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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***
+
+[Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878
+
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
+de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
+caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A
+gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
+Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
+raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
+mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
+pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre
+não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que
+ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A
+criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
+personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A
+ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus.
+Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
+os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
+da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
+carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
+educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A
+covardia, instituição publica, etc.
+
+Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
+pertencendo a duas classes distinctas:
+
+1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;
+
+2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
+Estados.
+
+Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
+absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
+isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
+intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
+organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
+convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão
+os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
+civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
+ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
+communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.
+
+Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
+periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
+toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
+tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
+nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
+regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
+vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
+collectivo.
+
+ * * * * *
+
+A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
+demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.
+
+Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
+repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
+punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
+distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
+feridos pela perpetração do delicto.
+
+É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
+unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
+commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
+interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
+ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
+pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
+arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
+conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
+vingança.
+
+Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
+forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
+muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
+politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
+crimes, são verdadeiros erros!»
+
+Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
+pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
+sancções penaes.
+
+ * * * * *
+
+Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
+Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
+
+No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
+crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
+meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
+tres cumplices e conniventes no crime de cada um.
+
+Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
+attentados e despedindo os reos em paz!
+
+No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
+falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
+recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
+oito annos de degredo para a costa ds Africa!
+
+O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
+sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.
+
+O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
+sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.
+
+ * * * * *
+
+Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
+co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
+o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
+iniquiedade monstruosa.
+
+O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
+oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
+regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento
+do serviço militar.
+
+O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
+Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
+intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
+Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
+crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
+da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
+facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
+interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
+as sociedades teem em que deixe de haver militares.
+
+ * * * * *
+
+O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
+punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
+estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
+analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
+civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
+militarismo e da guerra.
+
+Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
+punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
+ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:
+
+Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
+vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
+mortos.
+
+Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
+todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_
+
+Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
+substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
+alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
+convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
+instrumentos da perpetuidade da raça.
+
+ * * * * *
+
+Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
+os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
+unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
+primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
+gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
+gymnastica tinha um caracter immoral.
+
+S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
+do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
+pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
+e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
+comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
+ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
+dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
+obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
+que medeia entre o tapete e o lustre.
+
+Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
+directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
+da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
+ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_
+mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.
+
+ * * * * *
+
+Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
+orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
+nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
+dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
+mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
+escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
+racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
+chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
+correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
+s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.
+
+ * * * * *
+
+O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
+gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
+mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
+frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
+conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
+acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
+sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
+à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
+depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
+dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
+procere um tão ligitimo horror.
+
+ * * * * *
+
+A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
+perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
+organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
+mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
+todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
+manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
+exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.
+
+Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
+hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
+sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.
+
+Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
+phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
+loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
+mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
+apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
+que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
+revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
+para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
+actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
+todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
+cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
+circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
+alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
+Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
+de cura de alienados pela transfusão hypodermica.
+
+Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
+regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
+central, é a gymnastica.
+
+O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
+em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»
+
+ * * * * *
+
+Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
+indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
+apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
+frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
+diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
+segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
+para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
+doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
+gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
+observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
+effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
+densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
+exercicio.
+
+ * * * * *
+
+Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
+Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
+gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
+a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
+doutor Burq.
+
+ * * * * *
+
+A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
+densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
+exercicios gymnasticos.
+
+ * * * * *
+
+A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
+desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
+tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
+respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
+directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
+modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
+organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
+hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.
+
+ * * * * *
+
+Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
+que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
+constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
+doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
+exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
+jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
+methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
+equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.
+
+ * * * * *
+
+Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
+favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
+senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
+mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
+assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
+constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
+ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
+de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
+nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
+gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
+obesidade e contra a idiotismo.
+
+ * * * * *
+
+Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
+sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
+previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
+gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
+duas casas do parlamento.
+
+Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
+exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
+para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
+todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
+quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
+ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
+introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
+n'aquellas em que a gymnastica não existe.
+
+Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
+esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um
+artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
+em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
+gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.
+
+O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
+obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
+que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque
+presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
+mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
+pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
+felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
+nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome
+d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
+erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
+desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
+seguintes movimentos:
+
+Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
+vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
+sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
+(100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
+fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
+reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
+meditar sobre a felicidade da patria.
+
+No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
+perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
+mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
+não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
+reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
+sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
+indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
+seguintes:
+
+Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
+tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
+(50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
+limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
+quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
+Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
+continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.
+
+ * * * * *
+
+Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
+n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
+gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
+Velar-lhe a face!
+
+
+ * * * * *
+
+
+A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
+cego já vê, a paralytica já anda_.
+
+ * * * * *
+
+Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento
+nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
+esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
+cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
+foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
+que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
+reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
+os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito
+obrigado! muito obrigado pelo seu favor!
+
+A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
+collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
+restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
+indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
+lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções
+locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
+auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
+resultados obtidos pela romagem.
+
+Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
+na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
+agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
+vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!
+
+Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
+enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
+que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
+locomotores com agua das latas?!
+
+E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
+para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
+chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
+largo de S. Roque?
+
+E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella
+_andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
+trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
+correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
+maior do que as que levou!
+
+Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
+lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
+milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
+opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
+sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
+que visse tambem por outros membros.
+
+Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
+a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
+olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
+pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
+baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
+com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
+romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
+louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
+vemos que a paralytica nos sae pedrez!»
+
+Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
+ordem, porque os ha muitos maiores.
+
+ * * * * *
+
+Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
+coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.
+
+O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
+das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
+balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
+duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
+demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_,
+pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
+Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
+exemplos.
+
+Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
+dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
+das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
+emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
+estado do satisfação ineffavel.
+
+O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um
+escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
+os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
+illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
+essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)
+
+No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
+das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
+o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
+citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)
+
+Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
+regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
+acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
+20.)
+
+Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
+consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
+obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
+pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
+o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
+resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)
+
+Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
+escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.
+
+O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos
+escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._,
+diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
+pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
+arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
+de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os
+escapularios!
+
+As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
+IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.
+
+O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
+para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
+perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
+arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
+facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
+por um oculo!
+
+O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
+nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
+da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
+prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
+Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando
+voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o
+dito padre Guglielmi.
+
+De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
+é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
+precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
+seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
+seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou
+oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
+virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
+cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
+algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
+patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
+sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!
+
+Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
+d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
+para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
+alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
+debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
+fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
+de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é
+unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?
+
+Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer
+... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
+esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres!
+Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!
+
+Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
+habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!
+
+Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
+proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...
+
+Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do
+jornal! Cruzes, demonio!
+
+ * * * * *
+
+Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
+de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
+termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
+satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
+fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
+todos?
+
+ * * * * *
+
+Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
+esta--o _fadista_.
+
+Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
+constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
+dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
+feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
+fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
+toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
+beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
+frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
+com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
+nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
+os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
+os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
+adormecidos.
+
+Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
+capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
+do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
+interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
+em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
+conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
+divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
+navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
+mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
+um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
+seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
+sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
+despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
+fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
+que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
+que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
+uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
+tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
+com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
+combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
+biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
+antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
+espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
+vadiice, e tomou então o nome de--fadista.
+
+O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
+accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
+seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
+elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
+successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
+esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
+noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
+um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
+frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
+mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
+enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
+de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
+guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
+grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
+molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
+constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
+um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
+Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
+obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
+agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_.
+Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
+bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
+guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
+qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
+XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
+fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
+Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
+onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
+composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
+camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
+da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
+e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
+taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
+alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
+que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
+Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
+jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
+pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
+lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
+mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
+fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
+de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
+prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
+pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
+pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
+guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
+desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
+pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
+outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
+imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
+perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante
+reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
+mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
+esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
+que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
+á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
+da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
+miseravel.
+
+De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
+meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
+na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
+o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
+convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
+especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
+restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
+todos os machos.
+
+ * * * * *
+
+É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
+incorrigiveis da criminalidade.
+
+A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
+recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
+inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
+em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
+verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
+nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
+ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
+sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
+mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
+immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
+tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
+cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
+a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
+conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
+confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
+não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
+inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
+grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
+senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
+presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
+conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
+expediente seria a morte.
+
+É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:
+
+É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
+criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
+incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
+repetidos?
+
+A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:
+
+É.
+
+N'este caso pergunta-se:
+
+Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
+continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
+uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
+os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
+justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?
+
+Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
+que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
+irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
+sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
+abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
+manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.
+
+Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
+sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
+inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
+instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.
+
+Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
+supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
+Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
+trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
+cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.
+
+ * * * * *
+
+O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
+o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
+policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
+rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
+contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
+photographia no commisariado geral.
+
+Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
+de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
+aos fadistas.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
+do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
+contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
+esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
+açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
+viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
+lombares das musas.
+
+Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
+poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
+ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!
+
+ * * * * *
+
+Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
+para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.
+
+O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
+encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
+annos.
+
+Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
+duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
+pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
+enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
+inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
+pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
+lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
+fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
+e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
+outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
+que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
+de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
+dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
+Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
+spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
+publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
+agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
+_Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos
+Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
+concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
+ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa
+da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
+_Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
+agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
+finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
+De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
+encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
+insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
+era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
+fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
+e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
+poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
+costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
+Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
+achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
+chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
+retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
+as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
+choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
+seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
+tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
+servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
+estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
+Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
+altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
+mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
+poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
+conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
+Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
+Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
+entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
+condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
+ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
+porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
+exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
+suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.
+
+Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
+communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
+Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
+com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
+ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
+onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.
+
+ * * * * *
+
+Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
+vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
+que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
+engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
+pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
+se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
+ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
+superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
+nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
+presente.
+
+
+ * * * * *
+
+
+_O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
+artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
+obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
+o que pertence aos dominios da pathologia social.
+
+ * * * * *
+
+Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes
+burguezes.
+
+O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
+burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
+mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
+No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
+apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
+ver porquê.
+
+Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
+desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
+representação da vida exterior e o systema da vida intima.
+
+Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
+do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
+religião--a familia!
+
+Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
+baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
+asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
+a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as
+graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
+com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
+galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
+pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
+edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
+Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
+predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
+de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
+modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
+primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
+moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
+systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
+branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
+cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
+cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
+frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
+outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
+elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
+nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
+do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
+todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
+luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
+activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
+
+As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
+parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
+verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
+com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
+das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
+rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
+queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
+
+É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
+_Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.
+
+Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
+recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
+
+«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade
+não ha creanças.»
+
+Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
+bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
+balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
+desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
+musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
+musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
+ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
+largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
+effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
+encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
+sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
+preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
+com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
+seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
+fresco.
+
+Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
+frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
+creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem
+proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
+intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
+rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
+instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
+menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
+indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
+houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
+para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
+quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
+instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
+infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
+e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
+flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
+jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
+Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
+da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
+aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
+ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
+appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
+linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
+diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
+funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
+suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
+jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
+Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
+não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
+Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
+
+Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
+completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
+phenomenos.
+
+Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
+assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
+nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
+das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
+actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
+moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
+gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
+essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
+retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
+casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
+que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
+possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
+onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
+respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
+borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
+
+Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
+a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
+elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
+no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
+de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
+preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
+do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
+orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
+couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
+desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
+ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
+bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
+e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
+Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
+_coupés_ magnificos da piedade escolhida.
+
+Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
+seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
+Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
+arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
+tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
+desdem.
+
+Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
+theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
+contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
+dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
+theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
+resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
+sociedades corruptas:--o socego.
+
+Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
+ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
+os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
+região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
+do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
+raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
+da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
+um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
+cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
+medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
+cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
+alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
+aguadeiro, ralhando com o marido.
+
+Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
+domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
+quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
+infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
+cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
+caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
+inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
+arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
+retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
+de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
+meio dos cortinados.
+
+Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
+decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
+similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
+Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
+nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
+á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
+mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
+se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
+a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
+que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
+que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
+ou do luxo que não usa.
+
+Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
+romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
+lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
+tornar encantadora a familia.
+
+Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
+predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
+da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
+Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
+serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
+perfeita educação.
+
+Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
+superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
+processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
+simplicidade tragica.
+
+O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
+dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
+apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
+pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
+penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
+uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
+espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
+exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
+alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
+seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
+aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
+jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
+se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
+desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
+segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
+mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
+_Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
+
+Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
+refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
+tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
+França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
+essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
+um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
+obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
+_amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
+suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
+seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
+caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
+ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
+espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
+do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
+nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
+gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
+suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
+encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
+attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
+Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
+cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
+saberá negar.
+
+ * * * * *
+
+Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
+medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
+Bazilio_, romance realista.
+
+Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
+esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
+senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
+espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
+supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
+1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
+cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
+de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
+gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
+da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
+da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
+Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
+atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
+phylanthropos.
+
+A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
+sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
+pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
+Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
+pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
+convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
+problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
+mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
+leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
+que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
+phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
+integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
+prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
+
+N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
+que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
+dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
+em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
+zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga,
+dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
+trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
+mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
+risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
+e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
+caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
+sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
+verba_.
+
+Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
+se tirou a designação _realismo_.
+
+Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
+é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
+numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
+simplesmente lyrica.
+
+O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
+facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
+do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
+uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
+Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
+dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
+que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
+afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
+negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a
+morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
+cartas.
+
+A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
+queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.
+
+Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
+comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
+mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
+estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
+sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
+philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
+hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
+critica dos costumes, na propria critica da arte.
+
+Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
+vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
+dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
+_Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
+modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
+as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
+burgueza.
+
+De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
+contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
+rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um
+insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
+companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
+filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
+apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
+
+«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
+uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
+honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
+ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
+minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
+fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
+problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
+com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
+romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
+alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
+elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
+asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
+meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
+pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
+em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
+elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
+proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
+pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
+um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
+convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a
+concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as
+influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
+amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
+em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
+compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
+demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
+reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
+fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
+maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
+applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
+finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
+como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
+these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
+da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
+
+Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
+compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
+teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
+artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma
+funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
+gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
+religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
+como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
+indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
+se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
+e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
+ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
+a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.
+
+Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do
+_Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
+uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
+gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro
+seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
+observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
+biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle
+que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
+divina revelação de um novo mundo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
+Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:
+
+«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
+de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
+desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
+exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»
+
+ * * * * *
+
+O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
+Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
+_Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._
+
+Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
+historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
+montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
+carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
+de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
+a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
+que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ...
+Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
+cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
+Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
+Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
+Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
+Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
+da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?
+
+Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
+tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
+sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
+quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
+dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
+dizeres?
+
+Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.
+
+Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
+effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
+convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
+suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
+jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal
+phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
+abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar
+os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
+que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
+patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!
+
+
+ * * * * *
+
+
+Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
+ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
+seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
+especial:
+
+1.º Rir atraz da procissão dos Passos.
+
+2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
+viajante.
+
+3.º Não ter dado pateada a um lente.
+
+4.º Parecer constrangido a dar lição.
+
+5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
+appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
+expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.
+
+Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
+necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
+teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos
+universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder
+mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
+legislador mediocre.
+
+ * * * * *
+
+Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
+aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
+absolvidos pelos tribunaes civis.
+
+N'esta conjunctura perguntamos:
+
+É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
+de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
+uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
+julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
+uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
+tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
+contrarias?
+
+Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
+especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?
+
+Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
+trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.
+
+Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
+sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.
+
+Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
+quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
+não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.
+
+Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
+d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
+covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
+que ainda possa haver na mocidade portugueza.
+
+Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
+physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
+com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
+corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
+especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.
+
+ * * * * *
+
+Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
+sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
+systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
+honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
+força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.
+
+Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
+cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
+sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
+côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
+atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
+naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
+velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
+proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a
+escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.
+
+
+ * * * * *
+
+
+No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que
+Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
+seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
+Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
+para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne
+Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
+presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
+seguintes:
+
+«Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
+das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
+livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
+fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
+perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
+abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
+exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
+assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
+medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
+desconheceriamos o dever.
+
+«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
+conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
+_Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia
+ethica da regeição dos dogmas.
+
+«As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
+christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
+senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.
+
+«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
+espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
+varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
+muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
+produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
+frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
+procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
+insufficiente para nivelar.
+
+«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
+homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
+e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
+moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
+d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.
+
+«Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
+aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
+comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
+em si um caracter offensivo.
+
+«Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
+sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
+eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
+cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
+atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
+morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
+celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
+zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
+emprego dos seus ultimos momentos.»
+
+Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
+é christão, o outro não.
+
+O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
+religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
+perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
+dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
+peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
+comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
+delicada flor da cavalleria.
+
+O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
+theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
+agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
+Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
+caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
+é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
+verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»
+
+ * * * * *
+
+Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
+verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
+de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
+exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
+intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
+moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
+para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
+presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
+em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
+necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
+fundamental da conciliação das consciencias!
+
+ * * * * *
+
+Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
+mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
+Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
+determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
+tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
+escravisados pelos poderes clericaes.
+
+Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
+aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
+crescem. Crescem em virtude de que lei?
+
+Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
+respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
+noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
+fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
+embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
+ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
+operario acrescenta:
+
+«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
+desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
+de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
+crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
+Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
+amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
+dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
+as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
+coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
+vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
+para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
+Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.
+
+«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
+sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ...
+Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
+certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
+deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
+sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
+gerações.
+
+«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
+tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
+legislação humana e a moral universal.»
+
+ * * * * *
+
+Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
+do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
+principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
+Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
+convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
+perigosas e banidas das discussões publicas.
+
+Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
+que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
+garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
+das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
+evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
+principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
+reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
+de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
+methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
+que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
+de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
+como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
+os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
+esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.
+
+Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.
+
+Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
+mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
+nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.
+
+Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
+manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
+cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
+todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes,
+vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu
+morto.
+
+Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
+expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
+physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
+facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
+theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
+a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
+tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
+resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços
+publicos.
+
+Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
+professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
+vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
+que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
+d'ella:--por falta de inspecção e de policia.
+
+Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
+solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
+não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
+intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
+armam.
+
+Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
+dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!
+
+Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
+mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:
+
+«_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do
+_Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da
+instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
+de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
+para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
+Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
+Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
+tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
+proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
+e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
+mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
+maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
+portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
+isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
+d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
+religiosa.»_
+
+A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
+prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção
+estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde
+quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
+não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
+deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
+ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
+portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
+foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.
+
+Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
+quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
+compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.
+
+D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
+litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
+Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
+para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
+vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
+artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
+Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
+portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
+em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
+vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.
+
+Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
+bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
+Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
+partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
+mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
+Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
+ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
+navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
+mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
+sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
+senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
+Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
+hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
+nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
+onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
+feitos na rua dos Correeiros.
+
+Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
+Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
+Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
+exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
+Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
+escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
+de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
+mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
+hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
+apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
+official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
+que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
+secretaria.
+
+No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
+instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
+propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
+dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
+soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
+confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
+Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
+de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
+fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
+tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
+mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
+litteratura de uma nação.
+
+A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
+instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
+prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
+accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
+instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
+seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
+mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
+discutindo:
+
+_O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
+ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
+á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
+artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
+tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
+podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
+professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.
+
+Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
+proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
+respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
+tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
+instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
+de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
+religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
+profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
+dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
+entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
+reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
+e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
+que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
+desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
+aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
+sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
+interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
+Maior para lh'o provar.
+
+Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
+universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
+que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
+é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
+o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
+ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
+formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
+A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
+heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
+emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
+responda pelo erro.
+
+Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
+a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
+em uma instituição do Estado.
+
+Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
+lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
+disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino ... E
+apagou-lhe a lanterna.
+
+Quem foi que deixou no mundo esta lição?
+
+Foi o theologo.
+
+Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
+legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
+de Rio Maior.
+
+ * * * * *
+
+Notemos porém um facto consolador:
+
+O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
+sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
+de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
+cerebro é uma idéa que se extingue.
+
+Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
+para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
+do professor e o processo pelos tribunaes civis.
+
+Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!
+
+Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
+negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
+fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
+pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
+argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
+as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
+tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
+amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
+leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
+pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
+tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
+methodos porque se mortificam os impetos da carne.
+
+Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
+os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
+a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.
+
+Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
+negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
+cartilha de Padre Mestre Ignacio.
+
+E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
+uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
+instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
+sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
+portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
+ensino publico de uma nação!
+
+ * * * * *
+
+Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
+aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:
+
+_Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_
+
+O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
+instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
+oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
+_Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Fevereiro a Maio 1878)
+by Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13093 ***