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+The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Fevereiro a Maio 1878
+by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+
+Author: Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+Release Date: August 2, 2004 [EBook #13093]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ASCII
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
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+
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+
+[Illustration: ECA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGAO AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGAO--ECA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878
+
+Ironia, verdadeira liberdade! Es tu que me livras da ambicao do poder,
+da escravidao dos partidos, da veneracao da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiracao das grandes personagens, das mystificacoes da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da supersticao d'este grande
+universo, e da adoracao de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Leis organicas das sociedades e disposicoes regulamentares dos estados:
+de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanccao penal. O
+caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
+gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
+Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituicao da
+raca humana pela gymnastica. Reconstituicao da ideias parlamentares pela
+mesma gymnastica. Indicacao de alguns exercicios para uso dos dignos
+pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nacao_. Mostra-se que o milagre
+nao presta. Ensina-se a _Nacao_ o que sao milagres e prova-se-lhe que
+ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
+criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
+personagem desde o seculo XVI ate a ultima facada no Bairro Alto--A
+ideia velha e a ideia nova.--Uma opiniao de Tyndal acerca dos atheus.
+Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin acerca das rasoes porque crescem
+os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
+da instruccao primaria mostrou nao ser aquelle philosopho nem aquelle
+carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
+educacao burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltroes. A
+covardia, instituicao publica, etc.
+
+Todos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
+pertencendo a duas classes distinctas:
+
+1.º Crimes resultantes da infraccao das leis organicas da sociedade;
+
+2.º Crimes resultantes da infraccao das disposicoes regulamentares dos
+Estados.
+
+Emquanto as sociedades se nao acham constituidas segundo o direito
+absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
+isto e, emquanto as sociedades nao attingem um desenvolvimento
+intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
+organisacao, distinguindo o que n'ellas e difinitivo e organico do que e
+convencional e contingente,--n'essas sociedades nao podem dar-se senao
+os crimes da segunda d'aquellas classes. E assim que vemos nas
+civilisacoes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
+ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
+communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
+
+Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entraram no
+periodo scientifico da sua evolucao moral, como presentemente succede em
+toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
+tomaram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
+nos referimos, porque se comprehendeu que elles nao violam unicamente um
+regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
+vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregacao que constitue o grande ser
+collectivo.
+
+ * * * * *
+
+A sabedoria da legislacao penal manifesta-se na mais justa e perfeita
+demarcacao dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
+
+Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
+repressivos da infraccao das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
+punicao imposta a contravencao dos seus estatutos regulamentares,
+distinguindo graduacoes na culpa segundo a importancia dos interesses
+feridos pela perpetracao do delicto.
+
+E em virtude d'este criterio que sao punidos com severidade,
+unanimemente exigida pela opiniao, os attentados contra o interesse do
+commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
+interesses sao considerados os mais importantes das sociedades modernas;
+ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
+pela razao de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
+arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
+conseguinte a civilisacao rejeita como um acto de prepotencia e de
+vinganca.
+
+Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
+forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
+muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
+politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: "Sao mais do que
+crimes, sao verdadeiros erros!"
+
+Posto isto, vejamos qual e o estado da mentalidade portugueza afferido
+pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e as respectivas
+sanccoes penaes.
+
+ * * * * *
+
+Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
+Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
+
+No caso de Joanna Pereira vemos tres reos confessos e convictos de tres
+crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
+meio da chlorophormisacao; o carroceiro, da remocao de um cadaver; todos
+tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
+
+Como procede a sociedade? Nao tomando conhecimento de nenhum d'estes
+attentados e despedindo os reos em paz!
+
+No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo e accusado de ter
+falsificado uma certidao de edade para o fim de salvar um mancebo do
+recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
+oito annos de degredo para a costa ds Africa!
+
+O primeiro caso e um triplice attentado contra a ordem social. A
+sociedade nao so o nao pune mas nem sequer o julga.
+
+O segundo e uma contravencao de um regulamento administrativo. A
+sociedade nao so o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
+
+ * * * * *
+
+Nao analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
+co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
+o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnacao d'este e uma
+iniquiedade monstruosa.
+
+O crime do que e accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
+oito annos de degredo, e crime unicamente perante a letra de um
+regulamento de caracter nao so transitorio mas arbitrario--o regulamento
+do servico militar.
+
+O parocho foi condemnado por tentar salvar do servico um recruta.
+Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, so pode involver
+intencao criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
+Viciar a data de uma letra ou de um contrato e indubitavelmente um grave
+crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
+da propriedade. Mas alterar a data de uma certidao de baptismo, para o
+facto de isemptar do servico militar um cidadao, nao e offender um
+interesse social; e o contrario d'isso: e servir o interesse que todas
+as sociedades teem em que deixe de haver militares.
+
+ * * * * *
+
+O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
+punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
+estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
+analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios a
+civilisacao e a humanidade. Daria em resultado a eliminacao do
+militarismo e da guerra.
+
+Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores nao foram
+punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
+ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
+
+Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
+vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
+mortos.
+
+Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
+todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_
+
+Finalmente, para o facto da seleccao da especie, os maridos seriam
+substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
+alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
+convertendo aos pianos, reforcados pela aguardente, nos unicos
+instrumentos da perpetuidade da raca.
+
+ * * * * *
+
+Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
+os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
+unicamente a sociedade os nossos cumprimentos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Por occasiao de se discutir no parlamento a reforma da instruccao
+primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopcao da
+gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opiniao de que a
+gymnastica tinha um caracter immoral.
+
+S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
+do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
+pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as maos
+e de pernas para o ar. Isto effectivamente nao seria bem visto. E
+comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porcao de rubor pensando que
+ao dirigir n'um salao as suas homenagens a uma dama esta podera vir um
+dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
+obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeca no espaco
+que medeia entre o tapete e o lustre.
+
+Cremos porem que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
+directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
+da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
+ex.ª tenha da coisa que fora das feiras se nao chama a _sorte de forcas_
+mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.
+
+ * * * * *
+
+Um illustre medico allemao, o doutor Schreber, director do instituto
+orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformacoes do
+nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciacoes na configuracao
+dos ossos da bacia, viciacoes que inhabilitam muitas mulheres de serem
+maes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
+escola e que so podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
+racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher podera
+chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
+correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
+s. ex.ª para alvo das suas predileccoes pelo pugilato athletico.
+
+ * * * * *
+
+O mesmo doutor Schreber assevera que e indispensavel introduzir o uso da
+gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
+mulheres padecam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
+frequente e resultante da posicao forcada em que as raparigas se
+conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
+acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
+sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
+a espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
+depois a operar sobre a regiao abdominal de s. ex.ª as experiencias
+dynamometricas, cuja perspectiva lanca no animo pudibundo do digno
+procere um tao ligitimo horror.
+
+ * * * * *
+
+A physiologia moderna tem mostrado que a saude nao e mais que o justo e
+perfeito equilibrio das differentes forcas inherentes ao nosso
+organismo. A hygiene tem provado com muitas observacoes e fundada nas
+mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
+todos os nossos membros e de todos os nossos orgaos e o unico meio de
+manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisacao d'esse
+exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
+
+Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
+hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulacao do
+sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
+
+Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
+phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
+loucura sao outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
+mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
+apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
+que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
+revelacoes, demonstra que existem estreitas e precisas relacoes de causa
+para effeito entre as variacoes da circulacao e os differentes graus de
+actividade cerebral. A abolicao da memoria, a perversao das sensacoes,
+todos os casos de nevropathia cerebral sao resultantes de uma falta de
+cadencia na vibracao dos centros sensitivos causada por um embaraco da
+circulacao sanguinea no encephalo. Na Italia estao-se curando as
+alienacoes mentaes pela transfusao do sangue. O medico Ponza, do Grande
+Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
+de cura de alienados pela transfusao hypodermica.
+
+Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispoe para activar e
+regularisar a circulacao, de tanta importancia para a actividade
+central, e a gymnastica.
+
+O celebre hygienista Lacassagne diz: "Um exercicio muscular geral, feito
+em boas condicoes, produz os effeitos de uma transfusao de sangue."
+
+ * * * * *
+
+Ha estados morbidos cuja localisacao no organismo escapa muitas vezes a
+indagacao e a sagacidade dos clinicos. Esta-se doente sem haver
+apparentemente perturbacao alguma nas funccoes physiologcas. O symptoma,
+frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
+diminuicao do noso peso com relacao a unidade do nosso volume. A mais
+segura medida da saude e a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
+para tornar mais denso o corpo humano? Ha. E o regimen da gymnastica. O
+doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
+gymnastica militar da Faisanderie, em Franca, constatou, pelas
+observacoes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
+effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto e acrescentar a
+densidade de 6 ate 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
+exercicio.
+
+ * * * * *
+
+Em um paiz onde a tisica faz tao grande numero de victimas como em
+Portugal, e util accrescentar ainda que uma das propriedades da
+gymnastica e desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
+a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
+doutor Burq.
+
+ * * * * *
+
+A forca muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
+densidade, n'uma proporcao de 15% nos quatro primeiros mezes dos
+exercicios gymnasticos.
+
+ * * * * *
+
+A hygiene de musculatura e um facto de primeira importancia para a saude
+desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
+tecidos vivos se reconheccu que a sede principal da combustao
+respiratoria e o musculo. Os differentes estados do musculo influem
+directamente na composicao do sangue. O exercicio e portanto um poderoso
+modificador do sangue e como tal actua em todas as forcas do nosso
+organismo. Mas nao ha senao uma especie de exercicio com propriedades
+hygienicas e therapeuticas: esse exercicio e a gymnastica.
+
+ * * * * *
+
+Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faca o obsequio de considerar
+que so e um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
+constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allema. O
+doutor Sebreber demonstra que a unica occupacao que sujeita quem a
+exerce a um exercicio inteiramente harmonico, e a occupacao da
+jardinagem. Todo aquelle que nao for jardineiro tem de appellar para um
+methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
+equilibrio as acquisicoes e os dispendios de cada um dos seus orgaos.
+
+ * * * * *
+
+Taes sao, resumidamente expostas, algumas das razoes que militam em
+favor da gymnastica. Em contraposicao a estes argumentos nao sabemos
+senao de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
+mais fervorosos para que s.ex.ª nao core diante da gymnastica, impedindo
+assim o paiz de por em pratica o melhor meio de regenerar a sua
+constituicao atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
+ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
+de reagir contra a hypocondria e contra a preguica, contra a atonia dos
+nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
+gotta, contra as affeccoes pulmonares, contra as escrophulas, contra a
+obesidade e contra a idiotismo.
+
+ * * * * *
+
+Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licenca para incluir o mesmo
+sr. Vaz Preto, estao contaminados por enfermidades que a gynmastica
+previne e corrige. De modo que uma boa administracao pedia que
+gymnastica nao so fosse decretada para as escolas mas tambem para as
+duas casas do parlamento.
+
+Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemas, suecas, os
+exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
+para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
+todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
+quanto estes exercicios sao uteis nao so ao desenvolvimento physico mas
+ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
+introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
+n'aquellas em que a gymnastica nao existe.
+
+Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
+esqueceu uma disposicao--precisamente a unica que teria alcance--um
+artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
+em cada sessao, as suas locubracoes legislativas, para fazerem
+gymnastica ao som de um orgao, como nas escolas americanas.
+
+O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
+obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
+que--digamol-o francamente--o que e o _cachenez_ do nobre duque
+presidente senao o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
+mais caracteristico de que s.ex.ª nao tem gymnastica nos musculos do
+pescoco e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
+felicidade do paiz, que tao estreitamente depende da preciosa saude do
+nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
+d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
+erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
+desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
+seguintes movimentos:
+
+Voltar vigorosamente a cabeca para a direita e para a esquerda (100
+vezes); fazer girar o pescoco, na sua maxima flexao, sobre o peito e
+sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
+(100 vezes); fazer o movimento de quem mede bracas (100 vezes); tomar
+fortes e profundas aspiracoes de ar (25 vezes). Depois do que, s.ex.ª
+reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomecaria a
+meditar sobre a felicidade da patria.
+
+No mesmo sr. Vaz Preto o que e verdadeiramente a revolta do seu pudor
+perante a adopcao da gymnastica nas escolas senao o indicio de uma lesao
+mental concomitante e ate certo ponto compensadora da obesidade? Pois
+nao e sabido que jamais a excessiva nutricao deixa de ser acompanhada
+reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
+sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
+indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
+seguintes:
+
+Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
+tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
+(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz ate o
+limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
+quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
+Depois do que, s. ex.ª revestiria ameacadoramente as suas calcas e
+continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
+
+ * * * * *
+
+Se porem a todas estas consideracoes for insensivel o sr. Vaz Preto,
+n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
+gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
+Velar-lhe a face!
+
+
+ * * * * *
+
+
+A _Nacao_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
+cego ja ve, a paralytica ja anda_.
+
+ * * * * *
+
+Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nacao_ desse cabimento
+nas suas columnas um milagre tao miseravel, tao safado, tao reles como
+esse! Com effeito! foi entao para isso, para esse milagrotesito de
+cacaraca, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
+foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
+que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
+reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
+os fazer ver e para os fazer andar os levou tao longe?! ... Ora muito
+obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
+
+A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
+collaboraram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinacao teem obrigacao
+restricta de abrirem immediatamente uma subscripcao para o fim de
+indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
+lhes deram. Porque nos--e a _Nacao_ bem o sabe!--nos temos devocoes
+locaes, temos devocoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affiancam, sob a
+auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
+resultados obtidos pela romagem.
+
+Pois que! A agua de Lourdes ao pe da bica, na propria gruta, por conta e
+na presenca da santa, nao ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
+agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
+vezes impuras, quantas vezes com mas rolhas?!
+
+Nao vimos nos ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
+enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
+que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
+locomotores com agua das latas?!
+
+E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
+para se metter as estradas e para ir por ahi fora em bracos ate Lourdes,
+chega la e nao obtem mais nada senao o que obteve a outra sem sair do
+largo de S. Roque?
+
+E ainda ousam dizer-nos--o que nao pode ser senao por escarneo--que ella
+_andou!_? Olha a grande facanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
+trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
+correr, correr a sete pes, e trazer de la para esse fim cinco pernas a
+maior do que as que levou!
+
+Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
+lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaro que lhe fazia o
+milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
+opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
+sua devida altura, que o homem nao so principiasse a ver pelos olhos mas
+que visse tambem por outros membros.
+
+Isso entao ja valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
+a _Nacao_ o publicasse em telegramma: "O padre cego appareceu-lhe um
+olho em cada buraco do nariz e esta-lhe a vir outro na cova do ladrao,
+pelo qual ja le as suas rezas de costas na cama com o breviario por
+baixo do travesseiro. A paralytica ja deitou seis pernas novas e esta
+com dois grandes furunculos nos hombros: suppoe-se que sejam as azas a
+romper. Quando se lhe espremem os carnicoes bota pennas. Infinitos
+louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cor dos voadouros
+vemos que a paralytica nos sae pedrez!"
+
+Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
+ordem, porque os ha muitos maiores.
+
+ * * * * *
+
+Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
+coisas ao pe das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito e zero.
+
+O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doencas,
+das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
+balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que nao podemos por em
+duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
+demonstrada por casos de protecao, de conversao e de curas miraculosas_,
+pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
+Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
+exemplos.
+
+Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botao
+dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
+das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
+emquanto caem e continuam a leitura em baixo, tracando a perna n'um
+estado do satisfacao ineffavel.
+
+O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreicao do Var, com um
+escapulario ao pescoco, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
+os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
+illeso. "Nao nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!" disse por
+essa occasiao um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
+
+No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lancar ao meio
+das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
+o escapulario encontrou-se intacto. "Apenas, diz o padre Huguet na obra
+citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco." (Pag. 17.)
+
+Um soldado na batalha de Novara ve cair em torno d'elle todo o
+regimento, elle e o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
+acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braco. (Pag.
+20.)
+
+Um desgracado, querendo suicidar-se, lanca-se ao mar quatro vezes
+consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o a praia, recusando-se
+obstinadamente a submergil-o. O desgracado recorda-se entao que traz ao
+pescoco um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
+o escapulario em terra. Foi somente com esta condicao que o mar se
+resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
+
+Alem de livrar de todos os perigos, sem excepcao, durante a vida, o
+escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
+
+O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Colleccao dos
+escapularios da Immaculada Conceicao, do Rosario, do Carmello, etc._,
+diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
+pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes sao
+arrebatadas pelos escapularios. Parece que nao ha dia em que um milhao
+de diabos nao roguem esta praga medonha:--Que nos levemos os
+escapularios!
+
+As approvacoes pontificaes de todos os papas, desde Joao XXII ate Pio
+IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
+
+O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
+para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
+perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
+arranje a morrer com o escapulario na sexta feira a meia noite, podem os
+facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hao de ver
+por um oculo!
+
+O uso do escapulario e extremamente commodo: nao obriga a encargos de
+nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
+da confissao e da communhao. Tambem nao priva o penitente de qualquer
+prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
+Guglielmi. O essencial e nao o tirar nunca, nem mesmo _quando
+voluntariamente se vae peccar_: e o que mais particularmente prescreve o
+dito padre Guglielmi.
+
+De todos os escapularios o que mais se recommenda a eleicao dos devotos
+e o do Sagrado Coracao de Jesus, porque este escapulario nem sequer
+precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
+seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
+seguinte: Sobre um pequeno retalho de la branca--retalho quadrado ou
+oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
+virtude--applica-se um coracao de flanella encarnada, bem talhado e
+cosido a pesponto, de modo que imite a coroa de espinhos acompanhada de
+algumas gotas de sangue bordadas a seda. Aparte, em uma tirinha de panno
+patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripcao
+sacramental: _Suspende! Esta comigo o coracao de Jesus_!
+
+Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
+d'estes escapularios, deital-o ao pescoco e ficar livre, para a vida e
+para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
+alto das torres, atirar-se as voragens do fogo e do mar, e metter-se
+debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, nao
+fara a _Nacao_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
+de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nacao_, o mais que faz e
+unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
+
+Ha umas tantas coisas que a _Nacao_ ate devia ter vergonha de as dizer
+... O que a _Nacao_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
+esse pescoco, para a _Nacao_ ficar entao sabendo o que sao milagres!
+Porque a _Nacao_ nao sabe o que sao milagres!
+
+Por o padre cego a ver e por a paralytica a andar nao passa de uma
+habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
+
+Vir a feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
+proposito para fazer perder a gente o gosto pelas devocoes ...
+
+Emquanto a nos o que a _Nacao_ tem e o espirito maligno no corpo do
+jornal! Cruzes, demonio!
+
+ * * * * *
+
+Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
+de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
+termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
+satisfacao a sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
+fadista. O que temos que perguntar e: Porque se nao prendem os fadistas
+todos?
+
+ * * * * *
+
+Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significacao analoga a
+esta--o _fadista_.
+
+Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
+constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
+dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
+feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
+fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
+toda a sua pureza esta raca de bravos de viella, sem officio nem
+beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
+frecheiros com as mulheres, soberboes e insolentes com os mesteiraes e
+com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursoes
+nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
+os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e acoitando
+os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
+adormecidos.
+
+Entre os alludidos fidalgos figurava como grao-mestre da ordem, como
+capitao da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmao
+do senhor rei D. Joao V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
+interessantissimo principe, cujas tropelias crearam, durante um seculo,
+em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
+conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
+divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
+navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
+mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcancar com
+um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
+seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
+sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
+despegara da verga, que dobara no ar por entre as enxarceas e caira por
+fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
+que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
+que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
+uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
+tarde, com a illuminacao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
+com a creacao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruacas, os
+combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razao
+biologica de que toda a forca organica que se nao exerce se elimina, o
+antigo valentao plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
+espirito da facanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
+vadiice, e tomou entao o nome de--fadista.
+
+O fadista nao trabalha nem possue capitaes que representem uma
+accumulacao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploracao do
+seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
+elle espanca systematicamente. Nao tem domicilio certo. Habita
+successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
+esquadra da policia. Esta inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
+noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. E um anemico, um covarde e
+um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito e concavo, os bracos sao
+frageis, as pernas cambadas, as maos finas e pallidas como as das
+mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
+enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
+de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
+guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
+grande navalha de ponta e triplice calco na mola. E habitado por uma
+molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
+constituicao normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
+um soco. Elle sente isso e e traicoeiro pelo instincto do inferioridade.
+Nao ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
+obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
+agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
+Nao ha senao uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
+bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
+guitarra debaixo do braco substitue n'elle a espada a cinta, por meio da
+qual se acamaradavam com a nobreza os pimpoes seus ascendentes do seculo
+XVI. E pela prenda de guitarrista que elle entra de gorra com os
+fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
+Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
+onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
+composto de bacalhau e graos de bico polvilhados de vermelho por uma
+camada de colorau picante. Por effeito da tradicao na orientacao mental
+da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
+e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
+taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
+alcouces de Alfama, que sao levantados bebedos dos becos mal afamados,
+que fallam em calao e que fazem trocas no Colete Encarnado e na Perna de
+Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compoe-se hoje principalmente de
+jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
+pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educacao do
+lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
+mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
+fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
+de pandega. Usa como elles a bota fina de tacao apiorrado ou o salto de
+prateleira, a calca estrangulada no joelho e apolainada ate o bico do
+pe, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapeo arremessado para a nuca
+pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
+guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
+desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beico
+pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
+outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplacao
+imbecil; o tronco do corpo caido mollemente para cima do quadril; a
+perna encurvada com o bico do pe para fora; o _cachucho_ da amante
+reluzindo na mao pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
+mao na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeca alta,
+esticando as cordoveias do pescoco e entoando as melopeias do fado, em
+que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devocoes religiosas
+a Virgem Maria, com uma voz solucada, quebrada na larynge, acompanhada
+da expressao physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
+miseravel.
+
+De resto o fadista nao tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
+meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
+na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
+o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
+convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condicoes
+especiaes em que ama e e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
+restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
+todos os machos.
+
+ * * * * *
+
+E da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
+incorrigiveis da criminalidade.
+
+A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
+recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informacoes de um
+inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
+em tres cathegorias. A primeira cathegoria e composta de individuos que
+verdadeiramente nao deveriam ter entrado nunca na prisao. Sao lancados
+nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
+ou de caracter, a qual nao obsta a que elles tenham uma moralidade tao
+sa como a de qualquer de nos. A segunda cathegoria pertencem individuos,
+mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
+immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
+tornarem bons ou maus segundo a direccao que recebam. A terceira
+cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, e rebelde
+a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
+conselhos. Para estes a cadeia e um logar improrio; seria preciso
+confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
+nao fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
+inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
+grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado nao teria
+senao proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
+presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
+conviria principalmente dar instraccao; emquanto aos terceiros o melhor
+expediente seria a morte.
+
+E util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
+
+E ou nao e da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
+criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
+incorrigibilidade e em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
+repetidos?
+
+A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
+
+E.
+
+N'este caso pergunta-se:
+
+Pode a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
+continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
+uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
+os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
+justica mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
+
+Nao. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
+que o Estado e cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade e
+irresponsavel da perversidade individual, nao succede o mesmo, e a
+sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que e ella que sustenta, ao
+abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
+manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
+
+Dado o fadista, a sociedade nao pode certamente evitar o criminoso. A
+sociedade porem pode evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
+inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
+instituicao concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.
+
+Desde que um cidadao deixe de poder explicar unicamente pelos
+supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
+Estado tem o dever de o prender, nao para encarcerar mas para coagir ao
+trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
+cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
+
+ * * * * *
+
+O mais perigoso de todos os animaes vadios e o homem. Comparado com elle
+o cao, ainda quando damnado, pode-se considerar inoffensivo. E todavia a
+policia, que tem para o cao que ainda se nao damnou as precaucoes da
+rede e da carroca, nao tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
+contagio, senao um expediente repressivo: o de lhe archivar a
+photographia no commisariado geral.
+
+Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
+de garantir a seguranca publica: tire o retrato aos caes e deite a rede
+aos fadistas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
+do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legioes
+contrarias, arrojaram-se encarnicadamente uns sobre os outros,
+esmurraram-se, esguedelharam-se, cuspiram-se na face em odes,
+acoitaram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
+viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regioes
+lombares das musas.
+
+Mysterio sobre as causas que moveram tao crua guerra entre duas escolas
+poeticas alias tao pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
+ellas existissem: a escola da _Idea Velha_ e a escola da _Idea Nova_!
+
+ * * * * *
+
+Os da Idea Velha dizem que nao ha nada como a idea d'elles. E fundam-se
+para isto em que e uma idea solida, experimentada, garantida.
+
+O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
+encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
+annos.
+
+Ergueu-a do chao como morta, chuchada, espipada, moida pelas pegadas de
+duas geracoes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
+pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
+enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
+inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idea Velha por uma ponta e
+pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
+lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
+fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
+e levou-a comsigo a sociedade, onde a receberam bem. Cercaram-a varios
+outros nao menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
+que aquelle que a levantara do chao. Andou pelo braco de um e pelo braco
+de outro recebendo declaracoes de affecto e dadivas de amor. Mao tao
+dedicada quao firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
+Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
+spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, as solemnidades
+publicas, as casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
+agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
+_Grinalda_ e no _Almanach de Lembrancas_; dedicou versos a Lapa dos
+Esteios, a Stoltz e a Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
+concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
+as Gracas nas notas da versao portugueza dos _Fastos_. Foi da Assemblea
+da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
+_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmaram, para lhe serem
+agradaveis, o seu amor a lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
+finalmente nas altas regioes officiaes. Foi aos pacos dos nossos reis!
+De quando em quando observava-se que ella comecava de repente a
+encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fora
+insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
+era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
+fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opiniao,
+e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo a Idea Velha. O
+poder moderador, com a sua real coroa na cabeca e o seu real manto as
+costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
+Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
+achando-se tao chupados e tao desfallecidos como a propria idea que eram
+chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
+retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
+as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
+choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
+seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
+tinham tido a honra de bufar a mesma idea e pelo mesmo canudo que
+servira a primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
+estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assemblea da
+Galocha e os empregados publicos do Gremio nao o permitiam, e torcendo
+altivamente o bico das peras, diziam que a Idea se nao se podia por a
+merce da populaca infrene e ignara. Vivendo assim a custa do sopro dos
+poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
+conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
+Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
+Idea, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
+entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoco a
+condecoracao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
+ajoelhou-se-lhe aos pes e propoz-lhe leval-a as aras de Hymenen; ella
+porem, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
+exclusiva do vate. Este, de pura dor, pregou na parede um prego e
+suspendeu n'elle, por um laco de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
+
+Nos ultimos annos a Idea Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
+communicacao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
+Algumas pessoas devotas tinham-lhe ja resado por alma. Soube-se agora,
+com grande satisfacao dos que a conheceram no galarim, que a Idea Velha
+ainda esta viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
+onde nao ha outra idea de dentro para o servico da familia.
+
+ * * * * *
+
+Os da Idea Nova teem esta falha notavel: suppoem que a Idea velha
+vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
+que prepondera nos destinos do mundo, E veem-se mocos honestos e
+engracados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
+pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
+se fosse uma forca da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
+ha meio seculo nao passa do um artificio convencional e de uma
+superfetacao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
+nenhum dos interesses do espirito ou do coracao do homem no tempo
+presente.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_O Primo Bazilio_, novo romance de Eca de Queiroz, e um phenomeno
+artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
+obra e preciso discriminar o que n'ella pertence a jurisdiccao da arte e
+o que pertence aos dominios da pathologia social.
+
+ * * * * *
+
+Eis a doenca que este livro accusa:--A dissolucao dos costumes
+burguezes.
+
+O mais caracteristico symptoma d'esse mal e a falsa educacao. A educacao
+burgueza tem um defeito fundamental: mantem na mulher a mais terrivel, a
+mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
+No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
+apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
+ver porque.
+
+Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
+desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
+representacao da vida exterior e o systema da vida intima.
+
+Basta olhar de fora para as casas, basta considerar o aspecto exterior
+do templo para se fazer uma idea do que pode ser dentro o culto d'essa
+religiao--a familia!
+
+Comparem-se as nossas edificacoes urbanas, os casaroes da
+baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
+asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
+a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
+graciosas construccoes arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
+com o seu claustro interior, o poco de marmore ao centro do pateo, as
+galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
+pequeno jardim, que e o coracao da casa. Comparem-se com as sabias
+edificacoes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
+Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
+predios do bairro central de Lisboa ao pe dos novos predios de esquina
+de rua no Hanover. As novas casas allemas no stylo gothico francez,
+modificado segundo as exigencias da civilisacao moderna, sao obras
+primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensao da hygiene, da
+moral, da estetica; sao verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
+systema de educacao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cores,
+branca, cor de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terracos
+cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
+cantam os passaros, de balcoes em que desabrocham as flores sempre
+frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
+outros tantos ramalhetes, sao interiormente distribuidos do modo mais
+elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
+nobres prazeres da familia. A disposicao mais escrupulosamente estudada
+do salao, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
+todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
+luz e bom ar, permitte as mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
+activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
+
+As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
+parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
+verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguao sombrio e infecto,
+com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogao por baixo
+das cacarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
+rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
+queimada, sao os sepulchros da saude e da alegria.
+
+E n'essa serie de prateleiras, de gavetoes de familias, que se chamam os
+_Arruamentos da Baixa_, que e educada a lisboeta.
+
+Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
+recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observacao:
+
+"Noto um facto que me enche de perturbacao e de horror--n'esta cidade
+nao ha creancas."
+
+Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
+bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
+balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cor de palha,
+desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
+musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
+musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
+ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
+largo de Camoes, da praca das Flores, do Aterro: la encontramos
+effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas nao
+encontramos uma unica creanca, a cuja saude sua mae se tivesse
+sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaco de tempo a sua
+preoccupacao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
+com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
+seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
+fresco.
+
+Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
+frequentam as lojas ou fazem visitas, onde e que estao as creancas? As
+creanca estao dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
+proposito. Tomar proposito_ e uma locucao essencialmente local e
+intraduzivel, que quer dizer: aprender a nao saber andar, a nao saber
+rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
+instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
+menina so principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
+indispensavel para nao tagarellar imprudentemente, para nao contar que
+houve favas para o jantar ou que o papa ralhou com a mama. Haver favas
+para o jantar e ralharem o papa e a mama e de resto tudo ou quasi tudo
+quanto se passa em casa, porque nao ha interesses de espirito, nem ha
+instructivas occupacoes praticas. Falta o jardim, a grande escola da
+infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
+e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
+flores. Tambem nao ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
+jornal e os romances das traduccoes baratas. Nenhuma especie de estudo.
+Nenhuma applicacao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
+da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
+aprende o francez e o inglez. Esta educacao completa-se em casa
+ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educacao sao
+appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
+linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salao tocado no piano
+diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
+funccao sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
+suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
+jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
+Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Nao leu ou
+nao entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
+Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
+
+Nao a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
+completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
+phenomenos.
+
+Nao a distraem os interessantes cuidados do _menage_, porque da casa,
+assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
+nenhumas nocoes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
+das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
+actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tao
+moralisadores e tao attractivos, teem para ella o caracter de um mister
+gnobil, desprezivel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
+essencia da cozinha nacional, a discricao de uma criadagem villa, que
+retribue o desprezo de que e objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
+casa o que ella sabe unicamente e que ha duas ou tres salas de apparato
+que se mostram as pessoas de fora; um quarto mais ou menos infecto, uma
+possilgueirinha mobilada pelo Garde, em que ella dorme ate as dez ou
+onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que da
+respostadas; e uma latrina contendo um fogao em que por meio de varias
+borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
+
+Na religiao ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
+a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
+elegantes: as romagens a fonte de Lourdes; a oracao em frente da gruta
+no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
+de Roma; a contriccao aos pes do summo pontifice, coberta de renda
+preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
+do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
+orgaos solucam e o sol coado pelas vidracas coloridas se espelha nas
+couracas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
+desembainhadas. Presta ainda bastante consideracao as interessantes
+ceremonias da elegante religiao nacional, como a do Mez de Maria na
+bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas acucenas, fresquinha
+e graciosa, similhante a uma _bomboniere_, ou como a da Semana Santa nos
+Inglezinhos, a cuja _petite entree_ destinada aos intimos rodam os
+_coupes_ magnificos da piedade escolhida.
+
+Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
+seu _benitier_ barato; pelo Deus da procissao do Carmo e da procissao da
+Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
+arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
+tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella nao tem senao duvida ou
+desdem.
+
+Na moral as suas conviccoes baseiam-se em uma serie de principios
+theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
+contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusao: que o
+dever consiste na mais habil combinacao que se possa fazer d'essas
+theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
+resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
+sociedades corruptas:--o socego.
+
+Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto e, principia a
+ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
+os homens. Percebe entao vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
+regiao social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
+do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
+raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
+da _toilette_; com uma cabeca oca; n'um quarto que nao cheira bem; tendo
+um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcao, que pensa pela
+cabeca de um jornal barato e mal feito, e uma mae que se enfastia
+medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
+cntra o destroco dos annos e contra o preco crescente dos generos
+alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
+aguadeiro, ralhando com o marido.
+
+Principia entao a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
+domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
+quarto sem tradicoes, sem historia, como o de uma estalagem; o saguao
+infecto, onde zumbem no verao as grandes moscas gordas e pesadas; a
+cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
+cacarolas gordurosas e as loucas esbotenadas; a sala pretenciosa e
+inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
+arabes defronte do sofa, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
+retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
+de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordao no
+meio dos cortinados.
+
+Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinccao
+decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
+similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
+Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
+nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
+a sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
+mais simples, mais triviaes, e e para se dar um aspecto superior, para
+se encobrir do que e, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
+a respeito dos criados que nao tem, das visitas que nao faz, da opera
+que nao viu, dos livros que nao le, da modista a que nao vae, dos banhos
+que nao toma, dos jantares que nao come, das dignidades, das distinccoes
+ou do luxo que nao usa.
+
+Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
+romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas nao
+lhe sae o que quer: nao sabe organisar aprazivelmente a casa, nao sabe
+tornar encantadora a familia.
+
+Humilhada, infeliz, comeca a descorcoar a pouco e pouco da sua
+predestinacao superior. Sente que ha na sua constituicao moral uma falha
+da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiracoes.
+Nao se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
+serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que e o resultado da
+perfeita educacao.
+
+Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
+superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheca o facil
+processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella caira com uma
+simplicidade tragica.
+
+O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condicoes, e o
+dandy. Porque o dandysmo e a unica forma sob a qual a distinccao se lhe
+apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
+pensamentos tera para ella menos seduccoes do que uma cabeca bem
+penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
+uma fina risca cor de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
+espirito, nenhuma delicadeza de coracao, nenhuma virtude de caracter
+exercera sobre a imaginacaoo d'ella a fascinacao com que a subjuga a
+alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
+seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, sera
+aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
+jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
+se calcar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
+desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
+segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
+mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
+_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
+
+Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
+refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
+tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
+Franca, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando as penetrantes
+essencias de Lubin e a febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
+um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pes d'ella, para lhe dizer
+obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia as outras,
+_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
+suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
+seu joelho desformado pela falta de circulacao proveniente de um defeito
+caracteristico da sua raca, o defeito de nao saber atar as ligas; apezar
+ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
+espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
+do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
+nacional ... Se, apezar de tudo isso, tao desdenhoso, tao frio, tao
+gloriosamente corrupto, tracando a perna, descobrindo desleixadamente as
+suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
+encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
+attenciosa e benevola as scintillacoes do seu correcto _plastron_ de
+Poole, e as exhalacoes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
+cabello frisado a Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte nao
+sabera negar.
+
+ * * * * *
+
+Tal e o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
+medonho, tragico, sobre o qual Eca de Queiroz escreveu _O Primo
+Bazilio_, romance realista.
+
+Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma conviccao social, e e
+esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo nao tinha
+senao conviccoes esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
+espirito da sociedade que fez a Revolucao, que caiu no Imperio, que
+supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros nao pediam a arte de
+1830 senao uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas entao
+cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
+de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradicoes
+gothicas da edade media e fizeram uma restauracao litteraria e burgueza
+da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipacao
+da forma mais profunda indifferenca pela questoes sociaes do seu tempo.
+Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
+atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
+phylanthropos.
+
+A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. E uma
+sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
+pontos da sua peripheria ate as mais reconditas intimidades do seu ser.
+Esta reconstituicao nao se esta fazendo empyricamente pela revolucao ou
+pela sentimentalidade, esta-se fazendo scientificamente pela
+convergencia harmonica de todos os esforcos intellectuaes sobre o mesmo
+problema. Comprehendeu-se que sao solidarios todos os estudos, os do
+mundo inorganico e os do mundo organico; que sao correlativas todas as
+leis desde a da indestructibilidade da materia ate a da evolucao social;
+que finalmente se nao pode chegar ao conhecimento positivo de nenhum
+phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
+integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle e o elo que
+prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
+
+N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tao estreita,
+que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
+dos ramos da sciencia se reflecte na direccao de todo o trabalho mental
+em qualquer das suas manifestacoes, dando por exemplo a theoria
+zoologica da adaptacao ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
+dizemos, a arte nao pode deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
+trinta annos. Esse papel e-lhe imposto fatalmente pela nova orientacao
+mental da sociedade. A arte moderna nao pode ja hoje basear-se em
+risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
+e para que tenha a importancia de um agente da civilisacao, em factos de
+caracter scientifico, isto e: em factos que sejam a funccao de leis
+sociologicas. Queremos factos, nao queremos exclamacoes: _Res non
+verba_.
+
+Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepcao litteral, que
+se tirou a designacao _realismo_.
+
+Chamar realismo ao que e puramente grosseiro, ao que e descarado, ao que
+e torpe, e calumniar o dogma. Uma obra de arte pode conter o maximo
+numero de torpezas e de obscenidades e nao deixar por isso de ser
+simplesmente lyrica.
+
+O _Primo Basilio_ e um romance realista porque e a representacao de um
+facto social visto atravez de uma conviccao scientifica. Luiza, a amante
+do primo Basilio, e a personificacao tremenda da tendencia morbida de
+uma epoca. E e n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
+Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
+dos livros no premio que n'elles se concedia a virtude e no castigo com
+que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
+afflictiva e um facto accessorio, que nao conteria senao esta moral
+negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
+morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
+cartas.
+
+A moral d'este livro nao esta em que a prima de Basilio morre depois da
+queda; esta em que ella--_nao podia deixar de cair_.
+
+Reconhecemos que esta moral e pouco accessivel a maior parte das
+comprehensoes. Esse e o grande mal do livro, ou antes esse e o grande
+mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppoe um
+estado de civilisacao artistica e litteraria superior a que existe na
+sociedade portugueza. Suppoe manifestacoes parallelas nas applicacoes da
+philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construccoes, na
+hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituicoes, na
+critica dos costumes, na propria critica da arte.
+
+Ora essas manifestacoes nao existem por emquanto n'um estado de
+vulgarisacao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
+dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
+_Primo Basilio_. A sociedade portugueza nao comprehendeu ainda de um
+modo collectivo e solidario, que e urgentemente indispensavel por todas
+as manifestacoes do pensamento proceder a reconstituicao da educacao
+burgueza.
+
+De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, a mulher nossa
+contemporanea: "Eis--aqui esta o modo pavorosamente simples como tu te
+rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens",--parece um
+insulto aquellas que sao as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
+companheiras de trabalho, as nossas maes, as nossas irmas, as nossas
+filhas. Essa affirmacao, porem, deixaria de ter um caracter
+apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
+
+"Eu nao sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenco. Sou
+uma parte d'essa legiao de trabalhadores dedicados, profundamente
+honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
+ambicao heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
+minha qualidade de artista, a ti mulher que me les, o mais que eu posso
+fazer e commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
+problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
+com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
+romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
+alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereco-t'o eu tal como
+elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
+asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
+meio forcado das gales, friamente calculador, sovina, absolutamente
+podre. E e esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
+em preconceito, de erro em erro, es trazida, atravez de todos os
+elementos que constituem a falsa educacao que te deram, a admirar e a
+proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
+pertenco ha uma religiao, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
+um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
+convergentemente estarao n'este momento--no momento em que eu tenho a
+concepcao artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
+influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
+amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensao nova, assento
+em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. A religiao
+compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
+demittir-se da solucao do teu problema. A politica, emprehender a
+reforma das instituicoes em vista do teu aperfeicoamente. A moral,
+fazer-te comprehender a nocao da justica. A sciencia, o determinar com a
+maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
+applicacao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. A critica,
+finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porem, nao me competia
+como artista senao uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
+these, fazel-a viver na maxima elevacao esthetica: porque meio? por meio
+da mais perfeita forma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz."
+
+Se com a natureza essencialmente artistica de Eca do Queiroz fosse
+compativel a humildade de uma explicacao n'essas bases, o seu livro
+teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
+artista tem a obrigacao de se nao explicar,--o que seria invadir uma
+funccao alheia na justa divisao do trabalho intellectual moderno. Ha um
+gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
+religiao do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
+como o philosopho deve ser indifferente a theologia, o artista deve ser
+indifferente a opiniao. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
+se por um lado e a condicao essencial da sua missao perante a pura arte
+e perante a pura philosophia, por outro lado ella e a principal causa de
+ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
+a comprehensao dos espiritos e a satisfacao das consciencias.
+
+Taes foram as razoes porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
+_Primo Bazilio_,--uma tao perfeita obra, que a consideramos como sendo
+uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
+gloriar uma litteratura--nos fizemos esta prophecia: Que este livro
+seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados a
+observacao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
+biologia, instrumentos inuteis--as vezes perigosos--para todo aquelle
+que nao tem a sciencia de os por em exercicio e de ver por elles a
+divina revelacao de um novo mundo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
+Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
+
+"Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
+de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
+desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
+exclamou:--Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta!"
+
+ * * * * *
+
+O _Diario Illustrado_ nao ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
+Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
+_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._
+
+Ora este caso nao se pode deixar assim envolvido na duvida. Sao
+historicas as palavras do sr. Sampaio ou sao puramente uma legenda das
+montanhas, inventada pela imaginacao supersticiosa dos pastores dos
+carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
+de Tarbes? Pode o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
+a authenticidade d'aquellas expressoes? Foi effectivamente o sr. Sampaio
+que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
+Nao seria antes algum dos outros heroes ja celebres na historia da
+cordilheira dos Pyreneus? Nao seria o paladino Rolando, sobrinho de
+Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
+Durindana na batalha de Roncesvalles? Nao seria o proprio Carlos Magno?
+Nao seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
+Champagne? Nao seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
+da belleza da paizagem, entre os valles de Bareges e de Bagnere?
+
+Esta o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
+tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeca do
+sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
+quem, depois de jantar, a janella da hospedaria, palitando talvez os
+dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
+dizeres?
+
+Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.
+
+Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
+effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assas
+convicto em suas crencas, assas profundo em suas vistas e assas firme em
+suas resolucoes, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
+jantar:--_Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
+phrase nao e uma ficcao, se ella existe realmente fora do estado
+abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz nao pode cruzar
+os bracos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tao lucida como a
+que o _Illustrado_ cita marcou a differenca, toda favoravel a nossa
+patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
+ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
+seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
+especial:
+
+1.º Rir atraz da procissao dos Passos.
+
+2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
+viajante.
+
+3.º Nao ter dado pateada a um lente.
+
+4.º Parecer constrangido a dar licao.
+
+5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+Os alumos condemnados pela perpetracao dos delictos 1, 2, 3 e 4
+appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
+expulsao temporaria em alguns dias de cadeia.
+
+Procedendo d'essa forma o Poder Moderador nao tomou em consideracaoa
+necessidade de fazer proceder a revisao da legislacao academica. O Poder
+teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sancao dos regulamentos
+universitarios as familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
+mostrou ter um coracao do excellente rapaz alliado a um cerebro de
+legislador mediocre.
+
+ * * * * *
+
+Esta pendente da confirmacao regia, segundo nos consta, a pena imposta
+aos reus do crime n.º 5, julgados ja segundo o direito commum e
+absolvidos pelos tribunaes civis.
+
+N'esta conjunctura perguntamos:
+
+E admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
+de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadaos de
+uma certa classe estejam sujeitos por uma legislacao especial a serem
+julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punicoes em vez de
+uma, se as duas sentencas forem conformes; ou sendo simultaneamente
+tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentencas forem
+contrarias?
+
+Responder-nos-hao que o tribunal academico julga de circumstancias
+especiaes que nao sao submettidas a apreciacao dos tribunaes ordinarios?
+
+Mas n'esse caso o tribunal academico com relacao ao crime de que se
+trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
+
+Como tribunal escolar a Universidade cabe apenas decidir se o facto de
+sovar um futrica obsta a que se aprenda uma licao.
+
+Com tribunal de honra a Universidade precisa de nao perder de vista que
+quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapes, o deshonrado
+nao e propriamente quem os da, e por via de regra quem os recebe.
+
+Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questoes
+d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltroes e de
+covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
+que ainda possa haver na mocidade portugueza.
+
+Todo o homem que se nao acha devidamente temperado na sua natureza
+physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
+com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, e um homem
+corromido, sem o sentimento do respeito devido a dignidde da sua
+especie, atreito as paixoes mesquinhas, com manhas de reptil.
+
+ * * * * *
+
+Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
+sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
+systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
+honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameacas da
+forca alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
+
+Se porem a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
+cidadaos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
+sempre da instauracao de processos ridiculamente pueris, requerendo das
+cortes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
+atrophiar no coracao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
+naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
+velha troca academica por meio da instituicao de exercicios viris,
+proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
+escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.
+
+
+ * * * * *
+
+
+No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
+Deus segundo Taine e um personagem official com os seus cortezaos e os
+seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
+Providencia n'um discurso da coroa o chefe do estado fez novo discurso
+para prehencher essa omissao,--na velha, na religiosa, na solemne
+Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocucao
+presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
+seguintes:
+
+"Dir-me-hao que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
+das religioes e comprehendendo os dogmas da theologia e a crenca no
+livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
+fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
+perverso sem esperanca, o coracao do homem, dir-me-hao que se fossem
+abolidas as sanccoes theologicas a raca inteira se modelaria por alguns
+exemplos de depravacao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladroes e
+assassinos. Porque e so o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
+medo, nao conheceriamos mais do que o instincto natural e
+desconheceriamos o dever.
+
+"Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
+conclusoes. O scelerado nao e em minha opiniao a imagem da humanidade.
+_Bebamos e comamos porque temos de morrer amanha_ nao e a consequencia
+ethica da regeicao dos dogmas.
+
+"As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos sao taes que nenhum
+christao se envergonharia de as professar, e nenhum christao as censura
+senao desde que conhece a origem de que ellas procedem.
+
+"Reconheco de todo o coracao e sou o primeiro a admirar a irradiacao
+espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religiao produz na vida de
+varias pessoas que conheco. Mas nao posso tambem deixar de confessar que
+muitas vezes a relligiao passa por estrondosas derrotas ao procurar
+produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeao da religiao e
+frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differencas
+procedem de distinccoes primordiaes de caracter que a religiao e
+insufficiente para nivelar.
+
+"Da uma verdadeira satisfacao o sabermos que existam no nosso gremio
+homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
+e cuja vida, nao obstante, experimentada na pedra de toque de uma
+moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
+d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designacao offensiva.
+
+"Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
+aquelles termos, nao que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
+comparados a muitas nocoes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
+em si um caracter offensivo.
+
+"Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel a
+sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
+eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
+cidadao justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
+atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tao firmes na
+morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles nao esperavam a coroa
+celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tao
+zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
+emprego dos seus ultimos momentos."
+
+Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
+e christao, o outro nao.
+
+O christao e Faraday, que Tindal considera um modelo da associacao da fe
+religiosa com a elevacao moral. O seu caracter e o mais proximo da
+perfeicao. A religiao era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolacao
+dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
+peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
+comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
+delicada flor da cavalleria.
+
+O que nao e christao chama-se Darwin. Nao tem o ponto de vista
+theologico nem a commocao religiosa que constituiam um tao poderoso
+agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeicao moral de
+Faraday. "O sr. Darwin, diz Tyndal, e uma natureza candida e simples, um
+caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
+e o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tao docil as ordens da
+verdade como o patriarcha antigo as ordens do seu Deus."
+
+ * * * * *
+
+Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
+verdade, de justica e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
+de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
+exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente a cultura da
+intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
+moral independente de toda a especulacao theologica. Que fecunda these
+para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
+presente dos espiritos, em que as conviccoes do homem estao geralmente
+em contradicao com as crencas da esposa e da filha, e em que tao
+necessario se torna portanto a harmonia moral da familia o principio
+fundamental da conciliacao das consciencias!
+
+ * * * * *
+
+Na reuniao do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
+mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
+Haute-Saone, expoe com uma concisao profundamente lucida as causas que
+determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
+tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
+escravisados pelos poderes clericaes.
+
+Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
+aos esforcos do obreiro comeca lentamente a operar-se: os trigos
+crescem. Crescem em virtude de que lei?
+
+Tal e a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
+respondem aquelles que sao encarregados de o instruir e de o educar. A
+nocao que elle recebe acerca do modo como o trigo cresce torna-o
+fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
+embair. Qual e o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio e
+ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
+operario acrescenta:
+
+"Faz-se geralmente crer ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
+desenvolvem em resultado de uma forca cuja paternidade vem de Isis, ou
+de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
+crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora e o deus de
+Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
+amadurecer nas mesmas condicoes em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
+dos successivos templos e das successivas religioes em nada tem alterado
+as leis da natureza. E todavia da-se por toda a parte o mesmo estado de
+coisas: O indio cre que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
+ve nos seus o grande Todo. Em outros sitios e Budha. Para os gregos e
+para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia e o grande Lama. Na
+Africa e a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
+
+"Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporacoes de
+sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
+Respondeis-me que e impossivel. E effectivamente impossivel, o que e de
+certo uma desgraca! Esse porem e o facto historico, que nao podemos
+deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
+sobre as questoes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
+geracoes.
+
+"E a guerra, e a guerra de religioes. E tempo de lhe por um termo. E
+tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
+legislacao humana e a moral universal."
+
+ * * * * *
+
+Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
+do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestoes de ideas e de
+principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
+Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
+conviccoes de sciencia ou de simples bom senso sao consideradas
+perigosas e banidas das discussoes publicas.
+
+Debalde a historia da civilisacao ingleza n'este seculo nos demonstra
+que a tolerancia absoluta na manifestacao do pensamento e a primeira
+garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
+das ideas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
+evitando assim que a orbita das applicacoes praticas seja invadida pelos
+principios que nao foram d'ante mao sanccionadas na opiniao e pelas
+reformas que ella nao exigiu em nome de novas necessidades provenientes
+de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal e o
+methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbacoes graves
+que a impaciencia dos reformadores, nao experimentada na pedra de toque
+de uma discussao liberrima, lancou na vida pratica de outras nacoes,
+como succedeu em Franca depois do segundo imperio, que corrompia todos
+os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
+esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
+
+Em Portugal essa importante licao tem sido absolutamente esteril.
+
+Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
+mostraram uma ligeira tendencia para produzir ideas, o governo sem
+nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
+
+Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
+manifestar posthumamente as suas ideas solicitando para os seus
+cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
+todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
+vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
+morto.
+
+Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
+expoem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
+physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
+facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepcoes
+theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
+a impunidade d'esses professores, dizemos, nao se deve attribuir a
+tolerancia philosophica do poder. Ella e simplesmente o
+resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos servicos
+publicos.
+
+Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
+professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
+vergonhosos e mais crassos alheios a doutrina dos programmas. Ha lentes
+que estao acima da lei pela mesma razao que ha outros que estao abaixo
+d'ella:--por falta de inspeccao e de policia.
+
+Um facto recente da-nos a prova mais cabal de que o estado nao e
+solidario nos progressos scientificos da nacao, e que estes se operam
+nao sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
+intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
+armam.
+
+Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
+dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruccao primaria!
+
+Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
+mais mocos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
+
+"_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessao, publicado do
+_Jornal do Commercio_), _nao e adversario do desenvolvimento da
+instruccao primaria, porque nao deseja que continue a subsistir o estudo
+de ignorancia do nosso povo, onde a proporcao dos que sabem ler e de 1
+para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., e de 1 para 6.
+Mas nao deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
+Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
+tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
+proprio. Pode haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
+e temente a Deus, que nao queira mandar o seu filho a uma escola cujo
+mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
+maiores glorias, embora a instruccao estivesse pouco diffundida, a nacao
+portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; nao pretende dizer com
+isto que deixe de se derramar a instruccao, porque tambem e apostolo
+d'esta idea, mas quer que essa instruccao seja ao mesmo tempo moral e
+religiosa."_
+
+A affirmativa de que a nacao portugueza attingiu um alto grau de
+prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instruccao
+estivesse pouco diffundida_, e um erro de historia que o nobre conde
+quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
+nao e pelo excesso de instruccao em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
+deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior nao podia realmente
+ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
+portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
+foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
+
+Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
+quer achar a differenca que distingue esse tempo do tempo actual,
+compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Braganca.
+
+D. Joao I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
+litterato. Teve a honra de hospedar na sua corte o grande pintor
+Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle so
+para formar a educacao esthetica de um povo do que dez universidades e
+vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
+artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
+Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da corte
+portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
+em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
+vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
+
+Dos filhos de D. Joao I um e o infante D. Duarte, o creador da primeira
+bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
+Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
+partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
+mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
+Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernao Lopes. O
+ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
+navegacoes, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
+mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
+sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal e o
+senhor D. Augusto, conhecido de todos nos por o termos visto passar no
+Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
+hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
+nacional, que o acompanharam e que fizeram grande impressao na City,
+onde os tomaram por duas vaccas sem pernas. Eram os baus de sua alteza,
+feitos na rua dos Correeiros.
+
+Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
+Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhaes, Diogo Cao, Pedro da Covilha,
+Gaspar Corte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
+exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
+Henrique e seus irmaos souberam attrair a Portugal, que procederam
+escriptores como Fernao Lopes, Gomes Annes de Azurara, Gil Vicente, Joao
+de Barros, Damiao de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camoes, talvez o
+mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
+hoje, a nao ser por influencia de alguns professores precitos e
+apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
+official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
+que vao para administradores de concelho ou para amanuenses de
+secretaria.
+
+No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
+instruido. E certo que nao sabia ler. Mas saber ler nao constitue
+propriamente instruccao, mas sim um dos meios de instruccao. Ora o povo
+dispunha entao de outros meios superiores a leitura. O marinheiro e o
+soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
+confeccao das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
+Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
+de entao nao sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
+fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
+tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
+mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pode gloriar a
+litteratura de uma nacao.
+
+A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
+instruccao! E conclue d'esse absurdo que um povo pode attingir a
+prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
+accumuladas contradicoes do seu texto, em que s. ex.ª ora e apostolo da
+instruccao, ora e apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
+seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porem, conclue a sua notavel falla
+mandando para a mesa o seguinte additamento a lei que se estava
+discutindo:
+
+_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
+ensinar ou inculcar doutrinas contrarias a religiao catholica, a moral,
+a liberdade e a independencia patria sera demittido nos termos d'este
+artigo, independente da accao criminal que deva ser intentada. Os paes,
+tutores ou pessoas encarregadas da sustentacao e educacao das creancas
+podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
+professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.
+
+Eis ahi o que se nao admitte, porque esta disposicao legislativa
+proposta por s. ex.ª produz a fixacao legal dos seus principios a
+respeito da instruccao, isto e: que deve haver instruccao e ao mesmo
+tempo que a nao deve haver. Nao e outra coisa senao eliminar a
+instruccao, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
+de processo e demissao immediata do professor, aos principios da
+religiao catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tao
+profundo abysmo entre a concepcao theologica e a explicacao scientifica
+dos phenomenos do universo, que toda a conciliacao e hoje impossivel
+entre o mestre e o padre. Nao duvidamos que o christianismo possa ainda
+reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
+e definitivas conquistas do entendimento humano. O que e certo porem e
+que a direccao reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
+desde a Reforma ate hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
+aspiracao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
+sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
+interesses oppostos e impossivel. Pedimos licenca ao sr. conde do Rio
+Maior para lh'o provar.
+
+Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que e o diluvio
+universal, que lhe pergunta qual e a idade da terra, que lhe pergunta o
+que e o homem pre-historico, o que sao as florestas carboniferas, o que
+e o arco-iris, o que e o para-raios, o que e transformacao das especies,
+o que e a Torre de Babel, o que e o Eden; supponhamos que o alumno faz
+ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
+formular acerca das affirmacoes da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
+A essas perguntas o mestre nao pode responder senao com o erro ou com a
+heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptaram a sua
+emenda a lei da reforma da instruccao portugueza desejam que o mestre
+responda pelo erro.
+
+Mas isto e peior do que por de parte a sciencia; isto e, recebel-a para
+a contradizer e para a destruir; isto e converter a ignorancia publica
+em uma instituicao do Estado.
+
+Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, a luz de uma
+lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
+disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
+apagou-lhe a lanterna.
+
+Quem foi que deixou no mundo esta licao?
+
+Foi o theologo.
+
+Um povo ignorante e um povo em trevas, cuja lanterna e a instruccao. O
+legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz e o sr. conde
+de Rio Maior.
+
+ * * * * *
+
+Notemos porem um facto consolador:
+
+O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
+sensivel diminuicao de forca. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
+de um velho sangue que se decompoe e se dessora. A idea que elle tem no
+cerebro e uma idea que se extingue.
+
+Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
+para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissao
+do professor e o processo pelos tribunaes civis.
+
+Inclinemo-nos diante de tao manifesta mansidao!
+
+Nos fins do seculo XVI o _pendao da santa doutrina_, um lugubre pendao
+negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
+fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era entao o professor idealisado
+pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
+argumentando a doutrina christa a este povo. Todas as mulheres e todas
+as creancas saiam as portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pes do
+tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
+amortalhada de negro, de cruz alcada, tangendo uma campainha, como quem
+leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
+pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
+tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
+methodos porque se mortificam os impetos da carne.
+
+Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
+os estudantes a missa, do que colhiam nas sacristias uma certidao sobre
+a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
+
+Hoje a parte disciplinar da nossa educacao religiosa caiu com o pendao
+negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinaria, resta apenas a
+cartilha de Padre Mestre Ignacio.
+
+E e sobre essa cartilha solitaria, em torno da qual cairam dissolvidas a
+uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
+instituicao civil, e sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
+sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
+portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
+ensino publico de uma nacao!
+
+ * * * * *
+
+Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ nao cessam de elevar
+aos ceus em todas as manhas e em todas as tardes:
+
+_Meu Deus, tornae ridiculos os nossos inimigos!_
+
+O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
+instruccao indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
+oracao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
+_Farpas_, um cirio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Fevereiro a Maio 1878
+by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+***** This file should be named 13093.txt or 13093.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
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