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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:41:20 -0700
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+ <meta name="author" content="Ramalho Ortigão--Eça de Queiroz"/>
+ <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas,
+Fevereiro a Maio 1878
+by Ramalho Ortigão--Eça De Queiroz.</title>
+ <style type="text/css">
+ /*<![CDATA[*/
+ <!--
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+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***</div>
+
+<div class="centered">
+ <img src="images/devil.png" width="570" height="755"
+ alt="Eça de Queiroz&mdash;Ramalho Ortigão&mdash;As Farpas" />
+ <!--IMAGE END-->
+</div>
+<hr class="major" /><!--=====================-->
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGÃO&mdash;EÇA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CHRONICA MENSAL</p>
+ <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>TERCEIRA SERIE&mdash;TOMO II</p>
+ <p>Fevereiro a Maio 1878</p>
+</div>
+
+<hr class="major" /><!--=====================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+ da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+ universo, e da adoração de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+
+<hr class="major" /><!--=====================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+
+<p>
+ <a href="#leisorganicas" >Leis organicas</a>
+ das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
+ de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
+ caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos&mdash;A
+ <a href="#gymnastica" >gymnastica</a>
+ perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
+ Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
+ raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
+ mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
+ pares&mdash;O ultimo
+ <a href="#lourdes" >milagre de Lourdes</a>
+ e a <i>Nação</i>. Mostra-se que o milagre
+ não presta. Ensina-se à <i>Nação</i> o que são milagres e prova-se-lhe que
+ ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar&mdash;A
+ criminalidade em Lisboa e o
+ <a href="#fadista" ><i>fadista</i></a>.
+ Historia genealogica d'esse
+ personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto&mdash;A
+ <a href="#velhanova" >ideia velha e a ideia nova</a>.&mdash;Uma
+ <a href="#tyndal" >opinião de Tyndal</a> ácerca dos atheus.
+ Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
+ os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
+ da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
+ carpinteiro&mdash;
+ <a href="#oprimobazilio" >O <i>Primo Bazilio</i></a>.
+ O caso pathologico e a obra d'arte. A
+ educação burgueza e o realismo&mdash;A
+ <a href="#escolanacional" >escola nacional dos poltrões</a>. A
+ covardia, instituição publica, etc.
+</p>
+<hr class="major" id="leisorganicas"/><!--=====================-->
+<p>
+ Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
+ pertencendo a duas classes distinctas:
+</p>
+<p>
+ 1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;
+</p>
+<p>
+ 2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
+ Estados.
+</p>
+<p>
+ Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
+ absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
+ isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
+ intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
+ organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
+ convencional e contingente,&mdash;n'essas sociedades não podem dar-se senão
+ os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
+ civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
+ ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
+ communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
+</p>
+<p>
+ Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
+ periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
+ toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
+ tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
+ nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
+ regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
+ vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
+ collectivo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
+ demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
+</p>
+<p>
+ Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
+ repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
+ punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
+ distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
+ feridos pela perpetração do delicto.
+</p>
+<p>
+ É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
+ unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
+ commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
+ interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
+ ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
+ pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
+ arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
+ conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
+ vingança.
+</p>
+<p>
+ Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
+ forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
+ muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
+ politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
+ crimes, são verdadeiros erros!»
+</p>
+<p>
+ Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
+ pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
+ sancções penaes.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
+ Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
+</p>
+<p>
+ No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
+ crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
+ meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
+ tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
+</p>
+<p>
+ Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
+ attentados e despedindo os reos em paz!
+</p>
+<p>
+ No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
+ falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
+ recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
+ oito annos de degredo para a costa ds Africa!
+</p>
+<p>
+ O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
+ sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.
+</p>
+<p>
+ O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
+ sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
+ co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
+ o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
+ iniquiedade monstruosa.
+</p>
+<p>
+ O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
+ oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
+ regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario&mdash;o regulamento
+ do serviço militar.
+</p>
+<p>
+ O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
+ Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
+ intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
+ Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
+ crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
+ da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
+ facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
+ interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
+ as sociedades teem em que deixe de haver militares.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
+ punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
+ estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
+ analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
+ civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
+ militarismo e da guerra.
+</p>
+<p>
+ Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
+ punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
+ ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
+</p>
+<p>
+ Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
+ vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
+ mortos.
+</p>
+<p>
+ Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
+ todos os seus dramas: <i>Resistia-me, chlorophormisei-a!</i>
+</p>
+<p>
+ Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
+ substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
+ alcoolicas&mdash;o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
+ convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
+ instrumentos da perpetuidade da raça.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
+ os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
+ unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.
+</p>
+
+<hr id="gymnastica" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
+ primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
+ gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
+ gymnastica tinha um caracter immoral.
+</p>
+<p>
+ S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
+ do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
+ pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
+ e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
+ comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
+ ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
+ dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
+ obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
+ que medeia entre o tapete e o lustre.
+</p>
+<p>
+ Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
+ directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
+ da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
+ ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a <i>sorte de forças</i>
+ mas sim mais modestamente&mdash;<i>a hygiene do movimento no corpo humano</i>.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
+ orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
+ nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
+ dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
+ mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
+ escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
+ racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
+ chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
+ correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
+ s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
+ gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
+ mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
+ frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
+ conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
+ acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
+ sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
+ à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
+ depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
+ dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
+ procere um tão ligitimo horror.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
+ perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
+ organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
+ mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
+ todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
+ manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
+ exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
+</p>
+<p>
+ Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
+ hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
+ sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
+</p>
+<p>
+ Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
+ phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
+ loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
+ mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
+ apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
+ que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
+ revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
+ para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
+ actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
+ todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
+ cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
+ circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
+ alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
+ Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
+ de cura de alienados pela transfusão hypodermica.
+</p>
+<p>
+ Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
+ regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
+ central, é a gymnastica.
+</p>
+<p>
+ O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
+ em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
+ indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
+ apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
+ frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
+ diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
+ segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
+ para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
+ doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
+ gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
+ observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
+ effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
+ densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
+ exercicio.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
+ Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
+ gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
+ a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
+ doutor Burq.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
+ densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
+ exercicios gymnasticos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
+ desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
+ tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
+ respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
+ directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
+ modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
+ organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
+ hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
+ que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
+ constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
+ doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
+ exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
+ jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
+ methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
+ equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
+ favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
+ senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
+ mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
+ assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
+ constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
+ ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
+ de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
+ nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
+ gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
+ obesidade e contra a idiotismo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
+ sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
+ previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
+ gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
+ duas casas do parlamento.
+</p>
+<p>
+ Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
+ exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
+ para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
+ todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
+ quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
+ ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
+ introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
+ n'aquellas em que a gymnastica não existe.
+</p>
+<p>
+ Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
+ esqueceu uma disposição&mdash;precisamente a unica que teria alcance&mdash;um
+ artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
+ em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
+ gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.
+</p>
+<p>
+ O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
+ obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
+ que&mdash;digamol-o francamente&mdash;o que é o <i>cachenez</i> do nobre duque
+ presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
+ mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
+ pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
+ felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
+ nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado&mdash;obrigado a ferros, em nome
+ d'el-rei&mdash;a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
+ erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
+ desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
+ seguintes movimentos:
+</p>
+<p>
+ Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
+ vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
+ sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
+ (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
+ fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
+ reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
+ meditar sobre a felicidade da patria.
+</p>
+<p>
+ No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
+ perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
+ mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
+ não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
+ reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
+ sr. duque de Avila curasse o seu <i>cache-nez</i> por meio dos excercicios
+ indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
+ seguintes:
+</p>
+<p>
+ Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
+ tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
+ (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
+ limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
+ quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
+ Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
+ continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
+ n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
+ gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
+ Velar-lhe a face!
+</p>
+
+<hr id="lourdes" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ A <i>Nação</i> publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: <i>O padre
+ cego já vê, a paralytica já anda</i>.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Parece impossivel que uma folha religiosa como a <i>Nação</i> désse cabimento
+ nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
+ esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
+ cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
+ foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
+ que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
+ reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
+ os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
+ obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
+</p>
+<p>
+ A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
+ collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
+ restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
+ indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
+ lhes deram. Porque nós&mdash;e a <i>Nação</i> bem o sabe!&mdash;nós temos devoções
+ locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
+ auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
+ resultados obtidos pela romagem.
+</p>
+<p>
+ Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
+ na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
+ agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
+ vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!
+</p>
+<p>
+ Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
+ enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
+ que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
+ locomotores com agua das latas?!
+</p>
+<p>
+ E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
+ para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
+ chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
+ largo de S. Roque?
+</p>
+<p>
+ E ainda ousam dizer-nos&mdash;o que não póde ser senão por escarneo&mdash;que ella
+ <i>andou!</i>? Olha a grande façanha&mdash;<i>andar!</i> Mas, senhores, tendo tido
+ trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
+ correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
+ maior do que as que levou!
+</p>
+<p>
+ Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
+ lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
+ milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
+ opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
+ sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
+ que visse tambem por outros membros.
+</p>
+<p>
+ Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
+ a <i>Nação</i> o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
+ olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
+ pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
+ baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
+ com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
+ romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
+ louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
+ vemos que a paralytica nos sae pedrez!»
+</p>
+<p>
+ Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
+ ordem, porque os ha muitos maiores.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
+ coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.
+</p>
+<p>
+ O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
+ das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
+ balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
+ duvida. No livro intitulado <i>Virtude miraculosa do Escapulario
+ demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas</i>,
+ pelo revd.º padre Hugnet&mdash;<i>Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
+ Anvers</i>, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
+ exemplos.
+</p>
+<p>
+ Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
+ dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
+ das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
+ emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
+ estado do satisfação ineffavel.
+</p>
+<p>
+ O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
+ escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
+ os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
+ illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
+ essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
+</p>
+<p>
+ No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
+ das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
+ o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
+ citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)
+</p>
+<p>
+ Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
+ regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
+ acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
+ 20.)
+</p>
+<p>
+ Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
+ consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
+ obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
+ pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
+ o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
+ resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
+</p>
+<p>
+ Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
+ escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
+</p>
+<p>
+ O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado <i>Collecção dos
+ escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc.</i>,
+ diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
+ pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
+ arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
+ de diabos não roguem esta praga medonha:&mdash;Que nós levemos os
+ escapularios!
+</p>
+<p>
+ As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
+ IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
+</p>
+<p>
+ O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
+ para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
+ perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
+ arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
+ facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
+ por um oculo!
+</p>
+<p>
+ O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
+ nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
+ da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
+ prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
+ Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo <i>quando
+ voluntariamente se vae peccar</i>: é o que mais particularmente prescreve o
+ dito padre Guglielmi.
+</p>
+<p>
+ De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
+ é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
+ precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
+ seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
+ seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca&mdash;retalho quadrado ou
+ oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
+ virtude&mdash;applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
+ cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
+ algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
+ patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
+ sacramental: <i>Suspende! Está comigo o coração de Jesus</i>!
+</p>
+<p>
+ Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
+ d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
+ para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
+ alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
+ debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
+ fará a <i>Nação</i> o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
+ de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma <i>Nação</i>, o mais que faz é
+ unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
+</p>
+<p>
+ Ha umas tantas coisas que a <i>Nação</i> até devia ter vergonha de as dizer
+ ... O que a <i>Nação</i> precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
+ esse pescoço, para a <i>Nação</i> ficar então sabendo o que são milagres!
+ Porque a <i>Nação</i> não sabe o que são milagres!
+</p>
+<p>
+ Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
+ habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
+</p>
+<p>
+ Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
+ proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...
+</p>
+<p>
+ Emquanto a nós o que a <i>Nação</i> tem é o espirito maligno no corpo do
+ jornal! Cruzes, demonio!
+</p>
+<hr id="fadista" class="minor" />
+<p>
+ Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
+ de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
+ termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
+ satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
+ fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
+ todos?
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
+ esta&mdash;o <i>fadista</i>.
+</p>
+<p>
+ Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
+ constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
+ dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
+ feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
+ fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
+ toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
+ beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
+ frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
+ com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
+ nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
+ os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
+ os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
+ adormecidos.
+</p>
+<p>
+ Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
+ capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
+ do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
+ interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
+ em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
+ conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
+ divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
+ navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
+ mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
+ um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
+ seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
+ sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
+ despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
+ fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
+ que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
+ que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
+ uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
+ tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
+ com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
+ combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
+ biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
+ antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
+ espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
+ vadiice, e tomou então o nome de&mdash;fadista.
+</p>
+<p>
+ O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
+ accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
+ seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
+ elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
+ successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
+ esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
+ noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
+ um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
+ frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
+ mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
+ enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
+ de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
+ guitarra e de um <i>santo christo</i>, que assim chamam technicamente a
+ grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
+ molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
+ constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
+ um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
+ Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
+ obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
+ agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular&mdash;as <i>escovinhas</i>.
+ Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
+ bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
+ guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
+ qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
+ XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
+ fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
+ Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
+ onde depois da meia noite se vae comer o prado de <i>desfeita</i>, acepipe
+ composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
+ camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
+ da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
+ e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
+ taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
+ alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
+ que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
+ Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
+ jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
+ pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
+ lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
+ mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
+ fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
+ de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
+ prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
+ pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
+ pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
+ guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
+ desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
+ pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
+ outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
+ imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
+ perna encurvada com o bico do pé para fóra; o <i>cachucho</i> da amante
+ reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
+ mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
+ esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
+ que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
+ á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
+ da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
+ miseravel.
+</p>
+<p>
+ De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
+ meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
+ na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
+ o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
+ convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
+ especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
+ restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
+ todos os machos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
+ incorrigiveis da criminalidade.
+</p>
+<p>
+ A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
+ recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
+ inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
+ em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
+ verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
+ nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
+ ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
+ sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
+ mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
+ immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
+ tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
+ cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
+ a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
+ conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
+ confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
+ não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
+ inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
+ grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
+ senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
+ presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
+ conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
+ expediente seria a morte.
+</p>
+<p>
+ É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
+</p>
+<p>
+ É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
+ criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
+ incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
+ repetidos?
+</p>
+<p>
+ A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
+</p>
+<p>
+ É.
+</p>
+<p>
+ N'este caso pergunta-se:
+</p>
+<p>
+ Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
+ continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
+ uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
+ os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
+ justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
+</p>
+<p>
+ Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
+ que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
+ irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
+ sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
+ abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
+ manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
+</p>
+<p>
+ Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
+ sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
+ inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
+ instituição concomitante que a justifica e a consagra:&mdash;a loteria.
+</p>
+<p>
+ Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
+ supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
+ Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
+ trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
+ cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
+ o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
+ policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
+ rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
+ contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
+ photographia no commisariado geral.
+</p>
+<p>
+ Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
+ de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
+ aos fadistas.
+</p>
+
+<hr id="velhanova" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
+ do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
+ contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
+ esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
+ açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
+ viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
+ lombares das musas.
+</p>
+<p>
+ Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
+ poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
+ ellas existissem: a escola da <i>Idéa Velha</i> e a escola da <i>Idéa Nova</i>!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
+ para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.
+</p>
+<p>
+ O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
+ encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
+ annos.
+</p>
+<p>
+ Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
+ duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
+ pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
+ enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
+ inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
+ pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
+ lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
+ fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
+ e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
+ outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
+ que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
+ de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
+ dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
+ Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
+ spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
+ publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
+ agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
+ <i>Grinalda</i> e no <i>Almanach de Lembranças</i>; dedicou versos á Lapa dos
+ Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
+ concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
+ ás Graças nas notas da versão portugueza dos <i>Fastos</i>. Foi da Assembléa
+ da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do <i>Gremio</i>, que tomou o nome de
+ <i>Litterario</i> para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
+ agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
+ finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
+ De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
+ encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
+ insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
+ era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
+ fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
+ e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
+ poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
+ costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
+ Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
+ achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
+ chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
+ retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
+ as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
+ choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
+ seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
+ tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
+ servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
+ estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
+ Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
+ altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
+ mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
+ poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
+ conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
+ Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
+ Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
+ entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
+ condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
+ ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
+ porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
+ exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
+ suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
+</p>
+<p>
+ Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
+ communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
+ Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
+ com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
+ ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
+ onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
+ vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
+ que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
+ engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
+ pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
+ se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
+ ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
+ superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
+ nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
+ presente.
+</p>
+
+<hr id="oprimobazilio" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ <i>O Primo Bazilio</i>, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
+ artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
+ obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
+ o que pertence aos dominios da pathologia social.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Eis a doença que este livro accusa:&mdash;A dissolução dos costumes
+ burguezes.
+</p>
+<p>
+ O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
+ burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
+ mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
+ No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
+ apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
+ ver porquê.
+</p>
+<p>
+ Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
+ desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
+ representação da vida exterior e o systema da vida intima.
+</p>
+<p>
+ Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
+ do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
+ religião&mdash;a familia!
+</p>
+<p>
+ Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
+ baixa&mdash;rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
+ asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
+ a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias&mdash;com as
+ graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
+ com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
+ galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
+ pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
+ edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
+ Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
+ predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
+ de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
+ modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
+ primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
+ moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
+ systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
+ branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
+ cercados de hera, de estufas, de <i>logettes</i>, de aviarios em que se
+ cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
+ frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
+ outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
+ elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
+ nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
+ do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
+ todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
+ luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
+ activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
+</p>
+<p>
+ As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
+ parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
+ verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
+ com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
+ das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
+ rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
+ queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
+</p>
+<p>
+ É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
+ <i>Arruamentos da Baixa</i>, que é educada a lisboeta.
+</p>
+<p>
+ Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
+ recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
+</p>
+<p>
+ «Noto um facto que me enche de perturbação e de horror&mdash;n'esta cidade
+ não ha creanças.»
+</p>
+<p>
+ Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
+ bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
+ balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
+ desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
+ musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
+ musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
+ ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos <i>squares</i> do
+ largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
+ effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
+ encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
+ sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
+ preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
+ com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
+ seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
+ fresco.
+</p>
+<p>
+ Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
+ frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
+ creança estão dentro das casas que acima descrevemos&mdash;<i>a tomarem
+ proposito. Tomar proposito</i> é uma locução essencialmente local e
+ intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
+ rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
+ instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
+ menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
+ indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
+ houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
+ para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
+ quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
+ instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
+ infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
+ e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
+ flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
+ jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
+ Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
+ da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
+ aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
+ ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
+ appendices de sua <i>toilette</i>: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
+ linguas, e a <i>phantasia</i>, o bonito trecho de salão tocado no piano
+ diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
+ funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
+ suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
+ jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
+ Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
+ não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
+ Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
+</p>
+<p>
+ Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
+ completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
+ phenomenos.
+</p>
+<p>
+ Não a distraem os interessantes cuidados do <i>ménage</i>, porque da casa,
+ assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
+ nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
+ das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
+ actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
+ moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
+ gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
+ essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
+ retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
+ casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
+ que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
+ possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
+ onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
+ respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
+ borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
+</p>
+<p>
+ Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
+ a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
+ elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
+ no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
+ de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
+ preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
+ do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
+ orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
+ couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
+ desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
+ ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
+ bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
+ e graciosa, similhante a uma <i>bombonière</i>, ou como a da Semana Santa nos
+ Inglezinhos, a cuja <i>petite entrée</i> destinada aos intimos rodam os
+ <i>coupés</i> magnificos da piedade escolhida.
+</p>
+<p>
+ Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
+ seu <i>bènitier</i> barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
+ Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
+ arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
+ tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
+ desdem.
+</p>
+<p>
+ Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
+ theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
+ contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
+ dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
+ theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
+ resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
+ sociedades corruptas:&mdash;o socego.
+</p>
+<p>
+ Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
+ ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
+ os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
+ região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
+ do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
+ raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
+ da <i>toilette</i>; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
+ um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
+ cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
+ medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
+ cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
+ alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
+ aguadeiro, ralhando com o marido.
+</p>
+<p>
+ Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
+ domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
+ quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
+ infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
+ cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
+ caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
+ inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
+ arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
+ retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
+ de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
+ meio dos cortinados.
+</p>
+<p>
+ Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
+ decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
+ similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
+ Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
+ nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
+ á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
+ mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
+ se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
+ a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
+ que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
+ que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
+ ou do luxo que não usa.
+</p>
+<p>
+ Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
+ romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
+ lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
+ tornar encantadora a familia.
+</p>
+<p>
+ Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
+ predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
+ da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
+ Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
+ serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
+ perfeita educação.
+</p>
+<p>
+ Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
+ superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
+ processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
+ simplicidade tragica.
+</p>
+<p>
+ O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
+ dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
+ apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
+ pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
+ penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
+ uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
+ espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
+ exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
+ alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
+ seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
+ aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
+ jantado nos mais celebres restaurantes do <i>boulevard</i>, o que se vestir e
+ se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
+ desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
+ segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
+ mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em <i>foie gras</i>, em
+ <i>Champagne Clicot</i>, e em <i>Cold-creame</i>.
+</p>
+<p>
+ Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
+ refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
+ tapetes de Smyrna dos <i>boudoirs</i> forrados de setim, envoltos em renda de
+ França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
+ essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
+ um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
+ obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
+ <i>amando-a</i> finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
+ suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
+ seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
+ caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
+ ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
+ espartilho barato, da sua <i>toilette</i> da Baixa, da sua pomada de botica e
+ do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
+ nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
+ gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
+ suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
+ encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
+ attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto <i>plastron</i> de
+ Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
+ cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
+ saberá negar.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
+ medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu <i>O Primo
+ Bazilio</i>, romance realista.
+</p>
+<p>
+ Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
+ esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
+ senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
+ espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
+ supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
+ 1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
+ cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
+ de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
+ gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
+ da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
+ da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
+ Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
+ atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
+ phylanthropos.
+</p>
+<p>
+ A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
+ sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
+ pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
+ Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
+ pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
+ convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
+ problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
+ mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
+ leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
+ que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
+ phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
+ integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
+ prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
+</p>
+<p>
+ N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
+ que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
+ dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
+ em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
+ zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,&mdash;n'esta liga,
+ dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
+ trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
+ mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
+ risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
+ e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
+ caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
+ sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: <i>Res non
+ verba</i>.
+</p>
+<p>
+ Foi da palavra <i>res</i>, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
+ se tirou a designação <i>realismo</i>.
+</p>
+<p>
+ Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
+ é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
+ numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
+ simplesmente lyrica.
+</p>
+<p>
+ O <i>Primo Basilio</i> é um romance realista porque é a representação de um
+ facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
+ do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
+ uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
+ Luiza <i>castigada</i> (para nos servirmos da velha formula que via a moral
+ dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
+ que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
+ afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
+ negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:&mdash;que para evitar a
+ morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
+ cartas.
+</p>
+<p>
+ A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
+ queda; está em que ella&mdash;<i>não podia deixar de cair</i>.
+</p>
+<p>
+ Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
+ comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
+ mal da litteratura de que o livro faz parte. O <i>Primo Basilio</i> suppõe um
+ estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
+ sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
+ philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
+ hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
+ critica dos costumes, na propria critica da arte.
+</p>
+<p>
+ Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
+ vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
+ dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
+ <i>Primo Basilio</i>. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
+ modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
+ as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
+ burgueza.
+</p>
+<p>
+ De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
+ contemporanea: «Eis&mdash;aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
+ rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,&mdash;parece um
+ insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
+ companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
+ filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
+ apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
+</p>
+<p>
+ «Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
+ uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
+ honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
+ ambição heroica:&mdash;tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
+ minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
+ fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
+ problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
+ com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
+ romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
+ alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
+ elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
+ asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
+ meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
+ pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
+ em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
+ elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
+ proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
+ pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
+ um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
+ convergentemente estarão n'este momento&mdash;no momento em que eu tenho a
+ concepção artistica do <i>Primo Basilio</i>&mdash;actuando sobre todas as
+ influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
+ amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
+ em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
+ compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
+ demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
+ reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
+ fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
+ maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
+ applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
+ finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
+ como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
+ these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
+ da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
+</p>
+<p>
+ Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
+ compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
+ teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
+ artista tem a obrigação de se não explicar,&mdash;o que seria invadir uma
+ funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
+ gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
+ religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
+ como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
+ indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
+ se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
+ e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
+ ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
+ a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.
+</p>
+<p>
+ Taes foram as razões porque&mdash;ao terminar ha mez e meio a leitura do
+ <i>Primo Bazilio</i>,&mdash;uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
+ uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
+ gloriar uma litteratura&mdash;nós fizemos esta prophecia: Que este livro
+ seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
+ observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
+ biologia, instrumentos inuteis&mdash;ás vezes perigosos&mdash;para todo aquelle
+ que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
+ divina revelação de um novo mundo.
+</p>
+
+<hr id="diarioillustrado" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ O <i>Diario Illustrado</i>, publicando o retrato e a biographia do sr.
+ Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
+</p>
+<p>
+ «Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
+ de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
+ desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
+ exclamou:&mdash;Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O <i>Diario Illustrado</i> não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
+ Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
+ <i>Diario Illustrado</i> diz apenas: <i>Conta-se ...</i>
+</p>
+<p>
+ Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
+ historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
+ montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
+ carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
+ de Tarbes? Póde o <i>Diario Illustrado</i> firmar com a sua palavra de honra
+ a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
+ que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
+ Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
+ cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
+ Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
+ Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
+ Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
+ Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
+ da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?
+</p>
+<p>
+ Está o <i>Diario Illustrado</i> no caso de sustentar, debaixo de jura, por
+ tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
+ sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
+ quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
+ dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
+ dizeres?
+</p>
+<p>
+ Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de <i>Diario Illustrado</i>.
+</p>
+<p>
+ Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
+ effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
+ convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
+ suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
+ jantar:&mdash;<i>Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta</i>&mdash;; se tal
+ phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
+ abstracto de suspeita destituida de fundamento,&mdash;o paiz não póde cruzar
+ os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
+ que o <i>Illustrado</i> cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
+ patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
+</p>
+
+<hr id="escolanacional" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
+ ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
+ seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
+ especial:
+</p>
+<p>
+ 1.º Rir atraz da procissão dos Passos.
+</p>
+<p>
+ 2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
+ viajante.
+</p>
+<p>
+ 3.º Não ter dado pateada a um lente.
+</p>
+<p>
+ 4.º Parecer constrangido a dar lição.
+</p>
+<p>
+ 5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
+ appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
+ expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.
+</p>
+<p>
+ Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
+ necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
+ teve apenas em vista o <i>desgosto</i> infligido pela sanção dos regulamentos
+ universitarios ás familias dos alumnos condemnados:&mdash;No que o Poder
+ mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
+ legislador mediocre.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
+ aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
+ absolvidos pelos tribunaes civis.
+</p>
+<p>
+ N'esta conjunctura perguntamos:
+</p>
+<p>
+ É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
+ de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
+ uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
+ julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
+ uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
+ tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
+ contrarias?
+</p>
+<p>
+ Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
+ especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?
+</p>
+<p>
+ Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
+ trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
+</p>
+<p>
+ Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
+ sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.
+</p>
+<p>
+ Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
+ quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
+ não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.
+</p>
+<p>
+ Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
+ d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
+ covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
+ que ainda possa haver na mocidade portugueza.
+</p>
+<p>
+ Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
+ physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
+ com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
+ corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
+ especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
+ sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
+ systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
+ honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
+ força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
+</p>
+<p>
+ Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
+ cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
+ sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
+ côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
+ atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
+ naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
+ velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
+ proprios de uma mocidade honesta e forte:&mdash;a gymnastica obrigatoria, a
+ escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel <i>cricket</i>.
+</p>
+
+<hr id="tyndal" class="major" /><!--=====================-->
+
+<p>
+ No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,&mdash;no paiz em que
+ Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
+ seus aulicos,&mdash;no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
+ Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
+ para prehencher essa omissão,&mdash;na velha, na religiosa, na solemne
+ Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
+ presidencial do <i>Birmingham and Midland Institute</i>, disse as palavras
+ seguintes:
+</p>
+<p>
+ «Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
+ das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
+ livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
+ fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
+ perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
+ abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
+ exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
+ assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
+ medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
+ desconheceriamos o dever.
+</p>
+<p>
+ «Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
+ conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
+ <i>Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã</i> não é a consequencia
+ ethica da regeição dos dogmas.
+</p>
+<p>
+ «As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
+ christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
+ senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.
+</p>
+<p>
+ «Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
+ espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
+ varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
+ muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
+ produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
+ frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
+ procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
+ insufficiente para nivelar.
+</p>
+<p>
+ «Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
+ homens a que os batalhadores do pulpito chamam <i>atheus ou materialistas</i>
+ e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
+ moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
+ d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.
+</p>
+<p>
+ «Quando digo <i>offensiva</i> quero simplesmente alludir aos que empregam
+ aquelles termos, não que eu pense que o <i>atheismo e o materialismo</i>,
+ comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
+ em si um caracter offensivo.
+</p>
+<p>
+ «Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
+ sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
+ eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
+ cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
+ atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
+ morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
+ celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
+ zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
+ emprego dos seus ultimos momentos.»
+</p>
+<p>
+ Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
+ é christão, o outro não.
+</p>
+<p>
+ O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
+ religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
+ perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
+ dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
+ peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
+ comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
+ delicada flor da cavalleria.
+</p>
+<p>
+ O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
+ theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
+ agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
+ Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
+ caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
+ é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
+ verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
+ verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
+ de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
+ exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
+ intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
+ moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
+ para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
+ presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
+ em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
+ necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
+ fundamental da conciliação das consciencias!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
+ mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
+ Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
+ determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
+ tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
+ escravisados pelos poderes clericaes.
+</p>
+<p>
+ Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
+ aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
+ crescem. Crescem em virtude de que lei?
+</p>
+<p>
+ Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
+ respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
+ noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
+ fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
+ embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
+ ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
+ operario acrescenta:
+</p>
+<p>
+ «Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
+ desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
+ de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
+ crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
+ Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
+ amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
+ dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
+ as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
+ coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
+ vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
+ para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
+ Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
+</p>
+<p>
+ «Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
+ sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
+ Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
+ certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
+ deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
+ sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
+ gerações.
+</p>
+<p>
+ «É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
+ tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
+ legislação humana e a moral universal.»
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
+ do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
+ principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
+ Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
+ convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
+ perigosas e banidas das discussões publicas.
+</p>
+<p>
+ Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
+ que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
+ garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
+ das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
+ evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
+ principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
+ reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
+ de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
+ methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
+ que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
+ de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
+ como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
+ os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
+ esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
+</p>
+<p>
+ Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.
+</p>
+<p>
+ Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
+ mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
+ nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
+</p>
+<p>
+ Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
+ manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
+ cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
+ todos os meios ao seu alcance&mdash;meios tumultuarios, illegaes,
+ vexatorios&mdash;a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,&mdash;o atheu
+ morto.
+</p>
+<p>
+ Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
+ expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
+ physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
+ facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
+ theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
+ a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
+ tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
+ resultado&mdash;n'este caso benefico&mdash;da indisciplina geral dos serviços
+ publicos.
+</p>
+<p>
+ Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
+ professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
+ vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
+ que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
+ d'ella:&mdash;por falta de inspecção e de policia.
+</p>
+<p>
+ Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
+ solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
+ não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
+ intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
+ armam.
+</p>
+<p>
+ Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
+ dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!
+</p>
+<p>
+ Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
+ mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
+</p>
+<p>
+ «<i>O sr. conde de Rio Maior</i> (copiamos o extracto da sessão, publicado do
+ <i>Jornal do Commercio</i>), <i>não é adversario do desenvolvimento da
+ instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
+ de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
+ para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
+ Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
+ Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
+ tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
+ proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
+ e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
+ mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
+ maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
+ portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
+ isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
+ d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
+ religiosa.»</i>
+</p>
+<p>
+ A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
+ prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, <i>embora a instrucção
+ estivesse pouco diffundida</i>, é um erro de historia que o nobre conde
+ quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
+ não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
+ deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
+ ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
+ portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
+ foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
+</p>
+<p>
+ Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
+ quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
+ compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.
+</p>
+<p>
+ D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
+ litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
+ Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
+ para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
+ vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
+ artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
+ Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
+ portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
+ em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
+ vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
+</p>
+<p>
+ Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
+ bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do <i>Leal
+ Conselheiro</i>. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou <i>as sete
+ partidas do mundo</i>, auctor da <i>Vertuosa Bemfeitoria</i> e um dos homens
+ mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
+ Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
+ ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
+ navegações, o fundador da chamada <i>Escola de Sagres</i>, o mais poderoso, o
+ mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
+ sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
+ senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
+ Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
+ hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
+ nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
+ onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
+ feitos na rua dos Correeiros.
+</p>
+<p>
+ Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
+ Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
+ Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
+ exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
+ Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
+ escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
+ de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
+ mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
+ hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
+ apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
+ official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
+ que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
+ secretaria.
+</p>
+<p>
+ No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
+ instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
+ propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
+ dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
+ soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
+ confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
+ Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
+ de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
+ fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da <i>Historia
+ tragico maritima</i>, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
+ mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
+ litteratura de uma nação.
+</p>
+<p>
+ A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
+ instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
+ prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
+ accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
+ instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
+ seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
+ mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
+ discutindo:
+</p>
+<p>
+ <i>O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
+ ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
+ á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
+ artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
+ tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
+ podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
+ professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo</i>.
+</p>
+<p>
+ Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
+ proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
+ respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
+ tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
+ instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
+ de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
+ religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
+ profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
+ dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
+ entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
+ reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
+ e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
+ que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
+ desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
+ aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
+ sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
+ interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
+ Maior para lh'o provar.
+</p>
+<p>
+ Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
+ universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
+ que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
+ é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
+ o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
+ ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
+ formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
+ A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
+ heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
+ emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
+ responda pelo erro.
+</p>
+<p>
+ Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
+ a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
+ em uma instituição do Estado.
+</p>
+<p>
+ Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
+ lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
+ disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
+ apagou-lhe a lanterna.
+</p>
+<p>
+ Quem foi que deixou no mundo esta lição?
+</p>
+<p>
+ Foi o theologo.
+</p>
+<p>
+ Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
+ legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
+ de Rio Maior.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Notemos porém um facto consolador:
+</p>
+<p>
+ O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
+ sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
+ de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
+ cerebro é uma idéa que se extingue.
+</p>
+<p>
+ Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
+ para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
+ do professor e o processo pelos tribunaes civis.
+</p>
+<p>
+ Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!
+</p>
+<p>
+ Nos fins do seculo XVI o <i>pendão da santa doutrina</i>, um lugubre pendão
+ negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
+ fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
+ pelo sr. conde de Rio Maior:<i>era o homem de ordem, temente a Deus</i>,
+ argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
+ as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
+ tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
+ amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
+ leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
+ pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
+ tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
+ methodos porque se mortificam os impetos da carne.
+</p>
+<p>
+ Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
+ os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
+ a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
+</p>
+<p>
+ Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
+ negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
+ cartilha de Padre Mestre Ignacio.
+</p>
+<p>
+ E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
+ uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
+ instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
+ sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
+ portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
+ ensino publico de uma nação!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as <i>Farpas</i> não cessam de elevar
+ aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:
+</p>
+<p>
+ <i>Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!</i>
+</p>
+<p>
+ O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
+ instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
+ oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
+ <i>Farpas</i>, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
+</p>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***</div>
+</body>
+</html>
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Binary files differ