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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Amor de Perdição + Memorias d'uma familia + +Author: Camillo Castello Branco + +Release Date: August 3, 2005 [EBook #16425] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR DE PERDIÇÃO *** + + + + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + + + + + + +AMOR DE PERDIÇÃO. + + + + +AMOR DE PERDIÇÃO + + +(MEMORIAS D'UMA FAMILIA). + + +ROMANCE + +POR + +CAMILLO CASTELLO BRANCO. + + * * * * * + +Quem viu jámais vida amorosa, que não a visse afogada nas lagrimas do +desastre ou do arrependimento? + +D. Francisco Manoel, (_Epanaphora amorosa_). + + * * * * * + +PORTO + +EM CASA DE N. MORÉ--EDITOR, + +PRAÇA DE D. PEDRO. + +A mesma casa em Coimbra, Rua da Calçada. + +Casa de Commissões em Paris, 2 bis, Rua d'Arcole. + +1862. + + + + +PORTO: 1862--TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA. + +Rua do Almada, 641. + + + + +AO ILLUSTRISSIMO E EXCELENTISSIMO SENHOR + + +*ANTONIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELLO* + +DEDICA + +O Author. + + + + +_Ill.^mo e Ex.^mo Snr. + +Ha de pensar muita gente que V. Ex.^a não dá valor algum a este livro, +que a minha gratidão lhe dedica, porque muita gente está persuadida que +ministros do estado não lêem novellas. É um engano. Uma vez ouvi eu um +collega de V. Ex.^a discorrer no parlamento ácerca de caminhos de ferro. +Com tanto engenho o fazia, de tantas flôres matizára aquella árida +materia, que me deleitou ouvil-o. Na noite d'esse dia encontrei o +collega de V. Ex.^a a lêr a Fanny, aquella Fanny, que sabia tanto de +caminhos de ferro como eu. + +Que V. Ex.^a tem romances na sua bibliotheca, é convicção minha. Que lá +tem alguns, que não leu porque o tempo lhe falece, e outros porque não +merecem tempo, também o creio. Dê V. Ex.^a, no lote dos segundos, um +logar a este livro, e terá assim V. Ex.^a significado que o recebe e +aprecia, por levar em si o nome do mais agradecido e respeitador criado +de V. Ex.^a + +Na cadêa da Relação do Porto, + +aos 26 de Setembro de 1861. + +Camillo Castello Branco_. + + + + +PREFACIO. + + +Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartorio das cadêas da +Relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a +folhas 232, o seguinte: + + _Simão Antonio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e + estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, + e assistente na occasião de sua prisão na cidade de Vizeu, idade de + dezoito annos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita + Preciosa Caldeirão Castello-Branco, estatura ordinaria, cara + redonda, olhos castanhos, cabello e barba preta, vestido com + jaqueta de baetão azul, collête de fustão pintado e calça de panno + pedrez. E fiz este assento, que assignei. + + Filippe Moreira Dias_. + +Á margem esquerda d'este assento está escripto: + + _Foi para a India em 17 de Março de 1807_. + +Não será fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o +degredo de um moço de dezoito annos lhe havia de fazer dó. + +Dezoito annos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As +louçanias do coração que ainda não sonha em fructos, e todo se embalsama +no perfume das flôres! Dezoito annos! O amor d'aquella idade! A passagem +do seio da familia, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as +caricias mais dôces da virgem, que se lhe abre ao lado como flôr da +mesma sazão e dos mesmos aromas, e á mesma hora da vida! Dezoito +annos!... E degradado da patria, do amor, e da familia! Nunca mais o ceo +de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem rehabilitação, nem +dignidade, nem um amigo!... É triste! + +O leitor de certo se compungia; e a leitora se lhe dissessem, em menos +de uma linha, a historia d'aquelles dezoito annos, choraria! Pois não? A +olhos enchutos poderia ouvil-a a mulher, a creatura mais bem formada das +branduras da piedade, a que por vezes traz comsigo do ceo um reflexo da +divina misericordia, essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos +os infelizes não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdêra +honra, rehabilitação, patria, liberdade, irmãs, mãe, tudo, por amor da +primeira mulher que o despertou do seu dormir de innocentes desejos?! + +Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobresalto que +me causaram aquellas linhas, de proposito procuradas, e lidas com +amargura e respeito e, ao mesmo tempo, odio. Odio, sim... A tempo verão +se é perdoavel o odio, ou se antes me não fôra melhor abrir mão desde já +de uma historia que me póde acarear enojos dos frios julgadores do +coração, e das sentenças que eu aqui lavrar contra a falsa virtude de +homens, feitos barbaros, em nome de sua honra. + + * * * * * + + + + +AMOR DE PERDIÇÃO. + + +PRIMEIRA PARTE. + + + + +I. + + +Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Menezes, fidalgo de +linhagem, e um dos mais antigos solarengos de Villa Real de +Traz-os-Montes, era, em 1779, juiz de fóra de Cascaes, e n'esse mesmo +anno casara com uma dama do paço, D. Rita Thereza Margarida Preciosa da +Veiga Caldeirão Castello-Branco, filha d'um capitão de cavallos, e neta +de outro, Antonio de Azevedo Castello-Branco Pereira da Silva, tão +notavel por sua jerarchia, como por um, n'aquelle tempo, precioso livro +ácerca da Arte da Guerra. + +Dez annos de enamorado mal succedido consumira em Lisboa o bacharel +provinciano. Para se fazer amar da formosa dama de D. Maria I +minguavam-lhe dotes physicos: Domingos Botelho era extremamente feio. +Para se inculcar como partido conveniente a uma filha segunda, +faltavam-lhe bens de fortuna: os haveres d'elle não excediam a trinta +mil cruzados em propriedades no Douro. Os dotes de espirito não o +recommendavam tambem: era alcançadissimo de intelligencia, e grangeara +entre os seus condiscipulos da universidade o epitheto de «brocas» com +que ainda hoje os seus descendentes em Villa Real são conhecidos. Bem ou +mal derivado, o epitheto _brocas_ vem de _brôa_. Entenderam os +academicos que a rudeza do seu condiscipulo procedia do muito pão de +milho que elle digeria na sua terra. + +Domingos Botelho devia ter uma vocação qualquer; e tinha: era excellenle +flautista; foi a primeira flauta do seu tempo; e a tocar flauta se +sustentou dois annos em Coimbra, durante os quaes seu pae lhe suspendeu +as mesadas, porque os rendimentos da casa não bastavam a livrar outro +filho de um crime de morte[1]. + +Formara-se Domingos Botelho em 1767, e fôra para Lisboa lêr no +desembargo do paço, iniciação banal dos que aspiravam á carreira da +magistratura. Já Fernão Botelho, pae do bacharel, fôra bem acceite em +Lisboa, e mórmente ao duque de Aveiro, cuja estima lhe teve a cabeça em +risco, na tentativa regicida de 1758. O provinciano sahiu das masmorras +da Junqueira illibado da infamante nodoa, e bem-quisto mesmo do conde de +Oeiras, porque tomara parte na prova que este fizera do primor de sua +genealogia sobre a dos Pintos Coelhos do Bomjardim do Porto: pleito +ridiculo, mas estrondoso, movido pela recusa que o fidalgo portuense +fizera de sua filha ao filho de Sebastião José de Carvalho. + +As artes com que o bacharel flautista vingou insinuar-se na estima de D. +Maria I e Pedro III não as sei eu. É tradição que o homem fazia rir a +rainha com as suas facecias, e por ventura com os tregeitos de que +tirava o melhor do seu espirito. O certo é que Domingos Botelho +frequentava o paço, e recebia do bolsinho da soberana uma farta pensão, +com a qual o aspirante a juiz de fóra se esqueceu de si, do futuro, e do +ministro da justiça, que muito rogado fiara das suas letras o encargo de +juiz de fóra de Cascaes. + +Já está dito que elle se atreveu aos amores do paço, não poetando como +Luiz de Camões ou Bernardim Ribeiro; mas namorando na sua prosa +provinciana, e captando a bem-querença da rainha para amollecer as +durezas da dama. Devia de ser, a final, feliz o «doutor bexiga»--que +assim era na côrte conhecido--para se não desconcertar a discordia em +que andam rixados o talento e a felicidade. Domingos Botelho casou com +D. Rita Preciosa. Rita era uma formosura que ainda aos cincoenta annos +se podia presar de o ser. E não tinha outro dote, se não é dote uma +serie de avoengos, uns bispos, outros generaes, e entre estes o que +morrêra frigido em caldeirão de não sei que terra da mourisma; gloria, +na verdade, um pouco ardente; mas de tal monta que os descendentes do +general frito se assignaram _Caldeirões_. + +A dama do paço não foi ditosa com o marido. Molestavam-na saudades da +côrte, das pompas das camaras reaes, e dos amores de sua feição e molde, +que immolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, porém, não +impeceu a reproduzirem-se em dois filhos e quatro meninas. O mais velho +era Manoel, o segundo Simão; das meninas uma era Maria, a segunda Anna, +e a ultima tinha o nome de sua mãe, e alguns traços da belleza d'ella. + +O juiz de fóra de Cascaes, solicitando logar de mais graduado banco, +demorava em Lisboa, na freguezia da Ajuda em 1784. N'este anno é que +nasceu Simão, o penultimo de seus filhos. Conseguiu elle, sempre +blandiciado da fortuna, transferencia para Villa Real, sua ambição +suprema. + +A distancia de uma legua de Villa Real estava a nobreza da villa +esperando o seu conterraneo. Cada familia tinha a sua liteira com o +brasão da casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no +feitio, e as librés dos criados as mais surradas e traçadas que +figuravam na comitiva. + +D. Rita, avistando o prestito das liteiras, ajustou ao olho direito a +sua grande luneta de oiro, e disse: + +--Ó Menezes, aquillo que é?! + +--São os nossos amigos e parentes que veem esperar-nos. + +--Em que seculo estamos nós n'esta montanha?--tornou a dama do paço. + +--Em que seculo?! o seculo tanto é dezoito aqui como em Lisboa. + +--Ah! sim? Cuidei que o tempo parára aqui no seculo doze. + +O marido achou que devia rir-se do chiste, que o não lisonjeára +grandemente. + +Fernão Botelho, pae do juiz de fóra, sahiu á frente do prestito para dar +a mão á nora, que apeava da liteira, e conduzil-a á de casa. D. Rita, +antes de vêr a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as +fivelas de aço, e a bolsa do rabicho. Dizia ella depois que os fidalgos +de Villa Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes +de entrar na liteira avoenga de seu marido, perguntou, com a mais +refalsada seriedade, se não haveria risco em ir dentro d'aquella +antiguidade. Fernão Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira não +tinha ainda cem annos, e que os machos não excediam a trinta. + +O modo altivo como ella recebeu as cortezias da nobreza--velha nobreza +que para alli viera em tempo de D. Diniz, fundador da villa--fez que o +mais novo do prestito, que ainda vivia ha doze annos, me dissesse a mim: +«Sabiamos que ella era dama da Senhora D. Maria I; porém, da soberba com +que nos tractou, ficamos pensando que seria ella a propria rainha.» +Repicaram os sinos da terra quando a comitiva assomou á Senhora de +Almudena. D. Rita disse ao marido que a recepção dos sinos era a mais +estrondosa e barata. + +Apearam á porta da velha casa de Fernão Botelho. A aia do paço relanceou +os olhos pela fachada do edificio, e disse de si para si: «É uma bonita +vivenda para quem foi criada em Mafra e Cintra, na Bemposta e Queluz.» + +Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha mêdo de ser +devorada das ratasanas; que aquella casa era um covil de feras; que os +tectos estavam a desabar; que as paredes não resistiriam ao inverno; que +os preceitos de uniformidade conjugal não obrigavam a morrer de frio uma +esposa delicada e affeita ás almofadas do palacio dos reis. + +Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte, e começou a +fabrica de um palacete. Escassamente lhe chegavam os recursos para os +alicerces: escreveu á rainha, e obteve generoso subsidio com que ultimou +a casa. As varandas das janellas foram a ultima dadiva que a real viuva +fez á sua dama. Quer-nos parecer que a dadiva é um testemunho até agora +inedito da demencia de D. Maria I. + +Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas; D. Rita, +porém, teimara que no escudo se abrisse um emblema das suas; mas era +tarde, porque já a obra tinha vindo do esculptor, e o magistrado não +podia com segunda despeza, nem queria desgostar seu pae, orgulhoso de +seu brasão. Resultou d'aqui ficar a casa sem armas, e D. Rita +victoriosa[2]. + +O juiz de fóra tinha alli parentella illustre. O aprumo da fidalga +dobrou-se até aos grandes da provincia, ou antes houve por bem +levantal-os até ella. D. Rita tinha uma côrte de primos, uns que se +contentavam de serem primos, outros que invejavam a sorte do marido. O +mais audacioso não ousava fital-a de rosto, quando o ella remirava com a +luneta em geito de tanta altivez e zombaria, que não será estranha +figura dizer que a luneta de Rita Preciosa era a mais vigilante +sentinella da sua virtude. + +Domingos Botelho desconfiava da efficacia dos merecimentos proprios para +cabalmente encher o coração de sua mulher. Inquietava-o o ciume; mas +suffocava os suspiros, receando que Rita se désse por injuriada da +suspeita. E razão era que se offendesse. A neta do general frigido no +caldeirão sarraceno ria dos primos, que, por amor d'ella, arriçavam e +empoavam as cabelleiras com um desgracioso esmero, ou cavalleavam +estrepitosamente na calçada os seus ginetes, fingindo que os picadores +da provincia não desconheciam as graças hippicas do marquez de Marialva. + +Não o cuidava assim, porém, o juiz de fóra. O intriguista que lhe trazia +o espirito em ancias era o seu espelho. Via-se sinceramente feio, e +conhecia Rita cada vez mais em flôr, e mais enfadada no trato intimo. +Nenhum exemplo da historia antiga, exemplo de amor sem quebra entre o +esposo deforme e a esposa linda, lhe occorria. Um só lhe mortificava a +memoria, e esse, com quanto fosse da fabula, era-lhe avêsso, e vinha a +ser o casamento de Venus e Vulcano. Lembravam-lhe as rêdes que o +ferreiro coixo fabricára para apanhar os deuses adulteros, e +assombrava-se da paciencia d'aquelle marido. Entre si, dizia elle, que, +erguido o véo da perfidia, nem se queixaria a Jupiter, nem armaria +ratoeiras aos primos. A par do bacamarte de Luiz Botelho, que varára em +terra o alferes, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz de fóra +era entendido com muito superior intelligencia á que revelava na +comprehensão do Digesto e das Ordenações do Reino. + +Este viver de sobresaltos durou seis annos, ou mais seria. O juiz de +fóra empenhára os seus amigos na transferencia, e conseguiu mais do que +ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou +saudades em Villa Real, e duradoura memoria da sua soberba, formosura e +graças de espirito. O marido tambem deixou anecdotas que ainda agora se +repetem. Duas contarei sómente para não enfadar. Acontecèra um lavrador +mandar-lhe o presenle de uma vitella, e mandar com ella a vacca para se +não desgarrar a filha. Domingos Botelho mandou recolher á loja a vitella +e a vacca, dizendo que quem dava a filha dava a mãe. Outra vez, deu-se o +caso de lhe mandarem um presente de pasteis em rica salva de prata. O +juiz de fóra repartiu os pasteis pelos meninos, e mandou guardar a +salva, dizendo que receberia como escarneo um presente de dôces, que +valiam dez patacões, sendo que naturalmente os pasteis tinham vindo como +ornato da bandeja. E assim é que ainda hoje, em Villa Real, quando se dá +um caso analogo de ficar alguem com o conteúdo e continente, diz a gente +da terra: «Aquelle é como o doutor brocas.» + +Não tenho assumpto de tradição com que possa deter-me em miudezas da +vida do provedor em Lamego. Escassamente sei que D. Rita aborrecia a +comarca, e ameaçava o marido de ir com os seus cinco filhos para Lisboa, +se elle não sahisse d'aquella intratavel terra. Parece que a fidalguia +de Lamego, em todo o tempo orgulhosa d'uma antiguidade, que principia na +acclamação de Almacave, desdenhou a philaucia da dama do paço, e +esmerilhou certas vergonteas pôdres do tronco dos Botelhos Correias de +Mesquita, desprimorando-lhe as sãs com o facto de elle ter vivido dois +annos em Coimbra tocando flauta. + +Em 1801 achamos Domingos José Correia Botelho de Mesquita corregedor em +Vizeu. + +Manoel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois annos, e frequenta +o segundo anno juridico. Simão, que tem quinze, estuda humanidades em +Coimbra. As tres meninas são o prazer e a vida toda do coração de sua +mãe. + +O filho mais velho escreveu a seu pae queixando-se de não poder viver +com seu irmão, temeroso do genio sanguinario d'elle. Conta que a cada +passo se vê ameaçado na vida, porque Simão emprega em pistolas o +dinheiro dos livros, e convive com os mais famosos perturbadores da +academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e +provocando-os á luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de seu +filho Simão, e diz á consternada mãe que o rapaz é a figura e o genio de +seu bisavô Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que déra +Traz-os-Montes. + +Manoel, cada vez mais aterrado das arremettidas de Simão, sáe de Coimbra +antes de ferias, e vai a Vizeu queixar-se, e pedir que lhe dê seu pae +outro destino. D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavallaria. De +Vizeu parte para Bragança Manoel Botelho, e justifica-se nobre dos +quatro costados para ser cadete. + +No entanto Simão recolhe a Vizeu com os seus exames feitos e approvados. +O pae maravilha-se do talento do filho, e desculpa-o da extravagancia +por amor do talento. Pede-lhe explicações do seu mau viver com Manoel, e +elle responde que seu irmão o quer forçar a viver monasticamente. + +Os quinze annos de Simão tem apparencias de vinte. É forte de +compleição; bello homem com as feições de sua mãe, e a corpolencia +d'ella; mas de todo avêsso em genio. Na plebe de Vizeu é que elle +escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleição +que faz, Simão zomba das genealogias, e mórmente do general Caldeirão +que morreu frito. Isto bastou para elle grangear a mal-querença de sua +mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte +no desgosto d'ella, e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante +Rita, a mais nova, com quem elle brincava puerilmente, e a quem +obedecia, se lhe ella pedia, com meiguices de criança, que não andasse +com pessoas mecanicas. + +Finalisavam as ferias, quando o corregedor teve um grave dissabor. Um de +seus criados tinha ido levar a beber os machos, e por descuido ou +proposito deixou quebrar algumas vasilhas que estavam á vez no parapeito +do chafariz. Os donos das vazilhas conjuraram contra o criado, e +espancaram-no. Simão passava n'esse ensejo; e, armado d'um fueiro que +descravou d'um carro, partiu muitas cabeças, e rematou o tragico +espectaculo pela farça de quebrar todos os cantaros. O povoleu intacto +fugira espavorido, que ninguem se atrevia ao filho do corregedor; os +feridos, porém, incorporaram-se e foram clamar justiça á porta do +magistrado. + +Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho geral que +o prendesse á sua ordem. D. Rita, não menos irritada, mas irritada como +mãe, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem +detença, fugisse para Coimbra, e esperasse lá o perdão do pae. + +O corregedor, quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se +zangado, e prometteu fazel-o capturar em Coimbra. Como, porém, D. Rita +lhe chamasse brutal nas suas vinganças, e estupido juiz d'uma rapaziada, +o magistrado desenrugou a severidade postiça da testa, e confessou +tacitamente que era brutal e estupido juiz. + + + + +II. + + +Simão Botelho levou de Vizeu para Coimbra as arrogantes convicções da +sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que +pozera trinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada +d'este, o levantar-se d'aquelle ensanguentado, a bordoada que abrangia +tres a um tempo, a que afocinhava dois, a gritaria de todos, e o +estrepito dos cantaros a final, Simão deliciava-se n'estas lembranças, +como ainda não vi n'algum drama, em que o veterano de cem batalhas +relembra os lourós de cada uma, e esmorece, a final, estafado de +espantar, quando não é de estafar, os ouvintes. + +O academico, porém, com os seus enthusiasmos era incomparavelmente muito +mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragedia. As +recordações esporeavam-no a façanhas novas, e n'aquelle tempo a academia +dava azo a ellas. A mocidade estudiosa, em grande parte, sympathisava +com as balbuciantes theorias da liberdade, mais por presentimento que +por estudo. Os apostolos da revolução franceza não tinham podido fazer +reboar o trovão dos seus clamores n'este canto do mundo; mas os livros +dos encyclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebêra a peçonha +que sahiu no sangue de noventa e tres, não eram de todo ignorados. As +doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns timidos +sectarios em Portugal, e esses de vêr é que deviam pertencer á geração +nova. Além de que, o rancor a Inglaterra lavrava nas entranhas das +classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de +estranhos, apertado, desde o principio do seculo anterior, com as sôgas +de ruinosos e perfidos tractados, estava no animo de muitos e bons +portuguezes que se queriam antes alliançados com a França, Estes eram os +pensadores reflexivos; os sectarios da academia, porém, exprimiam mais a +paixão da novidade que as doutrinas do raciocinio. + +No anno anterior de 1800 sahira Antonio de Araujo de Azevedo, depois +conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de Portugal. +Rejeitaram-lhe as potencias alliadas as propostas, tendo-lhe em conta de +nada os dezeseis milhões que o diplomata offerecia ao primeiro consul. +Sem delongas, foi o territorio portuguez infestado pelos exercitos de +Hespanha e França. As nossas tropas, commandadas pelo duque de Lafões, +não chegaram a travar a lucta desigual, porque, a esse tempo, Luiz Pinto +de Sousa, mais tarde visconde de Balsemão, negociara ignominiosa paz em +Badajoz, com cedencia de Olivença á Hespanha, exclusão de inglezes dos +nossos portos, e indemnisação de alguns milhões á França. + +Estes successos tinham irritado contra Napoleão os animos d'aquelles que +odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se do +rompimento com Inglaterra. Entre os d'esta parcialidade, na convulsiva e +irriquieta academia, era voto de grande monta Simão Botelho, apesar dos +seus imberbes dezeseis annos. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins, +e muitos outros algozes e martyres do grande açougue, eram nomes de +soada musical aos ouvidos de Simão. Diffamal-os na sua presença era +affrontarem-no a elle, e bofetada certa, e pistolas engatilhadas á cara +do diffamador. O filho do corregedor de Vizeu defendia que Portugal +devia regenerar-se n'um baptismo de sangue, para que a hydra dos +tyrannos não erguesse mais uma das suas mil cabeças sob a clava do +Hercules popular. + +Estes discursos, arremêdo d'alguma clandestina objurgatoria de +Saint-Just, afugentavam da sua communhão aquelles mesmos que o tinham +applaudido em mais racionaes principios de liberdade. Simão Botelho +tornou-se odioso aos condiscipulos que, para se salvarem pela infamia, o +delataram ao bispo-conde, reitor da universidade. + +Um dia proclamava o demagogo academico na praça de Sansão aos poucos +ouvintes que lhe restaram fieis, uns por mêdo, outros por analogia de +boças. O discurso ia no mais acrisolado da ideia regicida, quando uma +escolta de verdeaes lhe aguou a escandecencia. Quiz o orador resistir, +aperrando as pistolas, mas de sobra sabiam os braços musculosos da +cohorte do bispo-conde com quem as haviam. O jacobino, desarmado e +cerrado entre a escolta dos archeiros, foi levado ao carcere academico, +d'onde sahiu, seis mezes depois, a grandes instancias dos amigos de seu +pae e dos parentes de D. Rita Preciosa. + +Perdido o anno lectivo, foi para Vizeu Simão. O corregedor repelliu-o da +sua presença com ameaças de o expulsar de casa. A mãe, mais levada do +dever que do coração, intercedeu pelo filho, e conseguiu sental-o á mesa +commum. + +No espaço de tres mezes fez-se maravilhosa mudança nos costumes de +Simão. As companhias da ralé despresou-as. Sahia de casa raras vezes, ou +só, ou com a irmã mais nova, sua predilecta. O campo, as arvores, e os +sitios mais sombrios e êrmos eram o seu recreio. Nas dôces noites de +estio demorava-se por fora até ao repontar da alva; e aquelles que assim +o viam admiravam-lhe o ar scismador e o recolhimento que o sequestrava +da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e sahia quando o +chamavam para a mesa. + +D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido d'ella, ao +fim de cinco mezes consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra. + +Simão Botelho amava. Ahi está uma palavra unica, explicando o que +parecia absurda reforma aos dezesete annos. + +Amava Simão uma sua visinha, menina de quinze annos, rica herdeira, +regularmente bonita e bem nascida. Da janella do seu quarto é que elle a +vira a primeira vez para amal-a sempre. Não ficara ella incolume da +ferida que fizera no coração do visinho: amou-o tambem, e com mais +seriedade que a usual nos seus annos. + +Os poetas cansam-nos a paciencia a fallarem do amor da mulher aos quinze +annos, como paixão perigosa, unica, e inflexivel. Alguns prosadores de +romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze annos é uma +brincadeira; é a ultima manifestação do amor ás bonecas; é a tentativa +da avesinha que ensaia o vôo fóra do ninho, sempre com os olhos fitos na +ave mãe que a está da fronde proxima chamando: tanto sabe a primeira o +que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe. + +Thereza de Albuquerque devia ser, por ventura, uma excepção no seu amor. + +O magistrado e sua familia eram odiosos ao pae de Thereza, por motivos +de litigios em que Domingos Botelho lhe deu sentenças contra. Afóra +isso, ainda no anno anterior dois criados de Thadeu de Albuquerque +tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. Salta aos olhos +que o amor de Thereza, declinando de si o dever de obtemperar e +sacrificar-se ao justo azedume de seu pae, era verdadeiro e forte. + +E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e +fallaram-se tres mezes, sem darem rebate á visinhança, e nem sequer +suspeitas ás duas familias. O destino, que ambos se promettiam, era o +mais honesto: elle ia formar-se para poder sustental-a, se não tivessem +outros recursos; ella esperava que seu velho pae fallecesse para, +senhora sua, lhe dar com o coração o seu grande patrimonio. Espanta +discrição tamanha na indole de Simão Botelho, e na presumivel ignorancia +de Thereza em coisas materiaes da vida, como são um patrimonio! + +Na vespera da sua ida para Coimbra, estava Simão Botelho despedindo-se +da suspirosa menina, quando subitamente ella foi arrancada da janella. O +allucinado moço ouviu gemidos d'aquella voz que, um momento antes, +soluçava commovida por lagrimas de saudade. Subiu-lhe o sangue á cabeça; +contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexiveis da +jaula. Teve tentações de se matar, na impotencia de soccorrêl-a. As +restantes horas d'aquella noite passou-as em raivas e projectos de +vingança. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperança +com os calculos. + +Quando o chamaram para partir para Coimbra, lançou-se do leito de tal +modo desfigurado, que sua mãe, avisada do rosto amargurado d'elle, foi +ao quarto interrogal-o e despersuadil-o de ir era quanto assim estivesse +febril. Simão, porém, entre mil projectos, achara melhor o de ir para +Coimbra, e esperar lá noticias de Thereza, e vir a Vizeu occultamente +fallar com ella. Ajuizadamente discorrêra elle, que a sua demora +aggravaria a situação de Thereza. + +Descêra o academico ao páteo, depois de abraçar a mãe e irmãs, e beijar +a mão do pae, que para esta hora reservara uma admoestação severa, a +ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se elle recahisse em +novas extravagancias. Quando mettia o pé no estribo, viu a seu lado uma +velha mendiga, estendendo-lhe a mão aberta, como quem pede esmola, e, na +palma da mão, um pequeno papel. Sobresaltou-se o moço; e, a poucos +passos distante de sua casa, leu estas linhas: + +«Meu pae diz que me vai encerrar n'um convento, por tua causa. Soffrerei +tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-has no convento, ou +no ceo, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá +irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome has de +responder á tua pobre Thereza.» + +A mudança do estudante maravilhou a academia. Se o não viam nas aulas, +em parte nenhuma o viam. Das antigas relações restavam-lhe apenas as dos +condiscipulos sensatos que o aconselhavam para bem, e o visitaram no +carcere de seis mezes, dando-lhe alentos e recursos, que seu pae lhe não +dava, e sua mãe escassamente suppria. Estudava com fervor, como quem já +d'alli formava as bases do futuro renome e da posição por elle merecida, +bastante a sustentar dignamente a esposa. A ninguem confiava o seu +segredo, senão ás cartas que enviava a Thereza, longas cartas em que +folgava o espirito da canceira da sciencia. A apaixonada menina +escrevia-lhe a miudo, e já dizia que a ameaça do convento fôra mero +terror de que já não tinha mêdo, porque seu pae não podia viver sem +ella. + +Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Simão, chamado em pontos +difficeis das materias do primeiro anno, tal conta deu de si, que os +lentes e os condiscipulos o houveram como primeiro premiado. + +A este tempo, Manoel Botelho, cadete em Bragança, destacado no Porto, +licenciou-se para estudar na universidade as mathematicas. Animou-o a +noticia do reviramento que se déra em seu irmão. Foi viver com elle; +achou-o quieto; mas alheado n'uma ideia que o tornava misanthropo e +intratavel n'outro genero. Pouco tempo conviveram, sendo a causa da +separação um desgraçado amor de Manoel Botelho a uma açoriana casada com +um academico. A esposa apaixonada perdeu-se nas illusões do cego amante. +Deixou o marido, e fugiu com elle para Lisboa, e d'ahi para Hespanha. Em +outro relanço d'esta narrativa darei conta do remate d'este episodio. + +No mez de Fevereiro de 1803 recebeu Simão Botelho uma carta de Thereza. +No seguinte capitulo se diz minuciosamente a peripecia que forçára a +filha de Thadeu de Albuquerque a escrever aquella carta de pungentissima +surpreza para o academico, convertido aos deveres, á honra, á sociedade +e a Deus pelo amor. + + + + +III. + + +O pae de Thereza não embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o +ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o odio de +um e o desprêso do outro. O magistrado mofava do rancor do seu visinho, +e o visinho malsinava de venalidade a reputação do magistrado. Este +sabia da injuriosa vingança em que o outro se ia despicando; fingia-se +invulneravel á detracção; mas de dia para dia se lhe azedava a bilis; e +é de crêr que, se o não contivessem considerações de familia, soffreria +menos, desabafando pela bôca d'um bacamarte, arma da predilecção dos +Botelhos Correias de Mesquita. Era obra sobrehumana o reconciliarem-se. +Rita, a filha mais nova, estava um dia na janella do quarto de Simão, e +viu a visinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mãos. Sabia +Thereza que era aquella menina a mais querida irmã de Simão, e a que +mais semelhança de parecer tinha com elle. Sahiu da sua artificial +indifferença, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mão um +gesto e sorrindo para ella. A filha do corregedor sorriu tambem, mas +fugiu logo da janella, porque sua mãe tinha prohibido ás filhas de +trocarem vistas com pessoa d'aquella casa. + +No dia seguinte á mesma hora, levada da sympathia que lhe causára +aquelle sorriso e aceno, tornou Rita á janella, e lá viu Thereza com os +olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com +resguardo, afastando-se, a um tempo, do peitoril das janellas; e assim, +ambas de pé, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como a +rua era estreita, podiam ouvir-se fallando baixo. Thereza, mais pelo +movimento dos labios que por palavras, perguntou a Rita se era sua +amiga. A menina respondeu com um gesto affirmativo, e fugiu, +acenando-lhe um adeus. Estes rapidos instantes de se vêrem repetiram-se +successivos dias, até que, perdido o maior mêdo de ambas, ousaram +demorar-se em palestras a meia voz. Thereza fallava de Simão, contava á +menina de onze annos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ella havia +de ser ainda sua irmã, recommendando-lhe muito que não dissesse nada á +sua familia. + +N'uma d'essas conversações, Rita descuidara-se, e levantou de modo a voz +que foi ouvida d'uma irmã, que a foi logo accusar ao pae. O corregedor +chamou Rita, e forçou-a pelo terror a contar tudo que ouvira á visinha. +Tanta foi sua cólera, que, sem attender ás razões da esposa, que viera +espavorida dos gritos d'elle, correu ao quarto de Simão, e viu ainda +Thereza á janella. + +Ólé!--disse elle á pállida menina--Não tenha a confiança de pôr olhos em +pessoa de minha casa. Se quer casar, case com um sapateiro, que é um +digno genro de seu pae. + +Thereza não ouviu o remate da brutal apostrophe: tinha fugido aturdida e +envergonhada. Porém, como o desabrido ministro ficasse bramindo no +quarto, e Thadeu de Albuquerque sahisse a uma janella, a cólera +d'aquelle redobrou, e a torrente das injurias, longo tempo represada, +bateu no rosto do visinho, que não ousou replicar-lhe. + +Thadeu interrogou sua fllha, e acreditou que foi causa á sanha de +Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando innocentemente, por +tregeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de +Thereza, admoestando-a a que não voltasse áquella janella. + +Esta mansidão do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicação +no projecto de casar em breve a filha com seu primo Balthazar Coutinho, +de Castro-d'Aire, senhor de casa, e egualmenle nobre da mesma prosapia. +Cuidava o velho, presumpçoso conhecedor do coração das mulheres, que a +brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao +esquecimento d'aquelle pueril amor a Simão. Era maxima sua que o amor, +aos quinze annos, carece de consistencia para sobreviver a uma ausencia +de seis mezes. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As +excepções tem sido o ludibrio dos mais assizados pensadores, tanto no +especulativo como na sciencia positiva. Não era muito que Thadeu de +Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas +variantes são tantas e tão caprichosas, que eu não sei se alguma maxima +póde ser-nos guia, a não ser esta: «Em cada mulher, quatro mulheres +incomprehensiveis, pensando alternadamente como se hão de desmentir umas +ás outras.» Isto é o mais seguro; mas não é infallivel. Ahi está Thereza +que parece ser unica em si. Dir-se-ha que as tres da conta, que diz a +sentença, não podem coexistir com a quarta, aos quinze annos? Tambem o +penso assim, posto que a fixidez, a constancia d'aquelle amor, funda em +causa independente do coração: é porque Thereza não vai á sociedade, não +tem um altar em cada noite na sala, não provou o incenso d'outros +galans, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida +pela ausencia, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor +nas palavras que a convencem de que ha um coração para cada homem, e uma +só mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Thereza teria em si +as quatro mulheres da maxima, se o vapor de quatro incensorios lhe +estonteasse o espirito? Não é facil, nem preciso decidir; e vamos ao +conto. + +Ácerca de Simão Botelho, nunca diante de sua filha Thadeu de Albuquerque +proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que +elle fez logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro d'Aire, e +prevenil-o do seu designio, para que elle em face de Thereza procedesse +como convinha a um enamorado de feição, que mutuamente se apaixonassem e +promettessem auspicioso futuro ao casamento. + +Por parte de Balthazar Coutinho a paixão inflammou-se tão depressa, +quanto o coração de Thereza se congelou de terror e repugnancia. O +morgado de Castro-d'Aire, attribuindo a frieza de sua prima a modestia, +a innocencia e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre d'aquella +alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista. +Verdade é que Balthazar nunca se explicara de modo que Thereza lhe désse +resposta decisiva; um dia, porém, instigado por seu tio, affoitou-se o +ditoso noivo a fallar assim á melancólica menina: + +--É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a +ouvir-me? + +---Eu estou sempre bem disposta a ouvil-o, primo Balthazar. + +A desplicencia enfadosa d'esta resposta abalou algum tanto as convicções +do fidalgo, respeito á innocencia, modestia e acanhamento de sua prima. +Ainda assim quiz elle no momento persuadir-se que a boa vontade não +poderia exprimir-se d'outro modo, e continuou: + +--Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as +nossas casas se unam. + +Thereza impallideceu, e baixou os olhos. + +--Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradavel?!--proseguiu Balthazar, +rebatido pela desfiguração de Thereza. + +--Disse-me o que é impossível fazer-se--respondeu ella sem turvação--O +primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua +amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo +pensava em tal. + +--Quer dizer que me aborrece, prima Thereza?--atalhou corrido o morgado. + +--Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não +devo ser esposa d'um amigo a quem não posso amar. A infelicidade não +seria só minha... + +--Muito bem... Posso eu saber--tornou com refalsado sorriso o +primo--quem é que me disputa o coração de minha prima? + +--Que lucra em o saber? + +--Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... é +exacto? + +--É. + +--E com tamanha paixão que desobedece a seu pae? + +--Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade de uma +filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pae; mas eu não +disse ao primo Balthazar que casava; disse-lhe unicamente que amava. + +--Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de dizer!... quem +pensaria que os seus dezeseis annos estavam tão abundantes de +palavras!... + +--Não são só palavras, primo--retorquiu Thereza com gravidade--são +sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe eu +mentisse ficaria mais bem vista de meu primo? + +--Não, prima Thereza; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo. +Ora, olhe, não duvída declarar quem é o ditoso mortal da sua +preferencia? + +--Que lhe faz saber isso? + +--Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me +vêr vencido por quem tivesse merecimentos que eu não tenho aos seus +olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo +Balthazar, se o tivesse em conta do seu amigo intimo? + +--N'essa conta é que eu o não posso já ter...--respondeu Thereza, +sorrindo e contando, como elle, as syllabas das palavras. + +--Pois nem para amigo me quer?! + +--O primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em +diante meu inimigo. + +--Pelo contrario...--tornou elle com mal rebuçada ironia--muito pelo +contrario... Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir +casada com algum miseravel indigno de si. + +--Casada!...--interrompeu ella; mas Balthazar cortou-lhe logo a réplica +d'este modo: + +--Casada com algum famoso ébrio ou jogador de páo, valentão de +aguadeiros, e distincto cavalheiro que passa os annos lectivos +encarcerado nas cadêas de Coimbra... + +Visivel é que Balthazar Coutinho estava senhor do segredo de Thereza. +Seu tio, naturalmente, lhe communicara a criancice da prima, talvez +antes de destinar-lh'a esposa. + +Ouvira Thereza o tom sarcastico d'aquellas palavras, e erguêra-se +respondendo assim com altivez: + +--Não tem mais que me diga, primo Balthazar? + +--Tenho, prima: queira sentar-se algum tempo mais. Não cuide agora que +está fallando com o namorado infeliz: convença-se de que falla com o seu +mais proximo parente e mais sincero amigo, e mais decidido guarda da sua +dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade +de seu pae, uma ou outra vez conversára da janella com o filho do +corregedor. Não dei valor ao successo, e tomei-o como criancice. Como eu +frequentasse o meu ultimo anno em Coimbra, ha dois annos conheci de +sobra Simão Botelho. Quando vim e me contaram a sua affeição ao +academico, pasmei da boa fé da priminha; depois entendi que a sua mesma +innocencia devia ser o seu anjo custodio. Agora, como seu amigo, +cumpunjo-me de a vêr ainda fascinada pela perversidade do seu visinho. +Não se recorda de ter visto Simão Botelho sociando com a infima +vilanagem d'esta terra? Não viu os seus criados com as cabeças quebradas +pelo tal varredor de feiras? Não lhe constou que elle, em Coimbra, +abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador de +estradas, proclamando á canalha a guerra aos nobres, e aos reis, e á +religião de nossos paes? A prima ignoraria isto por ventura? + +--Ignorava parte d'isso, e não me afflige o sabêl-o. Desde que conheci +Simão, não me consta que elle tenha dado o menor desgosto á sua familia, +nem ouço fallar mal d'elle. + +--E está por isso persuadida de que Simão deve ao seu amor a reforma de +costumes? + +--Não sei, nem penso n'isso--replicou com enfado Thereza. + +--Não se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas ultimas palavras: eu hei +de, em quanto viver, trabalhar para salval-a das garras de Simão +Botelho. Se seu pae lhe faltar, fico eu. Se as leis a não defenderem dos +ataques do seu demonio, eu farei vêr ao valentão que a victoria sobre os +aguadeiros não o poupa ao desgosto de ser levado a pontapés para fóra da +casa de meu tio Thadeu d'Albuquerque. + +--Então o primo quer-me governar?--atalhou ella com desabrida irritação. + +--Quero-a dirigir em quanto a sua razão precisar de auxilio. Tenha +juizo, e eu serei indifferente ao seu destino. Não a enfado mais, prima +Thereza. + +Balthazar Coutinho foi d'ali procurar seu tio, e contou-lhe o essencial +do dialogo. Thadeu, atonito da coragem da filha, e ferido no coração e +direitos paternaes, correu ao quarto d'ella, disposto a espancal-a. +Reteve-o Balthazar, reflexionando-lhe que a violencia prejudicaria muito +a crise, sendo coisa de esperar que Thereza fugisse de casa. Refreou o +pae a sua ira, e meditou. Horas depois chamou sua filha, mandou-a sentar +ao pé de si, e em termos serenos e gesto bem composto, lhe disse que era +sua vontade casal-a com o primo; porém que elle já sabia que a vontade +de sua filha não era essa. Ajuntou que a não violentaria; mas tambem não +consentiria que ella, sovando aos pés o pundonor de seu pae, se désse de +coração ao filho do seu maior inimigo. Disse mais que estava a resvalar +na sepultura, e mais depressa desceria a ella, perdendo o amor da filha, +que elle já considerava morta. Terminou perguntando a Thereza, se ella +duvidava entrar n'um convento, e ahi esperar que seu pae morresse, para +depois ser desgraçada á sua vontade. + +Thereza respondeu, chorando, que entraria n'um convento, se essa era a +vontade de seu pae; porém que se não privasse elle de a ter em sua +companhia, nem a privasse a ella dos seus affectos, por mèdo de que sua +filha praticasse alguma acção indigna, ou lhe desobedecesse no que era +virtude obedecer. Prometteu-lhe julgar-se morta para todos os homens, +menos para seu pae. + +Thadeu ouviu-a, e não lhe replicou. + + + + +IV. + + +O coração de Thereza estava mentindo. Vão lá pedir sinceridade ao +coração! + +Para finos entendedores, o dialogo do anterior capitulo definiu a filha +de Thadeu de Albuquerque. É mulher varonil, tem força de caracter, +orgulho fortalecido pelo amor, despêgo das vulgares apprehensões, se são +apprehensões a renuncia que uma filha faz de sua vontade ás +imprevidentes e caprichosas vontades de seu pae. Diz boa gente que não, +e eu abundo sempre no voto da gente boa. Não será aleive attribuir-lhe +uma pouca de astucia, ou hypocrisia, se quizerem; perspicacia seria mais +correcto dizer. Thereza adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na +estrada real da vida, e que os melhores fins se attingem por atalhos +onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na +idade inexperta de Thereza; mas a mulher do romance quasi nunca é +trivial, e esta, de que resam os meus apontamentos, não o era. A mim me +basta para crêr em sua distincção a celebridade que ella veio a ganhar á +conta da desgraça. + +Da carta que ella escreveu a Simão Botelho, contando as scenas +descriptas, a critica deduz que a menina de Vizeu contemporisava com o +pae, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem +romper com o velho em manifesta desobediencia. Na narrativa que fez ao +academico omittiu ella as ameaças do primo Balthazar, clausula que, a +ser transmittida, arrebataria de Coimbra o moço, em que sobejavam brios +e ferocidade para mantêl-os. + +Mas não é esta ainda a carta que surprendeu Simão Botelho. + +Parecia bonançoso o ceo de Thereza. Seu pae não fallava em claustro, nem +em casamento. Balthazar Coutinho voltára ao seu solar de Castro-d'Aire. +A tranquilla menina dava semanalmente estas boas novas a Simão, e este, +alliando ás venturas do coração as riquezas do espirito, estudava +incessantemente, e desvelava as noites arquitectando o seu edifício de +futura gloria. + +Ao romper d'alva, d'um domingo de Junho de 1803, foi Thereza chamada +para ir com seu pae á primeira missa da igreja parochial. Vestiu-se a +menina assustada, e encontrou o velho na ante-camara a recebêl-a com +muito agrado, perguntando-lhe se ella se erguia de bons humores para dar +ao author de seus dias um resto de velhice feliz. O silencio de Thereza +era interrogador. + +--Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Ballhazar, minha filha. É +preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pae. Logo que +déres este passo difficil, conhecerás que a tua felicidade é d'aquellas +que precisam ser impostas pela violencia. Mas repara, minha querida +filha, que a violencia de um pae é sempre amor. Amor tem sido a minha +condescendencia e brandura para comtigo. Outro teria subjugado a tua +desobediencia com maus tractos, com os rigores do convento, e talvez com +o desfalque do teu grande patrimonio. Eu, não. Esperei que o tempo te +aclarasse a razão, e felicito-me de te julgar desassombrada do diabolico +prestigio do maldito, que acordou o teu innocente coração. Não te +consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexão +fizesse mal ao fervor de boa filha com que tu vais abraçar teu pae, e +agradecer-lhe a sisudez com que elle respeitou o teu genio, velando +sempre a hora de te encontrar digna do seu amor. + +Thereza não desfitou os olhos do pae; mas tão abstrahida estava, que +escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das ultimas. + +--Não me respondes, Thereza?!- tornou Thadeu, tomando-lhe caridosamente +as mãos. + +--Que hei-de eu responder-lhe, meu pae?--balbuciou ella. + +--Dás-me o que te peço? enches de contentamento os poucos dias que me +restam? + +--E será o pae feliz com o meu sacrificio? + +--Não digas sacrificio, Thereza... A'manhã a estas horas verás que +transfiguração se fez na tua alma. Teu primo é um composto de todas as +virtudes; nem a qualidade de ser um gentil moço lhe falta, como se a +riqueza, a sciencia e as virtudes não bastassem a formar um marido +excellente. + +--E elle quer-me, depois de eu me ter negado?--disse ella com amargura +ironica. + +--Se elle está apaixonado, filha!... e tem bastante confiança em si para +crêr que tu has de amal-o muito!... + +--E não será mais certo odial-o eu sempre!? Eu agora mesmo o abomino +como nunca pensei que se podesse abominar! Meu pae...--continuou ella, +chorando, com as mãos erguidas--mate-me; mas não me force a casar com +meu primo! E' escusada a violencia, porque eu não caso!.. + +Thadeu mudou de aspecto, e disse irado: + +--Hás de casar! Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás +para sempre, Thereza! Morrerás n'um convento! Esta casa irá para teu +primo! Nenhum infame ha de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós. Se +és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar +appellidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pae +d'esse miseravel que tu amas! Maldita sejas! Entra n'esse quarto, e +espera que d'ahi te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol. + +Thereza ergueu-se sem lagrimas, e entrou serenamente no seu quarto. +Thadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe: + +--Não te posso dar minha filha, porque já não tenho filha. A miseravel, +a quem dei este nome, perdeu-se para nós e para ella. + +Balthazar, que, a juizo de seu tio, era um composto de excellencias, +tinha apenas uma quebra: a absoluta carencia de brios. Malograda a +tentativa do seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de +Thereza, dizendo ao velho que elle o livraria do assedio em que Simão +Botelho lhe tinha o coração da filha. Não approvou a reclusão no +convento, discorrendo sobre as hypotheses infamantes que a opinião +publica inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse +que o filho do corregedor viesse de Coimbra. + +Ponderaram no animo do velho as razões de Balthazar. Thereza +maravilhou-se da quietação inesperada de seu pae, e desconfiou da +incoherencia. Escreveu a Simão. Nada lhe escondeu do succedido; nem as +ameaças de Balthazar por delicadeza supprimiu. Rematava communicando-lhe +as suas suspeitas de alguma nova traça de violencia melhor agourada. + +O academico, chegando ao periodo das ameaças, já não tinha clara luz nos +olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezões, e as artérias +frontaes arfavam-lhe entumecidas. Não era sobresalto do coração +apaixonado: era a indole soberba que lhe escaldava o sangue. Ir d'ali a +Castro-d'Aire, e apunhalar o primo de Thereza na sua propria casa, foi o +primeiro conselho, que lhe segredou a furia do odio. N'este proposito +sahiu, alugou cavallo, e recolheu a vestir-se de jornada. Já preparado, +a cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavallo demorou-se +meia hora, e o seu bom anjo, n'este espaço, vestido com as galas com que +elle vestia na imaginação Thereza, deu-lhe rebates de saudade d'aquelles +tempos e ainda das horas d'aquelle mesmo dia, em que scismava na +felicidade que o amor lhe promettia, se a elle procurasse no caminho do +trabalho e da honra. Contemplou os seus livros com tanto affecto, como +se em cada um estivesse uma pagina da historia do seu coração. Nenhuma +d'aquellas paginas tinha elle lido, sem que a imagem de Thereza lhe +apparecesse a fortalecêl-o para vencer os tédios da continuada +applicaçao, e os impetos d'um natural inquieto e ancioso de commoções +desusadas. «E ha de tudo acabar assim?»--pensava elle, com a face entre +as mãos, encostado á sua banca de estudo.--«Ainda ha pouco eu era tão +feliz!...»--«Feliz!»--repetiu elle erguendo-se de golpe--«quem póde ser +feliz com a deshonra d'uma ameaça impune!... Mas eu perco-a! Nunca mais +hei de vêl-a... Fugirei como um assassino, e meu pae será o meu primeiro +inimigo, e ella mesma ha de horrorisar-se da minha vingança... A ameaça +só ella a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de Thereza, +pelos insultos do miseravel, talvez que ella os não repetisse...» + +Simão Botelho releu a carta duas vezes, e á terceira leitura achou menos +affrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finaes desmentiam +formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu orgulho o +atormentava: eram expressões ternas, supplicas ao seu amor como +recompensa dos passados e futuros desgostos, visões encantadoras do +futuro, novos juramentos de constancia, e sentidas phrases de saudade. + +Quando o arreeiro bateu á porta, Simão Botelho já não pensava em matar o +homem de Castro-d'Aire; mas resolvêra ir a Vizeu, entrar de noite, +esconder-se e vêr Thereza. Faltava-lhe, porém, casa de confiança onde se +occultasse. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arreeiro +se conhecia alguma casa em Vizeu onde elle podesse estar escondido uma +noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arreeiro respondeu que +tinha a um quarto de legua de Vizeu um primo ferrador; e não conhecia em +Vizeu senão os estalajadeiros. Simão achou de aproveitar o parentesco do +homem, e logo d'alli o presenteou com uma jaqueta de pelles e uma faxa +de sêda escarlate, á conta de maiores valores promettidos, se elle o bem +servisse n'uma empreza amorosa. + +No dia seguinte chegou o academico a casa do ferrador. O arreeiro deu +conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante. + +Foi Simão Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no mesmo +ponto para Vizeu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no +mais impraticavel bêcco da terra. A mendiga informou-se miudamente da +pessoa que enviava a carta, e sahiu, mandando esperar o caminheiro. +Pouco depois, voltou ella com a resposta, e o arreeiro partiu a galope. + +Era a resposta um grito de alegria. Thereza não reflectiu, respondendo a +Simão, que n'aquella noite se festejavam os annos de seu pae, e se +reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que ás onze horas em ponto ella +iria ao quintal, e lhe abriria a porta. + +Não esperava tanto o academico. O que elle pedia era fallar-lhe da rua +para a janella do seu quarto, e receava impossivel este prazer, que elle +avaliava o maximo. Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o halito, abraçal-a +talvez, commetter a ousadia de um beijo, estas esperanças, tão além de +suas modestas e honestas ambições, egualmente o enlevavam e assustavam. +Enlevo e susto em corações que se estreiam na comedia humana, são +sentimentos congeniaes. + +Á hora da partida, Simão tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez, +sem saber que os encantos da vida, os mais angelicos momentos da alma, +são esses lances de mysterioso alvoroço que aos mais ricos de coração +succedem em todas as sasões da vida, e a todos os homens, uma vez ao +menos. + +Ás onze horas em ponto estava Simão encostado á porta do quintal, e a +distancia convencionada o arreeiro com o cavallo á rédea. A toada da +musica, que vinha das salas remotas alvoroçava-o, porque a festa em casa +de Thadeu de Albuquerque o surprendêra. No longo termo de tres annos +nunca elle ouvira musica n'aquella casa. Se elle soubesse o dia +natalicio de Thereza, espantára-se menos da estranha alegria d'aquellas +salas, sempre fechadas, como em dias de mortuorio. Simão imaginou +desvairadaraente as chimeras que voejam, ora negras, ora translucidas em +redor da phantasia apaixonada. Não ha balisa racional para as bellas, +nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa. Simão Botelho, +com o ouvido collado á fechadura, ouvia apenas o som das flautas, e as +pancadas do coração sobresaltado. + + + + +V + + +Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indifferença por +sua prima. As irmãs do fidalgo e a de mais parentela da casa não +deixavam respirar Thereza. Moças e velhas, todas á uma, se repetiam, +aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pae a alegria +que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos. +Replicava Thereza que não queria mal a seu primo, nem sequer eslava +sentida d'elle; que era sua amiga, e sêl-o-ia sempre em quanto lhe elle +deixasse livre o coração. + +O velho esperava muito d'aquella noitada de festa. Alguns parentes, +presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a +filha com os prazeres congruentes á sua idade, dando-lhe ensejo a que +ella repartisse o espirito, concentrado n'um só ponto, por diversões em +que a natural vaidade se preoccupa, e a força do amor contrariado se vai +a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reuniões amiudadas, já +em sua casa, já na dos seus parentes, para d'este modo Thereza se +mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinião de menos +valia o unico homem com quem fallava, e a quem julgava superior a todos. +O fidalgo accedeu, mas com difficuldade; porque tinha lá um systema seu +de ajuizar das mulheres, e porque vivêra trinta annos de vida libertina +e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na quietação. +Os annos de Thereza eram pela primeira vez festejados com estrondo. A +morgada viu então o que era o minuete da côrte, e certos jogos de +prendas com que os intervallos n'aquelles tempos, se aligeiravam em +delicias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral. + +Mas, de agitada que estava, Thereza não compartia do gôso dos seus +hospedes. Desde que soaram as dez horas d'aquella noite, a rainha da +festa parecia tão alheada das finezas com que senhoras e homens á +competência a lisonjeavam, que Balthazar Coutinho deu fé do dessocêgo de +sua prima, e teve a modestia de imaginar que ella se offendêra da +indifferença d'elle. Generoso até ao perdão, o morgado de Castro-d'Aire, +compondo o rosto com gesto grave e melancolico, dirigiu-se a Thereza, e +pediu-lhe desculpa da frieza que elle disse ser como a das montanhas, +que tem vulcões por dentro e neve por fóra. Thereza teve a sinceridade +de responder que não tinha reparado na frieza de seu primo, e chamou +para junto d'ella uma menina, para evitar que a montanha se abrisse em +vulcões. Pouco depois ergueu-se, e sahiu da sala. + +Eram dez horas e tres quartos. Thereza corrêra ao fundo do quintal, +abrira a porta, e, como não visse alguem, tornou de corrida para a sala. +No momento, porém, de subir a escada que ligava o jardim á casa, +Balthazar Coutinho, que a espiava desde que ella sahiu da sala, chegou a +uma das janellas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via. +Retirou-se, e entrou com Thereza na sala, ao mesmo tempo, por diversas +portas. Decorridos alguns minutos, a menina sahiu outra vez, e o primo +tambem. Thereza ouviu, a distancia, o estrepito d'um cavallo, quando +passou ao patamar da escada. Balthazar tambem o ouviu, e notou que sua +prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido, levava +uma capa ou chaile que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez pé atraz +para não ser visto. Thereza, porém, n'um relance de olhar temeroso, +ainda víra um vulto retirar-se. Teve mêdo, e retrocedeu a largar a capa, +e entrou na sala, offegante de cansaço e pallida de mêdo. + +--Que tens, minha filha?--disse-lhe o pae--Já duas vezes sahisteda sala, +e vens tão alvoroçada! Tens algum incommodo, Thereza? + +--Tenho uma dôr: preciso de ir respirar de vez em quando... Nada é, meu +pae. + +Thadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha uma dôr; +só o não disse a seu sobrinho, porque o não encontrou, e soube que elle +tinha sahido. + +Tambem Thereza dera pela ausencia do primo, e fingiu que o ia procurar, +resolução de que o velho gostou muito. Desceu ella ao jardim, correu á +porta, onde a esperava Simão, abriu-a, e com a voz cortada pela +anciedade, apenas disse: + +--Vai-te embora: vem ámanhã ás mesmas horas... Vai, vai! + +Simão, quando isto ouvia, tinha os olhos, fitos n'um vulto, que se +approximava d'elle, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que +primeiro o vira, dera um signal, e entalara as rédeas do cavallo entre +umas pedras, para ficar desembaraçado, se o estudante se não podésse +haver com o inimigo. + +Simão Botelho não se moveu do local, e Balthazar Coutinho parou na +distancia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avançado a meio +caminho do patrão, quando lhe este disse que não se aproximasse. E, +caminhando para o vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe: + +--Isto aqui não é caminho. Que quer? + +O fidalgo não respondeu. + +--Parece-me que lhe abro a bôca com uma bala!--tornou Simão. + +--Que lhe importa o senhor quem está?!--disse Balthazar--Se eu tiver um +segredo, como o senhor parece que tem o seu n'estes sitios, sou obrigado +a confessar-lh'o?! + +Simão reflectiu, e replicou: + +--Este muro pertence a uma casa onde mora uma só família, e uma só +mulher. + +--Estão n'essa casa mais de quarenta mulheres esta noite--redarguiu o +primo de Thereza--Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra. + +--Quem é o senhor?--tornou com arrogancia o filho do corregedor. + +--Não conheço a pessoa que me interroga, nem quero conhecer. Fiquemos +cada um com o nosso incognito. Boas noites. + +Balthazar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si: «que partido tem uma +espada contra dois homens e duas pistolas?» + +Simão Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro ferrador. + +O sobrinho de Thadeu de Albuquerque entrou na sala, sem denunciar +levemente alteração de animo. Viu que Thereza o observava de revez, e +soube dissimular-se de modo que a socegou. A pobre menina, cansada de +commoções, viu com prazer erguer-se para sahir a primeira familia, que +deu rebate ás outras, menos ao de Castro-d'Aire e suas irmãs, que +ficaram hospedados em casa de seu tio, com tenção de se demorarem oito +dias em Vizeu. + +Velou Thereza o restante da noite, escrevendo a Simao a detida historia +dos seus terrores, e pedindo-lhe perdão de o ella não ter advertido do +baile, por fcar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano de +se encontrarem na seguinte noite não havia alteração na carta. Isto +espantou o academico. A seu vêr, o vulto era Balthazar Coutinho, e o pae +de Thereza devia ser avisado n'aquella mesma noite. + +Respondeu elle contando a historia do incidente com o encapelado; +receando, porém, assustar Thereza e gorar a entrevista, escreveu nova +carta, em que não transluzia mêdo de ser atacado, nem sequer receio de +marear-lhe a fama. Quiz parecer a Simão Botelho que este era o digno +porte de um amante corajoso. + +Passou o estudante aquelíe dia contando as longas horas, e meditando +instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temeraria ida, se +Balthazar Coutinho era aquelle homem, que reservára para melhor relance +a vingança da provocação insolente. Mas de si para si tinha elle que +pensar em tal era mais covardia que prudencia. + +O ferrador tinha uma filha, moça de vinte e quatro annos, e formas +bonitas, e um rosto bello e triste. Notou Simão os reparos em que ella +se demorava a contemplal-o, e perguntou-lhe a causa d'aquelle olhar +melancolico com que ella o fitava. Marianna corou, abriu um sorriso +triste, o respondeu: + +--Não sei o que me adivinha o coração a respeito de v. s.^a Alguma +desgraça está para lhe succeder. + +--A menina não dizia isso--replicou Simão--sem saber alguma coisa da +minha vida. + +--Alguma coisa sei...--tornou ella. + +--Ouviu contar ao arreeiro? + +--Não, senhor. E' que meu pae conhece o paesinho de v. s.^a, e tambem +conhece o senhor. E ha bocadinho que eu ouvi estar meu pae a dizer a meu +tio, que é o arreeiro que veio com v. s.^a, que tinha suas razões para +saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer... + +--Porque? + +--Pr'amor d'uma fidalga de Vizeu, que tem um primo em Castro-d'Aire. + +Simão espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores +do que elle julgava mysterio entre duas familias, quando o mestre +ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente dialogo se +passára. A môça, como ouvisse os passos do pae, sahira lestamente por +outra porta. + +--Com sua licença--disse mestre João. + +Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma arca. + +--Ora, meu fidalgo--continuou elle, descendo as mangas arregaçadas da +camiza, e apertando-as com difficuldade nos grossos pulsos, como quem +sabe as exigencias da ceremonia--ha de desculpar que eu viesse assim em +mangas de camiza; mas não dei com a jaqueta... + +--Está muito bem, senhor João--atalhou o academico. + +--Pois, senhor, eu devo um favor a seu pae, e um favor d'aquella casta. +Uma vez armou-se aqui á minha porta uma desordem, a trôco d'um couce que +um macho d'um almocreve deu n'uma egua, que eu estava ferrando, e em tão +hoa hora foi, que lhe partiu rente o jarrête por aqui, salvo tal logar. + +João da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fôra fracturada a da +egua, e continuou: + +--Eu tinha alli á mão o martello, e não me tive que não pregasse com +elle na cabeça do macho, que foi logo para a terra. O recoveiro de +Carção, que era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia +entre uma carga, e desfechou comigo, sem mais tirte, nem garte. O' alma +damnada!--disse-lhe eu--pois tu vês que o teu macho me aleijou esta +egua, que custou vinte peças a seu dono, e que eu tenho de pagar, e +dás-me um tiro por eu te atordoar o macho!? + +--E o tiro acertou-lhe?--atalhou Simão. + +--Acertou; mas saberá v. s.^a que me não matou; deu-me aqui por este +braço esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou á +cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lh'a na táboa do +peito. O almocreve cahiu como um tôrdo, e não tugiu nem mugiu. +Prenderam-me, e fui para Vizeu e já lá estava ha tres annos, no anno em +que o paesinho de v. s.^a veio corregedor. Andava muita gente a +trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca. +Estava lá na enxovia comigo um prêso a cumprir sentença, e disse-me elle +que o senhor corregedor tinha muita devoção com as sete dôres de Nossa +Senhora. Uma vez que elle ia passando com a familia para a missa, +disse-lhe eu «senhor Corregedor, peço a v. s.^a pelas sete dôres de +Maria Santissima, que me mande ir á sua presença, para eu explicar a +minha culpa a v.s.^a». O paesinho de v. s.^a chamou o meirinho geral, e +mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor Corregedor, +e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do braço. Seu pae +ouviu-me, e disse-me. «Vai-te embora, que eu farei o que podér.» O caso +é, meu fidalgo, que eu sahi absolvido, quando muita gente dizia que eu +havia de ser inforcado á minha porta. Faz favor de me dizer se eu não +devo andar com a cara onde o seu paesinho põe os pés!? + +--Tem o senhor João motivo para lhe ser grato, não ha duvida nenhuma. + +--Agora faz favor de ouvir o mais. Eu antes de ser ferrador, fui criado +de farda em casa do fidalgo de Castro-d'Aire, que é o senhor Balthazar. +Conhece-o v. s.^a? Ora, se conhece!... + +--Conheço de nome. + +--Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas +paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou +chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe +fizesse um serviço. «O que v. s.^a quizer, fidalgo.» E vai elle disse-me +que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu cá por dentro +comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um apêrto +não é um matador de officio, acho eu, não é assim? + +--De certo...--respondeu Simão, adivinhando o remate da historia--quem +era o homem que elle queria morto? + +--Era v. s.^a... Ó homem!--disse o ferrador com espanto--O senhor nem +sequer mudou de côr! + +--Eu não mudo nunca de côr, senhor João--disse o academico. + +--Estou pasmado! + +--E vm.^ce não acceitou a incumbencia, pelo que vejo--tornou Simão. + +--Não, senhor; e então logo que elle me disse quem era, a minha vontade +era pregar-lhe com a cabeça n'uma esquina. + +--E elle disse-lhe a razão porque me mandava matar? + +--Não, meu fidalgo; eu lhe conto. Na semana adiante, quando soube que o +senhor Balthazar (raios o partam!) tinha sabido de Vizeu, fui fallar com +o senhor Corregedor, e contei-lhe tudo o que se passára. O senhor +corregedor esteve a scismar um pouquinho, e disse-me, e v. s.^a ha de +perdoar por eu lhe dizer o que seu pae me disse tal e qual. + +--Diga. + +--Seu pae começou a esfregar o nariz, e disse-me: «Eu sei o que é isso. +Se aquelle bréjeiro de meu filho Simão tivesse honra, não olharia para a +prima d'esse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se +ligasse a uma filha de Thadeu de Albuquerque!..» Ainda disse mais coisas +que me não lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que +houve. Agora, appareceu-me aqui v. s.^a, e a noite passada foi a Vizeu. +Perdoará a minha confiança; mas v. s.^a foi fallar com a tal menina: e +eu estive vai não vai a seguil-o; mas como ia meu cunhado, que é homem +para tres, fiquei descançado. Elle contou-me um encontro que v. s.^a +teve á porta do quintal da menina. Se lá torna, senhor Simão, vá +preparado para alguma coisa de maior. Eu bem sei que v. s.^a não é +medroso; mas d'uma traição ninguem se livra. Se quer que eu vá também, +estou ás suas ordens; e a clavina que deu policia ao almocreve ainda +alli está, e dá fogo debaixo d'agua, como diz o outro. Mas, se v. s.^a +dá licença que eu lhe diga a minha opinião, o melhor é não andar n'essas +encamizadas. Se quer casar com ella, vá pedir a seu pae licença, e deixe +o resto cá por minha conta; ponto é que ella queira, que eu, n'um abrir +e fechar d'olhos, atiro com ella para cima d'uma égua de chupêta, que +alli tenho, e o pae e mais o primo ficam a vêr navios. + +--Obrigado, meu amigo--disse Simão--Aproveitarei os seus bons serviços, +quando me forem necessarios. Á noite hei de ir, como fui a noite +passada, a Vizeu. Se houver novidade, então veremos o que se ha de +fazer. Conto comsigo, e creia que tem em mim um amigo. + +Mestre João da Cruz não replicou. D'alli foi examinar miudamente a +fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas +necessarias, em quanto descarregava a arma, e a carregava de novo com +uns balotes especiaes que elle denominava «amendoas de pimpões». + +N'este intervallo, Marianna, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e +disse com meiguice a Simão Botelho: + +--Então sempre é certo ir? + +--Vou, porque não hei de ir? + +--Pois Nossa Senhora vá na sua companhia--tornou ella, sahindo logo para +esconder as lagrimas. + + + + +VI. + + +Ás dez horas e meia da noite d'aquelle dia, tres vultos convergiram para +o local, raro frequentado, em que se abria a porta do quintal de Thadeu +de Albuquerque. Alli se detiveram alguns minutos discutindo e +gesticulando. Dos tres havia um, cujas palavras eram ouvidas em silencio +e sem replica pelos outros: Dizia elle a um dos dois: + +--Não convém que estejas perto d'esta porta. Se o homem apparecesse aqui +morto, as suspeitas cahiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se um do +outro, e tenham o ouvido applicado ao tropel do cavallo. Depois apressem +o passo, até o encontrarem de modo que os tiros sejam dados longe +d'aqui. + +--Mas...--atalhou um--quem nos diz que elle veio hontem a cavallo, e +hoje vem a pé? + +--E' verdade! - accrescentou o outro. + +--Se elle vier a pé, eu lhes darei aviso para o seguirem depois até o +terem a geito de tiro, mas longe d'aqui, percebem vocês?--disse +Balthazar Coutinho. + +--Sim, senhor; mas se elle sáe de casa do pae, e entra sem nos dar +tempo? + +--Tenho a certeza de que não está em casa do pae, já lh'o disse. Basta +de palavriado. Vão esconder-se atraz da igreja, e não adormeçam. + +Debandou o grupo, e Balthazar ficou alguns momentos encostado ao muro. +Soaram os tres quartos depois das dez. O de Castro-d'Aire collou o +ouvido á porta, e retirou-se acceleradamente, ouvindo o rumor da +folhagem sêcca que Thereza vinha pizando. + +Apenas Balthazar, cosido com o muro, desapparecêra, um vulto assomou do +outro lado a passo rapido. Não parou: foi direito a todos os pontos onde +uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja que estava a duzentos +passos de distancia. Viu os dois vultos direitos com o recanto que +formava a juncção da capella mór, e sobre o qual cabiam as sombras da +torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; não os conheceu; mas elles +disseram entre si, depois que elle desapparecêra: + +--É o João da Cruz, ferrador, ou o diabo por elle!... + +--Que fará a esta hora por aqui?! + +--Eu sei! + +--Não desconfias que elle entre n'isto? + +--Ágora! Se entrasse, era por nós. Não sabes que elle foi mochila do +nosso amo? + +--E tambem sei que pôz a loja com dinheiro do nosso amo. + +--Pois então que mêdo tens? + +--Não ha mêdo; mas tambem sei que foi o corregedor que o livrou da +forca... + +--Isso que tem! O corregedor não se importa com isto, nem sabe que o +filho cá está... + +--Assim será; mas não estou muito contente... Elle é homem dos diabos... + +--Deixal-o ser... tanto entram as balas n'elle como n'outro... + +A discussão continuou sobre varias conjecturas. De tudo o que elles +disseram uma coisa era certissima: ser o vulto o João da Cruz, ferrador. + +Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Balthazar ouviram +o remoto tropel de cavalgadura. Ao tempo que elles sahiam do seu +escondrijo, sabia João da Cruz á frente do cavalleiro. Simão aperrou as +pistolas, e o arreeiro uma clavina. + +--Não ha novidade--disse o ferrador--mas saiba v. s.^a que já podia +estar em baixo do cavallo com quatro zagalotes no peito. + +O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse: + +--És tu, João? + +--Sou eu. Vim primeiro que tu. + +Simão estendeu a mão ao ferrador, e disse commovido: + +---Dê cá a sua mão; quero sentir na minha a mão de urn homem honrado. + +--Nas occasiões é que se conhecem os homens--redarguiu o ferrador.--Ora +vamos... não ha tempo para fallatorio. O senhor doutor tem uma espera. + +--Tenho?--disse Simão. + +--Atraz da igreja estão dois homens que eu não pude conhecer; mas não se +me dava de jurar que são criados do senhor Balthazar. Salte abaixo do +cavallo, que ha de haver mostarda. Eu disse-lhe que não viesse; mas v. +s.^a veio, e agora é andar com a cara para a frente. + +--Olhe que eu não tremo, mestre João--disse o filho do corregedor. + +--Bem sei que não; mas, á vista do inimigo, veremos. + +Simão tinha apeado. O ferrador tomou as rédeas do cavallo, recuou alguns +passos na rua, e foi prendêl-o á argola da parede de uma estalagem. + +Voltou, e disse a Simão que o seguisse a elle e ao cunhado na distancia +de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de +Albuquerque, não passasse do ponto d'onde os visse. + +Quiz o academico protestar contra um plano, que o humilhava como +protegido pela defeza dos dois homens; o ferrador, porém, não admittiu a +réplica. + +--Faça o que eu lhe digo, fidalgo--disse elle com energia. + +João da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram de fronte +do quintal de Thereza, e viram um vulto a sumir-se no angulo da parede. + +--Vamos sobre elles--disse o ferrador--que lá passaram para o adro da +igreja; n'este entrementes, o doutor chega á porta do quintal e entra; +depois voltaremos para lhe guardar a sahida. + +N'este proposito, moveram-se apressados, e Simão Botelho caminhou com as +pistolas aperradas na direcção da porta. + +Em frente do muro do jardim de Thereza havia uma cascalheira escarpada, +que se esplainava depois n'uma alamêda sombria. + +Os dois criados de Balthazar, quando o tropel do cavallo parou, +recordaram as ordens do amo, no caso de vir a pé Simão. Buscaram sitio +azado para o espreitarem na sahida, e entraram na alamêda quando o +academico chegava á porta do quintal. + +--Agora está seguro--disse um. + +--Se lá não ficar dentro....--respondeu o outro, vendo-o entrar, e +fechar-se a porta. + +--Mas além vem dois homens...--disse o mais assustado, olhando para a +outra entrada da alamêda. + +--E vem direitos a nós... aperra lá a clavina... + +O melhor é retirarmos. Nós estamos á espera de outro, e não d'estes. +Vamos embora d'aqui... + +Este não esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do +cascalho. O mais intrepido teve tambem a prudencia de todos os +assassinos assalariados: seguiu o assustadiço, e deu-lhe razão, quando +ouviu após de si os passos velozes dos perseguidores. Sahiu-lhes o amo +de frente, quando dobravam a esquina do quintal, e disse-lhes: + +--Vocês a que fogem, seus poltrões? + +Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes. + +João da Cruz e o arreeiro appareceram, e Balthazar caminhou para elles, +bradando: + +--Alto ahi! + +O ferrador disse ao cunhado: + +--Falla-lhe tu, que eu não quero que elle me conheça. + +--Quem manda fazer alto?--disse o arreeiro. + +--São tres clavinas--respondeu Balthazar. + +--Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saia--disse João da Cruz +ao ouvido do arreeiro. + +--Pois nós cá estamos parados--replicou o criado de Simão.--Que nos +querem vocês? + +--Quero saber o que tem que fazer n'este sitio. + +--E vocês que fazem por cá? + +--Não admitto perguntas--disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns +passos vacilantes para a frente.--Quero saber quem são. + +Mestre João disse ao ouvido do cunhado: + +--Diz-lhe que se dá mais um passo que o arrebentas. + +O arreeiro repetiu a clausula, e Balthazar parou. + +Um dos criados d'este chamou-o ao lado para lhe dizer que aquelle dos +dois, que não fallava, parecia ser o João da Cruz. O morgado duvidou, e +quiz esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse +ao cunhado: + +--Vem comigo, que elles conhecem-me. + +Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de +Thadeu de Albuquerque. Os criados de Balthazar, gloriosos da retirada, +como de uma derrota certa, apressaram o passo na cola dos suppostos +fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os não seguissem; mas elles, +momentos antes covardes, queriam desforrar-se agora, correndo após o +inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes. + +Simão Botelho ouvira os passos ligeiros dos seus homens, e, compellido +pelo susto de Thereza, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem +elles fossem. João da Cruz, com ar galhofeiro, já quando os +perseguidores se viam, disse ao filho do corregedor, se estava ajustado +o casamento, que não havia panno para mangas. + +Simão entendeu o perigo, apertou convulsamente a mão de Thereza, e +retirou-se. Queria elle reconhecer os dois vultos parados a distancia; +mas João da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga á submissão, disse +ao filho do corregedor: + +--Vá por onde veio, e não olhe para traz. + +Simão foi indo até encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois +inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o +subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de +alguma espera fóra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia +levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão, +dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado lá iriam +ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que +o não tivessem em tão vil preço. E acintemente soffreou as rédeas, para +não forçar os homens a aligeirar o passo. + +--Vá como quizer--disse mestre João--que nós vamos por fóra do caminho. + +E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por +moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com +a estrada. + +--O atalho vai acolá onde a serra faz aquelle cotovêllo--disse o +ferrador ao cunhado--hão de alli passar, ou já passaram. A estrada vai +mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens é d'alli que lhe vão +atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa... + +E um pouco descobertos, e outro curvados á sombra das devêzas, chegaram +a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o +pontilhão de um córrego. + +--Já não vamos a tempo--disse afflicto o João da Cruz--os homens vão +atirar-lhe, porque o cavallo trupa cá muito atraz. + +E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado +o outeiro, em cujo valle corria a estrada. + +--Os homens vão atirar-lhe...--disse o ferrador. + +--Gritemos d'aqui ao doutor que não vá p'ra diante. + +--Já não é tempo... Ou o matem ou não matem, quando voltarem são nossos. + +Tinham já passado o pontilhão, e subiam a ladeira, quando ouviram dois +tiros. + +--Arriba!--exclamou João da Cruz--que não vão elles metter-se á estrada, +se mataram o fidalgo. + +Tinham vencido a chã, esbofados e anciados, com as clavinas aperradas. +Os criados de Balthazar, ao invez da conjectura do ferrador, retrocediam +pelo mesmo atalho, suppondo que os companheiros de Simão iam adiante +batendo os pontos azados á emboscada, ou se tinham retardado. + +--Elles ahi vem!--disse o arreeiro. + +--Nós cá estamos--respondeu o ferrador, sentando-se, a coberto de um +cômoro.--Senta-te também que eu não estou p'ra correr atraz d'elles. + +Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vultos, +e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os sucalcos de uma +vinha, o outro atirando-se a uns silveiraes. + +--Atira ao da esquerda!--disse João da Cruz. + +Foram simultaneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um +cadaver. Os balotes do arreeiro não estremaram o outro entre o carrascal +onde se embrenhára. + +A este tempo assomava Simão no tezo d'onde lhe tinham atirado, e corria +ao ponto onde ouvira os segundos tiros. + +--É v. s.^a, fidalgo?--bradou o ferrador. + +--Sou. + +--Não o mataram? + +--Creio que não--respondeu Simão. + +--Este desalmado deixou fugir o melro--tornou João da Cruz--mas o meu lá +está a pernear na vinha. Sempre lhe quero vêr as trombas... + +O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o +cadaver, dizendo: + +--Alma de cantaro, se eu tivesse duas clavinas não ias sósinho para o +inferno! + +--Anda d'ahi!--disse o arreeiro--deixa lá esse diabo, que o senhor +doutor está ferido n'um hombro. Vamos depressa, que está o sangue a +escorrer-lhe. + +--Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima de uma ribanceira, e +cuidei que eram vocês--disse Simão, em quanto o ferrador, com a destreza +de habil cirurgião, lho enfaixava o braço ferido com lenços.--Parei o +cavallo, e disse: «Ólé! ha novidade?» Logo que me não responderam, +saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram +fogo. Quiz saltar á ribanceira, mas não pude romper o matto. Dei uma +volta grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar +ferido... + +--Isto é uma arranhadura--disse João da Cruz--olhe que eu sei d'isto, +fidalgo! Estou affeito a curar muitas feridas. + +--Nos burros, mestre João?--disse o ferido, sorrindo. + +--E nos christãos tambem, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um +rei que não queria outro medico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o +meu corpo que está uma rêde de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com +ceroto e vinagre sou capaz de ir resuscitar aquelle alma do diabo que +alli está a escutar a cavallaria. + +N'isto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha +saltado o companheiro do morto. + +João da Cruz, como galgo de fino olfacto, fitou a orelha e resmungou: + +--Querem vocês vêr que ellas se armam!... Dar-se-ha caso que o outro +ainda esteja por alli a tremer maleitas!... + +O rumor continuou, e logo um bando de passaros rompeu d'entre a folhagem +chilreando. + +--O homem está alli!--tornou o ferrador.--Passe-me cá uma pistola, +senhor Simão! + +Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande rostilhada se fez entre +as moitas de codêços e urzes. + +--Elle estrinça lenha como um porco do monte!--exclamou o ferrador.--Ó +cunhado, bate este matto com alguns penedos; quero vêr sahir o javali da +moita!... + +Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a +sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra d'um agueiro. + +--Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me!--bradou Simão ao +ferrador. + +--Pois o fidalgo já ahi anda!?. Então está fechado o cêrco. Eu cá vou +fazer de furão. Se este nos escapa, não ha nada seguro n'este mundo! + +Não se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirára +desamparado á brenha, desnocára um joelho, e cahira atordoado. O +arreeiro não examinou o effeito do tiro, porque atirara á ventura, e +achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do +aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente até encontrar um +cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os +melros cacarejassem esvoaçando, o criado de Balthazar retrocedeu para o +mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus +em todas as direcções, e alguns acertavam mais que as balas do seu +bacamarte. João da Cruz tirou do bolço da jaqueta um podão, e começou a +cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em +redor do escondrijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco luzimento do +trabalho, disse ao arreeiro: + +--Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho sêcco, e +vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão ha de morrer assado. + +O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para +fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo +de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simão esperava o +desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre +elle. O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos +erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigára áquella +desgraça. Já a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito, +quando Simão lhe reteve o braço. + +--Não se bate assim n'um homem!--disse o moço--Levanta-te, rapaz! + +--Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para +a minha vida. + +N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou: + +--Pois este tratante ainda está vivo! + +E correu sobre elle com o podão. + +--Não mate o homem, senhor João!--disse o filho do corregedor. + +--Que o não mate! essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo +quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar... eim? + +--Com a forca!?--atalhou Simão. + +--Podéra não! Quer que este homem fique para ir contar a historia? Acha +bonito? Lá v. s.^a, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu, +que sou ferrador, posso contar que d'esta vez tenho o baraço no pescoço. +Não me faz geito o negocio. Deixe-me cá com o homem... + +--Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha +não nos póde fazer mal. + +--O quê?--redarguiu o ferrador--v. s.^a saberá muito, mas de justiça não +sabe nada, e ha de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha +para guiar a justiça na devassa. Ás duas por tres, uma testemunha de +vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castro-d'Aire a mexer +os pausinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro. + +--Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para +Castro-d'Aire--exclamou o homem. + +--Deixe-o ficar, João da Cruz... vamos embora... + +--Isso!--acudiu o ferrador--chame-me João da Cruz, para este maroto +ficar bem certo de que sou o João da Cruz!... Com effeito, não sei o que +me parece v. s.^a querer deixar com vida um alma do diabo que lhe deu um +tiro para o matar! + +--Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseraveis que me +não resistem. + +--E se elle o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor +doutor! + +--Vamos embora--tornou Simão--deixemos para ahi esse miseravel. + +Mestre João scismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com +descontentamento: + +--Vamos lá... Quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre. + +Tinham já sahido do plaino e saltado a tapada, e iam descendo para a +estrada, quando o ferrador exclamou: + +--Lá me ficou a minha clavina encostada á sebe. Vão indo, que eu venho +já. + +O arreeiro conduzia o cavallo, que pacificamente estivera tozando a +relva das paredes marginaes da estrada, quando Simão ouviu gritos. +Conjecturou com certeza o que era. + +--O João lá está a fazer justiça!--disse o arreeiro. Deixál-o lá, meu +amo, que elle é homem que sabe o que faz. + +João da Cruz appareceu d'ahi a pouco, limpando com fentos o podão +ensanguentado. + +--Você é cruel, senhor João!--disse o academico. + +--Não sou cruel--disse o ferrador--o fidalgo está enganado comigo; é que +diz lá o dictado, morrer por morrer, morra meu pae que é mais velho. +Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto +faz amassar um alqueire como tres. As obras devem ser acabadas, ou então +o melhor é não se metter a gente n'ellas. Agora, levo a minha +consciencia socegada. + +A justiça que prove, se quizer; mas não ha de ser por que lh'o digam +aquelles dois que eu mandei de presente ao diabo. + +Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se +ter ligado com tal homem. + + + + +VII. + + +O ferimento de Simão Botelho era melindroso de mais para obedecer +promptamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aphorismos de +alveitaria. A bala passára-lhe de revez a porção muscular do braço +esquerdo; mas algum vaso importante rompêra, que não bastavam compressas +a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o academico deitou-se +febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu para +Coimbra, encarregado de espalhar a noticia de ter ficado no Porto Simão +Botelho. + +Mais que as dôres e os receios da amputação, o mortificava a ancia de +saber novas de Thereza. João da Cruz estava sempre de sobre-rolda, +precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas d'elle. As +pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens +tinham apparecido mortos, e constava serem criados d'um fidalgo de +Gastro-d'Aire. Ninguem, porém, ouvira imputar o assassinio a +determinadas pessoas. + +Na tarde d'esse dia recebeu Simão a seguinte carta de Thereza: + +«Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa d'essa boa gente. Eu +não sei o que se passa, mas ha coisa mysteriosa que eu não posso +adivinhar. Meu pae tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim +não me deixa sahir do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu +felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quiz que a pobre +viesse pedir esmola debaixo da janella do meu quarto; senão eu nem tinha +modo de lhe dar signal para ella esperar esta carta. Não sei o que ella +me disse. Fallou-me em criados mortos; mas eu não pude entender... Tua +mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do teu quarto... + +Disse-me tua mana que os moços de meu primo tinham apparecido mortos +perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu ahi +estás; mas não me deram tempo. Meu pae de hora a hora dá passeios no +corredor, e solta uns ais muito altos. + +Ó meu querido Simão, que será feito de ti?... Estarás tu ferido? Serei +eu a causa da tua morte? + +Diz-me o que souberes. Eu já não peço a Deus senão a tua vida. Foge +d'esses sitios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa +situação. + +Tem confiança n'esta desgraçada, que é digna da tua dedicação.... Chega +a pobre: não quero demoral-a mais... Perguntei-lhe se se dizia de ti +alguma coisa, e ella respondeu que não. Deus o queira.» + +Respondeu Simão a querer tranquillisar o animo de Thereza. Do seu +ferimento fallava tão de passagem, que dava a suppôr que nem o curativo +era necessario. Promettia partir para Coimbra logo que o podesse fazer +sem receio de Thereza soffrer na sua ausencia. Animava-a a chamal-o, +assim que as ameaças de convento passassem a ser realisadas. + +Entretanto Balthazar Coutinho, chamado ás authoridades judiciarias para +esclarecer a devassa instaurada, respondeu que effectivamente os homens +mortos eram seus criados, de quem elle e sua familia se acompanhára de +Castro-d'Aire. Accrescentou que não sabia que elles tivessem inimigos em +Vizeu, nem tinha contra alguem as mais leves presumpções. + +Os mais proximos visinhos da localidade, onde os cadaveres tinham +apparecido, apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao +mesmo tempo, e outro, pouco depois. Um apenas adiantava coisa que não +podia alumiar a justiça, e vinha a ser que o mato, nas visinhanças do +local, fôra chapotado. N'esta escuridade a justiça não podia dar passo +algum. + +Thadeu de Albuquerque era connivente no attentado contra a vida de Simão +Botelho. Fôra seu o alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa das +sahidas frequentes de Thereza, na noite do baile. Tanto ao velho como ao +morgado convinha apagar algum indicio que podesse envolvêl-os no +mysterio d'aquellas duas mortes. Os criados não mereciam a pena d'um +desforço que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simão +Botelho não podiam adduzil-as. Áquella hora o suppunham elles a caminho +de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pae. Restava-lhes ainda a +esperança de que elle tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local +em que o tinham assaltado. + +Em quanto a Thereza, resolveu Albuquerque encerral-a n'um convento do +Porto, e escolheu Monchique, onde era prioreza uma sua proxima parenta. +Escreveu á prelada para lhe preparar aposentos, e ao seu procurador para +negociar as licenças ecclesiasticas para a entrada. Todavia, receando o +velho algum incidente no espaço de tempo que medeava até se conseguirem +as licenças, resolveu não ter comsigo Thereza, e solicitou a retenção +temporaria d'ella n'um convento de Vizeu. + +Acabára Thereza de lêr e esconder no seio a resposta de Simão Botelho, +que a pobre lhe enviára ao escurecer, pendente de uma linha, quando o +pae entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu, +tomando uma capa e um lenço. + +--Vista-se como quem é: lembre-se que ainda tem os meus +appellidos--disse com severidade o velho. + +--Cuidei que não era preciso vestir-me melhor para sahir á +noite...--disse Thereza. + +--E a senhora sabe para onde vai? + +--Não sei... meu pae. + +--Então vista-se, e não me dê leis. + +--Mas, meu pae, attenda-me um momento. + +--Diga. + +--Se a sua ideia é obrigar-me a casar com meu primo... + +--E d'ahi? + +--De certo não caso; morro, e morro contente; mas não caso. + +--Nem elle a quer. A senhora é indigna de Balthazar Coutinho. Um homem +do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que falla de noite aos +amantes nos quintaes. Vista-se depressa, que vai para um convento. + +--Promptamente, meu pae. Esse destino lh'o pedi eu muitas vezes. + +--Não quero reflexões. D'aqui a pouco appareça-me vestida. Suas primas +esperam-a para a acompanharem. + +Quando se viu sósinha, Thereza debulhou-se em lagrimas, e quiz escrever +a Simão. Áquella hora quem lhe levaria a carta? Appellou para o retabulo +da Virgem, que ella fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos +que a protegesse, e désse forças a Simão para resistir ao golpe, e +guardar-lhe constancia através dos trabalhos que succedessem. Depois +vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o +tinteiro, o papel, e o massête das cartas de Simão. Sahiu do seu quarto, +relanceando os olhos lagrimosos para o painel da Virgem, e encontrando o +pae, pediu-lhe licença para levar comsigo aquella devota imagem. + +--Lá irá ter--respondeu elle.--Se tivesse tanta vergonha como devoção, +seria mais feliz do que ha de ser. + +Uma das primas, irmãs de Balthazar, chamou-a de parte, e segredou-lhe: + +--Ó menina! estava ainda na tua mão dares remedio á desordem d'esta +casa... + +--Qual remedio?!--perguntou Thereza com artificial seriedade. + +--Diz a teu pae que não duvidas casar com o mano Balthazar. + +--O primo Balthazar não me quer--replicou ella, sorrindo. + +--Quem te disse isso, Therezinha? + +--Disse-m'o meu pae. + +--Deixa fallar teu pae, que está desatinado com o amor que te tem. +Queres tu que eu lhe falle? + +--Para que? + +--Para se remediar d'este modo a desgraça de todos nós. + +--Estás a brincar, prima!--redarguiu Thereza.--Eu hei de ser tua +cunhada, quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo +outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por +elle, abençoarei todos os meus algozes. Pódes dizer isto ao primo +Balthazar, e diz-lh'o antes que te esqueça. + +--Então, vamos?!--disse o velho. + +--Estou prompta, meu pae. + +Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou +a mão de seu pae, que elle não ousou recusar-lhe na presença das +freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se +a porta, exclamou, com grande espanto das monjas: + +--Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo. + +As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra «coração» +uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor. + +--Que diz a menina?!--perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos +oculos, e apanhando no lenço escarlate a distillação do esturrinho. + +--Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora. + +--Não diga minha senhora--atalhou a escrivã. + +--Como hei de dizer? + +--Diga «nossa madre prioreza.» + +--Pois sim, nossa madre prioreza, disse eu que me sentia aqui muito bem. + +--Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir +bem--tornou a nossa madre prioreza. + +--Não?!--disse Thereza com sincera admiração. + +--Quem para aqui vem, menina, ha de mortificar o espirito, e deixar lá +fóra as paixões mundanas. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de +noviças, a quem compete encaminhal-a e dirigil-a. + +Thereza não redarguiu: fez um gesto de respeito á mestra de noviças, e +seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando. + +A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Thereza que era sua +hospeda em quanto alli estivesse; e ajuntou que não sabia se seu pae +escolheria aquelle convento ou outro. + +--Que importa que seja um ou outro?--disse Thereza. + +--É conforme. Seu pae póde querer que a menina professe em ordem rica +das bentas ou bernardas. + +--Professe!--exclamou Thereza.--Eu não quero ser freira aqui, nem +n'outra parte. + +--A senhora ha de ser o que seu pae quizer que seja. + +--Freira!? a isso não póde ninguem obrigar-me!--recalcitrou Thereza. + +--Isso assim é--retorquiu a prioreza--mas como a menina tem de noviciado +um anno, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e verá que não ha +vida mais descansada para o corpo, nem mais saudavel para a alma. + +--Mas a nossa madre--tornou Thereza, sorrindo, como se a ironia lhe +fosse habitual--já disse que a estas casas ninguem vem para se sentir +bem... + +--É um modo de fallar, menina. Todos temos as nossas mortificações e +obrigações de côro e de serviços para que nem sempre o espirito está bem +disposto. Ora vês-a-hi. Mas em comparação do que lá vai pelo mundo, o +convento é um paraizo. Aqui não ha paixões nem cuidados que tirem o +somno, nem a vontade de comer, bemdito seja o Senhor! Vivemos umas com +as outras, como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Más +linguas é coisa que a menina não ha de achar aqui, nem intriguistas, nem +murmurações de soalheiro. Emfim, Deus fará o que fôr servido. Eu vou á +cosinha buscar a ceia da menina, e já volto. Aqui a deixo com a senhora +madre organista, que é uma pomba, e com a nossa mestra de noviças, que +sabe dizer melhor que eu o que é a virtude n'estas santas casas. + +Apenas a prioreza voltou costas, disse a organista á mestra de noviças: + +--Que grande impostora! + +--E que estupida!--acudiu a outra.--A menina não se fie n'esta +trapalhona, e veja se seu pae lhe dá outra companhia em quanto cá +estiver, que a prioreza é a maior intriguista do convento. Depois que +fez sessenta annos, falla das paixões do mundo como quem as conhece por +dentro e por fóra. Em quanto foi nova, era a freira que mais escandalos +dava na casa; depois de velha era a mais ridicula, porque ainda queria +amar e ser amada; agora, que está decrepita, anda sempre este mostrengo +a fazer missões, e a curar indigestões. + +Thereza, apesar de sua dôr, não pôde reprimir uma risada, lembrando-se +da _vida de Deus com anjos_ que as esposas do Senhor alli viviam, no +dizer da madre prioreza. + +Pouco depois entrou a prelada com a ceia, e sahiram as duas freiras. + +--Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?--disse +ella a Thereza. + +--Pareceram-me muito bem. + +A velha distendeu os beiços matizados de meandros de esturrinho liquido, +e regougou: + +--_Hum!_... está feito, está feito!... Ainda não são das peores; mas, se +fossem melhores, não se perdia nada... Ora vamos a isto, menina; aqui +tem duas pernas de gallinha, e um caldo que o podem comer os anjos. + +--Eu não cômo nada, minha senhora--disse Thereza. + +--Ora essa! não come nada!? Ha de comer; sem comer ninguem resiste. +Paixões!... que as leve o porco-sujo!... As mulheres é que ficam +logradas, e elles não tem que perder!... Que eu cá de mim, até ao +presente, Deus louvado, não sei o que sejam paixões; mas quem tem +cincoenta e cinco annos de convento, tem muita experiencia do que vê +penar ás outras doidibanas. E para não ir mais longe, estas duas, que +d'aqui sahiram, tem pagado bem o seu tributo á asneira, Deus me perdôe +se pécco. A organista tem já os seus quarenta bons, e ainda vai ao +locutorio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de +noviças á falta d'outra que quizesse sêl-o, se eu lhe não andasse com o +olho em cima, estragava-me as raparigas... + +Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escrivã +que vinha, palitando os dentes, pedir á prelada um copinho de certo +vinho estomacal com que todas as noites era brindada. + +--Estava eu a dizer a esta menina as peças que são a organista e a +mestra--disse a prioreza. + +--Oh! são para o que lhe eu prestar! Lá foram ambas para a cella da +porteira. A esta hora está a menina a ser cortada por aquellas linguas, +que não perdoam a ninguem. + +--Vaes tu vêr se ouves alguma coisa, minha flôr?--disse a prelada. + +A escrivã, contente da missão, foi imperceptivelmente ao longo dos +dormitorios até parar a uma porta que não vedava o ruido estridente das +risadas. + +No entanto dizia a prelada a Thereza: + +--Esta escrivã não é má rapariga: só tem o defeito de se tomar da +pinguleta; depois não ha quem a ature. Tem uma boa tença, mas gasta tudo +em vinho, e tem occasiões de entrar no côro a fazer _ss_, que é mesmo +uma desgraça. Não tem outro defeito; é uma alma lavada, e amiga da sua +amiga. É verdade que ás vezes... (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos +dormitorios, e fechou por dentro a porta) é verdade que, ás vezes, +quando anda azuratada, dá por paus e por pedras, e descobre os defeitos +das suas amigas. A mim já ella me assacou um aleive, dizendo que eu, +quando sahia a ares, não ia só a ares, e andava por lá a fazer o que +fazem as outras. Forte pouca vergonha! Lá que outra fallasse, vá; mas +ella, que tem sempre uns namorados pandilhas que bebem com ella na +grade, isso lá me custa; mas, emfim, não ha ninguem perfeito!... Boa +rapariga é ella... Se não fosse aquelle maldito vicio... + +Como tocasse ao côro n'esta occasião, a veneranda prioreza bebeu o +segundo calice do vinho estomacal, e disse a Thereza que a esperasse um +quarto de hora, que ella ia ao côro, e pouco se demoraria. Tinha ella +sahido, quando a escrivã entrou a tempo que Thereza, com as mãos abertas +sobre a face, dizia em si: «Um convento, meu Deus! isto é que é um +convento!» + +--Está sósinha?--disse a escrivã. + +--Estou, minha senhora. + +--Pois aquella grosseira vai-se embora, e deixa uma hospeda sósinha? Bem +se vê que é filha de funileiro!... Pois tinha tempo de ter prática do +mundo, que tem andado por lá que farte... Pois eu havia de ir ao côro; +mas não vou para lhe fazer companhia, menina. + +--Vá, vá, minha senhora, que eu fico bem sósinha--disse Thereza, com a +esperança de poder desafogar em lagrimas a sua afflicção. + +--Não vou, não!... A menina aqui estarrecia de mêdo; mas a prelada não +tarda ahi. Ella, se póde escapar-se do côro, não pára lá muito tempo. A +apostar que ella lhe esteve a fallar mal de mim? + +--Não, minha senhora, pelo contrario... + +--Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha não falla bem de +ninguem. Para ella tudo são libertinas e bebadas. + +--Nada, não, minha senhora; nada me disse a respeito d'alguma freira. + +--E se disse, deixal-a dizer. Ella o vinho não o bebe, suga-o, é uma +esponja viva. Em quanto a libertinagem, tomára eu tantos mil cruzados +como de amantes ella tem tido! Faz lá uma pequena ideia, menina!... + +A escrivã bebeu um calice de vinho da sua prelada, e continuou: + +--Faz lá uma pequena ideia! Ella é velhissima como a sé. Quando eu +professei já ella era velha como agora, com pouca differença. Ora, eu +sou freira ha vinte e seis annos; calcule a menina quantas arrobas de +esturrinho ella tem atulhado n'aquelles narizes! Pois olhe, quer me +creia, quer não, tenho-lhe conhecido mais de uma duzia de chichisbeos, +não fallando no padre capellão, que esse ainda agora lhe fornece a +garrafeira, á nossa custa, entende-se. É uma dissipadora dos rendimentos +da casa. Eu, que sou escrivã, é que sei o que ella rouba. Eu tenho +immensa pena de vêr a menina hospedada em casa d'esta hypocrita. Não se +deixe levar das imposturices d'ella, meu anjinho. Eu sei que seu pae lhe +mandou fallar, e a encarregou de a não deixar escrever, nem receber +cartas; mas olhe, minha filha, se quizer escrever, eu dou-lhe tinteiro, +papel, obreias e o meu quarto, se para lá quizer ir escrever. Se tem +alguem que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu +chamo-me Dionizia da Immaculada Conceição. + +--Muito agradecida, minha senhora--disse Thereza, animada pelo +offerecimento.--Quem me déra poder mandar um recado a uma pobre que mora +no bêcco do... + +--O que quizer, menina. Eu mando lá logo que fôr dia. Esteja descansada. +Não se fie de alguem, senão de mim. Olhe que a mestra de noviças e a +organista são duas falsas. Não lhe dê trela, que, se as admitte á sua +confiança, está perdida. Ahi vem a lêsma... Fallemos n'outra coisa... + +A prelada vinha entrando, e a escrivã proseguiu assim: + +--Não ha, não ha nada mais agradavel que a vida do convento, quando se +tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa... Ai! eras tu, menina? +Olha, se estivessemos a fallar mal de ti! + +--Eu sei que tu nunca fallas mal de mim--disse a prelada, piscando o +olho a Thereza.--Ahi está essa menina que diga o que eu lhe estive a +dizer das tuas boas qualidades... + +--Pois o que eu disse de ti--respondeu soror Dionizia da Immaculada +Conceição--não precisas de perguntar, porque felizmente ouviste o que eu +estava dizendo. Oxalá que se podesse dizer o mesmo das outras que +deshonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado n'uma meada, que é mesmo +coisa de peccado. + +--Então não vaes ao côro, nini?--tornou a prioreza. + +--Já agora é tarde... Tu absolves-me da falta, sim? + +--Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitencia beberes um copinho... + +--Do estomacal? + +--Podéra... + +Dionizia cumpriu a penitencia, e sahiu para, dizia ella, deixar a +prelada na sua hora de oração. + +Não delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do +convento, onde Thadeu de Albuquerque mandára sua filha a respirar o +purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais +depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique. + +Encheu-se o coração de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas +de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira +fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das +esperanças immorredoiras. Algumas cartas lêra de sua tia, prelada em +Monchique, e por ellas formára conceito do que devia ser uma santa. +D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer ás +velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e +até milagres. Que desillusão tão triste e ao mesmo tempo que ancia de +fugir d'alli! + +A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova +separada, com cortinas de cassa. + +Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a +menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia +seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha +não escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o não prohibiria, se +tivesse tinteiro e papel na cella. + +Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a +corôa a meia voz. Se o murmurio da oração infadasse a hospeda, não teria +ella muita razão de queixa, por que a devota monja ao segundo +_Padre-Nosso_ cabeceava de modo que já não atinou com a primeira +_Áve-Maria_. Levantou-se, cambaleando uma mesura ás imagens do +sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar. + +Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre +o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel. + +A lampada do oratorio lançava um froixo raio sobre a cadeira, em que +Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao pé da +cadeira, e escreveu a Simão, relatando-lhe miudamente os successos +d'aquelle dia. A carta rematava assim: + +«Não receies nada por mim, Simão. Todos estes trabalhos me parecem +leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraça +não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. São +alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolução que meu +pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podér. A falta das minhas +noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim +desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam +de amor e de conforto. Vou vêr se posso esquecer-me dormindo. Como isto +é triste, meu querido amigo!... Adeus.» + + + + +VIII. + + +Marianna, a filha de João da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do +braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da +fraqueza da moça, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher +affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as +feiras e romarias. + +--Não ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabeça, quando eu +fui á Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou +o casco á navalha--disse o ferrador.--Pelo que vejo o sangue do fidalgo +deu volta ao estomago da rapariga!... Estamos então bem aviados! Eu +tenho cá a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu +doente.... És ou não és, rapariga?--disse elle á filha, quando ella +abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza. + +--Serei com muito gosto, se o pae quizer. + +--Pois então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para +a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida; +vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa. +Conversa com elle, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que +não é bom quando se está fraco do miôlo. E v. s.^a não tenha aquellas de +ceremonia, nem me diga a Marianna--a menina isto, a menina aquillo. +É--rapariga dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as +compressas--e nada de politicas. Ella está aqui como sua criada, porque +eu já lhe disse que, se não fosse o pae de v. s.^a, já ella ha muito +tempo que andava por ahi ás esmolas, ou peor ainda. É verdade que eu +podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez +annos, afóra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha mãe, que Deus +haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse á forca ou pela barra fóra, +vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas. + +--Se vocemecê tem uma casinha soffrivel--atalhou Simão--póde, querendo, +casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira. + +--Assim ella quizesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da igreja a +queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda vale +quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e +eu, a fallar a verdade, sou só e mais ella, e tambem não tenho grande +vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se +não fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou ás +feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo +sósinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe +ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me +fóra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella +não me deixa ir, e eu acho graça á obediencia com que me deixo guiar +pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ella me +pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguezia sou. + +Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de +linho. Simão estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas +sublime de poesia e naturalidade. + +João da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes +termos: + +--Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como +quem é, e como se fosse teu irmão ou marido. + +O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu, +natural como todas, da bôca de seu pae. + +A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão. + +--Não foi nada boa esta praga que lhe cahiu em casa, Marianna!--disse o +academico--Fazerem-na enfermeira d'um doente, e privarem-na talvez de ir +costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam.... + +--Que se me dá a mim d'isso!--respondeu ella, sacudindo o avental, e +baixando o coz ao logar da cintura com infantil graça. + +--Sente-se, Marianna; seu pae disse-lhe que se sentasse... Vá buscar a +sua costura, e dê-me d'alli uma folha de papel e um lapis que está na +carteira. + +--Mas o pae tambem me disse que o não deixasse escrever...--replicou +ella, sorrindo. + +--Pouco, não faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas. + +--Veja lá o que faz...--tornou ella, dando-lhe o papel e o lapis--Olhe +se alguma carta se perde, e se descobre tudo... + +--Tudo, o quê, Marianna? Pois sabe alguma coisa?! + +--Era preciso que eu fosse tola. Eu não lhe disse já que sabia da sua +amizade a uma menina fidalga da cidade? + +--Disse; mas que tem isso? + +--Aconteceu o que eu receava. V. s.^a está ahi ferido, e toda a gente +falla n'uns homens que appareceram mortos. + +--Que tenho eu com os homens que appareceram mortos? + +--Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens +eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de +mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomára que ninguem +soubesse, para que meu pae e o senhor Simão não tenham alguns maiores +trabalhos... + +--Tem razão, Marianna, eu não devia esconder de si o mau encontro que +tivemos... + +--E Deus queira que seja o ultimo!... Tanto tenho pedido ao Senhor dos +Passos que lhe dê remedio a essa paixão!... O peor futuro eu que ainda +está por passar... + +--Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja +bom, e a menina da cidade fica em sua casa. + +--Se assim fôr, já prometti dois arrateis de cêra ao Senhor dos Passos; +mas não me diz o coração que v. s.^a faça o que diz... + +-Muito agradecido lhe estou-disse Simão commovido--pelo bem que me +deseja. Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade. + +--Basta vêr o que seu paesinho fez pelo meu--disse ella, limpando as +lagrimas.--O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse á forca +como toda a gente dizia!... Eu era ainda muito nova quando elle estava +na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço, +se elle fosse condemnado á morte. Se o degradassem, então ia com elle, +ia morrer onde elle fosse morrer. Não ha dia nenhum que eu não peça a +Deus que dê a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de +proposito á cidade para beijar os pés a sua mãesinha, e vi suas manas, e +uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli +tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia á feira, dava +uma grande volta para vêr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha +á janella; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu +estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu +muita pancada nos criados, que era mesmo um reboliço que parecia o fim +do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle até cahiu ao chão a dar risadas +como um doido... Depois nunca mais o vi senão quando v. s.^a entrou com +o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça, porque +tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar, +porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito +funda... + +--Isso são sonhos, Marianna... + +--São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando +meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro +n'outro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ella, +e mais ainda viveu dois mezes... A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas +Deus sabe o que isto é... Ahi vem meu pae... Senhor dos Passos! não vá +ser alguma má nova!... + +João da Cruz entrou com uma carta que recebêra da pobre do costume. Em +quanto Simão leu a carta escripta do convento, Marianna fitou os seus +grandes olhos azues no rosto do academico, e a cada contracção da fronte +d'elle, angustiava-se-lhe a ella o coração. Não teve mão da sua ancia, e +perguntou: + +--É noticia má! + +--Tu és muito atrevida, rapariga!--disse João da Cruz. + +--Não é, não--atalhou o estudante.--Não é má a noticia, Marianna. Senhor +João, deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraçados é que +sabem avaliar os amigos. + +--Isso é verdade; mas eu não me atrevia a perguntar o que a carta diz. + +--Nem eu perguntei, meu pae; foi porque me pareceu que o senhor Simão +estava afflicto quando lia. + +--E não se enganou--tornou o doente, voltando-se para o ferrador.--O pae +arrastou Thereza ao convento. + +--Sempre é patife d'uma vez!--disse o ferrador, fazendo com os braços +instinctivamente um movimento de quem aperta entre as mãos um pescoço. +N'este lance um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Marianna +um clarão de innocente alegria. + +Simão sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Thereza +espontaneamente lhe chegou, dizendo: + +--Em quanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que está a ferver. + +«É necessário arrancar-te d'ahi--dizia a carta de Simão.--Esse convento +ha de ter uma evasiva. Procura-a, e diz-me a noite e a hora em que devo +esperar-te. Se não podéres fugir, essas portas hão de abrir-se diante da +minha cólera. Se d'ahi te mandarem para outro convento mais longe, +avisa-me, que eu irei sósinho, ou acompanhado, roubar-te ao caminho. É +indispensavel que te refaças de animo para te não assustarem os arrojos +da minha paixão. És minha; não sei de que me serve a vida se a não +sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Thereza, creio. Ser-me-has fiel na +vida e na morte. Não soffras com paciencia; lucta com heroismo. A +submissão é uma ignominia, quando o poder paternal é uma affronta. +Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quasi bom. Diz-me uma +palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminue as +forças do coração.» + +Simão pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador, +e recommendou-lhe que o entregasse á pobre com a carta. + +Depois ficou relendo a de Thereza, e recordando-se da resposta que déra. + +Mestre João foi á cosinha, e disse a Marianna: + +--Desconfio d'uma coisa, rapariga. + +--Que é, meu pae? + +--O nosso doente está sem dinheiro. + +--Porquê? o pae como sabe isso? + +--É que elle pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ella pezava +tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto bole-me cá por +dentro! Queria offerecer-lhe dinheiro, e não sei como ha de ser... + +--Eu pensarei n'isso, meu pae--disse Marianna reflectindo. + +--Pois sim; cogita lá tu, que tens melhores ideias que eu. + +--E se o pae não quizer bolir nos seus quatrocentos, eu tenho aquelle +dinheiro dos meus bezerros; são onze moedas d'ouro menos um quarto. + +--Pois fallaremos: pensa tu no modo de elle aceitar sem _remorsos_. + +Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre João, era synonimo de +_escrupulos_ ou _repugnancia_. + +Foi Marianna levar o caldo a Simão, que lh'o rejeitou como distrahido em +profundo scismar. + +--Pois não toma o caldinho?--disse ella com tristeza. + +--Não posso, não tenho vontade, menina; será logo. Deixe-me sósinho +algum tempo; vá, vá; não passe o seu tempo ao pé d'um doente aborrecido. + +--Não me quer aqui? irei, e voltarei quando v. s.^a chamar. + +Dissera isto Marianna com os olhos a reverem lagrimas. + +Simão notou as lagrimas, e pensou um momento na dedicação da môça; mas +não lhe disse palavra alguma. + +E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de occorrer-lhe +ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus +heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da +falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia é baixa e +plebea. O estylo vai de má vontade para coisas razas. Balzac falla muito +em dinheiro; mas dinheiro a milhões: não conheço, nos cincoenta livros +que tenho d'elle, um galã n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no +modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se +desembarace das rêdes que um usurario lhe lança, desde a casa do juiz de +paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta +por cento. D'isto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem +sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe +se encolhe nas proporções d'estes heroesinhos de botequim, de quem o +leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque não +tem que fazer com elle. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu +coração o confesso. Não é bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu +heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que +escreveu á mulher estremecida uma carta, como aquella de Simão Botelho. +Quem a lêsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estações +das estradas do paiz, carroças e folgadas parelhas de mulas, para +transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bella fugitiva! As +estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas não tenho a +certeza de que houvessem estradas para o Japão. Agora creio que ha, +porque me dizem que ha tudo. + +Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela bôca de mestre João, que o +filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em +dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado. + +A meu vêr, deviam attribulal-o estes pensamentos: + +Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz? + +Com que agradeceria os desvelos de Marianna? + +Se Thereza fugisse, com que recursos proveria á subsistencia de ambos! + +Ora, Simão Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que não era +grande, e quasi lh'a absorvêra o aluguel da cavalgadura, e a groseta +generosa que déra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante +ferrador. + +As reliquias d'esse dinheiro déra-as elle á portadora da carta n'aquelle +dia. Má situação! + +Lembrou-se de escrever á mãe. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua +residencia n'aquella casa? D'este modo não iria elle dar indicios da +morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho? + +Além de que, sobejamente sabia elle que sua mãe o não amava; e, a +mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario +para a jornada até Coimbra. Péssima situação! + +Cansado de pensar, favoreceu-o a providencia dos infelizes com um somno +profundo. + +E Marianna entrára pé ante pé na sala, e ouvindo-lhe a respiração alta, +aventurou-se a entrar na alcova. Lançou-lhe um lenço de cassa sobre o +rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre +uma banqueta que adornava o quarto, pegou d'ella, e sahiu pé ante pé. +Abriu a carteira, viu papeis, que não soube lêr, e n'um dos +repartimentos duas moedas de seis vintens. Foi restituir a carteira ao +seu logar, e tomou d'um cabide as calças, collête, e jaqueta á +hespanhola, do hospede. Examinou os bolsos, e não encontrou um ceitil. + +Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia hora +assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se de +golpe, e conversou longo tempo com o pae. João da Cruz escutou-a, +contrariou-a; mas ia de vencida sempre pelas replicas da filha; até que, +a final, disse: + +--Farei o que dizes, Marianna. Dá-me cá o teu dinheiro, que não vou +agora levantar a pedra da lareira para bolir no caixote dos quatrocentos +mil reis. Tanto faz um como outro: teu é elle todo. + +Marianna deu-se pressa em ir á arca, d'onde tirou uma bolsa de linho com +dinheiro em prata, e alguns cordões, anneis e arrecadas. Guardou o seu +oiro n'uma boceta, e deu a bolsa ao pae. + +João da Cruz apparelhou a egoa, e sahiu. Marianna foi para a sala do +doente. + +Acordou Simão. + +--Não sabe!?--exclamou ella com semblante entre alegre e assustado, +perfeitamente contrafeito. + +--Que é, Marianna? + +--Sua mãesinha sabe que v. s.^a aqui está. + +--Sabe?! isso é impossivel! quem lh'o disse? + +--Não sei; o que sei é que ella mandou chamar meu pae. + +--Isso espanta-me!... E não me escreveu? + +--Não, senhor!... Agora me lembro que talvez ella soubesse que o senhor +aqui esteve, e cuide que já não está, e por isso lhe não escreveu... +Poderá ser? + +--Poderá; mas quem lh'o diria!? Se isto se sabe, então podem suspeitar +da morte dos homens. + +--Póde ser que não; e ainda que desconfiem, não ha testemunhas. O pae +disse que não tinha mêdo nenhum. O que fôr, soará. Não esteja agora a +scismar n'isso... Vou-lhe buscar o caldinho, sim? + +--Vá, se quer, Marianna. O ceu deparou-me em si a amizade de uma irmã. + +Não achou a moça na sua alegre alma palavras em resposta á doçura que o +rosto do mancebo exprimira. + +Veio com o «caldinho» diminuitivo que a rhetorica d'uma linguagem meiga +approva; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, a +par da travessa com meia gallinha loira de gorda. + +--Tanta coisa!--exclamou, sorrindo, Simão. + +--Coma o que podér--disse ella córando.--Eu bem sei que os senhores da +cidade não comem em malgas tamanhas, mas eu não tinha outra mais +pequena, e coma sem nojo, que esta nunca serviu, que a fui eu comprar á +loja, por pensar que v. s.^a não quizera hontem comer por se atrigar da +outra. + +--Não, Marianna, não seja injusta, eu não comi hontem pela mesma razão +que não cômo agora: não tinha, nem tenho vontade. + +--Mas coma por eu lhe pedir... Perdôe o meu atrevimento... Faça de conta +que é uma sua irmã que lhe pede. Ainda agora me disse... + +--Que o ceu me dava em si a amizade d'uma irmã... + +--Pois ahi está... + +Simão achou tão necessario á sua conservação o sacrificio, como ao +contentamento da carinhosa Marianna. Passou-lhe na mente, sem sombra de +vaidade, a conjectura de que era amado d'aquella dôce creatura. Entre si +disse que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal affeição, quando +não tinha alma para lh'a premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem +longe de se affligir, lisongeavam-o os desvelos da gentil moça. Ninguem +sente em si o pêso do amor que inspira e não comparte. Nas maximas +afflicções, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda +sentir-se amado quem já não póde achar no amor diversão das penas, nem +soldar o ultimo fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do +coração humano, seja o que fôr, no amor, que nos dão, é que nós +graduamos o que valemos em nossa consciencia. + +Não desprazia, portanto, o amor de Marianna ao amante apaixonado de +Thereza. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se +me deixam ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza, +que é toda galas no ceu, no mar, e na terra, é toda incoherencias, +absurdezas, e vicios no homem, rei da creação chamado! + + + + +IX. + + +Duas horas se detivera João da Cruz fóra de casa. Chegou quando a +curiosidade do estudante era já soffrimento. + +--Estará seu pae prêso?!--dissera elle a Marianna. + +--Não m'o diz o coração, e o meu coração nunca me engana--respondêra +ella. + +E Simão replicára: + +--E que lhe diz o coração a meu respeito, Marianna? Os meus trabalhos +ficarão aqui? + +--Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simão... mas não digo... + +--Diga, que lh'o peço, porque tenho fé no bom anjo que falla em sua +alma. Diga... + +--Pois sim... O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no +comêço... + +Simão ouviu-a attentamente, e não respondeu. Assombrou-lhe o animo esta +ideia torva, e affrontosa á singela rapariga:--«Pensará ella em me +desviar de Thereza para se fazer amar?» + +Pensava assim, quando chegou o ferrador. + +--Aqui estou de volta--disse elle com semblante festivo--Sua mãe +mandou-me chamar... + +--Já sei... E como soube ella que eu estava aqui? + +--Ella sabia que o fidalgo estivera cá; mas cuidava que v. s.^a já tinha +ido para Coimbra. Quem lh'o disse não sei, nem perguntei; porque a uma +pessoa de respeito não se fazem perguntas, dizia meu pae. Dizia ella que +sabia o fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa; +mas eu, cá como pude, accommodei-a, e não ha novidade. Perguntou-me o +que estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fôra para o +convento. Disse-lhe que v. s.^a estava adoentado d'uma quéda que dera do +cavallo abaixo. Tornou ella a perguntar se o senhor tinha dinheiro; e eu +disse que não sabia. E vai ella foi dentro, e voltou d'ahi a pouco com +este embrulho, para eu lhe entregar. Ahi o tem tal e qual; não sei +quanto é. + +--E não me escreveu? + +--Disse que não podia ir á escrivaninha, porque estava lá o senhor +corregedor--respondeu com firmeza mestre João--e tambem me recommendou +que não lhe escrevesse v. s.^a, senão de Coimbra, porque, se seu pae +soubesse que o menino cá estava, ia tudo razo lá em casa. Ora ahi está. + +--E não lhe fallou nos criados de Balthazar? + +--Nem um pio!.. Lá na cidade ninguem já fallava n'isso hoje. + +--E que lhe disse da senhora D. Thereza? + +--Nada, senão que ella fôra para o convento. Agora, deixe-me ir amantar +a egua, que está a escorrer em fio. Ó rapariga, traz-me cá a manta. + +Em quanto Simão contava onze moedas menos um quartinho, maravilhado da +estranha liberalidade, Marianna, abraçando o pae no repartimento visinho +da casa, exclamava: + +--Arranjou muito bem a mentira!... + +--Ó rapariga, quem mentiu foste tu! Aquillo lá o arranjaste tu com essa +tua cabecinha! Mas a coisa sahiu ao pintar, heim? Elle comeu-a que nem +confeitos! Anda lá, que ficaste sem os bezerros; mas lá virá tempo em +que elle te dê bois a troco dos bezerros. + +--Eu não fiz isto por interesse, meu pae...--atalhou ella resentida. + +--Olha o milagre! isso sei eu; mas, como diz lá o dictado, quem semeia +colhe. + +Marianna quedou pensativa, e dizendo entre si:--Ainda bem, que elle não +póde pensar de mim o que meu pae pensa. Deus sabe que não tenho +esperanças nenhumas interesseiras no que fiz. + +Simão chamou o ferrador, e disse-lhe: + +--Meu caro João, se eu não tivesse dinheiro, aceitava sem repugnancia os +seus favores, e creio que vocemecê m'os faria sem esperança de ganhar +com elles; mas como recebi esta quantia, ha de consentir que eu lhe dê +parte d'ella para os meus alimentos. Motivos de gratidão a dividas, que +se não pagam, ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de si, e da +sua boa filha. Tome este dinheiro. + +--As contas fazem-se no fim--respondeu o ferrador, retirando a mão--e +ninguem nos ha de ouvir, se Deus quizer. Precisando eu de dinheiro cá +venho. Por ora, ainda está a capoeira cheia de gallinhas, e o pão +coze-se todas as semanas. + +--Mas aceite--instou Simão--e dê-lhe a applicação que quizer. + +--Em minha casa ninguem dá leis senão eu--replicou o mestre João, com +simulado enfadamento--Guarde lá o seu dinheiro, fidalgo, e não fallemos +mais n'isso, se quer que o negocio vá direito até ao fim. _E +victo-serio_! + +Nos cinco subsequentes dias recebeu Simão regularmente cartas de +Thereza, umas resignadas e confortadoras, outras escriptas na violencia +exasperada da saudade. Em uma dizia: + +«Meu pae deve saber que estás ahi, e em quanto ahi estiveres, de certo +me não tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e +deixassemos esquecer a meu pae os ultimos acontecimentos. Senão, meu +querido esposo, nem elle me dá liberdade, nem eu sei como hei de fugir +d'este inferno. Não fazes ideia do que é um convento! Se eu podesse +fazer do meu coração sacrificio a Deus, teria de procurar uma atmosphera +menos viciosa que esta. Creio que em toda a parte se póde orar e ser +virtuosa, menos n'este convento.» + +N'outra carta exprimia-se assim: «Não me desampares, Simão, não vás para +Coimbra. Eu receio que meu pae me queira mudar d'este convento para +outro mais rigoroso. Uma freira me disse que eu não ficava aqui; outra +positivamente me affirmou que o pae diligenceia a minha ida para um +convento do Porto. Sobre tudo, o que me aterra, mas não me dobra, é +saber eu que o intento do pae é fazer-me professar. Por mais que imagine +violencias e tyrannias, nenhuma vejo capaz de me arrancar os votos. Eu +não posso professar sem ser noviça um anno, e ir a perguntas tres vezes; +hei de responder sempre que não. Se eu podesse fugir d'aqui!... Hontem +fui á cêrca, e vi lá uma porta de carro que dá para o caminho. Soube que +algumas vezes aquella porta se abre para entrarem carros de lenha; mas +infelizmente não se torna a abrir até ao principio do inverno. Se não +poder antes, meu Simão, fugirei n'esse tempo.» + +Tiveram entretanto bom e prompto exito as diligencias de Thadeu de +Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de summas virtudes, +cuidando que a filha de seu primo muito de sua devoção e amor a Deus, se +recolhia ao mosteiro, preparou-lhe casa e congratulou-se com a sobrinha +de tão piedosa resolução. A carta congratulatoria não a recebeu Thereza, +porque viera á mão de seu pae. Continha ella reflexões tendentes a +desvanecêl-a do proposito, se algum desgosto passageiro a impellia á +imprudencia de procurar um refugio onde as paixões se exacerbavam mais. + +Tomadas todas as precauções, Thadeu de Albuquerque fez avisar sua filha +de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum tempo, e +que a partida teria logar na madrugada do seguinte dia. + +Thereza, quando recebeu a surprendente nova, já tinha enviado a carta +d'aquelle dia a Simão. Em sua afflictiva perplexidade, resolveu fazer-se +doente, e tão febril estava das commoções, que dispensava o artificio. O +velho não queria transigir com a doença; mas o medico do mosteiro reagiu +contra a deshumanidade do pae e da prioreza interessada na violencia. +Quiz Thereza n'essa noite escrever a Simão; mas a criada da prelada, +obedecendo ás suspeitas da ama, não desamparou a cabeceira do leito da +enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escrivã, n'nma hora de +má digestão d'aquelle vinho estomacal, que Thereza passava as noites em +oração mental, e tinha correspondencia com um anjo do céu por +intervenção d'uma mendiga. Algumas religiosas tinham visto a mendiga no +páteo do convento esperando a esmola de Thereza; mas cuidaram que era +aquella pobre uma devoção da menina. As palavras ironicas da escrivã +foram commentadas, e a mendiga recebeu ordem de sahir da portaria. +Thereza, n'um impeto de angustia, quando tal soube, correu a uma +janella, e chamou a pobre, que se retirava assustada, e lançou-lhe ao +pateo um bilhete com estas palavras: «É impossivel a nossa +correspondencia. Vou ser tirada d'aqui para outro convento. Espera em +Coimbra noticias minhas.» Isto foi rapidamente ao conhecimento da +prioreza, e logo, ás ordens d'ella, partiu o hortelão no encalço da +pobre. O hortelão seguiu-a até fóra de portas, espancou-a, tirou-lhe o +bilhete, e foi do convento apresental-o a Thadeu de Albuquerque. A +mendiga não retrocedeu; caminhou a casa do ferrador, e contou a Simão o +acontecido. + +Simão lançou-se fóra do leito, e chamou João da Cruz. N'aquelle aperto +queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem, que lhe +estendesse mão capaz de apertar o cabo d'um punhal. O ferrador ouviu a +historia, e deu o seu voto: «esperar até vêr». Simão repelliu a +prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Vizeu +immediatamente. + +Marianna estava alli; ouvira a confidencia, e achára acertada a opinião +de seu pae. Vendo, porém, a impaciencia do hospede, pediu licença para +fallar onde não era chamada, e disse: + +--Se o senhor Simão quer, eu vou á cidade, e procuro no convento a +Brito, que é uma rapariga minha conhecida, moça d'uma freira, e dou-lhe +uma carta sua para entregar á fidalga. + +--Isso é possivel, Marianna?!--exclamou Simão, a ponto de abraçar a +moça. + +--Pois então!--disse o ferrador--o que póde fazer-se, faz-se. Vai-te +vestir, rapariga, que eu vou botar o albardão á égua. + +Simão sentou-se a escrever. Tão embaralhadas lhe acudiam as ideias, que +não atinava a formar o designio mais proveitoso á situação de ambos. Ao +cabo de longa vacillação, disse a Thereza que fugisse á hora do dia, +quando a porta estivesse aberta, ou violentasse a porteira a abrir-lh'a. +Dizia-lhe que marcasse ella a hora do dia seguinte em que elle a devia +esperar, com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo, promettia +assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendial-o para se abrirem +as portas. Este programma era o mais parecido com o espirito do +academico: em vivo fogo estava aquella pobre cabeça! Fechada a carta, +começou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados +impulsos. Encravava as unhas na cabeça, e arrancava os cabellos n'ellas. +Marrava como cego contra as paredes, e sentava-se um momento para +erguer-se de mais furioso impeto. Machinalmente aferrava das pistolas, e +sacudia os braços vertiginosos. Abria a carta para relêl-a, e estava a +ponto de rasgal-a, cuidando que iria tarde, ou não lhe chegaria ás mãos. +N'este conflicto de contrarios projectos, entrou Marianna, e muito +allucinado devia de estar Simão para lhe não dar fé das lagrimas. + +O que tu soffrias, nobre coração de mulher pura! Se o que fazes por esse +moço é gratidão ao homem que salvou a vida de teu pae, que rara virtude +a tua! Se o amas, se por lhe dar allivio ás dôres, tu mesma lhe +desempeces o caminho por onde te elle ha de fugir para sempre, que nome +darei á tua virtude! que anjo te fadou o coração para a santidade d'um +obscuro martyrio! + +--Estou prompta, disse Marianna. + +--Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faça muito por não vir sem +resposta--disse Simão, dando-lhe com a carta um embrulho de dinheiro. + +--E o dinheiro também é para a senhora?--disse ella. + +--Não, é para si, Marianna: compre um annel. + +Marianna tomou a carta, e voltou rapidamente as costas, para que Simão +lhe não visse o gesto de despeito, se não desprêso. + +O academico não ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida para o +quinteiro, onde o ferrador enfreava a egua. + +--Não lhe chegues muito com a vara--disse João da Cruz a Marianna, que, +d'um pulo, se assentou no albardão, coberto d'uma colxa escarlate.--Tu +vaes amarella como cidra, moça!--exclamou elle reparando na pallidez da +moça--Tu que tens? + +--Nada; que hei de eu ter?! dê-me cá a vara, meu pae. + +A egua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada, a rever-se na +filha e na egua, dizia em soliloquio, que Simão ouvira: + +--Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Vizeu! Pela mais +pintada não dava eu a minha egua; e, se cá viesse o Mira-Molim de +Marrocos pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lh'a dava! Isto é +que são mulheres, e o mais é uma historia! + + + + +X. + + +Apeou Marianna defronte do mosteiro, e foi á portaria chamar a sua amiga +Brito. + +--Que boa moça!--disse o padre capellão, que estava no raro lateral da +porta, praticando com a prioreza, ácerca da salvação das almas, e d'umas +ancoretas de vinho do Pinhão, que elle recebêra n'aquelle dia, e do qual +já tinha engarrafado um almude para tonisar o estomago da prelada. + +--Que boa moça!--tornou elle, com um olho n'ella e outro no raro, onde a +ciumosa prioreza se estava remordendo. + +--Deixe lá a moça, e diga quando ha de ir a servente buscar o vinho. + +--Quando quizer, senhora prioreza; mas repare bem nos olhos, no feitio, +n'aquelle todo da rapariga! + +--Pois repare o senhor padre João--replicou a freira--que eu tenho mais +que fazer. + +E retirou-se com o coração mal-ferido, e o queixo superior escorrendo +lagrimas... de simonte. + +--D'onde é vocemecê?--disse brandamente o padre capellão. + +--Sou da aldeia--respondeu Marianna. + +--Isso vejo eu; mas de que aldeia é? + +--Não me confesso agora. + +--Mas não faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou padre. + +--Bem vejo. + +--Que mau genio tem!... + +--É isto que vê. + +--Quem procura cá no convento? + +--Já disse lá para dentro quem procuro. + +--Marianna! és tu?! Anda cá! + +A moça fez uma cortezia de cabeça ao padre capellão, e foi ao locutorio +d'onde vinha aquella voz. + +--Eu queria fallar comtigo em particular, Joaquina--disse Marianna. + +--Eu vou vêr se arranjo uma grade: espera ahi. + +O padre tinha sahido do pateo, e Marianna, em quanto esperava, examinou, +uma a uma, as janellas do mosteiro. N'uma das janellas, através das +rexas de ferro, viu ella uma senhora sem habito. + +--Será aquella?--perguntou Marianna ao seu coração, que palpitava--Se eu +fosse amada como ella!... + +--Sobe aquellas escadinhas, Marianna, e entra na primeira porta do +corredor, que eu lá vou--disse Joaquina. + +Marianna deu alguns passos, olhou novamente para a janella onde vira a +senhora sem habito, e repetiu ainda: + +--Se eu fosse amada como ella!... + +Mal entrou na grade, disse á sua amiga: + +--Olha lá, Joaquina, quem é uma menina muito branca, alva como leite, +que estava alli agora n'uma janella? + +--Seria alguma noviça, que ha duas cá muito lindas. + +--Mas ella não tinha vestimenta nenhuma de freira. + +--Ah! já sei: é a D. Therezinha Albuquerque. + +--Então não me enganei--disse Marianna, pensativa. + +--Pois tu conhecel-a? + +--Não; mas por amor d'ella é que eu cá vim fallar comtigo. + +--Então que é?! Que tens tu com a fidalga? + +--Eu, cá por mim, nada; mas conheço uma pessoa que lhe quer muito. + +--O filho do corregedor? + +--Esse mesmo. + +--Mas esse está em Coimbra. + +--Não sei se está, nem se não. Fazes-me tu um favor? + +--Se eu poder... + +--Pódes... Eu queria fallar com ella. + +--Ó dianho! isso não sei se poderá ser, porque a trazem as freiras +debaixo d'olho, e ella vai-se embora ámanhã. + +--Para onde vai? + +--Vai para outro convento, não sei se de Lisboa, se do Porto. Os bahus +já estão preparados, e ella está morta por sahir. E tu que lhe queres? + +--Não t'o posso dizer, porque não sei... Queria dar-lhe um papel... Faz +com que ella cá venha, que eu dou-te chita para um vestido. + +--Como tu estás rica, Marianna!...--atalhou, rindo, Joaquina--Eu não +quero a tua chita, rapariga. Se eu podér dizer-lhe que venha, sem que +alguem me ouça, digo-lh'o. E agora é boa maré, porque tocou ao côro.... +Deixa-me lá ir. + +Joaquina sahiu-se bem da difficil commissão. Thereza estava sósinha, +absorvida a scismar com os olhos fitos no ponto onde vira Marianna. + +--A menina faz favor de vir comigo depressinha?--disse-lhe a criada. + +Seguiu-a Thereza, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo: + +--O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se +perguntarem por v. ex.^a, digo-lhe que a menina está no mirante. + +A voz de Marianna tremia, quando D. Thereza lhe perguntou quem era. + +--Sou uma portadora d'esta carta para v. ex.^a + +--É de Simão!--exclamou Thereza. + +--Sim, minha senhora. + +--A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse: + +--Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguem +me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de +Monchique do Porto. Que se não afflija, porque eu sou sempre a mesma. +Que não venha cá, porque seria inutil, e muito perigoso. Que vá vêr-me +ao Porto, que eu hei de arranjar modo de lhe fallar. Diga-lhe isto, sim? + +--Sim, minha senhora. + +--Não se esqueça, não? Vir cá por modo nenhum. É impossivel fugir, e vou +muito acompanhada. Vai o primo Balthazar e as minhas primas, e meu pae, +e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho +é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim? + +Joaquina disse fóra da porta: + +--Menina! olhe que a prioreza anda lá por dentro a procural-a. + +--Adeus, adeus--disse Thereza sobresaltada.--Tome lá esta lembrança como +prova da minha gratidão. + +E tirou do dedo um annel de ouro, que offereceu a Marianna. + +--Não aceito, minha senhora. + +--Porque não aceita? + +--Porque não fiz algum favor a v. ex.^a. A receber alguma paga ha de ser +de quem me cá mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá que seja +feliz. + +Sahiu Thereza, e Joaquina entrou na grade. + +--Já te vaes embora, Marianna? + +--Vou, que é pressa; um dia virei conversar comtigo muito. Adeus, +Joaquina. + +--Pois não me contas o que isto é? O amor da fidalga está perto d'aqui? +Conta, que eu não digo nada, rapariga!... + +--Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquininha. + +Marianna, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga, +e, se alguma vez se distrahia d'este exercicio de memoria, era para +pensar nas feições da amada do seu hospede, e dizer, como em segredo, ao +seu coração: «Não lhe bastava ser fidalga e rica; e, além de tudo, linda +como nunca vi outra!» E o coração da pobre moça, avergando ao que a +consciencia lhe ia dizendo, chorava. + +Simão, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do +caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura. + +Ao descobrir Marianna, desceu ao quinteiro, despresando cautelas, e +esquecido já do ferimento cuja crise de perigo peorára n'aquelle dia, +que era o oitavo depois do tiro. + +A filha do ferrador deu o recado, sem alteração de palavra. Simão +escutára-a placidamente até ao ponto em que lhe ella disse que o primo +Balthazar a acompanhava ao Porto. + +--O primo Balthazar!...--murmurou elle com um sorriso sinistro--sempre +este primo Balthazar cavando a sua sepultura e a minha!... + +--A sua, fidalgo?!--exclamou João da Cruz--morra elle, que o levem +trinta milhões de diabos! mas v. s.^a ha de viver em quanto eu fôr João. +Deixe-a ir para o Porto, que não tem perigo no convento. D'hora a hora +Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, está por lá algum tempo, +e ás duas por tres, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha +engrampa-o, e é sua como dois e dois serem quatro. + +--Eu hei de vêl-a antes de partir para Coimbra--disse Simão. + +--Olhe que ella recommendou-me muito que não fosse lá--acudiu Marianna. + +--Por causa do primo?--tornou o academico ironicamente. + +--Acho que sim, e por talvez não servir de nada lá ir v. s.^a--respondeu +timidamente a moça. + +--Lá se quer--bradou mestre João--a mulher vai-se-lhe tirar ao caminho. +Não tem mais que dizer. + +--Meu pae! não metta este senhor em maiores trabalhos!--disse Marianna. + +--Não tem duvida, menina--atalhou Simão--eu é que não quero metter +ninguem em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ella seja, hei +de eu luctar sósinho. + +João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se +ennobrecia, disse: + +--Senhor Simão, v. s.^a não sabe nada do mundo. Não metta sósinho a +cabeça aos trabalhos, que elles, como o outro que diz, quando pegam de +ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rustico; +mas, a bem dizer, estou n'aquella d'aquelle que dizia que o mal dos seus +burrinhos o fizera alveitar. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem +com ellas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ella seja filha do +rei, não se ha de um homem botar a perder. Mulheres ha tantas como a +praga, e são como as rãs no charco, que mergulha uma, e apparecem quatro +á tona d'agua. Um homem rico e fidalgo como v. s.^a, onde quer topa uma +com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o olho. Deixe-a +ir com Deus ou com a breca, que ella, se tiver de ser sua, á mão lhe ha +de vir dar, e tanto faz andar p'ra traz como p'ra diante, é dictado dos +antigos. Olhe que isto não é mêdo, fidalgo; tome sentido, que João da +Cruz sabe o que é pôr dois homens d'uma feita a olhar o sete-estrello, +mas não sabe o que é mêdo. Se o senhor quer sahir á estrada e tirar a +tal pessoa ao pae, ao primo, e a um regimento, se fôr necessario, eu vou +montar na egua, e d'aqui a tres horas estou de volta com quatro homens, +que são quatro dragões. + +Simão fitára os olhos chammejantes nos do ferrador, e Marianna +exclamára, ajuntando as mãos sobre o seio: + +--Meu pae! não lhe dê esses conselhos!... + +--Cala-te ahí, rapariga!--disse mestre João--vai tirar o albardão á +egua, amanta-a, e bota-lhe sêcco. Não és aqui chamada. + +--Não vá afflicta, senhora Marianna--disse Simão á moça, que se retirava +amargurada.--Eu não aproveito algum dos conselhos de seu pae. Ouço-o com +boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a +honra e o coração me aconselhar. + +Ao anoitecer, Simão, como estivesse sósinho, escreveu uma longa carta, +da qual extractamos os seguintes periodos: + +«Considero-te perdida, Thereza. O sol de ámanhã póde ser que eu o não +veja. Tudo, em volta de mim, tem uma côr de morte. Parece que o frio da +minha sepultura me está passando o sangue e os ossos. + +Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se +conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as +contrariedades me não privavam de ti. Só o receio de perder-te me mata. +O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de +mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ella. + +Poderia viver com a paixão infeliz; mas este rancor sem vingança é um +inferno. Não hei de dar barata a vida, não. Ficarás sem mim, Thereza; +mas não haverá ahi um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho +ciumes de todas as tuas horas. Has de pensar com muita saudade no teu +esposo do ceu, e nunca tirarás de mim os olhos da tua alma para vêres ao +pé de ti o miseravel que nos matou a realidade de tantas esperanças +formosas. + +Tu verás esta carta quando eu já estiver n'um outro mundo, esperando as +orações das tuas lagrimas. As orações! Admiro-me d'esta faisca de fé que +me alumia nas minhas trévas!... Tu déras-me com o amor a religião, +Thereza. Ainda creio; não se apaga a luz que é tua; mas a providencia +divina desamparou-me. + +Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a +uma sombra, a razão por que me attrahiste a um abysmo. Escutarás com +gloria a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim. + +Á hora em que leres esta carta............» + +Não o deixaram continuar as lagrimas, nem depois a presença de Marianna. +Vinha ella pôr a mesa para a ceia, e quando desdobrava a toalha, disse +em voz abafada, como se a si mesma sómente o dissesse: + +--É a ultima vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa! + +--Porque diz isso, Marianna? + +--Porque m'o diz o coração. + +D'esta vez o academico ponderou supersticiosamente os dictames do +coração da moça, e com o silencio meditativo deu-lhe a ella a evidencia +anticipada do vaticinio. + +Quando voltou com a travessa da gallinha, vinha chorando a filha de João +da Cruz. + +--Chora com pena de mim, Marianna?--disse Simão enternecido. + +--Choro, porque me parece que o não tornarei a vêr; ou, se o vir, será +de modo que oxalá que eu morresse antes de o vêr. + +--Não será, talvez, assim, minha amiga... + +--V. s.^a não me faz-uma coisa que eu lhe peço?... + +--Veremos o que pede, menina. + +--Não saia esta noite, nem ámanhã. + +--Pede o impossivel, Marianna. Hei de sahir, porque me mataria se não +sahisse. + +--Então perdôe a minha ousadia. Deus o tenha de sua mão. + +A rapariga foi contar ao pae as intenções do academico. Acudiu logo +mestre João combatendo a ideia da sahida, com encarecer os perigos do +ferimento. Depois, como não conseguisse dissuadil-o, resolveu +acompanhal-o. Simão agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com decisão. O +ferrador não cedia do proposito, e estava já preparando a clavina, e +arreçoando com medida dobrada a egua--para o que désse e viesse--dizia +elle, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado, resolvêra não ir +a Vizeu, e seguir Thereza ao Porto, passados os dias da convalescença. +Facilmente o acreditou João da Cruz; mas Marianna, submissa sempre ao +que o seu coração lhe bacorejava, duvidou da mudança, e disse ao pae que +vigiasse o fidalgo. + +Ás onze horas da noite ergueu-se o academico, e escutou o movimento +interior da casa: não ouviu o mais ligeiro ruido, a não ser o rangido da +egua na manjedoura. Escorvou de polvora nova as duas pistolas. Escreveu +um bilhete subscriptado a João da Cruz, e ajuntou-o á carta que +escrevêra a Thereza. Abriu as portadas da janella do seu quarto, e +passou d'alli para a varanda de pau, da qual o salto á estrada era sem +risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral á +porta da varanda, se abriu, e a voz de Marianna lhe disse: + +--Então adeus, senhor Simão. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na +sua companhia. + +O academico parou, e ouviu voz intima que lhe dizia: «O teu anjo da +guarda falla pela bôca d'aquella mulher, que não tem mais intelligencia +que a do coração alumiado pelo seu amor.» + +--Dê um abraço em seu pae, Marianna--disse-lhe Simão--e adeus... até +logo, ou.... + +--Até ao juizo final...--atalhou ella. + +--O destino ha de cumprir-se... Seja o que o ceu quizer. + +Tinha Simão desapparecido nas trevas, quando Marianna accendeu a lampada +do sanctuario, e ajoelhou orando com o fervor das lagrimas. + +Era uma hora, e estava Simão defronte do convento, contemplando uma a +uma as janellas. Em nenhuma vira clarão de luz; luz só a do lampadario +do Sacramento se coava baça e pallida na vidraça d'uma fresta do templo. +Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu, ali immovel, as quatro +horas. Das mil visões, que lhe relancearam no atribulado espirito, a que +mais a miudo se repetia era a de Marianna supplicante com as mãos +postas; mas, ao mesmo tempo, cria elle ouvir os gemidos de Thereza, +torturada pela saudade, pedindo ao ceu que a salvasse das mãos de seus +algozes. O vulto de Thadeu de Albuquerque, arrastando a filha a um +convento, não lhe afogueava a sêde de vingança; mas cada vez que lhe +acudia á mente a imagem odiosa de Balthazar Coutinho, instinctivamente +as mãos do academico se asseguravam da existencia das pistolas. + +Ás quatro horas e um quarto acordou a natureza toda em hymnos e +acclamações ao radiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do +mosteiro melodias interrompidas pelo toque solemne das Ave-Marias na +torre. O horisonte passára, de escarlate a alvacento. A purpura da +aurora, como lavareda enorme, desfizera-se em particulas de luz, que +ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas planicies e nas +varzeas, como se o anjo do Senhor, á voz de Deus, viesse desenrolando +aos olhos da creatura as maravilhas do repontar d'um dia estivo. + +E nenhuma d'estas galas do ceu e da terra enlevava os olhos do moço +poeta! + +Ás quatro horas e meia ouviu Simão o tinido de liteiras, dirigindo-se +áquelle ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira +ao convento. + +Pararam as liteiras vasias na portaria, e logo depois chegaram tres +senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irmãs de Balthazar, +acompanhadas de dois mochilas com as mulas á rédea. As damas foram +sentar-se nos bancos de pedra, lateraes á portaria. Em seguida abriu-se +a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as tres senhoras entraram. + +Momentos depois viu Simão chegar á portaria Thadeu de Albuquerque +encostado ao braço de Balthazar Coutinho. O velho denotava quebranto e +desfallecimento a espaços. O de Castro-d'Aire, bem composto de figura e +caprichosamente vestido á castelhana, gesticulava com o aprumo de quem +dá as suas irrefutaveis razões, e consola tomando a riso a dôr alheia. + +--Nada de lamurias, meu tio!--dizia elle--Desgraça seria vêl-a casada! +Eu prometto-lhe antes de um anno restituir-lh'a curada. Um anno de +convento é um optimo vomitorio do coração. Não ha nada como isso para +limpar o sarro do vicio em corações de meninas creadas á discrição. Se +meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediencia cega, têl-a-ia agora +submissa, e ella não se julgaria authorisada a escolher marido. + +--Era uma filha unica, Balthazar!--dizia o velho, soluçando. + +--Pois por isso mesmo--replicou o sobrinho--Se tivesse outra, ser-lhe-ia +menos sensivel a perda, e menos funesta a desobediencia. Faria a sua +casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licença regia +para desherdar a primogenita. Assim, agora não lhe vejo outro remedio +senão empregar o cauterio á chaga; com emplastros é que não se faz nada. + +Abriu-se novamente a portaria, e sahiram as tres senhoras, e após ellas +Thereza. + +Thadeu enchugou as lagrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que +não ergueu do chão os olhos. + +--Thereza...--disse o velho. + +--Aqui estou, senhor--respondeu a filha, sem o encarar. + +--Ainda é tempo--tornou Albuquerque. + +--Tempo de quê? + +--Tempo de seres boa filha. + +--Não me accusa a consciencia de o não ser. + +--Ainda mais?!... Queres ir para tua casa, e esqueceres o maldito que +nos faz a todos desgraçados? + +--Não, meu pae. O meu destino é o convento. Esquecêl-o nem por morte. +Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca. + +Thereza, circumvagando os olhos, viu Balthazar, e estremeceu, +exclamando: + +--Nem aqui! + +--Falla comigo, prima Thereza?--disse Balthazar, risonho. + +--Comsigo fallo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presença? + +--Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha +eu ha dias, dignos de acompanharem a minha prima; mas esses houve ahi um +assassino que m'os matou. Á falta d'elles, sou eu que me offereço. + +--Dispenso-o da delicadeza--atalhou Thereza com vehemencia. + +--Eu é que me não dispenso de a servir, á falta dos meus dois fieis +criados, que um scelerado me matou. + +--Assim devia ser--tornou ella tambem ironica--porque os covardes +escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar. + +--Ainda se não fizeram as contas finaes..., minha querida +prima--redarguiu o morgado. + +Este dialogo correu rapidamente, em quanto Thadeu de Albuquerque +cortejava a prioreza e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas +de Balthazar, tinham sahido do atrio do convento, e deram de rosto em +Simão Botelho, encostado á esquina da rua fronteira. + +Thereza viu-o.... adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou: + +--Simão!... + +O filho do corregedor não se moveu. + +Balthazar, espavorido do encontro, fitando os olhos n'elle, duvidava +ainda. + +--É crivel que esse infame aqui viesse!--exclamou o de Castro-d'Aire. + +Simão deu alguns passos, e disse placidamente: + +--_Infame..._ eu! e porquê? + +--Infame, e infame assassino!--replicou Balthazar--Já fóra da minha +presença! + +--É parvo este homem!--disse o academico--Eu não discuto com s. s.^a... +Minha senhora--disse elle a Thereza com a voz commovida e o semblante +alterado unicamente dos affectos do coração--Soffra com resignação, da +qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a +violencia, e bem póde ser que a meio caminho do seu calvario a +misericordia divina lhe redobre as forças. + +--Que diz este patife?!--exclamou Thadeu. + +--Vem aqui insultal-o, meu tio!--respondeu Balthazar--Tem a petulancia +de se apresentar a sua filha a confortal-a na sua malvadez! Isto é de +mais! Olhe que eu esmago-o aqui, su villão! + +--Villão é o desgraçado, que me ameaça, sem ousar avançar para mim um +passo--redarguiu o filho do corregedor. + +--Eu não o tenho feito--exclamou enfurecidamente Balthazar--por entender +que me avilto, castigando-o, na presença de criados de meu tio, que tu +pódes suppôr meus defensores, canalha! + +--Se assim é--tornou Simão, sorrindo--espero nunca me encontrar de rosto +com s. s.^a. Reputo-o tão covarde, tão sem dignidade, que o hei de +mandar azorragar pelo primeiro ganha-pão das esquinas. + +Balthazar Coutinho lançou-se de impeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a +garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as +damas chegaram a interpôr-se entre os dois, Balthazar tinha o alto do +craneo aberto por uma bala, que lhe entrára na fronte. Vacillou um +segundo, e cahiu desamparado aos pés de Thereza. + +Thadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados +rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola. +Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao +homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara, +correu da rua fronteira, e se collocou, de bacamarte aperrado, á beira +de Simão. Estacaram os homens. + +--Fuja, que a égua está ao cabo da rua--disse o ferrador ao seu hospede. + +--Não fujo... Salve-se, e depressa--respondeu Simão. + +--Fuja, que se ajunta o povo, e não tardam ahi soldados. + +--Já lhe disse que não fujo--replicou o amante de Thereza, com os olhos +postos n'ella, que cahira desfallecida sobre as escadas da igreja. + +--Está perdido!--tornou João da Cruz. + +--Já o estava. Vá-se embora, meu amigo, por sua filha lh'o rogo. Olhe +que póde ser-me util; fuja... + +Abriam-se todas as portas e janellas, quando o ferrador se lançou na +fuga, até cavalgar a egua. + +Um dos visinhos do mosteiro, que, em razão de seu officio, primeiro +sahiu á rua, era o meirinho geral. + +--Prendam-no, prendam-no, que é um matador!--exclamava Thadeu de +Albuquerque. + +--Qual?--perguntou o meirinho geral. + +--Sou eu--respondeu o filho do corregedor. + +--V. s.^a!--disse o meirinho espantado; e, approximando-se, accrescentou +a meia voz--venha, que eu deixo-o fugir. + +--Eu não fujo--tornou Simão.--Estou prêso. Aqui tem as minhas armas. + +E entregou as pistolas. + +Thadeu de Albuquerque, quando se recobrou do spasmo, fez transportar a +filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao +Porto. + +As irmãs de Balthazar seguiram o cadaver de seu irmão para casa do tio. + + + + +SEGUNDA PARTE. + + + + +I. + + +O corregedor acordara com o grande reboliço que ia na casa, e perguntou +á esposa, que elle suppunha tambem desperta na camara immediata, que +bulha era aquella. Como ninguem lhe respondesse, sacudiu freneticamente +a campainha, e berrou ao mesmo tempo, aterrado pela hypothese de +incendio na casa. Quando D. Rita acudiu, já elle estava enfiando os +calções ás avessas. + +--Que estrondo é este? quem é que grita?--exclamou Domingos Botelho. + +--Quem grita mais é o senhor--respondeu D. Rita. + +--Sou eu!? Mas quem é que chora? + +--São suas filhas. + +--E porquê? Diga n'uma palavra. + +--Pois sim, direi: o Simão matou um homem. + +--Em Coimbra?... E fazem tanta bulha por isso! + +--Não foi em Coimbra, foi em Vizeu--tornou D. Rita. + +--A senhora manga comigo?! Pois o rapaz está em Coimbra, e mata em +Vizeu! Ahi está um caso para que as ordenações do reino não +providenciaram. + +--Parece que brinca, Menezes! Seu filho matou na madrugada de hoje +Balthazar Coutinho, sobrinho do Thadeu de Albuquerque. + +Domingos Botelho mudou inteiramente de aspecto. + +--Foi prêso?--perguntou o corregedor. + +--Está em casa do juiz de fóra. + +--Mande-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e porque foi essa +morte?!... Mande-me chamar o meirinho, sem demora. + +--Porque se não veste o senhor, e vai a casa do juiz? + +--Que vou eu fazer a casa do juiz? + +--Saber de seu filho como isto foi. + +--Eu não sou pae: sou corregedor. Não me incumbe a mim interrogal-o, +Senhora D. Rita, eu não quero ouvir choradeiras; diga ás meninas que se +calem, ou que vão chorar no quintal. + +O meirinho chamado relatou miudamente o que sabia, e disse ter-se +verificado que o amor á filha do Albuquerque fôra causa d'aquelle +desastre. + +Domingos Botelho, ouvida a historia, disse ao meirinho: + +--O juiz de fóra que cumpra as leis. Se elle não fôr rigoroso, eu o +obrigarei a sêl-o. + +Ausente o meirinho, disse D. Rita Preciosa ao marido: + +--Que significa esse modo de fallar de seu filho? + +--Significa que sou corregedor d'esta comarca, e que não protejo +assassinos por ciumes, e ciumes da filha de um homem, que eu detesto. Eu +antes queria vêr mil vezes morto Simão, que ligado a essa familia. +Escrevi-lhe muitas vezes dizendo-lhe que o expulsava de minha casa, se +alguem me désse a certeza de que elle tinha correspondencia com tal +mulher. Não ha de querer a senhora que eu vá sacrificar a minha +integridade a um filho desobediente, e de mais a mais homicida. + +D. Rita, algum tanto por affecto maternal e bastante por espirito de +contradicção, contendeu largo espaço; mas desistiu, obrigada pela +insolita pertinacia e cólera do marido. Tão iracundo e aspero em +palavras nunca o ella vira. Quando lhe elle disse: «Senhora, em coisas +de pouca monta o seu dominio era toleravel; em questões de honra, o seu +dominio acabou: Deixe-me!»--D. Rita, quando tal ouviu, e reparou na +physionomia de Domingos Botelho, sentiu-se mulher, e retirou-se. + +A ponto foi isto de entrar o juiz de fóra na sala de espera. O +corregedor foi recebel-o, não com o semblante affectuoso de quem vai +agradecer a delicadeza e implorar indulgencia, senão que de carrancudo +que ia, mais parecêra ir elle reprehender o juiz por vir n'aquella +visita dar a crer que a balança da justiça na sua mão tremia algumas +vezes. + +--Começo por dar a v. s.^a os pezames--disse o juiz de fóra--da desgraça +de seu filho. + +--Obrigado a v. s.^a Sei tudo. Está instaurado o processo? + +--Não podia deixar eu de acceitar a querella. + +--Se a não acceitasse, obrigal-o-ia eu ao cumprimento dos seus deveres. + +--A situação do senhor Simão Botelho é pessima. Confessa tudo. Diz que +matou o algoz da mulher que elle amava... + +--Fez muito bem--interrompeu o corregedor, soltando uma casquinada secca +e rouca. + +--Perguntei-lhe se foi em defeza, e fiz-lhe signal que respondesse +affirmativamente. Respondeu que não; que, a defender-se, o faria com a +ponta da bota, e não com um tiro. Busquei todos os modos honestos de o +levar a dar algumas respostas, que denotassem allucinação ou demencia; +elle, porém, responde e replíca com tanta egualdade e presença de +espirito, que é impossivel suppor que o assassinio não foi perpetrado +muito intencionalmente e de claro juizo. Aqui tem v. s.^a uma +especialissima e triste posição. Queria valer-lhe, e não posso. + +--E eu não posso nem quero, senhor doutor juiz de fóra. Está na cadêa? + +--Ainda não: está em minha casa. Venho saber se v. s.^a determina que +lhe seja preparada com decencia a prisão. + +--Eu não determino nada. Faça de conta que o prêso Simão não tem aqui +parente algum. + +--Mas, senhor doutor corregedor--disse o juiz de fóra com tristeza e +compuncção--v. s.^a é pae. + +--Sou um magistrado. + +--É demasiada a severidade, perdôe-me a reflexão que é amiga. Lá está a +lei para o castigar; não o castigue v. ex.^a com o seu odio. A desgraça +quebranta o odio de estranhos, quanto mais o affectuoso resentimento de +um pae! + +--Eu não odeio, senhor doutor; desconheço esse homem em que me falla. +Cumpra os seus deveres, que lh'o ordena o corregedor, e o amigo mais +tarde lhe agradecerá a delicadeza. + +Sahiu o juiz de fóra, e foi encontrar Simão na mesma serenidade em que o +deixára. + +--Venho de fallar com seu pae;--disse o juiz--encontrei-o mais irado do +que era natural calcular. Penso que por em quanto naaa póde esperar da +influencia ou patrocinio d'elle. + +--Isso que importa?--respondeu socegadamente Simão. + +--Importa muito, senhor Botelho. Se seu pae quizesse, haveria meios de +mais tarde lhe adoçar a sentença. + +--Que me importa a mim a sentença?--replicou o filho do corregedor. + +--Pelo que vejo não lhe importa ao senhor ir a uma forca? + +--Não, senhor. + +--Que diz, senhor Simão!--redarguiu espantado o interrogador. + +--Digo que o meu coração é indifferente ao destino da minha cabeça. + +--E sabe que seu pae não lhe dá mesmo protecção, a protecção das +primeiras necessidades na cadêa? + +--Não sabia; que tem isso? Que importa morrer de fome, ou morrer no +patibulo? + +--Porque não escreve a sua mãe? Peça-lhe que... + +--Que hei de eu pedir a minha mãe?--atalhou Simão. + +--Peca-lhe, que amacie a cólera de seu pae, senão o senhor Botelho não +tem quem o alimente. + +--V. s.^a está-me julgando um miseravel, a quem dá cuidado saber onde ha +de almoçar hoje. Penso que não incumbem ao senhor juiz de fóra essas +miudezas de estomago. + +--De certo não--redarguiu irritado o juiz---Faça o que quizer. + +E, chamando o meirinho geral, entregou-lhe o réo, dispensando o aguazil +de pedir força para acompanhal-o. + +O carcereiro recebeu respeitosamente o prêso, e alojou-o n'um dos +quartos melhores do carcere; mas nú e desprovido de tudo o carcere. + +Um outro prêso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Simão sentou-se, cruzou +os braços, e meditou. + +Pouco depois, um criado de seu pae conduziu-lhe o almoço, dizendo-lhe +que sua mãe lh'o mandava a occultas, e entregando-lhe uma carta d'ella, +cujo conteúdo importa saber. Simão, antes de tocar no almoço, cujo cabaz +estava-no pavimento, leu o seguinte: + +«Desgraçado, que estás perdido! + +Eu não te posso valer, porque teu pae está inexoravel. A occultas d'elle +é que te mando o almoço, e não sei se poderei mandar-te o jantar! + +Que destino o teu! Oxalá que tivesses morrido ao nascer! + +Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não quiz +largar a victima [3]. + +Para que sahiste de Coimbra? a que vieste, infeliz? Agora sei que tens +vivido fóra de Coimbra ha quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que +dissesses a tua mãe!...» + +Simão suspendeu a leitura, e disse entre si: + +--Como se intende isto?! Pois minha mãe não mandou chamar João da Cruz! +E não foi ella quem me mandou o dinheiro? + +--Olhe que o almoço arrefece, menino!--disse o criado. + +Simão continuou a ler, sem ouvir o criado: + +«Deves estar sem dinheiro; e eu desgraçadamente não posso hoje enviar-te +um pinto. Teu irmão Manoel, desde que fugiu para Hespanha, absorve-me +todas as economias. Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer; mas +receio bem que teu pae saia de Vizeu, e nos leve para Villa Real, para +abandonar de todo o teu julgamento á severidade das leis. + +Meu pobre Simão! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo é +que teu pae teve carta d'um lente, participando-lhe a tua falta nas +aulas, e sahida para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te +acompanhou. + +Não posso mais. Teu pae já espancou a Ritinha, por ella querer ir á +cadêa. + +Conta com o pouco valor de tua pobre mãe ao pé d'um homem infurecido +como está teu pae.» + +Simão Botelho reflectiu alguns minutos, e convenceu-se de que o dinheiro +recebido era de João da Cruz. Quando sahiu com o espirito d'esta +meditação, tinha os olhos marejados de lagrimas. + +--Não chore, menino;--disse o criado--os trabalhos são para os homens, e +Deus ha de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simão. + +--Leva o almoço--disse elle. + +--Pois não quer almoçar?! + +--Não. Nem voltes aqui. Eu não tenho familia. Não quero absolutamente +nada da casa de meus paes. Diz a minha mãe que eu estou socegado, bem +alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora já. + +O criado sahiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava +doudo. D. Rita achou provavel a suspeita do servo e viu a evidencia da +loucura nas palavras do filho. + +Quando o o carcereiro voltou ao quarto de Simão, entrou acompanhado +d'uma rapariga camponeza: era Marianna. A filha de João da Cruz que, até +áquelle momento não apertava sequer a mão do hospede, correu a elle com +os braços abertos, e o rosto banhado de lagrimas. O carcereiro +retirou-se, dizendo comsigo: «Esta é bem mais bonita que a fidalga!» + +--Não quero ver lagrimas, Marianna--disse Simão--Aqui, se alguem deve +chorar sou eu; mas lagrimas dignas de mim, lagrimas de gratidão aos +favores que tenho recebido de si e de seu pae. Acabo de saber que minha +mãe nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pae aquelle dinheiro, que +recebi. + +Marianna escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto. + +--Seu pae teve algum perigo?--tornou Simão em voz só perceptivel d'ella. + +--Não, senhor. + +--Está em casa? + +--Está; e parece furioso. Queria vir aqui; mas eu não o deixei. + +--Perseguiu-o alguem? + +--Não, senhor. + +--Diga-lhe que não se assuste, e vá depressa socegal-o. + +--Eu não posso ir sem fazer o que elle me disse. Eu vou sahir, e volto +d'aqui a pouco. + +--Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e papel--disse +Simão, dando-lhe dinheiro. + +--Ha de vir logo tudo; já cá podia estar; mas o pae disse-me que não +comprasse nada sem saber se sua familia lhe mandava o necessario. + +--Eu não tenho familia, Marianna. Tome o dinheiro. + +--Não recebo dinheiro, sem licença de meu pae. Para essas compras trouxe +eu de mais. E a sua ferida como estará? + +--Ainda agora me lembro que tenho uma ferida!--disse Simão, +sorrindo--Deve estar boa, que não me dóe.... Soube alguma coisa da D. +Thereza? + +--Soube que foi para o Porto. Estavam alli a contar que o pae a mandára +metter sem sentidos na liteira, e está muito povo á porta do fidalgo. + +--Está bom, Marianna... Não ha desgraçado sem amparo. Vá, pense no seu +hospede, seja o seu anjo de misericordia. + +Saltaram de novo as lagrimas dos olhos da moça; e por entre soluços, +estas palavras: + +--Tenha paciencia. Não ha de morrer ao desamparo. Faça de conta que lhe +appareceu hoje uma irmã. + +E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoutos e uma +garrafa de licor de canella, que depôz sobre a cadeira. + +--Mau almoço é; mas não achei outra coisa prompta--disse ella, e sahiu +apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratidão. + + + + +II. + + +O corregedor, n'esse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e +filhas para no dia immediato sahirem de Vizeu, com tudo que podesse ser +transportado em cavalgaduras. + +Vou transcrever a singela e dorida reminiscencia d'uma senhora d'aquella +familia, como a tenho em carta, recebida ha mezes: + +«Já lá vão cincoenta e sete annos, e ainda me lembro, como se fossem +hontem passados os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei +como é que tenho hoje mais clara a memoria das coisas da infancia. +Parece-me que, há trinta annos, me não lembravam com tantas +circumstancias e promenores. + +Quando a mãe disse a mim e a minhas irmãs que preparassemos os nossos +bahus, rompemos todas n'um chôro, que irritou a ira do pae. As manas, +como mais velhas ou mais affeitas ao castigo, calaram-se logo: eu, +porém, que só uma vez e unicamente por causa de Simão, tinha sido +castigada, continuei a chorar, e tive o innocente valor de pedir ao pae +que me deixasse ir vêr o mano á cadêa antes de sahirmos de Vizeu. + +Então fui castigada pela segunda vez e asperamente. + +O criado, que levou o jantar á cadêa, voltou com elle e contou-nos que +Simão já tinha alguns moveis no seu quarto, e estava jantando com +exterior socegado. Áquella hora todos os sinos de Vizeu estavam dobrando +a finados por alma de Balthazar. + +Ao pé d'elle, disse o criado que estava uma formosa rapariga da aldeia, +triste e coberta de lagrimas. Apontando-a ao criado que a observava, +disse Simão:--A minha família é esta. + +No dia seguinte, ao romper da manhã, partimos para Villa Real. A mãe +chorava sempre; o pae, encolerisado por isso, sahiu da liteira em que +vinha com ella, fez que eu passasse para o seu logar, e fez toda a +jornada na minha cavalgadura. + +Logo que chegamos a Villa Real, eram tão frequentes as desordens em +casa, á conta do Simão, que meu pae abandonou a familia, e foi sósinho +para a quinta de Montezellos. A mãe quiz tambem abandonar-nos, e ir para +os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pae, +que fizera uma espantosa mudança de genio, quando tal soube, ameaçou +minha mãe de a obrigar judicialmente a não sahir da casa de seu marido e +filhas. + +Escrevia a mãe a Simão, e não recebia resposta. Pensava ella que o filho +não respondia: annos depois vimos entre os papeis de meu pae todas as +cartas que ella escrevêra. Ja se vê que o pae as fazia tirar no correio. + +Uma senhora de Vizeu escreveu á mãe, louvando-a pelo muito amor e +caridade com que ella acudia ás necessidades de seu infeliz filho. Esta +carta foi-lhe entregue por um almocreve, senão teria o destino das +outras. Espantou-se minha mãe do conceito em que a tinha a sua amiga, e +confessou lhe que não o tinha soccorrido, porque o filho rejeitára o +pouco que ella quizera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de +Vizeu que uma rapariga, filha d'um ferrador, estava vivendo nas +visinhanças da cadêa, e cuidava do prêso com abundancia e limpeza, e a +todos dizia que ali estava por ordem e á custa da senhora D. Rita +Preciosa. Accrescentava a amiga de minha mãe, que algumas vezes mandára +chamar a bella moça e lhe quizera dar alguns cosinhados mais exquisitos +para Simão, os quaes ella rejeitava, dizendo que o senhor Simão não +aceitava nada. + +De tempos a tempos recebiamos estas novas, sempre tristes, porque, na +ausencia de meu pae, conspiraram, como era de esperar, quasi todas as +pessoas distinctas de Vizeu contra o meu desgraçado irmão. + +A mãe escrevia aos seus parentes da capital, implorando graça regia para +o filho; mas aquellas cartas não sahiam do correio, e iam dar todas á +mão de meu pae. + +E que fazia este, entretanto, na quinta, sem familia, sem gloria, nem +recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava +aquelle grande montado, onde ainda hoje por entre os tojos e urzes que +voltaram com o abandono, se podem vêr reliquias das cêpas plantadas por +elle. A mãe escrevia-lhe lastimando o filho; meu pae apenas respondia +que a justiça não era uma brincadeira, e que na antiguidade os proprios +paes condemnavam os filhos criminosos. + +Teve minha mãe a affoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licença +para ir a Vizeu. Meu inexoravel pae negou-lh'a, e invectivou-a +furiosamente. + +Passados sete mezes, soubemos que Simão tinha sido condemnado a morrer +na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as +janellas por oito dias; vestimos todas de lucto, e minha mãe cahiu +doente. + +Quando se isto soube em Villa Real, todas as pessoas illustres da terra +foram a Montezellos, a fim de obrigarem brandamente o pae a empregar o +seu valimento na salvação do filho condemnado. De Lisboa vieram alguns +parentes protestar contra a infamia que tamanha ignominia faria recahir +sobre a familia. Meu pae a todos respondia com estas palavras: «A forca +não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A +ignominia das familias são as más acções. A justiça não infama senão +aquelle que castiga.» + +Tinhamos nós um tio-avô muito velho e venerando, chamado Antonio da +Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se a meu pae +e disse-lhe: Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e tres annos. +Poderei viver mais dous ou tres? Isto nem já é vida; mas foi-o, e +honrada, e sem mancha até agora, e já agora ha de assim acabar; meus +olhos não hão de vêr a deshonra de sua familia. Domingos Botelho, ou tu +me promettes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me +mato.--E dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pae +teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado. + +No dia seguinte, foi meu pae para o Porto, onde tinha muitos amigos na +Relação, e de lá para Lisboa[4]. + +Em principio de Março de 1805 soube minha mãe com grande prazer que +Simão fôra removido para as cadêas da Relação do Porto, vencendo os +grandes obstaculos que oppozera a essa mudança dos queixosos, que eram +Thadeu de Albuquerque, e as irmãs do morto. + +Depois......» + +Suspendemos aqui o extracto da carta, para não anticiparmos a narrativa +de successos, que importa, em respeito á arte, atar no fio cortado. + +Simão Botelho vira imperturbavel chegar o dia do julgamento. Sentou-se +no banco dos homicidas sem patrono, nem testemunhas de defeza. Ás +perguntas respondeu com o mesmo animo frio d'aquellas respostas ao +interrogatorio do juiz. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com +toda a lealdade sem articular o nome de Thereza Clementina de +Albuquerque. Quando o advogado da accusação proferiu aquelle nome, Simão +Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou: + +--Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infamia e +sangue? Que miseravel accusador está ahi, que não sabe com a confissão +do réo provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputação d'uma +mulher? A minha accusação está feita: eu a fiz: agora a lei que falle, e +cale-se o villão que não sabe accusar sem infamar. + +O juiz impôz-lhe silencio. Simão sentou-se, murmurando: + +--Miseraveis todos! + +Ouviu o réo a sentença de morte natural para sempre na forca arvorada no +local do delicto. E ao mesmo tempo sahiram d'entre a multidão uns gritos +dilacerantes. Simão voltou a face para as turbas, e disse: + +--Ides ter um bello espectaculo, senhores! A forca é a unica festa do +povo! Levai d'ahi essa pobre mulher que chora: essa é a creatura unica +para quem o meu supplicio não será um passatempo. + +Marianna foi transportada em braços á sua casinha, na visinhança da +cadêa. Os robustos braços que a levaram eram os de seu pae. + +Simão Botelho, quando, em toda a agilidade e força dos dezoito annos, ia +do tribunal ao carcere, ouviu algumas vozes que se alternavam d'este +modo: + +--Quando vai elle a padecer? + +--É bem feito! vai pagar pelos innocentes que o pae mandou enforcar. + +--Queria apanhar a morgada á força de balas! + +--Não que estes fidalgos cuidam que não é mais senão matar!... + +--Matasse elle um pobre, e tu verias como elle estava em casa! + +--Tambem é verdade! + +--E como elle vai de cara no ar! + +--Deixa ir, que não tarda quem lh'a faça cahir ao chão!... + +--Dizem que o carrasco já vem pelo caminho. + +--Já chegou de noite, e trazia dous cutélos n'uma coifa. + +--Tu viste-o? + +--Não; mas disse a minha comadre que lh'o dissera a visinha do cunhado +da irmã, e que o carrasco está escondido n'uma enxovia. + +--Tu has de levar os teus pequenos a vêr o padecente? + +--Podéra não! Estes exemplos não se devem perder. + +--Eu cá de mim já vi enforcar tres, que me lembre, todos por matadores. + +--Por isso tu ha dois annos não atiraste com a vida do Amaro Lampreia a +casa do diabo!... + +--Assim foi; mas, se eu o não matasse, matava-me elle. + +--Então de que voga o exemplo?! + +--Eu sei cá de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos é que préga aos +paes que levem os filhos a vêrem os enforcados. + +--Isso ha de ser para o não esfolarem a elle, quando elle nos esfola com +os peditorios. + +Tão desassombrado ia o espirito de Simão, que algumas vezes lhe esvoaçou +nos labios ura sorriso, desafiado pela philosophia do povo, ácerca da +forca. + +Recolhido ao seu quarto, foi intimado para appellar dentro do prazo +legal. Respondeu que não appellava, que estava contente da sua sorte, e +de boas avenças com a justiça. + +Perguntou por Marianna, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar. +Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a +via delirante a fallar em forca, e a pedir que a matassem primeiro. +Agudissima foi então a dôr do academico ao comprehender, como se +instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Marianna o amava até +morrer. Por momentos se lhe esvaiu do coração a imagem de Thereza, se é +possivel assim pensal-o. Vêl-a-ia por ventura como um anjo redemido em +serena contemplação do seu creador; e veria Marianna como o symbolo da +tortura, morrendo a pedaços, sem instantes de amor remunerado que lhe +dessem a gloria do martyrio. Uma, morrendo amada; outra, agonisando, sem +ter ouvido a palavra «amor» dos labios que escassamente balbuciavam +frias palavras de gratidão. + +E chorou então aquelle homem de ferro. Chorou lagrimas que valiam bem as +amarguras de Marianna. + +--Cuide de sua filha, senhor Cruz!--disse Simão com fervente supplica ao +ferrador.--Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. Vá consolar essa +creatura, que nasceu debaixo da minha má estrella. Tire-a de Vizeu: +leve-a para sua casa. Salve-a, para que n'este mundo fiquem duas irmãs +que me chorem. Os favores que me tem feito, já agora dispensa-os a +brevidade da minha vida. D'aqui a dias mandam-me recolher ao oratorio: +bom será que sua filha ignore. + +De volta, João da Cruz achou a filha prostrada no pavimento, ferida no +rosto, chorando e rindo, demente em summa. Levou-a amarrada para sua +casa, e deixou a cargo d'outra pessoa a sustentação do condemnado. + +Terribilissimas foram então as horas solitarias do infeliz. Até áquelle +dia, Marianna, bem quista do carcereiro e protegida pela amiga de D. +Rita Preciosa, tinha franca entrada no carcere a toda a hora do dia, e +raras horas deixava sósinho o prêso. Costurava, em quanto elle escrevia, +ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simão estava no leito +doente ou prostrado, Marianna, que tivera alguns principios de escripta, +sentava-se á banca, e escrevia cem vezes o nome _Simão_, que muitas +vezes as lagrimas diliam. E isto assim, durante sete mezes, sem nunca +proferir nem ouvir a palavra amor. Isto assim, depois das vigilias +nocturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa, +onde ia visitar o pae a deshoras. + +Nunca mais o prêso, na perspectiva da forca, viu entrar aquella doce +creatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar medido e +calculado para que as honras da asphyxia as gozasse o cordel do +patibulo. Nunca mais! + +E, quando elle avocava a imagem de Thereza, um capricho dos olhos +quebrantados lhe affigurava a visão de Marianna ao par da outra. E +lagrimosas via as duas. Saltava então do leito, fincava os dedos nos +espêssos ferros da janella, e pensava em partir o craneo contra as +grades. + +Não o sostinha a esperança na terra nem no ceu. Raio de luz divina +jámais penetrou no seu ergastulo. O anjo da piedade incarnára n'aquella +creatura celestial, que enlouquecêra, ou voltara para o ceu com o +espirito d'ella. O que o salvava do suicidio não era, pois, esperança em +Deus, nem nos homens: era este pensamento: «A final, _covarde_! Que +bravura é morrer quando não ha esperança de vida!? A forca é um +triumpho, quando se encontra ao cabo do caminho da honra!» + + + + +III. + + +E Thereza? + + +Perguntam a tempo, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me +arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte. + +Esquecido, não. Muito ha que me reluz e voeja, alada como o ideal +cherubim dos santos, n'esta minha quasi escuridade[5], aquella ave do +ceu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que +ella deixou na terra. Mais lagrimas que sangue deixaste, ó filha da +amargura! Flores são tuas lagrimas, e do ceu me diz se os perfumes +d'ellas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita +devota, que morre canonisada, e cujo cheiro de santidade não passa do +olfacto hypocrita ou estupido dos mortaes. + +Thereza Clementina bem a viram transportada da escadaria do templo, onde +cabira, á liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu +defronte de si uma criada, que lhe dizia banaes e frias expressões de +allivio. Se alguma criada de seu pae lhe era amiga, de certo não +aquella, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para +a expansão em gritos restava á affligida menina. + +Perguntava-se a si mesma Thereza se aquella horrorosa situação, seria um +sonho! Sentia-se de novo fallecer de forças, e voltava á vida, sacudida +pela consciencia da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a +respirar, chorando com ella, e dizendo-lhe: + +--Póde fallar, menina, que ninguem nos segue. + +--Ninguem?! + +--As suas primas ficaram: apenas vem os dois lacaios. + +--E meu pae não? + +--Não, fidalga... Póde chorar e fallar á sua vontade. + +--E eu vou para o Porto? + +--Vamos, sim, minha senhora. + +--E tu viste tudo como foi, Constança? + +--Desgraçadamente vi.... + +--Como foi? conta-me tudo. + +--A menina bem sabe que seu primo morreu. + +--Morreu?! Vi-o cahir quasi aos meus pés; mas.... + +--Morreu logo, e depois quizeram os criados, á voz de seu pae, prender o +senhor Simão; mas elle com outra pistola.... + +--E fugiu?--atalhou Thereza com vehemencia e alegria. + +--A final foi elle que se deu á prisão. + +--Está prêso?! + +E suffocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras +confortadoras de Constança. + +Serenado algum tanto o violento accesso de gemidos e choro, Thereza +suggeriu á criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem +onde pousassem, para ella ir a Vizeu dar o ultimo adeus a Simão. + +A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos +perigos que ia accumular á desgraça do seu amante, e animando-a com a +esperança de livrar-se Simão do crime, com a influencia do pae, apesar +da perseguição do fidalgo. + +Calaram lentamente estas razões no espirito de Thereza, apesar dos +estorvos do coração. + +Chorosa, doente, a revezes desfallecida, foi Thereza vencendo a +distancia que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de +jornada. + +A prelada já estava sabedora dos successos, por emissarios que se +adiantaram ao moroso caminhar da liteira. + +Foi Thereza recebida com brandura por sua tia, posto que as +recommendações de Thadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa, e +absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse. + +Ouviu a prelada da bôca de sua sobrinha a fiel historia dos +acontecimentos, e mostrou-lhe uma a uma as cartas de Simão Botelho. +Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lagrimas de mulher ao +fogo da austeridade religiosa, fallou e aconselhou como freira, e freira +que ciliciava o corpo com as rozetas, e o coração com as privações +tormentosas de quarenta annos. + +Thereza carecia de forças para a rebellião. Deixou a sua tia a santa +vaidade de exorcismar o demonio das paixões, e deu um sorriso ao anjo da +morte, que, de permeio ao seu amor e á esperança, lhe interpunha a aza +negra, que tão de luz refulgente rebrilha ás vezes em corações +infelizes. + +Quiz Thereza escrever. + +--A quem, minha filha?--perguntou a prelada. + +Não respondeu Thereza. + +--Escrever-lhe para que?--tornou a religiosa--Cuidas tu, menina, que as +tuas cartas lhe chegam á mão? Que vaes tu fazer senão redobrar a ira de +teu pae contra ti e contra o infeliz prêso! Se o amas, como creio, +apesar de tudo, cuida em salval-o. Se não ouves a minha razão, finge-te +esquecida. Se pódes violentar a tua dôr, dissimula, faz muito por que a +teu pae chegue a noticia de que lhe serás obediente em tudo, se elle +tiver piedade do teu pobre amigo. + +Não recalcitrou Thereza. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe +que a envolvesse a ella, e ao seu amor, e á sua esperança, de todo, na +negrura de suas azas. + +De mez a mez recebia a abbadessa de Monchique uma carta de seu primo. +Eram estas cartas um respiradouro da vingança. Em todas dizia o velho +que o assassino iria ao patibulo irremediavelmente. A sobrinha não via +as cartas; mas reparava nas lagrimas da compassiva freira. + +A debil compleição de Thereza deprecia acceleradamente. A sciencia +condemnou-a a morte breve. D'isto foi informado Thadeu de Albuquerque, e +respondeu: «Que a não desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria +mais tranquillo, e com a sua honra sem mancha.» Era assim immaculada a +honra do fidalgo de Vizeu!... a HONRA, que dizem proceder em linha recta +da virtude de Socrates, da virtude de Jesus Christo, e da virtude de +milhões de martyres, que se deram ás garras das feras, quando predicavam +a caridade e o perdão aos homens! + +Quantas caricias inventou a sympathia e a piedade, todos, por ministerio +das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o +ardor, que consumia rapidamente a reclusa. Inutil tudo. Thereza +reconhecia com lagrimas a compaixão, e ao mesmo tempo alegrava-se, +tirando das caricias a certeza de que os médicos a julgavam incuravel. + +Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento +dos Remedios de Lamego lhe dissera que Simão tinha sido condemnado á +morte. + +Thereza estremeceu e murmurou, sem forças já para a exclamação: + +--E eu vivo ainda! + +Depois orou, e chorou; mas os habitos da sua vida em paroxismos +continuaram inalteraveis. + +Perguntou á senhora, que lhe dera a noticia, se a sua amiga do convento +dos Remedios lhe faria a esmola de fazer chegar ás mãos de Simão uma +carta. Promptificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada. +Entendeu esta religiosa que o derradeiro colloquio entre dous moribundos +não podia damnifical-os na vida temporal nem na vida eterna. + +Esta é a carta, que leu Simão, quinze dias depois do seu julgamento: + +«Simão, meu esposo. Sei tudo... Está comnosco a morte. Olha que te +escrevo sem lagrimas. A minha agonia começou ha sete mezes. Deus é bom, +que me poupou ao crime. Ouvi a noticia da tua proxima morte, e então +soube por que estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim, +Simão!.. Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos +de felicidade, e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nossos +innocentes desejos!... Porque não merecemos nós o que tanta gente +tem!... Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crêl-o! A eternidade +apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz, que me guiava +de ti para a fé. Mas não póde findar assim o nosso destino. Vê se podes +segurar o ultimo fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-hemos +n'um outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu +rezo, supplíco; mas desfalleço na fé, quando me lembram as ultimas +agonias do teu martyrio. As minhas são suaves, quasi que as não sinto. +Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranquillo. O peor é a +saudade, saudade d'aquellas esperanças que tu achavas no meu coração +adivinhando as tuas. Não importa, se nada ha além d'esta vida. Ao menos, +morrer é esquecer. Se tu podesses viver agora, de que te serviria? Eu +tambem estou condemnada, e sem remedio. Segue-me, Simão! não tenhas +saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser +feliz se me não tivesses encontrado no caminho por onde te levei á +morte... E que morte, meu Deus!... Aceita-a! não te arrependas. Se houve +crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angustias que tens de soffrer +no carcere... e nos ultimos dias, e na presença da...» + +Thereza ia escrever uma palavra, quando a penna lhe cahiu da mão, e uma +convulsão lhe vibrou todo o corpo por largo espaço. Não escreveu a +palavra; mas a ideia de _forca_ parou-lhe a vida. A freira entrou na +cella a pedir-lhe a carta, porque o correio ia partir. Thereza, +indicando-lh'a, disse: + +--Leia, se quizer, e feche-a, por caridade, que eu não posso. + +Nos tres dias seguintes Thereza não sahiu do leito. A cada hora, as +religiosas assistentes esperavam que ella fechasse os olhos. + +--Custa muito morrer!--dizia algumas vezes a enferma. + +Não faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o espírito do mundo. + +Thereza ouvia-os, e dizia com ancia: + +--Mas a esperança do ceu, sem elle!... que é o ceu, meu Deus? + +E o apostolico capellão do mosteiro não sabia dizer se os bens do ceu +tinham commum com os do mundo as delicias que falsamente na terra se +chamam assim. + +Aquellas subtilezas espirituaes, que vem com algumas especies de tisica, +assim á maneira dos ultimos lampejos da vital flamma, tinha-as a +enferma, quando acontecia fallarem-lhe as religiosas na bemaventurança. +Ás vezes, se o capellão, convidado pela lucidez de Thereza, entrava os +dominios da philosophia, tratando como problema a immortalidade da alma, +a inculta senhora argumentava em breves termos, mas com razões tão +claras a favor da união eterna das almas, já d'este mundo esposas, que o +padre ficava em duvida se seria heretico contestar uma clausula não +inscripta em algum dos quatro evangelhos. + +Maravilhava-se já a medicina da pertinacia d'aquella vida. Tinha a +abbadessa escripto a seu primo Thadeu, apressurando-o a ir vêr o anjo ao +despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade, e por ventura de amor +paternal, deliberou tirar do convento a filha na esperança de salval-a +ainda. Uma forte razão accrescia áquella: era a mudança do condemnado +para os carceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao +Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava á +doente esta carta de Simão: + +«Não me fujas ainda, Thereza. Já não vejo a forca, nem a morte. Meu pae +protege-me, e a salvação é possivel. Prende ao coração os ultimos fios +da tua vida. Prolonga a tua agonia, em quanto eu te disser que espero. +Ámanhã vou para as cadêas do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou +commutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda +a parte ha ceu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a +pedra do sepulcro é que nunca se levanta. Vive, Thereza, vive! Ha dias +lembrava-me que as tuas lagrimas lavariam da minha face as nódoas do +sangue do enforcado. Esse pesadêlo atroz passou. Agora, n'este inferno +respira-se; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta. +Já fito os olhos no ceu, e reconheço a providencia dos infelizes. Hontem +vi as nossas estrellas, aquellas dos nossos segredos nas noites da +ausencia. Volvi á vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não +morras, filha da minha alma!» + +Ia alta a noite, quando Thereza, sentada no seu leito, leu esta carta. +Chamou a criada para ajudal-a a vestir. Mandou abrir a janella do seu +quarto, e encostou a face ás rexas de ferro. Esta janella olhava para o +mar; e o mar era n'essa noite uma immensa flamma de prata; e a lua +esplendidissima eclipsava o fulgor d'umas estrellas, que Thereza +procurava no ceu. + +--São aquellas!--exclamou ella. + +--Aquellas quê, minha senhora?--disse Constança. + +--As minhas estrellas!... pallidas como eu... A vida! ai! a +vida!--clamou ella, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos +cadavericas--Quero viver! Deixai-me viver, ó Senhor! + +--Ha de viver, menina! ha de viver, que Deus é piedoso!--disse a +criada--mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande +mal. + +--Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver... Não vejo o ceu ha tanto +tempo! Sinto-me resuscitar aqui, Constança! Porque não tenho eu +respirado todas as noites este ar?! Eu poderei viver alguns annos? +poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito á minha Virgem Santissima! +Vamos orar ambas!... Vamos, que o Simão não morre... O meu Simão vive e +quer que eu viva. Está no Porto amanhã; e talvez já esteja... + +--Quem, minha senhora?! + +--Simão, o Simão vem para o Porto. + +A criada julgou que sua ama delirava; mas não a contrariou. + +--Teve carta d'elle a fidalga?--tornou ella, cuidando que assim lhe +alimentava aquelle instante de febril contentamento. + +--Tive... queres ouvir?... eu leio... + +E leu a carta, com grande pasmo de Constança, que se convenceu. + +Agora vamos rezar, sim?... Tu não és inimiga d'elle, não? Olha, +Constança, se eu casar com elle, tu vaes para a nossa companhia. Verás +como és feliz. Queres ir, não queres? + +--Sim, minha senhora, vou; mas elle conseguirá livrar-se da morte? + +--Livra; tu verás que livra; o pae d'elle ha de livral-o... e a Virgem +Santissima é que nos ha de unir. Mas se eu morro... se eu morro, meu +Deus! + +E com as mãos convuísamente enlaçadas sobre o seio, Thereza archejava em +pranto. + +--Se eu não tenho já forças!... todos dizem que eu morro, e o medico já +nem me receita!... Então melhor me fôra ter acabado antes d'esta hora! +Morrer com esperanças, ó mãe de Deus!... + +E ajoelhou ante o retabulo devoto, que trouxera do seu quarto de Vizeu, +ao qual sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os +olhos das duas senhoras moribundas tinham fixado os seus ultimos raios +de luz. + + + + +IV. + + +Annunciára-se Thadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia +seguinte dos anteriores successos. + +Sua prima, primeira senhora que lhe sahiu ao locutorio, vinha enxugando +lagrimas de alegria. + +--Não cuide que eu choro de afflicta, meu primo--disse ella--O nosso +anjo, se Deus quizer, pode salvar-se. Logo de manhã a vi a passear por +seu pé nos dormitorios. Que differença de semblante ella tem hoje! Isto, +meu primo, é milagre de duas santas, que temos inteiras na claustra, e +com as quaes algumas perfeitas creaturas d'esta casa se apegaram. Se as +melhoras continuarem assim, temos Thereza; o ceu consente que esteja +entre nós aquelle anjo mais alguns annos... + +--Muito folgo com o que me diz, minha boa prima--atalhou o fidalgo--A +minha resolução é leval-a já para Vizeu, e lá se restabelecerá com os +ares patrios, que são muito mais sadios que os do Porto. + +--É ainda cêdo para tão longa e custosa jornada, meu primo. Não vá o +senhor cuidar que ella está capaz de se metter ao caminho. Lembre-se que +ainda hontem pensamos em encontral-a hoje morta. Deixe-a estar mais +alguns mezes; e depois não digo que a não leve; mas por em quanto não +consinto semelhante imprudencia. + +--Maior imprudencia--replicou o velho--é conserval-a no Porto, onde a +estas horas deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez não +saiba a prima?... Pois é verdade: o patife do corregedor sahiu a campo +em defeza d'elle, e conseguiu que o tribunal da Relação lhe aceitasse a +appellação da sentença, passado o prazo da lei; e, não contente com +isto, fez que o filho fosse removido para as cadêas do Porto. Eu agora +trabalho para que a sentença seja confirmada, e espero conseguil-o; mas, +em quanto o assassino aqui estiver, não quero que minha filha esteja no +Porto. + +--O primo é pae, e eu sou apenas uma parenta---disse a +abbadessa--cumpra-se a sua vontade. Quer vêr a menina, não é assim? + +--Quero, se é possível. + +--Pois bem, em quanto eu vou chamal-a, queira entrar na primeira grade á +sua mão direita, que Thereza lá vai ter. + +Avisada Thereza de que seu pae a esperava, instantaneamente a côr sadia, +que alegrava as senhoras religiosas, se demudou na lividez costumada. +Quiz a tia, vendo-a assim, que ella não sahisse do seu quarto, e +encarregava-se de espaçar a visita do pae. + +--Tem de ser--disse Thereza--Eu vou, minha tia. + +O pae, ao vêl-a, estremeceu e enfiou. Esperava mudança, mas não tamanha. +Pensou que a não conheceria, sem o prevenirem de que ia vêr sua filha. + +--Como eu te encontro, Thereza!--exclamou elle commovido--Por que me não +disseste ha mais tempo o teu estado? + +Thereza sorriu-se, e disse: + +--Eu não estou tão mal como as minhas amigas imaginam. + +--Terás tu forças para ir comigo para Vizeu? + +--Não, meu pae; não tenho mesmo forças para lhe dizer em poucas palavras +que não torno a Vizeu. + +--Porque não?! Se a tua saude depender d'isso!... + +--A minha saude depende do contrario. Aqui viverei ou morrerei. + +--Não é tanto assim, Thereza--replicou Thadeu com simulada brandura--Se +eu entender que estes ares são nocivos á tua saude, has de ir, porque é +obrigação minha conduzir e corrigir a tua má sina. + +--Está corrigida, meu pae. A morte emenda todos os erros da vida. + +--Bem sei: mas eu quero-te viva, e portanto recobra forças para o +caminho. Logo que tiveres meio dia de jornada, verás como a saude volta +como por milagre. + +--Não vou, meu pae. + +--Não vaes?!--exclamou irritado o velho, lançando ás grades as mãos +trementes de ira. + +--Separam-nos esses ferros a que meu pae se encosta, e para sempre nos +separam. + +--E as leis? cuidas tu que eu não tenho direitos legitimos para te +obrigar a sahir do convento? Não sabes que tens apenas dezoito annos? + +--Sei que tenho dezoito annos; as leis não sei quaes são, nem me +incommoda a minha ignorancia. Se póde ser que mão violenta venha +arrancar-me d'aqui, convença-se meu pae de que essa mão ha de encontrar +um cadaver. Depois o que quizerem de mim. Em quanto, porém, eu podér +dizer que não vou, juro-lhe que não vou, meu pae. + +--Sei o que é!--bramiu o velho--Já sabes que o assassino está no Porto? + +--Sei, sim, senhor. + +--Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda... + +--Meu pae--interrompeu Thereza--não posso continuar a ouvil-o, porque me +sinto mal. Dê-me licença... e vingue-se como podér. A minha gloria +n'este longo martyrio seria uma forca levantada a par da do assassino. + +Thereza sahiu da grade, deu alguns passos na direcção da sua cella, e +encostou-se esvaída á parede. Correram a amparal-a sua tia e criada; mas +ella, afastando-as suavemente de si, murmurou: + +--Não é preciso... Estou boa... Estes golpes dão vida, minha tia. + +E caminhou sósinha a passos vacillantes. + +Thadeu batia á porta do mosteiro com irrisorio enfurecimento pancadas, +umas após outras, com grande mêdo da porteira e outras madres, +espantadas do insolito desproposito. + +--Que é isso, primo?--disse a prelada com severidade. + +--Quero cá fóra Thereza. + +--Como fóra? Quem ha de lançal-a fóra?! + +--A senhora, que não póde aqui reter uma filha contra a vontade de seu +pae. + +--Isso assim é; mas tenha prudencia, primo. + +--Não ha prudencia, nem meia prudencia. Quero minha filha cá fóra. + +--Pois ella não quer ir? + +--Não, senhora. + +--Então espere que por bons modos a convençamos a sahir, porque não +havemos trazer-lh'a a rastos. + +--Eu vou buscal-a, sendo preciso--redarguiu em crescente +furia.--Abram-me estas portas, que eu a trarei! + +--Estas portas não se abrem assim, meu primo, sem licença superior. A +Regra do mosteiro não póde ser quebrantada para servir uma paixão +rancorosa. Tranquillise-se, senhor! Vá descançar d'esse frenesi, e venha +n'outra hora combinar comigo o que fôr digno de todos nós. + +--Tenho entendido!--exclamou o velho, gesticulando contra o ralo do +locutorio--Conspiram todas contra mim! Ora descancem, que eu lhes darei +uma boa lição. Fique a senhora abbadessa sabendo que eu não quero que +minha filha receba mais cartas do matador, percebeu? + +--Eu creio que Thereza nunca recebeu cartas de matadores, nem supponho +que as receba d'ora em diante. + +--Não sei se sabe, nem senão. Eu vigiarei o convento. A criada, que está +com ella, ponham-na fóra, percebeu? + +--Porquê?--redarguiu a prelada com enfado. + +--Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ella nada me tem contado. + +--Se não tinha que lhe dizer, senhor! + +--Não me conte historias, prima! A criada quero vêl-a sahir do convento, +e já! + +--Eu não lhe posso fazer a vontade, porque não faço injustiças. Se v. +s.^a quizer que sua filha tenha outra criada, mande-lh'a; mas a que ella +tem, logo que deixe de a servir, ha muitas senhoras n'esta casa que a +desejam, e ella mesma deseja aqui ficar. + +--Tenho entendido!---bradou elle--querem-me matar! Pois não matam; +primeiro ha de o diabo dar um estoiro! + +Thadeu de Albuquerque sahiu em corcovos do atrio do mosteiro. Era +hedionda aquella raiva que lhe contrahia as faces incorreadas, revendo +suor e sangue aos olhos acovados. + +Apresentou-se ao intendente da policia, pedindo providencias para que se +lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que não solicitava +competentemente taes providencias. Instou para que o carcereiro da cadêa +não deixasse sahir alguma carta de um assassino, vindo da comarca de +Vizeu, por nome Simão Botelho. O intendente disse que não podia, sem +motivos concernentes a devassas, obstar a que o prêso escrevesse a quem +quer que fosse. + +Reduplicada a furia, foi d'ali ao corregedor do Porto, com os mesmos +requerimentos em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de +Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a +velhice sem juizo era coisa tão de riso como de lastima. Esteve então a +pique de perder-se a cabeça de Thadeu de Albuquerque. Andava e desandava +as ruas do Porto, sem atinar com uma sahida digna da sua prosapia e +vingança. No dia seguinte bateu á porta d'alguns desembargadores, e +achava-os mais inclinados á clemencia, que á justiça, a respeito de +Simão Botelho. Um d'elles, amigo de infancia de D. Rita Preciosa, e +implorado por ella, fallou assim ao sanhudo fidalgo: + +--Em pouco está o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas mortes teria +v. s.^a hoje feito, se alguns adversarios se oppozessem á sua cólera? +Esse infeliz moço, contra quem o senhor solicita desvariadas violencias, +conserva a honra na altura da sua immensa desgraça. Abandonou-o o pae, +deixando-o condemnar á forca; e elle da sua extrema degradação nunca fez +sahir um grito supplicante de misericordia. Um estranho lhe esmolou a +subsistencia de oito mezes de carcere, e elle aceitou a esmola, que era +honra para si e para quem lh'a dava. Hoje fui eu vêr esse desgraçado +filho de uma senhora que conheci no paço, sentada ao lado dos reis. +Achei-o vestido de baetão e panno pedrez. Perguntei-lhe se assim estava +desprovido de fato. Respondeu-me que se vestira á proporção dos seus +meios, e que devia á caridade d'um ferrador aquellas calças e jaqueta. +Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu pae para o vestir decentemente. +Disse-me que não pedia nada a quem consentiu que os delictos de seu +coração e da sua dignidade e do pundonor do seu nome fossem expiados +n'um patibulo. Ha grandeza n'este homem de dezoito annos, senhor +Albuquerque. Se v. s.^a tivesse consentido que sua filha amasse Simão +Botelho Castello-Branco, teria poupado a vida ao homem sem honra que se +lhe atravessou com insultos e offensas corporaes de tal affronta, que +deshonrado ficaria Simão se as não repellisse como homem de alma e +brios. Se v. s.^a se não tivesse opposto ás honestissimas e innocentes +affeições de sua filha, a justiça não teria mandado arvorar uma forca, +nem a vida de seu sobrinho teria sido immolada aos seus caprichos de mau +pae. E se sua filha casasse com o filho do corregedor de Vizeu, pensa +acaso v. s.^a que os seus brasões soffriam desdouro? Não sei de que +seculo data a nobreza do senhor Thadeu de Albuquerque; mas do brasão de +D. Rita Thereza Margarida Preciosa Caldeirão Castello-Branco posso +dar-lhe informações sobre as paginas das mais veridicas e illustres +genealogias do reino. Por parte de seu pae, Simão Botelho tem do melhor +sangue de Traz-os-Montes, e não se temerá de entrar em competencias com +o dos Albuquerques de Vizeu, que não é de certo o dos _Albuquerques +terriveis_ de que resa Luiz de Camões... + +Offendido até ao amago pela derradeira ironia, Thadeu ergueu-se de +impeto, tomou o chapéo e a enorme bengala de castão d'ouro, e fez a +cortezia da despedida. + +--São amargas as verdades, não é assim?--disse-lhe, sorrindo, o +desembargador Mourão Mosqueira. + +--V. ex.^a lá sabe o que diz, e eu cá sei no que hei de ficar--respondeu +com tom ironico o fidalgo, alanceado na sua honra, e na dos seus quinze +avós. + +O desembargador retorquiu: + +--Fique no que quizer; mas vá na certeza, se isso lhe serve d'alguma +coisa, que Simão Botelho não vai á forca. + +--Veremos...--resmoneou o velho. + + + + +V. + + +São treze dias corridos do mez de Março de 1805. + +Está Simão n'um quarto de malta das cadêas da Relação. Um catre de +táboas, um colchão de embarque, uma banca e cadeira de pinho, e um +pequeno pacote de roupa, collocado no logar do travesseiro, são a sua +mobilia. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contém as cartas +de Thereza, ramilhetes sêccos, os seus manuscriptos do carcere de Vizeu, +e um avental de Marianna, o ultimo com que ella enxugára lagrimas, e +arrancára de si no primeiro instante de demencia. + +Simão relê as cartas de Thereza, abre os envoltorios de papel que +encerram as flôres resequidas, contempla o avental de linho, procurando +os visiveis vestigios das lagrimas. Depois encosta a face e o peito aos +ferros da sua janella, e avista os horisontes boleados pelas serras de +Vallongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pittorescas de Gaya, do +Candal, de Oliveira, e do mosteiro da serra do Pilar. É um dia lindo. +Reflectem-se do azul do ceu os mil matizes da primavera. Tem aromas o +ar, e a viração, fugitiva dos jardins, derrama no ether as urnas que +roubou aos canteiros. Aquella indefinida alegria, que parece reluzir nas +legiões de espiritos, que se geram ao sol de Março, rejubila a natureza, +que toda pompas de luz e flôres se está namorando do calor que a vai +fecundando. + +Dia de amor e de esperanças era aquelle que o Senhor mandava á choça +encravada na garganta da serra, ao palacio esplendoroso que reverberava +ao sol os seus espiraculos, ao opulento que passeava as suas molles +equipagens, bafejado pelo respiro acre das çarças, e ao mendigo que +desentorpecia os membros encostado ás columnas dos templos. + +E Simão Botelho, fugindo a claridade da luz, e o voejar das aves, +meditando, chorava e escrevia assim as suas meditações: + +«O pão do trabalho de cada dia, e o teu seio para repousar uma hora a +face, pura de manchas. Não pedi mais ao ceu. + +Achei-me homem aos dezeseis annos. Vi a virtude á luz do teu amor. +Cuidei que era santa a paixão que absorvia todas as outras, ou as +depurava com o seu fogo sagrado. + +Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo, que eu não +possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Thereza, se os meus +labios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quiz +eu fazer do meu amor o teu opprobrio. + +Nunca, Thereza! Nunca, ó mundo que me condemnas! + +Se teu pae quizesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer, +beijar-lh'os-ia. Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser +feliz com outro homem, morreria, Thereza! + +Mas tu eras sósinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz não devia +sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insania do crime +aturde a consciencia; não a minha, que se não temia das escadas da +forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da +suffocação. + +Eu esperava a cada hora o chamamento para o oratorio, e dizia comigo: +Fallarei a Jesus Christo. + +Sem pavor, premeditava nas setenta horas d'essa agonia moral, e antevia +consolações que o crime não ousa esperar sem injuria da justiça de Deus. + +Mas chorava por ti, Thereza! O travor do meu calix tinha sobre a sua +amargura as mil amarguras das tuas lagrimas. + +Gemias aos meus ouvidos, martyr! Vêr-me-ias sacudido nas convulsões da +morte, em teus delirios. A mesma morte tem terror da suprema desgraça. +Tarde morrerias. A minha imagem, em vez de te acenar com a sua palma de +martyrio, te seria um fantasma levantado das táboas d'um cadafalso. + +Que morte a tua, ó minha santa amiga!» + +E proseguiu até ao momento em que João da Cruz, com ordem do intendente +geral da policia, entrou no quarto. + +--Aqui!--exclamou Simão, abraçando-o--E Marianna? deixou-a sósinha?! +morta, talvez?! + +--Nem sósinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre está atraz da +porta... Marianna voltou ao seu juizo. + +--Falla a verdade, senhor João? + +--Podéra mentir!... Aquillo foi coisa de bruxaria em quanto a mim... +Sangrias, sedenhos, agua fria na cabeça, e exorcismos do missionario, +não lhe digo nada, a rapariga está escorreita, e assim que tiver um +todonada de forças bota-se ao caminho. + +--Bemdito seja Deus!--exclamou Simão. + +--_Amen_--accrescentou o ferrador--Então que arranjo é este de casa? Que +breca de tarimba é esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e alguma coisa +em que um christão se possa sentar. + +--Isto assim está excellente. + +--Bem vejo... E de barriga? como vamos nós de barriga? + +--Ainda tenho dinheiro, meu amigo. + +--Ha de ter muito, não tem duvida: mas eu tenho mais, e v. s.^a tem +ordem franca. Veja lá esse papel. + +Simão leu uma carta de D. Rita Preciosa, escripta ao ferrador, em que o +authorisava a soccorrer seu filho com as necessarias despezas, +promptificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas +com a sua assignatura. + +--É justo--disse Simão, restituindo a carta--porque eu devo ter uma +legitima. + +--Então já vê que não tem mais que pedir por bôca. Eu vou comprar-lhe +arranjos... + +--Abra-me o seu nobre coração para outro serviço mais valioso--atalhou o +prêso. + +--Diga lá, fidalgo. + +Simão pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Thereza de +Albuquerque. + +--O berzabum parece-me que as arma!--disse o ferrador--Venha de lá a +carta. O pae d'ella está cá, já sabia? + +--Não. + +--Pois está; e, se o diabo o traz á minha beira, não sei se lhe darei +com a cabeça n'uma esquina. Já me lembrou de o esperar no caminho, e +pendural-o pelo gasnete no galho d'um sobreiro... A carta tem resposta? + +--Se lh'a derem, meu bom amigo. + +Chegou o ferrador a Monehique, a tempo que um official de justiça, dois +medicos, e Thadeu de Albuquerque entravam no páteo do convento. + +Fallou o aguazil á prelada, exigindo em nome do juiz de fóra, que dois +medicos entrassem no convento a examinar a doente D. Thereza Clementina +de Albuquerque, a requerimento de seu pae. + +Perguntou a prelada aos medicos se elles tinham a necessaria licença +ecclesiastica para entrarem em Monchique. Á resposta negativa redarguiu +a abbadessa que as portas do convento não se abriam. Disseram os medicos +de Thadeu de Albuquerque que era aquelle o estylo dos mosteiros, e não +houve que redarguir á rigorosa prelada. + +Sahiram, e o ferrador só então reflectiu no modo de entregar a carta, A +primeira ideia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse: + +--Ó senhora freira! + +--Que quer vocemecê?--disse a prelada. + +--A senhora faz favor de dizer á senhora D. Therezinha de Vizeu, que +está aqui o pae d'aquella rapariga da aldeia, que ella sabe? + +--E quem é vocemecê? + +--Sou o pae da tal rapariga que ella sabe. + +--Já sei!--exclamou de dentro a voz de Thereza, correndo ao locutorio. + +A prelada retirou-se a um lado, e disse: + +--Vê lá o que fazes, minha filha... + +--A sua filha escreveu-me?--disse Thereza a João da Cruz. + +--Sim, senhora, aqui está a carta. + +E depositou na roda a carta, em que a abbadessa reparou, e disse +sorrindo: + +--Muito engenhoso é o amor, Therezinha... Permitta Deus que as noticias +da rapariga da aldeia te alegrem o coração; mas olha, filhinha, não +cuides que a tua velha tia é menos esperta que o _pae da rapariga da +aldeia_. + +Thereza respondeu com beijos ás jovialidades carinhosas da santa +senhora, e sumiu-se a lêr a carta, e a responder-lhe. Entregando a +resposta, disse ella ao ferrador: + +--Não vê ahi sentada n'aquella escadinha uma pobre? + +--Vejo, sim, senhora, e conheço-a. Como diabo veio aqui parar esta +mulher? Cuidei que depois da esfrega, que lhe deu o hortelão, a +pobresita não tinha pernas que a cá trouxessem! A mulher pelos modos tem +fibras d'aquella casta! + +--Falle baixo--tornou Thereza--Pois olhe... quando trouxer as cartas, +entregue-lh'as a ella, sim? Eu já a mandei á cadêa; mas não a deixaram +lá entrar. + +--Bem está, e o arranjo não é mau assim. Fique com Deus, menina. + +Esta boa nova alegrou Simão. A Providencia divina apiedára-se d'elle +n'aquelle dia. O restaurar-se o juizo de Marianna, e a possibilidade de +corresponder-se com Thereza, eram as maximas alegrias, que podiam baixar +do ceu ao seu cerrado infortunio. + +Exaltára-se Simão em graças a Deus, na presença de João da Cruz, que +arrumava no quarto uns moveis que comprára em segunda mão, quando este, +suspendendo o trabalho, exclamou: + +--Então vou-lhe dizer outra coisa, que não tinha tenção de lhe dizer, +para o apanhar de _súpeto_. + +--Que é? + +--A minha Marianna veio comigo, e ficou na estalagem, porque não se +podia bolir com dôres; mas ámanhã ella cá está para lhe fazer a cozinha +e varrer a casa. + +Simão, reconcentrando o indefinivel sentimento que esta noticia lhe +causára, disse com melancolica pausa: + +--É pois certo que a minha má estrella arrasta a sua desgraçada filha a +todos os meus abysmos! Pobre anjo de caridade, que digna tu és do ceu! + +--Que está o senhor ahi a prégar?--interrompeu o ferrador--Parece que +ficou a modo de tristonho com a noticia!... + +--Senhor João--tornou solemnemente o prêso--não deixe aqui a sua querida +filha, Deixe-m'a vêr, traga-a comsigo uma vez a esta casa; mas não a +deixe cá, porque eu não posso tolher o destino de Marianna. Como ha de +ella viver no Porto, sósinha, sem conhecer ninguem, bella como ella é, e +perseguida como tem de ser!?... + +--Perseguida! _Tó carocha_! Não que ella é mesmo de se lhe dar de que a +persigam!... Que vão para lá, mas que deixem as ventas em casa. Meu +amigo, as mulheres são como as pêras verdes; um homem apalpa-as, e, se o +dedo acha duro, deixa-as, e não as come. É como é. A rapariga sáe á mãe. +Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentando, dei-lhe um +dia um beliscão n'uma perna. E vai ella põe-se direita comigo, e deu-me +dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Marianna!... +aquillo é da pelle de satanaz! Pergunte o senhor, se algum dia fallar +com aquelle fidalguinho Mendes de Vizeu, a troçada que elle levou com as +rédeas da egua, só por lhe bolir na chinela, quando ella estava em cima +da burra! + +Simão sorriu ao rasgado panegyrico da bravura da moça, e orgulhou-se +secretamente dos brandos affagos com que o ella desvelára em oito mezes +de quasi continuada convivencia. + +--E vocemecê ha de privar-se da companhia de sua filha?--insistiu o +prêso. + +--Eu lá me arranjarei como podér. Tenho um cunhada velha, e levo-a para +mim para me arranjar o caldo. E v. s.^a pouco tempo aqui estará.... O +senhor corregedor lá anda a tratar de o pôr na rua, e que o senhor sáe +cá para mim são favas contadas. E assim com'assim, vou dizer-lhe tudo +d'uma feita: a rapariga, se eu a não deixasse vir para o Porto, dava um +estoiro como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ella +tem paixão d'alma por v. s.^a isso é tão certo como eu ser; João. É a +sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixál-a, que pelo senhor Simão não +lhe ha de vir mal, ou então já não ha honra n'este mundo. + +Simão lançou-se aos braços do ferrador, exclamando: + +--Podésse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo! + +--Qual marido!...--disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras +lagrimas que Simão lhe vira--Eu nunca me lembrei d'isso, nem ella!... Eu +sei que sou um ferrador, e ella sabe que póde ser sua criada, e mais +nada, senhor Simão; mas, sabe que mais, eu não desejo que os meus amigos +sejam desgraçados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre +rapariga! Não fallemos n'isto, que eu por milagre choro; mas quando pego +a chorar sou um chafariz... Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a +commoda ali; duas cadeiras d'este lado, e duas d'aquelle. A barra acolá. +O bahu debaixo da cama. A bacia e a bilha da agua sobre esta coisa, que +não sei como se chama. Os lençoes e o mais bragal tem-os lá a rapariga. +Ámanhã é que o quarto ha de ficar que nem uma capella. Olhe que a +Marianna já me disse que comprasse duas aquellas... como se chamam +aquellas invasilhas de pôr ramos? + +--Jarras. + +--É como diz, duas jarras para flôres; mas eu não sei onde se vende +isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça ha de cuidar que me não +deixam sahir da cadêa. Ainda lhe não disse que não me deixaram cá entrar +hontem á tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua mãe para um +senhor desembargador, fui onde a elle, e hoje de manhã já lá tinha na +estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. Até logo. + + + + +VI. + + +Um incidente agora me occorre, não muito concertado com o seguimento da +historia, mas a proposito vindo para demonstrar uma face da indole do +ex-corregedor de Vizeu, já então exonerado do cargo. + +Sabido é que Manoel Botelho, o primogenito, voltando a frequentar +mathematicas em Coimbra, fugira d'ali para Hespanha com uma dama desleal +a seu marido, estudante açoriano que cursava medicina. + +Um anno demorára na Corunha Manoel Botelho com a fugitiva, +alimentando-se dos recursos que sua mãe, extremosa por elle, lhe +remettia vendendo a pouco e pouco as suas joias, e privando as filhas +dos adornos proprios dos annos e da qualidade. + +Seccaram-se estas fontes, e não restavam outras. D. Rita disse a final +ao filho que deixára de soccorrer Simão por não ter meios; e agora das +escassas economias que fazia, nada podia enviar-lhe, porque estava em +obrigação de pagar os alimentos de Simão á pessoa que por compaixão +lh'os déra em Vizeu, e lh'os estava dando no Porto. Ajuntava ella, para +consolação do filho, que viesse elle para Villa Real, e trouxesse +comsigo a infeliz senhora; que fosse elle para casa, e a deixasse a ella +n'uma estalagem até se lhe arranjar habitação; que o ensejo era +opportuno, por estar na quinta de Montezellos o pae, quasi divorciado da +familia. + +Voltou pelo Minho Manoel Botelho, e chegou com a dama ao Porto quinze +dias depois que Simão entrára no carcere. + +Já n'outro ponto deixamos dito que nunca os dois irmãos se deram nem +estimaram; mas o infortunio de Simão remia as culpas do genio fatal que +o orphanára de pae e mãe, e só da irmã Rita lhe deixára uma lembrança +saudosa. + +Foi Manoel á cadêa, e abrindo os braços ao irmão, teve um glacial +acolhimento. + +Perguntou-lhe Manoel a historia do seu desastre. + +--Consta do processo--respondeu Simão. + +--E tem esperanças de liberdade?--replicou Manoel. + +--Não penso n'isso. + +--Eu pouco posso offerecer-lhe, porque vou para casa forçado pela falta +de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei comsigo da minha. + +--Não preciso nada. Esmolas só as recebo d'aquella mulher. + +Já Manoel tinha reparado em Marianna, e da belleza da moça inferira +conclusões para formar falsos juizos. + +--E quem é esta menina?--tornou Manoel. + +--É um anjo... Não lhe sei dizer mais nada. + +Marianna sorriu-se, e disse: + +--Sou uma criada do senhor Simão, e de v. s.^a + +--É cá do Porto? + +--Não, meu senhor, sou dos arrabaldes de Vizeu. + +--E tem feito sempre companhia a meu mano? + +Simão atalhou assim á resposta balbuciante de Marianna: + +--A sua curiosidade incommoda-me, mano Manoel. + +--Cuidei que não era offensiva--replicou o outro, tomando o +chapéo.--Quer alguma coisa para a mãe? + +--Nada. + +Estando Manoel Botelho, na tarde d'esse dia, fechando as malas para +seguir jornada para Villa Real, foi visitado pelo desembargador Mourão +Mosqueira, e pelo corregedor do crime. + +--Devemos á espionagem da policia--disse o corregedor--a novidade de +estar n'esta estalagem; um filho do meu antigo amigo, condiscipulo e +collega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abraço, e +offerecer o nosso prestimo. Esta senhora é sua esposa?--continuou o +magistrado, reparando na açoriana. + +--Não é minha esposa...--balbuciou Manoel--é... minha irmã. + +--Sua irmã!...--disse Mosqueira--qual das tres? Ha cinco annos que as vi +em Vizeu, e grande mudança fez esta senhora, que não me recordo das suas +feições absolutamente coisa nenhuma! É a senhora D. Anna Amalia? + +--Justamente--disse Manoel. + +--Bella, lhe affirmo eu que está, minha senhora; mas fez-se um rosto +muito outro do que era!... + +--Vieram vêr o infeliz Simão?--atalhou o corregedor. + +--Sim, senhor... viemos vêr meu pobre irmão. + +--Foi um raio que cahiu na familia aquelle rapaz!...-- ajuntou +Mosqueira--mas póde estar na certeza que a sentença não se executa; diga +a sua mãe que m'o ouviu da minha bôca. O meu tribunal está preparado +para lhe minorar a pena em dez annos de degredo para a India, e seu pae, +segundo me disse na passagem para Villa Real, já preparou as coisas na +supplicação e no desembargo do paço, não obstante o morto lá ter +parentes poderosos nas duas instancias. Quizeramos absolvêl-o, e +restituil-o á sua família; mas tanto é impossível. Simão matou, e +confessa soberbamente que matou. Não consente mesmo que se diga que em +defeza o fez. É um doido desgraçado com sentimentos nobilissimos! Chovem +cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz +com uma sem-ceremonia que indigna o animo. + +--E essa menina que foi a causa da desgraça?--perguntou Manoel. + +--Isso é uma heroina!--respondeu o corregedor do crime--Davam-na já por +morta quando Simão chegou aqui. Desde que soube das probabilidades da +commutação da pena, deu um pontapé na morte, e está salva, segundo me +disse o medico. + +--Conhece-a muito bem, minha senhora?--disse o desembargador á dama, +supposta irmã de Manoel. + +--Muito bem--respondeu ella, relanceando os olhos ao amante. + +--Dizem que é formosissima! + +--De certo--acudiu Manoel--é formosissima. + +--Muito bem--disse o corregedor, erguendo-se.--Leve este abraço ao pae, +e diga-lhe que o condiscipulo cá está leal e dedicado como sempre. Eu +tenho de lhe escrever brevemente. + +--E outro abraço a sua virtuosa mãe--acerescentou o desembargador. + +--Vou desconfiado!--disse o Mosqueira ao collega--Manoel Botelho tinha, +ha coisa d'um anno, fugido para Hespanha com uma senhora casada. Aquella +mulher, que vimos, não é irmã d'elle. + +--Pois se nos mentiu é mariola, por nos obrigar a cortejar uma +concubina!... Eu me informarei...--disse o corregedor, offendido no seu +austero pundonor. + +E no proximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no periodo +final: «Tive o gosto de conhecer teu filho Manoel, e uma de tuas filhas; +por elle te mandei um abraço, e por ella te mandaria outro, se fosse +modo ensinarem velhos a meninas bonitas como se dão os abraços nos +paes.» + +Estava já Manoel em casa de seus avós, e cuidava em trastejar uma +modesta casa para a açoriana, auxiliado por sua bondosa e indulgente +mãe. O pae fôra informado da vinda, e dissera que não queria vêr o +filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavallaria seis, +desde que abandonára os estudos, onde estava com licença. + +Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou immediata e +secretamente devassar se em Villa Real estava a senhora que indicava a +carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, em quanto Manoel +Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz +de fóra, e este mandou chamar á sua presença a mulher suspeita, e ouviu +d'ella a sua historia sincera e lagrimosamente contada. Condoeu-se o +juiz, e revelou ao collega as suas averiguações. Domingos Botelho foi a +Villa Real, e hospedou-se em casa do juiz de fóra, onde a senhora foi +novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da provinda +lavrava ordem de prisão para o cadete desertor de cavallaria de +Bragança. + +A açoriana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda +sombra, e apparencias de intenções sinistras. + +--Eu sou pae de Manoel--disse Domingos Botelho--Sei a historia da +senhora. O infame é elle. V. s.^a é a victima. O castigo da senhora +principiou desde o momento em que a sua consciencia lhe disse que +praticou uma acção indigna. Se a consciencia lh'o não disse ainda, ella +lh'o dirá. D'onde é? + +--Da ilha do Fayal--respondeu tremula a dama. + +--Tem familia? + +--Tenho mãe e irmãs. + +--Sua mãe aceital-a-ia se a senhora lhe pedisse abrigo? + +--Creio que sim. + +--Sabe que Manoel é um desertor, que a estas horas está prêso ou +fugitivo? + +--Não sabia... + +--Quer isto dizer que a senhora não tem protecção de alguem. + +A pobre mulher soluçava, abafada por ancias, e debulhada em lagrimas. + +--Porque não vai para sua mãe? + +--Não tenho recursos alguns--respondeu ella. + +--Quer partir hoje mesmo? Á porta da estalagem encontrará uma liteira, e +uma criada para acompanhal-a até ao Porto. Lá entregará uma carta. A +pessoa a quem escrevo lhe cuidará da passagem para Lisboa. Em Lisboa +outra pessoa a levará a bordo da primeira embarcação que sahir para os +Açores. Estamos combinados? Aceita? + +--E beijo as mãos de v. s.^a... Uma desgraçada como eu não podia esperar +tanta caridade. + +Poucas horas depois a esposa do medico.... + +--Que tinha morrido de paixão e vergonha, talvez!--exclama uma leitora +sensivel. + +Não, minha senhora; o estudante continuava n'esse anno a frequentar a +Universidade; e como tinha já vasta instrucção em pathologia, poupou-se +á morte da vergonha, que é uma morte inventada pelo visconde de A. +Garrett no _Fr. Luiz de Souza_, e á morte de paixão, que é outra morte +inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos +maridos a quem o seculo dotou d'uns longes de philosophia, philosophia +grega e romana, porque bem sabem que os philosophos da antiguidade davam +por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor +lh'as não tiravam. E esta philosophia, hoje então...[6] Pois o medico +não morreu, nem sequer desmedrou, ou levou _r_ significativo de +preoccupação do animo insensivel ás amenidades da therapeutica. + +A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinaria que +seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem +esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou +ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma +carta do doutor Domingos Botelho. Um periodo d'esta carta dizia assim: + +«Déste-me noticia d'uma filha, que eu não conhecia, nem reconheço. A mãe +d'esta senhora está no Fayal, para onde ella vai. Cuida tu, ou manda +cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali alguem de correr +com a passagem d'ella para os Açores no primeiro navio. A mim me darás +conta das despezas. Meu filho Manoel teve ao menos a virtude de não +matar ninguem para se constituir amante. Do modo como correm os tempos, +muito virtuoso é um rapaz que não mata o marido da mulher que ama. Vê se +consegues do general, que está ahi, perdão para o rapaz, que é desertor +de cavallaria seis, e me consta que está escondido em casa de um +parente. Em quanto a Simão, creio que não é possivel salval-o do degredo +temporario... É uma lança em Africa livral-o da forca. Em Lisboa +movem-se grandes potencias contra o desgraçado, e eu estou malvisto do +intendente geral por abandonar o logar... etc.» + +Partiu para Lisboa a açoriana, e d'ali para a sua terra, e para o abrigo +de sua mãe, que a julgára morta, e lhe deu annos de vida, se não ditosa, +socegada e desilludida de chimeras. + +Manoel Botelho, obtido o perdão pela preponderancia do corregedor do +crime, mudou de regimento para Lisboa, e ahi permaneceu até que, +fallecido seu pae, pediu a baixa, e voltou á provincia. + + + + +VII. + + +João da Cruz, no dia 4 de Agosto de 1805, sentou-se á mesa com triste +aspecto e nenhum appetite do almoço. + +--Não comes, João?--disse-lhe a cunhada. + +--Não passa d'aqui o bocado--respondeu elle, pondo o dedo nos +gorgomilos. + +--Que tens tu? + +--Tenho saudades da rapariga... Dava agora tudo quanto tenho para a vêr +aqui ao pé de mim com aquelles olhos que pareciam ir direitos aos +desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraças da +minha vida que m'a fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para +sempre!... Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não vinha a ficar +em obrigação ao corregedor, e não se me dava que o filho vivesse ou +morresse... + +--Mas se tens saudades--atalhou a senhora Josefa--manda buscar a +rapariga, tem-l'a cá algum tempo, e torna depois para onde ao senhor +Simão. + +--Isso não é d'homem que põe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ella +lhe falta, morre de pasmo dentro d'aquelles ferros. Isto é venêta que me +deu hoje... Sabes que mais? leve a breca o dinheiro: ámanhã vou ao +Porto. + +--Pois isso é o que tu deves fazer. + +--Está dito! Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anneis e fiquem os +dedos. Por ora tem-se resistido a tudo com o meu braço. A rapariga, se +ficar com menos, lá se avenha. Assim o quer, assim o tenha. + +Reanimou-se a physionomia do mestre ferrador, e como que os impeços da +garganta se iam removendo á medida que planisava a sua ida ao Porto. + +Acabára de almoçar, e ficára scismatico, encostado á mesa do escano. + +--Ainda estás malucando?!--tornou Josefa. + +--Parece coisa do demonio, mulher!... A rapariga estará doente ou morta? + +--Anjo bento da Santíssima Trindade!--exclamou a cunhada, erguendo as +mãos--que dizes tu, João! + +--Estou cá por dentro negro como aquella sartã! + +--Isso é flato, homem! vai tomar ar, trabalha um poucaxinho para +espaireceres. + +João da Cruz passou ao coberto onde tinha o armario da ferragem e a +bigorna, e começou a atarracar cravos. + +Alguns conhecidos tinham passado, palavreando com elle consoante +costumavam, e achavam-no taciturno e nada para graças. + +--Que tens tu, João?--dizia um. + +--Não tenho nada. Vai á tua vida, e deixa-me, que não estou para lérias. + +Outro parava e dizia: + +--Guarde-o Deus, senhor João. + +--E a vocemecê tambem. Que novidade ha? + +--Não sei nada. + +--Pois então vá com nossa Senhora, que eu estou cá de candeias ás +avessas. + +O ferrador largava o martello; sentava-se aos poucos no tronco, e coçava +a cabeça com frenesi. Depois recomeçava novamente, e tão alheado o +fazia, que estragava o cravo, ou martellava os dedos. + +--Isto é coisa do diabo!--exclamou elle; e foi á cosinha procurar a +pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixões ethereas se +aturde com absyntho--Hei de afogar-te, coisa má, que me estás apertando +a alma!--continuou o ferrador, sacudindo os braços, e batendo o pé no +soalho. + +Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua +possante mula. Envolvia-se o cavalleiro n'um amplo capote á moda +hespanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de +coiro cru com esporas amarellas afiveladas, e o chapéo derrubado sobre +os olhos. + +--Ora viva!--disse o passageiro. + +--Viva!--respondeu mestre João, relanceando os olhos pelas quatro patas +da mula, a vêr se tinha obra em que entreter o espirito--A mula é de +ropia e chibança! + +--Não é má. Vocemecê é que é o senhor João da Cruz? + +--Para o servir. + +--Venho aqui pagar-lhe uma divida. + +--A mim? o senhor não me deve nada que eu saiba. + +--Não sou eu que devo; é meu pae, e elle foi que me encarregou de lhe +pagar. + +--E quem é seu pae? + +--Meu pae era um recoveiro de Garção, chamado Bento Machado. + +Proferida metade d'estas palavras, o cavalleiro afastou rapidamente as +bandas do capote, e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O +ferido recuou, exclamando: + +--Mataram-me!... Marianna, não te vejo mais!... + +O assassino teria dado cincoenta passos a todo o galope da espantada +mula, quando João da Cruz, debruçado sobre o banco, arrancava o ultimo +suspiro com a cara posta no chão, d'onde apontára ao peito do almocreve +dez annos antes. + +Os caminheiros, que perpassaram pelo cavalleiro inadvertidamente, +ajuntaram-se em redor do cadaver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro e já +não ouviu as ultimas palavras de seu cunhado. Quiz transportal-o para +dentro, e correr a chamar cirurgião; mas um cirurgião estava no +ajuntamento, e declarou morto o homem. + +--Quem o matou?--exclamavam trinta vozes a um tempo. + +N'esse mesmo dia vieram justiças de Vizeu lavrar auto e devassar: nenhum +indicio lhes deu o fio do mysterioso assassinio. O escrivão dos orphãos +inventariou os objectos encontrados, e fechou as portas quando os sinos +corriam o derradeiro dobre ao cahir da lousa sobre João da Cruz. + +Deus terá descontado, nos instinctos sanguinarios do teu temperamento, a +nobreza de tua alma! Pensando nas incoherencias da tua indole, homem que +me explicas a providencia, assombra-me as caprichosas antítheses que a +mão de Deus infunde em alentos na creatura. Dorme o teu somno infinito, +se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e +pelo uso que fizeste da tua. Mas se ha estancia de castigo e de +misericordia, as lagrimas de tua filha terão sido, na presença do Juiz +Supremo, os teus merecimentos. + +Fez Josefa escrever a Marianna, noticiando-lhe a morte de seu pae, mas +sobrescriptou a carta a Simão Botelho, para maior segurança. Estava +Marianna no quarto do prêso, quando a carta lhe foi entregue. + +--Não conheço a letra, Marianna... E a obreia é preta... + +Marianna examinou o sobrescripto, e empallideceu. + +--Eu conheço a letra--disse ella--é do Joaquim da loja. + +--Abra depressa, senhor Simão... Meu pae morreria? + +--Que lembrança! Pois não teve ha tres dias carta d'elle? E não lhe +disse que estava bom? + +--Isso que tem?... Veja quem assigna. + +Simão buscou a assignatura, e disse: + +--_Josefa Maria_... É sua tia que lhe escreve. + +--Leia... leia... que diz ella? + +O prêso lia mentalmente, e Marianna instou: + +--Leia alto, por quem é, senhor Simão, que estou a tremer... e v. s.^a +descora... que é, meu Deus? + +Simão deixou cahir a carta, e sentou-se prostrado de animo. Marianna +correu a levantar a carta, e elle, tomando-lhe a mão, murmurou: + +--Pobre amigo!... choremol-o ambos... choremol-o, Marianna, que o +amavamos como filhos... + +--Pois morreu?--bradou ella. + +--Morreu... mataram-no!... + +A moça expediu um grito estridulo, e foi com o rosto contra os ferros +das grades. Simão inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura +e vehemencia: + +--Marianna, lembre-se que é o meu amparo. Lembre-se de que as ultimas +palavras de seu pae deviam ser a recommendar-lhe o desgraçado que recebe +das suas mãos bemfeitoras o pão da vida. Marianna, minha querida irmã, +vença a dôr que póde matal-a, e vença-a por amor de mim. Ouve-me, amiga +da minha alma? + +Marianna exclamou: + +--Deixe-me chorar, por caridade!... Ai! meu Deus, se eu torno a +endoidecer! + +--Que seria de mim!--atalhou Simão--A quem deixaria Marianna o seu nobre +coração para me suavisar este martyrio? Quem me levaria ao desterro uma +palavra amiga que me animasse a crêr em Deus!... Não ha de enlouquecer, +Marianna, porque eu sei que me estima, que me ama, e que affrontará com +coragem a maior desgraça, que ainda póde suggerir-me o inferno! Chore, +minha irmã, chore; mas veja-me através das suas lagrimas! + + + + +VIII. + + +Marianna, decorridos dias, foi a Vizeu recolher a herança paterna. Em +proporção com o seu nascimento bem dotada a deixára o laborioso +ferrador. Afóra os campos, cujo rendimento bastaria á sustentação +d'ella, Marianna levantou a lage conhecida da lareira, e achou os +quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as +regalias da sua decrepitude inerte. Vendeu Marianna as terras, e deixou +a casa a sua tia, que nascêra n'ella, e onde seu pae casára. + +Liquidada a herança tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas +mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que +vivia, fronteira á Relação, na rua de S. Bento. + +--Porque vendeu as suas terras, Marianna?--perguntou o prêso. + +--Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar. + +--Não faz?... Para onde ha de ir Marianna, indo eu degredado? Fica no +Porto? + +--Não, senhor, não fico--balbuciou ella como admirada d'esta pergunta, á +qual o seu coração julgava ter respondido de muito. + +--Pois então! + +--Vou para o degredo, se v. s.^a me quizer na sua companhia. + +Fingindo-se surprendido, Simão seria ridiculo aos seus proprios olhos. + +--Esperava essa resposta, Marianna, e sabia que me não dava outra. Mas +sabe o que é o degredo, minha amiga? + +--Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão... É uma terra +mais quente que a nossa; mas tambem lá ha pão, e vive-se... + +--E morre-se abrazado ao sol doentio d'aquelle ceu, morre-se de saudades +da patria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das +galés, que tem um condemnado na conta de féra. + +--Não ha de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso á mulher +d'um prêso que cumpriu dez annos de sentença na India, e viveu muito bem +em uma terra chamada Solor, onde teve uma loja; e, se não fossem as +saudades, diz ella que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida +que por cá. Eu, se fôr por vontade do senhor Simão, vou pôr uma lojinha +tambem. Verá como eu amenho a vida. Affeita ao calor estou eu; v. s.^a +não está; mas não ha de ter precisão, se Deus quizer, de andar ao tempo. + +--E supponha, Marianna, que eu morro apenas chegar ao degredo? + +--Não fallemos n'isso, senhor Simão... + +--Fallemos, minha amiga, porque eu hei de sentir á hora da morte a +pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino... Se eu morrer? + +--Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambem. + +--Ninguem morre quando quer, Marianna... + +--Oh! se morre!... e vive tambem quando quer... Não m'o disse já a +senhora D. Thereza? + +--Que lhe disse ella? + +--Que estava a passar quando v. s.^a chegou ao Porto, e que a sua +chegada lhe dera vida. Pois ha muita gente assim, senhor Simão... E mais +a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os +trabalhos; e, se fosse preciso metter uma lanceta no braço e deixar +correr o sangue até morrer, fazia-o como quem o diz. + +--Oiça-me, Marianna, que espera de mim? + +--Que hei de eu esperar!... Porque me diz isso o senhor Simão? + +--Os sacrificios que Marianna tem feito e quer fazer por mim só podiam +ter uma paga, embora m'os não faça esperando recompensa. Abre-me o seu +coração, Marianna? + +--Que quer que eu lhe diga? + +--Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade? + +--Conheço, e que tem isso? + +--Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte áquella desgraçada +senhora? + +--E d'ahi? quem lhe diz menos d'isso?! + +--Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade. + +--E eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?! + +--Nada me pediu, Marianna; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz +o pêso da obrigação. + +Marianna não respondeu, chorou. + +--E porque chora?--tornou Simão carinhosamente. + +--Isso é ingratidão.... e eu não mereço que me diga que o faço infeliz. + +--Não me comprehendeu... Sou infeliz por não poder fazêl-a minha mulher. +Eu queria que Marianna podésse dizer: «Sacrifiquei-me por meu marido; no +dia em que o vi ferido em casa de meu pae, velei as noites ao seu lado; +quando a desgraça o encerrou entre ferros, dei-lhe o pão, que nem seus +ricos paes lhe davam; quando o vi sentenciado á forca, endoideci; quando +a luz da minha razão me tornou n'um raio de compaixão divina, corri ao +segundo carcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do +seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a patria d'aquelle +pobre coração, trabalhei á luz do sol homicida para elle se resguardar +do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam...» + +O espirito de Marianna não podia altear-se á expressão do prêso; mas o +coração sinil, esse adivinhava-lhe as ideias. E a pobre moça sorria e +chorava a um tempo. Simão continuou: + +--Tem vinte e seis annos, Marianna. Viva, que esta sua existencia não +póde ser senão um supplicio occulto. Viva, que não deve dar tudo a quem +lhe não póde restituir senão as lagrimas que lhe eu tenho custado. O +tempo do meu desterro não póde estar longe; esperar outro melhor destino +seria uma loucura. Se eu ficasse na patria, livre ou prêso, pediria a +minha irmã que completasse a obra generosa da sua compaixão, esperando +que eu lhe désse a ultima palavra da minha vida. Mas não vá comigo á +África ou á India, que sei que voltará sósinha á pátria depois que eu +fechar os olhos. Se o meu degredo fôr temporario, e a morte me guardar +para maiores naufragios, voltarei á patria um dia. E preciso que +Marianna aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha familia, +que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar com +marido e filhos, a sua familia será a a minha. Se a vir livre e só, irei +para a companhia de minha irmã. Que me responde, Marianna? + +A filha de João da Cruz, erguendo o olhos do pavimento, disse: + +--Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o +degredo.... + +--Pense desde já, Marianna. + +--Não tenho que pensar... A minha tenção está feita... + +--Falle, minha amiga, diga qual é a sua tenção. + +Marianna hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente: + +--Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu +ponho muito em me matar? Não tenho pae, não tenho ninguem, a minha vida +não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão póde viver sem mim? +paciencia!... eu é que não posso... + +Sosteve o complemento da ideia como quem se peja d'uma ousadia. O prêso +apertou-a nos braços estremecidamente, e disse: + +--Irá, irá comigo, minha irmã. Pense muito no infortunio de nós ambos +d'ora em diante, que elle é commum, é um veneno que havemos de tragar +unidos, e lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da patria. + +Desde este dia, um secreto jubilo endoidecia o coração de Marianna. Não +inventemos maravilhas de abnegação. Era de mulher o coração de Marianna. +Amava como a fantasia se compraz de idear o amor d'uns anjos que batem +as azas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se +fazerem vêr e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha +ciumes de Thereza, não ciumes que se refrigeram na expansão ou no +despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos labios, +porque os olhos se abriam promptos em lagrimas para apagal-a. Sonhava +com as delicias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer +á cabeceira do desgraçado. Se a forçassem a resignar a sua ingloria +missão de irmã d'aquelle homem, resignal-a-ia, dizendo: «Ninguem o amará +como eu; ninguém lhe adoçará as penas tão desinteresseiramente como o eu +fiz.» + +E, comtudo, nunca vacillou em aceitar da mão de Thereza ou da mendiga as +cartas para Simão. A cada vinco de dôr que a leitura d'aquellas cartas +sulcava na fronte do prêso, Marianna, que o espreitava disfarçada, +tremia em todas as fibras do seu coração, e dizia entre si: «para que ha +de aquella senhora amargurar-lhe a vida!» + +E amargurava acerbamente a desditosa menina! + +Resurgiram n'aquella alma esperanças, que não deviam durar além do tempo +necessario para que a desillusão lhe acrisolasse o infortunio. Imaginara +ella a liberdade, o perdão, o casamento, a ventura, a corôa do seu +martyrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque +não conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em +demasia nas orações das virtuosas do mosteiro. Se os vaticinios das +prophetisas se realisassem, Simão sahiria da cadêa, Thadeu de +Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto +indisputavel, e o ceu dos desgraçados principiaria n'este mundo. + +Porém Simão Botelho, ao cabo de cinco mezes de carcere, já sabia o seu +destino, e achára util prevenir Thereza, para não succumbir ao +inevitavel golpe da separação. Bem queria elle alumiar com esperanças a +perspectiva negra do degredo; mas froixos e frios eram os allivios em +que não era parte a convicção nem o sentimento. Thereza não podia sequer +illudir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando +sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolencia dos +estranhos. + +E então era o expandir-se em lastimas nas cartas que escrevia ao seu +amigo; invocações a Deus, e sacrilegas apostrophes ao destino; branduras +de paciencia e impetos de cólera contra o pae; o afferro á vida que lhe +foge, e súpplicas á morte, que a não livra das torturas da alma e do +corpo. + +No termo de sete mezes o tribunal de segunda instancia commutou a pena +ultima em dez annos de degredo para a India. Thadeu de Albuquerque +acompanhou a Lisboa a appellação, e offereceu a sua casa a quem +mantivesse de pé a forca de Simão Botelho. O pae do condemnado, segundo +o assustador aviso que seu filho Manoel lhe dera, foi para Lisboa luctar +com o dinheiro e as ponderosas influencias que Thadeu de Albuquerque +grangeára na casa da supplicação e no desembargo do paço. Venceu +Domingos Botelho, e instigado mais do seu capricho, que do amor +paternal, alcançou do principe regente a graça de cumprir o condemnado a +sua sentença na prisão de Villa Real. + +Quando intimaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do +regente, o prêso respondeu que não aceitava a graça; que queria a +liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciarios +contra um favor que não implorára, e que reputava mais atroz que a +morte. + +Domingos Botelho, avisado da rejeição do filho, respondeu que fizesse +elle a sua vontade; mas que a sua victoria d'elle, sobre os protectores +e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Vizeu, estava plenamente +obtida. + +Foi aviso ao intendente geral da policia, e o nome de Simão Botelho foi +inscripto no catalogo dos degredados para a India. + + + + +IX. + + +A verdade é algumas vezes o escolho de um romance. + +Na vida real, recebemol-a como ella sáe dos encontrados acasos, ou da +logica implacavel das coisas; mas, na novella, custa-nos a soffrer que o +author, se inventa, não invente melhor; e, se copía, não minta por amor +da arte. + +Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é +impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, +sequer uma temporada, em quanto elle nos lembra, d'este jogo de nora, +cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela +manivella do egoismo. + +A verdade! se ella é feia, para que offerecêl-a em paineis ao publico!? + +A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de +ferro, que o prendem ao barro d'onde sahiu, ou pezam n'elle e o +submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergil-o, +retratal-o, e dal-o á venda!? + +Os reparos são de quem tem o juizo no seu logar; mas eu que perdi o meu +a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintal-a, como ella +é, feia e repugnante. + +A desgraça afervora ou quebranta o amor? + +Isso é que eu submetto á decisão do leitor intelligente. Factos e não +theses é que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não +explica as funcções opticas do apparelho visual. + +Ao cabo de dezenove mezes de carcere, Simão Botelho almejava um raio de +sol, uma lufada de ar não coada por ferros, o pavimento do ceu, que o da +abobada do seu cubiculo pesava-lhe sobre o peito. + +Ancia de viver era a sua; não era já ancia de amar. + +Seis mezes de sobresaltos diante da forca deviam distender-lhe as fibras +do coração; e o coração, para o amor, quer-se forte e tenso de uma certa +rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anceios das esperanças, e +com as alegrias que o enchem e reforçam para os revezes. + +Cahiu a forca pavorosa aos olhas de Simão; mas os pulsos ficaram em +ferros, o pulmão ao ar mortal das cadêas, o espirito intanguido na +glacial estupidez d'umas paredes salitrosas, e d'um pavimento, que resôa +os derradeiros passos do ultimo padecente, e d'um tecto que filtra a +morte a gottas d'agua. + +O que é o coração, o coração dos dezoito annos, o coração sem remorsos, +o espirito anhelante de glorias, ao cabo de dezoito mezes de estagnação +da vida? + +O coração é a viscera, ferida de paralysia, a primeira que fallece +suffocada pelas rebelliões da alma que se identifica á natureza, e a +quer, e se devora na ancia d'ella, e se estorce nas agonias da +amputação, para as quaes a saudade da felicidade extincta é um cauterio +em braza, e o amor que leva ao abysmo pelo caminho da sonhada +felicidade, não é sequer um refrigerio. + +Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora +de desafôgo, como que sentia o patibulo lascar entre os seus braços, e +então convidou o coração da mulher, que o perdêra, a assistir ás +segundas nupcias da sua vida com a esperança. + +Depois, a passo igual, a esperança fugia-lhe para as areias da Asia, e o +coração intumecia-se de fel, o amor afogava-se n'elle, morte inevitavel, +quando não ha abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão +intima. + +Esperança, para Simão Botelho, qual? + +A India, a humilhação, a miseria, a indigencia. + +E os anhelos d'aquella alma tinham mirado a ambições de um nome. Para a +felicidade do amor invidava as forças do talento; mas, além do amor, +estava a gloria, o renome, e a vã immortalidade, que só não é demencia +nas grandes almas, e nos genios que se presentem viver nas gerações +vindouras, e se preluzem n'ellas. Mas grinaldas de amor a escorrerem +sangue dos espinhos, essas instillam veneno corrosivo no pensamento, +apagam no seio a faisca das nobres affoitezas, apoucam a ideia que +abrangêra mundos, e paralysam de mortal spasmo os estos do coração. + +Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito mezes de carcere, com o +patibulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor +da alma. + +A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o coração, se ousava +responder, retrahia-se recriminado pelos dictames da razão. + +D'além, d'aquelle convento onde outra existencia agonisava, gementes +queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que não sabias, nem +podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixão para ella, e +recebias as do demonio do desespêro para ti. + +Os dez annos de ferros, era que lhe quizeram minorar a pena, eram-lhe +mais horrorosos que o patibulo. E aceital-o-ias, por ventura, se amasse +o ceu, onde Thereza bebia o ar, que nos pulmões se lhe formava em +peçonha? Creio:--antes a masmorra, onde póde ouvir-se o som abafado de +uma voz amiga; antes os paroxismos de dez annos sobre as lages humidas +d'uma enxovia, se, na hora extrema, a ultima faisca da paixão, ao +bruxolear para morrer, nos alumia o caminho do ceu por onde o anjo do +amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do +que ficou. + +Thereza pedira a Simão Botelho que aceitasse dez annos de cadêa, e +esperasse ahi a sua redempção por ella. + +«Dez annos!--dizia-lhe a inclausurada de Monchique--Em dez annos terá +morrido meu pae, e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te +perdôe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vaes ao degredo, para +sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memoria de mim +quando voltares.» + +Como a pobre se illudia nas horas em que as debeis forças de sua vida se +lhe concentravam no coração! + +As ancias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que +creára novo, já lhe sahia em golfadas com a tosse. + +Se por amor ou piedade o condemnado aceitasse os ferrolhos tres mil +seiscentas e cincoenta vezes corridos sobre as suas longas noites +solitarias, nem assim Thereza sosteria a pedra sepulcral que a vergava +d'hora a hora. + +«Não esperes nada, martyr--escrevia-lhe elle.--A lucta com a desgraça é +inutil, e eu não posso já luctar. Foi um atroz engano o nosso encontro. +Não temos nada n'este mundo. Caminhemos ao encontro da morte... Ha um +segredo que só no sepulcro se sabe. Vêr-nos-hemos? + +Vou. Abomino a patria, abomino a minha familia, todo este solo está aos +meus olhos coberto de forcas, e quantos homens fallam a minha lingua, +creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem +a liberdade com a opulencia; nem já agora a realisação da esperanças que +me dava o teu amor, Thereza! + +Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não +aqui. Apague-se a luz de meus olhos; mas a luz do ceu, quero-a! quero +vêr o ceu no meu ultimo olhar. + +Não me peças que aceite dez annos de prisão. Tu não sabes o que é a +liberdade captiva dez annos! Não comprehendes a tortura dos meus vinte +mezes. A voz unica que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola +o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcastica boa-nova +de uma graça real que me commuta o morrer instantaneo da forca pelas +agonias de dez annos de carcere. + +Salva-te, se pódes, Thereza. Renuncia ao prestigio d'um grande +desgraçado. Se teu pae te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma +aurora de paz, vive para a felicidade d'esse dia. E senão, morre, +Thereza, morre, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as +fibras laceradas pela dôr, é o esquecimento que salva das injurias a +memoria dos padecentes.» + +As palavras unicas de Thereza, em resposta áquella carta, significativa +da turvação do infeliz, foram estas: «Morrerei, Simão, morrerei. Perdôa +tu ao meu destino... Perdi-te... bem sabes que sorte eu queria dar-te... +e morro, porque não posso, nem poderei jámais resgatar-te. Se pódes, +vive; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. +Consolar-te-ha o meu espirito... Estou tranquilla... Vejo a aurora da +paz... Adeus até ao ceu, Simão.» + +Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão +Botelho não respondia ás perguntas de Marianna. Dil-o-ieis arrobado nas +voluptuosas angustias do seu proprio aniquilamento. A creatura, posta +por Deus ao lado d'aquelles dezoito annos tão attribulados, chorava; mas +as lagrimas, se Simão as via, tiravam-no da mudez socegada para impetos +de afflicção, que a final o extenuavam á força de convulsões. + +Decorreram seis mezes ainda. + +E Thereza vivia, dizendo ás suas consternadas companheiras, que sabia ao +certo o dia do seu trespasse. + +Duas primaveras vira Simão Botelho pelas grades do seu carcere. A +terceira já inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal. + +Era em Março de 1807. + +No dia 10 d'esse mez recebeu o condemnado intimação para sahir na +primeira embarcação que levava ancora do Douro para a India. N'esse +tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa +os que tinham igual destino. + +Nenhum estorvo impedia o embarque de Marianna, que se apresentou ao +corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu +amo. + +--E a passagem vale-a bem!--disse o galhofeiro magistrado. + +Simão assistiu no encaixotar de sua bagagem, n'uma quietação terrivel, +como se ignorasse o seu destino. + +Quiz muitas vezes escrever a derradeira carta á moribunda Thereza, e nem +signaes de lagrimas podia já enviar-lhe no papel. + +--Que trevas, meu Deus!--exclamava elle, e arrancava a mãos cheias os +cabellos--Dai-me lagrimas, Senhor! deixai-me chorar, ou matai-me, que +este soffrimento é insupportavel! + +Marianna contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os +não menos medonhos da lethargia. + +--E Thereza!--bradava elle, surgindo subitamente do seu spasmo--E +aquella infeliz menina, que eu matei! Não hei de vêl-a mais, nunca mais! +Ninguem me levará ao degredo a noticia da sua morte! E quando a eu +chamar para que me veja morrer digno d'ella, quem te dirá que eu morri, +ó martyr! + + + + +X. + + +A 17 de Março de 1807 sahiu dos carceres da Relação Simão Antonio +Botelho, e embarcou no caes da Ribeira, com setenta e cinco +companheiros. O filho do ex-corregedor de Vizeu, a pedido do +desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não +ia amarrado com cordas ao braço d'algum companheiro. Desceu da cadêa ao +embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Marianna, que vigiava os +caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a +bordo da nau, e recommendou ao commandante que distinguisse o degredado +Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o á sua mesa. Chamou Simão de +parte, e deu-lhe um cartuxo de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe +enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e na presença de Mourão +Mosqueira pediu ao commandante que fizesse distribuir pelos seus +companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava. + +--É demente o senhor Simão?!--disse o desembargador. + +--Tenho a demencia da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi: +quero agora vêr a que extremo de infortunio ella póde levar os seus +amantes. A caridade só me não humilha, quando parte do coração e não do +dever. Não conheço a pessoa, que me remetteu este dinheiro. + +--É sua mãe--tornou Mosqueira. + +--Não tenho mãe. Quer v. ex.^a remetter-lhe esta esmola rejeitada? + +--Não, senhor. + +--Então, senhor commandante, cumpra o que lhe peço, ou eu atiro com isto +ao rio. + +O commandante aceitou o dinheiro, e o desembargador sahiu de bordo como +espantado da sinistra condição do moço. + +--Onde é Monchique?--pergutou Simão a Marianna. + +--É acolá, senhor Simão--respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se +debruça sobre a margem do Douro, em Miragaya. + +Cruzou os braços Simão, e viu através do gradeamento do mirante um +vulto. + +Era Thereza. + +Na vespera recebêra ella o adeus de Simão, e respondêra enviando-lhe a +trança dos seus cabellos. + +Ao anoitecer d'aquelle dia, pediu Thereza os sacramentos, e commungou á +grade do côro, onde se foi amparando á sua criada. Parte das horas da +noite passou-as sentada ao pé do sanctuario de sua tia, que toda a noite +orou. Algumas vezes pediu que a levassem á janella que se abria para o +mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com +as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo, por seu pé, ás +cellas das senhoras entrevadas, para lhes dar o beijo da despedida. + +Todas cuidavam em reanimal-a, e Thereza sorria, sem responder aos +piedosos artificios com que as boas almas a si mesmas queriam simular +esperanças. Ao abrir da manhã, Thereza leu uma a uma as cartas de Simão +Botelho. As que tinham sido escriptas nas margens do Mondego, +enterneciam-na a copiosas lagrimas. Eram hymnos á felicidade prevista: +eram tudo que mais formoso póde dar o coração humano, quando a poesia da +paixão dá côr ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe +empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscencias +d'aquelles dias: a sua alegria doida, as suas dôces tristezas, +esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colloquios com a irmã +querida de Simão, o ceu aromatico que se lhe ampliava á aspiração +sôfrega de vagos desejos, tudo, emfim, que lembra a desgraçados. + +Emmassou depois as cartas, e cintou-as com fitas de sêda desenlaçadas de +raminhos de flôres murchas, que Simão, dois annos antes, lhe atirára da +sua janella ao quarto d'ella. + +As petalas das flôres soltas quasi todas se desfizeram, e Thereza, +contemplando-as, disse: «Como a minha vida...» e chorou, beijando os +calices desfolhados das primeiras que recebêra. + +Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito +d'ellas, que logo veremos cumprida. + +Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado +sobre uma cadeira. Erguendo-se, quasi tirada pela violencia, aceitou uma +chicara de caldo, e murmurou com um sorriso: «Para a viagem...» + +Ás nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante +e, sentando-se em ancias mortaes, nunca mais desfitou os olhos da nau, +que já estava de verga alta, esperando a leva dos degredados. + +Quando viu, a dois a dois, entrarem amarrados, no tombadilho, os +condemnados, Thereza teve um breve accidente, em que a já froixa +claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos convulsas pareciam querer +aferrar a luz fugitiva. + +Foi então que Simão Botelho a viu. + +E ao mesmo tempo atracou á nau um bote, em que vinha a pobre de Vizeu +chamando Simão. Foi elle ao portaló, e estendendo o braço á mendiga, +recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu elle que a primeira não +era sua, pela lizura do papel; mas não a abriu. + +Ouviu-se a voz de levar ancora, e largar amarras. Simão encostou-se á +amurada da nau, com os olhos fitos no mirante. + +Viu agitar-se um lenço, e elle respondeu com o seu áquelle aceno. Desceu +a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distinctamente Simão viu +um rosto e uns braços suspensos das rêxas de ferro; mas não era de +Thereza aquelle rosto: seria antes um cadaver que subiu da claustra ao +mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura. + +--É Thereza?--perguntou Simão a Marianna. + +--É, senhor, é ella--disse n'um afogado gemido a generosa creatura, +ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condemnado iria breve no +seguimento d'aquella por quem se perdêra. + +De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e avistou Simão +um movimento impetuoso de alguns braços, e o desapparecimento de Thereza +e do vulto de Constança, que elle entre-vira mais tarde. + +A nau parou de fronte de Sobreiras. Uma nuvem no horisonte da barra, e o +subito encapellamento das ondas, causára a suspensão por ordem do +commandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia, com o piloto mór, +que mandava lançar ferro, até novas ordens. Mais tarde, deferiu-se a +sahida para o dia seguinte. + +E, no entanto, Simão Botelho, como o cadaver embalsamado, cujos olhos +reluzentes se cravam n'um ponto immoveis, lá tinha os seus immersos na +interior escuridade do miradouro. Nenhum signal de vida, e as horas +passaram até que o derradeiro raio do sol se apagou nas grades do +mosteiro. + +Ao escurecer voltou de terra o commandante, e contemplou, com os olhos +embaciados de lagrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras +estrellas, eminentes ao mirante. + +--Procura-a no ceu?--disse o nauta. + +--Se a procuro no ceu!--repetiu machinalmente Simão. + +--Sim!... no ceu deve ella estar. + +--Quem, senhor? + +--Thereza. + +--Thereza!... Morreu?! + +--Morreu, álem, no mirante, d'onde lhe estava acenando. + +Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O +commandante lançou-lhe os braços e disse: + +--Coragem, grande desgraçado, coragem! os homens do mar crêem em Deus! +Espere que o ceu se abra para si pelas supplicas d'aquelle anjo! + +Marianna estava um passo atraz de Simão, e tinha as mãos erguidas. + +--Acabou-se tudo!...--murmurou Simão-- Eis-me livre... para a morte... +Senhor commandante--continuou elie energicamente--eu não me suicido. +Póde deixar-me. + +--Peço-lhe que se recolha á camara. O seu beliche está ao pé do meu. + +--É obrigatorio recolher-me? + +--Para v. s.^a não ha obrigações; ha rogos: peço-lh'o não mando. + +--Vou, e agradeço a compaixão. + +Marianna seguiu-o com aquelle olhar quebrado e mavioso do jáo, quando o +poeta desembarcava, segundo a ideia apaixonada do cantor de Camões. + +Encarou n'ella Simão, e disse ao commandante: + +--E esta infeliz? + +--Que o siga...--respondeu o compassivo homem do mar, que cria em Deus. + +Simão recolheu-se ao beliche, e o commandante sentou-se em frente +d'elle, e Marianna ficou no escuro da camera a chorar. + +--Falle, senhor Simão!--disse o commandante--desafogue e chore. + +--Chorei, senhor! + +--Eu não tinha imaginado uma angustia igual á sua. A invenção humana não +creou ainda um quadro tão atroz. Arripiam-se-me os cabellos, e tenho +visto espectaculos horriveis na terra e no mar. + +Acintemente, o commandante estava provocando Simão ao desabafo. Não +respondia o degredado. Ouvia os soluços de Marianna, e tinha os olhos +postos no masso das cartas, que pozera sobre uma banqueta. + +O capitão proseguiu: + +--Quando em Miragaya me contaram a morte d'aquella senhora, pedi a uma +pessoa relacionada no convento, que me levasse a ouvir d'alguma freira a +triste historia. Uma religiosa m'a contou; mas eram mais os gemidos que +as palavras. Soube que ella, quando desciamos na altura do Oiro, +proferira em alta voz: «Simão, adeus até á eternidade!» e cahiu nos +braços d'uma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a +trouxeram meia-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma +palavra mais lhe ouviram. Depois contaram-me o que ella penára em dois +annos e nove mezes n'aquelle mosteiro. O amor que ella lhe tinha, e as +mil mortes que ella ali padeceu, de cada vez que a esperança lhe morria, +Que desgraçada menina, e que desgraçado moço o senhor é! + +--Por pouco tempo...-- disse Simão, como se o dissesse a si proprio, ou +a propria imaginação o estivesse dialogando comsigo. + +--Creio, creio, por pouco tempo--proseguiu o capitão;--mas se os amigos +podessem salval-o, senhor, eu dar-lh'os-ia na India mais fieis que em +Portugal. Prometto-lhe, sob minha palavra de honra, alcançar do visorei +a sua residência em Gôa. Prometto segurar-lhe um decente principio de +vida, e as commodidades que fazem a existencia tão saudavel como ella é +na Asia. Não o intimide a ideia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por +vencer-se, e será feliz! + +--O seu silencio, por piedade, senhor...--atalhou o degredado. + +--Bem sei que é cêdo ainda para planisar futuros. Desculpe á sympathia, +que me inspira, a indiscrição. Mas aceite um amigo n'esta hora +atribulada. + +--Aceito, e preciso d'elle.... Marianna!--chamou Simão--Venha aqui, se +este cavalheiro o permitte. + +Marianna entrou no quarto. + +--Esta mulher tem sido a minha providencia--disse Simão--Porque ella me +valeu, não senti a fome em dois annos e nove mezes de carcere. Tudo que +tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta creatura. +Seja respeitavel aos seus olhos, senhor, porque ella é tão pura como a +verdade o deve ser nos labios d'um moribundo. Se eu morrer, senhor +commandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se +ella fosse minha irmã. Se ella quizer voltar á patria, seja o seu +protector na passagem.--E estendendo-lhe a mão, disse com +transporte:--Promette-me isto, senhor? + +--Juro-lh'o. + +O commandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simão com +Marianna. + +--Estou tranquillo pelo seu futuro, minha amiga. + +--Eu já o estava, senhor Simão--respondeu ella. + +Não se trocaram palavra por largo espaço. Simão apoiou a face sobre a +mesa, e apertou com as mãos as fontes archejantes. Marianna, de pé, ao +lado d'elle, fitava os olhos na luz mortiça da lampada oscillante, e +scismava, como elle, na morte. + +E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gáveas da nau. + + + + +CONCLUSÃO. + + +Ás onze horas da noite o commandante recolhêra-se n'um beliche de +passageiro, e Marianna, sentada no pavimento, com o rosto sobre os +joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e afflictivas +horas d'aquelle dia. + +Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre +o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente d'um arame. O +ouvido têl-o-ia talvez attento ao assovio da ventania: devia de soar-lhe +como um ai plangente aquelle silvo agudo, voz unica no silencio da terra +e do ceu. + +Á meia noite estendeu Simão o braço tremulo ao masso das cartas que +Thereza lhe enviára, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que +era d'ella. Rompeu a obreia, e dispôz-se no camarote para alcançar o +baço clarão da lampada. + +Dizia assim a carta: + +«É já o meu espirito que te falla, Simão. A tua amiga morreu. A tua +pobre Thereza, á hora em que leres esta carta, se me Deus não engana, +está em descanso. + +Eu devia poupar-te a esta ultima tortura; não devia escrever-te; mas +perdôa á tua esposa do ceu a culpa pela consolação que sinto em +conversar comtigo a esta hora, hora final da noite da minha vida. + +Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? D'aqui a pouco +perderás da vista este mosteiro; correrás milhares de leguas, e não +acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: «A infeliz +espera-te n'outro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.» + +Se te podesses illudir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava +com vida e com esperança de vêr-te na volta do degredo? Assim póde ser, +mas ainda agora, n'este solemne momento, me domina a vontade de fazer-te +sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem ás +vezes vaidade de mostrar que o é, até não podêl-o ser mais! Quero que +digas: Está morta, e morreu quando lhe eu tirei a ultima esperança. + +Isto não é queixar-me, Simão, não é. Talvez que eu podesse alguns dias +resistir á morte, se tu ficasses; mas, d'um modo ou d'outro, era +inevitavel fechar os olhos quando se rompesse o ultimo fio, este ultimo +que se está partindo, e eu mesma o oiço partir. + +Não vão estas palavras accrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar +um remorso injusto á tua saudade. + +Se eu podesse ainda vêr-te feliz n'este mundo; se Deus permittisse á +minha alma esta visão!... _Feliz_, tu, meu pobre condemnado!... Sem o +querer, o meu amor agora te fazia injuria, julgando-te capaz de +felicidade! Tu morrerás de saudade, se o clima do desterro te não matar +ainda antes de succumbires á dôr do espirito. + +A vida era bella, era, Simão, se a tivessemos como tu m'a pintavas nas +tuas cartas, que li ha pouco. Estou vendo a casinha que tu descrevias +defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves. A tua imaginação +passeava comigo ás margens do Mondego, á hora pensativa do escurecer. +Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a +mudez do coração ao teu silencio, e animada por teu sorriso inclinava a +face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas +cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia em quanto a alma se +esta recordando. N'outra carta me fallavas em triumphos e glorias e +immortalidade do teu nome. Também eu ia após da tua aspiração, ou +adiante d'ella, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espirito +queria eu que fosse meu. Era criança ha tres annos, Simão, e já entendia +os teus anhelos de gloria, e imaginava-os realisados como obra minha, se +me tu dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o +estimulo do meu amor. + +Ó Simão, de que ceu tão lindo cahimos! Á hora que te escrevo estás tu +para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura. + +Que importa morrer, se não podemos jámais ter n'esta vida a nossa +esperança de ha tres annos?! Poderias tu com a desesperança e com a +vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos +beneficios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é +uma misericordia divina, uma bemaventurança para mim. + +E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio? Onde irás tu +aviventar o coração que a desgraça te esmagou, sem poder esmagar a +imagem d'esta docil mulher, que seguiu cegamente a estrella da tua +malfadada sorte? + +Tu nunca hás de amar, não, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se uma +vez visses passar rapidamente a minha imagem por diante dos teus olhos +enxutos? Soffre, soffre ao coração da tua amiga estas derradeiras +perguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta lêres. + +Rompe a manhã. Vou vêr a minha ultima aurora... a ultima dos meus +dezoito annos! + +Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre d'uma agonia longa. +Todas as minhas angustias lhe offereço em desconto das tuas culpas. Se +algumas impaciencias a justiça divina me condemna, offerece tu a Deus, +meu amigo, os teus padecimentos para que eu seja perdoada. + +Adeus; á luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão.» + +Erguei-se Simão Botelho, olhou em redor de si, e fitou com spasmo +Marianna, que levantava a cabeça ao menor movimento d'elle. + +--Que tem, senhor Simão?--disse ella, erguendo-se. + +--Estava aqui, Marianna?... não se vai deitar?! + +--Não vou: o commandante deu-me licença de ficar aqui. + +--Mas ha de assim passar a noite?! Rogo-lhe que vá, porque não é +necessario o seu sacrificio. + +--Se o não incommodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão. + +--Esteja, minha amiga, esteja... Poderei subir ao convez? + +--Quer ir ao convez, senhor Botelho?--disse o commandante lançando-se do +beliche. + +--Queria, senhor commandante. + +--Iremos juntos. + +Simão ajuntou a carta de Thereza ao maço das suas, e subiu cambaleando. +No convéz sentou-se n'um monte de cordame, e contemplou o mirante de +Monchique, que avultava negro ao sopé da serra penhascosa em que +actualmente vai a rua da Restauração. + +O capitão passeava da prôa á ré; mas com o ouvido fito aos movimentos do +degredado. Receára elle o proposito do suicidio, porque Marianna lhe +incutira semelhante suspeita. Queria o maritimo fallar-lhe palavras +consoladoras, mas pensava comsigo: «O que ha de dizer-se a um homem que +soffre assim?» E parava junto d'elle algumas vezes, como para +desviar-lhe o espirito d'aquelle mirante. + +--Eu não me suicido!--exclamou abruptamente Simão Botelho--Se a sua +generosidade, senhor capitão, se interessa em que eu viva, póde dormir +descansado a sua noite, que eu não me suicido. + +--Mas mereço-lhe eu a condescendencia de descer comigo á camara? + +--Irei; mas eu lá soffro mais, senhor. + +Não replicou o commandante, e continuou a passear no convez, apesar das +rajadas de vento. + +Marianna estava agachada, entre os pacotes da carga, a pouca distancia +de Simão. O commandante viu-a, fallou-lhe, e retirou-se. + +Ás tres horas da manhã Simão Botelho segurou entre as mãos a testa que +se lhe abria abrazada pela febre. + +Não pôde ter-se sentado, e deixou cahir meio corpo. A cabeça, ao +declinar, pousou no seio de Marianna. + +--O anjo da compaixão sempre comigo!--murmurou elle--Thereza foi muito +mais desgraçada... + +--Quer descer ao camarote?--disse ella. + +--Não poderei... Ampare-me, minha irmã. + +Deu alguns passos para o alçapão, e olhou ainda para o mirante. Desceu a +ingreme escada, apegando-se ás cordas. Lançou-se sobre o colchão, e +pediu agua, que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o +estorcimento, e as ancias, com intervallos de delirio. + +De manhã veio a bordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando +o condemnado, disse que era «maligna» a doença, e que bem podia ser que +elle achasse a sepultura no caminho da India. + +Marianna ouviu o prognostico, e não chorou. + +Ás onze horas sahiu barra fóra a nau. Ás ancias da doença accresceram as +do enjoo. A pedido do commandante, Simão bebia remedios, que bolsava +logo, revoltos pelas contracções do vomito. + +Ao segundo dia de viagem Marianna disse a Simão: + +--Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer áquellas cartas que vão na +caixa? + +Pasmosa serenidade a d'esta pergunta! + +--Se eu morrer no mar--disse elle--Marianna atire ao mar todos os meus +papeis; todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro +tambem. + +Passada uma ancia, que lhe embargara a voz, Simão continuou: + +--Se eu morrer, que tenciona fazer, Marianna! + +--Morrerei, senhor Simão. + +--Morrerá?!.. Tanta gente desgraçada que eu fiz!... + +A febre augmentava. Os symptomas da morte eram visiveis aos olhos do +capitão, que tinha sobeja experiencia de vêr morrerem centenares de +condemnados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum +medicamento. + +Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascaes, +sobreveio tormenta subita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e +perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado para o sul. Ao sexto dia +de navegação incerta, por entre espêssas brumas, partiu-se o leme +defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refegas, +desencapellaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um +formoso dia de primavera. Era o dia 27 de Março, o nono da enfermidade +de Simão Botelho. + +Marianna tinha envilhecido. O commandante, encarando n'ella, exclamou: + +--Parece que volta da India com os dez annos de trabalhos já +passados!... + +--Já acabados... de certo...--disse ella. + +Ao anoitecer d'esse dia o condemnado delirou pela ultima vez, e dizia +assim no seu delirio: + +«A casinha, defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves. +Passeavas comigo á margem do Mondego, á hora pensativa do escurecer. +Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a +mudez do coração ao teu silencio, e, animada por teu sorriso, inclinava +a face ao teu seio como se fosse o de minha mãe... De que ceu tão lindo +cahimos... A tua amiga morreu... A tua pobre +Thereza............................. + +E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio?... Onde irás +tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou... Rompe a manhã... Vou +vêr a minha ultima aurora... a ultima dos meus dezoitos annos. Offerece +a Deus os teus padecimentos para que eu seja perdoada... Marianna...» + +Marianna collou os ouvidos aos labios roixos do moribundo, quando cuidou +ouvir o seu nome. + +«Tu virás ter comnosco; ser-te-hemos irmãos no ceu... O mais puro anjo +serás tu... se és d'este mundo, irmã; se és d'este mundo, Marianna...» + +A transição do delirio para a lethargia completa era o annuncio +infallivel do trespasse. + +Ao romper da manhã apagára-se a lampada. Marianna sahira a pedir luz, e +ouvira um gemido estorturoso. Voltando ás escuras, com os braços +estendidos para tactear a face do agonisante, encontrou a mão convulsa, +que lhe apertou uma das suas, e relaxou de subito a pressão dos dedos. + +Entrou o commandante com uma lampada, e approximou-lh'a da respiração, +que não embaciou levemente o vidro. + +--Está morto!...-- disse elle. + +Marianna curvou-se sobre o cadaver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro +beijo. Ajoelhou depois ao pé do camarote com as mãos erguidas, e não +orava nem chorava. + +Algumas horas depois, o commandante disse a Marianna: + +--Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo ... É ventura +morrer quando se vem a este mundo com tal estrella... Passe a senhora +Marianna ali para a camara, que vai ser levado d'aqui o defuncto. + +Marianna tirou o masso das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma +caixa buscar os papeis de Simão. Atou o rolo no avental, que elle tinha +d'aquellas lagrimas d'ella choradas no dia da sua demencia, e cingiu o +embrulho á cintura. + +Foi o cadaver envolto n'um lençol, e transportado ao convez. + +Marianna seguiu-o. + +Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou ás pernas +com um pedaço de cabo. O commandante contemplava a scena triste com os +olhos humidos, e os soldados, que guarneciam a nau, tão funeral respeito +os acurvava, que insensivelmente se descobriram. + +Marianna estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia +estupidamente encarar aquelles empuxões, que o marujo dava ao cadaver +para segurar a pedra na cintura. + +Dois homens ergueram o cadaver ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o +balanço para o arremessarem longe. E antes que o baque do morto se +fizesse ouvir na agua, todos viram, e ninguém já pôde segurar Marianna, +que se atirára ao mar. + +Á voz do commandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens +para salvar Marianna. + +Salval-a!... + +Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir á morte, mas para +abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O +commandante olhou para o sitio d'onde Marianna se atirára, e viu, +enleado no cordame, o avental, e á flor d'agua um rolo de papeis que os +marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondencia de +Thereza e Simão. + + * * * * * + +Da familia de Simão Botelho vive ainda, em Villa Real de Traz-os-Montes, +a senhora D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, a irmã predilecta +d'elle. A ultima pessoa fallecida, ha vinte e seis annos, foi Manoel +Botelho, pae do author d'este livro. + + +FIM. + + * * * * * + +[1] Ha vinte annos que eu ouvi d'um coevo do facto a historia do +assassinio assim contada: Era em quinta Feira santa. Marcos Botelho, +irmão de Domingos, estava na festa de endoenças, em S. Francísco, +defrontando com uma dama, namorada sua, e desleal dama que ella era. +N'outro ponto da igreja estava, apontado em olhos e coração á mesma +mulher, um alferes de infanteria. Marcos enfreou o seu ciume até ao +final do officio da paixão. Á sahida do templo encarou no militar, e +provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Terçaram +as armas longo tempo sem desaire nem sangue. Amigos de ambos tinham +conseguido aplacal-os, quando Luiz Botelho, outro irmão de Marcos, +desfechou uma clavina no peito do alferes, e alli á entrada da «rua do +Jogo da Bola» o derribou morto. O homicida foi livre por graça regia. + +[2] É a casa-palacete da «rua da Piedade», hoje pertencente ao doutor +Antonio Girardo Monteiro. + +[3] Esclarece este dizer de D. Rita a certidão de idade de Simão, a qual +tenho presente, e é extrahida por Herculano Henrique Garcia Camillo +Galhardo, reitor da real Igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a +folhas 159 v. Reza assim: + +«Aos dois dias do mez de maio de 1784, pôz os santos oleos o reverendo +padre cura João Domingues Chaves a Simão, o qual foi _baptisado em casa +em perigo de vida_ pelo Reverendo Frei Antonio de S. Pelagio, etc.» + +[4] N'alguns papeis que possuimos do corregedor de Vizeu achamos esta +carta: «Meu amigo, collega e senhor. Entregará, ao portador d'esta, que +é o senhor padre Manoel de Oliveira, as cincoenta moedas em que lhe +fallei na sua passagem para Lisboa. A appellação de seu filho está a meu +cuidado, e está segura, apesar das grandes forças contrarias. Seu +amigo--O desembargador _Antonio José Dias Mourão Mosqueira_. Porto 11 de +fevereiro de 1805.--Sobrescripto: Ill.^mo Snr. D.^or Domingos José +Correia Botelho de Mesquita e Menezes.--Lisboa.» + +(_Nota do auctor_). + +[5] Este romance foi escripto n'um dos cubiculos-carceres da Relação do +Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pelas sombras das +abobadas. Anno da Graça de 1861. + +[6] _Hoje então!..._ Vou-lhes contar um lance memorando d'um philosopho +da actualidade, lance unico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa. +Hoje (21 de Setembro de 1861) estava eu no escriptorio do illustre +advogado Joaquim Marcellino de Mattos, e um cliente entrou contando o +seguinte:--«Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de ***; e fui +roubado em oitocentos mil reis por minha mulher, que fugiu com um amante +para Vianna. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro.» +--Póde querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor +quer querelar por adulterio?--Responde o queixoso: «O que eu quero é o +meu dinheiro.»--Mas, redargue o consultor, o senhor póde querelar de +ambos, d'ella por adultera, e d'elle como receptador do furto.--«E +receberei o meu dinheiro?»--Conforme. Eu sei cá se elle tem o seu +dinheiro?! O que sei é que não póde pronuncial-a a ella como +ladra.--«Mas os meus oitocentos mil reis?!»--Ah! o senhor não se lhe dá +que sua mulher fuja e não volte?--«Não, senhor doutor, que a leve o +diabo; o que eu quero é o meu dinheiro.»--Pois querele d'ambos, o +veremos depois.--«Mas não é certo receber eu o meu dinheiro?!»--Certo +não é; veremos se depois de pronunciado as authoridades administrativas +capturam o ladrão com o seu dinheiro.--«E, se elle o não tiver +já?--redargue o marido consternado.»--Se o não tiver já, o senhor +vinga-se na querela por adulterio.--«E gasta-se alguma coisa?»--Gasta, +sim; mas vinga-se.--«O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor: +a mulher deixal-a ir, que tem cincoenta annos.»--Cincoenta +annos!--acudiu o doutor--o senhor está vingado do amante. Vá para casa, +deixe-se de querelas, que o mais desgraçado é elle. + + +Encadernação N.° 2465 + +FAUSTO FERNANDES + +ENCADERNOU + +Patio de D. Fradique, 1--LISBOA + + + + + +End of Project Gutenberg's Amor de Perdição, by Camillo Castello Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR DE PERDIÇÃO *** + +***** This file should be named 16425-8.txt or 16425-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/6/4/2/16425/ + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + diff --git a/16425-8.zip b/16425-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..5ea8df3 --- /dev/null +++ b/16425-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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