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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:41:20 -0700 |
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És tu que me livras da ambição do poder, + da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande + universo, e da adoração de mim mesmo. +</p> +</blockquote> + +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> + +<hr class="major" /><!--=====================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> + +<p> + <a href="#leisorganicas" >Leis organicas</a> + das sociedades e disposições regulamentares dos estados: + de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O + caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos—A + <a href="#gymnastica" >gymnastica</a> + perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, + Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da + raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela + mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos + pares—O ultimo + <a href="#lourdes" >milagre de Lourdes</a> + e a <i>Nação</i>. Mostra-se que o milagre + não presta. Ensina-se à <i>Nação</i> o que são milagres e prova-se-lhe que + ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar—A + criminalidade em Lisboa e o + <a href="#fadista" ><i>fadista</i></a>. + Historia genealogica d'esse + personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto—A + <a href="#velhanova" >ideia velha e a ideia nova</a>.—Uma + <a href="#tyndal" >opinião de Tyndal</a> ácerca dos atheus. + Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem + os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei + da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle + carpinteiro— + <a href="#oprimobazilio" >O <i>Primo Bazilio</i></a>. + O caso pathologico e a obra d'arte. A + educação burgueza e o realismo—A + <a href="#escolanacional" >escola nacional dos poltrões</a>. A + covardia, instituição publica, etc. +</p> +<hr class="major" id="leisorganicas"/><!--=====================--> +<p> + Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como + pertencendo a duas classes distinctas: +</p> +<p> + 1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade; +</p> +<p> + 2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos + Estados. +</p> +<p> + Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito + absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, + isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento + intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua + organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é + convencional e contingente,—n'essas sociedades não podem dar-se senão + os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas + civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes + ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das + communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc. +</p> +<p> + Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no + periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em + toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., + tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que + nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um + regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da + vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser + collectivo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita + demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes. +</p> +<p> + Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios + repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a + punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares, + distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses + feridos pela perpetração do delicto. +</p> +<p> + É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade, + unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do + commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois + interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas; + ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, + pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem + arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por + conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de + vingança. +</p> +<p> + Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a + forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha + muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os + politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que + crimes, são verdadeiros erros!» +</p> +<p> + Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido + pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas + sancções penaes. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de + Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos. +</p> +<p> + No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres + crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por + meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos + tres cumplices e conniventes no crime de cada um. +</p> +<p> + Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes + attentados e despedindo os reos em paz! +</p> +<p> + No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter + falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do + recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a + oito annos de degredo para a costa ds Africa! +</p> +<p> + O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A + sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga. +</p> +<p> + O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A + sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus + co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com + o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma + iniquiedade monstruosa. +</p> +<p> + O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a + oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um + regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario—o regulamento + do serviço militar. +</p> +<p> + O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta. + Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver + intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses. + Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave + crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o + da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o + facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um + interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas + as sociedades teem em que deixe de haver militares. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o + punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se + estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos + analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á + civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do + militarismo e da guerra. +</p> +<p> + Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram + punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira + ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos: +</p> +<p> + Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma + vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os + mortos. +</p> +<p> + Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para + todos os seus dramas: <i>Resistia-me, chlorophormisei-a!</i> +</p> +<p> + Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam + substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas + alcoolicas—o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, + convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos + instrumentos da perpetuidade da raça. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade + os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos + unicamente á sociedade os nossos cumprimentos. +</p> + +<hr id="gymnastica" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção + primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da + gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a + gymnastica tinha um caracter immoral. +</p> +<p> + S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes + do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com + pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos + e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E + comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que + ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um + dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e + obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço + que medeia entre o tapete e o lustre. +</p> +<p> + Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais + directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades + da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s. + ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a <i>sorte de forças</i> + mas sim mais modestamente—<i>a hygiene do movimento no corpo humano</i>. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto + orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do + nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração + dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem + mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na + escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios + racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá + chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto + correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de + s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da + gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas + mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente + frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se + conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos + acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em + sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja + à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente + depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias + dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno + procere um tão ligitimo horror. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e + perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso + organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas + mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de + todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de + manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse + exercicio regular e methodico chama-se gymnastica. +</p> +<p> + Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se + hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do + sangue atravez da rede dos nervos encephalicos. +</p> +<p> + Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os + phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a + loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com + mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um + apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de + que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes + revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa + para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de + actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações, + todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de + cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da + circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as + alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande + Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos + de cura de alienados pela transfusão hypodermica. +</p> +<p> + Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e + regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade + central, é a gymnastica. +</p> +<p> + O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito + em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.» +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á + indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver + apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma, + frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na + diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais + segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio + para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O + doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de + gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas + observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por + effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a + densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de + exercicio. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em + Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da + gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media + a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo + doutor Burq. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a + densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos + exercicios gymnasticos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude + desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos + tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão + respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem + directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso + modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso + organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades + hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar + que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que + constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O + doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a + exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da + jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um + methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido + equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em + favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos + senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos + mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo + assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua + constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os + ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, + de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos + nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a + gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a + obesidade e contra a idiotismo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo + sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica + previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que + gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as + duas casas do parlamento. +</p> +<p> + Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os + exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia + para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por + todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova + quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas + ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se + introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que + n'aquellas em que a gymnastica não existe. +</p> +<p> + Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, + esqueceu uma disposição—precisamente a unica que teria alcance—um + artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes + em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem + gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas. +</p> +<p> + O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser + obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por + que—digamol-o francamente—o que é o <i>cachenez</i> do nobre duque + presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma + mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do + pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da + felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do + nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado—obrigado a ferros, em nome + d'el-rei—a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a + erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a + desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos + seguintes movimentos: +</p> +<p> + Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100 + vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e + sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros + (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar + fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª + reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a + meditar sobre a felicidade da patria. +</p> +<p> + No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor + perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão + mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois + não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada + reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o + sr. duque de Avila curasse o seu <i>cache-nez</i> por meio dos excercicios + indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios + seguintes: +</p> +<p> + Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e + tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim + (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o + limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de + quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos). + Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e + continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto, + n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da + gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo: + Velar-lhe a face! +</p> + +<hr id="lourdes" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + A <i>Nação</i> publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: <i>O padre + cego já vê, a paralytica já anda</i>. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Parece impossivel que uma folha religiosa como a <i>Nação</i> désse cabimento + nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como + esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de + cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, + foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, + que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a + reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para + os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito + obrigado! muito obrigado pelo seu favor! +</p> +<p> + A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que + collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação + restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de + indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que + lhes deram. Porque nós—e a <i>Nação</i> bem o sabe!—nós temos devoções + locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a + auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos + resultados obtidos pela romagem. +</p> +<p> + Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e + na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a + agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas + vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?! +</p> +<p> + Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma + enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com + que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa + locomotores com agua das latas?! +</p> +<p> + E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento + para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes, + chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do + largo de S. Roque? +</p> +<p> + E ainda ousam dizer-nos—o que não póde ser senão por escarneo—que ella + <i>andou!</i>? Olha a grande façanha—<i>andar!</i> Mas, senhores, tendo tido + trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era + correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a + maior do que as que levou! +</p> +<p> + Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos + lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o + milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado + opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na + sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas + que visse tambem por outros membros. +</p> +<p> + Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que + a <i>Nação</i> o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um + olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão, + pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por + baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está + com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a + romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos + louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros + vemos que a paralytica nos sae pedrez!» +</p> +<p> + Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda + ordem, porque os ha muitos maiores. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se + coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero. +</p> +<p> + O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças, + das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das + balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em + duvida. No livro intitulado <i>Virtude miraculosa do Escapulario + demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas</i>, + pelo revd.º padre Hugnet—<i>Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et + Anvers</i>, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos + exemplos. +</p> +<p> + Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão + dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto + das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar + emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um + estado do satisfação ineffavel. +</p> +<p> + O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um + escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato + os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica + illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por + essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21) +</p> +<p> + No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio + das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e + o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra + citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.) +</p> +<p> + Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o + regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e + acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag. + 20.) +</p> +<p> + Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes + consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se + obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao + pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado + o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se + resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.) +</p> +<p> + Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o + escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte. +</p> +<p> + O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado <i>Collecção dos + escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc.</i>, + diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, + pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são + arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão + de diabos não roguem esta praga medonha:—Que nós levemos os + escapularios! +</p> +<p> + As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio + IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios. +</p> +<p> + O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir + para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle + perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que + arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os + facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver + por um oculo! +</p> +<p> + O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de + nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, + da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer + prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º + Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo <i>quando + voluntariamente se vae peccar</i>: é o que mais particularmente prescreve o + dito padre Guglielmi. +</p> +<p> + De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos + é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer + precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle + seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo + seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca—retalho quadrado ou + oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a + virtude—applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e + cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de + algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno + patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção + sacramental: <i>Suspende! Está comigo o coração de Jesus</i>! +</p> +<p> + Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um + d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e + para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do + alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se + debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não + fará a <i>Nação</i> o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos + de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma <i>Nação</i>, o mais que faz é + unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos? +</p> +<p> + Ha umas tantas coisas que a <i>Nação</i> até devia ter vergonha de as dizer + ... O que a <i>Nação</i> precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a + esse pescoço, para a <i>Nação</i> ficar então sabendo o que são milagres! + Porque a <i>Nação</i> não sabe o que são milagres! +</p> +<p> + Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma + habilidadesita mediocre, um bocadito de geito! +</p> +<p> + Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de + proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ... +</p> +<p> + Emquanto a nós o que a <i>Nação</i> tem é o espirito maligno no corpo do + jornal! Cruzes, demonio! +</p> +<hr id="fadista" class="minor" /> +<p> + Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos + de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu + termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de + satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um + fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas + todos? +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a + esta—o <i>fadista</i>. +</p> +<p> + Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, + constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende + dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame + feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com + fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em + toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem + beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, + frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e + com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões + nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando + os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando + os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e + adormecidos. +</p> +<p> + Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como + capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão + do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse + interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo, + em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, + conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos + divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um + navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser + mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com + um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o + seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando + sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se + despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por + fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o + que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e + que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos + uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais + tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e + com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os + combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão + biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o + antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o + espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da + vadiice, e tomou então o nome de—fadista. +</p> +<p> + O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma + accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do + seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que + elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita + successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na + esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas + noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e + um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são + frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das + mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e + enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e + de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma + guitarra e de um <i>santo christo</i>, que assim chamam technicamente a + grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma + molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de + constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com + um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade. + Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe + obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma + agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular—as <i>escovinhas</i>. + Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a + bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A + guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da + qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo + XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os + fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da + Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, + onde depois da meia noite se vae comer o prado de <i>desfeita</i>, acepipe + composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma + camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental + da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se + e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga + taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos + alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados, + que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de + Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de + jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de + pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do + lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo + mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O + fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes + de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de + prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do + pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca + pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A + guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um + desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço + pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o + outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação + imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a + perna encurvada com o bico do pé para fóra; o <i>cachucho</i> da amante + reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a + mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta, + esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em + que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas + á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada + da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e + miseravel. +</p> +<p> + De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus + meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista + na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com + o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas + convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições + especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos + restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a + todos os machos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os + incorrigiveis da criminalidade. +</p> +<p> + A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia + recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um + inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir + em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que + verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados + nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo + ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão + sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos, + mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou + immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se + tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira + cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde + a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os + conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso + confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo + não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias + inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os + grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria + senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos + presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe + conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor + expediente seria a morte. +</p> +<p> + É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa: +</p> +<p> + É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos + criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja + incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos + repetidos? +</p> +<p> + A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde: +</p> +<p> + É. +</p> +<p> + N'este caso pergunta-se: +</p> +<p> + Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, + continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de + uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente + os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a + justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera? +</p> +<p> + Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de + que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é + irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a + sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao + abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e + manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos. +</p> +<p> + Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A + sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um + inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a + instituição concomitante que a justifica e a consagra:—a loteria. +</p> +<p> + Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos + supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o + Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao + trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na + cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle + o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a + policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da + rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu + contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a + photographia no commisariado geral. +</p> +<p> + Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios + de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede + aos fadistas. +</p> + +<hr id="velhanova" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio + do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões + contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros, + esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes, + açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e + viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões + lombares das musas. +</p> +<p> + Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas + poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que + ellas existissem: a escola da <i>Idéa Velha</i> e a escola da <i>Idéa Nova</i>! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se + para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida. +</p> +<p> + O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou + encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta + annos. +</p> +<p> + Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de + duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e + pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam + enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e + inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e + pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois + lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro + fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot + e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios + outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do + que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço + de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão + dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela + Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em + spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades + publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com + agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na + <i>Grinalda</i> e no <i>Almanach de Lembranças</i>; dedicou versos á Lapa dos + Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; + concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e + ás Graças nas notas da versão portugueza dos <i>Fastos</i>. Foi da Assembléa + da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do <i>Gremio</i>, que tomou o nome de + <i>Litterario</i> para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem + agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou + finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis! + De quando em quando observava-se que ella começava de repente a + encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra + insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e + era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se + fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião, + e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O + poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás + costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. + Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, + achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram + chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e + retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois + as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, + choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos + seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, + tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que + servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do + estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da + Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo + altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á + mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos + poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos + conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do + Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a + Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu + entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a + condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, + ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella + porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas + exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e + suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva. +</p> +<p> + Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da + communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. + Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora, + com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha + ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares + onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha + vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, + que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e + engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos + pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como + se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que + ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma + superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em + nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo + presente. +</p> + +<hr id="oprimobazilio" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + <i>O Primo Bazilio</i>, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno + artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta + obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e + o que pertence aos dominios da pathologia social. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Eis a doença que este livro accusa:—A dissolução dos costumes + burguezes. +</p> +<p> + O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação + burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a + mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: + No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de + apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos + ver porquê. +</p> +<p> + Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma + desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a + representação da vida exterior e o systema da vida intima. +</p> +<p> + Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior + do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa + religião—a familia! +</p> +<p> + Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da + baixa—rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais + asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda + a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias—com as + graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, + com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as + galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o + pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias + edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da + Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos + predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina + de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez, + modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras + primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da + moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor + systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres, + branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços + cercados de hera, de estufas, de <i>logettes</i>, de aviarios em que se + cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre + frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de + outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais + elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos + nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada + do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de + todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa + luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa, + activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres. +</p> +<p> + As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, + parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de + verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto, + com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo + das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos + rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema + queimada, são os sepulchros da saude e da alegria. +</p> +<p> + É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os + <i>Arruamentos da Baixa</i>, que é educada a lisboeta. +</p> +<p> + Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando + recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação: +</p> +<p> + «Noto um facto que me enche de perturbação e de horror—n'esta cidade + não ha creanças.» +</p> +<p> + Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros + bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e + balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha, + desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os + musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os + musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, + ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos <i>squares</i> do + largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos + effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não + encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse + sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua + preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou + com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o + seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe + fresco. +</p> +<p> + Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa + frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As + creança estão dentro das casas que acima descrevemos—<i>a tomarem + proposito. Tomar proposito</i> é uma locução essencialmente local e + intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber + rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres + instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A + menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito + indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que + houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas + para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo + quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha + instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da + infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, + e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as + flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do + jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo. + Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas + da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde + aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa + ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são + appendices de sua <i>toilette</i>: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das + linguas, e a <i>phantasia</i>, o bonito trecho de salão tocado no piano + diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua + funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe + suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os + jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du + Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou + não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, + Michelet, Dickens, Andersen, Froebel. +</p> +<p> + Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora + completamente as leis que regem o universo e que determinam esses + phenomenos. +</p> +<p> + Não a distraem os interessantes cuidados do <i>ménage</i>, porque da casa, + assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem + nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia + das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da + actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão + moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister + gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a + essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que + retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da + casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato + que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma + possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou + onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá + respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias + borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa. +</p> +<p> + Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que + a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias + elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta + no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro + de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda + preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo + do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os + orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas + couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas + desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes + ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na + bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha + e graciosa, similhante a uma <i>bombonière</i>, ou como a da Semana Santa nos + Inglezinhos, a cuja <i>petite entrée</i> destinada aos intimos rodam os + <i>coupés</i> magnificos da piedade escolhida. +</p> +<p> + Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do + seu <i>bènitier</i> barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da + Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, + arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um + tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou + desdem. +</p> +<p> + Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios + theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie + contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o + dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas + theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo + resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das + sociedades corruptas:—o socego. +</p> +<p> + Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a + ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com + os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra + região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso + do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as + raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e + da <i>toilette</i>; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo + um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela + cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia + medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta + cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos + alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o + aguadeiro, ralhando com o marido. +</p> +<p> + Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida + domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno + quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão + infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a + cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as + caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e + inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos + arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos + retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores + de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no + meio dos cortinados. +</p> +<p> + Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção + decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, + similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de + Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais + nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere + á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas + mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para + se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel + a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera + que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos + que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções + ou do luxo que não usa. +</p> +<p> + Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de + romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não + lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe + tornar encantadora a familia. +</p> +<p> + Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua + predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha + da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações. + Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e + serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da + perfeita educação. +</p> +<p> + Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente + superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil + processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma + simplicidade tragica. +</p> +<p> + O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o + dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe + apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres + pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem + penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por + uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de + espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter + exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a + alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O + seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será + aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver + jantado nos mais celebres restaurantes do <i>boulevard</i>, o que se vestir e + se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver + desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais + segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas + mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em <i>foie gras</i>, em + <i>Champagne Clicot</i>, e em <i>Cold-creame</i>. +</p> +<p> + Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos + refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos + tapetes de Smyrna dos <i>boudoirs</i> forrados de setim, envoltos em renda de + França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes + essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se + um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer + obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras, + <i>amando-a</i> finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as + suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do + seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito + caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar + ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu + espartilho barato, da sua <i>toilette</i> da Baixa, da sua pomada de botica e + do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado + nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão + gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as + suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, + encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade + attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto <i>plastron</i> de + Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu + cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não + saberá negar. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, + medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu <i>O Primo + Bazilio</i>, romance realista. +</p> +<p> + Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é + esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha + senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de + espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que + supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de + 1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então + cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados + de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições + gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza + da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação + da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo. + Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, + atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, + phylanthropos. +</p> +<p> + A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma + sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os + pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser. + Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou + pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela + convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo + problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do + mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as + leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social; + que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum + phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer + integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que + prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente. +</p> +<p> + N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita, + que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer + dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental + em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria + zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,—n'esta liga, + dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha + trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação + mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em + risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse + e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de + caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis + sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: <i>Res non + verba</i>. +</p> +<p> + Foi da palavra <i>res</i>, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que + se tirou a designação <i>realismo</i>. +</p> +<p> + Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que + é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo + numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser + simplesmente lyrica. +</p> +<p> + O <i>Primo Basilio</i> é um romance realista porque é a representação de um + facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante + do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de + uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser + Luiza <i>castigada</i> (para nos servirmos da velha formula que via a moral + dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com + que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte + afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral + negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:—que para evitar a + morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as + cartas. +</p> +<p> + A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da + queda; está em que ella—<i>não podia deixar de cair</i>. +</p> +<p> + Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das + comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande + mal da litteratura de que o livro faz parte. O <i>Primo Basilio</i> suppõe um + estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na + sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da + philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na + hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na + critica dos costumes, na propria critica da arte. +</p> +<p> + Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de + vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se + dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do + <i>Primo Basilio</i>. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um + modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas + as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação + burgueza. +</p> +<p> + De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa + contemporanea: «Eis—aqui está o modo pavorosamente simples como tu te + rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,—parece um + insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas + companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas + filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter + apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar: +</p> +<p> + «Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou + uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente + honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta + ambição heroica:—tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na + minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso + fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o + problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, + com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte + romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um + alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como + elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre + asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e + meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente + pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito + em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os + elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a + proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu + pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, + um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e + convergentemente estarão n'este momento—no momento em que eu tenho a + concepção artistica do <i>Primo Basilio</i>—actuando sobre todas as + influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do + amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento + em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião + compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou + demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a + reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral, + fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a + maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a + applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica, + finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia + como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha + these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio + da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.» +</p> +<p> + Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse + compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro + teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um + artista tem a obrigação de se não explicar,—o que seria invadir uma + funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um + gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma + religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim + como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser + indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte, + se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte + e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de + ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante + a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias. +</p> +<p> + Taes foram as razões porque—ao terminar ha mez e meio a leitura do + <i>Primo Bazilio</i>,—uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo + uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve + gloriar uma litteratura—nós fizemos esta prophecia: Que este livro + seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á + observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da + biologia, instrumentos inuteis—ás vezes perigosos—para todo aquelle + que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a + divina revelação de um novo mundo. +</p> + +<hr id="diarioillustrado" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + O <i>Diario Illustrado</i>, publicando o retrato e a biographia do sr. + Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio: +</p> +<p> + «Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois + de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se + desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, + exclamou:—Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!» +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O <i>Diario Illustrado</i> não ousa affirmar de um modo terminante que o sr. + Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o + <i>Diario Illustrado</i> diz apenas: <i>Conta-se ...</i> +</p> +<p> + Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São + historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das + montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos + carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira + de Tarbes? Póde o <i>Diario Illustrado</i> firmar com a sua palavra de honra + a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio + que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ... + Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da + cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de + Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a + Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno? + Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de + Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante + da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère? +</p> +<p> + Está o <i>Diario Illustrado</i> no caso de sustentar, debaixo de jura, por + tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do + sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio + quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os + dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles + dizeres? +</p> +<p> + Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de <i>Diario Illustrado</i>. +</p> +<p> + Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com + effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás + convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em + suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de + jantar:—<i>Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta</i>—; se tal + phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado + abstracto de suspeita destituida de fundamento,—o paiz não póde cruzar + os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a + que o <i>Illustrado</i> cita marcou a differença, toda favoravel á nossa + patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo! +</p> + +<hr id="escolanacional" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado + ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos + seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo + especial: +</p> +<p> + 1.º Rir atraz da procissão dos Passos. +</p> +<p> + 2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um + viajante. +</p> +<p> + 3.º Não ter dado pateada a um lente. +</p> +<p> + 4.º Parecer constrangido a dar lição. +</p> +<p> + 5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4 + appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de + expulsão temporaria em alguns dias de cadeia. +</p> +<p> + Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa + necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder + teve apenas em vista o <i>desgosto</i> infligido pela sanção dos regulamentos + universitarios ás familias dos alumnos condemnados:—No que o Poder + mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de + legislador mediocre. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta + aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e + absolvidos pelos tribunaes civis. +</p> +<p> + N'esta conjunctura perguntamos: +</p> +<p> + É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente + de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de + uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem + julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de + uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente + tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem + contrarias? +</p> +<p> + Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias + especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios? +</p> +<p> + Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se + trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra. +</p> +<p> + Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de + sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição. +</p> +<p> + Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que + quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado + não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe. +</p> +<p> + Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões + d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de + covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade + que ainda possa haver na mocidade portugueza. +</p> +<p> + Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza + physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, + com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem + corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua + especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para + sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho + systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir + honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da + força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando. +</p> +<p> + Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros + cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para + sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das + côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de + atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos + naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da + velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris, + proprios de uma mocidade honesta e forte:—a gymnastica obrigatoria, a + escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel <i>cricket</i>. +</p> + +<hr id="tyndal" class="major" /><!--=====================--> + +<p> + No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,—no paiz em que + Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os + seus aulicos,—no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da + Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso + para prehencher essa omissão,—na velha, na religiosa, na solemne + Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução + presidencial do <i>Birmingham and Midland Institute</i>, disse as palavras + seguintes: +</p> +<p> + «Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia + das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no + livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada + fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e + perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem + abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns + exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e + assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o + medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e + desconheceriamos o dever. +</p> +<p> + «Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes + conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade. + <i>Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã</i> não é a consequencia + ethica da regeição dos dogmas. +</p> +<p> + «As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum + christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura + senão desde que conhece a origem de que ellas procedem. +</p> +<p> + «Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação + espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de + varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que + muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar + produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é + frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças + procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é + insufficiente para nivelar. +</p> +<p> + «Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio + homens a que os batalhadores do pulpito chamam <i>atheus ou materialistas</i> + e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma + moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida + d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva. +</p> +<p> + «Quando digo <i>offensiva</i> quero simplesmente alludir aos que empregam + aquelles termos, não que eu pense que o <i>atheismo e o materialismo</i>, + comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham + em si um caracter offensivo. +</p> +<p> + «Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á + sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando + eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um + cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses + atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na + morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa + celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão + zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto + emprego dos seus ultimos momentos.» +</p> +<p> + Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes + é christão, o outro não. +</p> +<p> + O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé + religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da + perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação + dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia + peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, + comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais + delicada flor da cavalleria. +</p> +<p> + O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista + theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso + agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de + Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um + caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; + é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da + verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.» +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de + verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral + de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem + exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da + intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma + moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these + para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado + presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente + em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão + necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio + fundamental da conciliação das consciencias! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario + mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da + Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que + determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, + tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem + escravisados pelos poderes clericaes. +</p> +<p> + Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho + aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos + crescem. Crescem em virtude de que lei? +</p> +<p> + Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe + respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A + noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o + fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e + embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é + ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador + operario acrescenta: +</p> +<p> + «Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se + desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou + de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia + crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de + Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a + amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina + dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado + as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de + coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim + vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e + para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na + Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito. +</p> +<p> + «Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de + sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ... + Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de + certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos + deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque + sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas + gerações. +</p> +<p> + «É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É + tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a + legislação humana e a moral universal.» +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres + do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de + principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de + Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras + convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas + perigosas e banidas das discussões publicas. +</p> +<p> + Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra + que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira + garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia + das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, + evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos + principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas + reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes + de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o + methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves + que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque + de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações, + como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos + os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que + esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio. +</p> +<p> + Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril. +</p> +<p> + Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino + mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem + nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias. +</p> +<p> + Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram + manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus + cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por + todos os meios ao seu alcance—meios tumultuarios, illegaes, + vexatorios—a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,—o atheu + morto. +</p> +<p> + Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que + expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias + physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse + facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções + theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, + a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á + tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o + resultado—n'este caso benefico—da indisciplina geral dos serviços + publicos. +</p> +<p> + Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha + professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais + vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes + que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo + d'ella:—por falta de inspecção e de policia. +</p> +<p> + Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é + solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam + não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da + intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se + armam. +</p> +<p> + Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos + dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria! +</p> +<p> + Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores + mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso: +</p> +<p> + «<i>O sr. conde de Rio Maior</i> (copiamos o extracto da sessão, publicado do + <i>Jornal do Commercio</i>), <i>não é adversario do desenvolvimento da + instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo + de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1 + para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6. + Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio. + Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes + tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais + proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem + e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo + mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas + maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação + portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com + isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo + d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e + religiosa.»</i> +</p> +<p> + A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de + prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, <i>embora a instrucção + estivesse pouco diffundida</i>, é um erro de historia que o nobre conde + quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que + não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade + deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente + ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade + portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, + foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual. +</p> +<p> + Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde + quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual, + compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança. +</p> +<p> + D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um + litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor + Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só + para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e + vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos + artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor + Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte + portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, + em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao + vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro. +</p> +<p> + Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira + bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do <i>Leal + Conselheiro</i>. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou <i>as sete + partidas do mundo</i>, auctor da <i>Vertuosa Bemfeitoria</i> e um dos homens + mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D. + Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O + ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas + navegações, o fundador da chamada <i>Escola de Sagres</i>, o mais poderoso, o + mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a + sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o + senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no + Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se + hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte + nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City, + onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza, + feitos na rua dos Correeiros. +</p> +<p> + Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, + Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã, + Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos + exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D. + Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam + escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João + de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o + mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de + hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e + apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo + official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e + que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de + secretaria. +</p> +<p> + No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente + instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue + propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo + dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o + soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na + confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os + Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo + de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia + fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da <i>Historia + tragico maritima</i>, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o + mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a + litteratura de uma nação. +</p> +<p> + A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a + instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a + prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das + accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da + instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior + seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla + mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava + discutindo: +</p> +<p> + <i>O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario + ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral, + á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este + artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes, + tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças + podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou + professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo</i>. +</p> +<p> + Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa + proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a + respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo + tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a + instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena + de processo e demissão immediata do professor, aos principios da + religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão + profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica + dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel + entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda + reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes + e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é + que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano + desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa + aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou + sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois + interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio + Maior para lh'o provar. +</p> +<p> + Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio + universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o + que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que + é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies, + o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz + ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de + formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem. + A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a + heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua + emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre + responda pelo erro. +</p> +<p> + Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para + a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica + em uma instituição do Estado. +</p> +<p> + Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma + lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem + disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E + apagou-lhe a lanterna. +</p> +<p> + Quem foi que deixou no mundo esta lição? +</p> +<p> + Foi o theologo. +</p> +<p> + Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O + legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde + de Rio Maior. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Notemos porém um facto consolador: +</p> +<p> + O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma + sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente + de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no + cerebro é uma idéa que se extingue. +</p> +<p> + Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira, + para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão + do professor e o processo pelos tribunaes civis. +</p> +<p> + Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão! +</p> +<p> + Nos fins do seculo XVI o <i>pendão da santa doutrina</i>, um lugubre pendão + negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por + fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado + pelo sr. conde de Rio Maior:<i>era o homem de ordem, temente a Deus</i>, + argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas + as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do + tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica, + amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem + leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os + pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao + tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos + methodos porque se mortificam os impetos da carne. +</p> +<p> + Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem + os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre + a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados. +</p> +<p> + Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão + negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a + cartilha de Padre Mestre Ignacio. +</p> +<p> + E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a + uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma + instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um + sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores + portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o + ensino publico de uma nação! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as <i>Farpas</i> não cessam de elevar + aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes: +</p> +<p> + <i>Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!</i> +</p> +<p> + O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da + instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa + oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das + <i>Farpas</i>, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o! +</p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/13093-h/images/devil.png b/13093-h/images/devil.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..13a77a6 --- /dev/null +++ b/13093-h/images/devil.png |
