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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:41:20 -0700 |
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PROUDHON + + + + +SUMMARIO + +Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados: +de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O +caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A +gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, +Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da +raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela +mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos +pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre +não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que +ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A +criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse +personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A +ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus. +Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem +os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei +da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle +carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A +educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A +covardia, instituição publica, etc. + +Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como +pertencendo a duas classes distinctas: + +1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade; + +2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos +Estados. + +Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito +absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, +isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento +intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua +organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é +convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão +os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas +civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes +ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das +communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc. + +Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no +periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em +toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., +tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que +nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um +regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da +vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser +collectivo. + + * * * * * + +A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita +demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes. + +Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios +repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a +punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares, +distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses +feridos pela perpetração do delicto. + +É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade, +unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do +commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois +interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas; +ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, +pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem +arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por +conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de +vingança. + +Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a +forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha +muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os +politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que +crimes, são verdadeiros erros!» + +Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido +pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas +sancções penaes. + + * * * * * + +Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de +Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos. + +No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres +crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por +meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos +tres cumplices e conniventes no crime de cada um. + +Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes +attentados e despedindo os reos em paz! + +No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter +falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do +recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a +oito annos de degredo para a costa ds Africa! + +O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A +sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga. + +O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A +sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo. + + * * * * * + +Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus +co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com +o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma +iniquiedade monstruosa. + +O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a +oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um +regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento +do serviço militar. + +O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta. +Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver +intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses. +Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave +crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o +da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o +facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um +interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas +as sociedades teem em que deixe de haver militares. + + * * * * * + +O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o +punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se +estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos +analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á +civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do +militarismo e da guerra. + +Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram +punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira +ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos: + +Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma +vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os +mortos. + +Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para +todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_ + +Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam +substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas +alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, +convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos +instrumentos da perpetuidade da raça. + + * * * * * + +Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade +os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos +unicamente á sociedade os nossos cumprimentos. + + + * * * * * + + +Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção +primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da +gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a +gymnastica tinha um caracter immoral. + +S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes +do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com +pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos +e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E +comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que +ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um +dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e +obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço +que medeia entre o tapete e o lustre. + +Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais +directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades +da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s. +ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_ +mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_. + + * * * * * + +Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto +orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do +nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração +dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem +mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na +escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios +racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá +chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto +correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de +s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico. + + * * * * * + +O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da +gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas +mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente +frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se +conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos +acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em +sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja +à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente +depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias +dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno +procere um tão ligitimo horror. + + * * * * * + +A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e +perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso +organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas +mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de +todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de +manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse +exercicio regular e methodico chama-se gymnastica. + +Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se +hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do +sangue atravez da rede dos nervos encephalicos. + +Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os +phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a +loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com +mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um +apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de +que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes +revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa +para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de +actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações, +todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de +cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da +circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as +alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande +Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos +de cura de alienados pela transfusão hypodermica. + +Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e +regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade +central, é a gymnastica. + +O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito +em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.» + + * * * * * + +Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á +indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver +apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma, +frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na +diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais +segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio +para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O +doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de +gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas +observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por +effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a +densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de +exercicio. + + * * * * * + +Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em +Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da +gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media +a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo +doutor Burq. + + * * * * * + +A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a +densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos +exercicios gymnasticos. + + * * * * * + +A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude +desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos +tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão +respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem +directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso +modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso +organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades +hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica. + + * * * * * + +Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar +que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que +constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O +doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a +exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da +jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um +methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido +equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos. + + * * * * * + +Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em +favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos +senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos +mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo +assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua +constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os +ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, +de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos +nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a +gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a +obesidade e contra a idiotismo. + + * * * * * + +Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo +sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica +previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que +gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as +duas casas do parlamento. + +Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os +exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia +para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por +todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova +quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas +ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se +introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que +n'aquellas em que a gymnastica não existe. + +Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, +esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um +artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes +em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem +gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas. + +O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser +obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por +que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque +presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma +mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do +pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da +felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do +nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome +d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a +erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a +desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos +seguintes movimentos: + +Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100 +vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e +sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros +(100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar +fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª +reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a +meditar sobre a felicidade da patria. + +No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor +perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão +mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois +não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada +reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o +sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios +indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios +seguintes: + +Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e +tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim +(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o +limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de +quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos). +Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e +continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete. + + * * * * * + +Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto, +n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da +gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo: +Velar-lhe a face! + + + * * * * * + + +A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre +cego já vê, a paralytica já anda_. + + * * * * * + +Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento +nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como +esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de +cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, +foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, +que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a +reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para +os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito +obrigado! muito obrigado pelo seu favor! + +A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que +collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação +restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de +indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que +lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções +locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a +auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos +resultados obtidos pela romagem. + +Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e +na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a +agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas +vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?! + +Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma +enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com +que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa +locomotores com agua das latas?! + +E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento +para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes, +chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do +largo de S. Roque? + +E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella +_andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido +trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era +correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a +maior do que as que levou! + +Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos +lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o +milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado +opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na +sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas +que visse tambem por outros membros. + +Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que +a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um +olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão, +pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por +baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está +com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a +romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos +louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros +vemos que a paralytica nos sae pedrez!» + +Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda +ordem, porque os ha muitos maiores. + + * * * * * + +Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se +coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero. + +O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças, +das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das +balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em +duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario +demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_, +pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et +Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos +exemplos. + +Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão +dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto +das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar +emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um +estado do satisfação ineffavel. + +O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um +escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato +os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica +illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por +essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21) + +No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio +das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e +o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra +citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.) + +Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o +regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e +acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag. +20.) + +Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes +consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se +obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao +pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado +o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se +resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.) + +Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o +escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte. + +O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos +escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._, +diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, +pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são +arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão +de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os +escapularios! + +As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio +IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios. + +O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir +para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle +perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que +arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os +facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver +por um oculo! + +O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de +nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, +da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer +prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º +Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando +voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o +dito padre Guglielmi. + +De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos +é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer +precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle +seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo +seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou +oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a +virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e +cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de +algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno +patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção +sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_! + +Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um +d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e +para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do +alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se +debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não +fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos +de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é +unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos? + +Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer +... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a +esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres! +Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres! + +Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma +habilidadesita mediocre, um bocadito de geito! + +Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de +proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ... + +Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do +jornal! Cruzes, demonio! + + * * * * * + +Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos +de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu +termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de +satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um +fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas +todos? + + * * * * * + +Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a +esta--o _fadista_. + +Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, +constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende +dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame +feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com +fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em +toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem +beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, +frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e +com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões +nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando +os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando +os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e +adormecidos. + +Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como +capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão +do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse +interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo, +em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, +conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos +divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um +navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser +mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com +um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o +seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando +sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se +despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por +fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o +que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e +que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos +uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais +tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e +com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os +combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão +biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o +antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o +espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da +vadiice, e tomou então o nome de--fadista. + +O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma +accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do +seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que +elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita +successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na +esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas +noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e +um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são +frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das +mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e +enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e +de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma +guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a +grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma +molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de +constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com +um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade. +Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe +obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma +agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_. +Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a +bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A +guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da +qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo +XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os +fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da +Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, +onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe +composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma +camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental +da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se +e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga +taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos +alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados, +que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de +Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de +jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de +pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do +lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo +mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O +fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes +de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de +prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do +pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca +pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A +guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um +desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço +pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o +outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação +imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a +perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante +reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a +mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta, +esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em +que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas +á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada +da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e +miseravel. + +De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus +meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista +na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com +o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas +convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições +especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos +restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a +todos os machos. + + * * * * * + +É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os +incorrigiveis da criminalidade. + +A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia +recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um +inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir +em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que +verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados +nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo +ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão +sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos, +mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou +immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se +tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira +cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde +a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os +conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso +confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo +não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias +inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os +grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria +senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos +presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe +conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor +expediente seria a morte. + +É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa: + +É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos +criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja +incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos +repetidos? + +A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde: + +É. + +N'este caso pergunta-se: + +Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, +continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de +uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente +os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a +justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera? + +Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de +que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é +irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a +sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao +abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e +manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos. + +Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A +sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um +inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a +instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria. + +Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos +supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o +Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao +trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na +cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc. + + * * * * * + +O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle +o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a +policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da +rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu +contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a +photographia no commisariado geral. + +Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios +de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede +aos fadistas. + + + * * * * * + + +Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio +do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões +contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros, +esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes, +açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e +viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões +lombares das musas. + +Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas +poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que +ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_! + + * * * * * + +Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se +para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida. + +O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou +encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta +annos. + +Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de +duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e +pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam +enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e +inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e +pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois +lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro +fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot +e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios +outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do +que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço +de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão +dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela +Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em +spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades +publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com +agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na +_Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos +Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; +concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e +ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa +da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de +_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem +agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou +finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis! +De quando em quando observava-se que ella começava de repente a +encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra +insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e +era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se +fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião, +e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O +poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás +costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. +Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, +achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram +chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e +retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois +as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, +choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos +seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, +tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que +servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do +estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da +Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo +altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á +mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos +poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos +conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do +Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a +Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu +entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a +condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, +ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella +porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas +exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e +suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva. + +Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da +communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. +Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora, +com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha +ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares +onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia. + + * * * * * + +Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha +vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, +que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e +engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos +pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como +se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que +ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma +superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em +nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo +presente. + + + * * * * * + + +_O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno +artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta +obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e +o que pertence aos dominios da pathologia social. + + * * * * * + +Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes +burguezes. + +O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação +burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a +mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: +No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de +apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos +ver porquê. + +Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma +desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a +representação da vida exterior e o systema da vida intima. + +Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior +do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa +religião--a familia! + +Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da +baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais +asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda +a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as +graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, +com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as +galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o +pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias +edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da +Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos +predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina +de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez, +modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras +primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da +moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor +systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres, +branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços +cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se +cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre +frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de +outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais +elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos +nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada +do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de +todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa +luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa, +activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres. + +As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, +parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de +verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto, +com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo +das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos +rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema +queimada, são os sepulchros da saude e da alegria. + +É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os +_Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta. + +Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando +recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação: + +«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade +não ha creanças.» + +Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros +bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e +balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha, +desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os +musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os +musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, +ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do +largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos +effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não +encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse +sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua +preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou +com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o +seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe +fresco. + +Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa +frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As +creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem +proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e +intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber +rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres +instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A +menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito +indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que +houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas +para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo +quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha +instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da +infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, +e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as +flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do +jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo. +Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas +da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde +aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa +ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são +appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das +linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano +diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua +funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe +suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os +jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du +Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou +não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, +Michelet, Dickens, Andersen, Froebel. + +Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora +completamente as leis que regem o universo e que determinam esses +phenomenos. + +Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa, +assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem +nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia +das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da +actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão +moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister +gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a +essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que +retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da +casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato +que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma +possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou +onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá +respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias +borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa. + +Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que +a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias +elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta +no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro +de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda +preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo +do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os +orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas +couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas +desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes +ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na +bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha +e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos +Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os +_coupés_ magnificos da piedade escolhida. + +Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do +seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da +Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, +arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um +tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou +desdem. + +Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios +theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie +contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o +dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas +theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo +resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das +sociedades corruptas:--o socego. + +Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a +ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com +os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra +região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso +do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as +raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e +da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo +um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela +cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia +medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta +cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos +alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o +aguadeiro, ralhando com o marido. + +Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida +domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno +quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão +infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a +cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as +caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e +inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos +arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos +retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores +de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no +meio dos cortinados. + +Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção +decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, +similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de +Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais +nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere +á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas +mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para +se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel +a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera +que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos +que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções +ou do luxo que não usa. + +Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de +romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não +lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe +tornar encantadora a familia. + +Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua +predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha +da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações. +Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e +serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da +perfeita educação. + +Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente +superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil +processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma +simplicidade tragica. + +O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o +dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe +apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres +pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem +penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por +uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de +espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter +exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a +alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O +seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será +aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver +jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e +se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver +desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais +segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas +mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em +_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_. + +Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos +refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos +tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de +França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes +essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se +um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer +obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras, +_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as +suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do +seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito +caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar +ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu +espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e +do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado +nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão +gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as +suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, +encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade +attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de +Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu +cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não +saberá negar. + + * * * * * + +Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, +medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo +Bazilio_, romance realista. + +Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é +esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha +senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de +espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que +supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de +1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então +cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados +de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições +gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza +da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação +da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo. +Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, +atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, +phylanthropos. + +A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma +sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os +pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser. +Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou +pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela +convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo +problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do +mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as +leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social; +que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum +phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer +integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que +prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente. + +N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita, +que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer +dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental +em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria +zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga, +dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha +trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação +mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em +risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse +e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de +caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis +sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non +verba_. + +Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que +se tirou a designação _realismo_. + +Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que +é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo +numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser +simplesmente lyrica. + +O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um +facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante +do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de +uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser +Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral +dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com +que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte +afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral +negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a +morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as +cartas. + +A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da +queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_. + +Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das +comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande +mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um +estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na +sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da +philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na +hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na +critica dos costumes, na propria critica da arte. + +Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de +vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se +dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do +_Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um +modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas +as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação +burgueza. + +De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa +contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te +rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um +insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas +companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas +filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter +apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar: + +«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou +uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente +honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta +ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na +minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso +fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o +problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, +com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte +romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um +alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como +elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre +asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e +meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente +pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito +em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os +elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a +proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu +pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, +um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e +convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a +concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as +influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do +amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento +em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião +compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou +demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a +reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral, +fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a +maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a +applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica, +finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia +como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha +these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio +da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.» + +Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse +compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro +teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um +artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma +funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um +gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma +religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim +como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser +indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte, +se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte +e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de +ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante +a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias. + +Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do +_Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo +uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve +gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro +seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á +observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da +biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle +que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a +divina revelação de um novo mundo. + + + * * * * * + + +O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr. +Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio: + +«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois +de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se +desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, +exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!» + + * * * * * + +O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr. +Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o +_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._ + +Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São +historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das +montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos +carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira +de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra +a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio +que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ... +Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da +cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de +Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a +Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno? +Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de +Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante +da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère? + +Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por +tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do +sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio +quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os +dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles +dizeres? + +Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_. + +Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com +effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás +convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em +suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de +jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal +phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado +abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar +os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a +que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa +patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo! + + + * * * * * + + +Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado +ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos +seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo +especial: + +1.º Rir atraz da procissão dos Passos. + +2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um +viajante. + +3.º Não ter dado pateada a um lente. + +4.º Parecer constrangido a dar lição. + +5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra. + + * * * * * + +Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4 +appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de +expulsão temporaria em alguns dias de cadeia. + +Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa +necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder +teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos +universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder +mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de +legislador mediocre. + + * * * * * + +Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta +aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e +absolvidos pelos tribunaes civis. + +N'esta conjunctura perguntamos: + +É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente +de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de +uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem +julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de +uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente +tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem +contrarias? + +Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias +especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios? + +Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se +trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra. + +Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de +sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição. + +Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que +quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado +não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe. + +Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões +d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de +covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade +que ainda possa haver na mocidade portugueza. + +Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza +physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, +com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem +corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua +especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil. + + * * * * * + +Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para +sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho +systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir +honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da +força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando. + +Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros +cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para +sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das +côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de +atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos +naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da +velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris, +proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a +escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_. + + + * * * * * + + +No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que +Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os +seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da +Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso +para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne +Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução +presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras +seguintes: + +«Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia +das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no +livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada +fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e +perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem +abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns +exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e +assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o +medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e +desconheceriamos o dever. + +«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes +conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade. +_Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia +ethica da regeição dos dogmas. + +«As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum +christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura +senão desde que conhece a origem de que ellas procedem. + +«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação +espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de +varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que +muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar +produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é +frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças +procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é +insufficiente para nivelar. + +«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio +homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_ +e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma +moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida +d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva. + +«Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam +aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_, +comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham +em si um caracter offensivo. + +«Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á +sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando +eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um +cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses +atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na +morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa +celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão +zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto +emprego dos seus ultimos momentos.» + +Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes +é christão, o outro não. + +O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé +religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da +perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação +dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia +peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, +comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais +delicada flor da cavalleria. + +O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista +theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso +agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de +Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um +caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; +é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da +verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.» + + * * * * * + +Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de +verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral +de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem +exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da +intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma +moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these +para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado +presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente +em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão +necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio +fundamental da conciliação das consciencias! + + * * * * * + +Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario +mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da +Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que +determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, +tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem +escravisados pelos poderes clericaes. + +Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho +aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos +crescem. Crescem em virtude de que lei? + +Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe +respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A +noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o +fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e +embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é +ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador +operario acrescenta: + +«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se +desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou +de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia +crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de +Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a +amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina +dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado +as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de +coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim +vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e +para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na +Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito. + +«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de +sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ... +Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de +certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos +deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque +sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas +gerações. + +«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É +tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a +legislação humana e a moral universal.» + + * * * * * + +Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres +do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de +principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de +Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras +convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas +perigosas e banidas das discussões publicas. + +Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra +que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira +garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia +das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, +evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos +principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas +reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes +de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o +methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves +que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque +de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações, +como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos +os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que +esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio. + +Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril. + +Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino +mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem +nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias. + +Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram +manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus +cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por +todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes, +vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu +morto. + +Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que +expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias +physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse +facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções +theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, +a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á +tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o +resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços +publicos. + +Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha +professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais +vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes +que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo +d'ella:--por falta de inspecção e de policia. + +Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é +solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam +não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da +intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se +armam. + +Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos +dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria! + +Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores +mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso: + +«_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do +_Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da +instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo +de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1 +para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6. +Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio. +Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes +tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais +proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem +e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo +mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas +maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação +portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com +isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo +d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e +religiosa.»_ + +A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de +prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção +estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde +quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que +não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade +deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente +ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade +portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, +foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual. + +Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde +quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual, +compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança. + +D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um +litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor +Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só +para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e +vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos +artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor +Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte +portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, +em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao +vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro. + +Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira +bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal +Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete +partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens +mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D. +Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O +ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas +navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o +mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a +sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o +senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no +Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se +hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte +nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City, +onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza, +feitos na rua dos Correeiros. + +Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, +Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã, +Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos +exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D. +Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam +escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João +de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o +mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de +hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e +apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo +official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e +que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de +secretaria. + +No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente +instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue +propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo +dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o +soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na +confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os +Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo +de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia +fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia +tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o +mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a +litteratura de uma nação. + +A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a +instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a +prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das +accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da +instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior +seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla +mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava +discutindo: + +_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario +ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral, +á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este +artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes, +tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças +podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou +professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_. + +Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa +proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a +respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo +tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a +instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena +de processo e demissão immediata do professor, aos principios da +religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão +profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica +dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel +entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda +reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes +e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é +que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano +desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa +aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou +sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois +interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio +Maior para lh'o provar. + +Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio +universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o +que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que +é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies, +o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz +ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de +formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem. +A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a +heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua +emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre +responda pelo erro. + +Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para +a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica +em uma instituição do Estado. + +Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma +lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem +disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E +apagou-lhe a lanterna. + +Quem foi que deixou no mundo esta lição? + +Foi o theologo. + +Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O +legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde +de Rio Maior. + + * * * * * + +Notemos porém um facto consolador: + +O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma +sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente +de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no +cerebro é uma idéa que se extingue. + +Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, +para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão +do professor e o processo pelos tribunaes civis. + +Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão! + +Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão +negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por +fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado +pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_, +argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas +as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do +tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, +amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem +leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os +pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao +tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos +methodos porque se mortificam os impetos da carne. + +Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem +os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre +a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados. + +Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão +negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a +cartilha de Padre Mestre Ignacio. + +E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a +uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma +instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um +sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores +portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o +ensino publico de uma nação! + + * * * * * + +Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar +aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes: + +_Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_ + +O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da +instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa +oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das +_Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o! + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878) +by Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 *** diff --git a/13093-h/13093-h.htm b/13093-h/13093-h.htm new file mode 100644 index 0000000..349a613 --- /dev/null +++ b/13093-h/13093-h.htm @@ -0,0 +1,2108 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigão--Eça de Queiroz"/> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, +Fevereiro a Maio 1878 +by Ramalho Ortigão--Eça De Queiroz.</title> + <style type="text/css"> + /*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%; } + hr.minor { width: 10%; } + .centered {text-align: center} + .foot { margin-left: 10%; margin-right: 10%; text-align: justify; text-indent: -3em; font-size: 85%; } + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } + /*]]>*/ + // --> + </style> +</head> +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***</div> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil.png" width="570" height="755" + alt="Eça de Queiroz—Ramalho Ortigão—As Farpas" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /><!--=====================--> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ</p> + <p>CHRONICA MENSAL</p> + <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>TERCEIRA SERIE—TOMO II</p> + <p>Fevereiro a Maio 1878</p> +</div> + +<hr class="major" /><!--=====================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, + da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande + universo, e da adoração de mim mesmo. +</p> +</blockquote> + +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> + +<hr class="major" /><!--=====================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> + +<p> + <a href="#leisorganicas" >Leis organicas</a> + das sociedades e disposições regulamentares dos estados: + de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O + caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos—A + <a href="#gymnastica" >gymnastica</a> + perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, + Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da + raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela + mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos + pares—O ultimo + <a href="#lourdes" >milagre de Lourdes</a> + e a <i>Nação</i>. Mostra-se que o milagre + não presta. Ensina-se à <i>Nação</i> o que são milagres e prova-se-lhe que + ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar—A + criminalidade em Lisboa e o + <a href="#fadista" ><i>fadista</i></a>. + Historia genealogica d'esse + personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto—A + <a href="#velhanova" >ideia velha e a ideia nova</a>.—Uma + <a href="#tyndal" >opinião de Tyndal</a> ácerca dos atheus. + Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem + os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei + da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle + carpinteiro— + <a href="#oprimobazilio" >O <i>Primo Bazilio</i></a>. + O caso pathologico e a obra d'arte. A + educação burgueza e o realismo—A + <a href="#escolanacional" >escola nacional dos poltrões</a>. A + covardia, instituição publica, etc. +</p> +<hr class="major" id="leisorganicas"/><!--=====================--> +<p> + Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como + pertencendo a duas classes distinctas: +</p> +<p> + 1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade; +</p> +<p> + 2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos + Estados. +</p> +<p> + Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito + absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, + isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento + intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua + organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é + convencional e contingente,—n'essas sociedades não podem dar-se senão + os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas + civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes + ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das + communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc. +</p> +<p> + Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no + periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em + toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., + tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que + nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um + regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da + vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser + collectivo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita + demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes. +</p> +<p> + Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios + repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a + punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares, + distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses + feridos pela perpetração do delicto. +</p> +<p> + É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade, + unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do + commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois + interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas; + ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, + pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem + arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por + conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de + vingança. +</p> +<p> + Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a + forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha + muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os + politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que + crimes, são verdadeiros erros!» +</p> +<p> + Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido + pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas + sancções penaes. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de + Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos. +</p> +<p> + No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres + crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por + meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos + tres cumplices e conniventes no crime de cada um. +</p> +<p> + Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes + attentados e despedindo os reos em paz! +</p> +<p> + No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter + falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do + recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a + oito annos de degredo para a costa ds Africa! +</p> +<p> + O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A + sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga. +</p> +<p> + O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A + sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus + co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com + o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma + iniquiedade monstruosa. +</p> +<p> + O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a + oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um + regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario—o regulamento + do serviço militar. +</p> +<p> + O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta. + Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver + intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses. + Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave + crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o + da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o + facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um + interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas + as sociedades teem em que deixe de haver militares. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o + punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se + estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos + analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á + civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do + militarismo e da guerra. +</p> +<p> + Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram + punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira + ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos: +</p> +<p> + Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma + vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os + mortos. +</p> +<p> + Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para + todos os seus dramas: <i>Resistia-me, chlorophormisei-a!</i> +</p> +<p> + Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam + substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas + alcoolicas—o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, + convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos + instrumentos da perpetuidade da raça. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade + os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos + unicamente á sociedade os nossos cumprimentos. +</p> + +<hr id="gymnastica" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção + primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da + gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a + gymnastica tinha um caracter immoral. +</p> +<p> + S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes + do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com + pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos + e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E + comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que + ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um + dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e + obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço + que medeia entre o tapete e o lustre. +</p> +<p> + Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais + directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades + da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s. + ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a <i>sorte de forças</i> + mas sim mais modestamente—<i>a hygiene do movimento no corpo humano</i>. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto + orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do + nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração + dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem + mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na + escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios + racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá + chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto + correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de + s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da + gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas + mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente + frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se + conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos + acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em + sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja + à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente + depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias + dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno + procere um tão ligitimo horror. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e + perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso + organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas + mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de + todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de + manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse + exercicio regular e methodico chama-se gymnastica. +</p> +<p> + Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se + hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do + sangue atravez da rede dos nervos encephalicos. +</p> +<p> + Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os + phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a + loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com + mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um + apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de + que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes + revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa + para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de + actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações, + todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de + cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da + circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as + alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande + Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos + de cura de alienados pela transfusão hypodermica. +</p> +<p> + Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e + regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade + central, é a gymnastica. +</p> +<p> + O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito + em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.» +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á + indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver + apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma, + frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na + diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais + segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio + para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O + doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de + gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas + observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por + effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a + densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de + exercicio. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em + Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da + gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media + a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo + doutor Burq. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a + densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos + exercicios gymnasticos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude + desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos + tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão + respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem + directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso + modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso + organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades + hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar + que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que + constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O + doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a + exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da + jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um + methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido + equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em + favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos + senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos + mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo + assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua + constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os + ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, + de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos + nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a + gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a + obesidade e contra a idiotismo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo + sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica + previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que + gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as + duas casas do parlamento. +</p> +<p> + Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os + exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia + para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por + todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova + quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas + ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se + introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que + n'aquellas em que a gymnastica não existe. +</p> +<p> + Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, + esqueceu uma disposição—precisamente a unica que teria alcance—um + artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes + em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem + gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas. +</p> +<p> + O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser + obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por + que—digamol-o francamente—o que é o <i>cachenez</i> do nobre duque + presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma + mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do + pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da + felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do + nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado—obrigado a ferros, em nome + d'el-rei—a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a + erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a + desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos + seguintes movimentos: +</p> +<p> + Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100 + vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e + sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros + (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar + fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª + reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a + meditar sobre a felicidade da patria. +</p> +<p> + No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor + perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão + mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois + não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada + reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o + sr. duque de Avila curasse o seu <i>cache-nez</i> por meio dos excercicios + indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios + seguintes: +</p> +<p> + Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e + tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim + (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o + limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de + quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos). + Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e + continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto, + n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da + gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo: + Velar-lhe a face! +</p> + +<hr id="lourdes" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + A <i>Nação</i> publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: <i>O padre + cego já vê, a paralytica já anda</i>. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Parece impossivel que uma folha religiosa como a <i>Nação</i> désse cabimento + nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como + esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de + cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, + foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, + que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a + reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para + os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito + obrigado! muito obrigado pelo seu favor! +</p> +<p> + A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que + collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação + restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de + indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que + lhes deram. Porque nós—e a <i>Nação</i> bem o sabe!—nós temos devoções + locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a + auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos + resultados obtidos pela romagem. +</p> +<p> + Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e + na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a + agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas + vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?! +</p> +<p> + Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma + enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com + que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa + locomotores com agua das latas?! +</p> +<p> + E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento + para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes, + chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do + largo de S. Roque? +</p> +<p> + E ainda ousam dizer-nos—o que não póde ser senão por escarneo—que ella + <i>andou!</i>? Olha a grande façanha—<i>andar!</i> Mas, senhores, tendo tido + trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era + correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a + maior do que as que levou! +</p> +<p> + Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos + lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o + milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado + opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na + sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas + que visse tambem por outros membros. +</p> +<p> + Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que + a <i>Nação</i> o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um + olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão, + pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por + baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está + com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a + romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos + louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros + vemos que a paralytica nos sae pedrez!» +</p> +<p> + Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda + ordem, porque os ha muitos maiores. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se + coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero. +</p> +<p> + O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças, + das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das + balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em + duvida. No livro intitulado <i>Virtude miraculosa do Escapulario + demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas</i>, + pelo revd.º padre Hugnet—<i>Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et + Anvers</i>, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos + exemplos. +</p> +<p> + Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão + dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto + das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar + emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um + estado do satisfação ineffavel. +</p> +<p> + O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um + escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato + os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica + illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por + essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21) +</p> +<p> + No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio + das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e + o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra + citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.) +</p> +<p> + Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o + regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e + acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag. + 20.) +</p> +<p> + Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes + consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se + obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao + pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado + o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se + resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.) +</p> +<p> + Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o + escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte. +</p> +<p> + O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado <i>Collecção dos + escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc.</i>, + diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, + pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são + arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão + de diabos não roguem esta praga medonha:—Que nós levemos os + escapularios! +</p> +<p> + As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio + IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios. +</p> +<p> + O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir + para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle + perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que + arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os + facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver + por um oculo! +</p> +<p> + O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de + nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, + da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer + prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º + Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo <i>quando + voluntariamente se vae peccar</i>: é o que mais particularmente prescreve o + dito padre Guglielmi. +</p> +<p> + De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos + é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer + precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle + seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo + seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca—retalho quadrado ou + oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a + virtude—applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e + cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de + algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno + patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção + sacramental: <i>Suspende! Está comigo o coração de Jesus</i>! +</p> +<p> + Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um + d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e + para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do + alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se + debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não + fará a <i>Nação</i> o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos + de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma <i>Nação</i>, o mais que faz é + unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos? +</p> +<p> + Ha umas tantas coisas que a <i>Nação</i> até devia ter vergonha de as dizer + ... O que a <i>Nação</i> precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a + esse pescoço, para a <i>Nação</i> ficar então sabendo o que são milagres! + Porque a <i>Nação</i> não sabe o que são milagres! +</p> +<p> + Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma + habilidadesita mediocre, um bocadito de geito! +</p> +<p> + Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de + proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ... +</p> +<p> + Emquanto a nós o que a <i>Nação</i> tem é o espirito maligno no corpo do + jornal! Cruzes, demonio! +</p> +<hr id="fadista" class="minor" /> +<p> + Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos + de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu + termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de + satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um + fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas + todos? +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a + esta—o <i>fadista</i>. +</p> +<p> + Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, + constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende + dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame + feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com + fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em + toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem + beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, + frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e + com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões + nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando + os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando + os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e + adormecidos. +</p> +<p> + Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como + capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão + do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse + interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo, + em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, + conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos + divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um + navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser + mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com + um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o + seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando + sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se + despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por + fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o + que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e + que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos + uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais + tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e + com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os + combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão + biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o + antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o + espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da + vadiice, e tomou então o nome de—fadista. +</p> +<p> + O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma + accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do + seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que + elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita + successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na + esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas + noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e + um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são + frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das + mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e + enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e + de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma + guitarra e de um <i>santo christo</i>, que assim chamam technicamente a + grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma + molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de + constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com + um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade. + Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe + obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma + agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular—as <i>escovinhas</i>. + Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a + bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A + guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da + qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo + XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os + fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da + Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, + onde depois da meia noite se vae comer o prado de <i>desfeita</i>, acepipe + composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma + camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental + da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se + e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga + taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos + alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados, + que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de + Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de + jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de + pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do + lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo + mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O + fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes + de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de + prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do + pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca + pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A + guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um + desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço + pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o + outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação + imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a + perna encurvada com o bico do pé para fóra; o <i>cachucho</i> da amante + reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a + mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta, + esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em + que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas + á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada + da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e + miseravel. +</p> +<p> + De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus + meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista + na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com + o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas + convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições + especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos + restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a + todos os machos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os + incorrigiveis da criminalidade. +</p> +<p> + A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia + recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um + inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir + em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que + verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados + nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo + ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão + sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos, + mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou + immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se + tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira + cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde + a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os + conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso + confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo + não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias + inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os + grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria + senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos + presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe + conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor + expediente seria a morte. +</p> +<p> + É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa: +</p> +<p> + É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos + criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja + incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos + repetidos? +</p> +<p> + A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde: +</p> +<p> + É. +</p> +<p> + N'este caso pergunta-se: +</p> +<p> + Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, + continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de + uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente + os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a + justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera? +</p> +<p> + Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de + que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é + irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a + sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao + abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e + manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos. +</p> +<p> + Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A + sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um + inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a + instituição concomitante que a justifica e a consagra:—a loteria. +</p> +<p> + Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos + supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o + Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao + trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na + cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle + o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a + policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da + rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu + contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a + photographia no commisariado geral. +</p> +<p> + Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios + de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede + aos fadistas. +</p> + +<hr id="velhanova" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio + do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões + contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros, + esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes, + açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e + viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões + lombares das musas. +</p> +<p> + Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas + poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que + ellas existissem: a escola da <i>Idéa Velha</i> e a escola da <i>Idéa Nova</i>! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se + para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida. +</p> +<p> + O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou + encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta + annos. +</p> +<p> + Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de + duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e + pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam + enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e + inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e + pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois + lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro + fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot + e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios + outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do + que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço + de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão + dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela + Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em + spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades + publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com + agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na + <i>Grinalda</i> e no <i>Almanach de Lembranças</i>; dedicou versos á Lapa dos + Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; + concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e + ás Graças nas notas da versão portugueza dos <i>Fastos</i>. Foi da Assembléa + da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do <i>Gremio</i>, que tomou o nome de + <i>Litterario</i> para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem + agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou + finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis! + De quando em quando observava-se que ella começava de repente a + encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra + insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e + era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se + fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião, + e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O + poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás + costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. + Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, + achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram + chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e + retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois + as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, + choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos + seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, + tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que + servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do + estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da + Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo + altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á + mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos + poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos + conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do + Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a + Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu + entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a + condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, + ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella + porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas + exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e + suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva. +</p> +<p> + Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da + communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. + Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora, + com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha + ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares + onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha + vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, + que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e + engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos + pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como + se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que + ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma + superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em + nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo + presente. +</p> + +<hr id="oprimobazilio" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + <i>O Primo Bazilio</i>, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno + artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta + obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e + o que pertence aos dominios da pathologia social. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Eis a doença que este livro accusa:—A dissolução dos costumes + burguezes. +</p> +<p> + O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação + burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a + mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: + No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de + apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos + ver porquê. +</p> +<p> + Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma + desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a + representação da vida exterior e o systema da vida intima. +</p> +<p> + Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior + do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa + religião—a familia! +</p> +<p> + Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da + baixa—rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais + asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda + a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias—com as + graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, + com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as + galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o + pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias + edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da + Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos + predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina + de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez, + modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras + primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da + moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor + systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres, + branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços + cercados de hera, de estufas, de <i>logettes</i>, de aviarios em que se + cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre + frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de + outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais + elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos + nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada + do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de + todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa + luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa, + activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres. +</p> +<p> + As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, + parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de + verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto, + com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo + das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos + rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema + queimada, são os sepulchros da saude e da alegria. +</p> +<p> + É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os + <i>Arruamentos da Baixa</i>, que é educada a lisboeta. +</p> +<p> + Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando + recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação: +</p> +<p> + «Noto um facto que me enche de perturbação e de horror—n'esta cidade + não ha creanças.» +</p> +<p> + Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros + bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e + balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha, + desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os + musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os + musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, + ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos <i>squares</i> do + largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos + effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não + encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse + sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua + preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou + com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o + seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe + fresco. +</p> +<p> + Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa + frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As + creança estão dentro das casas que acima descrevemos—<i>a tomarem + proposito. Tomar proposito</i> é uma locução essencialmente local e + intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber + rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres + instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A + menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito + indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que + houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas + para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo + quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha + instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da + infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, + e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as + flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do + jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo. + Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas + da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde + aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa + ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são + appendices de sua <i>toilette</i>: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das + linguas, e a <i>phantasia</i>, o bonito trecho de salão tocado no piano + diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua + funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe + suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os + jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du + Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou + não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, + Michelet, Dickens, Andersen, Froebel. +</p> +<p> + Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora + completamente as leis que regem o universo e que determinam esses + phenomenos. +</p> +<p> + Não a distraem os interessantes cuidados do <i>ménage</i>, porque da casa, + assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem + nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia + das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da + actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão + moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister + gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a + essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que + retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da + casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato + que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma + possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou + onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá + respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias + borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa. +</p> +<p> + Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que + a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias + elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta + no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro + de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda + preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo + do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os + orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas + couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas + desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes + ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na + bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha + e graciosa, similhante a uma <i>bombonière</i>, ou como a da Semana Santa nos + Inglezinhos, a cuja <i>petite entrée</i> destinada aos intimos rodam os + <i>coupés</i> magnificos da piedade escolhida. +</p> +<p> + Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do + seu <i>bènitier</i> barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da + Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, + arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um + tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou + desdem. +</p> +<p> + Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios + theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie + contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o + dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas + theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo + resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das + sociedades corruptas:—o socego. +</p> +<p> + Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a + ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com + os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra + região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso + do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as + raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e + da <i>toilette</i>; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo + um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela + cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia + medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta + cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos + alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o + aguadeiro, ralhando com o marido. +</p> +<p> + Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida + domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno + quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão + infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a + cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as + caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e + inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos + arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos + retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores + de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no + meio dos cortinados. +</p> +<p> + Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção + decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, + similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de + Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais + nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere + á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas + mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para + se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel + a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera + que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos + que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções + ou do luxo que não usa. +</p> +<p> + Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de + romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não + lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe + tornar encantadora a familia. +</p> +<p> + Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua + predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha + da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações. + Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e + serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da + perfeita educação. +</p> +<p> + Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente + superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil + processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma + simplicidade tragica. +</p> +<p> + O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o + dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe + apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres + pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem + penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por + uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de + espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter + exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a + alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O + seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será + aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver + jantado nos mais celebres restaurantes do <i>boulevard</i>, o que se vestir e + se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver + desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais + segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas + mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em <i>foie gras</i>, em + <i>Champagne Clicot</i>, e em <i>Cold-creame</i>. +</p> +<p> + Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos + refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos + tapetes de Smyrna dos <i>boudoirs</i> forrados de setim, envoltos em renda de + França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes + essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se + um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer + obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras, + <i>amando-a</i> finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as + suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do + seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito + caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar + ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu + espartilho barato, da sua <i>toilette</i> da Baixa, da sua pomada de botica e + do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado + nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão + gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as + suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, + encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade + attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto <i>plastron</i> de + Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu + cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não + saberá negar. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, + medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu <i>O Primo + Bazilio</i>, romance realista. +</p> +<p> + Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é + esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha + senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de + espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que + supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de + 1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então + cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados + de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições + gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza + da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação + da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo. + Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, + atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, + phylanthropos. +</p> +<p> + A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma + sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os + pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser. + Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou + pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela + convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo + problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do + mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as + leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social; + que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum + phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer + integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que + prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente. +</p> +<p> + N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita, + que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer + dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental + em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria + zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,—n'esta liga, + dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha + trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação + mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em + risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse + e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de + caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis + sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: <i>Res non + verba</i>. +</p> +<p> + Foi da palavra <i>res</i>, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que + se tirou a designação <i>realismo</i>. +</p> +<p> + Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que + é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo + numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser + simplesmente lyrica. +</p> +<p> + O <i>Primo Basilio</i> é um romance realista porque é a representação de um + facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante + do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de + uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser + Luiza <i>castigada</i> (para nos servirmos da velha formula que via a moral + dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com + que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte + afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral + negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:—que para evitar a + morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as + cartas. +</p> +<p> + A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da + queda; está em que ella—<i>não podia deixar de cair</i>. +</p> +<p> + Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das + comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande + mal da litteratura de que o livro faz parte. O <i>Primo Basilio</i> suppõe um + estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na + sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da + philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na + hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na + critica dos costumes, na propria critica da arte. +</p> +<p> + Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de + vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se + dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do + <i>Primo Basilio</i>. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um + modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas + as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação + burgueza. +</p> +<p> + De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa + contemporanea: «Eis—aqui está o modo pavorosamente simples como tu te + rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,—parece um + insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas + companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas + filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter + apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar: +</p> +<p> + «Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou + uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente + honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta + ambição heroica:—tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na + minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso + fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o + problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, + com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte + romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um + alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como + elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre + asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e + meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente + pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito + em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os + elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a + proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu + pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, + um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e + convergentemente estarão n'este momento—no momento em que eu tenho a + concepção artistica do <i>Primo Basilio</i>—actuando sobre todas as + influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do + amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento + em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião + compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou + demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a + reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral, + fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a + maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a + applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica, + finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia + como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha + these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio + da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.» +</p> +<p> + Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse + compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro + teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um + artista tem a obrigação de se não explicar,—o que seria invadir uma + funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um + gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma + religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim + como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser + indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte, + se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte + e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de + ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante + a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias. +</p> +<p> + Taes foram as razões porque—ao terminar ha mez e meio a leitura do + <i>Primo Bazilio</i>,—uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo + uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve + gloriar uma litteratura—nós fizemos esta prophecia: Que este livro + seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á + observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da + biologia, instrumentos inuteis—ás vezes perigosos—para todo aquelle + que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a + divina revelação de um novo mundo. +</p> + +<hr id="diarioillustrado" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + O <i>Diario Illustrado</i>, publicando o retrato e a biographia do sr. + Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio: +</p> +<p> + «Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois + de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se + desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, + exclamou:—Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!» +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O <i>Diario Illustrado</i> não ousa affirmar de um modo terminante que o sr. + Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o + <i>Diario Illustrado</i> diz apenas: <i>Conta-se ...</i> +</p> +<p> + Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São + historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das + montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos + carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira + de Tarbes? Póde o <i>Diario Illustrado</i> firmar com a sua palavra de honra + a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio + que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ... + Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da + cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de + Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a + Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno? + Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de + Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante + da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère? +</p> +<p> + Está o <i>Diario Illustrado</i> no caso de sustentar, debaixo de jura, por + tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do + sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio + quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os + dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles + dizeres? +</p> +<p> + Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de <i>Diario Illustrado</i>. +</p> +<p> + Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com + effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás + convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em + suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de + jantar:—<i>Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta</i>—; se tal + phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado + abstracto de suspeita destituida de fundamento,—o paiz não póde cruzar + os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a + que o <i>Illustrado</i> cita marcou a differença, toda favoravel á nossa + patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo! +</p> + +<hr id="escolanacional" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado + ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos + seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo + especial: +</p> +<p> + 1.º Rir atraz da procissão dos Passos. +</p> +<p> + 2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um + viajante. +</p> +<p> + 3.º Não ter dado pateada a um lente. +</p> +<p> + 4.º Parecer constrangido a dar lição. +</p> +<p> + 5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4 + appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de + expulsão temporaria em alguns dias de cadeia. +</p> +<p> + Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa + necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder + teve apenas em vista o <i>desgosto</i> infligido pela sanção dos regulamentos + universitarios ás familias dos alumnos condemnados:—No que o Poder + mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de + legislador mediocre. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta + aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e + absolvidos pelos tribunaes civis. +</p> +<p> + N'esta conjunctura perguntamos: +</p> +<p> + É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente + de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de + uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem + julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de + uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente + tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem + contrarias? +</p> +<p> + Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias + especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios? +</p> +<p> + Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se + trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra. +</p> +<p> + Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de + sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição. +</p> +<p> + Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que + quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado + não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe. +</p> +<p> + Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões + d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de + covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade + que ainda possa haver na mocidade portugueza. +</p> +<p> + Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza + physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, + com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem + corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua + especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para + sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho + systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir + honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da + força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando. +</p> +<p> + Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros + cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para + sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das + côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de + atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos + naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da + velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris, + proprios de uma mocidade honesta e forte:—a gymnastica obrigatoria, a + escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel <i>cricket</i>. +</p> + +<hr id="tyndal" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,—no paiz em que + Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os + seus aulicos,—no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da + Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso + para prehencher essa omissão,—na velha, na religiosa, na solemne + Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução + presidencial do <i>Birmingham and Midland Institute</i>, disse as palavras + seguintes: +</p> +<p> + «Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia + das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no + livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada + fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e + perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem + abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns + exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e + assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o + medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e + desconheceriamos o dever. +</p> +<p> + «Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes + conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade. + <i>Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã</i> não é a consequencia + ethica da regeição dos dogmas. +</p> +<p> + «As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum + christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura + senão desde que conhece a origem de que ellas procedem. +</p> +<p> + «Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação + espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de + varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que + muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar + produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é + frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças + procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é + insufficiente para nivelar. +</p> +<p> + «Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio + homens a que os batalhadores do pulpito chamam <i>atheus ou materialistas</i> + e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma + moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida + d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva. +</p> +<p> + «Quando digo <i>offensiva</i> quero simplesmente alludir aos que empregam + aquelles termos, não que eu pense que o <i>atheismo e o materialismo</i>, + comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham + em si um caracter offensivo. +</p> +<p> + «Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á + sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando + eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um + cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses + atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na + morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa + celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão + zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto + emprego dos seus ultimos momentos.» +</p> +<p> + Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes + é christão, o outro não. +</p> +<p> + O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé + religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da + perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação + dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia + peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, + comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais + delicada flor da cavalleria. +</p> +<p> + O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista + theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso + agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de + Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um + caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; + é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da + verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.» +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de + verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral + de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem + exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da + intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma + moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these + para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado + presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente + em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão + necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio + fundamental da conciliação das consciencias! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario + mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da + Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que + determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, + tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem + escravisados pelos poderes clericaes. +</p> +<p> + Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho + aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos + crescem. Crescem em virtude de que lei? +</p> +<p> + Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe + respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A + noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o + fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e + embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é + ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador + operario acrescenta: +</p> +<p> + «Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se + desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou + de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia + crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de + Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a + amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina + dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado + as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de + coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim + vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e + para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na + Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito. +</p> +<p> + «Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de + sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ... + Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de + certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos + deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque + sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas + gerações. +</p> +<p> + «É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É + tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a + legislação humana e a moral universal.» +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres + do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de + principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de + Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras + convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas + perigosas e banidas das discussões publicas. +</p> +<p> + Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra + que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira + garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia + das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, + evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos + principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas + reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes + de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o + methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves + que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque + de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações, + como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos + os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que + esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio. +</p> +<p> + Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril. +</p> +<p> + Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino + mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem + nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias. +</p> +<p> + Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram + manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus + cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por + todos os meios ao seu alcance—meios tumultuarios, illegaes, + vexatorios—a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,—o atheu + morto. +</p> +<p> + Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que + expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias + physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse + facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções + theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, + a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á + tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o + resultado—n'este caso benefico—da indisciplina geral dos serviços + publicos. +</p> +<p> + Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha + professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais + vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes + que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo + d'ella:—por falta de inspecção e de policia. +</p> +<p> + Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é + solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam + não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da + intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se + armam. +</p> +<p> + Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos + dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria! +</p> +<p> + Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores + mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso: +</p> +<p> + «<i>O sr. conde de Rio Maior</i> (copiamos o extracto da sessão, publicado do + <i>Jornal do Commercio</i>), <i>não é adversario do desenvolvimento da + instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo + de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1 + para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6. + Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio. + Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes + tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais + proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem + e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo + mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas + maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação + portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com + isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo + d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e + religiosa.»</i> +</p> +<p> + A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de + prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, <i>embora a instrucção + estivesse pouco diffundida</i>, é um erro de historia que o nobre conde + quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que + não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade + deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente + ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade + portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, + foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual. +</p> +<p> + Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde + quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual, + compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança. +</p> +<p> + D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um + litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor + Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só + para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e + vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos + artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor + Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte + portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, + em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao + vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro. +</p> +<p> + Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira + bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do <i>Leal + Conselheiro</i>. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou <i>as sete + partidas do mundo</i>, auctor da <i>Vertuosa Bemfeitoria</i> e um dos homens + mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D. + Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O + ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas + navegações, o fundador da chamada <i>Escola de Sagres</i>, o mais poderoso, o + mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a + sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o + senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no + Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se + hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte + nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City, + onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza, + feitos na rua dos Correeiros. +</p> +<p> + Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, + Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã, + Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos + exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D. + Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam + escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João + de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o + mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de + hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e + apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo + official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e + que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de + secretaria. +</p> +<p> + No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente + instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue + propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo + dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o + soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na + confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os + Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo + de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia + fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da <i>Historia + tragico maritima</i>, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o + mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a + litteratura de uma nação. +</p> +<p> + A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a + instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a + prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das + accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da + instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior + seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla + mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava + discutindo: +</p> +<p> + <i>O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario + ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral, + á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este + artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes, + tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças + podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou + professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo</i>. +</p> +<p> + Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa + proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a + respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo + tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a + instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena + de processo e demissão immediata do professor, aos principios da + religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão + profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica + dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel + entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda + reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes + e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é + que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano + desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa + aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou + sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois + interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio + Maior para lh'o provar. +</p> +<p> + Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio + universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o + que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que + é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies, + o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz + ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de + formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem. + A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a + heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua + emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre + responda pelo erro. +</p> +<p> + Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para + a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica + em uma instituição do Estado. +</p> +<p> + Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma + lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem + disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E + apagou-lhe a lanterna. +</p> +<p> + Quem foi que deixou no mundo esta lição? +</p> +<p> + Foi o theologo. +</p> +<p> + Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O + legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde + de Rio Maior. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Notemos porém um facto consolador: +</p> +<p> + O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma + sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente + de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no + cerebro é uma idéa que se extingue. +</p> +<p> + Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, + para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão + do professor e o processo pelos tribunaes civis. +</p> +<p> + Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão! +</p> +<p> + Nos fins do seculo XVI o <i>pendão da santa doutrina</i>, um lugubre pendão + negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por + fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado + pelo sr. conde de Rio Maior:<i>era o homem de ordem, temente a Deus</i>, + argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas + as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do + tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, + amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem + leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os + pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao + tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos + methodos porque se mortificam os impetos da carne. +</p> +<p> + Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem + os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre + a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados. +</p> +<p> + Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão + negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a + cartilha de Padre Mestre Ignacio. +</p> +<p> + E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a + uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma + instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um + sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores + portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o + ensino publico de uma nação! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as <i>Farpas</i> não cessam de elevar + aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes: +</p> +<p> + <i>Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!</i> +</p> +<p> + O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da + instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa + oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das + <i>Farpas</i>, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o! +</p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/13093-h/images/devil.png b/13093-h/images/devil.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..13a77a6 --- /dev/null +++ b/13093-h/images/devil.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas (Fevereiro a Maio 1878) + +Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +Release Date: August 2, 2004 [EBook #13093] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + + + + +[Illustration: EA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGO AS FARPAS] + +RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ + +AS FARPAS + +CHRONICA MENSAL + +DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES + +TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878 + +Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder, +da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da +politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande +universo, e da adorao de mim mesmo. + +P.J. PROUDHON + + + + +SUMMARIO + +Leis organicas das sociedades e disposies regulamentares dos estados: +de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanco penal. O +caso da sr. D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A +gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, +Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituio da +raa humana pela gymnastica. Reconstituio da ideias parlamentares pela +mesma gymnastica. Indicao de alguns exercicios para uso dos dignos +pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nao_. Mostra-se que o milagre +no presta. Ensina-se _Nao_ o que so milagres e prova-se-lhe que +ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A +criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse +personagem desde o seculo XVI at a ultima facada no Bairro Alto--A +ideia velha e a ideia nova.--Uma opinio de Tyndal cerca dos atheus. +Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin cerca das rases porque crescem +os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei +da instruco primaria mostrou no ser aquelle philosopho nem aquelle +carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A +educao burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltres. A +covardia, instituio publica, etc. + +Tdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como +pertencendo a duas classes distinctas: + +1. Crimes resultantes da infraco das leis organicas da sociedade; + +2. Crimes resultantes da infraco das disposies regulamentares dos +Estados. + +Emquanto as sociedades se no acham constituidas segundo o direito +absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, +isto , emquanto as sociedades no attingem um desenvolvimento +intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua +organisao, distinguindo o que n'ellas difinitivo e organico do que +convencional e contingente,--n'essas sociedades no podem dar-se seno +os crimes da segunda d'aquellas classes. assim que vemos nas +civilisaes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes +ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das +communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc. + +Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entrram no +periodo scientifico da sua evoluo moral, como presentemente succede em +toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., +tomram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que +nos referimos, porque se comprehendeu que elles no violam unicamente um +regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da +vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregao que constitue o grande ser +collectivo. + + * * * * * + +A sabedoria da legislao penal manifesta-se na mais justa e perfeita +demarcao dos limites que separam essas duas ordens de crimes. + +Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios +repressivos da infraco das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a +punio imposta contraveno dos seus estatutos regulamentares, +distinguindo graduaes na culpa segundo a importancia dos interesses +feridos pela perpetrao do delicto. + + em virtude d'este criterio que so punidos com severidade, +unanimemente exigida pela opinio, os attentados contra o interesse do +commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois +interesses so considerados os mais importantes das sociedades modernas; +ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, +pela razo de que os governos se julgam impotentes para vibrarem +arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por +conseguinte a civilisao rejeita como um acto de prepotencia e de +vingana. + +Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a +forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha +muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os +politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: So mais do que +crimes, so verdadeiros erros! + +Posto isto, vejamos qual o estado da mentalidade portugueza afferido +pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e s respectivas +sances penaes. + + * * * * * + +Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de +Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos. + +No caso de Joanna Pereira vemos tres ros confessos e convictos de tres +crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por +meio da chlorophormisao; o carroceiro, da remoo de um cadaver; todos +tres cumplices e conniventes no crime de cada um. + +Como procede a sociedade? No tomando conhecimento de nenhum d'estes +attentados e despedindo os reos em paz! + +No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo accusado de ter +falsificado uma certido de edade para o fim de salvar um mancebo do +recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a +oito annos de degredo para a costa ds Africa! + +O primeiro caso um triplice attentado contra a ordem social. A +sociedade no s o no pune mas nem sequer o julga. + +O segundo uma contraveno de um regulamento administrativo. A +sociedade no s o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo. + + * * * * * + +No analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus +co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com +o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnao d'este uma +iniquiedade monstruosa. + +O crime do que accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a +oito annos de degredo, crime unicamente perante a letra de um +regulamento de caracter no s transitorio mas arbitrario--o regulamento +do servio militar. + +O parocho foi condemnado por tentar salvar do servio um recruta. +Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, s pde involver +inteno criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses. +Viciar a data de uma letra ou de um contrato indubitavelmente um grave +crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o +da propriedade. Mas alterar a data de uma certido de baptismo, para o +facto de isemptar do servio militar um cidado, no offender um +interesse social; o contrario d'isso: servir o interesse que todas +as sociedades teem em que deixe de haver militares. + + * * * * * + +O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o +punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se +estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos +analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios +civilisao e humanidade. Daria em resultado a eliminao do +militarismo e da guerra. + +Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores no foram +punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira +ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos: + +Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma +vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os +mortos. + +Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para +todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_ + +Finalmente, para o facto da seleco da especie, os maridos seriam +substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas +alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, +convertendo aos pianos, reforados pela aguardente, nos unicos +instrumentos da perpetuidade da raa. + + * * * * * + +Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade +os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos +unicamente sociedade os nossos cumprimentos. + + + * * * * * + + +Por occasio de se discutir no parlamento a reforma da instruco +primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopo da +gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinio de que a +gymnastica tinha um caracter immoral. + +S. ex. parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes +do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com +pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mos +e de pernas para o ar. Isto effectivamente no seria bem visto. E +comprehendemos que s. ex. sinta uma certa poro de rubor pensando que +ao dirigir n'um salo as suas homenagens a uma dama esta poder vir um +dia a retribuir os cumprimentos de s. ex. aferrando-o pelos rins e +obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabea no espao +que medeia entre o tapete e o lustre. + +Cremos porm que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais +directamente de um nobre desdem votado por s. ex. a algumas habilidades +da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s. +ex. tenha da coisa que fra das feiras se no chama a _sorte de foras_ +mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_. + + * * * * * + +Um illustre medico allemo, o doutor Schreber, director do instituto +orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformaes do +nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciaes na configurao +dos ossos da bacia, viciaes que inhabilitam muitas mulheres de serem +mes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na +escola e que s podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios +racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poder +chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto +correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de +s. ex. para alvo das suas predileces pelo pugilato athletico. + + * * * * * + +O mesmo doutor Schreber assevera que indispensavel introduzir o uso da +gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas +mulheres padeam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente +frequente e resultante da posio forada em que as raparigas se +conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos +acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em +sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja + espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente +depois a operar sobre a regio abdominal de s. ex. as experiencias +dynamometricas, cuja perspectiva lana no animo pudibundo do digno +procere um to ligitimo horror. + + * * * * * + +A physiologia moderna tem mostrado que a saude no mais que o justo e +perfeito equilibrio das differentes foras inherentes ao nosso +organismo. A hygiene tem provado com muitas observaes e fundada nas +mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de +todos os nossos membros e de todos os nossos orgos o unico meio de +manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisao d'esse +exercicio regular e methodico chama-se gymnastica. + +Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se +hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulao do +sangue atravez da rede dos nervos encephalicos. + +Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os +phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a +loucura so outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com +mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um +apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de +que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes +revelaes, demonstra que existem estreitas e precisas relaes de causa +para effeito entre as variaes da circulao e os differentes graus de +actividade cerebral. A abolio da memoria, a perverso das sensaes, +todos os casos de nevropathia cerebral so resultantes de uma falta de +cadencia na vibrao dos centros sensitivos causada por um embarao da +circulao sanguinea no encephalo. Na Italia esto-se curando as +alienaes mentaes pela transfuso do sangue. O medico Ponza, do Grande +Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos +de cura de alienados pela transfuso hypodermica. + +Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispe para activar e +regularisar a circulao, de tanta importancia para a actividade +central, a gymnastica. + +O celebre hygienista Lacassagne diz: Um exercicio muscular geral, feito +em boas condies, produz os effeitos de uma transfuso de sangue. + + * * * * * + +Ha estados morbidos cuja localisao no organismo escapa muitas vezes +indagao e sagacidade dos clinicos. Est-se doente sem haver +apparentemente perturbao alguma nas funces physiologcas. O symptoma, +frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na +diminuio do noso peso com relao unidade do nosso volume. A mais +segura medida da saude a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio +para tornar mais denso o corpo humano? Ha. o regimen da gymnastica. O +doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de +gymnastica militar da Faisanderie, em Frana, constatou, pelas +observaes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por +effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto acrescentar a +densidade de 6 at 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de +exercicio. + + * * * * * + +Em um paiz onde a tisica faz to grande numero de victimas como em +Portugal, util accrescentar ainda que uma das propriedades da +gymnastica desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media +a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo +doutor Burq. + + * * * * * + +A fora muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a +densidade, n'uma proporo de 15% nos quatro primeiros mezes dos +exercicios gymnasticos. + + * * * * * + +A hygiene de musculatura um facto de primeira importancia para a saude +desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos +tecidos vivos se reconheccu que a sde principal da combusto +respiratoria o musculo. Os differentes estados do musculo influem +directamente na composio do sangue. O exercicio portanto um poderoso +modificador do sangue e como tal acta em todas as foras do nosso +organismo. Mas no ha seno uma especie de exercicio com propriedades +hygienicas e therapeuticas: esse exercicio a gymnastica. + + * * * * * + +Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faa o obsequio de considerar +que s um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que +constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allem. O +doutor Sebreber demonstra que a unica occupao que sujeita quem a +exerce a um exercicio inteiramente harmonico, a occupao da +jardinagem. Todo aquelle que no for jardineiro tem de appellar para um +methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido +equilibrio as acquisies e os dispendios de cada um dos seus orgos. + + * * * * * + +Taes so, resumidamente expostas, algumas das razes que militam em +favor da gymnastica. Em contraposio a estes argumentos no sabemos +seno de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex. os nossos rogos +mais fervorosos para que s.ex. no core diante da gymnastica, impedindo +assim o paiz de pr em pratica o melhor meio de regenerar a sua +constituio atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os +ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, +de reagir contra a hypocondria e contra a preguia, contra a atonia dos +nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a +gotta, contra as affeces pulmonares, contra as escrophulas, contra a +obesidade e contra a idiotismo. + + * * * * * + +Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licena para incluir o mesmo +sr. Vaz Preto, esto contaminados por enfermidades que a gynmastica +previne e corrige. De modo que uma boa administrao pedia que +gymnastica no s fosse decretada para as escolas mas tambem para as +duas casas do parlamento. + +Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allems, suecas, os +exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia +para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por +todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova +quanto estes exercicios so uteis no s ao desenvolvimento physico mas +ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se +introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que +n'aquellas em que a gymnastica no existe. + +Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, +esqueceu uma disposio--precisamente a unica que teria alcance--um +artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes +em cada sesso, as suas locubraes legislativas, para fazerem +gymnastica ao som de um orgo, como nas escolas americanas. + +O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser +obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por +que--digamol-o francamente--o que o _cachenez_ do nobre duque +presidente seno o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma +mais caracteristico de que s.ex. no tem gymnastica nos musculos do +pescoo e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da +felicidade do paiz, que to estreitamente depende da preciosa saude do +nobre duque, s.ex. deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome +d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a +erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a +desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos +seguintes movimentos: + +Voltar vigorosamente a cabea para a direita e para a esquerda (100 +vezes); fazer girar o pescoo, na sua maxima flexo, sobre o peito e +sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros +(100 vezes); fazer o movimento de quem mede braas (100 vezes); tomar +fortes e profundas aspiraes de ar (25 vezes). Depois do qu, s.ex. +reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomearia a +meditar sobre a felicidade da patria. + +No mesmo sr. Vaz Preto o que verdadeiramente a revolta do seu pudor +perante a adopo da gymnastica nas escolas seno o indicio de uma leso +mental concomitante e at certo ponto compensadora da obesidade? Pois +no sabido que jmais a excessiva nutrio deixa de ser acompanhada +reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o +sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios +indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios +seguintes: + +Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e +tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim +(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz at o +limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de +quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos). +Depois do qu, s. ex. revestiria ameaadoramente as suas calas e +continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete. + + * * * * * + +Se porm a todas estas consideraes for insensivel o sr. Vaz Preto, +n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da +gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex. um expediente extremo: +Velar-lhe a face! + + + * * * * * + + +A _Nao_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre +cego j v, a paralytica j anda_. + + * * * * * + +Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nao_ dsse cabimento +nas suas columnas um milagre to miseravel, to safado, to reles como +esse! Com effeito! foi ento para isso, para esse milagrotesito de +ccrc, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, +foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, +que a sr. condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a +reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para +os fazer ver e para os fazer andar os levou to longe?! ... Ora muito +obrigado! muito obrigado pelo seu favor! + +A sr. condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que +collaborram com s.ex. na bonita obra da peregrinao teem obrigao +restricta de abrirem immediatamente uma subscripo para o fim de +indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que +lhes deram. Porque ns--e a _Nao_ bem o sabe!--ns temos devoes +locaes, temos devoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affianam, sob a +auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos +resultados obtidos pela romagem. + +Pois qu! A agua de Lourdes ao p da bica, na propria gruta, por conta e +na presena da santa, no ha de dar mais effeitos no consumidor do que a +agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas +vezes impuras, quantas vezes com ms rolhas?! + +No vimos ns ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma +enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com +que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa +locomotores com agua das latas?! + +E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr. condessa do Sarmento +para se metter s estradas e para ir por ahi fra em braos at Lourdes, +chega l e no obtem mais nada seno o que obteve a outra sem sair do +largo de S. Roque? + +E ainda ousam dizer-nos--o que no pde ser seno por escarneo--que ella +_andou!_? Olha a grande faanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido +trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era +correr, correr a sete ps, e trazer de l para esse fim cinco pernas a +maior do que as que levou! + +Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos +lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascar que lhe fazia o +milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado +opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na +sua devida altura, que o homem no s principiasse a ver pelos olhos mas +que visse tambem por outros membros. + +Isso ento j valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que +a _Nao_ o publicasse em telegramma: O padre cego appareceu-lhe um +olho em cada buraco do nariz e est-lhe a vir outro na cova do ladro, +pelo qual j l as suas rezas de costas na cama com o breviario por +baixo do travesseiro. A paralytica j deitou seis pernas novas e est +com dois grandes furunculos nos hombros: suppe-se que sejam as azas a +romper. Quando se lhe espremem os carnies bota pennas. Infinitos +louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cr dos voadouros +vemos que a paralytica nos sae pedrez! + +Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda +ordem, porque os ha muitos maiores. + + * * * * * + +Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se +coisas ao p das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito zero. + +O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenas, +das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das +balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que no podemos pr em +duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario +demonstrada por casos de proteo, de conversao e de curas miraculosas_, +pelo revd. padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et +Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos +exemplos. + +Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um boto +dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto +das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar +emquanto caem e continam a leitura em baixo, traando a perna n'um +estado do satisfao ineffavel. + +O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreio do Var, com um +escapulario ao pescoo, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato +os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica +illeso. No nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir! disse por +essa occasio um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21) + +No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lanar ao meio +das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e +o escapulario encontrou-se intacto. Apenas, diz o padre Huguet na obra +citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco. (Pag. 17.) + +Um soldado na batalha de Novara v cair em torno d'elle todo o +regimento, elle o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e +acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada brao. (Pag. +20.) + +Um desgraado, querendo suicidar-se, lana-se ao mar quatro vezes +consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o praia, recusando-se +obstinadamente a submergil-o. O desgraado recorda-se ento que traz ao +pescoo um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado +o escapulario em terra. Foi smente com esta condio que o mar se +resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.) + +Alm de livrar de todos os perigos, sem excepo, durante a vida, o +escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte. + +O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Colleco dos +escapularios da Immaculada Conceio, do Rosario, do Carmello, etc._, +diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, +pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes so +arrebatadas pelos escapularios. Parece que no ha dia em que um milho +de diabos no roguem esta praga medonha:--Que ns levemos os +escapularios! + +As approvaes pontificaes de todos os papas, desde Joo XXII at Pio +IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios. + +O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir +para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle +perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que +arranje a morrer com o escapulario na sexta feira meia noite, podem os +facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o ho de ver +por um oculo! + +O uso do escapulario extremamente commodo: no obriga a encargos de +nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, +da confisso e da communho. Tambem no priva o penitente de qualquer +prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd. +Guglielmi. O essencial no o tirar nunca, nem mesmo _quando +voluntariamente se vae peccar_: o que mais particularmente prescreve o +dito padre Guglielmi. + +De todos os escapularios o que mais se recommenda eleio dos devotos + o do Sagrado Corao de Jesus, porque este escapulario nem sequer +precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle +seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo +seguinte: Sobre um pequeno retalho de l branca--retalho quadrado ou +oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a +virtude--applica-se um corao de flanella encarnada, bem talhado e +cosido a pesponto, de modo que imite a cora de espinhos acompanhada de +algumas gotas de sangue bordadas a seda. parte, em uma tirinha de panno +patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripo +sacramental: _Suspende! Est comigo o corao de Jesus_! + +Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um +d'estes escapularios, deital-o ao pescoo e ficar livre, para a vida e +para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do +alto das torres, atirar-se s voragens do fogo e do mar, e metter-se +debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, no +far a _Nao_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos +de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nao_, o mais que faz +unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos? + +Ha umas tantas coisas que a _Nao_ at devia ter vergonha de as dizer +... O que a _Nao_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a +esse pescoo, para a _Nao_ ficar ento sabendo o que so milagres! +Porque a _Nao_ no sabe o que so milagres! + +Pr o padre cego a ver e pr a paralytica a andar no passa de uma +habilidadesita mediocre, um bocadito de geito! + +Vir feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de +proposito para fazer perder gente o gosto pelas devoes ... + +Emquanto a ns o que a _Nao_ tem o espirito maligno no corpo do +jornal! Cruzes, demonio! + + * * * * * + +Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos +de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu +termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de +satisfao sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um +fadista. O que temos que perguntar : Porque se no prendem os fadistas +todos? + + * * * * * + +Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significao analoga a +esta--o _fadista_. + +Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, +constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende +dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame +feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com +fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em +toda a sua pureza esta raa de bravos de viella, sem officio nem +beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, +frecheiros com as mulheres, soberbes e insolentes com os mesteiraes e +com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excurses +nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando +os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e aoitando +os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e +adormecidos. + +Entre os alludidos fidalgos figurava como gro-mestre da ordem, como +capito da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmo +do senhor rei D. Joo V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse +interessantissimo principe, cujas tropelias creram, durante um seculo, +em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, +conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos +divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um +navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser +mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcanar com +um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o +seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando +sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se +despegra da verga, que dobra no ar por entre as enxarceas e cara por +fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o +que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e +que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos +uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais +tarde, com a illuminao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e +com a creao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaas, os +combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razo +biologica de que toda a fora organica que se no exerce se elimina, o +antigo valento plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o +espirito da faanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da +vadiice, e tomou ento o nome de--fadista. + +O fadista no trabalha nem possue capitaes que representem uma +accumulao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da explorao do +seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que +elle espanca systematicamente. No tem domicilio certo. Habita +successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na +esquadra da policia. Est inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas +noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. um anemico, um covarde e +um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito concavo, os braos so +frageis, as pernas cambadas, as mos finas e pallidas como as das +mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e +enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e +de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma +guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a +grande navalha de ponta e triplice calo na mola. habitado por uma +molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de +constituio normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com +um soco. Elle sente isso e traioeiro pelo instincto do inferioridade. +No ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe +obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma +agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_. +No ha seno uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a +bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A +guitarra debaixo do brao substitue n'elle a espada cinta, por meio da +qual se acamaradavam com a nobreza os pimpes seus ascendentes do seculo +XVI. pela prenda de guitarrista que elle entra de grra com os +fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da +Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, +onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe +composto de bacalhau e gros de bico polvilhados de vermelho por uma +camada de colorau picante. Por effeito da tradio na orientao mental +da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se +e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga +taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos +alcouces de Alfama, que so levantados bebedos dos becos mal afamados, +que fallam em calo e que fazem troas no Colete Encarnado e na Perna de +Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compe-se hoje principalmente de +jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de +pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educao do +lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo +mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O +fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes +de pandega. Usa como elles a bota fina de taco apiorrado ou o salto de +prateleira, a cala estrangulada no joelho e apolainada at o bico do +p, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapo arremessado para a nuca +pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A +guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um +desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beio +pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o +outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplao +imbecil; o tronco do corpo cado mollemente para cima do quadril; a +perna encurvada com o bico do p para fra; o _cachucho_ da amante +reluzindo na mo pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a +mo na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabea alta, +esticando as cordoveias do pescoo e entoando as melopeias do fado, em +que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoes religiosas + Virgem Maria, com uma voz soluada, quebrada na larynge, acompanhada +da expresso physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e +miseravel. + +De resto o fadista no tem vislumbres de senso moral. Explica os seus +meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista +na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com +o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas +convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condies +especiaes em que ama e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos +restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a +todos os machos. + + * * * * * + + da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os +incorrigiveis da criminalidade. + +A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia +recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informaes de um +inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir +em tres cathegorias. A primeira cathegoria composta de individuos que +verdadeiramente no deveriam ter entrado nunca na priso. So lanados +nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo +ou de caracter, a qual no obsta a que elles tenham uma moralidade to +s como a de qualquer de ns. segunda cathegoria pertencem individuos, +mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou +immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se +tornarem bons ou maus segundo a direco que recebam. A terceira +cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, rebelde +a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os +conselhos. Para estes a cadeia um logar improrio; seria preciso +confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo +no fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias +inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os +grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado no teria +seno proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos +presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe +conviria principalmente dar instraco; emquanto aos terceiros o melhor +expediente seria a morte. + + util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa: + + ou no da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos +criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja +incorrigibilidade em muitos d'elles attestada por varios julgamentos +repetidos? + +A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde: + +. + +N'este caso pergunta-se: + +Pde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, +continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de +uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente +os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a +justia mais difficilmente corrige e mais raramente regenera? + +No. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de +que o Estado cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade +irresponsavel da perversidade individual, no succede o mesmo, e a +sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que ella que sustenta, ao +abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e +manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos. + +Dado o fadista, a sociedade no pde certamente evitar o criminoso. A +sociedade porm pde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um +inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a +instituio concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria. + +Desde que um cidado deixe de poder explicar unicamente pelos +supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o +Estado tem o dever de o prender, no para encarcerar mas para coagir ao +trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na +cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc. + + * * * * * + +O mais perigoso de todos os animaes vadios o homem. Comparado com elle +o co, ainda quando damnado, pde-se considerar inoffensivo. E todavia a +policia, que tem para o co que ainda se no damnou as precaues da +rede e da carroa, no tem para o vadio, em pleno exercicio do seu +contagio, seno um expediente repressivo: o de lhe archivar a +photographia no commisariado geral. + +Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios +de garantir a segurana publica: tire o retrato aos ces e deite a rede +aos fadistas. + + + * * * * * + + +Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio +do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legies +contrarias, arrojram-se encarniadamente uns sobre os outros, +esmurrram-se, esguedelhram-se, cuspiram-se na face em odes, +aoitram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e +viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regies +lombares das musas. + +Mysterio sobre as causas que moveram to cra guerra entre duas escolas +poeticas alis to pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que +ellas existissem: a escola da _Ida Velha_ e a escola da _Ida Nova_! + + * * * * * + +Os da Ida Velha dizem que no ha nada como a ida d'elles. E fundam-se +para isto em que uma ida solida, experimentada, garantida. + +O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou +encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta +annos. + +Ergueu-a do cho como morta, chuchada, espipada, moda pelas pgadas de +duas geraes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e +pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam +enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e +inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Ida Velha por uma ponta e +pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois +lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro +fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot +e levou-a comsigo sociedade, onde a receberam bem. Cercram-a varios +outros no menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do +que aquelle que a levantra do cho. Andou pelo brao de um e pelo brao +de outro recebendo declaraes de affecto e dadivas de amor. Mo to +dedicada quo firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela +Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em +spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, s solemnidades +publicas, s casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com +agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na +_Grinalda_ e no _Almanach de Lembranas_; dedicou versos Lapa dos +Esteios, Stoltz e Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; +concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e +s Graas nas notas da verso portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembla +da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de +_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmram, para lhe serem +agradaveis, o seu amor lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou +finalmente nas altas regies officiaes. Foi aos paos dos nossos reis! +De quando em quando observava-se que ella comeava de repente a +encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fra +insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e +era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se +fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinio, +e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo Ida Velha. O +poder moderador, com a sua real cora na cabea e o seu real manto s +costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. +Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, +achando-se to chupados e to desfallecidos como a propria ida que eram +chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e +retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois +as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, +choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos +seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, +tinham tido a honra de bufar mesma ida e pelo mesmo canudo que +servira primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do +estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembla da +Galocha e os empregados publicos do Gremio no o permitiam, e torcendo +altivamente o bico das peras, diziam que a Ida se no se podia pr +merc da populaa infrene e ignara. Vivendo assim custa do sopro dos +poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos +conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do +Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a +Ida, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu +entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoo a +condecorao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, +ajoelhou-se-lhe aos ps e propoz-lhe leval-a s aras de Hymenen; ella +porm, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas +exclusiva do vate. Este, de pura dr, pregou na parede um prego e +suspendeu n'elle, por um lao de crepe, a theorba emmudecida e viuva. + +Nos ultimos annos a Ida Velha desapparecera do bulicio do seculo e da +communicao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. +Algumas pessoas devotas tinham-lhe j resado por alma. Soube-se agora, +com grande satisfao dos que a conheceram no galarim, que a Ida Velha +ainda est viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares +onde no ha outra ida de dentro para o servio da familia. + + * * * * * + +Os da Ida Nova teem esta falha notavel: suppem que a Ida velha +vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, +que prepondera nos destinos do mundo, E vem-se moos honestos e +engraados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos +pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como +se fosse uma fora da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que +ha meio seculo no passa do um artificio convencional e de uma +superfetao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em +nenhum dos interesses do espirito ou do corao do homem no tempo +presente. + + + * * * * * + + +_O Primo Bazilio_, novo romance de Ea de Queiroz, um phenomeno +artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta +obra preciso discriminar o que n'ella pertence jurisdico da arte e +o que pertence aos dominios da pathologia social. + + * * * * * + +Eis a doena que este livro accusa:--A dissoluo dos costumes +burguezes. + +O mais caracteristico symptoma d'esse mal a falsa educao. A educao +burgueza tem um defeito fundamental: mantm na mulher a mais terrivel, a +mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: +No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de +apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos +ver porqu. + +Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma +desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a +representao da vida exterior e o systema da vida intima. + +Basta olhar de fra para as casas, basta considerar o aspecto exterior +do templo para se fazer uma ida do que pde ser dentro o culto d'essa +religio--a familia! + +Comparem-se as nossas edificaes urbanas, os casares da +baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais +asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda +a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as +graciosas construces arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, +com o seu claustro interior, o poo de marmore ao centro do pateo, as +galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o +pequeno jardim, que o corao da casa. Comparem-se com as sabias +edificaes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da +Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos +predios do bairro central de Lisboa ao p dos novos predios de esquina +de rua no Hanover. As novas casas allems no stylo gothico francez, +modificado segundo as exigencias da civilisao moderna, so obras +primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehenso da hygiene, da +moral, da estetica; so verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor +systema de educao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cres, +branca, cr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraos +cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se +cantam os passaros, de balces em que desabrocham as flores sempre +frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de +outros tantos ramalhetes, so interiormente distribuidos do modo mais +elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos +nobres prazeres da familia. A disposio mais escrupulosamente estudada +do salo, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de +todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa +luz e bom ar, permitte s mulheres o saudavel prazer de girar na casa, +activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres. + +As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, +parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de +verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguo sombrio e infecto, +com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogo por baixo +das caarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos +rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema +queimada, so os sepulchros da saude e da alegria. + + n'essa serie de prateleiras, de gavetes de familias, que se chamam os +_Arruamentos da Baixa_, que educada a lisboeta. + +Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando +recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observao: + +Noto um facto que me enche de perturbao e de horror--n'esta cidade +no ha creanas. + +Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros +bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e +balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cr de palha, +desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os +musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os +musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, +ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do +largo de Cames, da praa das Flores, do Aterro: l encontramos +effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas no +encontramos uma unica creana, a cuja saude sua me se tivesse +sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espao de tempo a sua +preoccupao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou +com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o +seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe +fresco. + +Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa +frequentam as lojas ou fazem visitas, onde que esto as creanas? As +creana esto dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem +proposito. Tomar proposito_ uma locuo essencialmente local e +intraduzivel, que quer dizer: aprender a no saber andar, a no saber +rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres +instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A +menina s principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito +indispensavel para no tagarellar imprudentemente, para no contar que +houve favas para o jantar ou que o pap ralhou com a mam. Haver favas +para o jantar e ralharem o pap e a mam de resto tudo ou quasi tudo +quanto se passa em casa, porque no ha interesses de espirito, nem ha +instructivas occupaes praticas. Falta o jardim, a grande escola da +infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, +e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as +flores. Tambem no ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do +jornal e os romances das traduces baratas. Nenhuma especie de estudo. +Nenhuma applicao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas +da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde +aprende o francez e o inglez. Esta educao completa-se em casa +ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educao so +appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das +linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salo tocado no piano +diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua +funco sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe +suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os +jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du +Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. No leu ou +no entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, +Michelet, Dickens, Andersen, Froebel. + +No a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora +completamente as leis que regem o universo e que determinam esses +phenomenos. + +No a distraem os interessantes cuidados do _mnage_, porque da casa, +assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem +nenhumas noes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia +das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da +actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, to +moralisadores e to attractivos, teem para ella o caracter de um mister +gnobil, desprezvel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a +essencia da cozinha nacional, discrio de uma criadagem vill, que +retribue o desprezo de que objeto traindo, maldizendo e roubando. Da +casa o que ella sabe unicamente que ha duas ou tres salas de apparato +que se mostram s pessoas de fra; um quarto mais ou menos infecto, uma +possilgueirinha mobilada pelo Gard, em que ella dorme at s dez ou +onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que d +respostadas; e uma latrina contendo um fogo em que por meio de varias +borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa. + +Na religio ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que +a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias +elegantes: as romagens fonte de Lourdes; a orao em frente da gruta +no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro +de Roma; a contrico aos ps do summo pontifice, coberta de renda +preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo +do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os +orgos soluam e o sol coado pelas vidraas coloridas se espelha nas +couraas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas +desembainhadas. Presta ainda bastante considerao s interessantes +ceremonias da elegante religio nacional, como a do Mez de Maria na +bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas aucenas, fresquinha +e graciosa, similhante a uma _bombonire_, ou como a da Semana Santa nos +Inglezinhos, a cuja _petite entre_ destinada aos intimos rodam os +_coups_ magnificos da piedade escolhida. + +Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do +seu _bnitier_ barato; pelo Deus da procisso do Carmo e da procisso da +Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, +arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um +tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella no tem seno duvida ou +desdem. + +Na moral as suas convices baseiam-se em uma serie de principios +theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie +contradictoria de interesses praticos, tirando esta concluso: que o +dever consiste na mais habil combinao que se possa fazer d'essas +theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo +resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das +sociedades corruptas:--o socego. + +Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto , principia a +ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com +os homens. Percebe ento vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra +regio social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso +do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as +raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e +da _toilette_; com uma cabea ca; n'um quarto que no cheira bem; tendo +um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balco, que pensa pela +cabea de um jornal barato e mal feito, e uma me que se enfastia +medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta +cntra o destroo dos annos e contra o preo crescente dos generos +alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o +aguadeiro, ralhando com o marido. + +Principia ento a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida +domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno +quarto sem tradies, sem historia, como o de uma estalagem; o saguo +infecto, onde zumbem no vero as grandes moscas gordas e pesadas; a +cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as +caarolas gordurosas e as louas esbotenadas; a sala pretenciosa e +inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos +arabes defronte do sof, a lythographia da mulher que sorri, o album dos +retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores +de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordo no +meio dos cortinados. + +Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinco +decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, +similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de +Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais +nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere + sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas +mais simples, mais triviaes, e para se dar um aspecto superior, para +se encobrir do que , que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel +a respeito dos criados que no tem, das visitas que no faz, da opera +que no viu, dos livros que no l, da modista a que no vae, dos banhos +que no toma, dos jantares que no come, das dignidades, das distinces +ou do luxo que no usa. + +Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de +romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas no +lhe sae o que quer: no sabe organisar aprazivelmente a casa, no sabe +tornar encantadora a familia. + +Humilhada, infeliz, comea a descoroar a pouco e pouco da sua +predestinao superior. Sente que ha na sua constituio moral uma falha +da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiraes. +No se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e +serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que o resultado da +perfeita educao. + +Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente +superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conhea o facil +processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cair com uma +simplicidade tragica. + +O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condies, o +dandy. Porque o dandysmo a unica frma sob a qual a distinco se lhe +apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres +pensamentos ter para ella menos seduces do que uma cabea bem +penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por +uma fina risca cr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de +espirito, nenhuma delicadeza de corao, nenhuma virtude de caracter +exercer sobre a imaginaoo d'ella a fascinao com que a subjuga a +alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O +seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, ser +aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver +jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e +se calar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver +desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais +segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas +mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em +_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_. + +Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos +refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos +tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de +Frana, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando s penetrantes +essencias de Lubin e febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se +um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos ps d'ella, para lhe dizer +obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia s outras, +_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as +suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do +seu joelho desformado pela falta de circulao proveniente de um defeito +caracteristico da sua raa, o defeito de no saber atar as ligas; apezar +ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu +espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e +do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado +nacional ... Se, apezar de tudo isso, to desdenhoso, to frio, to +gloriosamente corrupto, traando a perna, descobrindo desleixadamente as +suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, +encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade +attenciosa e benevola as scintillaes do seu correcto _plastron_ de +Poole, e as exhalaes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu +cabello frisado Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte no +saber negar. + + * * * * * + +Tal o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, +medonho, tragico, sobre o qual Ea de Queiroz escreveu _O Primo +Bazilio_, romance realista. + +Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convico social, e +esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo no tinha +seno convices esteticas, e satisfazia assim as necessidades de +espirito da sociedade que fez a Revoluo, que caiu no Imperio, que +supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros no pediam arte de +1830 seno uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas ento +cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados +de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradies +gothicas da edade media e fizeram uma restaurao litteraria e burgueza +da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipao +da forma mais profunda indifferena pela questes sociaes do seu tempo. +Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, +atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, +phylanthropos. + +A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. uma +sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os +pontos da sua peripheria at as mais reconditas intimidades do seu ser. +Esta reconstituio no se est fazendo empyricamente pela revoluo ou +pela sentimentalidade, est-se fazendo scientificamente pela +convergencia harmonica de todos os esforos intellectuaes sobre o mesmo +problema. Comprehendeu-se que so solidarios todos os estudos, os do +mundo inorganico e os do mundo organico; que so correlativas todas as +leis desde a da indestructibilidade da materia at a da evoluo social; +que finalmente se no pde chegar ao conhecimento positivo de nenhum +phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer +integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle o elo que +prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente. + +N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga to estreita, +que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer +dos ramos da sciencia se reflecte na direco de todo o trabalho mental +em qualquer das suas manifestaes, dando por exemplo a theoria +zoologica da adaptao ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga, +dizemos, a arte no pde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha +trinta annos. Esse papel -lhe imposto fatalmente pela nova orientao +mental da sociedade. A arte moderna no pde j hoje basear-se em +risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse +e para que tenha a importancia de um agente da civilisao, em factos de +caracter scientifico, isto : em factos que sejam a funco de leis +sociologicas. Queremos factos, no queremos exclamaes: _Res non +verba_. + +Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepo litteral, que +se tirou a designao _realismo_. + +Chamar realismo ao que puramente grosseiro, ao que descarado, ao que + torpe, calumniar o dogma. Uma obra de arte pde conter o maximo +numero de torpezas e de obscenidades e no deixar por isso de ser +simplesmente lyrica. + +O _Primo Basilio_ um romance realista porque a representao de um +facto social visto atravez de uma convico scientifica. Luiza, a amante +do primo Basilio, a personificao tremenda da tendencia morbida de +uma epoca. E n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser +Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral +dos livros no premio que n'elles se concedia virtude e no castigo com +que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte +afflictiva um facto accessorio, que no conteria seno esta moral +negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a +morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as +cartas. + +A moral d'este livro no est em que a prima de Basilio morre depois da +queda; est em que ella--_no podia deixar de cair_. + +Reconhecemos que esta moral pouco accessivel maior parte das +comprehenses. Esse o grande mal do livro, ou antes esse o grande +mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppe um +estado de civilisao artistica e litteraria superior que existe na +sociedade portugueza. Suppe manifestaes parallelas nas applicaes da +philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construces, na +hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituies, na +critica dos costumes, na propria critica da arte. + +Ora essas manifestaes no existem por emquanto n'um estado de +vulgarisao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se +dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do +_Primo Basilio_. A sociedade portugueza no comprehendeu ainda de um +modo collectivo e solidario, que urgentemente indispensavel por todas +as manifestaes do pensamento proceder reconstituio da educao +burgueza. + +De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, mulher nossa +contemporanea: Eis--aqui est o modo pavorosamente simples como tu te +rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens,--parece um +insulto quellas que so as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas +companheiras de trabalho, as nossas mes, as nossas irms, as nossas +filhas. Essa affirmao, porm, deixaria de ter um caracter +apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar: + +Eu no sou um homem isolado no meio da sociedade a que perteno. Sou +uma parte d'essa legio de trabalhadores dedicados, profundamente +honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta +ambio heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na +minha qualidade de artista, a ti mulher que me ls, o mais que eu posso +fazer commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o +problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, +com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte +romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um +alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereo-t'o eu tal como +elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre +asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e +meio forado das gals, friamente calculador, sovina, absolutamente +pdre. E esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito +em preconceito, de erro em erro, s trazida, atravez de todos os +elementos que constituem a falsa educao que te deram, a admirar e a +proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu +perteno ha uma religio, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, +um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e +convergentemente estaro n'este momento--no momento em que eu tenho a +concepo artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as +influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do +amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehenso nova, assento +em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. religio +compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou +demittir-se da soluo do teu problema. politica, emprehender a +reforma das instituies em vista do teu aperfeioamente. moral, +fazer-te comprehender a noo da justia. sciencia, o determinar com a +maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a +applicao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. critica, +finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porm, no me competia +como artista seno uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha +these, fazel-a viver na maxima elevao esthetica: porque meio? por meio +da mais perfeita frma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz. + +Se com a natureza essencialmente artistica de Ea do Queiroz fosse +compativel a humildade de uma explicao n'essas bases, o seu livro +teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um +artista tem a obrigao de se no explicar,--o que seria invadir uma +funco alheia na justa diviso do trabalho intellectual moderno. Ha um +gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma +religio do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim +como o philosopho deve ser indifferente theologia, o artista deve ser +indifferente opinio. Mas esta independencia da philosophia e da arte, +se por um lado a condio essencial da sua misso perante a pura arte +e perante a pura philosophia, por outro lado ella a principal causa de +ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante +a comprehenso dos espiritos e a satisfao das consciencias. + +Taes foram as razes porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do +_Primo Bazilio_,--uma to perfeita obra, que a consideramos como sendo +uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve +gloriar uma litteratura--ns fizemos esta prophecia: Que este livro +seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados +observao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da +biologia, instrumentos inuteis--s vezes perigosos--para todo aquelle +que no tem a sciencia de os pr em exercicio e de ver por elles a +divina revelao de um novo mundo. + + + * * * * * + + +O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr. +Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio: + +Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois +de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se +desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, +exclamou:--Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta! + + * * * * * + +O _Diario Illustrado_ no ousa affirmar de um modo terminante que o sr. +Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o +_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._ + +Ora este caso no se pde deixar assim envolvido na duvida. So +historicas as palavras do sr. Sampaio ou so puramente uma legenda das +montanhas, inventada pela imaginao supersticiosa dos pastores dos +carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira +de Tarbes? Pde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra +a authenticidade d'aquellas expresses? Foi effectivamente o sr. Sampaio +que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ... +No seria antes algum dos outros heroes j celebres na historia da +cordilheira dos Pyreneus? No seria o paladino Rolando, sobrinho de +Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a +Durindana na batalha de Roncesvalles? No seria o proprio Carlos Magno? +No seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de +Champagne? No seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante +da belleza da paizagem, entre os valles de Barges e de Bagnre? + +Est o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por +tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabea do +sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio +quem, depois de jantar, janella da hospedaria, palitando talvez os +dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles +dizeres? + +Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_. + +Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com +effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem asss +convicto em suas crenas, asss profundo em suas vistas e asss firme em +suas resolues, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de +jantar:--_Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal +phrase no uma fico, se ella existe realmente fra do estado +abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz no pde cruzar +os braos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra to lucida como a +que o _Illustrado_ cita marcou a differena, toda favoravel nossa +patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo! + + + * * * * * + + +Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado +ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos +seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo +especial: + +1. Rir atraz da procisso dos Passos. + +2. Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um +viajante. + +3. No ter dado pateada a um lente. + +4. Parecer constrangido a dar lio. + +5. Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra. + + * * * * * + +Os alumos condemnados pela perpetrao dos delictos 1, 2, 3 e 4 +appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de +expulso temporaria em alguns dias de cadeia. + +Procedendo d'essa forma o Poder Moderador no tomou em consideraoa +necessidade de fazer proceder reviso da legislao academica. O Poder +teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sano dos regulamentos +universitarios s familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder +mostrou ter um corao do excellente rapaz alliado a um cerebro de +legislador mediocre. + + * * * * * + +Est pendente da confirmao regia, segundo nos consta, a pena imposta +aos reus do crime n. 5, julgados j segundo o direito commum e +absolvidos pelos tribunaes civis. + +N'esta conjunctura perguntamos: + + admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente +de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidados de +uma certa classe estejam sujeitos por uma legislao especial a serem +julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punies em vez de +uma, se as duas sentenas forem conformes; ou sendo simultaneamente +tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenas forem +contrarias? + +Responder-nos-ho que o tribunal academico julga de circumstancias +especiaes que no so submettidas apreciao dos tribunaes ordinarios? + +Mas n'esse caso o tribunal academico com relao ao crime de que se +trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra. + +Como tribunal escolar Universidade cabe apenas decidir se o facto de +sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lio. + +Com tribunal de honra a Universidade precisa de no perder de vista que +quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontaps, o deshonrado +no propriamente quem os d, por via de regra quem os recebe. + +Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questes +d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltres e de +covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade +que ainda possa haver na mocidade portugueza. + +Todo o homem que se no acha devidamente temperado na sua natureza +physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, +com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, um homem +corromido, sem o sentimento do respeito devido dignidde da sua +especie, atreito s paixes mesquinhas, com manhas de reptil. + + * * * * * + +Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para +sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho +systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir +honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaas da +fora alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando. + +Se porm a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros +cidados, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para +sempre da instaurao de processos ridiculamente pueris, requerendo das +crtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de +atrophiar no corao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos +naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da +velha troa academica por meio da instituio de exercicios viris, +proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a +escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_. + + + * * * * * + + +No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que +Deus segundo Taine um personagem official com os seus cortezos e os +seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da +Providencia n'um discurso da cora o chefe do estado fez novo discurso +para prehencher essa omisso,--na velha, na religiosa, na solemne +Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocuo +presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras +seguintes: + +Dir-me-ho que supponho um estado de cousas determinado pela influencia +das religies e comprehendendo os dogmas da theologia e a crena no +livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada +fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e +perverso sem esperana, o corao do homem, dir-me-ho que se fossem +abolidas as sances theologicas a raa inteira se modelaria por alguns +exemplos de depravao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladres e +assassinos. Porque s o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o +medo, no conheceriamos mais do que o instincto natural e +desconheceriamos o dever. + +Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes +concluses. O scelerado no em minha opinio a imagem da humanidade. +_Bebamos e comamos porque temos de morrer manh_ no a consequencia +ethica da regeio dos dogmas. + +As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos so taes que nenhum +christo se envergonharia de as professar, e nenhum christo as censura +seno desde que conhece a origem de que ellas procedem. + +Reconheo de todo o corao e sou o primeiro a admirar a irradiao +espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religio produz na vida de +varias pessoas que conheo. Mas no posso tambem deixar de confessar que +muitas vezes a relligio passa por estrondosas derrotas ao procurar +produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeo da religio +frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenas +procedem de distinces primordiaes de caracter que a religio +insufficiente para nivelar. + +D uma verdadeira satisfao o sabermos que existam no nosso gremio +homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_ +e cuja vida, no obstante, experimentada na pedra de toque de uma +moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida +d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designao offensiva. + +Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam +aquelles termos, no que eu pense que o _atheismo e o materialismo_, +comparados a muitas noes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham +em si um caracter offensivo. + +Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel +sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando +eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um +cidado justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses +atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido to firmes na +morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles no esperavam a cora +celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram to +zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto +emprego dos seus ultimos momentos. + +Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes + christo, o outro no. + +O christo Faraday, que Tindal considera um modelo da associao da f +religiosa com a elevao moral. O seu caracter o mais proximo da +perfeio. A religio era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolao +dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia +peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, +comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais +delicada flor da cavalleria. + +O que no christo chama-se Darwin. No tem o ponto de vista +theologico nem a commoo religiosa que constituiam um to poderoso +agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeio moral de +Faraday. O sr. Darwin, diz Tyndal, uma natureza candida e simples, um +caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; + o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador to docil s ordens da +verdade como o patriarcha antigo s ordens do seu Deus. + + * * * * * + +Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de +verdade, de justia e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral +de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem +exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente cultura da +intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma +moral independente de toda a especulao theologica. Que fecunda these +para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado +presente dos espiritos, em que as convices do homem esto geralmente +em contradio com as crenas da esposa e da filha, e em que to +necessario se torna portanto harmonia moral da familia o principio +fundamental da conciliao das consciencias! + + * * * * * + +Na reunio do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario +mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da +Haute-Sane, expe com uma conciso profundamente lucida as causas que +determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, +tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem +escravisados pelos poderes clericaes. + +Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho +aos esforos do obreiro comea lentamente a operar-se: os trigos +crescem. Crescem em virtude de que lei? + +Tal a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe +respondem aquelles que so encarregados de o instruir e de o educar. A +noo que elle recebe cerca do modo como o trigo cresce torna-o +fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e +embair. Qual o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio +ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador +operario acrescenta: + +Faz-se geralmente crr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se +desenvolvem em resultado de uma fora cuja paternidade vem de Isis, ou +de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia +crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora o deus de +Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a +amadurecer nas mesmas condies em que amadurecia n'outro tempo. A ruina +dos successivos templos e das successivas religies em nada tem alterado +as leis da natureza. E todavia d-se por toda a parte o mesmo estado de +coisas: O indio cr que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim +v nos seus o grande Todo. Em outros sitios Budha. Para os gregos e +para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia o grande Lama. Na +Africa a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito. + +Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporaes de +sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ... +Respondeis-me que impossivel. effectivamente impossivel, o que de +certo uma desgraa! Esse porm o facto historico, que no podemos +deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque +sobre as questes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas +geraes. + + a guerra, a guerra de religies. tempo de lhe pr um termo. +tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a +legislao humana e a moral universal. + + * * * * * + +Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres +do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestes de idas e de +principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de +Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras +convices de sciencia ou de simples bom senso so consideradas +perigosas e banidas das discusses publicas. + +Debalde a historia da civilisao ingleza n'este seculo nos demonstra +que a tolerancia absoluta na manifestao do pensamento a primeira +garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia +das idas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, +evitando assim que a orbita das applicaes praticas seja invadida pelos +principios que no foram d'ante mo sanccionadas na opinio e pelas +reformas que ella no exigiu em nome de novas necessidades provenientes +de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal o +methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbaes graves +que a impaciencia dos reformadores, no experimentada na pedra de toque +de uma discusso liberrima, lanou na vida pratica de outras naes, +como succedeu em Frana depois do segundo imperio, que corrompia todos +os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que +esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio. + +Em Portugal essa importante lio tem sido absolutamente esteril. + +Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino +mostraram uma ligeira tendencia para produzir idas, o governo sem +nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias. + +Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram +manifestar posthumamente as suas idas solicitando para os seus +cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por +todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes, +vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu +morto. + +Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que +expem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias +physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse +facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepes +theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, +a impunidade d'esses professores, dizemos, no se deve attribuir +tolerancia philosophica do poder. Ella simplesmente o +resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos servios +publicos. + +Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha +professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais +vergonhosos e mais crassos alheios doutrina dos programmas. Ha lentes +que esto acima da lei pela mesma razo que ha outros que esto abaixo +d'ella:--por falta de inspeco e de policia. + +Um facto recente d-nos a prova mais cabal de que o estado no +solidario nos progressos scientificos da nao, e que estes se operam +no sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da +intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se +armam. + +Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos +dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruco primaria! + +Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores +mais moos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso: + +_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sesso, publicado do +_Jornal do Commercio_), _no adversario do desenvolvimento da +instruco primaria, porque no deseja que continue a subsistir o estudo +de ignorancia do nosso povo, onde a proporo dos que sabem ler de 1 +para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., de 1 para 6. +Mas no deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio. +Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes +tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais +proprio. Pde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem +e temente a Deus, que no queira mandar o seu filho a uma escola cujo +mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas +maiores glorias, embora a instruco estivesse pouco diffundida, a nao +portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; no pretende dizer com +isto que deixe de se derramar a instruco, porque tambem apostolo +d'esta ida, mas quer que essa instruco seja ao mesmo tempo moral e +religiosa._ + +A affirmativa de que a nao portugueza attingiu um alto grau de +prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instruco +estivesse pouco diffundida_, um erro de historia que o nobre conde +quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que +no pelo excesso de instruco em s.ex. que a gloria e a prosperidade +deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior no podia realmente +ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade +portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, +foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual. + +Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde +quer achar a differena que distingue esse tempo do tempo actual, +compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragana. + +D. Joo I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um +litterato. Teve a honra de hospedar na sua crte o grande pintor +Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle s +para formar a educao esthetica de um povo do que dez universidades e +vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos +artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor +Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da crte +portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, +em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao +vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro. + +Dos filhos de D. Joo I um o infante D. Duarte, o creador da primeira +bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal +Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete +partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens +mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D. +Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Ferno Lopes. O +ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas +navegaes, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o +mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a +sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal o +senhor D. Augusto, conhecido de todos ns por o termos visto passar no +Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se +hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte +nacional, que o acompanhram e que fizeram grande impresso na City, +onde os tomram por duas vaccas sem pernas. Eram os bas de sua alteza, +feitos na rua dos Correeiros. + +Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, +Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhes, Diogo Co, Pedro da Covilh, +Gaspar Crte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos +exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D. +Henrique e seus irmos souberam attrair a Portugal, que procederam +escriptores como Ferno Lopes, Gomes Annes de Azurra, Gil Vicente, Joo +de Barros, Damio de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Cames, talvez o +mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de +hoje, a no ser por influencia de alguns professores precitos e +apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo +official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e +que vo para administradores de concelho ou para amanuenses de +secretaria. + +No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente +instruido. certo que no sabia ler. Mas saber ler no constitue +propriamente instruco, mas sim um dos meios de instruco. Ora o povo +dispunha ento de outros meios superiores leitura. O marinheiro e o +soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na +confeco das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os +Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo +de ento no sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia +fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia +tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o +mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pde gloriar a +litteratura de uma nao. + +A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a +instruco! E conclue d'esse absurdo que um povo pde attingir a +prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das +accumuladas contradies do seu texto, em que s. ex. ora apostolo da +instruco, ora apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior +seria apenas inoffensivo. S. ex., porm, conclue a sua notavel falla +mandando para a mesa o seguinte additamento lei que se estava +discutindo: + +_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario +ensinar ou inculcar doutrinas contrarias religio catholica, moral, + liberdade e independencia patria ser demittido nos termos d'este +artigo, independente da aco criminal que deva ser intentada. Os paes, +tutores ou pessoas encarregadas da sustentao e educao das creanas +podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou +professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_. + +Eis ahi o que se no admitte, porque esta disposio legislativa +proposta por s. ex. produz a fixao legal dos seus principios a +respeito da instruco, isto : que deve haver instruco e ao mesmo +tempo que a no deve haver. No outra coisa seno eliminar a +instruco, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena +de processo e demisso immediata do professor, aos principios da +religio catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um to +profundo abysmo entre a concepo theologica e a explicao scientifica +dos phenomenos do universo, que toda a conciliao hoje impossivel +entre o mestre e o padre. No duvidamos que o christianismo possa ainda +reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes +e definitivas conquistas do entendimento humano. O que certo porm +que a direco reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano +desde a Reforma at hoje o inhabilita presentemente para realisar essa +aspirao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou +sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois +interesses oppostos impossivel. Pedimos licena ao sr. conde do Rio +Maior para lh'o provar. + +Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que o diluvio +universal, que lhe pergunta qual a idade da terra, que lhe pergunta o +que o homem pre-historico, o que so as florestas carboniferas, o que + o arco-iris, o que o pra-raios, o que transformao das especies, +o que a Torre de Babel, o que o Eden; supponhamos que o alumno faz +ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de +formular cerca das affirmaes da Biblia ou dos conhecimentos do homem. +A essas perguntas o mestre no pde responder seno com o erro ou com a +heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptram a sua +emenda lei da reforma da instruco portugueza desejam que o mestre +responda pelo erro. + +Mas isto peior do que pr de parte a sciencia; isto , recebel-a para +a contradizer e para a destruir; isto converter a ignorancia publica +em uma instituio do Estado. + +Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, luz de uma +lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem +disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E +apagou-lhe a lanterna. + +Quem foi que deixou no mundo esta lio? + +Foi o theologo. + +Um povo ignorante um povo em trevas, cuja lanterna a instruco. O +legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz o sr. conde +de Rio Maior. + + * * * * * + +Notemos porm um facto consolador: + +O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma +sensivel diminuio de fora. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente +de um velho sangue que se decompe e se dessora. A ida que elle tem no +cerebro uma ida que se extingue. + +Ha cem annos s. ex. teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, +para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demisso +do professor e o processo pelos tribunaes civis. + +Inclinemo-nos diante de to manifesta mansido! + +Nos fins do seculo XVI o _pendo da santa doutrina_, um lugubre pendo +negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por +fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era ento o professor idealisado +pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_, +argumentando a doutrina christ a este povo. Todas as mulheres e todas +as creanas saiam s portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos ps do +tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, +amortalhada de negro, de cruz alada, tangendo uma campainha, como quem +leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os +pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao +tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos +methodos porque se mortificam os impetos da carne. + +Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem +os estudantes missa, do que colhiam nas sacristias uma certido sobre +a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados. + +Hoje a parte disciplinar da nossa educao religiosa caiu com o pendo +negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinria, resta apenas a +cartilha de Padre Mestre Ignacio. + +E sobre essa cartilha solitria, em torno da qual caram dissolvidas a +uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma +instituio civil, sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um +sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores +portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o +ensino publico de uma nao! + + * * * * * + +Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ no cessam de elevar +aos cus em todas as manhs e em todas as tardes: + +_Meu Deus, tornae ridculos os nossos inimigos!_ + +O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da +instruco indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa +orao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das +_Farpas_, um crio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o! + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878) +by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 13093-8.txt or 13093-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/3/0/9/13093/ + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/13093-8.zip b/old/13093-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..fe9a5e6 --- /dev/null +++ b/old/13093-8.zip diff --git a/old/13093-h.zip b/old/13093-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..f271fe2 --- /dev/null +++ b/old/13093-h.zip diff --git a/old/13093-h/13093-h.htm b/old/13093-h/13093-h.htm new file mode 100644 index 0000000..c79417b --- /dev/null +++ b/old/13093-h/13093-h.htm @@ -0,0 +1,2527 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigo--Ea de Queiroz"/> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, +Fevereiro a Maio 1878 +by Ramalho Ortigo--Ea De Queiroz.</title> + <style type="text/css"> + /*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%; } + hr.minor { width: 10%; } + .centered {text-align: center} + .foot { margin-left: 10%; margin-right: 10%; text-align: justify; text-indent: -3em; font-size: 85%; } + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } + /*]]>*/ + // --> + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878) +by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas (Fevereiro a Maio 1878) + +Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +Release Date: August 2, 2004 [EBook #13093] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + + + + + +</pre> + + +<div class="centered"> + <img src="images/devil.png" width="570" height="755" + alt="Ea de Queiroz—Ramalho Ortigo—As Farpas" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /><!--=====================--> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGO—EA DE QUEIROZ</p> + <p>CHRONICA MENSAL</p> + <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>TERCEIRA SERIE—TOMO II</p> + <p>Fevereiro a Maio 1878</p> +</div> + +<hr class="major" /><!--=====================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder, + da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande + universo, e da adorao de mim mesmo. +</p> +</blockquote> + +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> + +<hr class="major" /><!--=====================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> + +<p> + <a href="#leisorganicas" >Leis organicas</a> + das sociedades e disposies regulamentares dos estados: + de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanco penal. O + caso da sr. D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos—A + <a href="#gymnastica" >gymnastica</a> + perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, + Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituio da + raa humana pela gymnastica. Reconstituio da ideias parlamentares pela + mesma gymnastica. Indicao de alguns exercicios para uso dos dignos + pares—O ultimo + <a href="#lourdes" >milagre de Lourdes</a> + e a <i>Nao</i>. Mostra-se que o milagre + no presta. Ensina-se <i>Nao</i> o que so milagres e prova-se-lhe que + ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar—A + criminalidade em Lisboa e o + <a href="#fadista" ><i>fadista</i></a>. + Historia genealogica d'esse + personagem desde o seculo XVI at a ultima facada no Bairro Alto—A + <a href="#velhanova" >ideia velha e a ideia nova</a>.—Uma + <a href="#tyndal" >opinio de Tyndal</a> cerca dos atheus. + Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin cerca das rases porque crescem + os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei + da instruco primaria mostrou no ser aquelle philosopho nem aquelle + carpinteiro— + <a href="#oprimobazilio" >O <i>Primo Bazilio</i></a>. + O caso pathologico e a obra d'arte. A + educao burgueza e o realismo—A + <a href="#escolanacional" >escola nacional dos poltres</a>. A + covardia, instituio publica, etc. +</p> +<hr class="major" id="leisorganicas"/><!--=====================--> +<p> + Tdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como + pertencendo a duas classes distinctas: +</p> +<p> + 1. Crimes resultantes da infraco das leis organicas da sociedade; +</p> +<p> + 2. Crimes resultantes da infraco das disposies regulamentares dos + Estados. +</p> +<p> + Emquanto as sociedades se no acham constituidas segundo o direito + absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, + isto , emquanto as sociedades no attingem um desenvolvimento + intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua + organisao, distinguindo o que n'ellas difinitivo e organico do que + convencional e contingente,—n'essas sociedades no podem dar-se seno + os crimes da segunda d'aquellas classes. assim que vemos nas + civilisaes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes + ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das + communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc. +</p> +<p> + Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entrram no + periodo scientifico da sua evoluo moral, como presentemente succede em + toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., + tomram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que + nos referimos, porque se comprehendeu que elles no violam unicamente um + regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da + vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregao que constitue o grande ser + collectivo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A sabedoria da legislao penal manifesta-se na mais justa e perfeita + demarcao dos limites que separam essas duas ordens de crimes. +</p> +<p> + Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios + repressivos da infraco das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a + punio imposta contraveno dos seus estatutos regulamentares, + distinguindo graduaes na culpa segundo a importancia dos interesses + feridos pela perpetrao do delicto. +</p> +<p> + em virtude d'este criterio que so punidos com severidade, + unanimemente exigida pela opinio, os attentados contra o interesse do + commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois + interesses so considerados os mais importantes das sociedades modernas; + ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, + pela razo de que os governos se julgam impotentes para vibrarem + arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por + conseguinte a civilisao rejeita como um acto de prepotencia e de + vingana. +</p> +<p> + Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a + forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha + muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os + politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: So mais do que + crimes, so verdadeiros erros! +</p> +<p> + Posto isto, vejamos qual o estado da mentalidade portugueza afferido + pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e s respectivas + sances penaes. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de + Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos. +</p> +<p> + No caso de Joanna Pereira vemos tres ros confessos e convictos de tres + crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por + meio da chlorophormisao; o carroceiro, da remoo de um cadaver; todos + tres cumplices e conniventes no crime de cada um. +</p> +<p> + Como procede a sociedade? No tomando conhecimento de nenhum d'estes + attentados e despedindo os reos em paz! +</p> +<p> + No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo accusado de ter + falsificado uma certido de edade para o fim de salvar um mancebo do + recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a + oito annos de degredo para a costa ds Africa! +</p> +<p> + O primeiro caso um triplice attentado contra a ordem social. A + sociedade no s o no pune mas nem sequer o julga. +</p> +<p> + O segundo uma contraveno de um regulamento administrativo. A + sociedade no s o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + No analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus + co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com + o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnao d'este uma + iniquiedade monstruosa. +</p> +<p> + O crime do que accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a + oito annos de degredo, crime unicamente perante a letra de um + regulamento de caracter no s transitorio mas arbitrario—o regulamento + do servio militar. +</p> +<p> + O parocho foi condemnado por tentar salvar do servio um recruta. + Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, s pde involver + inteno criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses. + Viciar a data de uma letra ou de um contrato indubitavelmente um grave + crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o + da propriedade. Mas alterar a data de uma certido de baptismo, para o + facto de isemptar do servio militar um cidado, no offender um + interesse social; o contrario d'isso: servir o interesse que todas + as sociedades teem em que deixe de haver militares. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o + punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se + estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos + analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios + civilisao e humanidade. Daria em resultado a eliminao do + militarismo e da guerra. +</p> +<p> + Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores no foram + punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira + ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos: +</p> +<p> + Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma + vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os + mortos. +</p> +<p> + Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para + todos os seus dramas: <i>Resistia-me, chlorophormisei-a!</i> +</p> +<p> + Finalmente, para o facto da seleco da especie, os maridos seriam + substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas + alcoolicas—o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, + convertendo aos pianos, reforados pela aguardente, nos unicos + instrumentos da perpetuidade da raa. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade + os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos + unicamente sociedade os nossos cumprimentos. +</p> + +<hr id="gymnastica" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Por occasio de se discutir no parlamento a reforma da instruco + primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopo da + gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinio de que a + gymnastica tinha um caracter immoral. +</p> +<p> + S. ex. parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes + do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com + pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mos + e de pernas para o ar. Isto effectivamente no seria bem visto. E + comprehendemos que s. ex. sinta uma certa poro de rubor pensando que + ao dirigir n'um salo as suas homenagens a uma dama esta poder vir um + dia a retribuir os cumprimentos de s. ex. aferrando-o pelos rins e + obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabea no espao + que medeia entre o tapete e o lustre. +</p> +<p> + Cremos porm que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais + directamente de um nobre desdem votado por s. ex. a algumas habilidades + da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s. + ex. tenha da coisa que fra das feiras se no chama a <i>sorte de foras</i> + mas sim mais modestamente—<i>a hygiene do movimento no corpo humano</i>. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Um illustre medico allemo, o doutor Schreber, director do instituto + orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformaes do + nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciaes na configurao + dos ossos da bacia, viciaes que inhabilitam muitas mulheres de serem + mes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na + escola e que s podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios + racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poder + chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto + correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de + s. ex. para alvo das suas predileces pelo pugilato athletico. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O mesmo doutor Schreber assevera que indispensavel introduzir o uso da + gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas + mulheres padeam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente + frequente e resultante da posio forada em que as raparigas se + conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos + acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em + sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja + espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente + depois a operar sobre a regio abdominal de s. ex. as experiencias + dynamometricas, cuja perspectiva lana no animo pudibundo do digno + procere um to ligitimo horror. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A physiologia moderna tem mostrado que a saude no mais que o justo e + perfeito equilibrio das differentes foras inherentes ao nosso + organismo. A hygiene tem provado com muitas observaes e fundada nas + mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de + todos os nossos membros e de todos os nossos orgos o unico meio de + manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisao d'esse + exercicio regular e methodico chama-se gymnastica. +</p> +<p> + Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se + hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulao do + sangue atravez da rede dos nervos encephalicos. +</p> +<p> + Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os + phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a + loucura so outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com + mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um + apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de + que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes + revelaes, demonstra que existem estreitas e precisas relaes de causa + para effeito entre as variaes da circulao e os differentes graus de + actividade cerebral. A abolio da memoria, a perverso das sensaes, + todos os casos de nevropathia cerebral so resultantes de uma falta de + cadencia na vibrao dos centros sensitivos causada por um embarao da + circulao sanguinea no encephalo. Na Italia esto-se curando as + alienaes mentaes pela transfuso do sangue. O medico Ponza, do Grande + Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos + de cura de alienados pela transfuso hypodermica. +</p> +<p> + Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispe para activar e + regularisar a circulao, de tanta importancia para a actividade + central, a gymnastica. +</p> +<p> + O celebre hygienista Lacassagne diz: Um exercicio muscular geral, feito + em boas condies, produz os effeitos de uma transfuso de sangue. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Ha estados morbidos cuja localisao no organismo escapa muitas vezes + indagao e sagacidade dos clinicos. Est-se doente sem haver + apparentemente perturbao alguma nas funces physiologcas. O symptoma, + frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na + diminuio do noso peso com relao unidade do nosso volume. A mais + segura medida da saude a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio + para tornar mais denso o corpo humano? Ha. o regimen da gymnastica. O + doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de + gymnastica militar da Faisanderie, em Frana, constatou, pelas + observaes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por + effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto acrescentar a + densidade de 6 at 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de + exercicio. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em um paiz onde a tisica faz to grande numero de victimas como em + Portugal, util accrescentar ainda que uma das propriedades da + gymnastica desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media + a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo + doutor Burq. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A fora muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a + densidade, n'uma proporo de 15% nos quatro primeiros mezes dos + exercicios gymnasticos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A hygiene de musculatura um facto de primeira importancia para a saude + desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos + tecidos vivos se reconheccu que a sde principal da combusto + respiratoria o musculo. Os differentes estados do musculo influem + directamente na composio do sangue. O exercicio portanto um poderoso + modificador do sangue e como tal acta em todas as foras do nosso + organismo. Mas no ha seno uma especie de exercicio com propriedades + hygienicas e therapeuticas: esse exercicio a gymnastica. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faa o obsequio de considerar + que s um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que + constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allem. O + doutor Sebreber demonstra que a unica occupao que sujeita quem a + exerce a um exercicio inteiramente harmonico, a occupao da + jardinagem. Todo aquelle que no for jardineiro tem de appellar para um + methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido + equilibrio as acquisies e os dispendios de cada um dos seus orgos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Taes so, resumidamente expostas, algumas das razes que militam em + favor da gymnastica. Em contraposio a estes argumentos no sabemos + seno de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex. os nossos rogos + mais fervorosos para que s.ex. no core diante da gymnastica, impedindo + assim o paiz de pr em pratica o melhor meio de regenerar a sua + constituio atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os + ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, + de reagir contra a hypocondria e contra a preguia, contra a atonia dos + nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a + gotta, contra as affeces pulmonares, contra as escrophulas, contra a + obesidade e contra a idiotismo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licena para incluir o mesmo + sr. Vaz Preto, esto contaminados por enfermidades que a gynmastica + previne e corrige. De modo que uma boa administrao pedia que + gymnastica no s fosse decretada para as escolas mas tambem para as + duas casas do parlamento. +</p> +<p> + Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allems, suecas, os + exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia + para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por + todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova + quanto estes exercicios so uteis no s ao desenvolvimento physico mas + ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se + introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que + n'aquellas em que a gymnastica no existe. +</p> +<p> + Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, + esqueceu uma disposio—precisamente a unica que teria alcance—um + artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes + em cada sesso, as suas locubraes legislativas, para fazerem + gymnastica ao som de um orgo, como nas escolas americanas. +</p> +<p> + O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser + obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por + que—digamol-o francamente—o que o <i>cachenez</i> do nobre duque + presidente seno o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma + mais caracteristico de que s.ex. no tem gymnastica nos musculos do + pescoo e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da + felicidade do paiz, que to estreitamente depende da preciosa saude do + nobre duque, s.ex. deveria ser obrigado—obrigado a ferros, em nome + d'el-rei—a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a + erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a + desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos + seguintes movimentos: +</p> +<p> + Voltar vigorosamente a cabea para a direita e para a esquerda (100 + vezes); fazer girar o pescoo, na sua maxima flexo, sobre o peito e + sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros + (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braas (100 vezes); tomar + fortes e profundas aspiraes de ar (25 vezes). Depois do qu, s.ex. + reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomearia a + meditar sobre a felicidade da patria. +</p> +<p> + No mesmo sr. Vaz Preto o que verdadeiramente a revolta do seu pudor + perante a adopo da gymnastica nas escolas seno o indicio de uma leso + mental concomitante e at certo ponto compensadora da obesidade? Pois + no sabido que jmais a excessiva nutrio deixa de ser acompanhada + reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o + sr. duque de Avila curasse o seu <i>cache-nez</i> por meio dos excercicios + indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios + seguintes: +</p> +<p> + Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e + tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim + (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz at o + limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de + quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos). + Depois do qu, s. ex. revestiria ameaadoramente as suas calas e + continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Se porm a todas estas consideraes for insensivel o sr. Vaz Preto, + n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da + gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex. um expediente extremo: + Velar-lhe a face! +</p> + +<hr id="lourdes" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + A <i>Nao</i> publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: <i>O padre + cego j v, a paralytica j anda</i>. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Parece impossivel que uma folha religiosa como a <i>Nao</i> dsse cabimento + nas suas columnas um milagre to miseravel, to safado, to reles como + esse! Com effeito! foi ento para isso, para esse milagrotesito de + ccrc, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, + foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, + que a sr. condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a + reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para + os fazer ver e para os fazer andar os levou to longe?! ... Ora muito + obrigado! muito obrigado pelo seu favor! +</p> +<p> + A sr. condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que + collaborram com s.ex. na bonita obra da peregrinao teem obrigao + restricta de abrirem immediatamente uma subscripo para o fim de + indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que + lhes deram. Porque ns—e a <i>Nao</i> bem o sabe!—ns temos devoes + locaes, temos devoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affianam, sob a + auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos + resultados obtidos pela romagem. +</p> +<p> + Pois qu! A agua de Lourdes ao p da bica, na propria gruta, por conta e + na presena da santa, no ha de dar mais effeitos no consumidor do que a + agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas + vezes impuras, quantas vezes com ms rolhas?! +</p> +<p> + No vimos ns ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma + enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com + que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa + locomotores com agua das latas?! +</p> +<p> + E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr. condessa do Sarmento + para se metter s estradas e para ir por ahi fra em braos at Lourdes, + chega l e no obtem mais nada seno o que obteve a outra sem sair do + largo de S. Roque? +</p> +<p> + E ainda ousam dizer-nos—o que no pde ser seno por escarneo—que ella + <i>andou!</i>? Olha a grande faanha—<i>andar!</i> Mas, senhores, tendo tido + trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era + correr, correr a sete ps, e trazer de l para esse fim cinco pernas a + maior do que as que levou! +</p> +<p> + Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos + lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascar que lhe fazia o + milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado + opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na + sua devida altura, que o homem no s principiasse a ver pelos olhos mas + que visse tambem por outros membros. +</p> +<p> + Isso ento j valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que + a <i>Nao</i> o publicasse em telegramma: O padre cego appareceu-lhe um + olho em cada buraco do nariz e est-lhe a vir outro na cova do ladro, + pelo qual j l as suas rezas de costas na cama com o breviario por + baixo do travesseiro. A paralytica j deitou seis pernas novas e est + com dois grandes furunculos nos hombros: suppe-se que sejam as azas a + romper. Quando se lhe espremem os carnies bota pennas. Infinitos + louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cr dos voadouros + vemos que a paralytica nos sae pedrez! +</p> +<p> + Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda + ordem, porque os ha muitos maiores. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se + coisas ao p das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito zero. +</p> +<p> + O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenas, + das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das + balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que no podemos pr em + duvida. No livro intitulado <i>Virtude miraculosa do Escapulario + demonstrada por casos de proteo, de conversao e de curas miraculosas</i>, + pelo revd. padre Hugnet—<i>Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et + Anvers</i>, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos + exemplos. +</p> +<p> + Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um boto + dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto + das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar + emquanto caem e continam a leitura em baixo, traando a perna n'um + estado do satisfao ineffavel. +</p> +<p> + O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreio do Var, com um + escapulario ao pescoo, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato + os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica + illeso. No nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir! disse por + essa occasio um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21) +</p> +<p> + No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lanar ao meio + das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e + o escapulario encontrou-se intacto. Apenas, diz o padre Huguet na obra + citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco. (Pag. 17.) +</p> +<p> + Um soldado na batalha de Novara v cair em torno d'elle todo o + regimento, elle o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e + acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada brao. (Pag. + 20.) +</p> +<p> + Um desgraado, querendo suicidar-se, lana-se ao mar quatro vezes + consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o praia, recusando-se + obstinadamente a submergil-o. O desgraado recorda-se ento que traz ao + pescoo um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado + o escapulario em terra. Foi smente com esta condio que o mar se + resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.) +</p> +<p> + Alm de livrar de todos os perigos, sem excepo, durante a vida, o + escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte. +</p> +<p> + O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado <i>Colleco dos + escapularios da Immaculada Conceio, do Rosario, do Carmello, etc.</i>, + diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, + pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes so + arrebatadas pelos escapularios. Parece que no ha dia em que um milho + de diabos no roguem esta praga medonha:—Que ns levemos os + escapularios! +</p> +<p> + As approvaes pontificaes de todos os papas, desde Joo XXII at Pio + IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios. +</p> +<p> + O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir + para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle + perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que + arranje a morrer com o escapulario na sexta feira meia noite, podem os + facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o ho de ver + por um oculo! +</p> +<p> + O uso do escapulario extremamente commodo: no obriga a encargos de + nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, + da confisso e da communho. Tambem no priva o penitente de qualquer + prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd. + Guglielmi. O essencial no o tirar nunca, nem mesmo <i>quando + voluntariamente se vae peccar</i>: o que mais particularmente prescreve o + dito padre Guglielmi. +</p> +<p> + De todos os escapularios o que mais se recommenda eleio dos devotos + o do Sagrado Corao de Jesus, porque este escapulario nem sequer + precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle + seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo + seguinte: Sobre um pequeno retalho de l branca—retalho quadrado ou + oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a + virtude—applica-se um corao de flanella encarnada, bem talhado e + cosido a pesponto, de modo que imite a cora de espinhos acompanhada de + algumas gotas de sangue bordadas a seda. parte, em uma tirinha de panno + patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripo + sacramental: <i>Suspende! Est comigo o corao de Jesus</i>! +</p> +<p> + Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um + d'estes escapularios, deital-o ao pescoo e ficar livre, para a vida e + para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do + alto das torres, atirar-se s voragens do fogo e do mar, e metter-se + debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, no + far a <i>Nao</i> o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos + de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma <i>Nao</i>, o mais que faz + unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos? +</p> +<p> + Ha umas tantas coisas que a <i>Nao</i> at devia ter vergonha de as dizer + ... O que a <i>Nao</i> precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a + esse pescoo, para a <i>Nao</i> ficar ento sabendo o que so milagres! + Porque a <i>Nao</i> no sabe o que so milagres! +</p> +<p> + Pr o padre cego a ver e pr a paralytica a andar no passa de uma + habilidadesita mediocre, um bocadito de geito! +</p> +<p> + Vir feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de + proposito para fazer perder gente o gosto pelas devoes ... +</p> +<p> + Emquanto a ns o que a <i>Nao</i> tem o espirito maligno no corpo do + jornal! Cruzes, demonio! +</p> +<hr id="fadista" class="minor" /> +<p> + Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos + de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu + termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de + satisfao sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um + fadista. O que temos que perguntar : Porque se no prendem os fadistas + todos? +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significao analoga a + esta—o <i>fadista</i>. +</p> +<p> + Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, + constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende + dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame + feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com + fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em + toda a sua pureza esta raa de bravos de viella, sem officio nem + beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, + frecheiros com as mulheres, soberbes e insolentes com os mesteiraes e + com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excurses + nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando + os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e aoitando + os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e + adormecidos. +</p> +<p> + Entre os alludidos fidalgos figurava como gro-mestre da ordem, como + capito da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmo + do senhor rei D. Joo V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse + interessantissimo principe, cujas tropelias creram, durante um seculo, + em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, + conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos + divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um + navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser + mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcanar com + um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o + seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando + sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se + despegra da verga, que dobra no ar por entre as enxarceas e cara por + fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o + que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e + que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos + uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais + tarde, com a illuminao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e + com a creao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaas, os + combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razo + biologica de que toda a fora organica que se no exerce se elimina, o + antigo valento plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o + espirito da faanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da + vadiice, e tomou ento o nome de—fadista. +</p> +<p> + O fadista no trabalha nem possue capitaes que representem uma + accumulao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da explorao do + seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que + elle espanca systematicamente. No tem domicilio certo. Habita + successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na + esquadra da policia. Est inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas + noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. um anemico, um covarde e + um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito concavo, os braos so + frageis, as pernas cambadas, as mos finas e pallidas como as das + mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e + enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e + de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma + guitarra e de um <i>santo christo</i>, que assim chamam technicamente a + grande navalha de ponta e triplice calo na mola. habitado por uma + molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de + constituio normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com + um soco. Elle sente isso e traioeiro pelo instincto do inferioridade. + No ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe + obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma + agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular—as <i>escovinhas</i>. + No ha seno uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a + bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A + guitarra debaixo do brao substitue n'elle a espada cinta, por meio da + qual se acamaradavam com a nobreza os pimpes seus ascendentes do seculo + XVI. pela prenda de guitarrista que elle entra de grra com os + fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da + Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, + onde depois da meia noite se vae comer o prado de <i>desfeita</i>, acepipe + composto de bacalhau e gros de bico polvilhados de vermelho por uma + camada de colorau picante. Por effeito da tradio na orientao mental + da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se + e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga + taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos + alcouces de Alfama, que so levantados bebedos dos becos mal afamados, + que fallam em calo e que fazem troas no Colete Encarnado e na Perna de + Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compe-se hoje principalmente de + jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de + pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educao do + lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo + mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O + fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes + de pandega. Usa como elles a bota fina de taco apiorrado ou o salto de + prateleira, a cala estrangulada no joelho e apolainada at o bico do + p, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapo arremessado para a nuca + pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A + guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um + desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beio + pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o + outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplao + imbecil; o tronco do corpo cado mollemente para cima do quadril; a + perna encurvada com o bico do p para fra; o <i>cachucho</i> da amante + reluzindo na mo pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a + mo na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabea alta, + esticando as cordoveias do pescoo e entoando as melopeias do fado, em + que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoes religiosas + Virgem Maria, com uma voz soluada, quebrada na larynge, acompanhada + da expresso physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e + miseravel. +</p> +<p> + De resto o fadista no tem vislumbres de senso moral. Explica os seus + meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista + na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com + o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas + convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condies + especiaes em que ama e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos + restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a + todos os machos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os + incorrigiveis da criminalidade. +</p> +<p> + A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia + recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informaes de um + inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir + em tres cathegorias. A primeira cathegoria composta de individuos que + verdadeiramente no deveriam ter entrado nunca na priso. So lanados + nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo + ou de caracter, a qual no obsta a que elles tenham uma moralidade to + s como a de qualquer de ns. segunda cathegoria pertencem individuos, + mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou + immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se + tornarem bons ou maus segundo a direco que recebam. A terceira + cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, rebelde + a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os + conselhos. Para estes a cadeia um logar improrio; seria preciso + confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo + no fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias + inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os + grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado no teria + seno proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos + presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe + conviria principalmente dar instraco; emquanto aos terceiros o melhor + expediente seria a morte. +</p> +<p> + util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa: +</p> +<p> + ou no da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos + criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja + incorrigibilidade em muitos d'elles attestada por varios julgamentos + repetidos? +</p> +<p> + A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde: +</p> +<p> + . +</p> +<p> + N'este caso pergunta-se: +</p> +<p> + Pde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, + continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de + uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente + os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a + justia mais difficilmente corrige e mais raramente regenera? +</p> +<p> + No. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de + que o Estado cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade + irresponsavel da perversidade individual, no succede o mesmo, e a + sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que ella que sustenta, ao + abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e + manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos. +</p> +<p> + Dado o fadista, a sociedade no pde certamente evitar o criminoso. A + sociedade porm pde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um + inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a + instituio concomitante que a justifica e a consagra:—a loteria. +</p> +<p> + Desde que um cidado deixe de poder explicar unicamente pelos + supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o + Estado tem o dever de o prender, no para encarcerar mas para coagir ao + trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na + cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O mais perigoso de todos os animaes vadios o homem. Comparado com elle + o co, ainda quando damnado, pde-se considerar inoffensivo. E todavia a + policia, que tem para o co que ainda se no damnou as precaues da + rede e da carroa, no tem para o vadio, em pleno exercicio do seu + contagio, seno um expediente repressivo: o de lhe archivar a + photographia no commisariado geral. +</p> +<p> + Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios + de garantir a segurana publica: tire o retrato aos ces e deite a rede + aos fadistas. +</p> + +<hr id="velhanova" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio + do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legies + contrarias, arrojram-se encarniadamente uns sobre os outros, + esmurrram-se, esguedelhram-se, cuspiram-se na face em odes, + aoitram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e + viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regies + lombares das musas. +</p> +<p> + Mysterio sobre as causas que moveram to cra guerra entre duas escolas + poeticas alis to pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que + ellas existissem: a escola da <i>Ida Velha</i> e a escola da <i>Ida Nova</i>! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os da Ida Velha dizem que no ha nada como a ida d'elles. E fundam-se + para isto em que uma ida solida, experimentada, garantida. +</p> +<p> + O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou + encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta + annos. +</p> +<p> + Ergueu-a do cho como morta, chuchada, espipada, moda pelas pgadas de + duas geraes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e + pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam + enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e + inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Ida Velha por uma ponta e + pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois + lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro + fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot + e levou-a comsigo sociedade, onde a receberam bem. Cercram-a varios + outros no menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do + que aquelle que a levantra do cho. Andou pelo brao de um e pelo brao + de outro recebendo declaraes de affecto e dadivas de amor. Mo to + dedicada quo firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela + Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em + spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, s solemnidades + publicas, s casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com + agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na + <i>Grinalda</i> e no <i>Almanach de Lembranas</i>; dedicou versos Lapa dos + Esteios, Stoltz e Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; + concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e + s Graas nas notas da verso portugueza dos <i>Fastos</i>. Foi da Assembla + da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do <i>Gremio</i>, que tomou o nome de + <i>Litterario</i> para a receber e cujos socios affirmram, para lhe serem + agradaveis, o seu amor lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou + finalmente nas altas regies officiaes. Foi aos paos dos nossos reis! + De quando em quando observava-se que ella comeava de repente a + encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fra + insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e + era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se + fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinio, + e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo Ida Velha. O + poder moderador, com a sua real cora na cabea e o seu real manto s + costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. + Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, + achando-se to chupados e to desfallecidos como a propria ida que eram + chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e + retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois + as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, + choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos + seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, + tinham tido a honra de bufar mesma ida e pelo mesmo canudo que + servira primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do + estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembla da + Galocha e os empregados publicos do Gremio no o permitiam, e torcendo + altivamente o bico das peras, diziam que a Ida se no se podia pr + merc da populaa infrene e ignara. Vivendo assim custa do sopro dos + poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos + conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do + Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a + Ida, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu + entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoo a + condecorao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, + ajoelhou-se-lhe aos ps e propoz-lhe leval-a s aras de Hymenen; ella + porm, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas + exclusiva do vate. Este, de pura dr, pregou na parede um prego e + suspendeu n'elle, por um lao de crepe, a theorba emmudecida e viuva. +</p> +<p> + Nos ultimos annos a Ida Velha desapparecera do bulicio do seculo e da + communicao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. + Algumas pessoas devotas tinham-lhe j resado por alma. Soube-se agora, + com grande satisfao dos que a conheceram no galarim, que a Ida Velha + ainda est viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares + onde no ha outra ida de dentro para o servio da familia. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os da Ida Nova teem esta falha notavel: suppem que a Ida velha + vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, + que prepondera nos destinos do mundo, E vem-se moos honestos e + engraados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos + pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como + se fosse uma fora da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que + ha meio seculo no passa do um artificio convencional e de uma + superfetao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em + nenhum dos interesses do espirito ou do corao do homem no tempo + presente. +</p> + +<hr id="oprimobazilio" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + <i>O Primo Bazilio</i>, novo romance de Ea de Queiroz, um phenomeno + artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta + obra preciso discriminar o que n'ella pertence jurisdico da arte e + o que pertence aos dominios da pathologia social. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Eis a doena que este livro accusa:—A dissoluo dos costumes + burguezes. +</p> +<p> + O mais caracteristico symptoma d'esse mal a falsa educao. A educao + burgueza tem um defeito fundamental: mantm na mulher a mais terrivel, a + mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: + No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de + apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos + ver porqu. +</p> +<p> + Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma + desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a + representao da vida exterior e o systema da vida intima. +</p> +<p> + Basta olhar de fra para as casas, basta considerar o aspecto exterior + do templo para se fazer uma ida do que pde ser dentro o culto d'essa + religio—a familia! +</p> +<p> + Comparem-se as nossas edificaes urbanas, os casares da + baixa—rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais + asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda + a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias—com as + graciosas construces arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, + com o seu claustro interior, o poo de marmore ao centro do pateo, as + galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o + pequeno jardim, que o corao da casa. Comparem-se com as sabias + edificaes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da + Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos + predios do bairro central de Lisboa ao p dos novos predios de esquina + de rua no Hanover. As novas casas allems no stylo gothico francez, + modificado segundo as exigencias da civilisao moderna, so obras + primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehenso da hygiene, da + moral, da estetica; so verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor + systema de educao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cres, + branca, cr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraos + cercados de hera, de estufas, de <i>logettes</i>, de aviarios em que se + cantam os passaros, de balces em que desabrocham as flores sempre + frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de + outros tantos ramalhetes, so interiormente distribuidos do modo mais + elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos + nobres prazeres da familia. A disposio mais escrupulosamente estudada + do salo, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de + todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa + luz e bom ar, permitte s mulheres o saudavel prazer de girar na casa, + activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres. +</p> +<p> + As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, + parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de + verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguo sombrio e infecto, + com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogo por baixo + das caarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos + rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema + queimada, so os sepulchros da saude e da alegria. +</p> +<p> + n'essa serie de prateleiras, de gavetes de familias, que se chamam os + <i>Arruamentos da Baixa</i>, que educada a lisboeta. +</p> +<p> + Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando + recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observao: +</p> +<p> + Noto um facto que me enche de perturbao e de horror—n'esta cidade + no ha creanas. +</p> +<p> + Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros + bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e + balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cr de palha, + desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os + musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os + musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, + ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos <i>squares</i> do + largo de Cames, da praa das Flores, do Aterro: l encontramos + effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas no + encontramos uma unica creana, a cuja saude sua me se tivesse + sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espao de tempo a sua + preoccupao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou + com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o + seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe + fresco. +</p> +<p> + Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa + frequentam as lojas ou fazem visitas, onde que esto as creanas? As + creana esto dentro das casas que acima descrevemos—<i>a tomarem + proposito. Tomar proposito</i> uma locuo essencialmente local e + intraduzivel, que quer dizer: aprender a no saber andar, a no saber + rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres + instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A + menina s principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito + indispensavel para no tagarellar imprudentemente, para no contar que + houve favas para o jantar ou que o pap ralhou com a mam. Haver favas + para o jantar e ralharem o pap e a mam de resto tudo ou quasi tudo + quanto se passa em casa, porque no ha interesses de espirito, nem ha + instructivas occupaes praticas. Falta o jardim, a grande escola da + infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, + e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as + flores. Tambem no ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do + jornal e os romances das traduces baratas. Nenhuma especie de estudo. + Nenhuma applicao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas + da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde + aprende o francez e o inglez. Esta educao completa-se em casa + ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educao so + appendices de sua <i>toilette</i>: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das + linguas, e a <i>phantasia</i>, o bonito trecho de salo tocado no piano + diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua + funco sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe + suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os + jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du + Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. No leu ou + no entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, + Michelet, Dickens, Andersen, Froebel. +</p> +<p> + No a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora + completamente as leis que regem o universo e que determinam esses + phenomenos. +</p> +<p> + No a distraem os interessantes cuidados do <i>mnage</i>, porque da casa, + assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem + nenhumas noes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia + das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da + actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, to + moralisadores e to attractivos, teem para ella o caracter de um mister + gnobil, desprezvel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a + essencia da cozinha nacional, discrio de uma criadagem vill, que + retribue o desprezo de que objeto traindo, maldizendo e roubando. Da + casa o que ella sabe unicamente que ha duas ou tres salas de apparato + que se mostram s pessoas de fra; um quarto mais ou menos infecto, uma + possilgueirinha mobilada pelo Gard, em que ella dorme at s dez ou + onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que d + respostadas; e uma latrina contendo um fogo em que por meio de varias + borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa. +</p> +<p> + Na religio ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que + a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias + elegantes: as romagens fonte de Lourdes; a orao em frente da gruta + no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro + de Roma; a contrico aos ps do summo pontifice, coberta de renda + preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo + do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os + orgos soluam e o sol coado pelas vidraas coloridas se espelha nas + couraas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas + desembainhadas. Presta ainda bastante considerao s interessantes + ceremonias da elegante religio nacional, como a do Mez de Maria na + bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas aucenas, fresquinha + e graciosa, similhante a uma <i>bombonire</i>, ou como a da Semana Santa nos + Inglezinhos, a cuja <i>petite entre</i> destinada aos intimos rodam os + <i>coups</i> magnificos da piedade escolhida. +</p> +<p> + Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do + seu <i>bnitier</i> barato; pelo Deus da procisso do Carmo e da procisso da + Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, + arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um + tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella no tem seno duvida ou + desdem. +</p> +<p> + Na moral as suas convices baseiam-se em uma serie de principios + theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie + contradictoria de interesses praticos, tirando esta concluso: que o + dever consiste na mais habil combinao que se possa fazer d'essas + theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo + resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das + sociedades corruptas:—o socego. +</p> +<p> + Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto , principia a + ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com + os homens. Percebe ento vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra + regio social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso + do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as + raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e + da <i>toilette</i>; com uma cabea ca; n'um quarto que no cheira bem; tendo + um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balco, que pensa pela + cabea de um jornal barato e mal feito, e uma me que se enfastia + medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta + cntra o destroo dos annos e contra o preo crescente dos generos + alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o + aguadeiro, ralhando com o marido. +</p> +<p> + Principia ento a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida + domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno + quarto sem tradies, sem historia, como o de uma estalagem; o saguo + infecto, onde zumbem no vero as grandes moscas gordas e pesadas; a + cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as + caarolas gordurosas e as louas esbotenadas; a sala pretenciosa e + inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos + arabes defronte do sof, a lythographia da mulher que sorri, o album dos + retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores + de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordo no + meio dos cortinados. +</p> +<p> + Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinco + decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, + similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de + Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais + nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere + sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas + mais simples, mais triviaes, e para se dar um aspecto superior, para + se encobrir do que , que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel + a respeito dos criados que no tem, das visitas que no faz, da opera + que no viu, dos livros que no l, da modista a que no vae, dos banhos + que no toma, dos jantares que no come, das dignidades, das distinces + ou do luxo que no usa. +</p> +<p> + Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de + romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas no + lhe sae o que quer: no sabe organisar aprazivelmente a casa, no sabe + tornar encantadora a familia. +</p> +<p> + Humilhada, infeliz, comea a descoroar a pouco e pouco da sua + predestinao superior. Sente que ha na sua constituio moral uma falha + da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiraes. + No se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e + serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que o resultado da + perfeita educao. +</p> +<p> + Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente + superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conhea o facil + processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cair com uma + simplicidade tragica. +</p> +<p> + O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condies, o + dandy. Porque o dandysmo a unica frma sob a qual a distinco se lhe + apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres + pensamentos ter para ella menos seduces do que uma cabea bem + penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por + uma fina risca cr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de + espirito, nenhuma delicadeza de corao, nenhuma virtude de caracter + exercer sobre a imaginaoo d'ella a fascinao com que a subjuga a + alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O + seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, ser + aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver + jantado nos mais celebres restaurantes do <i>boulevard</i>, o que se vestir e + se calar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver + desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais + segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas + mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em <i>foie gras</i>, em + <i>Champagne Clicot</i>, e em <i>Cold-creame</i>. +</p> +<p> + Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos + refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos + tapetes de Smyrna dos <i>boudoirs</i> forrados de setim, envoltos em renda de + Frana, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando s penetrantes + essencias de Lubin e febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se + um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos ps d'ella, para lhe dizer + obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia s outras, + <i>amando-a</i> finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as + suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do + seu joelho desformado pela falta de circulao proveniente de um defeito + caracteristico da sua raa, o defeito de no saber atar as ligas; apezar + ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu + espartilho barato, da sua <i>toilette</i> da Baixa, da sua pomada de botica e + do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado + nacional ... Se, apezar de tudo isso, to desdenhoso, to frio, to + gloriosamente corrupto, traando a perna, descobrindo desleixadamente as + suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, + encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade + attenciosa e benevola as scintillaes do seu correcto <i>plastron</i> de + Poole, e as exhalaes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu + cabello frisado Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte no + saber negar. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Tal o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, + medonho, tragico, sobre o qual Ea de Queiroz escreveu <i>O Primo + Bazilio</i>, romance realista. +</p> +<p> + Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convico social, e + esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo no tinha + seno convices esteticas, e satisfazia assim as necessidades de + espirito da sociedade que fez a Revoluo, que caiu no Imperio, que + supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros no pediam arte de + 1830 seno uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas ento + cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados + de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradies + gothicas da edade media e fizeram uma restaurao litteraria e burgueza + da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipao + da forma mais profunda indifferena pela questes sociaes do seu tempo. + Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, + atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, + phylanthropos. +</p> +<p> + A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. uma + sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os + pontos da sua peripheria at as mais reconditas intimidades do seu ser. + Esta reconstituio no se est fazendo empyricamente pela revoluo ou + pela sentimentalidade, est-se fazendo scientificamente pela + convergencia harmonica de todos os esforos intellectuaes sobre o mesmo + problema. Comprehendeu-se que so solidarios todos os estudos, os do + mundo inorganico e os do mundo organico; que so correlativas todas as + leis desde a da indestructibilidade da materia at a da evoluo social; + que finalmente se no pde chegar ao conhecimento positivo de nenhum + phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer + integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle o elo que + prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente. +</p> +<p> + N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga to estreita, + que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer + dos ramos da sciencia se reflecte na direco de todo o trabalho mental + em qualquer das suas manifestaes, dando por exemplo a theoria + zoologica da adaptao ao meio um methodo novo na critica,—n'esta liga, + dizemos, a arte no pde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha + trinta annos. Esse papel -lhe imposto fatalmente pela nova orientao + mental da sociedade. A arte moderna no pde j hoje basear-se em + risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse + e para que tenha a importancia de um agente da civilisao, em factos de + caracter scientifico, isto : em factos que sejam a funco de leis + sociologicas. Queremos factos, no queremos exclamaes: <i>Res non + verba</i>. +</p> +<p> + Foi da palavra <i>res</i>, tomada precisamente n'essa accepo litteral, que + se tirou a designao <i>realismo</i>. +</p> +<p> + Chamar realismo ao que puramente grosseiro, ao que descarado, ao que + torpe, calumniar o dogma. Uma obra de arte pde conter o maximo + numero de torpezas e de obscenidades e no deixar por isso de ser + simplesmente lyrica. +</p> +<p> + O <i>Primo Basilio</i> um romance realista porque a representao de um + facto social visto atravez de uma convico scientifica. Luiza, a amante + do primo Basilio, a personificao tremenda da tendencia morbida de + uma epoca. E n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser + Luiza <i>castigada</i> (para nos servirmos da velha formula que via a moral + dos livros no premio que n'elles se concedia virtude e no castigo com + que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte + afflictiva um facto accessorio, que no conteria seno esta moral + negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:—que para evitar a + morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as + cartas. +</p> +<p> + A moral d'este livro no est em que a prima de Basilio morre depois da + queda; est em que ella—<i>no podia deixar de cair</i>. +</p> +<p> + Reconhecemos que esta moral pouco accessivel maior parte das + comprehenses. Esse o grande mal do livro, ou antes esse o grande + mal da litteratura de que o livro faz parte. O <i>Primo Basilio</i> suppe um + estado de civilisao artistica e litteraria superior que existe na + sociedade portugueza. Suppe manifestaes parallelas nas applicaes da + philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construces, na + hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituies, na + critica dos costumes, na propria critica da arte. +</p> +<p> + Ora essas manifestaes no existem por emquanto n'um estado de + vulgarisao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se + dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do + <i>Primo Basilio</i>. A sociedade portugueza no comprehendeu ainda de um + modo collectivo e solidario, que urgentemente indispensavel por todas + as manifestaes do pensamento proceder reconstituio da educao + burgueza. +</p> +<p> + De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, mulher nossa + contemporanea: Eis—aqui est o modo pavorosamente simples como tu te + rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens,—parece um + insulto quellas que so as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas + companheiras de trabalho, as nossas mes, as nossas irms, as nossas + filhas. Essa affirmao, porm, deixaria de ter um caracter + apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar: +</p> +<p> + Eu no sou um homem isolado no meio da sociedade a que perteno. Sou + uma parte d'essa legio de trabalhadores dedicados, profundamente + honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta + ambio heroica:—tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na + minha qualidade de artista, a ti mulher que me ls, o mais que eu posso + fazer commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o + problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, + com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte + romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um + alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereo-t'o eu tal como + elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre + asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e + meio forado das gals, friamente calculador, sovina, absolutamente + pdre. E esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito + em preconceito, de erro em erro, s trazida, atravez de todos os + elementos que constituem a falsa educao que te deram, a admirar e a + proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu + perteno ha uma religio, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, + um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e + convergentemente estaro n'este momento—no momento em que eu tenho a + concepo artistica do <i>Primo Basilio</i>—actuando sobre todas as + influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do + amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehenso nova, assento + em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. religio + compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou + demittir-se da soluo do teu problema. politica, emprehender a + reforma das instituies em vista do teu aperfeioamente. moral, + fazer-te comprehender a noo da justia. sciencia, o determinar com a + maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a + applicao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. critica, + finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porm, no me competia + como artista seno uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha + these, fazel-a viver na maxima elevao esthetica: porque meio? por meio + da mais perfeita frma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz. +</p> +<p> + Se com a natureza essencialmente artistica de Ea do Queiroz fosse + compativel a humildade de uma explicao n'essas bases, o seu livro + teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um + artista tem a obrigao de se no explicar,—o que seria invadir uma + funco alheia na justa diviso do trabalho intellectual moderno. Ha um + gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma + religio do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim + como o philosopho deve ser indifferente theologia, o artista deve ser + indifferente opinio. Mas esta independencia da philosophia e da arte, + se por um lado a condio essencial da sua misso perante a pura arte + e perante a pura philosophia, por outro lado ella a principal causa de + ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante + a comprehenso dos espiritos e a satisfao das consciencias. +</p> +<p> + Taes foram as razes porque—ao terminar ha mez e meio a leitura do + <i>Primo Bazilio</i>,—uma to perfeita obra, que a consideramos como sendo + uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve + gloriar uma litteratura—ns fizemos esta prophecia: Que este livro + seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados + observao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da + biologia, instrumentos inuteis—s vezes perigosos—para todo aquelle + que no tem a sciencia de os pr em exercicio e de ver por elles a + divina revelao de um novo mundo. +</p> + +<hr id="diarioillustrado" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + O <i>Diario Illustrado</i>, publicando o retrato e a biographia do sr. + Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio: +</p> +<p> + Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois + de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se + desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, + exclamou:—Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O <i>Diario Illustrado</i> no ousa affirmar de um modo terminante que o sr. + Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o + <i>Diario Illustrado</i> diz apenas: <i>Conta-se ...</i> +</p> +<p> + Ora este caso no se pde deixar assim envolvido na duvida. So + historicas as palavras do sr. Sampaio ou so puramente uma legenda das + montanhas, inventada pela imaginao supersticiosa dos pastores dos + carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira + de Tarbes? Pde o <i>Diario Illustrado</i> firmar com a sua palavra de honra + a authenticidade d'aquellas expresses? Foi effectivamente o sr. Sampaio + que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ... + No seria antes algum dos outros heroes j celebres na historia da + cordilheira dos Pyreneus? No seria o paladino Rolando, sobrinho de + Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a + Durindana na batalha de Roncesvalles? No seria o proprio Carlos Magno? + No seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de + Champagne? No seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante + da belleza da paizagem, entre os valles de Barges e de Bagnre? +</p> +<p> + Est o <i>Diario Illustrado</i> no caso de sustentar, debaixo de jura, por + tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabea do + sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio + quem, depois de jantar, janella da hospedaria, palitando talvez os + dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles + dizeres? +</p> +<p> + Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de <i>Diario Illustrado</i>. +</p> +<p> + Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com + effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem asss + convicto em suas crenas, asss profundo em suas vistas e asss firme em + suas resolues, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de + jantar:—<i>Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta</i>—; se tal + phrase no uma fico, se ella existe realmente fra do estado + abstracto de suspeita destituida de fundamento,—o paiz no pde cruzar + os braos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra to lucida como a + que o <i>Illustrado</i> cita marcou a differena, toda favoravel nossa + patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo! +</p> + +<hr id="escolanacional" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado + ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos + seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo + especial: +</p> +<p> + 1. Rir atraz da procisso dos Passos. +</p> +<p> + 2. Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um + viajante. +</p> +<p> + 3. No ter dado pateada a um lente. +</p> +<p> + 4. Parecer constrangido a dar lio. +</p> +<p> + 5. Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os alumos condemnados pela perpetrao dos delictos 1, 2, 3 e 4 + appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de + expulso temporaria em alguns dias de cadeia. +</p> +<p> + Procedendo d'essa forma o Poder Moderador no tomou em consideraoa + necessidade de fazer proceder reviso da legislao academica. O Poder + teve apenas em vista o <i>desgosto</i> infligido pela sano dos regulamentos + universitarios s familias dos alumnos condemnados:—No que o Poder + mostrou ter um corao do excellente rapaz alliado a um cerebro de + legislador mediocre. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Est pendente da confirmao regia, segundo nos consta, a pena imposta + aos reus do crime n. 5, julgados j segundo o direito commum e + absolvidos pelos tribunaes civis. +</p> +<p> + N'esta conjunctura perguntamos: +</p> +<p> + admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente + de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidados de + uma certa classe estejam sujeitos por uma legislao especial a serem + julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punies em vez de + uma, se as duas sentenas forem conformes; ou sendo simultaneamente + tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenas forem + contrarias? +</p> +<p> + Responder-nos-ho que o tribunal academico julga de circumstancias + especiaes que no so submettidas apreciao dos tribunaes ordinarios? +</p> +<p> + Mas n'esse caso o tribunal academico com relao ao crime de que se + trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra. +</p> +<p> + Como tribunal escolar Universidade cabe apenas decidir se o facto de + sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lio. +</p> +<p> + Com tribunal de honra a Universidade precisa de no perder de vista que + quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontaps, o deshonrado + no propriamente quem os d, por via de regra quem os recebe. +</p> +<p> + Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questes + d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltres e de + covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade + que ainda possa haver na mocidade portugueza. +</p> +<p> + Todo o homem que se no acha devidamente temperado na sua natureza + physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, + com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, um homem + corromido, sem o sentimento do respeito devido dignidde da sua + especie, atreito s paixes mesquinhas, com manhas de reptil. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para + sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho + systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir + honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaas da + fora alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando. +</p> +<p> + Se porm a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros + cidados, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para + sempre da instaurao de processos ridiculamente pueris, requerendo das + crtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de + atrophiar no corao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos + naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da + velha troa academica por meio da instituio de exercicios viris, + proprios de uma mocidade honesta e forte:—a gymnastica obrigatoria, a + escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel <i>cricket</i>. +</p> + +<hr id="tyndal" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,—no paiz em que + Deus segundo Taine um personagem official com os seus cortezos e os + seus aulicos,—no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da + Providencia n'um discurso da cora o chefe do estado fez novo discurso + para prehencher essa omisso,—na velha, na religiosa, na solemne + Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocuo + presidencial do <i>Birmingham and Midland Institute</i>, disse as palavras + seguintes: +</p> +<p> + Dir-me-ho que supponho um estado de cousas determinado pela influencia + das religies e comprehendendo os dogmas da theologia e a crena no + livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada + fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e + perverso sem esperana, o corao do homem, dir-me-ho que se fossem + abolidas as sances theologicas a raa inteira se modelaria por alguns + exemplos de depravao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladres e + assassinos. Porque s o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o + medo, no conheceriamos mais do que o instincto natural e + desconheceriamos o dever. +</p> +<p> + Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes + concluses. O scelerado no em minha opinio a imagem da humanidade. + <i>Bebamos e comamos porque temos de morrer manh</i> no a consequencia + ethica da regeio dos dogmas. +</p> +<p> + As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos so taes que nenhum + christo se envergonharia de as professar, e nenhum christo as censura + seno desde que conhece a origem de que ellas procedem. +</p> +<p> + Reconheo de todo o corao e sou o primeiro a admirar a irradiao + espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religio produz na vida de + varias pessoas que conheo. Mas no posso tambem deixar de confessar que + muitas vezes a relligio passa por estrondosas derrotas ao procurar + produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeo da religio + frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenas + procedem de distinces primordiaes de caracter que a religio + insufficiente para nivelar. +</p> +<p> + D uma verdadeira satisfao o sabermos que existam no nosso gremio + homens a que os batalhadores do pulpito chamam <i>atheus ou materialistas</i> + e cuja vida, no obstante, experimentada na pedra de toque de uma + moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida + d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designao offensiva. +</p> +<p> + Quando digo <i>offensiva</i> quero simplesmente alludir aos que empregam + aquelles termos, no que eu pense que o <i>atheismo e o materialismo</i>, + comparados a muitas noes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham + em si um caracter offensivo. +</p> +<p> + Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel + sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando + eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um + cidado justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses + atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido to firmes na + morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles no esperavam a cora + celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram to + zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto + emprego dos seus ultimos momentos. +</p> +<p> + Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes + christo, o outro no. +</p> +<p> + O christo Faraday, que Tindal considera um modelo da associao da f + religiosa com a elevao moral. O seu caracter o mais proximo da + perfeio. A religio era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolao + dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia + peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, + comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais + delicada flor da cavalleria. +</p> +<p> + O que no christo chama-se Darwin. No tem o ponto de vista + theologico nem a commoo religiosa que constituiam um to poderoso + agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeio moral de + Faraday. O sr. Darwin, diz Tyndal, uma natureza candida e simples, um + caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; + o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador to docil s ordens da + verdade como o patriarcha antigo s ordens do seu Deus. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de + verdade, de justia e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral + de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem + exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente cultura da + intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma + moral independente de toda a especulao theologica. Que fecunda these + para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado + presente dos espiritos, em que as convices do homem esto geralmente + em contradio com as crenas da esposa e da filha, e em que to + necessario se torna portanto harmonia moral da familia o principio + fundamental da conciliao das consciencias! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Na reunio do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario + mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da + Haute-Sane, expe com uma conciso profundamente lucida as causas que + determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, + tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem + escravisados pelos poderes clericaes. +</p> +<p> + Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho + aos esforos do obreiro comea lentamente a operar-se: os trigos + crescem. Crescem em virtude de que lei? +</p> +<p> + Tal a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe + respondem aquelles que so encarregados de o instruir e de o educar. A + noo que elle recebe cerca do modo como o trigo cresce torna-o + fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e + embair. Qual o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio + ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador + operario acrescenta: +</p> +<p> + Faz-se geralmente crr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se + desenvolvem em resultado de uma fora cuja paternidade vem de Isis, ou + de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia + crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora o deus de + Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a + amadurecer nas mesmas condies em que amadurecia n'outro tempo. A ruina + dos successivos templos e das successivas religies em nada tem alterado + as leis da natureza. E todavia d-se por toda a parte o mesmo estado de + coisas: O indio cr que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim + v nos seus o grande Todo. Em outros sitios Budha. Para os gregos e + para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia o grande Lama. Na + Africa a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito. +</p> +<p> + Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporaes de + sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ... + Respondeis-me que impossivel. effectivamente impossivel, o que de + certo uma desgraa! Esse porm o facto historico, que no podemos + deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque + sobre as questes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas + geraes. +</p> +<p> + a guerra, a guerra de religies. tempo de lhe pr um termo. + tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a + legislao humana e a moral universal. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres + do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestes de idas e de + principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de + Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras + convices de sciencia ou de simples bom senso so consideradas + perigosas e banidas das discusses publicas. +</p> +<p> + Debalde a historia da civilisao ingleza n'este seculo nos demonstra + que a tolerancia absoluta na manifestao do pensamento a primeira + garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia + das idas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, + evitando assim que a orbita das applicaes praticas seja invadida pelos + principios que no foram d'ante mo sanccionadas na opinio e pelas + reformas que ella no exigiu em nome de novas necessidades provenientes + de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal o + methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbaes graves + que a impaciencia dos reformadores, no experimentada na pedra de toque + de uma discusso liberrima, lanou na vida pratica de outras naes, + como succedeu em Frana depois do segundo imperio, que corrompia todos + os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que + esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio. +</p> +<p> + Em Portugal essa importante lio tem sido absolutamente esteril. +</p> +<p> + Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino + mostraram uma ligeira tendencia para produzir idas, o governo sem + nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias. +</p> +<p> + Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram + manifestar posthumamente as suas idas solicitando para os seus + cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por + todos os meios ao seu alcance—meios tumultuarios, illegaes, + vexatorios—a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,—o atheu + morto. +</p> +<p> + Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que + expem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias + physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse + facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepes + theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, + a impunidade d'esses professores, dizemos, no se deve attribuir + tolerancia philosophica do poder. Ella simplesmente o + resultado—n'este caso benefico—da indisciplina geral dos servios + publicos. +</p> +<p> + Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha + professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais + vergonhosos e mais crassos alheios doutrina dos programmas. Ha lentes + que esto acima da lei pela mesma razo que ha outros que esto abaixo + d'ella:—por falta de inspeco e de policia. +</p> +<p> + Um facto recente d-nos a prova mais cabal de que o estado no + solidario nos progressos scientificos da nao, e que estes se operam + no sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da + intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se + armam. +</p> +<p> + Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos + dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruco primaria! +</p> +<p> + Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores + mais moos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso: +</p> +<p> + <i>O sr. conde de Rio Maior</i> (copiamos o extracto da sesso, publicado do + <i>Jornal do Commercio</i>), <i>no adversario do desenvolvimento da + instruco primaria, porque no deseja que continue a subsistir o estudo + de ignorancia do nosso povo, onde a proporo dos que sabem ler de 1 + para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., de 1 para 6. + Mas no deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio. + Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes + tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais + proprio. Pde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem + e temente a Deus, que no queira mandar o seu filho a uma escola cujo + mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas + maiores glorias, embora a instruco estivesse pouco diffundida, a nao + portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; no pretende dizer com + isto que deixe de se derramar a instruco, porque tambem apostolo + d'esta ida, mas quer que essa instruco seja ao mesmo tempo moral e + religiosa.</i> +</p> +<p> + A affirmativa de que a nao portugueza attingiu um alto grau de + prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, <i>embora a instruco + estivesse pouco diffundida</i>, um erro de historia que o nobre conde + quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que + no pelo excesso de instruco em s.ex. que a gloria e a prosperidade + deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior no podia realmente + ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade + portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, + foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual. +</p> +<p> + Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde + quer achar a differena que distingue esse tempo do tempo actual, + compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragana. +</p> +<p> + D. Joo I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um + litterato. Teve a honra de hospedar na sua crte o grande pintor + Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle s + para formar a educao esthetica de um povo do que dez universidades e + vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos + artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor + Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da crte + portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, + em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao + vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro. +</p> +<p> + Dos filhos de D. Joo I um o infante D. Duarte, o creador da primeira + bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do <i>Leal + Conselheiro</i>. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou <i>as sete + partidas do mundo</i>, auctor da <i>Vertuosa Bemfeitoria</i> e um dos homens + mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D. + Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Ferno Lopes. O + ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas + navegaes, o fundador da chamada <i>Escola de Sagres</i>, o mais poderoso, o + mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a + sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal o + senhor D. Augusto, conhecido de todos ns por o termos visto passar no + Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se + hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte + nacional, que o acompanhram e que fizeram grande impresso na City, + onde os tomram por duas vaccas sem pernas. Eram os bas de sua alteza, + feitos na rua dos Correeiros. +</p> +<p> + Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, + Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhes, Diogo Co, Pedro da Covilh, + Gaspar Crte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos + exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D. + Henrique e seus irmos souberam attrair a Portugal, que procederam + escriptores como Ferno Lopes, Gomes Annes de Azurra, Gil Vicente, Joo + de Barros, Damio de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Cames, talvez o + mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de + hoje, a no ser por influencia de alguns professores precitos e + apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo + official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e + que vo para administradores de concelho ou para amanuenses de + secretaria. +</p> +<p> + No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente + instruido. certo que no sabia ler. Mas saber ler no constitue + propriamente instruco, mas sim um dos meios de instruco. Ora o povo + dispunha ento de outros meios superiores leitura. O marinheiro e o + soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na + confeco das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os + Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo + de ento no sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia + fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da <i>Historia + tragico maritima</i>, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o + mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pde gloriar a + litteratura de uma nao. +</p> +<p> + A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a + instruco! E conclue d'esse absurdo que um povo pde attingir a + prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das + accumuladas contradies do seu texto, em que s. ex. ora apostolo da + instruco, ora apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior + seria apenas inoffensivo. S. ex., porm, conclue a sua notavel falla + mandando para a mesa o seguinte additamento lei que se estava + discutindo: +</p> +<p> + <i>O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario + ensinar ou inculcar doutrinas contrarias religio catholica, moral, + liberdade e independencia patria ser demittido nos termos d'este + artigo, independente da aco criminal que deva ser intentada. Os paes, + tutores ou pessoas encarregadas da sustentao e educao das creanas + podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou + professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo</i>. +</p> +<p> + Eis ahi o que se no admitte, porque esta disposio legislativa + proposta por s. ex. produz a fixao legal dos seus principios a + respeito da instruco, isto : que deve haver instruco e ao mesmo + tempo que a no deve haver. No outra coisa seno eliminar a + instruco, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena + de processo e demisso immediata do professor, aos principios da + religio catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um to + profundo abysmo entre a concepo theologica e a explicao scientifica + dos phenomenos do universo, que toda a conciliao hoje impossivel + entre o mestre e o padre. No duvidamos que o christianismo possa ainda + reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes + e definitivas conquistas do entendimento humano. O que certo porm + que a direco reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano + desde a Reforma at hoje o inhabilita presentemente para realisar essa + aspirao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou + sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois + interesses oppostos impossivel. Pedimos licena ao sr. conde do Rio + Maior para lh'o provar. +</p> +<p> + Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que o diluvio + universal, que lhe pergunta qual a idade da terra, que lhe pergunta o + que o homem pre-historico, o que so as florestas carboniferas, o que + o arco-iris, o que o pra-raios, o que transformao das especies, + o que a Torre de Babel, o que o Eden; supponhamos que o alumno faz + ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de + formular cerca das affirmaes da Biblia ou dos conhecimentos do homem. + A essas perguntas o mestre no pde responder seno com o erro ou com a + heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptram a sua + emenda lei da reforma da instruco portugueza desejam que o mestre + responda pelo erro. +</p> +<p> + Mas isto peior do que pr de parte a sciencia; isto , recebel-a para + a contradizer e para a destruir; isto converter a ignorancia publica + em uma instituio do Estado. +</p> +<p> + Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, luz de uma + lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem + disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E + apagou-lhe a lanterna. +</p> +<p> + Quem foi que deixou no mundo esta lio? +</p> +<p> + Foi o theologo. +</p> +<p> + Um povo ignorante um povo em trevas, cuja lanterna a instruco. O + legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz o sr. conde + de Rio Maior. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Notemos porm um facto consolador: +</p> +<p> + O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma + sensivel diminuio de fora. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente + de um velho sangue que se decompe e se dessora. A ida que elle tem no + cerebro uma ida que se extingue. +</p> +<p> + Ha cem annos s. ex. teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, + para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demisso + do professor e o processo pelos tribunaes civis. +</p> +<p> + Inclinemo-nos diante de to manifesta mansido! +</p> +<p> + Nos fins do seculo XVI o <i>pendo da santa doutrina</i>, um lugubre pendo + negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por + fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era ento o professor idealisado + pelo sr. conde de Rio Maior:<i>era o homem de ordem, temente a Deus</i>, + argumentando a doutrina christ a este povo. Todas as mulheres e todas + as creanas saiam s portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos ps do + tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, + amortalhada de negro, de cruz alada, tangendo uma campainha, como quem + leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os + pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao + tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos + methodos porque se mortificam os impetos da carne. +</p> +<p> + Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem + os estudantes missa, do que colhiam nas sacristias uma certido sobre + a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados. +</p> +<p> + Hoje a parte disciplinar da nossa educao religiosa caiu com o pendo + negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinria, resta apenas a + cartilha de Padre Mestre Ignacio. +</p> +<p> + E sobre essa cartilha solitria, em torno da qual caram dissolvidas a + uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma + instituio civil, sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um + sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores + portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o + ensino publico de uma nao! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as <i>Farpas</i> no cessam de elevar + aos cus em todas as manhs e em todas as tardes: +</p> +<p> + <i>Meu Deus, tornae ridculos os nossos inimigos!</i> +</p> +<p> + O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da + instruco indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa + orao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das + <i>Farpas</i>, um crio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o! +</p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878) +by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 13093-h.htm or 13093-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/3/0/9/13093/ + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas (Fevereiro a Maio 1878) + +Author: Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz + +Release Date: August 2, 2004 [EBook #13093] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ASCII + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + + + + +[Illustration: ECA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGAO AS FARPAS] + +RAMALHO ORTIGAO--ECA DE QUEIROZ + +AS FARPAS + +CHRONICA MENSAL + +DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES + +TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878 + +Ironia, verdadeira liberdade! Es tu que me livras da ambicao do poder, +da escravidao dos partidos, da veneracao da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admiracao das grandes personagens, das mystificacoes da +politica, do fanatismo dos reformadores, da supersticao d'este grande +universo, e da adoracao de mim mesmo. + +P.J. PROUDHON + + + + +SUMMARIO + +Leis organicas das sociedades e disposicoes regulamentares dos estados: +de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanccao penal. O +caso da sr. D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A +gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, +Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituicao da +raca humana pela gymnastica. Reconstituicao da ideias parlamentares pela +mesma gymnastica. Indicacao de alguns exercicios para uso dos dignos +pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nacao_. Mostra-se que o milagre +nao presta. Ensina-se a _Nacao_ o que sao milagres e prova-se-lhe que +ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A +criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse +personagem desde o seculo XVI ate a ultima facada no Bairro Alto--A +ideia velha e a ideia nova.--Uma opiniao de Tyndal acerca dos atheus. +Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin acerca das rasoes porque crescem +os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei +da instruccao primaria mostrou nao ser aquelle philosopho nem aquelle +carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A +educacao burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltroes. A +covardia, instituicao publica, etc. + +Todos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como +pertencendo a duas classes distinctas: + +1. Crimes resultantes da infraccao das leis organicas da sociedade; + +2. Crimes resultantes da infraccao das disposicoes regulamentares dos +Estados. + +Emquanto as sociedades se nao acham constituidas segundo o direito +absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, +isto e, emquanto as sociedades nao attingem um desenvolvimento +intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua +organisacao, distinguindo o que n'ellas e difinitivo e organico do que e +convencional e contingente,--n'essas sociedades nao podem dar-se senao +os crimes da segunda d'aquellas classes. E assim que vemos nas +civilisacoes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes +ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das +communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc. + +Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entraram no +periodo scientifico da sua evolucao moral, como presentemente succede em +toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., +tomaram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que +nos referimos, porque se comprehendeu que elles nao violam unicamente um +regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da +vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregacao que constitue o grande ser +collectivo. + + * * * * * + +A sabedoria da legislacao penal manifesta-se na mais justa e perfeita +demarcacao dos limites que separam essas duas ordens de crimes. + +Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios +repressivos da infraccao das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a +punicao imposta a contravencao dos seus estatutos regulamentares, +distinguindo graduacoes na culpa segundo a importancia dos interesses +feridos pela perpetracao do delicto. + +E em virtude d'este criterio que sao punidos com severidade, +unanimemente exigida pela opiniao, os attentados contra o interesse do +commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois +interesses sao considerados os mais importantes das sociedades modernas; +ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, +pela razao de que os governos se julgam impotentes para vibrarem +arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por +conseguinte a civilisacao rejeita como um acto de prepotencia e de +vinganca. + +Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a +forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha +muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os +politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: "Sao mais do que +crimes, sao verdadeiros erros!" + +Posto isto, vejamos qual e o estado da mentalidade portugueza afferido +pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e as respectivas +sanccoes penaes. + + * * * * * + +Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de +Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos. + +No caso de Joanna Pereira vemos tres reos confessos e convictos de tres +crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por +meio da chlorophormisacao; o carroceiro, da remocao de um cadaver; todos +tres cumplices e conniventes no crime de cada um. + +Como procede a sociedade? Nao tomando conhecimento de nenhum d'estes +attentados e despedindo os reos em paz! + +No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo e accusado de ter +falsificado uma certidao de edade para o fim de salvar um mancebo do +recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a +oito annos de degredo para a costa ds Africa! + +O primeiro caso e um triplice attentado contra a ordem social. A +sociedade nao so o nao pune mas nem sequer o julga. + +O segundo e uma contravencao de um regulamento administrativo. A +sociedade nao so o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo. + + * * * * * + +Nao analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus +co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com +o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnacao d'este e uma +iniquiedade monstruosa. + +O crime do que e accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a +oito annos de degredo, e crime unicamente perante a letra de um +regulamento de caracter nao so transitorio mas arbitrario--o regulamento +do servico militar. + +O parocho foi condemnado por tentar salvar do servico um recruta. +Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, so pode involver +intencao criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses. +Viciar a data de uma letra ou de um contrato e indubitavelmente um grave +crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o +da propriedade. Mas alterar a data de uma certidao de baptismo, para o +facto de isemptar do servico militar um cidadao, nao e offender um +interesse social; e o contrario d'isso: e servir o interesse que todas +as sociedades teem em que deixe de haver militares. + + * * * * * + +O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o +punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se +estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos +analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios a +civilisacao e a humanidade. Daria em resultado a eliminacao do +militarismo e da guerra. + +Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores nao foram +punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira +ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos: + +Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma +vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os +mortos. + +Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para +todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_ + +Finalmente, para o facto da seleccao da especie, os maridos seriam +substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas +alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, +convertendo aos pianos, reforcados pela aguardente, nos unicos +instrumentos da perpetuidade da raca. + + * * * * * + +Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade +os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos +unicamente a sociedade os nossos cumprimentos. + + + * * * * * + + +Por occasiao de se discutir no parlamento a reforma da instruccao +primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopcao da +gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opiniao de que a +gymnastica tinha um caracter immoral. + +S. ex. parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes +do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com +pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as maos +e de pernas para o ar. Isto effectivamente nao seria bem visto. E +comprehendemos que s. ex. sinta uma certa porcao de rubor pensando que +ao dirigir n'um salao as suas homenagens a uma dama esta podera vir um +dia a retribuir os cumprimentos de s. ex. aferrando-o pelos rins e +obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeca no espaco +que medeia entre o tapete e o lustre. + +Cremos porem que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais +directamente de um nobre desdem votado por s. ex. a algumas habilidades +da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s. +ex. tenha da coisa que fora das feiras se nao chama a _sorte de forcas_ +mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_. + + * * * * * + +Um illustre medico allemao, o doutor Schreber, director do instituto +orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformacoes do +nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciacoes na configuracao +dos ossos da bacia, viciacoes que inhabilitam muitas mulheres de serem +maes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na +escola e que so podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios +racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher podera +chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto +correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de +s. ex. para alvo das suas predileccoes pelo pugilato athletico. + + * * * * * + +O mesmo doutor Schreber assevera que e indispensavel introduzir o uso da +gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas +mulheres padecam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente +frequente e resultante da posicao forcada em que as raparigas se +conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos +acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em +sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja +a espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente +depois a operar sobre a regiao abdominal de s. ex. as experiencias +dynamometricas, cuja perspectiva lanca no animo pudibundo do digno +procere um tao ligitimo horror. + + * * * * * + +A physiologia moderna tem mostrado que a saude nao e mais que o justo e +perfeito equilibrio das differentes forcas inherentes ao nosso +organismo. A hygiene tem provado com muitas observacoes e fundada nas +mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de +todos os nossos membros e de todos os nossos orgaos e o unico meio de +manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisacao d'esse +exercicio regular e methodico chama-se gymnastica. + +Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se +hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulacao do +sangue atravez da rede dos nervos encephalicos. + +Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os +phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a +loucura sao outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com +mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um +apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de +que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes +revelacoes, demonstra que existem estreitas e precisas relacoes de causa +para effeito entre as variacoes da circulacao e os differentes graus de +actividade cerebral. A abolicao da memoria, a perversao das sensacoes, +todos os casos de nevropathia cerebral sao resultantes de uma falta de +cadencia na vibracao dos centros sensitivos causada por um embaraco da +circulacao sanguinea no encephalo. Na Italia estao-se curando as +alienacoes mentaes pela transfusao do sangue. O medico Ponza, do Grande +Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos +de cura de alienados pela transfusao hypodermica. + +Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispoe para activar e +regularisar a circulacao, de tanta importancia para a actividade +central, e a gymnastica. + +O celebre hygienista Lacassagne diz: "Um exercicio muscular geral, feito +em boas condicoes, produz os effeitos de uma transfusao de sangue." + + * * * * * + +Ha estados morbidos cuja localisacao no organismo escapa muitas vezes a +indagacao e a sagacidade dos clinicos. Esta-se doente sem haver +apparentemente perturbacao alguma nas funccoes physiologcas. O symptoma, +frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na +diminuicao do noso peso com relacao a unidade do nosso volume. A mais +segura medida da saude e a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio +para tornar mais denso o corpo humano? Ha. E o regimen da gymnastica. O +doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de +gymnastica militar da Faisanderie, em Franca, constatou, pelas +observacoes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por +effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto e acrescentar a +densidade de 6 ate 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de +exercicio. + + * * * * * + +Em um paiz onde a tisica faz tao grande numero de victimas como em +Portugal, e util accrescentar ainda que uma das propriedades da +gymnastica e desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media +a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo +doutor Burq. + + * * * * * + +A forca muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a +densidade, n'uma proporcao de 15% nos quatro primeiros mezes dos +exercicios gymnasticos. + + * * * * * + +A hygiene de musculatura e um facto de primeira importancia para a saude +desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos +tecidos vivos se reconheccu que a sede principal da combustao +respiratoria e o musculo. Os differentes estados do musculo influem +directamente na composicao do sangue. O exercicio e portanto um poderoso +modificador do sangue e como tal actua em todas as forcas do nosso +organismo. Mas nao ha senao uma especie de exercicio com propriedades +hygienicas e therapeuticas: esse exercicio e a gymnastica. + + * * * * * + +Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faca o obsequio de considerar +que so e um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que +constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allema. O +doutor Sebreber demonstra que a unica occupacao que sujeita quem a +exerce a um exercicio inteiramente harmonico, e a occupacao da +jardinagem. Todo aquelle que nao for jardineiro tem de appellar para um +methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido +equilibrio as acquisicoes e os dispendios de cada um dos seus orgaos. + + * * * * * + +Taes sao, resumidamente expostas, algumas das razoes que militam em +favor da gymnastica. Em contraposicao a estes argumentos nao sabemos +senao de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex. os nossos rogos +mais fervorosos para que s.ex. nao core diante da gymnastica, impedindo +assim o paiz de por em pratica o melhor meio de regenerar a sua +constituicao atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os +ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, +de reagir contra a hypocondria e contra a preguica, contra a atonia dos +nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a +gotta, contra as affeccoes pulmonares, contra as escrophulas, contra a +obesidade e contra a idiotismo. + + * * * * * + +Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licenca para incluir o mesmo +sr. Vaz Preto, estao contaminados por enfermidades que a gynmastica +previne e corrige. De modo que uma boa administracao pedia que +gymnastica nao so fosse decretada para as escolas mas tambem para as +duas casas do parlamento. + +Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemas, suecas, os +exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia +para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por +todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova +quanto estes exercicios sao uteis nao so ao desenvolvimento physico mas +ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se +introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que +n'aquellas em que a gymnastica nao existe. + +Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, +esqueceu uma disposicao--precisamente a unica que teria alcance--um +artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes +em cada sessao, as suas locubracoes legislativas, para fazerem +gymnastica ao som de um orgao, como nas escolas americanas. + +O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser +obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por +que--digamol-o francamente--o que e o _cachenez_ do nobre duque +presidente senao o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma +mais caracteristico de que s.ex. nao tem gymnastica nos musculos do +pescoco e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da +felicidade do paiz, que tao estreitamente depende da preciosa saude do +nobre duque, s.ex. deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome +d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a +erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a +desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos +seguintes movimentos: + +Voltar vigorosamente a cabeca para a direita e para a esquerda (100 +vezes); fazer girar o pescoco, na sua maxima flexao, sobre o peito e +sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros +(100 vezes); fazer o movimento de quem mede bracas (100 vezes); tomar +fortes e profundas aspiracoes de ar (25 vezes). Depois do que, s.ex. +reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomecaria a +meditar sobre a felicidade da patria. + +No mesmo sr. Vaz Preto o que e verdadeiramente a revolta do seu pudor +perante a adopcao da gymnastica nas escolas senao o indicio de uma lesao +mental concomitante e ate certo ponto compensadora da obesidade? Pois +nao e sabido que jamais a excessiva nutricao deixa de ser acompanhada +reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o +sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios +indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios +seguintes: + +Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e +tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim +(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz ate o +limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de +quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos). +Depois do que, s. ex. revestiria ameacadoramente as suas calcas e +continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete. + + * * * * * + +Se porem a todas estas consideracoes for insensivel o sr. Vaz Preto, +n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da +gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex. um expediente extremo: +Velar-lhe a face! + + + * * * * * + + +A _Nacao_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre +cego ja ve, a paralytica ja anda_. + + * * * * * + +Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nacao_ desse cabimento +nas suas columnas um milagre tao miseravel, tao safado, tao reles como +esse! Com effeito! foi entao para isso, para esse milagrotesito de +cacaraca, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, +foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, +que a sr. condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a +reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para +os fazer ver e para os fazer andar os levou tao longe?! ... Ora muito +obrigado! muito obrigado pelo seu favor! + +A sr. condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que +collaboraram com s.ex. na bonita obra da peregrinacao teem obrigacao +restricta de abrirem immediatamente uma subscripcao para o fim de +indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que +lhes deram. Porque nos--e a _Nacao_ bem o sabe!--nos temos devocoes +locaes, temos devocoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affiancam, sob a +auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos +resultados obtidos pela romagem. + +Pois que! A agua de Lourdes ao pe da bica, na propria gruta, por conta e +na presenca da santa, nao ha de dar mais effeitos no consumidor do que a +agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas +vezes impuras, quantas vezes com mas rolhas?! + +Nao vimos nos ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma +enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com +que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa +locomotores com agua das latas?! + +E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr. condessa do Sarmento +para se metter as estradas e para ir por ahi fora em bracos ate Lourdes, +chega la e nao obtem mais nada senao o que obteve a outra sem sair do +largo de S. Roque? + +E ainda ousam dizer-nos--o que nao pode ser senao por escarneo--que ella +_andou!_? Olha a grande facanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido +trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era +correr, correr a sete pes, e trazer de la para esse fim cinco pernas a +maior do que as que levou! + +Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos +lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaro que lhe fazia o +milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado +opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na +sua devida altura, que o homem nao so principiasse a ver pelos olhos mas +que visse tambem por outros membros. + +Isso entao ja valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que +a _Nacao_ o publicasse em telegramma: "O padre cego appareceu-lhe um +olho em cada buraco do nariz e esta-lhe a vir outro na cova do ladrao, +pelo qual ja le as suas rezas de costas na cama com o breviario por +baixo do travesseiro. A paralytica ja deitou seis pernas novas e esta +com dois grandes furunculos nos hombros: suppoe-se que sejam as azas a +romper. Quando se lhe espremem os carnicoes bota pennas. Infinitos +louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cor dos voadouros +vemos que a paralytica nos sae pedrez!" + +Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda +ordem, porque os ha muitos maiores. + + * * * * * + +Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se +coisas ao pe das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito e zero. + +O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doencas, +das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das +balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que nao podemos por em +duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario +demonstrada por casos de protecao, de conversao e de curas miraculosas_, +pelo revd. padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et +Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos +exemplos. + +Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botao +dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto +das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar +emquanto caem e continuam a leitura em baixo, tracando a perna n'um +estado do satisfacao ineffavel. + +O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreicao do Var, com um +escapulario ao pescoco, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato +os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica +illeso. "Nao nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!" disse por +essa occasiao um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21) + +No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lancar ao meio +das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e +o escapulario encontrou-se intacto. "Apenas, diz o padre Huguet na obra +citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco." (Pag. 17.) + +Um soldado na batalha de Novara ve cair em torno d'elle todo o +regimento, elle e o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e +acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braco. (Pag. +20.) + +Um desgracado, querendo suicidar-se, lanca-se ao mar quatro vezes +consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o a praia, recusando-se +obstinadamente a submergil-o. O desgracado recorda-se entao que traz ao +pescoco um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado +o escapulario em terra. Foi somente com esta condicao que o mar se +resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.) + +Alem de livrar de todos os perigos, sem excepcao, durante a vida, o +escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte. + +O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Colleccao dos +escapularios da Immaculada Conceicao, do Rosario, do Carmello, etc._, +diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, +pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes sao +arrebatadas pelos escapularios. Parece que nao ha dia em que um milhao +de diabos nao roguem esta praga medonha:--Que nos levemos os +escapularios! + +As approvacoes pontificaes de todos os papas, desde Joao XXII ate Pio +IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios. + +O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir +para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle +perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que +arranje a morrer com o escapulario na sexta feira a meia noite, podem os +facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hao de ver +por um oculo! + +O uso do escapulario e extremamente commodo: nao obriga a encargos de +nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, +da confissao e da communhao. Tambem nao priva o penitente de qualquer +prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd. +Guglielmi. O essencial e nao o tirar nunca, nem mesmo _quando +voluntariamente se vae peccar_: e o que mais particularmente prescreve o +dito padre Guglielmi. + +De todos os escapularios o que mais se recommenda a eleicao dos devotos +e o do Sagrado Coracao de Jesus, porque este escapulario nem sequer +precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle +seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo +seguinte: Sobre um pequeno retalho de la branca--retalho quadrado ou +oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a +virtude--applica-se um coracao de flanella encarnada, bem talhado e +cosido a pesponto, de modo que imite a coroa de espinhos acompanhada de +algumas gotas de sangue bordadas a seda. Aparte, em uma tirinha de panno +patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripcao +sacramental: _Suspende! Esta comigo o coracao de Jesus_! + +Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um +d'estes escapularios, deital-o ao pescoco e ficar livre, para a vida e +para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do +alto das torres, atirar-se as voragens do fogo e do mar, e metter-se +debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, nao +fara a _Nacao_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos +de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nacao_, o mais que faz e +unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos? + +Ha umas tantas coisas que a _Nacao_ ate devia ter vergonha de as dizer +... O que a _Nacao_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a +esse pescoco, para a _Nacao_ ficar entao sabendo o que sao milagres! +Porque a _Nacao_ nao sabe o que sao milagres! + +Por o padre cego a ver e por a paralytica a andar nao passa de uma +habilidadesita mediocre, um bocadito de geito! + +Vir a feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de +proposito para fazer perder a gente o gosto pelas devocoes ... + +Emquanto a nos o que a _Nacao_ tem e o espirito maligno no corpo do +jornal! Cruzes, demonio! + + * * * * * + +Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos +de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu +termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de +satisfacao a sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um +fadista. O que temos que perguntar e: Porque se nao prendem os fadistas +todos? + + * * * * * + +Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significacao analoga a +esta--o _fadista_. + +Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, +constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende +dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame +feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com +fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em +toda a sua pureza esta raca de bravos de viella, sem officio nem +beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, +frecheiros com as mulheres, soberboes e insolentes com os mesteiraes e +com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursoes +nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando +os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e acoitando +os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e +adormecidos. + +Entre os alludidos fidalgos figurava como grao-mestre da ordem, como +capitao da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmao +do senhor rei D. Joao V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse +interessantissimo principe, cujas tropelias crearam, durante um seculo, +em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, +conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos +divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um +navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser +mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcancar com +um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o +seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando +sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se +despegara da verga, que dobara no ar por entre as enxarceas e caira por +fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o +que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e +que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos +uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais +tarde, com a illuminacao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e +com a creacao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruacas, os +combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razao +biologica de que toda a forca organica que se nao exerce se elimina, o +antigo valentao plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o +espirito da facanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da +vadiice, e tomou entao o nome de--fadista. + +O fadista nao trabalha nem possue capitaes que representem uma +accumulacao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploracao do +seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que +elle espanca systematicamente. Nao tem domicilio certo. Habita +successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na +esquadra da policia. Esta inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas +noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. E um anemico, um covarde e +um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito e concavo, os bracos sao +frageis, as pernas cambadas, as maos finas e pallidas como as das +mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e +enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e +de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma +guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a +grande navalha de ponta e triplice calco na mola. E habitado por uma +molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de +constituicao normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com +um soco. Elle sente isso e e traicoeiro pelo instincto do inferioridade. +Nao ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe +obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma +agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_. +Nao ha senao uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a +bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A +guitarra debaixo do braco substitue n'elle a espada a cinta, por meio da +qual se acamaradavam com a nobreza os pimpoes seus ascendentes do seculo +XVI. E pela prenda de guitarrista que elle entra de gorra com os +fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da +Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, +onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe +composto de bacalhau e graos de bico polvilhados de vermelho por uma +camada de colorau picante. Por effeito da tradicao na orientacao mental +da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se +e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga +taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos +alcouces de Alfama, que sao levantados bebedos dos becos mal afamados, +que fallam em calao e que fazem trocas no Colete Encarnado e na Perna de +Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compoe-se hoje principalmente de +jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de +pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educacao do +lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo +mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O +fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes +de pandega. Usa como elles a bota fina de tacao apiorrado ou o salto de +prateleira, a calca estrangulada no joelho e apolainada ate o bico do +pe, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapeo arremessado para a nuca +pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A +guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um +desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beico +pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o +outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplacao +imbecil; o tronco do corpo caido mollemente para cima do quadril; a +perna encurvada com o bico do pe para fora; o _cachucho_ da amante +reluzindo na mao pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a +mao na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeca alta, +esticando as cordoveias do pescoco e entoando as melopeias do fado, em +que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devocoes religiosas +a Virgem Maria, com uma voz solucada, quebrada na larynge, acompanhada +da expressao physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e +miseravel. + +De resto o fadista nao tem vislumbres de senso moral. Explica os seus +meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista +na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com +o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas +convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condicoes +especiaes em que ama e e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos +restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a +todos os machos. + + * * * * * + +E da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os +incorrigiveis da criminalidade. + +A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia +recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informacoes de um +inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir +em tres cathegorias. A primeira cathegoria e composta de individuos que +verdadeiramente nao deveriam ter entrado nunca na prisao. Sao lancados +nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo +ou de caracter, a qual nao obsta a que elles tenham uma moralidade tao +sa como a de qualquer de nos. A segunda cathegoria pertencem individuos, +mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou +immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se +tornarem bons ou maus segundo a direccao que recebam. A terceira +cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, e rebelde +a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os +conselhos. Para estes a cadeia e um logar improrio; seria preciso +confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo +nao fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias +inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os +grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado nao teria +senao proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos +presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe +conviria principalmente dar instraccao; emquanto aos terceiros o melhor +expediente seria a morte. + +E util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa: + +E ou nao e da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos +criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja +incorrigibilidade e em muitos d'elles attestada por varios julgamentos +repetidos? + +A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde: + +E. + +N'este caso pergunta-se: + +Pode a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, +continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de +uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente +os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a +justica mais difficilmente corrige e mais raramente regenera? + +Nao. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de +que o Estado e cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade e +irresponsavel da perversidade individual, nao succede o mesmo, e a +sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que e ella que sustenta, ao +abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e +manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos. + +Dado o fadista, a sociedade nao pode certamente evitar o criminoso. A +sociedade porem pode evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um +inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a +instituicao concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria. + +Desde que um cidadao deixe de poder explicar unicamente pelos +supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o +Estado tem o dever de o prender, nao para encarcerar mas para coagir ao +trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na +cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc. + + * * * * * + +O mais perigoso de todos os animaes vadios e o homem. Comparado com elle +o cao, ainda quando damnado, pode-se considerar inoffensivo. E todavia a +policia, que tem para o cao que ainda se nao damnou as precaucoes da +rede e da carroca, nao tem para o vadio, em pleno exercicio do seu +contagio, senao um expediente repressivo: o de lhe archivar a +photographia no commisariado geral. + +Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios +de garantir a seguranca publica: tire o retrato aos caes e deite a rede +aos fadistas. + + + * * * * * + + +Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio +do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legioes +contrarias, arrojaram-se encarnicadamente uns sobre os outros, +esmurraram-se, esguedelharam-se, cuspiram-se na face em odes, +acoitaram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e +viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regioes +lombares das musas. + +Mysterio sobre as causas que moveram tao crua guerra entre duas escolas +poeticas alias tao pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que +ellas existissem: a escola da _Idea Velha_ e a escola da _Idea Nova_! + + * * * * * + +Os da Idea Velha dizem que nao ha nada como a idea d'elles. E fundam-se +para isto em que e uma idea solida, experimentada, garantida. + +O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou +encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta +annos. + +Ergueu-a do chao como morta, chuchada, espipada, moida pelas pegadas de +duas geracoes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e +pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam +enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e +inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idea Velha por uma ponta e +pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois +lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro +fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot +e levou-a comsigo a sociedade, onde a receberam bem. Cercaram-a varios +outros nao menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do +que aquelle que a levantara do chao. Andou pelo braco de um e pelo braco +de outro recebendo declaracoes de affecto e dadivas de amor. Mao tao +dedicada quao firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela +Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em +spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, as solemnidades +publicas, as casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com +agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na +_Grinalda_ e no _Almanach de Lembrancas_; dedicou versos a Lapa dos +Esteios, a Stoltz e a Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; +concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e +as Gracas nas notas da versao portugueza dos _Fastos_. Foi da Assemblea +da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de +_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmaram, para lhe serem +agradaveis, o seu amor a lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou +finalmente nas altas regioes officiaes. Foi aos pacos dos nossos reis! +De quando em quando observava-se que ella comecava de repente a +encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fora +insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e +era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se +fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opiniao, +e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo a Idea Velha. O +poder moderador, com a sua real coroa na cabeca e o seu real manto as +costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. +Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, +achando-se tao chupados e tao desfallecidos como a propria idea que eram +chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e +retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois +as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, +choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos +seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, +tinham tido a honra de bufar a mesma idea e pelo mesmo canudo que +servira a primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do +estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assemblea da +Galocha e os empregados publicos do Gremio nao o permitiam, e torcendo +altivamente o bico das peras, diziam que a Idea se nao se podia por a +merce da populaca infrene e ignara. Vivendo assim a custa do sopro dos +poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos +conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do +Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a +Idea, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu +entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoco a +condecoracao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, +ajoelhou-se-lhe aos pes e propoz-lhe leval-a as aras de Hymenen; ella +porem, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas +exclusiva do vate. Este, de pura dor, pregou na parede um prego e +suspendeu n'elle, por um laco de crepe, a theorba emmudecida e viuva. + +Nos ultimos annos a Idea Velha desapparecera do bulicio do seculo e da +communicacao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. +Algumas pessoas devotas tinham-lhe ja resado por alma. Soube-se agora, +com grande satisfacao dos que a conheceram no galarim, que a Idea Velha +ainda esta viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares +onde nao ha outra idea de dentro para o servico da familia. + + * * * * * + +Os da Idea Nova teem esta falha notavel: suppoem que a Idea velha +vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, +que prepondera nos destinos do mundo, E veem-se mocos honestos e +engracados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos +pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como +se fosse uma forca da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que +ha meio seculo nao passa do um artificio convencional e de uma +superfetacao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em +nenhum dos interesses do espirito ou do coracao do homem no tempo +presente. + + + * * * * * + + +_O Primo Bazilio_, novo romance de Eca de Queiroz, e um phenomeno +artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta +obra e preciso discriminar o que n'ella pertence a jurisdiccao da arte e +o que pertence aos dominios da pathologia social. + + * * * * * + +Eis a doenca que este livro accusa:--A dissolucao dos costumes +burguezes. + +O mais caracteristico symptoma d'esse mal e a falsa educacao. A educacao +burgueza tem um defeito fundamental: mantem na mulher a mais terrivel, a +mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: +No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de +apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos +ver porque. + +Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma +desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a +representacao da vida exterior e o systema da vida intima. + +Basta olhar de fora para as casas, basta considerar o aspecto exterior +do templo para se fazer uma idea do que pode ser dentro o culto d'essa +religiao--a familia! + +Comparem-se as nossas edificacoes urbanas, os casaroes da +baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais +asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda +a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as +graciosas construccoes arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, +com o seu claustro interior, o poco de marmore ao centro do pateo, as +galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o +pequeno jardim, que e o coracao da casa. Comparem-se com as sabias +edificacoes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da +Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos +predios do bairro central de Lisboa ao pe dos novos predios de esquina +de rua no Hanover. As novas casas allemas no stylo gothico francez, +modificado segundo as exigencias da civilisacao moderna, sao obras +primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensao da hygiene, da +moral, da estetica; sao verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor +systema de educacao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cores, +branca, cor de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terracos +cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se +cantam os passaros, de balcoes em que desabrocham as flores sempre +frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de +outros tantos ramalhetes, sao interiormente distribuidos do modo mais +elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos +nobres prazeres da familia. A disposicao mais escrupulosamente estudada +do salao, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de +todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa +luz e bom ar, permitte as mulheres o saudavel prazer de girar na casa, +activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres. + +As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, +parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de +verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguao sombrio e infecto, +com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogao por baixo +das cacarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos +rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema +queimada, sao os sepulchros da saude e da alegria. + +E n'essa serie de prateleiras, de gavetoes de familias, que se chamam os +_Arruamentos da Baixa_, que e educada a lisboeta. + +Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando +recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observacao: + +"Noto um facto que me enche de perturbacao e de horror--n'esta cidade +nao ha creancas." + +Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros +bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e +balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cor de palha, +desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os +musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os +musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, +ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do +largo de Camoes, da praca das Flores, do Aterro: la encontramos +effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas nao +encontramos uma unica creanca, a cuja saude sua mae se tivesse +sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaco de tempo a sua +preoccupacao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou +com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o +seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe +fresco. + +Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa +frequentam as lojas ou fazem visitas, onde e que estao as creancas? As +creanca estao dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem +proposito. Tomar proposito_ e uma locucao essencialmente local e +intraduzivel, que quer dizer: aprender a nao saber andar, a nao saber +rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres +instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A +menina so principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito +indispensavel para nao tagarellar imprudentemente, para nao contar que +houve favas para o jantar ou que o papa ralhou com a mama. Haver favas +para o jantar e ralharem o papa e a mama e de resto tudo ou quasi tudo +quanto se passa em casa, porque nao ha interesses de espirito, nem ha +instructivas occupacoes praticas. Falta o jardim, a grande escola da +infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, +e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as +flores. Tambem nao ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do +jornal e os romances das traduccoes baratas. Nenhuma especie de estudo. +Nenhuma applicacao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas +da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde +aprende o francez e o inglez. Esta educacao completa-se em casa +ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educacao sao +appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das +linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salao tocado no piano +diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua +funccao sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe +suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os +jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du +Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Nao leu ou +nao entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, +Michelet, Dickens, Andersen, Froebel. + +Nao a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora +completamente as leis que regem o universo e que determinam esses +phenomenos. + +Nao a distraem os interessantes cuidados do _menage_, porque da casa, +assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem +nenhumas nocoes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia +das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da +actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tao +moralisadores e tao attractivos, teem para ella o caracter de um mister +gnobil, desprezivel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a +essencia da cozinha nacional, a discricao de uma criadagem villa, que +retribue o desprezo de que e objeto traindo, maldizendo e roubando. Da +casa o que ella sabe unicamente e que ha duas ou tres salas de apparato +que se mostram as pessoas de fora; um quarto mais ou menos infecto, uma +possilgueirinha mobilada pelo Garde, em que ella dorme ate as dez ou +onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que da +respostadas; e uma latrina contendo um fogao em que por meio de varias +borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa. + +Na religiao ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que +a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias +elegantes: as romagens a fonte de Lourdes; a oracao em frente da gruta +no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro +de Roma; a contriccao aos pes do summo pontifice, coberta de renda +preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo +do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os +orgaos solucam e o sol coado pelas vidracas coloridas se espelha nas +couracas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas +desembainhadas. Presta ainda bastante consideracao as interessantes +ceremonias da elegante religiao nacional, como a do Mez de Maria na +bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas acucenas, fresquinha +e graciosa, similhante a uma _bomboniere_, ou como a da Semana Santa nos +Inglezinhos, a cuja _petite entree_ destinada aos intimos rodam os +_coupes_ magnificos da piedade escolhida. + +Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do +seu _benitier_ barato; pelo Deus da procissao do Carmo e da procissao da +Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, +arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um +tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella nao tem senao duvida ou +desdem. + +Na moral as suas conviccoes baseiam-se em uma serie de principios +theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie +contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusao: que o +dever consiste na mais habil combinacao que se possa fazer d'essas +theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo +resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das +sociedades corruptas:--o socego. + +Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto e, principia a +ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com +os homens. Percebe entao vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra +regiao social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso +do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as +raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e +da _toilette_; com uma cabeca oca; n'um quarto que nao cheira bem; tendo +um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcao, que pensa pela +cabeca de um jornal barato e mal feito, e uma mae que se enfastia +medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta +cntra o destroco dos annos e contra o preco crescente dos generos +alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o +aguadeiro, ralhando com o marido. + +Principia entao a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida +domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno +quarto sem tradicoes, sem historia, como o de uma estalagem; o saguao +infecto, onde zumbem no verao as grandes moscas gordas e pesadas; a +cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as +cacarolas gordurosas e as loucas esbotenadas; a sala pretenciosa e +inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos +arabes defronte do sofa, a lythographia da mulher que sorri, o album dos +retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores +de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordao no +meio dos cortinados. + +Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinccao +decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, +similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de +Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais +nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere +a sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas +mais simples, mais triviaes, e e para se dar um aspecto superior, para +se encobrir do que e, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel +a respeito dos criados que nao tem, das visitas que nao faz, da opera +que nao viu, dos livros que nao le, da modista a que nao vae, dos banhos +que nao toma, dos jantares que nao come, das dignidades, das distinccoes +ou do luxo que nao usa. + +Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de +romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas nao +lhe sae o que quer: nao sabe organisar aprazivelmente a casa, nao sabe +tornar encantadora a familia. + +Humilhada, infeliz, comeca a descorcoar a pouco e pouco da sua +predestinacao superior. Sente que ha na sua constituicao moral uma falha +da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiracoes. +Nao se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e +serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que e o resultado da +perfeita educacao. + +Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente +superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheca o facil +processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella caira com uma +simplicidade tragica. + +O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condicoes, e o +dandy. Porque o dandysmo e a unica forma sob a qual a distinccao se lhe +apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres +pensamentos tera para ella menos seduccoes do que uma cabeca bem +penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por +uma fina risca cor de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de +espirito, nenhuma delicadeza de coracao, nenhuma virtude de caracter +exercera sobre a imaginacaoo d'ella a fascinacao com que a subjuga a +alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O +seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, sera +aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver +jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e +se calcar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver +desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais +segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas +mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em +_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_. + +Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos +refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos +tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de +Franca, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando as penetrantes +essencias de Lubin e a febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se +um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pes d'ella, para lhe dizer +obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia as outras, +_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as +suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do +seu joelho desformado pela falta de circulacao proveniente de um defeito +caracteristico da sua raca, o defeito de nao saber atar as ligas; apezar +ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu +espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e +do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado +nacional ... Se, apezar de tudo isso, tao desdenhoso, tao frio, tao +gloriosamente corrupto, tracando a perna, descobrindo desleixadamente as +suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, +encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade +attenciosa e benevola as scintillacoes do seu correcto _plastron_ de +Poole, e as exhalacoes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu +cabello frisado a Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte nao +sabera negar. + + * * * * * + +Tal e o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, +medonho, tragico, sobre o qual Eca de Queiroz escreveu _O Primo +Bazilio_, romance realista. + +Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma conviccao social, e e +esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo nao tinha +senao conviccoes esteticas, e satisfazia assim as necessidades de +espirito da sociedade que fez a Revolucao, que caiu no Imperio, que +supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros nao pediam a arte de +1830 senao uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas entao +cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados +de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradicoes +gothicas da edade media e fizeram uma restauracao litteraria e burgueza +da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipacao +da forma mais profunda indifferenca pela questoes sociaes do seu tempo. +Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, +atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, +phylanthropos. + +A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. E uma +sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os +pontos da sua peripheria ate as mais reconditas intimidades do seu ser. +Esta reconstituicao nao se esta fazendo empyricamente pela revolucao ou +pela sentimentalidade, esta-se fazendo scientificamente pela +convergencia harmonica de todos os esforcos intellectuaes sobre o mesmo +problema. Comprehendeu-se que sao solidarios todos os estudos, os do +mundo inorganico e os do mundo organico; que sao correlativas todas as +leis desde a da indestructibilidade da materia ate a da evolucao social; +que finalmente se nao pode chegar ao conhecimento positivo de nenhum +phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer +integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle e o elo que +prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente. + +N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tao estreita, +que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer +dos ramos da sciencia se reflecte na direccao de todo o trabalho mental +em qualquer das suas manifestacoes, dando por exemplo a theoria +zoologica da adaptacao ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga, +dizemos, a arte nao pode deixar de ter um papel diverso do que tinha ha +trinta annos. Esse papel e-lhe imposto fatalmente pela nova orientacao +mental da sociedade. A arte moderna nao pode ja hoje basear-se em +risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse +e para que tenha a importancia de um agente da civilisacao, em factos de +caracter scientifico, isto e: em factos que sejam a funccao de leis +sociologicas. Queremos factos, nao queremos exclamacoes: _Res non +verba_. + +Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepcao litteral, que +se tirou a designacao _realismo_. + +Chamar realismo ao que e puramente grosseiro, ao que e descarado, ao que +e torpe, e calumniar o dogma. Uma obra de arte pode conter o maximo +numero de torpezas e de obscenidades e nao deixar por isso de ser +simplesmente lyrica. + +O _Primo Basilio_ e um romance realista porque e a representacao de um +facto social visto atravez de uma conviccao scientifica. Luiza, a amante +do primo Basilio, e a personificacao tremenda da tendencia morbida de +uma epoca. E e n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser +Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral +dos livros no premio que n'elles se concedia a virtude e no castigo com +que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte +afflictiva e um facto accessorio, que nao conteria senao esta moral +negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a +morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as +cartas. + +A moral d'este livro nao esta em que a prima de Basilio morre depois da +queda; esta em que ella--_nao podia deixar de cair_. + +Reconhecemos que esta moral e pouco accessivel a maior parte das +comprehensoes. Esse e o grande mal do livro, ou antes esse e o grande +mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppoe um +estado de civilisacao artistica e litteraria superior a que existe na +sociedade portugueza. Suppoe manifestacoes parallelas nas applicacoes da +philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construccoes, na +hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituicoes, na +critica dos costumes, na propria critica da arte. + +Ora essas manifestacoes nao existem por emquanto n'um estado de +vulgarisacao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se +dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do +_Primo Basilio_. A sociedade portugueza nao comprehendeu ainda de um +modo collectivo e solidario, que e urgentemente indispensavel por todas +as manifestacoes do pensamento proceder a reconstituicao da educacao +burgueza. + +De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, a mulher nossa +contemporanea: "Eis--aqui esta o modo pavorosamente simples como tu te +rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens",--parece um +insulto aquellas que sao as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas +companheiras de trabalho, as nossas maes, as nossas irmas, as nossas +filhas. Essa affirmacao, porem, deixaria de ter um caracter +apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar: + +"Eu nao sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenco. Sou +uma parte d'essa legiao de trabalhadores dedicados, profundamente +honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta +ambicao heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na +minha qualidade de artista, a ti mulher que me les, o mais que eu posso +fazer e commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o +problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, +com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte +romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um +alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereco-t'o eu tal como +elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre +asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e +meio forcado das gales, friamente calculador, sovina, absolutamente +podre. E e esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito +em preconceito, de erro em erro, es trazida, atravez de todos os +elementos que constituem a falsa educacao que te deram, a admirar e a +proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu +pertenco ha uma religiao, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, +um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e +convergentemente estarao n'este momento--no momento em que eu tenho a +concepcao artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as +influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do +amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensao nova, assento +em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. A religiao +compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou +demittir-se da solucao do teu problema. A politica, emprehender a +reforma das instituicoes em vista do teu aperfeicoamente. A moral, +fazer-te comprehender a nocao da justica. A sciencia, o determinar com a +maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a +applicacao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. A critica, +finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porem, nao me competia +como artista senao uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha +these, fazel-a viver na maxima elevacao esthetica: porque meio? por meio +da mais perfeita forma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz." + +Se com a natureza essencialmente artistica de Eca do Queiroz fosse +compativel a humildade de uma explicacao n'essas bases, o seu livro +teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um +artista tem a obrigacao de se nao explicar,--o que seria invadir uma +funccao alheia na justa divisao do trabalho intellectual moderno. Ha um +gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma +religiao do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim +como o philosopho deve ser indifferente a theologia, o artista deve ser +indifferente a opiniao. Mas esta independencia da philosophia e da arte, +se por um lado e a condicao essencial da sua missao perante a pura arte +e perante a pura philosophia, por outro lado ella e a principal causa de +ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante +a comprehensao dos espiritos e a satisfacao das consciencias. + +Taes foram as razoes porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do +_Primo Bazilio_,--uma tao perfeita obra, que a consideramos como sendo +uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve +gloriar uma litteratura--nos fizemos esta prophecia: Que este livro +seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados a +observacao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da +biologia, instrumentos inuteis--as vezes perigosos--para todo aquelle +que nao tem a sciencia de os por em exercicio e de ver por elles a +divina revelacao de um novo mundo. + + + * * * * * + + +O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr. +Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio: + +"Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois +de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se +desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, +exclamou:--Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta!" + + * * * * * + +O _Diario Illustrado_ nao ousa affirmar de um modo terminante que o sr. +Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o +_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._ + +Ora este caso nao se pode deixar assim envolvido na duvida. Sao +historicas as palavras do sr. Sampaio ou sao puramente uma legenda das +montanhas, inventada pela imaginacao supersticiosa dos pastores dos +carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira +de Tarbes? Pode o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra +a authenticidade d'aquellas expressoes? Foi effectivamente o sr. Sampaio +que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ... +Nao seria antes algum dos outros heroes ja celebres na historia da +cordilheira dos Pyreneus? Nao seria o paladino Rolando, sobrinho de +Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a +Durindana na batalha de Roncesvalles? Nao seria o proprio Carlos Magno? +Nao seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de +Champagne? Nao seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante +da belleza da paizagem, entre os valles de Bareges e de Bagnere? + +Esta o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por +tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeca do +sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio +quem, depois de jantar, a janella da hospedaria, palitando talvez os +dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles +dizeres? + +Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_. + +Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com +effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assas +convicto em suas crencas, assas profundo em suas vistas e assas firme em +suas resolucoes, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de +jantar:--_Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal +phrase nao e uma ficcao, se ella existe realmente fora do estado +abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz nao pode cruzar +os bracos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tao lucida como a +que o _Illustrado_ cita marcou a differenca, toda favoravel a nossa +patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo! + + + * * * * * + + +Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado +ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos +seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo +especial: + +1. Rir atraz da procissao dos Passos. + +2. Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um +viajante. + +3. Nao ter dado pateada a um lente. + +4. Parecer constrangido a dar licao. + +5. Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra. + + * * * * * + +Os alumos condemnados pela perpetracao dos delictos 1, 2, 3 e 4 +appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de +expulsao temporaria em alguns dias de cadeia. + +Procedendo d'essa forma o Poder Moderador nao tomou em consideracaoa +necessidade de fazer proceder a revisao da legislacao academica. O Poder +teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sancao dos regulamentos +universitarios as familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder +mostrou ter um coracao do excellente rapaz alliado a um cerebro de +legislador mediocre. + + * * * * * + +Esta pendente da confirmacao regia, segundo nos consta, a pena imposta +aos reus do crime n. 5, julgados ja segundo o direito commum e +absolvidos pelos tribunaes civis. + +N'esta conjunctura perguntamos: + +E admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente +de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadaos de +uma certa classe estejam sujeitos por uma legislacao especial a serem +julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punicoes em vez de +uma, se as duas sentencas forem conformes; ou sendo simultaneamente +tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentencas forem +contrarias? + +Responder-nos-hao que o tribunal academico julga de circumstancias +especiaes que nao sao submettidas a apreciacao dos tribunaes ordinarios? + +Mas n'esse caso o tribunal academico com relacao ao crime de que se +trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra. + +Como tribunal escolar a Universidade cabe apenas decidir se o facto de +sovar um futrica obsta a que se aprenda uma licao. + +Com tribunal de honra a Universidade precisa de nao perder de vista que +quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapes, o deshonrado +nao e propriamente quem os da, e por via de regra quem os recebe. + +Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questoes +d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltroes e de +covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade +que ainda possa haver na mocidade portugueza. + +Todo o homem que se nao acha devidamente temperado na sua natureza +physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, +com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, e um homem +corromido, sem o sentimento do respeito devido a dignidde da sua +especie, atreito as paixoes mesquinhas, com manhas de reptil. + + * * * * * + +Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para +sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho +systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir +honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameacas da +forca alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando. + +Se porem a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros +cidadaos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para +sempre da instauracao de processos ridiculamente pueris, requerendo das +cortes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de +atrophiar no coracao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos +naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da +velha troca academica por meio da instituicao de exercicios viris, +proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a +escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_. + + + * * * * * + + +No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que +Deus segundo Taine e um personagem official com os seus cortezaos e os +seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da +Providencia n'um discurso da coroa o chefe do estado fez novo discurso +para prehencher essa omissao,--na velha, na religiosa, na solemne +Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocucao +presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras +seguintes: + +"Dir-me-hao que supponho um estado de cousas determinado pela influencia +das religioes e comprehendendo os dogmas da theologia e a crenca no +livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada +fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e +perverso sem esperanca, o coracao do homem, dir-me-hao que se fossem +abolidas as sanccoes theologicas a raca inteira se modelaria por alguns +exemplos de depravacao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladroes e +assassinos. Porque e so o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o +medo, nao conheceriamos mais do que o instincto natural e +desconheceriamos o dever. + +"Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes +conclusoes. O scelerado nao e em minha opiniao a imagem da humanidade. +_Bebamos e comamos porque temos de morrer amanha_ nao e a consequencia +ethica da regeicao dos dogmas. + +"As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos sao taes que nenhum +christao se envergonharia de as professar, e nenhum christao as censura +senao desde que conhece a origem de que ellas procedem. + +"Reconheco de todo o coracao e sou o primeiro a admirar a irradiacao +espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religiao produz na vida de +varias pessoas que conheco. Mas nao posso tambem deixar de confessar que +muitas vezes a relligiao passa por estrondosas derrotas ao procurar +produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeao da religiao e +frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differencas +procedem de distinccoes primordiaes de caracter que a religiao e +insufficiente para nivelar. + +"Da uma verdadeira satisfacao o sabermos que existam no nosso gremio +homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_ +e cuja vida, nao obstante, experimentada na pedra de toque de uma +moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida +d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designacao offensiva. + +"Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam +aquelles termos, nao que eu pense que o _atheismo e o materialismo_, +comparados a muitas nocoes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham +em si um caracter offensivo. + +"Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel a +sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando +eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um +cidadao justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses +atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tao firmes na +morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles nao esperavam a coroa +celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tao +zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto +emprego dos seus ultimos momentos." + +Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes +e christao, o outro nao. + +O christao e Faraday, que Tindal considera um modelo da associacao da fe +religiosa com a elevacao moral. O seu caracter e o mais proximo da +perfeicao. A religiao era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolacao +dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia +peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, +comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais +delicada flor da cavalleria. + +O que nao e christao chama-se Darwin. Nao tem o ponto de vista +theologico nem a commocao religiosa que constituiam um tao poderoso +agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeicao moral de +Faraday. "O sr. Darwin, diz Tyndal, e uma natureza candida e simples, um +caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; +e o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tao docil as ordens da +verdade como o patriarcha antigo as ordens do seu Deus." + + * * * * * + +Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de +verdade, de justica e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral +de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem +exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente a cultura da +intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma +moral independente de toda a especulacao theologica. Que fecunda these +para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado +presente dos espiritos, em que as conviccoes do homem estao geralmente +em contradicao com as crencas da esposa e da filha, e em que tao +necessario se torna portanto a harmonia moral da familia o principio +fundamental da conciliacao das consciencias! + + * * * * * + +Na reuniao do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario +mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da +Haute-Saone, expoe com uma concisao profundamente lucida as causas que +determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, +tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem +escravisados pelos poderes clericaes. + +Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho +aos esforcos do obreiro comeca lentamente a operar-se: os trigos +crescem. Crescem em virtude de que lei? + +Tal e a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe +respondem aquelles que sao encarregados de o instruir e de o educar. A +nocao que elle recebe acerca do modo como o trigo cresce torna-o +fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e +embair. Qual e o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio e +ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador +operario acrescenta: + +"Faz-se geralmente crer ao lavrador europeu que as suas sementeiras se +desenvolvem em resultado de uma forca cuja paternidade vem de Isis, ou +de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia +crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora e o deus de +Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a +amadurecer nas mesmas condicoes em que amadurecia n'outro tempo. A ruina +dos successivos templos e das successivas religioes em nada tem alterado +as leis da natureza. E todavia da-se por toda a parte o mesmo estado de +coisas: O indio cre que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim +ve nos seus o grande Todo. Em outros sitios e Budha. Para os gregos e +para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia e o grande Lama. Na +Africa e a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito. + +"Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporacoes de +sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ... +Respondeis-me que e impossivel. E effectivamente impossivel, o que e de +certo uma desgraca! Esse porem e o facto historico, que nao podemos +deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque +sobre as questoes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas +geracoes. + +"E a guerra, e a guerra de religioes. E tempo de lhe por um termo. E +tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a +legislacao humana e a moral universal." + + * * * * * + +Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres +do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestoes de ideas e de +principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de +Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras +conviccoes de sciencia ou de simples bom senso sao consideradas +perigosas e banidas das discussoes publicas. + +Debalde a historia da civilisacao ingleza n'este seculo nos demonstra +que a tolerancia absoluta na manifestacao do pensamento e a primeira +garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia +das ideas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, +evitando assim que a orbita das applicacoes praticas seja invadida pelos +principios que nao foram d'ante mao sanccionadas na opiniao e pelas +reformas que ella nao exigiu em nome de novas necessidades provenientes +de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal e o +methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbacoes graves +que a impaciencia dos reformadores, nao experimentada na pedra de toque +de uma discussao liberrima, lancou na vida pratica de outras nacoes, +como succedeu em Franca depois do segundo imperio, que corrompia todos +os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que +esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio. + +Em Portugal essa importante licao tem sido absolutamente esteril. + +Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino +mostraram uma ligeira tendencia para produzir ideas, o governo sem +nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias. + +Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram +manifestar posthumamente as suas ideas solicitando para os seus +cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por +todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes, +vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu +morto. + +Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que +expoem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias +physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse +facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepcoes +theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, +a impunidade d'esses professores, dizemos, nao se deve attribuir a +tolerancia philosophica do poder. Ella e simplesmente o +resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos servicos +publicos. + +Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha +professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais +vergonhosos e mais crassos alheios a doutrina dos programmas. Ha lentes +que estao acima da lei pela mesma razao que ha outros que estao abaixo +d'ella:--por falta de inspeccao e de policia. + +Um facto recente da-nos a prova mais cabal de que o estado nao e +solidario nos progressos scientificos da nacao, e que estes se operam +nao sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da +intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se +armam. + +Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos +dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruccao primaria! + +Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores +mais mocos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso: + +"_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessao, publicado do +_Jornal do Commercio_), _nao e adversario do desenvolvimento da +instruccao primaria, porque nao deseja que continue a subsistir o estudo +de ignorancia do nosso povo, onde a proporcao dos que sabem ler e de 1 +para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., e de 1 para 6. +Mas nao deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio. +Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes +tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais +proprio. Pode haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem +e temente a Deus, que nao queira mandar o seu filho a uma escola cujo +mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas +maiores glorias, embora a instruccao estivesse pouco diffundida, a nacao +portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; nao pretende dizer com +isto que deixe de se derramar a instruccao, porque tambem e apostolo +d'esta idea, mas quer que essa instruccao seja ao mesmo tempo moral e +religiosa."_ + +A affirmativa de que a nacao portugueza attingiu um alto grau de +prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instruccao +estivesse pouco diffundida_, e um erro de historia que o nobre conde +quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que +nao e pelo excesso de instruccao em s.ex. que a gloria e a prosperidade +deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior nao podia realmente +ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade +portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, +foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual. + +Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde +quer achar a differenca que distingue esse tempo do tempo actual, +compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Braganca. + +D. Joao I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um +litterato. Teve a honra de hospedar na sua corte o grande pintor +Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle so +para formar a educacao esthetica de um povo do que dez universidades e +vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos +artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor +Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da corte +portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, +em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao +vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro. + +Dos filhos de D. Joao I um e o infante D. Duarte, o creador da primeira +bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal +Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete +partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens +mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D. +Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernao Lopes. O +ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas +navegacoes, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o +mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a +sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal e o +senhor D. Augusto, conhecido de todos nos por o termos visto passar no +Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se +hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte +nacional, que o acompanharam e que fizeram grande impressao na City, +onde os tomaram por duas vaccas sem pernas. Eram os baus de sua alteza, +feitos na rua dos Correeiros. + +Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, +Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhaes, Diogo Cao, Pedro da Covilha, +Gaspar Corte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos +exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D. +Henrique e seus irmaos souberam attrair a Portugal, que procederam +escriptores como Fernao Lopes, Gomes Annes de Azurara, Gil Vicente, Joao +de Barros, Damiao de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camoes, talvez o +mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de +hoje, a nao ser por influencia de alguns professores precitos e +apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo +official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e +que vao para administradores de concelho ou para amanuenses de +secretaria. + +No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente +instruido. E certo que nao sabia ler. Mas saber ler nao constitue +propriamente instruccao, mas sim um dos meios de instruccao. Ora o povo +dispunha entao de outros meios superiores a leitura. O marinheiro e o +soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na +confeccao das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os +Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo +de entao nao sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia +fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia +tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o +mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pode gloriar a +litteratura de uma nacao. + +A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a +instruccao! E conclue d'esse absurdo que um povo pode attingir a +prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das +accumuladas contradicoes do seu texto, em que s. ex. ora e apostolo da +instruccao, ora e apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior +seria apenas inoffensivo. S. ex., porem, conclue a sua notavel falla +mandando para a mesa o seguinte additamento a lei que se estava +discutindo: + +_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario +ensinar ou inculcar doutrinas contrarias a religiao catholica, a moral, +a liberdade e a independencia patria sera demittido nos termos d'este +artigo, independente da accao criminal que deva ser intentada. Os paes, +tutores ou pessoas encarregadas da sustentacao e educacao das creancas +podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou +professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_. + +Eis ahi o que se nao admitte, porque esta disposicao legislativa +proposta por s. ex. produz a fixacao legal dos seus principios a +respeito da instruccao, isto e: que deve haver instruccao e ao mesmo +tempo que a nao deve haver. Nao e outra coisa senao eliminar a +instruccao, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena +de processo e demissao immediata do professor, aos principios da +religiao catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tao +profundo abysmo entre a concepcao theologica e a explicacao scientifica +dos phenomenos do universo, que toda a conciliacao e hoje impossivel +entre o mestre e o padre. Nao duvidamos que o christianismo possa ainda +reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes +e definitivas conquistas do entendimento humano. O que e certo porem e +que a direccao reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano +desde a Reforma ate hoje o inhabilita presentemente para realisar essa +aspiracao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou +sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois +interesses oppostos e impossivel. Pedimos licenca ao sr. conde do Rio +Maior para lh'o provar. + +Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que e o diluvio +universal, que lhe pergunta qual e a idade da terra, que lhe pergunta o +que e o homem pre-historico, o que sao as florestas carboniferas, o que +e o arco-iris, o que e o para-raios, o que e transformacao das especies, +o que e a Torre de Babel, o que e o Eden; supponhamos que o alumno faz +ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de +formular acerca das affirmacoes da Biblia ou dos conhecimentos do homem. +A essas perguntas o mestre nao pode responder senao com o erro ou com a +heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptaram a sua +emenda a lei da reforma da instruccao portugueza desejam que o mestre +responda pelo erro. + +Mas isto e peior do que por de parte a sciencia; isto e, recebel-a para +a contradizer e para a destruir; isto e converter a ignorancia publica +em uma instituicao do Estado. + +Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, a luz de uma +lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem +disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E +apagou-lhe a lanterna. + +Quem foi que deixou no mundo esta licao? + +Foi o theologo. + +Um povo ignorante e um povo em trevas, cuja lanterna e a instruccao. O +legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz e o sr. conde +de Rio Maior. + + * * * * * + +Notemos porem um facto consolador: + +O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma +sensivel diminuicao de forca. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente +de um velho sangue que se decompoe e se dessora. A idea que elle tem no +cerebro e uma idea que se extingue. + +Ha cem annos s. ex. teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, +para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissao +do professor e o processo pelos tribunaes civis. + +Inclinemo-nos diante de tao manifesta mansidao! + +Nos fins do seculo XVI o _pendao da santa doutrina_, um lugubre pendao +negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por +fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era entao o professor idealisado +pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_, +argumentando a doutrina christa a este povo. Todas as mulheres e todas +as creancas saiam as portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pes do +tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, +amortalhada de negro, de cruz alcada, tangendo uma campainha, como quem +leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os +pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao +tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos +methodos porque se mortificam os impetos da carne. + +Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem +os estudantes a missa, do que colhiam nas sacristias uma certidao sobre +a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados. + +Hoje a parte disciplinar da nossa educacao religiosa caiu com o pendao +negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinaria, resta apenas a +cartilha de Padre Mestre Ignacio. + +E e sobre essa cartilha solitaria, em torno da qual cairam dissolvidas a +uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma +instituicao civil, e sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um +sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores +portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o +ensino publico de uma nacao! + + * * * * * + +Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ nao cessam de elevar +aos ceus em todas as manhas e em todas as tardes: + +_Meu Deus, tornae ridiculos os nossos inimigos!_ + +O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da +instruccao indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa +oracao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das +_Farpas_, um cirio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o! + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Fevereiro a Maio 1878 +by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 13093.txt or 13093.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/3/0/9/13093/ + +Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/13093.zip b/old/13093.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d91290d --- /dev/null +++ b/old/13093.zip |
