do que era!...
+
+--Vieram vêr o infeliz Simão?--atalhou o corregedor.
+
+--Sim, senhor... viemos vêr meu pobre irmão.
+
+--Foi um raio que cahiu na familia aquelle rapaz!...-- ajuntou
+Mosqueira--mas póde estar na certeza que a sentença não se executa; diga
+a sua mãe que m'o ouviu da minha bôca. O meu tribunal está preparado
+para lhe minorar a pena em dez annos de degredo para a India, e seu pae,
+segundo me disse na passagem para Villa Real, já preparou as coisas na
+supplicação e no desembargo do paço, não obstante o morto lá ter
+parentes poderosos nas duas instancias. Quizeramos absolvêl-o, e
+restituil-o á sua família; mas tanto é impossível. Simão matou, e
+confessa soberbamente que matou. Não consente mesmo que se diga que em
+defeza o fez. É um doido desgraçado com sentimentos nobilissimos! Chovem
+cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz
+com uma sem-ceremonia que indigna o animo.
+
+--E essa menina que foi a causa da desgraça?--perguntou Manoel.
+
+--Isso é uma heroina!--respondeu o corregedor do crime--Davam-na já por
+morta quando Simão chegou aqui. Desde que soube das probabilidades da
+commutação da pena, deu um pontapé na morte, e está salva, segundo me
+disse o medico.
+
+--Conhece-a muito bem, minha senhora?--disse o desembargador á dama,
+supposta irmã de Manoel.
+
+--Muito bem--respondeu ella, relanceando os olhos ao amante.
+
+--Dizem que é formosissima!
+
+--De certo--acudiu Manoel--é formosissima.
+
+--Muito bem--disse o corregedor, erguendo-se.--Leve este abraço ao pae,
+e diga-lhe que o condiscipulo cá está leal e dedicado como sempre. Eu
+tenho de lhe escrever brevemente.
+
+--E outro abraço a sua virtuosa mãe--acerescentou o desembargador.
+
+--Vou desconfiado!--disse o Mosqueira ao collega--Manoel Botelho tinha,
+ha coisa d'um anno, fugido para Hespanha com uma senhora casada. Aquella
+mulher, que vimos, não é irmã d'elle.
+
+--Pois se nos mentiu é mariola, por nos obrigar a cortejar uma
+concubina!... Eu me informarei...--disse o corregedor, offendido no seu
+austero pundonor.
+
+E no proximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no periodo
+final: «Tive o gosto de conhecer teu filho Manoel, e uma de tuas filhas;
+por elle te mandei um abraço, e por ella te mandaria outro, se fosse
+modo ensinarem velhos a meninas bonitas como se dão os abraços nos
+paes.»
+
+Estava já Manoel em casa de seus avós, e cuidava em trastejar uma
+modesta casa para a açoriana, auxiliado por sua bondosa e indulgente
+mãe. O pae fôra informado da vinda, e dissera que não queria vêr o
+filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavallaria seis,
+desde que abandonára os estudos, onde estava com licença.
+
+Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou immediata e
+secretamente devassar se em Villa Real estava a senhora que indicava a
+carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, em quanto Manoel
+Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz
+de fóra, e este mandou chamar á sua presença a mulher suspeita, e ouviu
+d'ella a sua historia sincera e lagrimosamente contada. Condoeu-se o
+juiz, e revelou ao collega as suas averiguações. Domingos Botelho foi a
+Villa Real, e hospedou-se em casa do juiz de fóra, onde a senhora foi
+novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da provinda
+lavrava ordem de prisão para o cadete desertor de cavallaria de
+Bragança.
+
+A açoriana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda
+sombra, e apparencias de intenções sinistras.
+
+--Eu sou pae de Manoel--disse Domingos Botelho--Sei a historia da
+senhora. O infame é elle. V. s.^a é a victima. O castigo da senhora
+principiou desde o momento em que a sua consciencia lhe disse que
+praticou uma acção indigna. Se a consciencia lh'o não disse ainda, ella
+lh'o dirá. D'onde é?
+
+--Da ilha do Fayal--respondeu tremula a dama.
+
+--Tem familia?
+
+--Tenho mãe e irmãs.
+
+--Sua mãe aceital-a-ia se a senhora lhe pedisse abrigo?
+
+--Creio que sim.
+
+--Sabe que Manoel é um desertor, que a estas horas está prêso ou
+fugitivo?
+
+--Não sabia...
+
+--Quer isto dizer que a senhora não tem protecção de alguem.
+
+A pobre mulher soluçava, abafada por ancias, e debulhada em lagrimas.
+
+--Porque não vai para sua mãe?
+
+--Não tenho recursos alguns--respondeu ella.
+
+--Quer partir hoje mesmo? Á porta da estalagem encontrará uma liteira, e
+uma criada para acompanhal-a até ao Porto. Lá entregará uma carta. A
+pessoa a quem escrevo lhe cuidará da passagem para Lisboa. Em Lisboa
+outra pessoa a levará a bordo da primeira embarcação que sahir para os
+Açores. Estamos combinados? Aceita?
+
+--E beijo as mãos de v. s.^a... Uma desgraçada como eu não podia esperar
+tanta caridade.
+
+Poucas horas depois a esposa do medico....
+
+--Que tinha morrido de paixão e vergonha, talvez!--exclama uma leitora
+sensivel.
+
+Não, minha senhora; o estudante continuava n'esse anno a frequentar a
+Universidade; e como tinha já vasta instrucção em pathologia, poupou-se
+á morte da vergonha, que é uma morte inventada pelo visconde de A.
+Garrett no _Fr. Luiz de Souza_, e á morte de paixão, que é outra morte
+inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos
+maridos a quem o seculo dotou d'uns longes de philosophia, philosophia
+grega e romana, porque bem sabem que os philosophos da antiguidade davam
+por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor
+lh'as não tiravam. E esta philosophia, hoje então...[6] Pois o medico
+não morreu, nem sequer desmedrou, ou levou _r_ significativo de
+preoccupação do animo insensivel ás amenidades da therapeutica.
+
+A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinaria que
+seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem
+esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou
+ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma
+carta do doutor Domingos Botelho. Um periodo d'esta carta dizia assim:
+
+«Déste-me noticia d'uma filha, que eu não conhecia, nem reconheço. A mãe
+d'esta senhora está no Fayal, para onde ella vai. Cuida tu, ou manda
+cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali alguem de correr
+com a passagem d'ella para os Açores no primeiro navio. A mim me darás
+conta das despezas. Meu filho Manoel teve ao menos a virtude de não
+matar ninguem para se constituir amante. Do modo como correm os tempos,
+muito virtuoso é um rapaz que não mata o marido da mulher que ama. Vê se
+consegues do general, que está ahi, perdão para o rapaz, que é desertor
+de cavallaria seis, e me consta que está escondido em casa de um
+parente. Em quanto a Simão, creio que não é possivel salval-o do degredo
+temporario... É uma lança em Africa livral-o da forca. Em Lisboa
+movem-se grandes potencias contra o desgraçado, e eu estou malvisto do
+intendente geral por abandonar o logar... etc.»
+
+Partiu para Lisboa a açoriana, e d'ali para a sua terra, e para o abrigo
+de sua mãe, que a julgára morta, e lhe deu annos de vida, se não ditosa,
+socegada e desilludida de chimeras.
+
+Manoel Botelho, obtido o perdão pela preponderancia do corregedor do
+crime, mudou de regimento para Lisboa, e ahi permaneceu até que,
+fallecido seu pae, pediu a baixa, e voltou á provincia.
+
+
+
+
+VII.
+
+
+João da Cruz, no dia 4 de Agosto de 1805, sentou-se á mesa com triste
+aspecto e nenhum appetite do almoço.
+
+--Não comes, João?--disse-lhe a cunhada.
+
+--Não passa d'aqui o bocado--respondeu elle, pondo o dedo nos
+gorgomilos.
+
+--Que tens tu?
+
+--Tenho saudades da rapariga... Dava agora tudo quanto tenho para a vêr
+aqui ao pé de mim com aquelles olhos que pareciam ir direitos aos
+desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraças da
+minha vida que m'a fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para
+sempre!... Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não vinha a ficar
+em obrigação ao corregedor, e não se me dava que o filho vivesse ou
+morresse...
+
+--Mas se tens saudades--atalhou a senhora Josefa--manda buscar a
+rapariga, tem-l'a cá algum tempo, e torna depois para onde ao senhor
+Simão.
+
+--Isso não é d'homem que põe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ella
+lhe falta, morre de pasmo dentro d'aquelles ferros. Isto é venêta que me
+deu hoje... Sabes que mais? leve a breca o dinheiro: ámanhã vou ao
+Porto.
+
+--Pois isso é o que tu deves fazer.
+
+--Está dito! Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anneis e fiquem os
+dedos. Por ora tem-se resistido a tudo com o meu braço. A rapariga, se
+ficar com menos, lá se avenha. Assim o quer, assim o tenha.
+
+Reanimou-se a physionomia do mestre ferrador, e como que os impeços da
+garganta se iam removendo á medida que planisava a sua ida ao Porto.
+
+Acabára de almoçar, e ficára scismatico, encostado á mesa do escano.
+
+--Ainda estás malucando?!--tornou Josefa.
+
+--Parece coisa do demonio, mulher!... A rapariga estará doente ou morta?
+
+--Anjo bento da Santíssima Trindade!--exclamou a cunhada, erguendo as
+mãos--que dizes tu, João!
+
+--Estou cá por dentro negro como aquella sartã!
+
+--Isso é flato, homem! vai tomar ar, trabalha um poucaxinho para
+espaireceres.
+
+João da Cruz passou ao coberto onde tinha o armario da ferragem e a
+bigorna, e começou a atarracar cravos.
+
+Alguns conhecidos tinham passado, palavreando com elle consoante
+costumavam, e achavam-no taciturno e nada para graças.
+
+--Que tens tu, João?--dizia um.
+
+--Não tenho nada. Vai á tua vida, e deixa-me, que não estou para lérias.
+
+Outro parava e dizia:
+
+--Guarde-o Deus, senhor João.
+
+--E a vocemecê tambem. Que novidade ha?
+
+--Não sei nada.
+
+--Pois então vá com nossa Senhora, que eu estou cá de candeias ás
+avessas.
+
+O ferrador largava o martello; sentava-se aos poucos no tronco, e coçava
+a cabeça com frenesi. Depois recomeçava novamente, e tão alheado o
+fazia, que estragava o cravo, ou martellava os dedos.
+
+--Isto é coisa do diabo!--exclamou elle; e foi á cosinha procurar a
+pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixões ethereas se
+aturde com absyntho--Hei de afogar-te, coisa má, que me estás apertando
+a alma!--continuou o ferrador, sacudindo os braços, e batendo o pé no
+soalho.
+
+Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua
+possante mula. Envolvia-se o cavalleiro n'um amplo capote á moda
+hespanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de
+coiro cru com esporas amarellas afiveladas, e o chapéo derrubado sobre
+os olhos.
+
+--Ora viva!--disse o passageiro.
+
+--Viva!--respondeu mestre João, relanceando os olhos pelas quatro patas
+da mula, a vêr se tinha obra em que entreter o espirito--A mula é de
+ropia e chibança!
+
+--Não é má. Vocemecê é que é o senhor João da Cruz?
+
+--Para o servir.
+
+--Venho aqui pagar-lhe uma divida.
+
+--A mim? o senhor não me deve nada que eu saiba.
+
+--Não sou eu que devo; é meu pae, e elle foi que me encarregou de lhe
+pagar.
+
+--E quem é seu pae?
+
+--Meu pae era um recoveiro de Garção, chamado Bento Machado.
+
+Proferida metade d'estas palavras, o cavalleiro afastou rapidamente as
+bandas do capote, e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O
+ferido recuou, exclamando:
+
+--Mataram-me!... Marianna, não te vejo mais!...
+
+O assassino teria dado cincoenta passos a todo o galope da espantada
+mula, quando João da Cruz, debruçado sobre o banco, arrancava o ultimo
+suspiro com a cara posta no chão, d'onde apontára ao peito do almocreve
+dez annos antes.
+
+Os caminheiros, que perpassaram pelo cavalleiro inadvertidamente,
+ajuntaram-se em redor do cadaver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro e já
+não ouviu as ultimas palavras de seu cunhado. Quiz transportal-o para
+dentro, e correr a chamar cirurgião; mas um cirurgião estava no
+ajuntamento, e declarou morto o homem.
+
+--Quem o matou?--exclamavam trinta vozes a um tempo.
+
+N'esse mesmo dia vieram justiças de Vizeu lavrar auto e devassar: nenhum
+indicio lhes deu o fio do mysterioso assassinio. O escrivão dos orphãos
+inventariou os objectos encontrados, e fechou as portas quando os sinos
+corriam o derradeiro dobre ao cahir da lousa sobre João da Cruz.
+
+Deus terá descontado, nos instinctos sanguinarios do teu temperamento, a
+nobreza de tua alma! Pensando nas incoherencias da tua indole, homem que
+me explicas a providencia, assombra-me as caprichosas antítheses que a
+mão de Deus infunde em alentos na creatura. Dorme o teu somno infinito,
+se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e
+pelo uso que fizeste da tua. Mas se ha estancia de castigo e de
+misericordia, as lagrimas de tua filha terão sido, na presença do Juiz
+Supremo, os teus merecimentos.
+
+Fez Josefa escrever a Marianna, noticiando-lhe a morte de seu pae, mas
+sobrescriptou a carta a Simão Botelho, para maior segurança. Estava
+Marianna no quarto do prêso, quando a carta lhe foi entregue.
+
+--Não conheço a letra, Marianna... E a obreia é preta...
+
+Marianna examinou o sobrescripto, e empallideceu.
+
+--Eu conheço a letra--disse ella--é do Joaquim da loja.
+
+--Abra depressa, senhor Simão... Meu pae morreria?
+
+--Que lembrança! Pois não teve ha tres dias carta d'elle? E não lhe
+disse que estava bom?
+
+--Isso que tem?... Veja quem assigna.
+
+Simão buscou a assignatura, e disse:
+
+--_Josefa Maria_... É sua tia que lhe escreve.
+
+--Leia... leia... que diz ella?
+
+O prêso lia mentalmente, e Marianna instou:
+
+--Leia alto, por quem é, senhor Simão, que estou a tremer... e v. s.^a
+descora... que é, meu Deus?
+
+Simão deixou cahir a carta, e sentou-se prostrado de animo. Marianna
+correu a levantar a carta, e elle, tomando-lhe a mão, murmurou:
+
+--Pobre amigo!... choremol-o ambos... choremol-o, Marianna, que o
+amavamos como filhos...
+
+--Pois morreu?--bradou ella.
+
+--Morreu... mataram-no!...
+
+A moça expediu um grito estridulo, e foi com o rosto contra os ferros
+das grades. Simão inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura
+e vehemencia:
+
+--Marianna, lembre-se que é o meu amparo. Lembre-se de que as ultimas
+palavras de seu pae deviam ser a recommendar-lhe o desgraçado que recebe
+das suas mãos bemfeitoras o pão da vida. Marianna, minha querida irmã,
+vença a dôr que póde matal-a, e vença-a por amor de mim. Ouve-me, amiga
+da minha alma?
+
+Marianna exclamou:
+
+--Deixe-me chorar, por caridade!... Ai! meu Deus, se eu torno a
+endoidecer!
+
+--Que seria de mim!--atalhou Simão--A quem deixaria Marianna o seu nobre
+coração para me suavisar este martyrio? Quem me levaria ao desterro uma
+palavra amiga que me animasse a crêr em Deus!... Não ha de enlouquecer,
+Marianna, porque eu sei que me estima, que me ama, e que affrontará com
+coragem a maior desgraça, que ainda póde suggerir-me o inferno! Chore,
+minha irmã, chore; mas veja-me através das suas lagrimas!
+
+
+
+
+VIII.
+
+
+Marianna, decorridos dias, foi a Vizeu recolher a herança paterna. Em
+proporção com o seu nascimento bem dotada a deixára o laborioso
+ferrador. Afóra os campos, cujo rendimento bastaria á sustentação
+d'ella, Marianna levantou a lage conhecida da lareira, e achou os
+quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as
+regalias da sua decrepitude inerte. Vendeu Marianna as terras, e deixou
+a casa a sua tia, que nascêra n'ella, e onde seu pae casára.
+
+Liquidada a herança tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas
+mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que
+vivia, fronteira á Relação, na rua de S. Bento.
+
+--Porque vendeu as suas terras, Marianna?--perguntou o prêso.
+
+--Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar.
+
+--Não faz?... Para onde ha de ir Marianna, indo eu degredado? Fica no
+Porto?
+
+--Não, senhor, não fico--balbuciou ella como admirada d'esta pergunta, á
+qual o seu coração julgava ter respondido de muito.
+
+--Pois então!
+
+--Vou para o degredo, se v. s.^a me quizer na sua companhia.
+
+Fingindo-se surprendido, Simão seria ridiculo aos seus proprios olhos.
+
+--Esperava essa resposta, Marianna, e sabia que me não dava outra. Mas
+sabe o que é o degredo, minha amiga?
+
+--Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão... É uma terra
+mais quente que a nossa; mas tambem lá ha pão, e vive-se...
+
+--E morre-se abrazado ao sol doentio d'aquelle ceu, morre-se de saudades
+da patria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das
+galés, que tem um condemnado na conta de féra.
+
+--Não ha de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso á mulher
+d'um prêso que cumpriu dez annos de sentença na India, e viveu muito bem
+em uma terra chamada Solor, onde teve uma loja; e, se não fossem as
+saudades, diz ella que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida
+que por cá. Eu, se fôr por vontade do senhor Simão, vou pôr uma lojinha
+tambem. Verá como eu amenho a vida. Affeita ao calor estou eu; v. s.^a
+não está; mas não ha de ter precisão, se Deus quizer, de andar ao tempo.
+
+--E supponha, Marianna, que eu morro apenas chegar ao degredo?
+
+--Não fallemos n'isso, senhor Simão...
+
+--Fallemos, minha amiga, porque eu hei de sentir á hora da morte a
+pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino... Se eu morrer?
+
+--Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambem.
+
+--Ninguem morre quando quer, Marianna...
+
+--Oh! se morre!... e vive tambem quando quer... Não m'o disse já a
+senhora D. Thereza?
+
+--Que lhe disse ella?
+
+--Que estava a passar quando v. s.^a chegou ao Porto, e que a sua
+chegada lhe dera vida. Pois ha muita gente assim, senhor Simão... E mais
+a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os
+trabalhos; e, se fosse preciso metter uma lanceta no braço e deixar
+correr o sangue até morrer, fazia-o como quem o diz.
+
+--Oiça-me, Marianna, que espera de mim?
+
+--Que hei de eu esperar!... Porque me diz isso o senhor Simão?
+
+--Os sacrificios que Marianna tem feito e quer fazer por mim só podiam
+ter uma paga, embora m'os não faça esperando recompensa. Abre-me o seu
+coração, Marianna?
+
+--Que quer que eu lhe diga?
+
+--Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?
+
+--Conheço, e que tem isso?
+
+--Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte áquella desgraçada
+senhora?
+
+--E d'ahi? quem lhe diz menos d'isso?!
+
+--Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.
+
+--E eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?!
+
+--Nada me pediu, Marianna; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz
+o pêso da obrigação.
+
+Marianna não respondeu, chorou.
+
+--E porque chora?--tornou Simão carinhosamente.
+
+--Isso é ingratidão.... e eu não mereço que me diga que o faço infeliz.
+
+--Não me comprehendeu... Sou infeliz por não poder fazêl-a minha mulher.
+Eu queria que Marianna podésse dizer: «Sacrifiquei-me por meu marido; no
+dia em que o vi ferido em casa de meu pae, velei as noites ao seu lado;
+quando a desgraça o encerrou entre ferros, dei-lhe o pão, que nem seus
+ricos paes lhe davam; quando o vi sentenciado á forca, endoideci; quando
+a luz da minha razão me tornou n'um raio de compaixão divina, corri ao
+segundo carcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do
+seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a patria d'aquelle
+pobre coração, trabalhei á luz do sol homicida para elle se resguardar
+do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam...»
+
+O espirito de Marianna não podia altear-se á expressão do prêso; mas o
+coração sinil, esse adivinhava-lhe as ideias. E a pobre moça sorria e
+chorava a um tempo. Simão continuou:
+
+--Tem vinte e seis annos, Marianna. Viva, que esta sua existencia não
+póde ser senão um supplicio occulto. Viva, que não deve dar tudo a quem
+lhe não póde restituir senão as lagrimas que lhe eu tenho custado. O
+tempo do meu desterro não póde estar longe; esperar outro melhor destino
+seria uma loucura. Se eu ficasse na patria, livre ou prêso, pediria a
+minha irmã que completasse a obra generosa da sua compaixão, esperando
+que eu lhe désse a ultima palavra da minha vida. Mas não vá comigo á
+África ou á India, que sei que voltará sósinha á pátria depois que eu
+fechar os olhos. Se o meu degredo fôr temporario, e a morte me guardar
+para maiores naufragios, voltarei á patria um dia. E preciso que
+Marianna aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha familia,
+que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar com
+marido e filhos, a sua familia será a a minha. Se a vir livre e só, irei
+para a companhia de minha irmã. Que me responde, Marianna?
+
+A filha de João da Cruz, erguendo o olhos do pavimento, disse:
+
+--Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o
+degredo....
+
+--Pense desde já, Marianna.
+
+--Não tenho que pensar... A minha tenção está feita...
+
+--Falle, minha amiga, diga qual é a sua tenção.
+
+Marianna hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:
+
+--Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu
+ponho muito em me matar? Não tenho pae, não tenho ninguem, a minha vida
+não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão póde viver sem mim?
+paciencia!... eu é que não posso...
+
+Sosteve o complemento da ideia como quem se peja d'uma ousadia. O prêso
+apertou-a nos braços estremecidamente, e disse:
+
+--Irá, irá comigo, minha irmã. Pense muito no infortunio de nós ambos
+d'ora em diante, que elle é commum, é um veneno que havemos de tragar
+unidos, e lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da patria.
+
+Desde este dia, um secreto jubilo endoidecia o coração de Marianna. Não
+inventemos maravilhas de abnegação. Era de mulher o coração de Marianna.
+Amava como a fantasia se compraz de idear o amor d'uns anjos que batem
+as azas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se
+fazerem vêr e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha
+ciumes de Thereza, não ciumes que se refrigeram na expansão ou no
+despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos labios,
+porque os olhos se abriam promptos em lagrimas para apagal-a. Sonhava
+com as delicias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer
+á cabeceira do desgraçado. Se a forçassem a resignar a sua ingloria
+missão de irmã d'aquelle homem, resignal-a-ia, dizendo: «Ninguem o amará
+como eu; ninguém lhe adoçará as penas tão desinteresseiramente como o eu
+fiz.»
+
+E, comtudo, nunca vacillou em aceitar da mão de Thereza ou da mendiga as
+cartas para Simão. A cada vinco de dôr que a leitura d'aquellas cartas
+sulcava na fronte do prêso, Marianna, que o espreitava disfarçada,
+tremia em todas as fibras do seu coração, e dizia entre si: «para que ha
+de aquella senhora amargurar-lhe a vida!»
+
+E amargurava acerbamente a desditosa menina!
+
+Resurgiram n'aquella alma esperanças, que não deviam durar além do tempo
+necessario para que a desillusão lhe acrisolasse o infortunio. Imaginara
+ella a liberdade, o perdão, o casamento, a ventura, a corôa do seu
+martyrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque
+não conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em
+demasia nas orações das virtuosas do mosteiro. Se os vaticinios das
+prophetisas se realisassem, Simão sahiria da cadêa, Thadeu de
+Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto
+indisputavel, e o ceu dos desgraçados principiaria n'este mundo.
+
+Porém Simão Botelho, ao cabo de cinco mezes de carcere, já sabia o seu
+destino, e achára util prevenir Thereza, para não succumbir ao
+inevitavel golpe da separação. Bem queria elle alumiar com esperanças a
+perspectiva negra do degredo; mas froixos e frios eram os allivios em
+que não era parte a convicção nem o sentimento. Thereza não podia sequer
+illudir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando
+sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolencia dos
+estranhos.
+
+E então era o expandir-se em lastimas nas cartas que escrevia ao seu
+amigo; invocações a Deus, e sacrilegas apostrophes ao destino; branduras
+de paciencia e impetos de cólera contra o pae; o afferro á vida que lhe
+foge, e súpplicas á morte, que a não livra das torturas da alma e do
+corpo.
+
+No termo de sete mezes o tribunal de segunda instancia commutou a pena
+ultima em dez annos de degredo para a India. Thadeu de Albuquerque
+acompanhou a Lisboa a appellação, e offereceu a sua casa a quem
+mantivesse de pé a forca de Simão Botelho. O pae do condemnado, segundo
+o assustador aviso que seu filho Manoel lhe dera, foi para Lisboa luctar
+com o dinheiro e as ponderosas influencias que Thadeu de Albuquerque
+grangeára na casa da supplicação e no desembargo do paço. Venceu
+Domingos Botelho, e instigado mais do seu capricho, que do amor
+paternal, alcançou do principe regente a graça de cumprir o condemnado a
+sua sentença na prisão de Villa Real.
+
+Quando intimaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do
+regente, o prêso respondeu que não aceitava a graça; que queria a
+liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciarios
+contra um favor que não implorára, e que reputava mais atroz que a
+morte.
+
+Domingos Botelho, avisado da rejeição do filho, respondeu que fizesse
+elle a sua vontade; mas que a sua victoria d'elle, sobre os protectores
+e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Vizeu, estava plenamente
+obtida.
+
+Foi aviso ao intendente geral da policia, e o nome de Simão Botelho foi
+inscripto no catalogo dos degredados para a India.
+
+
+
+
+IX.
+
+
+A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.
+
+Na vida real, recebemol-a como ella sáe dos encontrados acasos, ou da
+logica implacavel das coisas; mas, na novella, custa-nos a soffrer que o
+author, se inventa, não invente melhor; e, se copía, não minta por amor
+da arte.
+
+Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é
+impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente,
+sequer uma temporada, em quanto elle nos lembra, d'este jogo de nora,
+cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela
+manivella do egoismo.
+
+A verdade! se ella é feia, para que offerecêl-a em paineis ao publico!?
+
+A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de
+ferro, que o prendem ao barro d'onde sahiu, ou pezam n'elle e o
+submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergil-o,
+retratal-o, e dal-o á venda!?
+
+Os reparos são de quem tem o juizo no seu logar; mas eu que perdi o meu
+a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintal-a, como ella
+é, feia e repugnante.
+
+A desgraça afervora ou quebranta o amor?
+
+Isso é que eu submetto á decisão do leitor intelligente. Factos e não
+theses é que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não
+explica as funcções opticas do apparelho visual.
+
+Ao cabo de dezenove mezes de carcere, Simão Botelho almejava um raio de
+sol, uma lufada de ar não coada por ferros, o pavimento do ceu, que o da
+abobada do seu cubiculo pesava-lhe sobre o peito.
+
+Ancia de viver era a sua; não era já ancia de amar.
+
+Seis mezes de sobresaltos diante da forca deviam distender-lhe as fibras
+do coração; e o coração, para o amor, quer-se forte e tenso de uma certa
+rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anceios das esperanças, e
+com as alegrias que o enchem e reforçam para os revezes.
+
+Cahiu a forca pavorosa aos olhas de Simão; mas os pulsos ficaram em
+ferros, o pulmão ao ar mortal das cadêas, o espirito intanguido na
+glacial estupidez d'umas paredes salitrosas, e d'um pavimento, que resôa
+os derradeiros passos do ultimo padecente, e d'um tecto que filtra a
+morte a gottas d'agua.
+
+O que é o coração, o coração dos dezoito annos, o coração sem remorsos,
+o espirito anhelante de glorias, ao cabo de dezoito mezes de estagnação
+da vida?
+
+O coração é a viscera, ferida de paralysia, a primeira que fallece
+suffocada pelas rebelliões da alma que se identifica á natureza, e a
+quer, e se devora na ancia d'ella, e se estorce nas agonias da
+amputação, para as quaes a saudade da felicidade extincta é um cauterio
+em braza, e o amor que leva ao abysmo pelo caminho da sonhada
+felicidade, não é sequer um refrigerio.
+
+Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora
+de desafôgo, como que sentia o patibulo lascar entre os seus braços, e
+então convidou o coração da mulher, que o perdêra, a assistir ás
+segundas nupcias da sua vida com a esperança.
+
+Depois, a passo igual, a esperança fugia-lhe para as areias da Asia, e o
+coração intumecia-se de fel, o amor afogava-se n'elle, morte inevitavel,
+quando não ha abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão
+intima.
+
+Esperança, para Simão Botelho, qual?
+
+A India, a humilhação, a miseria, a indigencia.
+
+E os anhelos d'aquella alma tinham mirado a ambições de um nome. Para a
+felicidade do amor invidava as forças do talento; mas, além do amor,
+estava a gloria, o renome, e a vã immortalidade, que só não é demencia
+nas grandes almas, e nos genios que se presentem viver nas gerações
+vindouras, e se preluzem n'ellas. Mas grinaldas de amor a escorrerem
+sangue dos espinhos, essas instillam veneno corrosivo no pensamento,
+apagam no seio a faisca das nobres affoitezas, apoucam a ideia que
+abrangêra mundos, e paralysam de mortal spasmo os estos do coração.
+
+Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito mezes de carcere, com o
+patibulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor
+da alma.
+
+A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o coração, se ousava
+responder, retrahia-se recriminado pelos dictames da razão.
+
+D'além, d'aquelle convento onde outra existencia agonisava, gementes
+queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que não sabias, nem
+podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixão para ella, e
+recebias as do demonio do desespêro para ti.
+
+Os dez annos de ferros, era que lhe quizeram minorar a pena, eram-lhe
+mais horrorosos que o patibulo. E aceital-o-ias, por ventura, se amasse
+o ceu, onde Thereza bebia o ar, que nos pulmões se lhe formava em
+peçonha? Creio:--antes a masmorra, onde póde ouvir-se o som abafado de
+uma voz amiga; antes os paroxismos de dez annos sobre as lages humidas
+d'uma enxovia, se, na hora extrema, a ultima faisca da paixão, ao
+bruxolear para morrer, nos alumia o caminho do ceu por onde o anjo do
+amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do
+que ficou.
+
+Thereza pedira a Simão Botelho que aceitasse dez annos de cadêa, e
+esperasse ahi a sua redempção por ella.
+
+«Dez annos!--dizia-lhe a inclausurada de Monchique--Em dez annos terá
+morrido meu pae, e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te
+perdôe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vaes ao degredo, para
+sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memoria de mim
+quando voltares.»
+
+Como a pobre se illudia nas horas em que as debeis forças de sua vida se
+lhe concentravam no coração!
+
+As ancias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que
+creára novo, já lhe sahia em golfadas com a tosse.
+
+Se por amor ou piedade o condemnado aceitasse os ferrolhos tres mil
+seiscentas e cincoenta vezes corridos sobre as suas longas noites
+solitarias, nem assim Thereza sosteria a pedra sepulcral que a vergava
+d'hora a hora.
+
+«Não esperes nada, martyr--escrevia-lhe elle.--A lucta com a desgraça é
+inutil, e eu não posso já luctar. Foi um atroz engano o nosso encontro.
+Não temos nada n'este mundo. Caminhemos ao encontro da morte... Ha um
+segredo que só no sepulcro se sabe. Vêr-nos-hemos?
+
+Vou. Abomino a patria, abomino a minha familia, todo este solo está aos
+meus olhos coberto de forcas, e quantos homens fallam a minha lingua,
+creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem
+a liberdade com a opulencia; nem já agora a realisação da esperanças que
+me dava o teu amor, Thereza!
+
+Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não
+aqui. Apague-se a luz de meus olhos; mas a luz do ceu, quero-a! quero
+vêr o ceu no meu ultimo olhar.
+
+Não me peças que aceite dez annos de prisão. Tu não sabes o que é a
+liberdade captiva dez annos! Não comprehendes a tortura dos meus vinte
+mezes. A voz unica que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola
+o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcastica boa-nova
+de uma graça real que me commuta o morrer instantaneo da forca pelas
+agonias de dez annos de carcere.
+
+Salva-te, se pódes, Thereza. Renuncia ao prestigio d'um grande
+desgraçado. Se teu pae te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma
+aurora de paz, vive para a felicidade d'esse dia. E senão, morre,
+Thereza, morre, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as
+fibras laceradas pela dôr, é o esquecimento que salva das injurias a
+memoria dos padecentes.»
+
+As palavras unicas de Thereza, em resposta áquella carta, significativa
+da turvação do infeliz, foram estas: «Morrerei, Simão, morrerei. Perdôa
+tu ao meu destino... Perdi-te... bem sabes que sorte eu queria dar-te...
+e morro, porque não posso, nem poderei jámais resgatar-te. Se pódes,
+vive; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares.
+Consolar-te-ha o meu espirito... Estou tranquilla... Vejo a aurora da
+paz... Adeus até ao ceu, Simão.»
+
+Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão
+Botelho não respondia ás perguntas de Marianna. Dil-o-ieis arrobado nas
+voluptuosas angustias do seu proprio aniquilamento. A creatura, posta
+por Deus ao lado d'aquelles dezoito annos tão attribulados, chorava; mas
+as lagrimas, se Simão as via, tiravam-no da mudez socegada para impetos
+de afflicção, que a final o extenuavam á força de convulsões.
+
+Decorreram seis mezes ainda.
+
+E Thereza vivia, dizendo ás suas consternadas companheiras, que sabia ao
+certo o dia do seu trespasse.
+
+Duas primaveras vira Simão Botelho pelas grades do seu carcere. A
+terceira já inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.
+
+Era em Março de 1807.
+
+No dia 10 d'esse mez recebeu o condemnado intimação para sahir na
+primeira embarcação que levava ancora do Douro para a India. N'esse
+tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa
+os que tinham igual destino.
+
+Nenhum estorvo impedia o embarque de Marianna, que se apresentou ao
+corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu
+amo.
+
+--E a passagem vale-a bem!--disse o galhofeiro magistrado.
+
+Simão assistiu no encaixotar de sua bagagem, n'uma quietação terrivel,
+como se ignorasse o seu destino.
+
+Quiz muitas vezes escrever a derradeira carta á moribunda Thereza, e nem
+signaes de lagrimas podia já enviar-lhe no papel.
+
+--Que trevas, meu Deus!--exclamava elle, e arrancava a mãos cheias os
+cabellos--Dai-me lagrimas, Senhor! deixai-me chorar, ou matai-me, que
+este soffrimento é insupportavel!
+
+Marianna contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os
+não menos medonhos da lethargia.
+
+--E Thereza!--bradava elle, surgindo subitamente do seu spasmo--E
+aquella infeliz menina, que eu matei! Não hei de vêl-a mais, nunca mais!
+Ninguem me levará ao degredo a noticia da sua morte! E quando a eu
+chamar para que me veja morrer digno d'ella, quem te dirá que eu morri,
+ó martyr!
+
+
+
+
+X.
+
+
+A 17 de Março de 1807 sahiu dos carceres da Relação Simão Antonio
+Botelho, e embarcou no caes da Ribeira, com setenta e cinco
+companheiros. O filho do ex-corregedor de Vizeu, a pedido do
+desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não
+ia amarrado com cordas ao braço d'algum companheiro. Desceu da cadêa ao
+embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Marianna, que vigiava os
+caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a
+bordo da nau, e recommendou ao commandante que distinguisse o degredado
+Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o á sua mesa. Chamou Simão de
+parte, e deu-lhe um cartuxo de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe
+enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e na presença de Mourão
+Mosqueira pediu ao commandante que fizesse distribuir pelos seus
+companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.
+
+--É demente o senhor Simão?!--disse o desembargador.
+
+--Tenho a demencia da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi:
+quero agora vêr a que extremo de infortunio ella póde levar os seus
+amantes. A caridade só me não humilha, quando parte do coração e não do
+dever. Não conheço a pessoa, que me remetteu este dinheiro.
+
+--É sua mãe--tornou Mosqueira.
+
+--Não tenho mãe. Quer v. ex.^a remetter-lhe esta esmola rejeitada?
+
+--Não, senhor.
+
+--Então, senhor commandante, cumpra o que lhe peço, ou eu atiro com isto
+ao rio.
+
+O commandante aceitou o dinheiro, e o desembargador sahiu de bordo como
+espantado da sinistra condição do moço.
+
+--Onde é Monchique?--pergutou Simão a Marianna.
+
+--É acolá, senhor Simão--respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se
+debruça sobre a margem do Douro, em Miragaya.
+
+Cruzou os braços Simão, e viu através do gradeamento do mirante um
+vulto.
+
+Era Thereza.
+
+Na vespera recebêra ella o adeus de Simão, e respondêra enviando-lhe a
+trança dos seus cabellos.
+
+Ao anoitecer d'aquelle dia, pediu Thereza os sacramentos, e commungou á
+grade do côro, onde se foi amparando á sua criada. Parte das horas da
+noite passou-as sentada ao pé do sanctuario de sua tia, que toda a noite
+orou. Algumas vezes pediu que a levassem á janella que se abria para o
+mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com
+as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo, por seu pé, ás
+cellas das senhoras entrevadas, para lhes dar o beijo da despedida.
+
+Todas cuidavam em reanimal-a, e Thereza sorria, sem responder aos
+piedosos artificios com que as boas almas a si mesmas queriam simular
+esperanças. Ao abrir da manhã, Thereza leu uma a uma as cartas de Simão
+Botelho. As que tinham sido escriptas nas margens do Mondego,
+enterneciam-na a copiosas lagrimas. Eram hymnos á felicidade prevista:
+eram tudo que mais formoso póde dar o coração humano, quando a poesia da
+paixão dá côr ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe
+empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscencias
+d'aquelles dias: a sua alegria doida, as suas dôces tristezas,
+esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colloquios com a irmã
+querida de Simão, o ceu aromatico que se lhe ampliava á aspiração
+sôfrega de vagos desejos, tudo, emfim, que lembra a desgraçados.
+
+Emmassou depois as cartas, e cintou-as com fitas de sêda desenlaçadas de
+raminhos de flôres murchas, que Simão, dois annos antes, lhe atirára da
+sua janella ao quarto d'ella.
+
+As petalas das flôres soltas quasi todas se desfizeram, e Thereza,
+contemplando-as, disse: «Como a minha vida...» e chorou, beijando os
+calices desfolhados das primeiras que recebêra.
+
+Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito
+d'ellas, que logo veremos cumprida.
+
+Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado
+sobre uma cadeira. Erguendo-se, quasi tirada pela violencia, aceitou uma
+chicara de caldo, e murmurou com um sorriso: «Para a viagem...»
+
+Ás nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante
+e, sentando-se em ancias mortaes, nunca mais desfitou os olhos da nau,
+que já estava de verga alta, esperando a leva dos degredados.
+
+Quando viu, a dois a dois, entrarem amarrados, no tombadilho, os
+condemnados, Thereza teve um breve accidente, em que a já froixa
+claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos convulsas pareciam querer
+aferrar a luz fugitiva.
+
+Foi então que Simão Botelho a viu.
+
+E ao mesmo tempo atracou á nau um bote, em que vinha a pobre de Vizeu
+chamando Simão. Foi elle ao portaló, e estendendo o braço á mendiga,
+recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu elle que a primeira não
+era sua, pela lizura do papel; mas não a abriu.
+
+Ouviu-se a voz de levar ancora, e largar amarras. Simão encostou-se á
+amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.
+
+Viu agitar-se um lenço, e elle respondeu com o seu áquelle aceno. Desceu
+a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distinctamente Simão viu
+um rosto e uns braços suspensos das rêxas de ferro; mas não era de
+Thereza aquelle rosto: seria antes um cadaver que subiu da claustra ao
+mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.
+
+--É Thereza?--perguntou Simão a Marianna.
+
+--É, senhor, é ella--disse n'um afogado gemido a generosa creatura,
+ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condemnado iria breve no
+seguimento d'aquella por quem se perdêra.
+
+De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e avistou Simão
+um movimento impetuoso de alguns braços, e o desapparecimento de Thereza
+e do vulto de Constança, que elle entre-vira mais tarde.
+
+A nau parou de fronte de Sobreiras. Uma nuvem no horisonte da barra, e o
+subito encapellamento das ondas, causára a suspensão por ordem do
+commandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia, com o piloto mór,
+que mandava lançar ferro, até novas ordens. Mais tarde, deferiu-se a
+sahida para o dia seguinte.
+
+E, no entanto, Simão Botelho, como o cadaver embalsamado, cujos olhos
+reluzentes se cravam n'um ponto immoveis, lá tinha os seus immersos na
+interior escuridade do miradouro. Nenhum signal de vida, e as horas
+passaram até que o derradeiro raio do sol se apagou nas grades do
+mosteiro.
+
+Ao escurecer voltou de terra o commandante, e contemplou, com os olhos
+embaciados de lagrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras
+estrellas, eminentes ao mirante.
+
+--Procura-a no ceu?--disse o nauta.
+
+--Se a procuro no ceu!--repetiu machinalmente Simão.
+
+--Sim!... no ceu deve ella estar.
+
+--Quem, senhor?
+
+--Thereza.
+
+--Thereza!... Morreu?!
+
+--Morreu, álem, no mirante, d'onde lhe estava acenando.
+
+Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O
+commandante lançou-lhe os braços e disse:
+
+--Coragem, grande desgraçado, coragem! os homens do mar crêem em Deus!
+Espere que o ceu se abra para si pelas supplicas d'aquelle anjo!
+
+Marianna estava um passo atraz de Simão, e tinha as mãos erguidas.
+
+--Acabou-se tudo!...--murmurou Simão-- Eis-me livre... para a morte...
+Senhor commandante--continuou elie energicamente--eu não me suicido.
+Póde deixar-me.
+
+--Peço-lhe que se recolha á camara. O seu beliche está ao pé do meu.
+
+--É obrigatorio recolher-me?
+
+--Para v. s.^a não ha obrigações; ha rogos: peço-lh'o não mando.
+
+--Vou, e agradeço a compaixão.
+
+Marianna seguiu-o com aquelle olhar quebrado e mavioso do jáo, quando o
+poeta desembarcava, segundo a ideia apaixonada do cantor de Camões.
+
+Encarou n'ella Simão, e disse ao commandante:
+
+--E esta infeliz?
+
+--Que o siga...--respondeu o compassivo homem do mar, que cria em Deus.
+
+Simão recolheu-se ao beliche, e o commandante sentou-se em frente
+d'elle, e Marianna ficou no escuro da camera a chorar.
+
+--Falle, senhor Simão!--disse o commandante--desafogue e chore.
+
+--Chorei, senhor!
+
+--Eu não tinha imaginado uma angustia igual á sua. A invenção humana não
+creou ainda um quadro tão atroz. Arripiam-se-me os cabellos, e tenho
+visto espectaculos horriveis na terra e no mar.
+
+Acintemente, o commandante estava provocando Simão ao desabafo. Não
+respondia o degredado. Ouvia os soluços de Marianna, e tinha os olhos
+postos no masso das cartas, que pozera sobre uma banqueta.
+
+O capitão proseguiu:
+
+--Quando em Miragaya me contaram a morte d'aquella senhora, pedi a uma
+pessoa relacionada no convento, que me levasse a ouvir d'alguma freira a
+triste historia. Uma religiosa m'a contou; mas eram mais os gemidos que
+as palavras. Soube que ella, quando desciamos na altura do Oiro,
+proferira em alta voz: «Simão, adeus até á eternidade!» e cahiu nos
+braços d'uma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a
+trouxeram meia-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma
+palavra mais lhe ouviram. Depois contaram-me o que ella penára em dois
+annos e nove mezes n'aquelle mosteiro. O amor que ella lhe tinha, e as
+mil mortes que ella ali padeceu, de cada vez que a esperança lhe morria,
+Que desgraçada menina, e que desgraçado moço o senhor é!
+
+--Por pouco tempo...-- disse Simão, como se o dissesse a si proprio, ou
+a propria imaginação o estivesse dialogando comsigo.
+
+--Creio, creio, por pouco tempo--proseguiu o capitão;--mas se os amigos
+podessem salval-o, senhor, eu dar-lh'os-ia na India mais fieis que em
+Portugal. Prometto-lhe, sob minha palavra de honra, alcançar do visorei
+a sua residência em Gôa. Prometto segurar-lhe um decente principio de
+vida, e as commodidades que fazem a existencia tão saudavel como ella é
+na Asia. Não o intimide a ideia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por
+vencer-se, e será feliz!
+
+--O seu silencio, por piedade, senhor...--atalhou o degredado.
+
+--Bem sei que é cêdo ainda para planisar futuros. Desculpe á sympathia,
+que me inspira, a indiscrição. Mas aceite um amigo n'esta hora
+atribulada.
+
+--Aceito, e preciso d'elle.... Marianna!--chamou Simão--Venha aqui, se
+este cavalheiro o permitte.
+
+Marianna entrou no quarto.
+
+--Esta mulher tem sido a minha providencia--disse Simão--Porque ella me
+valeu, não senti a fome em dois annos e nove mezes de carcere. Tudo que
+tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta creatura.
+Seja respeitavel aos seus olhos, senhor, porque ella é tão pura como a
+verdade o deve ser nos labios d'um moribundo. Se eu morrer, senhor
+commandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se
+ella fosse minha irmã. Se ella quizer voltar á patria, seja o seu
+protector na passagem.--E estendendo-lhe a mão, disse com
+transporte:--Promette-me isto, senhor?
+
+--Juro-lh'o.
+
+O commandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simão com
+Marianna.
+
+--Estou tranquillo pelo seu futuro, minha amiga.
+
+--Eu já o estava, senhor Simão--respondeu ella.
+
+Não se trocaram palavra por largo espaço. Simão apoiou a face sobre a
+mesa, e apertou com as mãos as fontes archejantes. Marianna, de pé, ao
+lado d'elle, fitava os olhos na luz mortiça da lampada oscillante, e
+scismava, como elle, na morte.
+
+E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gáveas da nau.
+
+
+
+
+CONCLUSÃO.
+
+
+Ás onze horas da noite o commandante recolhêra-se n'um beliche de
+passageiro, e Marianna, sentada no pavimento, com o rosto sobre os
+joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e afflictivas
+horas d'aquelle dia.
+
+Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre
+o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente d'um arame. O
+ouvido têl-o-ia talvez attento ao assovio da ventania: devia de soar-lhe
+como um ai plangente aquelle silvo agudo, voz unica no silencio da terra
+e do ceu.
+
+Á meia noite estendeu Simão o braço tremulo ao masso das cartas que
+Thereza lhe enviára, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que
+era d'ella. Rompeu a obreia, e dispôz-se no camarote para alcançar o
+baço clarão da lampada.
+
+Dizia assim a carta:
+
+«É já o meu espirito que te falla, Simão. A tua amiga morreu. A tua
+pobre Thereza, á hora em que leres esta carta, se me Deus não engana,
+está em descanso.
+
+Eu devia poupar-te a esta ultima tortura; não devia escrever-te; mas
+perdôa á tua esposa do ceu a culpa pela consolação que sinto em
+conversar comtigo a esta hora, hora final da noite da minha vida.
+
+Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? D'aqui a pouco
+perderás da vista este mosteiro; correrás milhares de leguas, e não
+acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: «A infeliz
+espera-te n'outro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.»
+
+Se te podesses illudir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava
+com vida e com esperança de vêr-te na volta do degredo? Assim póde ser,
+mas ainda agora, n'este solemne momento, me domina a vontade de fazer-te
+sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem ás
+vezes vaidade de mostrar que o é, até não podêl-o ser mais! Quero que
+digas: Está morta, e morreu quando lhe eu tirei a ultima esperança.
+
+Isto não é queixar-me, Simão, não é. Talvez que eu podesse alguns dias
+resistir á morte, se tu ficasses; mas, d'um modo ou d'outro, era
+inevitavel fechar os olhos quando se rompesse o ultimo fio, este ultimo
+que se está partindo, e eu mesma o oiço partir.
+
+Não vão estas palavras accrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar
+um remorso injusto á tua saudade.
+
+Se eu podesse ainda vêr-te feliz n'este mundo; se Deus permittisse á
+minha alma esta visão!... _Feliz_, tu, meu pobre condemnado!... Sem o
+querer, o meu amor agora te fazia injuria, julgando-te capaz de
+felicidade! Tu morrerás de saudade, se o clima do desterro te não matar
+ainda antes de succumbires á dôr do espirito.
+
+A vida era bella, era, Simão, se a tivessemos como tu m'a pintavas nas
+tuas cartas, que li ha pouco. Estou vendo a casinha que tu descrevias
+defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves. A tua imaginação
+passeava comigo ás margens do Mondego, á hora pensativa do escurecer.
+Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
+mudez do coração ao teu silencio, e animada por teu sorriso inclinava a
+face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas
+cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia em quanto a alma se
+esta recordando. N'outra carta me fallavas em triumphos e glorias e
+immortalidade do teu nome. Também eu ia após da tua aspiração, ou
+adiante d'ella, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espirito
+queria eu que fosse meu. Era criança ha tres annos, Simão, e já entendia
+os teus anhelos de gloria, e imaginava-os realisados como obra minha, se
+me tu dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o
+estimulo do meu amor.
+
+Ó Simão, de que ceu tão lindo cahimos! Á hora que te escrevo estás tu
+para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.
+
+Que importa morrer, se não podemos jámais ter n'esta vida a nossa
+esperança de ha tres annos?! Poderias tu com a desesperança e com a
+vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos
+beneficios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é
+uma misericordia divina, uma bemaventurança para mim.
+
+E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio? Onde irás tu
+aviventar o coração que a desgraça te esmagou, sem poder esmagar a
+imagem d'esta docil mulher, que seguiu cegamente a estrella da tua
+malfadada sorte?
+
+Tu nunca hás de amar, não, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se uma
+vez visses passar rapidamente a minha imagem por diante dos teus olhos
+enxutos? Soffre, soffre ao coração da tua amiga estas derradeiras
+perguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta lêres.
+
+Rompe a manhã. Vou vêr a minha ultima aurora... a ultima dos meus
+dezoito annos!
+
+Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre d'uma agonia longa.
+Todas as minhas angustias lhe offereço em desconto das tuas culpas. Se
+algumas impaciencias a justiça divina me condemna, offerece tu a Deus,
+meu amigo, os teus padecimentos para que eu seja perdoada.
+
+Adeus; á luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão.»
+
+Erguei-se Simão Botelho, olhou em redor de si, e fitou com spasmo
+Marianna, que levantava a cabeça ao menor movimento d'elle.
+
+--Que tem, senhor Simão?--disse ella, erguendo-se.
+
+--Estava aqui, Marianna?... não se vai deitar?!
+
+--Não vou: o commandante deu-me licença de ficar aqui.
+
+--Mas ha de assim passar a noite?! Rogo-lhe que vá, porque não é
+necessario o seu sacrificio.
+
+--Se o não incommodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão.
+
+--Esteja, minha amiga, esteja... Poderei subir ao convez?
+
+--Quer ir ao convez, senhor Botelho?--disse o commandante lançando-se do
+beliche.
+
+--Queria, senhor commandante.
+
+--Iremos juntos.
+
+Simão ajuntou a carta de Thereza ao maço das suas, e subiu cambaleando.
+No convéz sentou-se n'um monte de cordame, e contemplou o mirante de
+Monchique, que avultava negro ao sopé da serra penhascosa em que
+actualmente vai a rua da Restauração.
+
+O capitão passeava da prôa á ré; mas com o ouvido fito aos movimentos do
+degredado. Receára elle o proposito do suicidio, porque Marianna lhe
+incutira semelhante suspeita. Queria o maritimo fallar-lhe palavras
+consoladoras, mas pensava comsigo: «O que ha de dizer-se a um homem que
+soffre assim?» E parava junto d'elle algumas vezes, como para
+desviar-lhe o espirito d'aquelle mirante.
+
+--Eu não me suicido!--exclamou abruptamente Simão Botelho--Se a sua
+generosidade, senhor capitão, se interessa em que eu viva, póde dormir
+descansado a sua noite, que eu não me suicido.
+
+--Mas mereço-lhe eu a condescendencia de descer comigo á camara?
+
+--Irei; mas eu lá soffro mais, senhor.
+
+Não replicou o commandante, e continuou a passear no convez, apesar das
+rajadas de vento.
+
+Marianna estava agachada, entre os pacotes da carga, a pouca distancia
+de Simão. O commandante viu-a, fallou-lhe, e retirou-se.
+
+Ás tres horas da manhã Simão Botelho segurou entre as mãos a testa que
+se lhe abria abrazada pela febre.
+
+Não pôde ter-se sentado, e deixou cahir meio corpo. A cabeça, ao
+declinar, pousou no seio de Marianna.
+
+--O anjo da compaixão sempre comigo!--murmurou elle--Thereza foi muito
+mais desgraçada...
+
+--Quer descer ao camarote?--disse ella.
+
+--Não poderei... Ampare-me, minha irmã.
+
+Deu alguns passos para o alçapão, e olhou ainda para o mirante. Desceu a
+ingreme escada, apegando-se ás cordas. Lançou-se sobre o colchão, e
+pediu agua, que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o
+estorcimento, e as ancias, com intervallos de delirio.
+
+De manhã veio a bordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando
+o condemnado, disse que era «maligna» a doença, e que bem podia ser que
+elle achasse a sepultura no caminho da India.
+
+Marianna ouviu o prognostico, e não chorou.
+
+Ás onze horas sahiu barra fóra a nau. Ás ancias da doença accresceram as
+do enjoo. A pedido do commandante, Simão bebia remedios, que bolsava
+logo, revoltos pelas contracções do vomito.
+
+Ao segundo dia de viagem Marianna disse a Simão:
+
+--Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer áquellas cartas que vão na
+caixa?
+
+Pasmosa serenidade a d'esta pergunta!
+
+--Se eu morrer no mar--disse elle--Marianna atire ao mar todos os meus
+papeis; todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro
+tambem.
+
+Passada uma ancia, que lhe embargara a voz, Simão continuou:
+
+--Se eu morrer, que tenciona fazer, Marianna!
+
+--Morrerei, senhor Simão.
+
+--Morrerá?!.. Tanta gente desgraçada que eu fiz!...
+
+A febre augmentava. Os symptomas da morte eram visiveis aos olhos do
+capitão, que tinha sobeja experiencia de vêr morrerem centenares de
+condemnados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum
+medicamento.
+
+Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascaes,
+sobreveio tormenta subita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e
+perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado para o sul. Ao sexto dia
+de navegação incerta, por entre espêssas brumas, partiu-se o leme
+defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refegas,
+desencapellaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um
+formoso dia de primavera. Era o dia 27 de Março, o nono da enfermidade
+de Simão Botelho.
+
+Marianna tinha envilhecido. O commandante, encarando n'ella, exclamou:
+
+--Parece que volta da India com os dez annos de trabalhos já
+passados!...
+
+--Já acabados... de certo...--disse ella.
+
+Ao anoitecer d'esse dia o condemnado delirou pela ultima vez, e dizia
+assim no seu delirio:
+
+«A casinha, defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves.
+Passeavas comigo á margem do Mondego, á hora pensativa do escurecer.
+Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
+mudez do coração ao teu silencio, e, animada por teu sorriso, inclinava
+a face ao teu seio como se fosse o de minha mãe... De que ceu tão lindo
+cahimos... A tua amiga morreu... A tua pobre
+Thereza.............................
+
+E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio?... Onde irás
+tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou... Rompe a manhã... Vou
+vêr a minha ultima aurora... a ultima dos meus dezoitos annos. Offerece
+a Deus os teus padecimentos para que eu seja perdoada... Marianna...»
+
+Marianna collou os ouvidos aos labios roixos do moribundo, quando cuidou
+ouvir o seu nome.
+
+«Tu virás ter comnosco; ser-te-hemos irmãos no ceu... O mais puro anjo
+serás tu... se és d'este mundo, irmã; se és d'este mundo, Marianna...»
+
+A transição do delirio para a lethargia completa era o annuncio
+infallivel do trespasse.
+
+Ao romper da manhã apagára-se a lampada. Marianna sahira a pedir luz, e
+ouvira um gemido estorturoso. Voltando ás escuras, com os braços
+estendidos para tactear a face do agonisante, encontrou a mão convulsa,
+que lhe apertou uma das suas, e relaxou de subito a pressão dos dedos.
+
+Entrou o commandante com uma lampada, e approximou-lh'a da respiração,
+que não embaciou levemente o vidro.
+
+--Está morto!...-- disse elle.
+
+Marianna curvou-se sobre o cadaver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro
+beijo. Ajoelhou depois ao pé do camarote com as mãos erguidas, e não
+orava nem chorava.
+
+Algumas horas depois, o commandante disse a Marianna:
+
+--Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo ... É ventura
+morrer quando se vem a este mundo com tal estrella... Passe a senhora
+Marianna ali para a camara, que vai ser levado d'aqui o defuncto.
+
+Marianna tirou o masso das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma
+caixa buscar os papeis de Simão. Atou o rolo no avental, que elle tinha
+d'aquellas lagrimas d'ella choradas no dia da sua demencia, e cingiu o
+embrulho á cintura.
+
+Foi o cadaver envolto n'um lençol, e transportado ao convez.
+
+Marianna seguiu-o.
+
+Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou ás pernas
+com um pedaço de cabo. O commandante contemplava a scena triste com os
+olhos humidos, e os soldados, que guarneciam a nau, tão funeral respeito
+os acurvava, que insensivelmente se descobriram.
+
+Marianna estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia
+estupidamente encarar aquelles empuxões, que o marujo dava ao cadaver
+para segurar a pedra na cintura.
+
+Dois homens ergueram o cadaver ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o
+balanço para o arremessarem longe. E antes que o baque do morto se
+fizesse ouvir na agua, todos viram, e ninguém já pôde segurar Marianna,
+que se atirára ao mar.
+
+Á voz do commandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens
+para salvar Marianna.
+
+Salval-a!...
+
+Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir á morte, mas para
+abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O
+commandante olhou para o sitio d'onde Marianna se atirára, e viu,
+enleado no cordame, o avental, e á flor d'agua um rolo de papeis que os
+marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondencia de
+Thereza e Simão.
+
+ * * * * *
+
+Da familia de Simão Botelho vive ainda, em Villa Real de Traz-os-Montes,
+a senhora D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, a irmã predilecta
+d'elle. A ultima pessoa fallecida, ha vinte e seis annos, foi Manoel
+Botelho, pae do author d'este livro.
+
+
+FIM.
+
+ * * * * *
+
+[1] Ha vinte annos que eu ouvi d'um coevo do facto a historia do
+assassinio assim contada: Era em quinta Feira santa. Marcos Botelho,
+irmão de Domingos, estava na festa de endoenças, em S. Francísco,
+defrontando com uma dama, namorada sua, e desleal dama que ella era.
+N'outro ponto da igreja estava, apontado em olhos e coração á mesma
+mulher, um alferes de infanteria. Marcos enfreou o seu ciume até ao
+final do officio da paixão. Á sahida do templo encarou no militar, e
+provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Terçaram
+as armas longo tempo sem desaire nem sangue. Amigos de ambos tinham
+conseguido aplacal-os, quando Luiz Botelho, outro irmão de Marcos,
+desfechou uma clavina no peito do alferes, e alli á entrada da «rua do
+Jogo da Bola» o derribou morto. O homicida foi livre por graça regia.
+
+[2] É a casa-palacete da «rua da Piedade», hoje pertencente ao doutor
+Antonio Girardo Monteiro.
+
+[3] Esclarece este dizer de D. Rita a certidão de idade de Simão, a qual
+tenho presente, e é extrahida por Herculano Henrique Garcia Camillo
+Galhardo, reitor da real Igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a
+folhas 159 v. Reza assim:
+
+«Aos dois dias do mez de maio de 1784, pôz os santos oleos o reverendo
+padre cura João Domingues Chaves a Simão, o qual foi _baptisado em casa
+em perigo de vida_ pelo Reverendo Frei Antonio de S. Pelagio, etc.»
+
+[4] N'alguns papeis que possuimos do corregedor de Vizeu achamos esta
+carta: «Meu amigo, collega e senhor. Entregará, ao portador d'esta, que
+é o senhor padre Manoel de Oliveira, as cincoenta moedas em que lhe
+fallei na sua passagem para Lisboa. A appellação de seu filho está a meu
+cuidado, e está segura, apesar das grandes forças contrarias. Seu
+amigo--O desembargador _Antonio José Dias Mourão Mosqueira_. Porto 11 de
+fevereiro de 1805.--Sobrescripto: Ill.^mo Snr. D.^or Domingos José
+Correia Botelho de Mesquita e Menezes.--Lisboa.»
+
+(_Nota do auctor_).
+
+[5] Este romance foi escripto n'um dos cubiculos-carceres da Relação do
+Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pelas sombras das
+abobadas. Anno da Graça de 1861.
+
+[6] _Hoje então!..._ Vou-lhes contar um lance memorando d'um philosopho
+da actualidade, lance unico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa.
+Hoje (21 de Setembro de 1861) estava eu no escriptorio do illustre
+advogado Joaquim Marcellino de Mattos, e um cliente entrou contando o
+seguinte:--«Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de ***; e fui
+roubado em oitocentos mil reis por minha mulher, que fugiu com um amante
+para Vianna. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro.»
+--Póde querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor
+quer querelar por adulterio?--Responde o queixoso: «O que eu quero é o
+meu dinheiro.»--Mas, redargue o consultor, o senhor póde querelar de
+ambos, d'ella por adultera, e d'elle como receptador do furto.--«E
+receberei o meu dinheiro?»--Conforme. Eu sei cá se elle tem o seu
+dinheiro?! O que sei é que não póde pronuncial-a a ella como
+ladra.--«Mas os meus oitocentos mil reis?!»--Ah! o senhor não se lhe dá
+que sua mulher fuja e não volte?--«Não, senhor doutor, que a leve o
+diabo; o que eu quero é o meu dinheiro.»--Pois querele d'ambos, o
+veremos depois.--«Mas não é certo receber eu o meu dinheiro?!»--Certo
+não é; veremos se depois de pronunciado as authoridades administrativas
+capturam o ladrão com o seu dinheiro.--«E, se elle o não tiver
+já?--redargue o marido consternado.»--Se o não tiver já, o senhor
+vinga-se na querela por adulterio.--«E gasta-se alguma coisa?»--Gasta,
+sim; mas vinga-se.--«O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor:
+a mulher deixal-a ir, que tem cincoenta annos.»--Cincoenta
+annos!--acudiu o doutor--o senhor está vingado do amante. Vá para casa,
+deixe-se de querelas, que o mais desgraçado é elle.
+
+
+Encadernação N.° 2465
+
+FAUSTO FERNANDES
+
+ENCADERNOU
+
+Patio de D. Fradique, 1--LISBOA
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Amor de Perdição, by Camillo Castello Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR DE PERDIÇÃO ***
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
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+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+works.
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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