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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:41:20 -0700
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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***
+
+[Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878
+
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
+de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
+caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
+gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
+Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
+raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
+mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
+pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre
+não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que
+ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
+criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
+personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A
+ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus.
+Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
+os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
+da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
+carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
+educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A
+covardia, instituição publica, etc.
+
+Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
+pertencendo a duas classes distinctas:
+
+1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;
+
+2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
+Estados.
+
+Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
+absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
+isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
+intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
+organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
+convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão
+os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
+civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
+ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
+communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
+
+Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
+periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
+toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
+tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
+nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
+regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
+vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
+collectivo.
+
+ * * * * *
+
+A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
+demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
+
+Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
+repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
+punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
+distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
+feridos pela perpetração do delicto.
+
+É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
+unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
+commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
+interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
+ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
+pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
+arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
+conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
+vingança.
+
+Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
+forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
+muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
+politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
+crimes, são verdadeiros erros!»
+
+Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
+pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
+sancções penaes.
+
+ * * * * *
+
+Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
+Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
+
+No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
+crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
+meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
+tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
+
+Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
+attentados e despedindo os reos em paz!
+
+No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
+falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
+recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
+oito annos de degredo para a costa ds Africa!
+
+O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
+sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.
+
+O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
+sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
+
+ * * * * *
+
+Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
+co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
+o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
+iniquiedade monstruosa.
+
+O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
+oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
+regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento
+do serviço militar.
+
+O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
+Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
+intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
+Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
+crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
+da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
+facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
+interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
+as sociedades teem em que deixe de haver militares.
+
+ * * * * *
+
+O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
+punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
+estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
+analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
+civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
+militarismo e da guerra.
+
+Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
+punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
+ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
+
+Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
+vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
+mortos.
+
+Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
+todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_
+
+Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
+substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
+alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
+convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
+instrumentos da perpetuidade da raça.
+
+ * * * * *
+
+Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
+os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
+unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
+primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
+gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
+gymnastica tinha um caracter immoral.
+
+S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
+do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
+pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
+e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
+comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
+ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
+dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
+obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
+que medeia entre o tapete e o lustre.
+
+Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
+directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
+da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
+ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_
+mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.
+
+ * * * * *
+
+Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
+orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
+nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
+dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
+mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
+escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
+racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
+chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
+correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
+s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.
+
+ * * * * *
+
+O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
+gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
+mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
+frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
+conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
+acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
+sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
+à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
+depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
+dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
+procere um tão ligitimo horror.
+
+ * * * * *
+
+A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
+perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
+organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
+mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
+todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
+manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
+exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
+
+Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
+hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
+sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
+
+Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
+phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
+loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
+mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
+apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
+que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
+revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
+para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
+actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
+todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
+cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
+circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
+alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
+Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
+de cura de alienados pela transfusão hypodermica.
+
+Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
+regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
+central, é a gymnastica.
+
+O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
+em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»
+
+ * * * * *
+
+Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
+indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
+apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
+frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
+diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
+segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
+para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
+doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
+gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
+observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
+effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
+densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
+exercicio.
+
+ * * * * *
+
+Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
+Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
+gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
+a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
+doutor Burq.
+
+ * * * * *
+
+A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
+densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
+exercicios gymnasticos.
+
+ * * * * *
+
+A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
+desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
+tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
+respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
+directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
+modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
+organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
+hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.
+
+ * * * * *
+
+Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
+que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
+constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
+doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
+exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
+jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
+methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
+equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.
+
+ * * * * *
+
+Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
+favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
+senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
+mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
+assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
+constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
+ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
+de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
+nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
+gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
+obesidade e contra a idiotismo.
+
+ * * * * *
+
+Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
+sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
+previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
+gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
+duas casas do parlamento.
+
+Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
+exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
+para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
+todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
+quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
+ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
+introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
+n'aquellas em que a gymnastica não existe.
+
+Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
+esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um
+artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
+em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
+gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.
+
+O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
+obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
+que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque
+presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
+mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
+pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
+felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
+nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
+d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
+erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
+desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
+seguintes movimentos:
+
+Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
+vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
+sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
+(100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
+fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
+reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
+meditar sobre a felicidade da patria.
+
+No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
+perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
+mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
+não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
+reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
+sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
+indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
+seguintes:
+
+Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
+tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
+(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
+limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
+quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
+Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
+continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
+
+ * * * * *
+
+Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
+n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
+gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
+Velar-lhe a face!
+
+
+ * * * * *
+
+
+A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
+cego já vê, a paralytica já anda_.
+
+ * * * * *
+
+Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento
+nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
+esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
+cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
+foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
+que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
+reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
+os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
+obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
+
+A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
+collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
+restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
+indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
+lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções
+locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
+auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
+resultados obtidos pela romagem.
+
+Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
+na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
+agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
+vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!
+
+Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
+enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
+que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
+locomotores com agua das latas?!
+
+E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
+para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
+chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
+largo de S. Roque?
+
+E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella
+_andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
+trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
+correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
+maior do que as que levou!
+
+Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
+lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
+milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
+opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
+sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
+que visse tambem por outros membros.
+
+Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
+a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
+olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
+pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
+baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
+com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
+romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
+louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
+vemos que a paralytica nos sae pedrez!»
+
+Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
+ordem, porque os ha muitos maiores.
+
+ * * * * *
+
+Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
+coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.
+
+O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
+das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
+balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
+duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
+demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_,
+pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
+Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
+exemplos.
+
+Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
+dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
+das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
+emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
+estado do satisfação ineffavel.
+
+O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
+escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
+os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
+illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
+essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
+
+No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
+das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
+o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
+citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)
+
+Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
+regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
+acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
+20.)
+
+Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
+consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
+obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
+pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
+o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
+resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
+
+Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
+escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
+
+O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos
+escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._,
+diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
+pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
+arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
+de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os
+escapularios!
+
+As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
+IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
+
+O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
+para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
+perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
+arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
+facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
+por um oculo!
+
+O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
+nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
+da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
+prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
+Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando
+voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o
+dito padre Guglielmi.
+
+De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
+é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
+precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
+seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
+seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou
+oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
+virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
+cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
+algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
+patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
+sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!
+
+Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
+d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
+para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
+alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
+debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
+fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
+de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é
+unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
+
+Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer
+... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
+esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres!
+Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!
+
+Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
+habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
+
+Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
+proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...
+
+Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do
+jornal! Cruzes, demonio!
+
+ * * * * *
+
+Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
+de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
+termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
+satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
+fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
+todos?
+
+ * * * * *
+
+Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
+esta--o _fadista_.
+
+Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
+constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
+dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
+feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
+fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
+toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
+beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
+frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
+com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
+nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
+os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
+os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
+adormecidos.
+
+Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
+capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
+do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
+interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
+em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
+conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
+divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
+navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
+mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
+um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
+seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
+sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
+despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
+fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
+que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
+que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
+uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
+tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
+com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
+combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
+biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
+antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
+espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
+vadiice, e tomou então o nome de--fadista.
+
+O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
+accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
+seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
+elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
+successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
+esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
+noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
+um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
+frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
+mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
+enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
+de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
+guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
+grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
+molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
+constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
+um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
+Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
+obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
+agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
+Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
+bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
+guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
+qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
+XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
+fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
+Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
+onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
+composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
+camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
+da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
+e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
+taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
+alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
+que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
+Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
+jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
+pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
+lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
+mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
+fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
+de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
+prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
+pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
+pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
+guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
+desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
+pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
+outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
+imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
+perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante
+reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
+mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
+esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
+que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
+á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
+da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
+miseravel.
+
+De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
+meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
+na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
+o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
+convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
+especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
+restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
+todos os machos.
+
+ * * * * *
+
+É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
+incorrigiveis da criminalidade.
+
+A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
+recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
+inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
+em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
+verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
+nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
+ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
+sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
+mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
+immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
+tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
+cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
+a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
+conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
+confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
+não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
+inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
+grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
+senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
+presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
+conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
+expediente seria a morte.
+
+É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
+
+É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
+criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
+incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
+repetidos?
+
+A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
+
+É.
+
+N'este caso pergunta-se:
+
+Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
+continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
+uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
+os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
+justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
+
+Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
+que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
+irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
+sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
+abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
+manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
+
+Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
+sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
+inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
+instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.
+
+Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
+supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
+Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
+trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
+cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
+
+ * * * * *
+
+O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
+o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
+policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
+rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
+contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
+photographia no commisariado geral.
+
+Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
+de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
+aos fadistas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
+do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
+contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
+esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
+açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
+viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
+lombares das musas.
+
+Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
+poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
+ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!
+
+ * * * * *
+
+Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
+para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.
+
+O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
+encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
+annos.
+
+Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
+duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
+pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
+enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
+inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
+pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
+lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
+fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
+e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
+outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
+que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
+de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
+dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
+Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
+spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
+publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
+agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
+_Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos
+Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
+concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
+ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa
+da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
+_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
+agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
+finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
+De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
+encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
+insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
+era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
+fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
+e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
+poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
+costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
+Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
+achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
+chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
+retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
+as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
+choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
+seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
+tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
+servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
+estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
+Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
+altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
+mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
+poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
+conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
+Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
+Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
+entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
+condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
+ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
+porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
+exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
+suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
+
+Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
+communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
+Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
+com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
+ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
+onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.
+
+ * * * * *
+
+Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
+vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
+que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
+engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
+pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
+se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
+ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
+superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
+nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
+presente.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
+artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
+obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
+o que pertence aos dominios da pathologia social.
+
+ * * * * *
+
+Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes
+burguezes.
+
+O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
+burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
+mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
+No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
+apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
+ver porquê.
+
+Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
+desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
+representação da vida exterior e o systema da vida intima.
+
+Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
+do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
+religião--a familia!
+
+Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
+baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
+asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
+a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
+graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
+com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
+galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
+pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
+edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
+Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
+predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
+de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
+modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
+primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
+moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
+systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
+branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
+cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
+cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
+frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
+outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
+elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
+nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
+do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
+todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
+luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
+activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
+
+As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
+parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
+verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
+com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
+das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
+rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
+queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
+
+É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
+_Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.
+
+Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
+recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
+
+«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade
+não ha creanças.»
+
+Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
+bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
+balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
+desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
+musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
+musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
+ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
+largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
+effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
+encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
+sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
+preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
+com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
+seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
+fresco.
+
+Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
+frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
+creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
+proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
+intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
+rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
+instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
+menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
+indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
+houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
+para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
+quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
+instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
+infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
+e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
+flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
+jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
+Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
+da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
+aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
+ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
+appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
+linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
+diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
+funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
+suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
+jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
+Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
+não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
+Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
+
+Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
+completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
+phenomenos.
+
+Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
+assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
+nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
+das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
+actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
+moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
+gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
+essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
+retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
+casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
+que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
+possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
+onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
+respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
+borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
+
+Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
+a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
+elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
+no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
+de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
+preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
+do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
+orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
+couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
+desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
+ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
+bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
+e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
+Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
+_coupés_ magnificos da piedade escolhida.
+
+Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
+seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
+Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
+arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
+tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
+desdem.
+
+Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
+theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
+contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
+dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
+theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
+resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
+sociedades corruptas:--o socego.
+
+Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
+ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
+os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
+região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
+do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
+raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
+da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
+um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
+cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
+medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
+cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
+alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
+aguadeiro, ralhando com o marido.
+
+Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
+domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
+quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
+infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
+cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
+caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
+inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
+arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
+retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
+de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
+meio dos cortinados.
+
+Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
+decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
+similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
+Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
+nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
+á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
+mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
+se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
+a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
+que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
+que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
+ou do luxo que não usa.
+
+Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
+romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
+lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
+tornar encantadora a familia.
+
+Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
+predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
+da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
+Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
+serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
+perfeita educação.
+
+Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
+superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
+processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
+simplicidade tragica.
+
+O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
+dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
+apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
+pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
+penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
+uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
+espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
+exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
+alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
+seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
+aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
+jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
+se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
+desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
+segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
+mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
+_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
+
+Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
+refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
+tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
+França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
+essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
+um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
+obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
+_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
+suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
+seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
+caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
+ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
+espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
+do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
+nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
+gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
+suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
+encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
+attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
+Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
+cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
+saberá negar.
+
+ * * * * *
+
+Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
+medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
+Bazilio_, romance realista.
+
+Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
+esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
+senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
+espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
+supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
+1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
+cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
+de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
+gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
+da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
+da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
+Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
+atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
+phylanthropos.
+
+A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
+sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
+pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
+Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
+pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
+convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
+problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
+mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
+leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
+que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
+phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
+integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
+prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
+
+N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
+que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
+dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
+em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
+zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
+dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
+trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
+mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
+risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
+e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
+caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
+sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
+verba_.
+
+Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
+se tirou a designação _realismo_.
+
+Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
+é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
+numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
+simplesmente lyrica.
+
+O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
+facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
+do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
+uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
+Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
+dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
+que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
+afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
+negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
+morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
+cartas.
+
+A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
+queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.
+
+Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
+comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
+mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
+estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
+sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
+philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
+hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
+critica dos costumes, na propria critica da arte.
+
+Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
+vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
+dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
+_Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
+modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
+as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
+burgueza.
+
+De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
+contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
+rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um
+insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
+companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
+filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
+apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
+
+«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
+uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
+honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
+ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
+minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
+fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
+problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
+com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
+romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
+alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
+elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
+asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
+meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
+pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
+em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
+elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
+proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
+pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
+um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
+convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a
+concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
+influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
+amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
+em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
+compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
+demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
+reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
+fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
+maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
+applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
+finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
+como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
+these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
+da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
+
+Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
+compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
+teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
+artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma
+funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
+gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
+religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
+como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
+indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
+se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
+e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
+ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
+a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.
+
+Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
+_Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
+uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
+gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro
+seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
+observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
+biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle
+que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
+divina revelação de um novo mundo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
+Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
+
+«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
+de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
+desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
+exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»
+
+ * * * * *
+
+O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
+Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
+_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._
+
+Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
+historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
+montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
+carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
+de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
+a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
+que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
+Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
+cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
+Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
+Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
+Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
+Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
+da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?
+
+Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
+tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
+sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
+quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
+dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
+dizeres?
+
+Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.
+
+Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
+effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
+convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
+suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
+jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
+phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
+abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar
+os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
+que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
+patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
+ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
+seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
+especial:
+
+1.º Rir atraz da procissão dos Passos.
+
+2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
+viajante.
+
+3.º Não ter dado pateada a um lente.
+
+4.º Parecer constrangido a dar lição.
+
+5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
+appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
+expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.
+
+Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
+necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
+teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos
+universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
+mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
+legislador mediocre.
+
+ * * * * *
+
+Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
+aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
+absolvidos pelos tribunaes civis.
+
+N'esta conjunctura perguntamos:
+
+É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
+de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
+uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
+julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
+uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
+tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
+contrarias?
+
+Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
+especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?
+
+Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
+trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
+
+Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
+sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.
+
+Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
+quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
+não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.
+
+Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
+d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
+covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
+que ainda possa haver na mocidade portugueza.
+
+Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
+physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
+com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
+corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
+especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.
+
+ * * * * *
+
+Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
+sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
+systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
+honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
+força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
+
+Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
+cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
+sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
+côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
+atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
+naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
+velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
+proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
+escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.
+
+
+ * * * * *
+
+
+No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
+Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
+seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
+Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
+para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne
+Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
+presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
+seguintes:
+
+«Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
+das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
+livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
+fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
+perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
+abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
+exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
+assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
+medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
+desconheceriamos o dever.
+
+«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
+conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
+_Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia
+ethica da regeição dos dogmas.
+
+«As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
+christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
+senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.
+
+«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
+espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
+varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
+muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
+produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
+frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
+procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
+insufficiente para nivelar.
+
+«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
+homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
+e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
+moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
+d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.
+
+«Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
+aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
+comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
+em si um caracter offensivo.
+
+«Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
+sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
+eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
+cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
+atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
+morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
+celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
+zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
+emprego dos seus ultimos momentos.»
+
+Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
+é christão, o outro não.
+
+O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
+religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
+perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
+dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
+peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
+comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
+delicada flor da cavalleria.
+
+O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
+theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
+agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
+Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
+caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
+é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
+verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»
+
+ * * * * *
+
+Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
+verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
+de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
+exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
+intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
+moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
+para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
+presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
+em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
+necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
+fundamental da conciliação das consciencias!
+
+ * * * * *
+
+Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
+mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
+Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
+determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
+tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
+escravisados pelos poderes clericaes.
+
+Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
+aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
+crescem. Crescem em virtude de que lei?
+
+Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
+respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
+noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
+fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
+embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
+ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
+operario acrescenta:
+
+«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
+desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
+de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
+crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
+Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
+amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
+dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
+as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
+coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
+vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
+para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
+Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
+
+«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
+sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
+Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
+certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
+deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
+sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
+gerações.
+
+«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
+tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
+legislação humana e a moral universal.»
+
+ * * * * *
+
+Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
+do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
+principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
+Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
+convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
+perigosas e banidas das discussões publicas.
+
+Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
+que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
+garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
+das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
+evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
+principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
+reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
+de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
+methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
+que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
+de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
+como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
+os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
+esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
+
+Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.
+
+Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
+mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
+nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
+
+Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
+manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
+cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
+todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
+vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
+morto.
+
+Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
+expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
+physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
+facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
+theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
+a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
+tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
+resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços
+publicos.
+
+Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
+professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
+vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
+que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
+d'ella:--por falta de inspecção e de policia.
+
+Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
+solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
+não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
+intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
+armam.
+
+Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
+dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!
+
+Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
+mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
+
+«_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do
+_Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da
+instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
+de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
+para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
+Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
+Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
+tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
+proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
+e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
+mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
+maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
+portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
+isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
+d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
+religiosa.»_
+
+A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
+prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção
+estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde
+quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
+não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
+deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
+ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
+portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
+foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
+
+Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
+quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
+compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.
+
+D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
+litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
+Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
+para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
+vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
+artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
+Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
+portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
+em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
+vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
+
+Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
+bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
+Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
+partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
+mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
+Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
+ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
+navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
+mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
+sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
+senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
+Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
+hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
+nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
+onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
+feitos na rua dos Correeiros.
+
+Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
+Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
+Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
+exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
+Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
+escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
+de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
+mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
+hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
+apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
+official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
+que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
+secretaria.
+
+No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
+instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
+propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
+dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
+soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
+confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
+Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
+de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
+fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
+tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
+mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
+litteratura de uma nação.
+
+A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
+instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
+prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
+accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
+instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
+seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
+mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
+discutindo:
+
+_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
+ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
+á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
+artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
+tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
+podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
+professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.
+
+Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
+proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
+respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
+tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
+instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
+de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
+religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
+profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
+dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
+entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
+reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
+e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
+que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
+desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
+aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
+sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
+interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
+Maior para lh'o provar.
+
+Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
+universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
+que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
+é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
+o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
+ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
+formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
+A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
+heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
+emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
+responda pelo erro.
+
+Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
+a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
+em uma instituição do Estado.
+
+Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
+lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
+disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
+apagou-lhe a lanterna.
+
+Quem foi que deixou no mundo esta lição?
+
+Foi o theologo.
+
+Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
+legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
+de Rio Maior.
+
+ * * * * *
+
+Notemos porém um facto consolador:
+
+O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
+sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
+de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
+cerebro é uma idéa que se extingue.
+
+Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
+para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
+do professor e o processo pelos tribunaes civis.
+
+Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!
+
+Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
+negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
+fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
+pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
+argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
+as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
+tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
+amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
+leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
+pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
+tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
+methodos porque se mortificam os impetos da carne.
+
+Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
+os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
+a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
+
+Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
+negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
+cartilha de Padre Mestre Ignacio.
+
+E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
+uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
+instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
+sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
+portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
+ensino publico de uma nação!
+
+ * * * * *
+
+Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
+aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:
+
+_Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_
+
+O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
+instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
+oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
+_Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+by Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***
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+by Ramalho Ortigão--Eça De Queiroz.</title>
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+ AS FARPAS
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+ <p>RAMALHO ORTIGÃO&mdash;EÇA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CHRONICA MENSAL</p>
+ <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>TERCEIRA SERIE&mdash;TOMO II</p>
+ <p>Fevereiro a Maio 1878</p>
+</div>
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+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+ da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+ universo, e da adoração de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+
+<hr class="major" /><!--=====================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+
+<p>
+ <a href="#leisorganicas" >Leis organicas</a>
+ das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
+ de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
+ caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos&mdash;A
+ <a href="#gymnastica" >gymnastica</a>
+ perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
+ Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
+ raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
+ mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
+ pares&mdash;O ultimo
+ <a href="#lourdes" >milagre de Lourdes</a>
+ e a <i>Nação</i>. Mostra-se que o milagre
+ não presta. Ensina-se à <i>Nação</i> o que são milagres e prova-se-lhe que
+ ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar&mdash;A
+ criminalidade em Lisboa e o
+ <a href="#fadista" ><i>fadista</i></a>.
+ Historia genealogica d'esse
+ personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto&mdash;A
+ <a href="#velhanova" >ideia velha e a ideia nova</a>.&mdash;Uma
+ <a href="#tyndal" >opinião de Tyndal</a> ácerca dos atheus.
+ Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
+ os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
+ da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
+ carpinteiro&mdash;
+ <a href="#oprimobazilio" >O <i>Primo Bazilio</i></a>.
+ O caso pathologico e a obra d'arte. A
+ educação burgueza e o realismo&mdash;A
+ <a href="#escolanacional" >escola nacional dos poltrões</a>. A
+ covardia, instituição publica, etc.
+</p>
+<hr class="major" id="leisorganicas"/><!--=====================-->
+<p>
+ Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
+ pertencendo a duas classes distinctas:
+</p>
+<p>
+ 1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;
+</p>
+<p>
+ 2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
+ Estados.
+</p>
+<p>
+ Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
+ absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
+ isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
+ intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
+ organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
+ convencional e contingente,&mdash;n'essas sociedades não podem dar-se senão
+ os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
+ civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
+ ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
+ communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
+</p>
+<p>
+ Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
+ periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
+ toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
+ tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
+ nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
+ regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
+ vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
+ collectivo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
+ demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
+</p>
+<p>
+ Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
+ repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
+ punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
+ distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
+ feridos pela perpetração do delicto.
+</p>
+<p>
+ É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
+ unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
+ commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
+ interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
+ ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
+ pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
+ arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
+ conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
+ vingança.
+</p>
+<p>
+ Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
+ forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
+ muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
+ politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
+ crimes, são verdadeiros erros!»
+</p>
+<p>
+ Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
+ pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
+ sancções penaes.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
+ Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
+</p>
+<p>
+ No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
+ crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
+ meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
+ tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
+</p>
+<p>
+ Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
+ attentados e despedindo os reos em paz!
+</p>
+<p>
+ No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
+ falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
+ recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
+ oito annos de degredo para a costa ds Africa!
+</p>
+<p>
+ O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
+ sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.
+</p>
+<p>
+ O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
+ sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
+ co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
+ o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
+ iniquiedade monstruosa.
+</p>
+<p>
+ O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
+ oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
+ regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario&mdash;o regulamento
+ do serviço militar.
+</p>
+<p>
+ O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
+ Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
+ intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
+ Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
+ crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
+ da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
+ facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
+ interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
+ as sociedades teem em que deixe de haver militares.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
+ punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
+ estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
+ analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
+ civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
+ militarismo e da guerra.
+</p>
+<p>
+ Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
+ punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
+ ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
+</p>
+<p>
+ Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
+ vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
+ mortos.
+</p>
+<p>
+ Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
+ todos os seus dramas: <i>Resistia-me, chlorophormisei-a!</i>
+</p>
+<p>
+ Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
+ substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
+ alcoolicas&mdash;o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
+ convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
+ instrumentos da perpetuidade da raça.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
+ os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
+ unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.
+</p>
+
+<hr id="gymnastica" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
+ primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
+ gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
+ gymnastica tinha um caracter immoral.
+</p>
+<p>
+ S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
+ do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
+ pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
+ e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
+ comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
+ ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
+ dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
+ obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
+ que medeia entre o tapete e o lustre.
+</p>
+<p>
+ Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
+ directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
+ da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
+ ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a <i>sorte de forças</i>
+ mas sim mais modestamente&mdash;<i>a hygiene do movimento no corpo humano</i>.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
+ orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
+ nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
+ dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
+ mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
+ escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
+ racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
+ chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
+ correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
+ s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
+ gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
+ mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
+ frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
+ conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
+ acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
+ sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
+ à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
+ depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
+ dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
+ procere um tão ligitimo horror.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
+ perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
+ organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
+ mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
+ todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
+ manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
+ exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
+</p>
+<p>
+ Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
+ hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
+ sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
+</p>
+<p>
+ Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
+ phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
+ loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
+ mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
+ apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
+ que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
+ revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
+ para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
+ actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
+ todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
+ cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
+ circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
+ alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
+ Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
+ de cura de alienados pela transfusão hypodermica.
+</p>
+<p>
+ Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
+ regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
+ central, é a gymnastica.
+</p>
+<p>
+ O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
+ em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
+ indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
+ apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
+ frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
+ diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
+ segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
+ para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
+ doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
+ gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
+ observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
+ effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
+ densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
+ exercicio.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
+ Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
+ gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
+ a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
+ doutor Burq.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
+ densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
+ exercicios gymnasticos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
+ desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
+ tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
+ respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
+ directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
+ modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
+ organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
+ hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
+ que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
+ constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
+ doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
+ exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
+ jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
+ methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
+ equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
+ favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
+ senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
+ mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
+ assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
+ constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
+ ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
+ de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
+ nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
+ gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
+ obesidade e contra a idiotismo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
+ sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
+ previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
+ gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
+ duas casas do parlamento.
+</p>
+<p>
+ Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
+ exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
+ para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
+ todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
+ quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
+ ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
+ introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
+ n'aquellas em que a gymnastica não existe.
+</p>
+<p>
+ Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
+ esqueceu uma disposição&mdash;precisamente a unica que teria alcance&mdash;um
+ artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
+ em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
+ gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.
+</p>
+<p>
+ O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
+ obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
+ que&mdash;digamol-o francamente&mdash;o que é o <i>cachenez</i> do nobre duque
+ presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
+ mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
+ pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
+ felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
+ nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado&mdash;obrigado a ferros, em nome
+ d'el-rei&mdash;a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
+ erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
+ desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
+ seguintes movimentos:
+</p>
+<p>
+ Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
+ vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
+ sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
+ (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
+ fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
+ reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
+ meditar sobre a felicidade da patria.
+</p>
+<p>
+ No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
+ perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
+ mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
+ não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
+ reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
+ sr. duque de Avila curasse o seu <i>cache-nez</i> por meio dos excercicios
+ indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
+ seguintes:
+</p>
+<p>
+ Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
+ tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
+ (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
+ limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
+ quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
+ Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
+ continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
+ n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
+ gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
+ Velar-lhe a face!
+</p>
+
+<hr id="lourdes" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ A <i>Nação</i> publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: <i>O padre
+ cego já vê, a paralytica já anda</i>.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Parece impossivel que uma folha religiosa como a <i>Nação</i> désse cabimento
+ nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
+ esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
+ cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
+ foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
+ que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
+ reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
+ os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
+ obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
+</p>
+<p>
+ A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
+ collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
+ restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
+ indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
+ lhes deram. Porque nós&mdash;e a <i>Nação</i> bem o sabe!&mdash;nós temos devoções
+ locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
+ auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
+ resultados obtidos pela romagem.
+</p>
+<p>
+ Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
+ na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
+ agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
+ vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!
+</p>
+<p>
+ Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
+ enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
+ que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
+ locomotores com agua das latas?!
+</p>
+<p>
+ E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
+ para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
+ chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
+ largo de S. Roque?
+</p>
+<p>
+ E ainda ousam dizer-nos&mdash;o que não póde ser senão por escarneo&mdash;que ella
+ <i>andou!</i>? Olha a grande façanha&mdash;<i>andar!</i> Mas, senhores, tendo tido
+ trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
+ correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
+ maior do que as que levou!
+</p>
+<p>
+ Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
+ lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
+ milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
+ opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
+ sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
+ que visse tambem por outros membros.
+</p>
+<p>
+ Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
+ a <i>Nação</i> o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
+ olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
+ pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
+ baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
+ com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
+ romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
+ louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
+ vemos que a paralytica nos sae pedrez!»
+</p>
+<p>
+ Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
+ ordem, porque os ha muitos maiores.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
+ coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.
+</p>
+<p>
+ O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
+ das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
+ balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
+ duvida. No livro intitulado <i>Virtude miraculosa do Escapulario
+ demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas</i>,
+ pelo revd.º padre Hugnet&mdash;<i>Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
+ Anvers</i>, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
+ exemplos.
+</p>
+<p>
+ Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
+ dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
+ das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
+ emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
+ estado do satisfação ineffavel.
+</p>
+<p>
+ O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
+ escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
+ os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
+ illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
+ essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
+</p>
+<p>
+ No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
+ das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
+ o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
+ citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)
+</p>
+<p>
+ Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
+ regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
+ acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
+ 20.)
+</p>
+<p>
+ Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
+ consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
+ obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
+ pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
+ o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
+ resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
+</p>
+<p>
+ Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
+ escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
+</p>
+<p>
+ O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado <i>Collecção dos
+ escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc.</i>,
+ diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
+ pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
+ arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
+ de diabos não roguem esta praga medonha:&mdash;Que nós levemos os
+ escapularios!
+</p>
+<p>
+ As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
+ IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
+</p>
+<p>
+ O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
+ para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
+ perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
+ arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
+ facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
+ por um oculo!
+</p>
+<p>
+ O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
+ nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
+ da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
+ prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
+ Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo <i>quando
+ voluntariamente se vae peccar</i>: é o que mais particularmente prescreve o
+ dito padre Guglielmi.
+</p>
+<p>
+ De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
+ é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
+ precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
+ seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
+ seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca&mdash;retalho quadrado ou
+ oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
+ virtude&mdash;applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
+ cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
+ algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
+ patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
+ sacramental: <i>Suspende! Está comigo o coração de Jesus</i>!
+</p>
+<p>
+ Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
+ d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
+ para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
+ alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
+ debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
+ fará a <i>Nação</i> o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
+ de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma <i>Nação</i>, o mais que faz é
+ unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
+</p>
+<p>
+ Ha umas tantas coisas que a <i>Nação</i> até devia ter vergonha de as dizer
+ ... O que a <i>Nação</i> precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
+ esse pescoço, para a <i>Nação</i> ficar então sabendo o que são milagres!
+ Porque a <i>Nação</i> não sabe o que são milagres!
+</p>
+<p>
+ Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
+ habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
+</p>
+<p>
+ Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
+ proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...
+</p>
+<p>
+ Emquanto a nós o que a <i>Nação</i> tem é o espirito maligno no corpo do
+ jornal! Cruzes, demonio!
+</p>
+<hr id="fadista" class="minor" />
+<p>
+ Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
+ de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
+ termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
+ satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
+ fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
+ todos?
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
+ esta&mdash;o <i>fadista</i>.
+</p>
+<p>
+ Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
+ constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
+ dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
+ feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
+ fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
+ toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
+ beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
+ frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
+ com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
+ nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
+ os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
+ os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
+ adormecidos.
+</p>
+<p>
+ Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
+ capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
+ do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
+ interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
+ em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
+ conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
+ divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
+ navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
+ mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
+ um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
+ seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
+ sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
+ despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
+ fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
+ que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
+ que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
+ uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
+ tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
+ com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
+ combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
+ biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
+ antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
+ espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
+ vadiice, e tomou então o nome de&mdash;fadista.
+</p>
+<p>
+ O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
+ accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
+ seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
+ elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
+ successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
+ esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
+ noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
+ um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
+ frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
+ mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
+ enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
+ de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
+ guitarra e de um <i>santo christo</i>, que assim chamam technicamente a
+ grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
+ molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
+ constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
+ um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
+ Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
+ obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
+ agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular&mdash;as <i>escovinhas</i>.
+ Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
+ bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
+ guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
+ qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
+ XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
+ fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
+ Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
+ onde depois da meia noite se vae comer o prado de <i>desfeita</i>, acepipe
+ composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
+ camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
+ da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
+ e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
+ taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
+ alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
+ que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
+ Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
+ jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
+ pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
+ lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
+ mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
+ fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
+ de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
+ prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
+ pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
+ pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
+ guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
+ desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
+ pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
+ outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
+ imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
+ perna encurvada com o bico do pé para fóra; o <i>cachucho</i> da amante
+ reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
+ mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
+ esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
+ que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
+ á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
+ da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
+ miseravel.
+</p>
+<p>
+ De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
+ meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
+ na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
+ o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
+ convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
+ especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
+ restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
+ todos os machos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
+ incorrigiveis da criminalidade.
+</p>
+<p>
+ A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
+ recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
+ inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
+ em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
+ verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
+ nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
+ ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
+ sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
+ mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
+ immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
+ tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
+ cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
+ a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
+ conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
+ confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
+ não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
+ inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
+ grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
+ senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
+ presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
+ conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
+ expediente seria a morte.
+</p>
+<p>
+ É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
+</p>
+<p>
+ É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
+ criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
+ incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
+ repetidos?
+</p>
+<p>
+ A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
+</p>
+<p>
+ É.
+</p>
+<p>
+ N'este caso pergunta-se:
+</p>
+<p>
+ Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
+ continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
+ uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
+ os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
+ justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
+</p>
+<p>
+ Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
+ que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
+ irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
+ sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
+ abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
+ manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
+</p>
+<p>
+ Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
+ sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
+ inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
+ instituição concomitante que a justifica e a consagra:&mdash;a loteria.
+</p>
+<p>
+ Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
+ supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
+ Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
+ trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
+ cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
+ o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
+ policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
+ rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
+ contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
+ photographia no commisariado geral.
+</p>
+<p>
+ Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
+ de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
+ aos fadistas.
+</p>
+
+<hr id="velhanova" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
+ do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
+ contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
+ esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
+ açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
+ viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
+ lombares das musas.
+</p>
+<p>
+ Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
+ poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
+ ellas existissem: a escola da <i>Idéa Velha</i> e a escola da <i>Idéa Nova</i>!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
+ para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.
+</p>
+<p>
+ O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
+ encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
+ annos.
+</p>
+<p>
+ Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
+ duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
+ pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
+ enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
+ inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
+ pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
+ lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
+ fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
+ e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
+ outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
+ que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
+ de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
+ dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
+ Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
+ spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
+ publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
+ agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
+ <i>Grinalda</i> e no <i>Almanach de Lembranças</i>; dedicou versos á Lapa dos
+ Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
+ concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
+ ás Graças nas notas da versão portugueza dos <i>Fastos</i>. Foi da Assembléa
+ da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do <i>Gremio</i>, que tomou o nome de
+ <i>Litterario</i> para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
+ agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
+ finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
+ De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
+ encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
+ insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
+ era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
+ fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
+ e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
+ poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
+ costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
+ Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
+ achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
+ chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
+ retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
+ as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
+ choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
+ seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
+ tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
+ servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
+ estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
+ Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
+ altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
+ mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
+ poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
+ conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
+ Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
+ Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
+ entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
+ condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
+ ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
+ porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
+ exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
+ suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
+</p>
+<p>
+ Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
+ communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
+ Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
+ com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
+ ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
+ onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
+ vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
+ que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
+ engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
+ pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
+ se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
+ ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
+ superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
+ nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
+ presente.
+</p>
+
+<hr id="oprimobazilio" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ <i>O Primo Bazilio</i>, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
+ artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
+ obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
+ o que pertence aos dominios da pathologia social.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Eis a doença que este livro accusa:&mdash;A dissolução dos costumes
+ burguezes.
+</p>
+<p>
+ O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
+ burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
+ mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
+ No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
+ apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
+ ver porquê.
+</p>
+<p>
+ Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
+ desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
+ representação da vida exterior e o systema da vida intima.
+</p>
+<p>
+ Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
+ do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
+ religião&mdash;a familia!
+</p>
+<p>
+ Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
+ baixa&mdash;rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
+ asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
+ a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias&mdash;com as
+ graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
+ com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
+ galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
+ pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
+ edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
+ Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
+ predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
+ de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
+ modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
+ primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
+ moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
+ systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
+ branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
+ cercados de hera, de estufas, de <i>logettes</i>, de aviarios em que se
+ cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
+ frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
+ outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
+ elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
+ nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
+ do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
+ todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
+ luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
+ activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
+</p>
+<p>
+ As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
+ parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
+ verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
+ com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
+ das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
+ rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
+ queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
+</p>
+<p>
+ É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
+ <i>Arruamentos da Baixa</i>, que é educada a lisboeta.
+</p>
+<p>
+ Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
+ recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
+</p>
+<p>
+ «Noto um facto que me enche de perturbação e de horror&mdash;n'esta cidade
+ não ha creanças.»
+</p>
+<p>
+ Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
+ bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
+ balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
+ desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
+ musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
+ musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
+ ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos <i>squares</i> do
+ largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
+ effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
+ encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
+ sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
+ preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
+ com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
+ seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
+ fresco.
+</p>
+<p>
+ Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
+ frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
+ creança estão dentro das casas que acima descrevemos&mdash;<i>a tomarem
+ proposito. Tomar proposito</i> é uma locução essencialmente local e
+ intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
+ rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
+ instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
+ menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
+ indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
+ houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
+ para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
+ quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
+ instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
+ infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
+ e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
+ flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
+ jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
+ Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
+ da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
+ aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
+ ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
+ appendices de sua <i>toilette</i>: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
+ linguas, e a <i>phantasia</i>, o bonito trecho de salão tocado no piano
+ diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
+ funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
+ suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
+ jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
+ Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
+ não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
+ Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
+</p>
+<p>
+ Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
+ completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
+ phenomenos.
+</p>
+<p>
+ Não a distraem os interessantes cuidados do <i>ménage</i>, porque da casa,
+ assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
+ nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
+ das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
+ actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
+ moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
+ gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
+ essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
+ retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
+ casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
+ que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
+ possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
+ onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
+ respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
+ borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
+</p>
+<p>
+ Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
+ a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
+ elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
+ no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
+ de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
+ preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
+ do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
+ orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
+ couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
+ desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
+ ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
+ bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
+ e graciosa, similhante a uma <i>bombonière</i>, ou como a da Semana Santa nos
+ Inglezinhos, a cuja <i>petite entrée</i> destinada aos intimos rodam os
+ <i>coupés</i> magnificos da piedade escolhida.
+</p>
+<p>
+ Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
+ seu <i>bènitier</i> barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
+ Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
+ arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
+ tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
+ desdem.
+</p>
+<p>
+ Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
+ theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
+ contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
+ dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
+ theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
+ resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
+ sociedades corruptas:&mdash;o socego.
+</p>
+<p>
+ Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
+ ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
+ os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
+ região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
+ do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
+ raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
+ da <i>toilette</i>; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
+ um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
+ cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
+ medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
+ cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
+ alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
+ aguadeiro, ralhando com o marido.
+</p>
+<p>
+ Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
+ domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
+ quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
+ infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
+ cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
+ caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
+ inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
+ arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
+ retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
+ de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
+ meio dos cortinados.
+</p>
+<p>
+ Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
+ decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
+ similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
+ Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
+ nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
+ á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
+ mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
+ se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
+ a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
+ que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
+ que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
+ ou do luxo que não usa.
+</p>
+<p>
+ Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
+ romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
+ lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
+ tornar encantadora a familia.
+</p>
+<p>
+ Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
+ predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
+ da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
+ Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
+ serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
+ perfeita educação.
+</p>
+<p>
+ Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
+ superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
+ processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
+ simplicidade tragica.
+</p>
+<p>
+ O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
+ dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
+ apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
+ pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
+ penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
+ uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
+ espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
+ exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
+ alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
+ seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
+ aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
+ jantado nos mais celebres restaurantes do <i>boulevard</i>, o que se vestir e
+ se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
+ desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
+ segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
+ mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em <i>foie gras</i>, em
+ <i>Champagne Clicot</i>, e em <i>Cold-creame</i>.
+</p>
+<p>
+ Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
+ refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
+ tapetes de Smyrna dos <i>boudoirs</i> forrados de setim, envoltos em renda de
+ França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
+ essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
+ um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
+ obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
+ <i>amando-a</i> finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
+ suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
+ seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
+ caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
+ ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
+ espartilho barato, da sua <i>toilette</i> da Baixa, da sua pomada de botica e
+ do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
+ nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
+ gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
+ suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
+ encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
+ attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto <i>plastron</i> de
+ Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
+ cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
+ saberá negar.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
+ medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu <i>O Primo
+ Bazilio</i>, romance realista.
+</p>
+<p>
+ Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
+ esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
+ senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
+ espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
+ supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
+ 1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
+ cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
+ de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
+ gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
+ da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
+ da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
+ Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
+ atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
+ phylanthropos.
+</p>
+<p>
+ A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
+ sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
+ pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
+ Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
+ pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
+ convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
+ problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
+ mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
+ leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
+ que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
+ phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
+ integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
+ prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
+</p>
+<p>
+ N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
+ que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
+ dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
+ em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
+ zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,&mdash;n'esta liga,
+ dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
+ trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
+ mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
+ risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
+ e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
+ caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
+ sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: <i>Res non
+ verba</i>.
+</p>
+<p>
+ Foi da palavra <i>res</i>, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
+ se tirou a designação <i>realismo</i>.
+</p>
+<p>
+ Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
+ é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
+ numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
+ simplesmente lyrica.
+</p>
+<p>
+ O <i>Primo Basilio</i> é um romance realista porque é a representação de um
+ facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
+ do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
+ uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
+ Luiza <i>castigada</i> (para nos servirmos da velha formula que via a moral
+ dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
+ que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
+ afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
+ negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:&mdash;que para evitar a
+ morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
+ cartas.
+</p>
+<p>
+ A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
+ queda; está em que ella&mdash;<i>não podia deixar de cair</i>.
+</p>
+<p>
+ Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
+ comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
+ mal da litteratura de que o livro faz parte. O <i>Primo Basilio</i> suppõe um
+ estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
+ sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
+ philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
+ hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
+ critica dos costumes, na propria critica da arte.
+</p>
+<p>
+ Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
+ vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
+ dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
+ <i>Primo Basilio</i>. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
+ modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
+ as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
+ burgueza.
+</p>
+<p>
+ De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
+ contemporanea: «Eis&mdash;aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
+ rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,&mdash;parece um
+ insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
+ companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
+ filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
+ apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
+</p>
+<p>
+ «Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
+ uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
+ honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
+ ambição heroica:&mdash;tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
+ minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
+ fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
+ problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
+ com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
+ romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
+ alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
+ elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
+ asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
+ meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
+ pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
+ em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
+ elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
+ proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
+ pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
+ um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
+ convergentemente estarão n'este momento&mdash;no momento em que eu tenho a
+ concepção artistica do <i>Primo Basilio</i>&mdash;actuando sobre todas as
+ influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
+ amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
+ em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
+ compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
+ demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
+ reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
+ fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
+ maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
+ applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
+ finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
+ como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
+ these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
+ da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
+</p>
+<p>
+ Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
+ compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
+ teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
+ artista tem a obrigação de se não explicar,&mdash;o que seria invadir uma
+ funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
+ gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
+ religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
+ como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
+ indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
+ se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
+ e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
+ ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
+ a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.
+</p>
+<p>
+ Taes foram as razões porque&mdash;ao terminar ha mez e meio a leitura do
+ <i>Primo Bazilio</i>,&mdash;uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
+ uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
+ gloriar uma litteratura&mdash;nós fizemos esta prophecia: Que este livro
+ seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
+ observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
+ biologia, instrumentos inuteis&mdash;ás vezes perigosos&mdash;para todo aquelle
+ que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
+ divina revelação de um novo mundo.
+</p>
+
+<hr id="diarioillustrado" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ O <i>Diario Illustrado</i>, publicando o retrato e a biographia do sr.
+ Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
+</p>
+<p>
+ «Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
+ de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
+ desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
+ exclamou:&mdash;Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O <i>Diario Illustrado</i> não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
+ Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
+ <i>Diario Illustrado</i> diz apenas: <i>Conta-se ...</i>
+</p>
+<p>
+ Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
+ historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
+ montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
+ carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
+ de Tarbes? Póde o <i>Diario Illustrado</i> firmar com a sua palavra de honra
+ a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
+ que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
+ Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
+ cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
+ Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
+ Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
+ Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
+ Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
+ da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?
+</p>
+<p>
+ Está o <i>Diario Illustrado</i> no caso de sustentar, debaixo de jura, por
+ tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
+ sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
+ quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
+ dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
+ dizeres?
+</p>
+<p>
+ Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de <i>Diario Illustrado</i>.
+</p>
+<p>
+ Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
+ effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
+ convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
+ suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
+ jantar:&mdash;<i>Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta</i>&mdash;; se tal
+ phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
+ abstracto de suspeita destituida de fundamento,&mdash;o paiz não póde cruzar
+ os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
+ que o <i>Illustrado</i> cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
+ patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
+</p>
+
+<hr id="escolanacional" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
+ ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
+ seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
+ especial:
+</p>
+<p>
+ 1.º Rir atraz da procissão dos Passos.
+</p>
+<p>
+ 2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
+ viajante.
+</p>
+<p>
+ 3.º Não ter dado pateada a um lente.
+</p>
+<p>
+ 4.º Parecer constrangido a dar lição.
+</p>
+<p>
+ 5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
+ appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
+ expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.
+</p>
+<p>
+ Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
+ necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
+ teve apenas em vista o <i>desgosto</i> infligido pela sanção dos regulamentos
+ universitarios ás familias dos alumnos condemnados:&mdash;No que o Poder
+ mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
+ legislador mediocre.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
+ aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
+ absolvidos pelos tribunaes civis.
+</p>
+<p>
+ N'esta conjunctura perguntamos:
+</p>
+<p>
+ É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
+ de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
+ uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
+ julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
+ uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
+ tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
+ contrarias?
+</p>
+<p>
+ Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
+ especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?
+</p>
+<p>
+ Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
+ trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
+</p>
+<p>
+ Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
+ sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.
+</p>
+<p>
+ Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
+ quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
+ não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.
+</p>
+<p>
+ Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
+ d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
+ covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
+ que ainda possa haver na mocidade portugueza.
+</p>
+<p>
+ Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
+ physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
+ com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
+ corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
+ especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
+ sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
+ systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
+ honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
+ força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
+</p>
+<p>
+ Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
+ cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
+ sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
+ côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
+ atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
+ naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
+ velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
+ proprios de uma mocidade honesta e forte:&mdash;a gymnastica obrigatoria, a
+ escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel <i>cricket</i>.
+</p>
+
+<hr id="tyndal" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,&mdash;no paiz em que
+ Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
+ seus aulicos,&mdash;no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
+ Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
+ para prehencher essa omissão,&mdash;na velha, na religiosa, na solemne
+ Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
+ presidencial do <i>Birmingham and Midland Institute</i>, disse as palavras
+ seguintes:
+</p>
+<p>
+ «Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
+ das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
+ livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
+ fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
+ perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
+ abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
+ exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
+ assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
+ medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
+ desconheceriamos o dever.
+</p>
+<p>
+ «Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
+ conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
+ <i>Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã</i> não é a consequencia
+ ethica da regeição dos dogmas.
+</p>
+<p>
+ «As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
+ christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
+ senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.
+</p>
+<p>
+ «Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
+ espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
+ varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
+ muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
+ produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
+ frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
+ procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
+ insufficiente para nivelar.
+</p>
+<p>
+ «Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
+ homens a que os batalhadores do pulpito chamam <i>atheus ou materialistas</i>
+ e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
+ moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
+ d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.
+</p>
+<p>
+ «Quando digo <i>offensiva</i> quero simplesmente alludir aos que empregam
+ aquelles termos, não que eu pense que o <i>atheismo e o materialismo</i>,
+ comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
+ em si um caracter offensivo.
+</p>
+<p>
+ «Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
+ sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
+ eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
+ cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
+ atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
+ morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
+ celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
+ zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
+ emprego dos seus ultimos momentos.»
+</p>
+<p>
+ Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
+ é christão, o outro não.
+</p>
+<p>
+ O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
+ religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
+ perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
+ dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
+ peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
+ comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
+ delicada flor da cavalleria.
+</p>
+<p>
+ O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
+ theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
+ agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
+ Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
+ caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
+ é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
+ verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
+ verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
+ de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
+ exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
+ intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
+ moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
+ para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
+ presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
+ em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
+ necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
+ fundamental da conciliação das consciencias!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
+ mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
+ Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
+ determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
+ tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
+ escravisados pelos poderes clericaes.
+</p>
+<p>
+ Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
+ aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
+ crescem. Crescem em virtude de que lei?
+</p>
+<p>
+ Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
+ respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
+ noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
+ fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
+ embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
+ ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
+ operario acrescenta:
+</p>
+<p>
+ «Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
+ desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
+ de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
+ crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
+ Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
+ amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
+ dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
+ as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
+ coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
+ vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
+ para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
+ Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
+</p>
+<p>
+ «Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
+ sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
+ Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
+ certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
+ deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
+ sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
+ gerações.
+</p>
+<p>
+ «É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
+ tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
+ legislação humana e a moral universal.»
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
+ do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
+ principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
+ Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
+ convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
+ perigosas e banidas das discussões publicas.
+</p>
+<p>
+ Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
+ que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
+ garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
+ das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
+ evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
+ principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
+ reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
+ de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
+ methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
+ que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
+ de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
+ como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
+ os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
+ esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
+</p>
+<p>
+ Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.
+</p>
+<p>
+ Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
+ mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
+ nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
+</p>
+<p>
+ Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
+ manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
+ cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
+ todos os meios ao seu alcance&mdash;meios tumultuarios, illegaes,
+ vexatorios&mdash;a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,&mdash;o atheu
+ morto.
+</p>
+<p>
+ Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
+ expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
+ physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
+ facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
+ theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
+ a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
+ tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
+ resultado&mdash;n'este caso benefico&mdash;da indisciplina geral dos serviços
+ publicos.
+</p>
+<p>
+ Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
+ professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
+ vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
+ que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
+ d'ella:&mdash;por falta de inspecção e de policia.
+</p>
+<p>
+ Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
+ solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
+ não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
+ intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
+ armam.
+</p>
+<p>
+ Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
+ dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!
+</p>
+<p>
+ Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
+ mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
+</p>
+<p>
+ «<i>O sr. conde de Rio Maior</i> (copiamos o extracto da sessão, publicado do
+ <i>Jornal do Commercio</i>), <i>não é adversario do desenvolvimento da
+ instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
+ de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
+ para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
+ Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
+ Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
+ tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
+ proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
+ e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
+ mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
+ maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
+ portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
+ isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
+ d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
+ religiosa.»</i>
+</p>
+<p>
+ A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
+ prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, <i>embora a instrucção
+ estivesse pouco diffundida</i>, é um erro de historia que o nobre conde
+ quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
+ não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
+ deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
+ ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
+ portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
+ foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
+</p>
+<p>
+ Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
+ quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
+ compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.
+</p>
+<p>
+ D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
+ litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
+ Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
+ para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
+ vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
+ artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
+ Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
+ portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
+ em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
+ vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
+</p>
+<p>
+ Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
+ bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do <i>Leal
+ Conselheiro</i>. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou <i>as sete
+ partidas do mundo</i>, auctor da <i>Vertuosa Bemfeitoria</i> e um dos homens
+ mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
+ Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
+ ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
+ navegações, o fundador da chamada <i>Escola de Sagres</i>, o mais poderoso, o
+ mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
+ sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
+ senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
+ Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
+ hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
+ nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
+ onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
+ feitos na rua dos Correeiros.
+</p>
+<p>
+ Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
+ Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
+ Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
+ exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
+ Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
+ escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
+ de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
+ mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
+ hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
+ apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
+ official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
+ que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
+ secretaria.
+</p>
+<p>
+ No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
+ instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
+ propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
+ dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
+ soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
+ confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
+ Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
+ de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
+ fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da <i>Historia
+ tragico maritima</i>, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
+ mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
+ litteratura de uma nação.
+</p>
+<p>
+ A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
+ instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
+ prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
+ accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
+ instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
+ seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
+ mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
+ discutindo:
+</p>
+<p>
+ <i>O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
+ ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
+ á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
+ artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
+ tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
+ podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
+ professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo</i>.
+</p>
+<p>
+ Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
+ proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
+ respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
+ tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
+ instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
+ de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
+ religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
+ profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
+ dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
+ entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
+ reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
+ e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
+ que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
+ desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
+ aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
+ sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
+ interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
+ Maior para lh'o provar.
+</p>
+<p>
+ Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
+ universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
+ que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
+ é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
+ o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
+ ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
+ formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
+ A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
+ heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
+ emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
+ responda pelo erro.
+</p>
+<p>
+ Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
+ a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
+ em uma instituição do Estado.
+</p>
+<p>
+ Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
+ lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
+ disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
+ apagou-lhe a lanterna.
+</p>
+<p>
+ Quem foi que deixou no mundo esta lição?
+</p>
+<p>
+ Foi o theologo.
+</p>
+<p>
+ Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
+ legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
+ de Rio Maior.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Notemos porém um facto consolador:
+</p>
+<p>
+ O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
+ sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
+ de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
+ cerebro é uma idéa que se extingue.
+</p>
+<p>
+ Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
+ para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
+ do professor e o processo pelos tribunaes civis.
+</p>
+<p>
+ Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!
+</p>
+<p>
+ Nos fins do seculo XVI o <i>pendão da santa doutrina</i>, um lugubre pendão
+ negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
+ fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
+ pelo sr. conde de Rio Maior:<i>era o homem de ordem, temente a Deus</i>,
+ argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
+ as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
+ tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
+ amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
+ leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
+ pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
+ tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
+ methodos porque se mortificam os impetos da carne.
+</p>
+<p>
+ Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
+ os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
+ a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
+</p>
+<p>
+ Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
+ negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
+ cartilha de Padre Mestre Ignacio.
+</p>
+<p>
+ E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
+ uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
+ instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
+ sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
+ portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
+ ensino publico de uma nação!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as <i>Farpas</i> não cessam de elevar
+ aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:
+</p>
+<p>
+ <i>Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!</i>
+</p>
+<p>
+ O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
+ instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
+ oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
+ <i>Farpas</i>, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
+</p>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***</div>
+</body>
+</html>
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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+The Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+
+Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+Release Date: August 2, 2004 [EBook #13093]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
+
+
+
+
+[Illustration: EA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGO AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878
+
+Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
+da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
+universo, e da adorao de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Leis organicas das sociedades e disposies regulamentares dos estados:
+de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanco penal. O
+caso da sr. D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
+gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
+Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituio da
+raa humana pela gymnastica. Reconstituio da ideias parlamentares pela
+mesma gymnastica. Indicao de alguns exercicios para uso dos dignos
+pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nao_. Mostra-se que o milagre
+no presta. Ensina-se _Nao_ o que so milagres e prova-se-lhe que
+ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
+criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
+personagem desde o seculo XVI at a ultima facada no Bairro Alto--A
+ideia velha e a ideia nova.--Uma opinio de Tyndal cerca dos atheus.
+Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin cerca das rases porque crescem
+os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
+da instruco primaria mostrou no ser aquelle philosopho nem aquelle
+carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
+educao burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltres. A
+covardia, instituio publica, etc.
+
+Tdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
+pertencendo a duas classes distinctas:
+
+1. Crimes resultantes da infraco das leis organicas da sociedade;
+
+2. Crimes resultantes da infraco das disposies regulamentares dos
+Estados.
+
+Emquanto as sociedades se no acham constituidas segundo o direito
+absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
+isto , emquanto as sociedades no attingem um desenvolvimento
+intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
+organisao, distinguindo o que n'ellas difinitivo e organico do que
+convencional e contingente,--n'essas sociedades no podem dar-se seno
+os crimes da segunda d'aquellas classes. assim que vemos nas
+civilisaes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
+ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
+communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
+
+Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entrram no
+periodo scientifico da sua evoluo moral, como presentemente succede em
+toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
+tomram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
+nos referimos, porque se comprehendeu que elles no violam unicamente um
+regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
+vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregao que constitue o grande ser
+collectivo.
+
+ * * * * *
+
+A sabedoria da legislao penal manifesta-se na mais justa e perfeita
+demarcao dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
+
+Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
+repressivos da infraco das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
+punio imposta contraveno dos seus estatutos regulamentares,
+distinguindo graduaes na culpa segundo a importancia dos interesses
+feridos pela perpetrao do delicto.
+
+ em virtude d'este criterio que so punidos com severidade,
+unanimemente exigida pela opinio, os attentados contra o interesse do
+commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
+interesses so considerados os mais importantes das sociedades modernas;
+ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
+pela razo de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
+arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
+conseguinte a civilisao rejeita como um acto de prepotencia e de
+vingana.
+
+Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
+forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
+muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
+politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: So mais do que
+crimes, so verdadeiros erros!
+
+Posto isto, vejamos qual o estado da mentalidade portugueza afferido
+pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e s respectivas
+sances penaes.
+
+ * * * * *
+
+Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
+Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
+
+No caso de Joanna Pereira vemos tres ros confessos e convictos de tres
+crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
+meio da chlorophormisao; o carroceiro, da remoo de um cadaver; todos
+tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
+
+Como procede a sociedade? No tomando conhecimento de nenhum d'estes
+attentados e despedindo os reos em paz!
+
+No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo accusado de ter
+falsificado uma certido de edade para o fim de salvar um mancebo do
+recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
+oito annos de degredo para a costa ds Africa!
+
+O primeiro caso um triplice attentado contra a ordem social. A
+sociedade no s o no pune mas nem sequer o julga.
+
+O segundo uma contraveno de um regulamento administrativo. A
+sociedade no s o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
+
+ * * * * *
+
+No analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
+co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
+o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnao d'este uma
+iniquiedade monstruosa.
+
+O crime do que accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
+oito annos de degredo, crime unicamente perante a letra de um
+regulamento de caracter no s transitorio mas arbitrario--o regulamento
+do servio militar.
+
+O parocho foi condemnado por tentar salvar do servio um recruta.
+Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, s pde involver
+inteno criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
+Viciar a data de uma letra ou de um contrato indubitavelmente um grave
+crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
+da propriedade. Mas alterar a data de uma certido de baptismo, para o
+facto de isemptar do servio militar um cidado, no offender um
+interesse social; o contrario d'isso: servir o interesse que todas
+as sociedades teem em que deixe de haver militares.
+
+ * * * * *
+
+O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
+punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
+estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
+analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios
+civilisao e humanidade. Daria em resultado a eliminao do
+militarismo e da guerra.
+
+Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores no foram
+punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
+ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
+
+Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
+vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
+mortos.
+
+Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
+todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_
+
+Finalmente, para o facto da seleco da especie, os maridos seriam
+substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
+alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
+convertendo aos pianos, reforados pela aguardente, nos unicos
+instrumentos da perpetuidade da raa.
+
+ * * * * *
+
+Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
+os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
+unicamente sociedade os nossos cumprimentos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Por occasio de se discutir no parlamento a reforma da instruco
+primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopo da
+gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinio de que a
+gymnastica tinha um caracter immoral.
+
+S. ex. parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
+do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
+pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mos
+e de pernas para o ar. Isto effectivamente no seria bem visto. E
+comprehendemos que s. ex. sinta uma certa poro de rubor pensando que
+ao dirigir n'um salo as suas homenagens a uma dama esta poder vir um
+dia a retribuir os cumprimentos de s. ex. aferrando-o pelos rins e
+obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabea no espao
+que medeia entre o tapete e o lustre.
+
+Cremos porm que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
+directamente de um nobre desdem votado por s. ex. a algumas habilidades
+da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
+ex. tenha da coisa que fra das feiras se no chama a _sorte de foras_
+mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.
+
+ * * * * *
+
+Um illustre medico allemo, o doutor Schreber, director do instituto
+orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformaes do
+nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciaes na configurao
+dos ossos da bacia, viciaes que inhabilitam muitas mulheres de serem
+mes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
+escola e que s podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
+racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poder
+chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
+correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
+s. ex. para alvo das suas predileces pelo pugilato athletico.
+
+ * * * * *
+
+O mesmo doutor Schreber assevera que indispensavel introduzir o uso da
+gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
+mulheres padeam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
+frequente e resultante da posio forada em que as raparigas se
+conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
+acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
+sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
+ espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
+depois a operar sobre a regio abdominal de s. ex. as experiencias
+dynamometricas, cuja perspectiva lana no animo pudibundo do digno
+procere um to ligitimo horror.
+
+ * * * * *
+
+A physiologia moderna tem mostrado que a saude no mais que o justo e
+perfeito equilibrio das differentes foras inherentes ao nosso
+organismo. A hygiene tem provado com muitas observaes e fundada nas
+mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
+todos os nossos membros e de todos os nossos orgos o unico meio de
+manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisao d'esse
+exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
+
+Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
+hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulao do
+sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
+
+Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
+phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
+loucura so outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
+mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
+apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
+que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
+revelaes, demonstra que existem estreitas e precisas relaes de causa
+para effeito entre as variaes da circulao e os differentes graus de
+actividade cerebral. A abolio da memoria, a perverso das sensaes,
+todos os casos de nevropathia cerebral so resultantes de uma falta de
+cadencia na vibrao dos centros sensitivos causada por um embarao da
+circulao sanguinea no encephalo. Na Italia esto-se curando as
+alienaes mentaes pela transfuso do sangue. O medico Ponza, do Grande
+Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
+de cura de alienados pela transfuso hypodermica.
+
+Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispe para activar e
+regularisar a circulao, de tanta importancia para a actividade
+central, a gymnastica.
+
+O celebre hygienista Lacassagne diz: Um exercicio muscular geral, feito
+em boas condies, produz os effeitos de uma transfuso de sangue.
+
+ * * * * *
+
+Ha estados morbidos cuja localisao no organismo escapa muitas vezes
+indagao e sagacidade dos clinicos. Est-se doente sem haver
+apparentemente perturbao alguma nas funces physiologcas. O symptoma,
+frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
+diminuio do noso peso com relao unidade do nosso volume. A mais
+segura medida da saude a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
+para tornar mais denso o corpo humano? Ha. o regimen da gymnastica. O
+doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
+gymnastica militar da Faisanderie, em Frana, constatou, pelas
+observaes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
+effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto acrescentar a
+densidade de 6 at 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
+exercicio.
+
+ * * * * *
+
+Em um paiz onde a tisica faz to grande numero de victimas como em
+Portugal, util accrescentar ainda que uma das propriedades da
+gymnastica desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
+a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
+doutor Burq.
+
+ * * * * *
+
+A fora muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
+densidade, n'uma proporo de 15% nos quatro primeiros mezes dos
+exercicios gymnasticos.
+
+ * * * * *
+
+A hygiene de musculatura um facto de primeira importancia para a saude
+desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
+tecidos vivos se reconheccu que a sde principal da combusto
+respiratoria o musculo. Os differentes estados do musculo influem
+directamente na composio do sangue. O exercicio portanto um poderoso
+modificador do sangue e como tal acta em todas as foras do nosso
+organismo. Mas no ha seno uma especie de exercicio com propriedades
+hygienicas e therapeuticas: esse exercicio a gymnastica.
+
+ * * * * *
+
+Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faa o obsequio de considerar
+que s um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
+constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allem. O
+doutor Sebreber demonstra que a unica occupao que sujeita quem a
+exerce a um exercicio inteiramente harmonico, a occupao da
+jardinagem. Todo aquelle que no for jardineiro tem de appellar para um
+methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
+equilibrio as acquisies e os dispendios de cada um dos seus orgos.
+
+ * * * * *
+
+Taes so, resumidamente expostas, algumas das razes que militam em
+favor da gymnastica. Em contraposio a estes argumentos no sabemos
+seno de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex. os nossos rogos
+mais fervorosos para que s.ex. no core diante da gymnastica, impedindo
+assim o paiz de pr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
+constituio atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
+ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
+de reagir contra a hypocondria e contra a preguia, contra a atonia dos
+nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
+gotta, contra as affeces pulmonares, contra as escrophulas, contra a
+obesidade e contra a idiotismo.
+
+ * * * * *
+
+Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licena para incluir o mesmo
+sr. Vaz Preto, esto contaminados por enfermidades que a gynmastica
+previne e corrige. De modo que uma boa administrao pedia que
+gymnastica no s fosse decretada para as escolas mas tambem para as
+duas casas do parlamento.
+
+Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allems, suecas, os
+exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
+para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
+todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
+quanto estes exercicios so uteis no s ao desenvolvimento physico mas
+ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
+introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
+n'aquellas em que a gymnastica no existe.
+
+Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
+esqueceu uma disposio--precisamente a unica que teria alcance--um
+artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
+em cada sesso, as suas locubraes legislativas, para fazerem
+gymnastica ao som de um orgo, como nas escolas americanas.
+
+O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
+obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
+que--digamol-o francamente--o que o _cachenez_ do nobre duque
+presidente seno o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
+mais caracteristico de que s.ex. no tem gymnastica nos musculos do
+pescoo e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
+felicidade do paiz, que to estreitamente depende da preciosa saude do
+nobre duque, s.ex. deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
+d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
+erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
+desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
+seguintes movimentos:
+
+Voltar vigorosamente a cabea para a direita e para a esquerda (100
+vezes); fazer girar o pescoo, na sua maxima flexo, sobre o peito e
+sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
+(100 vezes); fazer o movimento de quem mede braas (100 vezes); tomar
+fortes e profundas aspiraes de ar (25 vezes). Depois do qu, s.ex.
+reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomearia a
+meditar sobre a felicidade da patria.
+
+No mesmo sr. Vaz Preto o que verdadeiramente a revolta do seu pudor
+perante a adopo da gymnastica nas escolas seno o indicio de uma leso
+mental concomitante e at certo ponto compensadora da obesidade? Pois
+no sabido que jmais a excessiva nutrio deixa de ser acompanhada
+reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
+sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
+indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
+seguintes:
+
+Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
+tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
+(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz at o
+limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
+quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
+Depois do qu, s. ex. revestiria ameaadoramente as suas calas e
+continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
+
+ * * * * *
+
+Se porm a todas estas consideraes for insensivel o sr. Vaz Preto,
+n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
+gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex. um expediente extremo:
+Velar-lhe a face!
+
+
+ * * * * *
+
+
+A _Nao_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
+cego j v, a paralytica j anda_.
+
+ * * * * *
+
+Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nao_ dsse cabimento
+nas suas columnas um milagre to miseravel, to safado, to reles como
+esse! Com effeito! foi ento para isso, para esse milagrotesito de
+ccrc, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
+foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
+que a sr. condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
+reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
+os fazer ver e para os fazer andar os levou to longe?! ... Ora muito
+obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
+
+A sr. condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
+collaborram com s.ex. na bonita obra da peregrinao teem obrigao
+restricta de abrirem immediatamente uma subscripo para o fim de
+indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
+lhes deram. Porque ns--e a _Nao_ bem o sabe!--ns temos devoes
+locaes, temos devoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affianam, sob a
+auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
+resultados obtidos pela romagem.
+
+Pois qu! A agua de Lourdes ao p da bica, na propria gruta, por conta e
+na presena da santa, no ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
+agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
+vezes impuras, quantas vezes com ms rolhas?!
+
+No vimos ns ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
+enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
+que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
+locomotores com agua das latas?!
+
+E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr. condessa do Sarmento
+para se metter s estradas e para ir por ahi fra em braos at Lourdes,
+chega l e no obtem mais nada seno o que obteve a outra sem sair do
+largo de S. Roque?
+
+E ainda ousam dizer-nos--o que no pde ser seno por escarneo--que ella
+_andou!_? Olha a grande faanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
+trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
+correr, correr a sete ps, e trazer de l para esse fim cinco pernas a
+maior do que as que levou!
+
+Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
+lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascar que lhe fazia o
+milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
+opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
+sua devida altura, que o homem no s principiasse a ver pelos olhos mas
+que visse tambem por outros membros.
+
+Isso ento j valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
+a _Nao_ o publicasse em telegramma: O padre cego appareceu-lhe um
+olho em cada buraco do nariz e est-lhe a vir outro na cova do ladro,
+pelo qual j l as suas rezas de costas na cama com o breviario por
+baixo do travesseiro. A paralytica j deitou seis pernas novas e est
+com dois grandes furunculos nos hombros: suppe-se que sejam as azas a
+romper. Quando se lhe espremem os carnies bota pennas. Infinitos
+louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cr dos voadouros
+vemos que a paralytica nos sae pedrez!
+
+Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
+ordem, porque os ha muitos maiores.
+
+ * * * * *
+
+Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
+coisas ao p das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito zero.
+
+O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenas,
+das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
+balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que no podemos pr em
+duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
+demonstrada por casos de proteo, de conversao e de curas miraculosas_,
+pelo revd. padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
+Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
+exemplos.
+
+Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um boto
+dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
+das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
+emquanto caem e continam a leitura em baixo, traando a perna n'um
+estado do satisfao ineffavel.
+
+O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreio do Var, com um
+escapulario ao pescoo, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
+os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
+illeso. No nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir! disse por
+essa occasio um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
+
+No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lanar ao meio
+das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
+o escapulario encontrou-se intacto. Apenas, diz o padre Huguet na obra
+citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco. (Pag. 17.)
+
+Um soldado na batalha de Novara v cair em torno d'elle todo o
+regimento, elle o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
+acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada brao. (Pag.
+20.)
+
+Um desgraado, querendo suicidar-se, lana-se ao mar quatro vezes
+consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o praia, recusando-se
+obstinadamente a submergil-o. O desgraado recorda-se ento que traz ao
+pescoo um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
+o escapulario em terra. Foi smente com esta condio que o mar se
+resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
+
+Alm de livrar de todos os perigos, sem excepo, durante a vida, o
+escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
+
+O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Colleco dos
+escapularios da Immaculada Conceio, do Rosario, do Carmello, etc._,
+diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
+pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes so
+arrebatadas pelos escapularios. Parece que no ha dia em que um milho
+de diabos no roguem esta praga medonha:--Que ns levemos os
+escapularios!
+
+As approvaes pontificaes de todos os papas, desde Joo XXII at Pio
+IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
+
+O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
+para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
+perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
+arranje a morrer com o escapulario na sexta feira meia noite, podem os
+facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o ho de ver
+por um oculo!
+
+O uso do escapulario extremamente commodo: no obriga a encargos de
+nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
+da confisso e da communho. Tambem no priva o penitente de qualquer
+prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.
+Guglielmi. O essencial no o tirar nunca, nem mesmo _quando
+voluntariamente se vae peccar_: o que mais particularmente prescreve o
+dito padre Guglielmi.
+
+De todos os escapularios o que mais se recommenda eleio dos devotos
+ o do Sagrado Corao de Jesus, porque este escapulario nem sequer
+precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
+seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
+seguinte: Sobre um pequeno retalho de l branca--retalho quadrado ou
+oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
+virtude--applica-se um corao de flanella encarnada, bem talhado e
+cosido a pesponto, de modo que imite a cora de espinhos acompanhada de
+algumas gotas de sangue bordadas a seda. parte, em uma tirinha de panno
+patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripo
+sacramental: _Suspende! Est comigo o corao de Jesus_!
+
+Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
+d'estes escapularios, deital-o ao pescoo e ficar livre, para a vida e
+para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
+alto das torres, atirar-se s voragens do fogo e do mar, e metter-se
+debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, no
+far a _Nao_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
+de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nao_, o mais que faz
+unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
+
+Ha umas tantas coisas que a _Nao_ at devia ter vergonha de as dizer
+... O que a _Nao_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
+esse pescoo, para a _Nao_ ficar ento sabendo o que so milagres!
+Porque a _Nao_ no sabe o que so milagres!
+
+Pr o padre cego a ver e pr a paralytica a andar no passa de uma
+habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
+
+Vir feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
+proposito para fazer perder gente o gosto pelas devoes ...
+
+Emquanto a ns o que a _Nao_ tem o espirito maligno no corpo do
+jornal! Cruzes, demonio!
+
+ * * * * *
+
+Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
+de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
+termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
+satisfao sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
+fadista. O que temos que perguntar : Porque se no prendem os fadistas
+todos?
+
+ * * * * *
+
+Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significao analoga a
+esta--o _fadista_.
+
+Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
+constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
+dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
+feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
+fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
+toda a sua pureza esta raa de bravos de viella, sem officio nem
+beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
+frecheiros com as mulheres, soberbes e insolentes com os mesteiraes e
+com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excurses
+nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
+os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e aoitando
+os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
+adormecidos.
+
+Entre os alludidos fidalgos figurava como gro-mestre da ordem, como
+capito da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmo
+do senhor rei D. Joo V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
+interessantissimo principe, cujas tropelias creram, durante um seculo,
+em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
+conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
+divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
+navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
+mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcanar com
+um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
+seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
+sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
+despegra da verga, que dobra no ar por entre as enxarceas e cara por
+fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
+que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
+que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
+uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
+tarde, com a illuminao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
+com a creao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaas, os
+combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razo
+biologica de que toda a fora organica que se no exerce se elimina, o
+antigo valento plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
+espirito da faanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
+vadiice, e tomou ento o nome de--fadista.
+
+O fadista no trabalha nem possue capitaes que representem uma
+accumulao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da explorao do
+seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
+elle espanca systematicamente. No tem domicilio certo. Habita
+successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
+esquadra da policia. Est inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
+noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. um anemico, um covarde e
+um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito concavo, os braos so
+frageis, as pernas cambadas, as mos finas e pallidas como as das
+mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
+enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
+de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
+guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
+grande navalha de ponta e triplice calo na mola. habitado por uma
+molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
+constituio normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
+um soco. Elle sente isso e traioeiro pelo instincto do inferioridade.
+No ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
+obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
+agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
+No ha seno uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
+bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
+guitarra debaixo do brao substitue n'elle a espada cinta, por meio da
+qual se acamaradavam com a nobreza os pimpes seus ascendentes do seculo
+XVI. pela prenda de guitarrista que elle entra de grra com os
+fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
+Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
+onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
+composto de bacalhau e gros de bico polvilhados de vermelho por uma
+camada de colorau picante. Por effeito da tradio na orientao mental
+da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
+e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
+taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
+alcouces de Alfama, que so levantados bebedos dos becos mal afamados,
+que fallam em calo e que fazem troas no Colete Encarnado e na Perna de
+Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compe-se hoje principalmente de
+jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
+pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educao do
+lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
+mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
+fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
+de pandega. Usa como elles a bota fina de taco apiorrado ou o salto de
+prateleira, a cala estrangulada no joelho e apolainada at o bico do
+p, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapo arremessado para a nuca
+pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
+guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
+desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beio
+pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
+outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplao
+imbecil; o tronco do corpo cado mollemente para cima do quadril; a
+perna encurvada com o bico do p para fra; o _cachucho_ da amante
+reluzindo na mo pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
+mo na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabea alta,
+esticando as cordoveias do pescoo e entoando as melopeias do fado, em
+que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoes religiosas
+ Virgem Maria, com uma voz soluada, quebrada na larynge, acompanhada
+da expresso physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
+miseravel.
+
+De resto o fadista no tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
+meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
+na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
+o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
+convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condies
+especiaes em que ama e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
+restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
+todos os machos.
+
+ * * * * *
+
+ da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
+incorrigiveis da criminalidade.
+
+A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
+recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informaes de um
+inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
+em tres cathegorias. A primeira cathegoria composta de individuos que
+verdadeiramente no deveriam ter entrado nunca na priso. So lanados
+nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
+ou de caracter, a qual no obsta a que elles tenham uma moralidade to
+s como a de qualquer de ns. segunda cathegoria pertencem individuos,
+mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
+immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
+tornarem bons ou maus segundo a direco que recebam. A terceira
+cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, rebelde
+a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
+conselhos. Para estes a cadeia um logar improrio; seria preciso
+confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
+no fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
+inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
+grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado no teria
+seno proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
+presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
+conviria principalmente dar instraco; emquanto aos terceiros o melhor
+expediente seria a morte.
+
+ util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
+
+ ou no da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
+criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
+incorrigibilidade em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
+repetidos?
+
+A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
+
+.
+
+N'este caso pergunta-se:
+
+Pde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
+continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
+uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
+os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
+justia mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
+
+No. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
+que o Estado cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade
+irresponsavel da perversidade individual, no succede o mesmo, e a
+sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que ella que sustenta, ao
+abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
+manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
+
+Dado o fadista, a sociedade no pde certamente evitar o criminoso. A
+sociedade porm pde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
+inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
+instituio concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.
+
+Desde que um cidado deixe de poder explicar unicamente pelos
+supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
+Estado tem o dever de o prender, no para encarcerar mas para coagir ao
+trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
+cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
+
+ * * * * *
+
+O mais perigoso de todos os animaes vadios o homem. Comparado com elle
+o co, ainda quando damnado, pde-se considerar inoffensivo. E todavia a
+policia, que tem para o co que ainda se no damnou as precaues da
+rede e da carroa, no tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
+contagio, seno um expediente repressivo: o de lhe archivar a
+photographia no commisariado geral.
+
+Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
+de garantir a segurana publica: tire o retrato aos ces e deite a rede
+aos fadistas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
+do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legies
+contrarias, arrojram-se encarniadamente uns sobre os outros,
+esmurrram-se, esguedelhram-se, cuspiram-se na face em odes,
+aoitram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
+viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regies
+lombares das musas.
+
+Mysterio sobre as causas que moveram to cra guerra entre duas escolas
+poeticas alis to pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
+ellas existissem: a escola da _Ida Velha_ e a escola da _Ida Nova_!
+
+ * * * * *
+
+Os da Ida Velha dizem que no ha nada como a ida d'elles. E fundam-se
+para isto em que uma ida solida, experimentada, garantida.
+
+O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
+encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
+annos.
+
+Ergueu-a do cho como morta, chuchada, espipada, moda pelas pgadas de
+duas geraes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
+pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
+enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
+inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Ida Velha por uma ponta e
+pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
+lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
+fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
+e levou-a comsigo sociedade, onde a receberam bem. Cercram-a varios
+outros no menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
+que aquelle que a levantra do cho. Andou pelo brao de um e pelo brao
+de outro recebendo declaraes de affecto e dadivas de amor. Mo to
+dedicada quo firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
+Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
+spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, s solemnidades
+publicas, s casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
+agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
+_Grinalda_ e no _Almanach de Lembranas_; dedicou versos Lapa dos
+Esteios, Stoltz e Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
+concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
+s Graas nas notas da verso portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembla
+da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
+_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmram, para lhe serem
+agradaveis, o seu amor lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
+finalmente nas altas regies officiaes. Foi aos paos dos nossos reis!
+De quando em quando observava-se que ella comeava de repente a
+encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fra
+insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
+era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
+fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinio,
+e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo Ida Velha. O
+poder moderador, com a sua real cora na cabea e o seu real manto s
+costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
+Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
+achando-se to chupados e to desfallecidos como a propria ida que eram
+chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
+retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
+as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
+choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
+seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
+tinham tido a honra de bufar mesma ida e pelo mesmo canudo que
+servira primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
+estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembla da
+Galocha e os empregados publicos do Gremio no o permitiam, e torcendo
+altivamente o bico das peras, diziam que a Ida se no se podia pr
+merc da populaa infrene e ignara. Vivendo assim custa do sopro dos
+poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
+conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
+Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
+Ida, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
+entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoo a
+condecorao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
+ajoelhou-se-lhe aos ps e propoz-lhe leval-a s aras de Hymenen; ella
+porm, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
+exclusiva do vate. Este, de pura dr, pregou na parede um prego e
+suspendeu n'elle, por um lao de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
+
+Nos ultimos annos a Ida Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
+communicao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
+Algumas pessoas devotas tinham-lhe j resado por alma. Soube-se agora,
+com grande satisfao dos que a conheceram no galarim, que a Ida Velha
+ainda est viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
+onde no ha outra ida de dentro para o servio da familia.
+
+ * * * * *
+
+Os da Ida Nova teem esta falha notavel: suppem que a Ida velha
+vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
+que prepondera nos destinos do mundo, E vem-se moos honestos e
+engraados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
+pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
+se fosse uma fora da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
+ha meio seculo no passa do um artificio convencional e de uma
+superfetao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
+nenhum dos interesses do espirito ou do corao do homem no tempo
+presente.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_O Primo Bazilio_, novo romance de Ea de Queiroz, um phenomeno
+artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
+obra preciso discriminar o que n'ella pertence jurisdico da arte e
+o que pertence aos dominios da pathologia social.
+
+ * * * * *
+
+Eis a doena que este livro accusa:--A dissoluo dos costumes
+burguezes.
+
+O mais caracteristico symptoma d'esse mal a falsa educao. A educao
+burgueza tem um defeito fundamental: mantm na mulher a mais terrivel, a
+mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
+No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
+apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
+ver porqu.
+
+Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
+desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
+representao da vida exterior e o systema da vida intima.
+
+Basta olhar de fra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
+do templo para se fazer uma ida do que pde ser dentro o culto d'essa
+religio--a familia!
+
+Comparem-se as nossas edificaes urbanas, os casares da
+baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
+asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
+a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
+graciosas construces arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
+com o seu claustro interior, o poo de marmore ao centro do pateo, as
+galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
+pequeno jardim, que o corao da casa. Comparem-se com as sabias
+edificaes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
+Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
+predios do bairro central de Lisboa ao p dos novos predios de esquina
+de rua no Hanover. As novas casas allems no stylo gothico francez,
+modificado segundo as exigencias da civilisao moderna, so obras
+primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehenso da hygiene, da
+moral, da estetica; so verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
+systema de educao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cres,
+branca, cr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraos
+cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
+cantam os passaros, de balces em que desabrocham as flores sempre
+frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
+outros tantos ramalhetes, so interiormente distribuidos do modo mais
+elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
+nobres prazeres da familia. A disposio mais escrupulosamente estudada
+do salo, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
+todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
+luz e bom ar, permitte s mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
+activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
+
+As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
+parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
+verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguo sombrio e infecto,
+com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogo por baixo
+das caarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
+rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
+queimada, so os sepulchros da saude e da alegria.
+
+ n'essa serie de prateleiras, de gavetes de familias, que se chamam os
+_Arruamentos da Baixa_, que educada a lisboeta.
+
+Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
+recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observao:
+
+Noto um facto que me enche de perturbao e de horror--n'esta cidade
+no ha creanas.
+
+Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
+bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
+balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cr de palha,
+desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
+musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
+musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
+ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
+largo de Cames, da praa das Flores, do Aterro: l encontramos
+effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas no
+encontramos uma unica creana, a cuja saude sua me se tivesse
+sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espao de tempo a sua
+preoccupao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
+com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
+seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
+fresco.
+
+Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
+frequentam as lojas ou fazem visitas, onde que esto as creanas? As
+creana esto dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
+proposito. Tomar proposito_ uma locuo essencialmente local e
+intraduzivel, que quer dizer: aprender a no saber andar, a no saber
+rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
+instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
+menina s principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
+indispensavel para no tagarellar imprudentemente, para no contar que
+houve favas para o jantar ou que o pap ralhou com a mam. Haver favas
+para o jantar e ralharem o pap e a mam de resto tudo ou quasi tudo
+quanto se passa em casa, porque no ha interesses de espirito, nem ha
+instructivas occupaes praticas. Falta o jardim, a grande escola da
+infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
+e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
+flores. Tambem no ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
+jornal e os romances das traduces baratas. Nenhuma especie de estudo.
+Nenhuma applicao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
+da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
+aprende o francez e o inglez. Esta educao completa-se em casa
+ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educao so
+appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
+linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salo tocado no piano
+diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
+funco sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
+suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
+jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
+Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. No leu ou
+no entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
+Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
+
+No a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
+completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
+phenomenos.
+
+No a distraem os interessantes cuidados do _mnage_, porque da casa,
+assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
+nenhumas noes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
+das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
+actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, to
+moralisadores e to attractivos, teem para ella o caracter de um mister
+gnobil, desprezvel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
+essencia da cozinha nacional, discrio de uma criadagem vill, que
+retribue o desprezo de que objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
+casa o que ella sabe unicamente que ha duas ou tres salas de apparato
+que se mostram s pessoas de fra; um quarto mais ou menos infecto, uma
+possilgueirinha mobilada pelo Gard, em que ella dorme at s dez ou
+onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que d
+respostadas; e uma latrina contendo um fogo em que por meio de varias
+borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
+
+Na religio ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
+a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
+elegantes: as romagens fonte de Lourdes; a orao em frente da gruta
+no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
+de Roma; a contrico aos ps do summo pontifice, coberta de renda
+preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
+do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
+orgos soluam e o sol coado pelas vidraas coloridas se espelha nas
+couraas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
+desembainhadas. Presta ainda bastante considerao s interessantes
+ceremonias da elegante religio nacional, como a do Mez de Maria na
+bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas aucenas, fresquinha
+e graciosa, similhante a uma _bombonire_, ou como a da Semana Santa nos
+Inglezinhos, a cuja _petite entre_ destinada aos intimos rodam os
+_coups_ magnificos da piedade escolhida.
+
+Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
+seu _bnitier_ barato; pelo Deus da procisso do Carmo e da procisso da
+Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
+arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
+tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella no tem seno duvida ou
+desdem.
+
+Na moral as suas convices baseiam-se em uma serie de principios
+theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
+contradictoria de interesses praticos, tirando esta concluso: que o
+dever consiste na mais habil combinao que se possa fazer d'essas
+theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
+resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
+sociedades corruptas:--o socego.
+
+Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto , principia a
+ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
+os homens. Percebe ento vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
+regio social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
+do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
+raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
+da _toilette_; com uma cabea ca; n'um quarto que no cheira bem; tendo
+um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balco, que pensa pela
+cabea de um jornal barato e mal feito, e uma me que se enfastia
+medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
+cntra o destroo dos annos e contra o preo crescente dos generos
+alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
+aguadeiro, ralhando com o marido.
+
+Principia ento a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
+domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
+quarto sem tradies, sem historia, como o de uma estalagem; o saguo
+infecto, onde zumbem no vero as grandes moscas gordas e pesadas; a
+cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
+caarolas gordurosas e as louas esbotenadas; a sala pretenciosa e
+inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
+arabes defronte do sof, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
+retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
+de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordo no
+meio dos cortinados.
+
+Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinco
+decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
+similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
+Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
+nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
+ sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
+mais simples, mais triviaes, e para se dar um aspecto superior, para
+se encobrir do que , que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
+a respeito dos criados que no tem, das visitas que no faz, da opera
+que no viu, dos livros que no l, da modista a que no vae, dos banhos
+que no toma, dos jantares que no come, das dignidades, das distinces
+ou do luxo que no usa.
+
+Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
+romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas no
+lhe sae o que quer: no sabe organisar aprazivelmente a casa, no sabe
+tornar encantadora a familia.
+
+Humilhada, infeliz, comea a descoroar a pouco e pouco da sua
+predestinao superior. Sente que ha na sua constituio moral uma falha
+da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiraes.
+No se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
+serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que o resultado da
+perfeita educao.
+
+Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
+superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conhea o facil
+processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cair com uma
+simplicidade tragica.
+
+O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condies, o
+dandy. Porque o dandysmo a unica frma sob a qual a distinco se lhe
+apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
+pensamentos ter para ella menos seduces do que uma cabea bem
+penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
+uma fina risca cr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
+espirito, nenhuma delicadeza de corao, nenhuma virtude de caracter
+exercer sobre a imaginaoo d'ella a fascinao com que a subjuga a
+alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
+seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, ser
+aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
+jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
+se calar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
+desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
+segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
+mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
+_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
+
+Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
+refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
+tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
+Frana, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando s penetrantes
+essencias de Lubin e febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
+um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos ps d'ella, para lhe dizer
+obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia s outras,
+_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
+suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
+seu joelho desformado pela falta de circulao proveniente de um defeito
+caracteristico da sua raa, o defeito de no saber atar as ligas; apezar
+ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
+espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
+do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
+nacional ... Se, apezar de tudo isso, to desdenhoso, to frio, to
+gloriosamente corrupto, traando a perna, descobrindo desleixadamente as
+suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
+encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
+attenciosa e benevola as scintillaes do seu correcto _plastron_ de
+Poole, e as exhalaes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
+cabello frisado Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte no
+saber negar.
+
+ * * * * *
+
+Tal o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
+medonho, tragico, sobre o qual Ea de Queiroz escreveu _O Primo
+Bazilio_, romance realista.
+
+Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convico social, e
+esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo no tinha
+seno convices esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
+espirito da sociedade que fez a Revoluo, que caiu no Imperio, que
+supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros no pediam arte de
+1830 seno uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas ento
+cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
+de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradies
+gothicas da edade media e fizeram uma restaurao litteraria e burgueza
+da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipao
+da forma mais profunda indifferena pela questes sociaes do seu tempo.
+Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
+atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
+phylanthropos.
+
+A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. uma
+sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
+pontos da sua peripheria at as mais reconditas intimidades do seu ser.
+Esta reconstituio no se est fazendo empyricamente pela revoluo ou
+pela sentimentalidade, est-se fazendo scientificamente pela
+convergencia harmonica de todos os esforos intellectuaes sobre o mesmo
+problema. Comprehendeu-se que so solidarios todos os estudos, os do
+mundo inorganico e os do mundo organico; que so correlativas todas as
+leis desde a da indestructibilidade da materia at a da evoluo social;
+que finalmente se no pde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
+phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
+integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle o elo que
+prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
+
+N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga to estreita,
+que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
+dos ramos da sciencia se reflecte na direco de todo o trabalho mental
+em qualquer das suas manifestaes, dando por exemplo a theoria
+zoologica da adaptao ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
+dizemos, a arte no pde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
+trinta annos. Esse papel -lhe imposto fatalmente pela nova orientao
+mental da sociedade. A arte moderna no pde j hoje basear-se em
+risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
+e para que tenha a importancia de um agente da civilisao, em factos de
+caracter scientifico, isto : em factos que sejam a funco de leis
+sociologicas. Queremos factos, no queremos exclamaes: _Res non
+verba_.
+
+Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepo litteral, que
+se tirou a designao _realismo_.
+
+Chamar realismo ao que puramente grosseiro, ao que descarado, ao que
+ torpe, calumniar o dogma. Uma obra de arte pde conter o maximo
+numero de torpezas e de obscenidades e no deixar por isso de ser
+simplesmente lyrica.
+
+O _Primo Basilio_ um romance realista porque a representao de um
+facto social visto atravez de uma convico scientifica. Luiza, a amante
+do primo Basilio, a personificao tremenda da tendencia morbida de
+uma epoca. E n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
+Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
+dos livros no premio que n'elles se concedia virtude e no castigo com
+que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
+afflictiva um facto accessorio, que no conteria seno esta moral
+negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
+morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
+cartas.
+
+A moral d'este livro no est em que a prima de Basilio morre depois da
+queda; est em que ella--_no podia deixar de cair_.
+
+Reconhecemos que esta moral pouco accessivel maior parte das
+comprehenses. Esse o grande mal do livro, ou antes esse o grande
+mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppe um
+estado de civilisao artistica e litteraria superior que existe na
+sociedade portugueza. Suppe manifestaes parallelas nas applicaes da
+philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construces, na
+hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituies, na
+critica dos costumes, na propria critica da arte.
+
+Ora essas manifestaes no existem por emquanto n'um estado de
+vulgarisao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
+dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
+_Primo Basilio_. A sociedade portugueza no comprehendeu ainda de um
+modo collectivo e solidario, que urgentemente indispensavel por todas
+as manifestaes do pensamento proceder reconstituio da educao
+burgueza.
+
+De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, mulher nossa
+contemporanea: Eis--aqui est o modo pavorosamente simples como tu te
+rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens,--parece um
+insulto quellas que so as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
+companheiras de trabalho, as nossas mes, as nossas irms, as nossas
+filhas. Essa affirmao, porm, deixaria de ter um caracter
+apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
+
+Eu no sou um homem isolado no meio da sociedade a que perteno. Sou
+uma parte d'essa legio de trabalhadores dedicados, profundamente
+honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
+ambio heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
+minha qualidade de artista, a ti mulher que me ls, o mais que eu posso
+fazer commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
+problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
+com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
+romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
+alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereo-t'o eu tal como
+elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
+asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
+meio forado das gals, friamente calculador, sovina, absolutamente
+pdre. E esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
+em preconceito, de erro em erro, s trazida, atravez de todos os
+elementos que constituem a falsa educao que te deram, a admirar e a
+proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
+perteno ha uma religio, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
+um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
+convergentemente estaro n'este momento--no momento em que eu tenho a
+concepo artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
+influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
+amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehenso nova, assento
+em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. religio
+compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
+demittir-se da soluo do teu problema. politica, emprehender a
+reforma das instituies em vista do teu aperfeioamente. moral,
+fazer-te comprehender a noo da justia. sciencia, o determinar com a
+maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
+applicao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. critica,
+finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porm, no me competia
+como artista seno uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
+these, fazel-a viver na maxima elevao esthetica: porque meio? por meio
+da mais perfeita frma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.
+
+Se com a natureza essencialmente artistica de Ea do Queiroz fosse
+compativel a humildade de uma explicao n'essas bases, o seu livro
+teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
+artista tem a obrigao de se no explicar,--o que seria invadir uma
+funco alheia na justa diviso do trabalho intellectual moderno. Ha um
+gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
+religio do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
+como o philosopho deve ser indifferente theologia, o artista deve ser
+indifferente opinio. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
+se por um lado a condio essencial da sua misso perante a pura arte
+e perante a pura philosophia, por outro lado ella a principal causa de
+ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
+a comprehenso dos espiritos e a satisfao das consciencias.
+
+Taes foram as razes porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
+_Primo Bazilio_,--uma to perfeita obra, que a consideramos como sendo
+uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
+gloriar uma litteratura--ns fizemos esta prophecia: Que este livro
+seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados
+observao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
+biologia, instrumentos inuteis--s vezes perigosos--para todo aquelle
+que no tem a sciencia de os pr em exercicio e de ver por elles a
+divina revelao de um novo mundo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
+Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
+
+Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
+de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
+desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
+exclamou:--Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta!
+
+ * * * * *
+
+O _Diario Illustrado_ no ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
+Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
+_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._
+
+Ora este caso no se pde deixar assim envolvido na duvida. So
+historicas as palavras do sr. Sampaio ou so puramente uma legenda das
+montanhas, inventada pela imaginao supersticiosa dos pastores dos
+carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
+de Tarbes? Pde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
+a authenticidade d'aquellas expresses? Foi effectivamente o sr. Sampaio
+que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
+No seria antes algum dos outros heroes j celebres na historia da
+cordilheira dos Pyreneus? No seria o paladino Rolando, sobrinho de
+Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
+Durindana na batalha de Roncesvalles? No seria o proprio Carlos Magno?
+No seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
+Champagne? No seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
+da belleza da paizagem, entre os valles de Barges e de Bagnre?
+
+Est o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
+tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabea do
+sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
+quem, depois de jantar, janella da hospedaria, palitando talvez os
+dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
+dizeres?
+
+Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.
+
+Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
+effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem asss
+convicto em suas crenas, asss profundo em suas vistas e asss firme em
+suas resolues, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
+jantar:--_Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
+phrase no uma fico, se ella existe realmente fra do estado
+abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz no pde cruzar
+os braos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra to lucida como a
+que o _Illustrado_ cita marcou a differena, toda favoravel nossa
+patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
+ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
+seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
+especial:
+
+1. Rir atraz da procisso dos Passos.
+
+2. Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
+viajante.
+
+3. No ter dado pateada a um lente.
+
+4. Parecer constrangido a dar lio.
+
+5. Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+Os alumos condemnados pela perpetrao dos delictos 1, 2, 3 e 4
+appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
+expulso temporaria em alguns dias de cadeia.
+
+Procedendo d'essa forma o Poder Moderador no tomou em consideraoa
+necessidade de fazer proceder reviso da legislao academica. O Poder
+teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sano dos regulamentos
+universitarios s familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
+mostrou ter um corao do excellente rapaz alliado a um cerebro de
+legislador mediocre.
+
+ * * * * *
+
+Est pendente da confirmao regia, segundo nos consta, a pena imposta
+aos reus do crime n. 5, julgados j segundo o direito commum e
+absolvidos pelos tribunaes civis.
+
+N'esta conjunctura perguntamos:
+
+ admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
+de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidados de
+uma certa classe estejam sujeitos por uma legislao especial a serem
+julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punies em vez de
+uma, se as duas sentenas forem conformes; ou sendo simultaneamente
+tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenas forem
+contrarias?
+
+Responder-nos-ho que o tribunal academico julga de circumstancias
+especiaes que no so submettidas apreciao dos tribunaes ordinarios?
+
+Mas n'esse caso o tribunal academico com relao ao crime de que se
+trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
+
+Como tribunal escolar Universidade cabe apenas decidir se o facto de
+sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lio.
+
+Com tribunal de honra a Universidade precisa de no perder de vista que
+quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontaps, o deshonrado
+no propriamente quem os d, por via de regra quem os recebe.
+
+Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questes
+d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltres e de
+covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
+que ainda possa haver na mocidade portugueza.
+
+Todo o homem que se no acha devidamente temperado na sua natureza
+physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
+com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, um homem
+corromido, sem o sentimento do respeito devido dignidde da sua
+especie, atreito s paixes mesquinhas, com manhas de reptil.
+
+ * * * * *
+
+Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
+sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
+systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
+honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaas da
+fora alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
+
+Se porm a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
+cidados, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
+sempre da instaurao de processos ridiculamente pueris, requerendo das
+crtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
+atrophiar no corao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
+naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
+velha troa academica por meio da instituio de exercicios viris,
+proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
+escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.
+
+
+ * * * * *
+
+
+No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
+Deus segundo Taine um personagem official com os seus cortezos e os
+seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
+Providencia n'um discurso da cora o chefe do estado fez novo discurso
+para prehencher essa omisso,--na velha, na religiosa, na solemne
+Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocuo
+presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
+seguintes:
+
+Dir-me-ho que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
+das religies e comprehendendo os dogmas da theologia e a crena no
+livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
+fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
+perverso sem esperana, o corao do homem, dir-me-ho que se fossem
+abolidas as sances theologicas a raa inteira se modelaria por alguns
+exemplos de depravao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladres e
+assassinos. Porque s o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
+medo, no conheceriamos mais do que o instincto natural e
+desconheceriamos o dever.
+
+Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
+concluses. O scelerado no em minha opinio a imagem da humanidade.
+_Bebamos e comamos porque temos de morrer manh_ no a consequencia
+ethica da regeio dos dogmas.
+
+As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos so taes que nenhum
+christo se envergonharia de as professar, e nenhum christo as censura
+seno desde que conhece a origem de que ellas procedem.
+
+Reconheo de todo o corao e sou o primeiro a admirar a irradiao
+espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religio produz na vida de
+varias pessoas que conheo. Mas no posso tambem deixar de confessar que
+muitas vezes a relligio passa por estrondosas derrotas ao procurar
+produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeo da religio
+frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenas
+procedem de distinces primordiaes de caracter que a religio
+insufficiente para nivelar.
+
+D uma verdadeira satisfao o sabermos que existam no nosso gremio
+homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
+e cuja vida, no obstante, experimentada na pedra de toque de uma
+moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
+d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designao offensiva.
+
+Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
+aquelles termos, no que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
+comparados a muitas noes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
+em si um caracter offensivo.
+
+Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel
+sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
+eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
+cidado justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
+atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido to firmes na
+morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles no esperavam a cora
+celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram to
+zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
+emprego dos seus ultimos momentos.
+
+Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
+ christo, o outro no.
+
+O christo Faraday, que Tindal considera um modelo da associao da f
+religiosa com a elevao moral. O seu caracter o mais proximo da
+perfeio. A religio era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolao
+dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
+peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
+comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
+delicada flor da cavalleria.
+
+O que no christo chama-se Darwin. No tem o ponto de vista
+theologico nem a commoo religiosa que constituiam um to poderoso
+agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeio moral de
+Faraday. O sr. Darwin, diz Tyndal, uma natureza candida e simples, um
+caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
+ o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador to docil s ordens da
+verdade como o patriarcha antigo s ordens do seu Deus.
+
+ * * * * *
+
+Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
+verdade, de justia e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
+de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
+exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente cultura da
+intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
+moral independente de toda a especulao theologica. Que fecunda these
+para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
+presente dos espiritos, em que as convices do homem esto geralmente
+em contradio com as crenas da esposa e da filha, e em que to
+necessario se torna portanto harmonia moral da familia o principio
+fundamental da conciliao das consciencias!
+
+ * * * * *
+
+Na reunio do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
+mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
+Haute-Sane, expe com uma conciso profundamente lucida as causas que
+determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
+tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
+escravisados pelos poderes clericaes.
+
+Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
+aos esforos do obreiro comea lentamente a operar-se: os trigos
+crescem. Crescem em virtude de que lei?
+
+Tal a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
+respondem aquelles que so encarregados de o instruir e de o educar. A
+noo que elle recebe cerca do modo como o trigo cresce torna-o
+fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
+embair. Qual o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio
+ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
+operario acrescenta:
+
+Faz-se geralmente crr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
+desenvolvem em resultado de uma fora cuja paternidade vem de Isis, ou
+de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
+crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora o deus de
+Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
+amadurecer nas mesmas condies em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
+dos successivos templos e das successivas religies em nada tem alterado
+as leis da natureza. E todavia d-se por toda a parte o mesmo estado de
+coisas: O indio cr que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
+v nos seus o grande Todo. Em outros sitios Budha. Para os gregos e
+para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia o grande Lama. Na
+Africa a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
+
+Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporaes de
+sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
+Respondeis-me que impossivel. effectivamente impossivel, o que de
+certo uma desgraa! Esse porm o facto historico, que no podemos
+deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
+sobre as questes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
+geraes.
+
+ a guerra, a guerra de religies. tempo de lhe pr um termo.
+tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
+legislao humana e a moral universal.
+
+ * * * * *
+
+Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
+do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestes de idas e de
+principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
+Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
+convices de sciencia ou de simples bom senso so consideradas
+perigosas e banidas das discusses publicas.
+
+Debalde a historia da civilisao ingleza n'este seculo nos demonstra
+que a tolerancia absoluta na manifestao do pensamento a primeira
+garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
+das idas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
+evitando assim que a orbita das applicaes praticas seja invadida pelos
+principios que no foram d'ante mo sanccionadas na opinio e pelas
+reformas que ella no exigiu em nome de novas necessidades provenientes
+de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal o
+methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbaes graves
+que a impaciencia dos reformadores, no experimentada na pedra de toque
+de uma discusso liberrima, lanou na vida pratica de outras naes,
+como succedeu em Frana depois do segundo imperio, que corrompia todos
+os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
+esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
+
+Em Portugal essa importante lio tem sido absolutamente esteril.
+
+Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
+mostraram uma ligeira tendencia para produzir idas, o governo sem
+nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
+
+Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
+manifestar posthumamente as suas idas solicitando para os seus
+cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
+todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
+vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
+morto.
+
+Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
+expem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
+physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
+facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepes
+theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
+a impunidade d'esses professores, dizemos, no se deve attribuir
+tolerancia philosophica do poder. Ella simplesmente o
+resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos servios
+publicos.
+
+Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
+professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
+vergonhosos e mais crassos alheios doutrina dos programmas. Ha lentes
+que esto acima da lei pela mesma razo que ha outros que esto abaixo
+d'ella:--por falta de inspeco e de policia.
+
+Um facto recente d-nos a prova mais cabal de que o estado no
+solidario nos progressos scientificos da nao, e que estes se operam
+no sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
+intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
+armam.
+
+Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
+dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruco primaria!
+
+Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
+mais moos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
+
+_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sesso, publicado do
+_Jornal do Commercio_), _no adversario do desenvolvimento da
+instruco primaria, porque no deseja que continue a subsistir o estudo
+de ignorancia do nosso povo, onde a proporo dos que sabem ler de 1
+para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., de 1 para 6.
+Mas no deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
+Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
+tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
+proprio. Pde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
+e temente a Deus, que no queira mandar o seu filho a uma escola cujo
+mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
+maiores glorias, embora a instruco estivesse pouco diffundida, a nao
+portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; no pretende dizer com
+isto que deixe de se derramar a instruco, porque tambem apostolo
+d'esta ida, mas quer que essa instruco seja ao mesmo tempo moral e
+religiosa._
+
+A affirmativa de que a nao portugueza attingiu um alto grau de
+prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instruco
+estivesse pouco diffundida_, um erro de historia que o nobre conde
+quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
+no pelo excesso de instruco em s.ex. que a gloria e a prosperidade
+deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior no podia realmente
+ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
+portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
+foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
+
+Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
+quer achar a differena que distingue esse tempo do tempo actual,
+compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragana.
+
+D. Joo I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
+litterato. Teve a honra de hospedar na sua crte o grande pintor
+Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle s
+para formar a educao esthetica de um povo do que dez universidades e
+vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
+artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
+Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da crte
+portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
+em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
+vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
+
+Dos filhos de D. Joo I um o infante D. Duarte, o creador da primeira
+bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
+Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
+partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
+mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
+Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Ferno Lopes. O
+ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
+navegaes, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
+mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
+sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal o
+senhor D. Augusto, conhecido de todos ns por o termos visto passar no
+Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
+hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
+nacional, que o acompanhram e que fizeram grande impresso na City,
+onde os tomram por duas vaccas sem pernas. Eram os bas de sua alteza,
+feitos na rua dos Correeiros.
+
+Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
+Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhes, Diogo Co, Pedro da Covilh,
+Gaspar Crte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
+exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
+Henrique e seus irmos souberam attrair a Portugal, que procederam
+escriptores como Ferno Lopes, Gomes Annes de Azurra, Gil Vicente, Joo
+de Barros, Damio de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Cames, talvez o
+mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
+hoje, a no ser por influencia de alguns professores precitos e
+apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
+official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
+que vo para administradores de concelho ou para amanuenses de
+secretaria.
+
+No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
+instruido. certo que no sabia ler. Mas saber ler no constitue
+propriamente instruco, mas sim um dos meios de instruco. Ora o povo
+dispunha ento de outros meios superiores leitura. O marinheiro e o
+soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
+confeco das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
+Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
+de ento no sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
+fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
+tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
+mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pde gloriar a
+litteratura de uma nao.
+
+A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
+instruco! E conclue d'esse absurdo que um povo pde attingir a
+prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
+accumuladas contradies do seu texto, em que s. ex. ora apostolo da
+instruco, ora apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
+seria apenas inoffensivo. S. ex., porm, conclue a sua notavel falla
+mandando para a mesa o seguinte additamento lei que se estava
+discutindo:
+
+_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
+ensinar ou inculcar doutrinas contrarias religio catholica, moral,
+ liberdade e independencia patria ser demittido nos termos d'este
+artigo, independente da aco criminal que deva ser intentada. Os paes,
+tutores ou pessoas encarregadas da sustentao e educao das creanas
+podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
+professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.
+
+Eis ahi o que se no admitte, porque esta disposio legislativa
+proposta por s. ex. produz a fixao legal dos seus principios a
+respeito da instruco, isto : que deve haver instruco e ao mesmo
+tempo que a no deve haver. No outra coisa seno eliminar a
+instruco, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
+de processo e demisso immediata do professor, aos principios da
+religio catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um to
+profundo abysmo entre a concepo theologica e a explicao scientifica
+dos phenomenos do universo, que toda a conciliao hoje impossivel
+entre o mestre e o padre. No duvidamos que o christianismo possa ainda
+reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
+e definitivas conquistas do entendimento humano. O que certo porm
+que a direco reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
+desde a Reforma at hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
+aspirao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
+sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
+interesses oppostos impossivel. Pedimos licena ao sr. conde do Rio
+Maior para lh'o provar.
+
+Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que o diluvio
+universal, que lhe pergunta qual a idade da terra, que lhe pergunta o
+que o homem pre-historico, o que so as florestas carboniferas, o que
+ o arco-iris, o que o pra-raios, o que transformao das especies,
+o que a Torre de Babel, o que o Eden; supponhamos que o alumno faz
+ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
+formular cerca das affirmaes da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
+A essas perguntas o mestre no pde responder seno com o erro ou com a
+heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptram a sua
+emenda lei da reforma da instruco portugueza desejam que o mestre
+responda pelo erro.
+
+Mas isto peior do que pr de parte a sciencia; isto , recebel-a para
+a contradizer e para a destruir; isto converter a ignorancia publica
+em uma instituio do Estado.
+
+Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, luz de uma
+lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
+disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
+apagou-lhe a lanterna.
+
+Quem foi que deixou no mundo esta lio?
+
+Foi o theologo.
+
+Um povo ignorante um povo em trevas, cuja lanterna a instruco. O
+legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz o sr. conde
+de Rio Maior.
+
+ * * * * *
+
+Notemos porm um facto consolador:
+
+O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
+sensivel diminuio de fora. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
+de um velho sangue que se decompe e se dessora. A ida que elle tem no
+cerebro uma ida que se extingue.
+
+Ha cem annos s. ex. teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
+para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demisso
+do professor e o processo pelos tribunaes civis.
+
+Inclinemo-nos diante de to manifesta mansido!
+
+Nos fins do seculo XVI o _pendo da santa doutrina_, um lugubre pendo
+negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
+fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era ento o professor idealisado
+pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
+argumentando a doutrina christ a este povo. Todas as mulheres e todas
+as creanas saiam s portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos ps do
+tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
+amortalhada de negro, de cruz alada, tangendo uma campainha, como quem
+leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
+pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
+tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
+methodos porque se mortificam os impetos da carne.
+
+Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
+os estudantes missa, do que colhiam nas sacristias uma certido sobre
+a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
+
+Hoje a parte disciplinar da nossa educao religiosa caiu com o pendo
+negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinria, resta apenas a
+cartilha de Padre Mestre Ignacio.
+
+E sobre essa cartilha solitria, em torno da qual caram dissolvidas a
+uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
+instituio civil, sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
+sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
+portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
+ensino publico de uma nao!
+
+ * * * * *
+
+Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ no cessam de elevar
+aos cus em todas as manhs e em todas as tardes:
+
+_Meu Deus, tornae ridculos os nossos inimigos!_
+
+O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
+instruco indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
+orao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
+_Farpas_, um crio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
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+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
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+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
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+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
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+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+particular state visit https://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+works.
+
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+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
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+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
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+
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@@ -0,0 +1,2527 @@
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+by Ramalho Ortigo--Ea De Queiroz.</title>
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+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+
+Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+Release Date: August 2, 2004 [EBook #13093]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div class="centered">
+ <img src="images/devil.png" width="570" height="755"
+ alt="Ea de Queiroz&mdash;Ramalho Ortigo&mdash;As Farpas" />
+ <!--IMAGE END-->
+</div>
+<hr class="major" /><!--=====================-->
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGO&mdash;EA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CHRONICA MENSAL</p>
+ <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>TERCEIRA SERIE&mdash;TOMO II</p>
+ <p>Fevereiro a Maio 1878</p>
+</div>
+
+<hr class="major" /><!--=====================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
+ da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
+ universo, e da adorao de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+
+<hr class="major" /><!--=====================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+
+<p>
+ <a href="#leisorganicas" >Leis organicas</a>
+ das sociedades e disposies regulamentares dos estados:
+ de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanco penal. O
+ caso da sr. D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos&mdash;A
+ <a href="#gymnastica" >gymnastica</a>
+ perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
+ Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituio da
+ raa humana pela gymnastica. Reconstituio da ideias parlamentares pela
+ mesma gymnastica. Indicao de alguns exercicios para uso dos dignos
+ pares&mdash;O ultimo
+ <a href="#lourdes" >milagre de Lourdes</a>
+ e a <i>Nao</i>. Mostra-se que o milagre
+ no presta. Ensina-se <i>Nao</i> o que so milagres e prova-se-lhe que
+ ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar&mdash;A
+ criminalidade em Lisboa e o
+ <a href="#fadista" ><i>fadista</i></a>.
+ Historia genealogica d'esse
+ personagem desde o seculo XVI at a ultima facada no Bairro Alto&mdash;A
+ <a href="#velhanova" >ideia velha e a ideia nova</a>.&mdash;Uma
+ <a href="#tyndal" >opinio de Tyndal</a> cerca dos atheus.
+ Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin cerca das rases porque crescem
+ os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
+ da instruco primaria mostrou no ser aquelle philosopho nem aquelle
+ carpinteiro&mdash;
+ <a href="#oprimobazilio" >O <i>Primo Bazilio</i></a>.
+ O caso pathologico e a obra d'arte. A
+ educao burgueza e o realismo&mdash;A
+ <a href="#escolanacional" >escola nacional dos poltres</a>. A
+ covardia, instituio publica, etc.
+</p>
+<hr class="major" id="leisorganicas"/><!--=====================-->
+<p>
+ Tdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
+ pertencendo a duas classes distinctas:
+</p>
+<p>
+ 1. Crimes resultantes da infraco das leis organicas da sociedade;
+</p>
+<p>
+ 2. Crimes resultantes da infraco das disposies regulamentares dos
+ Estados.
+</p>
+<p>
+ Emquanto as sociedades se no acham constituidas segundo o direito
+ absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
+ isto , emquanto as sociedades no attingem um desenvolvimento
+ intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
+ organisao, distinguindo o que n'ellas difinitivo e organico do que
+ convencional e contingente,&mdash;n'essas sociedades no podem dar-se seno
+ os crimes da segunda d'aquellas classes. assim que vemos nas
+ civilisaes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
+ ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
+ communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
+</p>
+<p>
+ Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entrram no
+ periodo scientifico da sua evoluo moral, como presentemente succede em
+ toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
+ tomram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
+ nos referimos, porque se comprehendeu que elles no violam unicamente um
+ regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
+ vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregao que constitue o grande ser
+ collectivo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A sabedoria da legislao penal manifesta-se na mais justa e perfeita
+ demarcao dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
+</p>
+<p>
+ Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
+ repressivos da infraco das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
+ punio imposta contraveno dos seus estatutos regulamentares,
+ distinguindo graduaes na culpa segundo a importancia dos interesses
+ feridos pela perpetrao do delicto.
+</p>
+<p>
+ em virtude d'este criterio que so punidos com severidade,
+ unanimemente exigida pela opinio, os attentados contra o interesse do
+ commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
+ interesses so considerados os mais importantes das sociedades modernas;
+ ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
+ pela razo de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
+ arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
+ conseguinte a civilisao rejeita como um acto de prepotencia e de
+ vingana.
+</p>
+<p>
+ Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
+ forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
+ muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
+ politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: So mais do que
+ crimes, so verdadeiros erros!
+</p>
+<p>
+ Posto isto, vejamos qual o estado da mentalidade portugueza afferido
+ pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e s respectivas
+ sances penaes.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
+ Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
+</p>
+<p>
+ No caso de Joanna Pereira vemos tres ros confessos e convictos de tres
+ crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
+ meio da chlorophormisao; o carroceiro, da remoo de um cadaver; todos
+ tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
+</p>
+<p>
+ Como procede a sociedade? No tomando conhecimento de nenhum d'estes
+ attentados e despedindo os reos em paz!
+</p>
+<p>
+ No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo accusado de ter
+ falsificado uma certido de edade para o fim de salvar um mancebo do
+ recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
+ oito annos de degredo para a costa ds Africa!
+</p>
+<p>
+ O primeiro caso um triplice attentado contra a ordem social. A
+ sociedade no s o no pune mas nem sequer o julga.
+</p>
+<p>
+ O segundo uma contraveno de um regulamento administrativo. A
+ sociedade no s o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ No analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
+ co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
+ o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnao d'este uma
+ iniquiedade monstruosa.
+</p>
+<p>
+ O crime do que accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
+ oito annos de degredo, crime unicamente perante a letra de um
+ regulamento de caracter no s transitorio mas arbitrario&mdash;o regulamento
+ do servio militar.
+</p>
+<p>
+ O parocho foi condemnado por tentar salvar do servio um recruta.
+ Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, s pde involver
+ inteno criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
+ Viciar a data de uma letra ou de um contrato indubitavelmente um grave
+ crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
+ da propriedade. Mas alterar a data de uma certido de baptismo, para o
+ facto de isemptar do servio militar um cidado, no offender um
+ interesse social; o contrario d'isso: servir o interesse que todas
+ as sociedades teem em que deixe de haver militares.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
+ punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
+ estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
+ analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios
+ civilisao e humanidade. Daria em resultado a eliminao do
+ militarismo e da guerra.
+</p>
+<p>
+ Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores no foram
+ punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
+ ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
+</p>
+<p>
+ Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
+ vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
+ mortos.
+</p>
+<p>
+ Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
+ todos os seus dramas: <i>Resistia-me, chlorophormisei-a!</i>
+</p>
+<p>
+ Finalmente, para o facto da seleco da especie, os maridos seriam
+ substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
+ alcoolicas&mdash;o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
+ convertendo aos pianos, reforados pela aguardente, nos unicos
+ instrumentos da perpetuidade da raa.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
+ os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
+ unicamente sociedade os nossos cumprimentos.
+</p>
+
+<hr id="gymnastica" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Por occasio de se discutir no parlamento a reforma da instruco
+ primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopo da
+ gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinio de que a
+ gymnastica tinha um caracter immoral.
+</p>
+<p>
+ S. ex. parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
+ do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
+ pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mos
+ e de pernas para o ar. Isto effectivamente no seria bem visto. E
+ comprehendemos que s. ex. sinta uma certa poro de rubor pensando que
+ ao dirigir n'um salo as suas homenagens a uma dama esta poder vir um
+ dia a retribuir os cumprimentos de s. ex. aferrando-o pelos rins e
+ obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabea no espao
+ que medeia entre o tapete e o lustre.
+</p>
+<p>
+ Cremos porm que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
+ directamente de um nobre desdem votado por s. ex. a algumas habilidades
+ da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
+ ex. tenha da coisa que fra das feiras se no chama a <i>sorte de foras</i>
+ mas sim mais modestamente&mdash;<i>a hygiene do movimento no corpo humano</i>.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Um illustre medico allemo, o doutor Schreber, director do instituto
+ orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformaes do
+ nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciaes na configurao
+ dos ossos da bacia, viciaes que inhabilitam muitas mulheres de serem
+ mes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
+ escola e que s podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
+ racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poder
+ chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
+ correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
+ s. ex. para alvo das suas predileces pelo pugilato athletico.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O mesmo doutor Schreber assevera que indispensavel introduzir o uso da
+ gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
+ mulheres padeam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
+ frequente e resultante da posio forada em que as raparigas se
+ conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
+ acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
+ sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
+ espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
+ depois a operar sobre a regio abdominal de s. ex. as experiencias
+ dynamometricas, cuja perspectiva lana no animo pudibundo do digno
+ procere um to ligitimo horror.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A physiologia moderna tem mostrado que a saude no mais que o justo e
+ perfeito equilibrio das differentes foras inherentes ao nosso
+ organismo. A hygiene tem provado com muitas observaes e fundada nas
+ mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
+ todos os nossos membros e de todos os nossos orgos o unico meio de
+ manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisao d'esse
+ exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
+</p>
+<p>
+ Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
+ hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulao do
+ sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
+</p>
+<p>
+ Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
+ phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
+ loucura so outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
+ mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
+ apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
+ que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
+ revelaes, demonstra que existem estreitas e precisas relaes de causa
+ para effeito entre as variaes da circulao e os differentes graus de
+ actividade cerebral. A abolio da memoria, a perverso das sensaes,
+ todos os casos de nevropathia cerebral so resultantes de uma falta de
+ cadencia na vibrao dos centros sensitivos causada por um embarao da
+ circulao sanguinea no encephalo. Na Italia esto-se curando as
+ alienaes mentaes pela transfuso do sangue. O medico Ponza, do Grande
+ Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
+ de cura de alienados pela transfuso hypodermica.
+</p>
+<p>
+ Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispe para activar e
+ regularisar a circulao, de tanta importancia para a actividade
+ central, a gymnastica.
+</p>
+<p>
+ O celebre hygienista Lacassagne diz: Um exercicio muscular geral, feito
+ em boas condies, produz os effeitos de uma transfuso de sangue.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Ha estados morbidos cuja localisao no organismo escapa muitas vezes
+ indagao e sagacidade dos clinicos. Est-se doente sem haver
+ apparentemente perturbao alguma nas funces physiologcas. O symptoma,
+ frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
+ diminuio do noso peso com relao unidade do nosso volume. A mais
+ segura medida da saude a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
+ para tornar mais denso o corpo humano? Ha. o regimen da gymnastica. O
+ doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
+ gymnastica militar da Faisanderie, em Frana, constatou, pelas
+ observaes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
+ effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto acrescentar a
+ densidade de 6 at 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
+ exercicio.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em um paiz onde a tisica faz to grande numero de victimas como em
+ Portugal, util accrescentar ainda que uma das propriedades da
+ gymnastica desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
+ a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
+ doutor Burq.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A fora muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
+ densidade, n'uma proporo de 15% nos quatro primeiros mezes dos
+ exercicios gymnasticos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A hygiene de musculatura um facto de primeira importancia para a saude
+ desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
+ tecidos vivos se reconheccu que a sde principal da combusto
+ respiratoria o musculo. Os differentes estados do musculo influem
+ directamente na composio do sangue. O exercicio portanto um poderoso
+ modificador do sangue e como tal acta em todas as foras do nosso
+ organismo. Mas no ha seno uma especie de exercicio com propriedades
+ hygienicas e therapeuticas: esse exercicio a gymnastica.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faa o obsequio de considerar
+ que s um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
+ constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allem. O
+ doutor Sebreber demonstra que a unica occupao que sujeita quem a
+ exerce a um exercicio inteiramente harmonico, a occupao da
+ jardinagem. Todo aquelle que no for jardineiro tem de appellar para um
+ methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
+ equilibrio as acquisies e os dispendios de cada um dos seus orgos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Taes so, resumidamente expostas, algumas das razes que militam em
+ favor da gymnastica. Em contraposio a estes argumentos no sabemos
+ seno de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex. os nossos rogos
+ mais fervorosos para que s.ex. no core diante da gymnastica, impedindo
+ assim o paiz de pr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
+ constituio atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
+ ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
+ de reagir contra a hypocondria e contra a preguia, contra a atonia dos
+ nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
+ gotta, contra as affeces pulmonares, contra as escrophulas, contra a
+ obesidade e contra a idiotismo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licena para incluir o mesmo
+ sr. Vaz Preto, esto contaminados por enfermidades que a gynmastica
+ previne e corrige. De modo que uma boa administrao pedia que
+ gymnastica no s fosse decretada para as escolas mas tambem para as
+ duas casas do parlamento.
+</p>
+<p>
+ Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allems, suecas, os
+ exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
+ para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
+ todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
+ quanto estes exercicios so uteis no s ao desenvolvimento physico mas
+ ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
+ introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
+ n'aquellas em que a gymnastica no existe.
+</p>
+<p>
+ Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
+ esqueceu uma disposio&mdash;precisamente a unica que teria alcance&mdash;um
+ artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
+ em cada sesso, as suas locubraes legislativas, para fazerem
+ gymnastica ao som de um orgo, como nas escolas americanas.
+</p>
+<p>
+ O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
+ obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
+ que&mdash;digamol-o francamente&mdash;o que o <i>cachenez</i> do nobre duque
+ presidente seno o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
+ mais caracteristico de que s.ex. no tem gymnastica nos musculos do
+ pescoo e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
+ felicidade do paiz, que to estreitamente depende da preciosa saude do
+ nobre duque, s.ex. deveria ser obrigado&mdash;obrigado a ferros, em nome
+ d'el-rei&mdash;a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
+ erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
+ desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
+ seguintes movimentos:
+</p>
+<p>
+ Voltar vigorosamente a cabea para a direita e para a esquerda (100
+ vezes); fazer girar o pescoo, na sua maxima flexo, sobre o peito e
+ sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
+ (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braas (100 vezes); tomar
+ fortes e profundas aspiraes de ar (25 vezes). Depois do qu, s.ex.
+ reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomearia a
+ meditar sobre a felicidade da patria.
+</p>
+<p>
+ No mesmo sr. Vaz Preto o que verdadeiramente a revolta do seu pudor
+ perante a adopo da gymnastica nas escolas seno o indicio de uma leso
+ mental concomitante e at certo ponto compensadora da obesidade? Pois
+ no sabido que jmais a excessiva nutrio deixa de ser acompanhada
+ reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
+ sr. duque de Avila curasse o seu <i>cache-nez</i> por meio dos excercicios
+ indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
+ seguintes:
+</p>
+<p>
+ Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
+ tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
+ (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz at o
+ limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
+ quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
+ Depois do qu, s. ex. revestiria ameaadoramente as suas calas e
+ continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Se porm a todas estas consideraes for insensivel o sr. Vaz Preto,
+ n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
+ gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex. um expediente extremo:
+ Velar-lhe a face!
+</p>
+
+<hr id="lourdes" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ A <i>Nao</i> publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: <i>O padre
+ cego j v, a paralytica j anda</i>.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Parece impossivel que uma folha religiosa como a <i>Nao</i> dsse cabimento
+ nas suas columnas um milagre to miseravel, to safado, to reles como
+ esse! Com effeito! foi ento para isso, para esse milagrotesito de
+ ccrc, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
+ foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
+ que a sr. condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
+ reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
+ os fazer ver e para os fazer andar os levou to longe?! ... Ora muito
+ obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
+</p>
+<p>
+ A sr. condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
+ collaborram com s.ex. na bonita obra da peregrinao teem obrigao
+ restricta de abrirem immediatamente uma subscripo para o fim de
+ indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
+ lhes deram. Porque ns&mdash;e a <i>Nao</i> bem o sabe!&mdash;ns temos devoes
+ locaes, temos devoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affianam, sob a
+ auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
+ resultados obtidos pela romagem.
+</p>
+<p>
+ Pois qu! A agua de Lourdes ao p da bica, na propria gruta, por conta e
+ na presena da santa, no ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
+ agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
+ vezes impuras, quantas vezes com ms rolhas?!
+</p>
+<p>
+ No vimos ns ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
+ enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
+ que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
+ locomotores com agua das latas?!
+</p>
+<p>
+ E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr. condessa do Sarmento
+ para se metter s estradas e para ir por ahi fra em braos at Lourdes,
+ chega l e no obtem mais nada seno o que obteve a outra sem sair do
+ largo de S. Roque?
+</p>
+<p>
+ E ainda ousam dizer-nos&mdash;o que no pde ser seno por escarneo&mdash;que ella
+ <i>andou!</i>? Olha a grande faanha&mdash;<i>andar!</i> Mas, senhores, tendo tido
+ trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
+ correr, correr a sete ps, e trazer de l para esse fim cinco pernas a
+ maior do que as que levou!
+</p>
+<p>
+ Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
+ lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascar que lhe fazia o
+ milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
+ opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
+ sua devida altura, que o homem no s principiasse a ver pelos olhos mas
+ que visse tambem por outros membros.
+</p>
+<p>
+ Isso ento j valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
+ a <i>Nao</i> o publicasse em telegramma: O padre cego appareceu-lhe um
+ olho em cada buraco do nariz e est-lhe a vir outro na cova do ladro,
+ pelo qual j l as suas rezas de costas na cama com o breviario por
+ baixo do travesseiro. A paralytica j deitou seis pernas novas e est
+ com dois grandes furunculos nos hombros: suppe-se que sejam as azas a
+ romper. Quando se lhe espremem os carnies bota pennas. Infinitos
+ louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cr dos voadouros
+ vemos que a paralytica nos sae pedrez!
+</p>
+<p>
+ Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
+ ordem, porque os ha muitos maiores.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
+ coisas ao p das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito zero.
+</p>
+<p>
+ O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenas,
+ das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
+ balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que no podemos pr em
+ duvida. No livro intitulado <i>Virtude miraculosa do Escapulario
+ demonstrada por casos de proteo, de conversao e de curas miraculosas</i>,
+ pelo revd. padre Hugnet&mdash;<i>Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
+ Anvers</i>, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
+ exemplos.
+</p>
+<p>
+ Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um boto
+ dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
+ das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
+ emquanto caem e continam a leitura em baixo, traando a perna n'um
+ estado do satisfao ineffavel.
+</p>
+<p>
+ O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreio do Var, com um
+ escapulario ao pescoo, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
+ os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
+ illeso. No nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir! disse por
+ essa occasio um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
+</p>
+<p>
+ No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lanar ao meio
+ das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
+ o escapulario encontrou-se intacto. Apenas, diz o padre Huguet na obra
+ citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco. (Pag. 17.)
+</p>
+<p>
+ Um soldado na batalha de Novara v cair em torno d'elle todo o
+ regimento, elle o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
+ acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada brao. (Pag.
+ 20.)
+</p>
+<p>
+ Um desgraado, querendo suicidar-se, lana-se ao mar quatro vezes
+ consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o praia, recusando-se
+ obstinadamente a submergil-o. O desgraado recorda-se ento que traz ao
+ pescoo um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
+ o escapulario em terra. Foi smente com esta condio que o mar se
+ resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
+</p>
+<p>
+ Alm de livrar de todos os perigos, sem excepo, durante a vida, o
+ escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
+</p>
+<p>
+ O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado <i>Colleco dos
+ escapularios da Immaculada Conceio, do Rosario, do Carmello, etc.</i>,
+ diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
+ pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes so
+ arrebatadas pelos escapularios. Parece que no ha dia em que um milho
+ de diabos no roguem esta praga medonha:&mdash;Que ns levemos os
+ escapularios!
+</p>
+<p>
+ As approvaes pontificaes de todos os papas, desde Joo XXII at Pio
+ IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
+</p>
+<p>
+ O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
+ para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
+ perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
+ arranje a morrer com o escapulario na sexta feira meia noite, podem os
+ facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o ho de ver
+ por um oculo!
+</p>
+<p>
+ O uso do escapulario extremamente commodo: no obriga a encargos de
+ nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
+ da confisso e da communho. Tambem no priva o penitente de qualquer
+ prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.
+ Guglielmi. O essencial no o tirar nunca, nem mesmo <i>quando
+ voluntariamente se vae peccar</i>: o que mais particularmente prescreve o
+ dito padre Guglielmi.
+</p>
+<p>
+ De todos os escapularios o que mais se recommenda eleio dos devotos
+ o do Sagrado Corao de Jesus, porque este escapulario nem sequer
+ precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
+ seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
+ seguinte: Sobre um pequeno retalho de l branca&mdash;retalho quadrado ou
+ oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
+ virtude&mdash;applica-se um corao de flanella encarnada, bem talhado e
+ cosido a pesponto, de modo que imite a cora de espinhos acompanhada de
+ algumas gotas de sangue bordadas a seda. parte, em uma tirinha de panno
+ patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripo
+ sacramental: <i>Suspende! Est comigo o corao de Jesus</i>!
+</p>
+<p>
+ Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
+ d'estes escapularios, deital-o ao pescoo e ficar livre, para a vida e
+ para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
+ alto das torres, atirar-se s voragens do fogo e do mar, e metter-se
+ debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, no
+ far a <i>Nao</i> o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
+ de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma <i>Nao</i>, o mais que faz
+ unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
+</p>
+<p>
+ Ha umas tantas coisas que a <i>Nao</i> at devia ter vergonha de as dizer
+ ... O que a <i>Nao</i> precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
+ esse pescoo, para a <i>Nao</i> ficar ento sabendo o que so milagres!
+ Porque a <i>Nao</i> no sabe o que so milagres!
+</p>
+<p>
+ Pr o padre cego a ver e pr a paralytica a andar no passa de uma
+ habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
+</p>
+<p>
+ Vir feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
+ proposito para fazer perder gente o gosto pelas devoes ...
+</p>
+<p>
+ Emquanto a ns o que a <i>Nao</i> tem o espirito maligno no corpo do
+ jornal! Cruzes, demonio!
+</p>
+<hr id="fadista" class="minor" />
+<p>
+ Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
+ de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
+ termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
+ satisfao sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
+ fadista. O que temos que perguntar : Porque se no prendem os fadistas
+ todos?
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significao analoga a
+ esta&mdash;o <i>fadista</i>.
+</p>
+<p>
+ Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
+ constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
+ dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
+ feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
+ fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
+ toda a sua pureza esta raa de bravos de viella, sem officio nem
+ beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
+ frecheiros com as mulheres, soberbes e insolentes com os mesteiraes e
+ com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excurses
+ nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
+ os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e aoitando
+ os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
+ adormecidos.
+</p>
+<p>
+ Entre os alludidos fidalgos figurava como gro-mestre da ordem, como
+ capito da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmo
+ do senhor rei D. Joo V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
+ interessantissimo principe, cujas tropelias creram, durante um seculo,
+ em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
+ conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
+ divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
+ navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
+ mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcanar com
+ um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
+ seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
+ sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
+ despegra da verga, que dobra no ar por entre as enxarceas e cara por
+ fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
+ que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
+ que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
+ uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
+ tarde, com a illuminao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
+ com a creao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaas, os
+ combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razo
+ biologica de que toda a fora organica que se no exerce se elimina, o
+ antigo valento plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
+ espirito da faanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
+ vadiice, e tomou ento o nome de&mdash;fadista.
+</p>
+<p>
+ O fadista no trabalha nem possue capitaes que representem uma
+ accumulao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da explorao do
+ seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
+ elle espanca systematicamente. No tem domicilio certo. Habita
+ successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
+ esquadra da policia. Est inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
+ noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. um anemico, um covarde e
+ um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito concavo, os braos so
+ frageis, as pernas cambadas, as mos finas e pallidas como as das
+ mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
+ enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
+ de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
+ guitarra e de um <i>santo christo</i>, que assim chamam technicamente a
+ grande navalha de ponta e triplice calo na mola. habitado por uma
+ molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
+ constituio normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
+ um soco. Elle sente isso e traioeiro pelo instincto do inferioridade.
+ No ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
+ obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
+ agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular&mdash;as <i>escovinhas</i>.
+ No ha seno uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
+ bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
+ guitarra debaixo do brao substitue n'elle a espada cinta, por meio da
+ qual se acamaradavam com a nobreza os pimpes seus ascendentes do seculo
+ XVI. pela prenda de guitarrista que elle entra de grra com os
+ fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
+ Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
+ onde depois da meia noite se vae comer o prado de <i>desfeita</i>, acepipe
+ composto de bacalhau e gros de bico polvilhados de vermelho por uma
+ camada de colorau picante. Por effeito da tradio na orientao mental
+ da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
+ e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
+ taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
+ alcouces de Alfama, que so levantados bebedos dos becos mal afamados,
+ que fallam em calo e que fazem troas no Colete Encarnado e na Perna de
+ Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compe-se hoje principalmente de
+ jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
+ pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educao do
+ lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
+ mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
+ fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
+ de pandega. Usa como elles a bota fina de taco apiorrado ou o salto de
+ prateleira, a cala estrangulada no joelho e apolainada at o bico do
+ p, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapo arremessado para a nuca
+ pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
+ guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
+ desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beio
+ pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
+ outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplao
+ imbecil; o tronco do corpo cado mollemente para cima do quadril; a
+ perna encurvada com o bico do p para fra; o <i>cachucho</i> da amante
+ reluzindo na mo pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
+ mo na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabea alta,
+ esticando as cordoveias do pescoo e entoando as melopeias do fado, em
+ que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoes religiosas
+ Virgem Maria, com uma voz soluada, quebrada na larynge, acompanhada
+ da expresso physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
+ miseravel.
+</p>
+<p>
+ De resto o fadista no tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
+ meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
+ na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
+ o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
+ convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condies
+ especiaes em que ama e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
+ restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
+ todos os machos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
+ incorrigiveis da criminalidade.
+</p>
+<p>
+ A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
+ recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informaes de um
+ inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
+ em tres cathegorias. A primeira cathegoria composta de individuos que
+ verdadeiramente no deveriam ter entrado nunca na priso. So lanados
+ nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
+ ou de caracter, a qual no obsta a que elles tenham uma moralidade to
+ s como a de qualquer de ns. segunda cathegoria pertencem individuos,
+ mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
+ immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
+ tornarem bons ou maus segundo a direco que recebam. A terceira
+ cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, rebelde
+ a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
+ conselhos. Para estes a cadeia um logar improrio; seria preciso
+ confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
+ no fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
+ inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
+ grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado no teria
+ seno proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
+ presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
+ conviria principalmente dar instraco; emquanto aos terceiros o melhor
+ expediente seria a morte.
+</p>
+<p>
+ util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
+</p>
+<p>
+ ou no da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
+ criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
+ incorrigibilidade em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
+ repetidos?
+</p>
+<p>
+ A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
+</p>
+<p>
+ .
+</p>
+<p>
+ N'este caso pergunta-se:
+</p>
+<p>
+ Pde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
+ continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
+ uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
+ os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
+ justia mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
+</p>
+<p>
+ No. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
+ que o Estado cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade
+ irresponsavel da perversidade individual, no succede o mesmo, e a
+ sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que ella que sustenta, ao
+ abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
+ manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
+</p>
+<p>
+ Dado o fadista, a sociedade no pde certamente evitar o criminoso. A
+ sociedade porm pde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
+ inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
+ instituio concomitante que a justifica e a consagra:&mdash;a loteria.
+</p>
+<p>
+ Desde que um cidado deixe de poder explicar unicamente pelos
+ supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
+ Estado tem o dever de o prender, no para encarcerar mas para coagir ao
+ trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
+ cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O mais perigoso de todos os animaes vadios o homem. Comparado com elle
+ o co, ainda quando damnado, pde-se considerar inoffensivo. E todavia a
+ policia, que tem para o co que ainda se no damnou as precaues da
+ rede e da carroa, no tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
+ contagio, seno um expediente repressivo: o de lhe archivar a
+ photographia no commisariado geral.
+</p>
+<p>
+ Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
+ de garantir a segurana publica: tire o retrato aos ces e deite a rede
+ aos fadistas.
+</p>
+
+<hr id="velhanova" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
+ do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legies
+ contrarias, arrojram-se encarniadamente uns sobre os outros,
+ esmurrram-se, esguedelhram-se, cuspiram-se na face em odes,
+ aoitram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
+ viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regies
+ lombares das musas.
+</p>
+<p>
+ Mysterio sobre as causas que moveram to cra guerra entre duas escolas
+ poeticas alis to pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
+ ellas existissem: a escola da <i>Ida Velha</i> e a escola da <i>Ida Nova</i>!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os da Ida Velha dizem que no ha nada como a ida d'elles. E fundam-se
+ para isto em que uma ida solida, experimentada, garantida.
+</p>
+<p>
+ O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
+ encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
+ annos.
+</p>
+<p>
+ Ergueu-a do cho como morta, chuchada, espipada, moda pelas pgadas de
+ duas geraes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
+ pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
+ enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
+ inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Ida Velha por uma ponta e
+ pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
+ lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
+ fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
+ e levou-a comsigo sociedade, onde a receberam bem. Cercram-a varios
+ outros no menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
+ que aquelle que a levantra do cho. Andou pelo brao de um e pelo brao
+ de outro recebendo declaraes de affecto e dadivas de amor. Mo to
+ dedicada quo firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
+ Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
+ spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, s solemnidades
+ publicas, s casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
+ agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
+ <i>Grinalda</i> e no <i>Almanach de Lembranas</i>; dedicou versos Lapa dos
+ Esteios, Stoltz e Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
+ concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
+ s Graas nas notas da verso portugueza dos <i>Fastos</i>. Foi da Assembla
+ da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do <i>Gremio</i>, que tomou o nome de
+ <i>Litterario</i> para a receber e cujos socios affirmram, para lhe serem
+ agradaveis, o seu amor lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
+ finalmente nas altas regies officiaes. Foi aos paos dos nossos reis!
+ De quando em quando observava-se que ella comeava de repente a
+ encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fra
+ insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
+ era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
+ fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinio,
+ e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo Ida Velha. O
+ poder moderador, com a sua real cora na cabea e o seu real manto s
+ costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
+ Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
+ achando-se to chupados e to desfallecidos como a propria ida que eram
+ chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
+ retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
+ as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
+ choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
+ seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
+ tinham tido a honra de bufar mesma ida e pelo mesmo canudo que
+ servira primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
+ estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembla da
+ Galocha e os empregados publicos do Gremio no o permitiam, e torcendo
+ altivamente o bico das peras, diziam que a Ida se no se podia pr
+ merc da populaa infrene e ignara. Vivendo assim custa do sopro dos
+ poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
+ conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
+ Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
+ Ida, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
+ entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoo a
+ condecorao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
+ ajoelhou-se-lhe aos ps e propoz-lhe leval-a s aras de Hymenen; ella
+ porm, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
+ exclusiva do vate. Este, de pura dr, pregou na parede um prego e
+ suspendeu n'elle, por um lao de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
+</p>
+<p>
+ Nos ultimos annos a Ida Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
+ communicao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
+ Algumas pessoas devotas tinham-lhe j resado por alma. Soube-se agora,
+ com grande satisfao dos que a conheceram no galarim, que a Ida Velha
+ ainda est viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
+ onde no ha outra ida de dentro para o servio da familia.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os da Ida Nova teem esta falha notavel: suppem que a Ida velha
+ vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
+ que prepondera nos destinos do mundo, E vem-se moos honestos e
+ engraados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
+ pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
+ se fosse uma fora da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
+ ha meio seculo no passa do um artificio convencional e de uma
+ superfetao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
+ nenhum dos interesses do espirito ou do corao do homem no tempo
+ presente.
+</p>
+
+<hr id="oprimobazilio" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ <i>O Primo Bazilio</i>, novo romance de Ea de Queiroz, um phenomeno
+ artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
+ obra preciso discriminar o que n'ella pertence jurisdico da arte e
+ o que pertence aos dominios da pathologia social.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Eis a doena que este livro accusa:&mdash;A dissoluo dos costumes
+ burguezes.
+</p>
+<p>
+ O mais caracteristico symptoma d'esse mal a falsa educao. A educao
+ burgueza tem um defeito fundamental: mantm na mulher a mais terrivel, a
+ mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
+ No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
+ apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
+ ver porqu.
+</p>
+<p>
+ Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
+ desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
+ representao da vida exterior e o systema da vida intima.
+</p>
+<p>
+ Basta olhar de fra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
+ do templo para se fazer uma ida do que pde ser dentro o culto d'essa
+ religio&mdash;a familia!
+</p>
+<p>
+ Comparem-se as nossas edificaes urbanas, os casares da
+ baixa&mdash;rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
+ asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
+ a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias&mdash;com as
+ graciosas construces arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
+ com o seu claustro interior, o poo de marmore ao centro do pateo, as
+ galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
+ pequeno jardim, que o corao da casa. Comparem-se com as sabias
+ edificaes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
+ Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
+ predios do bairro central de Lisboa ao p dos novos predios de esquina
+ de rua no Hanover. As novas casas allems no stylo gothico francez,
+ modificado segundo as exigencias da civilisao moderna, so obras
+ primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehenso da hygiene, da
+ moral, da estetica; so verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
+ systema de educao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cres,
+ branca, cr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraos
+ cercados de hera, de estufas, de <i>logettes</i>, de aviarios em que se
+ cantam os passaros, de balces em que desabrocham as flores sempre
+ frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
+ outros tantos ramalhetes, so interiormente distribuidos do modo mais
+ elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
+ nobres prazeres da familia. A disposio mais escrupulosamente estudada
+ do salo, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
+ todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
+ luz e bom ar, permitte s mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
+ activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
+</p>
+<p>
+ As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
+ parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
+ verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguo sombrio e infecto,
+ com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogo por baixo
+ das caarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
+ rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
+ queimada, so os sepulchros da saude e da alegria.
+</p>
+<p>
+ n'essa serie de prateleiras, de gavetes de familias, que se chamam os
+ <i>Arruamentos da Baixa</i>, que educada a lisboeta.
+</p>
+<p>
+ Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
+ recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observao:
+</p>
+<p>
+ Noto um facto que me enche de perturbao e de horror&mdash;n'esta cidade
+ no ha creanas.
+</p>
+<p>
+ Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
+ bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
+ balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cr de palha,
+ desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
+ musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
+ musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
+ ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos <i>squares</i> do
+ largo de Cames, da praa das Flores, do Aterro: l encontramos
+ effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas no
+ encontramos uma unica creana, a cuja saude sua me se tivesse
+ sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espao de tempo a sua
+ preoccupao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
+ com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
+ seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
+ fresco.
+</p>
+<p>
+ Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
+ frequentam as lojas ou fazem visitas, onde que esto as creanas? As
+ creana esto dentro das casas que acima descrevemos&mdash;<i>a tomarem
+ proposito. Tomar proposito</i> uma locuo essencialmente local e
+ intraduzivel, que quer dizer: aprender a no saber andar, a no saber
+ rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
+ instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
+ menina s principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
+ indispensavel para no tagarellar imprudentemente, para no contar que
+ houve favas para o jantar ou que o pap ralhou com a mam. Haver favas
+ para o jantar e ralharem o pap e a mam de resto tudo ou quasi tudo
+ quanto se passa em casa, porque no ha interesses de espirito, nem ha
+ instructivas occupaes praticas. Falta o jardim, a grande escola da
+ infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
+ e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
+ flores. Tambem no ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
+ jornal e os romances das traduces baratas. Nenhuma especie de estudo.
+ Nenhuma applicao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
+ da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
+ aprende o francez e o inglez. Esta educao completa-se em casa
+ ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educao so
+ appendices de sua <i>toilette</i>: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
+ linguas, e a <i>phantasia</i>, o bonito trecho de salo tocado no piano
+ diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
+ funco sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
+ suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
+ jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
+ Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. No leu ou
+ no entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
+ Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
+</p>
+<p>
+ No a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
+ completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
+ phenomenos.
+</p>
+<p>
+ No a distraem os interessantes cuidados do <i>mnage</i>, porque da casa,
+ assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
+ nenhumas noes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
+ das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
+ actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, to
+ moralisadores e to attractivos, teem para ella o caracter de um mister
+ gnobil, desprezvel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
+ essencia da cozinha nacional, discrio de uma criadagem vill, que
+ retribue o desprezo de que objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
+ casa o que ella sabe unicamente que ha duas ou tres salas de apparato
+ que se mostram s pessoas de fra; um quarto mais ou menos infecto, uma
+ possilgueirinha mobilada pelo Gard, em que ella dorme at s dez ou
+ onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que d
+ respostadas; e uma latrina contendo um fogo em que por meio de varias
+ borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
+</p>
+<p>
+ Na religio ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
+ a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
+ elegantes: as romagens fonte de Lourdes; a orao em frente da gruta
+ no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
+ de Roma; a contrico aos ps do summo pontifice, coberta de renda
+ preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
+ do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
+ orgos soluam e o sol coado pelas vidraas coloridas se espelha nas
+ couraas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
+ desembainhadas. Presta ainda bastante considerao s interessantes
+ ceremonias da elegante religio nacional, como a do Mez de Maria na
+ bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas aucenas, fresquinha
+ e graciosa, similhante a uma <i>bombonire</i>, ou como a da Semana Santa nos
+ Inglezinhos, a cuja <i>petite entre</i> destinada aos intimos rodam os
+ <i>coups</i> magnificos da piedade escolhida.
+</p>
+<p>
+ Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
+ seu <i>bnitier</i> barato; pelo Deus da procisso do Carmo e da procisso da
+ Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
+ arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
+ tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella no tem seno duvida ou
+ desdem.
+</p>
+<p>
+ Na moral as suas convices baseiam-se em uma serie de principios
+ theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
+ contradictoria de interesses praticos, tirando esta concluso: que o
+ dever consiste na mais habil combinao que se possa fazer d'essas
+ theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
+ resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
+ sociedades corruptas:&mdash;o socego.
+</p>
+<p>
+ Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto , principia a
+ ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
+ os homens. Percebe ento vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
+ regio social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
+ do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
+ raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
+ da <i>toilette</i>; com uma cabea ca; n'um quarto que no cheira bem; tendo
+ um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balco, que pensa pela
+ cabea de um jornal barato e mal feito, e uma me que se enfastia
+ medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
+ cntra o destroo dos annos e contra o preo crescente dos generos
+ alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
+ aguadeiro, ralhando com o marido.
+</p>
+<p>
+ Principia ento a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
+ domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
+ quarto sem tradies, sem historia, como o de uma estalagem; o saguo
+ infecto, onde zumbem no vero as grandes moscas gordas e pesadas; a
+ cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
+ caarolas gordurosas e as louas esbotenadas; a sala pretenciosa e
+ inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
+ arabes defronte do sof, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
+ retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
+ de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordo no
+ meio dos cortinados.
+</p>
+<p>
+ Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinco
+ decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
+ similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
+ Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
+ nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
+ sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
+ mais simples, mais triviaes, e para se dar um aspecto superior, para
+ se encobrir do que , que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
+ a respeito dos criados que no tem, das visitas que no faz, da opera
+ que no viu, dos livros que no l, da modista a que no vae, dos banhos
+ que no toma, dos jantares que no come, das dignidades, das distinces
+ ou do luxo que no usa.
+</p>
+<p>
+ Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
+ romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas no
+ lhe sae o que quer: no sabe organisar aprazivelmente a casa, no sabe
+ tornar encantadora a familia.
+</p>
+<p>
+ Humilhada, infeliz, comea a descoroar a pouco e pouco da sua
+ predestinao superior. Sente que ha na sua constituio moral uma falha
+ da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiraes.
+ No se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
+ serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que o resultado da
+ perfeita educao.
+</p>
+<p>
+ Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
+ superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conhea o facil
+ processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cair com uma
+ simplicidade tragica.
+</p>
+<p>
+ O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condies, o
+ dandy. Porque o dandysmo a unica frma sob a qual a distinco se lhe
+ apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
+ pensamentos ter para ella menos seduces do que uma cabea bem
+ penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
+ uma fina risca cr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
+ espirito, nenhuma delicadeza de corao, nenhuma virtude de caracter
+ exercer sobre a imaginaoo d'ella a fascinao com que a subjuga a
+ alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
+ seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, ser
+ aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
+ jantado nos mais celebres restaurantes do <i>boulevard</i>, o que se vestir e
+ se calar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
+ desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
+ segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
+ mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em <i>foie gras</i>, em
+ <i>Champagne Clicot</i>, e em <i>Cold-creame</i>.
+</p>
+<p>
+ Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
+ refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
+ tapetes de Smyrna dos <i>boudoirs</i> forrados de setim, envoltos em renda de
+ Frana, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando s penetrantes
+ essencias de Lubin e febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
+ um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos ps d'ella, para lhe dizer
+ obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia s outras,
+ <i>amando-a</i> finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
+ suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
+ seu joelho desformado pela falta de circulao proveniente de um defeito
+ caracteristico da sua raa, o defeito de no saber atar as ligas; apezar
+ ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
+ espartilho barato, da sua <i>toilette</i> da Baixa, da sua pomada de botica e
+ do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
+ nacional ... Se, apezar de tudo isso, to desdenhoso, to frio, to
+ gloriosamente corrupto, traando a perna, descobrindo desleixadamente as
+ suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
+ encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
+ attenciosa e benevola as scintillaes do seu correcto <i>plastron</i> de
+ Poole, e as exhalaes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
+ cabello frisado Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte no
+ saber negar.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Tal o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
+ medonho, tragico, sobre o qual Ea de Queiroz escreveu <i>O Primo
+ Bazilio</i>, romance realista.
+</p>
+<p>
+ Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convico social, e
+ esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo no tinha
+ seno convices esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
+ espirito da sociedade que fez a Revoluo, que caiu no Imperio, que
+ supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros no pediam arte de
+ 1830 seno uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas ento
+ cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
+ de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradies
+ gothicas da edade media e fizeram uma restaurao litteraria e burgueza
+ da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipao
+ da forma mais profunda indifferena pela questes sociaes do seu tempo.
+ Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
+ atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
+ phylanthropos.
+</p>
+<p>
+ A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. uma
+ sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
+ pontos da sua peripheria at as mais reconditas intimidades do seu ser.
+ Esta reconstituio no se est fazendo empyricamente pela revoluo ou
+ pela sentimentalidade, est-se fazendo scientificamente pela
+ convergencia harmonica de todos os esforos intellectuaes sobre o mesmo
+ problema. Comprehendeu-se que so solidarios todos os estudos, os do
+ mundo inorganico e os do mundo organico; que so correlativas todas as
+ leis desde a da indestructibilidade da materia at a da evoluo social;
+ que finalmente se no pde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
+ phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
+ integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle o elo que
+ prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
+</p>
+<p>
+ N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga to estreita,
+ que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
+ dos ramos da sciencia se reflecte na direco de todo o trabalho mental
+ em qualquer das suas manifestaes, dando por exemplo a theoria
+ zoologica da adaptao ao meio um methodo novo na critica,&mdash;n'esta liga,
+ dizemos, a arte no pde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
+ trinta annos. Esse papel -lhe imposto fatalmente pela nova orientao
+ mental da sociedade. A arte moderna no pde j hoje basear-se em
+ risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
+ e para que tenha a importancia de um agente da civilisao, em factos de
+ caracter scientifico, isto : em factos que sejam a funco de leis
+ sociologicas. Queremos factos, no queremos exclamaes: <i>Res non
+ verba</i>.
+</p>
+<p>
+ Foi da palavra <i>res</i>, tomada precisamente n'essa accepo litteral, que
+ se tirou a designao <i>realismo</i>.
+</p>
+<p>
+ Chamar realismo ao que puramente grosseiro, ao que descarado, ao que
+ torpe, calumniar o dogma. Uma obra de arte pde conter o maximo
+ numero de torpezas e de obscenidades e no deixar por isso de ser
+ simplesmente lyrica.
+</p>
+<p>
+ O <i>Primo Basilio</i> um romance realista porque a representao de um
+ facto social visto atravez de uma convico scientifica. Luiza, a amante
+ do primo Basilio, a personificao tremenda da tendencia morbida de
+ uma epoca. E n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
+ Luiza <i>castigada</i> (para nos servirmos da velha formula que via a moral
+ dos livros no premio que n'elles se concedia virtude e no castigo com
+ que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
+ afflictiva um facto accessorio, que no conteria seno esta moral
+ negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:&mdash;que para evitar a
+ morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
+ cartas.
+</p>
+<p>
+ A moral d'este livro no est em que a prima de Basilio morre depois da
+ queda; est em que ella&mdash;<i>no podia deixar de cair</i>.
+</p>
+<p>
+ Reconhecemos que esta moral pouco accessivel maior parte das
+ comprehenses. Esse o grande mal do livro, ou antes esse o grande
+ mal da litteratura de que o livro faz parte. O <i>Primo Basilio</i> suppe um
+ estado de civilisao artistica e litteraria superior que existe na
+ sociedade portugueza. Suppe manifestaes parallelas nas applicaes da
+ philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construces, na
+ hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituies, na
+ critica dos costumes, na propria critica da arte.
+</p>
+<p>
+ Ora essas manifestaes no existem por emquanto n'um estado de
+ vulgarisao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
+ dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
+ <i>Primo Basilio</i>. A sociedade portugueza no comprehendeu ainda de um
+ modo collectivo e solidario, que urgentemente indispensavel por todas
+ as manifestaes do pensamento proceder reconstituio da educao
+ burgueza.
+</p>
+<p>
+ De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, mulher nossa
+ contemporanea: Eis&mdash;aqui est o modo pavorosamente simples como tu te
+ rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens,&mdash;parece um
+ insulto quellas que so as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
+ companheiras de trabalho, as nossas mes, as nossas irms, as nossas
+ filhas. Essa affirmao, porm, deixaria de ter um caracter
+ apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
+</p>
+<p>
+ Eu no sou um homem isolado no meio da sociedade a que perteno. Sou
+ uma parte d'essa legio de trabalhadores dedicados, profundamente
+ honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
+ ambio heroica:&mdash;tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
+ minha qualidade de artista, a ti mulher que me ls, o mais que eu posso
+ fazer commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
+ problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
+ com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
+ romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
+ alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereo-t'o eu tal como
+ elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
+ asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
+ meio forado das gals, friamente calculador, sovina, absolutamente
+ pdre. E esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
+ em preconceito, de erro em erro, s trazida, atravez de todos os
+ elementos que constituem a falsa educao que te deram, a admirar e a
+ proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
+ perteno ha uma religio, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
+ um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
+ convergentemente estaro n'este momento&mdash;no momento em que eu tenho a
+ concepo artistica do <i>Primo Basilio</i>&mdash;actuando sobre todas as
+ influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
+ amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehenso nova, assento
+ em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. religio
+ compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
+ demittir-se da soluo do teu problema. politica, emprehender a
+ reforma das instituies em vista do teu aperfeioamente. moral,
+ fazer-te comprehender a noo da justia. sciencia, o determinar com a
+ maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
+ applicao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. critica,
+ finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porm, no me competia
+ como artista seno uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
+ these, fazel-a viver na maxima elevao esthetica: porque meio? por meio
+ da mais perfeita frma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.
+</p>
+<p>
+ Se com a natureza essencialmente artistica de Ea do Queiroz fosse
+ compativel a humildade de uma explicao n'essas bases, o seu livro
+ teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
+ artista tem a obrigao de se no explicar,&mdash;o que seria invadir uma
+ funco alheia na justa diviso do trabalho intellectual moderno. Ha um
+ gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
+ religio do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
+ como o philosopho deve ser indifferente theologia, o artista deve ser
+ indifferente opinio. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
+ se por um lado a condio essencial da sua misso perante a pura arte
+ e perante a pura philosophia, por outro lado ella a principal causa de
+ ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
+ a comprehenso dos espiritos e a satisfao das consciencias.
+</p>
+<p>
+ Taes foram as razes porque&mdash;ao terminar ha mez e meio a leitura do
+ <i>Primo Bazilio</i>,&mdash;uma to perfeita obra, que a consideramos como sendo
+ uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
+ gloriar uma litteratura&mdash;ns fizemos esta prophecia: Que este livro
+ seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados
+ observao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
+ biologia, instrumentos inuteis&mdash;s vezes perigosos&mdash;para todo aquelle
+ que no tem a sciencia de os pr em exercicio e de ver por elles a
+ divina revelao de um novo mundo.
+</p>
+
+<hr id="diarioillustrado" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ O <i>Diario Illustrado</i>, publicando o retrato e a biographia do sr.
+ Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
+</p>
+<p>
+ Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
+ de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
+ desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
+ exclamou:&mdash;Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O <i>Diario Illustrado</i> no ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
+ Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
+ <i>Diario Illustrado</i> diz apenas: <i>Conta-se ...</i>
+</p>
+<p>
+ Ora este caso no se pde deixar assim envolvido na duvida. So
+ historicas as palavras do sr. Sampaio ou so puramente uma legenda das
+ montanhas, inventada pela imaginao supersticiosa dos pastores dos
+ carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
+ de Tarbes? Pde o <i>Diario Illustrado</i> firmar com a sua palavra de honra
+ a authenticidade d'aquellas expresses? Foi effectivamente o sr. Sampaio
+ que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
+ No seria antes algum dos outros heroes j celebres na historia da
+ cordilheira dos Pyreneus? No seria o paladino Rolando, sobrinho de
+ Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
+ Durindana na batalha de Roncesvalles? No seria o proprio Carlos Magno?
+ No seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
+ Champagne? No seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
+ da belleza da paizagem, entre os valles de Barges e de Bagnre?
+</p>
+<p>
+ Est o <i>Diario Illustrado</i> no caso de sustentar, debaixo de jura, por
+ tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabea do
+ sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
+ quem, depois de jantar, janella da hospedaria, palitando talvez os
+ dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
+ dizeres?
+</p>
+<p>
+ Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de <i>Diario Illustrado</i>.
+</p>
+<p>
+ Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
+ effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem asss
+ convicto em suas crenas, asss profundo em suas vistas e asss firme em
+ suas resolues, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
+ jantar:&mdash;<i>Quem me dera j na minha casa do pateo do Pimenta</i>&mdash;; se tal
+ phrase no uma fico, se ella existe realmente fra do estado
+ abstracto de suspeita destituida de fundamento,&mdash;o paiz no pde cruzar
+ os braos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra to lucida como a
+ que o <i>Illustrado</i> cita marcou a differena, toda favoravel nossa
+ patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
+</p>
+
+<hr id="escolanacional" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
+ ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
+ seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
+ especial:
+</p>
+<p>
+ 1. Rir atraz da procisso dos Passos.
+</p>
+<p>
+ 2. Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
+ viajante.
+</p>
+<p>
+ 3. No ter dado pateada a um lente.
+</p>
+<p>
+ 4. Parecer constrangido a dar lio.
+</p>
+<p>
+ 5. Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os alumos condemnados pela perpetrao dos delictos 1, 2, 3 e 4
+ appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
+ expulso temporaria em alguns dias de cadeia.
+</p>
+<p>
+ Procedendo d'essa forma o Poder Moderador no tomou em consideraoa
+ necessidade de fazer proceder reviso da legislao academica. O Poder
+ teve apenas em vista o <i>desgosto</i> infligido pela sano dos regulamentos
+ universitarios s familias dos alumnos condemnados:&mdash;No que o Poder
+ mostrou ter um corao do excellente rapaz alliado a um cerebro de
+ legislador mediocre.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Est pendente da confirmao regia, segundo nos consta, a pena imposta
+ aos reus do crime n. 5, julgados j segundo o direito commum e
+ absolvidos pelos tribunaes civis.
+</p>
+<p>
+ N'esta conjunctura perguntamos:
+</p>
+<p>
+ admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
+ de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidados de
+ uma certa classe estejam sujeitos por uma legislao especial a serem
+ julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punies em vez de
+ uma, se as duas sentenas forem conformes; ou sendo simultaneamente
+ tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenas forem
+ contrarias?
+</p>
+<p>
+ Responder-nos-ho que o tribunal academico julga de circumstancias
+ especiaes que no so submettidas apreciao dos tribunaes ordinarios?
+</p>
+<p>
+ Mas n'esse caso o tribunal academico com relao ao crime de que se
+ trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
+</p>
+<p>
+ Como tribunal escolar Universidade cabe apenas decidir se o facto de
+ sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lio.
+</p>
+<p>
+ Com tribunal de honra a Universidade precisa de no perder de vista que
+ quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontaps, o deshonrado
+ no propriamente quem os d, por via de regra quem os recebe.
+</p>
+<p>
+ Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questes
+ d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltres e de
+ covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
+ que ainda possa haver na mocidade portugueza.
+</p>
+<p>
+ Todo o homem que se no acha devidamente temperado na sua natureza
+ physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
+ com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, um homem
+ corromido, sem o sentimento do respeito devido dignidde da sua
+ especie, atreito s paixes mesquinhas, com manhas de reptil.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
+ sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
+ systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
+ honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaas da
+ fora alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
+</p>
+<p>
+ Se porm a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
+ cidados, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
+ sempre da instaurao de processos ridiculamente pueris, requerendo das
+ crtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
+ atrophiar no corao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
+ naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
+ velha troa academica por meio da instituio de exercicios viris,
+ proprios de uma mocidade honesta e forte:&mdash;a gymnastica obrigatoria, a
+ escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel <i>cricket</i>.
+</p>
+
+<hr id="tyndal" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,&mdash;no paiz em que
+ Deus segundo Taine um personagem official com os seus cortezos e os
+ seus aulicos,&mdash;no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
+ Providencia n'um discurso da cora o chefe do estado fez novo discurso
+ para prehencher essa omisso,&mdash;na velha, na religiosa, na solemne
+ Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocuo
+ presidencial do <i>Birmingham and Midland Institute</i>, disse as palavras
+ seguintes:
+</p>
+<p>
+ Dir-me-ho que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
+ das religies e comprehendendo os dogmas da theologia e a crena no
+ livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
+ fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
+ perverso sem esperana, o corao do homem, dir-me-ho que se fossem
+ abolidas as sances theologicas a raa inteira se modelaria por alguns
+ exemplos de depravao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladres e
+ assassinos. Porque s o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
+ medo, no conheceriamos mais do que o instincto natural e
+ desconheceriamos o dever.
+</p>
+<p>
+ Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
+ concluses. O scelerado no em minha opinio a imagem da humanidade.
+ <i>Bebamos e comamos porque temos de morrer manh</i> no a consequencia
+ ethica da regeio dos dogmas.
+</p>
+<p>
+ As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos so taes que nenhum
+ christo se envergonharia de as professar, e nenhum christo as censura
+ seno desde que conhece a origem de que ellas procedem.
+</p>
+<p>
+ Reconheo de todo o corao e sou o primeiro a admirar a irradiao
+ espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religio produz na vida de
+ varias pessoas que conheo. Mas no posso tambem deixar de confessar que
+ muitas vezes a relligio passa por estrondosas derrotas ao procurar
+ produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeo da religio
+ frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenas
+ procedem de distinces primordiaes de caracter que a religio
+ insufficiente para nivelar.
+</p>
+<p>
+ D uma verdadeira satisfao o sabermos que existam no nosso gremio
+ homens a que os batalhadores do pulpito chamam <i>atheus ou materialistas</i>
+ e cuja vida, no obstante, experimentada na pedra de toque de uma
+ moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
+ d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designao offensiva.
+</p>
+<p>
+ Quando digo <i>offensiva</i> quero simplesmente alludir aos que empregam
+ aquelles termos, no que eu pense que o <i>atheismo e o materialismo</i>,
+ comparados a muitas noes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
+ em si um caracter offensivo.
+</p>
+<p>
+ Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel
+ sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
+ eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
+ cidado justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
+ atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido to firmes na
+ morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles no esperavam a cora
+ celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram to
+ zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
+ emprego dos seus ultimos momentos.
+</p>
+<p>
+ Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
+ christo, o outro no.
+</p>
+<p>
+ O christo Faraday, que Tindal considera um modelo da associao da f
+ religiosa com a elevao moral. O seu caracter o mais proximo da
+ perfeio. A religio era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolao
+ dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
+ peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
+ comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
+ delicada flor da cavalleria.
+</p>
+<p>
+ O que no christo chama-se Darwin. No tem o ponto de vista
+ theologico nem a commoo religiosa que constituiam um to poderoso
+ agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeio moral de
+ Faraday. O sr. Darwin, diz Tyndal, uma natureza candida e simples, um
+ caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
+ o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador to docil s ordens da
+ verdade como o patriarcha antigo s ordens do seu Deus.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
+ verdade, de justia e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
+ de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
+ exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente cultura da
+ intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
+ moral independente de toda a especulao theologica. Que fecunda these
+ para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
+ presente dos espiritos, em que as convices do homem esto geralmente
+ em contradio com as crenas da esposa e da filha, e em que to
+ necessario se torna portanto harmonia moral da familia o principio
+ fundamental da conciliao das consciencias!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Na reunio do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
+ mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
+ Haute-Sane, expe com uma conciso profundamente lucida as causas que
+ determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
+ tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
+ escravisados pelos poderes clericaes.
+</p>
+<p>
+ Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
+ aos esforos do obreiro comea lentamente a operar-se: os trigos
+ crescem. Crescem em virtude de que lei?
+</p>
+<p>
+ Tal a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
+ respondem aquelles que so encarregados de o instruir e de o educar. A
+ noo que elle recebe cerca do modo como o trigo cresce torna-o
+ fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
+ embair. Qual o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio
+ ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
+ operario acrescenta:
+</p>
+<p>
+ Faz-se geralmente crr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
+ desenvolvem em resultado de uma fora cuja paternidade vem de Isis, ou
+ de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
+ crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora o deus de
+ Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
+ amadurecer nas mesmas condies em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
+ dos successivos templos e das successivas religies em nada tem alterado
+ as leis da natureza. E todavia d-se por toda a parte o mesmo estado de
+ coisas: O indio cr que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
+ v nos seus o grande Todo. Em outros sitios Budha. Para os gregos e
+ para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia o grande Lama. Na
+ Africa a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
+</p>
+<p>
+ Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporaes de
+ sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
+ Respondeis-me que impossivel. effectivamente impossivel, o que de
+ certo uma desgraa! Esse porm o facto historico, que no podemos
+ deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
+ sobre as questes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
+ geraes.
+</p>
+<p>
+ a guerra, a guerra de religies. tempo de lhe pr um termo.
+ tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
+ legislao humana e a moral universal.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
+ do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestes de idas e de
+ principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
+ Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
+ convices de sciencia ou de simples bom senso so consideradas
+ perigosas e banidas das discusses publicas.
+</p>
+<p>
+ Debalde a historia da civilisao ingleza n'este seculo nos demonstra
+ que a tolerancia absoluta na manifestao do pensamento a primeira
+ garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
+ das idas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
+ evitando assim que a orbita das applicaes praticas seja invadida pelos
+ principios que no foram d'ante mo sanccionadas na opinio e pelas
+ reformas que ella no exigiu em nome de novas necessidades provenientes
+ de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal o
+ methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbaes graves
+ que a impaciencia dos reformadores, no experimentada na pedra de toque
+ de uma discusso liberrima, lanou na vida pratica de outras naes,
+ como succedeu em Frana depois do segundo imperio, que corrompia todos
+ os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
+ esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
+</p>
+<p>
+ Em Portugal essa importante lio tem sido absolutamente esteril.
+</p>
+<p>
+ Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
+ mostraram uma ligeira tendencia para produzir idas, o governo sem
+ nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
+</p>
+<p>
+ Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
+ manifestar posthumamente as suas idas solicitando para os seus
+ cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
+ todos os meios ao seu alcance&mdash;meios tumultuarios, illegaes,
+ vexatorios&mdash;a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,&mdash;o atheu
+ morto.
+</p>
+<p>
+ Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
+ expem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
+ physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
+ facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepes
+ theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
+ a impunidade d'esses professores, dizemos, no se deve attribuir
+ tolerancia philosophica do poder. Ella simplesmente o
+ resultado&mdash;n'este caso benefico&mdash;da indisciplina geral dos servios
+ publicos.
+</p>
+<p>
+ Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
+ professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
+ vergonhosos e mais crassos alheios doutrina dos programmas. Ha lentes
+ que esto acima da lei pela mesma razo que ha outros que esto abaixo
+ d'ella:&mdash;por falta de inspeco e de policia.
+</p>
+<p>
+ Um facto recente d-nos a prova mais cabal de que o estado no
+ solidario nos progressos scientificos da nao, e que estes se operam
+ no sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
+ intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
+ armam.
+</p>
+<p>
+ Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
+ dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruco primaria!
+</p>
+<p>
+ Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
+ mais moos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
+</p>
+<p>
+ <i>O sr. conde de Rio Maior</i> (copiamos o extracto da sesso, publicado do
+ <i>Jornal do Commercio</i>), <i>no adversario do desenvolvimento da
+ instruco primaria, porque no deseja que continue a subsistir o estudo
+ de ignorancia do nosso povo, onde a proporo dos que sabem ler de 1
+ para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., de 1 para 6.
+ Mas no deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
+ Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
+ tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
+ proprio. Pde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
+ e temente a Deus, que no queira mandar o seu filho a uma escola cujo
+ mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
+ maiores glorias, embora a instruco estivesse pouco diffundida, a nao
+ portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; no pretende dizer com
+ isto que deixe de se derramar a instruco, porque tambem apostolo
+ d'esta ida, mas quer que essa instruco seja ao mesmo tempo moral e
+ religiosa.</i>
+</p>
+<p>
+ A affirmativa de que a nao portugueza attingiu um alto grau de
+ prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, <i>embora a instruco
+ estivesse pouco diffundida</i>, um erro de historia que o nobre conde
+ quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
+ no pelo excesso de instruco em s.ex. que a gloria e a prosperidade
+ deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior no podia realmente
+ ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
+ portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
+ foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
+</p>
+<p>
+ Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
+ quer achar a differena que distingue esse tempo do tempo actual,
+ compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragana.
+</p>
+<p>
+ D. Joo I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
+ litterato. Teve a honra de hospedar na sua crte o grande pintor
+ Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle s
+ para formar a educao esthetica de um povo do que dez universidades e
+ vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
+ artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
+ Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da crte
+ portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
+ em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
+ vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
+</p>
+<p>
+ Dos filhos de D. Joo I um o infante D. Duarte, o creador da primeira
+ bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do <i>Leal
+ Conselheiro</i>. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou <i>as sete
+ partidas do mundo</i>, auctor da <i>Vertuosa Bemfeitoria</i> e um dos homens
+ mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
+ Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Ferno Lopes. O
+ ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
+ navegaes, o fundador da chamada <i>Escola de Sagres</i>, o mais poderoso, o
+ mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
+ sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal o
+ senhor D. Augusto, conhecido de todos ns por o termos visto passar no
+ Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
+ hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
+ nacional, que o acompanhram e que fizeram grande impresso na City,
+ onde os tomram por duas vaccas sem pernas. Eram os bas de sua alteza,
+ feitos na rua dos Correeiros.
+</p>
+<p>
+ Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
+ Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhes, Diogo Co, Pedro da Covilh,
+ Gaspar Crte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
+ exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
+ Henrique e seus irmos souberam attrair a Portugal, que procederam
+ escriptores como Ferno Lopes, Gomes Annes de Azurra, Gil Vicente, Joo
+ de Barros, Damio de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Cames, talvez o
+ mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
+ hoje, a no ser por influencia de alguns professores precitos e
+ apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
+ official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
+ que vo para administradores de concelho ou para amanuenses de
+ secretaria.
+</p>
+<p>
+ No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
+ instruido. certo que no sabia ler. Mas saber ler no constitue
+ propriamente instruco, mas sim um dos meios de instruco. Ora o povo
+ dispunha ento de outros meios superiores leitura. O marinheiro e o
+ soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
+ confeco das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
+ Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
+ de ento no sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
+ fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da <i>Historia
+ tragico maritima</i>, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
+ mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pde gloriar a
+ litteratura de uma nao.
+</p>
+<p>
+ A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
+ instruco! E conclue d'esse absurdo que um povo pde attingir a
+ prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
+ accumuladas contradies do seu texto, em que s. ex. ora apostolo da
+ instruco, ora apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
+ seria apenas inoffensivo. S. ex., porm, conclue a sua notavel falla
+ mandando para a mesa o seguinte additamento lei que se estava
+ discutindo:
+</p>
+<p>
+ <i>O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
+ ensinar ou inculcar doutrinas contrarias religio catholica, moral,
+ liberdade e independencia patria ser demittido nos termos d'este
+ artigo, independente da aco criminal que deva ser intentada. Os paes,
+ tutores ou pessoas encarregadas da sustentao e educao das creanas
+ podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
+ professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo</i>.
+</p>
+<p>
+ Eis ahi o que se no admitte, porque esta disposio legislativa
+ proposta por s. ex. produz a fixao legal dos seus principios a
+ respeito da instruco, isto : que deve haver instruco e ao mesmo
+ tempo que a no deve haver. No outra coisa seno eliminar a
+ instruco, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
+ de processo e demisso immediata do professor, aos principios da
+ religio catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um to
+ profundo abysmo entre a concepo theologica e a explicao scientifica
+ dos phenomenos do universo, que toda a conciliao hoje impossivel
+ entre o mestre e o padre. No duvidamos que o christianismo possa ainda
+ reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
+ e definitivas conquistas do entendimento humano. O que certo porm
+ que a direco reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
+ desde a Reforma at hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
+ aspirao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
+ sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
+ interesses oppostos impossivel. Pedimos licena ao sr. conde do Rio
+ Maior para lh'o provar.
+</p>
+<p>
+ Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que o diluvio
+ universal, que lhe pergunta qual a idade da terra, que lhe pergunta o
+ que o homem pre-historico, o que so as florestas carboniferas, o que
+ o arco-iris, o que o pra-raios, o que transformao das especies,
+ o que a Torre de Babel, o que o Eden; supponhamos que o alumno faz
+ ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
+ formular cerca das affirmaes da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
+ A essas perguntas o mestre no pde responder seno com o erro ou com a
+ heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptram a sua
+ emenda lei da reforma da instruco portugueza desejam que o mestre
+ responda pelo erro.
+</p>
+<p>
+ Mas isto peior do que pr de parte a sciencia; isto , recebel-a para
+ a contradizer e para a destruir; isto converter a ignorancia publica
+ em uma instituio do Estado.
+</p>
+<p>
+ Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, luz de uma
+ lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
+ disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
+ apagou-lhe a lanterna.
+</p>
+<p>
+ Quem foi que deixou no mundo esta lio?
+</p>
+<p>
+ Foi o theologo.
+</p>
+<p>
+ Um povo ignorante um povo em trevas, cuja lanterna a instruco. O
+ legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz o sr. conde
+ de Rio Maior.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Notemos porm um facto consolador:
+</p>
+<p>
+ O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
+ sensivel diminuio de fora. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
+ de um velho sangue que se decompe e se dessora. A ida que elle tem no
+ cerebro uma ida que se extingue.
+</p>
+<p>
+ Ha cem annos s. ex. teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
+ para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demisso
+ do professor e o processo pelos tribunaes civis.
+</p>
+<p>
+ Inclinemo-nos diante de to manifesta mansido!
+</p>
+<p>
+ Nos fins do seculo XVI o <i>pendo da santa doutrina</i>, um lugubre pendo
+ negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
+ fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era ento o professor idealisado
+ pelo sr. conde de Rio Maior:<i>era o homem de ordem, temente a Deus</i>,
+ argumentando a doutrina christ a este povo. Todas as mulheres e todas
+ as creanas saiam s portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos ps do
+ tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
+ amortalhada de negro, de cruz alada, tangendo uma campainha, como quem
+ leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
+ pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
+ tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
+ methodos porque se mortificam os impetos da carne.
+</p>
+<p>
+ Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
+ os estudantes missa, do que colhiam nas sacristias uma certido sobre
+ a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
+</p>
+<p>
+ Hoje a parte disciplinar da nossa educao religiosa caiu com o pendo
+ negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinria, resta apenas a
+ cartilha de Padre Mestre Ignacio.
+</p>
+<p>
+ E sobre essa cartilha solitria, em torno da qual caram dissolvidas a
+ uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
+ instituio civil, sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
+ sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
+ portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
+ ensino publico de uma nao!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as <i>Farpas</i> no cessam de elevar
+ aos cus em todas as manhs e em todas as tardes:
+</p>
+<p>
+ <i>Meu Deus, tornae ridculos os nossos inimigos!</i>
+</p>
+<p>
+ O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
+ instruco indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
+ orao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
+ <i>Farpas</i>, um crio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
+</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
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+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
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+de Lisboa.
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+
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+</html>
diff --git a/old/13093-h/images/devil.png b/old/13093-h/images/devil.png
new file mode 100644
index 0000000..13a77a6
--- /dev/null
+++ b/old/13093-h/images/devil.png
Binary files differ
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index 0000000..92c5fa0
--- /dev/null
+++ b/old/13093.txt
@@ -0,0 +1,2266 @@
+The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Fevereiro a Maio 1878
+by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+
+Author: Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+Release Date: August 2, 2004 [EBook #13093]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ASCII
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
+
+
+
+
+[Illustration: ECA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGAO AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGAO--ECA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878
+
+Ironia, verdadeira liberdade! Es tu que me livras da ambicao do poder,
+da escravidao dos partidos, da veneracao da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiracao das grandes personagens, das mystificacoes da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da supersticao d'este grande
+universo, e da adoracao de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Leis organicas das sociedades e disposicoes regulamentares dos estados:
+de como a sociedade as distingue para os effeitos da sanccao penal. O
+caso da sr. D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
+gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
+Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituicao da
+raca humana pela gymnastica. Reconstituicao da ideias parlamentares pela
+mesma gymnastica. Indicacao de alguns exercicios para uso dos dignos
+pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nacao_. Mostra-se que o milagre
+nao presta. Ensina-se a _Nacao_ o que sao milagres e prova-se-lhe que
+ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
+criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
+personagem desde o seculo XVI ate a ultima facada no Bairro Alto--A
+ideia velha e a ideia nova.--Uma opiniao de Tyndal acerca dos atheus.
+Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin acerca das rasoes porque crescem
+os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
+da instruccao primaria mostrou nao ser aquelle philosopho nem aquelle
+carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
+educacao burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltroes. A
+covardia, instituicao publica, etc.
+
+Todos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
+pertencendo a duas classes distinctas:
+
+1. Crimes resultantes da infraccao das leis organicas da sociedade;
+
+2. Crimes resultantes da infraccao das disposicoes regulamentares dos
+Estados.
+
+Emquanto as sociedades se nao acham constituidas segundo o direito
+absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
+isto e, emquanto as sociedades nao attingem um desenvolvimento
+intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
+organisacao, distinguindo o que n'ellas e difinitivo e organico do que e
+convencional e contingente,--n'essas sociedades nao podem dar-se senao
+os crimes da segunda d'aquellas classes. E assim que vemos nas
+civilisacoes antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
+ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
+communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
+
+Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entraram no
+periodo scientifico da sua evolucao moral, como presentemente succede em
+toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
+tomaram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
+nos referimos, porque se comprehendeu que elles nao violam unicamente um
+regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
+vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregacao que constitue o grande ser
+collectivo.
+
+ * * * * *
+
+A sabedoria da legislacao penal manifesta-se na mais justa e perfeita
+demarcacao dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
+
+Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
+repressivos da infraccao das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
+punicao imposta a contravencao dos seus estatutos regulamentares,
+distinguindo graduacoes na culpa segundo a importancia dos interesses
+feridos pela perpetracao do delicto.
+
+E em virtude d'este criterio que sao punidos com severidade,
+unanimemente exigida pela opiniao, os attentados contra o interesse do
+commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
+interesses sao considerados os mais importantes das sociedades modernas;
+ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
+pela razao de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
+arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
+conseguinte a civilisacao rejeita como um acto de prepotencia e de
+vinganca.
+
+Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
+forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
+muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
+politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: "Sao mais do que
+crimes, sao verdadeiros erros!"
+
+Posto isto, vejamos qual e o estado da mentalidade portugueza afferido
+pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e as respectivas
+sanccoes penaes.
+
+ * * * * *
+
+Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
+Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
+
+No caso de Joanna Pereira vemos tres reos confessos e convictos de tres
+crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
+meio da chlorophormisacao; o carroceiro, da remocao de um cadaver; todos
+tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
+
+Como procede a sociedade? Nao tomando conhecimento de nenhum d'estes
+attentados e despedindo os reos em paz!
+
+No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo e accusado de ter
+falsificado uma certidao de edade para o fim de salvar um mancebo do
+recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
+oito annos de degredo para a costa ds Africa!
+
+O primeiro caso e um triplice attentado contra a ordem social. A
+sociedade nao so o nao pune mas nem sequer o julga.
+
+O segundo e uma contravencao de um regulamento administrativo. A
+sociedade nao so o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
+
+ * * * * *
+
+Nao analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
+co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
+o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnacao d'este e uma
+iniquiedade monstruosa.
+
+O crime do que e accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
+oito annos de degredo, e crime unicamente perante a letra de um
+regulamento de caracter nao so transitorio mas arbitrario--o regulamento
+do servico militar.
+
+O parocho foi condemnado por tentar salvar do servico um recruta.
+Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, so pode involver
+intencao criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
+Viciar a data de uma letra ou de um contrato e indubitavelmente um grave
+crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
+da propriedade. Mas alterar a data de uma certidao de baptismo, para o
+facto de isemptar do servico militar um cidadao, nao e offender um
+interesse social; e o contrario d'isso: e servir o interesse que todas
+as sociedades teem em que deixe de haver militares.
+
+ * * * * *
+
+O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
+punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
+estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
+analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios a
+civilisacao e a humanidade. Daria em resultado a eliminacao do
+militarismo e da guerra.
+
+Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores nao foram
+punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
+ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
+
+Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
+vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
+mortos.
+
+Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
+todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_
+
+Finalmente, para o facto da seleccao da especie, os maridos seriam
+substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
+alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
+convertendo aos pianos, reforcados pela aguardente, nos unicos
+instrumentos da perpetuidade da raca.
+
+ * * * * *
+
+Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
+os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
+unicamente a sociedade os nossos cumprimentos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Por occasiao de se discutir no parlamento a reforma da instruccao
+primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopcao da
+gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opiniao de que a
+gymnastica tinha um caracter immoral.
+
+S. ex. parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
+do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
+pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as maos
+e de pernas para o ar. Isto effectivamente nao seria bem visto. E
+comprehendemos que s. ex. sinta uma certa porcao de rubor pensando que
+ao dirigir n'um salao as suas homenagens a uma dama esta podera vir um
+dia a retribuir os cumprimentos de s. ex. aferrando-o pelos rins e
+obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeca no espaco
+que medeia entre o tapete e o lustre.
+
+Cremos porem que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
+directamente de um nobre desdem votado por s. ex. a algumas habilidades
+da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
+ex. tenha da coisa que fora das feiras se nao chama a _sorte de forcas_
+mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.
+
+ * * * * *
+
+Um illustre medico allemao, o doutor Schreber, director do instituto
+orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformacoes do
+nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciacoes na configuracao
+dos ossos da bacia, viciacoes que inhabilitam muitas mulheres de serem
+maes, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
+escola e que so podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
+racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher podera
+chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
+correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
+s. ex. para alvo das suas predileccoes pelo pugilato athletico.
+
+ * * * * *
+
+O mesmo doutor Schreber assevera que e indispensavel introduzir o uso da
+gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
+mulheres padecam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
+frequente e resultante da posicao forcada em que as raparigas se
+conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
+acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
+sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
+a espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
+depois a operar sobre a regiao abdominal de s. ex. as experiencias
+dynamometricas, cuja perspectiva lanca no animo pudibundo do digno
+procere um tao ligitimo horror.
+
+ * * * * *
+
+A physiologia moderna tem mostrado que a saude nao e mais que o justo e
+perfeito equilibrio das differentes forcas inherentes ao nosso
+organismo. A hygiene tem provado com muitas observacoes e fundada nas
+mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
+todos os nossos membros e de todos os nossos orgaos e o unico meio de
+manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisacao d'esse
+exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
+
+Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
+hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulacao do
+sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
+
+Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
+phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
+loucura sao outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
+mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
+apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
+que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
+revelacoes, demonstra que existem estreitas e precisas relacoes de causa
+para effeito entre as variacoes da circulacao e os differentes graus de
+actividade cerebral. A abolicao da memoria, a perversao das sensacoes,
+todos os casos de nevropathia cerebral sao resultantes de uma falta de
+cadencia na vibracao dos centros sensitivos causada por um embaraco da
+circulacao sanguinea no encephalo. Na Italia estao-se curando as
+alienacoes mentaes pela transfusao do sangue. O medico Ponza, do Grande
+Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
+de cura de alienados pela transfusao hypodermica.
+
+Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispoe para activar e
+regularisar a circulacao, de tanta importancia para a actividade
+central, e a gymnastica.
+
+O celebre hygienista Lacassagne diz: "Um exercicio muscular geral, feito
+em boas condicoes, produz os effeitos de uma transfusao de sangue."
+
+ * * * * *
+
+Ha estados morbidos cuja localisacao no organismo escapa muitas vezes a
+indagacao e a sagacidade dos clinicos. Esta-se doente sem haver
+apparentemente perturbacao alguma nas funccoes physiologcas. O symptoma,
+frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
+diminuicao do noso peso com relacao a unidade do nosso volume. A mais
+segura medida da saude e a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
+para tornar mais denso o corpo humano? Ha. E o regimen da gymnastica. O
+doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
+gymnastica militar da Faisanderie, em Franca, constatou, pelas
+observacoes feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
+effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto e acrescentar a
+densidade de 6 ate 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
+exercicio.
+
+ * * * * *
+
+Em um paiz onde a tisica faz tao grande numero de victimas como em
+Portugal, e util accrescentar ainda que uma das propriedades da
+gymnastica e desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
+a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
+doutor Burq.
+
+ * * * * *
+
+A forca muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
+densidade, n'uma proporcao de 15% nos quatro primeiros mezes dos
+exercicios gymnasticos.
+
+ * * * * *
+
+A hygiene de musculatura e um facto de primeira importancia para a saude
+desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
+tecidos vivos se reconheccu que a sede principal da combustao
+respiratoria e o musculo. Os differentes estados do musculo influem
+directamente na composicao do sangue. O exercicio e portanto um poderoso
+modificador do sangue e como tal actua em todas as forcas do nosso
+organismo. Mas nao ha senao uma especie de exercicio com propriedades
+hygienicas e therapeuticas: esse exercicio e a gymnastica.
+
+ * * * * *
+
+Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faca o obsequio de considerar
+que so e um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
+constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allema. O
+doutor Sebreber demonstra que a unica occupacao que sujeita quem a
+exerce a um exercicio inteiramente harmonico, e a occupacao da
+jardinagem. Todo aquelle que nao for jardineiro tem de appellar para um
+methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
+equilibrio as acquisicoes e os dispendios de cada um dos seus orgaos.
+
+ * * * * *
+
+Taes sao, resumidamente expostas, algumas das razoes que militam em
+favor da gymnastica. Em contraposicao a estes argumentos nao sabemos
+senao de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex. os nossos rogos
+mais fervorosos para que s.ex. nao core diante da gymnastica, impedindo
+assim o paiz de por em pratica o melhor meio de regenerar a sua
+constituicao atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
+ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
+de reagir contra a hypocondria e contra a preguica, contra a atonia dos
+nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
+gotta, contra as affeccoes pulmonares, contra as escrophulas, contra a
+obesidade e contra a idiotismo.
+
+ * * * * *
+
+Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licenca para incluir o mesmo
+sr. Vaz Preto, estao contaminados por enfermidades que a gynmastica
+previne e corrige. De modo que uma boa administracao pedia que
+gymnastica nao so fosse decretada para as escolas mas tambem para as
+duas casas do parlamento.
+
+Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemas, suecas, os
+exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
+para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
+todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
+quanto estes exercicios sao uteis nao so ao desenvolvimento physico mas
+ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
+introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
+n'aquellas em que a gymnastica nao existe.
+
+Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
+esqueceu uma disposicao--precisamente a unica que teria alcance--um
+artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
+em cada sessao, as suas locubracoes legislativas, para fazerem
+gymnastica ao som de um orgao, como nas escolas americanas.
+
+O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
+obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
+que--digamol-o francamente--o que e o _cachenez_ do nobre duque
+presidente senao o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
+mais caracteristico de que s.ex. nao tem gymnastica nos musculos do
+pescoco e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
+felicidade do paiz, que tao estreitamente depende da preciosa saude do
+nobre duque, s.ex. deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
+d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
+erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
+desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
+seguintes movimentos:
+
+Voltar vigorosamente a cabeca para a direita e para a esquerda (100
+vezes); fazer girar o pescoco, na sua maxima flexao, sobre o peito e
+sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
+(100 vezes); fazer o movimento de quem mede bracas (100 vezes); tomar
+fortes e profundas aspiracoes de ar (25 vezes). Depois do que, s.ex.
+reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomecaria a
+meditar sobre a felicidade da patria.
+
+No mesmo sr. Vaz Preto o que e verdadeiramente a revolta do seu pudor
+perante a adopcao da gymnastica nas escolas senao o indicio de uma lesao
+mental concomitante e ate certo ponto compensadora da obesidade? Pois
+nao e sabido que jamais a excessiva nutricao deixa de ser acompanhada
+reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
+sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
+indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
+seguintes:
+
+Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
+tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
+(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz ate o
+limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
+quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
+Depois do que, s. ex. revestiria ameacadoramente as suas calcas e
+continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
+
+ * * * * *
+
+Se porem a todas estas consideracoes for insensivel o sr. Vaz Preto,
+n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
+gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex. um expediente extremo:
+Velar-lhe a face!
+
+
+ * * * * *
+
+
+A _Nacao_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
+cego ja ve, a paralytica ja anda_.
+
+ * * * * *
+
+Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nacao_ desse cabimento
+nas suas columnas um milagre tao miseravel, tao safado, tao reles como
+esse! Com effeito! foi entao para isso, para esse milagrotesito de
+cacaraca, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
+foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
+que a sr. condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
+reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
+os fazer ver e para os fazer andar os levou tao longe?! ... Ora muito
+obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
+
+A sr. condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
+collaboraram com s.ex. na bonita obra da peregrinacao teem obrigacao
+restricta de abrirem immediatamente uma subscripcao para o fim de
+indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
+lhes deram. Porque nos--e a _Nacao_ bem o sabe!--nos temos devocoes
+locaes, temos devocoes ahi da Baixa, que nos affirmam e affiancam, sob a
+auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
+resultados obtidos pela romagem.
+
+Pois que! A agua de Lourdes ao pe da bica, na propria gruta, por conta e
+na presenca da santa, nao ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
+agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
+vezes impuras, quantas vezes com mas rolhas?!
+
+Nao vimos nos ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
+enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
+que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
+locomotores com agua das latas?!
+
+E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr. condessa do Sarmento
+para se metter as estradas e para ir por ahi fora em bracos ate Lourdes,
+chega la e nao obtem mais nada senao o que obteve a outra sem sair do
+largo de S. Roque?
+
+E ainda ousam dizer-nos--o que nao pode ser senao por escarneo--que ella
+_andou!_? Olha a grande facanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
+trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
+correr, correr a sete pes, e trazer de la para esse fim cinco pernas a
+maior do que as que levou!
+
+Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
+lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaro que lhe fazia o
+milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
+opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
+sua devida altura, que o homem nao so principiasse a ver pelos olhos mas
+que visse tambem por outros membros.
+
+Isso entao ja valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
+a _Nacao_ o publicasse em telegramma: "O padre cego appareceu-lhe um
+olho em cada buraco do nariz e esta-lhe a vir outro na cova do ladrao,
+pelo qual ja le as suas rezas de costas na cama com o breviario por
+baixo do travesseiro. A paralytica ja deitou seis pernas novas e esta
+com dois grandes furunculos nos hombros: suppoe-se que sejam as azas a
+romper. Quando se lhe espremem os carnicoes bota pennas. Infinitos
+louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela cor dos voadouros
+vemos que a paralytica nos sae pedrez!"
+
+Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
+ordem, porque os ha muitos maiores.
+
+ * * * * *
+
+Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
+coisas ao pe das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito e zero.
+
+O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doencas,
+das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
+balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que nao podemos por em
+duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
+demonstrada por casos de protecao, de conversao e de curas miraculosas_,
+pelo revd. padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
+Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
+exemplos.
+
+Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botao
+dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
+das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
+emquanto caem e continuam a leitura em baixo, tracando a perna n'um
+estado do satisfacao ineffavel.
+
+O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreicao do Var, com um
+escapulario ao pescoco, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
+os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
+illeso. "Nao nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!" disse por
+essa occasiao um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
+
+No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lancar ao meio
+das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
+o escapulario encontrou-se intacto. "Apenas, diz o padre Huguet na obra
+citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco." (Pag. 17.)
+
+Um soldado na batalha de Novara ve cair em torno d'elle todo o
+regimento, elle e o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
+acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braco. (Pag.
+20.)
+
+Um desgracado, querendo suicidar-se, lanca-se ao mar quatro vezes
+consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o a praia, recusando-se
+obstinadamente a submergil-o. O desgracado recorda-se entao que traz ao
+pescoco um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
+o escapulario em terra. Foi somente com esta condicao que o mar se
+resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
+
+Alem de livrar de todos os perigos, sem excepcao, durante a vida, o
+escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
+
+O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Colleccao dos
+escapularios da Immaculada Conceicao, do Rosario, do Carmello, etc._,
+diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
+pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes sao
+arrebatadas pelos escapularios. Parece que nao ha dia em que um milhao
+de diabos nao roguem esta praga medonha:--Que nos levemos os
+escapularios!
+
+As approvacoes pontificaes de todos os papas, desde Joao XXII ate Pio
+IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
+
+O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
+para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
+perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
+arranje a morrer com o escapulario na sexta feira a meia noite, podem os
+facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hao de ver
+por um oculo!
+
+O uso do escapulario e extremamente commodo: nao obriga a encargos de
+nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
+da confissao e da communhao. Tambem nao priva o penitente de qualquer
+prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.
+Guglielmi. O essencial e nao o tirar nunca, nem mesmo _quando
+voluntariamente se vae peccar_: e o que mais particularmente prescreve o
+dito padre Guglielmi.
+
+De todos os escapularios o que mais se recommenda a eleicao dos devotos
+e o do Sagrado Coracao de Jesus, porque este escapulario nem sequer
+precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
+seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
+seguinte: Sobre um pequeno retalho de la branca--retalho quadrado ou
+oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
+virtude--applica-se um coracao de flanella encarnada, bem talhado e
+cosido a pesponto, de modo que imite a coroa de espinhos acompanhada de
+algumas gotas de sangue bordadas a seda. Aparte, em uma tirinha de panno
+patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripcao
+sacramental: _Suspende! Esta comigo o coracao de Jesus_!
+
+Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
+d'estes escapularios, deital-o ao pescoco e ficar livre, para a vida e
+para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
+alto das torres, atirar-se as voragens do fogo e do mar, e metter-se
+debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, nao
+fara a _Nacao_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
+de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nacao_, o mais que faz e
+unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
+
+Ha umas tantas coisas que a _Nacao_ ate devia ter vergonha de as dizer
+... O que a _Nacao_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
+esse pescoco, para a _Nacao_ ficar entao sabendo o que sao milagres!
+Porque a _Nacao_ nao sabe o que sao milagres!
+
+Por o padre cego a ver e por a paralytica a andar nao passa de uma
+habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
+
+Vir a feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
+proposito para fazer perder a gente o gosto pelas devocoes ...
+
+Emquanto a nos o que a _Nacao_ tem e o espirito maligno no corpo do
+jornal! Cruzes, demonio!
+
+ * * * * *
+
+Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
+de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
+termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
+satisfacao a sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
+fadista. O que temos que perguntar e: Porque se nao prendem os fadistas
+todos?
+
+ * * * * *
+
+Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significacao analoga a
+esta--o _fadista_.
+
+Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
+constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
+dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
+feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
+fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
+toda a sua pureza esta raca de bravos de viella, sem officio nem
+beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
+frecheiros com as mulheres, soberboes e insolentes com os mesteiraes e
+com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursoes
+nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
+os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e acoitando
+os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
+adormecidos.
+
+Entre os alludidos fidalgos figurava como grao-mestre da ordem, como
+capitao da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmao
+do senhor rei D. Joao V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
+interessantissimo principe, cujas tropelias crearam, durante um seculo,
+em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
+conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
+divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
+navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
+mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcancar com
+um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
+seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
+sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
+despegara da verga, que dobara no ar por entre as enxarceas e caira por
+fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
+que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
+que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
+uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
+tarde, com a illuminacao de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
+com a creacao da policia moderna, cessaram os recontros, as arruacas, os
+combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razao
+biologica de que toda a forca organica que se nao exerce se elimina, o
+antigo valentao plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
+espirito da facanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
+vadiice, e tomou entao o nome de--fadista.
+
+O fadista nao trabalha nem possue capitaes que representem uma
+accumulacao de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploracao do
+seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
+elle espanca systematicamente. Nao tem domicilio certo. Habita
+successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
+esquadra da policia. Esta inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
+noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. E um anemico, um covarde e
+um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito e concavo, os bracos sao
+frageis, as pernas cambadas, as maos finas e pallidas como as das
+mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
+enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
+de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
+guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
+grande navalha de ponta e triplice calco na mola. E habitado por uma
+molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
+constituicao normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
+um soco. Elle sente isso e e traicoeiro pelo instincto do inferioridade.
+Nao ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
+obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
+agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
+Nao ha senao uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
+bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
+guitarra debaixo do braco substitue n'elle a espada a cinta, por meio da
+qual se acamaradavam com a nobreza os pimpoes seus ascendentes do seculo
+XVI. E pela prenda de guitarrista que elle entra de gorra com os
+fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
+Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
+onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
+composto de bacalhau e graos de bico polvilhados de vermelho por uma
+camada de colorau picante. Por effeito da tradicao na orientacao mental
+da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
+e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
+taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
+alcouces de Alfama, que sao levantados bebedos dos becos mal afamados,
+que fallam em calao e que fazem trocas no Colete Encarnado e na Perna de
+Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compoe-se hoje principalmente de
+jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
+pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educacao do
+lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
+mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
+fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
+de pandega. Usa como elles a bota fina de tacao apiorrado ou o salto de
+prateleira, a calca estrangulada no joelho e apolainada ate o bico do
+pe, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapeo arremessado para a nuca
+pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
+guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
+desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beico
+pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
+outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplacao
+imbecil; o tronco do corpo caido mollemente para cima do quadril; a
+perna encurvada com o bico do pe para fora; o _cachucho_ da amante
+reluzindo na mao pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
+mao na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeca alta,
+esticando as cordoveias do pescoco e entoando as melopeias do fado, em
+que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devocoes religiosas
+a Virgem Maria, com uma voz solucada, quebrada na larynge, acompanhada
+da expressao physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
+miseravel.
+
+De resto o fadista nao tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
+meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
+na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
+o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
+convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condicoes
+especiaes em que ama e e amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
+restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
+todos os machos.
+
+ * * * * *
+
+E da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
+incorrigiveis da criminalidade.
+
+A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
+recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informacoes de um
+inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
+em tres cathegorias. A primeira cathegoria e composta de individuos que
+verdadeiramente nao deveriam ter entrado nunca na prisao. Sao lancados
+nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
+ou de caracter, a qual nao obsta a que elles tenham uma moralidade tao
+sa como a de qualquer de nos. A segunda cathegoria pertencem individuos,
+mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
+immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
+tornarem bons ou maus segundo a direccao que recebam. A terceira
+cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, e rebelde
+a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
+conselhos. Para estes a cadeia e um logar improrio; seria preciso
+confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
+nao fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
+inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
+grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado nao teria
+senao proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
+presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
+conviria principalmente dar instraccao; emquanto aos terceiros o melhor
+expediente seria a morte.
+
+E util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
+
+E ou nao e da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
+criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
+incorrigibilidade e em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
+repetidos?
+
+A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
+
+E.
+
+N'este caso pergunta-se:
+
+Pode a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
+continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
+uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
+os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
+justica mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
+
+Nao. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
+que o Estado e cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade e
+irresponsavel da perversidade individual, nao succede o mesmo, e a
+sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que e ella que sustenta, ao
+abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
+manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
+
+Dado o fadista, a sociedade nao pode certamente evitar o criminoso. A
+sociedade porem pode evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
+inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
+instituicao concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.
+
+Desde que um cidadao deixe de poder explicar unicamente pelos
+supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
+Estado tem o dever de o prender, nao para encarcerar mas para coagir ao
+trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
+cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
+
+ * * * * *
+
+O mais perigoso de todos os animaes vadios e o homem. Comparado com elle
+o cao, ainda quando damnado, pode-se considerar inoffensivo. E todavia a
+policia, que tem para o cao que ainda se nao damnou as precaucoes da
+rede e da carroca, nao tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
+contagio, senao um expediente repressivo: o de lhe archivar a
+photographia no commisariado geral.
+
+Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
+de garantir a seguranca publica: tire o retrato aos caes e deite a rede
+aos fadistas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
+do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legioes
+contrarias, arrojaram-se encarnicadamente uns sobre os outros,
+esmurraram-se, esguedelharam-se, cuspiram-se na face em odes,
+acoitaram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
+viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regioes
+lombares das musas.
+
+Mysterio sobre as causas que moveram tao crua guerra entre duas escolas
+poeticas alias tao pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
+ellas existissem: a escola da _Idea Velha_ e a escola da _Idea Nova_!
+
+ * * * * *
+
+Os da Idea Velha dizem que nao ha nada como a idea d'elles. E fundam-se
+para isto em que e uma idea solida, experimentada, garantida.
+
+O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
+encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
+annos.
+
+Ergueu-a do chao como morta, chuchada, espipada, moida pelas pegadas de
+duas geracoes, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
+pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
+enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
+inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idea Velha por uma ponta e
+pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
+lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
+fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
+e levou-a comsigo a sociedade, onde a receberam bem. Cercaram-a varios
+outros nao menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
+que aquelle que a levantara do chao. Andou pelo braco de um e pelo braco
+de outro recebendo declaracoes de affecto e dadivas de amor. Mao tao
+dedicada quao firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
+Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
+spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, as solemnidades
+publicas, as casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
+agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
+_Grinalda_ e no _Almanach de Lembrancas_; dedicou versos a Lapa dos
+Esteios, a Stoltz e a Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
+concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
+as Gracas nas notas da versao portugueza dos _Fastos_. Foi da Assemblea
+da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
+_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmaram, para lhe serem
+agradaveis, o seu amor a lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
+finalmente nas altas regioes officiaes. Foi aos pacos dos nossos reis!
+De quando em quando observava-se que ella comecava de repente a
+encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fora
+insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
+era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
+fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opiniao,
+e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo a Idea Velha. O
+poder moderador, com a sua real coroa na cabeca e o seu real manto as
+costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
+Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
+achando-se tao chupados e tao desfallecidos como a propria idea que eram
+chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
+retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
+as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
+choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
+seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
+tinham tido a honra de bufar a mesma idea e pelo mesmo canudo que
+servira a primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
+estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assemblea da
+Galocha e os empregados publicos do Gremio nao o permitiam, e torcendo
+altivamente o bico das peras, diziam que a Idea se nao se podia por a
+merce da populaca infrene e ignara. Vivendo assim a custa do sopro dos
+poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
+conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
+Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
+Idea, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
+entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoco a
+condecoracao do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
+ajoelhou-se-lhe aos pes e propoz-lhe leval-a as aras de Hymenen; ella
+porem, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
+exclusiva do vate. Este, de pura dor, pregou na parede um prego e
+suspendeu n'elle, por um laco de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
+
+Nos ultimos annos a Idea Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
+communicacao das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
+Algumas pessoas devotas tinham-lhe ja resado por alma. Soube-se agora,
+com grande satisfacao dos que a conheceram no galarim, que a Idea Velha
+ainda esta viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
+onde nao ha outra idea de dentro para o servico da familia.
+
+ * * * * *
+
+Os da Idea Nova teem esta falha notavel: suppoem que a Idea velha
+vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
+que prepondera nos destinos do mundo, E veem-se mocos honestos e
+engracados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
+pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
+se fosse uma forca da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
+ha meio seculo nao passa do um artificio convencional e de uma
+superfetacao litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
+nenhum dos interesses do espirito ou do coracao do homem no tempo
+presente.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_O Primo Bazilio_, novo romance de Eca de Queiroz, e um phenomeno
+artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
+obra e preciso discriminar o que n'ella pertence a jurisdiccao da arte e
+o que pertence aos dominios da pathologia social.
+
+ * * * * *
+
+Eis a doenca que este livro accusa:--A dissolucao dos costumes
+burguezes.
+
+O mais caracteristico symptoma d'esse mal e a falsa educacao. A educacao
+burgueza tem um defeito fundamental: mantem na mulher a mais terrivel, a
+mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
+No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
+apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
+ver porque.
+
+Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
+desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
+representacao da vida exterior e o systema da vida intima.
+
+Basta olhar de fora para as casas, basta considerar o aspecto exterior
+do templo para se fazer uma idea do que pode ser dentro o culto d'essa
+religiao--a familia!
+
+Comparem-se as nossas edificacoes urbanas, os casaroes da
+baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
+asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
+a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
+graciosas construccoes arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
+com o seu claustro interior, o poco de marmore ao centro do pateo, as
+galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
+pequeno jardim, que e o coracao da casa. Comparem-se com as sabias
+edificacoes modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
+Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
+predios do bairro central de Lisboa ao pe dos novos predios de esquina
+de rua no Hanover. As novas casas allemas no stylo gothico francez,
+modificado segundo as exigencias da civilisacao moderna, sao obras
+primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensao da hygiene, da
+moral, da estetica; sao verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
+systema de educacao. Construidos exteriormente de tijolos de tres cores,
+branca, cor de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terracos
+cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
+cantam os passaros, de balcoes em que desabrocham as flores sempre
+frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
+outros tantos ramalhetes, sao interiormente distribuidos do modo mais
+elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
+nobres prazeres da familia. A disposicao mais escrupulosamente estudada
+do salao, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
+todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
+luz e bom ar, permitte as mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
+activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
+
+As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
+parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
+verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguao sombrio e infecto,
+com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogao por baixo
+das cacarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
+rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
+queimada, sao os sepulchros da saude e da alegria.
+
+E n'essa serie de prateleiras, de gavetoes de familias, que se chamam os
+_Arruamentos da Baixa_, que e educada a lisboeta.
+
+Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
+recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observacao:
+
+"Noto um facto que me enche de perturbacao e de horror--n'esta cidade
+nao ha creancas."
+
+Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
+bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
+balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas cor de palha,
+desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
+musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
+musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
+ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
+largo de Camoes, da praca das Flores, do Aterro: la encontramos
+effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas nao
+encontramos uma unica creanca, a cuja saude sua mae se tivesse
+sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaco de tempo a sua
+preoccupacao de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
+com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
+seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
+fresco.
+
+Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
+frequentam as lojas ou fazem visitas, onde e que estao as creancas? As
+creanca estao dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
+proposito. Tomar proposito_ e uma locucao essencialmente local e
+intraduzivel, que quer dizer: aprender a nao saber andar, a nao saber
+rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
+instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
+menina so principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
+indispensavel para nao tagarellar imprudentemente, para nao contar que
+houve favas para o jantar ou que o papa ralhou com a mama. Haver favas
+para o jantar e ralharem o papa e a mama e de resto tudo ou quasi tudo
+quanto se passa em casa, porque nao ha interesses de espirito, nem ha
+instructivas occupacoes praticas. Falta o jardim, a grande escola da
+infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
+e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
+flores. Tambem nao ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
+jornal e os romances das traduccoes baratas. Nenhuma especie de estudo.
+Nenhuma applicacao intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
+da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
+aprende o francez e o inglez. Esta educacao completa-se em casa
+ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educacao sao
+appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
+linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salao tocado no piano
+diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
+funccao sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
+suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
+jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
+Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Nao leu ou
+nao entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
+Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
+
+Nao a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
+completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
+phenomenos.
+
+Nao a distraem os interessantes cuidados do _menage_, porque da casa,
+assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
+nenhumas nocoes da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
+das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
+actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tao
+moralisadores e tao attractivos, teem para ella o caracter de um mister
+gnobil, desprezivel, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
+essencia da cozinha nacional, a discricao de uma criadagem villa, que
+retribue o desprezo de que e objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
+casa o que ella sabe unicamente e que ha duas ou tres salas de apparato
+que se mostram as pessoas de fora; um quarto mais ou menos infecto, uma
+possilgueirinha mobilada pelo Garde, em que ella dorme ate as dez ou
+onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que da
+respostadas; e uma latrina contendo um fogao em que por meio de varias
+borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
+
+Na religiao ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
+a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
+elegantes: as romagens a fonte de Lourdes; a oracao em frente da gruta
+no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
+de Roma; a contriccao aos pes do summo pontifice, coberta de renda
+preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
+do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
+orgaos solucam e o sol coado pelas vidracas coloridas se espelha nas
+couracas dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
+desembainhadas. Presta ainda bastante consideracao as interessantes
+ceremonias da elegante religiao nacional, como a do Mez de Maria na
+bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas acucenas, fresquinha
+e graciosa, similhante a uma _bomboniere_, ou como a da Semana Santa nos
+Inglezinhos, a cuja _petite entree_ destinada aos intimos rodam os
+_coupes_ magnificos da piedade escolhida.
+
+Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
+seu _benitier_ barato; pelo Deus da procissao do Carmo e da procissao da
+Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
+arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
+tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella nao tem senao duvida ou
+desdem.
+
+Na moral as suas conviccoes baseiam-se em uma serie de principios
+theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
+contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusao: que o
+dever consiste na mais habil combinacao que se possa fazer d'essas
+theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
+resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
+sociedades corruptas:--o socego.
+
+Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto e, principia a
+ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
+os homens. Percebe entao vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
+regiao social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
+do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
+raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
+da _toilette_; com uma cabeca oca; n'um quarto que nao cheira bem; tendo
+um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcao, que pensa pela
+cabeca de um jornal barato e mal feito, e uma mae que se enfastia
+medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
+cntra o destroco dos annos e contra o preco crescente dos generos
+alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
+aguadeiro, ralhando com o marido.
+
+Principia entao a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
+domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
+quarto sem tradicoes, sem historia, como o de uma estalagem; o saguao
+infecto, onde zumbem no verao as grandes moscas gordas e pesadas; a
+cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
+cacarolas gordurosas e as loucas esbotenadas; a sala pretenciosa e
+inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
+arabes defronte do sofa, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
+retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
+de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordao no
+meio dos cortinados.
+
+Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distinccao
+decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
+similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
+Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
+nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
+a sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
+mais simples, mais triviaes, e e para se dar um aspecto superior, para
+se encobrir do que e, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
+a respeito dos criados que nao tem, das visitas que nao faz, da opera
+que nao viu, dos livros que nao le, da modista a que nao vae, dos banhos
+que nao toma, dos jantares que nao come, das dignidades, das distinccoes
+ou do luxo que nao usa.
+
+Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
+romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas nao
+lhe sae o que quer: nao sabe organisar aprazivelmente a casa, nao sabe
+tornar encantadora a familia.
+
+Humilhada, infeliz, comeca a descorcoar a pouco e pouco da sua
+predestinacao superior. Sente que ha na sua constituicao moral uma falha
+da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspiracoes.
+Nao se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
+serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que e o resultado da
+perfeita educacao.
+
+Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
+superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheca o facil
+processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella caira com uma
+simplicidade tragica.
+
+O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condicoes, e o
+dandy. Porque o dandysmo e a unica forma sob a qual a distinccao se lhe
+apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
+pensamentos tera para ella menos seduccoes do que uma cabeca bem
+penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
+uma fina risca cor de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
+espirito, nenhuma delicadeza de coracao, nenhuma virtude de caracter
+exercera sobre a imaginacaoo d'ella a fascinacao com que a subjuga a
+alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
+seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, sera
+aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
+jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
+se calcar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
+desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
+segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
+mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
+_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
+
+Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
+refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
+tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
+Franca, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando as penetrantes
+essencias de Lubin e a febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
+um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pes d'ella, para lhe dizer
+obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia as outras,
+_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
+suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
+seu joelho desformado pela falta de circulacao proveniente de um defeito
+caracteristico da sua raca, o defeito de nao saber atar as ligas; apezar
+ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
+espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
+do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
+nacional ... Se, apezar de tudo isso, tao desdenhoso, tao frio, tao
+gloriosamente corrupto, tracando a perna, descobrindo desleixadamente as
+suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
+encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
+attenciosa e benevola as scintillacoes do seu correcto _plastron_ de
+Poole, e as exhalacoes frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
+cabello frisado a Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte nao
+sabera negar.
+
+ * * * * *
+
+Tal e o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
+medonho, tragico, sobre o qual Eca de Queiroz escreveu _O Primo
+Bazilio_, romance realista.
+
+Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma conviccao social, e e
+esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo nao tinha
+senao conviccoes esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
+espirito da sociedade que fez a Revolucao, que caiu no Imperio, que
+supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros nao pediam a arte de
+1830 senao uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas entao
+cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
+de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradicoes
+gothicas da edade media e fizeram uma restauracao litteraria e burgueza
+da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipacao
+da forma mais profunda indifferenca pela questoes sociaes do seu tempo.
+Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
+atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
+phylanthropos.
+
+A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. E uma
+sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
+pontos da sua peripheria ate as mais reconditas intimidades do seu ser.
+Esta reconstituicao nao se esta fazendo empyricamente pela revolucao ou
+pela sentimentalidade, esta-se fazendo scientificamente pela
+convergencia harmonica de todos os esforcos intellectuaes sobre o mesmo
+problema. Comprehendeu-se que sao solidarios todos os estudos, os do
+mundo inorganico e os do mundo organico; que sao correlativas todas as
+leis desde a da indestructibilidade da materia ate a da evolucao social;
+que finalmente se nao pode chegar ao conhecimento positivo de nenhum
+phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
+integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle e o elo que
+prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
+
+N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tao estreita,
+que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
+dos ramos da sciencia se reflecte na direccao de todo o trabalho mental
+em qualquer das suas manifestacoes, dando por exemplo a theoria
+zoologica da adaptacao ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
+dizemos, a arte nao pode deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
+trinta annos. Esse papel e-lhe imposto fatalmente pela nova orientacao
+mental da sociedade. A arte moderna nao pode ja hoje basear-se em
+risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
+e para que tenha a importancia de um agente da civilisacao, em factos de
+caracter scientifico, isto e: em factos que sejam a funccao de leis
+sociologicas. Queremos factos, nao queremos exclamacoes: _Res non
+verba_.
+
+Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepcao litteral, que
+se tirou a designacao _realismo_.
+
+Chamar realismo ao que e puramente grosseiro, ao que e descarado, ao que
+e torpe, e calumniar o dogma. Uma obra de arte pode conter o maximo
+numero de torpezas e de obscenidades e nao deixar por isso de ser
+simplesmente lyrica.
+
+O _Primo Basilio_ e um romance realista porque e a representacao de um
+facto social visto atravez de uma conviccao scientifica. Luiza, a amante
+do primo Basilio, e a personificacao tremenda da tendencia morbida de
+uma epoca. E e n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
+Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
+dos livros no premio que n'elles se concedia a virtude e no castigo com
+que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
+afflictiva e um facto accessorio, que nao conteria senao esta moral
+negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
+morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
+cartas.
+
+A moral d'este livro nao esta em que a prima de Basilio morre depois da
+queda; esta em que ella--_nao podia deixar de cair_.
+
+Reconhecemos que esta moral e pouco accessivel a maior parte das
+comprehensoes. Esse e o grande mal do livro, ou antes esse e o grande
+mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppoe um
+estado de civilisacao artistica e litteraria superior a que existe na
+sociedade portugueza. Suppoe manifestacoes parallelas nas applicacoes da
+philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construccoes, na
+hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituicoes, na
+critica dos costumes, na propria critica da arte.
+
+Ora essas manifestacoes nao existem por emquanto n'um estado de
+vulgarisacao que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
+dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
+_Primo Basilio_. A sociedade portugueza nao comprehendeu ainda de um
+modo collectivo e solidario, que e urgentemente indispensavel por todas
+as manifestacoes do pensamento proceder a reconstituicao da educacao
+burgueza.
+
+De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, a mulher nossa
+contemporanea: "Eis--aqui esta o modo pavorosamente simples como tu te
+rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens",--parece um
+insulto aquellas que sao as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
+companheiras de trabalho, as nossas maes, as nossas irmas, as nossas
+filhas. Essa affirmacao, porem, deixaria de ter um caracter
+apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
+
+"Eu nao sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenco. Sou
+uma parte d'essa legiao de trabalhadores dedicados, profundamente
+honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
+ambicao heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
+minha qualidade de artista, a ti mulher que me les, o mais que eu posso
+fazer e commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
+problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
+com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
+romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
+alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereco-t'o eu tal como
+elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
+asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
+meio forcado das gales, friamente calculador, sovina, absolutamente
+podre. E e esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
+em preconceito, de erro em erro, es trazida, atravez de todos os
+elementos que constituem a falsa educacao que te deram, a admirar e a
+proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
+pertenco ha uma religiao, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
+um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
+convergentemente estarao n'este momento--no momento em que eu tenho a
+concepcao artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
+influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
+amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensao nova, assento
+em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. A religiao
+compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
+demittir-se da solucao do teu problema. A politica, emprehender a
+reforma das instituicoes em vista do teu aperfeicoamente. A moral,
+fazer-te comprehender a nocao da justica. A sciencia, o determinar com a
+maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
+applicacao d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. A critica,
+finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porem, nao me competia
+como artista senao uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
+these, fazel-a viver na maxima elevacao esthetica: porque meio? por meio
+da mais perfeita forma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz."
+
+Se com a natureza essencialmente artistica de Eca do Queiroz fosse
+compativel a humildade de uma explicacao n'essas bases, o seu livro
+teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
+artista tem a obrigacao de se nao explicar,--o que seria invadir uma
+funccao alheia na justa divisao do trabalho intellectual moderno. Ha um
+gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
+religiao do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
+como o philosopho deve ser indifferente a theologia, o artista deve ser
+indifferente a opiniao. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
+se por um lado e a condicao essencial da sua missao perante a pura arte
+e perante a pura philosophia, por outro lado ella e a principal causa de
+ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
+a comprehensao dos espiritos e a satisfacao das consciencias.
+
+Taes foram as razoes porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
+_Primo Bazilio_,--uma tao perfeita obra, que a consideramos como sendo
+uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
+gloriar uma litteratura--nos fizemos esta prophecia: Que este livro
+seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados a
+observacao dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
+biologia, instrumentos inuteis--as vezes perigosos--para todo aquelle
+que nao tem a sciencia de os por em exercicio e de ver por elles a
+divina revelacao de um novo mundo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
+Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
+
+"Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
+de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
+desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
+exclamou:--Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta!"
+
+ * * * * *
+
+O _Diario Illustrado_ nao ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
+Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
+_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._
+
+Ora este caso nao se pode deixar assim envolvido na duvida. Sao
+historicas as palavras do sr. Sampaio ou sao puramente uma legenda das
+montanhas, inventada pela imaginacao supersticiosa dos pastores dos
+carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
+de Tarbes? Pode o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
+a authenticidade d'aquellas expressoes? Foi effectivamente o sr. Sampaio
+que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
+Nao seria antes algum dos outros heroes ja celebres na historia da
+cordilheira dos Pyreneus? Nao seria o paladino Rolando, sobrinho de
+Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
+Durindana na batalha de Roncesvalles? Nao seria o proprio Carlos Magno?
+Nao seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
+Champagne? Nao seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
+da belleza da paizagem, entre os valles de Bareges e de Bagnere?
+
+Esta o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
+tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeca do
+sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
+quem, depois de jantar, a janella da hospedaria, palitando talvez os
+dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
+dizeres?
+
+Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.
+
+Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
+effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assas
+convicto em suas crencas, assas profundo em suas vistas e assas firme em
+suas resolucoes, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
+jantar:--_Quem me dera ja na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
+phrase nao e uma ficcao, se ella existe realmente fora do estado
+abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz nao pode cruzar
+os bracos, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tao lucida como a
+que o _Illustrado_ cita marcou a differenca, toda favoravel a nossa
+patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
+ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
+seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
+especial:
+
+1. Rir atraz da procissao dos Passos.
+
+2. Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
+viajante.
+
+3. Nao ter dado pateada a um lente.
+
+4. Parecer constrangido a dar licao.
+
+5. Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+Os alumos condemnados pela perpetracao dos delictos 1, 2, 3 e 4
+appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
+expulsao temporaria em alguns dias de cadeia.
+
+Procedendo d'essa forma o Poder Moderador nao tomou em consideracaoa
+necessidade de fazer proceder a revisao da legislacao academica. O Poder
+teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sancao dos regulamentos
+universitarios as familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
+mostrou ter um coracao do excellente rapaz alliado a um cerebro de
+legislador mediocre.
+
+ * * * * *
+
+Esta pendente da confirmacao regia, segundo nos consta, a pena imposta
+aos reus do crime n. 5, julgados ja segundo o direito commum e
+absolvidos pelos tribunaes civis.
+
+N'esta conjunctura perguntamos:
+
+E admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
+de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadaos de
+uma certa classe estejam sujeitos por uma legislacao especial a serem
+julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punicoes em vez de
+uma, se as duas sentencas forem conformes; ou sendo simultaneamente
+tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentencas forem
+contrarias?
+
+Responder-nos-hao que o tribunal academico julga de circumstancias
+especiaes que nao sao submettidas a apreciacao dos tribunaes ordinarios?
+
+Mas n'esse caso o tribunal academico com relacao ao crime de que se
+trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
+
+Como tribunal escolar a Universidade cabe apenas decidir se o facto de
+sovar um futrica obsta a que se aprenda uma licao.
+
+Com tribunal de honra a Universidade precisa de nao perder de vista que
+quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapes, o deshonrado
+nao e propriamente quem os da, e por via de regra quem os recebe.
+
+Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questoes
+d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltroes e de
+covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
+que ainda possa haver na mocidade portugueza.
+
+Todo o homem que se nao acha devidamente temperado na sua natureza
+physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
+com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, e um homem
+corromido, sem o sentimento do respeito devido a dignidde da sua
+especie, atreito as paixoes mesquinhas, com manhas de reptil.
+
+ * * * * *
+
+Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
+sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
+systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
+honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameacas da
+forca alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
+
+Se porem a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
+cidadaos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
+sempre da instauracao de processos ridiculamente pueris, requerendo das
+cortes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
+atrophiar no coracao da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
+naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
+velha troca academica por meio da instituicao de exercicios viris,
+proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
+escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.
+
+
+ * * * * *
+
+
+No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
+Deus segundo Taine e um personagem official com os seus cortezaos e os
+seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
+Providencia n'um discurso da coroa o chefe do estado fez novo discurso
+para prehencher essa omissao,--na velha, na religiosa, na solemne
+Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocucao
+presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
+seguintes:
+
+"Dir-me-hao que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
+das religioes e comprehendendo os dogmas da theologia e a crenca no
+livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
+fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
+perverso sem esperanca, o coracao do homem, dir-me-hao que se fossem
+abolidas as sanccoes theologicas a raca inteira se modelaria por alguns
+exemplos de depravacao individual. Tornar-nos-hiamos todos ladroes e
+assassinos. Porque e so o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
+medo, nao conheceriamos mais do que o instincto natural e
+desconheceriamos o dever.
+
+"Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
+conclusoes. O scelerado nao e em minha opiniao a imagem da humanidade.
+_Bebamos e comamos porque temos de morrer amanha_ nao e a consequencia
+ethica da regeicao dos dogmas.
+
+"As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos sao taes que nenhum
+christao se envergonharia de as professar, e nenhum christao as censura
+senao desde que conhece a origem de que ellas procedem.
+
+"Reconheco de todo o coracao e sou o primeiro a admirar a irradiacao
+espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religiao produz na vida de
+varias pessoas que conheco. Mas nao posso tambem deixar de confessar que
+muitas vezes a relligiao passa por estrondosas derrotas ao procurar
+produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeao da religiao e
+frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differencas
+procedem de distinccoes primordiaes de caracter que a religiao e
+insufficiente para nivelar.
+
+"Da uma verdadeira satisfacao o sabermos que existam no nosso gremio
+homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
+e cuja vida, nao obstante, experimentada na pedra de toque de uma
+moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
+d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designacao offensiva.
+
+"Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
+aquelles termos, nao que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
+comparados a muitas nocoes sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
+em si um caracter offensivo.
+
+"Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel a
+sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
+eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
+cidadao justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
+atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tao firmes na
+morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles nao esperavam a coroa
+celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tao
+zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
+emprego dos seus ultimos momentos."
+
+Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
+e christao, o outro nao.
+
+O christao e Faraday, que Tindal considera um modelo da associacao da fe
+religiosa com a elevacao moral. O seu caracter e o mais proximo da
+perfeicao. A religiao era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolacao
+dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
+peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
+comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
+delicada flor da cavalleria.
+
+O que nao e christao chama-se Darwin. Nao tem o ponto de vista
+theologico nem a commocao religiosa que constituiam um tao poderoso
+agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeicao moral de
+Faraday. "O sr. Darwin, diz Tyndal, e uma natureza candida e simples, um
+caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
+e o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tao docil as ordens da
+verdade como o patriarcha antigo as ordens do seu Deus."
+
+ * * * * *
+
+Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
+verdade, de justica e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
+de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
+exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente a cultura da
+intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
+moral independente de toda a especulacao theologica. Que fecunda these
+para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
+presente dos espiritos, em que as conviccoes do homem estao geralmente
+em contradicao com as crencas da esposa e da filha, e em que tao
+necessario se torna portanto a harmonia moral da familia o principio
+fundamental da conciliacao das consciencias!
+
+ * * * * *
+
+Na reuniao do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
+mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
+Haute-Saone, expoe com uma concisao profundamente lucida as causas que
+determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
+tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
+escravisados pelos poderes clericaes.
+
+Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
+aos esforcos do obreiro comeca lentamente a operar-se: os trigos
+crescem. Crescem em virtude de que lei?
+
+Tal e a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
+respondem aquelles que sao encarregados de o instruir e de o educar. A
+nocao que elle recebe acerca do modo como o trigo cresce torna-o
+fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
+embair. Qual e o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio e
+ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
+operario acrescenta:
+
+"Faz-se geralmente crer ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
+desenvolvem em resultado de uma forca cuja paternidade vem de Isis, ou
+de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
+crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora e o deus de
+Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
+amadurecer nas mesmas condicoes em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
+dos successivos templos e das successivas religioes em nada tem alterado
+as leis da natureza. E todavia da-se por toda a parte o mesmo estado de
+coisas: O indio cre que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
+ve nos seus o grande Todo. Em outros sitios e Budha. Para os gregos e
+para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia e o grande Lama. Na
+Africa e a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
+
+"Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporacoes de
+sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
+Respondeis-me que e impossivel. E effectivamente impossivel, o que e de
+certo uma desgraca! Esse porem e o facto historico, que nao podemos
+deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
+sobre as questoes que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
+geracoes.
+
+"E a guerra, e a guerra de religioes. E tempo de lhe por um termo. E
+tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
+legislacao humana e a moral universal."
+
+ * * * * *
+
+Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
+do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestoes de ideas e de
+principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
+Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
+conviccoes de sciencia ou de simples bom senso sao consideradas
+perigosas e banidas das discussoes publicas.
+
+Debalde a historia da civilisacao ingleza n'este seculo nos demonstra
+que a tolerancia absoluta na manifestacao do pensamento e a primeira
+garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
+das ideas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
+evitando assim que a orbita das applicacoes praticas seja invadida pelos
+principios que nao foram d'ante mao sanccionadas na opiniao e pelas
+reformas que ella nao exigiu em nome de novas necessidades provenientes
+de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal e o
+methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbacoes graves
+que a impaciencia dos reformadores, nao experimentada na pedra de toque
+de uma discussao liberrima, lancou na vida pratica de outras nacoes,
+como succedeu em Franca depois do segundo imperio, que corrompia todos
+os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
+esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
+
+Em Portugal essa importante licao tem sido absolutamente esteril.
+
+Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
+mostraram uma ligeira tendencia para produzir ideas, o governo sem
+nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
+
+Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
+manifestar posthumamente as suas ideas solicitando para os seus
+cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
+todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
+vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
+morto.
+
+Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
+expoem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
+physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
+facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepcoes
+theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
+a impunidade d'esses professores, dizemos, nao se deve attribuir a
+tolerancia philosophica do poder. Ella e simplesmente o
+resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos servicos
+publicos.
+
+Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
+professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
+vergonhosos e mais crassos alheios a doutrina dos programmas. Ha lentes
+que estao acima da lei pela mesma razao que ha outros que estao abaixo
+d'ella:--por falta de inspeccao e de policia.
+
+Um facto recente da-nos a prova mais cabal de que o estado nao e
+solidario nos progressos scientificos da nacao, e que estes se operam
+nao sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
+intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
+armam.
+
+Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
+dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instruccao primaria!
+
+Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
+mais mocos e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
+
+"_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessao, publicado do
+_Jornal do Commercio_), _nao e adversario do desenvolvimento da
+instruccao primaria, porque nao deseja que continue a subsistir o estudo
+de ignorancia do nosso povo, onde a proporcao dos que sabem ler e de 1
+para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., e de 1 para 6.
+Mas nao deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
+Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
+tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
+proprio. Pode haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
+e temente a Deus, que nao queira mandar o seu filho a uma escola cujo
+mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
+maiores glorias, embora a instruccao estivesse pouco diffundida, a nacao
+portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; nao pretende dizer com
+isto que deixe de se derramar a instruccao, porque tambem e apostolo
+d'esta idea, mas quer que essa instruccao seja ao mesmo tempo moral e
+religiosa."_
+
+A affirmativa de que a nacao portugueza attingiu um alto grau de
+prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instruccao
+estivesse pouco diffundida_, e um erro de historia que o nobre conde
+quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
+nao e pelo excesso de instruccao em s.ex. que a gloria e a prosperidade
+deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior nao podia realmente
+ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
+portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
+foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
+
+Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
+quer achar a differenca que distingue esse tempo do tempo actual,
+compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Braganca.
+
+D. Joao I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
+litterato. Teve a honra de hospedar na sua corte o grande pintor
+Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle so
+para formar a educacao esthetica de um povo do que dez universidades e
+vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
+artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
+Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da corte
+portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
+em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
+vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
+
+Dos filhos de D. Joao I um e o infante D. Duarte, o creador da primeira
+bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
+Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
+partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
+mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
+Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernao Lopes. O
+ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
+navegacoes, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
+mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
+sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal e o
+senhor D. Augusto, conhecido de todos nos por o termos visto passar no
+Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
+hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
+nacional, que o acompanharam e que fizeram grande impressao na City,
+onde os tomaram por duas vaccas sem pernas. Eram os baus de sua alteza,
+feitos na rua dos Correeiros.
+
+Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
+Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhaes, Diogo Cao, Pedro da Covilha,
+Gaspar Corte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
+exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
+Henrique e seus irmaos souberam attrair a Portugal, que procederam
+escriptores como Fernao Lopes, Gomes Annes de Azurara, Gil Vicente, Joao
+de Barros, Damiao de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camoes, talvez o
+mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
+hoje, a nao ser por influencia de alguns professores precitos e
+apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
+official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
+que vao para administradores de concelho ou para amanuenses de
+secretaria.
+
+No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
+instruido. E certo que nao sabia ler. Mas saber ler nao constitue
+propriamente instruccao, mas sim um dos meios de instruccao. Ora o povo
+dispunha entao de outros meios superiores a leitura. O marinheiro e o
+soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
+confeccao das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
+Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
+de entao nao sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
+fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
+tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
+mais commovedor, o mais eloquente livro de que se pode gloriar a
+litteratura de uma nacao.
+
+A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
+instruccao! E conclue d'esse absurdo que um povo pode attingir a
+prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
+accumuladas contradicoes do seu texto, em que s. ex. ora e apostolo da
+instruccao, ora e apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
+seria apenas inoffensivo. S. ex., porem, conclue a sua notavel falla
+mandando para a mesa o seguinte additamento a lei que se estava
+discutindo:
+
+_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
+ensinar ou inculcar doutrinas contrarias a religiao catholica, a moral,
+a liberdade e a independencia patria sera demittido nos termos d'este
+artigo, independente da accao criminal que deva ser intentada. Os paes,
+tutores ou pessoas encarregadas da sustentacao e educacao das creancas
+podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
+professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.
+
+Eis ahi o que se nao admitte, porque esta disposicao legislativa
+proposta por s. ex. produz a fixacao legal dos seus principios a
+respeito da instruccao, isto e: que deve haver instruccao e ao mesmo
+tempo que a nao deve haver. Nao e outra coisa senao eliminar a
+instruccao, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
+de processo e demissao immediata do professor, aos principios da
+religiao catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tao
+profundo abysmo entre a concepcao theologica e a explicacao scientifica
+dos phenomenos do universo, que toda a conciliacao e hoje impossivel
+entre o mestre e o padre. Nao duvidamos que o christianismo possa ainda
+reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
+e definitivas conquistas do entendimento humano. O que e certo porem e
+que a direccao reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
+desde a Reforma ate hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
+aspiracao de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
+sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
+interesses oppostos e impossivel. Pedimos licenca ao sr. conde do Rio
+Maior para lh'o provar.
+
+Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que e o diluvio
+universal, que lhe pergunta qual e a idade da terra, que lhe pergunta o
+que e o homem pre-historico, o que sao as florestas carboniferas, o que
+e o arco-iris, o que e o para-raios, o que e transformacao das especies,
+o que e a Torre de Babel, o que e o Eden; supponhamos que o alumno faz
+ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
+formular acerca das affirmacoes da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
+A essas perguntas o mestre nao pode responder senao com o erro ou com a
+heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptaram a sua
+emenda a lei da reforma da instruccao portugueza desejam que o mestre
+responda pelo erro.
+
+Mas isto e peior do que por de parte a sciencia; isto e, recebel-a para
+a contradizer e para a destruir; isto e converter a ignorancia publica
+em uma instituicao do Estado.
+
+Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, a luz de uma
+lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
+disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
+apagou-lhe a lanterna.
+
+Quem foi que deixou no mundo esta licao?
+
+Foi o theologo.
+
+Um povo ignorante e um povo em trevas, cuja lanterna e a instruccao. O
+legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz e o sr. conde
+de Rio Maior.
+
+ * * * * *
+
+Notemos porem um facto consolador:
+
+O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
+sensivel diminuicao de forca. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
+de um velho sangue que se decompoe e se dessora. A idea que elle tem no
+cerebro e uma idea que se extingue.
+
+Ha cem annos s. ex. teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
+para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissao
+do professor e o processo pelos tribunaes civis.
+
+Inclinemo-nos diante de tao manifesta mansidao!
+
+Nos fins do seculo XVI o _pendao da santa doutrina_, um lugubre pendao
+negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
+fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era entao o professor idealisado
+pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
+argumentando a doutrina christa a este povo. Todas as mulheres e todas
+as creancas saiam as portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pes do
+tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
+amortalhada de negro, de cruz alcada, tangendo uma campainha, como quem
+leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
+pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
+tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
+methodos porque se mortificam os impetos da carne.
+
+Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
+os estudantes a missa, do que colhiam nas sacristias uma certidao sobre
+a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
+
+Hoje a parte disciplinar da nossa educacao religiosa caiu com o pendao
+negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinaria, resta apenas a
+cartilha de Padre Mestre Ignacio.
+
+E e sobre essa cartilha solitaria, em torno da qual cairam dissolvidas a
+uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
+instituicao civil, e sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
+sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
+portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
+ensino publico de uma nacao!
+
+ * * * * *
+
+Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ nao cessam de elevar
+aos ceus em todas as manhas e em todas as tardes:
+
+_Meu Deus, tornae ridiculos os nossos inimigos!_
+
+O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
+instruccao indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
+oracao. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
+_Farpas_, um cirio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Fevereiro a Maio 1878
+by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+***** This file should be named 13093.txt or 13093.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/3/0/9/13093/
+
+Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
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+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
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+electronic works
+
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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